Comics are imagetic literature, that allows input and

understanding, resulting in a different way that acts
inside the two hemispheres of the human brain. The
image operates into right side of brain, while phoneti-
cal rational information acts on left side. Those aspects
help in education of human values in a sistemic way,
integrative, considerating interdisciplinary on education.
Beyond, comics can also be authoral, distint from the
pattern way, when something is elaborated by a group,
intenting exclusively commercial finality. In both of ca- abstract
ses, comics must be reknowned as art, as any other
human expressions like visual arts, plastic arts, movies,
literature and others.
Keywords: Comics, Authorship, Art.

A autoria artística das histórias em quadrinhos
(HQs) e seu potencial imagético informacional

Gazy
A n d r au s

A história em quadrinhos (ou HQ) é uma arte literário-
-imagética, permitindo uma atuação e entendimento
que incide de forma diferenciada nos hemisférios cere-
brais. A imagem recai no hemisfério direito do cérebro,
enquanto que a informação escrita fonética racional
atua no esquerdo. Tais aspectos auxiliam na educação
dos valores humanos de forma sistêmica, integrativa,
considerando-se a interdisciplinaridade no ensino. Além
disso, a história em quadrinhos pode ser também auto-
ral, distintamente daquela padronizada como fruto de
uma equipe para finalidade estritamente comercial. Em
resumo ambos os casos, a história em quadrinhos deve receber
o estatuto de arte, como quaisquer outras das expres-
sões humanas que são assim classificadas, tais como as
artes visuais, plásticas, cinema, literatura e outras.
Palavras-chave: Histórias em Quadrinhos, Autoria,
Arte.

principalmente. e adquiridos pelo governo a fim de figurarem nas bibliotecas escolares. Assim. tanto artística. facilitando assim a comunicação. a ne- cessidade gregária de compartilhamento de informações foi o deflagrador de toda essa epopéia criativa.1 A expansão neuroplástica Embora a história da humanidade pressuponha a manifes- tação expressiva gestual. 1. graças a um des- conhecimento acerca do potencial relativo às artes. bem como têm sido indicados ao ensino pelos PCNs. como científica. no auxílio mental à formação humana. tornando-a fluida e mediadora para o entendimento prático. ape- sar de abarcar possibilidades abstratas de pensamento. ganhando es- paço em setores de mídia impressa e televisiva. VISUALIDADES. que lhes conce- de cada vez mais prestígio. sobretudo. Isto se dá. ou que 44 Gazy Andraus . mas principalmente como agentes artísticos auto-suficientes literário-imagéticos apresentados de uma maneira própria. sejam de somenos importância. Histórias em quadrinhos (HQs) e informação sistêmica As histórias em quadrinhos não servem apenas ao auxílio interdisciplinar ou às aulas de literatura. Mas isso não significa que os desenhos (que originaram a escrita ideográfica e fonética). as HQs somente agora estão se tornando melhor re- conhecidas no mundo e principalmente no Brasil. devido à relação intrínseca das HQs como uma literatura imagética (ou panvisual) e a importância delas como imprescindível e necessário objeto de estruturação cultural aos povos: objeto este que auxilia em uma melhor in- terface dos dois hemisférios cerebrais: esquerdo: racional (fo- nético) e direito: intuitivo (imagético). A escrita evoluiu da vontade de se registrar a infor- mação.FAV I UFG 1. Porém. haja vista que os quadrinhos estão migrando para formatos similares a livros e álbuns destinados a livrarias. independentemen- te. REVISTA DO PROGRAMA DE MESTRADO EM CULTURA VISUAL . isto nem sempre foi assim. sonora (gutural) e garatujada.

Ainda assim. Assim. expressa. temores. múltiplas interpretações ou que sejam limi- tados. teme.A autoria artística das histórias em quadrinhos (HQs) e seu potencial imagético informacional induzam a “erros”. desenvolvendo poderes dos seus três cérebros. réptil. inclusi- ve pela ciência cartesiana. Morin (2000) já explicou que o ser humano é complexo. repousa inter- namente o cérebro central. Nem que. ora Figura 1 DE GREGORI. ora para uma parte. cuja 45 . pois sente. argumenta que o cérebro humano contém todas as outras versões de cérebros anteriores. manifestando uma complexidade de sentimentos que não se restringem a um padrão único e formatável. De Gregori diz que deve haver uma utilização pro- porcional entre esta porção central (ação decidida). alegrias e outros humores da pessoa que busca representar graficamente seus estados de ânimo. São mais algumas áreas e menos Paulo: Pancast. em parte. com sua teoria do cérebro triuno (fig. o desenho pudes- se ser tido como informação “infantilizada” e menos complexa nos quadrinhos. porque o ensino cartesiano. que responde pelo pragmatismo. como parece ter sido assim percebido. o hemisfério esquerdo (racio- nalidade) e o direito (criati- vidade). De Gregori (1999). Porém. e não apenas um ser racional. o ser humano acaba por pen- der. 1999 outras. como expressão direta de uma mente que elabora racional e criativamente. expressa os an- seios. até a inteligência básica da vida. Sem uma utilização comum proporcional a esses três módulos conjugados. Dessa forma. Ao contrário: o desenho. assim. Os para outra. ressalte- -se que é de conhecimento científico que o funcionamento ce- rebral cognitivo resulta da atividade integrada dos hemisférios. expõe que aliado aos dois hemisférios (direito e esquerdo). Waldemar. pensa. 1). e em rede. se alegra. se esses fossem os casos. tal desproporcionalidade apontada por De Gregori explicaria.

