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0 EVANGELHO NU

A verdade que talvez você nunca ouça na igreja

Andrew Farley

Andrew Farley

0 EVANGELHO NU

A verdade que talvez você nunca ouça na igreja

ia/

Vida

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Vida

E d ito ra Vida

Rua Isidro Tinoco, 70 Tatuapé CEP 03316-010 São Paulo, SP Tc!.: 0 XX 11 2618 7000

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Editor responsável: Marcelo Smargiassc Editor-assistcnte: Gisele Romão da Cruz Santiago Editor de qualidade c estilo: Sônia Freire Lula Almeida Tradução: Jurandy Bravo Revisão de tradução: Andréa Filatro Revisão de provas: Sônia Freire Lula Almeida Projeto gráfico e diagramação: Karine dos Santos Barbosa Capa: Arte Peniel

Copyright© 2009 de Andrcw Farley Originalnicnte publicado nos EUA com o título

The Naked Cospel: The Truth You May Never Hear In C Copyright da edição brasileira © 2011, Editora Vida

Edição publicada com permissão de Z o n d e r v a n , Grand Rapids, Michigan.

Todos os direitos desta tradução em língua portuguesa reservados por Editora Vida.

P r o ib id a

a repro d u çã o

po r q u a is q u e r

m e io s ,

SALVO EM BREVES CITAÇÕES, COM INDICAÇÃO DA PONT

Scripture quotations takcn from Bíblia Sagrada,

Nova Versão Internacional, NVI ®

Copyright © 1993,2000 by International Bible Society Uscd by permission IBS-STL U.S. All rights reserved worldwide. Edição publicada por Editora Vida, salvo indicação em contrário.

Todas as citações bíblicas e de terceiros foram adapta segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado em 1990, em vigor desde janeiro de 2009.

1. edição:

out. 2011

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Farley, Andrew

O

Evangelho

nu:

a

Farley;

Igreja / Andrcw

Editora Vida, 2011.

que trad u ção : Ju ran d y

verdade

talvez

você

nunca

S ão

ou ça

na

P aulo:

Bravo. —

T ítulo original: The N aked Gospel: The Truth You May Never Hear In Church.

ISBN 978-85-383-0217-9

1. Teologia doutrin ária — I. Título.

11-07697

O b ras de divulgação 2. V ida cristã

C D D -230

índices para catálogo sistemático:

1. Teologia doutrin ária : O b ra s de divulgação

2 3 0

Para meu filho, Gavin — um mapa. Isso mesmo. Bom a esse ponto. Ainda melhor do que eu seria capaz de explicar. Deleite-se no Novo e deleite-se no Senhor! Tenho orgulho de você, garoto.

Sumário

Quem avisa amigo é

9

Parte 1 Transtorno do cristianismo obsessivo

Parte 2 Religião é dor de cabeça

Parte 3 Cruzando fronteiras

25

79

Parte 4 Ateando fogo às matrioskas

Parte 5

Traindo Jesus

137

97

Parte 6 Não nos casamos com gente morta

Parte 7 Ataque ao ego

* 2 1 5

Reflexões nuas Informações adicionais

Agradecimentos

235

253

245

7

11

181

O evangelho nu é descobrir como era o evangelho pregado por nosso Senhor e seus apóstolos; que acréscimos e alterações foram feitos nos anos que se seguiram; que vantagens e prejuízos resultaram disso.

A rthur

Bury, 1691

O livro de Arthur Bury, intitulado O evangelho nu, foi queimado pela igreja de sua época.

Quem avisa amigo é

O v e r d a d e i r o e v a n g e l h o n u É muito melhor do que qualquer

um de nós consegue compreender. Um alerta, no entanto: talvez você jogue este livro no chão, enojado; talvez torne a pegá-lo por curiosidade; talvez balance a cabeça, frustrado, enquanto se per­ gunta: Como não percebí isso antes? ou Esse sujeito é maluco? Em se tratando de cristianismo, reconheço ser mais palatável falar sobre amenidades. Corre-se grande risco traçando linhas na areia e enfrentando as discordâncias. Você deve ter notado, porém, que grande parte do Novo Testamento foi escrita para corrigir interpretações erradas e falsas doutrinas. Ao que pare­ ce, impor verdades absolutas e discutir minúcias teológicas faz parte da vida de uma igreja saudável. Os cristãos de hoje são gratos por Jesus e pelo céu. Alguns de nós entramos na igreja todas as vezes que suas portas se abrem.

Alguns ouvem centenas de sermões todos os anos. Alguns de­ coram toneladas de versículos bíblicos. Alguns têm até certa experiência com as coisas de Deus. Apesar de todo o nosso fervor, muitos de nós ainda nos sen­ timos apáticos, em vez de enlevados, com o evangelho. Mas talvez exista uma resposta para nosso anseio sincero por maior paixão na vida cristã.

9

0 evangelho nu

Será que esse tipo de cristianismo — o que substitui a apatia pelo enlevo — é bom demais para ser verdade? Para ser franco, creio que é o único tipo passível de ser considerado bíblico. Toda­ via, essa parece ser a verdade que você talvez jamais ouça na igreja. Com frequência exagerada encontramos um jargão leve, ambíguo e enganoso, e respostas fáceis em muitas igrejas atuais. Não importa quan­

to você ouça, ou quanto se entretenha com isso, nada produzirá satisfação genuína e duradoura. Só existe uma mensagem capaz de provo­ car mudança real e perma­ nente. E o evangelho nu.

Com frequência exagerada encontramos um jargão leve, ambíguo e enganoso,e respostas fáceis em muitas igrejas atuais.

U

m

c o n v i t e

Houve tempo em que pensei saber tudo sobre a fé cristã, mas só quatorze anos depois de ter recebido Cristo é que comecei a en­ tender a realidade. Não me refiro a outra experiência de salvação ou a uma segunda bênção. Falo de um retorno ao pé da cruz e à entrada do túmulo de Jesus Cristo para aprender tudo de novo. E, em meu caso, houve tanto desaprendizado quanto aprendizado. Tendo isso em mente, convido você a mergulhar comigo rumo à essência poderosa e indispensável da fé cristã. Encontrei respostas legítimas que não decepcionam. Encho-me de entu­ siasmo ao compartilhá-las com você. Aposto que você se sur­ preenderá pelo menos uma ou duas vezes ao longo do caminho. A verdade tende a causar esse efeito.

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PARTE

1

TRANSTORNO

DO

CRISTIANISMO

OBSESSIVO

Podemos dedicar nossos dias ao que chamamos de obrigações religiosas, e7icher nossos momen­ tos de devoção de fervor e ainda continuarmos mi­ seráveis. Nada pode dar descanso ao nosso coração a não ser o verdadeiro relacionamento com Deus. Hannah Whitall Smith (1832-1911)

R

e m

é d i o

s ,

t e r a p i a

e

u m a

c l í n i c a para tratamento da saúde

mental — as soluções que me foram apresentadas. Um espe­ cialista deu a entender que minha condição não mudaria pelo resto da minha vida e que eu sempre necessitaria de medicação.

Apesar do meu desespero, recusei-me a acreditar nisso. Tinha de haver outra solução para meu problema. Depois de tentar vários terapeutas cristãos, cada um dos quais empregando uma abordagem diferente, nenhum conseguiu alterar os comporta­ mentos padronizados aos quais eu estava preso. Afinal de contas, o estudo obsessivo da Bíblia e o evangelis- mo de rua não são sintomas considerados comuns.

C o m o

t u d o

c o m e ç o u

Eu era popular no ginásio, tirava boas notas e cheguei a ser eleito presidente do grêmio estudantil. Não tinha problemas para fazer amigos nem para fazê-los rir. Era bem-sucedido nos esportes, no teatro e com as garotas. Nenhuma dessas áreas contribuiu para o profundo sentimento de inferioridade que eu experimentava. Meu problema era a sensação de não ir tão bem em outra are­ na — a espiritual. Na igreja, na escola cristã, nos acampamentos

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cristãos, até nos concertos de música cristã que eu frequentava, todos davam a entender a mesma coisa: você precisa renovar sua entrega, seu compromisso, e ser diferente. Você não está fazendo o bastante. Não se dê por satisfeito. Fuja da estagnação. Não

descanse nunca.

Medo. Culpa. Pressão. Eis os motivadores que me fisgaram já de início e quase me mataram. Mataram? Isso mesmo. Tive en­ contros íntimos com a morte e sofri ferimentos graves algumas vezes. Certa vez levei uma pau­

lada na cabeça quando evan- gelizava na rua em uma região perigosa da cidade. Outra vez fui jogado ao chão por um trafi­ cante a quem tentava converter. Compromisso? Eu tinha de sobra, pode apostar. Mas com­ promisso com o quê? Embora eu fosse capaz de me levantar no metrô e pregar para o vagão inteiro, continuava vazio por den­ tro. Mesmo tendo toda a disposição de testemunhar de porta em porta no bairro, na verdade eu não tinha uma vida plena a oferecer. Pregando em trens, na vizinhança ou na cadeia local, mas sempre havia ansiedade no meu interior. O espírito do evangelho pelo qual fui criado me assegura­ va o céu no futuro, mas não me ajudava com a turbulência presente. Eu receava que Deus se desapontasse tanto com meu desempenho que não mais me quisesse usar, fazer crescer ou “se associar” comigo. As vozes ao meu redor só confirmavam que eu estava aquém das expectativas e que precisava me esforçar muito mais para corresponder ao padrão desejado. Você não saberia que isso me incomodava porque nunca dei­ xei transparecer. Todavia, depois de anos sem ser cogitado para

Sempre há mais para fazer por Deus.

2BSBSÊM

Embora eu fosse capaz de me levantar no metrô e pregar para o vagão inteiro, continuava vazio por dentro.

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Transtorno do cristianismo obsessivo

o prêmio Personalidade Cristã da escola, as coisas se compli­

caram. A chave para ganhar o prêmio era ser tranquilo, tímido até. Quem nunca falava muito logo recebia o rótulo de “ man­ so” . O problema era minha personalidade, que não preenchia os pré-requisitos. Eu tinha um relacionamento pessoal com Cristo. Conhecia a Bíblia melhor do que muita gente. E me importava de verdade com meus amigos da escola. Mas também era o palhaço da classe, a alma das festas. Humor e personalidade cristã simples­ mente não se misturavam.

O MEIO

Serei diferente na faculdade, prometi a mim mesmo. Era minha oportunidade de mudar — de encontrar um ambiente novo e começar com uma página em branco. Recebi cartas de duas universidades aceitando minha inscrição. Uma foi a Wheaton College, talvez a melhor faculdade cristã do país; a outra, a Furman University, uma escola bastante conceituada no Sul. Depois de comunicar a meus pais que eu não me considera­ va “ bom o suficiente como cristão para estudar na Wheaton”, aceitei o convite da Furman.

Meu primeiro ano foi de transição. Decidi que não queria mais ser medíocre na arena espiritual. Pretendia conquistar o respeito divino e das pessoas à minha volta. Depois de me de­ bruçar sobre dezenas de livros cristãos, senti-me mais instruído que a maioria de meus pares. Fiz meu primeiro sermão em igre­

ja aos 19 anos. Evangelizei nas ruas de Espanha, Grécia e Itália

em viagens de estudo ao exterior. Era intenso, e todos por perto sabiam disso.

De volta aos Estados Unidos, perdi todos os amigos. Quem poderia culpá-los? Eu mudara. Ainda me lembro de um dos

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0 evangelho nu

melhores deles dizendo a outro amigo que o constrangia ser

visto comigo. Claro, alguns desconhecidos me aplaudiam e me respeita­ vam. Mas eram desconhecidos. Só enxergavam o resultado final — alguns começavam a se achegar à fé em Cristo e outros pare­

ciam beneficiar-se do meu

A maioria conseguia perceber que havia algo errado dentro de mim. Eu era compulsivo e não demonstrava ter um propósito em vista. Minha intensidade atingiu o ápice quando passei a conse­ guir dormir apenas depois de compartilhar sobre Cristo com alguém. Do contrário, quando minha cabeça tocava o travessei­ ro, eu me lembrava de estar em falta com minha obrigação. As­ sim eu me levantava, ia até o mercado 24 horas mais próximo e

procurava alguém a quem pregar. Depois de recitar minha fala, podia voltar para casa e dormir.

“discipulado” . Mas eram a minoria.

Passei a conseguir dormir apenas depois de compartilhar sobre Cristo com alguém.

A reação das pessoas não tinha

a menor importância. Não se

pode controlar o resultado, eu dizia a mim mesmo. Cumprira

meu dever. Atendera ao chama­ do. Já podia dormir. Ridículo? Talvez. Mas eu só estava praticando o que ouvira algumas pessoas sugerir como o caminho para o crescimento e a realização espirituais. Minha loucura podia parecer ex­ trema; nada mais era, porém, do que levar às últimas conse­ quências o método que me fora apresentado. Eu sempre tinha uma resposta pronta para quem me perguntasse sobre minha “caminhada” e quisesse sondar minha “responsabilidade” . Jamais me rotulariam de apóstata ou pouco espiritual. Isso doeria mais do que manter todo o meu ritual. Pelo menos, era assim que eu pensava.

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Transtorno do cristianismo obsessivo

O FIM

Não demorou para que todo esse empenho, sem me render lucro algum, cobrasse seu preço. Mergulhei numa profunda depressão. Meses depois, vi-me deitado no chão do apartamento, soluçando durante horas a fio: Deus, faço tudo o que se espera que eu faça, mas não me sinto mais próximo de ti. Na verdade, sinto-me pior do que nunca! Como tudo pôde dar tão errado? Não consigo nem enxergar uma saída. Ajuda-me! Não me restou alternativa senão ligar para casa. Peguei o te­ lefone e em questão de horas abandonei a universidade no meio do semestre para voltar à Virgínia, meu Estado natal. Desco­ nhecia o que me esperava, mas sabia que não podia continuar na condição em que me encontrava. Não havia solução rápida para meu problema. Após meses em busca de ajuda, eu ainda não me libertara da obsessão por apresentar um bom desempenho em nome de Deus. Meu pai ficou sabendo de um homem que talvez tivesse as respos­ tas que eu procurava, então pegamos os dois um avião com destino a Atlanta. Transcorri­ do um dia em oração com esse

homem, alguns dos meus pen­ samentos começaram a desa­ nuviar. Pelo menos concordei

que minha compulsão pelo de­ sempenho não vinha de Deus. Era um começo. Os anos seguintes não foram fáceis. Retornei à faculdade, diplomei-me e até entrei na pós-graduação, mas havia perdi­ do toda a confiança em quem eu era. Minhas crenças me ha­ viam traído. Se estivesse vulnerável o suficiente para ser sincero nas ocasiões em que saía para evangelizar, eu teria proposto a

“Você não gostaria de se tornar cristão e se sentir miserável como eu?”

17

0 evangelho nu

seguinte pergunta: “Você não gostaria de se tornar cristão e se sentir miserável como eu?” .

Eu passava, assim, por um período de reconstrução. Fora

quebrantado, despido de qualquer senso de autoestima. Passara de palhaço da classe e presidente do grêmio estudantil a intenso guerreiro cristão, e depois a um sujeito calado e esquisito sem­

pre no seu canto. Psicologicamente, eu estava completa mente confuso. Precisava de respostas.

M eu

n o v o

c o m e ç o

Faz dezessete anos que me deitei para chorar no chão daquele apartamento. Hoje, eu não trocaria meu relacionamento com

Deus por nada. Na verdade, gostaria que o mundo inteiro tives­

se o mesmo relacionamento com ele! Através de meu desespe­

ro, minha entrega a Deus em busca de respostas reais e minha disposição de deixar para trás todas as minhas pressuposições anteriores, fui apresentado ao evangelho nu.

Eu já era cristão, mas ninguém se dera ao trabalho de me despir de todas as idéias distorcidas e do jargão enganoso que eu adotara. Ninguém me apresentara à verdade nua. Eu só pre­ cisava de uma injeção intravenosa que não estivesse contami­ nada pela religiosidade. Ao perceber que eu estava no caminho errado, Deus me capacitou a enxergar o caminho dele — a rota para a liberdade.

O conteúdo deste livro é o resultado da minha jornada.

A esperança nasceu com a compreensão da importante diferen­

ça entre dois sistemas operacionais — um Velho e um Novo.

A partir do momento em que enxerguei o portal para o Novo,

tudo o que precisei fazer foi atravessá-lo. O que havia do outro lado transformou minha vida.

18

2

N ão s o u o ú n i c o a atingir o fundo do poço. Ao que tudo indica, muitos cristãos experimentam um entusiasmo inicial ao aceitar a Cristo, mas depois se decepcionam, se desiludem ou até entram em depressão. Alguns dos líderes de igreja norte-americanos vêm tentan­ do descobrir a razão dessa epidemia e o que pode ser feito a respeito. Em 2004, a Comunidade Willow Creek em South Barrington, Illinois, desenvolveu a pesquisa DESCUBRA1 para entender o coração — emoções e atitudes — do povo que a frequentava. Desde então, mais de 400 igrejas de todos os tamanhos, denominações e regiões do país têm usado a pesquisa para propor a seus membros perguntas semelhantes às que se seguem. Analisaremos como os cristãos responderam a questões como essas. Antes, contudo, reserve alguns minutos para pensar em como você mesmo respondería a essa bateria de perguntas. Para cada questão, circule um número entre 1 (nível mais bai­ xo) e 10 (nível mais alto).

' V. Descubra: onde você está!, de Greg L. Hawkins e Cally Parkinson, é o primeiro

livro, de uma série, publicado como resultado da pesquisa feita (São Paulo: Vida,

2008). |N. do F ]

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O evangelho nu

Como você avalia seu nível de entusiasmo pela igreja?

1

2

3

4

5

6

7

Como você avalia seu nível geral de plenitude na vida?

12345678

Como você avalia seu nível de satisfação com seu crescimen­ to espiritual?

1

2

3

4

5

6

7

Como você avalia seu nível de envolvimento nas atividades relacionadas à igreja?

123456789

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A GRANDE SURPRESA

Os pesquisadores da Willow Creek pensaram poder encontrar forte relação entre o tempo gasto com atividades na igreja e crescimento e realização espiritual. Presumiram que qualquer pessoa que dedicasse seu tempo à igreja estaria realizada e cres­ cendo ativamente. Faz sentido, certo? Errado, ao que se descobriu. A pesquisa revelou que não eram os cristãos mais ativos que estavam crescendo e se sentiam realizados. Revelou também que um grande número deles — cerca de 25% dos frequenta­ dores entrevistados na Willow Creek — admitiu sentir-se “es­

tagnado” ou

que isso vale também para seus frequentadores. Então o que há de errado com as igrejas hoje em dia? Se passamos mais tempo na igreja, não deveriamos esperar cres­ cer espiritualmente e nos sentirmos realizados? Não nos é dito que, se bebermos da água viva oferecida por Jesus, nunca mais

“ insatisfeito” . E outras igrejas estão descobrindo

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Transtorno do cristianismo obsessivo

teremos sede? Se isso é verdade, então o que acontece com os cristãos hoje? O que está faltando? Muitas igrejas norte-americanas atuais parecem ter tudo — projeção em termos culturais, instalações atraentes e amplo conjunto de programas para abranger todo e qualquer estilo de vida. Acrescente a isso a experiência de oradores dinâmicos, música com qualidade profissional e convidativos pequenos grupos. Como os membros mais ativos nessas igrejas podem sentir-se estagnados e insatisfeitos? Não há nada errado com instalações da melhor qualida­

de, programas criativos e um

genuíno senso de comunidade. Todavia, a questão fundamen­ tal é: “ Que mensagem estamos compartilhando com nossa comunidade e entre nossas paredes com os nossos chamados ‘programas’?” . Creio que nossa substância, não nossa estrutu­ ra, está deixando tantos frequentadores estagnados e insatisfei­ tos. Uma igreja pode ter programas refinados, uma equipe bem treinada e oradores dinâmicos mas conteúdo é o que as pessoas levam consigo quando voltam para casa.

Muitas igrejas atuais parecem ter tudo.

O TESTE DO EVANGELHO NU

A fim de ilustrar esse ponto, façamos uma pausa para um teste rápido. A seguir apresentamos dez conceitos relacionados à fé que parecem não ser discutidos com regularidade em muitas igrejas hoje. Mas a visão que temos de cada um desses concei­ tos afeta nosso relacionamento com Deus, nosso crescimento espiritual e nossa realização na vida. Para cada um dos dez con­ ceitos, indique se você o considera falso ou verdadeiro. Basta

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0 evangelho nu

circular o V ou o F junto ao lado de cada declaração para re­ gistrar sua opção. (Observação: Não passe à questão seguinte antes de responder a cada uma das questões.)

