Um internacionalismo do século XXI, contra o capitalismo e o nacionalismo (2

)

O nacionalismo é uma doença infantil; é
o sarampo da Humanidade.

Albert Einstein

Sumário

1 - Uma (des)ordem económica e política
2 - A globalização é um processo
2.1 - Como o capitalismo vem cavalgando a globalização
2.2 - A instituição de um estado de excepção generalizado
3- Os grandes promotores do desastre
3.1 - As ameaças vindas das classes políticas
4 – A leitura do contexto.
4.1 - As alternativas possíveis e as desejáveis
4.2 – O desenvolvimento do espirito do fascismo
4.3 – Um novo internacionalismo, precisa-se!

(primeira parte deste texto aqui)

3 - Os grandes promotores do desastre

Quando a grande maioria dos povos está tomada pelo medo do futuro, pelo
conformismo e, perante a ausência de uma abordagem teórica popular que
explique a estrutura económica a política do mundo de hoje, os mais
favorecidos são os que se aproveitam e prosperam com a situação atual – o
sistema financeiro, as multinacionais e as classes políticas.

O sistema financeiro cujas necessidades de crescimento são irrestritas, captura
as populações e os estados através da imposição de dívidas enormes, com a
interessada colaboração das classes políticas, à qual aquele incumbe da
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aplicação de resgates ou recapitalizações de bancos, para pagamento pelas
populações, através de desemprego, baixos salários, austeridade, precariedade,
punção fiscal agravada, etc; e da repressão bruta, se necessário.

As multinacionais segmentam a produção por tantas localizações quantas os
componentes de um produto, procurando os menores custos laborais para cada
nível de tecnologia ou, localizações onde os direitos laborais ou ambientais
sejam mais desprezados. Dominam a logística mundial, competindo
acerbamente por minerais, recursos energéticos, água, terras, recursos agrícolas,
mercados globais de equipamentos, bens de consumo, bens intermédios ou
matérias-primas. Os estados e os seus ocupantes, as classes políticas, entram
nessa complexa equação, nessas disputas, enformando a geopolítica e ainda
elaborando as políticas de salários, de rendimentos, fiscais, de saúde, educação
ou de ambiente, prevenindo a contestação, preparando as guerras…

Os sistemas políticos nacionais, plurinacionais no caso da UE, constituem o
promotor do desastre que tem com maior visibilidade. Movem-se de um modo
agregado, em grupo, como uma massa para pão, ajustável à forma onde a
despejam; isto é, à conjuntura1. Os partidos-estado2, na Europa, contêm duas
alas, nomeadamente as pertencentes aos gangs PPE e S&D que, isoladas ou em
coligação, desenham as agendas políticas, praticam um conservadorismo
atávico com o auxílio declarado dos grupos de media e de spin doctors, para
favorecerem os interesses económicos dominantes e manter na mansidão e no
atordoamento, o eleitorado, designação que se equipara a mercado, daí
resultando o que muitas vezes referimos por “democracia de mercado”; isto é, o
modelo de representação dominante. Como no mercado, os vários partidos
apresentam-se como prestadores de serviços, cuja venda depende de
campanhas publicitárias ou sessões de wrestling televisivo. Tudo isto é pago
com verbas orçamentais que mascaram e complementam óbulos empresariais e
corruptos.

1
As celebrações públicas “de Estado” ligadas à morte de Mário Soares são um bom exemplo dessa
adequação coletiva
2
Designamos partido-estado ou centrão aos conjuntos de partidos ditos do centro que, formalmente se
apresentam isolados em eleições, na maior parte das vezes, nada obstando a que se coliguem, como
atualmente na Alemanha e em 1983/85 em Portugal. As suas diferenciações não são muitas, no campo
programático, como nas práticas. A sua não aglutinação numa só força formal permite a prática do
rotatismo como forma de apresentação de uma falsa alternância, a suficiente para que haja participação
eleitoral. Nos regimes de partido único, este tem no seu seio várias tendências que se digladiam, nem
sempre de forma “amigável”; nos regimes de democracia de mercado, os eleitores escolhem entre duas
marcas de um mesmo produto.
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3.1 - As ameaças vindas das classes políticas

No contexto dos sistemas políticos montados nos países ocidentais, com
réplicas aproximadas um pouco por todo o lado, evidencia-se um partido-
estado - ou centrão – que desliza no tempo, num sentido mais conservador ou
vagamente progressista, consoante os humores do eleitorado. Arrasta na sua
órbita os partidos à sua direita ou à sua esquerda, em regra, sem peso eleitoral
para substituírem o partido-estado mas, apostando nas desavenças no seio
deste último, para fazerem valer os seus créditos em troca de cargos e maior
quinhão no pote. Estes últimos, raras vezes conseguem sair da sua relativa
marginalidade e firmar-se como forças de poder, como se observou, com os
Verdes alemães ao tempo de Joshka Fisher, com o CDS português, os liberais e
sociais-democratas ingleses ou ainda, no tempo presente, com o BE e o PCP,
como auxiliares do PS de António Costa, facto que lhes poderá sair caro em
termos eleitorais futuros.

Os sistemas partidários são como os sistemas planetários. Não deixam de
orbitar em torno da defesa do capitalismo, do aplanamento das suas
dificuldades, mantendo-se as distâncias relativas entre os vários planetas
constituintes, por ação das respetivas forças gravitacionais. Daí que haja
regularmente movimentos de elementos que se deslocam dos partidos
periféricos para o partido-estado, o elemento de maior massa (eleitoral e
sobretudo monetária), o grande fornecedor de conforto, no seio de cada
sistema partidário.

