Você está na página 1de 17

FACULDADE BOAS NOVAS DE CIÊNCIAS TEOLÓGICAS, CURSO DE CIÊNCIAS TEOLÓGICAS

Jorge Albert dos Santos Conceição

HERMENÊUTICA

MANAUS

2016

Jorge Albert dos Santos Conceição HERMENÊUTICA Trabalho final apresentado para obtenção de título de graduação.

Jorge Albert dos Santos Conceição

HERMENÊUTICA

Trabalho final apresentado para obtenção de título de graduação. Curso de Ciências Teológicas da Faculdade Boas Novas FBN, Turma Modular para Pastores 2, Turma II.

Orientador: Msc. Miquéias Pontes

MANAUS

2016

Introdução Diz-se que a hermenêutica deve sua origem ao nome de Hermes, o deus grego que servia de mensageiro dos deuses, transmitindo e interpretando suas comunicações aos seus afortunados, ou com frequência, desafortunados destinatários. Em seu significado técnico, muitas vezes se define a hermenêutica como: A ciência e a arte da interpretação bíblica. Considera-se hermenêutica como ciência porque ela tem normas, ou regras, e estas podem ser classificadas num sistema ordenado. É considerada como arte porque a comunicação é flexível, e portanto uma aplicação mecânica e rígida das regras às vezes distorcera o verdadeiro sentido de uma comunicação. Exige-se do bom interprete da hermenêutica que ele aprenda as regras da hermenêutica bem como a arte de aplica-la. O quanto sabemos, o primeiro interprete da palavra de Deus foi o diabo dando a palavra divina um sentido que ela não tinha Gênesis 3.1-7. Mais tarde, o mesmo inimigo, falseia o sentido da palavra escrita, citando apenas trechos que lhe convinha e omitindo outros Mateus

4.1-11.

Este é o maior dos problemas em nossos dias, nunca se ouviu tantas heresias por falta de uma interpretação adequada, por falta de uma interpretação da bíblia a luz da própria bíblia. Na hermenêutica existe o que chamamos de regra fundamental, a saber: A escritura é explicada pela própria escritura, ou seja: A bíblia interpreta a própria bíblia. Por ignorar e violar este princípio tão simples e fundamental muitos pregadores e seitas tem difundido tantas aberrações como sendo doutrina bíblica, fixando-se e arrancando palavras e versículos do deu conjunto, não permitindo a escritura explicar-se a si mesma. Por cometerem esses erros os judeus rejeitaram Jesus, a exemplo: igreja romana instituiu a santa inquisição os espiritas pregam a reencarnação. Graças a esses erros abusivos temos ouvido incrédulos simples e doutores afirmar que com a bíblia se prova o que se quer. É importante sabermos o que leva pessoas a cometerem tão graves erros ao interpretarem as escrituras e sabermos que nós também podemos cometer os mesmos erros se não formos vigilantes quanto a uma interpretação correta das escrituras. Muitas vezes não existe a intenção de se difundir uma heresia ou até mesmo de cria-la, mas a preguiça ou o descaso com o estudo da palavra na hora de um ensino acaba sendo a grande causa do erro, há quem afirme que toda heresia vem acompanhada de 99% de verdade. Precisamos examinar as escrituras para encontrarmos a verdade e não para ajusta-la as nossas conveniências

Por saber destes problemas com as interpretações que se tem feito da palavra de Deus faz-se necessário observar a que é referida regra das regras, a saber: A bíblia interpreta a própria bíblia. Dizemos regra das regras, porque desta, que é fundamental, se desprendem outras regras que, como veremos, dela nascem naturalmente.

