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O retorno

à escuridão
Pedro Chaves

2006
Derrubar ídolos – isso sim já faz parte de meu ofício.

(Friedrich W. Nietzsche)

(...) À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

(Álvaro de Campos)

(...) eu só tinha enchido o saco deles com


minha periculosidade.
Toda noite era a
mesma coisa e de dia era ainda
pior.

(Charles Bukowski)
Era má a forma como o tempo não passava. É que o homem é carrasco de si mesmo,
nunca estará em paz, o homem. Quando o tempo tiver de passar ele não o fará. Enfim. É que a
própria psicologia, tudo que há a ser ponderado acerca do intelecto e seus detalhes ocultos, do
inconsciente, fauna, selva escura, das suas causas secretas, todo o mistério no evento do
pensamento, do seu desejo, de seus porquês e para quês, tudo isso se funde num dado
instante num sussurro discretíssimo de discordância, de contrariar, que teima em afligir com o
seguinte, espera um pouco, para onde vai?, que caminho vai tomando? O homem é sua
própria contradição, alguma coisa o tornou um desastrado masoquista, seja na percepção ou
nos vícios, ele nunca está profundamente convencido de si, do que faz, o inteligente é sempre
controverso, a intransigência é uma estupidez que talvez se poupe de maiores cansaços,
quando sempre há um outro aspecto a cogitar, nunca há um controle que deixe o homem
linear, que deixe o homem em paz, algum resultado de seus tantos passos, nem que apenas
um, um fantasma ou um por quê, isso sempre irá atormentá-lo ou engatilhar a tormenta, algum
horizonte será sempre receio e incerteza. Ainda assim há aqueles que admiram a
complexidade, a humanidade, a afirmam feito virtude única. É que quem nunca foi coisa
diferente não pode fazer justiça e reparar adequadamente no que seria e no que de fato é, para
então poder concluir qualquer coisa com lucidez, iluminação não fantasmagórica, então, já que
não se pode desgostar de ser gente, decerto que também não adorar, suporta-se sem
propriamente ter motivos e isso é geralmente o bastante. Era o bastante para ele.
Soa o relógio. É um estalo discreto em meio a cabeça gargarejando e berrando. O som
fraco prevalece, suas proporções não são as presumidas, tanto mais um absurdo que diferença
não faz. É porque nesse instante o mundo bruto treme e o espírito enfraquece, a constituição
da vontade, pensemos no seu sentido mais amplo, íntimo e tudo mais, na verdade trata-se
exatamente deste tudo mais desejando escapar, escoar às fendas do tremor vulcânico que
racha o solo onde ficam os pés serenos e o demole, põe tudo que está de pé abaixo, tudo que
um dia esteve enraizado agora está de ponta-cabeça, todas as árvores e todos edifícios e
todos monumentos, toda tradição e toda certeza, é tanta coisa que o punha em dúvida e em
xeque, tanta coisa que enfim tornou-se tudo o que ele conhecia. Idéias com montes de choque
para fim nenhum. Muitas voltas para não chegar a fim nenhum. Se o universo fosse um pouco
mais vago, um tantinho mais abstrato, se o desejo tivesse alguma força ou sentido sem ação,
se o sofrimento fosse transformador e não vazio, se não fosse um evento inútil, fechado e
morto. Convenha, ande, se a física não fosse tão dura, se a natureza não fosse tirana e a
regência das coisas não fosse tão ordenada, se essa noção entre passado, presente e futuro
não fosse tão agra, podre, tudo é essa grande desilusão que não tolera a alternativa de se fugir
dela, porque ele é viciado nisso e a verdade venceu e ela é total e é uma coisa fria. Para
investigá-la inventou-se a razão, para suportá-la veio a fantasia, os sentidos são um meio-
termo em eterna fase de experimentação. Deixa para lá, à parte suas idéias, vômito preso na
glote, sua cancela a impedir um estouro, não havia fantasia ou razão nem nada que pudesse
aplacar a idéia de que era angustiante a maneira como o tempo não passava.
Clica o relógio do pulso, ficou de despertar às duas da manhã por algum motivo, não se
lembra qual. Escuta o barulho chato de ferrugem antecedido por um estalo que movimentava
suas pequenas engrenagens internas, seus átomos se fissurando, algo assim, coisas que
anunciam o apito de relógio digital que vai descambar numa série de sonzinhos de agoniar.
Convenha, é isto uma falta de respeito à mística produzida por sua atenção, sua
compenetração, sua obsessão e tudo mais. Não pode permitir um estupro de sua devoção
como esse. Também é como se o silêncio fosse a coisa mais apropriada para aliviar a sua
queda, como se lhe fosse diminuir a velocidade, tirar o chão da frente como fim e, senão o faz
parar de cair, sugere do silêncio mesmo a serenata, serenata de tranqüilidade ao que carecia
de fundo sonoro, dando ritmo e um pouco de beleza para um fracasso mudo e invencível.
Dedinhos pálidos se encaminharam ao pulso antes que o aparelho orquestre, consegue
desligá-lo, ao longe uma tosse que não era a sua eclodiu, de tão longe veio tão baixa e morta.
Não, e esse não foi tido nas confusões que acontecem não no silêncio, mas no barulho, a
gente não se torna exaltada, animosa ou qualquer coisa assim quando passa por revoluções
como esta, ao menos não todo o tempo. As revoluções são diferentes do que imaginou. Ao
contrário do que pensam, não há aquele espírito de ebulição que normalmente se atribui às
massas fervorosas, instigadas por uns líderes e coisa assim, aquela história de que a gente
perde a individualidade imersa num grupo foi erro da tolice de alguém. Diz-se até que se chega
a abrir mão da individualidade no instante em que se está identificado com a multidão, que
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passa a agir de maneiras que sozinho nunca pensaria em agir, que se escravizaria por um
todo, que afundaria, que aceita. É tudo mentira, esse tipo de coisa não serve para que se
perca, bem ao contrário, que nos descobrimos, com toda nossa potência de destruição e de
vida quando o caos está às soltas, o eu está onde mais odiamos vê-lo, no caos do apocalipse
de um mundo acabando e também no caos da solidão.
Por um segundo este eu está contra a parede de um beco, está encurralado, uma sombra
que está aqui e em toda parte o enreda, um demônio apático e pesado e escuro que o cerca e
limitava suas escolhas. A responsabilidade. A responsabilidade típica da consciência.
Exatamente ela, a consciência, ainda não foi descoberto pior organismo, pior não por não ser
eficaz, mas somos de uma raça que não aprendeu a possuí-la, ela é muito nova, coisa assim,
ainda nos é fraca demais e cheia de doenças, é o sintoma inexpurgável da agonia. A
consciência moldada pela moral. A moralidade típica de interesses distantes, distantes mesmo,
dele não. A moralidade que é instinto de ser rebanho. Ela é o único diabo que há. O diabo. É a
própria árvore de onde partem todos os demônios.
Percebeu soar o guincho. Era o carro. Quando está molhado o chão, coisa assim,
geralmente quando o carro freia um pouco emite um gemido do qual ele não gosta, gemido que
às vezes nos serve para prender a realidade, útil quando se está distante demais, parecido
com sonâmbulo. Nos serve a refletir coisas próximas da seguinte, ainda há coisas no mundo
sem natureza específica, como um gemido qualquer, guincho de carro, pense nos sons, som
de chuva, pense nos cheiros, cheiro de bosta, de asfalto sujo, de giz, e gosto, pense no gosto
de alergia, do gosto ruim na boca quando se está gripado, e vozes, grito de bicho, e enfim a
mecânica das coisas, que não nos julga, não só a nós como a nada, da mesma forma está à
parte do que pensamos ou da parcialidade de nossas ações e de todas as coisas de gente,
sendo transcendental e escapando de nós. É bastante reconfortante. É confortante saber que
coisas como nós não são absolutas. Tudo silencioso. Aqui dentro do carro, tudo absurdamente
escuro. A tosse de há pouco foi a maneira que alguém menos introspectivo achou de chamar
atenção, com a certeza de quebrar o silêncio, que silêncio mais parece uma paz injusta que
não corresponde à que se tem, foi a maneira de vampirizar um pouco os outros, mas deixa lá.
Já duas da manhã. Quem diria. O espírito da novidade. É esse o retorno à escuridão. Ver o fim,
o início, tudo de vez, ver o que sai dali. É verdade, nem tudo que se fantasia é apenas
imaginação, nem todo sonho é procedido de preguiça, paz e despedida. Estava praticando o
retorno à escuridão da maneira mais prática, não há quem possa contestá-lo, não contestar
uns aos outros é das vantagens da loucura, ou talvez a loucura faça mesmo o inverso, na
loucura tudo se contesta e nada se afirma, e ele executa a tudo isso da forma ideal, como ele
mesmo percebeu que devia ser, como se disse que seria, é o que fazia, tal é o seu orgasmo
espiritual. Mas também é isso que o faz sentir-se alcançando a um ponto sem retorno, retornou
ao nada primordial e descobriu não haver saída, é aquele assunto do nada, bastante esquisito,
já que do nada outrora partiu e agora não mais o reconhece.
É aquele instante de vácuo, de silêncio antes da explosão, antes de tudo ir para os ares e
não haver como sustentar os tetos ruidosos, a firmeza das certezas confortáveis não mais
existe, está corroída, por outro lado, são muitas as coisas novas nascendo, e na manhã
seguinte a gente sempre enxerga novas perspectivas, um horizonte, o homem nunca se rende
totalmente à desilusão, nem toda desgraça do mundo é capaz de fazê-lo, talvez só aos
suicidas, que extinguem as próprias forças, se não foram elas que os extinguiram.
De fora do carro, tudo parece vir de uma grande insônia, o sonho de um alguém misterioso
que não está ali, mas está posicionando, sem que saibamos, a todos nós. Luzes periódicas
borram na janela e parecem vir de outro continente. A cidade distante dorme. Alex não. Hoje
ele não dormirá. Com certeza que não. Vê lá, Alex, o que você causou. É, ou não, ainda não
pense tanto sobre isso. Também não pense muito mais que isso. Mas veja o que causou a si
mesmo, o que se causa ao ousar, e você se julga quando for conveniente, mas isso talvez só
se dê daí a um tanto depois, deixa agora tudo com o clímax do despreparo e dos sustos, o suor
da adrenalina que escorre no pescoço e arrepia, trinca os dentes, arreganha as pupilas, tudo
mais. As veias de sua testa dilatam, os olhos são estrelas mortas, atrairiam elas próprias,
buraco-negro, talvez a todo o resto e com sorte o mundo finalmente acabaria. Esperou
fortemente que isso acontecesse, isso não aconteceu. Repara que uma coisa pedia a
expressão, o caso da testa pulsante, a outra só o escondia, novamente coisas opostas
coexistindo em guerra que nem agora ele pode ignorar, ele é o infinito em guerra que nunca
acabará.
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Tudo está caindo e ele está no centro, onde nada se movimenta e estão as testemunhas.
Era angustiante a maneira como o tempo não passava. E ele ali, feito sombra sem
conteúdo o bastante para existir, a mascarar-se da sua discrição, protegido na aparente
absolvição da aparente superação de si, salvo por uma transcendência que ele julga ter
conquistado e que sabe ser fantasia, uma vez que a densa conjuntura do medo não o deixa
erguer-se acima nem de suas fraquezas elementares. Ocorre que ele aventurou-se num
mundo indigesto, de perguntas que trazem respostas perigosas, em expedição contra uma
fauna indomada, a tudo isso ele foi empurrado quando percebeu a urgência de provar que é o
arauto de um destino grandioso, desde que percebeu lhe cair meio bem a roupagem desse
destino encarnado, então vestindo todo espalhafatoso esse destino, esse futuro que quer para
si, para os outros e para a humanidade toda. Ele mentiria se dissesse que tentou inteiramente
negar. Não negou mas é dessas coisas que se acatam com um sorrisinho torto na boca e com
a aceitação mau caráter dos prazeres vindos daí. Ou ele simplesmente tem essa impressão
enganadora a seu respeito.
É óbvio que ele se engana a maior parte do tempo. Busca a verdade com energia, mas
todos se enganam, e sabe-se lá por que a gente gosta de afrontar o óbvio e talvez por
insegurança fazer exatamente o contrário do que está vendo, do que sabe que deve ser feito, o
contrário do óbvio, talvez porque se queira muito a verdade e dê medo quando se a tem, fica-
se sem saber o que fazer quando se a tem, ela é constrangedora na sua falta de glória, assim
nos lançamos exatamente para o contrário, para a mentira, no caso a sua fantasia sobre um
peso que possui, um pouco de glória sobre um peso que não tem. Por que o mantinha, por que
mantinha esse status escabroso, o peso, por que não desistia de tudo, rejeitava a autoria do
seu mal e a responsabilidade que lhe é filha, vai saber, talvez seja um pequeno sacrifício em
prol de um algo maior, talvez o bel orgulho de quem se apega à sua criação, e se for isso
justificado como laço maternal, se visto como a mãe que se aconchega ao filho, já não seria
mais assim algo tão vulgar e capricho puramente da vaidade, talvez ainda fossem ambas as
coisas e mais três mil e seiscentas outras desconhecidas, ou meramente aconteça que ele não
saiba como destruir tudo o que criou, ou já não tem a força para tanto, feito o suicida, que não
podia destruir tudo a seu redor, até o instante da iluminação que lhe disse bastar que acabasse
consigo mesmo. Alex não tem e não quer essa iluminação e é absolutamente deus vaidoso
pela obra.
Olha para o lado, não precisa muito esforço, e sente como se o gêiser fracote viesse a
esgueirar-se da fenda interina e a se esbaforir embora, com algum esforço até se derrama e
fagocita algo de realidade, a compõe com certa velocidade de raciocínio, que ela é um quebra-
cabeça estilhaçado a todos instante, dos recomendados para velhos, pela idade que se pede já
morreram. Parece que há um lençol mormaço em suas retinas, uma crosta que dá vontade de
arranhar, e limpa, limpa, ou é que subitamente ficou míope. Faz algum tempo que sua visão lhe
deixa na mão. Pode ser que seja, e quem souber o diga, mais um truque misterioso do cérebro,
dizendo não, não olha para fora, fica aqui dentro, é mais seguro, é menos cansativo e perigoso.
Sem a cautela ele não é nada, é predador convencido demais, que vacilou na arrogância e caiu
sozinho na primeira armadilha. Uma lamparina na sua íris se acende em contrapartida. Ele não
obedeceu, como quem se debate na cama e se apega ao sono versus alguma hora marcada e
um senso de responsabilidade mais forte que o compele a acordar. E é ainda com gosto de
sonolência que repara, à frente, a figura de um personagem desfigurado por olheiras, gravura
do cansaço e do susto que lhe havia na cara. O último aspecto, do susto, parece agarrado no
rosto feito tarântula de estimação durante eras, feito um transe de autista, a parada cardíaca de
um espírito que começa a temer qualquer movimento, que tudo parece ser violento e
destrutivo, porque enfim deu-se conta de que o pensamento tem garras, por alguma causa a
ação dele o machucou e melhor seria a completa gelidez. Esse sujeito de barbicha ruiva e
cabelos castanhos está mumificado. Alex se compadeceu, não é muito diferente dele. A
compaixão é coisa sempre oportuna. Certo, generalizar é perigoso, sempre, do sempre nada
se sabe, como também não se sabe do nunca, o exemplo de que algo nunca pode acontecer
tornou-se ultrapassado, anulou-se o sempre e o nunca, então tudo tornou-se permitido.
Os brilhos das janelas distantes piscam a clarear, coisa tímida e sem vida, o vidro nublado
do veículo, depois um escuro de falta de poste liquidava tudo, todo o resto ia-se embora. Sentiu
frio. Não há interior neste mundo que aja feito um útero materno, na verdade nada mais seria
como útero, depois de hoje não há jamais abraço ou colo que pudesse ser o bastante
acolhedor ou eficaz, viver é uma baita agressão. Viver é causar dor, desapontar o pai, é
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abraçar o bebê e sentir seus ossos quebrarem como cartilagem fina, seu rosto ficar roxinho.
Não há experiência prévia para entender ou suportar nada disso. Sentiu-se sufocar, mas ainda
sai vivo porque sua estória pretende ser contada. O mundo ordenava por sua vontade,
ordenava por um futuro, por sua semeadura, pelo instinto que Alex tem, o tem também o
mundo. A mão ríspida adiantou-se ao canto da porta. Tateou por pouco tempo. Pensa se não
seria ridículo saltar do carro, imagina que seria hilário, coisa da qual só se ri depois. Tem feito
coisas mais ridículas de lá para cá. E também por toda a vida, que o ridículo seria atraente por
ser uma forma de se desnortear, a si e aos outros, não importa por quê, é o seu entorpecente
predileto, a sua droga infantil que pede nas abstinências mais escandalosas. Dar um berro de
susto, tirar a consciência da gente de suas poltronas na sala da tv e jogá-la num lugar novo e
estranho. Mas se matar agora não apraz, soa um pouco óbvio, razões são sempre importantes,
mas do sempre não se sabe, o espírito do sempre é expansivo como a morte, coisa que não é
da sua alçada, pequeno, centralizado, passional, irracional e reduzido, é melhor que não
generalize, razão quase nunca é importante. O que segura com a mão é a manivela da janela,
a girou, ela obedece e relinchou.
Quando abriu o vidro a testa franze, como um chiuaua na ventania, mas a umidade o
incomoda, e olha lá, desejou senti-la em outras circunstâncias, suítes de luxo, rede de
descanso, coisa assim, é que os supérfluos às vezes são cruciais para sua carência, isso não
traduz superficialidade de ser, muito pelo contrário, tudo o que pensa é puro e portanto uma
manifestação pura do incógnito ser que nele habita, e sem mais, assim ele desejou-se todo
pomposo, em algum terraço do andar mais alto da cidade a mirar o mundo inteiro sob seus
pés, magnânimo, imperial, tendo alguma bela mulher ao lado, o abraçando, o convidando a
afazeres mais interessantes, sim, aconchegue-se, Alex, esqueça de tudo, de tudo, liberte-se de
tudo, aconchegue-se no meu seio onde é tudo muito mais simples, aproveite o que você não
pode negar. A liberdade, a coisa toda mudaria, respiraria com outra satisfação, não como se
sentisse algo poluído preencher a boca, não inalaria as mesmas coisas, não como se o
enojasse estar, meramente estar aí.
E olhou onde estava. Em algum lugar de seu destino. Corria e ia se livrar daquele nojo,
daquela sensação azeda de que o tempo não passava, porque se continuar assim ele estará
congelado na eternidade e uma eternidade é tempo demais para pagar qualquer pecado. Ali vê
a extensão da ponte sobre a qual está, a qual percorre, e a baía como um gigante além das
encostas de concreto, grandíssima, apagada como noite sem estrelas e silenciosa, colorida
apenas lá nos horizontes pelas luzes das partes estranhas da cidade que esqueceu-se de
dormir, seria bonita se não parecesse tão exausta. Cansou-se profundamente, isto é, ele, não a
baía, não a cidade. Riu sozinho. Queria estar clicando e repetindo o som inútil de uma televisão
ligando e desligando, imbecil, para nada. Deseja ter a mão lida por uma cartomante das
praças, que no final mais parece que as pessoas são sempre subalternas a forças muito
maiores, do destino, do meio e tudo mais, e nada pode ser eventualmente decidido por essas
pessoas, estão condenadas a uns erros e episódios dignos de tiras de humor negro e apenas,
apenas isso, então é bem melhor que elas se conformem, que não matem suas forças para
adiar o inevitável, que assim a decepção vem muito maior e para os mesmos efeitos. Desejou
ter namorado umas meninas por mais tempo, aquelas garotas de seus tempos perdidos que
sempre lhe foram muito simpáticas, dessas compreensivas e fascinadas, esse tipo de coisa.
Elas lhe serviram para ouvi-lo e tranqüilizar os ânimos, seja sexualmente ou lhe permitindo as
divagações mais boçais, não precisa mesmo fazer sentido, apenas para que risse, para que se
aconchegasse, um pouco de egocentrismo não faz mal, desabafo de alguém muito intenso e
que morre de medo da mediocridade e como que para fugir dela está buscando uma
companhia qualquer, no fim ele entende que apenas nos usamos, o fim reserva a solidão.
Desejou muitas besteiras. Desejou ter casado e ter se aproveitado mais de tantas, também tê-
las conhecido melhor, quem sabe não teria uma boa surpresa, se encontraria em alguma e a
mediocridade estaria banida, desejou ter sido mais carinhoso com os de sua vida que
mereciam. O afeto é parte importante que está decompondo-se nele. Dormido mais quando se
forçou a não fazê-lo, trabalhado mais e ter sido menos egoísta, ter sido um pouco mais comum,
mais aceitável, acessível, saído um tanto mais e não se fechado numa ostra doentia, relaxado
o bastante mas com menos da preguiça. Esses últimos aspectos soam um pouco correcionais,
mas é besteira pensar que tinha isto algo de moral, tudo parece um pouco vertiginoso mas não
é. Mas chega de intervir, que julgamentos são cansativos, notar é bem mais agradável. Agora
está em dívida, que para compensar o aparente altruísmo, ele se diz, podia também ter
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ludibriado mais gente só por vaidade, maltratado uns canalhões que sacaneiam as mais
sensíveis, humilhado uns metidos do dia-a-dia. Mas parece que nunca e nem um pouco se
escapa do altruísmo, então desejou não ter nascido, que é para dar-se de vez ao bem, já que
tudo isso não passa de palhaçada, todos os seus desejos e os seus porquês. Riu mais ainda.
Desejou Júlia. Ela estar ali segurando a sua mão, ou sorrindo mostrando os dentes seria
mesmo bom. Não precisaria demorar muito, encostar nela já viria a calhar. Seria melhor que
tudo antes pretendido. Não só lívido, ele sorriria feliz. Poderia essas coisas, ou não, custo-
benefício, isso. As coisas que eu quero, pensa, eu geralmente assalto, porque não pode ser de
jeito diferente, nunca me seriam dadas. Estava certo que em algum momento isso deverá não
mais importar.
Quis matar a todos que ali consigo estavam, o assassinato seria o crime mais satisfatório
se não houvesse testemunha e nem memória, com a memória ele até pode lidar, mas se
dispensa dessas idéias, que em seguida os amou. Só é preciso que imagine o quanto também
o querem morto, o quanto o querem inexistente, desejo que muito provavelmente está a
palpitar, e que o desejo os alimenta, e se não o matassem é porque há causas realmente
íntimas para não fazê-lo, causas reais, veja bem, é realmente mais relevante considerar as
causas para não se fazer aquilo, já que fazê-lo deve ser tão fácil, não é coisa da qual depois se
peça perdão. Causas realmente íntimas. Coisas da vida. Ele não tem nenhuma causa muito
íntima que saiba pôr em palavras, será missão dos que o acompanham deduzir. Foi aí que seu
orgulho se esbaldou. Sendo morto ou não teria razão sobre as coisas, ao menos umas delas
que em vida pensou, essa coisa é conhecida como retorno à escuridão. A gente adora ter
razão, é uma grande forma de poder, se o homem vai ser morto que seja com a bênção divina
de ter a razão.
Mas um egrégora o envolvia, o possuía e o prendia à vida, por ser natural a um egrégora
ocorre que excede sua mera inconsciência e torna-se uma assombração coletiva, espírito que
gosta de se inflar, a crescer feito, como já dito, o da morte, só que este aqui é menos conciso e
mais açougueiro. É o fantasma da crueldade. Até mesmo o mais frio dos homens se intimida,
ao menos uma ou duas senão três vezes na vida, com a possibilidade de virar um zumbi desse
espectro, de forma que ela o faça revisar as suas próprias dores e desilusões e o ponha a
imaginar se não estou sendo um demônio. É claro que esse fenômeno se atribui ao trabalho
quase indomável do monstro perigoso da consciência. Não que haja, aqui e agora, crueldade,
e se houvesse muito dificilmente saberia identificá-la, apenas suspeitaria como suspeita de
sintomas que logo se ignoram, nunca saberia quando cruzou o limiar entre o que não era e o
que agora é, não era mesmo para haver limites. Então que viesse a crueldade. Com esse
desafio chamou um monte de outras coisas. Torna o olhar para dentro do carro. Fitou ali a
diagonal, o banco do carona.
André o viu como olhos que se atraem, é que a comunicação animal é tremendamente
fascinante, a tensão não só estica as pessoas como as une, então não é preciso muito mais
que um estopim, nesse caso um relance, um gesto, um piscar de olhos do outro para remetê-lo
a uma série de expressões. André levou a mão à boca, a entreabria, quase tossia. Acaba
arfando, o que deve despertar todos da sonolência.
– Melhor pararmos logo – André falou.
Sua voz ecoa como gemido de um bezerro para morrer. Alex tenta descrever como sentia-
se, e eis, profundamente respeitoso, um termo que diferente desse é falar das coisas
inutilmente, profundamente respeitoso, mas com a raiva de sempre que ele precisa sentir para
incendiar e purificar os excessos que o corroem. Viu que no silêncio André moveu seu dedo,
não só isso, como chegou a erguer o braço, que coragem, apontou, sinalizando ao motorista,
num gesto tão pouco sutil, movimentando tantos músculos e juntas, que coragem, que grande
titã, e aponta através do painel e da janela do volante, onde seria o ponto ao qual ordena que
pare, o destino, ou o que quer que fosse, algo que teria ali, no asfalto vazio, nessa parada da
ponte. E despreza André de outras formas, mas isso porque o conhecia. É natural. E se lhe
comparece uma maior vontade seria a de simplesmente abraçá-lo e dizer, te conheço, você é
um dos poucos que me conhece, sei que em algumas coisas me odeia, e em outras te odeio
ainda mais, muitas vezes disputamos no ódio maior, mas veja, nossa afinidade ainda vence, e
por isso sinto orgulho de estar contigo com as canelas afundadas na bosta, amigos e
cúmplices. Simplesmente, e em voz baixa, o ama. E André apenas aponta o aparente vazio,
não tem a gana de responder-lhe, talvez nem a imaginação. Seu pomo-de-adão balança, é

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coisa de alguém que engole em seco, são muitas coisas que levam uma pessoa a engolir seco,
e hesitar até mesmo os heróis o fazem, pena aqui não termos nenhum.
E logo ao lado Stern pigarreia, surto que ele há de disfarçar encolhendo-se, tipo como
quem sinaliza que tosse pelo fato de estar frio, e não porque está nervoso, porque queria meter
as unhas goela abaixo a ponto de indigestão. Passa sonoramente a mão sobre o cavanhaque.
E Alex segue sentindo a inércia do carro alterar-se, frente, trás, frente, a velocidade do fluxo de
eventos alterava-se com ela, que se o tempo passa é querendo não fazê-lo. Mas aí se volta ao
jovem pálido e magro que dirige, e não podia enxergar muito, assim, estando imediatamente
atrás dele, mas se compadecia por saber que seu silêncio não era habitual, sente dó, meio que
ri e pára. As mãos do cara, cheias de veias, realizam movimentos repetidos ao girar e regirar o
volante. Aí Alex pensou que o garoto pode não suportar, já tomou porrada demais e não se
sabe o que esperar de alguém que nas últimas horas tornou-se um completo estranho. E se
resolve atirar o carro da ponte, de repente acelerar a ponto de quebrar o parapeito e fazer
todos voarem?, seria uma queda e tanto, com tempo de se entreter com o sangue vulcânico
fazendo algo desconhecido aqui dentro antes da colisão que o matará, refletirá quieto e
chocado enquanto se afoga, preso, mal lutando entre outros que tentariam em vão escapar, no
frio e na falta de uma cova, vivendo a certeza, que as esperanças contrariam, que a morte
então chegou. É possível. E o cara só gira o volante. Estava parando, as luzes dos postes não
borram mais nada. O som de rodas vai silenciando e o carro parou.
E o estalo de porta que se abriu ecoa. André hesita, vê-se isso porque não a abre toda.
Leva o tempo suficiente para o motorista dar-se conta de que precisa puxar o freio de mão,
coisa assim. Tudo em ordem, tudo ok, um pouco ironicamente em ordem, mas isso acaba de
lhe passar na cabeça e a porta se abre, e o rosto de André, e acontece assim bem rápido,
primeiro se debruça para olhar essa mão da pista, ao que Alex procede em confirmar que está
tudo vazio, abandonado, solitário, calado na noite, mas quem averigua não gostaria de ser
atropelado, sim, ou visto, que talvez seja bem mais preocupante. É o motorista em seguida
quem abre a porta, os dedos procuram os fundos dos bolsos.
– Liga o pisca alerta – enuncia a rouquidão de uma das vozes no banco de trás. Este cara
enorme, formalmente barbudo, formal que é para não assustar, é gentil até em horas feito
essa.
Alex raspa os dedos pela garganta. O frio faz com que respirar doa. Aí alguém vê e pára,
responde com não mais que um gemido e nem parece frase. E agora foram suas mãos, ali,
ainda na maçaneta da janela, que se dirigem para o trinque da porta num deslize, a abre e num
salto de pernas saiu, deixa o vento tragá-lo, o casaco balançar, o vento poluído acanhar os
pulmões, a baía implorar em segredo por um salto libertário de um qualquer, ele ainda se diz
que vai atender, mas não executa. A noite solitária é longa, porque corpos próximos trazem
calor, aqui há muito pouco e há alguma relação entre calor e tempo. O deserto que é a baía,
mal se a enxerga, um poço sem fundo onde o concreto se finca. O motorista tira do bolso um
gorrinho cinza, trata de desenrolar sobre a cabeça, sacode os joelhos ainda em frente à porta
aberta, deve cogitar umas idiotices quaisquer sobre a estadia da gente aqui. Esfregou as mãos
muitas vezes, é homem que não tem com o que se distrair, ou foge do que tem, por aí vai etc.
O som mais agressivo de todos soou, a porta do outro lado se fechando, ao passo que a
traseira posterior se abria. Lá finalizava André, ajeita a gola desse casaco dos pesados,
enquanto já se punha a dar a volta pelo capô do carro, e a porta de trás termina de expelir um
gigante gentil.
André toca o capô, desliza seus dedos enquanto anda, a sensação boa a qual remete o ato
de tatear qualquer coisa suave o deve estar mantendo acordado. Alex não gosta de suavidade,
então cogita tatear a pele do cadáver. De novo não. André o olha, dessas vezes em que não se
quer dizer nada.
– E aí? – vozes inoportunas sempre soando. Mas e aí?, perguntou, quem há de arcar,
quem faz a escolhas?, o tenho-dito? Stern pergunta, estava ali, a porta aberta logo atrás,
poderia entrar e se esconder, chorar feito criança com a companhia de todos seus traumas,
basta-lhe um pretexto, daria um pulo até o banco do motorista, fecharia a porta e dispararia
com o carro, ia embora, seria encontrado morto depois, suicídio, ou talvez permanecesse vivo
e nunca mais fosse visto, mendigaria por opção, esqueceria o que houve. A vida seguiria.
– E aí, nada – sussurra Alex, sarcasticamente espertinho, ele é mesmo assim. Quando
quer esboçar ar de superioridade faz como nem olhasse ninguém. É coisa de momento. E por
ser assim ergueu um pouco do rosto, cordialmente, e olhava apertando os lábios ao rapaz ali
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no carro, como se dissesse, certo, estou sendo grosseiro, foi um pequeno deslize, amanha não
será mais assim, compreenda e me desculpe. Não faz diferença. A vida ainda seguia.
Do outro lado do carro, o cara enorme espreita e com a cabeça acima do teto ele mira as
coisas com feição como a de um calminho segurança. O garoto que dirigia vai um pouco mais
próximo ao parapeito, como que aos poucos ganhando coragem, e tosse sonoramente.
– Não é perigoso ficar parado aqui?, por causa dos carros, mesmo. Olha, que a gente tá
demorando. Eles vêm correndo, é normal que passem desse jeito, coisa assim, não dá nem
tempo pra ver, ou avisar, vai. Liga o pisca alerta, que nem Martin falou. É melhor – que acaba
de falar?, esse monte de coisas cuspidas, não se sabe se o ouviram, silêncio, e não é de se
espantar. Essas coisas ficam no ar. Ainda disse umas outras. Algo como, essa hora ainda tem
movimento, nunca se sabe, nunca se sabe, ou, o mais absurdo, não é melhor irmos para algum
outro lugar?, é, é, eu não sei, algo me diz que não devemos ficar, intuição da ruindade ou faro,
qualquer coisa do gênero. E olhar que não volve a ninguém.
Alex sorria. O mundo é grande. Suas idéias, vai lá, mais ou menos, e ele é totalmente
pequeno. Nenhum homem é assim tão egocêntrico, que o que faz é a fim das idéias virem à
tona, elas se perpetuarão pelo mundo, pela eternidade, ou seja, em prol dos outros e para os
outros, para o futuro, e não para ele mesmo. Mas que mentira deslavada e tão idiota
enganação. O orgulho é um monstro. A gente morre, mas os restos mortais do orgulho ficam
em cima da tumba, arranhando a lápide como se tivessem sido eles enterrados, o orgulho
gemendo tristonho ao coveiro próximo que o ouça, eternamente cobrando as pendências de
seu prazer com mais ou menos intensidade, um sussurro de cansaço ou um guincho de besta.
O orgulho é a roupagem que aos poucos vestimos, a expectativa de poder orgulhar-se um dia
é ainda maior, então depois você poderá se orgulhar, então deixa isso para o depois. Havia
mais coisas emergenciais além dele mesmo. Muito mais inconvenientemente emergenciais que
a baía e aquela barca distantíssima, solitária, errando toda feia no vazio, tal qual ele fazia, tal
qual seu orgulho fará um dia.
– Pega logo o corpo – disse uma outra voz.
É isso um tiro nas têmporas de qualquer um que tenta prolongar uma serenidade já doente.
O sujeito gordinho, com todo aquele ar formal, enclausurado e amargo, estranhamente
simpático, aquele rapaz calvo disse essas palavras e já vai se dirigindo ao porta-malas. Alex
desejou que a ponte o engolisse numa dentada. Quem sabe se ela se reparte num rombo
veloz, um daqueles que os barcos usam para passar por sob, mas olha lá, que não notaram o
rapaz e sem querer o deixam cair das alturas, acidentes sempre acontecem. Coisas da vida.
– Aquilo ali é um carro vindo? – soluçou o rapazote que dirigia.
– É um farolete passando lá pelo cruzamento – grunhe André.
– Não sei, é que tá constante. Se aproximar demais é porque tá vindo em linha reta.
– Cala a boca, Bublitz. É lá embaixo, no cruzamento – só então Stern fechava a porta dos
fundos, e a voz mais esperta parece ainda babar.
– A luz reflete no chão úmido – André.
– O que não impede que um carro venha lá da outra mão – diz alguém.
– É – estremeceu-se o motorista, Bublitz, e estalava os dedos. Talvez não saiba por que
concorda, talvez o que foi dito seja uma discordância total, mas se ainda assim carrega um
tom, e tão somente um tom de concessão, ele também acataria, talvez, isso é mesmo muito
confuso.
– Alguém fica olhando – a voz de André prende muito mais. – Se vier algum carro de
qualquer mão, faz o seguinte, liga o pisca alerta quando estiver chegando perto, porque aí não
vai dar tempo do sujeito querer parar, ninguém teria essa boa vontade súbita, ao mesmo tempo
a gente aqui não vai parecer muito estranho para todos os efeitos.
– Pode levantar o capô também – falou Bublitz, num timbre que é quase uma criança
simpática procurando agradar aos pais com um ataque de esperteza.
– Isso ilustra tudo.
– Vamos nos concentrar? – disse o calvo.
– Não tem ninguém vindo, esquece – Alex diz.
– Pronto, se é assim eu fico olhando – diz Martin, que é o grandalhão.
– Merda – sussurra novamente o calvo. Sabe aquele sussurro notavelmente audível,
porém ainda pessoal?, então. – As chaves do porta-malas.
– Abre por dentro do carro – sinaliza Stern e ergue o braço. O outro sacode-se para evitar
o frio. Não olha para onde se dirige.
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– Não dá. Tá quebrado – falou André.
– As chaves – o calvo.
– Bublitz – Stern se vira a apontar, eis uma acusação, mas é ele quem tateia os bolsos.
– Não tá comigo não – ajeita o gorro sobre a testa.
– É, as chaves são mesmo diferentes, ela as separou. É carro velho – André.
– Ela guardava no porta-luva – Martin vira-se bruscamente e vai averiguar.
– Essa droga tranca automaticamente mesmo ou só tá emperrada? – grunhiu o calvo.
Brande a cabeça para as estradas da ponte, agora que o antigo responsável pela vigia se
ocupa de coisas mais importantes.
– Tenta abrir aí pra ver, rapaz! – o tal do Bublitz chacoalha com as mãos.
– Aparentemente, se eu não consegui abrir, é porque tem alguma coisa funcionando
errado, não é?
Alex caminha a um lado, então voltava, então ruma ao outro. E pensa deus, que náusea,
deus, que noite. Essa foi daquelas. Mas que tantas vozes para molestar-me o sono, a possível
imaginação boa, o suspiro nostálgico de quem não tem mais com o que se preocupar, exceto o
passado, um leite derramado que não interessa. Poderia mesmo é estar numa sauna, na
hidromassagem, aqueles pensamentos que outrora se perderam começam a retornar
modestos, ele desmaiando de leveza e por fim morrendo. É. Ou poderia estar em casa com
Carla. Só de imaginar as coisas que perguntaria, sobre o que aconteceu e tudo mais, o por que
desse rosto cansado, ela perceberia, tem a vocação de reparar na desgraça que ele pratica,
que cara é essa?, ela pergunta, a única que infelizmente eu tenho, responderia. Aquela voz
estridente agindo como se lhe fosse dona, esposa ou qualquer patente parecida, ou sequer
detivesse algum direito, e aquelas mãos na cintura de asa-de-açucareiro, não tão esdrúxula,
mas pior que todos bispos da inquisição, o movimento do olhar que ela deve achar muito
imperativo, mal sabe o quanto o cansa, que ela acha ter algum poder, bem, resume-se que
tudo isso já lhe seria cáustico demais, está num ponto onde sente até a tranqüilidade ser
insuportável, quer implorar por clemência. Pedir um minuto de luto em sua homenagem.
Comemorará previamente o fim de algo vital em si. Envolver gente demais em suas idéias, ou
em sua vida, que fosse, ou contagiá-las com sua vida, às vezes é algo do que tem vontade de
se arrepender. E o desânimo o arrepende por uns instantes. Palmas para si mesmo, muito
brilhante. Pode ser pretensioso de sua parte. Algo como, ora, foi minha inteligência que
ocasionou em tudo isso, foram meus feitos, minhas idéias, minhas iniciativas, nada seria como
foi sem mim, sem este meu talento desagradável. Se eu iludi os outros a culpa ainda é minha,
mesmo que eles tenham escolhido as facilidades que a ilusão oferta, mesmo que nada tenha
sido forçado, não pus uma arma na cabeça de ninguém, mesmo que tenham desejado a tudo
isso, tudo. E não tinha ido tão longe, esse é apenas o começo. Suas mãos tocaram o porta-
malas. Caminhou, se pôs lá atrás, pressionou, puxou o mais forte que quis uma, duas, três,
mas só consegue fazer ranger o aço.
– Não abre mesmo. Trancado – certificou.
– Aqui nada – falou a única voz dentro do carro, a metade do corpo para fora e a que resta
para dentro.
Aí vem André.
– Claro que não tá aí dentro. Vamos por partes. Eu peguei a chave do carro, que estava no
bolso da jaqueta dela, e dei pra Bublitz. Falei pra ele dirigir, ele foi para o volante. Habib tentou
abrir o porta-malas, Alex e Martin carregavam ela, aí viram que não abria...
– Stern só foi achar a chave na carteira dela, eu o vi – o calvo sobrepôs.
– Achei que estava no porta-luva – Martin murmurou.
– Achou, hum?
– Foi, na carteira – André gesticula. – Aí abriu. O corpo foi lá pra dentro... – os olhos se
fecham.
– A chave era pequena – Stern.
– Caiu junto, não é? – Bublitz afaga os braços.
– Caiu junto.
– A gente – e aí veio Martin – não deveria estar resolvendo isso aqui.
– Não devia? – ri –, é, não é?, é claro que não, mas é por você que estamos aqui – sabe
um engasgue que vai crescendo, até explodir numa clareza surpreendente?, é o que há com
André, o inchaço crescente na cara, o desabafo de quem tem razão. Martin fechou o rosto.

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Então muitos olhares se cruzam, esteve aí o seu minuto de silêncio. Buscavam culpados,
em segredo todos escondem o ardil. Um ao outro geravam inimigos sem querer, que é
inocentemente que se destroem, é assim que agem os acuados, e é aí que Alex temeu
profundamente e entendeu. É questão de tempo até que o relógio o acuse, não pode se
defender, não espera que lhe apontem a sentença que é o implícito ululante, desses óbvios
que gritam tanto que chega a nos agredir, contra o qual não se pode, abre-se a boca e se
esquece do que falar. Pode acontecer de todos se unirem sem que nada seja dito, em um
instante se fez silêncio, no outro estarão indo em sua direção, não é preciso que combinem, o
matarão espancado, um ou outro gemido, ou puramente o pegariam pelas pernas e braços e
iam jogá-lo da ponte, ou, vai, quem sabe não o colocam num porta-malas e o soltam sabe deus
onde. Vai que um ainda não vem com uma arma?, são loucos, não pode esperar por nada que
não possa acontecer, é. Mas aí as tensões que o preocupavam acalentaram-lhe a alma, berço
que não foi projetado para ser, mas acaba lhe servindo, como a rua ao pedinte. Percebe que
nada que dissesse ou pensasse ou do que ocorresse o protegeria, mas entendeu não precisar
de proteção. Ainda há a mesma coragem que o inspirou, e até o fim, no círculo eterno que não
chega a lugar algum que é ele mesmo, vai inspirar.
– Cadê a coisa com a qual a mataram?
Fez-se silêncio.
– Alex? – André murmurou, é uma repressão indagada.
– Não tinha perguntado antes, todo mundo esqueceu de perguntar. Foi um porrete, um
cassetete, um o quê, sei lá? – continuou, e olha que espanto.
Descruza os braços, agora olha Martin, o cara gentil. Ele não parece saber onde enfiar o
rosto, como uma avestruz. Acaba lhe restando tomar com a verdade na cara, provar à força o
gosto do remédio amargo, que é placebo que não cura nada, vai ver teme que algum deus que
possa estar atento os ouça e então nunca se esqueça. Deve haver alguma lei divina ditada
mais ou menos assim, antes pecado soterrado que gritado aos quatro cantos. As reações
devem ter sido diversas, é coisa que nunca se saberá, se um dia realmente chegaram a existir,
foram essas todas quietas, mãos levadas à boca, tosse suprimida, gosto na língua que não se
move, paladar do qual não se quis saber.
– Uma soqueira – rosna Martin.
É irrelevante, ou só podre demais, lembrar da cena que viu, o rosto, tentar se lembrar dele
e de algo que o remeta a uma soqueira, é, lembrou-se da forma como viu André a tatear o
capô gelado do carro, e é provável que André, afinal, o inveje, é claro, isto porque Alex fizera
questão de tocar o cadáver que agora está ali, em seu cochilo eterno dentro do porta-malas, e
se o fez foi para averiguar a frieza do que era de fato o que ele tateava, um punhado de pele
que não esconde mais circulação ou graça alguma, ossos que perderam a consistência, para
não haver percepção mais próxima da realidade do que a dele, que tinha tripas, fôlego, que
tem a visão, para ver no que resultava sua vontade, o resultado daquilo que escolheu, de seu
grande projeto, um corpo vazio do que um dia foi alguém. Beijou a realidade até o fim, insistiu
em não desgrudar a boca e se deparou com o gosto mais azedo. Pode-se pensar que é isso
apatia, mas não é, também não é força, por não ser nem um e nem outro é que talvez ele seja
incompreensível para o universo das possibilidades de um assassinato, o assassino é tão
vasto e incompreendido quanto quem nunca matou e quanto qualquer um.
– Usa pra abrir – então diz.
– Hum? – uma das vozes aí arfou e perdeu-se com o vento.
Enquanto isso está beirando a idéias do limite da crueldade. Se houver realmente um, ele
destrinchará com uma pressa esfomeada que não mede mais conseqüências, porque não quer
ou não consegue.
– Quebrar o porta-malas? Espera. Mas depois a gente não abandona o carro? – falou
Habib, mais atrás. André espiava.
– Deixa quebrado que não importa. Se é pra associar alguma coisa com assassinato, eles
associam indícios mais certeiros, pra começar o sumiço dela no emprego, ou a família dela dar
por falta...
– Ela morava sozinha – alguém fala.
– Que seja, ainda tem o emprego, o vizinho que era amante dela, o cara do aluguel que vai
estranhar a sua ausência, eu não sei. Não é por um carro qualquer ser achado num lugar, sei
lá onde, estacionado com o porta-malas arrebentado. Se alguém tiver visto a gente a ponto de
nos tomar como suspeitos, já terão feito isso.
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– Tem as digitais, fios de cabelo. Resto de sangue. Fibras – Habib.
– Devem ter muitas outras, e não servem de nada sem uma referência direta que leve a
nós, é assim que funciona, se você não sabe.
A brisa soprou e encolheu-se, surtiu um efeito intimidador, deu um timbre funesto à noite, à
essa a união do importante com o descartável, do que ele não quer mais reparar mas é
interessante que o faça. Alex desejou fumar. Cigarro seria realmente bom. O aspecto tão
familiar de seu cinzeiro, quase herança sentimental, nada mais lhe teria serventia.
– O que me impede de subir no parapeito e gritar, e pular se eu quiser? – Bublitz aponta. É.
Alex o olhou. Esquecera os cigarros. É óbvio que os outros também o fizeram. Não esquecer
os cigarros, talvez nem pensem nisso.
– Quê?
– Isso não é mais uma brincadeira – rosnou Stern, trincava a mandíbula.
– Mais uma brincadeira. É assim que você diz, você chama o que aconteceu de
brincadeira? – André.
– Eu não disse isso. Os resultados do que aconteceram são uma coisa, o que aconteceu
por termos ido longe demais, isso sim. Isso foi tudo o que aconteceu. Não pelo resto. Não, na
verdade, foi por um de nós ter ido longe demais, e só isso.
– Não o culpe, não – Bublitz ergueu a voz, aí se moveu de um lado para o outro. – Que
antes a gente fez um pacto, o pacto de arcar com todos os riscos do que fizéssemos, é,
mesmo assim entramos na droga de coisa de não haver restrição pra nada e tudo mais, é.
– Ainda assim havia pressuposto um respeito, o mínimo de respeito...
– Que pressuposto, rapaz? – ri com cólera, mostrando a gengiva –, o que não havia era
coragem de sua parte de fazer alguma merda drástica, que seja, algo assim. O que Martin fez
– e aponta freneticamente – foi colocar em prática o que a gente sabia que ele podia, e ele teve
bolas pra fazê-lo, sei lá por que quis, por quê?, por quê?, se você quiser saber você pergunta,
mas foi assim. Eu minto?
– Vontade dele, não?, vamos falar então das nossas vontades?, e ela?, você perguntou,
ela quis morrer?
– Não! Não!, mas você entendeu o que eu disse. O sentido de tudo isso, dessa brincadeira,
não era a liberdade?, hum?, tentar de verdade vê-la, ser livre?, na hora da morte, lutando,
assim também você não está livre?
– Rapaz, certo. Apenas se ouça um pouco, é tudo o que eu peço. Você já começou a
considerar normal tudo que aconteceu?, espera, que já tá todo mundo perdendo o bom senso?
Bublitz recua vários passos, o mormaço é expulso da boca de Stern, é que bafeja, ou rugia,
treme as patas, e aponta e as bate. Os demais são essas sombras confusas, coadjuvantes
inseridos por um erro do acaso, moviam-se em espasmos, os momentaneamente mais tímidos
hão de preferir a inércia, mas a bomba não os espera e continuou a explodir.
– Quando a gente falou de bom senso?
– O bom senso tá implícito em quase tudo que se vá fazer. Principalmente agora. Estamos
nos livrando de um corpo – ri de agonia.
– Implícito, certo. Aí você o invoca quando é conveniente, e de repente o bom senso está a
seu favor.
– Pára com a bobagem – Sten berra –, nem que fosse hora pra conversa de boteco, com
essa ânsia egoísta que acaba prejudicando todo mundo, até você, você espera ser levado a
sério?, hein?, acha que vão te ouvir?, apenas se ouça – e aponta –, acha que estão te
ouvindo?
– Não culpe a ninguém, não, e nem fala de mim, que a culpa também é sua – o inferno é
mesmo os outros, ou suas verdades, é aquilo a soar como vidros estilhaçando, e os cacos
entrarão nos olhos, nos ouvidos, em tudo mais. Provavelmente este Stern desejou vomitar,
devia sentir o estômago febril, o rosto alterou-se como se lhe viesse uma punhalada profunda,
um veneno que tomou e até hoje não sabia, ou um soco nos testículos, agora é nítido o
desespero no seu rosto, semblante que diz algo como, arrisquei-me ao me envolver em coisas
perigosas, mas não estava pronto para isso, não pronto para isso da forma que você diz, da
forma que eu me entreguei, eu não sabia que podia ser assim. Talvez no fundo você esteja
certo, mas não que isto seja certo, não que seja justo você estar e eu não.
Alex assiste a fúria dos outros e a como ela cresce, absorve o desespero que se segue.
Um berro, muito próximo era a um gemido rápido ecoou, cruzou rápido, grave, chiado, pronto,
já acabou. Stern partiu para atingi-lo, queria ser simples, e ele foi. Corria e apenas após alguns
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socos vai se tranqüilizar e talvez suportar a acusação. Com o princípio de seus passos todos já
se agitaram.
– Ei, ei! – André grita a suspender os braços.
Alex se espreguiça de susto, debruça a testa, pensa que lá vem e é com uma surpresa
agradável que vai ver tudo acontecer. Os baderneiros de rua ensaiam seus passos tropeçados,
Martin rosna alguma coisa que não será ouvida. Num caminhar trôpego e mal-calculado Bublitz
cambaleia para trás, ao mesmo tempo que olha se o parapeito não está próximo demais das
suas costas, é que podia lhe ser arriscado, e o outro vem aí avançando. Foi inevitavelmente
atingido no rosto quando Stern chega perto demais, não pôde evitar o soco, rápido mas incerto,
estalado e pouco grave, mas bem na mandíbula. Bublitz recuou arqueando todo o corpo e
desequilibrou-se. Quem acaba por fazer mesmo diferença é André, que chegou logo depois
para segurar o que bateu, está com todos os jeitos de querer evitar coisas piores, que aconteça
mais uma morte, mesmo, e primeiro o apanha num braço, o outro teimando em se esquivar, aí
dançavam todos loucos, indo para frente, para trás, ora seguro, ora livre e furioso desejoso de
mais briga, ora o acertado recuando mais e mais e gritando, ai, que fui atingido, e tromba
contra o asfalto, gemendo porque parece estar mesmo prestes a morrer, e o outro ali
ameaçando, terrível, até que foi questão de tempo para que viesse Martin, gigantesco,
colossal, realmente imobilizar o furioso, ao que só foi preciso cerca de dois passos e uma
chave de braço que todo o corpo rendeu-se.
Bublitz caiu dramaticamente demais para ser verdade, faz estardalhaço, infla as
bochechas, cospe para os céus e esvoaça os braços, deu-se de costas com a mureta divisória
de ponte, sabe-se lá se as pessoas não atuam ao menos um pouco o tempo inteiro,
acostumaram-se, ou está isso entranhado na gente de tal maneira que sempre nos perturbou
os modos e nossa idéia de sermos verdadeiros, então, próximo ao parapeito ele ainda
tropeçará, escorregava nos seus braços e voltava ao chão, talvez seja efeito da bebida,
provavelmente, e não somente de encenação, o que acaba por não mais importar. Alex sorri.
Stern esteve reagindo, não tinha por que se satisfazer com tão pouco, mas em breve vai se dar
conta que fazê-lo contra Martin é idiotice. – Enlouqueceu? – grita o atingido, leva a mão sobre
o queixo, sua coragem intimidada. Mesmo com o algoz subjugado, a valentia do cara e
principalmente a ira que mostra já são suficientes para derrubá-lo.
– Não é pra tratar como brincadeira, garoto?, tô me divertindo pra cacete. Martin, me solta
– demora alguns segundos até que ouvisse o pedido, só quando Stern realmente esfriou como
quem avisa, veja, farei por merecer, ao menos farei alguma força para me conter. – A gente
não tá nos becos do teatro, muito menos naquele hotel, desgraça. Mas que inferno de idéia a
sua. Que escroto, você. E aí, e eu?, também não posso fazer isso?
– Poder, pode, pra que eu não sei. E pra que quer saber dos outros lugares?, já passou, já
passou, e espera um pouco, você tá definindo novos limites?, olha que eu os quebro, hein, olha
que eu os quebro...
– Fica quieto você também, que não se ajuda – reclama Martin, que ainda faz do corpo a
muralha preventiva.
– Tem sangue na minha boca.
– Definindo limites?, pra quê? – fica indo de um lado ao outro. – É um trabalho imbecil, não
sou eu que os defino. Eu não defino nada. Eu não preciso dizer nada quanto a isso, não vou
ser estúpido e continuar com essa conversa inútil, que começou por uma causa inútil, de você
fazendo as coisas nessa sua infantilidade, seu imbecil, como dizendo que eu quero e pronto –
continua indo de um lado ao outro. – E logo agora... logo agora... e que fique claro que não
passa disso, imbecilidade. Por quê? – não pára de andar, céus –, porque eu não quero me
foder. Certo? Porque não é justo que todos aqui se fodam, ainda mais quando realmente
fizemos um pacto, e como se não fosse o bastante o que já temos de nos ferrar por isso, você
quer ferrar ainda mais, pegar o que tiver de ruim e prolongar, prolongar até que ninguém mais
agüente, e não é hora pra ninguém perder a cabeça. É isso que você quer que aconteça.
– Não vamos fazer qualquer loucura aqui. Hoje fomos longe demais. Depois de tudo,
chega... – era preocupação o que se via no olhar de André, palavra mais eficaz que o
descreveria, profundíssimamente esse receio.
Aí o garoto xinga enquanto esfrega o próprio rosto, palavrões contra ele mesmo ou rezas
para espantar seus pesadelos, encostos, mas só o astral podre lhe atendeu, então buscou
sonhos, mas só a verdade lhe atendeu, deve ser mesmo demais para agüentar com lucidez,
com sobriedade, ele esfrega o rosto porque insiste em acordar quando já se é essa toda a
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sanidade que pode dispor. Então deve sentir que ela está faltando, sintoma de um forte
desarranjo, sintoma da loucura que não mais tarda, – Fala alguma coisa pra ele – disse Habib,
e olha para quem?
– Falar o quê?, ele não tá certo? – Alex cruzou os braços.
Que longa e desastrosa noite. É. Habib coçou a testa, entreabre os lábios, reage de todas
as maneiras simples que uma pessoa reage quando não consegue concordar com coisa mais
simples do que a dita, não consegue concordar e mal reagir. É que às vezes o argumento, já
profundamente desgastado, causa um mal-estar que é realmente de causar azias, de pesar
nos ombros, nesses caras igualmente já corroídos como que por uma erosão milenar, que não
mais suportam tanta burocracia ideológica, tanto vai-e-vem da gente, e por finalmente hão de
ceder, deitar no asfalto e dizer, é mais simples do que tudo isso, simplesmente estou cansado,
desisto.
Mas olha. Acontece que Bublitz subiu mesmo no parapeito. Não avisou, nem deu aos
outros o luxo de contemplarem algum sinal preliminar, assim os salva de qualquer espetáculo
mais cansativo. Assim como ocorre com as coisas simples, gênero onde infelizmente se
cataloga essa estripulia, nenhuma escalada de suspense sugeriu que fosse fazer o que fez.
Distraíram-se um pouco, ao menos a maioria, e quando se foi ver, o rapazote já está virado,
apoiou-se com as patas e subia no parapeito a um pulo, e pronto, talvez caia pelo efeito do
álcool, pelo vento, que não é fraco, transtornando seu casaco, aí se espatifaria na baía, é pelo
que devem estar torcendo, ou talvez tudo que se pode concluir é que ele não mais se importa,
e é a desimportância de todas as coisas que quer exibir.
Estufou o peito com fúria extravagante. E em seguida urrou. Algo como um cântico de
guerra, ou uma frase que começou com idéia de ser frase mas perdeu o fio da meada, a se
alongar num sânscrito medonho sem sentido, se alongando, inchando, se alongando, até,
depois de muitas vogais desperdiçadas e de tempo suficiente para provocar uma onda de
pavor, fazer algum sentido, é que gritava para a baía, para algum ser imaginário que nela
habita, que de lá pudesse ouvi-lo, ou ao mundo, às luzes no horizonte, o conjunto miúdo dos
prédios e às pessoas escondidas nas suas tocas. É. Seu grito não tem um porquê mas tem um
destino, como a vida, o grito de Bublitz é a minha vida, diz-se Alex, porque naquele instante ele
não deve satisfação alguma, e resolveu pagar o custo de quem nunca mais quer ter o que
dever.
Fez um desespero iminente os arrastar e afogar como numa onda, e Alex põe a mão na
boca, coisa assim, quando na verdade ria, ao que também morde o riso para que não saia,
engole-o, uma péssima relação com o próprio estômago, ao que não sabe se devia desatar e
urrar ele também, se vir a calhar ele sai correndo e salta, não sabe se agüenta só testemunhar.
Ou ele se entrega e dá à vida um sentido, ou se inibe e evita o pior. Stern é outro que não deve
estar acreditando, o óbvio deve ir aos poucos digerindo o seu ceticismo, só lhe restará o estado
embasbacado de choque. Pasmou, boquiaberto, no senso quotidiano do ridículo, da coisa
pequena, agonia de giz arranhando o quadro negro, pequena dor de dente, som de gotejar na
pia, muito repetido. Alex está imaginando se mais alguém desejaria partir com ele. Uma bela
cena de todos juntos ao abismo.
– Bublitz, desce – ordenou o cara calvo, Habib.
– Deus do céu – Stern fez que ia fechar os olhos, mas só recua.
– Ele vai cair. Alguém tira ele dali – André geme.
– Bublitz, você realmente foi longe demais. Pense nos outros. Stern está certo, ao menos
quanto a isso. Estamos fodidos, você vai chamar atenção. Assim você vai piorar tudo – Habib.
Os olhos de Bublitz reluzem rápidos e com brilho seco de realismo, escuros e tristes no
fundo da sua embriaguez. Talvez ele esteja pensando, por que se submeter a esse
paternalismo e choramingar?, não parece digno, antes lançar-se contra tudo e todos, talvez
possa provar que está certo, ao fim valeria o risco. Alex leu isso em seus lábios, e se
impressiona, não só por isso, por tudo, desde o brilho triste até o grito, e entre as últimas
coisas que vêm impressionando a ele, que há umas horas antes ele não teria condições de
impressionar-se com nada, essa, o conjunto de coisas da ponte, é das mais decisivas. –
Deixem ele! – gritou, então. Não era uma ordem de verdade, mas finalmente o riso.
– Isso, Alex! – acena o garoto, e faz uma dancinha, coreografia de doente.
– Quer pular?
– O quê?
– Alex – André urra raivoso, aí tremia com os braços.
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– Estamos num espaço fechado, não estamos?, é como deve ser, é uma ponte, só
estamos nós, não tem mais ninguém. E há muito tempo isso não nos importa mais. Podemos
ser livres aqui também, podemos ser livres onde quer que seja, podemos retornar à escuridão
aqui.
– Pular mesmo, Alex? – é Bublitz agora que questiona, enquanto ri, desacreditando.
Repetiu como quem não escutou, ou insiste com a boa vontade de entender o ridículo.
– Se você quiser, você pula.
Foi além.
– O suicídio é o crime perfeito, Bublitz, que é crime ao mesmo tempo que é sentença e
fuga. E de que importa, não é?, talvez você nem morra com o impacto da queda e com o frio
bizarro que deve fazer ali na água. Vai ver só dói. Mas não importa. Então, se é sua vontade,
caso queira isto, é sua e pronto, ninguém pode tomá-la – dava de ombros. Ele não parava. Ele
nunca parou, não podia, ele os levou embora e até aí. E Bublitz pensou. E isso se fez evidente
porque seu sorriso minguou, Alex não brinca. Era sério, falava sério, a ocasião o obriga a isso,
a ser esfinge de todos enigmas e deixar os outros ao canibalismo.
– Posso pular.
– Pode.
– Desce daí, garoto. Você não tá provando nada pra ninguém, nem pra você, então pára
com isso – falou Habib.
Talvez Bublitz tenha ouvido as palavras de Habib, cheias de lucidez que não precisa ser
analisada por filosofia alguma, não carece de ser esmiuçada ou discutida, é coisa que se
aplique à compreensão mais simples e aos assuntos do suficiente. É por isso que talvez
comece a descer. É que suas pernas vão se esticando para baixo, quem sabe ele já não sorri,
aliviado porque fez, mas passou, está liberado, mas não tanto quanto desejaria, porque veio o
fantasma de Alex a assombrá-lo uma vez mais, e ele muge em tom de assombração, – Vai
descer daí por que ele mandou? – foi o suficiente para que hesitasse.
– Alex está manipulando você, não o ouça, por hoje é só. Acabou. Esquece essa droga,
certo?, desculpe pelo soco, sim?, vamos terminar com isso, sim? – veio Stern, então.
– Eu sei que ele está me manipulando, mas isso não lhe tira a razão...
– Estou manipulando, sim – e ria. – Vai pular?
– Não!, mas porque não quero, é óbvio.
– Mas eu quero ir aí empurrá-lo – todos se movem como num ai, mais desgraça, e aqui se
empurra também a vida, aqui se vai mais um grande pedaço vital, com tudo saindo do seu
controle, um atropelando o outro, todos se batendo num grande desastre de trânsito.
Pára, pára, para tudo há um limite, imploravam, ninguém agüenta mais, não se pode
alongar nada tanto assim, já é um grande exagero, ninguém agüenta mais, ninguém pode lidar
mais com idéias como essas, rituais para satã, em todos há presença da culpa, tudo será
principalmente pior quando vierem a tocar nessa palavra, mas foram mesmo os olhos de
Bublitz que se esbugalharam, foram eles que reagiram numa colisão intensa, foi claro e
engraçado que num instante ele congelou. Ali ele temeu. Deve estar pensando rápido. Há
seriedade na sua loucura, Alex, o mocinho não tardará a percebê-la, e ele não vai arriscar-se.
Precipita-se para descer do parapeito, que feito a subida não exige anúncio algum, termina de
saltar ao asfalto.
– Eu pularia.
– Desceu porque quis, está certo – e riu.
Agora é André que parece não saber mais se não ria. Stern continha o pulsar da jugular,
põe a mão no pescoço feito fosse explosivo, aquele Martin olha, o cenário deve conspirar para
que ele melhor se aceite, quão mais monstruosos os monstros em torno de nós menos
monstruoso o monstro de nós, ainda que Alex tema este caminho, esta compreensão, porque é
desse cara a culpa e ela deve permanecer selada, mas entende que assim não irá ficar por
muito, foi ele que a matou, é bom que vá se acostumando, nem que aos poucos, antes que
comece a duvidar. Os ânimos esfriam e não há sons se não pelos do acaso. A noite na ponte
era amarela, ora branca, segue escura lá depois dos postes. Então volvamos ao carro, quanto
ao carro, esse ainda atua como convergência de todos os destinos, centro oficial da gravidade,
mas parece tão assimétrico, por exemplo, é somente um ponto parado, na verdade mal
estacionado, feiamente estacionado, e ele acha ter desenvolvido uma mania por arrumação,
que tem a vontade de pegá-lo e mudá-lo de lugar, ainda que não se pegue um carro, se o
dirija, sente uma preguiça que o impede de qualquer uma das coisas.
13
Não é preciso ser muito perspicaz para notar André pensando em coisas ruins, as coisas
ruins gostam de fazer-se mais evidentes, seja dentro de mim, ele se diz, ou fora ou onde
esteja, o que o leva a pensar que o problema não seja a ruindade das coisas, mas a sua
predominante tendência a exibição. Pensemos no espécime André, é um belo exemplo da
preocupação contida, reprimia-se, lá estava, talvez pela primeira vez notando a baía e suas
ondinhas quase invisíveis, com uma mão no queixo e a boca semi-aberta com jeito de horror
acordando. E a Alex resta desenhar seus padrões, ao exemplo do de que ao se olhar assim ao
vazio é porque o horror já assumiu suas proporções mais bizarras, ele não provém mais de um
objeto ou situação, sensação ou ocorrido arrepiante, mas permeia a qualquer coisa que nos
cerque, claustrofóbico, o horror já lhe cercou, íntimo. Isso não nos deixa quase nenhuma saída,
aí ele lamentou-se por compaixão.
Ergue o queixo depois de fincá-lo no peito, assiste uma nuvem de fumaça alongar-se por
uns muitos horizontes e passar grandiosa por cima da sua cabeça, um corvo gigante, é o que
parece. Pode pensar que é um retumbante rastro de poluição ou um necrófago imaginário que
o está caçando há anos, finalmente o encontrou, veio sabe-se lá de onde para comer a sua
alma ou levá-lo para essa terra da qual não se retorna. Sacudiu-se mais um pouco e encolheu-
se de medo nas roupas. Habib recostou-se sobre a beirada do porta-malas e se deitou.
– Para que viemos?, ao que parece só estamos alongando a tudo isso, tudo o que antes
dissemos, vocês fazem tudo ao contrário, enlouquecem nas únicas horas que não deviam. Na
verdade enlouqueceram em todas as horas. Pela primeira vez vamos parar e pensar um pouco
no que aconteceu. Agora estamos presos, temos de pensar.
– Certo, mesmo. O que estamos esperando?, vamos acabar logo com isso?, vamos pegar
logo o corpo?, o tempo está passando – Stern prosseguiu.
O homem nunca estará em paz mesmo que esteja selado sozinho em sua ânfora craniana,
essa é a sua conclusão, que o homem nasceu, existe e não está em paz.
Viu aqueles desgraçados se movendo, um para a esquerda, outro para a direita, assim,
entendendo-se do jeito que for, os olhos de André são os mais distantes, apesar de sua cabeça
ter esse foco específico do porta-malas. Habib capengou para trás, ajeita o colarinho, procura
espirrar, sabe-se lá o que realmente procura, não quer imaginar, nada pode escondê-lo da
maldita tensão, estamos todos na tensão, não é ela que está em nós, é mesmo uma abstração
natural que escapou da gente, e ela e a maldita racionalidade podem coexistir, é que se unem
para um meio-termo grotesco, e os sapatos da gente ressoaram no concreto, vão dando com
as solas no asfalto.
Não demoraria para que acabasse, estão se preparando.
Percebe que apesar de Martin se encaminhar para os fundos do carro, lhe mirava com os
olhos, pede uma orientação, não, se angustia por uma instrução que não pode receber, e logo
de quem, a pedir por uma figura paterna, um mestre, sabe-se lá por quê. Alex o diria com os
olhos, e o faria paulatinamente se pudesse, preste atenção, vou explicar, mas no momento não
tinha ânimo, nem discernimento, nem razões para tal, veja, não guio a mim mesmo, mal sei me
orientar, cá estou cheio de dúvidas, desejando loucamente coisas somente minhas e
desprezando todas as suas, aproveitando o meu assunto, solitariamente, já é tão difícil pensar
por mim mesmo e você ainda me pede satisfações, orientações, vai te danar, por piedade,
dane-se por caridade a mim. O pior de tudo é que sabe do sujeito poder compreender a tudo
isso sem maiores devaneios ou sem ter de ouvir um berro. Na verdade deve ter sabido tudo
desde sempre e isso o torna ainda mais fraco, o seu receio está em todos nós. Viu quando a
brisa desgrenhou os cabelos e tratou de expulsá-los do rosto. Viu Martin colocar as mãos
dentro das vestes, dentro das imundícies do casaco e seus hormônios malcheirosos do suor.
– E se alguém ouve? – Stern soluçou. Estendeu as mãos por cima do teto do carro.
– É tarde – o aval veio de André –, não tem como ser diferente. Olhar se algum movimento
se aproxima é o melhor que fazemos. Martin?, hum?
Habib repousa as mãos asperamente no canto do porta-malas. Soluçava pelo movimento
da garganta. Viu quando ele apertou as mãos no metal, como se consentisse, vai lá, faz o que
tem de ser feito, já que todos fomos cúmplices até aqui, havemos de continuar sendo, então
acaba logo com isso, que por bem ou por mal estamos todos um do lado do outro, até
quando?, vai saber. Ouve um som seco a ecoar, um vai vindo de uma voz que logo se perde,
provavelmente de Bublitz, mas pode ser que não, que ele pelo porte havia deflagrado todas
suas energias e aderido a uma sonolência vagabunda.

