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16519 - As correntes de agricultura não industrial The current non-industrial agriculture LIMA, Viviane Cristina

16519 - As correntes de agricultura não industrial

The current non-industrial agriculture

LIMA, Viviane Cristina Silva 1 ; SILVA, Vagner Viana 2

1 Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, RJ, ufrrj49@yahoo.com.br; 2 Centro Estadual de Educação Rural Vila Pavão, ES, vagnerneto@yahoo.com.br.

Resumo: No intuito de produzir em larga escala para atender a evolução dos padrões de consumo, o Homem tentou e tenta até hoje dominar o meio ambiente, causando diferentes graus de entropia nos ecossistemas. Em contraposição a visão capitalista e degradante do meio ambiente, surgem às formas alternativas de praticar agricultura, que visa a sustentabilidade ambiental. O objetivo do artigo é promover um diálogo entre as diferentes correntes de agricultura alternativa, que nasceram na década de 1920 e que contribuem para uma mudança de paradigma. A metodologia utilizada foi a revisão de literatura. Conclui-se que tanto o poder público, quanto a sociedade deveriam promover um consumo consciente, a fim de construir um cenário agrícola mais emancipatório socialmente e ecologicamente sustentável.

Palavras-chave: Sustentabilidade; Agroecossistemas; Recursos naturais

Abstract: Tradução In order to produce on a large scale to meet changing patterns of consumption, the man tried to today and try to dominate the environment, causing different degrees of entropy ecosystems. In contrast to capitalist and demeaning view of the environment, appear to alternative ways of practicing agriculture, aimed at environmental sustainability. The article aims to promote a dialogue between the different streams of alternative agriculture, who were born in the 1920s and which contribute to a paradigm shift. The methodology used was the literature review. We conclude that both the government, and the society promote consumer awareness in order to build a more emancipatory socially and ecologically sustainable agricultural scenario.

Keywords: Sustainability; Traditional agroecosystems; Natural resources

Introdução

O impacto ambiental ocasionado pelas intervenções antrópicas é o conjunto de

efeitos sobre os diversos componentes ambientais, que corresponde aos aspectos

do meio físico, social, econômico, político e cultural, relacionado à presença do ser

humano.

No intuito de produzir em larga escala para atender a evolução dos padrões de consumo, o Homem tentou e tenta até hoje dominar o meio ambiente, causando diferentes graus de entropia nos ecossistemas naturais.

Cadernos de Agroecologia ISSN 2236-7934 Vol 9, No. 4, Nov 2014

A visão compartimentada sobre o ambiente dificulta a compreensão das situações específicas, inerentes ao contexto

A visão compartimentada sobre o ambiente dificulta a compreensão das situações específicas, inerentes ao contexto da ecologia. O solo, as águas superficiais e subterrâneas e a atmosfera são responsáveis por oferecer condições adequadas para o desenvolvimento da flora e da fauna e em especial, os microrganismos e o Homem.

Por isto, ao se pensar em agricultura é fundamental que a produção de gêneros alimentícios atenda não somente as necessidades do mercado consumidor, mas que, antes de tudo, as dinâmicas ecológica e social sejam respeitadas

Com o avanço e surgimento de novas tecnologias, o conhecimento foi fragmentado em áreas do saber, e a consequência foi a substituição, e até extinção do saber

empírico e das práticas populares das comunidades para dar lugar ao “novo” modelo

de agricultura.

Para acompanhar a evolução das novas formas de produção do conhecimento, o currículo das universidades teve que se disciplinar e se tecnificar, a fim de atender

as novas necessidades do mundo do trabalho (principalmente no que se refere às

profissões ligadas ao meio rural).

Diante deste contexto, a relação Homem-natureza ficou estremecida, e o Homem ignorou a finitude e a dinâmica dos recursos naturais, usando-os apenas para produzir capital.

Em contraposição a essa visão separatista, capitalista e autoritária, que se alicerça

na justificativa de que a degradação ambiental é consequência do desenvolvimento

econômico, surgem às formas alternativas de praticar agricultura. Embora cada uma delas tenha um princípio metodológico próprio, todas convergem para um objetivo comum: a sustentabilidade ambiental, econômica e cultural.

Assim, o objetivo do artigo é promover um diálogo entre as diferentes correntes de agricultura alternativa, que nasceram na década de 1920 e que contribuem para uma mudança de paradigma.

