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Não existe santo sem passado, nem pecador sem

futuro.
(2Sm 12,7-13; Sl 31/32; Gl 2,16-21; Lc 7,36-8,3)
Na cela da prisão na qual viveu durante muitos anos, condenado pelo regime
comunista, o bispo vietnamita Dom François van Thuan sentiu-se tocado por uma
frase escrita desajeitadamente na parede: “Não existe santo sem passado, nem
pecador sem futuro.” Em sua meditação durante os sombrios e prolongados anos
da sua prisão, este autêntico santo do nosso tempo viu nesta frase um resumo do
Evangelho. E é também uma boa chave de leitura para o trecho do Evangelho
proclamado neste 11° domingo do tempo comum. Um santo – como todos os
cristãos – não nasce santo, mas é uma pessoa que, tocada pelo amor de Deus,
entra num permanente processo de conversão. Igualmente, diante de Deus
nenhuma pessoa, por maiores que sejam seus limites pessoais ou sua tragédia,
está presa às culpas do passado ou às contradições do presente.
“Por que desprezaste a Palavra do Senhor, fazendo o que lhe deagrada?”
Como cristãos não somos superiores a ninguém, não ocupamos o centro de nada,
nem devemos nos separar das pessoas comuns. Mas as tentações são muitas,
persistentes e potentes. Não é verdade que os católicos nos sentimos
indiscutivelmente superiores aos cristãos pentecostais? E que os padres e
religiosos/as nos sentimos um pouco melhores e superiores frente aos demais
membros da comunidade? E que muitos que são bem-sucedidos na vida se sentem
mais dignos e meritórios que os demais? Que os brancos se sentem superiores aos
negros e os homens mais dignos que as mulheres?
No ventre desta postura de superioridade vai tomando corpo um distanciamento,
uma força que separa e traça fronteiras intransponíveis. Os muros que hoje
separam israelitas e palestinos em Jerusalém, mexicanos e norte-americanos nos
EUA, cristãos e muçulmanos em Chipre são apenas símbolos de tantos outros,
invisíveis mas sólidos: muros que separam e opõem ricos e pobres, cultos e
analfabetos, brancos e negros, cidadãos e excluídos, clero e leigos, justos e
pecadores, economia e ética...
Na base deste dinamismo destruidor está a presunção de que somos o centro em
torno do qual tudo deve girar: o ser humano é o centro e a medida de todas as
coisas; a Europa é o centro gravitacional do ocidente; o Estado é o centro propulsor
da nação; o clero é o núcleo vivificador da Igreja; a autorealização é a pedra-de-
toque da vida... E até a fé e a religião acabam colocadas a serviço desta ideologia
apresentada com cores e sabores de evangelho.
“Se este homem fosse profeta...”
E acabamos sempre buscando um Messias que confirme nossas idéias, projetos e
práticas. Assim também Simão, do grupo dos fariseus, convida Jesus para partilhar
da sua mesa, convicto de que ele partilhava também da sua ideologia religiosa
separatista e exlcudente. Presunçosos e separados, os fariseus erguem um muro
que separa tudo entre puro e impuro. Estão seguros de serem o verdadeiro povo de
Deus, graças à prática minuciosa das leis da pureza. São justos graças a si mesmos.
Simão observa escandalizado que Jesus não toma distância frente a uma
reconhecida pecadora que, entrando indevidamente na sala de refeições, lava seus
pés com as lágrimas e os enxuga com os cabelos. Isso só confirma o que o fariseu
já suspeitava: Jesus não é um profeta que age e fala em nome de Deus, mas um
“comilão e beberrão, amigo dos publicanos e pecadores” (Lc 7,35). Para ele, Deus
não poderia senão confirmar a ideologia farisaica. Como muitos ainda pensam hoje:
Deus só pode confirmar a superioridade do primeiro sobre os outros mundos; do
cristianismo sobre as demais religiões; dos homens sobre as mulheres e
homossexuais...
“Pequei contra o Senhor!”
Acontece que os profetas começam por desvelar os pecados que escondemos ou
maquiamos com nossas belas e ambíguas doutrinas. O profeta Natã faz isso diante
do aparentemente ortodoxo e poderoso Davi que, ao que parece, toma consciência
das próprias iniquidades e se arrepende. Frente a um Deus que conhece nossa
verdade e – apesar ou por causa disso? – nos trata com bondade e compaixão,
começamos por reconhecer nossa condição de pecadores/as.