Sumário

Introdução

3-4

Desenvolvimento

6-15

Conclusão

16

Referencias

17

3. Fatores determinantes do significado bíblico

Na verdade, aqueles que escrevem artigos destacando esse problema também se imaginam capazes de expressar as suas idéias. Senão, por que escreveriam? Assim, por que negar a habilidade de outros autores? Para o cristão, um fator adicional surge nesse ponto: a crença de que a Bíblia é inspirada. É preciso, também, considerar este componente divino. Se ao redigirem as Escrituras, os autores “falaram inspirados pelo Espírito Santo” 2 Pedro 1.21, como se crê, conclui-se então que foi dada a eles habilidade divina para expressar adequadamente as questões que pretendiam transmitir. Outra objeção alega que as características psicológicas de cada indivíduo são únicas. Assim, o leitor não pode compreender os pensamentos e as emoções do autor no momento em que este escrevia. Entre ambos, são evidentes as diferenças. Portanto, o leitor jamais entenderia

o que o autor realmente quis expressar no texto. Objeta-se ainda que o leitor moderno não é capaz de compreender o significado de um autor antigo como Paulo. A diferença marcante entre o presente e o passado não o permite. Como poderia um leitor dos tempos modernos, familiarizado com computadores e megabytes, aviões a jato e viagens internacionais, televisão, transplantes de coração, viagens à lua e energia nuclear compreender os escritos de um autor antigo, de uma época em que se usavam sandálias, togas e sacrifícios de animais? Por certo, culturas tão diferentes, às vezes separadas por séculos

e até milênios, impossibilitam ao leitor moderno a compreensão do significado. Tais objeções podem não ser aceitas, mas não devem ser desprezadas. As diferenças de tempo e cultura entre um autor antigo e o leitor moderno são muito reais. É comum a tendência de modernizar autores antigos, forçando o seu pensamento ao das pessoas do tempo presente. Consequentemente, não os compreendemos muito bem. Por outro lado, também podemos estar enfatizando demais essas diferenças. Lembre-se, todavia, que não estamos tentando entender os pensamentos de minhocas ou sapos! A humanidade que partilhamos com os autores do passado e o fato de termos sido criados à imagem de Deus facilita a tarefa de unir as épocas. As necessidades básicas de comida, vestimentas, calor, segurança, amor e perdão dos antigos são as mesmas que temos hoje. Dessa forma, compreender um autor antigo, embora difícil, não é tarefa impossível. Uma objeção final diz respeito aos textos nos quais o autor apela para uma experiência de fé. Como pode um ateu ou herege compreender o significado do salmista, que afirma:

“Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada, e cujo pecado é coberto. Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa maldade, e em

cujo espírito não há engano. Enquanto eu me calei, envelheceram os meus ossos pelo meu bramido em todo o dia. Porque de dia e de noite a tua mão pesava sobre mim; o meu humor se tornou em sequidão de estio” Salmos 32.1-4.

2. Panorama histórico da interpretação bíblica, do judaico até a era moderna Esdras e os escribas Quando os judeus retornaram do cativeiro babilônico, tudo indicava que eles falavam aramaico, não mais o hebraico. Portanto, quando Esdras leu a lei, os levitas tiveram de traduzir do hebraico para o aramaico. Talvez este seja o sentido correto do termo “entender” Neemias 8.1-12. Temos dois termos nesta passagem: “explicando o sentido” e “entendesse”. Então provavelmente pode ter havido a tradução do hebraico para aramaico e também a explicação da lei propriamente dita. Desde Esdras até Cristo, os escribas não só ensinavam a lei nas sinagogas, mas também as copiavam. Tinham grande zelo por ela, porém logo cairam no exagero. O Rabino Akiva, foi

o líder de uma influente escola para rabinos na Palestina, e ele chegou a afirmar que cada ponto,

cada til, cada letra, cada figura de linguagem adotadas na lei possuíam significado oculto, para ele cada versículo da Bíblia possuía muitas explicações.

A alegorização judaica Alegorizar é procurar algum significado oculto no texto. É como se o sentido literal fosse apenas a superfície de um terreno, que devemos escavar até encontrarmos outros significados, que muitas vezes estão dissociados do verdadeiro sentido. Desde a conquista da Palestina por Alexandre Magno, os judeus sofreram a interferência grega em sua cultura. Umas dessas interferências foi na área literária, onde a interpretação judaica teve influência da alegorização grega. Os gregos, ao mesmo tempo que ficavam maravilhados diante de obras como a de Homero, também ficavam constrangidos com o comportamento dos deuses descrito nas obras gregas. Então para contornar este problema acabaram criando a alegorização destes

textos, ou seja, buscavam outros significados para as coisas descritas ali. Desta forma os escritores gregos não seriam ridicularizados em outros lugares onde a cultura grega avançava. Os judeus que viviam em Alexandria tiveram este mesmo problema. Ficavam constrangidos diante das imoralidades do Antigo Testamento. Então, alegorizando os textos do Antigo Testamento, eles justificavam os seus escritos e também conviviam pacificamente com

a cultura e filosofia gregas. A Septuaginta deliberadamente remove algumas coisas que trariam constrangimento aos judeus, assim como alguns antropomorfismos de Deus. Veja como ficaram alguns textos:

Êxodo 15.3 Substitui “O Senhor é homem de guerra” por “O Senhor esmaga as guerras”. Na Bíblia católica atual (Bíblia Ave Maria) está como: “O Senhor é o herói das guerras”. Números 12.8 Substitui “A forma do Senhor” por “a glória do Senhor”. Êxodo 32.4

Substitui “Então se arrependeu o Senhor do mal

Filo, o mais importante alegorista judeu-alexandrino, disse que a alegorização é necessária para

eviar expressões aparentemente contraditórias ou impróprias de Deus. Desde quando Deus precisa que indiquemos a Ele o que deve ser escrito ou comunicado a nós? Filo ensinava que Sara e Hagar representavam a virtude e a cultura, e Jacó e Esaú, a prudência e a insensatez. O episódio em que Jacó se deita sobre uma pedra simboliza a autodisciplina da alma e o candelabro de sete hásteas que havia no tabernáculo e no templo representa sete planetas. Em outro exemplo, ele sugere que a expressão “se escondeu de Deus”, se referindo a Adão desonra a Deus, que vê todas as coisas. Portanto se trata de uma alegoria. Os pais da igreja primitiva Pouco se sabe sobre a hermenêutica dos pais da Igreja. Porém em muitos de seus escritos continham numerosas citações do Antigo Testamento, e que este previa a vinda de Cristo. Clemente de Roma viveu entre 30 e 95 d.C. Citava o Novo Testamento com frequência. Inácio de Antioquia 35-107 escreveu sete cartas a Roma e também citava várias vezes

o Antigo Testamento e evidenciava a figura de Jesus. Policarpo de Esmirna 70-155 fez diversas citações do Antigo e Novo Testamento em sua carta aos Filipenses. A epístola de Barnabé faz 119 menções ao Antigo Testamento. Utiliza alegorias constantemente. Um exemplo clássico é a menção aos 318 servos de Abraão Gn. 14.14. Existem 3 letras gregas que representam o número 318 e que cada uma tem um significado. Altera grega

T equivale a 300 e representa a cruz; as letras I e H equivalem a 10 e 8 respectivamente e são

respectivamente as duas primeiras letras de IH (sous) “Jesus em grego”. Portanto, os 318 servos representam Jesus na cruz. Justino Mártir “100 – 164” fazia muitas citações das escrituras em suas obras, quase sempre para mostrar que o Antigo Testamento prenunciava Cristo. Ele afirmava que Lia representa os judeus, Raquel simboliza a Igreja e que Jacó simboliza a Cristo que serve a ambos.

por “Então o Senhor se compadeceu”.

Ireneu 130-202 foi contra os gnósticos e outros hereges de sua época, e ressaltou que a Bíblia deve ser entendida pelo seu sentido óbvio e verdadeiro. Afirmou também que algumas vezes pode-se fazer uso de tipos, pois a Bíblia está repleta deles. Porém algumas vezes sua tipologia chegava a ser uma alegoria. Ele afirmou, por exemplo, que os três espias (e não dois) que Raabe escondeu representavam Deus-Pai, Deus-Filho e Deus-Espírito Santo. Os pais alexandrinos e antioquinos Os pais alexandrinos São representados principalmente por Clemente (não confundir com Clemente de Roma) e Orígenes. Este primeiro afirmou que qualquer passagem da Bíblia pode ter até 5 sentidos distintos:

Histórico (histórias bíblicas) Doutrinário (ensinos teológicos e morais) Profético (inclui tipos e profecias) Filosófico (alegorias com personagens históricas) Místico (verdades morais e espirituais) Algumas de suas alegorizações incluem ser Sara a verdadeira sabedoria, enquanto Hagar representava a filosofia pagã. Orígenes, foi discípulo de Clemente, e herdou deste o método alegórico de interpretação das escrituras. Foi o mais ativo escritor cristão da antiguidade, grande apologeta e excelentes trabalhos. Foi um dos que defenderam que o Espírito Santo era uma pessoa, não simplesmente uma força ativa do Universo ou de Deus. Porém defendeu a tese da virgindade perpétua de Maria, o primado de Pedro (Pedro foi o primeiro Papa) e o batismo de crianças, doutrinas que não encontram apoio bíblico. Defendeu a alegoria pois acreditava que a Bíblia estava repleta de enigmas, parábolas, afirmações de sentido obscuro e problemas morais. Orígenes desconsiderou quase que totalmente o sentido literal e normal das escrituras.

Os pais antioquinos Os líderes da igreja em Antioquia perceberam que o sentido literal das escrituras estava se perdendo com o método de interpretação de Alexandria. Por isso eles incentivaram o estudo das línguas originais e redigiram vários comentários sobre os livros da Bíblia. O elo entre o Antigo Testamento e o Novo eram as profecias e a tipologia, ao invés da alegoria. A

interpretação para eles, também podia incluir a linguagem figurada. Dois dos maiores intérpretes desta escola foram Teodoro 350-428 e João Crisóstomo 354-407. Os pais da igreja dos séculos V e VI Os dois principais expoentes da Hermenêutica deste período foram Agostinho e Jerônimo. Jerônimo começou, influenciado pela escola de Alexandria, suas obras no sentido alegórico. Porém, algum tempo mais tarde passou a usar um estilo mais literal de interpretação. Porém, ainda acreditava em um sentido mais profundo de intrepretação, ou quando não edificava em nada, alegorizava, por isso aplicou este estilo na história de Judá e Tamar. Agostinho adotara o sistema alegórico de interpretação das Escrituras. Dizia ele que o grande teste para saber se uma passagem tem sentido alegórico é o do amor. Se uma interpretação apresenta algum sentido contraditório, o texto deve ser alegorizado. Ele ressaltou que a função do expositor é descobrir o sentido das Escrituras, não lhe atribuir sentido. Porém acabou caindo no próprio erro que contestava, pois ele afirmou que o texto bíblico possui mais de um sentido, justificando desta forma a interpretação alegórica. A idade média Normalmente associamos a idade média a Gregório (540-604), que foi o primeiro papa da Igreja Católica Romana. Gregório fundamentava todo sua interpretação em cima dos trabalhos dos pais da igreja, por isso não devemos estranhar sua alegorização das escrituras. Vejamos um exemplo. No livro de Jó, os três amigos são os hereges, os sete filhos de Jó são os doze apóstolos, as sete mil ovelhas são os pensamentos inocentes, os três mil camelos são as concepções vãs da vida, as quinhentas juntas de bois são virtudes e os quinhentos jumentos, tendências lascivas. O mais famoso teólogo da Igreja Católica, na idade média, foi Tomás de Aquino 1225- 1274. Acreditava que o sentido literal das Escrituras era fundamental, porém, como ele mesmo dizia, a Bíblia tem autoria humana e divina. Deste modo, o sentido literal era o que o autor quis mostrar, mas deveríamos achar outros significados que Deus colocara ali. Nicolau de Lira 1270-1349 foi uma personagem essencial para o que ficou conhecido como A Reforma Protestante. Nicolau de Lira trouxe novamente à tona a interpretação literal da Bíblia. Isso foi primordial para que outros expoentes importantes também retornassem a este estilo de interpretação, inclusive alguns séculos depois, um monge por nome Lutero teria forte influência de Nicolau.