Metodologia

O estudo foi desenvolvido em 2013, por ocasião da disciplina de pprincípios e

conceitos aplicados à agricultura orgânica, ministrada no Programa de Pós-

graduação em Agricultura Orgânica, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Os procedimentos técnicos utilizados na construção do texto foram: a revisão bibliográfica e documental.

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Discussões A fragilidade dos agroecossistemas tradicionais Atualmente coexistem no Brasil, dois mo delos de

Discussões

A fragilidade dos agroecossistemas tradicionais

Atualmente coexistem no Brasil, dois modelos de “desenvolvimento” agrícola: de um lado está o modelo agrícola caracterizado por pequenos produtores descapitalizados, policultores, com acesso restrito a políticas públicas de acesso ao crédito, cuja grande parte da produção é destinada ao autoconsumo, que utilizam mão-de-obra familiar e pouca ou nenhuma mecanização. Como resultado de um processo de expropriação, os pequenos produtores foram sendo empurrados para ecossistemas vulneráveis. Sem acesso à terra suficiente, submetido a altos riscos e a um sistema de subordinação e exploração pelos intermediários (WEID, 1994, p.6).

E de outro lado, está o modelo importado dos Estados Unidos e da Europa, que foi

trazido para o Terceiro Mundo com o apoio do Banco Mundial, e que se baseia no domínio do meio ambiente, através de formas superficiais como intensa mobilização do solo, utilização de adubos sintéticos, agrotóxicos potentes, sementes selecionadas, dentre outros.

O frequente preparo do solo e a ausência de cobertura vegetal viva provocam grandes transformações físicas, químicas e biológicas do solo, bem como alteram o

ciclo da água e do nitrogênio, elementos importantes para a prática agrícola. O uso de adubos de alta solubilidade provocam desequilíbrios nutricionais nas plantas, deixando-as mais suscetíveis ao ataque de pragas e doenças, e ainda promovendo

a acidificação e salinização do solo devido ao seu uso intermitente. A perda da

fertilidade do solo com a degradação ambiental inviabiliza a sustentabilidade, uma vez que há uma grande importação de insumos, tornando a agricultura tradicional frágil do ponto de vista da regeneração agrícola.

Os agroecossistemas convencionais são instáveis ecologicamente falando, por serem sistemas simples estrutural e funcionalmente, onde o número de espécies vegetais é muito pequeno, quando comparado aos ecossistemas naturais, chegando ao extremo nas monoculturas, Gliessman (2000). No sentido, de reverter essa situação e praticar uma agricultura que concilie produção a conservação dos recursos naturais e ao respeito ao meio ambiente surgem várias escolas que visam trabalhar pautadas neste princípio.

A agricultura biodinâmica

O conceito de Agricultura Biodinâmica surgiu na Alemanha e seu fundador foi Rudolf

Steiner (1861-1925). Este novo modelo de agricultura foi proposto durante o Congresso de Pentecostes, em 1924.

Steiner foi o fundador da Antroposofia, que segundo ele é a ciência espiritual que explica a dinâmica do Universo a partir das experiências vividas pelo próprio “eu” interior de cada ser humano. Imbuído por este referencial filosófico ele expande essa

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práxis para diversas áreas do saber como a medicina, a pedagogia e a arte. Na

práxis para diversas áreas do saber como a medicina, a pedagogia e a arte. Na Antroposofia, Steiner, incorporou conceitos hinduístas, como o carma e a reencarnação para explicar a espiritualidade existente no corpo e nos sentidos corporais.

No que concerne a prática agrícola, a biodinâmica trabalha a propriedade agrícola como um organismo vivo, onde tudo reflete o equilíbrio de suas partes. Nessa forma sistêmica de interação entre o plano espiritual e o plano terreno, o solo, os animais, as plantas e o próprio homem devem estar em sintonia para que os alimentos produzidos sejam de boa qualidade, nutrindo o corpo e a alma.

O ponto chave para a compreensão da Agricultura Biodinâmica é que a perfeição da

criação humana só é possível por causa de suas intenções espirituais que

convergem a cognição existente entre o homem, o cosmo e os elementos da natureza.