O Tao da Física. Os cientistas ainda não compreendem como isso se dá. Pois. Fritjof. ainda que fosse como uma espécie de “demiurgo”. co-realizando a “realidade” tridimensional. da clássica para a quântica. REVISTA DO PROGRAMA DE MESTRADO EM CULTURA VISUAL . VISUALIDADES. definitiva- mente. teve uma repercussão total na relação entre sujeito e objeto: o cientista não pode- ria mais. cuja posição que seria eleita dependeria realmente do fator. agora na visão quântica. por exemplo. que tanto poderia ser um corpúsculo material. Neste último caso. coloca-se em pauta a possibilidade existencial no tempo-es- paço da partícula. deixar de afetar sua pes- quisa. depende da mente humana eleger tal realidade e “estagná-la”. o qual se define mediante a Figura 2 CAPRA. como a atividade criadora (a criatividade. agora subjetivo. 1990 escolha momentânea do físico (fig.FAV I UFG modalidade exclusivista e dominante atinente ao hemisfério esquerdo. incluin- do a inserção de modalidades novas de pensamento. posicioná-la. embora ele possa continuar suas medições. atinente ao hemisfério direito cerebral). 2). 46 Gazy Andraus . deveria já estar totalmente reformulado. o fator “obser- vação” altera a posição no tempo e espaço da micropartí- cula. São Paulo: Cultrix. cuja observação participante proporcionaria a medição e lo- calização no tempo-espaço da micropartícula atômica. A mudança de paradigma na ciência. como também uma possibilidade ondulatória que figurasse poten- cialmente em qualquer lugar. Em outras palavras: a possibilidade de algo estar em algum lugar. da ponderação do ho- mem (do pesquisador).

como bem afirmou Capra (1999). devido a estudos atuais da neurociência. 47 . uma alocação de funções cere- brais. sabe-se que a mente é neuroplástica. culminaram os cientis- tas por aceitar a facticidade dual da micropartícula ser/estar e onda/matéria ao mesmo tempo. pois falho e manco. bem como não cessa jamais de se ampliar (e regenerar). esta dualidade atômica. remodelando a si mesma (a mente). No entanto. Experimentos com tomografias computadorizadas têm sido utilizados para ilustrar novas descobertas do funciona- mento cerebral. já que insuficiente para atuar nos hemisférios cerebrais de modo satisfatoriamente equilibrado.. que apontam para repensar tais questões. um tanto diferente daquela que os leitores da Europa Ocidental e os leitores de alfabetos fonéticos orientais usam para a identificação de palavras. para a identificação de seus morfemas–caracteres. sua mente se “reformatou” como que para aceitar um estado natural da existência. na visão de um mundo newtoniano em que todo o universo pa- recia ser uma máquina funcional. mais comple- xo e absolutamente inóspito ao modo de pensar habitual. 1995). em que este seria apenas um mero observa- dor sem poder alterar algo. então. (SAENGER. localizadas entre os hemisférios cerebrais direito e es- querdo. A mente destes pesquisadores. a despeito de uma lógica simples e cartesiana não poder abarcar tal premissa. cuja manutenção indepen- dia do homem. que não condiz com o que a concepção da lógica linear anterior. na nova física que vai além do mero efeito ação/reação. Além disso.) experimentos de laboratório e estudos clínicos indicam claramente que a leitura do chinês requer. Constatou-se assim que (.A autoria artística das histórias em quadrinhos (HQs) e seu potencial imagético informacional nem como uma partícula possa ser dual ao mesmo tempo (matéria/onda). e não com um ensino que contemple apenas a chamada inteligência racional. como real e plausível.. tornando-se propícia a aceitar este “novo”. porém. desde que seja estimu- lada para tal. principiou a adentrar num novo paradigma.

isso bastou para que psiquiatras. REVISTA DO PROGRAMA DE MESTRADO EM CULTURA VISUAL . os de- senhos das histórias em quadrinhos podem incidir em áreas dis- tintas do cérebro. a expressão 48 Gazy Andraus . VISUALIDADES. que a razão principal de as HQs terem sido desvalorizadas no processo cultural foi realmente a performan- ce da assim e então chamada “mente dominante” (hemisfério esquerdo). pedagogos e educadores sem muita reflexão acusassem os quadrinhos como pérfidos à educação da juventude. percebendo o valor real dos quadrinhos. Seu resgate só veio a partir da década de 1960 e 1970. des- valorizou. ainda há muito que se pesquisar e dedu- zir. na dé- cada de 1950. por atuar de forma incisiva no racional. como na ciência clássica. mas é de salientar a influência que podem trazer ao psiquismo humano (como os noticiários de televisão. 2006). O problema. e faltou vi- sualizar tal fato. além de servirem informação imagética de forma diferenciada. longe de serem empecilhos à educação. foi pressentida e vivenciada (até de forma exagerada). mas claro está que. os filmes etc). pro- movendo fontes de conhecimento e deflagrações criativas que auxiliariam na transformação do ensino em algo não somente sistêmico e informacional. psicólogos. inclusive. Aqui. A mesma síndrome correu mundo afora e no Brasil. o que resultou em expressões artísticas de temá- ticas mais fortes e de tons “negativos”. Os quadrinhos. ativando-as. quando os Estados Unidos viviam uma crise sem precedentes. também divertem. realmente. à mesma forma que os ideogramas. Esta influência. retirando-os aos poucos do limbo a que foram submetidos. é que muitas das histórias não eram para crianças. Infelizmen- te. os quadrinhos são potentes informações imagéticas que podem ser utilizadas como literatura diferenciada. como nas histórias de terror que pululavam nas revistas de HQs (comics). com o advento de teóricos europeus e de estudos cultu- rais. diferentemente do que faz uma leitura da escrita cartesiana.FAV I UFG Dessa maneira. Como se percebe. como também indispensavelmente lúdico. conjecturo baseado em minha tese de doutorado (Andraus. aliada à literatura convencional escrita (e também aos textos acadêmicos) como forma de melhorar a interação dos hemisférios cerebrais. com classificações etárias. já que. o subjetivismo. como é feito atualmente nos cinemas.