1.

Os cristãos devem pedir a Deus para perdoá- -los e purificá-los quando pecam.

2.

Os cristãos lutam contra o pecado devido ao velho homem.

3.

Devemos esperar em Deus até para tomar­ mos as decisões cotidianas.

4.

Quando pecamos contra Deus, estamos fora da comunhão até nos arrependermos.

5.

A

Lei do Antigo Testamento está escrita no

6.

coração dos cristãos de modo que temos um

desejo genuíno de obedecer.

A Bíblia diz que os cristãos podem alcançar

muitos galardões no céu.

7.

Os cristãos prestarão contas de seus pecados diante do grande trono branco.

8.

Os cristãos deveríam pagar o dízimo de sua renda para a igreja.

9.

Deus fica bravo conosco quando pecamos

contra ele repetidas vezes.

10

Deus olha para nós como se fôssemos justos, embora não o sejamos de verdade.

RESPOSTAS DO TESTE

Por que o teste? Bem, você se lembra da pesquisa que foi res­ pondida no início deste capítulo? Você avaliou seus sentimentos em relação à igreja, seu entusiasmo pela vida e sua satisfação com seu próprio crescimento espiritual. E inevitável que nosso

Transtorno do cristianismo obsessivo

modo de pensar leve a sentimentos. Assim, a única maneira efi­ caz de avançar rumo ao crescimento e à realização quando nos sentimos insatisfeitos ou inexplicavelmente estagnados é cavar fundo a Palavra de Deus para encontrar respostas verdadeiras que mudem nosso modo de pensar. Experimentei as consequências do meu modo de pensar, e minha recuperação aconteceu ao longo de uma década em que aprendi a substituir pensamentos antigos por novos. Não sei se há mais para contar além da minha história de tentativas e erros, sofrimentos por causa dos erros e, por fim, encontro de respostas. Por falar nisso, a resposta bíblica para cada uma das decla­ rações do teste do evangelho nu é: Falso. Sim, falso. Então, como você se saiu? Você está pronto para se despir de camadas de religiosidade a fim de descobrir uma revigorante realidade — tendo sempre em mente que a verdade deve tornar você livre?

23

PARTE

R e l ig iã o

2

é

d o r

DE CABEÇA

Muitos cristãos permanecem na escravidão da Antiga Aliança. Julgando ser a Lei uma ordenação divina para nosso direcionamento, eles se conside­ ram preparados e aptos pela conversão a assumir o cumprimento da Lei como um dever natural. Andrew Murray (1828-1917)

3

C

o n h e ç o

m

u i t o s

d e s c r e n t e s

q u e

t ê m

optado propositada-

mente por não contrair a enfermidade cristã. Eles se autode­ nominam ateus ou agnósticos e parecem usar o distintivo com muito orgulho. Na cabeça deles, evitam com sabedoria os sin­ tomas dolorosos da religião desnecessária.

Talvez seja verdade que alguns ainda digam: “ O cristianismo

fato gentis,

visto que a muleta é um apoio que impede alguém de cair. Em tempos recentes, contudo, a mentalidade popular diz: “Por que

me sujeitar a algo que parece deixar tanta gente infeliz?”. Para muitos, o cristianismo é visto mais como câncer do que como uma muleta. Quem está de fora começa a perceber que muitos cristãos vivem insatisfeitos com a igreja ou com seu relacionamento pessoal com Deus. A fé deles não funciona mais, já que não

é uma muleta” . Em essência, essas palavras são de

Para muitos, o cristianismo é visto mais como câncer do que como uma muleta.

conseguem cumprir sua par­ te da “ barganha” com Deus. Muitos talvez tenham tido uma experiência de salvação emo­ cionante e vivido um período

0 evangelho nu

de crescimento espiritual satisfatório, mas, por algum motivo, aquilo que começou esfuziante agora começa a desbotar.

U m

p r o b l e m a

a n t i g o

0 problema não é novo. Mais de cem anos atrás, Hannah Whitall Smith registrou a seguinte declaração feita por um amigo que observava o cristianismo pelo lado de fora:

Se vocês, cristãos, querem fazer que nós, agnósticos, nos disponhamos a considerar sua religião, devem tentar sentir-se mais à vontade com ela. Os cristãos que conheço me parecem as pessoas menos à vontade do mundo. Te­ nho a impressão de que carregam a religião como quem carrega uma dor de cabeça. Não querem livrar-se da pró­ pria cabeça, mas ao mesmo tempo é muito incômodo conviver com ela. Não quero ter esse tipo de religião!1

Assim, se reconhecermos que o problema existe, nada é mais sensato do que procurar uma solução. Mas onde buscar respos­ tas genuínas? Talvez devéssemos começar entendendo melhor a origem do problema. E, sim, ele tem mais de uma centena de anos de idade. Para compreender a raiz desse problema religioso, vamos viajar a milhares de anos atrás, quando o povo de Israel se reu­ nia para ouvir o que Deus exigia deles. Observe que eles res­ pondiam com um sim absolutamente comprometido:

Quando Moisés se dirigiu ao povo e transmitiu-lhes todas as palavras e ordenanças do S e n h o r , eles respon­ deram em uníssono: “Faremos tudo o que o S e n h o r or­ denou” . [ ]

1 Apud Smith, Hannah Whitall. The God of All Comfort. New Kensington, PA:

Whitaker House, 1997.

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Religião é dor de cabeça

Em seguida, leu o Livro da Aliança para o povo, e eles disseram: “Faremos fielmente tudo o que o S e n h o r

ordenou”.2

Mais de 600 mandamentos ao todo — mais de 350 itens e atos dos quais que se abster, e quase 250 ações na lista de afazeres. Ah, e por falar nisso, algumas violações da Lei — como a idolatria e os pecados sexuais — podiam ser punidas com a morte! No final das contas, como o comprometimento dos israeli­ tas acabou se revelando? Bem, você talvez conheça a história. Conforme está registrado no Antigo Testamento, a história de Israel é composta por fracasso em cima de fracasso, decepção em cima de decepção.

M o n t a n h a - r u s s a

Deus encarregou a tribo de Levi de operar como sacerdotes de Israel. Esses sacerdotes ensinavam a Lei, ofereciam sacrifícios de animais e oravam pedindo orientação. O sumo sacerdote ofi­ ciava no Lugar Santíssimo no Dia da Expiação. Entrava e asper- gia sangue por toda a tampa da arca como oferta primeiro pelos próprios pecados, depois pelos pecados dos israelitas. Ele servia durante vinte e cinco anos ou até morrer, e a partir de então o privilégio passava para seu filho mais velho. Além disso, Deus ordenou que o sacerdócio permanecesse na linhagem de Levi. Asafe, levita chefe do coro, escreveu um dos melhores re­ sumos da experiência de Israel debaixo da Lei. No salmo 78, lemos que Deus sempre foi fiel a Israel. Ele libertou o povo da escravidão no Egito, dividindo o mar Vermelho e guiando-os por meio de uma nuvem de dia e de uma coluna de fogo à noite. Fendeu rochas para milagrosamente provê-los de água, e até1

1 Êxodo 24.3,7.

29

0 evangelho nu

comida fez cair do céu. Provou-se vezes e mais vezes. E só pedia algo muito simples em troca — a fidelidade de Israel. Mas o salmo revela um passeio de montanha-russa na rela­ ção daquele povo com Deus — obediência seguida de fracasso, fracasso seguido da promessa de compromisso renovado, se­ guida mais uma vez de fracasso. Eis um breve extrato do relato de Asafe:

Mas eles puseram Deus à prova e foram rebeldes contra o Altíssimo; não obedeceram aos seus testemunhos. Foram desleais e infiéis, como os seus antepassados, confiáveis como um arco defeituoso. Eles o irritaram com os altares idólatras; com os seus ídolos lhe provocaram ciúmes. Sabendo-o Deus, enfureceu-se e rejeitou totalmente Israel.*3

Parecia que o povo acabava sempre fazendo péssima figura. Mas e quanto aos sacerdotes? Será que a linhagem levítica per­ maneceu fiel a Deus, apesar da desobediência da nação?

“E agora esta advertência é para vocês, ó sacerdo­ tes. Se vocês não derem ouvidos e não se dispuserem a honrar o meu nome”, diz o S e n h o r dos Exércitos, “lan­ çarei maldição sobre vocês, e até amaldiçoarei as suas bênçãos. Aliás, já as amaldiçoei, porque vocês não me honram de coração.”4

Os sacerdotes não se saíram muito melhor do que os leigos de Israel. Mas será que a obediência de uma nação leva tempo

3

Salmos 78.56-59.

3

Malaquias 2.1,2.

30

0 evangelho nu

é tão grande que nada toca minha alma. Antes que o trabalho começasse, havia tanta união, amor, fé, confiança, oração e sa­ crifício. Será que cometi o erro de me entregar cegamente ao chamado do Sagrado Coração?” .6 Em mais de quarenta anos de serviço incansável, Madre Te­ resa impactou milhares e milhares de vidas. Estendeu a mão para enfermos, sem-teto e órfãos de seu país e muito além dis­ so. Mesmo assim, seus escritos pessoais revelam uma luta por significado, propósito e um relacionamento estável com Deus. Afinal, o que Saulo de Tarso, Martinho Lutero e Madre Tere­ sa têm em comum? Eles parecem ter lutado internamente con­ tra um sistema religioso que não lhes proporcionou um senso

duradouro de satisfação ou realização, mas apenas infelicidade. Adotaram métodos de propiciação e, por meio dela, de apro­ ximação de Deus, que os levaram a um profundo sentimento de fracasso. Tendo empregado mais esforço do que qualquer um de nós jamais despenderá, é

“ Sera que cometí o erro de me entregar cegamente ao chamado do Sagrado Coração?”

O

u t r o

c

provável que se perguntassem:

“ Quanto

acabará? Por que Deus ainda não está satisfeito? Quando po­ derei relaxar e desfrutar? Deve

haver outro caminho” .

é o bastante? Quando

a

m

i n

h

o

E se houver sim outro caminho? E se pudermos livrar-nos de

toda culpa religiosa e viver em satisfação? E se pudermos des­ frutar uma intimidade tão grande com Deus a ponto de termos

a sensação de que ele está debaixo da nossa pele? E se puder­ mos passar pela vida sendo nós mesmos e expressando Cristo

6 Palavras dirigidas a Jesus; por sugestão de um confessor, [s.d.]

32

Religião é dor de cabeça

para se desenvolver? Não, visto que muito depois do êxodo do:

israelitas do Egito e dos dias de Malaquias ainda encontramo:

o servo judeu mais devoto lutando para se manter fiel. Saulc de Tarso, talvez o mais comprometido de todos os israelitas mostrou-se incapaz de cumprir seus compromissos religiosos

com Deus: “ Não entendo o que faço.

jo , mas o que odeio” .5 Para alguns, a Lei parecia oferecer uma experiência religiosa satisfatória e uma vida de realização. De um modo ou de outro no entanto, ela acabava proferindo a maldição do fracasso so­ bre todos que tentavam cumpri-la. Ninguém conseguia fugir ac resultado inevitável. E certo que não havia nada errado com a Lei em si, mas, ao longo de regra sobre regra, ela demonstrava com clareza que havia algo errado com todos em Israel.

Pois não faço o que dese­

AVANÇO RÁPIDO

Mas avancemos rápido alguns milhares de anos até o presente. Não foi só o mais comprometido israelita que expressou frus­ tração e tristeza com sua religião. A luta de Martinho Lutero com a religião também está bem documentada. Apesar do fervor e do estilo de vida compro­ metido de Lutero, a culpa o dominava a todo instante. Ele era atraído pela autoflagelação e fez inúmeras tentativas de expiar- -se de uma lista interminável de pecados. Além de se chicotear até sangrar, às vezes passava a noite inteira deitado no chão co­ berto de neve, em pleno inverno, até ficar em tal estado de cho­ que que os colegas tinham de carregá-lo para um lugar seguro. De igual modo, em seus escritos pessoais publicados há pou­ co tempo, Madre Teresa confessou: “Dizem-me que Deus me ama; no entanto, a realidade da escuridão, do frio e do vazio

5 Romanos 7.15, grifo nosso.

31

Religião é dor de cabeça

de alguma maneira ao longo do caminho? E se tudo isso puder acontecer sem que nos custe nada? Significaria que a religião poderia acabar. Significaria que não precisaríamos analisar e medir nossa espiritualidade. Há um Antigo caminho que conduz sempre ao desaponta­ mento, por mais esforço “ santo” que seja exercido. Há também um Novo caminho, livre de custos e capaz de mudar tudo. No entanto, existe ainda uma terceira opção — um híbrido entre o Antigo e o Novo, encontrado em muitas igrejas hoje. Este livro pretende revelar a futilidade do Antigo e o êxtase do Novo. O Novo é o que Deus sempre planejou para seu povo dedicado — mas infeliz — ao longo de toda a história da humanidade. E o Novo é o que Deus planeja para você.

4

P onha -se no lugar de sua personagem favorita do Antigo Testamento. Imagine como seria viver na pele dela. Talvez você gostasse de ser Davi, ou Ester, ou Daniel. Que intimidade essas pessoas tiveram com Deus! Como an­ daram a seu lado, como foram usados por ele! Não seria ótimo ser uma delas? Talvez você se dispusesse a trocar seu relaciona­ mento com Deus pelo relacionamento que elas tiveram com o Criador? Se sim, eu não poderia concordar menos com você. Menos? Isso mesmo, menos. Nem em um milhão de anos eu desejaria a relação de Davi com Deus mais do que a minha. Nem a de Ester. Nem a de Da­ niel. Nem de qualquer outra personagem do Antigo Testamen­ to. Prefiro o que tenho neste exato momento. Quanta arrogância! Quanta ousadia! Espero ter assustado você, talvez até eriçado um pouco seus pelos. Foi minha intenção. Creio que chegou a hora de a igreja acordar e enxergar como estamos bem do lado de cá da cruz. Você talvez conheça os famosos heróis da fé mencionados em Hebreus 11 — pessoas como Abraão, Isaque, Jacó, José e Moisés.

34

Religião é dor de cabeça

Por meio do autor de Hebreus, Deus fala sobre o comprometi­ mento desses heróis, dos sacrifícios que fizeram e de quanto se entregaram a seus caminhos. Foram vítimas de zombaria, encar­ ceramento e até morte por apedrejamento devido à fé. Você tem sido testado de maneira assim extrema? Tem pro­ vado estar igualmente comprometido? O mais provável é que sua resposta seja não. Então de que maneira você estabelecería um relacionamento melhor com Deus do que eles tiveram? Antes de responder como, certifiquemo-nos de ser mesmo esse o caso. Referindo-se aos homens tementes a Deus do Antigo Testamento, o autor de Hebreus escreve: “ Todos estes receberam bom testemunho por meio da fé; no entanto, nein um deles recebeu o que havia

sido prometido. Deus havia planejado algo melhor para

nós, para que conosco fossem eles aperfeiçoados” .1 Tanta dedicação, tanto comprometimento — mas o que aca­ bamos de concluir sobre esses heróis da antiguidade? Que eles não receberam o que lhes fora prometido. E que, do lado de cá da cruz, temos coisa melhor que eles jamais desfrutaram. O que torna nossa situação melhor que a deles? Deus mu­ dou? Com certeza não. Deus é o mesmo desde sempre. Então o que torna os dias atuais tão diferentes de cerca de dois mil anos atrás? Isso tem tudo a ver com o Novo.

d

Deus é o mesmo desde sempre.

DOCUM ENTOS, POR

FAVOR!

Imagine que você seja uma mosca na parede durante um diálo­ go hipotético entre Moisés e Jesus de Nazaré.

1 Hebreus 11.39,40, grifo nosso.

35

0 evangelho nu

“Documentos, por favor!” , Moisés exclama. Mas Jesus de Nazaré não tinha documento nenhum. Pelo menos, nenhum que satisfizesse às exigências legais. A Lei determinava que uma pessoa fosse da tribo de Levi para se qualificar como sumo sa­ cerdote. No entanto, Jesus era da tribo de Judá. Ninguém da linhagem de Judá jamais servira como sacerdote. A Lei vetava essa opção. Hoje, os cristãos têm Jesus Cristo como sumo sacerdote, mas, de acordo com a Lei, não faz o menor sentido Jesus ocupar esse papel. Como então olhar para ele como nosso sacerdote hoje? Se a linha sacerdotal mudou, significa que o sistema todo para nos relacionarmos com Deus precisa ser substituído. E foi 0 que aconteceu — o sistema inteiro mudou!

É fundamental entender que a Lei e Jesus não se misturam.

“ [Jesus] pertencia à outra tribo, da qual ninguém jamais havia servido diante do altar, pois é bem conhecido que o nosso Se­ nhor descende de Judá, tribo da qual Moisés nada fala quanto

a sacerdócio” .2 Os cristãos referem-se a Jesus como Salvador, Senhor e Autor (Sacerdote) do perdão que desfrutam. Em se­ guida, alguns desses mesmos crentes proclamam que a Lei ain­ da é válida para nós hoje. Agindo assim, eles defendem uma grande contradição.

A questão da Lei e da graça (o Antigo e o Novo) ainda hoje

suscita debates acalorados: Vivemos segundo a Lei? Vivemos segundo a graça? Ou segundo uma combinação das duas coi­ sas? Deus não escreveu a Lei no nosso coração? A despeito das

inúmeras páginas de livros cristãos dedicadas a essas questões,

a linhagem de Jesus falha por não ocupar o centro do palco.

Podemos propor todo tipo de teorias, soluções conciliatórias e respostas concernentes à Lei e à graça, mas um fato persiste: a Lei desautoriza Jesus como sacerdote. Por esse motivo, o autor1

1 Hebreus 7.13,14.

36

Religião é dor de cabeça

de Hebreus escreve: “ Certo é que, quando há mudança de sa­ cerdócio, é necessário que haja mudança de lei” .3 A conclusão é que, se você invoca Jesus como seu sacerdote, que lugar existe para a Lei em sua vida? Você clama a um ho­ mem de Nazaré, da tribo de Judá, que não pertence à linhagem de Arão, ou de Levi, ou de nenhum outro sacerdote qualificado pela Lei. Você clama a um intruso, um renegado, um agitador.

O NOVO ACORDO DIVINO

Os cristãos aceitam de pronto a ideia de ter Jesus como sa­ cerdote. Contudo, não está claro para alguns que, a partir do momento em que adotam Jesus para esse papel, eles es­ tabelecem com Deus um contrato, um pacto, uma aliança. Diferentemente do contrato antigo redigido por Deus por in­ termédio de Moisés, o novo contrato jamais será substituído. E a palavra final para o relacionamento de um ser humano com Deus. Jesus Cristo é autor e garantia de algo completa­ mente novo e revolucionário:

Por essa razão, Cristo é o mediador de uma nova

aliança para que os que são chamados recebam a pro­

messa da herança eterna

[

].4

“O Senhor jurou

e não se arrependerá:

[

]

‘Tu és sacerdote para sempre’ Jesus tornou-se, por isso mesmo, a garantia de uma aliança superior.5

Hebreus 7.12.

Hebreus 9.15.

Hebreus 7.21,22.

37

0 evangelho nu

Nova aliança? O que isso quer dizer? Frequentei igrejas du­ rante mais de uma década antes de ouvir um único ensinamento sobre a nova aliança. No entanto, se queremos entender como Deus se relaciona conosco, devemos olhar para o Novo. O Novo e o Antigo com certeza não são a mesma coisa. Eis uma citação do próprio Deus sobre o assunto:

“Estão chegando os dias, declara o Senhor, quando farei uma nova aliança com a comunidade de Israel

[

]

e com a comunidade de Judá.

Não será como a aliança que fiz com os seus antepassados,

quando os tomei pela mão para tirá-los do Egito; visto que eles não permaneceram fiéis

à minha aliança,

eu me afastei deles”, diz o Senhor.6

Algo novo estava prestes a surgir. Deus sempre teve a in­ tenção de dar início a algo radicalmente diferente. A passagem indica que o Novo é diferente de tudo o que houve antes e solu­ ciona um sério problema — nosso fracasso em permanecermos fiéis. O que quer que seja o Novo, de alguma forma leva as pessoas a permanecerem fiéis, mesmo quando falha a força que elas próprias têm. Hoje debatemos a segurança (ou fidelidade) eterna, mas essa é uma questão do Antigo. Ao que parece, uma das razões pe­ las quais o Novo entrou em cena foi para sanar esse proble­

ma: “ Pois, se aquela primeira aliança

fosse perfeita, não seria

6 Hebreus 8.8, 9, grifo nosso.

38

Religião é dor de cabeça

necessário procurar lugar para outra. Deus, porém, achou o

povo em falta [ .7

Na verdade, não havia nada errado com o Antigo em si. Ele ainda deveria ser considerado

santo e bom. O problema é que ninguém conseguia ser bem-su­

cedido estando submetido a ele. Por isso, Deus providenciou um caminho diferente. O Novo implica que os desejos de Deus são escritos dentro de nós, de modo que temos a garantia de sermos seu povo, aconteça o que acontecer:

]”

Ninguém conseguia ser bem-sucedido debaixo do Antigo.