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Martin trouxe do interior do casaco a coisa fosca que reveste os seus dedos, é coisa que
peca em existir mas não dá a mínima ao que pensam, é a indiferença do mundo berrando
contra a parcialidade de ser humano. A soqueira não parece um utensílio mais complexo que
um abridor de latas, ou um macaco que se use para trocar o pneu. Não só a frieza de um
cadáver fez ele pensar como a vida é frágil, é que não há nada mais corriqueiro e frágil no
mundo que a vida. Olhasse nos olhos lânguidos de um boi prestes a receber a derradeira
tacada na cabeça, já é como se ele soubesse, uns dizem que sabe mesmo, do destino que o
aguarda, previamente está lá, se lamentando, apelando para a compaixão, solidariedade, se é
que animais pedem por coisa assim, e se passa o mesmo com um cãozinho que está para
morrer, sofrendo a intuição de que o tempo se extingue e de que está condenado a deteriorar,
apodrecer nessa vida de poucas vivências, sem nada, senão memória curta, curta vida de
cãozinho. Há de ser sacrificado pelo dono querido, ao qual por razões não só da alimentação
foi incondicionalmente leal, ou talvez ele pare de respirar enquanto dorme, mais simples. Ou
visse olhos de gente, de alguém ao lhe porem uma arma na cabeça e dizer que você vai
morrer. Talvez por isso seja a sobrevivência o instinto mais inquestionável, a coisa mais crua e
mais nojenta, o impulso mais rasteiro, capaz de realizar tantas coisas além de qualquer outro,
de revelar o caráter das pessoas, de tornar supérfluos outros conceitos, até mesmo como o
amor, ou de fazer que o amor finalmente se veja quando souber que se está a perdê-lo, e se
não torna tudo supérfluo diante dele, ao menos desenvolve exceções, isto é, as exceções onde
se abandonariam as coisas mais lindas simplesmente pela vida, que não é bonita mas é o que
verdadeiramente se quer, e há também as exceções mais raras, onde se abandona a vida
pelas coisas que se pensam serem lindas. Tudo seria capaz de tomá-la, tomar a vida, um
açoite mais forte do vento talvez baste, um tombo mais intenso ou um escorregão, que dizem
que meninas pequenas podem até perder a virgindade por causa de um tombo, por um tombo
se foi a pureza, aparentemente até uma gargalhada é capaz de asfixiá-lo, tudo se converteria
em potencial assassino, desde a ponta cruel de um lápis enfiada num pescoço, passando pela
habitual faca que se usa para cortar pão ou legumes, até uma liga de metal que se prende nos
dedos a fim de defender-se de bandidos. O sangue empapado numa coisa equivale ao ditado
que não há volta para a pedra atirada.
Martin franze a testa, está mordendo a própria boca, está angustiado, está se esforçando,
ergueu uma só vez a mão. Bateu sem rodeios sobre a fechadura do porta-malas. Um estrondo
forte explodiu, e notavelmente vê-se o metal dos arredores deformar-se. Batida das fortes. Alex
sacode a cabeça. Imagina a mesma pancada num alvo diferente. Talvez um rosto. A cabeça às
vezes associa as coisas de um jeito bem óbvio, às vezes não nos quer ser um mistério, mas
teima em ser pessimista, do jeito que já se conhece, ou mais educadamente se dizendo, nos
conformes daquela velha desculpa mal dada, não sou pessimista, ela se desculpa, sou realista.
Poderia jurar que todos os outros refletem o mesmo, com uma diferença ou outra, de
posicionamento, enojamento ou julgamento à parte, pensariam a mesma linha. Stern retirou as
mãos do carro, Habib aperta com mais força o pára-choque. Bufou de força, o Martin, e por
mais uma vez ergue o punho, e aí bate de novo, dessa vez num intervalo mais curto para bater
pela terceira vez, e viam as rodas pulando, chacoalhando. Mas que merda, sussurram mais um
comentário que não devia sair.
Alguém tem um cigarro?, deseja perguntar, quase sorri com a graça infame, secreta e já
ultrapassada, seu passatempo pessoal, mas se contém em continuar a apertar os bolsos. A
fumaça ardente saindo do espaço da boca só lhe poderia relaxar se fosse a do crematório.
Volta-se ao evento, ainda é tão sonoro, tão indiscreto, tão mal planejado que parece ser essa
gente se pondo a tremer a ponte toda, porque querem se denunciar, que aponte-se um
holofote, ao menos ele sorriria, e um ranger de metal diferenciado e um som de ferrugem
estalou anunciando a quebra de sabe-se lá o quê, anúncio terminado quando Martin deu
passadas para trás, com uma mão ele já se punha a acariciar a que batia, e averiguava com os
olhos se a estrutura do porta-malas realmente tremia. Stern curvou-se para o lado, olhava.
André fez o mesmo, já se aproximava.
– Abriu? – Bublitz falou, afinal.
As mãos de Habib levantam-se, a elas acompanha a porta rachada do porta-malas. E não
só isso, como uma expressão típica de quem foi surpreendido por algum odor desagradável, ou
a visão de um bolor, o que quer que fosse, suficiente para que trincasse os dentes e revirasse
o rosto. O corpo talvez nem feda de verdade, mas é impressionante. André acena
positivamente umas poucas vezes e parece que é para se consolar. Apontou, e de repente ele
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estava frio, bastante mesmo, nada como antes, para Alex, e o enrugado de seus lábios
ressecados já se punham a tremer.
– Ajudem aqui, não é?, vamos todos carregar, pra ser mais rápido. Não, não, Bublitz, fica
olhando...
Alex estende-se nessa caminhada estabanada, que ao menos se distrairia. A sombra das
entranhas do porta-malas, discreta, sem qualquer enfeite, de feiosa simplicidade, foi
anunciando o leito desse algo disforme à medida que sua visão vem desbravando o que antes
não era para se ver. Encolhido como uma mala, retorcido como um saco de batatas despojado
da feira, lá está o cadáver de garota. Imagina se tivesse desaparecido, se encontrasse o
compartimento por final vazio e a máxima polêmica de agora residisse sobre, que aconteceu,
como ela sumiu, como fomos encontrar isso vazio?, em que quebra-molas ficou?, algum de
nós foi mais esperto do que deu a entender?, o quê?, ou ela poderia levantar-se a gritar
surpresa, o truque de hoje foi dos bons. E poderiam descansar. Vê que Habib a olha, e que é
essa a fonte da frieza de André, é natural, e Martin a evitava.
Talvez seja um pouco cretino achar um cadáver bonito, mas a palidez até que nela cai
bem, ele pensa, a condenar-se, mas não pode evitar, que acaba devendo ser bom ver beleza
em qualquer coisa, e ele quer acreditar que seja esse o seu caso. É quase a impassibilidade
eterna de uma estátua, apenas não tão rija, certamente com alguns defeitos que o tempo
agravará quando ela for roída rente aos ossos e jazer retorcida, mas isso já está, a saia
hasteada até a metade das cochas, uma perna sobre a outra já que foi dobrada de qualquer
modo, algumas veias bem gritantes, embrulhada sem carinhos ou cuidados, tudo isso é parte
que escapa do saco de lixo. Resta essa parte coberta do pescoço e rosto, que é pelo respeito
de não encará-la nos olhos, ela não gostaria de lembrar-se como está e ser tomada como
coitada, ele respeita os mortos, a vida apodrece e a gente para evitar ver seus podres usa de
uma sorte de máscaras que encontra pelo caminho, ao se tratar disso a gente é sábia em
aproveitar cada oportunidade, o homem adora adiar o podre sem realmente eliminá-lo, é uma
dessas sabedorias que os séculos generosamente ensinaram.
– Martin?, vai ficar parado? – Habib –, a merda aqui dentro é sua, faça alguma coisa.
Ajudá-lo é uma coisa, carregarmos sua morta é outra.
– Caia na real. Só o fato de virmos até aqui significa que a morta também é nossa – Stern
já se aproximava.
– Porra, Stern – mas aí o próprio Martin intercedeu. – Vem me acusando, às vezes se
lamentando, mas até onde eu lembre não pedi que você viesse até aqui, correto?, não me
importa teu nervosismo agora, ok?, se continuar ignorando as coisas que eu falei, ao menos
assuma que é um idiota, ou um covarde, pois se me lembro bem eu disse que não queria que
se envolvam nisso, eu disse, é melhor que as coisas tomem um caminho mais reto, simples,
quem estava superando o medo era eu, não era?, quem ia se foder sozinho?
– Todos nós, cada um sozinho à sua maneira, esqueceu do contexto? – retruca e aponta
todo canto.
– Contexto?, que se dane, isso muda. Antes você não era cúmplice de assassinato, agora
é. Antes eu ia pagar, era meu problema, meu corpo, agora vocês escolheram dividir isso
comigo, agora é nosso, ou nem todos escolheram, mas ainda assim todos vieram, eu me
pergunto por quê. E quanto a você?, veio aqui por medo, por orgulho, por quê?, podia ir
embora.
– Um pacto é só uma palavra – a voz de Habib era frígida e horrível. Ás vezes o homem
não acredita nas suas próprias palavras, mas lhes retira o valor de sua opinião egoísta em prol
da percepção geral, deve de ser esse um caso, e espera alguns segundos para continuar. –
Pode muito bem escolher denunciá-lo, inventar uma história, dizer que foi coagido. Pode
também nos ajudar a carregar o corpo.
– Por causa de uma palavra eu vim até aqui, não me importa o que ela seja ou deixe de
ser, se pode ser quebrada ou não. É injusto, é uma droga que venha falar assim comigo, cheio
de sarcasmos, mas então?, não posso ficar com medo? Presumo que todo mundo aqui esteja
ótimo, estão todos seguros e tudo mais, não? – Stern.
Silenciaram.
– O que me pedem é que eu não expresse mais nada pra não afetar vocês, perdão.
– Acho que vem vindo carro...
Está perto das duas e trinta da manhã, constata após emendar a vista nos números no
relógio. Será preciso que André tome essa trôpega iniciativa, só não andará mais curvado e a
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sentir mais pesos que você, porque é intolerável que alguém sinta tanto quanto você, então,
ponha-se aí uma grande ênfase ao trôpego, porque ele vem a tropeçar, mas acontece que ele
se desloca e que consiga tanto é uma braveza hercúlea, transpira o medo do contato com a
morte, que ela pode ser contagiante, mas ainda assim tateia, que coragem, os cantos do
cadáver plastificado, tudo então sem mais palavras, no mais a expressão vagabunda de não
estou sentindo nojo, mas minha cara me desmente. Só quando a mão encontrou seu alvo, pelo
que vê daí parece ser um braço, que parece finalmente dar-se conta de que nisso não há
grande incômodo ou absurdo, a simplicidade que o seduz amansa-o nos traços, que a morte
não é a sombra monstruosa que imaginou, mas só algo que transformava, por exemplo, a
pessoas que vemos todos os dias em nada mais que objeto de se manusear, usar ou deslocar,
no fim tudo acaba-se na lixeira, desde os restos do jantar até essa garota.
Como móveis, cortinas, ou colchões, é o passado que costuma definir o peso e a
importância que têm as coisas, talvez por isso dê-se toda uma atenção distinta a cadáveres de
gente, em específico a esse aqui, que deve ter uma história e tanto, um passado lamentável
transfigurado em leveza, esquecimento, desimportância e liberdade. Ter de haver essa
transfiguração parece muito cruel.
Suspirou, que à parte dos pesadelos de cada um, seus labirintos e suas solidões, ninguém
lhe seria tão diferente, todos próximos nas suas exclusividades. Essa era a única coisa
maravilhosa que havia de certo essa noite, pensou, cada homem é uma estrela, pena que
mingua fácil. Mas aí o corajoso Alex seguiu para fazer o trabalho sujo. Já segurou com
maldade racional o corpo que mais uma vez vai tomar, já o estudou e já se decepcionou, e o
que importa é que de novo o pegou, tateando pelas pernas, enquanto cobria as partes
despidas pelo plástico, – Ajudem todos aqui, sim, majestades?, podemos ligar pra uma
funerária, se preferem.
Um tenta segurar por aqui e o outro quase deixa que escorregue, só buscam baricentros
para melhor apalpá-la, carícia das bizarras. Martin mostrou-se mais forte do que já parecia
quando envolve as costas frias da morta, tomou-as firmemente, ergueu um troféu que não
desejou mas ganhou, daí sobe num pódio que não quis ao tirá-la do porta-malas, parabéns,
agora vamos despojá-la.
Afinal carregavam o corpo. Como lua-de-mel será essa a consumação do ato, um conjunto
serial de gozo, esse será o penúltimo ou antepenúltimo de uma totalidade que lhe reduzirá
todas as forças, não pretende depois deitar no asfalto e perguntar se foi bom, um seio de
garota morta escapa pelo canto da roupa alargada, veias roxas ressaltavam suas pernas,
subiam até o umbigo à mostra, é uma mulher gostosa. E a gente a carregava quase que num
abraço uns aos outros, assim seguindo cambaleando pelo concreto. Alex arfou quando pensa
que as mãos escorregariam, e vem a idéia de render-se e deixar que ela caia, desisto, diria,
abanaria as mãos aos céus, se tornaria mais imóvel que o cadáver e entenderia se o
quisessem enterrar, mas segura o braço esquerdo!, já tô segurando o suficiente, vira as pernas
pro lado do parapeito, calma, não apressa que é pior, mais dois passos pra frente, só dois, é,
você acaba de dar três e quase que ela cai das minhas mãos, maravilha, faz alguma coisa de
útil, desdobra esse saco, cobre ela melhor, anda. E o parapeito se aproxima. Estava certo
quem disse que era esse um espaço fechado, se olhar mais para longe, que é coisa com que
agora se permite distrair, verá a tudo embaçar-se, nada mais seria senão a cortina de teatro
onde ensaiam e praticam seus crimes, estão nesse palco solitário. A essa altura, distantíssima,
o único sinal de vida alienígena será outra barca a errar sozinha, um pequeno vaga-lume em
um canto da baía.
André alardeou passos para frente, a segura pelos braços, tateia com cautela e vai recobri-
la das partes impróprias como se restasse algo a respeitar, ou com nojo típico de criança que
se enoja da comida que tem no prato, e grunhiu. Alex chegou a pensar que fosse ânsia de
vômito, mas não será para tanto. A puseram sobre o parapeito, inicialmente debruçada pelas
pernas, assim adquirem mais equilíbrio e não ficam tropeçando, e eis um instante cordial de
um para o outro, é, que é como se olhassem e mais do que nunca fossem cúmplices, batizados
na mesma água e fartos uns dos outros, banhados na mesma maldição. Os seis se alinharão
frente ao parapeito e vão se debruçar como se a gravidade de um fim os chamasse, esse será
o papel da baía, o papel de ponto final, túnel escuro da inexistência, vau onde se despeja o que
não mais se quer lembrar e não se pode esquecer, a privada, a escuridão faz com que a água
apenas insinue sua existência incerta de querer ser, é como sou, pensa, incerto de querer mas

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previamente condenado. As mãos se retiram da morta como se algo ainda as prendesse, vem
o parto violento que é a liberdade, e liberdade é despojar-se de tudo.
E Martin empurrou o corpo, que responde tão docilmente que deve ser cair o que queria.
Mas a entidade do plástico uivava enquanto vai sacolejando, sei muito bem o que você fez,
meu rapaz, seu grande desgraçado. Enterra-me!, mas ao menos que toda a concepção do
mundo mude, que o ruim deixe de ser o mau e que as suas falsas justificativas tenham
respaldo absoluto no espírito da vida, no sangue que nos é tecido da veste com letras de
chamas no éter da verdade, na alma da gente, na inconsciência de todos nós, na nossa
tolerância, eu hei de acompanhá-lo na memória com a forma da culpa ou o que te seja pior,
talvez a consciência não precise do trabalho culpá-lo, quando isso já será o fetiche de todo
mundo. Ao menos que a culpa deixe de sê-la, e talvez nem assim, veja, nem assim, eu ainda
aqui estarei na minha decomposição. E os seis se debruçaram com receio de olhar.
A morta aos poucos vai engolida pelo escuro. Às vezes um pedaço da perna foge do saco
plástico, adornado ainda mais pelo escuro da baía, e por fim deixa a visão de todos nós. Alex
arrepiou-se de cima a baixo, e remetendo-se à história da lua-de-mel deve ser esse o orgasmo
final. Mentira, que o corpo ainda aparece uma vez mais, tão mais próximo das águas, e quando
assim forçou os olhos pôde vê-lo chocar-se contra o mar, não ouve som algum e as águas
pouco se abriram. Era o fim da sua aparição. Não havia fugido antes do porta-malas, mas
agora tinham se livrado. Não houve dificuldade maior que carregá-la, sente que pode fumar,
espreguiçar-se e dizer, uma boa noite, e com um boa noite, ou bom descanso, ou boa
eternidade, todos juntos olharam para baixo e por um tempo hão de fazer o luto da finada, que
assim como mereceu funeral, merece a tristeza dos últimos que saberão quem ela foi e como
deixou de dar tchau.
A ponte uniu muito mais que o concreto às águas frias, define muito mais que o segmento
de reta que percorre o corpo na sua queda, Alex olha para o lado, não muito, que não tem
coragem, apenas finge retorcer-se um pouquinho, e viu que ao menos por essa noite estarão
esses caras mais unidos que nunca. Naquele instante foram só aqueles seis, nada mais. É
besteira pensar que estariam unidos para a vida toda, mas ao menos por essa noite. O saco
afundou e sente ter esquecido algo muito importante dentro dele, perdeu-se um pouco e ainda
se pergunta, que será que era?, e talvez nunca entenda o que se esvaziou.
De longe, apreciou a cidade.
Bublitz ajeita uma vez mais o gorro sobre a cabeça, a iniciativa de realmente separar-se do
parapeito veio mesmo dele, talvez lhe seja mais fácil. Tic, que soa o relógio. É um barulho fraco
em meio a pensamentos fortes, ainda assim fez-se gritar. Que horas?, pergunta André,
condicionamento de um cão.
– Vinte para as três – Alex afasta a manga, olha o pulso e responde, odeia esse relógio, a
primeira coisa que fará quando voltar para casa será quebrá-lo ou lançá-lo pela janela.
– Que fizemos? – proclamou Martin cheio de tons proféticos.
– O preciso... – respondeu-lhe André, sem mais rodeios, em vez de dizer-lhe tudo o que
poderia. – Não há mais muito pra pensar, ao menos não quanto a isso.
– Não é porque é preciso que algo acontece – responde docemente.
– Vamos embora? – bocejou Bublitz.
– Já vamos – Alex.
– Como faremos de agora em diante? – Martin.
– Se está preocupado com o pacto...
– Há dúvidas quanto a isso?, por mim, ele se mantém, apesar de que só saberemos o que
realmente será quando o tempo disso chegar – André.
– Quer dizer se continuaremos ou não – Bublitz.
– É.
– Isso é o mais importante? – comentou Stern.
– O pacto traduz cumplicidade sobre o que já foi feito e não volta mais, mas não define um
futuro, isso é tudo – enredou-se Habib.
– Podemos continuar ou não. Ou alguns de nós podem desistir, outros não. Não sei.
– Isso definirá algo do que aconteceu hoje? – insistiu Martin.
– Está com medo? – retrucou Stern, e não foi uma ameaça.
– Estou. Mas a essa altura, não vejo mais por que estar inseguro.
– É, você faz bem.
– É de acordo que o que aconteceu hoje está encerrado? – Habib.
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– Mesmo entre nós?
– Deixar as coisas por dizer pode ser perigoso, pelo visto. É bom mesmo perguntar –
André.
– De acordo – Bublitz.
– Certo – Stern.
– Parem de adotar um pressuposto criminoso, isso sim. Pra mim é isso que está sendo
inferido. Era para sermos duros, mas vocês agem feito mártires. Danem-se – prosseguiu Alex,
e ria a fingir que tudo não passa de sarcasmo.
– Não estamos adotando nada imaginário, inventando nada. Cometemos um crime, é
crime porque dizem, não importa o que achamos a respeito disso – André.
– Eu acho que é uma grande merda – Bublitz.
– É verdade, não tem por que complicar isso – emendou-se Stern.
– Somos o erro, os errados, e acho que isso está bem claro – Habib. – Os julgamentos –
afunda-se nos bolsos – não partem de nós, o mundo vai pesar-nos conforme ele acha que
deve fazer, não como se dependesse de nós, não é como se pudéssemos enganar todos ou
como sonhássemos pro mundo o que quiséssemos.
– Não há o mundo aqui. Somente nós. Parece-me então que estivemos sonhando até
agora – Alex.
– Seria bom se as coisas fossem de uma leveza assim – Stern.
– Está de acordo que o que aconteceu hoje está encerrado, Alex? – André.
– Depende do que isso significa – sorri todo azedo.
– Significa que arcamos com nossas responsabilidades até aqui, o assunto está encerrado,
mas o porvir ainda não está resolvido. Todos de acordo?, pra você há algo definido?
– Isso – Bublitz.
Então deu a entender que pensava. E rende-se a acenar negativamente.
– Não, não há nada definido. Do futuro ninguém sabe, certo.
– De acordo, então. Está esfriando – Bublitz, e aquecia os braços.
– Vamos para o carro. Alex? – Habib.
– Finalmente, já se foi o que tinha de ser, acabou – Stern.
– Esse é o espírito da esperança – suspirou Martin.
– Sim, desculpe-me por qualquer coisa, certo? – Stern.
– Como eu disse, já acabou – Martin.
– Que não seja apenas o começo dessa história.
Criam-se esses movimentos lentos que se formam ao fim de enterro, quando todos já se
despedem do mausoléu que há pouco cultuavam, e não havendo mais lágrima a ser
derramada, nem criatividade às preces do padre, recolhem-se, assim a convencer-se de que o
defunto recente é só mais um do seu gênero, mais tarde talvez tomem um drinque, comam
canapés numa festa onde se fala baixinho pelos cantos. Ao menos a eles estão reservados
dias que virão.
Como em noite assombrosa, se recolheram ante os túmulos, e diante da burocracia
confusa das lápides jamais saberiam dos assuntos enterrados, jamais saberiam ao certo o que
as lápides cobrem, tampouco todos os corpos que aquela baía esconde ou ainda virá a
enterrar, então tudo certo, tudo ok. Enterrar fraquezas é mesmo um hábito recorrente. Para
Alex as fraquezas são mais que isso. Ele costuma complicá-las, costuma corrompê-las e as faz
parecer o que ele quer, cães ferozes injustiçados. E ouve enquanto isso os hálitos da gente
indo-e-vindo. Esses estavam próximos, não os amigos, os hálitos, ouve de alguns, não sabe
dizer quais, o tilintar cardíaco e deseja, sem definir como, que algum desses corações parasse,
é sadista nos momentos mais lúcidos, quer testar a taquicardia dos outros, está se testando o
tempo todo, que quando se cansa exige o mesmo espetáculo nos outros.
Aí foi como se voasse um toco de cigarro, feito aqueles que se atiram displicentemente
com a ponta do dedo. A gravidade, que é monstro metafísico, desumano mas natural, feito
tantas das coisas desumanas, se encarregaria de protagonizar a cena, assim lhe apagaria com
o atrito da barreira de ar, o tornaria consumido e descartável, uma boa sensação de se ter no
final da vida, seguro de que até o perigo de alguém lhe catar no chão inexiste, e então se
preocuparia com o banho eterno, o fundo de um poço está para chegar e igualá-lo na
desumanidade. Alex, mais uma vez as vozes intrusas vêm te assaltar. Era André quem te
esperava, a beira do carro. Paciente como uma mãe.

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Despediu-se da baía, não vá, ela responde, e desde então eles têm esse negócio da queda
pendente.
Ali no banco de trás voltam a se apertar uns com os outros, e arfou como quem enfim
dizendo, é, enfim seguro, enfim não mais precisando me sacudir, e já que a questão é
movimento, que puta cansaço, e então relaxou. Dessa vez relaxou de verdade. Quando o carro
partiu é notável que Bublitz receia em acelerar demais, que mal saiu das primeiras marchas.
Sua intenção talvez fosse evitar um ronco mais bruto de motor, receio que porventura ocasiona
nessa forte sensação de inércia, que quase não saem do lugar.
A escuridão vai sendo deixada para trás.
São três da manhã, esse detalhe se insere por um relógio se erguendo a brilhar de branco
no canto do asfalto na travessa com a rua, lembrou-se que o ódio pelo relógio de pulso tem de
aumentar e expiar sua fúria geral, assim ainda estão sobre a ponte, poste-por-poste deixada
para trás feito não houvesse nada mais a se deixar, amnésia que se desanuvia sem saber o
que fazia, deixando a tudo que puder, e somente depois o carro ultrapassará essas fronteiras e
ingressaria nessas avenidas da cidade.
O caminho não é tão desconhecido mas sentiu-se intimidado, que até o comum vem
oferecendo o inesperado, e as ruas vão aumentando cada vez mais, os edifícios despontam
como se antes não lá estivessem e querem fazer-se ameaçadores, todos escuros e como
vultos monstruosos, com uma ou outra luz acesa, de forma a parecer serem os olhos de uma
aranha enigmática, uma fera mitológica que o fiará, prenderá, e então virá a mordida das
parcas. Era uma ruazinha secundária qualquer, dessas que depois de muito andando, e depois
de muito andando, e depois de muito andando se chega a alguma avenida útil, mas assim ela
segue cercada por edifícios de todos os lados e por passagens que se perdem umas das
outras. As entranhas mal projetadas de qualquer bairro inútil. Estavam todos esses caras longe
de ser mais que transeuntes, e a simplicidade é esta noite é morada do horror, venha a nós o
vosso reino, rogou, e ele veio, e se preocupa de alguém os ver a comer essa hóstia, mas quem
os veria?, há um ou outro mendigo a cada esquina, os quais já se enredam em seus trapos
pelas marquises de comércios fechados, dormem amontoados unidos por força próxima da
simpatia. Aí o carro, como uma partícula das invisíveis vagabundeando por aí, de janelas
escuras e todas fechadas, faz essa sua curva, uma ou outra curva em duas ou três esquinas,
dando a continuidade de perder-se. O aspecto de Bublitz é o de quase falecer ao volante, mas
sem mais os conduz tão comumente que é melhor que não o note. Quem parece mesmo estar
dirigindo é André, quando se curva e parece definir as novas curvas, ora analisando as ruas à
frente, ora debruçando-se e a instruir Bublitz baseado no que ele acha melhor, ele quem faz as
escolhas, sussurra tanto que mais parece uma cantiga de ninar, todos os outros estavam à
parte e iam se embalando. – Vamos deixar na próxima esquina, se não tiver movimento –
André levantou a voz.
– Talvez seja melhor entrarmos ainda mais, não? – Bublitz.
– Aí somos nós quem nos perdemos, que nem conheço essas ruas – Stern.
– Saímos por aí e damos em qualquer lugar – André.
– Não, melhor que sigamos separados – disse Martin.
– Separados por quê?, qual o problema de sermos vistos juntos? – Bublitz.
– Não dar chances ao azar.
– Isso é o que mais temos feito.
– Mas ainda assim não vejo azar em irmos juntos – Bublitz.
– O azar gosta que dêem chances a ele.
– Vamos separados e pronto – disse André.
– Vocês falam demais – Habib.
Ouve o estalido de porta, a luz no teto de tão escura deve estar mesmo defeituosa, depois
tudo certo com o estalido de trancas do freio de mão. Posso dormir aqui dentro, diz-se, e
imagina ser acordado com o rosto pálido de algum guardinha curioso batendo-lhe na janela,
sou um cadáver, é o que diria, o cadáver que esqueceram de pôr no seu porta-malas, também
esqueceram de me despejar. Cola uma multa aí na frente, se quiser, mas me deixe descansar,
se não o próximo é você.
– Tudo bem? – perguntou Stern.
– Bem, bem – cantarolou. – Tem cigarros?
– Uns cinco – o homem sempre tende a guiar-se por números arredondados, perfeitos,
talvez isso reflita algum complexo ou insegurança interessante de ser estudado, isto é, por que
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não oito ou nove ao invés de dez?, pode ser esse um indício pequeno de obsessão não
catalogada, certo. – Pode ficar, eu nem quero.
Enquanto o rapaz ajeita-se para melhor enfiar a mão no fundo do bolso, André já se foi e
termina de fechar a sua porta, Bublitz já saíra, Martin rasteja no banco e Alex abriu a sua. Não
esqueçam de fechar as janelas, alguém diz, que ninguém deixaria o carro estacionado sem as
janelas fechadas e sem trancá-lo, e aqui se fará uma pausa para dizer que a imagem do maço
amassado de cigarros era divino, auto-suficiente, e outra pausa será feita para dizer que nunca
o homem em toda história se contentou com tão pouco, por um ou dois breves segundos
nenhum nirvana pareceu tão acessível ou tão precioso. Envolveu-lhe com os dedinhos, sim,
sim, o som do papel do maço amassado é especial entre todos, o lixo nojento que ele produz,
tudo isso, há coisas que se precisa da abstinência para conhecer, pensa, não confiaria minha
vida a alguém sem vícios, espero mesmo é nunca precisar confiá-la a ninguém, e sai do carro.
A rua escura é uma qualquer escolhida ao acaso e preenchida por velhices decrépitas
demais para atrair atenções ou denunciar alguém, ótimo, do outro lado da rua se acercam os
comércios sucateados, podem ser quitandas, padarias ou lojas de eletrônicos, todas fechadas
e caladas, da natureza de bom cúmplice. Manuseou a carteira, o cigarro até a boca, o isqueiro
até o cigarro, o protegeu maternalmente do vento mau, acendeu a sua cabeça e entrou em
estado letárgico. André o vigia com o canto de olhos sacais.
– Vou me livrar das chaves – disse Bublitz.
– Acho que tem um pouco de sangue aqui atrás – Habib.
– Bom – começa André –, se esse foi um encontro nosso ou qualquer coisa parecida com
uma reunião, se já chegamos em nosso destino é normal que vamos embora...
– O que é isso, uma falsidade pra se convencer de outra mentira? – Habib.
– É claro que é pra não levantar suspeitas.
– Não há ninguém por perto – Martin.
– Por subestimar as possibilidades é que estamos aqui – André.
– Ou de repente é por não dar a mínima – Alex.
– A vida é irônica – Habib.
– Vocês que não sabem usá-la – André.
– Não é mais comum que ela nos use? – disse Alex.
– Temos aí outra ironia – falou André, e se abraçou.
– Bublitz, aonde vai? – em tom cético Martin ergueu um pouco mais a voz.
A conversa encerrou-se quando são coagidos a voltar-se a Bublitz, o viam cruzando a
penumbra dos postes. E com essa iluminação realmente tísica, pensou Alex, é de se esperar
que o homem se sinta inspirado para o crime, é quase simbólico, como um cenário intencional,
ora, no escuro ninguém o olha nem pode apontar, foi ele, foi ele, somente resta a própria
consciência, a qual se pode pôr para dormir a socos ou com cantigas de ninar. E se ela teima
em acordar, geralmente um ganho de assalto já lhe compensou o eventual peso. É que a
consciência só atua a longo prazo, e a longo prazo se encontram caminhos para anestesiá-la.
Bublitz percebe ser requisitado, o suficiente para que olhasse de volta e desse de leve com o
ombro num sinal de que não era propriamente de descaso, sinal este que na verdade não se
fez muito claro, e só depois enfim mostrava o porquê de estar ali. Vou me livrar das chaves,
repetiu, na verdade confirmava, como se dissesse, ora, é óbvio o que estou fazendo, por acaso
não me ouviram quando falei?, e em seguida deu apenas mais dois passos a se distanciar.
Olhou ao redor discretamente, agora como se lhes dizendo que poucos seriam mais
precavidos que ele, o garoto idiota que sobe num parapeito para gritar, que agora constata que
não há movimento suspeito ou testemunhas por ali. Realizadas as preliminares, soltou as
chaves e deixa que a gravidade as puxe para o bueiro perto da calçada, do qual as grades
permitiram, após o choque breve, a passagem para o fim. Foi-se, não era mais uma
preocupação. Perderia-se no esgoto para sempre. O cigarro causava agradáveis alívios na
espinha e tremedeiras na mão quando vê Bublitz olhá-los a todos com um sorriso sarcástico e
vanglorioso na cara. Espertinho esse rapaz, pródigo garoto, esse na sua frente. Os demais
meio que apenas se encolhiam. André foi o único que abriu um pouco mais os braços, ele
quase sorriu.
– Sendo assim, até a próxima. E uma boa noite para todos.

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Teus cabelos, queira o que quiser, pode ter porque são teus, diz a legenda em forte cor
amarela sob a propaganda na parede lateral do ponto de ônibus. O que acompanha o letreiro é
uma ampla gravura toda colorida que esboça a resplandecente imagem de uma mulher dessas
bem-sucedidas, enfiadas num blazer, já que é claro que o retrato de uma dona-de-casa só
serve para as propagandas de sabão em pó ou eletrodomésticos. Para cabelos não, a garota-
propaganda tem de esbanjar independência, sucesso completo na vida afetiva e
principalmente, acima de tudo, na profissional. Ser bem-sucedida é a coisa mais importante,
nada na vida é mais bem-sucedido do que a modelo de cabelos ruivos cor-de-fogo, porque a
transformação que assistimos na modelo deve ser mesmo o produto à venda, e Alex só vai
pensar nisso porque em um instante ele se confundiu se é esse a mulher, mas parece ser
mesmo um condicionador para cabelos. Acontece que a moça seria alguma executiva, ou algo
do gênero, algo que represente esses sonhos de consumo dos dias de hoje, executiva que
castra seus homens, é vista gigante, andarilha da cidade, do ponto de vista de alguém inferior,
é como se você estivesse menor, portanto é alguém muito importante, sabe-se que era sobre-
humana, uma estrela ou até a maior celebridade da tevê. A seguem, ao seu redor, obviamente
arrebatados pela ardência que sua presença exala, homens e outras mulheres sem o cabelo
ou a vontade e o poder ideal a invejando, tombam para os lados os desesperados e, os menos
assustados, apontavam-na com mesquinharia, senão isso apenas pasmavam os boquiabertos,
porque é tudo muito absurdo e lindo demais. Eu nunca serei nem o rapaz engravatado que
rasteja aos pés dela, ele pensou. Eu nunca tive essa vontade posta a venda num
condicionador. É esse o maior enigma a ainda prevalecer, lá está ele, a legenda, o slogan da
propaganda, isto é, o que diabos aquilo realmente quer dizer?, eu não sei, ele se diz. Queira o
que quiser significa algo como, teu desejo é e indiscriminadamente será capaz de acontecer,
apenas importa o que você quiser, já que são teus os cabelos, atualmente nosso majestoso
mercado está acima de quaisquer restrições ou censuras, como as do bem e do mal, as
anulamos completamente, transcender assim é o que todo indivíduo deve querer, assim como
tu podes estar acima do bem e do mal se nos abraçar, somos os donos de tudo, compartilhe
você também de um pedaço do tudo, seja você um pedaço do tudo, a começar pelo cabelo.
Estão usando a liberdade para vender condicionadores. Estão mentindo ao dizer que poder é
barato.
A sua perspicácia o ilumina sobre a falsidade de todas as coisas. Sobre como as pessoas
saciam-se com migalhas.
Já pensava a respeito disso faz alguns minutos, sentado nas trevas não tinha ouvido até
agora um som sequer, fora os seus, que emite quando volta e meia não pretende, gargarejar
ou esfregadela, e perde-se com as coisas inúteis. E continua preferindo passar ali alguns
instantes, não saberia até quando. Aproveita os últimos tragos do cigarro que ainda tem na
boca e, ciente de que deve entreter a sua atenção o faz, vamos lá, ora se imaginando mariposa
que não desgruda os olhos da iluminação que mal irradia dos postes, ora se imagina onde
daria alguma das ruazinhas que entravam pelas calçadas dos becos, há em especial aquela
entrada toda coberta de sombra, onde corujas arrepiam-se umas as outras no cantarolar e
espíritos da sujeira vêm assombrar com uhs e mostrando suas garrinhas, uma longa ladeira
para o desconhecido, um desses terrenos férteis para a imaginação. Não demora até se
cansar.
Os ônibus só começam a passar próximos da manhã, pensou, mas de que importa se tiver
de esperar?, tinha pouca pressa, para não dizer que não tem nenhuma, e não será o cansaço
tão grave o suficiente para impedir-lhe de, agora, estando com os seus botões, colocar as
coisas no lugar, fazer aquilo que só nós mesmos podemos fazer por nós mesmos.
Como a gente não sobrevive por muito tempo, mas nossa criação o faz?, é absurdo,
pensou, é uma trapaça que no meu caso tornou-se irônica, com tudo isso de retorno à
escuridão. E também por isso parece lógico pensar que deus morreu há muito tempo, mas são
os homens seguintes que ainda dele recordam, até que um dia as coisas se entreolhem e se
digam na linguagem desconhecida de coisas que elas são, e então, o homem fez a luz, e do
concreto ou de madeira nós viemos, às farpas havemos de retornar. Então um vento mais frio o
força a se encolher no casaco.
Sabe quando se tem a impressão de ouvir alguma coisa, porém se acaba a ignorá-la por
causa de uma qualquer situação ridícula, por exemplo algum pensamento que nos deixa muito
distantes, mas logo após se dá conta que algo importante foi dito ou aconteceu, só que fomos
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displicentes, e agora corremos para voltar atrás?, ele teve há dois segundos atrás a impressão
de ouvir um movimento, logo em seguida ouviu notoriamente a guimba que largou ao chão
sendo espremida por um pé que não é seu. Quando olhou, André já está sentado no outro
banco do lado, ele olha para frente, suas mãos estão afundadas no bolso, mais um pouco e até
o ombro se esconde, e a sua cara não lhe quer dizer coisa alguma, cara de quem o olha o
nada de onde veio.
– Você esteve silencioso – foi André que falou, após longos instantes.
Vamos lá, o que ele pode responder?, acabamos de jogar fora o corpo de uma mulher, o
que esperava, que eu risse e batesse palmas?, gostaria que eu plantasse cambalhotas. Só
falta você querer que eu faça a retrospectiva dos melhores momentos de hoje, faça-me o favor.
Não, não, não precisava se entregar aos sarcasmos mais extremos, é inútil, não satisfaz, a
resposta mais óbvia, que não é nada, mas ainda uma resposta, é o calar de bocas já caladas,
acompanhado de mais nada.
– Preferiu não voltar pra casa? – continua André.
– Você também está aqui – respondeu.
– É que acho que fomos longe. Por via das dúvidas, ainda é cedo, não é?
– Cedo pra amanhã ou pra ontem?
– Não sei, a questão não é bem a hora, mas a história de termos ido longe...
– Essa propaganda de cabelo é terrível – comenta.
– Não tinha reparado – e se calam por instantes. André precisa prosseguir.
– E o trabalho, como anda?
Alex respondeu nem que sim nem que não com a cabeça.
– E aquela Carla, está normal? – um pouco de riso despretensioso.
– Ela é normal, não? – Alex toma o maço.
– Me arranja um? – André apontou, pela primeira vez se vira um pouco. – Ainda tem?
– Stern arrumou-me há pouco – quando sacou o maço não se demorou até estender-lhe.
– Isqueiro?
Alex curvou-se para atendê-lo.
– Eu tinha largado faz uns meses – André fuma.
– Faz falta.
– Faz.
– Me seguiu, André? – Alex meiosorriu.
– Não, não – respondeu tremulando. – Bem, é que há coincidências que provocamos, mas
não são bem coincidências cruciais, você entende. Vi você sair, segui o mesmo caminho, era
provável que o visse, caso contrário só viraria numa outra rua dessas e nos
desencontraríamos, ao que depois nos falaríamos...
– Entendi. Quem sabe coincidentemente uma viatura não aparece.
– Acha que Martin vai ficar bem? – vira-se um pouco.
– Acho que a pergunta vale pra todos...
– Ele parecia... não sei, com umas apreensões a mais.
– A psicologia fica contigo, estou cansado – e expele fumaça.
– Por que você voltou? – essa pergunta o fez imobilizar-se, mas nunca ninguém notará. É
que a agressividade muitas vezes não reside na intenção, mas na recepção, ou coisa assim.
Olha para frente, e assim dá de ombros, sabe, quando se os ergue e se sorri, como aquele
sujeito que por um instante busca todas as respostas aceitáveis ao enigma para ele imposto, o
inevitável é que só se depare com o que seria óbvio a qualquer um, um não sei, um não
importa, ou coisa que não se põe em palavra mas se põe nesse sorriso calmo, e André não
teve a sua resposta mas vai retribuir.
– Eu não sei – continuou André, abanando levemente a cabeça –, Júlia anda fazendo
perguntas, ela podia deixar de curiosidade, certo? – e ri-se um pouco. – Além disso, algumas
das outras coisas me preocupam, não sei – e coça a cabeça –, parece que inventamos um
infinito de coisas pequenas que agora não encontram outro afazer a não ser dar trabalho.
– Curiosa. Por quê? – Alex ergueu um pouco o queixo.
– Ela não é boba, ela extrai o que ela quer, gosta de ter controle de tudo e é paciente.
Escute, esconder dela o que aconteceu hoje não será possível por muito tempo.
– Como ela anda?
– Bem, bem.
Ambos arfaram um pouco. Devem entrar num transe comum.
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– Então, parece que veio mesmo com o objetivo de conversarmos – Alex virou-se, sorria.
– O que te faz pensar que essa conversa precise ser sobre algo desagradável?
– Tudo torna isso um pouco óbvio. Além do quê, quando eu te perguntei se me seguiu,
respondeu que depois nos falaríamos como se houvesse um assunto pendente.
– E não há pelo menos alguns?
– Talvez – Alex fez menção de levantar-se, veja só, rapaz, que poucas coisas realmente o
causam esse princípio de inquietude, um simples movimento, logo após sentou-se, acenando
de contrariedade. – Talvez não seja uma boa hora.
– Não existem boas horas – André falou num tom mais intimidador que o habitual, sinal de
que está lá certo das suas coisas, seja lá do que pretendia, em seguida se recolhe. – Quer ir
andando?
– Tanto faz – e pôs-se a levantar de vez. André meiosorri franzindo as covas da bochecha.
Quando eles começaram a andar não fizeram mais, durante os primeiros instantes, não
minutos, ou segundos, ou medidas maiores ou menores de tempo, instantes em que o tempo
marcado é de um difícil entendimento, que antes ele não passava, agora torna-se difícil de
engolir, e os dois não fizeram mais que aproveitar um passeio noturno improvisado e à custa
de nada, o despropósito, ele pensa, é rejuvenescedor, é uma escolha cheia de percalços. A
idéia das coisas serem tão grandes, o mundo, coisa assim, às vezes o deixa um pouco
constrangido de si mesmo e lhe resta o despropósito, o despropósito como forma de humildade
e desespero. Ele previamente se desculpa por estar vivendo e segue adiante.
Cruzada uma esquina, passada uma rua menorzinha e, não satisfeitos, entrando em outra
mais, beiram a pequena subida de uma rua com uns paralelepípedos, lugar sujo e vagabundo
e nojento, mas eles não estão ligando, que pouco após é nela que estão se metendo, por que
voltara?, Alex?, por que no passado retornou e foi bater na porta dos seus problemas?, é,
sente vergonha das primeiras respostas que lhe vêm, devem ser esquecidas e talvez um dia
ele mostre o porquê. É melhor adotar discursos mais fáceis. Era vergonhoso, enterrará a isso,
mas não pode se enganar. Ao que, se der sorte, o que ele repugna com o tempo se lhe tornará
incerto a si mesmo. Adia-se para perder a consistência e duvidar-se. Desviou do emaranhado
de lixo que se debruça para fora do balde virado, não há nada mais oportuno que supor ser o
serviço recente de algum vira-latas, quando viu André desperdiçando no chão quase metade
do fumo que ainda o restava. Com ele foi sempre devagar e pouco, as coisas agora vêm
mudando, então resolve testá-lo.
– Não quis falar comigo na frente dos outros.
– Seria muito difícil – André grunhiu.
– É uma idéia de que devamos parar?
Surte efeito, que prodígio ele tem para a ruindade. Notou, mas fingiu não fazê-lo, que
André brecou por um segundo seus passos, expressão que já lhe havia comprometido, mas
prosseguiu arrastando-se pela sujeira com uns tropeços normais e tudo em seu rosto deve ser
como antes.
– Eu não sei. Foi um susto, é difícil falar do que ainda está assustando...
– Coisa essa com que nem todos podem saber ou querer lidar.
– Mas não podem fugir.
– Vamos, André, sabe que não é assim. Não é questão de fuga, o que foi feito já se foi,
mas agora eles vão se preocupar mesmo é com outras coisas.
– Por exemplo?
– O que vão fazer depois, como vão se prevenir, se não correm um risco maior, se não
estão se expondo. Aí vão sentir um medo que não é do costume, não suportarão e talvez
voltem...
– Voltem?, voltem para onde?
– Atrás. Ao normal.
– Eu mesmo disse não haver nada determinado a partir de hoje – o olhar de André tornou-
se vago, vaga também se torna a confiança que tenta esboçar.
– E agora se arrepende?
– Eu não sei.
– Talvez tivesse sido melhor se posicionar – Alex.
– Não estariam prontos para isso – André.
– Falo quanto a você.
– Eu também não estaria.
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– E nesse momento, agora, está? – Alex.
– Eu não sei – André.
– Não sabe, mas deve imaginar o que quer. E imagina também que escolha eles farão –
Alex.
– Entregar alguém.
Olha só, e essa resposta, essa resposta é claro que ele não esperava, era a última entre as
coisas que fariam um sentido, a última que desejaria que fizesse, a sua corrente de raciocínio
desmoronou feito cartas mal empilhadas. Não sabe se foi sarcasmo, não, não poderia ser um
tão cruel, claramente destrutivo, tão amargo, amargo de um jeito ruim. Logo André não o faria,
não, André ele conhece. De qualquer forma, mesmo na melhor das hipóteses, que inocência
mórbida e desgraçada, é tudo o que ele consegue pensar, isso do sarcasmo que ofende, que
enfia o cigarro que mal acabou de fumar na ferida, dizendo que é para cauterizar, e ele implora
a que pare, e o outro apenas ri.
É melhor que olhe com espanto e desagrado, é. Com seu rosto todo sombrio se expressa
sem precisar falar.
– Sabe o que eu quero dizer – anuiu André, um tanto corretor, é verdade.
– Não, eu não sei – replicou, surpreso.
Era claro que o próprio André passou a pensar. Olhou a frente. No final da rua, uma
escada de mão dupla ascendendo lhes dá passagem para o logradouro, com sorte não teria o
mau cheiro dessa e nem lhes seria sufocante.
– Desculpe, foi apenas um pensamento que tive – retificou. – Tive a impressão de que
Martin te culpava.
– Não era nem disso que eu falava. Isso é idiota.
– Eu também acho, mas ainda assim foi a impressão que tive.
– Realmente não vejo por quê.
– É que você os encorajou.
– Você também o fez, tantos outros também.
– Eu não fiz como você. Eu só concordei. Feito eles. Eu só gostei, só consenti.
– Mas que merda – despreza –, não estão me seguindo, e não é pra que sigam.
– Podem fazê-lo quase sem querer.
– Seria uma idiotice – rosnou. – É contra tudo, todo o retorno à escuridão.
– Eu sei disso. Eu sempre soube. Ocorre que alguns preferem não saber. É mais cômodo.
– Eles ouvem muito mais os seus conselhos, nunca realmente pararam pra me ouvir, eu
também nunca os falei. Os fale você.
– É melhor que percebam por conta própria, é muito mais certo.
– Mas incitar coragem ainda não parece algo ruim de se fazer – e riu de escarninho.
– É que pode ser confundido com indução. Mas eu realmente não sei, foi apenas uma
idéia, uma impressão. Eu posso ter falado besteira.
– Não, não, há um pouco de coerência. E se essa realmente for uma idéia que tenha um
fundo de verdade, é mesmo melhor que tudo se acabe, não acha?
– Não dramatize, olha, Alex, que se houver um fundo de verdade, ainda assim pode ser
contornado...
– Acontece que essa noite pode ter marcado para sempre um se que foi mais longe do que
sua mera natureza de se. Contorna isso?
– Com o tempo isso se tornará uma questão sem sentido até pra nós. Isso significa não
fazer diferença, esquecer – limpou-se do suor da testa.
– O tempo não vence umas coisas. Contorna?
– Não vence o quê, por exemplo?
– Não ressuscita os mortos, nunca corrigiu os vivos. A tendência é que se repitam as
mesmas merdas.
– Não me leve tão a sério agora, do resto vamos tratar depois. Por favor. É que eu ainda
não estou pensando com muita lucidez.
– Está preocupado.
– É claro.
– Veja, se todos quiserem que acabe, ou somente aqueles que quiserem se desligar, é
inevitável que aconteça.
– Eu sei – soou contrariado, mas ao mesmo tempo cúmplice.
– E por que não me deixa dar um fim? – saúda as portas da súplica.
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– Você está conseguindo – André o olhou no fundo dos olhos, mas não pensemos que por
isso havia uma grande certeza em suas vindouras palavras, pelo contrário, a buscava no
instante em que as dizia. – Nós estamos conseguindo. Por que acabaria?
– Por quê? – espantou-se, por hora se calou, retém o susto. – Eu também tenho minhas
dúvidas – é alguém nobre o suficiente para admitir uma ou outra falha, ninguém é perfeito, mas
de repente a própria perfeição se constitui em às vezes ceder e ser um tantinho humilde.
– Qualquer um as tem, mas pense.
– Tenho pensado, mas tenho em minha frente uma coisa que não se contorna.
– O retorno à escuridão é mesmo perigoso, todos sempre soubemos, se não sequer seria
preciso que selássemos um acordo entre nós, correto?, perceba, essa é a hora que realmente
estamos nos dando conta disso – essas palavras parecem soar estranhas ao próprio, uma
ironia que ele mesmo geriu, a qual ele se submete.
Como se, partindo de si mesmo, e silenciando-se logo após, muito do que mobilizou essas
palavras fosse posto à risca e pouco depois se anulasse antes do fim, no fim se acabou.
Pela primeira vez dá-se conta do quanto essa situação lhe rouba o fôlego, feito viveiro de
passarinhos agonizantes, o que agoniza é o que alimenta sua vida, tomando-lhe o hábito dos
devaneios longínquos, rouba-lhe os sonhos fugitivos e a imaginação de causas e
eventualidades absurdas, é porque não precisa ir longe demais quando se pode viver o
absurdo que tem consigo. A iluminação da rua superior, a medida que surge parida da
madrugada, fere-lhe um pouco as vistas, assim ele saiu das trevas, deixou o espírito para trás
como cobra a trocar escamas.
– Talvez acabar seja mesmo melhor – André prosseguiu.
Alex não respondeu.
– Foi engraçado. Há uma semana, hum, acho que foi mesmo há uma semana, Bublitz
perguntou quando cumpriríamos a idéia de nos abrirmos de vez, foi isso que entendi, mas ele
não usou esse termo, acho que falou em recrutar mais membros. Não sei, não é exatamente
isso que importa, na hora eu não me importei, agora eu penso que foi algo esperançoso, algo
bonito, ainda que não tenha motivos pra isso – André.
– Para mim não há nada certo – Alex balbucia com a voz baixa.
– Apenas supõe a coisa mais cômoda.
– É isso.
Vão tendo com uns últimos degraus, a cúmplice monotonia de umas cigarras os saúda.
– E é realmente tarde – murmura André.
– Júlia vai implicar. Ela fica preocupada.
– Ela fica.
Alex sorri, revira as orbes de distração, feito ataque epiléptico.
– Ela talvez esteja saindo de férias... – André. – Acho que vão dar a ela uma credencial pra
que faça uma viagem, algo que não sei bem o quê. Condecoração, acho. Prêmio –
interessante.
– Bem, interessante.
– Verdade, dá pra renovar os ares, se é que eles andam pesados.
– É sempre bom – fuma e silencia.
– Deve ser.
– Tudo bem, é melhor que a gente vá.
– Sim – pigarreou seco. – Um cigarro depois de tanto tempo e a minha saúde já se foi.
– Por isso tem que se tornar hábito.
– Ainda bem que eu não acredito em tudo que você diz.
– Eu também agradeço por isso.
– Escute, está vendo ali?, conheço aquela esquina. Mais uns dois quarteirões e deve haver
um posto de gasolina sempre aberto, aí é quase certo que haja um ponto de táxi que vá pra tua
direção.
– Certo, obrigado. E você?
– Eu vou tomando o meu rumo. Não esquece de mandar um oi ao teu pessoal.
– Faça o mesmo em sua casa.
– Até mais – André se foi.
– André – Alex o chama, livra-se num cuspe do que era o fim da guimba.
– Diga – disse e só então se virou.
– Por mim continua. Boa noite a você.
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– Por mim também. Até.
Em segredo, por muitos instantes o olha partir, dali acompanha seus movimentos enquanto
se foi subindo a rua, tenta segui-lo com os pensamentos e fazê-los entrar nos seus, não pode
sem olhá-lo na cara. Desistiu, está incapacitado, e agora o andarilho se perde ao adentrar
numa calçada, num instante estava lá, assim, corcunda e debruçado sobre os bolsos, por fim
desapareceu, que ou tropeçou a um buraco ou entrou pela própria algibeira. Resta a impressão
de que nunca mais o verá, essa teria sido a mais inocente das despedidas, que o fim que pode
ser a morte ou pode ou pode fazer jus ao sentido vago de fim chegaria para si, se não chegaria
é que já o fez, engraçado, porque resta a sensação de que se vai dar essa noite, restará a
dúvida se não é que já se deu. Afasta a manga do pulso, que o relógio esteve esquecido e
agora que está sozinho é menos constrangedor se importar. Parou quando marcava vinte para
as três, tinha quebrado.
Um pouco depois de fechar a porta do táxi ele posicionou-se sobre a janela mais próxima,
pensou também que certamente limparia as vidraças com o pano da própria roupa se isso não
soa desesperado demais por uma visão. O magricelo que usa um boné antiquado está a
rodear o carro, não prestou até agora muita atenção naquele que vai conduzi-lo, o que faz
mesmo é passar a vista de relance na fachada dos outros táxis lá ao lado de fora, gosta da cor
amarela como quem não se exige mais critérios, mas detém mesmo a atenção sobre as
entradas da loja de conveniência do posto, tentou imaginar se as prostituas que se insinuam
usando de todo o jeitinho que as putas sabem conhecem num sotaque que passou a ser
dialeto ou na rebolada, sendo que faziam isso para um pequeno grupo de sujeitos acomodados
em cadeiras por ali, o que o faz pensar que são os outros motoristas a aguardar a sua vez na
fila do táxi, bem, tenta imaginar se seriam as mesmas putas que viu passarem enquanto esteve
no ponto do ônibus. Isso não explica nada, na verdade não faz a menor diferença, e talvez sem
porquê isso explique a expressão do magricela, é mesmo, por sinal acaba de assumir seus
postos e bater a porta, é que ele se deslocou de junto dos seus camaradas e se comporta
como tivesse sido sorteado para se poupar da diversão e ganhar um fardo. Um gordo lhe
encara enquanto abastece o seu carro. Por um instante temeu, que achou que ele possa ter
visto algo suspeito, poucas outras coisas justificam um olhar de estranhamento desses, mais
ou menos como de quem diz, será que já não te vi de algum lugar?, não?, uma ova!, e no final
das contas relaxa, é apenas mais um lhe sendo azedo.
– Hein, pra onde? – é a segunda vez que perguntava, curvando ao banco de trás.
Ao menos seja um pouco cordial, desgraçado, que se não obteve a resposta desejada
quando pretendeu foi por algum motivo de força maior, sua incompetência ou a minha
distração. Alex ergue as sobrancelhas com cara tranqüila e pensa o apocalipse. Instrui o
magrelo com poucas palavras, ele se vingará grunhindo com outras poucas sobre a satisfação
de ter que te levar. Ali, sozinho, no banco traseiro, junto a um desconhecido que de nada o
importa, da mesma forma ser a recíproca válida, Alex sentiu-se livre, está ilimitado,
inalcançável. É fascinante o sistema de um táxi, pensa bem, com a simples entrada em um
numa qualquer esquina, pois é certo que em cada esquina há pelo menos dez se estapeando
pela clientela, e em seguida com uma coordenada simples, um comando, tendo-se um pouco
de dinheiro, se é conduzido às entranhas mais perdidas da cidade, eis o que parece ser uma
observação óbvia e sem curiosidade que cative, mas isso é coisa que diria alguém que se
precisa das coisas mais gritantes para se chocar e esqueceu-se que a vida não é feita delas,
Alex se explica, é que é tudo muito mais simples, não se precisa se esforçar muito hoje em dia,
o mundo se move por você, chegamos nesse tempo onde coisas se movem e os homens as
vigiam. Às vezes nem é preciso dinheiro, pense só, se o sujeito que tomar o táxi for corajoso,
tiver bolas o suficiente para chegar ao destino e dizer, não, não lhe pagarei, nessa corrida toda
lhe fiz de imbecil, e aí?, vai fazer o quê?, ainda que as pessoas hoje em dia andem loucas,
andam excitadas e um tantinho precavidas do absurdo, que se é esperado não é mais assim
tão absurdo, então nunca se sabe se um taxista, ou motorista dos comuns, até, não ande com
um revólver no porta-luva ou escondido debaixo do banco, esperando por qualquer briga que
venha, uma buzina aqui, e no acolá já se levantaria, miolos pelo asfalto. Vou fazer o quê?, vou
fazer o que não é preciso, você me tira a paciência e eu te tiro o que posso, e então te matou.
Sentiu um gosto ruim na garganta, a coçou sonoramente.
Só percebeu há pouco tempo estar em movimento, julga a ignição ser a mais
desconfortável das horas da viagem e passou despercebida. Seus olhos desenharam as
formas da penumbra, que se atenha apenas ao banco do táxi e ao magrelo, ele que de vez em
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quando o bisbilhota do retrovisor. Cuide de sua vida, rapaz, não é a ocasião que lhe dá direito
de vigiar os outros, pensou, mas não era louco de mostrar que o tinha visto, esses sujeitos são
espertos e nunca sabe como podem reagir, é mesmo ele quem detém a sua vida nas mãos.
Está certo, é improvável imaginar que o ameaçaria, mas é como destratar o cozinheiro que o
alimenta, a mão que amamenta o berço, que mais cedo ou mais tarde estará se fazendo uma
refeição com um cuspe embutido, leite catarrado ou umas outras sortes das traquinagens da
vingança. A coisa aqui dentro pode se tornar pequena demais para nós dois. Basta que se bata
só um tanto, que jogue lá o táxi sobre o meio-fio, da maneira que é treinado para que ele bata
com a cabeça, só depois de vê-lo sangrar é que anunciaria o assalto. A gentileza, ou melhor, a
bondade em suas formas gerais de representação aumenta a credibilidade de qualquer um em
qualquer situação, e daí é que vem aquele sábio entendimento sobre as vantagens de ser bom,
que se o mau soubesse delas, seria bom quase o tempo todo exatamente por ser malvado.
Alex aderiu apenas à gentileza do silêncio, sem mais. O taxista ligou o rádio porque quer fazer
sua parte por um mundo sem paz, é o que pensa, que já raptou um tanto da minha. Dá um
desses programas noturnos, do outro lado há essa voz grave que deve anteceder uma
entrevista, mas até agora não consegue identificar ao certo do quê, está usando adjetivos
demais para anunciar alguém, e também fala sussurrado, tudo é sussurrado e difícil de se
levar adiante, isso talvez por respeito ao sono do ouvinte. Abre tanto a boca para bocejar que
estala, força a garganta inchada, e dói.
Está agora passando um túnel iluminado mas não se lhe via o outro lado. Recolhido em
suas roupas, caindo por sua própria gravidade, Alex criou o seu casulo, nele não há sedução
que possa persuadi-lo a se entregar, sentiu-se seguro, o anonimato o fortalece e estimula sua
fantasia e o faz sentir-se o que não é, não é que se ponha na pele de outros, mas que se
esqueça de seu ser, nada o revelaria, está com o passado lavado, só há um presente estranho,
mas não passado para aquele sujeito de colarinho alto com olhar pensativo para fora do vidro,
e que o passado é inegável é uma mentira, Alex se diz que o vai esquecer, porque no meu
rascunho de mim não há espaço para nada disso. Atualmente a voz das rádios falava sobre
música, e algum artista da periferia que está há anos nesse ramo e enfrentou muitos
preconceitos para chegar aonde chegou respondia-lhe ou que sim ou que não, não muito mais
que isso, às vezes uma risada, às vezes algumas repetições que sempre se enquadram, às
vezes devem mesmo dormir do outro lado, conversa que se realiza à beira da cama e seria
pretensão querer que faça sentido, e é esse o único som do planeta, o resto tornou-se mudo e
os abismos separaram o cá e o lá. E ele é a única existência que importa, como sempre tem
sido. O escuro traz lá suas miragens.
A nós?, soou uma voz na cabeça. A nós, confirmam tantas outras, uma por uma e tudo vai
se decompondo.
Viu que o carro saíra do túnel, com a mudança da luz se foram também as sombras da
confraternização, e indiferente a tudo a cidade contagia todos os cantos, e ele é como câncer a
vagar sozinho numa avenida, pequeno e oprimido, tudo muito ameaçador.
– Te entregar – o rosto de André agora lhe sorri, está longe de apenas testá-lo ou de
cogitar, se é que o faria, mas não, ele estava muito além, estava confirmando com toda a
inocência que poderia ter, senão com toda a indiferença e ironia, aquilo que mostrava ser
óbvio, aquilo que jamais deveria ter sido pensado. No final ele sorria.
Entregar alguém?, você?, primeiro, como?, depois por quê, ele te pergunta, André?, que
crime cometeu? Bom, temos de considerar que, dentro da conjuntura atual da ordem que nos
rege, crime é um conceito sabiamente construído sobre termos vagos exatamente para que
muitos maus comportamentos, em uma certa ocasião, possam aparentemente apontar para
uma das tantas infrações catalogadas, nem que seja apenas, e apenas uma delas, dessas
quais tantas não existem sem outro propósito a não ser legitimar um cabresto na vida do
cidadão honesto, afirmando também as normas mais importantes e mais decisivas à formação
das pessoas, como não matarás e não se apossarás da casa do vizinho, sem as quais a
própria ordem se questionaria e ruiria sem sua identidade mais básica. Então ele passa a mão
sobre a testa, inventou um tique nervoso que viesse a calhar e ficou a remexer na franja,
pensar dá asma, a música do rádio fala sobre mulher gostosa e dinheiro.
Pensou, e se me acusam de pensar que eu posso me apossar da casa do vizinho, ou de
quem quer que seja?, que eu disse que a casa do vizinho não devia ser dele, mas minha, e
que o vizinho se curvou diante de meu comando, de minha força atroz?, porque eu pude e eu
quis, combinação proibida, e se me acusam de no pensamento ter matado alguém?, não
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vivemos numa época, se disse, que o pensamento possa nos comprometer simplesmente por
ser concebido, correr na cabeça e martelá-la, mas, ainda assim, ele, o pensamento, enquanto
coisa que se remói por dentro e lhe acompanha, define sua inclusão ou sua exclusão em um
canto qualquer, é o que o põe a pertencer a algum lugar de fato, é o que o enquadra, sem que
precise fingir, quando o pensamento vibra e o lado de fora lhe sorri, é mais ou menos um diga-
me o que tu pensas e te direi com quem andarás. Costumam rotular pensamentos de
saudáveis e outros de doentios, e muitas vezes julgar se a pessoa está dentro ou fora dos
conformes é o bastante para ferir a sua alma para o resto da vida. E se ele transforma as suas
intenções perigosas em crime?, são quase todas dentre as que lhe ocorrem. Nesse mundo
cheio de coisas diversas, o pensamento não é nada, se se curva às normas e se mantém
silencioso. Será apenas um câncer para quem o tem.
Já não mais reconhece as ruas em que está, tampouco que caminhos tomou para chegar
até ali. Essa noite ele será saqueado e morto. É mesmo, não podia ser diferente, não poderia
esperar diferente de um taxista magrelo que volta e meia não pára de espreitá-lo no retrovisor,
a essa altura já terá feito lá todas as análises de que precisa, se duvidar até a adivinhação de
quanto dinheiro a vítima carrega na carteira está mais próxima da verdade do que ele que já
conferiu imagina. É uma cara de pilantra taciturno que nos quer enganar, quer sim, mas
também, olhe onde foi tomar a condução, num posto vinte e quatro horas largado, cujo
movimento é de putas, de supostos taxistas e de um gorducho que quer briga. O táxi faz uma
curva e cruzou uma nova esquina, retornando a uma rua bem iluminada. Não se importou
muito, a idéia de ser roubado era mesmo ridícula. Imaginou agora se Martin não teria deixado o
grupo e ido direto até uma delegacia de polícia, algo como ter caminhado sozinho por algumas
ruas, por coincidência visto um prédio de luzes acesas, ter ficado curioso e descoberto ser
exatamente uma delegacia, aí ele teria sido acometido de uma idéia inocente, apenas uma
imaginação vaga que pode ocorrer por nada, mas que no segundo posterior se tornaria mais
forte do que ele imaginou. Ele se livraria da culpa. Até podia imaginá-lo numa sala de poucas
mobílias, esperando alguma coisa que nem ele saberia ao certo o quê durante alguns minutos,
sabe como é, faz parte do processo de interrogatório.
Uma porta normal se abrirá logo depois, e dela viria andando um sujeito normal, por
dedução óbvia seria esse o detetive, mas mesmo de aparência ordinária ele teria um quê de
poder e de mistério, uma compenetração acima de todas as coisas rasas, uma influência que
aprendeu a exercer com o olhar, ou talento que lhe garantiu o posto. O seguindo viriam
aqueles seus dois capangas fardados para que ao interrogado acompanhasse a noção de que
estava em minoria. O detetive o olharia com expressão corriqueira, tinha de ser
mecanicamente, assim o sujeito saberá que não é maior do que qualquer outra burocracia, e
que seus atos, mesmo que tenham sido os mais imbecis, estuprar uma velha ou enterrar viva a
mãe, representam nada mais que um processo ínfimo e conhecido entre as coisas mais cruéis
já ensinadas pelos dias, das quais ele não tem ouvido da prece a metade. Mas aquele homem
sabe como lidar com qualquer coisa. Daria-lhe uma boa noite, ele responderia com ar formal. O
detetive se sentaria na cadeira vaga, certamente para ele reservada, e traria um ar de cansado,
estaria lhe dizendo nas entrelinhas, veja o que faz um sujeito honesto pelo seu serviço, pela
honra do serviço honesto, se submete incansavelmente sem deixar amortecer o raciocínio,
sem deixar que o embriague o mal estar que não só você, mas certamente eu também estou
sentindo. Mas não ligo, sou forte, vi muitas coisas. Não seria propriamente um homem sem
defeitos, mas um homem virtuoso, o que já intimida. Em seguida lhe ofereceria um cigarro, e
com isso estaria lhe dizendo, possivelmente você se igualaria a mim, que estou lhe fazendo
alguma concessão, não só a mim mas a todo homem que cumpre suas funções, como eu, para
isso é só preciso que coopere, para que sua estadia nessa delegacia não vá se repetir, para
que eu te deixe voltar a viver.
Martin lhe diria que não, afinal não fuma. Agradeceria com cordialidade. O detetive daria
com a cabeça para os lados e tornaria a colocar no bolso do casaco a metade da carteira de
cigarros que já tinha começado a sacar. A parte da pergunta se importa que eu fume? viria
depois, quando as perguntas naquela mesa tivessem sido levadas a um nível de tensão que
beirem a coerção. Então, fala o detetive, disse que houve um assassinato. – Eu disse. – De
que forma se deu? – Sou cúmplice dele. – Isso é mau, melhor contar-me tudo o que sabe. –
Doutor, acho que não acreditaria. – Só precisa me ser convincente. – Talvez o próprio
assassino possa lhe ser o que o senhor deseja. – Então sabe quem foi. – É claro.