Porém. Dessa forma. nomeia. com total ausência de textos escritos (excetuando-se pelo título da história e do personagem como acontece em narrativas de filmes. relegando a um segundo plano o lado direito. em seu início desde a pré-história. O artista norte-americano de histórias em quadrinhos.A autoria artística das histórias em quadrinhos (HQs) e seu potencial imagético informacional artística. 3). ao final da década de 1960 para início da de 1970. superestimando a escrita racional do pensamento estrita- mente cartesiano. calcula. introduziu uma história contendo suas três páginas iniciais com- pletamente mudas (Fig. por algum motivo ainda não esclarecido. a ciência que es- tuda o cérebro. considerou o hemisfério esquerdo como “domi- nante”. logo. Também foi percebido que os homens. Assim. Advirto que durante um grande período. cria. conceitua. en- contra eco e respaldo no que apontam as pesquisas com tomo- grafias computadorizadas do cérebro. Ora. cuja tônica informacional se dava exclusivamente pelas imagens desenhadas. foi a partir da década de 1950 que o cérebro passou a ser melhor conhecido. e somente depois é que se en- tendeu que a falta de clareza quanto ao potencial do hemisfério direito não o classificava como de somenos importância: se é o esquerdo que diagnostica. os hemisférios cerebrais comandam de forma inversa os lados do corpo. o estigma no qual o texto descritivo fonético seria preponderante 49 . a questão de o fonema ter se sobressaído e sobera- namente valorizado conquanto a seu conteúdo intrínseco. pois que esta era (e é) entranhada e deflagrada pelo hemisfério direito. Destarte. em que. já que a mão direita trabalha- va mais. quando roteirizava e desenhava a revista Nick Fury para a editora Marvel Comics (Casey. do desenho – e conse- qüente supervalorização da escrita fonética –. abstrai. é o direito que visualiza. se deu no gran- de mercado norte-americano. utilizavam mais a mão direita para a execução de ferramentas e outros afazeres (Fa- cure. Jim Steranko. 2004). classifica tudo. Um fato que comprova a desatenção em relação à impor- tância da informação imagética. em muitos momentos desenrolam-se ações sem falas). tal cisão permitiu desconside- rar-se o valor da arte dos desenhos e dos quadrinhos por exten- são. 2003). o hemisfério esquerdo aca- bou por ter uma maior ampliação. Porém.

no caso. conforme se pode asseverar por mais este fato pontual. tornando-se analfabetas em reconhecer tais artes. nem desenhos. REVISTA DO PROGRAMA DE MESTRADO EM CULTURA VISUAL . o leque de estilos de desenhos diferentes. a questão se tor- na muito mais complexa. em realidade. Nick Fury. excluin- do do rol de suas publicações trabalhos diferentes. nov. São Paulo: Abril. 4-5 como elemento necessário às histórias em quadrinhos. O pesquisador francês re- força a questão de que as pessoas não sabem ler imagens. causou estranheza ao editor. VISUALIDADES. Heróis da TV. contribuindo para uma 50 Gazy Andraus . que temia que os jornaleiros pensassem se tratar de erro de im- pressão. é que a es- tultícia em se nivelar por igual a todas as coisas da sociedade. já que crêem ser difíceis de serem lidos e aceitos pelos lei- tores. acaba por sacrificar a riqueza e diversidade cultural. já aventado por Groensteen (2004). 17. o que propicia uma padronização por parte das editoras. dirimindo a importância da informa- ção imagética. Quem será Scorpio.FAV I UFG Figura 3 STERANKO. Jim. à medida que o valor à escrita fonéti- ca se torna desmesurado. e sua ausência nas pá- ginas elaboradas pelo desenhista. Na verdade. N. e devolvessem a edição. o que diz Groensteen. p. Porém. vanguardis- tas. 1980. corroborando um sintomático analfabetismo icônico.

a qual propiciou os raios lasers e toda a tecnologia computacional e de chips da atuali- dade. começaram desde a pin- tura rupestre. impres- sas em revistas ganharam um novo nicho. antes da escrita. Enfim. assim. em seu início. conforme se comentou: atualmen- te. Por esse prisma. porém para o público adulto. para os quadrinhos. se caia na mesmice em se aceitar apenas a física anterior. e no caso. mas necessita de apoio e ampliação com a física quântica. Depois. 2. Mister se faz lembrar que elas. e conseqüente falta de apreciação por parte dos leitores. caso os estímulos sejam padronizados e não requeiram esforços em novos reconhecimentos. No Brasil. realizado nos jornais. há de se preocupar e atentar com o que o pesquisa- dor europeu diz. É fácil se com- preender isso. há o perigo de um uso menos qualitativo do potencial mental. difundindo-se e estruturando-se como linguagem graças à prensa de Gutemberg e aos jornais. quando se reporta à questão diferencial entre a física clássica e a quântica. Somente depois é que vie- ram as HQs de temática infantis. explica que a inteligência humana se amplia se estimulada. uma das revistas que passaram a publicar HQs foi intitulada de “Gibi” (meninote 51 . e culminaram nas artes sacras medievais. não há dúvidas entre os físicos que não se pode teorizar e nem praticar tal ciência apenas com a visão mecanicista. as HQs. Histórias em quadrinhos: conceituações e arte- autoral literário-imagética As histórias em quadrinhos.A autoria artística das histórias em quadrinhos (HQs) e seu potencial imagético informacional uniformização empobrecedora no quesito cultural atinente à variedade nos desenhos de quadrinhos. atualmente em voga com fundamentos científicos comprova- dos. já que a teoria da neuroplasticidade cerebral. deve-se eliminar toda a tecnologia atual baseada em noções e cálculos quânticos (inclusive os computadores quânti- cos que estão sendo testados atualmente). Caso. eram de humor. que pode e deve ser usada cotidianamente. O mesmo caminho e raciocínio pode ser transposto para as artes.