“Esta é a aliança que farei com a comunidade de Israel depois daqueles dias”, declara o Senhor. “Porei minhas leis em sua mente e as escreverei em seu coração. Serei o seu Deus, e eles serão o meu povo.”8

Aos poucos compilamos elementos importantes partindo da descrição do Novo feita pelo próprio Deus. O Senhor grava suas leis na mente e no coração do salvo. Tornamo-nos seu povo e temos o privilégio de conhecê-lo pessoalmente. Mas, na verda­ de, o autor de Hebreus cita erroneamente a passagem do Antigo Testamento nesse trecho. Como ele pôde ser tão audacioso? O autor muda de propósito a redação do Antigo Testamento, de

7 Hebreus 8.7,8.

8 Hebreus 8.10.

39

0 evangelho nu

“ minha lei” para “minhas leis” , com o intuito de esclarecer uma verdade importante: contrariando o ensino popular, não é a lei de Moisés que o Senhor escreve em nosso coração. São as leis de Deus. Isso é mais bem explicado por Jesus e os autores do Novo Testamento. Essas leis são conhecidas como “ lei do Reino” , “ a

lei [

Os mandamentos divinos podem ser resumidos a: amar a

]

que traz a liberdade” e os “ mandamentos [de Jesus]” .9

Deus e amar uns aos outros. 1011 Não são difíceis de carregar. Na verdade, o próprio Jesus disse que aqueles que o amam obedecerão a seus mandamen­

Não é a lei de Moisés que o Senhor escreve em nosso coração.

tos. 11 Sob o Novo, Deus tem tudo em ordem. Se a lei mosaica estivesse escrita em nosso coração e mente, imagine as consequências! As restrições alimentares, as regras sobre as vestes e centenas de outras ordenanças esmagariam nossa consciência, como esmagaram a dos israelitas. Graças a Deus o Novo não é só uma versão enfeitada do Antigo! O Novo é diferente e simples.

9 Tiago 2.8; 1.25; 2.12; ljoão 3.24.

10 V. Marcos 12.30,31.

11 V. João 14.15.

40

5

E m 1998 , meu pai morreu em um acidente de carro. Ele era um marido amoroso, bem-sucedido como homem de negócios e grande pai. Seu intelecto só encontrava rival no senso de humor que o caracterizava. Nossa família sente muito a falta dele. Imagine por um instante que você e eu nos sentamos para

jantar. Aproveito então a oportunidade para abrir o álbum de família e lhe mostrar fotos do meu pai. Enquanto viro as pági­ nas, apontando para algumas fotos e contando histórias sobre ele, acontece algo imprevisível. Por milagre, de repente meu pai entra pela porta! Estranhamente, no entanto, sigo mostrando as fotos e contando velhas histórias. Mesmo depois de perceber a chegada dele, continuo ocupa­

do com o álbum. Absurdo, certo? Por que eu me concentraria em uma foto bidimensional do meu pai ten­

do o homem de verdade bem à minha frente? Do mesmo modo, porém, alguns cristãos vivem concentra­ dos na Lei, que é apenas uma sombra. A realidade, sabemos agora, encontra-se no Novo.

II

Alguns cristãos vivem concentrados na Lei, que é apenas uma sombra.

41

0 evangelho nu

Olhar para o Antigo depois de descobrir o Novo é como re­ tornar ao álbum de fotografias do meu pai estando ele parado

bem ao meu lado. Estou preso a algo bidimensional e inanima­ do, mesmo tendo sua presença viva comigo.

Eis o anúncio

divino sobre a superioridade do Novo: “ [ ]

0 ministério que Jesus recebeu é superior ao deles, assim como também a aliança da qual ele é mediador é superior à antiga, sendo baseada em promessas superiores” .1

Se a Lei fosse capaz de salvar, não havería razão para o Novo. O Antigo ficou ultrapassado. Algo maior vigora hoje. Sendo assim, por que não nos apegaríamos ao Novo? E interessante notar que até os homens tementes a Deus do

Antigo Testamento eram justificados pela fé apenas, à parte da

A Lei

não é baseada na fé [ .12 Afi­

Lei. A Lei envolve fé? Não. A Bíblia explicita que “ [

]

]”

m * "ijffipM ^

A Lei não é baseada na fé. (Gálatas 3.12)

nal de contas, é preciso ter fé

para cumprir regras e desempe­

nhar obrigações religiosas? Santos do Antigo Testamento, como Abraão, foram justifi­ cados porque depositaram a confiança em Deus e na vinda do Messias.3Abraão viveu muito antes da Lei e foi declarado justo. Portanto, estar bem com Deus nunca teve nada a ver com a Lei.

Pr o b l e m a s

c o

m

o

c a r r o

Imagine que você guarde dinheiro para comprar um carro ze- ro-quilômetro. Tendo economizado o suficiente, você telefona para a concessionária com o intuito de negociar o preço do au­ tomóvel. Por sorte, o vendedor concorda em vender o carro por um preço que você tem condições de pagar. Uma hora depois

1

Hebreus 8.6.

1

Gálatas 3.12.

3

V. Romanos 4.13.

42

Religião é dor de cabeça

você está na concessionária para fechar o negócio. Incluindo frete, impostos e licenciamento, o valor chega perto dos 20 mil dólares. Um grande negócio. Feliz da vida, você assina a pape­ lada e leva o carro para casa. É seu afinal! Um ano depois, no entanto, uma estranha mensagem entra na caixa postal do seu telefone. E da concessionária. Você reconhece a voz do vendedor explicando que, sem querer, cobrara menos do que deveria pelo carro. Avisa que você lhe deve mais 2 mil dólares e convida-o a comparecer à concessionária para que pos­ sam redigir novo contrato de venda e “resolver as pendências” . Ao final da mensagem você nem se mexe, cético. Olha para o calendário e começa a contar os dias. Já se passaram quatrocen­ tos e trinta desde que assinou o contrato da compra do carro! Como podem fazer uma coisa dessas? Aliás, eles podem fazer isso? É hora de telefonar para o advogado. Seu consultor legal explica que a concessionária está agindo de modo irregular. Ninguém pode exigir alterações em um con­ trato assinado tanto tempo antes. Se fosse possível forçar uma renegociação após a assinatura do pacto legal entre as partes, ninguém jamais confiaria em um contrato. Agora, veja se você consegue perceber o paralelo entre a compra do carro que virou uma dor de cabeça e o que Paulo diz sobre o Novo — o Novo prometido a Abraão:

Irmãos, humanamente falando, ninguém pode anu­ lar um testamento depois de ratificado, nem acrescen­ tar-lhe algo. [ ] Quero dizer isto: A Lei, que veio quatrocentos e trinta anos depois, não anula a aliança previamente es­ tabelecida por Deus, de modo que venha a invalidar a

promessa.4

4 Gálatas 3.15,17, grifo nosso.

43

0 evangelho nu

A promessa do Novo foi feita a Abraão não quatrocentos e trinta dias, mas quatrocentos e trinta anos antes da Lei. As­ sim como a concessionária não tinha base legal para renegociar um contrato previamente assinado, a aliança estipulada com

Abraão não foi renegociada só porque a Lei entrou em cena mais tarde. Embora ainda não estivesse em vigor, o Novo fora prometi­ do a Abraão e ratificado pelo próprio Deus. O fato de a Lei ser introduzida quatrocentos e trinta anos depois não afeta as cláu­ sulas da aliança sancionada antes. Centenas de anos separam o Antigo da promessa do Novo.

Não devemos misturar as coi­ sas, nem extrair elementos do Antigo e impô-los ao Novo.

Isso é quebra de contrato. Ao apresentar o Novo, passamos bastante tempo em He- breus. Esta pode ser uma das epístolas menos estudadas hoje. Na essência, trata-se de uma longa argumentação em prol do abandono do Antigo e da adoção do Novo. Seu estilo é seme­ lhante ao de um brilhante advogado defendendo um clien­ te no tribunal. Só Hebreus consegue enterrar de vez muitas questões que dividem os cristãos hoje em dia. Ao longo de O evangelho nu, você terá a oportunidade de conhecer Hebreus e outras cartas do Novo Testamento que gritam em uníssono:

“Jesus, e nada mais” .

i

ç m

Centenas de anos separam o Antigo da promessa do Novo.

m

y

44

6

V ocê já teve d e calçar os sapatos de outra pessoa? Em caso positivo, sabe como é usar algo que não foi feito para você. À primeira vista, eles podem parecer semelhantes a qualquer um de seus calçados. Mas não combinam com as dimensões dos seus pés. Do mesmo modo, somos informados de que a Lei de Moisés é de fato destinada a alguém, mas não combina com os cristãos do Novo Testamento. Paulo escreveu a Timóteo:

Sabemos que a Lei é boa, se alguém a usa de manei­ ra adequada. Também sabemos que ela não é feita para

os justos, mas para os transgressores e insubordinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreve­

e para todo aquele que se opõe à sã doutrina.

Esta sã doutrina se vê no glorioso evangelho que me foi confiado, o evangelho do Deus bendito.1

rentes [

]

A que propósito serve a Lei? Paulo afirma que ela tem como alvo exclusivo os r/escrentes. No Antigo Testamento, Deus reco­ nhecia dois tipos de pessoas — os judeus e os gentios. Hoje, ele

1Timóteo 1.8-11, grifo nosso.

45

O evangelho nu

reconhece dois grupos diferentes — os crentes e os descrentes. No Antigo Testamento, a Lei destinava-se exclusivamente aos judeus. Hoje, ela fala a apenas um grupo: os descrentes. Então, se você é cristão, que lugar a Lei deve ter em sua vida?

C a l e

a

b o c a !

A Lei tem um público-alvo específico — os descrentes. Mas o

que ela lhes diz? E qual a reação típica quando ela fala? A me­ lhor maneira de resumir sua mensagem é usando uma expres­ são proibida na minha casa quando eu era adolescente: “ Cale

JJ

A Lei tem

um

público-alvo

específico —

os

descrentes.

3^

a boca!” . Minha mãe nunca

tolerou essa frase. Mas é exa­ tamente o que a Lei diz para o descrente. Na verdade, ela si­

lencia o mundo inteiro:

Sabemos que tudo o que a Lei diz, o diz àqueles que estão debaixo dela, para que toda boca se cale e todo o mundo esteja sob o juízo de Deus. Portanto, ninguém será declarado justo diante dele baseando-se na obediên­ cia à Lei, pois é mediante a Lei que nos tornamos plena­ mente conscientes do pecado.2

Às vezes as pessoas não ouvem. Se você quiser a atenção

delas, terá de gritar. Por meio da Lei, Deus grita exigindo nada menos que a perfeição. Ao depararmos com o padrão,

só nos resta “calar a boca” . Somos silenciados. Não estamos

qualificados para nos esforçar mais. Nem estamos seguros porque nos desesperamos e tentamos ser bem-sucedidos sem retidão. Estamos em apuros. E, sem intervenção, permanece­

riamos desnorteados.

2 Romanos 3.19, 20.

46

Religião é dor de cabeça

Como Adão e Eva, conscientizamo-nos da nossa nudez pe­ rante Deus. Mas não há nada sobre a face da Terra que encubra nossa iniquidade. A Lei expõe nosso vício do pecado e nossa necessidade de Cristo:

Qual era então o propósito da Lei? [

]

Mas a Escri­

tura encerrou tudo debaixo do pecado, a fim de que a promessa, que é pela fé em Jesus Cristo, fosse dada aos que creem.3

De vez em quando, tenho o privilégio de falar a prisio­ neiros sobre o evangelho. Alguns cumprem prisão perpétua.

Permanecerão trancafiados até morrer. Quando entro nesses lugares e as pesadas portas de metal se fecham atrás de mim, imagino como seria viver encarcerado. (Já imaginei até o que aconteceria se um equívoco de

documentação ine mantivesse preso ali dentro!) Viver encarcerado, atrás de

grades, sem perspectiva de sol­ tura, não é o que costumamos chamar de “ desejável” . Mas é assim que Paulo descreve a vida debaixo da Lei. É como estar preso em uma cadeia:

Estar debaixo da Lei é ser trancafiado em uma prisão.

Antes que viesse essa fé, estávamos sob a custódia da Lei, nela encerrados, até que a fé que haveria de vir fosse revelada. Assim, a Lei foi o nosso tutor até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé.4

Estar debaixo da Lei é ser trancafiado em uma prisão. Você é constantemente lembrado da sua culpa enquanto aguarda uma sentença. A Lei não nos desencoraja; tampouco nos edifica.

3 Gálatas 3.19,22.

4 Gálatas 3.23,24.

47

0 evangelho nu

Com seu padrão perfeito, ela só despedaça nosso orgulho. Mos­ tra-nos que jamais seremos bem-sucedidos. Como Paulo diz, a Lei é “ nosso tutor até Cristo” . De que maneira ela faz isso? Mostrando-nos nossa morte espiritual e nossa necessidade de uma vida nova.

Pr ê m io

d e

e x c e l ê n c ia

PARA MOTORISTAS

Em minha adolescência, o gosto por viajar em alta velocidade nas estradas norte-americanas me fez acumular muitas infra­ ções. Raras vezes lutei contra as tentações comuns na vida de um adolescente. Por alguma razão, no entanto, o fascínio por automóveis em alta velocidade parecia sempre me derrotar. Durante alguns anos, recebi advertências e multas por ex­ cesso de velocidade com muita frequência. Cheguei até a ser acusado de direção negligente por velocidade excessiva. Claro, havia ocasiões em que eu sentia remorso por meus atos — e passava a dirigir um pouco mais devagar durante algum tempo. Mas nada refreava de fato meu vício em velocidade. Imagine, contudo, que, a caminho da escola pela manhã, di­ rigindo dentro do limite de velocidade, eu veja as familiares luzes azuis piscantes pelo espelho retrovisor. Estaciono então junto ao meio-fio e observo o policial descer da viatura e gesti­ cular para que eu abra o vidro. Por estranho que pareça, no entanto, ele traz um sorriso amistoso no rosto dessa vez. Digamos que ele se aproxime de minha janela com um brilho no olhar e diga:

— Senhor Farley, eu só queria agradecer-lhe por dirigir a uma velocidade segura. O senhor é um bom homem. O Estado da Virgínia reconhece seus esforços para contribuir com a segu­ rança das nossas ruas. Gostaria de lhe conceder agora o Prêmio

48

Religião é dor de cabeça

Estado da Virgínia de Excelência na Direção. Inclui um certifi­ cado que pode ser trocado por uma mercadoria em qualquer escritório da Divisão de Veículos Motores. Parabéns. Ele, em seguida, rne entrega o certificado e se despede:

— Tenha um excelente dia! Uau! Eu ficaria boquiaberto, você não? Claro que sim, por­ que episódios como esse não acontecem na nossa vida com muita frequência. Na verdade, duvido que algo do tipo já tenha ocorrido algum dia. Nunca ouvi falar de um policial que paras­ se alguém para cumprimentá-lo por boa direção. Por algum motivo, a lei só presta atenção em nós quando erramos. De igual modo, a Lei mosaica só aponta para onde falhamos. Está à procura de amor e incentivo? Você não os encontrará na Lei. Por isso o legalista mais austero que você conhece é capaz de forjar uma aparência de moralidade. Todavia, o legalismo ja­ mais produzirá amor. Viver debaixo da mentalidade da Lei é ser­ vir como escravo a um senhor muito exigente. Há sempre mais

a ser feito. E você nutica fará o suficiente para agradá-lo. Tiago ensina: “Pois quem obedece a

toda a Lei, mas tropeça em ape­ nas um ponto, torna-se culpado de quebrá-la i?iteira?nente” .5

0 legalismo jamais produzirá amor.

A p r o v a d o

o u

r e p r o v a d o

Cumprir 1 % ou 99% da lei é a mesma coisa. Imagine alguém capaz de cumprir a maior parte da Lei. Digamos que só de vez em quando essa pessoa tenha de lutar com uma regra sem im­ portância. Quer obedeçamos a nada da Lei, quer obedeçamos

a

sua maior parte, somos por ela amaldiçoados. Como afirma

5

Tiago 2.10, grifo nosso.

49

0 evangelho nu

o apóstolo Paulo: “ [

em praticar todas as coisas escritas no livro da Lei” .6

Como Paulo pode ser tão radical? Sabemos que ele (antes cha­ mado Saulo) tentara obedecer a cada aspecto da Lei. Falando

quanto à jus­

tiça que há na Lei, [eu era considerado] irrepreensível” .7 Quem vivia a seu redor podia pensar que ele era inculpável. Mas Paulo sabia a verdade. Estava familiarizado com o fracas­ so que todos nós enfrentamos ao tentar obedecer à Lei. A esse respeito, escreveu:

de si mesmo aos filipenses, chegou a escrever: “ [

]

Maldito todo aquele que não persiste

]

eu não saberia o que é pecado, a não ser por

meio da Lei. Pois, na realidade, eu não saberia o que é

cobiça, se a Lei não dissesse: “Não cobiçarás” . Mas o pecado, aproveitando a oportunidade dada pelo man­ damento, produziu em mim todo tipo de desejo cobi­ çoso | J.8

] [

Ou você

se submete a cada detalhe, ou é amaldiçoado. Não há outra opção. Temos o direito de escolher o que nos interessa da

Lei? Ou foi-nos concedido o luxo de misturar uma porção da Lei com Cristo? Paulo adver­

te que, se acrescentarmos uma pitada que seja da Lei à nossa vida com Cristo, ele não terá valor algum para nós:

A Lei propõe uma espécie de “ tudo ou nada” .

A Lei propõe uma espécie de “tudo ou nada” .

Ouçam bem o que eu, Paulo, lhes digo: Caso se dei­ xem circuncidar, Cristo de nada lhes servirá. De novo

6

Gálatas 3.10, grifo nosso. Filipenses 3.6.

8

Romanos 7.7, 8.

50

Religião é dor de cabeça

declaro a todo homem que se deixa circuncidar, que ele está obrigado a cumprir toda a Lei.9

Não há lógica em que nós, cristãos, adotemos porções da Lei de Moisés como guia para a vida. Presumimos que Deus nos dá

notas pela média. Mas a Lei é absolutamente incompatível com

a tentativa de “dar nosso melhor” . E um sistema no qual ou você é aprovado, ou reprovado. Um único ponto negativo significa que você está fora.

9 Gálatas 5.2,3, grifo nosso.

51

7

cristãos lutam para que os

Dez Mandamentos sejam afixados nos prédios públicos. Afir­ mamos não querer que nossa sociedade perca as raízes cristãs. Mas o cristianismo nunca teve raízes na Lei, nem mesmo nos Dez Mandamentos.

N os

E stados

U nidos , alguns

A

Lei

g e r a

o

p e c a d o

Os mandamentos não foram feitos para supervisionar os cristãos. Eles reprimem os desejos pecaminosos. Na verdade, a Lei provoca mais pecado:

Pois quando éramos controlados pela carne, as pai­ xões pecaminosas despertadas pela Lei atuavam em nos­ so corpo, de forma que davamos fruto para a morte. [ ] Mas o pecado, aproveitando a oportunidade dada pelo mandamento, produziu em mim todo tipo de desejo cobiçoso. Pois, sem a Lei, o pecado está morto.1

Andar segundo os Dez Mandamentos tem como resultado uma vida mais dedicada a Deus? Paulo nos conduz à conclusão

Romanos 7.5,8, grifo nosso.

Religião é dor de cabeça

oposta. Os teólogos debatem se ele falava de sua condição de ho­ mem salvo ou perdido em Romanos 7. Independentemente disso, no entanto, a questão principal é que, salvos ou perdidos, os seres humanos não conseguem cumprir a Lei. Ela, pelo contrário, esti­ mula o pecado o tempo todo. A Lei desperta paixões pecaminosas. O pecado aprovei­ ta a oportunidade dada pela Lei. É o que Romanos 7 explica. Portanto, a vida cristã que tenta viver com perfeição segundo os Dez Mandamentos soa promissora? Paulo descobriu o que todo ser humano constata quando dedica o melhor de si à Lei:

ela mata. Exatamente como Deus pretendia, Moisés introduziu

um ministério cujo resultado fi­ nal era a conde?iação. Há pouco tempo, um livro

humorístico bastante popular documentou a rotina de um homem que tentou viver pelas regras do Antigo Testamento durante um ano inteiro.2 O autor narrou com detalhes como seria esse tipo de vida nos Estados Unidos dos tempos modernos. Alterou a dieta para excluir determinadas carnes e os frutos do mar. Tirou do guarda-roupa todo tecido fei­ to com mais de um tipo de material. Chegou a levar a cabo uma espécie de sacrifício animal! No fim, com sinceridade e bom hu­ mor, concluiu que não fora capaz de seguir a maioria das regras do Antigo Testamento. Jacobs também documenta o raciocínio intrincado de alguns companheiros judeus, os quais resolveram que, como as coisas são um pouco diferentes hoje, não precisam seguir todas as restrições da Lei — apenas algumas.

