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A BOA GESTÃO DE RESÍDUOS DA CONSTRUÇÃO CIVIL PARA UMA OBRA LIMPA:

COMO CONVENCER QUE É POSSÍVEL REDUZIR O VOLUME DOS RESÍDUOS E TRANSFORMAR O LIXO EM MATÉRIA-PRIMA

Satya Rheingantz Silveira 1 ; Ronaldo Pilar 2

Resumo: Este trabalho tem como objetivo analisar como é feita a destinação dos resíduos na construção civil e sugerir formas inovadoras para a destinação correta dos resíduos na região de Florianópolis. Alguns produtos que antes não poderiam ser reaproveitados hoje já podem ser reprocessados através de diversas tecnologias. Com o entendimento das atuais dificuldades e deficiências existentes nas fontes geradoras e unidades receptoras de resíduos, o estudo sugere como deverá ser a destinação correta de cada um dos materiais residuais das obras e demonstra as possibilidades de reaproveitamento de cada um desses materiais. Espera-se incentivar cada vez mais a reciclagem e ampliar a visão e consciência de que o lixo, quando tem um destino correto, se transforma em fonte de riqueza. E com isso estimular o poder público, os geradores, os transportadores e os investidores a trabalharem juntos visando diminuir a degradação ambiental.

Palavras-chave: Reaproveitamento. Resíduos. Riqueza. Degradação ambiental.

1 INTRODUÇÃO

Uma gestão diferenciada dos resíduos da construção civil (RCC) possibilitaria a máxima redução da produção de lixo, o máximo reaproveitamento e reciclagem de materiais e, ainda, a disposição dos resíduos de forma mais sanitária e ambientalmente adequada. O estudo visa indicar qual seria o destino correto de cada um dos materiais e as diversas possibilidades de reaproveitamento de cada um deles, e também quais deveriam ser as principais mudanças necessárias para que o poder público, os geradores, os transportadores e os investidores se completem, trabalhando juntos visando diminuir a degradação ambiental desenfreada.

Através do método experimental, essa pesquisa exploratória utilizará um estudo de caso e, através de visitas, entrevistas e pesquisa bibliográficas, serão relatados os métodos atuais de gestão de resíduos utilizados em algumas obras em Florianópolis, e as reais dificuldades enfrentadas pelas construtoras e transportadoras. Entendendo as atuais deficiências na gestão de resíduos nas construções, o estudo também abordará as dificuldades e deficiências que as usinas de reciclagem de gesso, concreto e madeira enfrentam. A qualidade do produto reciclado requer um resíduo de qualidade e para isso é fundamental a correta segregação dos materiais dentro do canteiro de obra e a destinação correta de cada material residual. Para uma gestão sustentável deve-se priorizar a redução da geração de resíduos na fonte e

o reaproveitamento do resíduo gerado. Esse trabalho visa aprimorar o processo de reciclagem existente no setor de construção civil e a mudança de cultura em todos os envolvidos no processo de construção: usuários, empresas construtoras, coletoras e transportadoras de entulhos e poder público para que definitivamente haja

a destinação correta e sustentável dos resíduos das construções civil.

1 Pós-graduando em Engenharia Civil na faculdade Sociesc SOCIESC Florianópolis

E-mail: satyamachado@gmail.com 2 Professor Doutor em Engenharia Civil Faculdade Sociesc

2 RESÍDUOS NA CONSTRUÇÃO CIVIL (RCC): SEGREGAÇÃO E COLETA NO CANTEIRO DE OBRAS

2.1 Tipos/classes de resíduos

De acordo com a resolução 307 do CONAMA (2002), gerenciamento de resíduos consiste no “sistema de gestão que visa reduzir, reutilizar ou reciclar resíduos, incluindo planejamento, responsabilidades, práticas, procedimentos e recursos para desenvolver e implementar as ações necessárias ao cumprimento de etapas previstas em programas e planos”. Os geradores dos resíduos de construção civil deverão ter como objetivo principal a não geração de resíduos e o objetivo secundário a redução da geração, a reutilização dos resíduos gerados, a reciclagem e a destinação correta final dos resíduos. A maioria dos materiais poderá ter destinação correta sendo produtores de receita por meio da comercialização futura. Na Figura 1 observa-se as quatro classes de resíduos definidas pela Resolução 307 da CONAMA.