Bobobolinski (fotocópia de página da minha coleção particular) se remeter ao cinema: os di- retores seriam o equivalente aos escritores literários. por exemplo. outras clas- sificações importantes. muitos filmes são produzidos também de forma autoral pulverizada. como Comics nos EUA. comercial. As HQs têm várias outras denominações pelo orbe. as artes em geral. Bande Dessinées e Bandas Desenhadas na França e Portugal respectivamente etc.FAV I UFG negro) e acabou sendo sinônimo de todas as outras que vieram depois. Da mesma forma que os livros. injetando seu estilo e marca em suas produções. 4). Porém. com personagens como carro-che- fe. Robert. as histórias em quadrinhos possuem au- tonomia própria e lingua- gem específica (nem sempre precisam ser lidas de forma linear. ao Figura 4 CRUMB. Fumetti (alusão aos balões de fala e pensa- mento) na Itália. a diferen- 52 Gazy Andraus . Historieta na Espanha e América latina. carregando em sua forma a autoria. o cinema. Além disso. VISUALIDADES. de autorias pulverizadas. seja a literatura convencional. Torna-se fácil compreender isso. mas pouco percebidas. Mangá no Japão. REVISTA DO PROGRAMA DE MESTRADO EM CULTURA VISUAL . configurando uma diferenciação entre o filme autoral e o in- dustrial. na França e Como qualquer outro veículo de expressão humana. imprescindindo da importância do nome do diretor (autor). conforme se vê na (fig. e não só o processo industrial. devido à sua função peculiar e pessoal. são pos- síveis às histórias em quadri- nhos: • HQs de autor (ou de arte): Asterix.

ou ainda mesmo Mel Gibson. filmes de Akira Kurosawa. Como exemplo. 30 Moebius. Ao que tudo in- dica. semelhante fato se configura. ou Ridley Scott. dependendo do nome dos diretores. dois de seus recentes filmes. cuja autoria se impõe como marca em cada uma de suas últimas produções (Paixão de Cristo e Apocalypto. A autoria artística das histórias em quadrinhos (HQs) e seu potencial imagético informacional ça entre um filme autoral e outro “industrial”. e no Bra- sil. de Neil Gaiman. ape- sar da violência e da produção milionária. José Saramago ou Clarice Lispector irão servir de leitura para seus fãs. distinguindo seus trabalhos da grande massa de revistas de quadrinhos que se mostram vendáveis apenas graças a seus personagens (como as de super-heróis e mangás). como no herói sacrificial do filme “Co- ração Valente”. 5). como exemplo. por detrás da produção. Edgar Franco (Fig. 14. uma sintomática marca de seu diretor Gibson). Laerte e outros. enquanto nas histórias em quadrinhos. Lourenço Mutarelli. o brasilei- ro) tem crescido de forma exponencial. N. é o mote que irá atrair platéias específicas: há pessoas que se locomovem aos cinemas apenas para ver determinadas obras. p. O redescobrimento. Edgar. 2005. do expurgo “heroístico” religioso – diga-se espiritualista. Frank Miller. que buscam obras Figura 5 FRANCO. finalmente. com distribuição semelhante ao comér- cio livreiro. o mesmo se repete: Jorge Luis Borges. apresentando-se de forma contundente. Quadreca. abarcando quadrinhos no formato de livros. São filmes que. Alan Moore. possuem uma simbo- logia do sacrifício. o mercado livreiro mundial (em especial. embora tal faceta seja pouco observada pela mídia em geral: os autores de HQs têm público leitor cativo. o que auxilia numa valorização crítica crescente por 53 . Além disso. Na litera- tura. São Paulo: Comarte.

Luis. 7. servem a adolescentes (Fig. além do quadrinho de autor e quadrinho comer- cial. • Quadrinho infantil. enaltecendo as virtudes da arte quadrinhística. • Há diferenças entre HQs. para o público adolescente). Charges e Cartuns e Carica- turas: basicamente.FAV I UFG parte da mídia especializada. assim como as tiras (formatos específicos para jornais principalmente) da Série Fala Menino de autoria de Luis Augusto. Este item. na França e países de língua francófona servem como leitura às três faixas etárias. em geral. as histórias em quadrinhos são formadas 54 Gazy Andraus . da Figura 6 AUGUSTO. por exemplo. e auxiliando-a na solidificação de um status de autoria e autoridade (como nos livros). Há outros “diagnósticos” à Literatura da Imagem ou Nona Arte (como também são chamadas as histórias em quadrinhos na Europa). REVISTA DO PROGRAMA DE MESTRADO EM CULTURA VISUAL . até que se prove o contrário. Col. são mais endereçados aos jovens adolescen- tes. no Brasil. produzido pelos Estúdios Maurício de Sousa. como jo- vens e até adultos. é necessário sa- lientar. como se verifica. enquanto personagens como Magali e Mônica têm como alvo crianças (excetuando-se o recente lançamento “Mônica Jovem” no estilo mangá. Inocente. Fig. VISUALIDADES. 1: diferenciação de faixa etária do público leitor. já que podem ser lidas e entendidas distintamente tanto por crianças. 6). Os super-heróis norte-ame- ricanos. Menino! Vol. quase nunca é levado em conta na área dos quadri- nhos. Também as histórias do personagem Horácio (único que é elaborado de forma autoral por Maurício) se assemelham às de Asterix. infanto/juvenil e adulto: Asterix.

romântico. mas também nas imitações. assim como na literatura convencio- nal existem diversos gêneros narrativos nas histórias em qua- drinhos. nas atuações em filmes. Já a caricatura tem como base o exagero na expressão gráfica (não somente no desenho. es- tejam nas charges. Saga de • Estilos da Arte nos qua- Terror. Deve ser lembrado que a caricatura é um termo que provém do latim (caricare) e significa “exagero”. crítico social. Pop Art. Surre- alismo. • Estudos de caso de autor: Há muitos autores de HQs 55 . enquanto os cartuns seriam desenhos engraçados de en- tendimento universal. No exterior. p. Figura 7 CORTEZ. 1987. Expressionismo. cartuns ou HQs. under- ground etc. poético. São Paulo: Martins Fontes. su- per-herói. Jayme. terror (Fig. A autoria artística das histórias em quadrinhos (HQs) e seu potencial imagético informacional de imagens desenhadas que se seqüencializam. documental. • Gêneros literário-ima- géticos: neste ponto. em geral. 7). embora no Brasil se dife- renciem da seguinte maneira: charges são desenhos de humor geralmente políticos e temporais. filosófico. Noir (cinema). como humor. Gra- fite. Realismo. ação/ aventura (ficcional). aplicando-se a quaisquer dese- nhos expressivos de humor. 37 drinhos: pode-se perceber na literatura imagética seqüencial uma gama estilística de desenhos e narrativas que se igualam ao existente na arte em geral e no cinema: Art Nouveau. que podem igualmente ser caricaturais). As char- ges e cartuns são quase sinônimos. o termo caricature é usado para as charges e até cartuns. erótico. por exemplo. independente de seus temas serem ou não de humor. O Retrato do mal.