?;

a

A Lei estimula o pecado o tempo todo.

O s DEZ

Muitos concordam que a lei cerimonial, aquela que restringe tudo, da dieta ao guarda-roupa, não é para os cristãos hoje.

2 J acobs, A. J. The Year of Living Biblically. New York: Simon and Schuster, 2007.

53

0 evangelho nu

De fato, poucos tentam seguir tais regras. Mas será que nós, cristãos, ainda devemos olhar para os Dez Mandamentos como nosso guia moral? Quando Paulo fala sobre a Lei despertar paixões pecami­ nosas, usa o desejo cobiçoso como exemplo. O apóstolo revela que um dos Dez Mandamentos evocou o pecado em sua vida. O pecado se serviu do “não cobiçarás” para constranger Paulo a empenhar esforço humano para deixar de cobiçar. E o resul­ tado natural aconteceu — cobiça. Sempre que esforços carnais tentam vencer o pecado, o pecado sai vitorioso. De modo que Paulo acabou lutando com a cobiça de todos os tipos. Acho curioso que um líder religioso fervoroso não consiga parar de desejar o que pertence a outros! Claro, Saulo de Tarso podia polir seu exterior. Por dentro, contudo, era culpado de ambicionar os bens alheios.

O mantra de Paulo bem poderia ser: “ Lutei contra a Lei, e a

Lei venceu”. Em 2Coríntios, encontramos a prova de que os Dez Manda­ mentos nada trazem a não ser condenação e morte:

O ministério que trouxe a morte foi gravado com le­ tras em pedras; mas esse ministério veio com tal glória que os israelitas não podiam fixar os olhos na face de Moisés, por causa do resplendor do seu rosto, ainda que desvanecente. Não será o ministério do Espírito ainda muito mais glorioso? Se era glorioso o ministério que trouxe condenação, quanto mais glorioso será o minis­ tério que produz justificação!3

Como sabemos que Paulo se refere aos Dez Mandamentos e

não a outra ordenação cerimonial qualquer? Ele especifica que

esse

ministério “ foi gravado com letras em pedra” . Isso só vale

3 2Coríntios 3.7-9, grifo nosso.

54

Religião é dor de cabeça

para os Dez Mandamentos. Portanto, esse era um ministério cujo destino final era a condenação.

Se vivermos debaixo da Lei,

o pecado nos dominará. Se vi­

Sempre que nos armamos com a Lei, ficamos predispostos à derrota.

vemos livres da Lei (debaixo da graça), o pecado não nos sub­

jugará: “Pois o pecado não os dominará, porque vocês não estão debaixo da Lei, mas debaixo da graça” .4 A libertação do poder do pecado que todos desejamos está bem debaixo do nosso nariz. O obstáculo para ter vitória sobre a tentação é a maneira pela qual travamos a batalha. Sempre que nos armamos com a Lei, ficamos predispostos

à derrota. Podemos chamar isso de autodisciplina ou responsabilida­ de — ou aplicar algum outro termo criativo. No entanto, se houver qualquer outra coisa além da dependência de Cristo em nós, é inevitável que ela ponha em movimento as engrenagens do esforço humano. Perspectiva é tudo em nossa batalha contra

o pecado. Mas você pode perguntar: Deus não nos ajuda a cumprir

a Lei? Se levarmos essa ideia às últimas consequências, o Espírito Santo não nos motivaria a evitar carne de porco, a usar roupas tecidas só com linho, a isolar amigos e membros da família que têm doenças de pele e a nos abster de trabalhar desde a noite de sexta-feira até a noite do sábado? Significaria cancelar churras­ cos, jogar fora meias de nylon, parar de enviar e-mails na noite de sexta-feira e deixar de arrumar a casa no sábado. E essa a intenção do Espírito de Deus para sua vida? Pense a respeito.

0 evangelho nu

C h ih u a h u a

— Espere um pouco! — um deles gritou comigo. — Você está levando as coisas ao extremo. Concordo que o Espírito Santo não pretende nos ajudar a viver debaixo do livro de Levítico inteiro, mas ainda assim devemos seguir os Dez Mandamentos. E pedir a ajuda do Espírito para isso! Eu estava no meio do seminário que ministraria durante dois dias a pastores, seminaristas e líderes de igreja de Chihuahua, México. Nosso público passara de 40 para 200 pessoas de um dia para o outro. O entusiasmo era crescente e muitos pareciam estar sendo libertos da opressão da religiosidade. Estávamos no intervalo, e eu tomava um cafezinho. Quando me dei conta, vi-me rodeado por quatro líderes mais zangados que vespas. Depois de vários minutos absorvendo comentários acalorados, constatei que sua irritação se devia à minha insis­ tência em afirmar que os cristãos estão livres até mesmo dos Dez Mandamentos.

— Mas a observância do sábado faz parte dos Dez Manda­

mentos, e vocês não adotam o sábado judeu, que vai da noite da sexta à noite do dia seguinte, não é? — perguntei.

— Bem, não.

— Se é assim, isso significa que vocês estão sujeitos aos Nove Mandamentos, excluindo o do sábado? Nesse momento o intervalo chegou ao fim e encerramos nos­ sa discussão.

— Só uma ideia para vocês pensarem — comentei enquanto retornávamos à sala do seminário.

S u b s t i t u t o

m e d ío c r e

Deus nunca nos deu permissão para dividir a Lei em par­ tes favoritas para que possamos escolher até que ponto nos

56

Religião é dor de cabeça

sujeitamos. Ele nos libertou do conjunto da Lei cumprindo-a através de Jesus Cristo. Agora não precisamos cumprir nada da Lei. Mas como levar uma vida justa se não usarmos os Dez Mandamentos como guia? Depois de ouvir que os cristãos não têm a menor necessidade da Lei, a pergunta passa a ser natural. E a resposta é curta: o Espírito Santo vem viver den­ tro de nós quando cremos, e ele bastai O fruto do Espírito

Santo em nosso interior é suficiente. “ [

]

Contra essas coisas

não há lei” .5 O Novo Testamento ensina que aqueles que são guiados pelo Espírito não estão debaixo da Lei.6 A Lei é um substituto medíocre para o conselho do Espírito Santo. Podemos pensar que a sujeição aos Dez Mandamentos é um bom modo de aca­ bar com a corrupção. Mas a vida dirigida pela Lei tem o efeito oposto. A única opção sensata é permitir que Cristo seja ele mesmo em nós. Essa é a maneira de Deus impactar nossa vida e deixar a vida dele em evidência.

Há quem diga: “ Não vivo debaixo da Lei de Moisés. Sei que estou livre daqueles mandamentos. Vivo segundo “princípios cristãos” . Essa é apenas outra variação de uma abordagem ain­ da baseada na Lei. E um obstáculo à plenitude da vida baseada em dependência. Sabemos que levar uma “vida boa” pelos pa­ drões morais é um obstáculo para compreender a salvação. Mas optar pela “ moralidade” pode

impedir o cristão de depender exclusivamente de Cristo. Para os cristãos, um obstáculo ocul­ to para a vida da graça é uma “grande” vida.*V.

M

A Lei é um substituto medíocre para o conselho do Espírito Santo.

Gálatas 5.23. V. Gálatas 5.1S.

57

0 evangelho nu

A SEDUÇÃO DAS REGRAS

Princípios, regras e padrões — tanto faz quão “ cristãos” acreditemos que eles sejam — não passam de substitutos me­ díocres para uma vida inspirada pelo próprio Deus. Em Co- lossenses, lemos sobre as regras e a falta de valor que elas têm para os cristãos.

Já que vocês morreram com Cristo para os princí­ pios elementares deste mundo, por que, como se ainda pertencessem a ele, vocês se submetem a regras: “Não manuseie!”, “Não prove!”, “Não toque!” ? Todas es­ sas coisas estão destinadas a perecer pelo uso, pois se baseiam em mandamentos e ensinos humanos. Essas regras têm, de fato, aparência de sabedoria, com sua pretensa religiosidade, falsa humildade e severidade com o corpo, mas não têm valor algum para refrear os impulsos da carne ~

Paulo reconhece o fascínio dos princípios, dos mandamentos e das regras como meios de autoaperfeiçoamento. Mas consi- dera-os impotentes para produzir qualquer transformação real em nossa vida. Observe que ele não se refere ao meio de salva­ ção aqui, mas à nossa abordagem da vida depois que morremos com Cristo. Como a verdadeira adoração acontece? O que gera a verda­ deira humildade? O que produz a real vitória sobre o pecado em nossa vida? Era o que questionavam os gálatas, obrigando Paulo a escrever o seguinte:

Gostaria de saber apenas uma coisa: foi pela prática da Lei que vocês receberam o Espírito, ou pela fé naqui­ lo que ouviram? Será que vocês são tão insensatos que,

Colossenses 2.20-23, grifo nosso.

Religião é dor de cabeça

tendo começado pelo Espírito, querem agora se aperfei­ çoar pelo esforço próprio ?s

Paulo está falando aqui a cristãos que já receberam o Espíri­ to, mas retornaram à Lei como meio de autoaperfeiçoamento. Eles haviam recebido o Espírito pela fé, e Paulo exorta-os a não acabarem recorrendo de novo ao esforço humano! Essa e outras passagens semelhantes em todo o Novo Tes­ tamento tratam da questão da vida cotidiana. Paulo afasta o mito de que Deus se agrada de abordagens baseadas em regras para que nos “ aperfeiçoemos. Ele nos perguntaria a mesma coisa hoje: “A presença do Cristo ressurreto em vocês não é suficiente?” .

D e u s n ã o quer que o s crentes sejam motivados pela Lei ou por regras. Mas é importante esclarecer o que eu não estou dizendo aqui. A Lei em si não é pecaminosa. Os que a odeiam, conhecidos como antinomianistas, interpretam errado as Escrituras desde

a época da igreja primitiva. Dizem que a Lei é má. Combatendo

essa falsa doutrina, o apóstolo Paulo chama a atenção para o fato de que a Lei não é pecado. Na verdade, declara que ela é santa, justa e boa: “ De fato a Lei é santa, e o mandamento

é santo, justo e bom” .1 Assim, a Lei não tem nada de imperfeito. Ela não tem má­ cula. A posição exata da Lei não é de algo com defeito. No entanto, seu padrão perfeito, quando combinado ao esforço humano, resulta em fracasso. Em resumo, a Lei é perfeita, mas não aperfeiçoa ninguém.

El a

v e io

p a r a

f i c a r

A Lei não desapareceu só porque temos o Novo. Ela continua em operação hoje, como ferramenta para convencer o mundo

1 Romanos 7.12.

60

Religião é dor de cabeça

sem fé. Como indicam as palavras de Jesus, a Lei continuará a ser uma força sempre presente até que céus e terra desapareçam:

“Não pensem que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir. Digo-lhes a verdade: En­ quanto existirem céus e terra, de forma alguma desapa­ recerá da Lei a menor letra ou o menor traço, até que tudo se cumpra.”2

A afirmação de Jesus pode parecer oposta à de Paulo em Efésios. O apóstolo fala sobre a derrubada da barreira entre judeus e gentios (a Lei):

Pois ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um e destruiu a barreira, o muro de inimizade, anulando em seu corpo a Lei dos mandamentos expressa em ordenanças. [ ]3

As palavras de Paulo às vezes são mal interpretadas, como se significassem que a Lei foi suprimida. Isso, porém, contra­ diz o ensino de Jesus de que a Lei persistirá enquanto houver mundo. Paulo quer dizer, ao que parece, que a Lei é irrelevante para a vida em Cristo. Tanto judeus quanto gentios são agora salvos pela mesma graça. O elemento distintivo que os sepa­ rava não existe mais. Isso é bem diferente de dizer que a Lei foi eliminada. Talvez a explicação mais clara relativa à utilidade da Lei hoje tenha sido escrita para Timóteo: “ Sabemos que a Lei é boa, se alguém a usa de maneira adequada. Também sabe­

mos que ela não é feita para os justos [ .4 Encontramos aqui

]”

2 Mateus 5.17,18.

3 Efésios 2.14,15.

4 1Timóteo 1.8,9.

61

0 evangelho nu

uma visão equilibrada da Lei. Ela continua a existir e tem um propósito hoje, mas não foi projetada para os cristãos como ferramenta ou guia para o cotidiano. Seu único propósito é convencer o ímpio da própria morte espiritual. Compreender o lugar da Lei no mundo hoje nos impede de

o erro do antinomianismo (“ ódio à Lei” ). Entender

cometer

que não há lugar para a Lei na vida do cristão nos impede de cometer o erro do legalismo.

A LEI SATISFEITA

O propósito de Deus, portanto, não é cumprir a Lei no meio dos cristãos hoje. Por que não? Por que ele já fez isso.5 Por conseguinte, o Espírito Santo não tenta conduzir os cristãos à submissão da Lei. Nem os ajuda a cumpri-la. Jesus já satisfez as exigências da Lei. E quem é nascido do Espírito tem as exigên­ cias da Lei creditadas a seu favor:

Porque, aquilo que a Lei fora incapaz de fazer por estar enfraquecida pela carne, Deus o fez, enviando seu próprio Filho, à semelhança do homem pecador, como oferta pelo pecado. E assim condenou o pecado na car­ ne, a fim de que as justas exigências da Lei fossem ple- namente satisfeitas em nós, que não vivemos segundo a carne, mas segundo o Espírito.6

Deus fez algo no passado e satisfez plenamente as exigências da Lei. Enviou seu Filho como oferta pelo pecado, de modo que pudesse condenar o pecado. Deus foi bem-sucedido? Claro. Quando? Fdá quase dois mil anos. Então ele continua tentando

'

V. informação adicional 1.

6

Romanos 8.3,4, grifo nosso.

62

Religião é dor de cabeça

satisfazer a Lei hoje? Não, ele já a satisfez. Trata-se de um even­

to ocorrido no passado.

Observe que Deus assim agiu

a fim de que a Lei fosse integral­ mente cumprida em nós, não por nós. Quando nos aproxi­

Nossa justiça é maior do que os esforços de todos os fariseus juntos.

mamos de Cristo, tudo o que ele fez para cumprir a Lei é depositado em nós e creditado a nosso

favor. Isso torna nossa justiça maior do que os esforços de todos

os fariseus juntos, desde o primeiro instante em que cremos.

“M O R T O

PARA M IM "

Nos filmes que retratam a Máfia italiana, às vezes você vê o capo de uma família informar ao próprio filho que o relaciona­

mento entre eles acabou. O homem então exclama: “Filho, para

mim, você morreu!” . O

por seu rosto. Ele se vira e, bem devagar, afasta-se da sala e da família para sempre. A ligação entre ele e o pai está encerrada.

O filho foi alijado da família para nunca mais voltar.

A epístola aos Romanos conta que estamos mortos para a Lei.7 Assim como o capo mafioso se decepcionou com o desem­ penho do filho, a Lei está decepcionada conosco. Não apresen­ tamos um desempenho bom o suficiente para permanecermos do lado dela. Viver sob o teto da Lei estava acabando conosco.

Então, qual foi a solução encontrada por Deus? Ele nos fez

morrer para a Lei a fim de que pudéssemos renascer em uma nova família e usufruir de uma liberdade recém-descoberta.

Como Paulo escreve: “ [

a fim de viver para Deus” .8.V

filho fita o chão e lágrimas escorrem

]

por meio da Lei eu morri para a Lei,

V. Romanos 7.4. Gálaras 2.19.

63

0 evangelho nu

No instante em que morremos para a família da Lei, somos acolhidos em uma família muito mais influente. E, como parte dessa nova família, deixamos de nos sujeitar às exigências da Lei:

Assim, meus irmãos, vocês também morreram para a Lei, por meio do corpo de Cristo, para pertencerem a ou­

tro, àquele que ressuscitou dos mortos [

morrendo para aquilo que antes nos prendia, fomos liber­ tados da Lei, para que sirvamos conforme o novo modo do Espírito, e não segundo a velha forma da Lei escrita.9

].

Mas agora,

Lembre-se de que a Lei veio para que o pecado fosse res­ saltado , não diminuído.10 Deus conhecia os efeitos da Lei. Por intermédio da Lei, ficamos cientes do pecado. Através dela, morremos. A Lei mata. Quando nos conscientizamos disso, es­ tamos prontos para uma abordagem inteiramente nova.

C a d á v e r

c

o

l o

m

b i a n o

Quando criança, minha esposa, Katharine, viveu na Colômbia, América do Sul, com os pais, que lá serviram como missionários durante quatro anos. Naquele país Katharine conheceu algu­ mas das igrejas mais legalistas que se pode imaginar. Presbíteros e diáconos, respeitados entre seus pares, eram pegos com a es­ posa de outros homens. Líderes admirados de igrejas acabavam transformando-se em bêbados ou jogadores compulsivos, ou entregavam-se à extorsão. Talvez o acontecimento mais incrível tenha sido quando o carro de um homem explodiu dentro da garagem, aparentando tratar-se de um assassinato. O corpo carbonizado foi resgatado das chamas, e realizou-se o devido funeral. Cerca de um ano

l>

Romanos 7.4,6, grifo nosso.

10 V. Romanos 5.20.

64

Religião é dor de cabeça

mais tarde, o homem foi encontrado vivo e saudável, em outra cidade — e casado com outra mulher! Descobriu-se então que ele desenterrara um cadáver do cemitério e encenara a própria morte. Ao que parece, ele armou toda essa farsa por causa de suas grandes dívidas de jogo com a máfia local. Katharine testemunhou tanto o legalismo extremo quanto a imoralidade extrema a um só tempo. Tais acontecimentos ul­ trajantes serviram para ilustrar um ponto importante da vida segundo a Lei. Podemos vestir-nos bem, brincar de igreja e con­ quistar o respeito de quem está à nossa volta trombeteando as regras religiosas severas que dizemos abraçar. Mas decoração de fachada, por melhor que seja, não muda a realidade. Cedo ou tarde, a vida debaixo da Lei se mostrará. Em Cristo, morremos e nascemos de novo — livres da Lei. Portanto, não precisamos fingir nada. Brincar de igreja sempre leva a mais pecados.

65

9

de coisas

como a observância do sábado e o dízimo? Não podemos deixá-las sem tratamento, visto que privam os crentes de sua liberdade, exatamente como acontece com qualquer outra

porção da Lei. Sim, a observância semanal do sábado e o dízimo têm raízes na Lei. Se os impusermos aos crentes hoje, deveremos de igual modo observar o restante da Lei, que é um sistema do tipo “ tudo ou nada” . Adotar só partes da Lei não é uma opção.

E n t ã o

e s t a m

o s

l i v r e s

d a

L e i ,

mas

o que dizer

O SÁBADO DE HOJE

Para os judeus, o sábado era essencialmente um lembrete do sétimo dia da criação, quando Deus descansou após realizar seu trabalho. Por esse motivo, Deus ordenou que Israel se lembrasse do dia do sábado e o reservasse para o descanso. Hoje também olhamos para trás, para a obra concluída da criação. Exclamamos juntamente com o rei Davi quão criativo e belo é o Universo. 1 No entanto, um feito maior do que a criação

1 V. Salmos 8; 19.

66

Religião é dor de cabeça

foi realizado — a obra redentora de Jesus Cristo na cruz. Assim como Deus declarou que a criação era “ boa” e depois descan­ sou, Jesus anunciou do Calvário: “ Está consumado!” *2 e se as­ sentou à direita do Pai.

O autor de Hebreus convida-nos a descansar com Deus. Fa­

zemos isso abandonando as obras mortas que imaginávamos capazes de conquistar o favor de Deus. Em vez de realizarmos acrobacias religiosas para nos livrarmos do pecado, podemos

assentar-nos com Jesus. Podemos simplesmente concordar:

“ Sim, está consumado” . Isso é entrar na alegria de Deus. E celebrar o sábado atual:

Assim, ainda resta um descanso sabático para o povo de Deus; pois todo aquele que entra no descanso de Deus, também descansa das suas obras, como Deus descansou das suas. Portanto, esforceino-nos por entrar nesse descanso [ ].3

E possível calcular a altura de uma árvore medindo sua

sombra no chão. A sombra também lhe dá uma noção da for­

ma básica da árvore. A partir da sombra, você tem meios de fazer estimativas da realidade. No sábado, os judeus tinham apenas uma sombra da realidade. A realidade é Cristo, de modo que o descanso genuíno do sábado está nele. E incrível

pensar nos milhares de anos durante os quais os judeus honraram a sombra, o sábado. Do lado de cá da cruz, pode­ mos experimentar a realidade do descanso em Cristo!