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Então o detetive se curvaria sobre a mesa, abaixaria um pouco dos óculos e, com um tom
que ninguém sensato ousa contrariar, falaria diga-me. Alex abriu os olhos, que cochilara por
alguns segundos. Já era coisa de se esperar, mas então condenou o desgraçado sono que lhe
havia questionado a sensação de liberdade, e se perguntou se não haveria um carro seguindo-
lhe o táxi, mesmo que as ruas estivessem vazias pode estar sendo espionado, podia estar
sendo perseguido há dias, senão, ainda mais absurdo, absurdo que passou a sê-lo para si
mesmo, o taxista lhe seria esse espião, que não, ele não esteve naquele ponto por acaso, viu
como ele foi eleito pelos outros, foi selecionado como mais apto para a missão, talvez todos
tivessem previsto sua chegada desde sempre, desde que souberam ser a chance de emboscá-
lo. Acha que a sua paranóia está ainda na fase inicial.
Após incontáveis ruas e umas certas curvas que não se vale à pena enumerá-las todas,
apenas viajando nessa generalidade porque Alex faz questão de mostrar como preenche os
seus hiatos, ele deu-se conta de que começa a reconhecer onde está, finalmente, logo deve
estar chegando em casa. Tem essa esperança transcendente de sentir-se mais à vontade, é
esse um prêmio que não conquistará e muito menos lhe será sorteado. Lembra-se onde está,
uma certa praça com chafariz de querubins, escura e de árvores sinistras, ele a conhece,
constantemente vê esse lugar porque já não está longe de onde deve chegar, o traz um clima
familiar, é um clima de constância e o clima familiar o faz lembrar-se de Carla. Essa lhe foi uma
praça especial, especial porque foi uma praça de exceções. Com algumas pessoas é raro ter
horas de exceções. Era uma memória carinhosa, Carla é uma amiga com quem não se podia
contar, também porque é muito constante e isso não o cativa, mas lhe seria sempre sincera, ou
quase sempre, que já é de se relevar. A sinceridade é uma coisa interessante.
– Dirigir a essa hora é melhor – falou o taxista –, é muito sossegado.
– Sim.
– O senhor sabe me orientar para onde vai a partir daqui?
– Certo.
Com algumas poucas instruções, lacônico mesmo, vai aqui, acolá, às vezes só bastava
mover o braço, lhe ordenou por uma travessa ou outra, por um segundo chegou a ter um
branco sobre o nome da rua onde mora, a confundiu com outra qualquer das tantas. Subiu-se
uma ladeirinha, as fachadas sejam comerciais ou residenciais eram mais antigas nessa área,
até o táxi ir diminuindo sua corrida entre vias razoavelmente pequenas e com uma quantidade
berrante de carros estacionados. Ali na frente, naquele muro com grades, orientou, e pouco
depois de algumas manobras estão parando. Alex abre um pouco da sua porta, mais uma vez
o estalido lhe é ouvido, alguns sons o traumatizam, em seguida enfiou a mão no fundo de seu
bolso selecionando uma nota inteira um pouco maior que a quantidade marcada em vermelha
no taxímetro, para ajudar-lhe com isso é claro que o magrela não deixa de acender a luz do
teto.
– Tô sem troco. Não tem o valor certo? – disse-lhe ao pegar o dinheiro.
– Conveniente – e Alex abanou com as mãos de uma forma qualquer. Já saía do carro.
Os faróis se distanciaram só quando estava na calçada. Pergunta-se como quem
desconversa um assunto, nesse caso desconversa consigo mesmo, se não chove essa noite, e
essa, agora, que trabalho irritante esse o de catar as chaves, se as coisas ficassem abertas
aos ladrões tudo seria mais simples, menos preocupante, mais ainda se todos fôssemos
ladrões. As chaves estão emboladas em notas fiscais.
Eis apenas um corredor que os condôminos mantêm com a lâmpada do teto queimada,
problemas da fiação, é que era um prédio antigo, dizem, mas ele pensa que a verdade é outra,
no caso que as pessoas daí não gostam é dos peraltas noturnos, dos corujas, não gostavam é
que moradores chegassem tarde da farra, já que durante o dia aquele corredor que só serve de
passagem e por armazenar as caixas de correio dos moradores estaria iluminado com a luz
jorrante do pátio, dane-se a lâmpada. Não vai olhar se tem cartas, primeiro por estar escuro,
depois porque isso é afazer de Carla.
O pátio ali a frente é a céu aberto porém murado ao redor, mais a frente havia a barreira
natural do edifício, este que tem seus quatro andares. Alex se perguntava se não havia sido
desperdiçado o espaço para cinco, enfim, e os arredores eram protegidos por divisas cobertas
por trepadeiras espinhosas, as quais foram ocasionadas pela vontade de algum antigo síndico
idiota, que deve ter desejado fazer daquele lugar um jardim. Além dos muros sabia-se haver
becos e entulhos. No centro do pátio paira essa maltratada fonte circular que quando está
cheia é de água suja e limo. Havia também um ou outro banquinho, e ali, é claro, havia dessas
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lamparinas que os iluminam o suficiente, postos com malícia a fim de evitar os malandros que
vêm durante a noite, para que, já pegos pela armadilha do corredor escuro e tropeçando por aí,
ainda não venham tentar o luxo de procurar alguma comodidade excessiva nos bancos, se é
que ficou clara a idéia, que trazem suas mocinhas ou seus namorados, ou pulam os muros
para ter-se gosto do proibido.
Alex adentra pelo segundo hall que o conduz para as escadas que o levariam para os
andares que eram em forma de sacadas que ainda assim o levariam para a porta da então sua
casa, terceiro andar, lances de escada, procurar chaves, facilidade caso fôssemos ladrões.
Chiclete. Em que bolso colocou, hein?, achou. É depois das tentativas que azedam o humor
que agora encontrava a fechadura, um, dois empurrões, no terceira acaba por produzir um
estalido forte demais ao girar a chave, e é certo que o barulho o força a parar por instantes,
sabe como é, vai que se acaba com um estardalhaço de vez. Merda, ele pensou, mordeu os
próprios lábios, mas sabe quando temos aquela impressão sorrateira de que nosso
pensamento por si só não é irônico o suficiente?, não, é claro que não, ele sentiu algo lhe
gelando na espinha, será um aviso. Não tardou mais que um instante para ouvir os latidos
assustados do cão do vizinho, besta de sono leve, amaldiçoou virando os olhos e viu tudo
ainda escuro.
O corredor para ambos os lados permanece insosso e o latido continuou. Merda, pensou
uma vez mais, e pensa também que deve evitar conjurar o que lhe pode ser um poder mental
que até hoje não conheceu, lhe virá provavelmente acionado com o verbo, e teve a certeza que
lhe faltava quando no corredor mais adiante, pode-se vê-lo bem da frente, desse escuro uma
claridade brotou, uma janela se acendeu. Acalme-se, não há problema que te vejam, por mais
que tenham sido supostas algumas tendências mais moralistas desses antigos porém
desconhecidos condôminos, não será açoitado no pátio por chegar de madrugada, e diante de
qualquer complicação posterior pode comentar com um pouco de riso e do sarcasmo comum
aos vizinhos prepotentes, veja que é quase dia.
Mas a verdade é que se enreda num profundo receio, qualquer descuido pode produzir
aquela exata circunstância desconhecida que ignorava e que o fará escorregar, que conterá
algum detalhe capaz de nos comprometer, como a polícia a rastrear dna de um fio de cabelo
que não se imaginava ter deixado na traseira de um carro, deus queira que isso não tenha
acontecido, mas a paranóia parece ser boa resposta para um mundo que está a vigiar seus
descuidos, para todos efeitos é melhor se precaver. A mão segurou firme a maçaneta, a outra
pressionou ainda mais a chave, a girou uma, duas, enfim, três, ela girou liberando o tranco da
porta, ele não tardou em abri-la e meter-se adentro do apartamento, presumiu que o latido do
cão não disporia das suas coordenadas completas anunciando o número da porta, se tivesse
sido rápido o suficiente ninguém teria vindo à janela para conhecer a razão do alarme. Uma
vez dentro já não se preocupa tanto, é que ver do lado de fora uma porta semi-aberta já é
quase impossível, pode pôr o pânico para dormir. Esqueça-se de todo o resto, é quase
despertar de um pesadelo estar em casa. Jogou-se com as costas na parede, ainda nas trevas
deixou-se suspirar, quando toca o interruptor acha mesmo que não é tão boa idéia. Passa o
corredor, cuidou de cada passo feito filhos a ninar, toca a maçaneta do quarto, a abriu, sabia
que essa porta costumava ranger, então o fez com a maior lentidão que o cuidado permitiu.
Pôs a cabeça, e só a cabeça, por dentro do escuro, piscou algumas vezes até que se
acostumasse à claridade, ou falta dela, do ambiente.
Ótimo, começa a ver a silhueta da cama, se debruçou para olhar seus preenchimentos,
mas inicialmente só identificou colchas e lençóis sobrepostos e desarrumadinhos do jeito que
ficam ao ter gente os usando, fazendo seu ninho na hora de dormir, e ouve o rosnar contínuo
do ar-condicionado, seus sopros lhe gelaram a pele mesmo por sob o agasalho. Só então pôde
ver que um braço se punha para fora das colchas, é um braço pálido, essa não, pensa ser a
vingança de cadáver, é até mesmo um bom título para filme trash ou livro, se pergunta se não
regressou do mar para assombrá-lo. Fechou um pouco da porta, imagina só, o cadáver logo na
cama, engraçado.
Acredita que o corpo tenha notado sua presença, ele dá suas remexidas, é que às vezes
não está preocupado ou prestando atenção em algo mais importante do que as próprias coisas
da distração, nesse caso as distrações dos próprios sonhos que está tendo, mas acaba sendo
sensível a alguma presença corpórea que se aproxima, sentidos extras de quem nota o espaço
se alterando sem aviso, a pele é sensível a mudanças e não gosta do que não lhe peça
licença, dormir é odiar sustos. E lá vai o rosto feminino arquear-se delicado sobre o travesseiro,
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e acordada ou não o abraçará sobre o rosto. A olhou por alguns segundos até tranqüilizar-se
de que dormia, é bonita quando dorme. A deixará no sono que sonham os inocentes, recosta a
porta levemente como veio.
Caminhou pela casa se desfazendo de suas vestes e atirando-as pelo caminho como se
desfazendo de todo o peso da humanidade, se não muito o peso sobre suas costas e o aperto
no estômago, caiu assim de costas no sofá, a verdade é que custou algum tempo até que seus
músculos relaxassem e algumas imagens que teimam em lhe aparecer saídas das sombras
fossem definitivamente embora, mas foi após essas que olhou para o teto e suspirou, as mãos
sobre o peito e os pés à vontade, e pensou, hoje você soube o que é poder, hoje você é um
homem livre.

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Girou mais uma vez a xícara de café, a forte impressão que tinha é a de que está insípido,
ou, como se é dito no popular, com o gosto de meia. É incrível o senso sinestésico dessa
gente, é tudo o que pôde pensar, a não ser que parta do princípio que o inventor do ditado
tenha provado a sua meia mais velha ou a de outro, não se pode saber que melindres da vida
teriam ocasionado coisa assim, e por uma coincidência dos fatos o sorteado inventor ainda
tenha vindo a engolir um café com gosto parecido. No momento tem outros dilemas mais
importantes além do que recém surgiu, dilema desses que não se restringem ao gosto do café,
talvez não se restrinja ao gosto de coisa alguma, vai ver é sobre o desgosto, que é a mesma
coisa dos avessos, mas o dilema o pergunta se ele deve ou não erguer o braço e gritar algo
como você!, garçonete desgraçada, que tipo de café estão servindo ainda no começo do dia?,
não, não questione, não importa que já passa da hora do almoço, esse tipo de discussão me
dá nojo e esses são restos da noite anterior, como se essa espelunca sequer abrisse durante a
madrugada, chama o dono que eu vou fingir que o conheço, vai, vai, não pense que isso vai
ficar bom para você, mocinha, vou te descontar todas as minhas dores, e chegue mais perto
daqui que eu sou míope, preciso ler o nome do crachá. Mas a garçonete é dessas simpáticas,
demais para que ele seja rude, um desânimo qualquer não o permite. Ao invés disso, estica o
braço sobre a acolchoada cabeceira do banco, o qual termina dando com a janela, que é de
um vidro largo e comprimido, através dele olha o estacionamento do lado de fora, e se perde
sem fins ou paralelos, o drama atual cai para que venha a trama de um antigo, para que caiam
e voltem outros muito parecidos, é tudo que o resta, círculo não dos mais felizes. Está um
pouco curvado sobre si mesmo, o tronco estava comprimido, lhe havia um tanto de corcunda
mal-encarado, não queria ele mesmo imaginar as olheiras, só realçariam a aparência geral,
quer ela menos ainda imaginar.
Pensa se as coisas não estão com uma aparência diferente da que está acostumado, se
não seria excesso de azia, do trauma, ou desacostumou-se mesmo com a ordem das coisas, o
lugar de porto-seguro que antes nelas havia não há mais, a segurança de se ter um futuro, seja
verdade ou miragem, mastigou-se, passamos a vida inteira tentando driblar o acaso, e é nele
que nos sentimos de fato. É apenas a tarde, seus olhos pensam terem despertencido a tudo,
mas tenha calma, que ainda não é hora. Falando em olhos. Os frisa bem para poder enxergar
o lado de fora, vê-lo dali é sobretudo aconchegante, aprazível, as distâncias são calmas e não
pesam, uma vez mais está seguro, tenta identificar no além o frio que não sentia, mas enfim,
percebe lá adiante, na rua, a passagem freqüente desses carros, assim como o caminho dos
casuais transeuntes abraçados em si mesmos pelas calçadas, aqui está a salvo de tudo que os
atinge. O inverno vem chegando um pouco mais frio que os de antes. Via um estacionamento
de número médio de vagas divisar onde ele estava com a rua, cheio de folhas secas, as folhas
secas e murchas como seu humor. O movimento hoje não é normal, feito todo mundo tivesse
esquecido de acordar. Mas tenha lá mais tato, que também não é normal que fique encarando
as coisas como se estivesse a esperar ou temer alguma coisa vinda delas, sabe-se lá o quê,
está parecendo um bruto, no mais um bobo, um trapalhão, como com o último sujeito que
entrou agora pouco, esse mesmo que atualmente está a fazer os seus pedidos ali adiante no
balcão, bem, assim que ele entrou você lançou-lhe um involuntário olhar de decepção, um
olhar rígido como se desgostasse profundamente de vê-lo, não o conhece, nunca o viu antes e
nem supõe se um dia há de topar-se com o mesmo cara numa rua qualquer, mas não
interessa, é como se dissesse, mas o que é isso?, saia, nem devia ter entrado, e isso pode
significar muitas coisas, que das causas que temos os outros só enxergam as migalhinhas. O
que não passaria de um gesto antipático, isto é, se o sujeito não o tivesse encarado de volta e
fosse consideravelmente maior que ele, desses grandes que não gostam de critérios nem de
ser causa de frustração, querem um bom pretexto para amassar narizes, ele sabe disso, o que
o faz por um instante quase gaguejar uma sonora desculpa que não saiu e quase enfiar o rosto
num prato, se um estivesse servido, cara no molho a bolonhesa, mas resta apenas fingir que
foi o acaso, desses quando nos sentimos vivos de fato e que também vêm para nos flagrar e
amassar narizes. Como aqui se presume, para a sorte e alívio de todos nós, o sujeito passa
longe do seu canto, vai entre as mesas cuidar dos próprios assuntos, ufa. Lá está também a
moça de meia-idade que talvez desfrute de seu horário de almoço, as roupas são típicas de
quem trabalha, também há uns sujeitos deslocados que se ilham cada qual com seu silêncio ao
longo do balcão, um ou outro dispõe de companhia para conversa, há mais gente separada
que junta em nossa era, há também o grupo dos senhores de idade, eles parecem se
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identificar com a velhice alheia, como se fosse isso algo em comum na gente a ponto de fazê-
los se sentarem juntos, olá, bom dia, nunca o vi, que tal um café?, e volta e meia uns grupos de
dois ou três jovens se reúnem para tomar um lanche rápido enquanto falam e assistiam à
televisão.
Pensado nessa gente mais nova, Alex se entretém com a simpática e bonitinha presença de
uma adolescente tão compenetrada, assistia alguma coisa na televisão enquanto toma um suco
de cor vermelha, é tão bonitinha, a garota, usava um casaco roxo que desenha seus peitinhos,
que graça, deve estar mesmo com frio, usa calças apertadas. Imagens assim o seduziam, mas a
verdade é que suporta poucos adolescentes, principalmente porque são cheios de ânimo e, além
disso, para ilustrar seu desgosto com mais lucidez seria necessário apenas imaginar o início de
uma conversa com a garota. Adolescentes ou vêm com vozes estridentes, ou rindo de tudo, ou
falando besteiras sobre tudo que não precisa ser dito, têm algum preconceito com o silêncio, ou
no máximo e pior caso se insinuam como se o mundo fosse sexual, por exemplo, como se todo
homem que lhe vier falar tenha o objetivo final da vida de comê-la, de repente é até essa uma
verdade, mas não é apenas por mentiras que acabam por cometer gafes, é delas que está a
tratar. Na verdade só pensa nessas últimas coisas por ter olhado pouco adiante e, seguindo o
olhar pelo balcão, veria a mocinha loira que mal pode terminar o seu chá ou suco ou o que não
interessa sem receber sorrisos de um rapaz engravatado, ele se debruça sobre o balcão e a
persegue, um sujeito já com sua idade cansada, os dentes amarelos de café. Enfim, um dia
aprenderás, meu caro amigo engravatado, que não se foge do tempo com mais perda dele.
Casais preferem as mesas do bar, que casais são mais discretos, ao menos os que ainda
precisam conquistar um ao outro ou já tanto se fizeram cansar que resta o luto de olharem um
para o rosto do outro, e mais alguns do lado de cá, próximos às janelas, como ele, e percebia
que estão quase sempre a dois os que assim se sentam, outros do lado de lá, próximos ao
balcão, é que há essa divisória que é como um pequeno corredor que guia quem vem da
entrada, sempre que o olha lembra-se de algo próximo a um corredor onde passariam os bois
indo ao matadouro. Havia alguns outros espalhados que não mereciam atenção, a situação geral
já foi ilustrada, ele pode fechar os olhos e imaginar onde está, desempenho mais farto que a
vocação de reparar. Volta os olhos para si mesmo, resolve relaxar, então pensa que num mundo
onde em tudo se discerne uma identidade, não se há de fato identidade alguma, o ser não é
coisa feita para se compreender, esse departamento é das aparências, e não relaxou.
Fez que ia olhar a televisão mas está longe demais, que só pode ver a imagem de uma
mulher que falava algumas coisas, deduziu ser o noticiário, mas não pôde ouvi-la e não é que
realmente queira. Viu um rapaz erguer-se no balcão, se precipitar através de alguma das
cadeiras, passar pelo corredor dos bois. Seguiria pela vidraça os movimentos do sujeito, se
alguém o perguntasse por que fazer isso ele daria de ombros, só por faltar algo mais
interessante. Parece que a vida é generosa consigo porque não o pára de distrair, antes o tédio
ao cansaço, que são coisas bem distintas, é quando olha para fora e se surpreende com o fino
chuvisco que agora cai, fraco e desesperançoso. Deu com a água escorrendo modestamente
pelo vidro e perguntou-se quando teria começado, se está assim tão alienado. Todas as coisas
vêm com atraso, também é assim o som da chuva. As silhuetas de mais pessoas entraram,
entende pelo tilintar do sino, mas preferiu deixá-las cada qual sem intrusões, não por respeito
mas porque se diz, ai, que preguiça. A verdade é que sente um cansaço milenar se apossando
de cada milímetro da sua alma. Reclina-se sobre o banco, espreguiça as vértebras, é aí que dá
com a garçonete de cabelos vermelhos a se aproximar, ela é treinada para assaltar a ocasião
perfeita. É marota, mas destila esse sarcasmo, diga-se entre os parênteses que ela tem este
desagradável hábito de sempre interrompê-lo, poderia pensar, como chega a fazer outras vezes,
e enfim agora, que é uma bisbilhoteira, e sua terapia atual será odiá-la. Alex faz questão de
sorrir-lhe, já é um grande avanço, e acena negativamente, nem venha, não se aproxime. Ela
sorri de volta como quem diz, fazer o quê?, balançou os cabelos meio presos e deu a volta pelas
mesas para um outro rumo, mas não se acostume, que eu voltarei para te arruinar.
A sineta apitou. Alguém vem da rua. Mas olha e deve haver alguma coisa errada. Sabe
quando alguma coisa é inconfundível, quando tem-se a forte impressão de que a própria
impressão que se sente sobre um algo a vir aí não é meramente casual?, então. Dessa forma
alguém surge a caminhar pelo corredor, a forte impressão a que se refere é essa forma de
caminhar ímpar que viu, e reconhece. O cabelo preto um pouco molhado de chuva também deve
ser inconfundível, mas sobretudo o caminhar, há traços definitivos em cada um. Certo, e ele
pensa em se esconder, mas saltar para debaixo da mesa fará com que prontamente seja visto,
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há de ser mais indiscreto do que se ficar quieto. Se ao menos tivesse aí uma revista para colocar
em frente ao rosto e ter o cuidado de não a estar fingindo que lê quando está de ponta-cabeça.
Bem, nada adiantará, ela sabe que você está aí porque tem essa astúcia das que não se
subestimam. Ela já vinha se aproximando, não demorará muito até que pare exatamente em
frente a você. Os olhos estão negros, não é que um dia tenham deixado de ser, é que agora há
esse cacoete de inquisição das sobrancelhas, mas não faz mal, tudo em paz, tudo certo, pode
lidar bem com isso, que não é um monstro que o apunhale com tanto descuido. E pensando em
seu próprio descuido, ele tem pensado também que ela vir até ele não chega a ser ruim. Ergue
os olhos e a saúda.
– Olá, Júlia.
– O que aconteceu?
Vamos com mais calma. Sabe que ela quer lhe puxar para baixo, arriar-lhe o preparo, as
calças, já esperava por algo muito parecido, ela move o canto das bochechas, espera por uma
resposta e dá a entender que a quer de imediato. Alex suspira e a xinga em segredo de
instrumento talentoso de persuasão, não é assim ofensa das maiores, mas você não é suficiente,
minha cara, para ele, que forçou-se a entender sobre cada sinal, desde o mais minucioso até o
que pode vir a ser teu grito beirando a histeria. Caso ela venha a se descabelar, o que não virá a
acontecer, é que ela está preocupada, mas não segura de poder se expor a tanto, se ele é
confiável para receber sua cara branca e deslavada se agoniando, e se deseja colher alguma
informação, ela precisa, antes de tudo, preparar o terreno para recebê-la, saber do que se trata
e, não menos importante, saber se há algo a se saber.
– Oi? – ele sorri e levanta os ombros, assim se fará de surpreso, esse oi diz que ele foi pego
desprevenido, não deixa de contar a verdade, é que alguns conseguem raciocinar rapidamente o
suficiente para fingirem que foram pegos desprevenidos mesmo tendo realmente sido pegos
desprevenidos, e então pode alguém perguntar, qual é a diferença entre ser espontâneo e fingir
o que de fato se é?, fingir que sente o que de fato sente é aí um paradoxo que se perdoa, mas é
bem claro que na verdade há lá uma grande diferença, que fingir que se usa uma máscara
aplaca o ânimo, o faz pensar que está no controle, quando não se está ao estar nu e só.
– Alex – ela erguia as sobrancelhas, diz com isso saber mais do que parece mostrar, está
tentando intimidá-lo, mas ele concluía que, por sua vinda até aqui, também pelo tom de bispo a
querer queimar bruxa, ela não pode saber nada, mas te fará escorregar.
– Olá, Júlia.
Júlia ainda olha desconfiada, mas sentou-se ao outro lado da mesa, escorregou pelo banco
acolchoado até se lhe pôr defronte, é como agora ele a encontra, e esses segundos severos a
se passar devem anteceder algo muito importante.
– Eu não te esperava aqui – ele continuou.
– E nem devia estar, tinha que trabalhar.
– Parece mesmo que há algo de errado, então o que foi? – um pouco de sorriso, está se
arriscando.
– Vai me dizer que não sabe de nada? – ela é dura.
– Bem, eu posso saber de muitas coisas, é melhor ser menos vaga, depende do nada a que
você se refere, de algum nada eu devo saber... – por alguns instantes sente o nervosismo lhe
enchendo, teve que engolir uma boa quantidade de café para o alívio, e pensou se não teria sido
percebido por ela, com alguma sorte não.
– Um nada que deixaria André estranho depois de ter estado com vocês.
– Talvez ele apenas tenha ficado um pouco atordoado com alguma coisa, você sabe, são os
encontros. Eles são assim. Bom, não é razão pra você se preocupar, vir aqui, tudo mais.
– Bem, talvez – depois disso ela olha para fora.
– Está bonita com o cabelo preso – Alex fala e gesticula desenhando um cabelo.
E ela voltou-lhe a cabeça de súbito, parece não ser aquele um comentário que esperava,
não parece sequer ser verdade, está longe de parecer uma opinião corriqueira, dessas que
falamos por acaso, está longe de parecer um elogio pelo acaso, então ele percebeu e
meiosorriu. A achava bonita também quando fica séria, estava sendo honesto. O rosto fino ficava
praticamente todo simétrico, alinhado, quase uma naja calma, havia uma forma especial na
boca, tem também as sardas que a tornariam sempre menos adulta do que quer parecer.
– Obrigada, Alex – depois debruçou os olhos pela mesa e insinua-se perdida. – Acho que fiz
drama onde não devia, mas bom, de qualquer modo supus que você estaria aqui. Eu não perdi a
viagem.
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– Estou lisonjeado por ser teu suspeito número um.
– É, é, quase isso – ela sorriu.
– Fico ainda mais feliz em saber que sou tão previsível.
– Eu prefiro interpretar como esperteza minha.
– Pode ser. Só não pense que irá sair ilesa – e ergueu a mão –, além de eu pedir um café
pra você, depois vai ter que pagar o meu, essa é sua chance de se redimir.
Ela parece ponderar por uns instantes, sorriu logo após. Ele olha para o lado e viu outra
garçonete aproximar-se, felizmente essa esteve mais próxima, se trata de uma gordinha morena,
vinha chegando depois de se esquivar de uns e passar espremida entre duas cadeiras, que ela
tem a bunda um pouco grande.
– Dois cafés, por favor. Achei que não se importaria se eu pedisse mais um pra mim.
– Chá pra mim, por favor. Erva-doce, se tiver.
– Ouviu a moça, um café e um chá. Erva-doce, se tiver.
A garçonete acata e não demora até registrar em sua prancheta o novo pedido, que deve
estar organizado da seguinte maneira, café para o moço, chá para sua acompanhante, então os
olhou para que percebessem que havia assimilado e que estava tudo nos conformes e deu o
fora rapidamente como veio, bem respeitosa a mocinha, ela se virou, foi.
– Então, como andam as coisas? – Alex apóia os punhos sobre a mesa e se debruça um
tantinho.
– Caminhando como devem, e com você?
– Espero que também andem como se deve.
– E o trabalho?
– Digamos que eu tenha me sentido um pouco mais útil que o habitual, mas, sabe como é,
trabalho pode não ser o melhor assunto pra você, que quer começar um assunto comigo.
Ela riu. – Não seja dramático, também não tente fazer charme, você se denuncia. Eu acho
mesmo que você possa estar fazendo aquilo que, ponha nesses termos, nasceu pra fazer.
– Não sei se existe um propósito desses. Mas está falando de meu emprego, não é? –
zomba.
– Óbvio que não – sorri. – Mas de todo o resto que você faz.
– É um reconhecimento, interessante, espero que um dia esse seja um conceito geral.
– Mas não se pode agradar a todos. Não sabia que era tão ambicioso. E as matérias?
– De praxe.
– O que significa?
– Sobre os novos meio-fios feitos de granito ou o chafariz luminoso com dança sincronizada
de águas, coisa assim. O que é isso, está interessada? – e ri de escárnio. – Acho que você tem
suas coisas mais interessantes pra se preocupar e fazer. Eu também.
– E como anda a parte misteriosa das coisas? – sorriu.
– Interessantes, eu lhe diria – e sorri e abana a cabeça quando fala essas coisas, bom, não
pode se deixar coagir com a gama dos pensamentos que podem resultar dessa definição das
coisas, interessante, ele diria, interessantes, veja só, ao menos não é lá uma mentira, ele nunca
mente por completo, que se fosse lhe seria muito mais custoso manter.
– Sim, interessantes deve ser um bom termo – ela responde franzindo a boca, não faça
assim.
– Você entende, experiências novas, coisas assim.
– Vou te dizer, posso? É exatamente isso que me preocupa.
– Preocupada comigo?, com o quê?
– Não exatamente com você, Alex – ela sorriu.
– Ah, sim. Claro que não.
– Realmente não aconteceu nada? – ela franziu o cenho.
A garçonete regressou, ele nem a tinha visto, o caminho que ela percorreu para estar ali era
um enigma do qual não se preocupará com a resolução. Alex mantêm a feição despreocupada,
essa quase detinha um sorriso, silenciado enquanto a moça atende com os pedidos feitos, café
para o moço, chá para a moça, deve ser erva-doce, que tinha. Elas percebem quando estão
sendo intrusivas, é, sempre percebem, por isso ela se apressou. A viu ir embora, olhou a mesa,
só alguns segundos após tornou a olhar Júlia.
– Algo estranho, não é? – sussurrou-lhe.
– Isso.

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Ele só abriu as mãos, dá um sorriso de que pena, minha cara, não há nada presente nessa
mesa mais misterioso do que eu e você, talvez a xícara de café em nossa frente seja lá digna de
espanto, então é bem melhor que aproveite o seu chá, veja, antes que esfrie, vamos lá, comece
a se entreter pelo aroma que está aí a subir e coçar suas narinas, não desperdice seu tempo
com nada que lhe seja menos prazeroso que seu chá. Na verdade só a está tentando desarmar,
invadi-la com por exemplo um sorriso, e aí dizê-la que não precisa se preocupar, torcer dela a
acidez e torcer que faça efeito.
– Alex – jeito de enigma.
– Oi – responde após um gole do café fresco. Estava insípido.
– Eu soube que estão pensando em acabar.
Certo, aí torna-se inevitável que franzisse todo o rosto, quem não o conhece pensaria haver
aí um grande sorriso, vai ver uma expressão similar se formasse caso ouvisse algo digno de
graça, um comentário irônico qualquer, uma piada ou uma dessas situações em que o humor
negro nos apraz, bem, esta não deixa de ser uma, as rugas na testa o denunciam, também os
olhos que se comportam como se querendo escapar de alguma coisa, mas se forçam a continuar
onde estão presos, lacre que se romper-se a tudo denuncia.
– Você não fica tão bonita com esse cabelo como eu pensei.
– Não foi André que me contou, antes que você pense em perguntar mas fique receoso de
fazê-lo, porque achou que só foi uma tentativa minha de jogar verde para colher qualquer coisa...
– Eu já devia estar pensando nisso, certo?
– Não sei, Alex, só achei que podia confiar em você – ela pela primeira vez levou a xícara à
boca, a toma com um gesto um pouco amargo, amargo de displicência.
– Eu não vi onde não lhe fui de confiança, Júlia – responde seriamente.
– Não me respondeu, não foi sincero.
– Não fui eu que te faltei com a sinceridade, você não perguntou sobre o assunto, não fez a
pergunta que queria. Agora eu sei que você quer saber sobre isso. Então, se não foi André que
te contou, quem foi?
– Agora está se pondo no meu lugar – esnobou.
– Mas se não quiser me contar, tudo bem, descubro depois.
– Não faz mal. Sei que isso passou de André pra alguém, alguém fez chegar a Gabriel,
talvez já tenham contado pra todos os outros, mas foi ele que me disse sobre isso e perguntou
se eu sabia de algo, eu disse que não, e tudo que eu pude fazer foi associar isso com a noite
passada.
– Gabriel, o rapaz das fotografias?
– Ele. Foi especialmente me ver hoje de manhã.
– Do que mais você sabe?
– Tudo que sei é o óbvio, que há algo ainda oculto a se saber – e sorriu satisfeita.
– E quer saber o que é, então – debruçou-se, quase ignorou a xícara de café, quase inundou
a blusa nela.
– Claro, Alex.
– Por que não pergunta na sua própria casa?
– Já teria feito se achasse que adiantaria – não se impressionou.
– A pergunta óbvia, então, por que acha que comigo adiantará?
– Porque eu confio em você.
Ele sabe o que isso significa, mas recolheu-se por alguns instantes, sentiu o sangue
começar a ferver, ebulir, sublimar, vai perder o controle, que o perdoem os mais fortes,
reconheça-se seu esforço até agora. Silenciou, a espreita, os olhos dela brilham de satisfação
curiosa, que ela extraiu seu sangue, farejou e está pronta para beber.
– Não sou eu que tenho que te contar qualquer coisa, tampouco tenho que esconder. Por
isso não me pergunte mais nada.
Júlia o encara por instantes porque foi atingida. Já ele não estremeceu. Ele não estremece,
Alex não, principalmente quando não está fingindo, é, o cara devia ter aprendido há muito tempo
sua lição.
– Tudo bem – ela deu-se por vencida, mas o orgulho não esteve satisfeito, ela logo dá com a
cabeça em pesar e sua voz virá com muito sarcasmo. – Eu intuí que tudo isso não ia dar certo,
alguma hora algo ia ter que acontecer.
– Por isso você nos deixou.
– Por isso eu os deixei.
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– Agradeceremos pelo teu exemplo, ele parece realmente sensato.
– Você está sendo tão egoísta. Não percebe que estou do seu lado?, você admite algo de
errado e não me diz, ignora que eu estou com vocês, sim, inevitavelmente isso também é minha
vida, mas vocês tratam como se não fosse, deixam pra lá. Interferir nela vocês podem, mas
quando eu peço um pouco de respeito, peço para ser lembrada – aponta o próprio peito –, que é
o mínimo que me devem, é isso pedir demais?
– Quando eu admiti algo errado?, quando eu interferi?
– Tudo o que vocês fazem, a cada segredo guardado – aponta paulatinamente, é bonita –, a
cada silêncio, com essa conspiração fechada, com essas intrigas de vocês, acha que isso não
trará conseqüências aos outros, aos próximos, é involuntário, até aos próximos dos próximos?
– Me sinto coagido a recear em tudo que fizer.
– Pare, Alex.
– Desculpe, mas está sendo injusta comigo – curvou o olhar para fora.
– Estou? E você, não está sendo comigo?
– André é quem tem que falar com você, simples.
– Simples, e acabou?, não se trata de eu e ele, você devia ser tão meu amigo quanto é dele,
e isso não te significa nada.
– Eu guardaria um segredo seu se me pedisse.
– Eu não pediria para guardar algo assim.
– Melhor não falar uma coisa dessas, um dia você pode precisar – lixou a mesa com os
dedos.
– Um segredo associado às vidas das pessoas importantes pra você, não, eu não pediria.
– Mas se você precisasse, eu o guardaria...
– Mesmo que isso pudesse ser grave o bastante pra comprometer alguém?
– Você não pode afirmar que esse é o caso.
– Diga-me se eu estiver enganada.
– Não, não está.
– Então, por favor, me conte – suplicou com o olhar.
– Não, não é que te comprometa, me deixe.
– Tudo de André acaba por me dizer respeito, então conte.
– Não – chega a rir do que ouve –, não.
– Alex – e fica a encarar por muitos instantes.
– Certo, Júlia, então vou te falar, é óbvio que mais cedo ou mais tarde você saberia.
É claro que começa a articular alguma coisa chocante porém esdrúxula, do tipo, André se
excedeu e espancou um travesti na rua, ou senão, André gostou da idéia de se travestir, esse é
o sujeito com quem você dorme, percebe por que não quis te contar?, não, não, dizer André
poderia ser um exagero com pernas muito curtas, ainda mais ao se tratar de uma história que se
possa discutir ainda nesta noite, na cama, vai saber o que ocorre?, se bem que gosta da idéia de
aperfeiçoar esse tema depois. Pode então dizer que descobriu suas próprias convicções
religiosas, que recebeu há um tempo uma iluminação e que era claro que o que estava fazendo
era pecado, era libertino, era intolerável e por isso um dia deus haveria de castigá-lo se não
parasse, enxergou o inferno numa visão e um clarim de anjo disse, eis um caminho construído
pela pilha de seus ossos, e ele queria ter chances de encontrar a salvação, todos querem.
Poderia dizer que colocou fogo numa igreja, coisa que não é muito imprevisível dele fazer, mas
que havia sido visto, que foi descoberto e estava sendo processado judicialmente, que por isso
precisavam dar um tempo nas coisas, ser mais discreto, ou de repente que incendiou um
mendigo, talvez, isso seria realmente horrível, é, ou podia dizer que matou uma pessoa num dos
ritos do grupo, pára, pára, está chegando perto demais da verdade, se bem que com esse tom
não parece ser algo muito importante, só parece ser duro por ser verdade, que a verdade é
sempre mais dura, se falasse da mesma coisa e fosse mentira já seria de se tolerar, e ele já está
começando a se empolgar, a perder a noção do apropriado, coisa que geralmente se repete,
coisa que não se deve, com isso não se pode vacilar, é, não com Júlia.
– Alex, diga-me – o olhava mais firme que antes.
– Melhor que beba um pouco mais do chá – gesticulou.
– Diga-me.
Ele não mais a mira porque não a suporta, aqui não temos novidade alguma. Do jeito que
considerou mais discreto, cercou o redor com o olhar, a chuva se intensifica fora da vidraça, e
dentro aquela tanta gente os ignora. Espiou por cima dos ombros, averiguou se as mesas
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próximas estavam ocupadas, por um sadismo que nem ele mesmo compreende deve querer
agravar a curiosidade. Funcionou, ela está com uma expressão de arrombar a alma.
– Não tente mentir pra mim – ela resmunga.
– Não vou.
– Não me ludibrie.
– Eu poderia conseguir?
– Provavelmente não, mas tentaria.
– Também não tenho razões pra fazê-lo, tenho?
– Conte-me.
– Um de nós não se deteve, matou uma pessoa.
– O quê?, quem?
– Acalme-se.
Agora é ela quem olhava pelos cantos, Alex também o faz, como parceiro deslocado que
resolve entrar na dança de tango, uma dança esquisita, o que importa não é exatamente o
prazer e a graça que vem dos giros ou dos sacolejos, mas tão somente manter-se, que esse já é
um desafio muito perigoso, as pernas se cruzando e evitando se pisar, isso é viver na beira de
uma queda, do tropeço fatal que nos fará cair e arruinará a tudo, e ele olha aos lados e a vida
continua da mesma maneira que sempre antes continuou, ninguém os distinguia, nunca o
fizeram, e ela deve convencer-se do que ouviu.
– Vocês o quê? – Júlia volta-se num sussurro alto, um chiado e um riso de ceticismo, tudo
junto.
– Vocês não, foi um, apenas um – levanta o dedo para fazer a ressalva.
– Quem?
– Martin.
– Martin está morto? – esbugalha os olhos, prestes a devorar a tudo.
– Não, nossa – abana –, Martin que matou.
– O quê?, impossível.
– Antes fosse.
– Alex – está boquiaberta. Ele pôde ver que a mão tremia, ela segue olhando para fora.
Ficam em silêncio, ela tenta tomar do chá, deve achar que a tranqüilizaria, a xícara mal vem que
é melhor improvisar, vai lá, pede uma massagem ou dá um longo bocejo.
– Eu sabia – ela continuou. – Não, isso não podia dar certo. Era claro que não.
– Dizer isso não muda as coisas.
– Com quem ele fez isso, com quem?, e como?
– Com Carina – pausa em respeito a um choque. – Como, bem, eu não sei direito.
– Como não sabe? – um sussurro quase gritado.
– Ele ficou louco, se excedeu com ela, ela falou alguma coisa e ele não se conteve, não sei,
se ele deu nela foi por causa de alguma coisa, e foi isso e acabou – fez um gesto de que não há
mais o que se discutir e jogou as costas sobre o estofado.
– Ele deu nela? É isso que você tem a dizer?, assim?
Dá de ombros em resposta, essas pessoas que sempre querem mais, não adianta fazer-lhes
as concessões, dá-se a mão e já lhe querem o braço com ombros de brinde, garradas na
saboneteira, é uma espécie de direito faminto que por você ser fraco já lhe querem montar nas
costas. A carícia, ele pensa, antecede o momento em que lhe põem uma cela.
– Alex, você tem idéia do que vocês fizeram?
Ele ergue a mão para novamente contestar a pluralidade do contexto, um, merda, eu não
disse que foi apenas um?, mas engasga, é que pensou ser inútil, e deve mesmo ser, tudo o que
pôde fazer foi deglutir a acusação, na verdade não deve chegar a ser uma, mas ele encara como
sendo, que, no fundo, lá no fundo não deixa de ser, é que as coisas são coisas diferentes no
aprofundamento dessas mesmas coisas, é mesmo um pouco estranho, mas ele está pensando
rapidamente e sabe que só não se pode emocionar, se o fizer estaria tudo acabado, que um
arrepio do coração, seja lá por que se dê, conivência ou concessão, distração, coisa assim, ou
quem sabe deterioração ou relapsa displicência, seria como se pôr de joelhos no chão e chorar,
desanuviar lágrimas tão engasgadas e com gosto de teias de aranha que ninguém nunca
saberia dizer há quanto tempo lá dentro dormiam.
– Carina! – levou a mão à boca novamente.
– É – ele coçava o rosto.
– Deus do céu.
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– Que a tenha.
– Você tem noção da gravidade do que aconteceu?
– Espero que você tenha.
– O que quer dizer com isso? – ela pareceu injuriar-se.
– Lhe sendo bastante sincero, não faço a mínima idéia do que fazer.
E por um instante ele viu o que pode até ser compaixão raiando no semblante, ela arqueou a
cabeça, entreabriu a boca, o fitou com jeito de sincera ainda que não conte nenhuma verdade,
diz-se estar assustada mas agora se dispõe a entendê-lo, lhe faz o favor de não martelar
sentenças, a pena é tal, tal, tal, tão avidamente. Ou é piedade pela morta que, por não ter uma
lápide, pode ser desviada para um qualquer, ou ele já merece o choro do seu próprio funeral,
mas que se siga em frente.
A verdade é que desde a chegada de Júlia muitas vezes a porta do bar se abriu e não
inesperadamente fechou, da mesma maneira supomos que se renovou a estadia das gentes,
umas de antes ainda estão lá, outras não, umas tantas são novas, de muito menos ele recorda-
se ao espiar, talvez venham escapar da chuva enquanto sentam no balcão a apreciar algum
quitute, ou um capuccino, por favor. Isso está implícito na inconsciência de Alex por dedução,
que por mais bobos que sejamos, o inconsciente ainda nos é muito observador, se é tão afoito
de perceber e engolir e ver que não se contenta em parar de ser, e por essa mesma ferramenta
da inteligência ele se apercebia de cada vez que a sineta tocava a indicar a entrada de grupos
ou saída de indivíduos ou vice-versa, o que lhe prova a sua imperfeição é que, como se viu, por
motivos de força maior ele ignorou todas as vezes ou a maior parte delas que isso ocorreu, tal
como provavelmente ignorou outra gama de acontecimentos menores e dispensáveis que seriam
desde a percepção dos espécimes que se apresentam lá no distante balcão, ou dar pelas
mudanças no noticiário da tevê, se é que ainda passam, e não os filmecos da tarde. É que acaba
por conseqüência trágica não percebendo algo que o importa, e que em breve, sem mais
suspenses, estará aí acontecendo para que ele e todos que vigiam a sua vida vejam.
– Certo, precisa me contar tudo o que aconteceu – Júlia parece mais moderada.
– Em que isso vai ajudar?, o que está feito se foi.
– Talvez em nada, mas eu preciso saber, se vocês precisarem de ajuda eu preciso saber o
que posso fazer, o que está ao meu alcance.
– E você estaria disposta?
No mesmo instante a outra voz soa, – Júlia – entoou, a familiaridade é única e incontestável,
aí tanto a moça do nome quanto ele tornam as caras à frente da mesa, diante da qual se ergue o
inconfundível.
– André – ela sussurrou, surpresa óbvia.
– Júlia, Alex – ele retificou os cumprimentos.
– Era você e os demais que eu estava esperando, André, não Júlia.
– Pelo visto ela se adiantou. Eu não viria mesmo para cá, se não ligasse para o trabalho dela
e tivesse descoberto que não estava, ainda assim acharia que estaria trabalhando, se não
ligasse para Alex e ninguém atendesse.
– E por que pensou que eu estaria exatamente aqui? – Júlia suspira.
– Ele não pensou, era apenas uma das possibilidades, de qualquer modo ele também
provavelmente me encontraria, há coincidências que nós provocamos – Alex responde.
– Algum motivo especial pra estar aqui, Júlia? – ele perguntou.
– Melhor você se sentar, André – Alex.
– E por quê?
– Porque eu sei do que aconteceu – Júlia respondeu e deve aí haver raiva.
André não parece mudar por uns longos instantes, olha como quem não se pronuncia sobre
nada, mas é como se olhasse o vazio, não faria grande diferença ele estar encarando um rosto
ou uma parede, finalmente pasmou e assoviou, porque o fôlego de baiacu inchado não agüentou
mais.
– Alex? – requereu o óbvio com tranqüilidade assustadora.
– Ela é simplesmente insuportável, eu não pude fazer nada, mas você pode, largue-a.
André curvou-se e senta-se, arrastou-se no banco até o lado de Júlia, não tão perto, que a
intimidade de agora não o permite, e intimidade é coisa de momento. Abaixa o rosto e pôs a mão
sobre a testa, óbvio que lhe falta qualquer alicerce, âncora, agora ele não sabe tanto o que fazer,
o cara cheio de certezas, ele talvez não saiba há muito tempo, mas é um titã, é hercúleo, e
silenciam todos por algumas eras. Em que me meti?, pergunta-se Alex, pergunta das mais
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simples que podem se instaurar, pensa inclusive se não é a hora derradeira para levantar-se e ir-
se embora, agora Júlia tinha André e principalmente o vice-versa, eles se bastariam num longo
discurso calado e discussão histérica sobre a vida daqui em diante, sobre limites, isso vale para
o antes, agora e ao depois, levariam o assunto para quando a mentira é conveniente entre duas
pessoas a tal ponto que chegarão ao ápice onde certamente muito chorariam entre si, lágrimas,
ombros, olhares severos e pesados, será que tudo está arruinado?, bem, Júlia falaria que numa
relação de confiança nunca se deve mentir um para o outro, e André diria que não mentiu, que
omissão não conta, que às vezes é para o bem, que se deus escreve certo em linhas tortas é
essa uma inspiração dos céus. Alex é o inútil coadjuvante, de quem se esquece e só acaba por
atrapalhar, e que acha que o rapaz curvado, André, já está na fase das lágrimas, fase que não
se dá por um só e exclusivo acontecimento, mas pela pressão que os outros impõem sobre o
que devemos achar desse evento, um montinho de sussurros que acabam por nos enlouquecer.
Júlia o afaga, é essa uma concessão, a concessão hostil de alguém que quer ter todas as
perguntas e as respostas à sua disposição, era quase materno o que agora fazia, portanto o
aconchegou, envolveu-o nos braços, mas dá a entender que logo vai tirá-lo de lá e de repente
estapear.
– Por que não me contou?, isso é que foi inadmissível – sussurrava a André.
– Não é óbvio por que não contei? – ele deve ter hesitado. – Alex, o que disse a ela?
– Basicamente, tudo.
– Aqui? E se alguém ouve?
– Se você for partir do pressuposto que estamos sendo vigiados...
– Foda-se, você também, não é? – André dá com as costas no banco.
– Alex não quis contar porque achou que era você quem devia falar isso pra mim – Júlia
interveio. – E estava mais do que certo, e também acertou ao me contar – é, tem que lhe
esfregar na cara que ele cedeu. – Como você pôde manter isso em segredo?, de mim?
– Não há um pouco de compreensão?, se eu não contei foi porque era tão recente que eu
precisava de mais tempo, pra saber como eu devia fazer, como contar, pra saber sequer o que
depois eu ia fazer, isso você não pode considerar?, isso você não consegue levar em conta?
– Ela soube por um de nós que cogitamos abandonar as coisas – gole de café.
– Por Gabriel, na verdade.
– Achei que tivesse vindo por preocupação comigo, ontem quase não conversamos, eu te
evitei, eu sei que eu estava estranho, não tinha como ser diferente – um pouco de
ressentimento.
– Óbvio que me preocupei contigo, o que me disseram só foi mais uma razão pra que eu me
preocupasse ainda mais e procurasse saber de algo, um algo que é claro que havia pra se
descobrir...
– Não, eu sei – André acatou. – Já soube até que estão avisando os outros que não estavam
conosco.
– Avisando de quê? – Alex faz cara feia.
– De que talvez terminemos.
– Eles vão querer saber o porquê.
– Resta outra solução se não uma hora contar? Você já se antecedeu. Se acabar tudo de
vez, acaba, é esperado, quem quiser sair, sai, cada um por si.
– Você mesmo tinha dito que não poderia esconder isso dela por muito tempo... – Alex.
– É isso, André?, pretendia esconder de mim? – Júlia o fitou.
– Eu não vou discutir isso – o olha feio –, a intenção era não envolver mais ninguém.
– Estar envolvida sem escolher ou saber é ainda pior – Júlia.
– Desculpe, André – Alex abaixa o rosto.
– Não, não – era André agora quem apoiava a testa nas mãos. – No final isso realmente
aconteceria, você acabou fazendo o inevitável, ao menos espero, é só que eu não esperava,
agora só me resta aceitar.
– Mas escutem, o que vocês farão? – Júlia falou.
– Acabar – Alex fala com a naturalidade de quem gira a xícara de café.
– Antes você parecia estar em dúvida, então pense, ontem à noite, o que você faria?
– Não havia nada definido – André respondeu, a olhava.
– Bem, o que eu faria... – Alex.
– É, o que faria? – Júlia.
– Ia pensar por algum tempo – Alex.
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– É o melhor a ser feito, e por acaso já começou? – Júlia.
– Na verdade eu nunca parei.
– Acho que também preciso de um café – André.
– Uma hora ia acontecer algo, não é, Júlia? – Alex.
– Por isso eu saí.
– Por isso você saiu – mais um gole.
– Sabia que os encontraria aqui – uma outra voz soou.
Mais uma vez não havia se dado conta de que alguém chegava, pelo visto ninguém também
o fizera, mas na frente deles jazia o moço da barbicha ruiva, ele mesmo, conhecido como Stern,
molhado e velho, mas ainda ele mesmo.
– Stern – André volveu os olhos e se deteve diante dele. Usava uma jaqueta sobre a blusa
social, Alex deduz ser o que usa no trabalho.
– Júlia? – Stern esconde a surpresa.
– Olá.
– Alguém quer um cigarro?, não são mais os teus – Alex falou para Stern e para todos.
– Eu não fumo – André.
Stern acenou que não e os olhou. – Essa é uma reunião informal?
– Um encontro de amigos, também não quero mais fumar – Alex.
Ele não hesitou em sentar, então se esgueirou pelo banco de Alex e se colocou ao seu lado.
Parece um pouco desconfortável quando ele percebe Júlia a acompanhá-lo com um sorriso
ligeiramente torto.
– Quer algo? – Alex.
– Já foi difícil comer pela manhã.
– Podemos pedir uma cerveja.
– Não, melhor não, obrigado.
– Stern – André veio falar.
– Oi.
– Vir aqui no Schneider tem alguma relação com ter avisado os outros sobre aquele
assunto?
Stern não reage, deve estar fingindo olhar André mas está mesmo é guardando-se de Júlia,
enquanto Alex se permite não se meter, finalmente um cenário para se entreter, que prefere ser
espectador que se envolver.
– Não se acanhe – Júlia meiosorriu.
A mocinha de cabelos vermelhos vem aí, sabe que não o deixará em paz por muito, as
franjas escorrem pelas bochechas e isso não o interessa nem um pouco, está com aspecto mais
jovial e isso igualmente não o interessa, Alex rosna suas mágoas mas não consegue mantê-la
distante. Querem pedir mais alguma coisa?, ela vem com essa, é mais esperta do que mostra,
mais do que usualmente insinua, certamente de algum lugar que Alex não percebia os estava
vigiando de maneira que percebeu que vinha chegando mais gente, o que lhe custaria afinal
espionar uma conversa ou deixar de fazê-lo?, sabe-se que em alguns momentos de seus
serviços, qualquer pessoa que lide com públicos irá relaxar um pouco e apenas observar os que
lhes cercam, deve ser por essa prática que o primeiro dos segredos nasceu, e o cochicho que
nos comprometeu.
– Você me traria um café preto, por favor? – André.
– Traria sim, senhor – como se estivesse realmente fazendo-lhe um favor, não é, mocinha? –
E para o senhor?
– Não – Stern, e a expulsa com aflição.
– Escute, Stern – a própria Júlia prosseguiu –, você estava ontem à noite, não é?
– O que é isso?, uma piada escrota? – Stern se preveniu.
– Ouça ela, o pior é que não – Alex aos poucos se detém.
– Escute, precisa saber que eu sei de tudo e que estou do lado de vocês – ela manteve a
tranqüilidade, na verdade Alex não sabia se o que acabara de ser dito já estaria em seus
pensamentos desde o início, na verdade lhe foi surpreendente.
– Não, isso devia ter ficado entre nós – Stern acenou negativamente, passou a mão pela
barbicha.
– É? E até quando poderiam levar isso adiante sozinhos? – Júlia ostenta o poder que não
tem.