Figura 8 CAZA.FAV I UFG espalhados pelos países (como EUA. bem como artistas da HQs contem- porâneos do Líbano e sua visão no meio da guerra. criador de Lit- tle Nemo e um dos primei- ros autores de desenho ani- mado com a obra Gertie. tendo várias referên- cias literárias. por 56 . Les Humanoides Associés: nhos expressionistas-nou. cósmica e por fim a atual. Líbano). imbricando em conceitos de ecologia e ciência quântica e filosófica. Will Eisner e suas Graphic Novels (outro nome para um formato melhor na publicação de quadrinhos. ou Maus de Art Spiegelman. ape- nas para se ter como referência o quão agigantado e versátil é seu universo autoral. a série clássicos ilustrados nas HQs com Bill Sienkewicz e seus quadri. as HQs jornalís- ticas ou documentais como as de Joe Sacco com Palestina. Europa. Frank Miller e a opressão psicológica do herói e sua dualidade psíquica: o con- fronto entre o desejo pes- soal e o senso de dever nas imagens fortes de Batman e Demolidor. Por exemplo: Winsor McKay: quadrinhista. Passageiros do Vento de Bourgeon mostrando a África na escravidão com uma pesquisa textual e visual apurada. urbano- -crítica-social. com Sandman e o universo onírico visual. o dinossauro. Caza (França) (Fig. VISUALIDADES. Brasil. Arkhé. como Dante Aleghieri e Gibran khalil Gibran. como no caso da autora Lina. Aqui se desfila uma gama variada da literatura imagética. 8) e suas HQs nas 4 fases: psicodélica. REVISTA DO PROGRAMA DE MESTRADO EM CULTURA VISUAL . Tournai/Belgique. 1991 veau e as HQs de Neil Gai- man. do que simplesmente as revistas tradicionais) de estética pesso- al e que exploram a sensibilidade humana dentro das cidades. Alan Moore (Inglaterra) e suas HQs po- ético-científicas.

Feiffer e seu quadri- nho caricatural crítico e social. Antonio. Calazans com esquetes Figura 9 AMARAL. Henfil (Brasil) e seus traços soltos. como Flávio Colin e Shimamoto e seus tra- ços “nervosos”. conforme classificação feita por Magalhães (1993): os primeiros trazem artigos de determinados assuntos. Em geral. contos etc). Na verdade. A autoria artística das histórias em quadrinhos (HQs) e seu potencial imagético informacional exemplo. autores de HQ Brasileiros do gênero terror. Teresina: Edição do Autor. os fanzines (ou simplesmente zines) são edições em que os autores amadores e/ou profissionais 57 . enquanto que os segundos trazem as próprias criações artísticas (HQs. p. a plasticidade na arte das HQs do personagem Sur- fista Prateado dos norte-americanos Stan Lee e John Busce- ma e suas HQs de cunho existencialista. Grant Morrison trazendo em seus roteiros de ficção científica conceitos atuais da ciência. s/data. embora já seja habitual considerar ambos como fanzines. • Fanzines ou revistas alternativas: Há ainda que men- cionar tais produções artesanais e seu tremendo potencial cria- tivo e de design e conteúdo vanguardista. 9) etc. e sua crítica ainda atual. Edgar Franco (Brasil) e sua arte bio-cibermísti- ca. Hipocampo — A 3 a. poesias. promovendo a auto- -editoração e confraternização (aproximação) social universal. filosóficas. discutindo os rumos futuros da humanidade e pós-humani- dade. Peter Kuper demonstrando na HQs “grafitada” muda O Siste- ma como se dá a inter-relação no tecido social e a influência que cada ser humano tem na teia da vida. 11 arte fantástico-filosófica. Gazy Andraus e a ocorrência. Antô- nio Amaral e seus quadrinhos dadaístas (Fig. fanzines (neologismo que aglutinam duas palavras inglesas: fanatic e magazines) se distinguem de revistas alter- nativas.

como na Figura 10 MAGALHÃES. composta por quadrinhos filosóficos e arte un- derground. VISUALIDADES. Muitos são trabalhos ousa- dos e de vanguarda que só enriquecem a criatividade da lingua- gem dos quadrinhos. João Pessoa: Marca de Fantasia. São Paulo: Annablume. N. inverno de 2008 os fanzineiros são IDEGO. tanto no formato (grande e quase em sua totalidade com capa dura). Henrique. independente. São Paulo: independente. Figura 11 FRANCO. editora da Paraíba que tem como idealizador Henri. N. Zine Royale. seus autores tentam confrontar e achar brecha no mercado capitalista que de outra forma não lhes daria chance. HQTrônicas: do suporte de papel à rede Internet. quadrinhista. Top! Top!. junho de 2005 França. JOZZ. Maio de 2008 sondados pelos edi- tores. REVISTA DO PROGRAMA DE MESTRADO EM CULTURA VISUAL . doutor pela Sor. existiu a revista Manda- la (antiga Tyli-Tyli). Edgar Silveira.FAV I UFG divulgam suas artes (Fig. e muitos aca- bam por serem chamados para fazerem trabalhos profissionais: deve-se salientar que as histórias em quadrinhos na França são ti- das e editadas como livros. 18. bonne. 3. por exemplo. 10). No caso em questão das HQs. editada pela Marca de Fantasia. Como um exemplo de fanzine brasileiro de temática ousada. No exterior. 2004 58 Gazy Andraus . 1. N. relidos e poderem integrar bibliotecas. 3 quilo e meio. fanzineiro e Fapesp. como na intenção de serem li- dos. que Magalhães.