A realidade e Cristo, de modo que o descanso genuíno do sábado está nele.

2

V. João 19.30.

2

Hebreus 4.9-11, grifo nosso.

67

O evangelho nu

ROUBANDO A DEUS?

Muitos que se percebem livres da observância semanal do sá­ bado ainda assim afirmam que Deus exige no mínimo 10% de sua renda. Se você não der pelo menos esse percentual para

a igreja, dirão que está “roubando a Deus” . Mas de onde vem a ideia do dízimo?

O irmão de José, Levi, foi o antecessor da tribo singular dos

levitas. Quando os israelitas fugiram do Egito e conquistaram

a terra prometida por Deus, dividiram o novo território em tri­

bos. Mas os levitas não receberam terra para cultivar e produzir alimento. Em vez disso, foram instruídos a servir como sacerdo­ tes no tabernáculo.

Debaixo da Lei, os sacerdotes não tinham permissão de possuir casas, propriedade ou bens. Então como a tribo de sacerdotes sobrevivia? Pelo apoio recebido das demais tri­ bos. Assim, o dízimo para os sacerdotes, ou a oferta de 10%,

era ordenado pela Lei. Portanto, a tribo de sacerdotes podia manter um padrão aceitável de vida enquanto servia a Deus em tempo integral.

O atual ensino cristão sobre a oferta costuma ser contra­

ditório. Se um pastor ou líder de igreja usa o termo dízimo e

determina que 1 0 % é o padrão para essa

a Lei. Examinando a vida desse mesmo líder, talvez constate­

mos uma contradição patente. Ele pode ter casa, propriedades*

oferta, está ensinando

Se um pastor ou Ifder de igreja usa o termo

dízim o e determina

que 10% é o padrão para essa oferta, está ensinando a Lei.

e bens! Talvez também receba

emolumentos extras por oficiar casamentos, escrever livros ou atuar como professor de semi­

nário. A mesma Lei que ordena

o dízimo de 1 0 % não lhe per­ mite fazer nada disso.

68

Religião é dor de cabeça

Além da referência histórica ao respeito de Abraão por um sacerdote estrangeiro, Melquisedeque, a quem ele pagou 10% dos despojos de guerra,45não há nenhuma outra menção do ter­ mo dízimo nas epístolas bíblicas. Então como deveria ser a oferta conforme o Novo modelo? Deus deseja que os crentes deem

• de acordo com a necessidade (2Coríntios 8.14)

• de acordo com o que têm (2Coríntios 8.11,12)

• não com pesar ou por obrigação (2Coríntios 9.7)

• com alegria, de coração (2Coríntios 9.7)

Creio que nós, líderes de igreja, devemos apresentar a liber­ tação do dízimo ao mesmo tempo em que ensinamos a oferta voluntária. Os crentes são livres para dar 1%, 10% ou 100%. Ser claro em relação à oferta da graça é necessário para uma igreja sadia. Ensinarmos qualquer outra coisa é escravidão.

T

r ê s

q u a r t o s

d a

s u a

Bíb l ia

Agora que discutimos nossa libertação do dia de sábado e do dízimo, uma questão óbvia não quer calar: Bem, se é assim, qual a utilidade do Antigo Testamento? Antes de começar­ mos a tratar dessa importante questão, devemos ter em mente o seguinte:

Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a ins­ trução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra.s

4

Hebreus 7.6.

5

2Timóteo 3.16,17, grifo nosso.

69

0 evangelho nu

Defendo a ideia de que não há lugar para Lei na vida do crente. Mas o Antigo Testamento é um tesouro que não deve ser desconsiderado. Descobrimos nele como o Universo veio a existir. Lemos sobre a queda da humanidade. Aprendemos por que há tanta maldade no mundo. Participamos da história das interações de Deus com seu povo. Testemunhamos sua fidelida­ de a despeito da infidelidade dos israelitas. Vemos os profetas em ação e a misericórdia de Deus em exposição. Aprendemos sobre o que Deus chama de sabedoria e como ela difere da no­ ção humana desse conceito. Descobrimos os primeiros indícios da vinda do Messias e entendemos melhor como Jesus cumpriu a profecia. O Antigo Testamento nos oferece algo que não encontramos no Novo Testamento. Fornece um pano de fundo completo de como Deus deu início a seu relacionamento com o gênero hu­ mano, e de como fizemos tudo o que estava ao nosso alcance para arruinar essa relação. A obra de Cristo tem impacto muito maior contra o cenário de quão desprezível tem sido a atitude da humanidade para com Deus. E de como ele tem sido gracio­ so ao longo do curso da história humana! Tampouco podemos esquecer que a promessa do Novo está enraizada no Antigo. Deus disse a Abraão que, por intermédio de sua semente (Jesus), ele se tornaria pai de muitas nações. A promessa de que a salvação chegaria às nações foi feita no An­ tigo Testamento muito antes da Lei. Desconsiderar o Antigo Testamento significa cobrir uma enorme parte do retrato que Deus vem pintando há milhares de anos. Mas é importante ler e ensinar o Antigo Testamento mantendo-o dentro de seu contexto. No Antigo Testamento, vemos Deus punindo Israel pelos pe­ cados cometidos. No Novo Testamento, vemos que Deus puniu Jesus por nossos pecados. No Antigo Testamento, vemos Deus

70

Religião é dor de cabeça

retirando sua presença do meio do povo. No Novo Testamento, vemos que ele nunca nos deixa­ rá nem nos desamparará. Até o homem segundo o coração de Deus, Davi, pediu que ele não lhe retirasse o Espírito Santo.

Davi suplicou: “Não me expul­ ses da tua presença, nem tires de mim o teu Santo Espírito” .6 Não encontramos súplicas como essas feitas pelos apóstolos que se sujeitam ao Novo. A vida é radicalmente diferente do lado de cá da cruz — uma verdade que temos de reconhecer ao estudarmos o Antigo Tes­ tamento. Lemos sobre as restrições alimentícias, mas não pre­ cisamos viver de acordo com elas. Lemos sobre as ordenações cerimoniais, mas não nos precisamos conformar a elas. Lemos sobre exigências de como guardar o sábado e dizimar, mas não estamos presos a elas. No entanto, tais restrições, ordens, exi­ gências e mandamentos nos permitem apreciar melhor o que Jesus realizou em nosso favor.

Desconsiderar o Antigo Testamento significa cobrir uma enorme parte do retrato que Deus vem pintando há milhares de anos.

6 Salmos 51.11.

71

m e ç o u e m u m jardim, quando uma mulher

mordeu o fruto oferecido por uma serpente.1 E evidente que seu objetivo era cometer uma maldade, certo? Na verdade, não.

Nosso erro é achar que Eva estava motivada pelo desejo de praticar o mal. Nada mais distante da verdade. O que ela queria mesmo era evitar o mal e fazer o bem. Em resumo, queria fazer 0 que Deus faz — escolher por si própria, apta a detectar o mal

e preservar o bem.

A

h i s t ó r i a

c o

A ÁRVORE DA MORALIDADE

Adão e Eva não comeram de uma “ árvore do mal” . Comeram da árvore do conhecimento do bem e do mal. Temos aqui uma distinção importante. Eles não buscavam o pecado como cos­ tumamos pensar. Buscavam uma forma de religiosidade. Tenta­ ram ser como Deus. A serpente foi bem-sucedida em seduzi-los,

e a isca que ela usou foi a religiosidade. Até hoje, isso é visto

como um objetivo válido. Deus, porém, nunca pretendeu que a humanidade tomasse so­ bre si o fardo de desenvolver e seguir um código de ética. A queda

1 V. Gênesis 3.5.

72

Religião é dor de cabeça

no Éden se deveu à astúcia de Satanás em tentar os primeiros humanos a que abandonassem Deus, escolhendo o esforço huma­ no. Adão e Eva repensaram a confiança que tinham no caminho de Deus e optaram por substituí-la pela moralidade. O desejo de criar um sistema próprio de certo e errado foi seu erro fatal. Quando imaginamos Adão e Eva dando uma mordida na fruta, gostaríamos de poder perguntar a eles: “ Como vocês pu­ deram fazer isso? Quer dizer, só havia uma coisa proibida na­ quele jardim, e vocês arruinaram tudo para todos nós!” . Mas qual foi a verdadeira motivação do primeiro casal? Ape­ sar da desobediência flagrante de Adão e Eva, pode-se dizer que eles fizeram o que fizeram por uma razão “justa” . Desejavam

agir “certo” e fazer a coisa “certa” . Queriam distinguir o certo do errado para ter condições de escolher o certo e evitar o errado. Como sabemos que eles não estavam interessados no mal? A

afirmação persuasiva da serpen­

te foi:

merem a fruta dessa árvore, os

seus olhos se abrirão, e vocês se­

Adão e Eva repensaram a confiança que tinham no caminho de Deus e optaram por substituf-ia pela moralidade.

“ [

]

Quando vocês co­

rão como Deus [

os dois ficaram de queixo caído.

Admiravam a bondade divina e desejavam exibir essa mesma qualidade. Não tinham o menor interesse na busca do mal. Aca­ so já tinham visto algum comportamento pecaminoso antes? O pecado original não foi Adão e Eva torcerem o nariz para a bondade de Deus. Foi a vontade de serem autores de um sistema próprio de certo e errado, de modo que pudessem ter certeza de que estavam agindo corretamente e evitando erros. Hoje, pode­ mos ser enganados pelo mesmo tipo de oferta. Podemos acabar

]’\

2 Com isso,

0 evangelho nu

perseguindo o conhecimento do bem em vez de ouvir nosso an­ seio sincero por um relacionamento íntimo com Jesus Cristo.

UMA QUESTÃO DE VIDA OU MORTE

Por intermédio da história do Éden, identificamos nossa ne­ cessidade de uma vida verdadeira, não de mero conjunto de instruções sobre como viver. Contudo, essa nossa necessidade não é transmitida apenas pelo Gênesis. Impressiona como de­ terminadas palavras das Escrituras se destacam à medida que tomamos consciência de seu significado. Palavras como vida e morte saltam da página quando começamos a entender que o

cristianismo não pretende satisfazer a necessidade equivocada que a humanidade tem de uma religião. O verdadeiro relacio­ namento com Deus satisfaz nossa mais profunda necessidade ao restaurar nossa vida espiritual genuína. Enquanto alguns veem o

cristianismo como um progra­ ma de aperfeiçoamento com- portamental, a história do Éden revela que o desejo de aprimo­ rar comportamentos foi a causa da morte espiritual. Nosso pro­

blema não está na falta de leis morais. Uma quantidade enorme de programas para desenvol­ ver comportamentos moral e socialmente aceitáveis proliferam nas religiões do mundo inteiro, e até em vários movimentos não religiosos. Poderiamos beneficiar-nos de vários deles se nossa necessidade básica se restringisse apenas a um código de ética

para direcionar nossas escolhas de vida. A Bíblia é radical e ensina que o principal problema da hu­ manidade não é o que estamos fazendo, mas nossa falta de vida ao fazê-lo. Paulo descreve o problema nos seguintes termos:

Wjâ

0 cristianismo não pretende satisfazer a necessidade equivocada que a humanidade tem de uma religião.

74

Religião é dor de cabeça

Portanto, da mesma forma como o pecado entrou no mundo por um homem, e pelo pecado a morte, as­ sim também a morte veio a todos os homens, porque todos pecaram.3

Vocês estavam mortos em suas transgressões e pecados.4

DIETA

PARA OS M ORTOS?

Imagine encontrar o corpo de um homem jogado à beira da estrada. Você resolve parar a fim de verificar a condição em que ele se encontra. Você estaciona o carro, salta e corre em direção ao homem, já de mãos estendidas para tomar-lhe o pulso. Não encontra sinal de vida. Ele está morto, talvez por causa de um ataque cardíaco. O que fazer? Pela aparência, você deduz que o coração dele pode ter parado em decorrência de uma vida intei­ ra de hábitos alimentares ruins. Na mesma hora, você se põe

em pé de um salto e corre em direção ao carro, de onde apa­ nha um livro de dieta. Começa então a gritar as informações importantes que vai lendo à medida que retorna para junto

do morto: “ Capítulo 1: Alimen­ tar-se de forma saudável!” . Pare e pense no absurdo da situação. Não há no mundo in­ formação sobre hábitos alimentares capaz de ressuscitar o ho­

mem. Ele já morreu. A única solução real seria que lhe dessem de alguma maneira um novo período de vida. Do mesmo modo, não há no mundo informação capaz de mudar o coração de

í

Não há no mundo informação capaz de mudar o coração de uma pessoa espiritualmente morta.

Romanos 5.12, grifo nosso. Efésios 2.1.

75

0 evangelho nu

uma pessoa espiritualmente morta. A vida é a única solução para a morte:

Quando vocês estavam mortos em pecados e na incir-

cuncisão da sua carne, Deus os vivificou com Cristo [

].5

[

]

Deus, [

],

pelo grande amor com que nos amou,

deu-nos vida com Cristo, quando ainda estávamos mor­ tos em transgressões — pela graça vocês são salvos.6

Deus conhecia nossa verdadeira necessidade. E, por meio de Cristo, ele a satisfez oferecendo-nos vida.7 A Lei ou qual­ quer outro sistema moral jamais poderia oferecer vida. Embo­ ra alguns talvez pensem que a Lei resolve seus problemas, na realidade ela só traz maior consciência da morte. Como vimos antes, a Lei não é uma incentivadora. Pelo contrário, é uma crítica severa. Conscientiza as pessoas de que elas têm um sé­ rio problema interior. Mesmo depois de todos os esforços con­ centrados para refrear nosso comportamento, a Lei permanece sempre presente para nos condenar. O próprio apóstolo Paulo admitiu ter acreditado que a Lei fosse o máximo em termos de experiência espiritual. Ele se de­ sapontou dolorosamente quando acabou sentindo-se vazio por dentro: “Descobri que o próprio mandamento, destinado a pro­ duzir vida, na verdade produziu morte” .8

Po r q u e

J e s u s

fe z

o

q u e

f e z ?

Por que Jesus parece desviar-se de seu caminho para opor-se aos fariseus e a outros líderes religiosos? Por que ele os enfureceu durante todo o seu ministério? Jesus curou no sábado, e eles o

5

Colossenses 2.13, grifo nosso.

6

Efésios 2.4,5, grifo nosso. V. informação adicional 2.

8

Romanos 7.10.

76

Religião é dor de cabeça

odiaram por isso. Virou as mesas de câmbio, e desprezaram-no por isso. Chamou-os de víboras, e isso não contribui nem um pouco para melhorar a relação entre eles. Mas Jesus fez essas coisas para mostrar a diferença entre a vida verdadeira e a falsa técnica da modificação autocentrada de comportamento.

O que séculos de vida sob o jugo da Lei haviam produzido

na sociedade judaica na época em que Jesus entrou em cena? Uma agenda determinada por fariseus que estavam a mundos de distância do objetivo de Jesus. Enquanto os fariseus se pavo­ neavam pelas ruas da cidade condenando prostitutas e bêbados por comportamentos francamente pecaminosos, Jesus se tor­ nava amigo desses mesmos indivíduos. Jesus era gentil, miseri­ cordioso e bondoso com os pecadores, ao passo que os fariseus eram duros, rudes e críticos. Parece que as únicas pessoas capazes de irritar Jesus eram os governantes religiosos da época. Por quê? Porque os mestres da Lei não eram sinceros consigo mesmos nem com os outros. Primeiro, após diluir a força da Lei a ponto de forjar uma mis­ tura palatável, pintavam um quadro ilusório de sucesso espiritual submisso à Lei. Segundo, acres­ centavam regras próprias e ba­

A Lei só gera duas coisas: destruição se você é sincero, e hipocrisia se não é.

tiam no peito enquanto se gabam como elite espiritual. Jesus odia­

va a

duas coisas: destruição se você é

sincero, e hipocrisia se não é. Pela ressurreição, Jesus acabaria oferecendo vida genuína a seus contemporâneos judeus. Os zelotes religiosos da época tra­ balhavam contra ele ao fingirem já possuir vida.

hipocrisia, e a Lei só gera

A própria fonte de vida enxergou além dessa dissimulação.

77

PARTE

3

C r u z a n d o

FRONTEIRAS

A Cruz é o acontecimento central do tempo e da eternidade; a resposta para todos os problemas de ambas as questões. Oswald Chambers (1874-1917)

Se v o c ê t i v e s s e d e p r e g a r sobre o “filho pródigo” a um pai e

a uma mãe, como acha que eles reagiríam? Você deve lembrar

que o filho pródigo pediu antecipação de sua parte da herança paterna, para que pudesse desfrutar o melhor que a vida tinha

a oferecer: “Pai, estive pensando se poderia receber sua herança

. Boa sorte para quem resolver tentar uma coisa dessas hoje, não? Simplesmente não é assim que se faz. Você pode acabar com algum dinheiro na mão, mas não com a herança. Os ad­ vogados logo o frustrariam. Não é legal pegar o dinheiro de uma herança a menos que seu autor seja dado como morto. E interessante notar que Hebreus faz esta importante afirmação:

em dinheiro antes que o senhor morra

No caso de um testamento, é necessário que se com­ prove a morte daquele que o fez; pois um testamento só é validado no caso de morte, uma vez que nunca vigora enquanto está vivo quem o fez.1

Por que toda essa conversa sobre testamento, sistema legal e herança? Aqui o autor de Hebreus traça uma analogia entre um

1 Hebreus 9.16,17, grifo nosso.

81

0 evangelho nu

testamento que entrará em vigor e uma aliança que passará a

vigorar. Na verdade, os termos testamento e aliança são tradu­ ções da mesma palavra grega. A analogia do autor e seu jogo de palavras servem para fa­ zer uma importante afirmação. Assim como o testamento não

é válido sem que alguém morra, a aliança não é válida sem que

ocorra uma morte. Isso quer dizer que a Nova Aliança não co­

meçou com o nascimento, mas sim com a morte de Jesus. Como você pode imaginar,

essa declaração carrega im­ plicações radicais. Primeiro, o Novo Testamento não come­ ça de verdade em Mateus 1.1.

Tampouco em alguma outra página da Bíblia. Ele começa no ponto da história em que o sangue de Jesus foi derramado. Sangue algum foi derramado no primeiro capítulo de Ma­ teus, nem houve morte sacrificial na manjedoura. Não foi o nascimento do nosso Salvador que mudou tudo. Foi sua morte

que inspirou os apóstolos a declarar a mensagem de “ fora com

o Antigo” e “que entre o Novo” . Como Paulo declara, Jesus nasceu “ [

debaixo da Lei, a

fim de redimir os que estavam sob a Lei [, .2*Assim ele viveu

durante trinta e três anos sobre o planeta Terra, enquanto as pessoas ao redor ainda operavam segundo as orientações do Antigo, não do Novo.* Para onde devemos olhar, então, a fim de ver o Novo? Os primeiros efeitos do Novo ficam evidentes no livro de Atos, no Pentecoste.4 As cartas dos apóstolos para a igreja nos instruem sobre a vida em conformidade com o Novo.

A Nova Aliança não começou com o nascimento, mas sim com a morte de Jesus.

]

]”

-

Galaras 4.4,5. V. informação adicional 3.

4

V. informação adicional 4.

S2

Cruzando fronteiras

O V E R D A D E IR O

C O M E Ç O

Quando tentamos misturar o Antigo com o Novo, acabamos com uma aliança contraditória, fruto da nossa invenção. Foi aí que vivi durante anos. Como havia alguns elementos do Novo em minha aliança imaginária, isso não me matou de imediato. Em vez disso, permitiu-me sofrer uma morte mais lenta. Eu adotara um sistema de crenças constituído basicamente por um equilíbrio entre o Antigo e o Novo. Nem eu sofria de­ baixo da rigidez da Lei como um todo, nem desfrutava o êxtase da graça incondicional. Por essa razão, anos haveriam de se passar antes que essa forma de relacionamento com Deus enfim

cobrasse seu preço. Ao ler isso, talvez você pense: Bem, isso não é problema meu. Nunca tive de lutar para tentar decidir se estou ou não debaixo da Lei. Eu sempre soube a verdade. Pode ser, mas isso também era verdade para mim! Eu jamais diria que precisava conformar-me à Lei judaica — longe disso. Não era a lei mosai­ ca que me mantinha refém; era minha própria fórmula de Lei moderna por meio da qual eu tentava sobreviver. Ao voltar minhas antenas para o mundo cristão que me rodeava, captei a mensagem sutil de que havia certas exigên­ cias a cumprir a fim de permanecer no favor de Deus. Aquela coleção de “Tu farás” — lerás tua Bíblia, compartilharás tua

de uma série de atividades da “ igreja” — era

uma régua pela qual eu determinava meu valor e posição. Tais

fé, participarás

critérios serviam de método concreto para determinar se eu tinha ou não um relaciona­ mento certo com Deus. Eu já aceitara a obra de Cristo como meio para chegar

Era minha própria fórmula de Lei moderna por meio da qual eu tentava sobreviver.