Figura 1 - Classes de Resíduos da construção e demolição (RDC).

- Classes de Resíduos da construção e demolição (RDC). Fonte: PINTO, Tarcídio de Paula; GONZÁLEZ Juan

Fonte: PINTO, Tarcídio de Paula; GONZÁLEZ Juan Luíz Rodrigo (CREA 2005. PG 21)

Pode-se exemplificar as classes de resíduos da seguinte maneira: Classe A: são os resíduos recicláveis como agregados vindos de pavimentação, solos, tijolos, blocos, telhas etc; Classe B: são os resíduos recicláveis para outras destinações como plásticos, papéis, metais, vidros, madeiras e outros; Classe C: são os resíduos considerados economicamente inviáveis para serem reciclados, entre eles gesso, mas hoje já pode ser reciclado como será visto adiante; Classe D: são os resíduos perigosos oriundos do processo de construção, tais como: tintas, solventes, óleos, amianto e outros, ou aqueles contaminantes oriundos de demolições, reformas e reparos de clinicas radiológicas, instalações industriais e outros (CANELI,2015). Segundo Scremin (2007) na maioria dos municípios brasileiros, tem-se, uma postura de “Gestão Corretiva” frente à questão dos RCC, na qual são tomadas medidas meramente emergenciais sem a existência de qualquer forma de atividade preventiva, a insustentabilidade dessa forma de gestão é expressa nos gastos municipais para a remoção dos RCC dos locais de deposição irregular e seu posterior aterramento, como apresentado na Figura 2. É importante a implantação de ações conjuntas visando: Máxima captação dos RCC através de áreas de atração para pequenos e grandes geradores; Reciclagem dos RCC captados em áreas especialmente definidas para beneficiamento; Alteração de culturas e procedimentos, quanto à intensidade da geração, à correção da coleta e disposição e a possibilidade de reutilização dos RCC reciclados.

Figura 2 - Destinaçao indevida de Resíduo de construção e demolição (RCD) em Boa Vista-RR

Resíduo de construção e demolição (RCD) em Boa Vista-RR Fonte: Autor 2.2 Áreas de transbordo e

Fonte: Autor

2.2 Áreas de transbordo e triagem - ATTs

Em geral as operações de triagem são de competência municipal. Na Figura 3 pode-se observar o fluxograma simplificado de todo ciclo desde geração dos resíduos até a reciclagem do RCC. Em Florianópolis, a COMCAP é a responsável pela gestão de pequenos volumes e empresas privadas são contratadas para dar o destino para os resíduos em grandes volumes. A responsabilidade de destinar corretamente os resíduos RCC é dos geradores.

Figura 3 - Fluxograma simplificado.

RCC é dos geradores. Figura 3 - Fluxograma simplificado. Fonte: PINTO, Tarcídio de Paula; GONZÁLEZ Juan

Fonte: PINTO, Tarcídio de Paula; GONZÁLEZ Juan Luíz Rodrigo (CREA 2005. PG 22)

A COMCAP em Florianópolis disponibiliza Pontos de Entrega Voluntária – PEV como demonstrado na Figura 4, para o recebimento destes materiais que posteriormente são

encaminhados para áreas de transbordo e triagem – ATT, onde ocorre a separação segundo as classes preconizadas pela legislação e, posteriormente, a destinação final dos mesmos, seja esta a reutilização, reciclagem e/ou aterro. O "Anexo 1" apresenta a lista com todos os resíduos recebíveis na PEV do Itacorubi. São previstos dois tipos de aterros: o de reservação para futura reciclagem e o aterro de regularização geométrica para o uso futuro da área. Em ambos os casos o material deve ser triado.