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– Levar adiante o quê?, o que tínhamos a fazer é esquecer, agora temos de nos preocupar
que gente de fora não fique sabendo.
– Gente de fora? – ela parece ofender-se.
– O que tem em mente para quando precisarmos falar sobre o que você espalhou com os
demais de fora, Stern? – André estava de olhos fechados, pressionava a testa com o polegar.
A garçonete retornou, na verdade percebiam agora previamente a sua presença por Alex tê-
la olhado, e tê-lo feito como em sinal de que alguém vinha, um instante e se estabelece o pacto
do silêncio. Recolheu a xícara vazia sobre a mesa, por lógica deduz-se que seja a de café,
sendo que Júlia pouco tocara no chá, e recolhida a xícara borrada da mesma bandeja brota o
café preto, colocou-o sobre a mesa e partiu, a entidade do café o excita a acordar.
– Inventar alguma coisa, é óbvio, dizer que algum dos nossos falou demais e havia gente
demais sabendo, gente que sequer conhecíamos, acontece que nós todos concordamos que se
vazasse seria ruim. Ou simplesmente poderíamos falar que não era mais da vontade da maioria,
e pronto, nós mesmos sairíamos, as coisas seriam aniquiladas por insuficiência.
– Então o que tinha realmente em mente era terminar, não só pensar em fazê-lo – Alex.
– Não acha que ficariam curiosos? – André continuou.
– A questão não é a desconfiança, mas de que ela importa sem evidências.
– Está falando como um advogado, não é hora pra isso – Júlia falou.
– Eu sou um advogado, lamento – trincou os dentes.
– Nós dois somos, Stern – André se impõe –, isso não diz nada, o que eu sei é que a
inteligência das pessoas sobre as coisas simples se baseia no senso prático, no caso é a
curiosidade que pode incitar muitas perguntas, e então outras coisas que talvez não queiramos
descobrir.
– Eles não precisariam ficar sabendo, escute, não se trata apenas de nossa situação. Se
souberem o que aconteceu, isso vai prejudicá-los.
– Vocês não têm o direito de omitir isso aos teus – Júlia.
– Moça, entenda uma coisa, ao menos que você nos denuncie, agora você é cúmplice de
assassinato – era perigoso entrar em detalhes em voz alta. – Agora fale de novo sobre direito de
esconder isso dos nossos...
Ela se calou. Alex gosta de vê-la se calar.
– E ainda há outra coisa – continuou. – Por que você diz estar envolvida?, você se retirou
por livre e espontânea vontade, não foi?, não te contar nada seria zelar por sua paz. A paz que
você escolheu.
– Me retirei, mas agora estou voltando.
– Júlia? – André.
Tudo o que Alex pôde fazer é olhá-la, ela ainda jaz impassível, que às vezes as palavras
vêm rápidas demais para que ela mesma possa se entender, das intenções aos resultados etc.
– Por quê, eu não posso?, não vão me aceitar?
– Nós nem sabemos se vamos aceitar uns aos outros – André.
– Essa é a prova de que não sou uma covarde – falou olhando Stern. Ele se intimidou, se
não muito apenas se convenceu, colocou as costas para trás e permaneceu quieto.
– Eu realmente gostaria de uma cerveja – Alex meiosorriu.
– Sua cumplicidade não está sendo posta em jogo, Júlia – André.
– Prefiro lhes ser cúmplice injustamente que ser apática.
– Stern, com quem você chegou a falar? – Alex.
– Andriolli, León, Sylvia, os gêmeos, bem, avisei um dos gêmeos, Bonaparte, e – pensou por
um instante –, só esses.
– Só? – Alex sorriu. – Agora só me explique uma coisa que minha inteligência não foi capaz
de perceber, você simplesmente acordou e foi iluminado com a idéia de ligar e lhes falar, bom
dia, olha só, sabe aquela sociedade estranha em que você se metia?, então, não ligue para os
motivos, mas está acabando.
– É claro que não. Para começar eu nem dormi, mas então, eu fui lhes falar para marcar um
encontro.
– Aonde, aqui? – André intrometeu-se.
– Não, claro que não. No teatro. Eu disse que era muito importante, acabou ficando pra
daqui a dois dias, na quarta-feira de madrugada. Alguns reclamaram, mas eu ressaltei a coisa da
importância e disse que não podia falar mais por telefone, dei um tom de mistério, provavelmente

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ficaram preocupados, então disseram que dariam um jeito. Pra intimidar alguns eu tive que dizer
aquilo de estarmos pensando em acabar, foi um ponto crucial.
– Espera. Não avisou Gabriel?
– Gabriel – pensou alguns instantes –, não, ele não.
– Então há mais gente falando?
– Isso eu não sei. Mas pode ter se espalhado.
– Bom – André baixou um pouco o olhar –, não foi exatamente uma má idéia.
– Como você faz isso sem consultar ninguém antes, rapaz? – Alex faz que vai estapeá-lo.
– Se não quiserem eu cancelo. Achei que era o melhor a ser feito.
– Eu também concordo que seja uma boa idéia. E com os demais, com quem você não
falou? – Júlia.
– Eles eu posso contatar depois, não os achei por telefone, a maioria é claro que não tentei.
Você pretende ir? – Stern.
– Se você não tiver nenhuma objeção – Júlia.
– Claro que não tenho, Júlia, não me entenda mal, isso é realmente contigo.
– Quem diria, logo a senhora que por aquilo saiu, agora já não poderá mentir quando
falarmos que por isso também voltou – Alex se espreguiçava e ria.
– Não é exatamente que eu faça gosto.
– Nem precisa tentar me convencer, sou apenas um cara cutucando a onça com vara curta.
– Isso você podia deixar para que adivinhássemos.
– Vejam bem, ainda temos que ponderar o que falaremos para os outros – André os
convocou.
– Antes disso, me digam se aquilo não é coincidência demais – Alex apontou na direção das
mesas e do corredor.
E o que Alex já percebeu vai atrair a atenção dos demais, é um episódio de rostos se
curvando, todos se certificam de que era óbvio que quem vinha caminhando através do corredor
entre a porta e as mesas era o rapazinho loiro e magricela que se estabana em passos
tropeçados e ajeita sobre a cabeça o gorrinho cinza-escuro de encharcado. Bublitz olhou para o
balcão, para as mesas do outro lado, chega a se distrair um pouco com a televisão, ou os ignora
ou quer fingir que percebeu mas está de charme, então olha para as janelas e só depois de um
tempo é que vem a identificá-los, começou a dirigir-se.
– Você o chamou antes de vir, Stern? – André perguntou.
– Sim, naturalmente.
– Chamou os outros de ontem?
– Chamei.
– Para quê? – Alex perguntou ainda a olhar o garoto.
– Pra que conversássemos.
– Martin. Chegou a falar com ele?
– Disse que preferia descansar, não dormiu a noite toda. Eu não insisti.
Bublitz prostrou-se diante da mesa. Seus olhos parecem cansados, mas ainda sorri.
– Que chuva, hein? – murmurou, sacudindo-se e encolhendo os braços.
– Como vai? – Júlia o olhou.
– Tudo bem, Júlia, e com você?
– Caminhando, como se deve – sorri.
– Bublitz, caiu numa poça? – Stern.
– É ao que eu me submeto, é o quanto eu me sacrifico, se eu perder o meu emprego vou
passar a cobrar um salário a vocês – e senta-se exatamente ao lado de Stern, logo depois tira o
gorro da cabeça e o torce com a palma da mão.
– Foi trabalhar hoje? – André perguntou.
– Na verdade só pego no turno da tarde, mas tinha que acertar algumas coisas no prédio. E
aí?
– Não quer tomar nada, Bublitz? – Alex passou o braço por sobre Stern e o cumprimenta.
– Seria bom, mas será que eles servem um chocolate-quente aqui?, ou pão na chapa, tô
congelando.
– Uma cerveja não seria melhor?
– Agora não tem como, será que não tem chocolate-quente?, senão mesmo um café.
– Eu não estranharia se a garçonete estivesse chegando, terá a chance de perguntá-la.
– Certo. Mas e então? – o garoto olhou a todos, sua expressão é de um tacho espertinho.
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– Bom, acho que é curiosidade de todos saber o que você pensa que deve ser feito, Bublitz
– André falou.
Foi então que Bublitz olhou para Júlia, sua expressão é de insegurança que parece requerer
o aval de ninguém ao certo, um aval de ninguém que o possa dar, que desde o início o
rapazinho a deve ter percebido, isto é, a Júlia, como mera figura de ilustração, natureza morta
num cesto de coisas já decompostas, e talvez por um momento julgasse, Alex considera, que a
presença de todos ali poderia não significar mais que um desses encontros a fim de nada, que
esse parece ser o melhor de todos os fins, ainda que a leveza contrarie o nosso enredo e a
sabedoria do garoto não se arrisque a qualquer sorte de comentário comprometedor, e Alex
bocejou e mastigou o ar.
– Júlia sabe do que aconteceu e vai nos ajudar – André respondeu o seu olhar.
– Como ela pode?
– Isso ainda nós vamos ver. Mas aliados a mais não se desprezam, certo? – ela falou.
– Claro, está certo. É que eu estava pensando mesmo em umas coisas.
– O quê? – André quem perguntava.
Ele se curva diante da mesa, deu uma olhadela para o lado e só depois falou, – Sabe, eu
pensei durante toda noite e, bem, e se fôssemos à polícia?
– Como é? – Stern virou-se.
E por uns instantes Alex lamenta-se de haver tantas pessoas diferentes no mundo, às vezes
os outros são intoleráveis, então será piedoso e há de avisá-lo disso, por isso curvou lentamente
o pescoço, câmera-lenta das que antecedem a desgraça, que sua vontade é mesmo de pegar o
copo escaldante do café preto por ali e jogá-lo no rosto, não é que seja exatamente raiva, é
apenas como se dissesse, olha só, escapuliu das minhas mãos, exatamente como eu creio que
sua língua esteja escapulindo da boca.
– Bublitz? – André o fita com uma seriedade que quem não é alvo também se intimida.
– Eu pensei em várias formas de explicarmos as coisas de forma que não seríamos
culpados – falou balançando a cabeça, parecia estar ratificando algo óbvio.
– Culpados somos, independente das formas – Alex.
– Rapaz, que merda você tá falando? – Stern.
– Olha, nós mesmos somos as testemunhas, e se não souberem de nada, estou falando do
pacto e das coisas relacionadas, podemos inventar a história que for enquanto ainda é tempo, e
aí tiramos esse peso de todo mundo, não é?
– Seu policial, nosso amigo escorregou e caiu em cima dela, é uma pena, mas ela não
resistiu.
– Não, Alex, me escute – ele gesticula freneticamente. – Pra início de conversa nós não
temos uma causa para o que aconteceu, compreende?, isso é, cinco pessoas não iam acobertar
uma só pessoa sem uma boa razão, e a boa razão ninguém vai ficar sabendo, que é exatamente
o nosso trato, compreende?, agora veja só, se todos nós dissermos...
– Cala a boca!, cale essa boca! – Stern, com todas as sílabas.
– Não, escute, deixe-o falar – André acena com a mão.
– Obrigado, André – o garoto engole um pouco seco. – Se todos nós dissermos que ela se
excedeu no álcool, nas drogas, não sei, que tomou alguma coisa e ficou louca demais pelo resto
da noite, aí estamos já meio que desviando a culpa pra ela – dá um risinho de quem reconhece a
própria genialidade –, podemos falar que ela caiu de cara numa mesa, não, podemos falar
assim, que ela foi usar o banheiro e que demorou demais, ficamos preocupados, achamos que
ela estava passando mal, mas quando abrimos a porta era tarde, vimos ela esborrachada e
ficamos desesperados, estava sangrando demais, o azulejo todo vermelho, a gente gritando,
mais sangue ainda, a gente gritando mais ainda, gente vomitando, nossa, gente saindo, gente
chorando, aí tentamos ajudar, boca-a-boca, sei lá o quê, mas era realmente tarde, mas tentamos
ajudar, geralmente é o bastante, viu? Entenderam a idéia? Por que a gente mentiria pra
acobertar uma coisa dessas, hein?, olha, ela não era importante, não era rica, não tinha nada
que podíamos querer, ela não tinha nada, ela não era ninguém, entende?
– Podem achar que vocês a estupraram ou coisa parecida – Júlia.
– Qual o sentido disso, porra?
– Parece um plano interessante, salvo por um detalhe quase nulo – Alex apóia o queixo nas
duas mãos enquanto o olha.
– Pelo quê?
– Quando te perguntarem por que jogamos o corpo na baía, aí o que você diz?
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– Vocês a jogaram na baía? – Júlia.
– Acho que isso não vem mais ao caso – André.
– Estávamos desesperados! – erguia os braços, está tentando passar confiança.
É aí que Stern dá um tapa na cabeça dele, ela moveu-se bruscamente para frente, isso é, a
cabeça, e o rapaz só emitiu um gemido agudo enquanto suas pernas por debaixo se esbarram
na mesa e chegam a debruçá-la para cima e fazê-la voltar ao chão, é um só instante, um
instante sonoro, onde a xícara e as coisas habituais daqui de cima pularam como num rodeio.
Porra!, eis a manifestação do sábio entendimento da situação, e afastou-se com a mão na
cabeça. Certo, obrigado a todos pelo estardalhaço, que agora é claro que algumas das pessoas
mais próximas em volta estão a bisbilhotar, antes tabefes que distrações quotidianas e
conversas, problema é muito mais interessante que tédio, se é que é tédio que as possui, mas a
julgar pelo interesse eminente em vidas alheias, que vez ou outra mostram suas caras, ou deve
ser tédio ou apreço de vampiro, ou os dois, como Alex, que ri, assim viu André encolher-se e
Júlia ainda manter a mão na boca, mas deve mesmo ser ainda do susto de saber como o corpo
foi despojado, coisa bem atroz, de gente sórdida, e Alex ri uma vez mais.
– Fica quieto, fica quieto!, antes quieto que atrapalhando com essas merdas.
– Bublitz, não faz o menor sentido – André deu de ombros.
– Ao menos eu tô tentando ajudar – gaguejou, fitando Stern. – Você deu alguma idéia
melhor?
– Melhor nada a isto – e faz que vai bater de novo.
– Não – e se prepara para brigar.
– Certo. Vamos todos considerar a essência da sua proposta. Ainda assim é muito arriscada
– André.
– O momento é bom para uma bebida – Alex esfrega os dedinhos na mesa.
– Olha, por mim, vocês fazem o que quiserem então, tá certo?
– Calma – Júlia murmura –, vamos pensar numa solução que será a melhor para todos,
certo?, o importante é que vocês estejam unidos.
– Bem, veja só, ela sintetizou tudo, é uma mulher brilhante – Alex.
– E Martin?, onde está Martin? Devíamos estar dando apoio a ele, não é? – Bublitz.
– Ele preferiu não vir. Pra ele é mais terrível do que para todos nós, vamos respeitá-lo –
André.
– Verdade, nesse caso está certo, tem razão.
Passos se aproximaram, inicialmente é inteligente pensar que se tratará novamente de uma
das garçonetes, a dos cabelos vermelhos com a devoção inata ao sarcasmo e ao aborrecimento,
ou a meiga morena rechonchuda, enfim, era de se esperar que tivessem notado a presença de
Bublitz, também poucos dos que estavam próximos já não o haviam feito, mas também não é
uma estupidez imaginar que a última peça que os faltava finalmente estivesse chegando,
olhemos, e realmente o era, o notaram e logo se prostrou em frente da mesa, da mesma maneira
que todos os outros a partir de Júlia fizeram, que deve ser mesmo culpa dela, esse talento de
reações em cadeia e de nos pôr em angústias de se roer as unhas.
– Bem, oi – Habib estendeu a mão com um sorriso trêmulo para a garota, ela teve de
reclinar-se um pouco para cumprimentá-lo, assim que ela o faça, sorrirá.
Aos demais ele não se deu ao trabalho, apenas acenou com a cabeça e não muito
rapidamente se pôs sentado ao lado de André, ocupava finalmente a última vaga da mesa.
– Como é que tá a chuva lá fora?, o vidro embaçado engana, dá pra ver muita pouca coisa. –
André.
– Estiando.
– E aí, quer tomar alguma coisa? Uma cerveja? – Alex.
– Não, não.
– Antes que você não queira, ou queira comentar alguma coisa referente àquele assunto,
saiba que Júlia sabe de tudo – é engraçado Stern a falar pausadamente.
– Hum – é claro que isso não quer dizer nada.
– Eu particularmente fiquei assustado, mas já previa que André ia falar, então nem estranhei
quando a vi aqui – Bublitz.
– Na verdade fui eu quem disse – Alex.
– Isso que é amigo.
– Bublitz – André o reprimiu.
– Não tive culpa, ela é insuportável, resisti mas não pude fazer nada.
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– Alex se deixou seduzir, tenha cuidado com a sua noiva, André – Stern deu um risinho.
– Realmente muito engraçado – André. Em seguida ele olhou para Júlia e ela sorria.
– Habib? – e Alex o olhava, não será muito difícil perceber que sua feição estava estranha a
conservar o rosto baixo, sem rumos, morto, o queixo escondido.
– Tudo bem? – Júlia enruga o rosto e pergunta.
– Não sou tão bom com palavras – respondeu.
É natural que inicialmente ninguém entenda o que isso vem a significar, ele falou de
palavras, por acaso precisou de alguma?, nada mais completo do que sugerir-lhe uma cerveja
foi-lhe dirigido, até onde parece não precisar ser um mestre em oratória para manipular o
alfabeto ao nível de responder uma requisição do gênero, isto é, ao invés de murmurar-se um
hum, não precisa se compor uma ode ou coisa assim em torno disso, pois então. Assim, em
silêncio, se houve naquela mesa alguma pergunta, essa foi de cada um para os seus respectivos
cada uns, ainda assim alguns olhares ainda aguardam com suas cada umas expectativas, como
os de Stern e Bublitz, André já é um pouco mais diferente, que jaz sério como são as pessoas
adestradas que estão prontas para notícias graves que podem nos comunicar, feito entrasse
pela porta da sua casa e gritassem, matamos mais um, e ele continuaria a ajeitar o colarinho,
pessoas assim estão prontas para essas notícias porque são pessoas que estão dispostas a
resolvê-las, já Júlia detém mais do que pode-se entender como curiosidade de criança, mas de
infantilidade que não se torna clara, e, claro, como sempre em alguma coisa há Alex, aqui está
Alex, apesar de no momento ele mesmo saber não haver nada em seu olhar mais interessante
que um intuito de aprofundá-lo nos olhos-alvo, sabemos que ele buscava ler na íris do rapaz não
só o motor que o mobilizou a essa fala momentânea, mas o que provocou a postura enrustida e
toda a conjuntura que antecedeu a ela, porque não é ser de se contentar com pouco, mas aí ele
cansa e desiste.
Enquanto ainda o olham ele se mexeu, sim, não está apenas se esquivando das atenções, é
claro que elas devem ser desagradáveis, sobretudo é um sinal que a espera estava acabando, o
calvo colocou as mãos no bolso do casaco de lã que usa, bolso que por sua vez era o bolso
próximo ao peito, não é que vá arrancar o coração e sorrir, e dizer tomem, mas que dele com os
dedos tirará uma folhinha de papel, era pequena e simples demais para ser algo sugestivo.
Desenrolou algumas vezes, o amassado do papel crepitou, finalmente aberto toma-se fôlego.
– Tenho certeza que o que aconteceu ontem foi algo que no fundo já esperávamos. Estou
certo que fizemos uma escolha e somos responsáveis por ela, cada qual da sua maneira, mas
todas iguais na origem. E foi uma escolha por riscos, uma tentativa, a se descobrir o que viria. A
liberdade nos colocou em xeque, pois vimos o que ela é capaz de nos fazer – parou um instante,
reconsiderando. – Acontece que não esperar presenciar, ver uma coisa não significa que ela não
pudesse acontecer. O exemplo que Martin nos deu, e que Bublitz posteriormente também nos
deu, na ponte, é uma certeza de que realmente podemos começar a entender o que somos nós,
que podemos nos enxergar de uma maneira que, eu acho – parece improvisar a idéia –, nunca
antes pudemos. É um pouco ridículo, eu sei – isto ele parece ter improvisado. – Estamos num
caminho único, acredito que todos estejam com medo. Lembro-me também que faz parte do voto
se comprometer com o fato de ser corajoso. Não acho que coragem de verdade foi realmente
necessária antes de ontem. O risco de enfrentarmos os nossos temores pode ser grande. Ainda
assim, acho que seria hipocrisia se eu não estivesse dizendo isso. Se realmente acreditamos no
que foi nos dito desde o início, tenho motivos para encarar o que houve como um primeiro
grande problema de uma tentativa que nunca ninguém antes levou a cabo. Procuro apenas
extrair, do que nos abalou, algo melhor. Acredito que todos estejam fragilizados, mas acho certo
mostrar o que penso. No final tudo isso será, ou não, da vontade de cada um. Pelos riscos
apresentados, como pelo que acho que estivemos fazendo, a minha opinião é que devemos
continuar.
E aí o longo instante de silêncio que já havia se originado ganhou uma continuidade fatal,
mais do que nunca pretendia nunca mais acabar, não há nesse universo pensamento que se
possa formular com coerência, ela não há mais. Todos são estátuas, nunca ouve na história
ouvintes tão compenetrados e mortos. Ao término, Habib retrai novamente o rosto, a única
diferença é essa coisa que se confundiria com um suspiro, o alívio de que talvez nada mais lhe
baste além disso. A Alex particularmente não ocorria com clareza o que isso viria a representar,
era como se estalos em seu cérebro estivessem em andamento durante o discurso, uns
caleidoscópios pelos quais olhava, ou mostravam umas figuras tão absurdas, cadáver caindo,
cadáver dizendo até mais, cadáver agonizando e a gente em volta olhando e sorrindo e dizendo
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umas às outras, fez parte, vamos em frente, ou por fim vê-se o próprio rosto, grita-se de ah num
susto sem igual e tudo trinca. Mas uma nuvem abandonou os seus olhos, as coisas se
permitiram ser mais claras, as coisas se reduzem àquilo e perdem o mistério que o medo põe
onde não há, que as tramas se complicam de antemão pelo medo de enxergar, é o medo inicial
dessas nossas crianças a fazer birra e choramingar, não querem dormir no quarto escuro para
não reconhecer que lá não há nada demais. Pensou sobre o que estaria ele esperando para ele
mesmo ter madrugado a noite passada e escrever no caderninho essas linhas, essas perguntas.
E sabe qual tua resposta?, esperava que lhe tocassem na porta e quando fosse atender
estivesse ali, a sua espera, a presença metafísica, algo que simplesmente lhe irradiaria vigor, a
divindade que não existe, mas ignora-se isto e ela diz que habitaria em você, aquilo que poderia
ser a iluminação, o ânimo, a certeza, um punho de ferro e uma vontade de fogo que às vezes a
vida trata de nos tirar, de nos deteriorar, a razão é muito frágil, é um caminho no qual
constantemente é suicidada, e essa certeza da porta é um mito muito mais completo, religioso,
apaixonante, se atiraria aos seus braços, abraçando-o, tirando a roupa e dizendo-lhe, me tome.
Estava certo disso, mas não esperava, estava surpreendido e só não boquiaberto porque não
beira o ridículo e na verdade não reage às coisas com caras brutas. Só então se lembrou que
sempre foi isso, essa iluminação, essa revolução imparável que o tinha movido, que apenas
havia se esquecido. O cadáver tinha dado um baita susto. Olhou para o lado e viu que só então
André reuniu coragem suficiente para reclinar-se um pouco para trás, há pouco talvez não
sentisse o poder de respirar. Começou a fazê-lo num porte de análise, parecia decompor aos
seus sentidos o que ouvira, acabou pasmando de tal forma que foi forçado a virar o rosto, não
mais suportaria aquela estática, e Júlia está mesmo bastante séria. E ainda via os outros, Bublitz
faz muitos instantes que está com a testa toda enrugada, essa máscara lhe grudou no rosto,
coube tão bem que não mais quer sair, o outro era Stern que parece um zumbi que opta pela
palidez para se camuflar, diz que não está ali, quem quiser que deixe recado na secretária
eletrônica. Assim, Alex os está pesquisando com o canto das atenções. Incrível, pensa, que vá
ser assim que nos recobramos da morte.
– Nossa – alguém murmura sem muita entonação.
– Então – Alex falou –, nós, os responsáveis por isso, temos de escolher continuar ou não.
Continuaram todos em silêncio, nem a gravidade dessas palavras os havia tragado, não
havia sido eles a despertá-los. No fundo, ele mesmo pensou, Alex, você pode abrir as portas
necessárias para a descoberta dessas proezas em nossas almas, lembre-se que formulou uma
imagem onde havia deus ao lado de fora de sua casa. Sempre quando preciso as abriu com
pontapés. O faça, ordenou. Ele os olhou mais uma vez.
– Eu continuo – então disse, a iniciativa pessoal traduz mais que comandos impessoais.
Os sons do bar ainda soavam, somente eles, se dispersavam sem origem específica ou fim.
Parecido com eles. Os da mesa se olham sem fim uns aos outros.
– Continuo – Habib acatou, com a voz áspera.
– Eu continuo – disse Júlia.
– Continuo – André grunhe.
– Eu também continuo – Bublitz.
Stern inclinou-se ainda mais sobre a mesa, olhava Habib, inicialmente era uma apreciação
séria, indefinível. Acatou positivamente e demonstra respeito. – Continuo.
Alex sentiu-se como se acabando de subir uma escadaria de joelhos, ralou as rótulas como
penitente que sente não ter escolhido o martírio e, ao finalmente alcançar o topo percebesse que
não há razões para não ter subido de pé. De todo modo, se santificou. O mesmo caminho foi
percorrido, poderia sentir-se um tolo, mas o suor derramado não necessariamente teria sido em
vão, acontece que o seu imaginário, que insistia em teimar com a expectativa que em tudo havia
sangue ou que em cada esquina havia um beco propenso a um vulto saltar-lhe na garganta e
cortá-la, começava a ser desmerecido. Se por alguma causa mantinha seus olhos imersos numa
poça de sangue, já começa a pensar no risco de limpá-los, assim como no porquê de mantê-los
assim, que abrir a sua guarda é como oferecer o peito a leões, assim como na fábula do lobo e
das ovelinhas, um dia saberia de um rugido canino próximo e resmungaria que bobagem, é
imaginação. Não se sente propriamente receoso, só não aprendeu a se expor, porque assim é
bem mais seguro.
Ele é a pior das feras, como também a mais doce, e isso é o que realmente o mobiliza,
estava reunido e banqueteando com outras feras, as quais podem lamber-lhe as feridas ou
arrancar-lhe a mão, vale o risco, e isso é fantástico. Os olhos negros de Júlia o prendiam, ela
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parece pensativa, é melhor não mirá-la por muito tempo. Disseram que a garçonete logo viria,
Bublitz murmura, pois então nos esqueceram. É, felizmente nos esqueceram, conclui assim Alex,
é melhor que nada fora de nós mesmos intervenha, somos um universo a parte de todo o resto,
na verdade, melhor que nada fora de mim mesmo intervenha em alguma coisa, sou um universo
a parte de todo o resto, sequer sei o que faço aqui. E tem de deparar-se com as feições
envelhecidas de André, umas covas profundas, rosto que não parece capaz de sorrir ou esticar-
se, rígido e seco, talvez imerso num processo prévio de decomposição, o rosto arranhado pela
barba rala que cresceu feia, e o seu não estará diferente. Até há pouco tempo André carregava
as marcas de um sonambulismo profundo, só por agora sua face vinha a corar, o sangue fluindo
nos conformes lhe devolvia a cor de vida. Foi averiguar, olhando-se na vidraça, se consigo se
dará o mesmo, primeiro se assusta por imagem nenhuma responder-lhe e acha ter morrido, os
espíritos não refletem, mas é que de tão embaçada e transparente ela esqueceu-se de ser
espelho, tudo o que lhe pode mostrar é que a chuva não passou, apenas caía inaudível porque
pode ser uma ilusão muda ou som que se acaba ouvindo com atraso. A chuva sempre põe as
coisas no seu devido lugar, os ratos ao esgoto e tudo o mais, com ela vem o instinto de se
encolher, força as pessoas a se fecharem, se esconderem, e é comumente de jeito lúgubre
porque é o que somos quando nos percebemos ilhados. Mas Alex sente-se aconchegado, algo
em algum lugar o esperaria, além da cortina de água o seu futuro o aguarda, sensação
acalentadora, a esperança que não se sabe de onde vinha mas teima em vencer-lhe a sanidade,
e essa esperança é exatamente o que o tateava, beija suas vértebras, causa calafrios, não
prestou satisfações e não se definiu por que vinha, apenas se apossou.
A solidão se vence e que então se chame de comunhão o resultado desse encontro, e se
tomarmos estes caras que se vêem como sendo apenas a alegoria do todo que se conhece,
atribuiremos à comunhão, a união e, por que não, até mesmo ao amor, o grau de único resultado
certo e permanente no percurso de qualquer uma das coisas viventes, não exatamente o
objetivo, apenas um acontecimento inevitável que se pode ou não aprender a admirar, como
admitir que há males que vêm para bens, uma ironia que no fim resulta em grande período de
inércia comunal. A união pode ser um prêmio animador de se conquistar numa vida que por
muitas vezes põe mais a sós cada um consigo mesmo. Mas tudo isso é insustentável. Nada é
permanente. As coisas se movem e caem. E são cruéis e são belas sendo assim. Abaixo de tudo
isso tem de existir alguma coisa real e pura.
Alex realizou, ele era o leviatã bíblico, condenado à destruição, a escavar escombros, como
bombeiro, não, como monstro que quer derrubar tanto a lua quanto o dedo que uns sábios e
loucos mutuamente apontam. Era um universo hermético e infinito, mas por outra óptica admitiu
que ao mesmo tempo não é nada sozinho. Formou então a imagem, os homens não mais olham
para as estrelas, mas o mundo deles não reside num universo fechado e egoísta, e sim num
círculo de homens que olham para um centro e conseqüentemente enxergam uns aos outros,
em torno deste eles gravitariam, ao mesmo tempo em que são sóis únicos a cintilar, resgatado o
brilho próprio, que sabe-se lá quando se apagou ou minguou na escuridão.
Por baixo da mesa Júlia segura a mão de André delicadamente, o mantinha sob controle
sem que mais nada precise ser feito. Durante um longo tempo não houve assunto a ser tratado,
o próprio movimento ambiente se encarrega de mostrar-lhes que não eram mais diferentes ou
especiais, nada os distingue de todos os outros que lá estão, deus sabe quem são, pouco nos
importa, salvos pelo anonimato. O rapaz numa das mesas cantava a moça do balcão, ela sorria
mas não lhe dá mais trela, uma mulher encharcada entrava achando finalmente um abrigo
enquanto protege a criança de colo encolhida nos seus braços. Alex não mais sabe se espera a
chuva estiar ou é que não precise mais sair. Até quando dizem algo o fazem baixo. Ou respeitam
a morta da noite passada, que é como se estivesse menos morta hoje, ainda que não mais viva.
Não encontrariam mais outra solução para preencher o aliviante vazio senão almoçar, é
mesmo o que farão. Demorou um pouco até que a moça viesse atendê-los. Só se pronunciam
para enumerar futilidades, como André por exemplo perguntar a Stern como andava o seu
trabalho na universidade, e ele responder-lhe que andava normal, natural, como sempre fora e
muito provavelmente, ainda que não seja vidente e nem tenha apreço por coisas mediúnicas,
sempre virá a ser. Júlia comenta que talvez voltasse mais tarde do que devia ao trabalho, é que
agora está prolongando a hora do almoço que tem, mas um dia em especial não prejudica seu
conceito. Só mesmo Alex permaneceu silencioso desde a última vez que falou até agora, exceto
para fazer o seu próprio pedido. Simplesmente não deram por sua falta ou não viram qualquer
porquê de lhe dirigir a palavra. André e Júlia dividiram um prato de frango grelhado com vegetais,
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Alex pede panquecas de carne com queijo, preferia molho a bolonhesa à molho branco, Bublitz
um sanduíche com muitas coisas dentro, e Stern estrogonofe de carne. Habib não comeu pois se
sabe que já almoçou, contenta-se com um capuccino e um pedaço de sanduíche que Bublitz foi
gentil e cedeu. Por alguma razão todos, menos Habib, que já havia comido, e Júlia, pareciam ter
muita fome.
Com o aprofundamento da tarde, a sensação melancólica e trágica dos grandes cansaços
que os possuía foi crescendo ao passo que a chuva estia. Como se dá a mecânica do nosso
quotidiano, numa hora determinada do dia, auxiliado pelo fato de que a intensidade da chuva
diminuíra, o número de pessoas no bar tendeu a decair. Pouco a pouco a sineta tornava a tocar,
via-se um ou outro saindo etc, depois um ou outro grupo, depois outros, aí entravam mais uma
ou duas pessoas que é para disfarçar e não tornar as partidas muito chocantes, mas elas não
demorarão muito para escapulirem, e assim chegou uma hora em que foram praticamente
coagidos pelo óbvio, que o tempo é muito mau, a deixarem a mesa e colocarem na memória o
que em frente a ela havia acontecido, e na memória de todos, até que a terra os reivindique,
sempre estará. Não é preciso mais do que alguns olhares de adeus ou até mais, ou só alguns
meiosorrisos, que já está bom. Até a próxima que não sabem quando se dará, mas a intuição diz
que será na madrugada da próxima quarta-feira, no próximo encontro da sociedade.
Quando se dispersassem, uma vez saindo daquele bar, eles não seriam mais do que
aparentemente estranhos, não dispondo de nenhum laço em comum que os envolva, cada um
seguindo por ruas diferentes, talvez em bairros tão distintos que seria possível cochilar entre a
viagem de um a outro, cada um no rumo de sua própria vida, muito diferentes entre si. Era nisso
em que constituía o pacto, em nenhum vínculo nas fachadas, ao seu ver é nisso que se constitui
a realidade da união, que não se pareça, mas seja a própria humanidade por trás dessas
distâncias medonhas.
Despediram-se como quem acabam de sair de um cinema. Alex entende que o limite entre
suas vidas paralelas é estreito. Qualquer abalo pode comprometer para sempre a forma das
coisas estarem, o que pode mudar em qualquer dia desses. Já está mudando.
Ergueu discretamente a palma da mão, que é como se a palma fosse diferente do resto do
corpo e fosse mais sensível, e dessa forma averigua a freqüência dos pingos a chover, ainda
goteja e sentiu seus cabelos molharem. Olhou de relance para cima, o vento frio lambe o rosto e
as gotas cadentes vistas desse ângulo parecem pétalas se desfazendo, arregalando-se bem
estranho, uma cortina cinzenta e mortiça de nuvens cobre tudo de onde podia ver até todos os
horizontes, riscando com grafite irritado o alto dos edifícios. Olhou para trás, enxerga as janelas
do bar. Reluzia nas suas vidraças, numa linha comprida, apesar de seus olhos embaçarem pelo
mormaço, a coloração verde-forte das letras separadas formando o Schneider escrito. Ali na
calçada com a porta está vendo André, que no presente instante se despede de Habib, os outros
já teriam se dispersado, como Bublitz, que há pouco tinha desaparecido num grupo de pedestres
lá na frente, depois do estacionamento e depois das calçadas. Até onde conseguiu assimilar as
últimas reações, todos parecem um pouco mais repostos, é. Viu que André de longe o percebe,
o acenou apontando numa direção e franzindo o rosto como se lhe dizendo vamos andando?,
talvez possa te levar, uma carona, talvez, ao que o responderá com simplicidade que não, não,
vou tomando meu caminho. Ninguém insiste em se prolongar.
O viu ainda a caminhar pela calçada, se afundando nos bolsos como é típico desse André,
talvez pudesse prever cada um de seus movimentos, o jeito que vai fazer conchinha para tossir e
não lançar perdigotos em ninguém, que vai limpar a palma nas calças, o jeito de afundar o
queixo no pescoço quando for abrir as portas do carro. O viu ingressar pela fileira dos carros no
estacionamento, como está muito cheio de horário comercial acaba por perder o companheiro de
vista, hoje não os veria mais, até nunca, gostaria e não gostaria de dizer. E então é ele mesmo a
cavar as mãos nos bolsos e caminhar, só resta o seu passeio solitário pelas pistas onde podem
passar os carros a fim de estacionar, não veio nenhum e ele se dirige às calçadas, afundou o
piso nas poças d’água, o excesso da umidade crepita até aqui, no eco vindo de carros distantes
que esfregam o asfalto molhado. Fez uma curva na direção de uma das vagas, parou na frente
da janela do motorista de um dos carros. Tocou nela três vezes.
Júlia, ao notá-lo, tratou de girar a manivela do vidro, agora está aberto. Ela o fita com os
olhos erguidos, com o canto da boca segurou por um tempo, até finalmente expelir a fumaça do
cigarro que segura nos dedos.
– Se André vê, ele reclama – justificou.

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Alex nem quis imaginar o quanto. Permaneceu em pé, debruça-se um pouco para enxergá-
la.
– Há tempo não nos encontrávamos – ele comentou.
– É verdade – ela acata, sorrindo.
Silenciaram por alguns instantes. Ela fumava mas não deixava de olhá-lo. Ele parecia não
querer dizer nada.
– Não sentiu falta do teatro?
– Não muita – ela sorri.
– Sei.
E fazem mais silêncio.
– E estive pensando, nunca mais foi na XV? – continua.
– Não, sem tempo, não tenho esses luxos.
– Entendo. Pensei em algo por fora, nada a ver com a sociedade. Quem sabe?
Ela o olhou durante alguns instantes.
– É que talvez não seja uma ocasião propícia – simples e didática.
Alex desviou o olhar por alguns instantes, assim se manteve por um tempo, até finalmente
meiosorrir e olhá-la.
– Certo, entendi.
– Talvez em outra situação.
– Não, não, eu entendi, mesmo.
– Quer uma carona? Posso te deixar em casa.
– Termine seu cigarro, Júlia, eu não estou indo pra casa. Tchau, tchau.
Ela franze os cantos da boca. É bonito quando ela faz assim. – Certeza? – fala com jeito de
quem tem mais a dizer e não pode.
– O que diferencia a mim de você, Júlia? – falou em tom enigmático.
Ela o estudou por alguns instantes com uns olhos oblíquos.
– Não sei, Alex – e respondeu com naturalidade.
– Eu não tenho certeza de nada, mas ainda assim as faço – isso poder soar idiota, mas fez
parecer convincente, na verdade sabia o que dizia, tudo o que ela pode fazer em contrapartida
foi se calar.
– Até – ele falou, acenou com a mão, se coloca ereto e recua alguns passos.
– Até.
As fachadas de século retrasado emolduram o que deve ser a cara dos edifícios, se os espia
bem dão a parecer ter uma vontade cansada de contar muitas coisas, havia mais do que poeira
constantemente varrida em suas vísceras, há alguma coisa enrustida que as pessoas
aprenderam a ignorar, e as calçadas são um mar de panfletos e papelotes, de cartazes velhos,
rasgados e amarelos, e vão ocupando os espaços das paredes, propagandas de partido ou um
milhão de outras coisas, de perfumes caros até o filme que estreou no último final de semana, de
notas de crianças desaparecidas até de como é ruim nosso sistema de transporte. Alex identifica
mais a frente a faixa dos pedestres que têm de atravessar, o sinal dos carros está verde e a
nuvem de monóxido de carbono transborda para vir recebê-lo. Então detém sua caminhada por
algum tempo, não há pressa e não há nada que lhe pareça mais interessante do que parar em
frente ao cartaz do busto de um político com suas legendas publicitárias, mas não lerá a legenda
e tampouco os rasgados na imagem do sujeito, do qual nunca se ouviu falar e mesmo agora não
pretende. Por um lapso momentâneo foi sua imagem que viu delineada na parede. Os esgotos
estariam entupidos com sangue. Chegariam a ponto de borbulhar.
Já não é apenas ele mesmo, não apenas a alma atávica com o preenchimento negro que
imaginou a seu respeito, há esse carrossel de fogos rápidos girando em sua frente como
relâmpagos que estão errados em acontecer, cada partícula um disparo que se abre a cortar
uma cortina de fumaça, por trás de onde se pode viver uma multidão enfurecida se comprimindo
pelos limites das ruas, são todos sujos, uivavam feito loucos, os lobos que descobriram em si,
um cheiro de sangue ainda fresco a deixar todos insanos, sim, sim, a fumaça que subia das
esquinas incendiadas fede a carniça dos que já foram. Falando em sangue, ele jorrava negro e
escorria junto à chuva, serpenteava no chão dos mais tortuosos caminhos enquanto os
logradouros de corpos nus e machucados eram massacrados pelos pés dos que passavam, e
esses eram tantos, são incontáveis, não paravam, não se importavam com barreira que fosse,
gritavam, eram animais famintos, havia cânticos próprios de uma raça nova, primitiva e
desconhecida, é selvageria que não deixamos de gostar, não demorou que visse a imagem de
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guilhotinas e cabeças rolando, várias simultaneamente, as lâminas ensangüentadas, e então a
imagem de forcas, cadafalsos se abriam e lhe subia um ardor fulminante quando via um nobre
cair com a corda o asfixiando, todos enlouqueciam, era um furor odioso, apedrejavam o corpo
que se debatia, jatos de sangue espirravam, o corpo dava voltas pela corda, ouvia-se explosões,
estilhaços de vidro, concreto e lama voavam, o horizonte era rubro e negro, e essa nuvem
nojenta o cegou, e ele meiosorriu.
Sentiu algo lhe puxando acanhadamente o canto do casaco, olhou e deu algumas moedas
que carregava no bolso ao mendigo que o requisita. É um velho sujo dos que se embriagam
pelas sarjetas, lhe faltava a fileira dos dentes de baixo e quase todo o cabelo. Não pensou em
negar ao sujeito o pouco que pode ter. Obrigado, senhor, a voz saiu sufocada, deus abençoe o
senhor e a sua família. Alex não sabe se sorri ou se entende na gratidão nada mais que
covardia. São exatamente obsessões contidas nas palavras senhor e família que puseram este
cara na sarjeta que ele está. Além do mais, o coagindo a respeitar. Se fosse Alex, certamente
teria caído nas costas de um, o derrubado, sovado e levado tudo o que tivesse, não só algumas
moedas, muito menos depois de implorá-las, que, como não nasceu para rastejar, ainda que não
se deva haver predestinação feito essa, então entende que tem vocação de debater-se.
Um amontoado de gente se concentrava num ponto da calçada a esperar que o sinal se
abra. Alex se curvou e mergulha nos próprios bolsos, tateia por algo, o cigarro vai adoçar o
paladar. Um carro buzinou sonoramente, uma multidão de gente atravessa fora da faixa. Antes
que pegue um cigarro já está pensando em si mesmo.
Se quisesse sobreviver, teria de retornar à escuridão.

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Numa noite distante no tempo dormia envolto das suas peripécias, e sabe-se lá quais
teriam sido as da noite recém ida, provavelmente estaria desgrenhado e com o corpo doído de
surras e calçadas que não se lembraria no dia seguinte, mas e aí?, isso sim é hedonismo, esse
rapaz pensaria. Nunca havia bebido tanto quanto na última noite, saído da linha, nunca havia
estado tão perto do limite orgânico e social, do fim, certamente solitário e miserável, a única
perspectiva de toda essa era em que vivemos. Então, sonhava e viu-se diante de algo
inusitado.
Há um espaço estático, feito quadro impressionista, ali, onde nem as nuvens pretendem se
balançar sobre um céu aberto, mas tê-lo como pintura borrada é infame, o mundo se distorce
mas é verdade, esses são os traços que o definiam, assim lhe eram todos os traços que
conhecia. Alex via-se de pé num ponto qualquer, está solitário, mais do que nunca tudo que há
é o vazio, o ócio dá as cartas, jaz imerso em algo como um sono de pé. Pelos arredores se
estende a longa praça, dessas que vemos que de tão normais só podem querer nos mostrar
algo de muito errado, um jogo de sete erros gritante que está oculto, até se tornar escancarado
e fazer sentido. Até os comércios que tangenciam a água do mar circunscrita por um porto
estavam jogados às traças, não havia realidade senão o abandono, tampouco havia futuro ou
oportunidade senão a permanência eterna do que se via. A praça sugeria os seus antigos
habitantes pela sujeira que se arrasta sofrivelmente pelo chão, onde rastejam desde papéis de
balas desgarrados até jornais amarelados de datas que não são próximas de hoje. Sacos
plásticos grudavam no seu pé, mas muito delicadamente, era quase uma carícia ou um
cumprimento, olá, uma bola de feno poderia vir rolando, o vento lhe saúda no olá de ternura de
cachorrinho lânguido, e ele não se mexia de resposta. Acontece que se sente ameaçado pela
possibilidade de quebrar a tranqüilidade, tal como temia, talvez, olhar um daqueles jornais e
coincidentemente descobrir seu nome numa entrelinha nas páginas de óbito. Pensa nisso por
ter um dia sonhado sobre esse evento, e quando a morte já lhe trazia motivos para sorrir
acordou e descobriu que mortos não sonham. Não se decepcionaria, não dessa vez, não.
Compreende que esse sonho não lhe é novo, ergue-se o dejá vu da familiaridade. Já sonhou
isso. Por razões que não entendia, o sonho retornou nesta noite. Ergueu os olhos, acabou
encontrando pontos de fuga distorcidos entre os edifícios abandonados que se estendem
próximos e ao horizonte, o céu quer ondular. Nem as escadas-rolantes que davam acesso à
área inferior da praça, que se conhece por mergulhão, onde se tomam os ônibus, funcionavam,
e riu profundamente por nem as máquinas terem sobrevivido, o desastre de alguém que não
lutou. Disso tudo, o único infortúnio era que ele vivia. Sozinho, teria de aprender a se bastar,
mas talvez ninguém possa, após conhecer as relações, ou seja, simplesmente por já ter vivido,
ele estaria fadado a uma dependência eterna, uma dependência externa, viveria por seu vício
nos outros, carregaria essa dívida, o sonho de ser o que não foi. Suspira, e desejou nascer de
novo com a forma de um gameta vazio. Assim seria tudo diferente.
Eis o que procedera, em seguida, quando não mais havia correção, apenas aceitação de
estar nas ruínas das coisas que um dia foram algo mas agora não mais eram, nesse deserto,
ou paraíso que alguém se esqueceu de fazer feliz, que estava longe de lhe ser de suficiência
essencial. Sentiu uma inspiração da grandiosidade correr-lhe a espinha, percebia se dar conta
de muitas coisas numa cascata que descia por sua compreensão, então o peito se estufou.
Começava a se tornar óbvio, veja, era ele o senhor de tudo aquilo, deus ia contradizê-lo?, nem
deus havia, e ele podia se proclamar o que quisesse, até de deus, já que é ele o inventor dos
termos, tal qual o primeiro dos homens foi. Mas, a esse, deus ordenou que batizasse as coisas
diante de um estranho desfile de animais, já aqui ele esquece de batizar o próprio deus, ele
pode batizar a tudo mesmo que as ruínas já houvessem, e não é dele que viessem. Que
importa, se criaria ou destruiria como desejasse?, releria o conceito do vazio e da ausência,
lavaria sua mente, não dependeria mais de outros, era o gameta, o zero inicial para que fosse
o que bem entendesse, o universo partia de dentro, e não do seu vício. Reinventaria o homem,
seria ele o rascunho. E essa idéia tem de ter relação com o estrondo que logo ouviu.
Um reverberar que inicialmente nada mais é que um trepidar do chão de concreto. Agora
ele não sabia se provocara essa reação. Está acontecendo, está sendo criado, pensou se este
não seria o homem que residia em si e acordava. Não devia ser, então algo lhe escapava, algo
ainda residia fora de sua vontade. O coração apertou-se de enfartar, a razão esmilingüiu-se e
se acovardou. As curvas vazias da praça se mostravam da maneira que sempre foram. Se o
estrondo não viesse de seu coração, o medo de estar sozinho seria substituído pelo medo de
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estar ilhado num mundo vazio com alguma entidade desconhecida, a qual fugia de sua
vontade, controle e intenções. Algo que ele talvez tivesse conjurado, nascida assim de suas
vísceras, mas lhe sendo incompreensível, efeito em cadeia que ele criou, um novo estrondo
ecoou, logo após outro em seguida. Silenciou alguns poucos instantes, e logo veio o estrondo
mais uma vez, bem mais forte, um dum-tum-tum, e aquilo estava longe de ser o coração, vinha
num eco abafado além dos corredores das avenidas e prédios da cidade fantasma,
aumentando, aquela coisa certamente enorme se aproximava. Com a freqüência dos trovões,
percebia que se tratava de uma marcha gigantesca, ou o deus das tempestades em pessoa,
deduziu por lógica que centenas iriam surgir e se fazerem ouvir, seja o que fossem, seja o que
quisessem, só tinha uma certeza, iriam matá-lo. Mas, ai!, se não fosse isso?, não importa,
certamente seria algo gigantesco, capaz de tragar tudo, um edifício, a metrópole, quem dirá
seu pequeno corpo, sua alma, quem sabe. A descarga de adrenalina em sua psique foi tão
eletrizante que o receio o induziu a uma onda de pavor que o forçou a se ver livre daquele
cenário, foi como se uma lufada de trevas comesse sua visão, e num movimento de pálpebras
as coisas todas mudassem e fossem atiradas num rodamoinho, e o pobre Alex acordara.
Alguém poderia reprogramar a velocidade das coisas, ou, até mesmo melhor, bem que
elas poderiam tender a parar por si mesmas e esse sexo de vertigens com o escuro se
acalmasse. Moveu as mãos, tateou desnorteado a superfície onde deita, seus dedos
afundaram, talvez fosse água do mar, muito provável. Só depois de certo tempo deslizando os
dedos fez, inicialmente, a distinção entre sólido e líquido, e muito posteriormente descobriu que
as ondas nas quais está são lençóis e colchão. Ainda maior foi a luta de conseguir levantar as
pálpebras e evitar que as órbitas oculares se embrulhassem para dentro do crânio, lhe diriam,
não, não, durma de novo, que há hora para tudo, e essa não é tua. Heróico, conseguiu revirar
a cabeça de um lado ao outro e de cima para baixo até enxergar poucas luzes na madrugada,
vindo por janelas mal cobertas. Me tornei um vampiro, pensou. Bem, é o fim. Depois de tanta
preferência pela noite, depois de tanta insônia, era meio científico isso acontecer. A luz nem
era solar e já queimava suas córneas. Piscou muitas vezes, o sonho já não fazia mais
diferença, ocorria a infiltração da vida por seus poros, com toda sua crueza triste e má, isso sim
era importante.
Assustou-se quando se vira para o lado, depois de conseguir superar a preguiça, e uma
das costelas descobertas pelo lençol desarranjado dá de encontro com alguma outra coisa
estranha. Uma nova superfície, sorriu ao notar o braço macio de uma fêmea dorminhoca, longe
de ter seu sono abalado. Sorriu porque, naquele instante, não faz menor idéia de quem seja. O
rosto está coberto pelo travesseiro. Não se empenha muito. A deixou para lá, roncou
sonoramente e assistiu danças de vultos no teto, sua cabeça é esse quarto estéril de vultos no
escuro para os quais cães confusos uivariam. Alex não se encontrava. Sem saber por que
julgava boa essa situação, pensava que no futuro as coisas seriam melhores para ele se
houvesse a queda de todas as coisas. Acha que só nos escombros de tudo ele finalmente vai
se encontrar, talvez seja esse o significado do que viu. E quis vomitar. Um pouco lhe escapa
pela garganta, a glote treme, contraiu-se, mas acaba contendo o fluxo que vem. Tudo silenciou
em seguida.
Quando acorda de verdade tem aquela sensação de que nem sequer adormeceu. É isso,
as coisas se vão no piscar dos olhos, uma dor de shiatsu mal feito se estende na sua nuca, o
teto, que na sua confusão achou estar escurecido pela penumbra, agora cintilava brilhos de
sol, como um aquário, o sol entrando com maldade de queimar-lhe os olhos.
Cruzou os braços sobre a nuca. Pensa em caçar o maço de cigarros que via ali, aberto e
amassado, logo ao seu alcance se estender o corpo, esse diabo tentador que seduz a vencer a
preguiça logo no criado-mudo. Mas não há isqueiro por perto.
Perdeu um pouco a cabeça, bons tempos eram aqueles em que estava cercado de rostos
conhecidos e esperanças, mas ele nunca soube realmente quais eram esses bons tempos e
nem esperanças do quê, apenas refletia, como se fosse normal que tivesse um passado
imaginário sobre o qual se apoiar, de qualquer forma quem fala sobre essa história de bons
tempos são os românticos, e ele os detesta, talvez só não mais que os hipócritas, às vezes o
poupam do trabalho do ódio e se fundem num gênero só, mas então, que nesses bons tempos
ele vagava dia-após-dia da melhor maneira que achou poder idealizar para si mesmo, as
pessoas gostavam dele o suficiente, era acolhido por gente que igualmente podia contar com
ele, de que maneira?, essa resposta é simples, se tratava de boa gente. Não havia muito o que
fazer, a não ser bobagens do seu interesse, da mesma maneira que não tinha que correr muito
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atrás das coisas que hoje em dia é coagido a correr, coisas necessárias, por exemplo, à
sobrevivência nas cidades grandes, como ter de sair para fazer compras, não é que o faça
muito, não esconderá a predileção pela preguiça e pela facilidade, mas tem de manter algumas
responsabilidades, ao menos as mínimas, que ninguém é assim tão budista e livre, e para isso
usou-se de pequenos empregos ou um bico aqui e outro lá, empacotador, atendente, office
boy, algo que o fizesse fingir a si mesmo que fazia algo além de arrastar-se pela vida, self-
made man a deixar a vida parasita. Acontece que gosta dela. Nos serviços que arranja nunca
fica muito tempo. Prefere viver desempregado e pelo favor de algum conhecido. Olhou para
fora da janela e bocejou, se aninhando no colchão. Era um dia bonito.
O último problema habitacional que teve, há uns três meses e quebrados, foi resultado
infeliz de envolver-se com a irmã um tantinho mais jovem do amigo que o hospedava. Era um
bom rapaz, esse amigo, apenas conservador demais e demais sensível. O seu erro tinha sido
atiçar o temperamento das brincadeiras de Alex, o encorajou demais, é que Alex no começo é
simpático e faz com que pensem que podem suportá-lo, logo a Alex, exatamente o sujeito
conhecido por não saber se pôr nas rédeas, por não medir-se, por essa compulsão de não ter
limites, que não se pode oferecer a mão que já há de querer mais, e à mão posta no fogo é
esperado que se queime, ela queimou-se. É, sim, há erros de expectativa, logo vemos que não
podemos dar a mesma moral para todo tipo de gente, mas quanto a essa doença de Alex
pouco ainda pode ser dito. Pode-se perguntar o que o levou a ser assim, se chegará a diversas
respostas, por exemplo, foi a sua criação de merda, de libertinagens, sua mãe era assim, uma
fumante descabelada muito doida, seu pai era ao avesso, toda explicação existencial que soa
bastante convincente principalmente porque é simples, e as pessoas adoram respostas e
conclusões, não importam se elas merecem a coisa ou se a tornam ridícula, como dizer que
foram os tipos de pessoa com quem o rapaz conviveu e tem convivido nas ruas, que eram e
são das mais variadas estirpes, uma mistura perigosa de se fazer por aí, glicerina e ácido
nítrico. Alex prefere a história de que viu um cigano ser costurado vivo dentro do estômago de
um cavalo. Até onde lembra tinha se inspirado numa história romena. Ou dizer que em certa
ocasião fugia por bosques escuros e sombrios das terras desoladas em que viveu, continua
sendo uma história romena, e nessa noite sobreviveu às agruras do destino, não antes, é claro,
de ver todos seus irmãos estuprados e chacinados por um grupo de bandoleiros, ele nunca
teria se recobrado desse trauma, eram vermelhos e cruéis os olhos dos ciganos. Cansa da
história, parou de pensar. Aos finalmentes, a irmã desse rapaz não se encantou com a
criatividade ou sabe-se lá o quê – e ele usou realmente a história do cigano, mas ameniza ao
dizer que se deu com um conhecido – mas pela sagacidade, machismo, asquerosidade e
independência, que isso acaba sendo o que importa à gente, encantar-se com algo que
convença, não importa quão suja essa coisa seja, desde que tenha alma, porque tudo que nos
cerca é um tanto vazio. Alex pensou que seria uma desculpa convincente, ou ao menos um
pretexto para não se fazer de coitado e nem de culpado, que não apraz, dizer ao tal irmão que
o grande problema entre os dois era a questão conceitual. Ou seja, você acha que isso é lá
algo ruim, mas na minha mente não funciona assim, então, são valores distintos, não é porque
comi tua irmã e não a quero mais que a idéia foi ofender, e não é isso que me torna um
canalha, tente entender. Estica e distorce todas as coisas para se safar de algum julgamento
qualquer, isso porque dizia, ora, um instante, veja bem, eu dar um trato em tua irmã e fazê-la
chorar não significa, a mim, que eu seja um cretino, veja bem, do meu modo eu gosto dela,
apenas nos movemos por causas distintas, então temos que considerar essas diferenças
quando formos considerar cada pessoa, não é?, as pessoas são feitas de diferenças, aprender
a reconhecê-las é essencial, então não seja tão ávido comigo, antes de tudo considere minhas
intenções. Enquanto ele dizia essas coisas ele mesmo ia pensando, ninguém pode me julgar,
ninguém pode julgar um ao outro, eu sou inteiramente permitido, enquanto isso cretino pior que
eu não há, olha o que estou dizendo, é mais do que um insulto a tua inteligência, ninguém
poderia infringir drama algum aos outros, nenhum de nós é capaz de causar dor, tudo de tudo
é permitido já que cada um por si só pode convencer-se de que é inocente do que se faz.
Todos são inocentes dos próprios desejos, a não ser que sofra uma lavagem cerebral e
passe a se martirizar, é o que propõe, por acaso, umas religiões. Que besteira estou cá
pensando com meus botões, se diz, já sabia que essas palavras idiotas não claudicam a raiva
do amigo, ex-amigo, o responsável por tê-lo feito passar alguns dias com mochila nas costas
num albergue bem barato do centro da cidade, até encontrar um outro hospedeiro, vítima
qualquer, para que o aconchegue no seio familiar. Sua vida não é diferente da de qualquer
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outro, da mesma forma que muitos haviam nela entrado e alguns até hoje permaneciam,
muitos já tinham dado um bom beijo, um abraço e despedida.
Ouve o som de carros distantes, sopravam de algum lugar da rua, o espírito da cidade
grande o animava, os doloridos movimentos diurnos, parto e vida vêm com dor. A impressão
de estar muito acima deles e igualmente estar longe é pacífica, é como ver toda coisa sem ter
de opinar. As lembranças específicas dos tempos em que teve, nessa região metropolitana
distante de onde se fundamentou a sua vida, de perambular por albergues, lembrou-o dos
longos dias em que teve de conviver com a república na qual vivia, dessa ele trazia umas
tantas boas lembranças, essa mesma época, essa sim ele reconhecerá como sendo de maior
produção, não que alguma vez na vida sentisse que tivesse sido o bastante, mas fora útil. Ele
era útil. Não tanto, mas era. A juventude muda tudo, o ânimo define todas as coisas, e por isso
velhos deviam ser proibidos de pensar ou se manifestar de qualquer forma, pensou. Ele
mesmo seria esse velho.
Nota o braço desnudo que deita ao seu lado agora a envolvê-lo, o resto do corpo sonolento
de mulher ronrona nos princípios do que deve mesmo ser um bom dia, e nada adianta ser tão
bonitinha mas tão inconveniente, há momentos na vida de um homem que não se toma, há
meditações preciosas da mesma maneira que é o sono, a coisa mais íntima e independente
que se tem é o sonho, e por isso, por respeito, não se viu ele berrando para que ela acordasse
quando por acaso ele despertou e a amnésia a apagou das memórias, mas não, e agora é o
que ela vem a fazer, compensando com um carinho que não se faz, isso que é gratidão, esse
fingimento de inocências. As coisas não são tão péssimas, finalmente vai descobrir quem é.
Bem, o princípio de reconhecimento vem quando cabelos louros começam a escorrer de
debaixo dos travesseiros, ele gosta menos das louras e preferia mais as morenas, ainda assim
há umas ramificações da estética que contribuem para uma rigor a priori do que é do seu gosto
etc. Por exemplo, prefere mulheres mais baixas que as mulheres altas, mas se com uma
qualquer ocorresse de ser baixa demais, seria certamente mais feia que uma mulher muito
grande. As ruivas são meio-termo interessante mas não se deu bem com a maioria, que pena,
a irmã daquele sujeito era realmente uma graça. Pensar demais excita a enxaqueca, o perfume
muito doce que começa a sentir a brotar dessa agitação nos lençóis o faz enjoar-se. Tenta
imaginar que tipo de mulher dorme perfumada, esse vestígio nojento do cheiro que a noite
apaga, e chega a uma conclusão que um outro menos brilhante chegaria, dormiu com uma
puta. Ela se virou sorridente e realizada como quem finalmente sai de um sonho. Ele gosta de
ver mulheres quaisquer acordando, e não só as mulheres, mas não tem hábito de acordar com
algo além delas. Ela lhe parece bem mais espontânea e sincera, o caráter muito melhor do que
aquele que teria quando estivesse de pé. Apoiou-se no ombro dele carinhosamente, o que o
faz amolecer.
– Bom dia, amor – murmurou, tão lânguida, a jovem e tenra mocinha. Bonitinha.
Marta, Cláudia, Elisa, e agora?, Paula ou Luísa?, piscou os olhos para só então as
covinhas na bochecha e o rosto sonolento se fazerem inconfundíveis. Ana?, perguntou, a
garganta seca, a voz rouca, sentiu como é difícil dizer oi, você me acordou. A garota abre seus
olhos e é tomada por um choque tão grande, de quem berra por um desespero do qual só resta
a intenção, que a voz abandonou. Só a possibilidade de ouvir um grito já o dói, e ele
apunhalado se remói, e o semblante que vê não mais o chama do amor de agora há pouco.
– Alex? – ela resmunga.
– Oi.
– O que você tá fazendo na minha cama? – deu um pinote, a impaciente, bom dia,
escândalo.
– Acho que confundi com o sofá.
– Mas que merda – olha só, com esse temperamento ela estraga não só o dia dela, mas o
de todo mundo. Depois, falar que mulher é escandalosa é generalizar. Aquele grito estridente,
e a própria natureza de tudo ocasionar gritos, é certamente genético e feminino, um dia algum
cientista desvendará os mistérios por trás disso.
– Desculpe.
– Alguém andou se divertindo demais ontem à noite. Cadê Marcus? – ela continuou. Por
favor, Marcus, surja, ela não está te chamando?, surja e faça ela se calar.
– Se ele não está aqui com a gente, deve ter se divertido sozinho.
Ela nega, nega ou se lamenta.