O evangelho nu

ao céu, mas levava uma surra do meu jeito de conduzir a vida cotidiana. A Lei como sistema operacional diário estava cum­ prindo sua função.

C a n c e l a m e n t o

Se estamos agora orientados por uma uma Nova Aliança, o que houve com a Antiga? Ainda existe lugar para ela em nós? O que dizem as Escrituras? Hebreus descarta a ideia de misturar as duas:

Ele cancela o primeiro para estabelecer o segun­ do. Pelo cumprimento dessa vontade fomos santificados, por meio do sacrifício do corpo de Jesus Cristo, ofereci­ do uma vez por todas.5

[

]

Por intermédio do Novo, encontramos nossa posição como filhos santos de Deus. A primeira (Antiga) aliança foi cancelada porque não tornava ninguém perfeito. Afinal de contas, era um sistema baseado em desempenho, e ninguém consegue um desem­ penho que corresponda a seus padrões! Imagine pisar em ovos a vida inteira tentando cumprir tudo o que está escrito na Lei. De­ vastador! Por esse motivo, o Antigo é agora obsoleto. Foi cance­ lado como resultado da nossa incapacidade de cooperar com ele:

Chamando “nova” esta aliança, ele tornou antiqua­ da a primeira; e o que se torna antiquado e envelhecido está a ponto de desaparecer.6

A ordenança anterior é revogada, porque era fraca e inútil (pois a Lei não havia aperfeiçoado coisa alguma), sendo introduzida uma esperança superior, pela qual nos aproximamos de Deus.7

5 Hebreus 10.9,10, grifo nosso.

6 Hebreus 8.13.

7 Hebreus 7.18,19.

84

Cruzando fronteiras

O que o autor de Hebreus está dizendo? Que o Antigo é “ fraco e inútil” em sua tentativa de nos aperfeiçoar. Hoje, te­ mos opção melhor — o Novo. Esse novo sistema introduzido pela morte de Jesus Cristo funciona de fato. Põe-nos em posi­ ção perfeita mesmo que nosso desempenho não o seja. Só pelo Novo podemos de verdade aproximar-nos de Deus. Quando me sinto distante de Deus, é porque me avaliei e me achei em falta. Isso me leva a acreditar que ele me avalia pelo mesmo padrão. Então acabo chegando à falsa conclusão de que Deus está longe de mim. Por essa lógica, o que faço para me aproximar de novo? E evidente que a única opção seria alcan­ çando êxito como nunca tive antes. As Escrituras são claras, contudo só há um modo de apro­ ximar-se de Deus — através da Nova Aliança. Qualquer outro caminho é uma cópia falsificada, invariavelmente enraizada em paralelos equivocados com os relacionamentos humanos e con­ duzida por sentimentos momentâneos.

85

sobre a Lei.

Mas o que diz a respeito? E de que maneira as palavras de Jesus deveriam afetar nosso modo de aplicá-la hoje?

E m

t o d o s

o s

q u a t r o

E v a n g e l h o s ,

Jesus

fala

A m p l ia ç ã o

e

e s p e l h o s

Lembro que, quando criança, tinha fascínio por um espelho da minha mãe que ficava junto à pia. Era um espelho de mesa, re­ dondo e dupla face. Bastava girá-lo em torno de um eixo para passar do reflexo normal para um reflexo três vezes maior. *\pós lavar o rosto, eu me olhava no lado normal. Meu rosto parecia limpo e claro. Quando virava o espelho, no entanto, o lado aumentado revelava coisas que eu não conseguira ver antes. Falhas na pele antes escondidas se tornavam visíveis na imagem ampliada. Aqui estão dois exemplos de como Jesus falava sobre a Lei. Analisando suas palavras, veja se você consegue identi­ ficar de que maneira ele expõe, como uma lente de aumento, a sujeira no rosto da humanidade. Até os campões da época em cumprimento da Lei pareciam imundos à luz do que a Lei de fato requer:

86

Cruzando fronteiras

“Vocês ouviram o que foi dito aos seus antepassados:

‘Não matarás’, e ‘quem matar estará sujeito a julgamen­ to’. Mas eu lhes digo que qualquer que se irar contra seu '

irmão estará sujeito a julgamento [

].”

“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Não adulterarás’. Mas eu lhes digo: Qualquer que olhar para uma mulher para desejá-la, já cometeu adultério com ela no seu coração.”12

O que Jesus estava fazendo ao falar a respeito da Lei? Ele a ampliava, como o espelho de dupla face ampliava as manchas do meu rosto. Jesus usava a Lei para mostrar aos líderes religio­ sos qual era exatamente sua posição. Em geral tentamos aplicar diretamente à nossa vida cada palavra proferida por Jesus, sem levar em consideração seu público e propósito. Mas o contexto dos rígidos ensinamentos de Jesus deve ser visto à luz da linha divisória entre o Antigo e o Novo. Lembre-se de que Cristo nasceu na era da Anti­ ga Aliança (a Lei):

Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus en­ viou seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo da Lei, a fim de redimir os que estavam sob a Lei, para que recebéssemos a adoção de filhos.3

Jesus nasceu debaixo da Lei. Seu público estava debaixo da Lei e precisava ser liberto. Mas o que Jesus ensinaria sobre o atual sistema religioso? Elogiaria seus ouvintes pelo desempenho apresentado? Faria que se sen­

tissem satisfeitos com seu status quo? Ou chamaria a atenção

0 público de Jesus estava debaixo da Lei.

1 Mateus 5.21,22, grifo nosso.

2 V. Mateus 5.27,28, grifo nosso. Gaiatas 4.4,5, grifo nosso.

87

0 evangelho nu

para suas tentativas frágeis de guardar a Lei? Naturalmente, a última opção. Do contrário, de que serviría sua obra na cruz? Jesus expôs a inutilidade da vida debaixo da Lei. Exclamou:

“Arranque [seu olho direito] e lance-o fora” e “corte [a sua mão

direita] e lance-a fora” se você

que seus ouvintes judeus se vissem em uma encruzilhada: ou resolveríam se esforçar mais, ou desistiríam. Que reação você acha que Jesus esperava ao virar o espelho para que eles vissem o próprio rosto ampliado e sujo? Quando desistissem, passariam a considerar um caminho novo e radical. A verdadeira intenção de Jesus talvez fique mais clara na história do jovem rico. Esse homem dera seu melhor tentando guardar a Lei. Jesus olhou para ele e o amou. Mas então por que ele apontou para a única coisa que o rapaz não podia fa­ zer? Por que dispensá-lo e fazê-lo retirar-se de coração partido?

quer mesmo guardar a Lei,4 para

“Mestre, a tudo isso tenho obedecido desde a mi­

nha adolescência.” Jesus olhou para ele e o amou. “Falta-lhe uma coi­ sa”, disse ele. “Vá, venda tudo o que você possui e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois, venha e siga-me.” Diante disso ele ficou abatido e afastou-se triste, por­ que tinha muitas riquezas.5

] [

Temos de anunciar nossos bens num site de comércio eletrô­ nico para entrarmos no Reino? Jesus disse que sim, não foi? Mas isso não condiz com os ensinamentos do Novo Testamento sobre a salvação pela fé somente. A lição impossível de Jesus, “Venda tudo, corte partes do próprio corpo se necessário, seja perfeito

4 V. Mateus 5.29,30.

5 Marcos 10.20-22.

88

Cruzando fronteiras

como Deus e ultrapasse os fariseus em justiça” , não é compatível de verdade com a mensagem da salvação como dom de Deus. Não poderiamos resolver isso tudo enxergando a linha di­ visória na história humana? Pedro, Tiago, João e Paulo es­ creveram epístolas sobre a vida orientada pela Nova Aliança. Anos antes, o ensino de Jesus

mostrava que no Antigo sis­ tema só havia desesperança. A platéia não era a mesma. A aliança não era a mesma. Tam­ pouco os ensinamentos.

i 0 ensino de Jesus mostrava que no Antigo sistema só havia desesperança

U m

s e r m ã o

d e

a r r a s a r

Barbara lutava contra a depressão havia mais de uma década. Circunstâncias dolorosas deixaram-na devastada, a ponto de lhe restar pouca esperança. Um dia, ela assistia à TV quando o programa da nossa igreja entrou no ar. Barbara me ouviu falar sobre a batalha que eu tive contra a culpa e a ansiedade em nome de um pretenso desempenho em nome de Deus. Barbara travava uma luta tão semelhante que decidiu telefo­ nar para mim. Conversamos apenas duas vezes e ela já come­ çou a observar certa mudança. Havia uma diferença no modo de ela se sentir acerca de si própria, sua percepção de Deus e seu nível de energia como um todo a cada novo dia vivido. Barbara compartilhou comigo que se sentia desanimada len­ do a Bíblia. Havia sempre mais obrigações a cumprir do que ela estava fazendo. “Toda vez que pegava minha Bíblia, eu me sentia um fracas­ so” , confessou. Ultimamente, no entanto, isso mudou. Examináramos uma dúzia de passagens das Escrituras sobre sua identidade em

89

0 evangelho nu

Cristo, sua libertação das exigências da Lei e o perdão ilimita­ do que ela encontra em Cristo. Barbara me contou que, ao fixar

a mente nessas verdades, começou a experimentar um alívio da depressão debilitante. Uma noite, contudo, ela entrou no meu escritório com a ex­ pressão novamente desolada.

— O que houve? — perguntei.

— Passei a maior parte da semana bem, lendo os versículos

que você recomendou — ela explicou. — Mas então resolvi ler

o

Sermão do Monte de Jesus. A partir de então, não sei ao certo

o

que aconteceu.

— Ah, entendo — respondí. — Posso assegurar que o que

você experimentou é normal para qualquer filho de Deus since­ ro, ansioso por fazer a vontade dele, quando lê essa passagem.

Expliquei a linha divisória entre o Antigo e o Novo. Falei que os ensinamentos severos de Jesus, cujo alvo era as pessoas religiosas, deixavam-nos arra­

sados cada vez que os líamos. Barbara começou a enxergar a diferença entre o que Jesus en­ sinava para os judeus e o que Deus queria que ela usufruísse debaixo do Novo. Seu semblan­ te se iluminou. Mais uma vez, a

r

_

Os ensinamentos severos de Jesus, cujo alvo era as pessoas religiosas, deixavam-nos arrasados cada vez que os líamos.

verdade cumprira sua missão. Distinguir o Antigo do Novo é algo sempre libertador.

90

13

A

l g u n s

d o s a guardar a Lei in­

teira ou porções da Lei, mas Paulo não mede palavras ao tratar a questão: “ Porque o fim da Lei é Cristo, para a justificação de todo o que crê” .1 No entanto, a substituição de regras pela obra do Espírito não é um fenômeno novo. Quase dois mil anos atrás, Paulo ficou indignado com crentes a quem ensinara

pessoalmente. Eles estavam afastando-se da mensagem simples “Jesus e mais nada” . Emocionado, suplicou-lhes que reconside­ rassem sua posição:

a f i r m

a m

q u e

s o m

o s

o b r i g a

Ó gálatas insensatos! Quem os enfeitiçou? Não foi diante dos seus olhos que Jesus Cristo foi exposto como crucificado? Gostaria de saber apenas urna coisa:

foi pela prática da Lei que vocês receberam o Espírito, ou pela fé naquilo que ouviram? Será que vocês são tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, querem agora se aperfeiçoar pelo esforço próprio?12

Mais adiante, no mesmo capítulo, Paulo esclarece o relacio­ namento dos crentes com a Lei: “Assim, a Lei foi o nosso tutor

1 Romanos 10.4, grifo nosso.

0 evangelho nu

até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé. Agora, po­ rém, tendo chegado a fé, já não estamos mais sob o controle do tutor” .3

A Lei nos conduziu a Cristo. De que maneira? Agindo como um padrão de medida com o

qual medimos nossa moralida­ de. Não alcançamos o objetivo. A solução de Deus foi justificar- -nos, declarar-nos retos, por obra de Cristo. Paulo então nos pede para considerar o seguinte: Primeiro, como recebemos o Espírito — pela fé ou pela Lei? Segundo, o que deve supervisio­ nar nossas ações agora?

A Lei nos conduziu a Cristo.

MÚLTIPLA ESCOLHA

Na faculdade, eu ficava aliviado quando os professores esco­ lhiam o formato da múltipla escolha para as provas. Mesmo sem estudar, havia a possibilidade de eu me esforçar e identi­ ficar a resposta certa. Em Gaiatas, o apóstolo questiona seus leitores sobre os anos de aprendizado a que se submeteram de­ baixo de seu ensino. E Paulo ainda facilita as coisas para eles dando-lhes opções de múltipla escolha. Se Paulo fosse reescrever essa porção da carta em formato de teste, talvez ela ficasse assim:

Questão 1: Como você foi salvo?

O

guardando a Lei

O

crendo na Palavra que ouvi

Questão 2 : Como espera crescer?

O

por meu próprio esforço

o

Pel° Espírito

3 Galaras 3.24,25.

92

Cruzando fronteiras

Servindo-se dessa linha de questionamento, Paulo insta os cristãos a que continuem do mesmo jeito que começaram. Eles começaram crendo e abrindo-

-se para a obra do Espírito. Sua salvação não tivera nada a ver com a Lei. De igual modo, tam­ pouco a maturidade em Cristo é

alcançada por esforço humano. Paulo enfatiza que a Lei não deve agir como nosso tu­ tor. Ele está referindo-se à salvação ou à vida cotidiana? Às duas coisas. Primeiro, somos salvos ao ouvir pela fé. Uma vez salvos, nossa vida cotidiana é vivida pela fé no Cristo que

habita em nós, não pela Lei. O Espírito em nós é mais que suficiente para produzir vida, coisa que a Lei jamais conse­ guida: “ Mas, se vocês são guiados pelo Espírito, não estão debaixo da Lei” .4

•7‘

Nossa vida cotidiana é vivida pela fé no Cristo que habita em nós, não pela Lei.

A FÓRMULA SECRETA

Portanto, se as Escrituras dizem que não há lugar para a Lei na vida do crente, a questão mais lógica que se segue é: se a Lei não nos serve de guia moral, quem exerce esse papel? Como cristãos, temos o desejo inato de que nosso comportamento seja o correto. De fato, a vontade de agradar a Deus é o que leva alguns a abraçar o erro de uma vida baseada na Lei! Felizmente, Deus não nos tirou de debaixo da Lei para nos deixar sem nada. Quando cremos, o Espírito Santo passa a vi­ ver em nós. Ele produz frutos por nosso intermédio quando dependemos dele. Mas é importante reconhecer o “ sistema” utilizado pelo Espírito Santo no lugar da Lei. Ele opera atra­ vés de um sistema radicalmente diferente, a saber, o sistema

4

Gálatas5.18.

93

0 evangelho nu

denominado graça. Reconhecer a obra do Espírito Santo em nossa vida requer um sólido entendimento da graça. Com frequência, no entanto, a ideia que temos de graça nada mais é que misericórdia. Nesse caso, a definição típica de graça poderia ser algo como: “A graça entra em ação quando o castigo é reduzido ou dispensado depois que alguém faz algo errado” . A graça costuma ser vista como uma resposta ao pe­ cado, algo muito parecido com o perdão de um crime capital. Mas o Novo Testamento retrata a graça de maneira muito mais ampla. Observe o que ela faz na vida dos cristãos:

Porque a graça de Deus se manifestou salvadora a to­ dos os homens. Ela nos ensina a renunciar à impiedade e às paixões mundanas e a viver de maneira sensata, justa e piedosa nesta era presente.'

Graça é o sistema que o Espírito Santo usa para nos aconse­ lhar e nos ensinar dia após dia. A graça ocupa seu lugar, tenha­ mos ou não pecados recentes. Nossa preocupação natural é que a ausência da Lei resulte em um estilo de vida fora de controle, no entanto isso contradiz o que as Escrituras declaram sobre os efeitos da graça. Ela não é apenas um tratamento para o peca­ do; na verdade, é a cura para o pecado! Quando questionamos a função da graça em nossa vida, insultamos a inteligência de Deus. Ele introduziría uma Nova Aliança que não só permite como também, na verdade, promo­ ve o pecado? Deus é tolo a ponto de achar que a graça de fato nos motiva a levar uma vida de temor a Deus? O segredo é que a graça desativa nosso orgulho. Retirar a Lei de nossa vida significa que nosso esforço próprio não é mais estimulado a assumir um comportamento de controle. A Lei in­ centiva o esforço humano. Encoraja-nos a depender de recursos

5 Tito 2.11,12, grifo nosso.

94

Cruzando fronteiras

externos a Cristo. Contudo, a aceitação incondicional desativa

o

esforço humano e permite que

o

Espírito Santo seja tudo o que

A Lei incentiva o esforço humano.

ele quiser ser através de nós. Nosso maior medo é não termos o controle. Acontece que não fomos criados para ocupar o controle. O autocontrole tem sempre sido um atributo natural do Espírito Santo. O motivo pelo qual ele vive dentro de nós é para produzir o autocontrole que tememos perder debaixo da graça. Paulo nos incentiva a confiar na graça debaixo da Nova Aliança citando as palavras do próprio Jesus sobre o assunto:

Mas [Jesus] me disse: “Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Por­ tanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim.6

Jesus não parece temeroso acerca das consequências de toda essa graça na vida de Paulo. A graça não é mera resposta ao pe­ cado. E o centro do Novo. Permite que Jesus produza por nosso intermédio o que for necessário no momento. Depois de ouvir essa postura divina sobre a graça, Paulo conclui que Alguém maior do que ele operará em sua vida. Jesus produzirá o que ele não consegue. O mesmo vale para nós hoje.

Fu g a

d a

p r is ã o

Pessoas que cumprem penas judiciais longas sempre têm de lutar muito quando são soltas. Acostumam-se aos limites da prisão. Em certo sentido, paredes e barras de ferro proporcionavam a

6 2Coríntios 12.9.

95

O evangelho nu

elas um senso de segurança. Sempre havia alguém para lhes di­ zer quando tomar banho, quando comer, quando se exercitar e quando dormir. Cada aspecto da vida era regulado sob o olhar vigilante dos guardas. Uma vez libertas, algumas se sentem apreensivas. De uma hora para outra, têm de decidir sozinhas para onde ir, quando fazer o quê e o que fazer do resto da vida. De semelhante modo, a libertação da Lei pode inquietar al­ guns de nós. Quando os limites desaparecem, cabe a nós deci­ dirmos o que é ou não proveitoso. Mas isto é maturidade cristã:

como estamos em Cristo e ele está em nós, não recorremos a regras exteriores para determinar cada movimento; em vez dis­ so, somos instados a que nos afastemos da escravidão religiosa, rumo a uma maravilhosa liberdade, sem nunca olhar para trás:

Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portan­ to, permaneçam firmes e não se deixem submeter nova­ mente a um jugo de escravidão.*8

V. informação adicional 5.

8 Gaiatas 5.1.

96

Pa r t e

At e a n d o

4

f o g o

ÀS MATRIOSKAS

Não nos consideremos distantes quando Deus nos fez um com ele. Hudson Taylor (1832-1905)

Q

um pecador?

uan tos

p e c a d o s

são

14

n ecessário s

para

alguém

se tornar

Sempre proponho essa questão durante nosso seminário “O

evangelho

nu” . E, normalmente, vejo a maior parte da platéia

formando

a palavra um com os lábios.” Só é necessário um pe­

cado para

alguém se tornar um pecador” , respondem.

Na verdade, não é preciso nenhum — zero. Nós nascemos pecadores. Sei o que você está pensando. A pergunta é capciosa. Talvez, mas a resposta mais frequente à questão revela o que as pessoas comuns creem sobre a natureza. A natureza humana. Quando compramos a ideia de que é necessário um pecado para alguém

se

tornar um pecador, presumimos o seguinte:

Fazemos a fim de sermos.

• Presumimos que o fazer precede o ser.