Figura 4 - PEV Itacorubi.

casos o material deve ser triado. Figura 4 - PEV Itacorubi. Fonte: Autor De acordo com

Fonte: Autor

De acordo com as características físicas e químicas dos resíduos, é possível calcular a capacidade e tipo e equipamentos de coleta, tratamento e o destino final. A resolução 307 do CONAMA estabelece, segundo a classificação proposta no artigo 3º desta mesma, a seguinte destinação para os RCC: Classe A: deverão ser reutilizados ou reciclados na forma de agregados, ou encaminhados a áreas de aterro de resíduos da construção civil, sendo dispostos de modo a permitir a sua utilização ou reciclagem futura; Classe B: deverão ser reutilizados, reciclados ou encaminhados a áreas de armazenamento temporário, sendo dispostos de modo a permitir a sua utilização ou reciclagem futura; Classe C: deverão ser armazenados, transportados e destinados em conformidade com as normas técnicas específicas; Classe D: deverão ser armazenados, transportados, reutilizados e destinados em conformidade com as normas técnicas específicas. A Associação Brasileira de Normas e Técnicas – ABNT dispõe de um pacote específico sobre os resíduos da construção civil, os quais são: NBR 15112 (2004) – Resíduos da construção civil e resíduos volumosos – Áreas de transbordo e triagem – Diretrizes para projeto, implantação e operação; NBR 15113 (2004) – Resíduos sólidos da construção civil e resíduos inertes – Aterros – Diretrizes para projeto, implantação e operação; NBR 15114 (2004) – Resíduos sólidos da construção civil – Áreas de reciclagem – Diretrizes para projetos, implantação e operação; NBR 15115 (2004) – Agregados reciclados de resíduos sólidos da construção civil – Execução de camadas de pavimentação – Procedimentos; NBR 15116 (2004) – Agregados reciclados de resíduos sólidos da construção civil – Utilização em pavimentação e preparo de concreto sem função estrutural Requisitos. Apesar desta regulamentação imposta pela resolução CONAMA é comum ocorrer o descarte dos RCC ao longo de vias públicas, em terrenos baldios e ao longo de cursos de água em decorrência da inexistência de uma área predestinada para o recebimento desses resíduos, o que pode incorrer em sérios danos ambientais e elevados custos operacionais com a limpeza pública.

2.3

Custos de coleta

A Lei Nº12.305 institui a política nacional de resíduos sólidos e prevê que a coleta,

transporte e destinação final dos RCC são de competência dos próprios geradores destes resíduos.

Todavia, em muitos casos, essa responsabilidade é repassada para empresas coletoras de RCC contratadas por estes geradores, as quais são popularmente conhecidas como papa entulho ou tele entulho. Quase toda a cadeia de coleta de resíduos gera custos ao geradores. O transporte deverá ser feito por empresa cadastrada pela administração municipal e o "Anexo 2" demonstra um modelo de formulário de identificação e destinação RCC. O custo de coleta de materiais considerados perigosos como gesso e amianto, custa em média 500,00 reais e o custo de entulho classe A misturado ou segregado custa em média 180,00 reais (tabela de preços as empresas privadas Argailha e Engessul - abril 2017). Existem casos, porém, em que as atividades de construção, demolição e reformas são executadas de modo informal, caracterizando os pequenos geradores de RCC. Nestas situações, os geradores usualmente são incapazes de incorrer com os custos inerentes à contratação de empresas para a remoção desses resíduos, o que leva a deposição destes materiais ao longo de estradas, vias públicas, margens de córregos e áreas de periferia da cidade. Os benefIícios da reciclagem dos RCC são amplos e se estendem pelos planos ambiental, econômico e social, atingindo a todos os agentes que de alguma maneira se relacionam com o setor construtivo: governos, geradores de resíduos, empreiteiros e sociedade de maneira geral. Esses benefícios incluem o aumento do período de vida útil dos aterros; o arrefecimento dos problemas de saneamento público e contaminação ambiental; a redução dos custos de limpeza urbana e gestão de aterros; e a redução dos impactos ambientais relacionados à exploração de jazidas naturais e ao processamento e transporte dos materiais de construção industrializados; dentre outros (PETRY DA ROSA, 2006). Com tantos benefícios, vale a pena para o governo e todos os envolvidos priorizarem os investimentos no setor de coleta seletiva dos resíduos da construção civil. Existem vários estudos que demonstram que a implantaçao de um sistema de gerenciamento integrado dos resíduos da construção e demolição são totalmente viáveis financeiramente e que se pagariam em no máximo quatro anos. Como por exemplo a proposta para a região de Florianópolis apresentada por RODRIGUES (2010).