A noção de pacado está ligada mais à experiência de errar ou não alcançar a meta
desejada do que à transgressão de leis objetivas. Todos experimentamos uma certa
incapacidade de realizar plenamente a acolhida, a compreensão e a solidariedade
que sinceramente desejamos. E quem não fez a experiência de, por ceder à lei do
menor esforço ou fazer escolhas inadequadas, se desviar destas metas
objetivamente boas?
O salmista traduz esta experiência universal nas palavras sincera de uma oração:
“Reconheço a minha iniquidade. Eis que na culpa fui gerado, no pecado minha mãe
me concebeu. Afasta o olhar dos meus pecados. Renova em mim um espírito
resoluto” (Sl 50/51). E segundo a parábola contada por Jesus, diante das metas
absolutas que nos colocamos, todos somos devedores insolventes. Se esta é a
comum condição humana na história, como sustentar uma ideologia que divide
tudo em bons e maus, puros e impuros, competentes e incompetentes, meritórios e
culpados, superiores e inferiores?
“O Filho de Deus me amou e se entrgou por mim.”
O que nos sustenta no seguimento de Jesus Cristo é a experiência de que ele nos
ama pessoalmente e se entregou por nós. É isso que faz com que Paulo considere
todos os méritos acumulados no horizonte do judaísmo como lixo desprezível. É isso
que leva aquela mulher anônima a vencer todas as barreiras, ultrapassar os muros
levantados pela hipocrisia farisaica e irromper na própria casa daqueles que a
condenam. “O Filho de Deus me amou e se entregou por mim...” Não há pecador
sem futuro!
Paulo elabora a seu modo os princípios fundamentais deste Evangelho da
gratuidade da salvação. Não atingimos a maturidade e a plenitude da liberdade
observando prescrições que acabam fortalecendo nosso ego ou nossas instituições,
mas acolhendo o amor de Deus que nos é oferecido como graça e como tarefa em
Jesus Cristo. A lei é uma via superada que deve ser descartada, enquanto que a fé é
um caminho de vida, uma via pascal. Trata-se de assumir o espírito de Cristo como
orientação pessoal de vida. “Eu vivo, mas não sou eu: é Cristo que vive em mim!”
“Qual deles o amará mais?”
Diante de tamanha bondade e gratuidade não há como não ser agradecido. O
fariseu não demonstra gratidão e hospitalidade porque pensa que é merecedor da
salvação, que é credor diante de Deus. A presunção de mérito nunca se dá bem
com a gratidão, uma vez que eleva, incha, distancia, despreza, condena, exige. E
cobra até o último centavo, inclusive do próprio Deus. Esta é uma lógica
terrívelmente mortal que acaba desumanizando tanto quem a assume como
aqueles com quem se relaciona.
A proposta cristã é uma vida agradecida. “Eu não anulo a graça de Deus”, diz Paulo.
Isso significa reconhecer que somos pecadores/as acolhidos/as gratuitamente por
Deus, mas implica também em fazer da gratuidade e da acolhida sem
discriminação o princípio regente das nossas práticas e projetos, tannto individuais
como comunitários e institucionais. Longe de nós a fria superioridade do fariseu,
incapaz de qualquer gesto de hospitalidade para com Jesus. Trata-se de entrar
ritmo de Jesus Cristo, que derrubou os muros que separavam e fez nascer um único
povo (cf. Ef 2,14).
“É Cristo que vive em mim...”
Somos uma comunidade de pecadores/as redimidos/as gratuitamente. Se às vezes
choramos, é por casa da alegria das portas abertas e dos muros derrubados. Para
espanto daqueles/as que até hoje questionam quem somos nós para desconhecer
os muros erguidos em nome da segurança dos puros e separados, respondemos
com a vida que não perdemos a paz e que é a nossa fé em Jesus Cristo que nos faz
pensar e agir assim. Não há santo sem passado, nem pecador sem futuro.
Somos uma comunidade de pecadores/as reconciliados/as a serviço da
reconciliação da humanidade. Queremos manter as portas abertas a todas/as as
pessoas tratadas como últimas. Muitos/as carregâvamos ideologias discriminadoras
que pesavam mais que sete demônios, mas fomos libertados/as. Sabemos que
podemos reincidir nos desvios da presunção e do autoritarismo violento. Mas isso
não impede que continuemos a sonhar com uma Igreja que acolha e promova a
diaconia feminina, a partilha de bens e o serviço profético dos/as derrubadores/as
de muros.
Pe. Itacir Brassiani msf

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