• Por conseguinte, as pessoas tornam-se pecadoras ou santas fazendo coisas que pecadores ou santos fazem.

Mas isso é bíblico? Não creio. E, como resultado, isso impede

o

descrente de entender sua natureza decaída por nascimento.

99

0 evangelho nu

Também impede o cristão de compreender sua nova natureza pelo novo nascimento. No entanto, se conseguirmos entender que somos pecadores por nascimento, seremos capazes de ver que só pelo nascimento — nosso novo nascimento — podemos tornar-nos santos.

SANTOS DE NASCENÇA

Em um piscar de olhos, os cristãos compram a ideia de que o mundo está cheio de pecadores. Uma vez esclarecidos pelas Escrituras, também concordamos que nascemos em condição pecaminosa. Talvez porque a morte espiritual seja um estado vil, concordamos facilmente com a ideia de que o mundo está caído. Mas, quando se trata de acreditar que somos 100% jus­ tificados pelo renascimento, gaguejamos e temos dificuldade para falar. Resumindo, nós, crentes, concordamos que “o nas­ cimento determina a identidade” para o mundo, mas não para nos.

0 nascimento

determina a

identidade.

Segundo a linha católica de pensamento, santos são aqueles que sofreram pelo evangelho.

Eles realizaram milagres e su- postamente alcançaram um estado moral mais elevado do que os simples José e Maria que existem por aí. No pensamento pro­ testante, contudo, a palavra santo não costuma ser usada para descrever um indivíduo cristão. Parecemos sentir-nos mais con­ fortáveis com os termos crente, cristão ou salvo. De fato, somos capazes de nos descrever como pecadores, embora mais que de­ pressa acrescentemos a expressão salvos pela graça ao final da frase.

Muita gente tem dificuldade de aceitar o adjetivo santos (sig­ nificando “sagrados” ou “reservados, separados para Deus” ). De

100

Ateando fogo às matrioskas

igual modo, usar a palavra justos para nos descrever às vezes é visto como um exemplo perfeito de arrogância. Mas são exata­ mente esses os termos que Deus usa para descrever quem está em Cristo. Como ele pode se sentir à vontade empregando esses adjetivos ao mesmo tempo em que tem plena consciência dos nossos defeitos e fracassos? Para responder a essa questão, pre­ cisamos examinar em mais profundidade a ideia de que o nasci­ mento determina a identidade. E, ao longo do caminho, creio que descobriremos alguns fatos impressionantes sobre quem somos.

O s

RECTOR E OS FARLEY

Quando eu era adolescente, minha família e eu moravamos em uma fazenda de cavalos no norte da Virgínia. Nossos únicos vizinhos próximos eram os Rector. Havia quatro meninos na família, e eu gostava muito de passar o tempo com eles. Andá- vamos a cavalo, pescavamos e corríamos pela fazenda sobre quadriciclos. Dois filhos dos Rector eram mais velhos que eu; por isso eu os respeitava. Eles eram legais comigo e eu me sentia privilegiado em poder segui-los de perto aonde quer que fossem. De repente eu me vestia como os Rector, penteava o cabelo como eles, até falava e agia como eles. Eu ia à casa deles quase todos os dias, almoçava com eles, brincava com o cachorro deles, Skipper, e jo­ gava futebol americano no quintal deles. Eu me sentia um Rector. Sempre que acontecia uma reunião ou encontro de família, contudo, a realidade se impunha. Eu não era convidado. Em­ bora parecesse com eles, falasse e agisse como eles, não era um Rector de nascença. Minha certidão de nascimento sempre dirá Farley. Ainda que eu fosse adotado pelos Rector, não partici­ paria de verdade da linhagem de sangue dos Rector. Por quê? Porque o nascimento determina a identidade.

101

0 evangelho nu

Com certeza você consegue enxergar o paralelo com nossa identidade espiritual. Quando aparecemos no planeta Terra, nossa certidão de nascimento registra família de Adão. Famí­ lia de Adão aqui significa que nascemos em Adão. Devido ao nosso nascimento natural na linhagem adâmica, estamos espi­ ritualmente mortos, por nascimento e por natureza. A queda de Adão e Eva aconteceu antes que eles gerassem Caim, Abel, Sete e outros filhos. Então, assim como Caim ti­ nha o nariz do pai e Abel recebera os olhos da mãe, os filhos também herdaram a genética espiritual. No longo prazo, o re­ sultado foi uma raça de humanos espiritualmente mortos de nascença, a começar do primeiríssimo descendente. Não importa o que façamos, não temos como nos tornar vivos em espírito, da mesma forma que eu não conseguia trans­ formar-me em um Rector. Somos capazes de produzir uma reforma no nosso comportamento, mas nenhum esforço de es­ pécie alguma nos transferirá da linhagem espiritual de Adão para a de Cristo.

Im a g e m

é

t u d o

Embora o próprio Adão tenha sido criado à imagem de Deus, o livro de Gênesis revela que seus filhos nasceram à imagem do próprio Adão:

Este é o registro da descendência de Adão:

Quando Deus criou o homem, à semelhança de Deus o fez; homem e mulher os criou. Quando foram criados, ele os abençoou e os chamou Homem. Aos 130 anos, Adão gerou um filho à sua semelhan­ ça, conforme a sua imagem; e deu-lhe o nome de Sete.1

1 Gênesis 5.1-3, grifo nosso.

102

Ateando fogo às matrioskas

O contraste aqui parece claro. Adão foi feito à semelhança

de Deus, mas o filho de Adão nasceu à semelhança de Adão. E o autor repete: conforme a sua imagem. Portanto, de acordo com as Escrituras, nascemos à imagem de Deus? E verdade que, após

a salvação, somos recriados em Cristo Jesus e estamos sendo

renovados à sua imagem.2 Originalmente, no entanto, somos

descendentes de Adão, o primeiro homem. No nascimento, ostentamos a imagem de Adão.

No início do capítulo, perguntei quantos pecados são necessá­ rios para alguém se tornar um pecador. A resposta é zero, já que nascemos pecadores. Em certo sentido, porém, é mesmo neces­ sário um pecado para que nos tornemos pecadores. No entanto, esse único pecado não foi come­

tido por nós. Romanos 5 revela que o pecado de um homem pro­ duziu os seguintes efeitos:

d N a s c e m o s à imagem

de Deus?

• o

• muitos morreram (v. 15)

• a condenação veio a todos (v. 18)

• muitos foram feitos pecadores (v. 19)

pecado entrou no mundo (v. 1 2 )

A morte espiritual de Adão fez que todos os seus descenden­

tes nascessem espiritualmente mortos. O pecado de Adão trou­ xe condenação a todos nós. E o pecado de Adão fez que cada um de nós se tornasse merecedor do título pecador. O estado espiritual em que nos encontramos origina-se da nossa linha­

gem em Adão, não do que fazemos. Assim como eu imitava os integrantes da família Rector, po­

dia tentar imitar Jesus Cristo pelo resto da vida. Contudo, nem

a

conformidade com um comportamento como o de Cristo me

2

V. Colossenses 3.10.

103

O evangelho nu

incluiría em sua linhagem espiritual. Sou quem sou de nasci­ mento, não por comportamento. Constatar que tudo tem a ver com nosso nascimento, não com nosso comportamento, é esclarecedor. Dá novo sentido à expressão nascido de novo, tantas vezes empregada de maneira equivocada. Essa expressão é proferida com tanta frequência que muitos já perderam de vista seu verdadeiro sentido. No en­ tanto, à luz da nossa linhagem espiritual por nascimento, com­ preendemos por que Jesus usou a expressão. Jesus disse a Nicodemos que a verdadeira necessidade de todo ser humano é nascer pela segunda vez. Ele não preten­ dia com isso incentivar o líder judeu a esforçar-se mais ou

a refinar melhor seu estilo de vida. Antes, estava tratando

o cerne da questão, ou seja, o nascimento. Enquanto alguns consideram o cristianismo um programa de aperfeiçoamen­ to comportamental embala­

do em parâmetros religiosos, Jesus revelou que o plano de Deus era na verdade uma tro­ ca de natureza.

0 plano de Deus era na verdade uma troca de natureza.

O VEREDITO ESTÁ "EM"

Já que nosso problema é uma questão de linhagem, a solução também está relacionada a ela. Se estamos em Adão no nasci­ mento, devemos estar em outro Alguém para que uma mudança genuína aconteça: “ Pois da mesma forma como em Adão todos morrem, em Cristo todos serão vivificados” .3 Falando em termos espirituais, todo mundo está em al­ guém. Ao se tornar cristã, a pessoa não se limita a adotar de­ terminadas doutrinas. Nem lhe é apenas concedido o prêmio

3 lCoríntios 15.22, grifo nosso.

104

Ateando fogo às matrioskas

de entrada no céu. No mesmo dia em que entrega seu coração a Cristo, a pessoa passa por uma cirurgia. Não entende nada do que está acontecendo nem sente nada. Mesmo sendo espi­ ritual, porém, a cirurgia não é menos real do que um procedi­ mento médico.

Na salvação, somos iça­ dos da linha da vida de Adão e transferidos para a linha da

vida de Cristo. Nosso DNA es­ piritualmente morto é extraído por milagre e um novo DNA, vivo, é implantado no nosso espírito. Tornamo-nos parte de uma nova família. Não estamos mais na carne. Estamos no Espírito. A cirurgia tem todos os tipos de implicações em relação a quem de fato somos, para o que fomos projetados e o que nos satisfaz no nível mais profundo da nossa pessoalidade.

Um novo DNA, vivo, é implantado no nosso espírito.

105

M u ito s a n o s atr á s, m in h a m ãe colecionava bonecas russas

conhecidas como matrioskas. Se você conhece esse tipo de bo­ neca, sabe que elas escondem segredos imperceptíveis à primeira

vista. Feitas de madeira, são cortadas ao meio, de modo que, ao puxar a metade superior de uma delas, ela se abre, revelan­ do outra boneca menor no interior. Tirando a boneca seguinte, você descobre mais uma dentro dela, e assim por diante até extrair a última boneca, claro. Olhando de fora para a maior delas, você jamais adivinharia o que há do lado de dentro. Como uma boneca está

dentro da outra, o que aconte­ cer com a maior, isso acontecerá com as demais. Se você erguer

a boneca e colocá-la sobre uma* prateleira, todas as outras den­ tro dela irão para o mesmo lugar. Se a jogar no fogo, as de dentro também serão queimadas.

A maioria de nós nâo pensa muito sobre o que significa estar escondido em Deus.

As matrioskas ajudam-me a entender o que significa estar

está es­

condida com Cristo em Deus” .1 Imagino que a maioria de nós

em Cristo. A Bíblia

conta que nossa vida agora “ [

]

1 Colossenses 3.3.

106

Ateando fogo às matrioskas

não pensa muito sobre o que significa estar escondido em Deus. Mas as Escrituras enfatizam o fato de estarmos em Cristo cerca de seis vezes mais do que o fato de Cristo estar em nós. Eviden­ temente, essa é uma verdade importante da qual Deus quer que nos apropriemos. Paulo fala a coríntios e colossenses sobre essa transferência espiritual do nosso eu para Cristo:

E, porém, por iniciativa dele [de Deus] que vocês es­ tão em Cristo Jesus, o qual se tornou sabedoria de Deus para nós, isto é, justiça, santidade e redenção.2

Pois ele nos resgatou do domínio das trevas e nos transportou para o Reino do seu Filho amado.3

Foi Deus quem mudou nossa posição espiritual. Ele nos transportou de uma posição em Adão para outra posição dentro de Cristo. Em razão da nossa posição original em Adão, éramos como Adão. Graças à nossa nova posição em Cristo, tornamo- -nos como Cristo. Somos espiritualmente vivos e justos. Então como deixamos para trás quem éramos e nos torna­ mos tão diferentes por dentro? Voltemos a atenção para a cirur­ gia que mudou para sempre nosso DNA espiritual.

Se u

p r ó p r io

f u n e r a l

Estamos familiarizados com a crucificação e o sepultamento de Jesus Cristo. Afinal, são eventos históricos. No entanto, é com­ pletamente diferente constatar que

nós também fomos crucificados em espírito e enterrados com Cristo.

2

1Coríntios 1.30, grifo nosso.

3

Colossenses 1.13.

107

N ó s ta m b é m

fomos

crucificados em espírito e enterrados com Cristo.

0 evangelho nu

No momento em que entramos em Cristo na salvação, nosso velho homem é eliminado. Isso acontece quando Deus o ex­ tingue através de uma cirurgia miraculosa, atemporal. Somos crucificados com Cristo:

Ou vocês não sabem que todos nós, que fomos bati­ zados em Cristo Jesus, fomos batizados em sua morte? Portanto, fomos sepultados com ele na morte por meio do batismo [ Pois sabemos que o nosso velho homem foi crucifica­ do com ele 4

Por maravilhoso que seja estar crucificado com Cristo, não é o bastante! Deus vai além ao nos ressuscitar dentre os mortos e nos fazer assentar à sua direita com Cristo: “ Deus nos ressusci­ tou com Cristo e com ele nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus” .5 Durante um curto intervalo de tempo, Jesus Cristo andou como um de nós, em semelhança de carne pecaminosa. Hoje, porém, está assentado nos céus com Deus. E nós estamos uni­ dos a ele! Não nos unimos apenas ao Messias que andou neste mundo e permaneceu por algum tempo em posição inferior à dos anjos. Estamos unidos ao Cristo ressurreto. Às vezes nos vemos como pecadores nos braços amoro­ sos de um Deus que finge não nos ver como de fato somos.

Talvez imaginemos que Deus use um par de “ óculos

de Je­

sus” escondendo de seus olhos nossa real condição. Acha­ mos difícil entender a ideia de que ele nos chama de justos porque somos justos de verdade. Parecemos mais humildes

considerando-nos vermes imundos à espera da metamorfose em lindas borboletas.

4 Romanos 6.3,4,6, grifo nosso.

5 Efésios 2.6, grifo nosso.

108

Ateando fogo às matrioskas

Jesus explicou melhor isso. Afirmou que nossa justiça deve sobrepujar à dos fariseus a fim de entrarmos no Reino.6 Então, se nós, cristãos, não reivindica­

mos a posse da justiça perfeita, rebaixamos o padrão de Deus. Diminuímos a força do evange­ lho. Insinuamos que Jesus pode associar-se ao pecado. E insul­

tamos a perfeição de Deus. Só a perfeição alcançará isso. Por essa razão Deus teve de nos tornar perfeitamente justos em espírito através da nossa morte, do nosso sepultamento e da nossa ressurreição. Com sua aparente humildade, a teologia do verme imundo agrada a car­ ne. Deus, porém, com certeza não fecha os olhos para o lamaçal da péssima autoimagem em que chafurdamos. O Cristo ressurreto não se une a vermes imundos. O Espírito Santo não habita em pecadores sujos. Cristo só se associa àqueles que são como ele em espírito. O Espírito Santo não reside naqueles que permanecem mesmo que apenas 1 % maculados pelo pecado. Todavia, nós fomos perfeitamente limpos. E fomos perfei­ tamente justificados até o mais profundo do nosso ser através de uma cirurgia espiritual. Esse é o único caminho pelo qual podemos desfrutar um mísero momento de relacionamento com Jesus Cristo.

Se nós, cristãos,

não reivindicamos

a posse da justiça

perfeita, rebaixamos

o padrão de Deus.

A ESSÊNCIA

Alguns veem o cristianismo como um movimento ou uma cam­ panha. Observamos as pessoas comportar-se de acordo com de­ terminados padrões e influenciar outras a agir da mesma forma. Em certos sentidos, deixamos de reconhecer que o evangelho

6 V. Mateus 5.20.

109

0 evangelho nu

não tem a ver fundamentalmente com uma modificação de comportamento. Em sua essência, a verdadeira mensagem que ele traz diz respeito a morrer e ser ressuscitado por milagre como uma nova pessoa. Logicamente, a vida em Cristo tem implicações comporta- mentais. Mas não podemos dar-nos ao luxo de permitir que passem em branco as questões da morte e da vida por estarmos obcecados com os efeitos, mas não com a causa. Descrevendo a essência da mensagem, Paulo diz o seguinte:

Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escon­ dida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a sua vida, for manifestado, então vocês também serão mani­ festados com ele em glória."

T r a n s m i t i n d o

a

e s s ê n c ia

Na faculdade, um amigo e eu caminhavamos em círculos du­ rante horas, discutindo questões como graça e fé. Por alguma razão, não conseguíamos concordar em matérias espirituais. Depois de discutirmos por algum tempo, eu finalmente disse:

— Não sei como explicar. Mas a questão não tem a ver com

alguém se esforçar para agir diferente. Tornar-se cristão é como morrer e no dia seguinte acordar uma pessoa totalmente nova. Com essas palavras, demos por encerrada a conversa. Pouco tempo depois, viajei para a Grécia e a Itália, participando de um programa de estudos no exterior; por isso, não vi meu amigo durante quase seis meses.

Poucos dias após meu retorno ao campus, esse amigo se aproximou e disse:

— Ei, afinal entendi o que você queria dizer.

Ateando fogo às matrioskas

— Queria dizer com o quê? — perguntei, tendo esquecido

nossa conversa. — Você sabe, sobre morrer e tornar-se uma pessoa total­ mente nova. Uma noite, comecei a pensar em como você tinha descrito as coisas. Então orei e pedi a Deus para me matar e fazer de mim uma nova pessoa.

“ Deus, por favor, me mate” não é uma oração típica de sal­ vação. Ao longo de seis meses, no entanto, as palavras que eu

escolhera por puro desespero haviam permanecido com meu amigo. E um dia ele resolveu agir baseado nelas. No fim das contas, não foi nenhum dos meus argumentos afiados que penetraram o coração do meu amigo. Foi uma verdade básica — a necessidade de morrer e tornar-se uma nova pessoa. Essa era sua necessidade mais pre­ mente, e foi o que Deus usou para alcançá-lo. A morte e a nova vida são a essência do evangelho.

“ Deus, por favor, me mate” não é uma oração típica de salvação.

É REAL

Aqueles que se entregam a Cristo passam por uma metamorfo­ se miraculosa no centro de seu ser. Quem eram em Adão não existe mais. Eles se transformam em novas pessoas, filhos de Deus em Cristo. O acontecimento-chave que provoca essa mudança é a morte, o sepultamento e a ressurreição com Cristo. Essa tro­ ca miraculosa não é figurativa nem simbólica, mas literal e real. A porção espiritual de todo cristão foi literal e verda­ deiramente crucificada, enterrada e ressurreta com Cristo. O fato de isso acontecer no reino espiritual (e não físico) não a torna menos real.

0 evangelho nu

Então o que acontece com o velho homem que estava em Adão? A partir do momento em que a pessoa está em Cristo, ele é completamente eliminado. Portanto, uma dúvida óbvia se levanta: Se meu velho homem

está morto e foi eliminado, por que ainda peco? O questionamento não é

novo. Os cristãos da igreja pri­ mitiva perguntavam-se a mesma coisa. Graças a Deus, o mesmo

apóstolo que nos ensina que nosso velho homem está morto também nos dá respostas sólidas sobre por que ainda lutamos contra o pecado.

0 velho homem é completamente eliminado.

16

A

de fato quando conseguimos explicar por que ainda lutamos contra o pecado. Ao longo de toda a história, adotamos uma ginástica mental criativa e muitas vezes impressionante na ten­ tativa de conciliar duas idéias bíblicas: (1 ) o velho homem está

morto, e (2 ) continuamos pecando. Muitos se apegam à ideia de que o velho homem está ape­ nas posicionalmente morto ou morrendo progressivamente ao longo do tempo. No entanto, as mesmas epístolas que afirmam que Jesus resolveu nosso problema de comportamento morren­ do na cruz e levando embora nossos pecados também decla­ ram que ele resolveu nosso problema de identidade dando-nos

um novo coração, um novo espírito e o Espírito de Deus. Acei­ tamos a realidade do perdão, do céu, da morte de Jesus e de seu retorno. Não temos o direi­

to de relegar a morte do nosso velho homem ao campo do po­

sicionai ou do progressivo. Creio que Romanos 6, por exemplo, deve ser lido da mes­ ma forma que lemos o restante da epístola — em sentido literal. Claro, se isso for verdade, devemos encontrar algumas respostas

REVELAÇÃO

CH O CANTE E LIBERTA D O RA

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I

1

Por que sempre acabo pecando?

0 evangelho nu

reais para a seguinte indagação: Se a morte do velho homem é literal, verdadeira e definitiva, por que sempre acabo pecando?

