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Subjetividades Contrastantes: o

drama negro de Cruz E Sousa e a


festa negra de Conceição Evaristo

MATHEUS MENEZES MARÇAL


CONTEXTO HISTÓRICO –
CRUZ E SOUSA

• Período de transição entre sistema de


escravidão e a abolição.
• Participação em campanhas abolicionistas.
• Não pertencimento ao ideal de nação.
CONTEXTO HISTÓRICO –
CONCEIÇÃO EVARISTO
• Processo de reconhecimento e valorização das
culturas negro-brasileiras.

• Surgimento de imprensas negra (BERND, 1987).


• Formação de associações e partidos negros(BERND,
1987).
• Criação e consolidação do Teatro Experimental do
Negro(BERND, 1987).
A PRISÃO DO CORPO NEGRO

• Justificativas científicas e institucionais para a


hierarquização racial (MUNANGA, 2015).
• Produção dos estereótipos (BHABHA, 1998)
O EMPAREDADO

Nos paizes novos, nas terras ainda sem typo ethnico absolutamente deffinido, onde o
sentimento d’Arte é selvicola, local, banalisado, deve ser espantoso, estupendo o
esforço, a batalha formidavel de um temperamento fatalisado pelo sangue e que traz
consigo, além da condição inviável do meio, a qualidade physiologica de pertencer, de
proceder de uma raça que a ditadora sciencia d’hypotheses negou em absoluto para as
funcções do Entendimento, e, principalmente, do entendimento artistico da palavra
escripta. Deus meu! por uma questão banal da chimica biológica do pigmento ficam
alguns mais rebeldes e curiosos fósseis preoccupados, a ruminar primitivas erudições,
perdidos e attropellados pelas longas galerias submarinas de uma sabedoria infinita,
esmagadora, irrevogavel! Mas, que importa tudo isso?! Qual é a côr da minha fórma,
do meu sentir? Qual é a cor da tempestade de dilacerações que me abala? Qual a dos
meus sonhos e gritos?
Qual a dos meus desejos e febre? (SOUSA, 1898, p. 381-382)
A FESTA DO CORPO NEGRO

• “as protagonistas mulheres negras equivalem a


apenas 15% dos protagonistas negros de
ambos os sexos” (DELCASTAGNÈ, 2005, p. 47)
• Espaços ficcionais fixos para as mulheres
negras (RODRIGUES, 2011)
• A escrevivência de Conceição Evaristo
Na primeira reunião do jardim de infância, em que
matriculei Walquíria, naquele momento, aprendi não só
as orientações que a professora transmitia, mas também
o olhar insistente da moça em minha direção. [...]
Naquele momento, sob o olhar daquela moça, me dei
permissão pela primeira vez. Sim, eu podia me encantar
por alguém e esse alguém podia ser uma mulher. Eu
podia desejar a minha semelhante, tanto quanto outras
semelhantes minhas desejam o homem. E foi então que
me entendi mulher, igual a todas e diferentes de todas
que ali estavam (EVARISTO, 2011, p. 57-58)
Depois, tempos depois, Luamanda experimentava o amor em braços
semelhantes aos seus. Os bicos dos seios dela roçando em outros
intumescidos bicos. No primeiro instante, sentiu falta do encaixe, do
membro que completava. Num ato de esquecimento, sua mão procurou
algo ereto no corpo que estava diante do dela. Encontro um falo ausente.
Mas estava tão úmida, tão aquosa aquela superfície misteriosamente plana,
tão aberta e igual a sua, que Luamanda afundou-se em um doce e feminil
carinho. E quando se sentiu coberta por pele, poros e pelos semelhantes
aos seus, quando a sua igual dançou com leveza a dança-amor com ela,
saudade alguma sentiu, vazio algum existiu, pois todas as fendas de seu
corpo foram fundidas nas femininas oferendas da outra. O amor se guarda
só na ponta de um falo ou nasce também dos lábios vaginais de um
coração de uma mulher para outra? (EVARISTO, 2015, p. 61)
BERND, Zilá. Negritude e literatura na América Latina. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987, 156 p.

BHABHA, Homi. O local da cultura. Tradução de Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis e Gláucia Renate Gonçalves. Belo
Horizonte: Editora UFMG, 1998, 395 p.

BOSI, Alfredo. Literatura e resistência. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, 297 p.

DELCASTAGNÈ, Regina. A personagem no romance brasileiro contemporâneo: 1990-2004. In: Estudos de Literatura Brasileira
Contemporânea, nº 26. Brasilía: julho-dezembro de 2005, pp. 13-71.

EVARISTO, Conceição. Da grafia-desenho de minha mãe um dos lugares de minha escrita. In: ALEXANDRE, Marcos Antônio (Org).
Representações performáticas brasileiras: teorias, práticas e suas interfaces. Belo Horizonte: Mazza, 2007, pp. 16-21.

______________. Insubmissas lágrimas de mulheres. Belo Horizonte: Nandyala, 2011, 117 p.

______________. Olhos d’água. Rio de Janeiro: Pallas, 2015, 114 p.

EVARISTO, Conceição. Conceição Evaristo – Encontros de Interrogação. Disponível em:


https://www.youtube.com/watch?v=dHAaZQPIF8I Acesso em 11 de setembro de 2016.

FANON, Frantz. Pele negra máscaras brancas. Tradução de Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008, 193 p.

MUNANGA, Kabengele. Negritude Usos e sentidos. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015, 93 p.

RODRIGUES, João Carlos. O negro brasileiro e o cinema. Rio de Janeiro: Pallas, 2011, 240 p.

SILVA, Luiz. A consciência do impacto nas obras de Cruz e Sousa e de Lima Barreto, 2005. 232 p. Tese (Doutorado em Teoria
Literária). Instituto de Estudos da Linguagem. Universidade Estadual de Campinas. Campinas. 2005.

___________. A literatura negro-brasileira. São Paulo: Selo Negro, 2010. E-book Kindle.

SOUSA, Cruz. Evocações. Rio de Janeiro: Typ. Aldina, 1898, 395 p.


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MATHEUS MENEZES MARÇAL

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