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– Me dê um beijo de bom dia – agora é ele quem precisa se calar, por favor, alguém o cale,
e ele bocejou.
– Acorda!, e se levanta de preferência. Se o seu amigo dormiu no seu sofá mais uma vez,
é muito justo que seja você a acordá-lo – ela começou a se levantar, causa seu estardalhaço
pelos e sobre os lençóis. Resmungou e, em meio a risos que diziam que absurdo, que idiotice!,
e bufas um pouco mais graves, preocupava-se de encobrir a nudez do corpo, puxando a roupa
de cama.
O fato dela definir o sofá como sendo dele não caracteriza exatamente uma posse, não
lhe é uma razão para se orgulhar ou um dia ostentar como seu ou coisa assim. Na verdade,
está sendo profundamente coisificado, a sua natureza depende estritamente da natureza de
um sofá, é o seu lugar, sua casinha-de-cachorro, não se trata de um sofá qualquer, mas
especificamente o sofá ali na sala, ele pensou, o indício da gênesis de minha essência.
– Que foi?, não tem nada que eu não tenha visto – fala da nudez coberta, não do sofá.
– Viu porque é um escroto. Você vai ouvir umas boas que estão reservadas. Acorda,
porque se não for agora é depois. Você vai ouvir. Estorvo de merda – agora ela mais ria que
qualquer coisa.
– Não quero ver nada, mesmo. Por favor, apenas ache meu isqueiro.
Ana cruza o quarto caminhando a chacoalhar os joelhos, que garotinha esperta, que fala
sobre o estado da gente mas suas pernas a se trocarem também são lá visíveis, ao que se
vale aquele ditado do cego falar sobre o caolho, ou de já ser rei quem tem ao menos um olho,
ele não sabe bem. Agora ela ia ao banheiro, a porta se fechou com sonoridade porque parece
muito claro que ela não calcula o quanto deve empurrar para que se feche sem incomodar
ninguém, às vezes quer mesmo incomodar, incomodar é mostrar que existe, continuemos.
Bocejou tanto que doeu, e se espreguiçou. Enquanto se esticava, que coragem, aproveita
para alcançar o maço, escorregar os dedinhos através da imensidão longínqua do criado-
mudo, aí, logo depois tratou de esticar com um pouco mais de esforço até conseguir alcançar a
fresta de uma gaveta, puxa corajosamente, que coragem, revira, revira, revira, em algum lugar
estará, misturado com bijuterias e roupas íntimas, o isqueiro. Agora sou completo, pensou.
Uma longa preliminar até que meta o fumo na boca, para o prazer ser maior, e não vislumbrou
nada mais que isso, virou-se com a pança para cima e fumou.
Que será que há de triste com o homem que não vislumbra um destino?, o futuro é sempre
uma certeza, mesmo que ele seja a morte, já que depois não se há sequer homem para
divagar sobre essas coisas, sequer homem a ser suposto. Mas Alex é um desses caras
quaisquer que não procuram vislumbrar muitas coisas, mas de muito entender o presente
acabou criando o fetiche de criar tramas hipotéticas para o que lhe poderia acontecer, a olhar e
dizer que isso é assim, assim e pode ser ao contrário, e tenho dito, coisa da gente que tece o
futuro, mesmo que o futuro para acontecer não precise ser visto, e não é que ele se preocupe
em fazê-lo, apenas sabe que virá.
Foi interrompido com um novo estalar da porta do banheiro, presume-se que Ana não
queira passar lá o dia inteiro e tenha saído. Estar vestida é como um gesto de escárnio, e é
bem mais que impressão quando a vê sorrir com o canto dos lábios, assim, como quem
caminha, mas bem se sabe que se olha e provoca. Gostaria de identificar esses níveis da
insinuação da mulher, quem sabe se não estivesse cansado demais para esmiuçar o seu
comportamento e se a nicotina não fosse mais fascinante. À parte das malícias, era uma boa
camarada. Sem mais olhares direcionados, já que a sedução entre amigos, nesse jogo
ocasional de poder, requer limites para não beirar o esdrúxulo, retirou-se pela porta oficial do
quarto, dando a Alex pouca visibilidade do corredor mal iluminado ao lado de fora, pouco antes
da porta fechar-se e o silêncio retornar, a paz que eu não sei se quero ter, e que vem-e-volta.
Deixa que as cinzas caiam no tapete, a ardência o reconfortou, e ele deixa-se sonhar. Sentiu-
se como numa parábola que ele ouviu certa vez de uma dessas religiões orientais, essa dizia
mais ou menos assim, sobre seres – ou insetos, ele não lembrava, mas pensar em seres é
mais místico, que combina mais com o critério oriental – seres que enfim viviam no fundo de
um rio, e todos esses se apegavam a pequenas plantas para não se deixarem levar pela
correnteza. É mesmo uma metáfora das forçadas, isso é, fica pensando em quem ficaria
imaginando uma história onde bichos, seres ou seja lá o que forem viveriam dessa maneira,
que fim pretenderia para essa sandice, mas ele a está usando e isso deve fazê-lo um pouco
mais imbecil. Acontece que um desses seres resolveu se soltar e deixar-se levar pela
correnteza num espírito do tipo, eba!, hei de conquistar o mundo, hei de ser o pioneiro desses
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horizontes por se descobrir, arreganhar a tantas coisas ocultas, acessíveis somente por uma
coragem feito a minha, bravo etc etc. Alex era esse ser, sempre se identificou com ele. Está
certo que no fim, conta-se a parábola, o nosso já familiar bichinho é tragado e se despedaça
nas rochas do fundo, e a história já começa a se transformar numa analogia que remetia muito
à cristo, principalmente quando os demais seres começam a laurear o tal que se desapegou,
dizer que ele era o messias, o predestinado, que haveria de retornar para guiá-los, libertando-
os daquele apego e não sabe-se mais do quê. Procurava esquecer essa parte, já que
provavelmente essa era a ocidentalização das coisas, muito provavelmente uma das
adulterações, e mesmo que a história mesmo não sendo ocidental já fosse um tanto bobinha,
gosta da mentalidade do serzinho que se soltou e não se questionou o porquê para evitar
indelicadezas, gosta e tenho dito, e talvez a história faça mais sentido se ela terminasse
quando o ser se esborracha e ponto final. Quem sabe também um dia Alex fosse cristo, ou
outro título desses com tanta polpa, só não gosta mesmo muito da idéia da crucificação, e
começou a ouvir coisas através das paredes, não são os romanos chegando.
– Levanta. Já que não se incomoda de deixar outro homem dormir na cama com sua
mulher, ao menos tenha a consideração de não agir como um palerma no dia seguinte.
– Por quê?, tem problema?, você também acha que ele me apagou?
– Levanta.
– Calma, se ele conseguiu fazer alguma coisa contigo no estado de ontem, acho que ele
merece ficar com você de vez – e ria a voz sonolenta, antecedendo um longo instante de
compridos falatórios, que de uma queixa vai-se ouvi-la prolongando-se para muitas outras,
certo, substituamos o escárnio e nos rendamos à verdadeira irritação, aqui estamos nós, em
algum momento de confirmação do casamento tornado antiquado.
A verdade é que é um rapaz bastante compreensivo e paciente, outro já teria levantado-se
e gritaria, vocês têm visita, podem calar a boca?, ah, agora sinto-me outro, leve e libertado do
seu peso matinal. E, bem, quanto ao estorvo que é lá sua presença, – estorvo, não ignorou e
não retrucou quando Ana o chamou assim, prefere manter-se relaxado, deixar que as coisas
girem como o mundo preferir, ou talvez as coisas na verdade andem, enfim que façam o
movimento que preferirem. A realidade é uma questão de ênfase, ser um problema não é nada
porque os problemas têm o tamanho que dedicamos de atenção a eles, assim como toda a
preocupação, e ele não se dedica atenção alguma, pretendeu passar despercebido pela vida
como estando acontecendo sem querer.
Ergueu-se depois de pensar muito se realmente devia, e quando finalmente o fez foi junto a
uma cortina de fedor de suor seco que vinha de seu corpo. Deixou estalar alguns dos músculos
inferiores, enquanto ouve um espetáculo que nomeou ópera da cozinha. – Não importa o dia
que foi ontem, vamos falar do dia de hoje, a coisa importante é que tem compromissos
agendados, – Isso é uma irresponsabilidade, veja só, como você se poupa, como você foge
dos esforços, todos comemoram, mas eu, por exemplo, cheguei a ficar no seu estado?, – Não
importa que horas eu voltei ou como eu estava, – É, sim, no teu caso importa, sujo, deprimente
– falava Ana não tão alto, mas pelo timbre sobre-humano e pelo que nos ensinam essas
paredes, certamente a cacofonia chegará até os vizinhos. Para completar, ouvia a louça
manuseada agressivamente. Se alguma dessas broncas realmente afetasse profundamente o
quotidiano de alguém, não estaria ainda assim servindo a mesa, mas sim a quebrando, ou
jogando os copos nas paredes enquanto berra, senão na cabeça do marido ou na própria.
Assovia para lembrá-los que ele existe e girou a maçaneta da porta. Ótimo, pensou, notaram
minha presença e ainda resta um pouco de constrangimento no seio familiar, não importa quão
desestruturado que seja, não é que ele queira se inserir num, muito menos nesse, quer menos
ainda ouvir resmungos que não sejam seus. Saiu pelo corredor modesto, a impressão que
diariamente tem é de que a decoração está longe de ser acabada por questão de faltarem
recursos, coincidentemente é essa a verdade. A parede esquerda ficava coberta por uma lona
de plástico porque uma infiltração há alguns meses esteve descascando ela e algum
espertinho inventou que o plástico servia para isolar, a outra parece que também sofreu de
infiltração, mas o problema foi que ele teve surto de ajuda e se meteu a pintar, estragou tudo.
Sou mesmo um vampiro, pensa e, ao notar que a luminosidade na sala é ainda mais forte do
que se permite ao acordar, ah!, sou cinzas, estou derretendo, lá vou eu etc, não fala nada disso
mas ensaia os movimentos correspondentes. Pigarreou enquanto coça a perna, o que soa
como seu peculiar bom dia, e tragou mais um pouco de cigarro, vê a silhueta de Ana
estremecer-se pela cozinha, em contraste ao traste que se assenta no sofá, que por sinal é seu
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e ai de quem o queira, o traste que não é ele esfregando o rosto de uma maneira muito
parecida à que Alex há pouco fizera.
– Filho-da-puta, dormiu melhor do que merecia – disse o homem, a arrotar.
– Ana cuidou de mim, todo o mérito é dela.
– É claro. Por que me casei com ela?
– Porque você me ama, trouxa – gritou a voz da cozinha.
– Não, que isso é só às vezes.
– Espero que ela tenha feito mais do que eu me lembro – disse Alex.
– Cala boca, Alex. Se adianta e faz alguma coisa, vem me ajudar aqui – gritou a voz.
– Já vou – não vai.
E rastejou sentindo-se pesar, espirra por despertar o fôlego do carpete empoeirado, onde,
próximo ao sofá em que usualmente dormia enquanto hóspede do casal, deixa jogadas as
duas mochilas que traduzem todos seus pertences.
Uma delas ele carregou, acena com algo similar a um último bom dia ao companheiro
Marcus no sofá que tomou emprestado, o qual pede lá suas coisas fúteis para a esposa, uma
xícara de café, uma massagem, que fechasse as cortinas, e a mulher não fazia mais que
discursar sobre competência doméstica, enquanto competentemente cozinha. É que Alex se
ocupa muito pensando. O banheiro tem anjinhos de sabonete que a moça deve ganhar de
brinde no serviço, sei lá.
Lá ele está, enxaguando o rosto e tratando da higiene que se esquecerá pouco depois que
completou, escovei mesmo os dentes?, hein?, que faz tudo adormecendo, como por exemplo
escovar os dentes. É quando muitas coisas aconteceram, e muito possivelmente essas coisas
tiveram o seu diferencial emocional ocasionado por uma seqüência de pensamentos passados
que de tantos não o cabe resgatar, será crucial ao influenciá-lo a tomar umas decisões sobre
toda a estrutura de sua vida, se repense, ele se diz. O que não demorará a acontecer. Eis o
fato substancial que realmente acontece, a pasta de dente no recipiente atual não é suficiente
para que escove totalmente a boca e, erguendo a mochila para que se possa abrir o armário
para que se possa buscar uma nova, não notou certa abertura já presente na própria mala e
acabou ignorando que o zíper escorregasse entre seus dedos, deixando que muitas coisas
interinas escorreguem, até que parem de encontro ao chão. Inicialmente sentiu o pequeno
desconforto típico de alguém que deve arrumar uma bagunça desnecessária, e que sua busca
por algo fútil se tornará desgastante. Calma, não é o fim do mundo. Mas logo deixou de
preocupar-se quando uma nova demanda de coisas simples, por coincidência, caíram
praticamente em série da mochila, e a reunião dessas coisas em específico pareciam fazer um
sentido sinistro. Eram anotações desorganizadas que ele mesmo havia feito, surpresa, até
mesmo um ou outro trecho de qualquer coisa que via por aí mas não faz muita diferença,
propaganda nova ou coisa interessante que ouviu alguém comentar, que algumas coisas
precisam ser guardadas, e o caso de outras é que anotadas ficam melhor. E essas todas
parecem estar querendo pulular ao mundo, se fazerem ver. Deslizaram por pastas mal
grampeadas, coisas impressas ou escritas a mão. Dentre essas, a sua coisa, que não é muito
mais que isso, coisa, que historicamente mais se destacava, não só pelos enfeites como estar
quase encadernada, com um letreiro que define uma identidade mais talhada e que dizia, no
seguinte nessa sua capa principal, A dialética da liberdade.
É que um dia ele se disse, só tenho talento para ver as coisas, então pensou, pensou, e
chegou à conclusão que tudo que podia fazer era dizê-las, as escreveria e vai lá, com alguma
tolerância poderia lê-las de volta. E por não ter mais o que se fazer, ficou olhando a gente e fez
a dialética da liberdade, umas anotações quaisquer, tratou da liberdade especificamente
porque esse lhe foi um tema sempre controverso e instigante, apaixonante e dúbio, um valor
que mais parece estar acima de tudo, o que o leva a crer que também acompanhe desse alto o
nosso processo de fracasso, tudo isso o fez acreditar que a liberdade é, por uma série de
motivos óbvios, mas que irá tratar, o estado de espírito que mais impressiona e seduz o
indivíduo.
E cabe a ele o mérito de libertar-se de todas as mastigações que já o deram, – o que é a
liberdade?, e como e por que a gente tratou de desvirtuar o sentido mais basal do fazer o que
quer que seja do agrado, seja com a intenção de controlar seus povos, seja pela intenção de
fazer o sentido parecer glamuroso em usos nada charmosos, seja pelo intento de tornar a
convivência suportável, seja na intenção de alienar e seduzir nossa inteligência, como líderes
exímios fizeram e nações poderosas desse mundo fazem até hoje, porque praticamente
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associam o símbolo da liberdade com deus. No fim, Alex nos ensina que o discurso feito, a
usar-se da liberdade como protagonista, cabe-se exatamente para legitimar a existência do
controle, que ninguém assume ser contra a liberdade. Todo mundo crê-se libertador. Controle,
diz-se disso ser a liberdade pública, diz-se ser um estado moderado das coisas e das
interações, mas não existe liberdade que seja das coisas, não existe liberdade que não seja de
pessoa, que não seja individual e extremamente íntima, dizia Alex, já que liberdade é um ato
exclusivo, que só um homem pode exercer, já as coisas não são e nunca serão livres, e por ser
assunto de pessoa só se a entende por cada um por si só, não existem coisas livres, lugares
livres ou qualquer sorte de coisas assim, apenas pessoas presas ou não, conclui-se por fim
que não se possa ter liberdade num estado onde haja qualquer forma de repressão, ameaça
ou medo, o que deve ser o contrário do que todos esperam, porque a liberdade na verdade é o
que menos veneram, a liberdade é o caos aonde as pessoas acabam se amedrontando, o caos
que elas trocaram pela segurança de uma vida cheia de controle, mas é. É isso o que
escreveu, usou-se de muitas linhas para explicar o que agora faria em umas poucas.
Não sabe por que escolheu falar de um mundo que também o define através da opressão,
da coerção e das tradições, de se dizer o que lá é certo ou errado apoiado no gigante que
precisa ser destroçado urgentemente, então, ele sentiu-se intimidado a destroçar esse gigante
da moral, essa moral é a principal causa de burrice, toda disciplina é um fracasso porque não
há para ela um por quê? que o responda e ao mesmo tempo o satisfaça, em seguida, ele
assim pôde ditar que por isso a moral é feita para ser destruída, talvez seja essa a vingança
por ela existir sem ter pedido licença, certo, falava da moral, ainda teimam em alimentá-la por
pensá-la necessária ou coisa assim. E exatamente por sua dialética não prever nenhuma
correção para a raiz desse mal, o que acabava é por simplesmente identificar as causas dele,
enquanto a correção tornou-se flutuante, beirando a história imbecil na proposta do se
conscientizar. Alex entende que se conscientizar representa mais ou menos o seguinte, todos
pensando da mesma maneira, agindo da mesma forma, achando as mesmas coisas certas e
admitindo que isso seja sempre bom, vivendo na harmonia que devem viver aqueles que
simplesmente se iluminam, ainda que nunca os conhecerá porque não devem vir nunca a
existir, um desses admiráveis mundos novos, que se não é homogêneo é de heterogeneidade
prevista. Continuando, quando qualquer um fala que, ora, para mobilizar essas pessoas, para
acabar com esses problemas x e y que nós vivemos, que são as mazelas mais horríveis de
nossa vida, para mudarmos nossos hábitos e para salvarmos as baleias, para mudar o mundo
e para poupar as plantinhas, basta que toda essa gente se conscientize, ainda que eu não
saiba bem o que quero dizer, mas na verdade é isso aqui, que meu entendimento é supremo e
essa gente é toda estúpida, e veja só, até minha inteligência é superior a elas, portanto, por
que não me deixam guiá-las?, por que você não me deixa te guiar?, por que simplesmente não
aceitam a minha via, a estrada da consciência?, por que não aceitam a mim, que desejo
esclarecê-la?, que sou meio que buda? Há muito esse discurso deveria ter se tornado um
fiasco, uma pena que ainda vigore, ele se lamentava, mas não é que se importe muito.
A desagregação de seus antigos companheiros de moradia ocasionou na perda de
qualquer oportunidade de estadia, e quando ingenuamente achou que poderia levar em conta
os seus contatos no labirinto urbano, é claro que realmente achou que iriam estender-lhe as
mãos sem pedir-lhe o torso, viu que improvisar o próprio destino não é assim tão fácil, teria de
trabalhar, dar-se ao batente das pessoas comuns para conseguir se manter. Arrastou-se e não
durou muito tempo em lugar nenhum. Até que Marcus o acolheu, simplesmente acolheu o
amigo desempregado, sem ter onde viver ou cair morto. Tudo provisório. Encontrava-se nesse
estado de letargia e ausência de recomendações. De qualquer maneira, sua mente nunca se
excitara tanto enquanto estivera escrevendo mecanicamente para o jornal, coisa que abomina
fazer, não fazer coisas por reflexo, mas acomodar-se, que qualquer obrigação lhe é tão difícil
quanto um trabalho braçal, é por isso que volta e meia está a debater-se, feito bicho que sente
algo errado nas entranhas, precisa mudar, só não sabe para quê, constantemente não tem
conseguido, mas agora a sua mente se excita pelas memórias, que ele mais parece ser
fogueira condenada a nunca se apagar, que pode sozinha crepitar, e suas idéias são grandes,
berra, grandes!, grandes!, sempre foram! Você não é medíocre. Você não é um verme
subempregado. Agarre o mundo, decifre essa esfinge milenar em frente aos seus olhos, essa
esfinge ridícula do espírito de homem que a gente teima em achar difícil e achar beleza, Alex,
grite sobre a verdade para o mundo estúpido, seja esdrúxulo, cruel, chocante, autêntico, faça-

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se valer, que das trevas jorre a luz ainda que muito mais se aplique o vice-versa, rufe os
tambores da anunciação, toque os clarins da verdade.
– Alex, não monopoliza o banheiro, merda! – urra uma voz insensível.
Ele enxaguava os dentes e olhava sua figura embaçada no espelho. Ao contrário do que
pode ser pensado, o berro não o distrai de seus objetivos, que ele não sabe ao certo quais são,
mas cultiva com carinho uma semente. E é cuspindo na pia que arquitetou tramas sinistras,
estratagemas de guerra, depois enquanto tomava uma ducha quente, e lá cogitou sobre a
influência de pessoas na sociedade as quais poderia recorrer, até modos de manipulação aos
quais poderia recorrer, e esforços que poderia empregar, também uns que não poderia.
Muitos instantes depois a sua consciência já havia visitado cenários diversos, todos muitos
distintos entre si, assim como abrem-se os caminhos das diferentes escolhas, estradas com
bifurcações que na imaginação vai a percorrer. O peso da água sobre as costas é quase
delicioso, o fracasso do quase vem por ser sensação adormecida, que se perdeu por
acostumar-se, mas deixou-se massagear com os braços esticados e balançando as jubas, ao
mesmo tempo em que os foscos azulejos representam, de tanto olhá-los, ou espelhos ou
pontos de fuga. O vapor proveniente do calor era tanto que tornou invisível todo o boxe, o
cheiro era quase de uma sauna perfumada de eucalipto, tão oportuno que desacordaria e
sonharia ali mesmo, se não tivesse a obrigação emergencial de continuar pensando. Como um
cão molhado, saiu do banho e se refestelou nas poças criadas, secou-se com uma sacudidela
e abanou o bafo quente do banheiro. A água do banho é como a metáfora do rio, pensou, que
jamais é a mesma duas vezes, porque não sei o quê nela mudou e o homem mudou em não
sei quê, o importante de tudo isso é o que está criando, como se chamará?, por enquanto não
sei.
E, então, a hipocrisia a qual não pertence, mas participa.
Numa mesinha simples, Ana, numa beirada, a sentar-se toda esparramada, está a se servir
com as coisas básicas de café, o faz em silêncio enquanto na outra beirada Marcus a
acompanha, abotoando calmamente a blusa amassada, mas não se preocupa com as olheiras,
das quais possivelmente não quer tratar.
– Passa a manteiga, amor? – falou a mulher com metade de um pão na boca. Alex se
enojou. Não pela boca cheia, é que prefere os brados histéricos de uma briga estúpida e a sua
própria dor de cabeça que sentir-se inserido num comercial para donas-de-casa.
– Alex, viu a câmera do jornal por aí? – perguntou o rapaz assim que dá por sua presença.
– Não – puxou uma cadeira e se sentou.
– Procura nas valises debaixo da cama – Ana.
– Tudo por ali foi tirado do lugar.
– Bom, fora delas não está, que não sou eu que as reviro.
– E quando eu culpo a faxineira que você encontrou, sou eu o cara insatisfeito com tudo. A
câmera nem mesmo é minha e já tiraram do lugar.
Alex começa a pegar pãezinhos de queijo. Assim que saem do forno são uma delícia. Eles
são uma virtude de Ana.
– A moça tem direito de errar um pouco por não viver aqui, assim as coisas podem não sair
perfeitas, e não é questão de estar insatisfeito, ou não, mas de ser compreensivo. Já tratando
de sua organização...
– Aí não podemos ser compreensivos – emendou.
– Por favor, o iogurte é dessa semana? – perguntou Alex.
– Não podemos mesmo. Não só com a organização, mas a responsabilidade – ela esteve
esperando a deixa. – Seu trabalho está vinculado à sua imagem e simpatia, e você agora mal
consegue se concentrar, quem dirá conversar fluentemente, permanecer atento ou articular
uma idéia.
– Eu sou só um câmera, não preciso de conversa. Pelo amor de deus, apenas um câmera.
Estou ótimo, não exagere.
– Ótimo pra qualquer um que encarar hoje?, por acaso revisou ontem as informações
pessoais do sujeito, ajudou a criar perguntas para o repórter, sequer configurou a câmera, que
não é sua, que por acaso você trouxe e não sabe onde está?
– É só um desses artistas, há um igual a ele ali na esquina jogando malabares pra ganhar
gorjeta.
– Sensacional. É surpreendente ver a seriedade com que você encara o que faz. Só um
câmera, se você pensa assim, é mesmo, é o que sempre será, é o seu fardo, só isso.
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– Foi só um pouco de sarcasmo, só quis dizer que a preocupação não é pra tanto.
– Pasta de amendoim, talvez? – Alex prossegue, aponta paulatinamente com os dedos.
– Precisa de um bom desempenho, com isso não se arrisca, o rendimento é uma ajuda que
não se joga fora, pelo amor de deus, precisamos de mais, já nos basta Alex sem fazer nada –
Ana prosseguiu.
– O esforço dos outros geralmente não é considerado, não é, Alex?
– É. E quanto à pasta?
– Mas que esforço? – prossegue a mulher. – Se o seu referencial de esforço é você
mesmo, aí, querido, acho que temos todos que rever nossos conceitos.
– Bom, estou vendo alguns resultados, vamos falar de referências então, estou tendo como
referencial meus ganhos até hoje, são modestos, certo, mas estão crescendo, e por isso
acredito que farei uma boa sessão e tudo mais, meu deus, apenas clico um botão, edito aqui e
acolá. Se você pede mais do que isso o excesso de exigência é seu, entende?, deixa de ser
meu problema, passou a ser seu.
– Muito conveniente. Está ligado e concentrado, não é?
– Estou ótimo, já disse.
– Mas não prestou atenção quando pedi a manteiga – por isso ela estava ressentida.
– Ela está quase do seu lado, pegue você.
Alex começa a se servir com torradas e geléia de morango. Pensou sobre quão farta era
essa mesa. O luxo da classe média é fantástico. Fazemos de tudo pela impressão que vivemos
muito bem e com fartura. Para completar só faltariam algumas panquecas. A geléia de
morango teria um uso mais adequado.
– Tinha sido um pedido educado – ela esperneia.
– Alex, tem certeza que não viu minha câmera?, no armário, lá em cima?
– Tenho.
– Agora você vai fugir da discussão?
– Não, só acho que se tivesse sido realmente um pedido educado ele não ia abrir margens
a uma conversa tão polêmica de manhã cedo. Então não vejo por que alongar isso e deixar a
todos nós nervosos.
– Porra!, eu só pedi a manteiga.
– Com licença, vou pegar uma faca e degolar vocês – diz Alex limpando a boca e se
levantando.
– E eu só estava me queixando da faxineira. O que a dona Martinha da faxina tem a ver
com minhas responsabilidades eu não sei.
– É Matilda, o nome. Matilda.
É por isso que dizem que a mentira tem pernas curtas, ela não agüenta a si mesma, não
adianta se fingir equilíbrio sobre uma jaula de cascavéis, uma hora se cansa e se vê que não
adianta ficar ali, que não ia mesmo chegar a lugar nenhum. Faz realmente um dia bonito, um
daqueles em que o calor se impregna e chega a dar para ver a poluição que ele ebule
ondulando pelos céus, e o céu se inundava num azul gritante. Daqui a uns dias vem o
temporal. Bocejou e se espreguiçou mais uma vez, não languidamente, mas rugindo e
sacudindo as patas feito um urso. Piscou os olhos, lembrou que havia esquecido de fazer a
barba, coçou levemente o pescoço com um ar de satisfação, a satisfação vem não se sabe
porquê, mas é também de displicência, é feito um discurso de vitória por simplesmente estar
vivo, o que o fez por fim apoiar-se no parapeito da varanda e buscar por uma onda de
relaxamento e prazer e meditação que não demorou a tomar a seu corpo. Os prédios erguiam-
se altos, o dia estava ofuscante e já não é mais bonito, é chato, as paredes dos edifícios
parecem sempre cadáveres de alguma coisa, em seguida uma lufada das ilhas de calor feitas
da poluição cuspiu-lhe bem no rosto, e um cheiro nauseabundo de diesel de ônibus e fritura se
aglutinou. Respirou ainda mais fundo, sorrindo a pensar que é esse lugar, a urbe, que me
transforma, e se eu estou a mudá-la é para conceder mais desse aspecto cadavérico dos
prédios, o que eu quero mesmo é pô-lo em todas as coisas.
Distraiu-se com os pensamentos e o movimento dos carros lá em baixo na avenida, e dos
transeuntes correndo e parando, tal como o de janelas nos edifícios ao lado sendo abertas e
inquilinos desocupados, feito ele, desocupados, não, privilegiados, ausentes de coisa melhor a
se fazer, se encaminhem para suas janelas a dizer, enfim!, à nossa aurora linda, ao pão
amassado por mãos anônimas de cada dia.

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O tempo em si havia sido condicionado a não ter sua passagem percebida, percepção
típica ou dos tolos ou dos sábios, e dessa maneira não se pôde diferenciar um estúpido
absoluto de um absolutamente sábio, mas nada disso é polêmica, que também está longe de
ser ou um ou outro, que tem um estilo diferente e fora de mapeamentos de matutar as grandes
questões. Perdeu-se nos apitos, nas buzinas, nos brados mais altos, alguns sons monótonos
foram ouvidos aqui de dentro, mas esses são oníricos demais, ritmo de sonolência que se
perde, então pensa que talvez não haja coisa pior que a repetição, mesmo que seja dos
prazeres, repetir-se talvez seja a maior das maldições já que é apenas um só, e ser pouco e
ser mortal o compele a uma vida de inovações. O cansaço é uma besta mortal que não acaricia
nem açoita, mas traz essa infelicidade sem dor e de suspiros, que não corrói como azia mas
feito fadiga nos joelhos, até entender-se como um obeso deitado para sempre no sofá, a
maldição da repetição traz essa sua outra irmã mais velha, a maldição da inércia. Há quem se
afirme satisfeito por sua rotina, diz que só ela realmente legitima o que somos, é o hábito que
lapida o ser, o caráter, como diamante ou obra de arte minuciosamente lapidada, assim se
satisfazem com seus sucessos e infortúnios, que tudo faz parte desse mundo, da ordem que
deve existir e é assim que devemos ser, porque é certo se adequar, ele não quer mais pensar
sobre isso. Uma porta bateu. Um móvel foi arrastado. Lá embaixo uma longa buzina ecoa, um
taxista xingou um pedestre, o pedestre cambaleia desnorteado, tudo normal. Ouve a voz
distante de Marcus anunciar sua partida, fomentava enquanto isso coisa muito mais
importante, que a contradição habitual do sujeito é visível no momento em que ele deseja o
que automaticamente não quer ter, coisa que lhe soará confusa sem um contexto prévio, mas
pertence a um, ele apenas ainda não sabe. Alex debruça-se ainda mais, e é um desses
momentos em que há grande silêncio e solidão na sua sinistra vida, fora a escuta de gorjeio de
passarinhos, mas ele não gosta de aves, ele escuta o silêncio e faz-se um induzido na cabeça,
quis ser mais preciso nas coisas que tem a se dizer. Debruçou a cabeça e sentiu o sangue
concentrar-se nela como um balão de festa de criança a encher-se d’água, se ficar assim por
tempo demais desacordará, só dará por si em queda livre e perto do chão, lá vem a calçada, e
uns gritos desesperados e, e... beleza, o fim. Lembra-se, na queda livre que não caiu, do que já
havia expressado certa vez.
O sujeito não controla a natureza do seu desejo por ele ser gerido por uma maquinaria
inconsciente, pela escuridão do ventre de onde saiu sua alma, a qual eternamente e
incompreensivelmente o sugestionará. Dessa forma, sendo a gente conjunto de seus
pensamentos e desejos, é por conseguinte fruto de sua particular, porém desconhecida,
enigmática e pantanosa inconsciência. Por sua vez, o sujeito, em seu aspecto consciente,
almeja a liberdade incondicional, não há nada mais satisfatório ao indivíduo que a satisfação de
ser livre, a capacidade de se realizar de todas formas, como quiser, além de qualquer chão e
qualquer obstáculo, enquanto já começa a dar-se de cara com a incapacidade de ser livre de si
mesmo, para o que seria preciso entender-se inteiramente, se enxergar tão claramente como
olhar uma azul piscina litorânea, e não uma avalanche de lama, que é como acontece. Diante
dessa encruzilhada, costuma-se ignorar a contradição de ser prisioneiro de si mesmo, mas
querer ser livre, e trata-se de simplificá-la, depositando toda atenção sobre a simples liberdade
de ação, ou seja, de se pôr em prática o desejo, independendo da onde ele venha, ou porquê,
das suas causas ocultas e tudo o mais. O sujeito deseja expressar-se, na verdade a expressão
é necessária do próprio desejo, que é coisa que quer deixar-de-ser, um desejo existe porque
deseja em seguida ser saciado e apagar-se ou às vezes pedir por mais, ao que o homem
consciente teme os resultados de saciá-lo. É o homem consciente que se preocupa com as
conseqüências, é ele quem faz as medidas, é ele quem pensa sobre justiça e tudo mais. Teme
o desconhecido que o seja desfavorável, coisa que é análoga à morte, o eterno símbolo da
ausência de possibilidades. E por temer as conseqüências, as pessoas sacrificam a liberdade
para a entidade do medo, numa oferenda covarde e supersticiosa. As pessoas temem que
tirem a liberdade delas, e por se temer coisa assim já se a perde, porque ao se deixar de usá-la
na qualidade é como se deixar apodrecer a si mesmo enquanto pode-se fazer o infinito. O
corajoso questiona a morte e grita contra ela a sua vontade, entendendo que pode ser livre de
fato, que a liberdade plena é satisfação plena. O cara comum não se faz livre porque teme que
a liberdade que não tem lhe seja tirada.
E ora, a repressão é inata às aglomerações de gente, é assim que atuam as civilizações, é
como sempre atuaram, é comum que hajam suas ferramentas de controle, há uma força a
governar, a querer ser exclusiva no uso da violência, isso do pacto social entre as gentes e
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tudo mais. E que essas ferramentas se concentram na forma de uma inteligência restrita, mas
ainda assim capaz de subjugar a convicção de todas as outras, é visível, já que todo sistema
de controle é elitista, mesmo que vigore o que se entenda hoje em dia como democracia, isso
de nada importa, isso de nada anula a violência do elitismo e nem lhe é da intenção fazê-lo,
apenas dá à violência novos critérios de ser. Perguntou-se, baseado numa hipótese que o fez
franzir a sobrancelha – se desconcentrou tanto que só foi pegar o final da magnífica briga entre
um policial e quatro meninos-de-rua –, como seria se fosse diferente, se as correntes do
sempre-será-assim que nos prendem fossem quebradas pelo eco que a coragem semeou na
morte?, no fundo todos somos homens, isso é o principal e princípio de todas as coisas, tudo,
até as estruturas das mais complexas dessa nossa vida é mais nada que tão somente uma
aglomeração de homens e seus costumes, seus problemas, basta-se então que homem
conteste homem, que homem mude e o outro homem também mudará. O mais previsível, a
julgar essa loucura, é que haja muito desentendimento e muitos berros escandalosos. Algo
análogo ao não. Não, não, não se trata de uma nova ordem, talvez desordem, não, ou qualquer
outro modelo, coisa similar, apenas se perguntou como seria, como seria esse mundo, e como
ele viria a se comportar?, seria uma suposição tão absurda, uma mudança de rumos tão
inesperada, tão difícil misturar hipótese utópica com visualização, que chega a conclusão que o
resultado seria parecido à revolução do pensamento que obteria o homem ao conquistar a
imortalidade. Por exemplo, se o homem fosse imortal, tudo, desde sistemas econômicos até as
manifestações artísticas seriam completamente distintas. O poeta não mais escreveria sobre o
tempo já que esse conceito seria ultrapassado, o tempo não o traria angústia ou felicidade,
senão apatia, e a efemeridade nem existiria nos dicionários, o que expressaria?, sobre a morte
se escreveria menos ainda, a vida seria completamente outra, porque só se entende vida por
haver morte, talvez essas duas palavras não mais existissem e tudo que houvesse fosse estar,
ou ser, mas os conceitos que se podem supor não chegam perto do que de fato seria, o
entendimento, as palavras, os símbolos, o modo de ser e de ter sido, de se entender e se
comunicar, de ver as coisas, de acontecer as coisas, tudo, os medos, talvez todos os temores
que se conhecem se aniquilariam, todos derivam do medo da morte, tudo seria novo, a morte é
o desconhecido máximo ao qual nos acostumamos sempre a lembrar que estamos andando,
temos de aproveitar tudo muito rápido etc etc, porque vem aí a destruição de todas as chances
que poderíamos ter, alguns até crêem na coisa da reencarnação e tudo mais, mas de toda
maneira temos pressa porque não compensa o risco de de fato nos acabarmos, desejamos nos
realizar, temos medo da frustração, de não sermos suficientes para tão pouco tempo. Se ainda
houvesse deus, este seria no máximo o amigo imaginário coletivo, e não pai de alguém. Até
mesmo o conceito de dinheiro da forma que se encaminha ia ruir e se suicidar, já que
capitalistas, por exemplo, não são mais que perseguidores de imortalidade, o que se dá
através do acúmulo eterno do tempo dos homens que vendem este tempo por necessidade de
sobreviver e para eventualmente conseguirem uma grana para conquistarem o ócio comprando
o tempo de outro infeliz que sacrificou seu tempo para conseguir uma grana, então são, esses
que dominam uns aos outros, consumidores de qualidade de vida sugada do tempo dos outros,
sugada como das tetas de uma vaca producente, isso porque sabem que na verdade
quantitativamente o tempo a todos encerra, mas resta então o lado qualitativo, em prol desse
ganho é que se organizam geograficamente e socialmente, assim manipulam os demais e
buscam, irascíveis, através do luxo ou de uma família modelo, a qualidade de um imortal. Se o
homem fosse imortal de verdade, a psicologia ruiria e a história seria outra, e a cabeça
começou a zumbir. Pensar no homem livre é tão horrível quanto supor imortal. A diferença é
que o primeiro é possível.
O policial acaba de enxotar os quatro garotos com um cassetete gigantesco, e ali eles
seguiram se embolando, pareciam todos pontos no formigueiro de pedestres lá em baixo,
misturando-se e alternando-se numa lógica que não pode compreender, ou simplesmente não
há. Alex deduziu que o motivo para o estardalhaço era que os garotos estavam vandalizando a
saída de carros de um estacionamento ao pedir gorjetas aos motoristas de passagem. Torceu
para que o policial desse na cabeça de um deles, só para que todos os outros se revoltassem
de tal forma a derrubá-lo e espancá-lo sem pudores, na frente de todos, espetacular. Vingariam
cruelmente o colega, seria interessante. Queria ver sangue. É assim que nascem as relações
de poder, não do sangue, apesar de quase sempre, mas de uma grande violência análoga
àquela palavra não. Mas os meninos apenas corriam vencidos e acuados para uma rua mais
abaixo, uma entrada menor entre prédios antigos, e se limitavam a proferir palavrões com
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aquelas vozes esganiçadas de crianças, por isso não tem filhos. Um vendedor ambulante
desviando-se deles fora da faixa dos pedestres quase causou um acidente na pista, tanto que
soaram muitas buzinas longas e seguidas, bem feito, que por pouco foi que o sangue não veio.
Alex ouviu um estalido e se virou.
– Já estou indo. Se sair, não esqueça das chaves na cozinha – Ana, aquela moçoila com
os ânimos então refrescados, já se encontra arrumada e bonitinha. O vestido que usa não
traduz exatamente o comportamento profissional de uma desenhista, arquiteta ou alguma coisa
parecida, ele não pode estar imaginando a sensualidade que vê, imagina que ambiente de
trabalho a instigue, talvez ela tenha um amante, não é de se espantar.
As verdades são as impressões das cabeças dos espertos.
– Bom dia – e respondeu.
Demoram alguns segundos até que ele se emendasse. – Se ainda vir Marcus hoje, deseje
um bom trabalho a ele, certo?
– Por que você mesmo não o fez enquanto pôde?
– Estava ocupado, não tive chance.
Rastejou, enquanto empunha do bolso da bermuda mais um cigarro, até o canto do sofá.
Abriu a outra mochila, dela tirou seu único instrumento de trabalho, que na verdade recruta lá
dez mil possibilidades na forma de seu computador portátil. Acendeu o fumo e traga, aí pensou
se seria engraçada a cena de colocar dois cigarros simultaneamente na boca, a fim de rir de si
mesmo o fez. Assim é bom que fica um para cada pulmão. Foi para o quarto, tropeçou no
carpete, derrubou o computador na cama, sorte que caiu no macio, depois ele mesmo deitou
rolando, e com certa dificuldade se esticou para ligar as coisas em suas respectivas tomadas,
tremeu os dedinhos e se encolheu, feliz. Tinha sínteses em sua cabeça, e delas, por sua vez, o
mundo se ramificaria. Ia escrever o mundo. Seria tão simples, nada faltaria nessas linhas.
Nada, nenhuma causa que tivesse induzido qualquer fenômeno que já tivesse acontecido.
Antes disso, só precisa lembrar de algumas coisas.

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Por alguns momentos não houve qualquer saída para a solidão, tampouco sabe como ela o
tinha cercado. Alex se viu sozinho, das paredes se fechando tentou então fugir ao abrir os
olhos, lapso da coragem que lhe restou, mas para sempre tratou de abandoná-lo. E quando o
fez, todas as coisas ainda estavam incertas, tudo que sei, pensou e interrompeu-se, tudo que
sabe é que está só. Poderia ser o fim, de qualquer forma não seria este um fim exatamente
surpreendente, corrigiu-se, aqui não há surpresa, medo ou insegurança, apenas é. Pensou
também que talvez tenha uma grave obsessão pelo seu próprio fim.
Não soube determinar ao certo o que havia em sua frente, é que se via numa treva
interminável, era metafísica e a ela não se admitia um início e muito menos um final garantido,
talvez nem mesmo o próprio fim que supunha, que de certo modo ele quis ver chegar, porque
aqui não há chegadas ou espaço ou proporções, apenas nada, e encontrar-se com o nada faz
com que sufoque, sabia que aos poucos minguaria a construção frágil da sua personalidade,
anoitecendo em direção à sua essência, esse lugar, dizia-lhe a voz da intuição, é onde tudo se
encontra consigo e portanto se apaga por não mais haver busca, o fim da travessia do abismo,
ou só o começo do meu salto nele?, e a hora chegava, já não quero mais que chegue.
A primeira imagem que lhe pôde vir foi a de um inverno eterno, a paralisia sempre se
associa com a idéia de inverno, como um búfalo num zoológico deserto, num milharal
congelado, também porque apesar de tudo ser negro é também cristalino, e se sente frio não
saberia dizer, ainda assim gelava a espinha, e não era inverno, na verdade não era nada,
búfalo, lagarto, gente, estava tudo desolado e quieto e ele estava muito ocupado comungando
com tudo isso. Foi então que viu uma criatura na escuridão a vigiá-lo, ela não tinha rosto, mas
suas silhuetas claramente se insinuam. Estou sonhando, ok. As íris da coisa foram tomadas
por um prisma rubro, como se o sangue o estivesse iluminado, ou dentro queimasse alguma
vida, depois tornou-se tudo branco. Era tudo que podia enxergar. Por um instante receou.
Salve-me o que for, estou sozinho aqui com isso. A criatura arriscou um movimento do
pescoço, o inclinava, mas só se lhe via o par de olhos albinos.
De que devo chamar-lhe?, seu pensamento manifestou-se, a pergunta não saiu da ponta
da língua propriamente dita mas pode-se dizer que foi como se o fizesse, o fato é que podia
ouvir-se no espaço indefinível a voz que não era exatamente a sua, mas talvez fosse a voz que
pretendesse possuir, talvez o modo que ele a pensasse ser, mas não o fosse, aqui é. Só então
notou que ele mesmo agora arqueava o pescoço, não seria diferente do ser do escuro, que se
pôs a acompanhá-lo, espelhando-o, circense, o monstro arrepiante. O fez outras vezes, o testa
mais um tanto, é acompanhado sem exceção por cada movimento, o fantasma do seu reflexo
repete as mesmas mímicas, franziu o rosto sem saber o que esperar, até que foi repelido.
Tenha cuidado ao chamar-me, respondeu-lhe. Jamais poderia haver outro som. Por que veio?,
ecoou. Não houve resposta. Por que veio?, por que veio?, insistia mas recuava, a sombra o
seguia em quantos passos desse, o suficiente para que não pudesse nunca ir embora, o
suficiente para que não pudesse sequer pensar em fazê-lo. Estou preso, afirmou incerto, com
jeito de pergunta, ele próprio tentava se libertar, de quê é um mistério. Que tortura, ele não o
respondia, talvez nunca o fizesse, talvez esperasse por algo que nunca se saberá o quê. Quem
é você, algum diabo? Um pobre diabo, finalmente respondeu. Então este sou eu que fui posto
a me olhar, já imaginava algo parecido. Também não sou você, respondeu-lhe. – E quem é,
então? – perguntou.
– Já me viu uma certa vez
– Eu o vi quando era criança e sonhei, eu nunca me esqueci.
– Não estranha eu te ser a memória mais distante na vida?
– A memória mais distante é sempre um sonho.
– Desde então sabe que eu preciso de um nome. Já o encontrou? – houve um longo
instante de insegurança, não se inspira com nome algum.
– Muito cuidado ao chamar-me – advertiu em seguida, ao que Alex sente um peso
angustiante sobre a nuca, se é que a nuca existe, mas afinal o importante é mesmo o peso,
fosse ou não fosse onde acha que é, que tudo deve ser sua imaginação, mas as dores são o
que são e são a certeza da realidade, nunca ilusão.
Acontece que quando movimentou a cabeça para trás no intento de livrar-se do que o
oprimia, não conhece que pressão é essa que sempre teima em fazê-lo ficar debruçado e a
encarar o chão, percebeu que até então esteve olhando a esse chão, a que sempre esteve
olhando, já havia se acostumado, não sabe se é saudade ou se é alívio o que lhe vem. Sorriu o
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pouco que poderia ao ousar debruçar-se uma vez mais, no solo cristalizado de superfície negra
havia o seu próprio reflexo, o outro se fora. Concluiu que enquanto não lhe desse o nome que
lhe foi pedido, pensaria nele como o outro. Mas ele não era o mais importante agora.
Quando tornou a olhar para frente, as trevas o pirraçaram e originam a extensão de um
túnel, corredor que onde daria não se era visto, seria na verdade um poço tão profundo quanto
seria caso olhasse por demais tempo ao chão, chegou então a ter o rápido pensamento de
que, independente para onde direcionasse a atenção, estaria outrora sempre olhando para
baixo e sempre haveria um novo túnel que na verdade o aprisionaria num círculo, estava preso
para sempre, como no ouroboro, a serpente mágica que é o universo mordendo a própria
cauda, afinal estava claro, começou a desesperar. Se não fossem as portas ao longo do
corredor. Eram de um branco gritante, as bordas florescentes, enfileiravam-se paralelas por
todo o corredor, e elas se insinuam, paradas, por você.
Enfim, pensou, não estou realmente preso, graças a não sei o quê, convenhamos que esse
medo também tenha mesmo sido um tanto absurdo. Estava apenas só e isso não é novidade
alguma. O outro não extirpava essa impressão, apenas fazia com que por instantes se
esquecesse dela, à medida que o foco da atenção tem de ser direcionado ao temor que tem
dele e às perguntas que eventualmente fará. Mas agora havia as portas, era bem provável que
fossem infinitas, nesse caso as abrirá até que não mais possa. Se pôs a caminhar e a sua
imagem estranhamente trajada de negro o seguia, ele se perguntou afinal para onde devia
dirigir-se, hesitou se devia continuar olhando por sobre aquela figura pálida estendendo-se no
piso, por mais que receie não consegue tirar os olhos dela, era muito mais hostil do que ele
próprio se lembrava como sendo, de traços cadavéricos em cujas curvas parecia emoldurar-se
um rancor satânico que dormia e ele desconhecia, na verdade temia não vigiar por tempo
demais o espírito vingativo que parecia estar prestes a saltar do piso e puxar-lhe
definitivamente para o mundo dos reflexos, não ia deixar de olhá-lo e correr o risco da
surpresa. Alguém, em uma data distante que ele não lembra exatamente qual seria, nem em
que ocasião a coisa tinha se dado, contou-lhe que o espírito, ou o sujeito recém-acordado
durante a noite ou algo assim, não devia jamais se olhar num espelho ou de uma forma
qualquer dar com o seu próprio reflexo, caso contrário trocariam de lugar, o que ele era
passaria a ser imagem no mundo atrás do espelho. Essas coisas não o intimidavam, ao menos
achou que não, mas há de se convir algum motivo para que até hoje espelhos fossem algo que
lhe trazem uma fagulha de desagrado, coisa que lhe ocasiona a idéia de ser um vampiro,
crença que de tão entranhada tornou-se vital aos modos, noturno, dracúleo e mais
atormentado que um cristão.
Algumas portas já estão para trás, é que no caminho ele acabou achando desnecessária a
idéia de que todas têm de ser abertas, estava dividido entre a possibilidade de chegar a um fim
ou achar-lhe conteúdos, teorizar o que dentro das portas havia parecia perda de tempo se ele
mesmo poderia constatar, é isso que o pedem, já entendia. Colocou a mão numa maçaneta, a
girou.
Quando a empurrou um cheiro de fedores misturados de cidade lhe soprou bem na cara,
um vapor denso e nevoeiro se dispersaram por todos os lados e passando por sobre ele, sentiu
aquilo tão vividamente que foi forçado a recolher o rosto para tossir e proteger os olhos
irritados. Crescendo como numa sinfonia se propagavam os sons, não que houvesse som
verdadeiro, inicialmente essa era a única impressão que podia formular sobre eles, mas logo
tratou de volver o rosto por dentro da fumaceira e espaná-la com os braços, e quando
efetivamente conseguiu não serão seus olhos a trapacearem, reconheceu de pronto o brilho de
luzes noturnas, sim, era noite onde quer que fosse, o que quer que significasse, e apesar de o
barulho das noites normais já serem por si só tão calminhos, a abertura dessa porta parece
ocasionar na ruptura de uma estrutura frágil baseada em timidez e, quando no máximo,
murmúrios, e agora você estragou tudo, acordou o estrondo que não se sabe do que é. Mas
não, aquilo é realmente diferente, era algo real o que via, asfaltos de uma ponte abandonada,
até a ausência de toda e qualquer coisa, a rua vazia, a sujeira de um ou outro papel vagando
pelos cantinhos, prensados e empapados da chuva que desaba.
Há uma hipótese importante de ser levada em conta, a da psique humana não ser
estritamente uma engrenagem mecânica e, portanto, ser dotada de seus próprios poderes
oníricos, isto porque conscientemente não se os decodifica, e assim sendo é portadora
também de suas próprias razões, ou falta delas, ou propriedades exclusivas de ser. Talvez
esteja indo longe demais, descendo muito fundo, aventurando-se nos poderes da premonição,
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e vá com calma, que há preços a pagar, nada é entregue sem suor, não raro quando se pede
por sangue, mas ele não é estúpido, sabe definir quando as coisas passam de sua hora, e
dentro dessa porta a hora se estendeu quando começou a ver, no final oposto da rua, o
farolete de um automóvel se aproximando, bem, se essas lembranças ou coisas que ainda
estão para acontecer pudessem vê-lo, repará-lo que estão sendo vigiadas, é melhor que não
fique por mais tempo, poderia ser responsável por um estranho colapso temporal, um fim
bizarro e entrópico de todo o universo. Ou pode ser tragado e aprisionado para sempre numa
ficção que criou, não arriscará, recuou e fechou a porta.
Quando abriu uma outra porta viu algo muito parecido com um quarto, entre as formas de
silhueta de sua escura inconsciência reconhecia como espectador uma cena perdida entre as
quais vivenciou durante sua vida, não é mais que a cópula de ele mesmo e uma fêmea sobre
uma cama que não lembra qual, não lembra quem seja, apenas pode reconhecer sua
representação, sua imagem, pela mesma inteligência que reconhece o reflexo a segui-lo,
ouviu-se arfar, o suor na pele e som de dentes, a pulsação cardíaca mais parece a badalada
de um relógio à meia-noite, o repercute incitando o suspense de quem vira abóbora, e então
começou a ser tomado por um pânico absoluto, deu-se conta de algo terrível, não, não era ele,
não podia ser ele, não se reconhecia, no que ele havia sido transformado e, afinal, o que era
aquele próprio que pensava essas coisas?, não reconhece o reflexo, ou afinal só está
reconhecendo em si o que ele não é?, e que enfim se tomou conhecimento que ele não é si
mesmo?, que vem se transformando em algo que ele definitivamente não é?, fechou a porta
imediatamente, ver aquele que não era verdadeiro, simplesmente verdadeiro, ocupando o seu
espaço, nas suas coisas e principalmente a encenar as suas memórias era terrível, ao mesmo
tempo não pode dizer que lhe seria um completo estranho, se o fosse não lhe forneceria o
tamanho dessa agonia, era como um sósia perfeito que tentava imitá-lo em tudo, mas a falha
da perfeição o denuncia, ou a falha ou um escárnio de quem quer se mostrar sendo ele, ao
menos seguindo-o e representando-o, sem o ser, estava longe de ser ele, podia perceber na
vulgaridade das minuciosidades, mas e se fosse?, ai, começou a respirar ofegante, a garganta
começou a coçar, abriu a porta logo ao lado.
Viu uma rua dessas que conhecia, mas que não nos marca até o momento que resolvemos
sonhar com elas, e havia uma igreja em frente a uma praça verde, havia prédios antigos, as
calçadas com tantos pedestres, os comércios abertos, enfim, nada de especial, só o maçante
pão amassado pelo excomungado que vemos todos dias, os pontos de ônibus, não, não, viu
novamente aquele mesmo sujeito desconhecido com um olhar cadavérico que agora identifica
como o representante do seu papel em sua história furtadas, ele ia caminhando naturalmente
pela calçada, até o seu jeito de se curvar e bandear-se sobre o próprio corpo era
diferentemente vulgar, roubaram-lhe a alma. O observou, arrepiou-se totalmente quando o viu
virar-se para sinalizar ao ônibus que vinha fazendo a curva, o que acontece é que por alguns
instantes seus olhares se encontraram, não era um olhar comum. Seu sósia sabe que você
está ali. O ator que está se apossando da sua vida. Aquele que não é você mesmo. Você não é
o único espectador das coisas, saber que também podia ser visto nesse corredor de
inconsciência lhe incinerou num medo que talvez jamais tenha sentido antes. O medo de estar
se perdendo. Bateu a porta no mesmo instante e correu. Olhou para trás, desesperado, tinha
quase a certeza que algo na escuridão do lado oposto o seguiria. Diga um nome, pensou,
chame por um nome, é isso que ele quer, é só o que deve importar. Abriu outra porta e o
flagrou a roncar na sua cama, abriu outra porta e o viu gargalhando junto aos amigos numa
mesa de bar, porta por porta, sorrindo, andando, pensando, comendo, viajando, bebendo,
tremendo, arfando, olhando, gemendo, sofrendo, acenando, trepando, voltando, caindo,
ganhando, saindo, fumando, perdendo, comprando, batendo, morrendo era só o que lhe
restava, morrendo ainda faltava, mas pelo visto não há de demorar, temeu se em breve não se
encontraria dessa maneira, num caixão, e todos os sonhos se apagariam com o fim da vida e
descobriria que do seu próprio fim sequer foi o protagonista, que esteve se tornando uma
réplica distorcida, um cara que jamais reconhecerá.
Pensava se não seria tudo culpa do outro, e não só poderia mesmo ser a culpa do
enigmático outro, se aquele próprio não seria o rosto do outro que sempre que lhe vinha na
memória carregava um rosto de sombra, mas enquanto corria pensou que isso não poderia
acontecer, que não lhe apareceria assim, que não havia propósito, então o que está
acontecendo?, pára, pára, não agüentava mais, agora podia sentir as lembranças e presságios
batendo no lado de dentro das portas, insinuam que passado e futuro são irmãos gêmeos, seja
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qual fosse o preenchimento dessas portas, queriam rebentá-las como um parto ou um filme
demoníaco que a besta trinca as maçanetas querendo vir pegar o mocinho, queriam ser vistas,
queriam se fazer valer, só queriam escapar e espancar-lhe, afogar-lhe em viscosidades, dar
uma overdose, trancá-lo ali, logo a ele que nem sabia o que ele mesmo era, e por não saber só
sentia medo de tudo, e tudo o coagia ao mesmo tempo. Chame-o, talvez possa salvá-lo, talvez
não, não é prudente que se corra o risco numa situação como essa, é melhor se prevenir, mas
não sabe aonde dará cada passo teu, talvez o resultado, o fim, seja a mais pura loucura.
Lembrou-se de histórias de sujeitos que se perderam em seus próprios sonhos e que
jamais regressaram sãos, porque jamais souberam quem realmente eles eram, estavam
perdidos, indefinidos na própria subconsciência, na própria substância, e ele também estava,
não havia uma identidade, não havia nada. Espera. Tanto correu que o corredor findou-se.
Sim, era o fim, o viu. O estalido de sino ecoou e identificou a porta se abrindo de um elevador,
ainda teve de inclinar o corpo para caber enquanto entrava correndo, aí chegou com tudo
batendo-se na vidraça oposta. Por uns instantes, mesmo ainda destituído de qualquer
claridade racional, contemplou a visão panorâmica que dali poderia ter, ocorreu que tão abaixo
de si via a cidade de noite, por alguns instantes teve o alívio de não se sentir mais tão preso.
Sequer notou quando a porta pela qual entrou começou a se fechar, mas sentiu-se certamente
confortável quando terminou. Restituiu-se, sabe como é, colocou as coisas em ordem,
começando por evitar o reflexo, que ainda teimava em tê-lo acompanhado, que se formava ao
canto das vidraças do elevador.
Estava dedicado a desmistificar aquelas sensações, sabia não ser por uma fuga que as
coisas se tornariam claras. Pensava e, nesse meio tempo, com a serenidade que havia no
começo de tudo e da forma que ele julgava ideal ter se mantido, pôde perceber que começara
a efetivamente se movimentar pela visão que tinha da cidade, ela aos poucos diminuía à
medida que ele sobe os andares, a cidade acaba se perdendo entre suas sombras de
concreto, porque todas suas luzes estão apagadas. Pediu um nome, pensou, mas só
conseguiu pôr-me em dúvidas de meu próprio.
Colocou a mão na boca, pranteou em forma de sensações da maneira que só se faz
quando a nossa própria intimidade nos aparece à tona, é coisa que ocorre em sonhos vívidos
como esse. Existe mesmo uma intimidade profunda, uma caverna com ecos onde todas as
sensações são mais fortes e lúcidas sobre elas mesmas, porque um pouco mais abaixo é onde
elas se criaram, e nada, nem você, pode descer assim tão fundo, e as lágrimas que só caem
por ser sonho ainda assim nunca apagarão o que começava a ver. A princípio achou ser
somente brilho mais forte a destacar-se na vista panorâmica. Daí ergueu um pouco mais os
olhos. Em todo canto havia focos de incêndio, a cidade queimava, a maior de todas fogueiras
queimava, e o fogo haveria de consumir a tudo, nada mais restaria, e não seria sua pequena
consciência a se dar conta de quão majestosa seria a hecatombe, com labaredas de tocar o
céu. Daí em diante as coisas se tornaram sonolentas demais.
Estava com um novo dilema. Se abrisse os olhos, o que veria?, talvez desse de frente com
a tampa de seu caixão, estaria deitado, óbvia dedução, descobriria que é uma múmia, foi
enterrado há sabe-se lá quanto tempo e não lhe restaria muito a fazer, senão arranhar as
paredes de seu leito enquanto morre lentamente asfixiado, não seria escandaloso o bastante
para gritar por ajuda quando sabia que ninguém o ouviria, ou talvez acordasse e descobrisse
que a sua mente residia no corpo de uma pessoa totalmente diferente, um gordo careca,
talvez, um velho de oitenta anos, é que na verdade tentaram lhe apagar o passado, e de
alguma forma ele teria frustrado essa experiência, tentaram ver como reage o homem em
situações diferentes e em mentes diferentes para de repente reconhecer a própria partícula
que o torna homem, mas realmente deu errado, isso está claro, porque com força algo doía em
sua cabeça, sempre tem essa impressão, e é sempre a dor a acordá-lo e ancorá-lo. As
sensações não o enganam, algo horrível foi feito de seu corpo, algo inominável, nem as
vísceras serão as mesmas, e ouviu um estalido próximo, ao menos não lhe tinham arrancado
os tímpanos. Abriu um dos olhos, chegou a rolar um pouco na estreita cama, não o fez mais
por já estar na beirada, e deduziu sem lógicas mais profundas que foi algo mais que o acordou,
além dessa iluminação de abajur ali sobre a estante, talvez o outro esteja aqui a visitá-lo. Está
escuro, a primeira coisa que fez foi levar o braço à testa e proteger-se, definitivamente a luz
não é no mundo uma das coisas que mais gosta, considera seus olhos fracos demais, talvez
seja isso na verdade a causa da sua constante dor de cabeça e enjôos, não é uma náusea que
sente por toda a espécie humana, por todos nós, não é misantropia, é fotofobia, e por
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conseguir se diagnosticar considera já estar se recuperando, sempre que se nomeia o
desconhecido se tranqüiliza a respeito dele, também é nisso que consiste sua relação com o
outro. As imagens ainda estão oscilando, vertigem de gangorra, mas reluta, bravo como é o
nosso herói, forçou a vista e decifrou a imagem pálida e magrela que ocupa a cama do lado.
– Tive um sonho estranho – murmurou –, tinham coisas horríveis me perseguindo. Estou
com sede.
– Te acordei? – a figurinha ao seu lado estava de joelhos, reclinada sobre algumas peças
espalhadas na cama, não parecia ser algo mais complexo que um aparelho eletrônico aberto
com uns fios descapados, Alex não sabe a diferença entre porca e parafuso e suíno.
– Não pode esperar pra fazer isso pela manhã?
– É um trabalho...
– Não foi exatamente isso que eu quis saber – e se estirou de barriga para cima. Conclui
não ter dormido nada.
Alguns instantes de sons de coisinhas estalando se passaram.
– Jonas, você não teria um analgésico aí, teria?
– Não.
– Qualquer coisa pra dor?
– Não. Eu só queria mesmo – o sujeito pára alguns instantes e ajeitou os óculos grossos,
falou com ar cansado – poder terminar esse protótipo.
– Certo, desculpe.
Alex se virou para o lado oposto da cama, tem de ficar encolhido contra a parede, aí
apertou a testa contra o travesseiro. Uma orquestra de grilos aos poucos diminuía a cantoria
dentro do crânio, fechou os olhos e demorou menos do que esperava até que o sono viesse.
Mal acordou e já estava metido no quarto de Sabrina, a estudante de psiquiatria da casa.
Enquanto a esperava remexer em suas bagunças, olhava em volta sentado na cama, no
instante pensava sobre o tamanho do quarto ser um tanto desproporcional aos demais, na
verdade não é apenas essa a questão, mas o fato de ela não ter de dividir o quarto com
ninguém e dispor inclusive do que era o maior entre todos estimulava algumas intrigas que em
segredo matutava. Não que se esse tipo de comparação lhe fosse vital, pelo contrário, poderia
se aconchegar no chão se necessário, ainda bem que não seja, só que lhe era ainda um pouco
controverso o porquê de ela ter mais regalias e, como se isso não bastasse, gostasse de tornar
implícito os legítimos direitos que tinha em tudo o que dizia ou faz nessa casa. Isso pode
acabar, ela está vulnerável. Virada de costas, agachada, mexia em seu armário, não teria
muito como reagir se fosse subitamente agarrada por trás, tivesse a boca tampada por uma
mão rude e aí fosse sufocada até não mais resistir, poderia debater-se, sacudir as pernas e as
mãos, nunca será o bastante. Ia matá-la. Só bastar que envolva a garganta numa daquelas
suas roupas sem vida, as quais ela acha realçar sabe-se lá o quê no seu corpo esquálido, mas
bonitinho, seria mais que o bastante, não será mais do que um excitante minuto de adrenalina
até sentir-se aliviado e ela estar em paz e roxa. Ela está mais sensual que o comum assim,
curvada, e ainda por cima dentro daquela camisola branca, talvez matá-la não seja mesmo
uma idéia das brilhantes.
– O que estava sentindo?
Quando ela pergunta ele reparou que já estava na terceira gaveta a ser aberta. Ou não
estaria encontrando o que buscava ou acontece que gostava de ser olhada, as mulheres
sabem quando há um homem a espiá-las. Além do quê, essa pergunta que fez talvez fosse um
pouco ambígua demais, isto é, exatamente sobre quando ela se refere?, tanto podia ser de
agora há pouco, quando minuciosamente percebeu os pensamentos cruéis que partiam dos
seus olhos para ela, quanto podia ser da enfermidade por causa da qual ele a procurou, de
qualquer maneira sabia que ela é esperta o suficiente para não se expor. Ou talvez estivesse
fantasiando demais, o que lhe faz a cabeça doer.
– Começou a doer de novo – ele respondeu, levou as mãos às têmporas. – É essa forte
enxaqueca, não sei, está constante demais, há semanas. Acho que não tenho muito tempo de
vida.
– Não seja dramático. Andou bebendo? – realizava a rotina pré-diagnóstica ainda estando
de costas. Alex imaginou que essa devia ser a maneira mais ideal de ser atendido por um
médico, os padres antigamente também assim rezavam suas missas.
– Faz dias que não.