3 TIPOS DE RESÍDUOS

3.1 Papel, papelão, plástico e metal

Esses materiais devem ser separados de forma seletiva no canteiro de obra. O destino e utilização desses materiais já é bastante conhecido e divulgado, e inclusive são os materiais mais visados pelos catadores. Em Florianópolis a associação dos catadores recebeu um galpão para trabalhar dentro da área da COMCAP onde são triados e vendidos para as respectivas fábricas de reciclagem.

3.2 Gesso

A disposição inadequada do gesso provoca muitos danos ao meio ambiente. Os problemas

estão relacionados com a geração de gás sulfídrico, que apresenta um odor horrível, e é muito

tóxico podendo provocar asfixia e irritação nos olhos. O gesso deverá ser depositado em aterros industriais, operados por empresas privadas. A facilidade de solubilidade do gesso promove a sulfurização do solo, que acaba criando bolsões onde desestabiliza o terreno e também ocorre a contaminação do lençol freático. A incineração do gesso também pode produzir o dióxido de enxofre, um gás tóxico. As possibilidades de minimizar o impacto ambiental, portanto, estão na redução da geração do resíduo, na reutilização e na reciclagem (LAGOEIRO, 2014). Para que o gesso volte ao seu formato comercial, a reciclagem deve ser feita a partir da moagem e calcinação (aquecimento prolongado de algum material a alta temperatura) do material. No processo de moagem o resíduo passa por um triturador para que o gesso fique de forma a atender à especificação granulométrica de gesso fino e posteriormente armazenado em recipientes fechados em ambiente de laboratório, aguardando a calcinação. Quando o material é submetido somente à moagem, ele pode ser utilizado como fertilizante e destinado pra a agricultura, onde é utilizado como corretivo da acidez do solo, na melhoria das características deste e na indústria cimenteira, no qual o gesso é um ingrediente útil e necessário, que atua como retardante de pega do cimento. Quando submetido à calcinação, o material se transforma no gesso reciclado, onde está pronto para retornar aos processos produtivos. A calcinação é a fase que fundamenta o termo (gesso sustentável), pois apresenta características que viabilizam o retorno do resíduo para o início da cadeia produtiva, minimizando a utilização do recurso natural não renovável no planeta. (PENSAMENTO VERDE, 2014) A empresa Engessul, localizada em Imbituba-SC especializou-se no beneficiamento de resíduos de gesso e fabricação do gesso agrícola. O Gesso Agrícola Engessul é um sulfato de cálcio di-hidratado (CaSO4.2H2O), subproduto da fabricação do ácido fosfórico, apresentando-se na forma de um pó claro e fino, contendo, no mínimo, 14% de enxofre (S) e 20% de cálcio (Ca), além de cerca de 1% de fósforo na forma de P2O5, com umidade livre máxima de 15%. O produto é fornecido a granel. A aplicação de gesso agrícola no solo visa aplicar cálcio e enxofre e, também, melhorar o ambiente em subsuperfície. Para solos salinos e sódicos, o gesso é utilizado, também, como corretivo. Entretanto, por ser uma fonte mais solúvel do que o calcário, o gesso não promove a neutralização da acidez do solo. A Engessul, passou, no ano de 2005, a realizar a recepção, beneficiamento e comercialização dos resíduos de gesso das indústrias de artefatos de gesso e da construção civil, promovendo o reaproveitamento desses materiais, evitando sua disposição nos aterros e lixões, prática terminantemente proibida pelo CONAMA. Recomenda-se, destinar os resíduos de gesso para a reciclagem e após aplicá-los nos processos produtivos, além de reduzir a extração do minério gipsita (matéria-prima para a fabricação do gesso), ainda contribui para a diminuição do descarte inadequado do material, bem como a mitigação da contaminação do solo e lençol freático (PENSAMENTO VERDE, 2014)