Nesse sentido, Steiner, propõem preparados biodinâmicos para curar os males agrícolas, bem como para fortalecer o solo e as plantas. Esses preparados são divididos em dois grupos: os que podem ser pulverizados nas plantas e no solo; e os que são inoculados em compostos ou outros adubos orgânicos. São basicamente formulados a partir de estratos vegetais e estercos de animais. Cabe salientar que esta metodologia é proposta, porque na Biodinâmica, o agricultor deve compreender a dinâmica da vida e equilibrar as “forças da luz e as forças da terra” para que as forças cósmicas colaborem na produção.

Outra prática usual da Agricultura Biodinâmica é a adoção do calendário lunar. A lua em civilizações antigas era venerada como o símbolo da fecundidade, da fragilidade

e da pureza. Ela se transforma no céu, assumindo formas variadas. E por este

motivo os agricultores biodinâmicos utilizam suas fases para praticar a poda, a semeadura e a colheita de diversas espécies vegetais, bem como para manejar os

animais.

A incorporação de matéria orgânica do solo, a adubação verde, a compostagem, a

rotação e a diversificação de culturas são técnicas propostas pela Agricultura Biodinâmica, a fim de melhorar a qualidade do solo, das plantas e dos animais, e ainda produzir alimentos energeticamente equilibrados para a alimentação humana.

Agricultura Biológica

Após o modelo de agricultura proposto por Steiner, na década de 1920, na Alemanha, já na década de 1930, outro biologista o Dr. Hans Müller trabalhou na Suíça em estudos sobre fertilidade de solo e microbiologia, nascendo à Agricultura Organo-biológica, mais tarde conhecida como Agricultura Biológica.

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No entanto, foi após a Segunda Guerra Mundial que o movimento por uma agricultura que

No entanto, foi após a Segunda Guerra Mundial que o movimento por uma agricultura que se preocupasse mais com a saúde das pessoas, a partir da promoção de alimentos de melhor qualidade e mais saudáveis, é que a Agricultura Biológica ganhou força na Europa, principalmente na França, onde havia uma preocupação dos médicos e dos consumidores com os danos causados á saúde por alimentos contaminados.

Na França a Agricultura Biológica ficou muito conhecida, graças ao agrônomo- pesquisador Claude Aubert que publicou o livro L’Agriculture Biologique, onde destacava a importância da manutenção da saúde do solo para promover a saúde das plantas.

A Agricultura Biológica é diferente das outras correntes de agricultura não-industrial,

por recomendar o uso de pó de rochas como fertilizantes e adotar a posição de que

a sanidade das plantas e a susceptibilidade ao ataque de pragas estão diretamente ligadas ao equilíbrio nutricional e ao desequilíbrio provocado pelo uso de agroquímicos (SOUZA & RESENDE, 2006, p.87).

Esse é o princípio seguido pela Teoria da Trofobiose. Ela enuncia que todo ser vivo só é capaz de sobreviver se tiver alimento disponível para satisfazer as suas necessidades fisiológicas. A planta ou parte dela só será atacada por fungos, ácaros, vírus, bactérias ou nematódeos se em sua seiva tiver alimento para esses agentes e, isso ocorre com o tratamento inadequado desses vegetais, principalmente quando estes são tratados com fertilizantes de alta solubilidade, que deixam aminoácidos livres disponíveis na seiva. Todos os fatores que interferem no metabolismo da planta podem tanto torná-la mais resistente ou mais susceptível ao ataque de doenças e de indicadores de mal manejo (nomenclatura utilizada para substituir o termo “praga” empregado para os agentes que atacam as lavouras, como os insetos).

As plantas quando mal manejadas são alvos de alterações metabólicas que propiciam uma maior incidência de doenças e “pragas”. No sentido de sanar esses prejuízos causados a sanidade dos vegetais é necessário oferecer uma alimentação saudável e equilibrada, sendo a forma menos onerosa o uso de adubos verdes, estercos de animais e compostos.

De acordo com a IFOAM (International Federation of Organic Agriculture Movements) a Agricultura Biológica baseia-se nos princípios da Saúde, da Ecologia, da Justiça e da Precaução.

O princípio da Saúde enuncia que a Agrobiologia deverá manter e melhorar a qualidade dos solos, assim como a saúde das plantas, dos animais, dos seres humanos e do Planeta como um único organismo.

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Já o principio da Ecologia estabelece que a prática agrícola deve imitar os ecossistemas naturais,

Já o principio da Ecologia estabelece que a prática agrícola deve imitar os ecossistemas naturais, respeitando sua diversidade de espécie e seus nichos ecológicos, as paisagens, a conservação dos recursos hídrico, bem como propiciando o equilíbrio das relações entre as espécies envolvidas no processo de produção e a ciclagem de nutrientes.