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De dentro da gaveta ela tira nesses instantes o estetoscópio, e aparentemente, por já vê-la
se virando e estando prestes a se prontificar, deduz que esse aparelho seja suficiente para
examinar e diagnosticar toda a complexidade do seu sistema neural, desde o desagrado ao se
tratar de luzes no rosto até umas crises de identidade que acha sofrer. Aquela garota de
cabelos curtos e negros não parece tão fascinante assim, nada mais que uma rapariga de
óculos de grau e rosto um tanto cansado. – Podia ter se vestido antes de vir – aponta por conta
de estar apenas com as cuecas.
– Desculpe, era uma emergência.
– Está forçando os olhos. Está com a vista cansada?
– Você é oftalmologista? – não resiste à idéia do comentário, acaba saindo quase por
impulso, deduz que por coisa assim é que médico e paciente não devem se aproximar.
E ela arfou como se dissesse, escuta, já estou fazendo algo que não me é propriamente do
agrado estar fazendo, viu?, você ainda vai agir como se me fosse obrigação?, hein?,
convenhamos, ponderemos, e apliquemos nosso tempo com coisas mais úteis a cada um de
nós.
– Quer ajuda ou não faz diferença?
– Desculpe. A vista cansada é porque não dormi bem.
– Se eu fizesse de outro jeito você não ia desistir, não é mesmo? – coloca a parte do
aparelho que se deve encaixar nas orelhas nas orelhas e a que devia se encaixar no peito do
paciente, no peito do paciente. – Erga o tórax, puxe o ar, isso, agora prenda por alguns
instantes, assim. Assim. Pode soltar agora, calma, lentamente, não tudo de vez.
– Acho que pode ser meningite.
– Pare, por favor – suspirou.
– Talvez encefalite.
– Fique quieto, agora respire normalmente.
Alex assovia e bufava de uma maneira estranha.
– É isso que você chama de respirar?
– Eu não entendo o termo clínico das coisas, é você a médica aqui.
– Abra bem a boca, se mantenha calado o máximo de tempo possível. Diga ah.
– Você vai olhar minha garganta?
– É a idéia.
– Não precisaria de uma daquelas lanterninhas?
– Alex, eu preciso sair daqui a no máximo meia hora e não estou sequer de banho tomado.
Os garotos com câncer no hospital – ela sempre menciona os garotos com câncer, que se
danem os garotos com câncer – precisam um pouco mais de mim do que você.
– Peça pra um substituto cuidar deles, aposto que eles não estão com essa enxaqueca.
– Talvez eu use a sua idéia quando eu sim estiver com sua enxaqueca. Vamos lá, abra a
boca.
– Tudo bem, mas, porra, não a subestime. A enxaqueca, não minha boca.
– Anda logo.
Ele obedece, força o maxilar até onde pode e não se importa com a vontade de salivar.
Sente-se um cavalo que tem seus dentes examinados, até dar-se conta de que não é
exatamente uma sensação ultrajante, é mesmo assim que as coisas ocorrem, que as coisas da
vida não são lá muito glamurosas, o mesmo processo com o qual se examina uns bichos se
punha agora a examinar a si cuja dor deve de ser muito mais transcendente à descrição de
mera enxaqueca, há nisso um fundo espiritual, o que talvez a boca de um cavalo não viesse
apresentar. Pensou no que diabos ela pensa enquanto esteja olhando a sua garganta, ele já
estaria rindo da feiúra que é a anatomia de uma boca, se não isso estaria vomitando ao ver
dentes com restinhos de comida e a amarelidão do passar dos tempos. Achou que estar nu
seria mais discreto do que ser olhado nas suas sujeiras, a verdade é que se sente um pouco
violado, não lhe é exatamente íntimo, mas é sufocante.
– Pelo que dá pra ver tá um pouco inflamado. Alguma bactéria na garganta pode causar
também febre e dor de cabeça – e liberou-lhe a boca.
– Acho que tomei pílulas anticoncepcionais de Letícia, achei que eram pastilhas especiais
pra hálito, pode ter sido isso.
– Meu deus, Alex. Ok. É óbvio que não.
– Ao menos eu não vou ovular.
– Abra bem os olhos e siga meu dedo.
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Ele o fez, sente um pouco de riso tentando escapar-lhe, mas ela ao contrário o olha tão
seriamente que o põe intimidado, talvez se risse ela o desse com o aparelho bem no olho, ou
talvez esconda um bisturi, sempre ande com ele para um eventual estresse, não sabia.
– Não posso dar certeza, mas não é difícil ver que suas lentes naturais estão um pouco
deslocadas, você força os olhos demais, pode ser miopia. É melhor ir a um oftalmologista.
– Não, disso eu sei. Você olhou até minha garganta, mas eu quero saber o porquê da
enxaqueca, e enxaquecas geralmente ficam na cabeça.
– A médica aqui sou eu.
– Daqui a pouco você vai querer futucar minha próstata e eu vou ter que acatar...
– Bom, é isso, estou indo – fez menção de levantar-se.
– Não, espere. Acho que posso ter uma pista. Sabe, ando tendo sonhos ruins... – franziu a
testa ao falar disso, gosta da idéia de dar peso ao quão horríveis eles são.
– Certo, Alex. Você não vai desistir. Me fale sobre seus sonhos.
– Outro dia sonhei que estava correndo por uma rua escura, não sabia ao certo do quê,
mas num certo instante vinha um cara lá de trás e me dava um tiro pelas costas, terminou que
eu não consegui fugir e morria.
– Interessante.
– Só não me venha dizer que isso é freudiano, dizer que sonho tem alguma coisa
freudiana. Não quero imaginar o que Freud diria de um sonho onde o cara leva um tiro por trás.
– Não, Alex, pesadelos são mais típicos do que você pensa, não que coisas freudianas não
sejam simples – não vê como ela possa se gabar de algo como isso –, até a alimentação pode
influenciar pra você ter sonhos ruins. Pode ser até hormonal, entende?, depois de um tempo
passa, não tem com o que se preocupar. O seu cérebro precisa de uma descarga de
adrenalina. Mas os seus sonhos representam também seus medos, ou de repente nem isso, só
uma cena de filme que você viu e esqueceu ou juntou com alguma memória ou coisa da sua
imaginação, pode ser qualquer coisa, percebe? – parecia um pouco displicente, imaginou se
aos seus futuros clientes ela daria essa mesma interpretação ou inventaria significados épicos
e incríveis para o tal do sonho.
– Não sei. Acho que estou estressado.
Ela não pôde deixar de reter uma pequena risada. Agora é Alex quem olha a sério,
aparentemente não a tinha entendido, até o ponto em que ela pareceu constranger-se e
minguou o sorriso.
– Tá falando sério? – perguntou num tom quase divertido.
– Há um certo escárnio na sua pergunta ou foi só impressão? – moveu bastante o rosto ao
falar a palavra escárnio, parecia esperar por algum resultado de comoção, o que, na verdade,
não deixou de funcionar.
– Não, ora, foi só que...
– Eu não posso estar estressado – emendou –, isso parece mesmo ser algo que nunca me
afligiria, não é?
– Não é isso, naturalmente que qualquer um pode, isso...
– Não importa, você foi preconceituosa e antiética.
– Alex, não exagere.
– Certo, desculpe.
– Acho que terminamos por aqui.
Após ter sido examinado, Alex partira com a forte impressão de ter sido mais um tanto
ludibriado, deu-se por vencido quando a doutora o receitou um desses remédios para dormir,
mas de tão forte, disse ela após ele insistir tanto na gravidade que tinham suas insônias e
dores, mas de tão forte que era, só poderia tomar um quarto do remédio, então isso seria o
bastante para assegurá-lo com toda certeza uma boa noite de descanso. Esse é dos bons,
pensou, se ela receitou um quarto tomarei no mínimo metade que é para não deixar dúvidas
que vai durar.
Andava então pelo corredor, passava agora pelo lado do quarto de Fabrício e Letícia, os
dois são irmãos, Alex tratou de mover a pata e bater contra a porta, mas quando ela
escancarou-se ao seu toque nenhum dos dois está lá, ninguém se apresenta, salvo os móveis
que produziam um corredor apertado, ninguém está lá para preencher seu dia. O quarto era
mais ou menos igual ao seu, assim que entrasse só havia um pequeno espaço para se
movimentar, esse único espaço o conduziria tanto às camas quanto ao armário, tinha de se
espremer como podia e muitas vezes dar com o joelho na beirada de um móvel quando
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passava mais apressado, sempre assim. Certa ocasião pensou se não seria mais espaçoso e
aconchegante dormir dentro do armário, mas deu-se com um problema maior, se tirasse todas
as coisas que estariam lá dentro talvez não houvesse mais espaço no quarto para suportá-las.
O desejo assassino direcionado à dona do quarto principal retornou por alguns instantes. De
longe, enquanto isso, começa a ouvir o som da televisão.
Letícia é aquela moça que geralmente se reconhece por se esforçar dentro das vias
honestas do nosso mundo, quer alcançar a paz e a satisfação e ao mesmo tempo ajudar as
pessoas, sabe como é, mudar o planeta que, como temos visto, anda com mais problemas que
soluções, então ela acha que ética e boa vontade vão tirar o mundo desse fosso encarniçado
de desonestidade e egoísmo. Crer nisso compensa, diria ela. Ela é realmente uma boa pessoa.
Mas seus sonhos são meio ocos. Às vezes também era um pouco boçal, não só por tentar se
vangloriar de experiências que não tinha, mas, por ingenuidade, às vezes estar convicta delas.
É uma ingênua fadada à depressão quando tiver quarenta anos e dois filhos, mas ao todo é
uma pessoa boa. Ela estuda comunicações mas conseguir estágio anda difícil, se queixava por
semanas dizendo que é com contatos que as coisas todas se resolvem, fator do quem-indica,
em tudo reina a vitória da força sobre o mérito, tal era o exemplo de um tal colega
aparentemente menos esforçado que conseguiu alguns ajeitares com um desses professores,
melhor que não a contem que ela é medíocre, também isso não é coisa que se diga, então
Alex coça levemente as nádegas enquanto continua sua passagem. Ela era bonita mas quase
nunca estava em casa, quando chegava estava sempre com cara de cansada, também não é
de se espantar, acha que ela se desiludia com as coisas muito rapidamente, como com o
namorado que a largou por questionar seu tempo, para da mesma maneira resgatar os ânimos
muito rapidamente, ele sabia que ela andou choramingando que o cara voltasse, isso tudo não
deve ser muito saudável, algum dia algum órgão seu vai parar, não antes dos quarenta e dos
dois filhos ranhentos. Ele gosta dela.
Fez a curva que tinha de fazer para que terminasse a sua caminhada no corredor e deu
com o abafamento da sala, há tantas coisas jogadas que não sabe o que pertence a quem,
talvez a todos, talvez a ninguém, apesar de alguns sujeitos neste lugar e no mundo fazerem
questão de que esse tipo de conceito seja eternamente relembrado, tire as mãos disso aí, que
é meu etc, então sente o cheiro de poeira do sofá velho e da poltrona rasgada, não havia um
dia sequer que não sentisse esse cheiro, era entranhado no apartamento tal qual o cheiro de
quiabo, de gordura que se entranha nessa cidade toda e não é por cisma que ele o fareja, tenta
abstrair mas não pára de sentir esse cheiro, nunca, nunca se acostuma. E havia também o
criado-mudo com um aspecto clássico, por ser supostamente frágil era uma tormenta ter que
limpá-lo, acabava que poucas vezes era espanado. Esse é batizado de inútil por ser o móvel
aparentemente mais caro da casa, ainda que ele ache que em qualquer esquina possa se
achar uma relíquia dessas, enfim, não só por ser o mais caro recebeu esse nome no batismo,
mas porque só suporta porcarias, como por exemplo prataria que não usam e não se sabe a
quem pertence, portas-retrato vazios, enfeites domésticos, coisinhas aromáticas, santos que
ninguém adora e coisa assim. Olhou para as janelas, estavam entreabertas e com as cortinas
fechadas, por isso o sol entrava timidamente. Pensou se devia ir para a varanda, tomar um ar,
dar bom dia às ruas, será seu novo dilema. Caminhou até o sofá, deu a volta nele e se sentou.
O sujeito gordo já está esparramado, a impressão que dá é de estar hipnotizado pela
televisão, desprezível, um retrato da nossa era, o sonho consumado da revolução industrial, e
não há nenhuma programação passando, na verdade quando Alex a olha vê apenas
fantasmas, não faz idéia porquê, então decidiu que era mais útil dedicar sua atenção à
mesinha que ficava entre o sofá e o aparelho de aficcionar o gordo. A viu toda suja, migalhas
de cereais e amendoins e restos de unha, uma baratinha furtiva correu descendo pelos pés de
madeira quando percebe sua aproximação, e olha que baratinhas não aparecem durante o dia
a não ser que haja realmente um grande aperitivo, já deve ter se fartado. Tateou uma das latas
de cerveja, inicialmente não pode distinguir qual já foi bebida e qual não, até achar uma que
afortunadamente ainda está cheia lá atrás de todas as outras, aí se recolheu com as costas no
sofá. A abriu e tomou um gole de desjejum. Estava quente.
Concentrou-se por alguns instantes nos fantasmas da tevê, com algum esforço consegue
distinguir uma mulher, sim, de fato é mulher, ainda que às vezes se estique toda e fique bem
engraçada, e é aparentemente loira e de nariz empinado a enfiar-se num blazer vermelho, ela
deve estar falando alguma coisa importante, mas enquanto abre e entreabre a boca o único
resultado é esta série de chiados agudos, uma legenda passava pelo rodapé da tela, assim
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como ocorrem em algumas notícias, é de se esperar que seja uma. Só então notou o sujeito
magro de cabelos castanhos despenteados largado na poltrona. Pega o controle!, gritou uma
voz que parecia estar distante, mas claramente vinha da varanda lá de fora, muda o canal!, diz
o grito.
– O que estão fazendo? – Alex toma um gole da cerveja, fez essa pergunta voltado ao
sujeito da poltrona.
– Tentando fazer um gato com o cabo do vizinho.
– Merda de tecnologia – resmunga.
Nesse instante um sujeito mirrado e encharcado de suor entrou na sala pelas janelas da
sacada.
– Igor tá lá em cima testando, dá pra mudar o canal da televisão, por favor? – e
desapareceu de onde veio.
Alex não força muito para ver em volta, na verdade sentia que suas órbitas não estão
funcionando lá muito bem, prefere encarar isso como resultado súbito da cerveja, já a linha de
raciocínio um pouco mais pessimista o faz considerar que a doutora teria tomado como
bobagem os indícios de uma doença devastadora, só a panacéia curaria, só aquilo que
curasse a todos os males curaria, matando-o para aliviar a dor, talvez o mal seja ele mesmo. A
mulherzinha da televisão insistia em falar, é por longas notícias como essa que são poucas as
pessoas que as assistem do início ao fim, quanta informação. O controle remoto estava a
muitos centímetros de sua frente, dividindo o seu espaço com todas as outras coisas da mesa,
está longe demais para que o agarre. Faz um dia bonito, reconhecia com facilidade, um dia
inspirador, sim, acontece que não tinha exatamente um ânimo mais profundo incrustado nesse
seu ser momentâneo, o dia não o inspira a nada, no mais o inspira uma bufa de enfado,
verdade é que se sentia derrubado, um caco, para baixo. Se houvesse sobrevivente que
pudesse depor sobre isso, diria ser esta a sensação de ter tomado a tal panacéia e descoberto
que só era placebo. Deve ser depressão. Imagina-se falando isso para a doutora, talvez uma
nova risadinha ela lhe desse o pretexto que o faltava para enterrar qualquer coisa pontiaguda
em seu crânio, depois alegará legítima defesa, que ela veio ameaçadoramente com o
estetoscópio e com o bisturi.
Veio-lhe uma cena específica na memória, na ocasião devia estar cruzando sua juventude,
na verdade os mais próximos diriam que ele seria um cara eternamente jovem, mas, é claro, no
pior dos sentidos, na acepção de quem se apega às infantilidades, a doutora, por exemplo,
diria algo diferente e seria aproximadamente assim, que ele sofria de algum desvio de
personalidade que o impossibilitava, por séries de razões, traumáticas ou não, de sair de um
estado determinado de sua vida e prosseguir, ou seja, não pode, como deve todo mundo,
amadurecer. Para ilustrar essa situação ela chegou a citar, ainda nessa ocasião em que
mencionou todas essas coisas, das crianças que num certo período da infância tendem a
encarar o pênis como uma arma letal, daí haveriam vários estágios entre esse infante e o
jovem questionador sem motivos etc, e Alex se identificou com a parte infantil, mas preferiu não
mencionar. Enfim, lhe veio uma cena específica na memória durante seu período de juventude,
mas a verdade é que ele se considera tendo saído dela há um tempo. Esqueceu-se da cena
que lhe veio à memória. Merda. Confundiu-se com o gosto da cerveja, a mulherzinha na tevê
agora era quase invisível. Como eram mesmo aqueles versos?, lembrou-se de tê-los lido em
algum lugar, é verdade, eram mais ou menos assim, tinha a memória boa para decorar o que
gostava, enfim, depois de longos versos explicativos dizia essas coisas, isto é o que ele lera,
Que mais resta de pouco repetitivo? Que sobrou a nós em noites sem respostas? É por isso
que o homem se renova. É por isso que as almas são maçantes. Dou graça, assim, portanto, à
velhice itinerante, que percorre as trincheiras da razão, e a alguns mortos em batalha não se
cansa de contar todas as falhas da idéia, do intelecto e do amor.
Desde quando leu essas palavras teve a certeza de que a velhice era mais apropriada que
tudo, não mais se iludiria com os solilóquios que as pessoas gerem para contestar a morte e
temer a sua aproximação, e decidiu de tal maneira tornar-se velho, que no instante em que
pensou voltar atrás já lhe era muito tarde, já estava definido.
A memória lhe voltara, a cena que veio em mente foi a seguinte, num período no qual ele
agora questionava se ainda seria assim tão jovem, na verdade está mesmo claro que já se
tratava de um cara com alma de velho, caminhava na rua por alguma razão qualquer, talvez
estivesse voltando para sua antiga casa, talvez só tivesse ido comprar pão. Após ter cruzado
uma esquina, viu que nessa rua um tumulto estava formado, pelo aglomerado de pessoas e
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pela direção em que olhavam não demorou muito para constatar que eram apenas abutres
espiando o drama de um possível suicida que estava a debruçar-se do alto de um dos prédios
por ali. De antemão e quase imediatamente foi rude ver coisa assim, ele mesmo reconhece
que sempre houve em si algo como um sarcasmo muito intenso e desmedido, usualmente
chamado de humor negro e ausência de tato, sim, mas ver aquelas pessoas espiando o
sujeito, e outros tantos espalhados a torcer por um espetáculo ainda mais macabro, em coro na
ordem de pula!, pula!, o deixou profundamente enojado da situação quotidiana da gente.
Pensou que se Jesus viesse realmente à terra realizar o seu julgamento final, nem aquela
sujeita que passou honradamente toda a vida como humilde dona-de-casa inocente escaparia,
nem o recém-nascido no berçário, este já teria lá o seu histórico de intenções más, se não até
mesmo de crimes consumados, não há muito o que se possa fazer, é que nós somos todos
ruins, o caroço lá no fundo é ruim, e a história não terminava por aí.
Ele não pôde deixar de caminhar pelas calçadas um pouco mais até perceber que os
homens-de-azul, aqueles tipicamente organizados guardas já estariam a tentar controlar a
situação dos curiosos em volta, pôde ver as faixas isolantes, enquanto isso os militantes do
corpo de bombeiros se organizavam ao redor do edifício e em breve estariam erguendo
aquelas lonas de proteção e tudo mais, mais parece um pula-pula, cama elástica, e eles
acenando com os braços uns aos outros para fazer tudo direito, nenhum detalhe poderia
escapar porque um erro de cálculo compromete tudo e a vida do rapaz no telhado deve ser
mesmo muito importante. Alex supôs que a essa altura já estivesse sendo encaminhado algum
terapeuta lá para cima, incumbido de convencer um suicida de que a vida tem lá seus
sentidos, de que ele não sabe de verdade o que quer, que uma loucura dessas é definitiva e
tudo o que precisa é de um momento de sobriedade para que pense melhor, ver que não é
bem assim, mas como de fato é, ele não sabe dizer. Por uns instantes até perguntou-se se
aquele sujeito só não estava ali quase se debruçando no parapeito porque teve a idéia de
tomar um ar puro num dia de céu azul feito este, ele estaria olhando para baixo e se
perguntando, que diabos fazem todos esses idiotas aí?, deve ter acontecido algo realmente
grave, hein?, no final, quando tudo fosse esclarecido, a própria polícia o daria um tiro ou o
levaria preso por estar tomando um ar puro, é claro, ele podia ter se debruçado menos, é que
aí passará de suicida para causador de desordem, cuidar da própria vida às vezes o torna
criminoso.
Pelo sim, pelo não, não foi ele mais um abutre a acompanhar o drama da vida alheia,
tratou de se concentrar nas suas próprias metas quotidianas, que se fosse comprar o jornal na
esquina, seria isto, se fosse ir a uma sorveteria por bel prazer ou por ter um encontro com uma
bela garotinha, assim seria. Com a idéia de evitar o alarmado, deu a volta pela rua logo na
primeira viela, e não se enganou, após passar um longo beco, do outro lado do prédio as
coisas estariam mais calmas, tudo ok, no máximo havia essas pessoas cochichando a respeito,
talvez só estejam tratando das próprias vidas, tudo bem. Há aqueles que se movimentavam
para o outro lado da rua, estes eram os piores, eram os que não estavam na desgraça nem por
acaso, mas souberam da coisa por meios tortuosos e fariam questão de ir e assistir,
emocionar-se e torcer. Se queixou com alguns resmungos, de todo modo as coisas estavam
mais tranqüilas, seguiu o seu caminho. Mas pensou pela última vez que, se o sujeito resolve
pular, ele seria poupado da cena, lhe bastaria. E foi seu engano. Acontece que hoje está muito
claro que o suicida teve a mesma lucidez. Deu um jeito de correr do terraço ao outro lado e
saltou. Inicialmente só viu aquele movimento estranho volitando pelo ar com o canto da visão,
ia ter como sendo o vôo de um pombo ou coisa simples, isso se não ouvisse os gritos. Quando
ergueu o olhar deu com o homem a cair, não tardou até que ele se encontrasse com o chão e
as pernas lhe subissem para o torso, fundindo-se pelo choque na calçada num bolo de carne.
Caiu de pé, foi como morreu. Nesse dia ele viu que a vida é feia.
A essa altura Victor, que se trata do rapaz que está na poltrona, esteve terminando de
pegar o controle da televisão, provavelmente alguém de fora gritou apressando que alguém
tivesse a boa vontade de fazê-lo, mas Alex certamente não ouviu, nem mesmo teria a boa
vontade. Ergueu-se, quase vomitou pelo fato de ainda estar ali.
Quando entrou na cozinha viu a garota dos cabelos marrons com trancinhas, era Letícia e,
se está logo ali na pia, deve estar cuidando das louças, além dela há o sujeito sentado à mesa,
ele se entretinha com uma dessas comidas rápidas, pão com alguma coisa. Ele tem no rosto
um grande e horroroso hematoma, a parte mais próxima ao supercílio é conservada com
esparadrapo. Esse levou uma sova das boas, pensou que pena que não cheguei a ver, aí ele
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seguiu até a geladeira e a abriu. As prateleiras estão ocupadas da desorganização dos
suprimentos, ele gosta de pensar que são o abastecimento de uma guerra, que geralmente é
uma confusão ordená-las de acordo às exigências de cada um, mas isso é o de menos, uma
vez que consome pouco e de forma tão variada que raramente dão por falta de um gole de leite
ou três fatias de presunto. Apanha uma fatia de queijo na prateleira de cima, apanhou uma
nova lata nas gavetas de baixo, a que bebia acabava de acabar e não foi preciso mais que um
movimento das mãos para jogá-la ao lixo. Bebe em fartos goles que terminam num asqueroso
e libertário ah. Quando está para se virar pensou que não devia ser à toa, afinal, que Letícia o
estivesse olhando e tentasse disfarçar, claro que não era, e haveria de sentir-se orgulhoso dos
seus, diga-se assim, dotes masculinos, a beleza ou o odor que seduz a quem cheira, cheiro de
homem é próprio para isso, se neste instante a fome não falasse mais alto e mais lhe
interessasse. Puxa ali na mesa uma cadeira e se senta.
Pensou se por um acaso seriam insensíveis o bastante para não darem por falta de suas
falas que não têm qualquer outro fim a não ser o de simples sair, pôr-se um nada vital de si
mesmo para fora, se não estariam sentindo falta das besteiras do café da manhã, se a doutora
realmente sente o desagrado que mostrou ao lhe ter de examinar os olhos. Ou talvez seja esse
um comportamento típico a todos e afinal a vaidade não seja capaz de admitir que pudesse se
dar também com ele. As pessoas entram e saem das vidas umas das outras, não há nada que
seja estável, salvo o si mesmo, este que há de acompanhá-lo desde o início da vida até o
término desta, é simples, por isso o passado dos transeuntes que lhe passam pode ser
descartado, o futuro também é uma sombra. Era triste que gente fosse descartável e ilhada,
então pensou que talvez não fosse apenas questão de vaidade, mas que se sentia comovido
porque isso se passava com todos, com tudo. Viu seu próprio olhar refletido no vidro da mesa.
Uma vez soube de uma jovem vizinha sua, não a conhecia mais do que de vista e sempre que
a via ela o olhava de uma maneira estranha, sempre parecia que ia fulminá-lo de fúria, parecia
sentir nojo ao vê-lo e gostar de mostrá-lo, passou a detestá-la, a desastrosamente amargurada
e então antipática, isso já fazia alguns tempos, um dia soube que ela havia morrido, tinha uma
doença que até hoje ele não sabe o que era, a primeira coisa que pensou quando recebeu a
notícia foi, ah, então era aquilo que significava a careta. Secretamente riu da dedução, chegou
a sonhar algumas vezes que aquela garota o vinha buscar com os pulsos sangrando, ainda
que essa coisa de pulso cortado seja só símbolo, ou talvez uma mensagem de que tudo seja
suicídio, e veio também a gemer coisas fantasmagóricas e sussurros carentes. Lembrou disso
porque seu próprio rosto o lembrou do da menina, inicialmente chegou a levar um susto
quando viu a própria imagem, não esperava por ela. Da mesma forma, inevitavelmente, o
associou ao terrível reflexo que o perseguia no sonho de hoje. E lhe passou por um momento
na cabeça que aquela expressão não fosse de raiva, mas sim de dor. Um dia vou morrer,
pensou, e riu-se da sua conclusão brilhante. Quando era criança ouvia falar da morte apenas
como apresentação distante, parente que existe mas do qual não quer saber, já que quando
criança ele não achava de fato nada, mas tinha em mente a impressão de que as pessoas
viveriam indefinidamente, que só morriam vítimas de alguma fatalidade, como por exemplo
bala perdida ou um acidente, do contrário ele não supunha a velhice, o definhar e tudo o mais,
não tinha porquê, criança não tem futuro, simplesmente não pensava sobre isso. E hoje ele
pensa que é uma pena que os garotinhos de ontem não levem a sério as coisas que
antigamente pensavam, elas perdem-se com facilidade, mas depois conclui que talvez assim
seja melhor, não suporta crianças, o que as torna crianças é a inocência que ele já perdeu e
que inveja, é uma inocência que o distancia e por não mais entender passa a irritá-lo, se
tivesse de conviver com uma versão infantil sua já a teria matado num acidente intencional.
Pensou se não devia confessar a Letícia que a amava, não seria algo exatamente difícil de
fazer, apesar de o sentido usual dessa palavra e a conjuntura geral de uma declaração não
realmente combinarem com a sua individual conjuntura. Sendo bastante franco consigo
mesmo, aquilo não combina com o que ele é, talvez sequer um eu te amo flua natural quando
saísse. Acontece que fazia mais de um mês que não se apaixonava por mulher alguma entre
todas as que olha, fossem conhecidas ou fossem na rua. Salvo pelo desejo que eventualmente
aflora, este aspecto ele julga ser inevitável não somente a ele, tampouco inerente ao macho,
mas a todo ser vivo, é que o sexo é na verdade a coisa-em-si da gente, a manifestação da
vontade de viver que crepita por dentro, inclusive Alex considera ser do instinto sexual que se
iniciam todas as principais formas de traição do homem consigo mesmo, com sua intimidade,
com sua postura diante deste poder, eis a raiz de uma longa estrutura de crimes com muitos
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galhos ramificados, coisa que talvez tenha começado no paraíso e resultado na censura do
tapa-sexo, enfim, tinha uma idéia mais ou menos formulada sobre isso. E então se cala. As
outras garotas casuais não despertam qualquer atração psíquica, aquela coisa que realça o
carnalismo das coisas, que dá ainda mais ênfase ao sentido da conquista, da posse, da
obtenção, das relações de poder, aquilo que origina o sentimento do eu quero a tua pessoa.
Por fim, aquilo que gera uma enigmática devoção. Isso deve ser o que consideram paixão, mas
pondere, ela não é tão bonita assim, o que talvez signifique que Alex esteja mesmo a bordo do
princípio de um fervor daqueles que dedicam-se a apreciar somente a aura, ou sabe-se lá o
quê, das pessoas.
Nunca imaginou que fosse sentir isso por gente, apenas pelas coisas, das quais logo se
cansava por não serem tão surpreendentes. Ela estava próxima, não seria tão difícil afinal.
Tomou mais um gole da cerveja, viu que não valia a pena, ela nem era tão bonita assim. O
queijo branco estava bom.
Fabrício, o rapaz loiro e esguio, sem camisa e todo suado entrou na cozinha, limpava a
testa que lhe escorria e ainda em silêncio roubou um beijo da bochecha da irmã, a qual
resmunga alguma coisa enquanto se encolhe pelo contato do cara todo melado, que logo após
serviu-se com um copo de água e se foi embora. Da última vez que tentaram fazer pirataria
estragaram o contato do vizinho de cima, isso porque antes chegaram à conclusão de que com
a presença de Jonas era mais provável que conseguissem, é que é Jonas o sujeito que mexe
com esse tipo de coisa, não?, estuda eletrônica, sendo assim o forçaram a esgueirar-se pela
sacada para remexer nos fios, acontece que o coitado sofre de medo de altura, atração do
abismo, o resultado eventual foi a queda direta em direção ao beco lá em baixo onde só parou
dentro da grande lixeira do edifício, claro que ganhou na ocasião uma costela quebrada e um
braço com o gesso em que hão de assinar coisas sacanas e piadinhas escrotas. Coube à
doutora resolver as pendências com o vizinho, quando ele veio bater na porta e reclamar. Para
ele estava claro que a senhora do outro prédio tinha visto alguns rapazes daquele apartamento
trepando durante a noite pelas janelas e tramando certamente o que seria alguma diabrura,
usa-se aqui os mesmos termos da senhora, que era viúva de militar e não importava qual fosse
a hora, sempre estaria na varanda da frente espreitando as coisas dos outros, eventualmente
resmungando suas próprias intimidades e, mais eventualmente ainda, semeando a discórdia
entre inquilinos da vizinhança. Enfim, na ocasião do vizinho, coube a ele convencer a doutora
que eles não fizeram nada, e coube a doutora convencer o vizinho da mentira da qual havia
sido convencida e, por ter se lembrado dessa ocasião, estava arquitetando uma maneira de
matar a velha, quando está na parte exata em que joga o secador na banheira de sua casa e a
vê se incinerar em convulsões doloridas, a doutora entrou apressada na cozinha, falava em
seu telefone. – O quê? Bem, depois do expediente. Sim, claro, trabalho normalmente hoje...
como?, onde?, na porta? – dava sorrisinhos enquanto se servia com o suco, pela cor talvez
fosse tangerina. – Não sei, talvez, é, pode ser. Pelas seis. Certo, às sete, ok. Então tá, a
gente... – e aí foi saindo com o copo e aos poucos não pôde mais ouvir o que dizia.
Alex pode ler nas entrelinhas que aquela risadinha diz bem mais que o suficiente, é, na
verdade não precisaria ser mais perspicaz do que isso para chegar a essa conclusão, a
doutora estava novamente falando com o seu amante secreto, ou príncipe encantado ou como
for de convir à mais oportuna definição da idealização promissora. Ela não falava muito, era
claro que se julgava superna demais para se abrir às pessoas comuns a sua volta, dentre as
quais certamente se destacaria exatamente quem?, essa pergunta é retórica, não precisa ser
respondida, enfim, tendia a ignorá-los principalmente quando tratava das coisas da vida que
não misturava com essa, no caso da doutora, essa vida diria respeito às tais crianças com
câncer, às tentativas de ascensão social, escrota ostentação material e outras coisas tantas
que Alex também não chegava a se importar. Aí ele colocou o queijo numa fatia de pão que
estava servido. A doutora ficava bonita mas sem graça vestida em seu jaleco. Imaginou se já
não teria saído.
Parecia que as coisas, como se fossem de uma maneira que deveriam realmente ser, não
sairiam de seus lugares, isto é, o mesmo gordo simpático e imundo parecia profundamente
sonolento hoje e não se movera de onde esteve, pode inclusive estar morto, seu cérebro
acabou, mas bem, o rapazote de cabelos castanhos estava reclinado na mesma poltrona, a
diferença é que o magrelo de óculos grossos, seu próprio companheiro de quarto, se encolhia
no canto do estofado. Esgueirou-se no meio como pôde e olhou a televisão, sentiu-se
extremamente confortável e sabia que não desejaria sair dali por longos instantes, salvo pelo
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momento que se deu conta de que se sentir assim com uma cerveja em mãos seria se sentir
ainda melhor, e aí se estendeu até a mesinha para tomar uma nova lata. Tornou a olhar o
aparelho, agora as imagens dançavam de uma maneira inteligível, eis o que se passava.
Surgiam as imagens de edifícios, colunas inteiras dos maiores deles vistos todos de cima,
mas num giro ou outra irreverência do ângulo da câmera podia-se também ver as ruas que
entre eles adentravam. Foi mais ou menos nesse instante que a cena foi cortada e substituída
por uma de muita, mas muita gente junta, parece ser uma passeata, há gente com seus
cartazes e panfletos volitando atrás e dos seus lados. Os prédios faziam sombra para a massa
em polvorosa como guarda-chuvas, aí aparece um ou outro sujeito mais a frente acenando em
brados e cânticos de guerra para a câmera, com certeza estão cantando algumas rimas, a
gente gosta de cantar essas rimas fáceis de gravar, elas têm um efeito instigante, mas daí não
ouve nada porque o mundo inteiro fez-se mudo, nessa hora alguém muito inteligente teve a
idéia de aumentar o som da televisão. Estava no mínimo. Aumentam o som e a imagem muda
para um rapaz engravatado que fala, mas de jeito nenhum que este sujeito se arrisca na fúria
das avenidas, está mesmo encoberto pelo enxame de pessoal também de gravata que entope
as esquinas de furgões e faixas de contenção.
– Os brados recentes e que teimam em não se calar, os quais acabamos de relembrar, são
mais que a indignação de estudantes da universidade central da cidade, é sobretudo um aviso
que deve ser ouvido por todos nós, à partir de que ponto a ação construtiva de um movimento
social poderá se converter numa série de atos respaldados pelo despreparo, imaturidade e
pelo espírito do vandalismo? É o que a população tem se perguntado. Os estudantes
rejeitaram ferrenhamente os projetos encaminhados pela reitoria...
Alex ronca um certo instante, as coisas mudam enquanto o rapazinho fala, aí Alex coça
sonoramente a garganta e o queixo, a barba por fazer já está crescida o bastante para que
incomode o tato. Há alguns dias mantém a preguiça de fazer qualquer coisa. Mal tomou banho
e mal trocou de roupa. Então vêem cenas de pedras a voar, não demora até que se veja portas
de prédios e lojinhas comerciais alvejadas, todas destruídas, um escândalo, fumaça e caco de
vidro, coisa das boas, e com os invasores fora de si agredindo suas fachadas, tudo muito
divertido, quebrando seus vidros com paus, saqueando pelo prazer de atirar coisas para fora,
um ou outro sujeito nos altos dos edifícios a roer as unhas de tensão enquanto espia o que vai
acontecendo nas ruas em que todo dia caminha etc. Alex tomou mais um gole da cerveja,
havia se perdido da fala do senhor jornalista, que no fundo de cada evento prosseguia.
– ... disseram ser inadmissível não apenas a proposta de privatização da instituição de
ensino e a extensão do prazo de envio de recursos para departamentos da universidade, que
se prolongaria durante realização do processo mas, como alertam os especialistas, se
resolveria ao final de tudo. Isso pôs muitos a questionar se o que realmente mobilizaria
tamanho número de estudantes é...
A televisão estava a mostrar longas fileiras organizadas do esquadrão de choque da
polícia, usavam todos a cor azul em seus capacetes e máscaras, os escudos e os porretes
eram negros. Após muito pouco tempo, essas fileiras já estão dispersas e não mais identifica
os manifestantes das trincheiras da polícia, há um confronto direto e um tumulto tamanho na
esfumaçada rua, parecem os romanos contra os bárbaros, parecem todos contra todos, uma
maravilha, às vezes lá no fundo voava uma bomba de gás que escapa da tela, às vezes um
policial ia afastando um sujeito com o escudo até que ele tombasse e o policial pudesse enfim
rendê-lo com o cassetete, até que a presa estivesse com as mãos para o ar a gritar por paz,
paz, eu me rendo, eu me rendo, não antes da última porrada, essa vai na cabeça, no ombro ou
no lombo, que isso, é claro, está a depender do humor de cada polícia, pela última tomada deu
para ver aquele trincando os dentes e salivando. Não é mesmo algo incomum de se ver.
– Como está Caio, falando nisso? – Jonas perguntou.
– Sem querer falar com ninguém – Andriolli, que é o gordo suado, respondeu.
– Algum policial deu nele – Alex deduziu.
– Também. Levou pedradas, chutes, parece que caiu no meio da confusão.
– Por isso que ele tá assim? – Alex.
– Considera. Deve ter sido chocante.
Alex não pode dizer já ter visto em sua vida muitas coisas que ilustraria como chocantes.
Sempre há algo pior que lhe poderia acontecer, ele sabe, não acredita na idéia de que as
noções falhariam totalmente quando algo de um grau não quotidiano lhe ocorresse, seria
quase pressuposto de admitir toda pessoa como descontrolada, senão isso, como vítima a
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pedir pela situação que a arrase, então considera impossível aos seus nervos que eles entrem,
por exemplo, em estado de choque. Não por ser forte mas por se achar lúcido. Não entendia
como a gente podia se tornar tão frágil num mundo tão bruto, há até quem diga que não é tão
bruto assim, que o que de fato ocorre é que o mundo da maneira que é hoje, não muito
diferente de como sempre tem sido, tem uma capacidade de produzir diferentes esferas de
percepção, submundos de desigualdade, submundos de entendimento, realidades distintas
para cada pessoa ou para comunidades inteiras de pessoas, sendo assim a brutalidade não
reinaria em todos, seria apenas a característica lúgubre de alguns desses desafortunados
azarados. Por outro lado o mundo nunca foi tão seguro. Também nunca foi um lugar tão
desonesto e cruel. A verdade é que, de forma sempre mais ou menos sutil, todos os homens
devoram uns aos outros e almejam devorar-se, a lei da força e a afirmação do poder é uma
constante que apenas muda os seus aspectos diante da sanidade.
Alex sabia que a ordem nunca estabeleceria o contrário disso, só eternamente legitimaria a
agressão, o sofrimento, o que na verdade é exatamente o contrário do contrário, sendo assim,
de forma mais explícita ou não, usando de métodos distintos ou não, refinados, envernizados,
maquinados ou não, o homem subjuga o homem, seja na ordem, e talvez na desordem, mas
talvez na última não. É só um talvez, parece absurdo, mas talvez não. A televisão mostrava
agora uma menina que tinha sangue no rosto e ainda assim falava à uma repórter. Ele arrotou,
largou a cerveja. Ergue-se do sofá quando começam a aparecer os closes dos camburões,
nessa hora ele chegou a ponderar se não valeria a pena ficar para ver a prisão de alguns
baderneiros, mas já está praticamente todo em pé e achou que seria mais forçoso deixar-se
cair uma vez mais. Deu a volta e saiu, teve a impressão de ouvir o ronco de alguém que
pegara no sono.
Afastou as cortinas da janela, a sacada o recepcionou com uma quantidade calorosa de luz
do dia, alguém a apague, reagiu, é melhor que se revisem uns hábitos da vida. Imagina por um
instante qualquer como andaria o processo do gato, a essa altura deviam estar se pendurando
no telhado, é, talvez. Apoiou-se com cuidado no ferro da sacada, estava velho e enferrujado,
qualquer toque um pouco mais forte e talvez pudesse romper-se, a queda sequer seria o
bastante para matá-lo, está só no terceiro andar. Com muito azar lhe aconteceria o mesmo que
aconteceu a Jonas da última vez que caiu. Pensando nisso, aliás, olhou para a sacada vizinha
e na diagonal acima, não mais que dois andares sobre o seu lá estava a viúva do militar, ela lá
fica numa cadeira de balanço, Alex a havia apelidado de Saudades. A viúva, não a cadeira de
balanço dela. A nostalgia triste que a velha carrega no rosto é moribunda para qualquer um
que a veja. Ela faz o favor de não encarar a ninguém. É como espelhar tudo aquilo que alguém
não quer para o seu futuro. A única coisa que Alex sabe sobre seu futuro é que um dia ia
morrer, pode ser agora, caso a divisa rompesse, mas isso não vai acontecer. Saudades
geralmente fica na varanda apenas a espiar a vida das sacadas alheias, o que já foi dito, mas o
que não foi dito é que também fica ali para admirar os beija-flores que ela atraía com aqueles
tubinhos com florzinhas pendurados que Alex não sabe se têm um nome próprio. A fitou assim
de longe e estava imaginando se tudo aquilo que vê nela faz jus ao que ela é, se era sequer
justo com ela, as aparências são um oásis refrescante e enganador, miragem, ainda que as
aparências insinuem bastante. Não que precise passar uma vida ao lado de alguém a fim de
conhecê-la, também porque o hábito prejudicaria. Ao menos teria de seguir a pessoa por mais
de dez minutos para entender o que ela é. De repente Saudades é uma velha agradável,
dessas de espírito dócil e hospitaleiro, até cozinharia biscoitinhos durante a tarde para servir
aos seus amigos de longas datas nos domingos, faria um café como ele jamais haveria de
provar em toda vida, e depois de tudo conversaria sobre como eram as coisas no seu tempo, o
quotidiano, a educação que os pais davam aos filhos, como as instituições funcionavam
melhor, como seu homem era bom. A estava olhando na sacada por muito tempo, até agora
ela esteve ajeitando o atrativo dos beija-flores, só que muito provavelmente considerou
estranho ou assustador quando cruzou os olhos com o de um rapaz só de cuecas a encará-la,
se não foi por isso Alex não sabe porque Saudades acelerou o passo para dentro de casa. Boa
senhora, pensou. Agora era ele a retirar-se da varanda, se foi.
Voltou-se ao quarto, enquanto fechava a porta ainda ouvia ao longe o alarido de pessoas
indo e vindo. Aproveitou com êxtase esses poucos momentos em que identificava os sons
ambientes como silêncio absoluto. É paradoxal, ele pensou, que deseje tantas vezes estar
sozinho, mas a solidão não seja realmente algo almejado e, pelo contrário, a todo tempo quer
gente consigo. Mas elas não servem, não servem, não servem. Sentou-se na cama, esticou-se
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até o próprio armário, o abriu e tirou, após destampar uma caixa de sapatos, um diário de
anotações imerso entre outros de seus utensílios banais. Enquanto o folheava rapidamente
identificava a própria caligrafia. Reconheceu o formato e organização das letras num dado
instante, parou então de revirar as folhas e o abriu. Deitou-se, olhava. Não havia autor, já havia
constatado que o sujeito era algum ilustre desconhecido, aquilo escrito passaria então a ser
sua própria manifestação, sua secreta ode a si mesmo chamava-se O imortal.

O imortal

Todos cantos da platéia cochicharam quando entrei.


Em seguida, preferiram a balbúrdia.
Mas, na espontaneidade de um cadáver do passado,
eu só vi em tantos rostos a razão pra me orgulhar.
Como sombra, eu entrei.
No furor de epiléticos gritavam!;
percebi, ao retornar aos bons patrícios,
que a vantagem de minha alma não mais era
o juízo. O inverso, sim, o tendo, e outrora
o perdendo, nada mais me impediria. Os conceitos
são motivos pra risadas. Assim como toda a filosofia.
Poderia me sentar em uma mesa, outro dia, e contigo já me
pôr a conversar; as histórias
nos poriam a sonhar. Dialética, humanismo, a matéria,
sensatez... Que mais resta de pouco repetitivo?
Que sobrou a nós em noites sem respostas? É por isso que o homem se renova.
É por isso que as almas são maçantes. É. Dou graça, assim, portanto,
à velhice itinerante, que percorre as trincheiras da razão,
e a alguns mortos em batalha não se cansa de contar todas as falhas
da idéia, do intelecto e do amor.
Outro dia, entre os homens a sorrir. Outro dia, sim. Quem sabe?
Quando a noite mal chegou, tu já vieste com punhais. O fazendo pelas
costas por acaso esqueceria? Veja o deus que vocês encaminharam,
Sou agora imortal.
– E com olhos de retalhos vi o óbvio, então, se ofuscar
nessa lucidez tão viva que apenas eu senti.
Na verdade, os mistérios sobre a carne me roeram,
e beijou-me o conhecimento frio sobre o 'não'.
Com o não, me libertei. Com o não senti
na pele a minha escolha – todo o mundo a me chamar
no cadafalso. Tantos deuses, ah! E acaso intervieram?
Nem assim. Mas na solidão das tumbas repassei em
muitas vezes tudo aquilo que quebrava os meus joelhos.
Tudo aquilo que me condenava ao chão.
Entre os mais feios necrófagos, lembrei...
E morri. E não sei – eu já mal sei o que restou.
Fui morrendo, e morrendo... só sobrou-me o meu fantasma – esse qual
agora eu sou;
quanto a alma que mataram, agradeço, já que nada mais me prende,
e mais nada hei de perder.
Sou agora imortal.
– Brutus, não podes mais me enganar,
Meio às dores mais horrendas molestei os meus princípios,
como nem os meus carrascos o fariam.
Eu deixei-os como deus ao próprio filho...
E pensei, enquanto o lodo me mimava,
uma forma apaixonada de, assim, me revoltar...
Vi que o homem é do lodo o fetiche. É.
E brindei o meu capricho com meu sangue, e minha boca,
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já sem dentes, de gengiva maltratada, se prostrava, tão faminta,
a calar... E a própria antipatia mal sequer a permitia!
Concluía-se, a tola, assassina do amor... mal sabia que era esse
quem o hábito retinha. Essa ânsia por matar.
– Esperavam, dessa forma, que eu tivesse um coração?
O inventaram para o corte ornamentar,
para o sangue nunca parecer em vão.
– Esperavam, após tudo, que o tivesse?
Todo o homem se retoma de balbúrdias. Mais um pouco e já vou rir.
Pouco a pouco, vou fingindo austeridade...
Já fingi, por um acaso, o rancor suficiente?!
Acontece que, em suma, não sou nada; a outros olhos,
sou aquilo que enterraram.
O placebo concentrado mais horrendo, mais estéril
que a contradição da gente poderia conjurar,
Sou, agora, imortal.
– Que pensavam, lá no fundo, quando dogmas gritavam?
Há idéias que não são absolutas.
Toda ordem é análoga ao fracasso,
Vê, agora sou o centro desta pauta, não as guerras,
a retórica ou as verbas. À entropia, bons ilustres,
todo centro é o fiasco. E pra sê-lo, precisei
o nada ser. Eu vos deixo com o fantasma do simplismo...
E com a confusão que é servir de espelho,
com o caos do mais profundo que é teu podre refletir.

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Perdia-se faz um tempo na profundidade doente e cavernosa dos olhos pretos que estão a
sua frente. Parecem de um cordeiro que sem querer escolheu para ser imolado, não, parece
haver o rastro antigo de dois astros, ou vulto de faróis pálidos, ou ameixas dos olhos de uma
deusa hindu, brilhavam num chamuscar que insinuava algo que não sabia dizer o quê,
profundidade cansada, um cordeiro molhado, fundo de poço, mas nos momentos seguintes o
brilho se perdeu e viria à coerência como não sendo nada além da puta com o rosto entupido
de maquiagem que se debruça sobre a janela do carro já faz algum tempo, a garoa escorria
pelos cabelos e ele não sabe dizer se são eles ou a garoa que é negra, mas na verdade tudo
lhe dava um aspecto bonito quando conciliado ao mundo de luzes tão atraentes e coloridas e
fascinantes que eclodia atrás dos cabelos, ou da negritude que é deles ou da chuva, nunca,
nunca saberemos.
É mesmo quase impossível não olhar as luzes, sua atenção era atraída como a da
mariposa babaca para toda a sorte de estabelecimentos noturnos que se enfileiram pela ampla
calçada, não sabe ao certo onde se focar, tudo isso o põe meio demente, pensou que só de
noite para que as coisas assumam um aspecto tão vívido assim, a noite é a hora do erro, do
terror, a noite é a hora dos desejos e é para eles que se enfeitou. Propositalmente aquele
mundo refratava e instigava sentimentos encoleirados, agora eles vinham à tona em cada grito
de beira de esquina a assustar os desprecavidos. Até os rostos tornam-se diferentes, e é com
formas como essa, como a dessa puta, pensou, que nós representamos esse teatro e
manifestamos o que não podemos usualmente descarregar, o sexo, a morfina contra o
aborrecimento nervoso, o intervalo da dor, ok, tem uma prostituta debruçada sobre a sua
janela, quase já ia se esquecendo da mocinha. Quando se pôs novamente a olhá-la não
parece fundo de poço atraente ou vulto pálido de estrela que caiu nos esgotos, é só
maquiagem borrada por chuva e dente a salivar e a mascar chiclete. E ele fingirá que não a
olha, talvez ela o esquecesse o quanto antes e fosse caçar o próximo. Está com vontade de
vomitar na roupa dela. Fica ansioso para ver as horas ou para sair dali. Quando tateou o
relógio de bolso, o toque do metal lhe arrepiou os dedos, então o tirou da jaqueta com um
pouco de dificuldade, a posição em que se senta o deixa um pouco apertado, aí estendeu a
parte frontal do aparelhinho e olhou o cinzento disforme marcar em algarismos romanos a hora
que não enxerga por não ver o bastante, e não quer forçar.
– Isso vale alguma coisa? – a puta.
– O bastante pra que trabalhe pra mim a vida toda.
– Não parece tão caro assim – sabe, como exigem os ossos do ofício, a rapariga se insinua
da forma que julga lá sensual. – Não que você não pareça ter dinheiro, mas isso aí, quem sabe
eu não possa comprar ali na esquina...
– A senhora me parece ser uma puta muito observadora.
Ela pareceu ponderar e tudo o que pôde fazer foi sorrir, não pareceu entender se aquilo é
elogio, na parte de sorrir ela não é tão ruim. Não foi preciso mais que curvar à outra
extremidade do banco para que visse Andriolli rir enquanto estendia as mãos janela afora e se
entretém com uma outra garota que de tão pálida parece uma boneca, a palidez é de
porcelana bonitinha mas o que a faz mesmo parecer com brinquedinho é o cabelo curto de cor
vermelho-berrante e com as franjinhas cortadas, gracinha de menina à venda. Alex teve a
esperança da que estava pendurada em sua sombra ir embora, ele sorri, e ela não se foi.
Por alguns instantes os sons mais distantes que erravam, vagavam, qualquer coisa assim,
pela calçada, parecem tornar-se mais audíveis do que naturalmente são, querem ser ouvidos
por um qualquer que deposite a atenção, é ele o epicentro disso tudo, sente os tímpanos em
batucada, código morse que demorará mas fará sentido, desde um sos à socorros
inteiríssimos, e os gritos diversos que ouvia, podiam na verdade ser gritos ou murmúrios, estão
todos longe mas se estica o braço para fora pode tocá-los, se concentrasse um pouco mais
talvez pudesse ouvir o bafo de quem caminha rápido daquele sujeito barbudo de gorro que
está ali tropeçando, a conversa entre as duas garotas que acabaram de passar, os
pensamentos do grupo de rapazes que vinham da outra direção, mais ainda poderia ouvir o
bater de porta do carro mais à frente, mesmo com os faróis de cor forte e vermelha e aquela
luz lhe ir direto nos olhos, podia ver a prostituta de meia calça rasgada e rosto feio entrando
pela porta do carona, ou ouvir o minúsculo ponteiro interno do relógio dentro do bolso
tiquetaqueando. A vida é rápida, a construção das coisas está sempre a partir desse princípio e
a assumir um dinamismo voraz, um futurismo irracionalizável, de poucas palavras, de breves
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comandos, gestos latentes, fast-food, engolirei tudo em cápsula, quanto mais tempo melhor,
quero gozo forte para um cansaço maior ainda, um prazer infinito que num instante tão restrito
mais deve me ser letal, vamos a essa morte onde os cadáveres conservam um semblante de
conforto, um sono de quem não viveu muito mas teimou em tentar ser imortal de tantas coisas
que se viveu. A essa altura o gigolô daquela ocasião está se distanciando até onde a vista se
perde, quando olhou para o átrio de onde saíra percebeu como aquelas raparigas de outrora
agem em subterfúgio, não encontrou uma delas sequer, já tinham todas se dispersado se sabe
lá por onde, as que via já são outras, ou as mesmas que trocaram de fantasias, só restou um
rosto parado e por sinal é um debruçado na sua janela, por todo esse tempo já está
impaciente. É que não se pode ter um momento de sossego, céus.
O estalido que dessa vez ouve nada tem de imaginação, mas vem uma puta entrando ao
banco da frente e senta-se no colo de quem lá está.
– Podemos pegar umas também – falou Andriolli. – Gostei dessa, não precisamos
demorar.
– Só andem logo com isso, não posso ficar muito tempo aqui, quando eu cheguei o guarda
da esquina já olhou estranho – Fabrício era o rapaz que dirigia.
– Eles não dão multas à noite – Igor falou.
– De quem foi a idéia de pararmos aqui? – Victor babou o gole mal tomado de cerveja.
Alex olhou novamente para o lado de fora, enrugou levemente a testa, e pode esboçar a
mesma expressão em diversas diferentes ocasiões, por exemplo, quando estiver testando
alguém, é mesmo esse o caso, algo como se erguendo num ar casual de uma afável porém
ostentadora serenidade, tanto quando estivesse sendo inquirido por qualquer questão que o
atormente, é quando na verdade quer roer as unhas ou dar com a cabeça numa parede, não a
bate em lugar algum, apenas topa com a puta.
– Qual seu nome? – perguntou à mulher.
– Polina.
– Se importa se eu te chamar de Drusilla?, era uma puta romana.
A garota deu de ombros como se respondesse que provavelmente esse não é um pedido
que a incomodaria, talvez seja mesmo agradável se comparado ao nível de requisições que
recebe todas as noites, por um acaso ele começa a imaginá-las, mija em mim, me estapeia, me
chama de mestre, vai, mija em mim!, céus, ela deve se dizer, se você faz realmente questão
disso, vá em frente, e ele sorri, pensando se ela não imaginaria que há algo obsceno demais
que as putas romanas faziam e que ela não conhecia, ele a ensinará.
– Certo, Drusilla, entre no carro – abriu a porta, Andriolli vibrou com o consentimento de
deixar a sua bonequinha de cabelos vermelhos também vir com a gente.
A putinha arrastou-se por seu colo, imediatamente lhe vem ao nariz o odor de perfume
barato, excesso de um agridoce já um pouco azedo porque se mistura com o cheiro abafado
de suor que sufoca a todos nós. Alex não gostava de prostitutas. Pensando bem, elas são úteis
ao que se propõe a fazer, mas aqui vale o ditado de que os fins não justificam os meios, certo,
da maneira que foi colocado mais parece que todos seus meios são uma grande merda, então
diga-se que apenas quase nunca justificam-se, tudo ok, tudo bem que, na prática, o ditado se
alterne mais pela conveniência do que por ser princípio universal, a questão de fornecer e
facilitar que os homens fantasiem suas coisas não parece ser uma prática muito saudável a um
adepto das coisas cruas, nuas e basais como ele é, se as putas não tivessem de agir com
tanta falsidade também seria melhor, até as compreendia, mas hipocrisias não são realmente
necessárias à ocasião alguma, não é educação ou ser ouvido o que ele quer, as hipocrisias
podem facilitar a vida em diversas ocasiões, mas necessárias não são, podem abrir portas,
mas não são necessárias, então, ele não quer paciência e sorriso e isso não torna nada mais
agradável, quer ejacular e estão complicando isso mais que o suficiente.
Por outro lado, aqui permitindo-se a contradição, pois não, bem-vinda, que inevitavelmente
sempre há, ele diz-se que as putas são muito mais cruas e podres do que pensou, geralmente
estão sempre cansadas. É que o choque vem geralmente depois. E então resta uma estranha
nua e mal paga. Quando Drusilla acaba de arrastar-se por cima dele, ela se acomoda apertada
entre ele e o imediatamente ao lado Victor, ela quase ocupa o colo de ambos, malícia forçada,
ela deve gostar de criar essa pequena intriga, todos talvez apenas agora percebam que
Andriolli ocupa quase todo o banco de trás, é bom que lhe sobra o colo para que a ninfeta de
porcelana se sente, bem-vinda.