3.3 Madeira

A reciclagem de madeira aproveita a madeira que não será mais reaproveitada no canteiro de obras. O reuso da madeira deve ter processos para separar e triturar materiais no sentido de retirar as impurezas e os metais, tais como pregos ou fitas metálicas, por exemplo. Madeiras recicladas podem ser usadas de múltiplas formas. Depois que a madeira é triturada pode ser usada para fabricação de placas aglomeradas que são utilizadas por indústrias de móveis e fabricantes das caixas e embalagens. Lascas de madeiras adicionadas com serragem moídas podem ser usadas para fertilizantes a certos tipos de espécies. Pode ser útil também na fabricação de caixas, ou mesmo restauração. Parte pode ser encaminhada ao aquecimento dos fornos e caldeiras na forma de cavaco, bem como no fabrico de papéis e celulose (CULTURAMIX SITE, 2013) Grande parte da madeira da construção civil é destinada a fabricação de cavaco que é vendido como fonte de energia em caldeiras de indústrias, substituindo combustíveis fósseis considerados escassos na sociedade, como petróleo e carvão. Quando os proprietários das pequenas

indústrias, que ainda usam lenha para combustão, são conscientizados sobre a importância de preservar o meio ambiente com a utilização do cavaco, eles investem na adaptação das caldeiras para uso do cavaco e geralmente em menos de um ano o retorno é garantido pela economia.

3.4 Concreto / Classe A

Os resíduos da construção civil classe A podem ser usados de três maneiras: Pavimentação,

Agregado para concreto e Agregado para argamassa. Na pavimentação a aplicação caracteriza a forma de reciclagem de menor demanda tecnológica e, consequente, menor custo de processamento, uma vez que se pode utilizar todos os componentes minerais do entulho e, desta forma, descartar a necessidade de qualquer forma de separação. Quando utilizado como agregado para concreto, substituindo na elaboração do concreto a brita e areia, apresenta uma resistência à compressão inferior ao concreto convencional. Há a possibilidade de utilizar esse entulho reciclado como base e sub-base de rodovias e em peças pré- moldadas. Quando utilizado como agregado para argamassa deve-se ter maior cuidado quando a finalidade for o revestimento, pois a grande quantidade de finos presentes no agregado pode levar ao aparecimento de fissuras. Apesar disso, trata-se de uma forma bastante simples de reciclagem, demandando apenas a moagem dos RCC, o que pode ser feito no próprio canteiro de obras (LOZOVEY, 2013). O processamento destes materiais a serem reciclados, podem ser feitos de forma automática e semiautomática. No caso do processo totalmente automático, é utilizado um equipamento robusto, de grande potência, capaz de receber e triturar o entulho sem que haja qualquer separação prévia das ferragens que ficam presas nos blocos de concreto. Este material triturado é então encaminhado para um separador magnético, o qual retira o material ferroso deixando apenas o material inerte triturado. Por fim, o material ferroso vai para uma prensa com a finalidade de ser comercializado em fardos, ao passo que a fração inerte passa por uma peneira giratória com o intuito de separar o material em suas várias porções granulométricas que, também, serão comercializadas. Por sua vez, no modo semiautomático, o mais utilizado no Brasil, o material a ser processado deve sofrer uma segregação prévia das ferragens, não sendo recomendada a trituração conjunta dos materiais. O resíduo passa pelo seguinte processamento: Recebimento e pesagem dos RCC; Separação manual dos materiais inservíveis, como plásticos, metais e pequenas quantidades de matérias orgânicas; Umidificação do entulho visando à redução da quantidade de poeira gerada na trituração; Trituração do material, que segue, posteriormente, para um separador magnético com a finalidade de retirar qualquer resíduo de ferro que tenha escapado da triagem (LOZOVEY, 2013). Apesar do enorme potencial existente no processamento dos resíduos da construção e demolição, o processamento deste material feito por intermédio de usinas de triagem e reciclagem é ainda uma realidade pouco explorada.