No que concerne ao princípio da Justiça, a Agricultura Biológica deverá se basear nas relações justas no que diz respeito ao ambiente comum e as oportunidades de vida, elencando a equidade, a igualdade, o respeito e a responsabilidade como norteadores.

E por fim o princípio da Precaução que determina que a prática agrícola deve ser feita de forma planejada e consciente, a fim de essa e as gerações futuras possam usufruir de um ambiente biologicamente equilibrado.

Segundo Assis (2005, p.16) essa corrente de agricultura não industrial, apesar de considerar importante a associação entre as explorações vegetal e animal, não a considera indispensável, recomendando o uso diversificado de fontes de matéria orgânica, sejam estas oriundas do campo ou das cidades, contrapondo-se assim á noção de autonomia completa da unidade de produção agrícola.

As práticas utilizadas na Agricultura Biológica incluem: a rotação de culturas; a proibição de organismos geneticamente modificados, a escolha de espécies animais

e vegetais resistentes a doenças e adaptadas as condições edafo-climáticas locais;

a criação de animais em liberdade e ao livre, a fim de obedecer os hábitos de vida de cada espécie.

Agricultura Natural

Na década de 1930, o filósofo e religioso Mokiti Okada, fundava uma religião cujo propósito era a purificação da alma e do corpo. E nesse sentido, para que o espírito fosse purificado era necessário que o indivíduo não consumisse alimentos contaminados com substâncias tóxicas, pois a purificação deveria começar do corpo para então atingir a alma. O princípio dessa proposta é o de que as atividades agrícolas devem potencializar os processos naturais, evitando perdas de energia no sistema.

As ideias de Okada foram muito difundidas por todo o mundo, principalmente por Masanobu Fukuoka, que defendia que a prática agropecuária deveria ser minimamente artificializada e que os sistemas agrícolas deveriam imitar os sistemas naturais. E para que isso se viabilizasse propunha as seguintes práticas agrícolas:

não cultivar; não utilizar fertilizantes químicos e nem composto preparado; não capinar nem mecânica e nem quimicamente o solo e; não fazer uso de produtos químicos (sintético)

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Mokiti faleceu deixando pronta as bases para a construção de um mundo material e espiritual

Mokiti faleceu deixando pronta as bases para a construção de um mundo material e espiritual evoluído, denominado por ele de “Paraíso Terrestre”. Suas ideias foram veiculadas na medicina, na educação, na economia, na filosofia, na política, na arte e principalmente na agricultura.

Baseado em pilares filosóficos, religiosos e ecológicos é que a Agricultura Natural ganha força no cenário agrícola. Seus princípios são: a harmonia entre os seres vivos; a preservação dos ecossistemas; o respeito ao solo; e o uso racional dos recursos naturais e ecológicos.

De acordo com Assis (2005, p. 17) a Agricultura Natural é definida como um sistema de exploração agrícola que se fundamenta no emprego de tecnologias que procuram tirar o máximo proveito da natureza. O solo é capaz de expressar todo o seu potencial, mas para que isto ocorra é necessário obeservar toda a dinâmica ecológica ao seu redor (mas sem que haja a interferência humana, caso contrário, não seria natural).

O uso de organismos eficientes (EM) e a não utilização de dejetos de animais nas plantas são duas particularidades que diferenciam a Agricultura Natural das demais correntes de agricultura não industrial. No entanto, o uso de compostos, adubos verdes, cobertura morta e o controle bio-mecânico de plantas competidoras são algumas das técnicas empregadas por este modelo de agricultura. Essas técnicas de acordo com os preceitos da Agricultura Natural além de ajudar na sanidade do solo, contribuem para o controle e o combate do ataque de pragas e plantas invasoras.

A Agricultura Natural no Brasil continua viva através da Fundação Mokiti Okada, que tem por missão divulgar os trabalhos de Mokiti, bem como disseminar as práticas desta corrente de agricultura para a produção de alimentos saudáveis.