João Wycliffe 1320-1384 foi um extraordinário reformador e teólogo. Ensinava que a Bíblia era a única fonte legítima de doutrina e vida cristã. Isto ia contra os ensinamentos da Igreja Católica, que também privilegiava a sua tradição, muitas vezes em detrimento da Palavra. Enfatizando a interpretação gramatical e histórica, escreveu que “tudo o que é necessário na Bíblia está contido em seus devidos sentidos literal e histórico”. Foi o primeiro tradutor da Bíblia para o inglês. Também foi considerado um dos responsáveis pelo movimento da Reforma, que começara já em sua própria época indo contra o sistema papal. A Reforma Durante a reforma a Bíblia passou a ser a única fonte legítima de fé e prática. Os reformadores se basearam no método literal de Antioquia. O interesse pelas línguas originais também foi reavivado com o movimento da Renascença na Europa. Martinho Lutero 1483-1546 foi um grande defensor do método literal, em contraposição ao método alegórico que predominou na Idade Média. Disse Lutero: ” As escrituras devem ser mantidas em seu significado mais simples possível e entendidas em seu sentido gramatical e literal, a menos que o contexto claramente o impeça”. Na opinião de Lutero, qualquer cristão devoto pode compreender a Bíblia; este ensino

ia de encontro à doutrina da Igreja Católica de que apenas a Igreja estava apta a interpretar as

Escrituras. Desta forma, a dependência das pessoas à Igreja Católica ficou ameaçada. O estilo alegórico estava arraigado à Igreja havia séculos. Vamos lembrar que o estilo

alegórico fora criado para disfarças os antropomorfismos de Deus e as supostas imoralidades contidas na Bíblia, porém, este estilo continha inúmeros problemas:

A alegorização não obedece a nenhuma regra específica de interpretação

A imaginação do intérprete passa a ser o limite

Encobre o verdadeiro sentido dos textos Tira toda a autoridade da Bíblia Cada um fica com sua interpretação particular Mas o apóstolo Paulo não usou de alegorias? Veja o texto em Gálatas 4.24-26. Bom, neste caso, o apóstolo deixou claro que estava fazendo uma alegoria, ele literalmente escreveu:

“Estas coisas são alegóricas…”. Neste caso o termo alegórico significa “dar um sentido diferente do que é expresso pelas palavras”. Ou seja, isto passa a ser um complemento, não uma substituição do texto em seu sentido literal. Ele usou a alegoria como forma de ilustração para destacar certos fatos relativos a Hagar estão associados a não- cristãos, e certos fatos relativos a Sara estão associados aos cristãos.

Vamos analisar então o método alegórico que foi utilizado durante séculos, e o método alegórico que Paulo usou.

João Calvino 1509-1564, assim como Lutero, rejeitava a interpretação alegórica das Escrituras. Ressaltava o método histórico e gramatical, a natureza cristológica, o ministério esclarecedor do Espírito Santo e o coreto tratamento das tipologias no Antigo Testamento. Willian Tyndale 1494-1536, famoso por sua tradução do Novo Testamento para o inglês em 1525, também defendia o sentido literal da Bíblia. Em resposta à Reforma protestante, a Igreja Católica convocou o Concílio de Trento entre 1545 e 1563. Algumas resoluções do Concílio de Trento estão relacionadas abaixo:

A Revelação divina se transmite pela Sagrada Escritura, mas está a Sagrada Escritura

abaixo da Tradição da Igreja, e a palavra do Papa é tida como infalível acima das Escrituras Sagradas e que estas devem ser interpretadas pelo Magistério da Igreja e pela Tradição. O Concílio, ainda, enfrentou o tema chave da questão da “justificação” e, contra as teologias luterana e calvinistas, ensinou e declarou que a Salvação vem pelas Obras e o perdão pelas penitências.

O pós-Reforma

A expansão do calvinismo

Os séculos XVII e XVIII transcorreram como uma extensão do que havia ocorrido na época da Reforma, onde a Bíblia era fonte máxima de autoridade para fé e prática. Podemos citar como fato importante a Confissão de Westminster, que foi aprovada pelo Parlamento Inglês em 1647. Leia um trecho abaixo:

“A regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura; portanto, quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer texto da Escritura sentido que não é múltiplo, mas único, esse texto pode ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente”. A Confissão de Westminster é usada até hoje nas Igrejas Presbiterianas.

As reações ao calvinismo

O arminianismo foi uma das correntes contrárias ao calvinismo. O teólogo holandês

Jacobus Arminius 1560-1609 pregava que o homem possui livre-arbítrio em detrimento da

soberania de Deus e sua chamada irresistível.