em que coexistirá com as versões impressas. de seu próprio conjunto. 11) pelo artista e pesquisador Edgar Franco (2004). São Paulo: Companhia das Letras. como qualquer outra mídia. • A literatura imagética dos quadrinhos também alcançou a Internet. A autoria artística das histórias em quadrinhos (HQs) e seu potencial imagético informacional professor universitário. tor- nando-se igualmente preconceituo- sa. Nesse caso. tornando-se uma nova linguagem híbrida. mas que. não deve ser pré-julgada sem uma análise porme- norizada. A questão da linguagem qua- drinhística também ter uma quali- dade intrínseca de arte. como se verá a seguir. tendo sido rebatizada no Brasil como HQtrô- nicas (Fig. p. há a possibilidade de se estar descortinando paula- tinamente uma nova literatura nesse universo virtualizado. Figura 12 MANGUEL. 122 3. Pois a própria área das artes se contaminou com a racionalização em excesso. a Internet se configura como um novo campo ple- no de estudo e descoberta das HQs. Alberto. Uma História da Leitura. Como se verifica. há uma gama de classificações dentro do univer- so artístico das histórias em quadri- nhos. também deve ser mais apuradamente pes- quisada e notificada. que somente na atualidade está sendo verificado de forma am- pla. pois alia som e movimento. perdendo inclusive seu significado essencial. para que não se incorra no mesmo erro que houve aos quadrinhos: saber o alcance que as HQtrônicas podem ofe- recer e quais as influências decorrentes dessas experiências no cérebro e mente neuroplásticas humanas requer mais pesqui- sas. excluindo outras manifestações e expressões humanas artísticas. A arte em xeque 59 . 1997. Assim.

tem sido traduzida até hoje em mitos que repetem esta cisão. pode estar vinculado a todo o envolvimento que o ser humano teve com o despertar do racionalismo carte- siano e a diminuição do valor dado às imagens desenhadas. E os quadrinhos. embora não perceptível facilmente. contos. e mais específico. 60 Gazy Andraus . apesar de todo o preconceito que grassou acerca de sua im- portância social e cultural. se torna condição sine qua non para a existência humana. rompe com a natureza generosa e abundante. um afastamento de um “paraíso” olvidado: esse desligamento de uma situação primordial na qual estivera imerso foi sentido pelos primeiros hominídeos como uma gran- de perda. ao deixar o paraíso. REVISTA DO PROGRAMA DE MESTRADO EM CULTURA VISUAL . vivenciado um processo ú n ico de ruptura com a natureza. p. 9) Dessa forma. Há milênios o homem relembra em seus ritos esse momento em que. como uma busca de algo que permanece na estrutura interna humana como uma ruptura. 9) defende a necessida- de das narrativas (contações de histórias. Assim. se tornam veículos pelos quais o ser humano possibilita tais realizações e compartilhamentos. expressões ar- tísticas em quadrinhos. 12).FAV I UFG O paradoxo da expressão artística nomeada de Histó r ia em Quadrinhos é que esta se instaura. VISUALIDADES. com a reprodução indolor e com a imortalidade. Outro motivo. e assim. novelas etc) alertando que para “filó s ofos como Jean-Paul Sar- tre e Merleau-Ponty. (COSTA. psicó l ogos como Jacques Lacan e antropó - logos como Lé v i-Strauss. em algum momento da sua histó r ia. p. Tais elaborações e narrativas fornecem combustível para uma busca de retorno a este paraíso que se foi. Cristina Costa (2002. elaborar narrativas. não apenas como uma manifestação humana possível. para um não reconhe- cimento dos quadrinhos como arte. 2002. como possibilidades criativas aliadas à premência do imagético. folhetins.”. mas sim como uma necessi- dade premente de fornecer narrativas imagéticas e simbóli- cas (Fig. o homem teria. este processo abriria um precedente. em que tal separação desconfortável. condenação e desterro. associada contraditoriamente a idéias do nascimento.

que continuavam numa cultura oral e proletária. tornando o racio- nalismo a prática mais aceita e legitimada. uma elitização da vida burguesa. signi- ficando basicamente criação. ou apenas ao que se institucionalizou chamar de belas-artes. Nesse sentido. num processo iniciado no Renascimento e que se estendeu até a Modernidade. elitizando-se. como bem advertiu Shusterman (1998). artis que signifi- ca maneira de ser ou de agir (HOUAISS).A autoria artística das histórias em quadrinhos (HQs) e seu potencial imagético informacional como já se mencionou. e conforme Rohden (1985). a definição de arte foi preponderante para a história da humanidade. pode ter motivado tal preconceito. Para ele. vivenciando as crenças. E Shusterman (1998) alerta que as designações gregas anteriores referiam-se à arte como techné (de onde derivou o termo técnica) e poiésis. como no caso das histórias em quadrinhos autorais. e excluindo as outras modalidades da cultura popular. apesar de na atualidade estarem sendo em igual monta edita- das em formatos de livros para o mercado livreiro. que era acessível apenas aos que desfrutavam de uma posição social que per- mitia a educação letrada. bem como conteúdos de imagens aliadas a textos coloquiais na maioria das vezes -. fábulas. agir. assim. novos modos de se vestir e falar. além disso. aproximando-se das maneiras da nobreza. Costa (2002) reflete que a Modernidade ex- pôs a burguesia a uma forma de ser e pensar calcada essen- cialmente na escrita individual e silenciosa. Isto se deflagrou por novas atitudes.revistas impressas em tiragens grandes e de valor acessível. buscando distanciar-se da plebe. impediu que outras formas de expressão mais recentes pudessem ser vistas como arte. lendas e demais narrativas ficcionais. é provável que as histórias em quadrinhos. camponeses. configuraram-se num prato cheio para a desculpa “burguesa” de que são materiais de qualidade baixa. Mas. por terem sido muito próximas da cultura popular em forma e conteúdo . Por tudo isso. Mas o conceito de arte vem do latim: ars. e afetou o co- 61 . excluindo-se artesãos. Também o estabelecimento de uma arte atrelada apenas ao fazer artístico. como asse- verou Costa (2002). além de limitar os conteúdos. deriva do verbo latino ágere. comerciantes e mulheres.