Agricultura Orgânica

Sir Albert Howard (1873-1947) é considerado o iniciador da Revolução a Agricultura Orgânica, seus estudos sobre essa modalidade de agricultura foi desenvolvido do estado indiano de Indore. Em 1905, Howard iniciou seus trabalhos em uma estação experimental na cidade de Pusa, e observou que os camponeses hindus não utilizavam fertilizantes químicos, mas que mesmo assim manejavam a matéria orgânica de forma diferente.

Em 1943 Howard publicou o Testamento Agrícola, onde descrevia o método Indore de fertilização do solo que aprendeu com os camponeses, esse método é conhecido aqui no Brasil como compostagem. Ainda nesta obra relata a importância das micorrizas para a fertilização do solo. Já nas primeiras décadas do século passado,

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Howard previa a decadência dos sistemas agrícolas tradicionais, com suas necessidades de adquirir insumos advindo

Howard previa a decadência dos sistemas agrícolas tradicionais, com suas

necessidades de adquirir insumos advindo de fora da unidade de produção agrícola

e o esgotamento do solo devido ao uso intenso de fertilizantes sintéticos.

Na etapa final de seu Testamento, Sir Albert, conclui que as pessoas seriam muito mais saudáveis se consumissem alimentos igualmente saudáveis, mas que para isso fosse possível era necessário que o solo, fosse manejado de forma natural, a fim de oferecer boas condições de desenvolvimento para os vegetais. Seu método de praticar agricultura foi aperfeiçoado pela pesquisadora inglesa Lady Eve Balfour.

Atualmente, com a mudança dos hábitos de consumo alimentar, que tem exigido produtos mais saudáveis a Agricultura Orgânica tem buscado novos métodos e técnicas, a fim de alavancar a produção sem, contudo agredir o meio ambiente. No entanto, há produtores que se especializaram em determinados ramos da produção agrícola e estão praticando a agricultura orgânica nos moldes da agricultura industrial, ou seja, há praticantes de uma “monocultura orgânica”, que visam somente a geração de capital.

No entanto, segundo a Lei n° 10.831, de 2003: “considera-se sistema orgânico de produção agropecuário todo aquele em que se adotam técnicas especificas, mediante a otimização do uso dos recursos naturais e socioeconômicos disponíveis e o respeito à integridade cultural das comunidades rurais, tendo por objetivo a sustentabilidade econômica e ecológica, a maximização dos benefícios sociais, a minimização da dependência de energia não-renovável, e a proteção ao meio ambiente.”

Howard descreve no Testamento Agrícola as práticas conservacionistas que devem ser realizadas, a fim de manter a saúde do solo, tais como: quebra ventos, cobertura morta, cultivo mínimo, terraceamento, consórcio entre culturas, cordão de vegetação, cordão de pedras e adubação verde. A saúde do solo está diretamente ligada a uma prática sustentável de agricultura.

A Agricultura Orgânica pode ser definida como um modo de produção agropecuário

que exclui os fertilizantes sintéticos, os agrotóxicos, os hormônios de crescimento e os aditivos sintéticos para a produção animal e vegetal, e valoriza as práticas conservacionistas de uso de solo, os métodos naturais de controle “pragas” e doenças, bem como constrói tecnologias sustentáveis e acessíveis aos produtores.

È

uma forma participativa e inclusiva de prática agrícola.

Souza & Resende (2005, p. 85,86) enumeram alguns objetivos da Agricultura

Orgânica:

(1) Desenvolver e adaptar tecnologias às condições sociais, econômicas e ecológicas da cada região; (2) Trabalhar a propriedade rural dentro de um enfoque sistêmico envolvendo todas as atividades da mesma; (3) Priorizar a propriedade

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familiar; (4) Promover a diversificação da fauna e da flora; (5) Reciclar nutrientes; (6) Aumentar

familiar; (4) Promover a diversificação da fauna e da flora; (5) Reciclar nutrientes; (6) Aumentar a atividade biológica do solo; (7) Promover o equilíbrio ecológico das unidades de produção da propriedade; (8) Preservar o solo, evitando a erosão e conservando suas propriedades físicas, químicas e biológicas.

Agricultura Ecológica

O termo Agroecologia surgiu da década de 1970 como uma tentativa de unificar todas as correntes que trabalhavam formas alternativas de agricultura. Inicialmente o movimento pela Agroecologia teve como precursores William Albrecht, Stuart Hill e Fritz Schummacher. No entanto, foi com os doutores Miguel Altieri e Stephen Gliessman da Universidade da Califórnia, que a Agroecologia foi disseminada na comunidade acadêmica. Alitieri e Gliessman incorporaram que no enfoque da agroecologia troca-se a ênfase de uma pesquisa agropecuária direcionada à disciplinas e atividades específicas para tratar de interações complexas entre pessoas, culturas, solos e animais.