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Aquela outra garota-de-programa fumando no outro lado da calçada parece arrasada.
Talvez não tenha se entendido com o último de hoje, ou foi o gigolô que inventou umas
requisições exorbitantes sobre o dinheiro que ela mais sua que recebe, ou talvez não saiba
declarar ao amor de sua vida que é na verdade uma puta, que nunca poderiam ficar juntos
ainda que umas por aí se entendam com uns clientes, é mesmo, esses até se divorciam das
esposas etc, e Alex não sabe se compadece, padece ou apenas repara. A partida é sempre a
pior hora das viagens, pensa já distraído pouco depois, as bundas tremem e a vibração vai
subindo-lhe pelos ossos, é muito parecido com um calafrio, sentia como se o tremor
momentâneo de todo o carro contagiasse todo o seu corpo e sua mente, então diz-se que com
um tremor nauseabundo e somente um tantinho irritante também deu-se ignição ao universo.
Drusilla pôs a boca em seu cangote, talvez até mesmo esteja tentada a um tipo de carinho,
ou talvez, pensa em seguida, esteja furtivamente levando a mão ao bolso do relógio e tentando
tomar-lhe sem que ele a perceba, mas ele é muito mais esperto, de toda forma é mesmo o
zíper das suas calças que a mão tateou.
– Qual sua idade? – acha que seja praxe das pessoas perguntarem isso.
– Dezenove – deve ter no mínimo uns vinte e seis.
– Garotas jovens não tem porquê meter tanta maquiagem.
– Por quê? – pensou por alguns instantes. – Não tô bonita?
– Se eu responder que sim você ainda vai me cobrar?
– Eu tiraria se não fosse mais precisar dela. Os caras gostam.
– Não quer uma cerveja, Drusilla?
– Também quero um bom nome pra minha, Alex – Andriolli urrou com uma montada no
colo.
– A chame de Livilla, Andriolli, era outra irmã de um certo Calígula, ele fodia todas elas.
Victor riu enquanto oferta uma garrafa aos dois, podia ver o conteúdo das demais
balançando pelo embalar do carro, é assim que funciona, soltas e espalhadas nos espaços de
entre os bancos. A entorna para dentro e se permite pensar um tantinho sobre o trabalho das
putas, começando a repensá-lo dessa maneira já não o detesta tanto, acontece que começa
até mesmo a pensar que se fosse esse um trabalho legitimado, que dispusesse de aceitação,
respeito ou coisa que se faça valer, e das outras vantagens que o trabalhador honesto dispõe,
isso seria um ganho a todos, desde às prostitutas que se submetem a lidar com o submundo
da criminalidade das ruas, que é financiado pela dificuldade e tolerado pelos que desaprovam a
imundície, desestimulando porém tolerando, o que quer que seja que ainda assim põe essas
garotas, e também os rapazes, mas a questão dos rapazes não o apraz, então, põe essas
garotas no limite das marginalidades urbanas, então, se elas estivessem livres desses
estigmas poderiam encontrar mais conforto material e dignidade, o respeito e reconhecimento
entre ela e fulano etc, então, isso é mais ou menos a síntese de tudo pelo que se luta. Que
impede de elas vagarem ao ar livre?, a banhar-se com a luz da lua?, já que na cheia todos vêm
procurá-las?, pensou, e as perguntas são retóricas, já que responde-as a seguir, é claro que a
moral. É esse um espírito que parece encorajar até mesmo as falcatruas do quotidiano, dando-
lhes respaldos, como os fiscais que cobram taxas simbólicas para que os clubes ilegais
funcionem à vista torta, que mesmo que sejam moralmente ilegais são mais do que inevitáveis,
o homem precisa ter um pouco com sua imoralidade, e enquanto isso não lhe gerar
comportamentos psicóticos e nem atente para uma mudança do seu espírito, tudo bem,
apenas carrega um quê de impróprio, mas sabe-se que ninguém liga de verdade, o importante
é que o sujeito não pense em si próprio como amoral. A moral tem umas coisas dessas. Há por
exemplo quem diga que valores familiares são indispensáveis para a manutenção da
civilização, para a criação de sua identidade, isso tudo soa um tanto interessante, só não
consegue convencer a ele do aparentemente simples porquê das putas serem indignas,
imundas e rasteiras, mesmo que não venha a tratar de questões conceituais como da
dignidade etc e tal, ele desejou saber o porquê de que um trabalho que não prejudica a
ninguém pudesse ser visto com cara fechada e gostinho de desprezo, no mais pena ao se falar
a respeito, então imagina outros tempos, a mãe contando aos vizinhos com orgulho da filha ser
uma puta das gostosas. Se fosse um trabalho fácil como bater carteiras na estação de metrô,
não que ele queira tirar o mérito dos batedores-mirim de carteira, não é isso, mas enfim, se
fosse um trabalho fácil como qualquer coisa que alguém pudesse optar com um pensamento
na mente como do tipo, ah, se eu seguir essa carreira vou ganhar dinheiro sem ter que me
submeter a esforços tacanhos, certo, vou me dar bem muito fácil. Aí, se as coisas fossem
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assim, até se veria algum problema no incentivo da carreira de puta, parece até que todas as
preguiçosas do mundo vão optar por ela, ao que ele se recorda de um outro problema, o de
referir-se às praticantes desse ofício como sendo as tais mulheres da vida fácil, como volta e
meia se vê a gente falando, parece mesmo extremamente injusto, como se apenas tivessem
de abrir as pernas e esperar, quando mais parece ser um trabalho que exige diversas formas
de sacrifício, a questão então é, por que as putas são mal vistas?, deve ser porque podem
roubar o homem da dona-de-casa honesta, porque o rapaz trabalhador pode estar cansado da
mesma falta de conversa toda noite, do mesmo tédio oferecido pelas promessas do amor e
pelo mesmismo da monogamia, porque elas incentivam a libertinagem prática, a satisfação
exclusivamente pessoal, porque a libido faz com que a gente se baste ao improvisar, porque a
luxúria deixa de ser informalmente permitida para ser cruamente praticada. Alex está cansando
e matando a moral, só não via exatamente por onde atacar, a estratégia ainda é inválida, não
enxerga um coração para que a acerte, ao que pensa se não seria mesmo o seu.
Quando começava a se identificar com a problemática da estratificação a qual são
submetidas as injustiçadas putas, por um movimento de olhar deparou-se com a cena
antipática da mulher de cabelos cacheados ajoelhada como podia na frente do banco de
carona e com o rosto afundado entre as pernas do sujeito. Vira-se a cara, pensa, assim você
arruína minha defesa. Gargareja com o álcool, e a segunda prostituta romana, e olha que o
carro todo já parece o senado de lá, deve ser a responsável pelo barulho de zíperes se
abrindo, enquanto Drusilla ronrona em seu pescoço e se arriscava a lhe passar a língua. Ele
não se importa.
– E aí?, para onde vamos? – era a voz do motorista, um certo Fabrício.
– Pra a Fornalha – esse é o nome de um lugar, um desses tantos que se há –, vamos para
lá – a voz do carona anestesiada.
– Por mim voltamos para onde estávamos, aquelas casas noturnas da esquina parecem
das boas – Andriolli.
– Se você quiser acordar sem as roupas e sem qualquer pertence – Alex fala. – Sem
querer ofender às garotas.
– Nós trabalhamos na rua – Drusilla avisa.
– É mesmo?, e como é?
– É o jeito.
– Vamos pra Sodoma então – esse era o nome de outro lugar, e isso disse o motorista.
– Vamos para a XV – falou Victor, não parece muito entusiasmado em apalpar as pernas
da moça.
– Sim, para a XV, é a melhor – acatou Alex. – Drusilla, por gentileza, tire a blusa.
Por alguns instantes se arrepende da ordem que deu, ela movimentar-se demais e com
certa dificuldade pelo aperto do banco traseiro fez com que se alastrasse ainda mais o perfume
barato, isso lhe foi razão para um olhar um pouco amargo, por isso talvez tenha ofendido a
garota, pôde ver nos olhos dela um quase nada de doçura que aos poucos se azeda até
fechar-se e definir a ela que não havia de se mostrar mais para ninguém, nem correr o risco
disso, tal como você, Alex, já fez. Pelo visto eles tinham mesmo muito em comum, a única
diferença é que ele não se vende, nunca houve oferta interessante, e nada disso disfarça o
cheiro do perfume, girou a manivela, abre o vidro, que o vento ajuda a respirar e o açoita a
protegê-lo dos gemidos que vêm da frente.
– Tem uma marca de boca no peito dela – Victor riu.
Alex dá um tapa em sua cabeça.
– Quê? – gritou o atingido.
– Deixe de vulgaridade, rapaz, seu merda. Observação escrota.
– Mal bebeu e já tá imbecil. É sempre isso.
– Você que é estúpido, e se ela tem um canivete e já tá planejando te enfiar na garganta,
hein?
– Eu não tenho um canivete.
– Drusilla, seja uma boa garota e só fale quando eu pedir – recomendou.
– Fale o que você quiser, mas que tem uma marca de boca no peito, tem.
– Esse é o tipo de coisa inútil de se observar, é cafajeste e escatológico, você por acaso
quer saber com quantos ela já trepou essa noite? – Alex continuou.
– Não sei, mas agora que você deu a idéia eu posso perguntar, você se importa?
– Não faz diferença pra mim. Drusilla, com quantos você já esteve essa noite?
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– Dois.
– Isso significa no mínimo uns seis, esse tipo de informação é dispensável, talvez isso
mude toda a situação, percebe?, os outros podem se sentir mal, agora você percebe?
– Vocês aí atrás não querem calar a boca?
– Deixem eles continuarem, tá engraçado – Andriolli.
– XV então – concluiu o motorista.
– Acontece que eu acho que posso observar esse tipo de coisa pelo fato de estar
consumindo uma mercadoria – o cara está tentando achar lógica para argumentar sobre os
peitos de uma puta –, no caso a mercadoria são os peitos dela, é isso.
– Ela é um ser humano.
Drusilla parece comover-se, não que o fato de coisa assim precisar ser comentada já não
seja desmerecedor o suficiente, algo como, deve ser realmente bizarra uma pessoa que
alguém precise lembrar que ainda é um ser humano, mas é só que talvez a comoção que aqui
se vê talvez não seja observada nas práticas quotidianas, o que tornou-o bonito, senão torna
Alex imbecil.
– Eu também sou, então não me estapeie, eu falo o que quiser.
– Um tapa não significa muita coisa, as pessoas recebem umas das outras como forma de
expressão, é simples e vou lhe mostrar – aí ele deu um tapa, não muito leve, portanto
assustador a todos, na cabeça da doce Drusilla, que se tremeu toda mas não emitiu um ai
sequer, de qualquer forma no instante seguinte um alvoroço terá se iniciado.
Quando foi perceber, com reflexos felinos e certamente de uma praticidade rápida e fruto
de muitos treinos prévios, feito ninja entendido nas artes das sarjetas, a prostituta do banco da
frente mostrava os dentes com fúria animalesca, metamorfoseou-se e até que dos restos de
antes restasse o resto de agora não demorou mais que um segundo, para que um gritinho da
de cabelos vermelhos guinchasse e que essa coisa-mulher babona da frente estivesse
empunhando, não era interessante saber, e melhor sequer imaginar de onde retirou um desses
furadores de gelo doidos de visitar a perna ou o cacete de alguém. Foi um inferno, o sujeito do
banco do carona assustou-se de tal modo que teve de encolher-se, vai que ela o apunhala
para descontar, vai que aproveita que está despido para encurralá-lo, o motorista só percebe
que não esteve guiando o carro corretamente quando soam muitas buzinas ao redor, só se
pode-se vê-lo girar o volante várias vezes para se corrigir, enquanto isso continha uma
expressão pálida e os olhos arregalados. – Toca nela pra você ver! Toca!, vai!, vai!, faz pra
você ver! – começou a berrar do nada e escandalosamente, céus, isso que ela grita e te aponta
a arma, céus, Alex saltou, isso sim, encolhendo as pernas no banco de trás antes que elas
pudessem ser atingidas, ouvia outros gritos de risos como as palavras repetidas do gordo que
ele bateu nela, ele bateu nela!, mas que drama, veja só no que um tapa pode ocasionar, e isso
tudo ocorre numa fração de instintos, instantes, e não demorou a que a puta da frente emitisse
toda classe de palavreados, chegava a salivar, se embolava em urros macabros, crise
epilética, cólica das fortes, taquicardia ou pedras nos rins, fúria descomunal das que não
podem ser só de um instante, aquilo deve estar concentrado desde o início da noite e só a
espreita de um pretexto para explodir.
Por que você fez isso?, por que você fez isso?, o rapaz todo encolhido no banco do carona
choraminga, tentava entre espasmos de alguma forma mirar para trás e perguntar-lhe alguma
coisa, quando não há resposta que se caiba nem pergunta a ser ouvida.
– Não foi nada! – berrou –, não foi por mal!, dá pra parar? – e os gritos aumentavam uns
sobre os outros.
– Faz pra você ver, eu enfio na sua cara, enfio no sua cara!, bem no olho!
– Segurem essa mulher, ela quer me matar! – gesticulava, só não subia mais pelo porta-
malas porque faltou espaço.
Temeu que alguém, que seria qualquer um, que os pensamentos medrosos não precisam
de objetos para brotarem, é essa uma síndrome do pânico à sua maneira, que alguém se
aproveite finalmente da posição desprivilegiada e não pestanejasse em abrir a sua porta, daria
com a rua, seria horrível e não duraria mais que uns instantes, perderia o equilíbrio de tal
maneira que penderia de costas ao lado de fora, em alta velocidade quebraria a espinha e
rolaria na dureza do asfalto por alguns milésimos de segundos, sentiria os ossos dizendo
adeus uns aos outros e cada qual seguindo na direção que mais os apeteceu, até o carro que o
fizesse de quebra-molas o apagasse para sempre, e pensaria, terminei como uma lombada,
traído e atropelado, eu não agüentei. Mas as ameaças imaginárias ainda são menos
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emergenciais que umas coisas visíveis, a ameaça da hora não é imaginária e é uma puta com
o furador na mão, e ela se mostra cada vez mais próxima de acertá-lo, está mesmo se
empenhando, que a desgraçada chega a se esgueirar entre os dois bancos, dá seus botes
errados.
– Diz pra ela, Drusilla, diz aí, eu não bati forte.
– Calma, calma! – a de cabelos vermelhos grita enquanto dá com as costas no banco do
motorista.
– Assim você me fazer bater! – gritou o motorista.
– Bate, é, desgraçado? – a prostituta voraz de súbito muda o alvo.
– O carro, merda! Bater o carro!
– Ele bateu nela, há-há-há!, Alex, você bateu nela? – gritava Andriolli, e tenta conter sua
fêmea que dava uns pinotes sensacionais, quase chega a uma cambalhota.
– Explica aí, Drusilla, explica aí – berrava. – Eu não fiz por mal, diz aí.
– É... – ela acatou com um semblante desacreditado.
– Viu?, não foi nada demais, pra que o escândalo?, mas que merda, viu? Guarda isso aí,
minha filha.
– Você deu um tapa na cabeça dela – a mulher rosnou.
– E aí? – começou a dar vários na cabeça de Victor –, foi assim, isso parece agressivo? O
que tem de mais?
– Pára com isso! Pára com isso!
– Pelo amor de deus, guarda essa coisa, apenas tire essa coisa daqui, tire essa merda de
perto de mim – o carona implorava.
– Isso, isso – Alex acenava com as mãos, é alguém muito paciente que aos poucos, e bem
aos poucos, aplaca um determinado animal feroz, e assim retorna ao banco, a mulher ia
guardando a arma mas não a desconfiança.
– Tenta mais alguma coisa aí, viu, seu merdinha?, seu otário.
– Aviso dado, entendi, vou me comportar – ergueu as mãos que tremiam. Já bolava planos
de dar na cabeça daquela desgraçada com a garrafa de cerveja que entornou-se.
– Não, tudo bem, tudo certo – a que mais se recolhe é a vítima, absurdo pensar que possa
se entender como vítima, e a afagou em seus braços.
Tudo isso se deu porque ele disse dela ser gente, imagina o que viria se dissesse que eu
também sou, toda tragédia dos que sofrem sozinhos parte dessa consciência, todo drama deve
vir dessa constatação, que as feras não sofrem por meramente se entenderem como feras,
mas os espíritos sofrem por se reconhecerem estando, mas não saberem mais que isso, saber
que não se sabe seria interessante se a volúpia não uivasse e lançasse os chamados do amor,
não precisa decifrar o que o incendeia o abdômen, sente-se por um breve instante como se o
carro todo se apagasse, e entrando por um túnel de silêncios só eles restariam.
A única coisa que então articula é a idéia de que o homem não mede, ou não devia medir
esforços quando o assunto é a própria satisfação. É um hedonismo dos excessos, e é esse um
método do qual volta e meia se questiona acerca do valor, o porquê disso é simples, teme o
que ele estará lá a satisfazer, se àquilo que essa vida adestrou, ou a sua reflexão das mais
profundas, afinal é um abismo sutil que separa o sujeito condicionado pelo mundo das
propagandas e das lavagens cerebrais do sujeito que se reconhece e aquilo que é sua
vontade, e ele não está certo se é capaz de discernir em que ponto essas coisas se separam,
compre isso, ter isto é bom, ter aquilo é melhor ainda, já ter isto que você tem é uma merda, já
ser isso que você é, vê lá, é pior ainda, se não tiver a isso será um segregado, poupe-nos da
visão horrenda e inútil que é o que você tem e a coisa desprezível que faz etc etc, e pensou
sobre a consciência estar embalsamada, que se faz até sexo como lhe ensinam que deve ser
feito, como aprendeu que deve ser feito, eis o seu caso, a começar pela boca no peito, a mão
deslizando pelas pernas, os arfares, os suspiros espontâneos ou não que vêm a seguir, e você,
Alex, não escapa da regra, não completamente, e ainda não chegou a cogitar muito a fundo se
há nas origens dessas regras um, um, como definir, um padrão fisiológico, como os que se
supõe haver em todos de uma determinada espécie, que é para que se possa definir traços em
comum, e podermos dizer que o humano é mesmo humano, e não qualquer outra coisa que
nos venha à cuca.
Talvez apenas perpetuemos uma eterna escravidão numa contínua súplica por mais
propagandas de interesses, porque nem você nem ninguém parece ser capaz de desejar por si
só. É como a mamãe ao ler para os filhos uns contos-de-fada na hora de dormir, dá-se a
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impressão de que a criança não tenha lá os seus próprios sonhos, e ela temerá o bicho-papão
porque o carinho de seus pais soprou sobre o monstro aos seus ouvidos.
Cheguei a um ponto, diz-se ele, em que perdeu-se a diferença entre o que sou e o que foi
feito de mim, tudo misturou-se e o essencial ficou para trás, isto é, a resposta que não terá
para a pergunta se posso ser diferente do que fizeram de mim. Então rezo à minha própria
imprevisibilidade, que ela me salve de mim. Em um mundo que nos diz como e o que se deve
desejar, a única saída de encontro a si mesmo é testar-se nos limites, a emoção dos excessos
é reveladora, o mundo das ordens incita o indivíduo a transgredi-lo, e a transgressão é o único
espaço onde se pode descobrir e encontrar-se uma identidade.
E a libido e alguns instintos não tão imprevisíveis conspiravam, isso não o impede de olhar
o rosto pálido e falso e aí a tomá-lo como exemplo. Não é a percepção dos nossos interesses
ou as indústrias, como preferirem chamar, que se mobilizam a partir do sexo, mas são essas
coisas que nos cuspirão o que deve ser sexo, que posições se podem e quais são
ultrapassadas, se podemos ter várias mulheres, até onde pode-se ir nos primeiros encontros,
se pode se dar para mais de um ao mesmo tempo etc. E assim ele repara na meia calça, quem
disse ser isso bonito?, não é que a estética brote feito esporo do nosso gosto a preferir essa
bota e não outra, essa bota de cano alto e fino, desgastada e úmida que com o tempo vai
realçar suas cochas, a saia vermelha que marca a bunda, coisa que de alguma forma mantém
a todos satisfeitos e aficionados, eis o jogo que ditava as seguintes regras, concentremo-nos
nesse ambiente que estamos perpetuando, aqui perpetuaremos, meus grandes amigos, em
nossa ficção teatral, aqui mesmo, em nossos inegáveis e inescapável lares, nada melhor que a
eterna criação que somos nós, feitos do barro e do sopro escarrado da boca da moral. Ao que
se deve ter optado por nem saber. Por fim percebe que pensar isso tudo significa estar
excessivamente sozinho consigo mesmo, está sozinho e é o mundo que era ousado e o
acompanha.
Gravitacional ele se ergueu, é esse um sentido figurado, não é que verdadeiramente se
levante, então, onde estava?, sinteticamente condensou todas as sombras, todas as luzes,
todos os vultos, associa tudo com o processo de expansão rápida do universo, o que se deu,
diz a física, em seus momentos iniciais de existência, o qual não pode ser estudado pelos
dados convencionais que decodificam a ordem das coisas, quando a verdade está mais perto é
da desordem dessas, então por ver esses fenômenos, sexo, vulto, buzina, rock n’ roll, ele acha
estar vendo sintomas da origem tudo, o começo de tudo também está ali. E disse para Drusilla
chupar.
Ela se curva para obedecer, quando já o estava tateando nas calças por alguns instantes
lhe regressa o temor de que ela tivesse se encantado com o relógio do bolso, mas considera
que deva ser esperta o suficiente para ter-se dado conta de que aquilo não vale mais do que
ganhará com uma chupada. Sente um pouco de asco, mas é parte de seu processo. Dirigiu os
olhos ao lado de fora, à silhueta cinza de um viaduto, tudo que a gente não constrói para ser
visto a gente faz assumir coloração insípida, falecida, ao menos parece mais cru, um pouco
mais sincero com todos nós, e esse viaduto o faz perder-se nas memórias. Viajou no tempo.
Já faziam horas que estava entretido com a fachada de um prédio antigo que, hoje em dia,
como até os pouco espertos podem constatar se secarem as calçadas à frente, serve como
sede para uma dessas tantas igrejas estranhas que existem. Assim diz o anúncio sobre o átrio,
não é que anuncie aqui está uma igreja estranha, mas igreja da salvação do não-sei-o-quê dos
últimos tempos apocalípticos, e as entradas lotadas de pessoas típicas, é ruim achar as
pessoas típicas. E ele está no alto, é quase feito deus. O torso reclinado toca as divisórias do
passadiço, lá está sentado no concreto como o vira-latas lá ao fim também está. Deixava os
pés livres e sem apoio, as pernas balançam pela vontade do vento, vem-e-vai, assim imagina
como seria cair da passarela. Chega a conclusão de que a gravidade é uma das forças mais
fascinantes, se bem que não há assim tantas forças que parecem interessantes, também não é
como se ficasse em casa parado e pensando se as forças têm alguma beleza, alguma coisa
estética, mas acha que gravidade soa bem, diferente de eletromagnetismo, empuxo ou força
elástica ou aceleração centrípeta. E se forçasse demais o peito, que o parapeito não deve ter
sido desenhado para sustentar peso assim, o apoio há de se romper e ele cairá sobre a vidraça
de algum carro, certamente cairia sobre um deles, estando passando tantos vários dentro de
um átimo, ou se menos provavelmente não caísse sobre um, acabaria no próprio asfalto,
servindo de lombada em seguida, mas, e principalmente, causando um grande acidente de
todas as maneiras. Não chegaria a ver a catástrofe de carros se batendo, fogo, estilhaços e
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pessoas atropeladas nas calçadas, prensadas contra os muros amassadas, gritos de ai, e os
abutres próximos correndo para ver de mais perto, enfim, mas nos instantes finais de sua vida
esse seria certamente um de seus pensamentos reconfortantes, um lapso de visão inacabada
sobre um futuro breve, apesar de ser o que pensa o sujeito no instante da morte geralmente
um mistério, é que faltam testemunhas, mas imagina que seja mais ou menos assim, é, a vida
realmente acaba.
E ele não se importa, mas se importa sim com cânticos da igreja, estavam orando,
exorcizando uns doentes. Chega a se imaginar lá dentro, podia ver como se estivesse nítido
em sua frente, o altar distante onde o pequeno vulto embaçado de um homem de voz forte
coagia e decifrava cada necessidade desses nossos visitantes, aqueles enfileirados como
obedientes cordeiros, assim desperta o amor daquele senhor calvo com o rosto raquítico, a
compaixão da garota mirrada ao seu lado, ele não tem dúvidas que é uma drogada, mas está
ali para descobrir maneiras de se livrar de sua autodestruição. Essa gente que escolhe uns
caminhos fáceis na vida, e não a bula de recomendações que nos passou o senhor. E ele se
contagia pela devoção, as próprias lágrimas contagiam, não só elas, o clamor, a euforia pelo
perdão, a euforia sem porquê, o êxtase da redenção, da auto-aceitação, a mão suada do
companheiro ao lado que o tomava pela sua para que juntos fossem apenas um, para que
pudessem se lavar. Mas sentiu nojo. E fumou, e descansou olhando os carros.
Um ou outro transeunte eventualmente passava da mesma forma que o ignorava, mas era
inconfundível alguém parado já fazia um tempo atrás de si, logo não demorou a presença de
Sabrina tornar-se inconfundível.
– O que está fazendo?
– Parado, pensando, esse tipo de coisa.
Não precisa curvar mais que um pouco da cabeça e precipitar mais que um pouco da
periferia dos olhos para imaginar as possíveis expressões que, caso virasse, encontraria, ali
estaria o queixo que teima em tentar se levantar quando está abatido pelo dia cansativo, a
região abaixo dos cílios carregando um toque da ressaca de quem não recebeu bem o fim da
tarde, se olhasse a fundo poderia ver os globos avermelhados cansados de serem forçados, a
palidez triste dos sacrifícios diários que muito raramente compensam, o pão nosso de cada dia,
não importa como é vendido ou por quem foi amassado, pode mesmo ser pelo diabo, que cada
vez produz broas mais gostosas. Calculou rapidamente e para nada o intervalo entre a
passagem de um carro e outro.
– Parece estar esperando alguém – ela afirma com tom de pergunta.
– E você, doutora, que faz vagando por aí?
– Eu venho andando todos os dias.
– Não é exatamente a idéia que eu tinha. Faz mais jus a você ser deixada na porta de casa
pelo táxi.
– É um bom sonho. Parece que podemos nos surpreender.
– Como o rapaz olhando a pista sentado num passadiço que é coincidentemente o seu
caminho, e ele não parece estar fazendo nada mais do que isso. Como ele é estranho...
– E eu já disse que parece estar esperando por algo.
– A senhora é bastante perspicaz – rodou o cigarro entre os dedos, ao longe eclodiu em
série umas tantas buzinas.
– Enfim, quem é você?
– Oi? A senhora também é bastante filosófica.
Ela por alguns instantes se calou. Só foi se dar conta de que esteve esperando que um
senhor que vinha lá da ponta passasse quando os passos se aproximavam, e segundos após
prosseguiam.
– Está sempre fazendo as coisas pelos cantos.
Ele permaneceu indócil, não responde. Ela prosseguiu, – De onde você veio, o que você
fazia, o que você faz agora, por quê?
– Esteve pensando em mim durante o dia?
– Por que pergunta isso? – algo lhe disse que ela sorria e balançava os ombros. A
facilidade de prevê-la é interessante.
– Não sei, suas perguntas me pareceram desabafos.
– E daí?
– Então eu ficarei aqui curioso imaginando as razões para essa angústia a meu respeito ter
surgido.
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– E quais seriam?
– Estou com preguiça de imaginar.
– Também não é razão para supor que seja uma angústia, como você disse.
– Não se justifique – cuspiu saliva e o cigarro ao vento, que tratou de carregar a rajada
para algum canto da rua.
– Quem é você, porra?
– Você andou pensando muito a meu respeito – grunhiu.
– Não posso fazê-lo responder, mas não precisa se esquivar.
– Agora sim estou falando com uma psiquiatra.
– Isso parece ser uma barreira entre nós.
– Você acha? – caçou no bolso o isqueiro, estava misturado com a carteira de fumo que
também usaria. Não pode deixar de aproveitar o movimento para esgueirar a silhueta pálida da
mulher de pé, nos últimos instantes o tom de voz parecia mais disperso, as hipóteses podiam
ser tantas, assim não era satisfatório.
– Tem razões pra não gostar de mim? – essa pergunta ele não resolveu decifrar a gênese,
como se lhe coubesse a escolha decidiu-se permitir os frutos dela.
– Algumas poucas. Sendo bem sincero, não pensei muito a respeito.
– Há coisas que não precisam de muita atenção para que saibamos.
– Isso é. De qualquer maneira não estou disposto...
– Disposto a quê?
– Se não se importa em responder, de onde tirou toda essa intimidade comigo?
– Não sei, acho que curiosidade.
– Curiosidade do cara sentado na ponte, ou do cara que você conhece?
– O conheço? – inquiriu.
– O suficiente, talvez. Talvez até mais do que ache, mas as impressões enganam, eu sou
bastante superficial. Mas e então?
– Bem – hesitou algum tempo – , curiosidade quanto aos dois, talvez.
– É, resposta típica, doutora.
– Não precisa me chamar assim.
– Devia ter dito que não importa ser típica. Quer um cigarro? – só foi realmente empunhar
o maço a essa altura, o estendeu para trás.
– Não. Eu cuido de cancerígenos.
– E como vai o namorado?
– Como?
– O meu bem, beijinhos, estou ansiosa, até a próxima.
– Bem – se alongou, pelo espírito ausente ponderava muitas coisas. – Ele vai bem.
– Que estranho, a minha pergunta foi bem recebida – Alex rastejou para trás, deu um
pouco com os braços.
– Eu disse que podíamos nos surpreender. Posso lhe pedir algo?
– Vá em frente.
– Apenas vamos conversar um pouco.
Estaria assimilando as recém-chegadas impressões, mas o som das buzinas sem intervalo,
eco longo como de um berrante, carros passando e os demais sons de gente o impediram de
ouvir que ela se aproximava, a essa altura estava descalça, viu quando debruçava suas pernas
pelo parapeito e se punha a sentar, revelou a meia-calça rasgada na altura das coxas, é quase
lei que elas tenham detalhes assim. Segurava os sapatos de salto com as mãos, que faz
qualquer vitorioso descer de seu podium?, chegou à conclusão de que ele devia ser mais
delicado. Assim se surpreendeu, mas não se deteve por aí.
– Então, está tudo bem? – pela primeira vez a olhava no rosto, os traços habituais
ofuscavam os olhos avermelhados.
Ela acatou com a cabeça regando um sorriso de pouca consistência. – Estive pensando de
onde você tira dinheiro pra pagar a pensão.
– Não tem muito mistério, eu tenho algum reunido – a voz saía como se arranhando um
azulejo, mas vem dócil.
– Também sobre onde morava, como morava, por que em um instante qualquer foi viver
conosco.
– Também não há muito mistério.

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– É um rapaz escuso, disfarçado, é que, não mostrar aos outros o que pode desejar
mostrar, talvez involuntariamente acabe confundindo a si mesmo, cria o hábito de se fechar e
realmente se acostuma a isso. Vai olhar a si mesmo todo retraído.
– Se não se importa, acho que terapia é algo muito egocêntrico.
– Você é um cara egocêntrico, Alex.
– Posso estar tentando melhorar.
Ela sorri ternamente. Não que não costume sorrir, deve ser exagero dizer que há pessoas
que sorriem pouco, acontece que há diversas formas disso vir a acontecer, só os menos rudes
perceberão todas elas, há sorrisos que de tão presos parecem dor-de-barriga e outros que
parecem ânsia de vômito, o que realmente ocorre é que este de agora se deu de maneira
especial, como se um grampo lhe censurasse as bochechas mas elas ainda assim se
atrevessem a esticar, não tanto quanto dor-de-barriga, em seguida ela falou.
– Fui despedida.
– Sério? – arqueou as sobrancelhas para perguntar, mas esse sério?, foi de praxe.
– Pois é. Tantas vezes a gente espera por reconhecimento e é isso que recebemos.
– Que houve?
– Dei com um troféu na cabeça do diretor do hospital.
– Deu com um troféu na cabeça do cara?
– Era de algum prêmio, não sei bem.
– Se eu perguntar a razão você vai me empurrar daqui?
– Eram dias de promoção – ele deduziu que talvez ela só precisasse iludir-se numa
conversa, pensar que era compreendida –, você sabe, aquela história de que para se obter o
que quer só é preciso saber o que se está disposto a fazer.
– Ele foi pra cima de você? – meiosorri.
– Com todas as mãos, mesmo depois do meu discurso sobre integridade.
– Talvez você não tenha sido convincente, você devia estar chocada e incerta de como
agir.
– Pra isso serviram os nãos e os empurrões.
– As pessoas sempre podem ceder, você entende.
– Por isso agarrei o troféu sobre a mesa e dei com ele na cabeça.
– Às vezes é preciso dar ênfase às coisas.
– Mas foi horrível, ainda assim me senti culpada. O sangue descendo pelo rosto do velho,
o pavor, eu também fiquei apavorada, aí que estava o pior, de um instante para o outro deixei
de ser a vítima e ele reconhecia isso, a culpada era eu. Já passou por algo assim?
– Não posso dizer que já, mas imagino a sensação – e pensa que deve ser boa.
– Eu estava pasma, impotente, vi minha racionalidade falir em minha frente, tudo
simplesmente estilhaçou e eu não pude fazer nada, me dava conta disso e não podia fazer
diferente, eu era culpada por causa dele e ninguém ia me ouvir.
– Não parece uma reação de se espantar.
– De que adianta estudar o comportamento das pessoas, querer curá-las, se você não se
pode colocar acima do seu próprio?, isto é, para que serve? É hipócrita.
– É que às vezes esperamos sermos superiores porque vemos e entendemos aos outros,
mas por alguma causa ignoramos que exatamente as mesmas coisas que há neles existem
também em nós, no fundo somos feitos da mesma massa, tentamos correr, mas nunca
fugimos.
– É, isso é inteligente.
– É apenas observação vulgar. Convivemos uns com os outros, é natural.
– Outra pretensão minha.
– É.
– Pode ser, mas assim eu soube que estava vivendo no meio impróprio, fazendo as coisas
certas com os objetivos errados. Isso já te aconteceu?
Ele moveu a cabeça como se respondesse que talvez, que pode até ser.
– Saí de lá ouvindo os piores insultos, isso quando o homem conseguiu se recobrar da
amarelidão e conseguiu falar. Eu sei que ele vai me acusar de alguma maneira, vai à polícia,
eu sei, se não isso apenas vai arranjar um pretexto pra que eu saia. Eu sei que isso vai
acontecer, os mais fortes definem o que é razão e o que não é, argumento é apenas enfeite...
– Antes tarde do que nunca.
– Por quê? – curvou o rosto e o olhou profundamente.
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– Bem, era só um trabalho – disse e tragou o cigarro, deu de ombros.
– Talvez, mas ainda assim era importante.
O comentário vai se desfazendo sozinho, por moleza, por impotência, como um coito
murcho acompanhado de buzinas e cheiro ruim, e Alex mantém esse luto de deixar as coisas
simplesmente se desintegrarem. Mas o ócio de Alex não é de respeito, muito menos tolerância,
era mais o desânimo frente ao óbvio, e acabar tratando dele o conduziria a um caminho de
enxaquecas que no fim o arrependeria. Ele só queria dissolver toda a complexidade e no fundo
disso descobrir a verdade.
Nada mais complexo que cigarros, essa era a linha de pensamento que, segundo ele,
ilustra a causa da frustração secular não só dele, mas de toda nossa história. Não é à toa,
pensou, é até mesmo bastante razoável, que o intelecto e sua complicação má deva ter
surgido com os sofistas, um punhado de malandros a se convencerem de que quem fala
melhor é quem tem a verdade, coisa assim. A partir de então se pôde ver numa experiência de
viagem no tempo, ok, estava ele então uma graça, trajado numa toga com as quais se ilustram
os sujeitos da antiguidade clássica, vede, não havia dúvidas para si mesmo, era mais que
perfeitamente o avatar do zoon politicón, e sentindo a espessa camada de fumaça do cigarro
tragado, parte se instaurando no céu de sua boca, parte absorvida numa osmose deliciosa que
lhe abranda os nervos, talvez se propagando de uma forma psicológica porém desconhecida
aos anseios monstruosos da subconsciência, mas sobretudo atribuindo a todos desejos
momentâneos uma única razão de ser, um único objeto de louvor, fenômeno esse tão raro que
é considerado característica patológica dos vícios, punha-se dessa maneira a pensar. Eis a
gororoba mal digerida que é a concepção das coisas, mal digerida pois se constitui de uma
mistura antropofágica entre a visão socrática e a enrolação da lógica, então verá o seu
intelecto enrolado nestas mantas, coroado de louros e a discursar numa praça de pólis, que é o
objeto, que a matéria?, bem, meus caros asnos, para que essa resposta seja efetivamente
respondida, adotemos um modelo de matéria para que, a partir de sua análise, possamos
generalizá-la e, enfim, possamos estar satisfeitos. Olhem todos, vejam, esse cigarro em minha
boca, nada afinal mais complexo que um cigarro, sim, sim, esse mesmo que trago, assim
estraçalhemos sua anatomia composta de mais de quatro mil setecentas e vinte substâncias
tóxicas, dentre as quais mais de sessenta cancerígenas, parece muito no que parece pouco,
tudo isso em retalhos de fumo picado enrolado em papel fino ou palha de milho, sim, sim, como
está no dicionário, nunca vi cigarro ser usado com palha de milho. Observemos então a
nicotina, causadora do efeito fisiológico vicioso e responsável pela diminuição da chegada do
sangue nos tecidos do corpo e no sistema nervoso central, sem contar o benzopireno, esse
que faz continuar o foguinho aqui na ponta, há também inclusive substâncias radioativas como
o polônio duzentos e dez e o carbono catorze, metais pesados que quando concentrados em
órgãos do corpo podem vir a causar dispnéia, enfisema, fibrose pulmonar, hipertensão, câncer
nos pulmões, próstata, rins e estômago, há chumbo, bem, continuemos, ainda há cádmio,
níquel, arsênio, cianeto hidrogenado, amônia, formol, alcatrão, monóxido de carbono, e todas
essas coisas parecem dizer coisas horríveis, por que eu fumo?, por que eu fumo?, dane-se o
tumor e os pulmões que pareceram passar por uma cirurgia com maçaricos, danem-se os
agrotóxicos e as nitrosaminas, o que é simples e causa boas sensações faz bem, se tiver algo
que substitua a isso já convém, e ponto final, assim como camarão tem colesterol e sexo é
veículo de doença. Esse é o dilema costumeiro do homem simples e do confuso, o dilema ao
se penetrar na matéria, sempre se perguntarão o que é bom, onde havia cádmio e carbono
catorze agora há horror e juízos, é certo que se diz do conhecimento trazer poder, mas o
cérebro humano ao digeri-lo não está funcionando muito bem, talvez por culpa do próprio fumo,
nunca iremos saber.
Alex olhava o amálgama de pessoas lá em baixo, aglomeram-se de todas as formas por
todas as ruas próximas, atravessando ou entrando nos prédios, correndo para não perder o
ônibus cheio ou anunciando o melhor doce, tenho esses só por uns centavos, bem mais barato
que na loja, compra aí, vai, vai, vai, correndo ou ajudando o senhor de muletas, e finalmente
não é pela primeira vez que se perguntava, valha-me deus, onde foi que me meti? E essa não
é a melhor das sensações. As abstrações formadas na mente nem sempre caem muito bem
quando vêm à ordem das palavras, mas ele define o que agora sente como o susto de
congelar os ossos. Pensou se havia propósito mais atual à vida da gente que não a anestesia,
analgésico ou spa.

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Sabrina lhe deitou no ombro, algumas mechas do cabelo lhe batiam pelo rosto, mas não
seria desagradável, que o perfume da moça agora continha um cheiro gostoso de intimidade,
um cheiro bom como voltar para casa, estranho. Alex então acredita ser uma vitória que não
vinha de um sentimento de conquista, mas uma entrega que por não ser esperada era melhor.
Em vista dos atuais acontecimentos é redundante dizer que não amava mais Letícia, a
companheira de pensionato, até mesmo a lembrança de seu rosto parece insossa e distorcida,
como o rosto daqueles conhecidos que não são exatamente próximos e que, quando sonha
com eles, sabe que suas imagens no sonho não honram sequer as formas verdadeiras, de
forma que a lembrança os esteja desmerecendo, porque ele já os desmerece, se não eles
desmerecem a si mesmos. E também não amava mais Raquel, a garota com aspecto de
drogada que trabalha na loja de cds, até que ela tinha uma conversa boa, ainda que acabe as
frases pela metade porque já não consegue raciocinar muito bem, até que eles se deram bem,
não amava Gina, esposa do dono do único sebo do bairro, esse é um nome hebraico, o que o
faz lembrar que as judias são fogosas, mas ainda prefere as protestantes.
Agora ele amava Sabrina, para tanto tinha motivos indiscutíveis, aquela coisa de o amor ter
razões que a razão ignora, mas é principalmente o cheiro do cabelo. Sentia como se ela
abraçasse a mesma situação em que ele se encontra, por aqueles momentos não esteve tão
sozinho e o sarcasmo diluído não mais precisaria lhe fazer companhia, esteve desarmado e
podia por enquanto estar.
– Conte-me o que você faz enquanto não sai do quarto por dias – ela sussurrou, a vista
desenhava sabe-se o quê nos horizontes nublados.
– Tem certeza que não está ficando um pouco indiscreta? – averiguou se ela sorrira,
constatou que sim. – Olha só, preste bem atenção, vou exemplificar. Olhe para a rua, para a
diagonal esquerda, a uns dez metros à frente do semáforo, o sujeito engravatado no carro
luxuoso parado em fila dupla olhando para a calçada, o que ele te mostra?
– Eu o vi, acho que está no máximo a cinco metros do semáforo, mas eu o vi.
– Isso não vem ao caso, vamos lá.
– Não sei, parece ter pressa – arriscou sussurrando.
– Verdade, isso está nítido, só pelo movimento das mãos na cintura, percebe?
– É característico.
– Dispensemos um pouco os motivos da pressa, elas podem ser muitas. Afinal ele é um
sujeito de terno, certamente não foi por pequenas responsabilidades que conquistou essa
postura e esse carro, então vamos supor que está atrasado para a última reunião de negócios
ou para um jantar urgente com o chefe, depende disso para fechar um de seus grandes
negócios, coisa assim.
– Ele está na frente de uma escola de balé, deve estar esperando a filha pequena.
– Estamos indo bem, mas sigamos com a idéia do jantar com o chefe. Ele ficou de buscar
a menininha e correr contra o trânsito e o atraso pra chegar em casa a tempo de apanhar a
esposa que ficou de se arrumar. Correto?
– Parece bom – sorriu.
– Mas vamos nos ater aos detalhes, finalmente. O que o faz colocar as mãos na cintura
dessa forma?, ele olhou o relógio com uma cara emburrada ou foi um cisco em mim?
– Está nervoso com o atraso e preocupado com a fila dos carros – respondeu.
– Sim, está – há algum tempo pensara a respeito de descobrir o seu cigarro. Fazê-lo com
pessoas era mais excitante. – E o que leva uma pessoa a comportar-se dessa forma?
– A obrigação de seus próprios compromissos, a pressão quotidiana.
– Sim, sim, ele não poderia se preocupar com os compromissos dos outros, não seria
espontâneo, não seria coerente num mundo sanguinário feito este. Mas vou te dizer o que eu
vejo, eu vejo o sujeito engravatado dizendo claramente que o tempo dos outros pode ser
destruído, o dele não, não vejo nada mais, no fundo, senão prepotência.
– Ninguém se preocupa com todos o tempo todo, isso não seria coerente. Se trata de
concorrência, cada um zelando pelo que lhe apetece, alguns vencem, outros não – a doutora
fala com ar acadêmico.
– Todos conspirando para a satisfação própria ou para a do círculo pequeno onde estão
inseridos, correto?
– É isso.

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– E entrando em conflito com a individualidade alheia ou o círculo alheio. Tudo bem, isso é
uma merda competitiva, mas isso é a relação de tensões, é coisa do choque, é um tipo de
conversa.
– Sim, é, perfeitamente, ok.
– Por trás do sujeito de gravata não há nada mais que um homem que entendeu que
precisa se preparar se quiser vencer ou dar a volta por cima em seu combate, digo, ele tem se
preparado para a luta entre a gente, para o canibalismo, ele compra as coisas sem agradecer e
atropela velhinhas pra entrar antes de todos no metrô. Por isso a pretensão, é inconsciente, ele
acha que seu preparo lhe rende algum poder superior capaz de burlar o poder dos que estão a
sua frente, dentro dos carros e tudo mais, até capaz de burlar o poder da professora de balé
que está prendendo por tempo demais sua filha. E quanto ao poder, não preciso falar muito, há
sintomas de quem o possui escancaradamente, como o patrão do chofer parado na esquina ali,
ali à direita, como a gravata do cara do terno, em proporções menores temos o sujeito que
tomou o táxi que vem passando abaixo de nós ao invés de apanhar o ônibus.
– Não sei se entendi o seu objetivo.
– Eu penso, e vejo que tudo se resume a isso, o homem que luta todo o tempo.
– Por quê?
– É o modo que ele se comunica. Poder para satisfação.
– Vemos isso ao longo da vida.
– Mas não nos importamos muito.
– Poder é mesmo coisa que existe para brindar as minorias...
– Mas há um sonho corrente que a todos nunca abandona, a idéia de que podemos ser
livres, e poder ser livre implica em podermos fazer o que quisermos, ter poder ou correr atrás
de qualquer coisa para tê-lo, por fim nos satisfazermos.
– Certo.
– Está me ouvindo?
– Estou. Mas se toda essa coisa fosse jogada ao léu, se se desse de qualquer forma, o que
você chama de luta seria levado a níveis atrozes, não acha?, que isso pra mim é um pouco
claro, e isso já me justifica tudo isso que você faz parecer ruim.
– Por isso existe o direito – acatou, tragando um pouco mais o cigarro –, a legalidade, o
meio moderado. E é por isso que a liberdade é um símbolo distante, e não de fato uma
verdade quotidiana.
– Bem, certo – e boceja.
– O direito regula com ameaças até mesmo o flanelinha que está morrendo de vontade de
dar uma pedrada no carro do engravatado simplesmente por supor que nunca terá um luxo
parecido e por estar cansado da arrogância de pessoas assim, mas ele sabe que vai se
prejudicar se o fizer. Assim como vão intervir caso o revoltado no fim da fila dos carros, deve
ser dele essa buzina que não pára, saia com uma arma, é que nada impede que ele carregue
uma, e desconte suas frustrações e sua raiva reprimida num qualquer parado no trânsito. As
pessoas se disciplinam por medo da punição, nada mais.
– Pará-lo não parece ser o melhor a ser feito?
– A ameaça que vem de cima mata a liberdade que fingimos ter.
– Não seria o melhor a ser feito?
– Outro exemplo, o doutor que queria transar contigo. Eu poderia até me alongar supondo
que o instinto sexual reprimido pela vida social é a mais importante causa para um certo
comportamento explosivo e asqueroso, associado ao fato da posição privilegiada lhe conferir
poder de fazer umas exigências. O direito diz que estupro é errado e será recriminado, aí
ameaça por via de propaganda que quem o fizer será punido. O estuprador é levado no
camburão, da mesma maneira que vai matar e ser estuprado nas prisões sem
necessariamente saber porquê. Na verdade, não há porquê. Tudo é convenção. Não há nada
por trás disso. Só a moral. Tudo é convenção. Então, na verdade, tudo é ilusório e tudo é
permitido.
– Não – ri, arfando –, não me venha com essa, Alex. Um sujeito assim é doentio, quer algo
que podia ter sem prejudicar ninguém. Precisa, sim, de tratamento. Não me diga que você o
apóia...
– O teu diretor hoje aprendeu a verdade, ao contrário do bandido. Viu que há um poder
corriqueiro, como você, capaz de contestá-lo e enfiar-lhe um troféu na cabeça. Da próxima vez

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ele vai pensar umas duas ou três vezes. Não foi o mundo que o puniu. Foi você, que só estava
se defendendo, que não estava a fim. Nada mais real que isso.
– Pensar sobre isso ele vai...
– O estupro foi um exemplo drástico, fui logo a fundo numa questão polêmica e moralista,
eu sou drástico, desculpe. Mas agora me explique por que eu, com sono e com fome depois de
revirar as lixeiras em busca de comida, não posso invadir a primeira casa que vir em minha
frente para dormir agasalhado.
– É injusto, mas é porque a casa é de outro, isso é uma invasão, parte de dogmas, é a
lógica básica da nossa sociedade...
– Que alguém só irá descobrir o porquê não só ao infringir e o inquilino furioso vier com
uma faca de cozinha cortá-lo. Eu vou me defender, não tenho nada a perder, sou um mendigo
das ruas. Vou matá-lo sufocado, ele é covarde demais pra mim, eu não.
– E vai da mesma forma acabar mal.
– Disse que não só bastava infringir. Isto é, por que não posso agasalhar-me numa cama
como tantos o fazem sem ser recriminado?, não tenho a minha própria casa, o que me difere
do sujeito que matei?, essa é a pergunta, isso eu quero saber, tenho também de me perguntar.
– A propriedade privada é uma convenção, tudo é uma convenção. É só isso que você
pretende demonstrar? – esnoba.
– O direito assegura paz burra – ele não liga –, ele não informa o por que faz, somente o
que faz, a liberdade verdadeira é conflito inteligente, sem normas a não ser ela própria, sem
limites, senão o poder.
Acatou, sorrindo, mas não parece mais interessada.
– Você pode me dizer que isso é somente o emprego da força bruta, eu não vou discordar.
Mas, das normas que não conhecemos, só saberemos seu recheio hipócrita ao questionarmos
os interesses atrás delas, o que é a mesma coisa que questionarmos o que mandam as
religiões e o que diz o guarda de trânsito quando nos orienta a alguma manobra.
– Talvez não seja simplesmente cômodo fazer isso – ela sorri, sincera e terna.
– Por isso as pessoas sonham com a satisfação plena mas temem tomá-la de assalto.
Acomodar-se é tão habitual quanto temer.