O habitual rotativismo no poder, entre duas alas de um partido-estado,
associado à inexistência de grande contestação social, interage com o medo do
desconhecido, com o conformismo em torno de um minimalismo, de um mal
menor, gerando situações de pantanoso imobilismo.

Não há na esquerda europeia referências ao capitalismo ou contestação aos
regimes políticos vigentes que nada têm de democráticos – nem na sua
arquitetura, nem na sua prática; regimes esses, centrados em partidos
decididamente longe da população, portadores implícitos de estados de
excepção, seja porque surgiu uma troika, seja porque é preciso capitalizar os
bancos, reduzir o deficit, aumentar o PIB, exportar mais, combater o
terrorismo… adiando para futuros longínquos, o bem estar da população, a
disponibilidade de rendimentos decentes e garantidos, a redução de cargas
fiscais asfixiantes.

As esquerdas tradicionais, não fomentam contestação, apenas acompanham o
conservadorismo imanente aos ambientes parlamentares e à agitação folclórica
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dos momentos eleitorais. No fundo, zelam pela marcha do capitalismo,
esperando que apresente “um rosto humano”, mais próximo das suas ideias
fortes, contidas no catálogo trotsko-estalinista – socialismo, partido, autoridade,
nacionalizações, vanguarda…- embrulhadas na ideia obtusa de que o Estado
zela pelo bem-estar do povo; ou na verdadeira estupidez de que “o Estado
somos todos nós”. Sem capacidade política para saírem da lógica das respetivas
nacionalidades, têm como único forum de diálogo e concertação, no seio da
UE, o Parlamento Europeu, cuja composição funções não indiciam nada de
positivo para os europeus3.

Na agenda mediática de uma parte dessa esquerda do sistema, privilegia-se a
agitação de causas marginais, a focagem em parcelas minoritárias da população
e na conjuntura governamental. Em contrapartida, podem obter o apoio
benevolente do partido-estado, - excepto das franjas sociais ligadas ao
fundamentalismo católico ou evangélico - desde que não afetem os deficits,
não alterem minimamente a ordem capitalista, nem afetem os balanços das
multinacionais ou dos grandes bancos; como é o caso das questões que se
prendem com as orientações sexuais.

Outro segmento dessa mesma esquerda define-se pela prevalência de um
estreito economicismo, conduzido por quadros partidários acampados em
sindicatos vazios e que se polariza na concertação social, em protestos e lutas
sectoriais ou em “grandes” manifestações ritualizadas, onde preponderam os
habituais militantes partidários - capazes das atuações mais torpes e repressivas
para quem não aceite as suas ordens “unitárias”.

Nesse caldo de cultura que é a política partidária, emerge o papel da extrema-
direita, xenófoba, nacionalista, evocadora das glórias passadas, reais ou
inventadas, da pátria, capaz de atrair os desprovidos, os pobres, gente de pouca
escolaridade ou formatada pela tecnocracia universitária, beneficiando do
descrédito dos partidos-estado e do desfasamento ideológico das esquerdas
tradicionais, mesmo quando as últimas perfilham igualmente o nacionalismo.
Essa narrativa atrai os vencidos das lógicas da concorrência, da competitividade,
do empreendedorismo, as vítimas do individualismo assente num salve-se
quem puder e que se focam na consideração do Outro como concorrente,
como estorvo para a concretização do bem-estar próprio; são o alvo das
colheitas eleitorais, além Atlântico, de Trump e, na Europa, da constelação que
inclui Farage, de Wilders, LePen, Frauke Petry, Kaczinsky, Orbán ...

3
É sintomática a substituição de Martin Schulz , por Antonio Tajani, um dos poucos deputados a votar
contra a Estratégia para a Igualdade entre Homens e Mulheres e um amigo de Berlusconi, sendo este
uma estrela verdadeiramente anunciadora da chegada de Trump..
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Não deixa de ser curioso e preocupante que a agenda dos últimos, na Europa,
seja semelhante - no saudosismo nacionalista, nas soluções salvíticas como a
saída do euro e da UE, nacionalizações, poder musculado - à do KKE grego, do
PCP e de alguns intelectuais subsidiários; embora os últimos se diferenciem por
não evidenciarem pulsões xenófobas. A dívida, forma central do capital para a
captura dos povos, não lhes merece mais do que renegociações ou
reestruturações, míticas e ineficazes se de aplicação específica a um país
isolado, tendo do outro lado da mesa todo o poder do sistema financeiro
global; falta-lhes uma visão global depois de apagado o farol moscovita mas,
sobra-lhes o espírito paroquial.

Entende-se, que da extrema-direita ou da dita “esquerda” nacionalista, emanem
também críticas à bem real falta de democracia das estruturas europeias; não se
compreende é o espírito reverencial, a sacralização, que na esquerda placebo
portuguesa prepondera face à Constituição, tomada como inamovível, embora
seja, excludente, oligárquica e antidemocrática, tal como os tratados europeus,
onde as pessoas não existem como construtores dos seus próprios futuros. Isso
revela, claramente, que desprezam a democracia preferindo o nacionalismo; e
que, para eles, uma oligarquia nacional, “nossa”, com selo de origem lusa, é
preferível a uma qualquer outra oligarquia. Um carcereiro que fala a língua do
preso torna a cadeia um resort de luxo?

(continua)

Este e outros textos em:

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http://www.slideshare.net/durgarrai/documents

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