O misticismo surgiu no pós-reforma, e tinha a concepção de que o homem pode adquirir

conhecimento de Deus em uma experiência subjetiva, à parte da Bíblia.

O pietismo surgiu como um combate à doutrina ortodoxa do tempo da Reforma. Philipp

Jakob Spener 1635-1705 repelia o formalismo morto e a teologia de palavras apenas. O tema central era a experiência do crente com Deus, sua condição de pecador e o caminho para sua salvação. Defendia a experiência da fé, pela demonstração e comprovação desta numa piedade prática, através da rejeição do espírito mundano e pela participação ativa dos leigos nas reuniões. Os pietistas, por um lado, desenvolveram uma moralidade por vezes áspera, especialmente no que tange à alimentação, vestimenta e lazer.

Os estudos textuais e linguísticos No período dos séculos XVII ao XVIII começaram grandes iniciativas para descobrir o texto original da Bíblia. Entre 1650 e 1751 surgiram vários comentários da Bíblia, versículo por versículo, edições em grego e comentários críticos.

O racionalismo

O racionalismo sustentava que tudo deveria ser estudado à luz do intelecto humano.

Houve algum interesse pela Bíblia, mas apenas no campo dos ensinamentos morais para a

Europa. O restante da Bíblia, com seus milagres e doutrinas podia ser descartado.

A

era moderna

O

século XIX

Três correntes distintas de pensamento podem ser vistas neste período: o subjetivismo, a crítica histórica e os trabalhos exegéticos (estudos avançados). No subjetivismo havia a idéia que o conhecimento vinha das experiências individuais. Rejeitavam a autoridade da Bíblia e destacavam o papel dos sentimentos. Foi uma reação ao racionalismo e ao formalismo. O cristianismo deveria ser encarado como uma religião de emoções. A fé era apenas uma experiência subjetiva vivida em momentos de desespero. A crítica histórica contestava a natureza sobrenatural da Bíblia e sua inspiração. Explicavam os milagres por meio da razão e ciência. Analisavam a Bíblia como um biólogo examinava o cadáver de um animal, o interesse era puramente histórico e intelectual. Em contraste com essas duas correntes houveram muitos líderes conservadores e eruditos que começaram a escrever comentários exegéticos sobre a Bíblia, neste período surgiram algumas das “Teologias Sistemáticas” em uso até os dias de hoje.

O século XX

O liberalismo atravessou o século XIX e chegou ao século XX. Nele, a Bíblia é vista

como um livro humano, sem inspiração divina. Prega que todos os eventos sobrenaturais podem

ser explicados de forma racional. As doutrinas de pecado, depravação total e inferno são rejeitadas pelos liberalistas. Os neo-ortodoxos negam a inerrância e infalibilidade da Bíblia. A criação do homem, ressurreição de Jesus, o dilúvio são interpretados como sendo mitos. Todos estes fatos aconteceram num nível mitológico, e não na história de fato. Estes “mitos” representavam uma realidade para as pessoas da época, porém não para as pessoas de nossos dias, tais fatos são inaceitáveis hoje. A nova hermenêutica diz que não devemos tentar achar o sentido dos textos bíblicos, mas sim deixá-los falar conosco, permitir que modifiquem o entendimento que temos de nós mesmos. O verdadeiro sentido da Bíblia nunca poderá ser desvendado, pois foi escrito a muitos séculos, e nós não temos condições de entender totalmente aquele mundo. Temos ainda outras linhas de pensamento hoje em dia. A teologia da libertação, muito forte na América Latina, interpreta a Bíblia pela ótica dos excluídos e oprimidos política e economicamente. Teologia feminista, que interpreta a Bíblia a partir do ponto de vista das vítimas de discriminação sexual. Esta retrospectiva nos mostra que devemos continuar a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos Judas 1.3, e interpretar a Bíblia histórica, literal e gramaticalmente, dependo da iluminação que o Espírito Santo concede aos crentes. Fazendo da Bíblia a Palavra viva e eficaz de Deus para nossas vidas, única regra de fé e prática. Referências Bíblicas Figuras de Retórica Símile: É uma comparação que lembra outra explicitamente. Pedro usou um símile quando disse que “…toda carne é como a erva…” 1 Pedro 1.24. Metáfora:

Isaías 40.6: “Toda a carne é erva”. Jesus comparou seus seguidores ao sal: “Vós sois o sal da terra” Mateus 5.13). Quando Jesus afirmou: “Eu sou a porta” João 10.7-9. Quando Jesus afirmou: “Eu sou o bom pastor” vv. 11-14. Quando Jesus afirmou: “Eu sou o pão da vida” 6.48. Metonímia:

Os opositores de Jeremias disseram: “…vinda, firamo-lo com a língua…” Jeremias 18.18. Quando fala de Barnabé fala: “…e, vendo a graça de Deus…” Atos 11.23. Quando Paulo disse: “Não podeis beber o cálice do Senhor…” 1 Coríntios 10.21. Sinédoque:

Em Lucas 2.1, a Bíblia nos diz que o imperador César Augusto emitiu um decreto de que deveria ser feito o censo “do mundo todo”. Em Provérbios 1.16 “…os seus pés correm para o mal…”. Em Áquila e Priscila arriscaram suas próprias cabeças Romanos 16.4. Antropomorfismo:

Os dedos de Deus Salmos 8.3. Os seus ouvidos Salmos 3.2. Os seus olhos 2 Crônicas 16.9. Antropopatia:

Em Zacarias 8.2: “…tenho grandes zelos de Sião”. Zoomorfíssimo:

Em Salmos 91.4, faz-se referência a penas e asas. Jó descreveu o que ele considerou como ira de Deus contra ele quando disse: “…contra mim rangeu os dentes…” Jó 16.9. Apóstrofe:

Em Salmos 114.5: “Que tens, ó mar, que assim foges?…”. Miquéias fala diretamente à terra, em Miquéias 1.2 “Ouvi, todos os povos, prestai atenção, ó terra…”. Em Salmos 6.8, o salmista fala como se seus inimigos estivessem presentes: “Apartai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade…”. Eufemismo:

A Bíblia fala da morte dos cristãos como um adormecimento Atos 7.60; 1 Tessalonicenses 4.13-

15.

Conclusão

Algumas das maiores heresias do mundo começaram a existir porque homens ignoraram leis básicas de interpretação Bíblica. Aliás, dá para questionar se em algum momento haveria uma única heresia se homens tivessem sempre interpretado as Escrituras de modo correto. A heresia só entra porque alguém deixou de "manejar bem a Palavra da Verdade". É claro, muitas heresias foram introduzidas por homens não salvos que não tinham entendimento espiritual, mas muito erro também foi introduzido no mundo religioso por crentes ignorantes e sem fundamento que deixaram de "manejar bem a Palavra da Verdade". Daí, vemos a grande importância de métodos certos de interpretação da Bíblia. Ou, Leis Básicas de Interpretação da Bíblia Autor: Pr. Davis W. Huckabee.

Bibliografia:

E. Lund & P.C. Nelson Editora Vida Hermenêutica.

Módulo 5 da FTB Editora Betesda.-. Hermenêutica. Princípios de Interpretação Bíblica Louis Berkhof Editora Cultura Cristã LUND, E; NELSON, P.C. Hermenêutica. São Paulo: Vida, 2006. p. 94-154. ZUCK, Roy B.

A interpretação Bíblica, meios de descobrir a verdade da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1994.

p. 167-196.

STEIN, Robert H. Guia básico para a interpretação da Bíblia. Interpretando conforme as

regras. Rio de Janeiro: CPAD, 2013. p. 19-38 BERKHOF, Louis. Princípios de Interpretação Bíblica. São Paulo: Cultura Cristã, 2000. p.

09-37.

KAISER, Walter C. Jr; SILVA, Moisés. Introdução à hermenêutica Bíblica. São Paulo:

Cultura Cristã, 2003. p. 203-240. ZUCK, Roy B. A interpretação Bíblica, meios de descobrir a verdade da Bíblia. São Paulo:

Vida Nova, 1994. p. 31-67.