Ao contrário do que se pensa a Agroecologia não é uma retomada do modelo agrícola de décadas passadas, ela é uma forma de resgate da agricultura sustentável praticada pelas comunidades tradicionais e pelos índios. Isso quer dizer que, a Agricultura Ecológica tenta resgatar os conhecimentos tradicionais e indígenas que foram perdidos com os processos de escravidão e de colonização.

No período de colonização/escravidão as bases simbólicas e o empirismo foram transformados com os processos de evangelização, o que significou uma perda cultural muito significativa, no que concerne as práticas agrícolas desenvolvidas hoje, principalmente nos países que foram colônias de exploração, uma vez que estes tiveram suas raízes culturais “transformadas” pelo colonizador. Porém, mesmo com essa castração cultural, ainda se pode observar na práxis agrícola resquícios da agricultura indígena, como: a agricultura itinerante, o “pousio”, a diversidade ecológica, o extrativismo, o uso de sementes crioulas, o cultivo de plantas medicinais e a produção de extratos vegetais.

Altieri em sua obra Agroecologia: bases científicas para uma agricultura sustentável, descreve a morte de sistemas culturais e de conhecimentos populares causados pela dominação da cultura indígena pelo colonizador, isto ocorreu porque o conhecimento não foi construído de forma participativa, mas imposto, o que provocou a supressão dos saberes nativos.

A Agroecologia é uma ciência diferente das ciências convencionais, porque não tem fórmulas ou receitas prontas. Ela constrói o conhecimento de forma participativa, integrando o conhecimento acadêmico aos saberes populares e as práticas empíricas dos povos do campo. E no que se refere a prática agrícola, ela vê a unidade de produção de forma sistêmica, como um organismo vivo, que sofre

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influências benéficas ou maléficas a partir de como é estabelecida a relação com o ecossistema

influências benéficas ou maléficas a partir de como é estabelecida a relação com o ecossistema onde está inserido. Isto quer dizer que nos agroecossistemas artificiais, praticados pela agricultura, o bom desenvolvimento ou não desta atividade, está diretamente relacionada com a forma de se manejar o meio ambiente. Para Altieri, as pesquisas sobre a Revolução Verde foram importantes para a evolução do pensamento agroecológico, porque o estudo dos impactos destas tecnologias foi instrumento para mostrar os tipos de preconceitos que predominavam nas ideias de desenvolvimento e agricultura. A Revolução Verde contribuiu para aumentar ainda mais o abismo existente entre os pequenos agricultores familiares e os latifundiários, pois o acesso as novas tecnologias era restrito a quem pudesse pagar por elas. Assim, a Agroecologia evolui como uma ciência que além de valorizar o saber popular, tem também como premissa incluir o agricultor familiar na dinâmica agrícola do país, de forma sustentável e obedecendo as limitações presentes em sua unidade de produção.

O sistema agrícola convencional simplifica a estrutura do ambiente, o que o torna mais frágil. A dinâmica biológica dos ecossistemas é suprimida e a intervenção humana é “necessária” para que a manutenção deste sistema “artificial” ocorra. Já nos sistemas agroecológicos não somente a perspectiva ambiental é valorizada, mas também a social, a cultural e a econômica, isso ocorre, porque como já mencionado anteriormente, a Agricultura Ecológica percebe o sistema produção de forma una, e nessa unidade o homem também é um elemento, e, portanto deve ser visto como sujeito do processo de produção, porém não como elemento artificializador. Os sistemas convencionais são frágeis, porque possuem uma grande dependência de insumos provenientes de fora da propriedade; são pouco diversificados biologicamente; sofrem estresses severos nos ecossistemas, tais como: mudanças na temperatura, umidade e nutrientes e; sofrem constantemente alterações na cadeia alimentar.

De acordo com Assis (2005, p.19) a Agricultura Ecológica introduziu a ideia de que a mudança no modo de produção deveria aliar as necessidades ecológicas com as socioeconômicas.