4 USINAS DE RECICLAGEM

Segundo Cabrera (1997) a literatura mostra que o tema reciclagem é tão antigo quanto a

própria construção civil. Existem registros de cidades que depois de guerras foram reconstruídas com seus próprios escombros, como Roma na antiguidade e Londres, Berlim e Varsóvia após a II Guerra Mundial.

O pioneirismo na implantação de uma usina de reciclagem dos RCD para atender o

aglomerado urbano de Florianópolis, é um diferencial competitivo capaz de viabilizar a entrada neste mercado que só tende a crescer. A indústria da construção civil é responsável por consumir de

20% a 50% de todo o recurso natural utilizado pela sociedade e produzir até 70% da massa de resíduos sólidos urbanos. Devido a escassez dos recursos naturais, a necessidade de otimizar a

utilização destes recursos torna a reciclagem dos subprodutos oriundos da produção industrial uma obrigação, principalmente no caso da construção civil em que a geração de resíduos envolve números muito elevados. Todas as obras em Florianópolis precisam de um projeto de RCC para a aprovação da obra. O "Anexo 3" mostra um modelo com dados obrigatórios para esse projeto. Dentre as vantagens apresentadas pela reciclagem dos resíduos da construção civil, pode-se destacar: a redução de volume de extração de matérias primas, conservação de matérias primas não renováveis, correção dos problemas ambientais urbanos gerados pela deposição indiscriminada de resíduos da construção na malha urbana, colocação no mercado de materiais de construção de custo mais baixo e criação de novos postos de trabalho para mão-de-obra com baixa qualificação (PERES, 2012). Atualmente, a reciclagem dos RCC não é uma prática amplamente utilizada, variando muito de um país para outro. No caso europeu, há casos em que a taxa de reciclagem chega a 90% como na Dinamarca, enquanto em outros essa taxa não chega a 5%. Essa diferença entre os índices de reciclagem é fruto de políticas e metas estipuladas pelos governos (RODRIGUES, 2010). A Argailha e Engessul foram as duas empresas pesquisadas nesse estudo na região de Santa Catarina. A Argailha faz o serviço de coleta e transporte para aterros e faz a reciclagem de concreto através da britagem. Já a Engessul fabrica o gesso agrícola também chamado de fosfogesso que é utilizado no solo regulando o teor de cálcio e enxofre e o corrigindo os solos salinos e sódicos. O consumo do fosfogesso vem crescendo a cada dia no ramo da construção civil e como cobertura em aterros sanitário; porém, o maior consumidor desse resíduo é a agricultura. Existem também estudos em andamento sobre a viabilidade de utilizar o fosfogesso na fabricação de placas de pré-moldados para construção civil e na produção de substrato de base para receber pavimentação (ECOD, 2012).