A BATALHA INTERIOR

Antes de continuarmos, considere uma questão importante: se encontrarmos uma resposta satisfatória para o porquê de ain­ da lutarmos contra o pecado, poderemos enfim acreditar que nosso velho homem está morto e enterrado, e que nenhuma porção dele continua presente dentro de nós? O meu desejo é levar você a conhecer a pureza de quem é como nova criação, e ao mesmo tempo, que você seja capaz de explicar a luta contí­ nua contra o pecado. Se internalizarmos essas duas realidades, estaremos equipados para encarar a vida cotidiana e a tentação exatamente como Deus sempre pretendeu. Partiremos da premissa de que conhecer a fonte da tentação é de grande valor para resistir à tentação. Se você já tentou re­ sistir aos próprios desejos, sabe quanto isso pode ser difícil. Por exemplo, no esforço para evitar a dor do amor não correspon­ dido, você tenta não amar ninguém. Ainda assim, seu coração clama por isso. Você não pode fingir que o amor não exista. Ou então você quer perder peso e tenta resistir à vontade de comer seu doce favorito. Se resistir ao pecado significa dizer não ao que desejamos de verdade, então nossa busca pela vitória sobre a tentação fracas­ sará. Felizmente, porém, não é esse o quadro que Deus pinta para nós. Antes, ele revela uma entidade chamada carne que trabalha para nos impedir de fazer o que de fato queremos.

P r o b l e m a s

d e

t r a d u ç ã o

Já de início, precisamos distinguir o termo carne da expressão natureza pecaminosa. A palavra grega usada nos manuscritos

Ateando fogo às matrioskas

originais é sarx, que se traduz literalmente por “ carne” . Sarx foi traduzida assim pela versão New American Standard Bible

e várias outras versões em língua inglesa. No entanto, uma

tradução popular, a Neta International Version, usou a expres­

são natureza pecaminosa para verter sarx (reservando carne no texto da nota).1 A expressão natureza pecaminosa pode levar a idéias im­ precisas e nocivas acerca do novo coração, mente e espírito que temos em Cristo. Não há nada na palavra grega sarx que faça referência a “ pecaminoso” ou “ natureza” . A versão New bitemational Version opta por uma extensão do significado do termo. A New International Version é uma tradução maravilhosa

em inglês que torna as idéias acessíveis ao leitor comum. Em quase todos os casos, não há prejuízo algum quando os tradu­ tores explicam o sentido grego para deixá-lo tão preciso, claro

e legível quanto possível. Nesse caso particular, contudo, a ten­ tativa de deixar a Palavra de Deus mais compreensível levou a um mal-entendido. Em consequência, muitos cristãos hoje creem travar uma luta constante e contínua contra sua natureza pecaminosa. Para ser mais exato, contra a natureza pecaminosa de cada um deles. Não é preciso mui­

to para ir de (1) Tenho uma natureza pecatninosa para (2 ) Sou pecador por natureza e então (3) A coisa mais natural do mundo para mim é pecar. Concluímos equivocadamen­ te que somos de fato (nossa*

Concluímos equivocadamente que somos de fato (nossa natureza), lá no íntimo, pecaminosos.

A

versão correspondente em português, a Nova Versão Internacional ou NVI, ado­

ta

carne nos trechos citados pelo autor. [N. do T.]

0 evangelho nu

natureza), lá no íntimo, pecaminosos, quando na verdade as Escrituras ensinam o contrário. Somos agora participantes da natureza divina de Deus!2 Nossa luta como cristãos é contra algo chamado carne, não contra nossa própria natureza. O sentido todo do evangelho é

Jesus Cristo ter transformado cada um de nós, aqueles que cre­ mos, em uma nova pessoa. A antiga se foi e uma nova surgiu. Negar esse fato é enfraquecê-lo a ponto de a mensagem perder

o vigor por completo. Dadas as afirmações radicais acerca da nossa pessoalidade, no entanto, é fundamental examinar as Escrituras para enten­ der melhor o que é a carne e como ela opera.

Id e n t i d a d e

c a r n a l

A primeira coisa que encontramos a respeito da carne é que ela pode servir de recurso pelo qual adquirimos um sentido

de sabedoria, força e posição social: “ Porque vede, irmãos,

a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a

carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados” .3 Inteligente. Forte. Popular. A carne deseja dar um sentido de identidade enraizado em atributos intelectuais, características físicas ou posição social. Quer que obtenhamos nossa identidade da alma (mente ou intelecto) ou do corpo (linhagem familiar ou aparência física), em oposição ao espírito — nossa nova identi­ dade em Cristo. Criado na região de Washington, D.C., conheci indivíduos que construíram a própria identidade em torno da política. Na comunidade acadêmica, a tentação é fazê-lo em torno de títulos

2 V. ZPedro 1.4.

! lCoríntios 1.26, Almeida Revista e Corrigida.

Ateando fogo às matrioskas

e realizações intelectuais. Em Hollywood, alguns acham que

devem receber tratamento reservado aos nobres, tão famosos e ricos eles são. Outros ainda passam a vida cuidando da aparên­ cia física por considerá-la fonte de valor e mérito.

Não faz a menor diferença se buscamos nossa identidade pelo intelecto, pela posição so­

cial ou pela aparência física. Tudo isso é procurar identida­ de e satisfação de acordo com

a carne. Até aqui, podemos definir carne como “ abordagem para ob­ ter uma identidade respeitada, forte ou popular no mundo” . A

A confiança na carne é uma escolha.

retórica de Paulo apoia essa ideia:

Se alguém pensa que tem razões para confiar

na carne, eu ainda mais: circuncidado no oitavo dia de vida, pertencente ao povo de Israel, à tribo de Benja­ mim, verdadeiro hebreu; quanto à Lei, fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à justiça que há na Lei, irrepreensível.^

] [

A confiança na carne é uma escolha. Podemos optar por construir uma identidade em torno do nosso nascimento em determinada família ou com base nas nossas conquistas. No caso de Paulo, ele construiu uma autoimagem positiva usando seu cartão de membro do Clube de Israel (a circuncisão), sua nacionalidade, sua tribo, seus feitos religiosos e sua reputação. Ao final, Paulo concluiu que a identidade que edificara para si não valia nada. Descobriu que gabar-se de herança, linhagem e religiosidade era digno de dó quando comparado a conhecer uma identidade real em Jesus Cristo.

■’

Filipenses 3.4-6.

117

0 evangelho nu

O

REVERSO DA MOEDA

Quando pensamos no termo carne, tendemos a imaginar traços ruins sendo produzidos na vida da pessoa — fofoca, luxúria

e outras manifestações repulsivas de pecado. Embora a Bíblia

considere tais atitudes atos da carne, há o outro lado da ques­ tão. É claro que a carne se deleita em nos levar na direção do mal evidente. Mas ela também se satisfaz da mesma forma ini­ ciando uma vida religiosa ou moral admirada pelos outros! Não acredite, nem por um minuto, que a carne é limitada em seu campo de abrangência para produzir comportamentos repulsivos. Ela é capaz de desenvolver qualquer tipo de identi­ dade, desde que seja alvo de amor, atenção e aceitação. Leia a pergunta de Paulo dirigida aos gálatas e veja se você consegue identificar o “tipo” de carne em operação na vida deles: “Sois assim insensatos que, tendo começado no Espírito, estejais, agora, vos aperfeiçoando na carneV .5

A carne não tentava gerar comportamentos repugnantes nos gálatas. Antes, aqueles cristãos vinham empregando esforço carnal como meio de se aperfeiçoarem (crescerem) em Cristo! Consideravam a própria inteligência e fortaleza moral um ca­ minho para a maturidade espiritual. Estamos menos fora do curso hoje? Fomos feitos para crescer do mesmo modo que recebemos Cris­

to logo de início — pela dependência dele. Não há substituto para

a obra que Cristo realiza em nossa vida. Um método de autoaper-

feiçoamento baseado na carne pode ser atraente se não estivermos

informados acerca do caminho de Deus para a maturidade. Mas

o caminho de Deus é simples e direto: Jesus e nada mais! Como

Paulo escreve: “Estou convencido de que aquele que começou boa

obra em vocês, vai completá-la até o

dia de Cristo Jesus ” .6

5 Gálatas 3.3, Almeida Revista e Atualizada, grifo nosso.

6 Filipenses 1.6.

118

Ateando fogo às matrioskas

U m a

d e f in iç ã o

Por intermédio desta e de outras passagens bíblicas sobre os objetivos e anseios da carne, aos poucos reunimos alguns fatos importantes:

• A carne é um modo de pensar.

• A carne é um modo de agir.

• A carne trabalha contra o Espírito.

• A carne incentiva o esforço próprio.

• A carne busca identidade e propósito.

• Nós escolhemos confiar na carne.

Mas a carne não é o velho homem. Está conosco, mas não é nem eu, nem você. Optamos por depender da carne (ou do Es­ pírito) em dado momento. As escolhas que fazemos dependem de saber se reconhecemos o objetivo da carne e a inutilidade de seus caminhos. Nossas escolhas infelizes de viver de acordo com a carne não são um indício da nossa natureza. Os cristãos são nova criação no coração, não importa como optamos agir em determinado momento. Os cristãos estão no Espírito, mas escolhem andar

cias se apresentam.

S eja

v o c e

A carne não é o velho homem.

m e s m o

Você já fingiu ser alguém que não é? Talvez, para impressionar alguém, você tenha dado a impressão de ser mais do que na verdade é. Agir de maneira incoerente com quem somos é mais do que possível. E, normalmente, fazemos isso quando estamos preocupados com o que os outros vão pensar.

119

0 evangelho nu

Andando segundo a carne, não estamos sendo nós mesmos. Se confiarmos no intelecto, na força física ou na aparência para encontrar propósito e realização, andamos segundo a carne. Mas, de novo, isso não serve de indicativo da nossa natureza. Na verdade, depender da carne vai contra nossa natureza. Fomos projetados para depender de Cristo. Andar pelo Espí­ rito é nosso destino. Jamais ficaremos satisfeitos andando pela carne ou moldando uma identidade fora de Cristo. Podemos fazê-lo, mas isso não satisfará. Antes de estar em Cristo, não tínhamos escolha a não ser ex­ trair da carne identidade e senso de satisfação. Agora, no entan­ to, como filhos de Deus, trava-se uma batalha dentro de nós. Quando andamos segundo a carne, o Espírito Santo e nosso novo espírito humano (o novo

eu) clamam por ser ouvidos. Ter uma vida de dependên­ cia do Espírito nada mais é do que sermos nós mesmos. Fomos

edificados para isso desde o iní­ cio. Afinal de contas, somos agora criação de Deus," projetados para andar nas atitudes e ações que Deus já preparou para nós.

Para o cristão, em razão de sua nova identidade em Cristo, ser ele mesmo e expressar Cristo é a mesma coisa. Deus plane­ jou que assim fosse, de modo que nosso novo eu e nossa união com seu Espírito fazem-nos desejar o que ele deseja. O mer­ cado da satisfação real é monopólio divino. Deus instalou em nós o desejo intenso e infinito de que encontremos satisfação expressando sua vida.

Para o cristão, ser ele mesmo e expressar Cristo é a mesma coisa.

Efésios 2.10.

120

17

Tem um aliado po­

deroso cujo objetivo é distrair-nos de andar segundo o Espírito.

Quem é esse aliado? Um poder em operação dentro de nós cha­ mado pecado.

In fe lizm e n t e , a c a r n e n ão está sozinha.

PECADO, NÃO PECADOS

Primeiro, precisamos distinguir pecado de pecados. Evidente­ mente, pecados são atitudes ou comportamentos aos quais nos entregamos. Mas o pecado é coisa completamente diferente. A primeiríssima referência ao pecado encontra-se em Gê­

nesis, quando Deus se dirige a Caim: “ [

]

o pecado o ameaça

conquistá-lo, mas você deve dominá-lo” .1

Deus adverte Caim acerca de uma ameaça iminente. Na adver­ tência, ele revela um conceito importante que se aplica a nós hoje. Há um poder chamado pecado que deseja vencer-nos. De novo, não estamos falando sobre pecados ou sobre o ato de pecar, mas sobre uma entidade chamada pecado. Deus não adver­ te Caim contra o comportamento pecaminoso. Preocupa-o uma força organizada, dotada de desejos, cujo objetivo é controlar.

à porta; ele deseja

1 Gênesis 4.7.

121

0 evangelho nu

Uma batalha está sendo travada debaixo do nosso nariz. Sa­ bemos que somos tentados, mas como devemos entender a fonte desses anseios? O apóstolo Paulo relata sua luta quando tentou viver como fariseu, debaixo das exigências da Lei. Em Romanos

7.14, ele anuncia sua descoberta pessoal de que não era espiritual, mas fora “ vendido como escravo ao pecado” . Enquanto estivera sob o domínio da Lei, Saulo de Tarso primeiro imaginou ter tudo resolvido. Até que o pecado se impusesse, ele não fazia ideia de que vivia em escravidão. Deus

usou a Lei para dar a Saulo uma noção profunda de sua pecami- nosidade. Mais tarde, Deus usou a experiência da estrada que le­ vava a Damasco para libertá-lo

da escravidão espiritual. Saulo de Tarso experimentou uma revelação surpreendente, capaz de provocar uma alteração drástica no modo pelo qual encaramos nossos pensamentos hoje. Um poder organizado chamado pecado estava em operação em Saulo, obrigando-o

0 pecado é uma força organizada, dotada de desejos, cujo objetivo é controlar.

a

fazer coisas que ele não pretendia fazer. Essa força não era

o

próprio Saulo. Era algo diferente de Saulo, embora agisse

em seu corpo físico. Observe com atenção as palavras usadas para descrever a luta de Saulo contra o pecado ainda debaixo da Lei judaica:

Não entendo o que faço. Pois não faço o que desejo,

mas o que odeio. E, se faço o que não desejo, admito que

a

Lei é boa. Neste caso, não sou mais eu quem o faz-> mas

o

pecado que habita em mim.2

Observe que Saulo põe a culpa em algo que não é ele. Uau! Aqui vemos que os pensamentos pecaminosos tinham origem

Ateando fogo às matrioskas

em uma fonte secundária chamada pecado, que vivia em Saulo, mas não era Saulo. Essa força chamada pecado continua ativa? Está alojada no corpo físico dos cristãos hoje? Sem sombra de dúvida. Na sal­ vação, nada aconteceu ao poder do pecado. Ele ainda está vivo e operante em nosso corpo. Afinal de contas, o poder do pecado não foi salvo; nós fomos! E só teremos um novo corpo quando formos para o céu. Até lá, a presença do pecado em nosso corpo não mudará. E se os cristãos atuais reconhecessem que seu corpo abriga uma força incômoda que age neles e é capaz de transmitir a sensação de ser eles, mesmo não sendo isso verdade? O que significaria para você compreender sua luta dessa maneira? No entanto, hoje com frequência desejamos, quase ansia­ mos, declarar que somos pecadores como o resto do mundo. Achamos ser sinal de humildade reconhecer que não somos me­ lhores do que ninguém à nossa volta. Mas o Novo Testamento apresenta um quadro muito diferente. Parece que somos estrangeiros neste mundo e que nossa ci­ dadania é de outro lugar.

Afinal, somos iguais a todo mundo? Nosso destino final é a única diferença? Ou existe uma base distinta relaciona­ da à essência do nosso ser que

nos deixa à parte do restante do mundo? Até que consigamos responder a essas perguntas, chafur­

damos numa dúvida de fundamental importância: Quem sou eu?

Os cristãos, hoje, com frequência desejam, quase anseiam, declarar que são pecadores como o resto do mundo.

Es c r a v o s

d e

n a s c e n ç a

Judeu dedicado, Saulo de Tarso queria observar a Lei e agir di­ reito. Suas intenções estavam alinhadas ao que Deus ordenara.

123

0 evangelho nu

Mas ele acabou não as levando adiante. Salvos ou perdidos, a maioria de nós consegue identificar-se com a frustração da vida debaixo da Lei. Paulo afasta-se de sua linha de raciocínio para esclarecer que o problema não eram suas intenções. Leia atentamente, e você descobrirá que o problema era outro:

Sei que nada de bom habita em mim, isto é, em mi­ nha carne. Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo. Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu con­ tinuo fazendo.3

Então por que Saulo de Tarso não era capaz de fazer o que é bom? No versículo seguinte, ele revela a causa de seu compor­ tamento confuso: “ Ora, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim ” .45 Sem dúvida, Paulo está transferindo o crédito para outra coi­ sa que não ele. Se você não percebeu essa importante verdade ainda, reserve alguns minutos para ler a segunda metade de Romanos 7 com bastante atenção. Observe o que ele enfatiza duas vezes, tanto no versículo 17 quanto no 2 0 . Teólogos debatem se Paulo era ou não salvo quando passou pela experiência de Romanos 7. Penso que Romanos 7 relata a luta de Paulo como judeu, uma vez que ele se anuncia como es­ tando “na carne” e sendo “ vendido como escravo ao pecado” .3 Uma vez salvo, o apóstolo Paulo sabia que morrera para o pe­ cado e estava liberto agora. Determinar se Romanos 7 descreve uma experiência pré ou pós-salvação não é fundamental. Independentemente da

Romanos 7.18,19

4

V. Romanos 7.20, grifo nosso.

5

V. Romanos 7.5 (Almeida Revista e Corrigida) e Romanos 7.14.

124

Ateando fogo às matrioskas

visão que se tenha do assun­ to, o principal é que existe um princípio do pecado no corpo físico.6 E esse princípio é des­

perto quando nós, salvos ou perdidos, tentamos viver segundo a Lei ou qualquer outro pa­ drão semelhante a ela. Nem nosso corpo nem nossa conexão com o físico mudaram na salvação. Portanto, uma vez salvos, o pecado ai?ida perma­ nece em nosso corpo. Como discutiremos mais adiante, estamos agora mortos para o pecado e podemos, então, resistir a suas instigações. Mas o pecado em si não está morto. Pelo contrário, como nossa experiência comprova, está bem vivo. O pecado está em nós, mas é diferente de nós.

Existe um princípio do pecado no corpo físico.

O PECADO ME OBRIGOU A FAZER ISSO ?

Isso quer dizer que podemos esquivar-nos da responsabilida­ de por nossos atos? Devemos concluir, quando pecamos, que o Diabo nos obrigou a pecar, portanto a culpa não é nossa? Sabemos por Romanos 6 que é nossa responsabilidade não deixar o pecado governar nossa vida. Paulo exorta-nos a re­ sistir a essa força enganadora e a não permitir que ela assuma o controle. Há uma opção, é evidente. Somos instados a reco­ nhecer a presença do pecado e dizer não a ele: “ Portanto, não permitam que o pecado continue dominando os seus corpos mortais, fazendo que vocês obedeçam aos seus desejos” . Note a quem os desejos maus pertencem: ao pecado. Se ce­ demos ao pecado, estamos aceitando a mentira de que dese­ jamos pecar. Certo, não estamos rendidos a Deus; tampouco

0 evangelho nu

nos rendemos ao nosso próprio eu. Em vez disso, cedemos aos pensamentos que não se originaram em nós. Vêm de uma fonte sinistra e, por esse motivo, jamais serão satisfeitos. Podemos deixar que o pecado se imponha sobre nós, mas que benefício teremos com isso? Sim, pode haver um sentimen­ to temporário e fugaz de satisfação, mas apenas em um nível muito básico (carnal). No cristão, esse sentimento acabará dan­ do lugar ao remorso e a um senso de chamado superior. A razão para esse senso de chamado superior tem dois lados:

a presença de Cristo em seu interior e o novo espírito huma­ no do crente, unido a ele. Como povo celestial, desprezamos a carne e o poder do pecado. A essência do nosso ser clama por cumprir o destino que está à nossa frente.

UM PARASITA

Imagine que você vá passar as férias em um lugar de clima tro­ pical. Depois de fazer o cbeck-in no hotel, você calça um par

de sandálias e segue pela trilha até a praia. Mas, no caminho, um parasita local se prende ao seu pé. Com o tempo, ele vai cavando cada vez mais até se alojar fundo em seu pé — tanto que você nem percebe que ele está ali. Nos meses seguintes, o parasita começa a crescer, alimen­ tando-se da sua vida. Por fim, a devastação que ele provoca começa a enviar sinais de dor para o cérebro. Com o tempo,

a dor é cada vez mais difícil de suportar. E você pensa: Há algo errado comigo. Há algo errado com meu pé” . Sem saber

o que há dentro do pé, você presume que o problema seja o

pé em si. Ao longo dos meses e anos seguintes, você consulta inú­ meros médicos, mas nenhum detecta a presença do parasita. Por fim, você conclui que só há uma solução — amputar o pé.

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É preciso livrar-se da fonte do problema. Para isso, conclui que necessitará cortar parte de si mesmo. Que tragédia! Se ao m