No sentido, de tornar a agricultura sustentável, independente de recursos advindos de fora da propriedade agrícola, Gliessman propõe algumas práticas que devem ser adotadas no manejo da unidade de produção, como: cultivos consorciados, cultivos em faixas, uso de cercas vivas e vegetação tampão, rotação de culturas, cultura de cobertura, pousio, cultivo mínimo, aportes elevados de matéria orgânica e redução do uso de insumos químicos.

Permacultura

A Permacultura (cultura permanente) foi inspirada nas experiências do modelo de agricultura não industrial proposto por Fukuoka. Bill Mollison foi o responsável pela

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veiculação deste método holístico de agricultura da década de 1970, na Austrália. Ela percebe o

veiculação deste método holístico de agricultura da década de 1970, na Austrália. Ela percebe o mundo e seus componentes de forma sistêmica, como um organismo ecológico, onde tudo tem uma interface.

De acordo com Assis (2005, p. 20) a permacultura procura integrar a unidade de produção agrícola e o ecossistema, com um modelo de sucessão de cultivos, procurando aliar maximização da produção e conservação dos recursos naturais.

A essência da permacultura estabelece que os princípios da Permacultura são princípios éticos e princípios de desenho. Os princípios éticos estão alicerçados em três eixos: o cuidado com a terra, o cuidado com as pessoas e a repartição justa (redistribuição dos excedentes). Já os princípios de desenho estão baseados na ecologia de sistemas, na geografia de paisagens e na entomobiologia.

Os princípios de desenho obedecem a dinâmica da natureza para que o homem possa planejar sua rotina baseado no que o ecossistema possa oferecer. A Permacultura defende a manutenção de sistemas Agro-silvo-pastoris, sendo especialmente desenvolvidas em florestas tropicais e subtropicais. Proíbe o uso de arados e grades para revolver o solo, não utiliza fertilizantes sintéticos e nem composto orgânico. Realiza o plantio direto na palha das gramíneas.

Agricultura Regenerativa

Este termo foi proposto em 1980 por Roberte Rodale, nos Estados Unidos, na década de 1980, que utilizou a hierarquia ecológica para regenerar os sistemas de produção agrícola, tão desgastado pelo uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos.

Sua proposta visa a regeneração e manutenção não apenas das culturas mas de todo o sistema de produção alimentar, incluindo as comunidades rurais e os consumidores. Esta regeneração da agricultura deve levar em conta, além dos aspectos econômicos, as questões ecológicas, éticas e de equidade social (EHLERS, 1994).

Conclusões

Tanto ao poder público, quanto a sociedade devem promover um consumo consciente, a fim de construir um cenário agrícola mais emancipatório social e ecologicamente sustentável. Os estudos realizados com manejo alternativo do agroecossistema têm apresentado resultados promissores.

No entanto, é importante destacar que muitos agricultores “orgânicos” tem adotado o manejo da agricultura orgânica, mas de forma insustentável, promovendo um contra senso dos princípios desta corrente. Isso ocorre, principalmente, em virtude da produção em larga escala que promove a monocultura de “produtos orgânicos” para atender uma demanda mercadológica.

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Por outro lado, as políticas públicas brasileiras deram uma saldo rumo ao reconhecimento da importância

Por outro lado, as políticas públicas brasileiras deram uma saldo rumo ao reconhecimento da importância do manejo sustentável dos agroecossistemas e do papel dos agricultores familiares nesse processo. No sentido de difundir os preceitos filosóficos, epistemológicos, tecnológicos e metodológicos das correntes não industriais de agricultura é fundamental que as universidades e colégios técnicos agrícolas incluam em seus currículos disciplinas e atividades que oportunizem a formação de profissionais capacitados ao atendimento desta nova demanda dos agricultores.

Referências bibliográficas

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EHLERS, E.M. O que se entende por agricultura sustentável?. 1994. 161f. Dissertação (Mestrado). São Paulo: USP, 1994.

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http:

Princípios da

Agricultura

Biológica.

Disponível

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Seminário propostos pelo Professor Renato Assis, no Módulo I do Curso de Pós Graduação em Agricultura Orgânica, Seropédica, 2011.

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WEID, Jean Marc Von der. Da Agroquímica para a Agroecologia: por um novo modelo de

WEID, Jean Marc Von der. Da Agroquímica para a Agroecologia: por um novo modelo de desenvolvimento agrícola apoiado os pequenos produtores. Seminário Nacional sobre políticas públicas e Agricultura Sustentável. Brasília, 1994.

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