5 SOLUÇÕES

O aquecimento do mercado da construção civil e a modernização de antigas edificações fazem com que a geração de resíduos, tanto da construção como da demolição, seja cada vez mais acentuada. Todavia, uma grande fração deste montante de resíduo gerado é despejada de forma irregular em terrenos urbanos, corpos hídricos ou áreas sem controle do material despejado, o que justifica a necessidade de criar uma destinação adequada para os resíduos da construção e demolição. Assim, esta proposta visa traçar uma análise da viabilidade de se implantar uma usina para triar e processar os RCC transformando estes em agregados. A usina seria responsável, como demonstrado na Figura 5, por receber o RCC, fazer uma triagem inicial para separar a fração passível de processamento dos demais materiais, moer os resíduos para obter o agregado, armazena-lo no parque fabril e, por fim, encaminha-lo ao mercado consumidor. A operação da usina contaria com um conjunto para o processamento dos RCC, o qual compreende um alimentador vibratório, um britador de impacto, um transportador de correia de ação axial e uma peneira vibratória; uma retroescavadeira, para o manuseio de grandes volumes, seja este de entulho ou de agregados produzidos; caçambas, para armazenamento temporário de materiais, e outros implementos necessários para a operação da usina, como equipamentos de proteção individuaL.

Figura 5 - Fluxograma de operações da Usina modelo.

Figura 5 - Fluxograma de operações da Usina modelo. Fonte: Autor O g erenciamento de resíduos

Fonte: Autor

O gerenciamento de resíduos de Construção e Demolição deve ser integrado, englobando a

coleta, valorização e destinação destes materiais para o aglomerado urbano de Florianópolis. As vantagens seriam muitas como por exemplo: a redução de custos de remoção e matéria-prima, aumento da eficiência e competitividade, redução das multas ambientais, menores riscos de acidentes ambientais, melhora da condição de saúde e segurança do trabalhador, melhoria da

imagem da empresa junto a consumidores, fornecedores e o poder público, ampliação das perspectivas de mercado interno e externo, acesso facilitado a linha de financiamento, dentre outras vantagens.

A usina apresentaria ainda mais três formas de receita: a venda dos agregados produzidos, a

comercialização da madeira presente nos entulhos e a comercialização do aço separado tanto do

entulho como das peças de concreto. Após a implantação da usina, deve-se garantir um mercado consumidor para o material reprocessado. Muitos são os potenciais consumidores para esse material

o que valoriza essas usinas de triagem; Elaborar uma análise financeira para verificar a viabilidade do empreendimento.

É fundamental elaborar um sistema capaz de recolher estes resíduos na fonte geradora,

encaminha-los para uma usina de triagem, trabalhar na valorização destes e, finalmente, achar

potenciais destinos para o novo material gerado. No "Anexo 4" estão algumas fotos tiradas durante

a pesquisa.

6 CONCLUSÃO

A proposta estudada, antes de ser uma possibilidade viável de negócio, se mostra como uma

necessidade no que diz respeito ao gerenciamento dos resíduos da construção e demolição. A destinação adequada destes resíduos leva a uma redução expressiva nos valores expendidos pelos órgãos públicos na limpeza urbana e soluciona a problemática ambiental vinculada ao deposito dos

RCC em locais impróprios ou sem controle do material depositado. Assim, além de proporcionar

uma destinação própria para todos os materiais existentes nos RCC, a usina trabalha na valorização dos resíduos, os quais apresentam um elevado potencial de reutilização e, consequentemente, contribuem para a preservação das fontes naturais de minérios para a construção civil. Cabe a busca por incentivos junto aos órgãos públicos objetivando viabilizar este tipo de empreendimento, seja este por intermédio de incentivos fiscais, de subsídios para a aquisição do parque fabril ou de qualquer outra medida que torne mais atrativa as atividades que trazem consigo, além do aspecto empreendedor, o caráter sustentável e a busca pela melhoria da qualidade de vida.

A qualidade do produto reciclado requer um resíduo de qualidade e para isso é fundamental

a correta segregação dos resíduos dentro do canteiro de obra e a destinação correta de cada material

residual. Para uma gestão sustentável deve-se priorizar a redução da geração de resíduos na fonte e

o reaproveitamento do resíduo gerado. A mudança de cultura é necessária em todos os envolvidos

no processo de construção: usuários, empresas construtoras, coletoras e transportadoras de entulhos

e poder público.