Des- sa forma. originando o conceito moderno de arte apenas atrelado às belas-artes. preza que a experiência estética não seria possível sem a prática artística. Porém. na ornamentação doméstica e corporal. cuja estética está limitada às convenções ar- tísticas. na decoração. desde que a filosofia foi tida como fonte superior de sabedoria.FAV I UFG meço da filosofia ocidental. logo. Porém. VISUALIDADES. Os argumentos em defesa de uma arte per si. que serviu apenas para 62 Gazy Andraus . O filósofo concebia que o artista se ligava ao público numa corrente de “possessão divinizada”. nos rituais. cuja fonte eram as musas. segundo o mesmo autor. não se pode limitar e definir a arte apenas atrelada ao conceito de belas-artes: separar a arte dos outros envolvimentos e concepções não liga- das diretamente ao que se convencionou como belas-artes e ain- da pretender que os artistas elaborem obras fora de um contexto da realidade intrínseca da vida. Dessa forma. são proposições falsas. Aristóteles. arte). opondo-se assim à arte. a experiência estética e a fruição contemplativa da arte não se limitam ao que se convencionou historicamente chamar de arte. separou o fazer artístico da ação concreta. Assim. já que. foi uma falha do processo frag- mentário da ilusão cartesiana (racional). por sua vez. na Grécia.foi concebido no século XVIII como parte da diferenciação cultural entre ciência. Shusterman crê que o termo “estética” . A filosofia se ergueu então. práxis e arte.de raiz grega . temendo que ela prejudicasse a ação humana. a poiésis. apresen- tando a arte como uma atividade racional de fabricação externa. Platão condenou a arte como sendo ilusória e afeita ao irrealismo. segundo Shusterman (1998) eram estes que melhor retransmitiam as tradições sagradas. REVISTA DO PROGRAMA DE MESTRADO EM CULTURA VISUAL . Shusterman adverte que a esté- tica e a fruição são encontradas em várias atividades. diferenciando-se da atividade prática (prá- xis: ação. pois. surgida na cultura antiga de Ate- nas. na mídia popular etc. a fruição e a estética preexistem a uma questão prática e também a um conceito: já não havia a estética nos sentimentos humanos antes que se tenha sido criado o termo “estética”? Assim. Tal atividade concebia um objeto por meio de uma habi- lidade técnica (techné). tais como nos esportes. com Platão e Sócrates. contrária aos sofistas e retó- ricos e também aos poetas. um princípio da divisão racional começou a se estabelecer naquela época. como uma supremacia intelectual dirigida.

com base na teoria multicultural e híbrida da Cultura Visual. pura. em que seja obrigado a utilizar o potencial latente de seu hemisfério direito. Tais tentativas vêm ao encontro de um pensamento mais expandido acerca da arte. dentro de seus capítulos na tese referida. Na mesma tese de doutorado. Canclini. para desmascarar este preconceito que foi crescendo em volta ao fazer artístico. esquecendo a tensão necessária (entre experiência e pensamento) para a reflexão cultural. um pouco da narrati- va imagética. as “narrativas visuais”.A autoria artística das histórias em quadrinhos (HQs) e seu potencial imagético informacional isolar a arte da ação social e política do cidadão que faz parte de uma polis (cidade). em que define que o papel da arte é oferecer uma expressão in- tegrada às dimensões corporais e intelectuais humanas que 63 . à concepção de arte. traz em alguns momentos. e que culminou em segregar a maioria dos cursos de arte (não acadêmicos) e alunos que. arte como técnica (ou como fazer) e arte como conhecimento: todas possibilidades no rol artístico. inclusive pelo meio acadê- mico. Hernández e mesmo Shuster- man. Alguns estudos e teses atuais põem em cheque esta deliberação dogmá- tica que a arte tem sido referenciada. Arslan (2008) destrincha essa questão. é interessante que na tese da pesquisadora desfi- lam momentos teóricos explicitando facetas contra uma rela- ção distanciada com a arte: arte como expressão (ou manifes- tação dos sentimentos). e que nela influi em todos os sentidos. desejosos apenas de extravasar e se permitir traba- lhar com suas próprias expressões. prefere dis- cutir a arte a partir da própria história e não a partir das práticas artísticas. modificando o aspecto da leitura. que são se- qüências em fotos narrando algumas considerações abordadas textualmente (e cartesianamente). são escorraçados e marginalizados por uma “arte oficial” que existe compulsoriamente em nossas socieda- des. Porém. aprendendo e apreendendo a vivenciar a arte. Além disso. abordando que A concepção do estético na contemporaneidade. fazendo com que o leitor experimente além da narrati- va habitual textual e fonético-cartesiana. Arslan se baseia em vários autores como Bordieu. sem que apenas uma das modalidades seja considerada como arte-mor. distante de qualquer pragmatismo. como fez Shusterman (1998). segundo a ideo- logia dominante.