REFERÊNCIAS

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 15112 - Resíduos da construção civil e resíduos volumosos - Áreas de transbordo e triagem - Diretrizes para projeto, implantação e operação. NBR 15113 - Resíduos sólidos da construção civil e resíduos inertes - Aterros - Diretrizes para projeto, implantação e operação. NBR 15114 - Resíduos sólidos da construção civil - Áreas de reciclagem - Diretrizes para projeto, implantação e operação. NBR 15115 - Agregados reciclados de resíduos sólidos da construção civil - Execução de camadas de pavimentação - Procedimentos. NBR 15116 - Agregados reciclados de resíduos sólidos da construção civil - Utilização em pavimentação e preparo de concreto sem função estrutural - Requisitos. NBR 10004- Amostragem de resíduos: procedimento. 2004 Disponível em:

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SCREMIN, L. B. Dissertação (Mestrado em Engenharia Ambiental) - Universidade Federal de Santa Catarina. Desenvolvimento de um sistema de apoio ao gerenciamento de resíduos da construção e demolição para municípios de pequeno porte. 2007

SCREMIN, Lucas, CASTILHOS JUNIOR, Armando Borges, ROCHA, Janaíde Cavalcante - Sistema de Apoio ao Gerenciamento de Resíduos de Construção e Demolição (Software) para municípios de pequeno porte. 2013 Disponível em:

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-41522014000200203 . Acesso em:

abril 2017

GOOD MANAGEMENT OF CIVIL CONSTRUCTION WASTE FOR A CLEAN WORK: HOW TO CONVINCE THAT IT IS POSSIBLE TO REDUCE THE VOLUME OF WASTE AND TO TRANSFORM WASTE IN RAW MATERIAL

Abstract: The objective of this work is to analyze how waste is disposed in civil construction and to suggest innovative ways to correctly dispose of waste in the region of Florianópolis. Some products that previously could not be reused today already have technology for reprocessing. With the understanding of the current difficulties and deficiencies in generating sources and waste reception units, the study suggests how the correct disposal of each of the waste materials of the works should be and demonstrates the possibilities of reuse of each of these materials. It is hoped to encourage more and more recycling and broaden the vision and awareness that garbage when it has a correct destination becomes a source of wealth. And in doing so, stimulate public power, generators, transporters and investors to work together to reduce environmental degradation.

Key words: Reuse. Consciousness. Waste. Wealth. Ambiental degradation.

ANEXOS

Anexo 1 - PEV Itacorubi

ANEXOS Anexo 1 - PEV Itacorubi Fonte: COMCAP site

Fonte: COMCAP site

Anexo 2 - Modelo de CTR

Anexo 2 - Modelo de CTR Fonte: PINTO, Tarcídio de Paula; GONZÁLEZ Juan Luíz Rodrigo (CREA

Fonte: PINTO, Tarcídio de Paula; GONZÁLEZ Juan Luíz Rodrigo (CREA 2005)

Anexo 3 - Modelo projeto de RCC

Fonte: PINTO, Tarcídio de Paula; GONZÁLEZ Juan Luíz Rodrigo (CREA 2005)
Fonte: PINTO, Tarcídio de Paula; GONZÁLEZ Juan Luíz Rodrigo
(CREA 2005)
Fonte: PINTO, Tarcídio de Paula; GONZÁLEZ Juan Luíz Rodrigo (CREA 2005)

Fonte: PINTO, Tarcídio de Paula; GONZÁLEZ Juan Luíz Rodrigo (CREA 2005)

Destinaçao indevida de RCD em Florianópolis-SC Anexo 4 - Fotos pesquisa de campo Fonte: Autor

Destinaçao indevida de RCD em Florianópolis-SC

Anexo 4 - Fotos pesquisa de campo Fonte: Autor

Anexo 4 - Fotos pesquisa de campo Fonte: Autor Obra residencial na Lagoa da conceição (Florianópolis)

Obra residencial na Lagoa da conceição (Florianópolis) - Estilo tradicional de construção e geração de pouco RCC

Visita a COMCAP Itacorubi - SC

Galpão dos catadores e PEV

Visita a COMCAP Itacorubi - SC Galpão dos catadores e PEV