64 Gazy Andraus . Apenas com a mudança paradigmática advinda da desco- berta da física quântica. bem como gêneros que seriam artísticos e outros não. a ciência isolou a arte. E pensar as histórias em quadrinhos como arte. conforme atuava durante o predomínio de um pensamento embasado em leis físicas clássicas ou newtonia- nas. em que a mente central se divide da racional. tem sido colocada como uma forma de expressão separada do fazer científico e social. a reintegração da arte também vem ao encontro desta refor- mulação paradigmática de uma mente sistêmica. Considerações A arte. os símbolos usados pela arte afetam a alma humana diretamente. em que as estruturas microatômicas se apresentam dualmente (como partícula corpuscular e/ou onda intangível). e esta. Isto faz refletir acerca de uma fruição artística em que a estética seja parte integrante e natural do processo. enquanto as expressões racionais não têm participação tão ampla nesse processo (Grassi). isolou seus conteúdos mantendo alguns e expulsando outros (como fez às histórias em quadri- nhos). novas teorias cognitivas. Todas estas divisões remetem a um pensar fragmentário. Além disso. em si mesma. ou obscurece. O que se percebe são atitudes entronizadas por uma mente cindida. ain- da se estabeleceram diferenças entre arte popular e erudita. tocando- -a e comovendo-a. Neste ponto. que igualmente confronta. Além disso. REVISTA DO PROGRAMA DE MESTRADO EM CULTURA VISUAL . retomando De Gregori (1999) e seu conceito de cérebro triuno. é res- gatar esta qualidade que foi erroneamente relegada e banida do rol das artes. VISUALIDADES.FAV I UFG foram separadas durante a condensação do racionalismo frag- mentário (hemisfério esquerdo dominando o direito). já explicada por De Gregori (1999) acerca do cérebro triádico (ou triuno). a uma melhor culturalização e crescimento ético e estético do homem. Em outras palavras. fragmentária e que não consegue operar de modo sistêmico. tem sido possível uma reorientação mental. diminuição de preconceitos e até ruptura com uma maneira re- trógrada de se pensar. a intuitiva. Ademais. portanto.

2006. ao contrário. propõem que a educação deve ser ampla. Referências ANDRAUS. nesta esteira de mudanças. contribuindo largamente à formação artística cultural e educacional humana. de forma íntegra e sistêmica. Este quadro pode estar contribuindo para uma mudança decisiva na aceitação deste tipo de leitura adulta panvisual. Todd. Tese de doutorado. num salutar equi- líbrio ao esquerdo (racional). como se verificou. 65 . 1990. Luciana Mourão. Fritjof. que auxilia na melhora performá- tica do cérebro neuroplástico. principalmente por parte de teóricos que anterior- mente jamais viram nas histórias em quadrinhos qualquer valor informacional. Amadores da Arte: Práticas artís- ticas em cursos livres de pintura da cidade de São Paulo. Wizard Brasil. afinal. 2008. e uma arte autoral própria. longe de ser apenas um adendo ou anexo da literatura escrita. a base e essência dessa última. a arte dos quadrinhos. é. Tese de doutorado. O Tao da Física. em contrapartida a um arrefecimento de revistas para o leitor infantil. para um profícuo elaborar neuroplástico e amplo. São Paulo: ECA-USP. no formato de álbuns. Portanto. conforme se necessita na atualidade. CAPRA. com estru- tura e linguagem específicas. Assim. ARSLAN. operacionalizado pela porção cen- tral (pragmática). para o público adulto. como um subproduto minimamente indigno de re- flexão. ou quando o faziam. está sendo redire- cionada de forma distinta na atualidade e ofertada. ignoravam-nos quase que totalmente. São Paulo: Faculdade de Educação. As histórias em quadrinhos como informação imagética integrada ao ensino universitário. unindo à ciência as artes. Gazy. com suas variadas facetas de gêneros. atinente às imagens e artes em geral. CASEY. Ano 2. O Homem misterioso. em muitos países. São Paulo: Cultrix. tal literatura imagética.A autoria artística das histórias em quadrinhos (HQs) e seu potencial imagético informacional embasadas pela neuroplasticidade cerebral e seus hemisférios. no que concerne ao hemisfério direito. e por artistas que sequer lembravam-se da arte dos quadrinhos.

Quiosque 1. São Paulo: Pancast. p. WALDEMAR. São Paulo: Annablume. In David R. Edgar. 1999. Os poderes dos seus três cére- bros. OLSON e Nancy TORRANCE. 2003. Fapesp. 1997. 2004. Panorama dos quadrinhos subterrâneos no Brasil. Cultura Es- crita e Oralidade. Rio de Janeiro: Abril livros e Time life.). São Paulo: Alvorada. Poder da imagem. MORIN. A separação entre palavras e a fisiologia da leitura . outubro de 2004. HQTrônicas: do suporte de papel à rede Internet. Col. 12-18. João Pessoa: Marca de Fantasia. FRANCO. 1995. FRANCO. O cérebro e a mente. 2004. Huberto. FACURE. Núbor Orlando.FAV I UFG n. Ernesto. 13. Os sete saberes necessários à educação do futu- ro. História em Quadrinhos: essa desco- nhecida arte popular. 66 Gazy Andraus . Filosofia da arte. 1978. São Paulo: Duas Cidades. COSTA. Comunicação e mídias. ROHDEN. São Paulo: FE Editora Jornalística Ltda. Ficção. Thierry. 1985. Ática. GRASSI. Flávio (org. GROENSTEEN. REVISTA DO PROGRAMA DE MESTRADO EM CULTURA VISUAL . Ciência e natureza. 2002. São Paulo: Senac. VISUALIDADES. São Paulo: Unesp/Proex. 1995. 2000. PAUL. Corpo Humano. Edgar Silveira. São Paulo. As Histórias em Quadrinhos no Brasil . In CALAZANS. DE GREGORI. impotência da palavra racional: em defesa da retórica. Edgar. Brasília/São Paulo: Unesco/Cortez editora.teoria e prática. SAENGER. Maria Cristina Castilho Cristina.

Doutor em Ciências da Comunicação. editor e autor independente de histórias em quadrinhos adultas de temática fantástico-filosófica. pesquisador do Observatório de História em Quadrinhos da ECA-USP e do INTERESPE – Interdisciplinaridade e Espiritu- alidade. na área de Interfaces da Comunicação.br 67 .com. mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp. pela ECA-USP. E-mail: gazya@yahoo.A autoria artística das histórias em quadrinhos (HQs) e seu potencial imagético informacional Gazy Andraus Professor da UNIFIG.

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