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Piscou por várias vezes quando Drusilla terminou, pouco antes tudo já havia se tornado
meio turvo, é que não há concentração, exceto a tântrica, que impeça as imagens da memória
de se dispersarem no momento em que se iniciam as explosões do espasmo, que não se
precisa detalhar mais, a julgar que cada um as conheça em maiores ou menores proporções, e
senão que imagine o gozo, que não define exatamente a melhor entre as sensações, mas uma
de suas graças está em desgrenhar um processo muito realizador e inteiramente exclusivo a
quem o executa, não que não haja gente de fora envolvida, mas que o degringolar do processo
seja o máximo do aproveitamento do nosso próprio universo sensorial, é seu início e seu fim,
como passar através do parto até morte com toda intensidade possível, a jornada da vida,
recriada e vivenciada pelo protagonista que ele é, passando por toda gama de relações
possivelmente encontradas, desde as explosões musculares do atrito, da luta, do bem-estar de
se galgar a posição mais privilegiada, se dominadora ou submissa não importa qual é, sentir-se
posse ou possuidor, rosnar feito cão que destrincha o bife, até a hora que desiste das forças e
entregar-se tornou-se tudo, cuspir-se para fora é tudo que pode, não se trata de mera cócega
que nos arrepia até a medula e depois o larga à fraqueza dos mortos, mas, no fim, tudo que
resta é abandonar-se, é permitir-se morrer, e por isso sorri, porque a vida se minimiza aqui e se
reconhece. Como olhar uma colônia de formigas.
Surpreendeu-se com sua medonha analogia, tudo porque foi uma chupada daquelas.
Podia ter me avisado que ia ser agora, a fêmea ainda rosna. Ele não a olha, mas ouve uns
sons estranhos, ela está regurgitando.
– Desculpe – olhou para baixo de relance, e não quer enxergar mais que isso.
Aqui ressuscito, ele pensou, da momentaneidade, e torno-me de novo tudo o que despejei.
Deve ser mais ou menos essa a sensação do idoso que certamente se arriscaria mais em estar
na posição que há pouco esteve, dividindo o espaço das pernas com uma competente, porém
falsa, puta romana, e pensa se ele mesmo não estaria sendo insensível demais em sequer
olhar para o rosto de Drusilla, é claro que acaba de se recompor, imagina que sensível seja
poupá-la do nojo que ele mesmo é, não vai olhá-la, não vai sorrir e nem esperar resposta para
seu silêncio, então pinotes se propagam por aqui, ele ignora e deixa para lá a gente que esteja
se divertindo.
Pensava em Sabrina e cogitava o que tinha esperado fazer com ela quando tivesse
chance, se meter com ela por uma viela das tantas que se encontram pelas ruas, erguê-la
pelas pernas e pressionar seu corpo, beijar-lhe a boca com fúria, tocá-la com jeito e com
vontade, mordê-la, abrir o jaleco na consumação do sonho de arrebentá-lo, hastear-lhe a saia,
observar na careta de seu rosto a denúncia do que ela realmente é sem as poses, sem o
sapato alto e a prepotência, nua de prazer tomando conta, preliminar sem licença, reduzida ao
que pode se tornar, e ela sucumbiu. Pôde sentir o arrepio nas próprias orelhas do hálito
feminino o tocando, e nos olhos que via uns saltinhos a tentar dar voltas sobre as órbitas, os
traços do rosto de criança que tem provado e tem gostado, e quero mais, ela o arranharia na
nuca e com fúria de mulher prenderia a sua cabeça, que é para dizer que pertence a ela, e ele
riria, ela seguraria seus cabelos, e quando trincasse os dentes de prazer e sorrisse de
embriaguez, aí diria certezas que a ele nunca se esconderam, a voz firme e sussurrada pediria
vem, meu doutor, antes de eu acertar tua cabeça, me doma, me come em cima da sua mesa,
de qualquer jeito eu gosto, vem, é isso que eu quero desde o início, vem, por mais que eu finja
é isso que quero, não, não, calma, começo a me arrepender, espera, não, eu disse não, espera
um pouco, por favor, pára, mas eu disse não, que eu quero mas preciso de um porquê, não era
um talvez, era um não, não entendeu?, pelo amor de deus, pára, não, não, ah!, os olhos
piscaram, imediatamente pensou por que teria de ser sempre ele a pensar o pior das coisas.
Eu sou o condenado a pensar essas coisas dos rostos gentis que me deitam no ombro. Eu
sou o condenado a enxergar sem ver, e intuir que é isso a verdade, e sou o condenado a
perceber que esses rostos me comprovam o pior, o que não sei se já havia ou fui eu que
semeei.
Algo tilinta e desrespeita seu sofrimento de mártir que foi sacrificado e continua a viver, a
noite está toda escura e a nublar todas as vielas, os esconderijos sombrios das coisas que ele
ainda não se preparou para crer ou ver, e a noite tímida e opaca vem brindar-lhe a
comemoração alguma e com bebida das ruins, brindou-lhe com o isqueiro empunhado por
Drusilla, ela vai fumar por se sentir no direito de escolha ou para esquecer do paladar que não
pediu para receber na boca.
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– É isso que eu chamo de investimento – urrou Andriolli, ele era uma poça de suor quando
sua garota já se esparrama de pernas abertas a sair de cima dele.
– Acabaram? – a voz de puta da frente mascava um chiclete. Elas fazem isso porque no
fundo o que querem é espantar clientes.
– Me beije, Alex – o rosto de Sabrina nas brumas da memória.
Também veio em mente a imagem da porta de um salão se abrindo. A música doce, logo
pode atribuí-la a um recital de dança, encenação teatral ou aula de balé, e veja só, aqueles
espelhos enfileirados circundando o salão rejuvenescido com o rosto esperançoso de
pequenas bailarinas, e lá entra o sujeito do terno, o rosto derramado em suor, tenta limpá-lo
com as mãos algumas vezes mas em nada adiantou, as mãos se encharcaram e não pára de
escorrer, olhou mais uma vez o relógio e mesmo que os números não fossem nada senão
números corroem a sanidade, gritou de uma forma que jamais faria, talvez vomite e não venha
a perceber, e sentiu uma satisfação esplêndida ao ouvir a música harmoniosa desafinando e
se calando e as meninas todas se tremendo. A professora vinha censurar, pelo jeito que anda
vem dar uns sermões muito graves ou ameaçar, já é ameaça que ande com expressão austera
assim, então o cara, ao vê-la, sacará o revólver e bum, um, dois, três, quatro, e após o primeiro
corpo espirrando sangue e caindo não podia mais parar, e por último seria sua filha a vítima,
ela é a culpada de tê-lo feito ir até aí. Você não quer?, lhe dizia a doutora quando deslizava as
mãos por seus ombros, o próprio cenário se esvaía feito poeira, apenas o rosto e a voz estarão
vivos ainda que passados e gravados feito brasa. Sabe que não sabia o que pensar sobre os
seus desejos, desde que rejeitou o metafisicismo e as teorias sobre sua gênesis e o modo
como vêm a correr-lhe nas veias, a persuadir-lhe as emoções e contestar os sentidos, pensou
que com o brilhantismo agnóstico de quem rejeita o esterilíssimo inalcançável, apenas se
renderia ao que ordena, como diria qualquer um, o seu próprio coração, a intuição gratinada
por essa argamassa que é ele mesmo, e isso que já não quero compreender sou eu, e não
tenho por que não aceitar, porque se sou eu, eis-me, e ponto de reticências, e cá vou eu,
devo?, perguntou-se sem saber exatamente porquê, a imagem da garota está reduzida e
entregue aos seus conformes, era claro que devia, aceitar esse poder é coisa simples, mas o
que isso o traria, e os seus medos sempre são seus maiores estímulos, quanto mais temer, por
exemplo, ir cada vez mais longe, mais testará os seus limites e mais precisará temer, é a sua
fogueira em chamas, sente-se vivo quando pelo medo poderia padecer, e se não trouxer o
medo para que eu o supere, diz-se, o faço não porque preciso me superar, o faço porque
quero, e mais nada.
Derrubou-a na cama, olhou nos seus olhos e isso dizia muitas coisas, ignorou as fantasias
pois sabia serem diferentes da prática, e agora carrega na memória o ranger dos músculos
contra a madeira fraca de cama, dos olhos fechados de transe e dos gemidos abafados volta e
meia escapando, enfim, lembrava-se da extrema insignificância que ele era e que representa,
na verdade, um acessório na revanche da doutora contra a vida, apenas uma revanche contra
si mesma, e ele ajudou-a a ser o que queria, e gostou desse papel.
– Poderia ter ficado sem tanta coisa no rosto – vai dizendo –, mas estava bonita – sorri
para Drusilla. – Vai para casa agora?
– Não, não ainda...
– Nesse caso, melhor retocar – enfiou a mão num dos bolsos, esticou as costas sobre o
banco. – Está cansada?
– Só um pouco.
Ele pega a carteira.
Ela olha e o comunica que não gostaria de sentir-se atraída por isso, lamenta muito. E ele
tirou sem pressa um maço com algumas notas e a dá, ela apanhou cruzando a mão com a sua,
e quando curvar ao menos um pouco a cabeça talvez perceba que o dinheiro somava a mais
que o acertado na época remota, quando as putas se debruçavam nos vidros e pareciam
dispostas. Pegou sem nada dizer, mas o olha fundo, que deve ser um obrigado que não se
cansa nas palavras, mas nada mais que isso, do contrário ela estaria a vender mais que o
corpo, coisa que nunca pretendeu.
E está certo que ela vai deparar-se mais vezes com clientes emocionalmente frustrados
que vêem na generosidade universal, por exemplo, uma forma de mostrar ao submundo os
seus valores suprimidos e ignorados por todos que importam, sede por mostrar que ainda lhes
havia algo bom, então a depreciar-se por piedade antes de tudo a si mesmos, mas o que Alex

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sente não é compaixão, é afinidade que logo trata de esquecer. Curva o rosto para fora e se
entretém com o mundo, que sempre o acompanha a passos lentos.
A noite é feita de sonâmbulos atrás de suas janelas à meia-luz, um monte de jantares
românticos com ninguém.
Quando se dá conta, o odor de perfume vagabundo retorna sem pedir licenças, pois não,
moldando-lhe no rosto uma expressão de terror quando a mulher comprimiu-se com as ancas
entre a cara dele e o banco, arrastou-se da maneira mais breve que conseguiu até abrir a
porta, ouve-se primeiro o estalo, depois ouve-se o vento fraco que entrou. As garotas saíram, a
rapariga violenta se debruçava como de início na janela do carona, os murmúrios que ela
emitia ele não entende, supõe tratarem dos arranjes finais de preço enquanto olha a
bonequinha a também sair. Uma boa noite, Polina, ele se permite flertar, ela acena com o rosto
um instante antes de surpreender-se toda ao ouvir o carro cantar pneus e arrancar quase
prendendo o pescoço da rapariga raivosa que ainda tentou acompanhar a corrida enquanto
bradava e gritava escandalosamente. Assim ela se foi tropeçando para trás, as pernas se
controlavam anunciando quase uma queda, Alex chega a curvar-se para longe da janela ao vê-
la passar, e ao dar de relance com o rosto pasmo de frustração e fúria não pode conter uma
risadinha irônica de plenitude, a qual não durará, e nem precisa. O carro se distancia e tudo é
deixado para trás, e ele não pretende virar-se tanto a ter um torcicolo, apenas para que baste
vê-la parar no meio da rua e gritar com a força das entranhas seqüências de palavrões
estridentes e cheios de fôlego, as outras duas camaradas tão mais atrás jaziam estarrecidas,
para que, com essa expressão, passassem a ser agora parte da memória.
– Aquela maluca não merece um tostão furado – o motorista falou.
– Juro que achei que ela ia enfiar aquilo em mim – o rapaz do banco do carona.
– Não era em você que ela queria enfiar.
– Também, o que Alex tinha de fazer com a puta?
– Prefiro não comentar a respeito – se pronuncia.
– Foda-se, Alex.
– Não brinca, mas ela não faz mais uma coisa dessas, por um instante achei que ela fosse
entrar pelo vidro aqui na carona e aí sim me estripar, você não viu a cara dela.
Nessa hora o motorista riu e tornou a falar.
– Você não sabia?
– Sabia do quê? – perguntam.
– A gente já tinha combinado de deixá-las antes daquilo acontecer – olhou para Alex e
sorriu. Ele não responde.
E então tem a trajetória das noites regadas por hiato em goles de cerveja e a sobriedade
pálida dos postes. Era misteriosa e atemporal a forma como o outro lhe vinha, é claro que só
chega a essa conclusão por ultimamente ter pensado algumas coisas a seu respeito, esteve
teorizando sobre sua psicologia quando num momento não teve coisa melhor de fazer, e nessa
ocasião esteve imaginando se o outro não lhe era uma necessidade infantil frustrada parecida
com a que se tem ao criar amigos imaginários, uma projeção do que se quer que vem a
parecer viva, talvez um temor da solidão e uma fuga dela, ou sentir-se capaz de criar algo num
universo de símbolos mais desconhecidos e impenetráveis do que sedentos da gente, mas
enfim, não se sabe, às vezes o outro mais parece uma visita permanente, que não importa
vassoura posta ao contrário atrás da porta e pigarros aos inconvenientes, ele nunca vai
embora. Então fracassou, que ao invés de um acompanhante à solidão, geriu um diabo, mas
deve ser injusto dizê-lo como um diabo, mais seria algo como, assim esteve pensando para
defini-lo, aquela presença que se sente nos estar observando por cima do ombro quando se
sabe que não há nada atrás, então viramos para aliviar o temor e ela já escapou, e torna-se
bem claro que nada lá havia, mas ainda assim pode ter se mudado para o escanteio, ou para
aquela sombra escura e tenebrosa lá do fim da escada na hora que já estão todos a dormir, é a
presença solitária e invisível que parece, escondida, aguardar para olhá-lo mais de perto,
sussurrar e anunciar o seu suspense, nada mais que isso. Chega a imaginar se realmente o
que precisa fazer é batizá-lo, a questão não parece ser o símbolo que vem do nome, na
verdade pode ser a de encontrar-lhe um rosto. Ele nunca vai me abandonar, pensou.
Não soube dizer há quanto tempo o som do carro esteve ligado, rodeava-o de tal forma
que, vindo de todas as direções, passou a se tratar de uma extensão ambiente, camaleão da
integridade de tudo, tudo dança conforme as coisas que ele vá pensar, e pensou. Olha pelo
vidro as calçadas da rua que agora percorria, as vê infladas dos notívagos, um submundo
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diferente apenas em detalhes de onde outrora esteve para arranjar diversão, o que parece
fazer muito tempo e pode até mesmo ter se passado dias entre esses dois cenários, essas
duas ocasiões, não faria diferença. Atentava, entediado, aos traços dos rostos que se passam,
aí imagina se eles não seriam de um rapaz sentimental, um bandido frustrado, um padre
cansado, um filho amoroso, todas as coisas ao mesmo tempo, uma mulher condolente, um
homem fervoroso, um olhar idealista, o garoto de olheiras e tantos mais, não havia importunos
nem o que o parasse, podia ir longe, e era o que fazia, pensou sobre a liberdade. Considera,
dentro da semente crua de nossa realidade quotidiana, essa liberdade como sendo insana e
impossível de ser posta em prática. Caso a gente fosse acostumada a expressá-la, teria a
autonomia de fazer o que fosse, independe da natureza desse algo e do seu fim, o que importa
é que sua vontade estaria pronta para ser posta em ação. Essas ações estariam famintas à
mercê de seus desejos, devaneios, lapsos, que quer que fosse, não havendo limite ou fronteira
além de a própria vontade. Seria isso, para o direito, para o nosso mundo que preza pela paz,
pelo bem-estar, pelo cara pacato, pela tranqüilidade, seria isso inadmissível, a liberdade é
imediatamente diferente desse estado, à medida que toda forma de ameaça de repressão,
quando proveniente de uma força governante ou que se dispõe da vantagem inegável da
legitimidade, retira imediatamente a liberdade do indivíduo e o estímulo natural que teria de
praticá-la, vomitando toda moral absolutista, que reprime, amedronta e se enraíza no espírito
para parasitá-lo, enroscando-se e instituindo o modelo, desde cedo, de como o indivíduo deve
vir a se portar, eis o seu preço de paz, instigando, desde a sôfrega gameta, um padrão. Dessa
forma, é instituída a relação entre direitos e deveres, e se acostuma o sujeito desde nascido
com a falta do poder, subordinado a um querer não necessariamente geral, um querer geral ao
qual o indivíduo não necessariamente se adequa, em troca se lhe dá uma parcela do que seria
a liberdade, hoje extorquida, e essa primeira assume o nome de direito. O direito seqüestra a
liberdade e muitas vezes o próprio direito é chamado de liberdade, para que sua força de
expressão seja canalizada e mantenha a gente satisfeita. A liberdade de repente passou a ser
subordinada a regras, e ele não sabe desde quando, mas soube desde sempre que não devia
ser. E o estado de direito pode se ausentar a qualquer instante que se sinta ameaçado,
apelando para medidas excepcionais, a brecha da regra, suas medidas de legítima exceção,
tudo para que possa preservar a si mesmo.
A dialética da liberdade, obra que traduz o gameta inicial de um grande pensamento
fundamentado nas observações básicas do nosso quotidiano e cujo autor despretensioso se
chama Alex, é sobretudo iconoclasta. A liberdade é boa simplesmente porque nos possibilita
satisfação, independe de sua forma, credo, manifestação ou forma de acontecer. A felicidade é
a única meta subjetiva que se pode afirmar com certeza que todo homem queira, a única
diferença é como isso pode vir a se produzir. A realização são formas distintas de felicidade
pessoal. O masoquista sentiria dor mas estaria satisfeito, doentiamente ou não, não nos cabe
ponderar essa questão, estaria satisfeito com a dor sentida, não importa quão controversa
possa ser a felicidade, o prazer, os preços a pagar, o drama e os percalços, o que importa é
que se trata de algo absolutamente bom, uma entidade que preenche nosso corpo e tudo
passa a fazer sentido, o mártir se sente feliz quando se sacrifica por sua causa maior, o egoísta
se sente feliz quando não divide e consegue mais, o altruísta se sente feliz com o sorriso
alheio, o espiritualista com a devoção, a mãe se sente feliz com o marido em casa e com o filho
promissor, os ambiciosos se sentem felizes com as novas conquistas, e por aí se seguem
inestimáveis sonhos que nos trazem satisfação e plenitude. Liberdade é poder intervir da
maneira que for para alcançar o que dê prazer, logo, não há forma de felicidade superior, há
apenas liberdade ou não.
O rapaz que se convenceu ser incapaz de ter prazer ou deu-se conta de que as dores
suprimiam todas as formas de prazer que poderia ter, esse já se suicidou, é injustificável que
continue vivo sem satisfação ou esperança, já perdeu-se a gana para suportar. A felicidade do
depressivo é vertiginosa quando os instrumentos que a produzem são instáveis e há um difícil
consenso entre seus desejos, há os depressivos que sentem-se felizes ao despertar nos outros
dó e, de fato, precisam de atenção. A liberdade é um confronto entre a vontade e a força de
homens diferentes, até que eles cheguem ao mais sublime estado de entendimento ou a mais
digna forma de autodestruição. O sujeito enfurecido que espancou a amante ao descobrir que
ela tinha outro só efetivamente compreenderá o risco e as vantagens de sua ação quando
provar o prazer por trás disso, e também provar do gosto dela ter lá seus irmãos e deles não
pretenderem deixar barato a surra, e o cara compreenderá, com uma lucidez prática que
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nenhuma outra experiência poderia lhe dar, quais os preços da paz entre a gente. Aqui há o
empirismo sobre o que importa. Aqui se fala sobre gente realmente livre. Toda imposição é
injustificável e burra, todo fruto espontâneo do que se plantou é autêntico, nem que a colheita
traga veneno.
A guerra entre os homens os força à colisão de interesses e a subjugação de alguns
desses, que uns têm umas vontades, outros já tem outras, o choque delas se trava no mundo
da violência, do deus ariano das guerras, mas também no mundo do entendimento, rumo à
compreensão do que hoje se diz necessidade de cooperação, de uma maneira que não haja
indivíduo alheio do que se esteja sendo construído e remodelado, porque ele é participante,
protagonista, há de existir uma interação direta entre pessoa e o ambiente que gere para si, o
próprio meio sugerirá fortemente as formações da gente, o próprio homem determinará o meio.
Aqui nasce um ser muito diferente. O que se vê nas civilizações atuais é uma teia
emaranhada de estruturas criadas pelo e para o homem, que há tempos desenvolveu o seu
ambiente requintado e dele perdeu o controle, e aí o meio se perpetua em forma de hábito,
vício e história, mas o seu criador não, o homem é mortal e as gerações seguintes estarão
perdidas nas fantasias dos antepassados, mumificadas e recitadas, no mais alguns poucos
estarão privilegiados quando manipulando os símbolos e as instituições que as movimentam.
Não deixam de estar todos vivendo num sonho. Eis o que não mais haveria no mundo livre,
não haveria determinismo secreto incrustando símbolos, moral e dever ser na mente alienada,
e sim gente que visualiza o próprio destino, eis o que jamais se perderia através da revisão
constante do que foi feito. Homens que constroem a si próprios e seguem redesenhando um
novo protótipo de homem, é o homem que contesta, o homem que pode saber, a criatura com
poder antes de tudo sobre si. Qualquer símbolo que se veja, qualquer ordem que se apresente,
há de se perguntar sobre este, de onde vem?, por que vem?, e para que vem? A relação do
homem livre é de dialética direta uns com os outros, de ter poder pleno de aplicar suas
vontades, assim como de estar a mercê direta dos resultados dessas, assim como estará à
mercê de um desejo agressivo do vizinho, para evitar isso é que a civilização há de se
desenhar em grupos que representem famílias, que porventura se estruturariam em graus de
cooperação maiores, havendo interações entre esses grupos formados, podendo também
serem chamados de clãs, e isso ele enxerga muito bem. Certa vez Alex perguntou-se, e em
que essa desordem causaria?, guerras familiares, facções adversas entrando em colisão?,
bem, conhecemos muito desses casos, não estaríamos vendo realmente nada de novo.
Mas há uma filosofia universal capaz de evitar o fracasso da burrice e mesmo assim
assegurar que a força de qualquer estado se anulasse, estado qualquer que naturalmente
poderia emergir das cinzas do tudo destruído através da força de um grupo que se
encarregaria de oprimir e criar uma nova forma governo, que extrairia a inteligência dos
autenticamente livres, estado este que, por sua vez, ao longo do tempo seria pressionado,
coisa assim, e teria seus descendentes autocratas derrubados por reformas ou revoluções, aí
vejamos, cá estaríamos com novas metas sociais, novos governos, da tirania passando pela
democracia, do autocrata passando por liberal etc etc, quando nada disso deve importar. Como
pode ser visto, pela opressão que brota do primário da existência da liberdade, no qual, se
fôssemos imergir num espírito antediluviano e partíssemos para os princípios das relações
hominídeas, veríamos tratar-se de fato de como nasce o homem, livre e sem dívidas com
ninguém, enfim, acontece que pela possível opressão advinda do começo desse caos humano,
nos enredaríamos num ciclo secular que culminaria sempre na queda de um império, num novo
caos e no surgimento de novas formas de opressão imperiais, mais ou menos sutis, mais ou
menos adaptadas, não importa.
Nada disso deve importar. Mas há uma forma de evitar que isso aconteça, essa coisa
chama-se retorno à escuridão, baseada nessa desordem autêntica é que a ordem deve cair. O
retorno à escuridão define a mentalidade que derrubaria todas as coisas e asseguraria que o
homem jamais fosse escravo de outros homens ou dos interesses que a letargia do hábito
conservaram. E esse comando simples, porém dificilmente assimilado em sua tacanha
simplicidade, diria questione.
Questione qualquer coisa que seja, até sua mais funda intimidade, seja uma intenção, seja
ordem, seja lei, seja a vontade alheia. A norma do pai, a boa vontade da mãe, o vizinho falando
alto, o porquê dos cachorros latirem, o porquê das aves voarem, o porquê de ser educado,
para que serve isso de educação, por que há gente dormindo na rua enquanto vamos ao
teatro, por que há tanta politicagem no mundo quando se percebe que as ações diplomáticas
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são hipócritas e homeopáticas, por que o céu é azul, por que não se pode sair nu na rua, por
que se deve crer em deus, que é bastante paternalista, dá-nos as coisas e temos que ficar
agradecendo sem nunca as termos pedido, por que se deve respeitar os mais velhos, por quê?
Sobretudo questione a si mesmo, interrogue-se a si mesmo, de que forma seus desejos foram
oprimidos, e para que o são?, por que desejas isso que tem em mente?, que pena se não
puder encontrar nenhuma resposta, ao menos está aí, a dúvida é realmente algo seu, e que
efeitos toda a fenomenologia de sua vontade germinam?, essa forma de conhecimento é
pragmática, não pretende explicar a tudo, mas está disposta a contrariar esse tudo que se diz e
não se explica.
O retorno à escuridão é, na verdade, a iluminação que se obtém da descoberta de si
mesmo, como quem descobriu o fogo ou surpreende-se pela primeira vez com o ronco do
trovão, por experiência e observação, então é a claridade sobre si mesmo, possível de
remontar os seus quebra-cabeças confusos. O retorno à escuridão criaria uma moral final, a
moral serpente, que muda de pele. Um instrumento de navegação provisório, que podemos
muito bem descartar e ficar enfim ao léu no mar sem fim. Talvez o fim das abstrações inúteis
entre a gente, porque tudo que há é a própria gente, então haveria essa moral final, ou talvez o
fim das morais, assim o retorno à escuridão apontaria as necessidades imediatas de cada um,
não a necessidade dos mercados, diria que é possível haver paz depois de colisões sem que
se abra mão da inteligência e do conhecimento, sem que seja preciso que a liberdade se
sacrifique desde o nascimento às bocas de uma entidade superior, não, essa paz não seria
mais desejada, pode haver sim paz do entendimento direto entre gente, paz por opção, paz do
diálogo entre gente e não do seu congelamento, do conhecimento iluminado e direto e não dos
mitos e ensinamentos distantes.
Um mundo onde, por fim, a liberdade não seria roubada desde sempre, mas teria-se
realmente a autêntica liberdade de poder abrir mão da liberdade por querer. Dessa maneira,
nenhuma ordem opressora poderia erguer-se diante de um furor coletivo de se questionar.
Assim que houvesse ameaça da escravidão, haveria também o contra-ataque que
perguntaria, por que as ordens?, com que direito, com que poder?, acabamos de destruir um
mundo e tu já vens com outro?, não, veja bem a resistência que há formada, não há prova nem
razão para que um subjugue o outro, as coisas não são assim, a ciência e a filosofia têm fontes
suficientes para indicar que as coisas não são como outrora as acostumamos a ser, e se
disseres que é, hoje ou nós perdemos nosso bem mais precioso, inquestionavelmente a
própria vida, que é o meio supremo de obtenção de todas as coisas existentes, ou então nos
entendemos, faça a sua escolha. Assim, em graus maiores, que podem representar o
cataclisma da guerra civil de clãs, ou menores, da relação tempestuosa entre membros do
bairro, a sociedade livre estaria a colidir-se. A liberdade é essa colisão. A relação dos livres se
reproduz entre eu posso versus tu podes. O risco é do mais forte vencer.
Morrer lutando ainda é ser livre, a morte não traduz mais a definição de pessoa.
Entretanto, também há formas de se criarem novas forças, algo como, se não se as tem
em algum aspecto, compensa-se em outros, a união familiar é um exemplo, o fracote recorre a
uma estrutura que o ampare. A esperteza também continua a nos ser o guia mais confiável.
Sendo assim, o grande perigo do estado de liberdade, ainda partindo do ponto de vista que a
vida seja a cada um o seu bem máximo, é o estado de guerra iminente. A lei ideal, essa que
seria, até mesmo dentro das democracias, a representação de um consenso comum, um senso
de bem geral em forma de normas, dentro do estado de liberdade nunca poderia haver um
consenso de alguma maneira imposto ou escrito, porque a liberdade não tolera nada que se
diga legítimo, também não tolera os espíritos vigilantes da legitimidade.
Acontece que o princípio fundamental do retorno à escuridão é a revisão constante de tudo
que seja eventualmente criado e desenvolvido, as perguntas não podem parar, da mesma
forma que as normas só estariam a serviço de um autêntico bem comum se fossem mutantes e
revisadas com o passar das gerações, se o indivíduo se colocasse contra o senso geral não
seria o aparato dessas normas a puni-lo ou a adequá-lo. Mas o outro, o semelhante, o vizinho,
o próximo. E estarem em choque é vital.
O rapaz agarra à força a mulher no ônibus mesmo constatando que ela tem lá o seu
namorado, recebe uma pancada, quebra o seu nariz, opôs a sua vontade à vontade do casal e
recebeu as conseqüências dessa relação humanista, note-se. Ele resolveu se vingar, durante a
noite vai descobrir o caminho e vai até a casa da garota, como ato simbólico depreda a janela
que julga ser a de seu quarto, mas se engana e além de romper o vidro acaba ferindo com os
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estilhaços o irmão menor da garota, que dormia. As luzes vizinhas se acendem, o rapaz se dá
conta de que algo deu errado, há gritos e toda uma algazarra, alguns sujeitos vêm à janela ver
o que ocorre, o percebem e ele não pode escapar da vista desse bairro, é perseguido pelo pai
da garota e por alguns de seus camaradas que ele acionou, é pego e recebe uma surra da qual
jamais se esquecerá e ouve um discurso furioso sobre respeito, talvez seja morto, que fosse,
não importa.
Dessa forma, conclui-se que só há ciclos de violência se houver a manifestação de uma
inicial, mas essa, por si só, é capaz de acontecer a qualquer momento, assim como pode ser
capaz de funcionar como estopim de uma batalha demorada e truculenta, a qual,
generalizando, pode ser tanto de violência física quanto de diálogo, discussão etc, antes uma
que a outra, mas as duas se podem igual. O irmão do rapaz brutalmente assassinado, ou o
camarada em que ele sempre confiou, aquele do mesmo bairro, ele pode, afinal, se dar conta
de que se aquilo aconteceu foi por alguma razão, pelo estopim que interferiu diretamente na
órbita da individualidade do outro, caso contrário poderá, quem sabe, organizar um poder
capaz de subjugar a família da moça, que num instante mudou de vítima para algoz, e assim
podem partir para incendiar a sua casa ou qualquer ação do gênero. Parece emergencial que
possam se enfrentar. A iminência da guerra anda rente à iminência do entendimento, assim,
sempre também haverá possibilidade de inteligência, sobretudo de igualdade, diante da
aparente desigualdade do caos, da força bruta, da matéria prima do homem.
Por que então, Alex se pergunta, ele mesmo tem o retorno à escuridão como utopia, como
hipótese que mais representa um grande e se do que coisa viável?, primeiro porque foi feito
para ser um absurdo, segundo porque aceitação geral é difícil, é algo que na história das
pessoas nunca antes se viu, e esse pensamento requer uma disposição surrealista, terceiro
porque também é difícil, para não dizer impossível, gerir uma coragem tão grande capaz de
infringir uma iniciativa dessas numa massa consideravelmente grande, que seja capaz de
perpetuá-la para a eternidade.
Mas, sim, é tolice pensar que a própria liberdade só nos virá se for uma escolha de nossa
parte, individual, um momento de cada um. Na verdade, basta que não haja mais entidade que
a aprisione, o estado que assegura sua enfermidade temporária, inevitavelmente ela estará
presente em nós assim como está a vida, é inata, apenas desacostumada de ser, e dessa
forma só nos abandona por completo no caso de a própria vida nos ser roubada. E arriscá-la,
não, ainda não estão dispostos a isso, isso está visível, a prova mais clara é a submissão de
tantos que são pisoteados e, ao contrário de se levantarem contra os pés, parecem preferir
fazer menos barulho, é que qualquer silvado pode aborrecer a bota.
Alex não sabia, geralmente como as pessoas não costumam saber esse tipo de coisa, mas
essa noite peculiarmente lhe faria conhecer um personagem importante para sua vida, e da
mesma forma que não saberia prever um fato que se confunde com os fatos quotidianos feito
esse, só o tempo igualmente define como e porquê as pessoas se tornam importantes, não
será diferente. Com ele se dará da mesma forma. Após muito tempo nas folhagens profundas
de sua selva mental, matando vespas sinistras e protegendo-se de árvores carnívoras para
desbravar o que há no lodo, e durante todo esse tempo com seu homem-consciente
adormecido e ao mesmo tempo em atividade, isso é, aquela porção alienígena de si mesmo,
que é capaz não só de assimilar as coisas do mundo e da realidade, como questionar e muitas
vezes refutar a si mesmo, então, esse homem-consciente minguou para dirigir seu próprio
enredo interno, ignorando com afinco detalhes como as ruas a passarem, as luzes, as
calçadas, as fachadas, os transeuntes, os cheiros, o céu mormaço, a neblina noturna etc.
Quando regressou ao seu universo sensorial não imaginava quanto tempo tivesse passado, é
possível que dessa maneira rumem também as almas penadas, sendo orientadas por outros
ou seguindo a convenção da correnteza, mas ainda assim predomina, ao menos em Alex, um
instinto de urgência que às vezes o diz quando é hora de acordar.
O som multidimensional rega mais uma vez uma de suas mais uma noites, tais quais as
luzes projetadas com base em distorções espaciais, assim era típico a bares de música,
desses que se vêem em grandes quantidades nas cidades grandes com espécies variadas de
apetrechos, freqüência, influência, movimentos e fatores do gênero. Se olha para os lados
abaixo podia ver o que lhe era por conhecimento prévio e por esguia dedução a pista das
danças, aglomeradas por cabeças mal-iluminadas borbulhando e por um ou outro rosto vez em
quando visível, isso dependia dos trejeitos das luzes, nesse instante uma rajada forte vinha
bem no olho, o fazendo apoiar-se no corrimão da escada. Dá pra parar de empurrar, fazendo o
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favor?, esbraveja com dificuldade a garota morena da frente e prontamente se vira de volta,
não vale a pena emitir qualquer pedido de desculpa ou um palavrão que fosse, também não
poderia empurrá-la, assim que puder tentará. Olhou em torno, um rapazote careca e uma loira
lhe apertavam os lados, não desperdiçou a chance de trombar discretamente com a perna o
primeiro, que esbarrando na segunda por sua vez trombou numa mulher alta e altamente
suada, da qual achou ser a voz emitindo alguns chiados de reclamação, e nada disso
importava, aproveitou a brecha espertamente criada para atravessar o espaço e subir de vez.
Sorte que não viu mais a garota morena, que não se tenta a empurrá-la.
Deduz ser néon o que ilumina aqueles tubos que ornamentam a periferia das mesas, ali o
número de gente a transitar parece diminuir bruscamente, é uma espécie de ironia, há um certo
tipo de atração das pessoas num lugar apertado por outro mais apertado ainda, mesmo que
não tenham exatamente planejado, que assim torna-se melhor, ainda mais apertado. Recebeu
um empurrão, cambaleou um pouco a frente, olhando dali podia ver a sacada, é que como
subiu a escada estava num andar superior, aquela varanda dava uma vista privilegiada da pista
abaixo, só não tinha exatamente o que olhar no momento, talvez as moças bem vestidas que
dividiam o espaço consigo, ou os rapazotes metidos em boas roupas ostentando seus dotes,
seja quais fossem, talvez devesse prestar atenção no som envolvente, ou saudar com os olhos
o rapaz de óculos azul que vinha chegando, talvez fosse melhor fazê-lo sorrindo. – Fala, meu
rapaz. – o diria.
– E aí, meu caro? – responde quando franzia a boca por trás da barba rala, seus ombros
se movimentaram e os braços se ergueram num abraço crescente.
O qual é atendido. Se envolvem na cordialidade dos homens, com direito aos tapas nas
costas e coisa assim. Alex olha para trás e para os lados, averiguou se não cometia a
indelicadeza de ter algum dos seus por perto e ignorá-lo, deduziu pelo tráfego de tantos
desconhecidos que em algum ponto se haviam dispersado, se tranqüilizou.
– Gordo e bem vestido, Barbariccia, conte-me seus segredos – Alex passou-lhe o braço
pelas costas no instante em que ele fez menção de andar.
– Não está disposto a pagar o preço.
– Quem eu tenho que matar? – sorri a desviar de última hora de uma morena de vestido.
– Com essa idéia em mente posso até te arranjar um bom trabalho, tem o espírito
adequado, olha lá, melhor não sugerir.
– Com essa idéia ou não trabalhar pra você seria humilhante – meiosorriu.
– Tem muita gente contente em se humilhar. E aí, que tem feito?
Estala o pescoço quando se aproxima da mesa, acha que pela pouca luz e pela miopia
estivesse a enxergar mal, mas é que as extremidades misturam-se com outras mesas de forma
a não estabelecer limite qualquer. – Perdendo meu tempo – respondeu.
– Nesse caso, nada melhor que perder o tempo entre gente boa. Não estou bem servido?,
e tu te acomodas. – e acenou demonstrando a mesa repleta de senhores, moças, rapazes e
meninas, pela conurbação de pessoas não soube identificar aos quais tantos ele se referia, não
considerou, acabaria não lhe fazendo muita diferença.
– Quer mesmo que eu responda sua pergunta?
– Alex, Alex, não seja azedo diante de meus estimados financiadores – o rapaz ajeitou os
óculos sobre o nariz.
– Mudaram o nome pra ladrões e biscates.
Ouviu e reparou o que seriam quase todos na mesa rirem, era esse o aval cortês que
precisava, não que fizesse diferença, afinal arqueou as pernas e debruçou as ancas sobre o
banco acolchoado, ganhou espaço da moça de olhos verdes com um vestido pudico em partes
e sensual noutras, moça essa que não tinha reparado estar no seu caminho até ter de ocupar-
lhe indelicadamente o lugar, fato esse que contornou ao olhá-la com simpatia do tamanho
proporcional de um pedido corriqueiro de desculpas, ao mesmo tempo esqueceu-a para
sempre.
– É, é, não se demore pra acomodar – o rapaz de nome Barbariccia contornava a fileira de
gente para seu reservado lugar. – É bom que te vejam, e com isso tenham em mente, meus
rapazes, alguém que pode vir até mim sem querer tratar de negócios – ouviram-se risadas
mais uma vez.
– Saudades de você.
– Saudades mesmo – e sorriu.

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– Se importa se eu pegar um? – apontava para a caixinha de charutos que devia ser da
moça ao seu lado. – Pois é, mas quanto a história dos negócios, eu ainda incentivo, não é?,
até prefiro dinheiro sujo.
– O que seria de você se dissesse que não?
– Você teria de me proteger, veja só, que situação.
– Fique à vontade – um sujeito de aparência formal e lá com seus cabelos grisalhos,
estava ao lado da moça de olhos verdes e tinha uma pose bem galante, foi ele que tomou a
resposta referente aos charutos. – Como disse que se chamava?
– Alex para os amigos – esticou uma mão para cumprimentar o sujeito e outra para adquirir
um charuto. – E você?, desculpe confundir o dono dos charutos, a propósito parecem ser bons,
desculpe-me a ignorância de não entender muito – falava ao mesmo tempo para a mulher e ao
rapaz.
– George é meu nome – o nome irrelevante –, e eu diria que são razoáveis, Alex.
– Eu acendo pra você – a moça falou quando pegou uma caixa de fósforos que até agora
ele não sabia de onde ela tirou.
– Agora sou eu que tenho a dizer, fique à vontade – ergueu o charuto com a boca, deixou
que a fêmea o cortasse a ponta e o envolvesse docemente com as mãozinhas pequenas,
curvou-se quase por sobre Alex, um perfume desses, ok, podia levar uma pessoa ao êxtase,
doce como uma fruta tropical, se não muito o faria esquecer dos odores de cidade de mais
cedo.
– Uísque? – ofereceu um homem.
– Barbariccia, quando é que a polícia vai se dar conta de suas atividades e te expulsar de
teu ponto? – Alex tragou o gosto esfumaçado do charuto com caretas de riso, já envolvia o
copo de uísque que rastejara pela mesa na sua direção de palma aberta.
– Quando por algum milagre eu não sustentá-los – respondeu do canto da mesa onde
estava, vozes se dispersaram em risadas.
– Aceite meus conselhos, popularize as suas festas, isso agradaria a todos nós, hein?
– Alex, deixa que das minhas coisas cuido eu, acho que os rapazes também pensam
assim.
– É audácia sentar-se junto aos lobos, senhor Alex, com uma oferenda que não vá
apetecê-los, com algo que não seja carne – disse o senhor George, num tom de demagogia e
pouco interessante ameaça.
– E o que o senhor faz, exatamente? – a moça ao lado cantarolou.
– Digamos, minha querida, que eu seja um desses liberais. E olha, isso foi mesmo pra ser
ambíguo – e esticou o braço por sobre os ombros dela.
– Ele não dirá o que realmente faz, menina – Barbariccia riu.
– Parece perigoso – ela sussurrou.
– Ou talvez não seja nada – falou uma voz.
– Lamento desapontar a todos.
– Devia lamentar desapontar a mim – a mulher.
– Desculpe, esse hábito deve ser um dos tantos mais fortes do que eu, e esse charuto não
é razoável, é mesmo bom.
– Agradeço a preferência – disse o homem.
– Como teve o desprazer de conhecer a Barbariccia, Alex? – pergunta um outro.
– Um amigo devia dinheiro já fazia um tempo pra ele, um grandalhão foi lá em casa,
ameaçou virar a estante, era só o que me faltava, imaginem vocês, um cara entrando nas suas
casas e ameaçando derrubar suas coisinhas, que nem são minhas, na verdade, derrubar por
todos os cantos, quinquilharias despedaçadas e gente gritando, eu não quero ouvir isso, eu só
quero ficar no meu canto. É mesmo, seria um horror. Aí convenci o capanga que não valia a
pena matá-lo ou surrá-lo, que isso seria muito mais trabalhoso e coisa assim.
– Acabou que foi Alex que me trouxe o dinheiro – Barbariccia.
– Parece um gesto nobre – murmurou outro.
– Eu só não queria bagunça.
– E o rapaz da história não escapou da surra merecida – Barbariccia.
– Não se pode intervir em tudo a toda hora – Alex.
– Mas se pode intervir um pouco, do jeito certo – a mulher consentiu.
– Espero ter sido esse um convite.
Recostou-se abandonando a tudo e se fez a felicidade.
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Pleno mesmo é o homem que nada quer, isso tem mesmo sua lógica budista, por exemplo,
olhava por acaso aquele rapaz de expressão austera e de nariz empinadamente formal, com
todas as rugas que moldam uma forma na testa que sugeria estar analisando alguma coisa que
eventualmente estivesse sendo conservada, e essa análise estaria se dando com elegância,
com glamour, com charme, até que alguém se dê conta de que não havia nada a ser analisado
senão a própria caricatura que o sujeito fazia de si mesmo ao trincar o gelo no copo de uísque
ou a sorrir por carência de simpatia. Cai na real, meu bom camarada, realmente tu não és nada
a não ser o que faz pensarem de ti, isso você é, mas seja lá o que esteja tentando parecer, até
então tem fracassado. Não pode ser que se espere tão pouco. Havia a poça de banhas esnobe
cujas papas escorrendo produzem ondas pululantes onde em outros tempos o pescoço deve
ter estado, e aí, se rendendo ao provável estigma de feiúra que já deve ter se acostumado e
deixando a todo o resto para o lado, olha com asquerosidade a sujeita vestida de vermelho,
pobrezinha, ele a olha como se quisesse dá-la um banho no sebo de entre seu papo. Ela vai
tentar ser cordial com um ou outro sorriso, ela gosta de manter a compostura, mas o asco que
se esconde não se mata, é, que deve estar no silêncio se dizendo, acorde, sua besta nojenta, e
me deixe em paz, e se o sujeito notá-la não terá razões de atendê-la, assim rirá. Tomou mais
um pouco do uísque, sorriu de si para si mesmo.
E olhou por sobre o próprio ombro até onde o pescoço o permite, a música já o torna parte
dela e não é só audição, mas olfato ou tato, tanto faz, era a sensação que tinha, enquanto
umas vozes que estariam próximas pareciam se distanciar cada vez mais, na verdade o que
talvez o homem ainda não descobriu, mas ainda assim pratica, é o desgosto que tem de sentir,
de sentir no sentido mais vago, ou talvez seja esse simplesmente impulso de se buscar o que
não tem, então, vivendo no mundo dos sentidos talvez busque um submundo onde esses
sentidos estejam conscientemente falindo, onde tudo seria ou levaria à falência. A falência por
si só é uma consciência inteiramente nova, arriscada e sedutora. À exemplo da garota de blusa
verde florescente rente à divisa da sacada, ela se apóia no metal enquanto negocia a sua
compra das drogas com o aquele magricela soturno, como ele sabia o que estavam fazendo?,
ora, aquele rapaz estava constantemente rondando por ali, e por mais que seja esse um
método preconceituoso de se informar, a fisionomia das pessoas muitas vezes não engana
quando se refere a uma dedução das mais simples, como por exemplo em dizer que aquela ali
gosta de cheirar muito pó. Dá-se com a pista mais vezes, se inebria dos movimentos
insinuantes das danças, a bebida subiu-lhe com uma sensação de alívio nas têmporas e sentiu
começar a fazer efeito. Os sofistas se entretinham com seus ganhos ou com a ostentação de
suas proezas, a miríade de movimentos se entrelaçava para resultados imprevisíveis e que não
nos cabe ver e sim nos entregar, assim ele está num ponto a roçar-se com uma moçoila que
dança, às vezes noutro com uma outra diferente, poderá estar em todos, seu talento é de
possuir.
– Agora eu peço licença – sorriu enrugando o rosto, a letargia do conforto minguou-lhe
bastante a vontade de levantar, a mesma que mostra estar tentando praticar.
– Toda – acatou uma das vozes estranhas e distantes.
– Mas já? – gritou Barbariccia, quando se ausentava momentaneamente de seus próprios
assuntos. – E vai aonde?
– Sabe como é, há uma vida inteira lá fora esperando – meiosorriu vagamente. – Mas
agradeço o charuto, era realmente bom, até acho que vou ficar economizando ele na minha
boca.
– Então vai se juntar a plebe? – a mulher espreguiçou-se pela bancada e resmungou com
a voz rouca, toda lânguida, não sabia quem ela estava tentando impressionar.
– Minha querida, eu pertenço à plebe.
Foi-se tropeçando pela escada, ainda tem de se esgueirar contra corpos apertados, talvez
os mais atentos lhe dessem espaço pensando se não cairia sobre eles, vai desviando de uma
menina e um rapaz que não acharam lugar melhor para estar quase fazendo o que pretendem
fazer, por consideração tenta não empurrá-los, colidiu-se a uns tantos, segurou-se e teve no
corrimão uma ajuda dispensável, fez umas curvas e se meteu na corrente que transitava no
fluxo a uma multidão maior. Encolheu-se ante os corpos mais altos, afastou-se de outros com
as palmas, e como se fosse inevitável dar-se com a continuidade do que tomaria por vaga-
lumes, sua visão volta-se a extensão de várias cores do bar, onde a luz branca destacada volta
e meia se eclipsava com os corpos arqueados, dá cá minha bebida, gritam, era quase
inevitável deixar-se levar.
105
Atingiu a beirada do balcão onde os rostos são mais claros, não se distrai muito.
Espremeu-se e discretamente atirou o resto do charuto ao chão, e nesses instantes tenta
identificar a natureza das bebidas enfileiradas ao painel além do balcão pela cor e pelo formato
reluzente de seus recipientes, a vista era míope quando tentava alcançar-lhes o nome. A
mulher ao lado bebia com aspecto de quem imerge em frustrações, a maquiagem borrada
denuncia que para ela a festa já está no fim. O sujeito próximo conversava curvando-se sobre
a mulher de cabelos curtos, ela se entretém mas não torna isto claro pela graça do mistério,
apesar de às vezes também lhe passar no rosto um semblante de tédio.
Assustou-se um pouco quando volveu o rosto a frente e vê o marmanjo sem camisa do
outro lado do balcão o fitando com expressão de espera, estava com a boca entreaberta como
se tivesse terminado de falar alguma coisa que o barulho, e não só esse, como o excesso de
desatenção, não o permitiram ouvir. Deduziu que se oferece à serventia, só se lamenta que
tenha sido ele a vir, e não uma daquelas moças gostosas com blusas coladas no corpo que
geralmente estão lá para atrair os clientes, tática, pensa, que eu torno desagradável para as
moças nas minhas noites de bebedeira. Cerveja!, cerveja!, uma garrafa, gritou, mas na hora
que a voz saía ela também o engasgou, pigarreia um pouco enquanto o rapaz aponta para o
ouvido a sinalizar que não ouvia, em retribuição Alex enrugava a testa e rosnava
silenciosamente com a garganta no sinal de que já ia. Aponta um exemplo do que quer, garrafa
ali no balcão, tudo certo.
Está embebedando-se e tenta imaginar os tais receptores de seu cérebro a serem inibidos
pelo álcool, pensa que antes de tudo deve faltar-lhe pudor de continuar em silêncio, parecerá
muito mais fácil berrar, principalmente com os estranhos, que tão de repente parecerão
simpáticos, depois não mais se sentirá triste, nenhum problema parecerá ser suficiente para
derrubá-lo, por fim se esquecerá, e deve ser essa melhor parte, de tudo que costuma importar.
Mas nada disso acontece e por isso se frustrou. Foi mais ou menos a essa altura que vê
Fabrício entre as fileiras do balcão, está entrelaçado a duas moças risonhas, o aspecto delas
não era de se desprezar, estava mesmo muito bem servido, o rapaz. Bem, a vida não é
favorável da mesma maneira a todos, pensou, nós, apostadores da existência, tudo que
podemos fazer é nos esforçarmos para compensar as deficiências que possamos apresentar
diante da questão da seletividade natural do nosso selvagem mundo, e ainda assim
reconhecermos, pesarosos, que muitas vezes o mais profundo esforço não será bastante para
nos equipararmos a alguns outros que detém lá suas maestrias e nos superam com uma
facilidade irritante pelo talento, o dele é ser bonito, mas na verdade você não dá a mínima,
tanto porque duas é sinal de confusão. Certo que as escolhas definem muitas coisas, o que
não o torna, Alex, muito mais que um animalzinho subordinado ao cárcere de sua biologia
tantas vezes cruel, essas coisas ele pensa como faria sobre uma conclusão ilustre, e o sorriso
daquela morena de cabelos encaracolados que está a esfregar os peitos no amigo era tão
cativante, ainda o sorriso e não os peitos, que é natural que deseje uma posição parecida, se
não mesmo aquela, não se incomodaria. Todo aquele discurso sobre a atitude da pessoa fazer
a grande diferença etc etc, o que fosse, tudo isso faz uma referência constante ao otimismo, e
esse espírito era atribuído à gente jovem, não para alguém que vira sozinho uma garrafa de
cerveja.
Essa é uma noite um pouco melancólica, pensou nela usando esses termos. Sentia como
se ela atuasse como um abismo de transição entre situações que ele não sabe ao certo definir,
mas esse período, que talvez não seja mais que a conhecida depressão, o envolve e o joga a
uma série de desilusões, que ou enxergará em tudo uma razão para desiludir-se, seja com o
caráter de uns, as suas esperanças e a humanidade, ou atrairá sem que saiba a tudo que for
fonte da desilusão.
O vulto tropeçou ao erguer-se do seu lado, teve de virar e abrir espaços para aquela que
identificou como sendo a garota de cabelos curtos, é, havia a perdido de vista por todo esse
tempo e agora ela estava de saída. O rapaz que a acompanhava, ou que está a tentar seduzi-
la, não parece ser o mesmo da última vez que olhou. Desconsidere, vai, você não está muito
certo. Ele teve de se resignar, deve ser isso que indicava aquela expressão, e aí não demorou
a que se retirasse, abriu alas para que um outro viesse e tomasse lugar, estranhos parecem
sempre iguais, assim que é bom, que quem não os conhece que os compre.
– Eles sempre repetem o mesmo processo – disse a voz ao lado com um tom de
dificuldade, ao virar-se para conferir constatou ser daquela senhora tristonha, e pela forma dela
olhar estava se referindo ao processo que a garota que acaba de sair esteve protagonizando.
106
Pensou sem rédeas as seguintes coisas, ora, minha senhora, para mim é mais que óbvio
que você carrega um lamento tétrico nessa observação pela razão nítida de que esse processo
de perseguição que a garota jovem e assediada há de correr todas as noites, se não corre em
ocasiões ainda mais corriqueiras, como ao comprar o ticket de metrô ou o jornal de hoje, não
se repete da mesma maneira com a senhora, se é que me permite o atrevimento de contá-la
uma verdade. Só nos faz falta o que não temos, é até redundante dizer isso, tal qual mencionar
aquela história de que só quando perdemos algo aprendemos a valorizar, bom, não falaria
nenhuma dessas coisas. Não quer se cansar. Conteve-se em curvar as bochechas para dizer
que a ouviu. E também não tem muito lá a acrescentar.
Ele voltou a atenção ao copo com algumas bebidas misturadas, não soube identificar o que
era aquilo, também não se dedica, e entende que a mulher muito provavelmente não tornará a
falar. Então ele mesmo é tomado de gentileza.
– Não sei, deve ser alguma coisa com a música – circulou um dedo pela orelha. – Ela
excita, dá um ânimo estranho, não sei.
– Como? – a mulher franziu o rosto.
Alex fez com o rosto para que deixasse para lá, é que está mesmo cansado para repetir,
que fazê-lo com umas coisas fúteis às vezes estraga qualquer conversa, é melhor deixar para
lá, e ela sorri, sugere o que ele não identificou com certeza, mas parece ser luxúria misturada a
um desses sorrisos que casualmente se originam em resposta a uma educação que quase nos
desperta alguma felicidade. Ponderou velozmente algumas razões quaisquer para que ela
esteja ali entregue à embriaguez como fazem os beberrões acabados, não que sua aparência
desse totalmente isso a entender, mas dá alguma coisa, bem, insinua as possíveis causas, que
podem ser por exemplo umas tristezas casuais, a filha de quatorze anos engravidou, houve um
falecimento na família, a perda de uma promoção no trabalho, mas nunca se pode resumir a
real essência de um desastre numa só coisa, ao que ela provavelmente haveria de responder
que é a vida inteira que anda uma merda.
– Está sozinha? – perguntou, inclinou-se para que ouvisse.
Havia algo de ceticismo no sorriso dela, – Pareço estar com alguém perto?
– Nunca se sabe, se o sujeito de agora há pouco perguntasse isso à moça que saiu, ele
teria ao menos sido delicado. É melhor prevenir, as coisas poderiam ter sido diferentes.
– Sou Dora – ela sorria fracamente.
– Olá, Dora, sou Alex – e toma mais um gole.
Passaram-se alguns instantes em silêncio, ele cogita se já teria adquirido intimidade
suficiente para sanar a curiosidade que agora crescia, de saber qual a merda da vida dela, e
acaba decidindo por preguiça aguardar mais um tantinho, daí para ele estar reparando no
vestido vermelho decadente que parece um pouco antigo demais, de fundo de armário ou
mercadão foi apenas um passo, um sujeito quase tromba em suas costas, ele esquiva.
– E você, Alex, com quem está?
– Uns conhecidos que devem estar espalhados por aí, não faço idéia. Você costuma vir
aqui pra beber sozinha?
– Algumas ocasiões especiais permitem – aí acendeu-se um pouco de escárnio.
– É grave?
Ela sinaliza como se não fizesse tanta diferença. – Há muitas coisas que nos fazem chegar
à mesma situação, agirmos da mesma forma, ainda assim são coisas distintas que as causam,
não é?, você pode chorar de felicidade ou tristeza, a gravidade de uma coisa pode vir não sei
do quê, não é?, a moça do bar tem sua própria estranheza de gravidades.
– Nossa, isso foi intenso. Então é grave.
– A vida é grave com o passar do tempo – ela se lamenta –, devia ser o contrário, mas não
é – e se lamenta mais ainda. – Ficamos mais cansados das coisas, elas é que exercem mais
poder sob nós, quando vemos não temos mais forças.
– Tenho de concordar.
– Mas você é jovem, Alex. A situação em comum é que estamos nesse balcão, mas o que
nos traz aqui são coisas diferentes.
– Acho que não, nós dois queremos conversar.
Ela insinuou o primeiro riso. – Não há conversa que possa fluir entre eu e você, há coisas
que não se pode partilhar.

107
– O que vai dizer?, que tem quase idade pra ser minha mãe? – e ela teve de prender a
gargalhada com os olhos de surpresa. – Não leve a mal, esse é um clichê que as pessoas
costumam usar.
– Bem – ela ergueu os ombros a concordar, que parece se divertir –, não deixa de ser uma
verdade. O que acha de sua mãe?
– Era uma boa pessoa mas não tínhamos muita coisa em comum. E também não chega a
ser verdade a estória da idade.
– Então ela já se foi. Talvez também não tenhamos muita coisa em comum.
– Hoje em dia estou mudado.
– É claro, não te conheço, quem sou pra contrariar?, você me lembra Frederico.
– É teu filho? – ela pareceu sentir-se um pouco ofendida com a idéia, mas pelo que
pareceu também considerou o lado esportivo, e aí respondeu.
– Não, era meu marido.
– Ah – achou estar se aproximando do sentido da cara triste –, morto?
– Não, me deixou.
– Isso pode ser um pouco pior. Fico aqui imaginando o porquê de eu lembrar ele, percebo
que isso possa não ser exatamente uma coisa boa...
– Foi só por uma silhueta distante, um lapso da memória, não se ofenda. Desculpe.
– Não, tudo bem. Vou fumar, se importa? – já puxava o cigarro.
– Não, é claro que não, fique à vontade – e aproveitou para beber mais do copo.
– Fale-me sobre Frederico, se não for ruim.
– E por que se importar com os resmungos de uma senhora?
– Não se deprecie – pausou por alguns instantes ao tragar o fumo. – É só curiosidade, se
não quiser falar, tudo bem, também não me é importante.
– Diga-me a verdade crua nesse caso – ela falou enquanto bebia mais da coisa.
– Que quer ouvir?, não me importo realmente, não te conheço, não poderia me importar,
porra. Mas a compaixão nasce muitas vezes da curiosidade.
– Então sente pena, e pede para que eu não me deprecie.
– Pena e compaixão são coisas muito diferentes, minha senhora.
– Minha senhora, agora você está sendo sincero, a tratar-me como a mãe que não sou.
– Não sei como tratar uma mãe, minha senhora, e não preciso tratá-la assim, nem tenho
vontade, não tome como se os outros tivessem.
– É esse o seu conselho para mim?
– Não foi a intenção dar um, mas eis meu conselho, não se trate como tal. E você, me tem
algum?
– Não sei, nem poderia. Acho que na verdade as pessoas aprendem por suas próprias
conclusões, não é que alguém as ensine. Então conselhos são inúteis.
– É aquela conversa de que se fosse bom não se dava, se vendia etc – tragou ainda mais.
– Você é um bom sujeito. Não acha que está perdendo seu tempo? – perguntou com tom
de súplica.
– Claro que não, e nem imagino por que estaria. Estou aqui por acaso, vou mesmo até
pedir outra bebida daqui a pouco.
– Pois é, aquele Frederico tirou de mim a coisa mais importante que uma mulher pode ter –
a essa altura Alex esteve pensando em bobagens, mas se conteve e escutou –, pensando bem
talvez isso seja agora a alegria, isso vale pra todos, mas bem, eu podia superar se ele não
tivesse levado embora minha filha.
– Que cretino.
– A levou pra longe, sabe?, há toda aquela história de poder haver uma vida melhor, e não
sei o quê. Mas como se pode ter uma vida melhor longe de quem mais ama a gente?, essa
pessoa não é ele.
– Vai ver ele acha que o amor não é tudo. Não sei, melhor eu não julgá-lo, dizer que foi por
mal pode ser precipitado pra mim.
– Você não tem filhos, certo?
– Correto – fumou mais firmemente.
– E pretende tê-los?
– Quem sabe, não é? – falou sem muita vida.

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– Vai saber se ama tanto sua criança quanto sua companheira. Tudo bem, a vida segue
adiante. Me envolvi com um outro rapaz, um sujeito responsável, digno e diferente. Ia ter outro
filho, mas o perdi.
– Talvez você devesse tentar não ver a um filho como uma extensão sua, mas como um
indivíduo próprio, não sei, de repente ajuda. Não que isso justifique o que aconteceu, mas acho
que o que você precisa é aliviar a dor, uma coisa dessas diminui o apego.
– É outro conselho que você me dá, garoto – e sorriu com vários sarcasmos –, talvez eu
resolva segui-lo caso consiga me convencer. Consegue imaginar um aborto?
– Posso não conseguir me empenhar muito, mas acho que consigo imaginar...
– Em si não é nada, mas em certas ocasiões percebemos como a vida é uma droga. Eu
não tinha mais de dezessete anos, nem lembro bem, quando fiz um aborto desses voluntários.
Na época foi normal, doeu, doeu muito, mas fora isso, tudo seguiu bem.
– É, eu me perguntava se devia doer, agora sem querer respondeu a minha pergunta,
muito obrigado – estalou os dedos pedindo mais uma cerveja.
– Eu tive minha filha, foi tudo ótimo. Só depois fui descobrir que havia miomas no útero e
que uma trompa estava comprometida, isso porque depois da primeira gravidez as outras são
sempre mais difíceis, sabe?, aí você concilia com a idade avançando, e com o aborto que
desde aquela idade comprometeu um ovário meu e eu não sabia. É irônico, não é?, uma coisa
que eu fiz há tento tempo, sem significância, e me dá isto. Como se eu fosse ficar prevendo o
resultado de cada coisa que eu faço. Aí veio a depressão, os remédios.
– Isso faz com que odeie mais ainda o tal do Frederico?
– Profundamente.
– A culpa não é dele que não possa esquecê-lo – bebe da nova cerveja.
– Isso de nada importa, o que fez continua sendo cruel – ela olhou o rosto de alguém no
fundo do copo.
– Talvez haja o que se fazer. Continuar lutando, coisa assim – incerto.
– É – acatou.
– A vida não é um mar de rosas – Alex falou.
– Quando muito é de esterco – a senhora confirmou.
– Que situação.
– Pois é.
– E ainda assim as pessoas têm esperanças.
– É, há a ingenuidade, a beleza, essas coisas. Deve ser porque temem perder essas
coisas simples, e qualquer outras que podem vir delas, que ainda se continua vivo.
– Não sei, não sei.
– Você me acha bonita?
– Oi?, não muito.
– Gosto da sua sinceridade. Escute, não quer me comer?
– Acho melhor não.
– Tudo bem – ela sorri –, não faz mal.
– Não sei, não sei – fica repetindo vagamente. – A bexiga tá fazendo efeito. Vou ao
banheiro, me dê dois minutos.
Ela acatou e este foi o aval para que se erguesse, Alex o fez, foi o suficiente para descobrir
os indícios de tontura crescente que quando esteve sentado não pôde perceber, e quase ia
esquecendo-se de pagar. Piscou um pouco os olhos, sentiu as pupilas dilatarem, foi com elas
trêmulas que viu de forma igualmente trêmula o rosto da mulher sorridente a acompanhá-lo os
movimentos, o mínimo que pode fazer foi sorrir de volta e não quer dizer nada com isso.
Arqueou o corpo e rumou sem muitas dificuldades além dos empecilhos transeuntes, assim foi-
se pelos caminhos da extensão do balcão que percorreria entre vultos dançantes, rapazes
engomados, sujeitos caindo pelos cantos, garotas esperançosas, e outras mais vaidades
nossas.
Estava com os pensamentos distantes, a brancura de uma parede estava a sua frente.
Horrivelmente foi o som de uma descarga que o interrompeu, a essa altura ouvia sem gerar
imagens outras vozes masculinas discutindo sobre pernas gostosas e um jeito de não se pagar
a comanda, nada a ser considerado enquanto dão andamento a seus afazeres dentro do
banheiro, que de certa forma atuava como uma concha, assim ele quis definir porque a
imagem de uma concha parece ser simpática a refugiados de dores de cabeça e outras fontes
de mal-estar, o som que atravessa as paredes é quase nulo. Abriu o zíper, mirou no mictório,
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imaginou se quando não estivesse mijando não fosse sair sangue, seria o presságio das
hemorragias que viriam agravando os seus dias, semanas e, se desse alguma sorte, anos
seguintes da sua vida, até que um dia mijasse de vez todo sangue que restou. Sintoma da
visita de tanta puta. E a indiferença o acaba assustando. Até as coisas mais macabras podem
parecer sóbrias quando vistas na forma de sonho distante, como idéia tão abstrata que não
comove, sendo apenas uma dessas gafes estranhas que a imaginação comete à toa e que
pode ser a mais tacanha possível, como imaginar-se por acaso estuprando os filhos ou
estando pondo vidro moído no almoço de dia das mães.
Olha de relance a fileira de homens que se estende em frente à parede, ocupou-se do seu
assunto. Algo lhe fez pensar naquela estória de que certos sujeitos nos banheiros masculinos
ao ocuparem seus respectivos mictórios têm aquele hábito de se curvar para dar uma
espiadela no assunto, se é que foi claro, no assunto dos outros. Pensou se não seria isso
mesmo que faz o rapaz ao lado. É. Achou que encará-lo em contrapartida seria pior, sabe-se lá
o que vai pensar, portanto apenas ergue a cabeça com uma expressão que mistura desdém e
desagrado, pigarreia, coisa assim, tudo para se mostrar que reparou e, ó, meu amigo, basta
com essa sacanagem. Surte efeito, o sujeito apressa um pouco mais a sua saída, quando pôde
virou rapidamente com a cabeça e foi a passos rápidos para o lavabo, se foi, agora estou
menos vulnerável. Alex em seguida arfou, prefere acompanhar com os olhos o safado, só se
tranqüiliza quando ele sai.
– Era o que me faltava – fala como uma confissão despejada, quem esteja perto que ouça.
Chega a imaginar se não foi a conversa de agora há pouco que o tinha fornecido essa
facilidade de expressão. Ou talvez venha da sua depressão.
Por alguma razão que só cabe à simpatia julgar, foi o rapaz que estava do outro lado que
se fez mostrar que ouviu, ouvi, sim, olha de relance para o lado e deixou escapar uma pouca
risada, depois se preocupa em conservar o rosto levantado como antes e continuar a sua
própria mijada. Alex vê o gelo que se coloca por ali borbulhar com um pouco d’água
esguichada quando termina, sacode, sacode, fecha o zíper e partiu, tendo de frear logo após
uns passos ao deparar-se com a pequena fila espalhada pelas pias, por ali tem de esperar
alguns instantes. Enquanto isso ia se entretendo com a familiaridade entre uns quaisquer e as
conversas que a gente deixa escapar. Pouco depois estava enxaguando as mãos e não
pretendia se demorar se não fosse pelas feições familiares que brotam do espelho, que o
encaravam e vão encará-lo sempre que se puser um espelho na frente, tão sonâmbulas e
cercadas por silhuetas pardas de outras tantas desconhecidas, e afinal encarar o próprio rosto
como não sendo nada além de familiar não deve ser sintoma de algo bom. Assim, aí ele já
estava pensando como talvez represente uma profunda insatisfação, um beco-sem-saída, essa
ânsia impotente de variar desse invólucro que o cobria, de separar-se da carne e dos pontos
de vista, o desejo insosso de reencarnar ou de virar-se ao avesso. Simpatizou com o olhar
tranqüilo.
Já tinha passado a porta e pelo corredor, a música já lhe batucava na coerência feito
criança a improvisar um caixote para tirar o som, foi com mais dificuldade que antes que seguiu
tateando e aos tropeços, retorna ao balcão por onde consegue alcançá-lo. Sem querer ou não,
acabou recebendo um esbarrão de alguém que vinha passando e não viu, involuntariamente se
bateu contra a bancada e tem de se debruçar com a pancada leve no estômago, olha de
relance para trás, procura quem tinha sido o responsável, certamente não teria se dado conta
do que fez e continuara o trajeto. Pediu desculpa a quem quase se curvara sobre , mas
aproveita a posição para usufruir a vista panorâmica, constata que Dora não mais estava lá.
Suspirou com um frio que cresce e ele não sabe o que significa, uma singularidade do temor,
sentimento taciturno de ausência e impressão de que as pessoas sempre se vão. Só não
poderá concluir mais de seus pressentimentos porque uma mão pesada lhe pousou no ombro
antes que se levante, é suficiente para que suponha se o sujeito em que se bateu não voltou
para tirar lá umas satisfações, ei, você é o cara que empurrei, por que não caiu?, mas deu-se
de cara com Andriolli, ele já abria e fechava a boca, sua voz apenas insinuava sentidos que
não compreendeu. Oi?, gritava franzindo a testa e apontando ao ouvido. Lá fora!, parece ser
isso que diz, Fabrício!, é o nome que diz, só identificado quando gritado lá pela segunda vez ou
terceira. Retorceu o pescoço com jeito de que não entende mas que espera qualquer coisa, e
não tardou para que puxasse a manga da camisa de Andriolli e o usasse para passar pela
multidão, vão rumo a um lugar sossegado, então olhou para os lados e identificou estar nas
periferias do salão. Perde-se um pouco, aproveita para dançar, olha tudo muito por alto, andar
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de cima, vultos etc etc, nada pode escapar de sua atenção, ferroadas que dá na realidade a fim
de extrair a qualquer coisa, nada pode escapar de... e é puxado, que se distraía.
– O que foi? – Alex, dessa vez mais alto que o necessário.
– Fabrício arranjou encrenca com uns caras.
– Que caras?
– Eu sei lá.
– Foi por causa das garotas.
– Sim, tem algo a ver com uma coisa dessas – ele virou-se e acatou.
– Enquanto os machos afirmam sua força e território, ou elas estão abandonadas ou
aproveitando a disputa. Talvez eu devesse me encarregar delas, hein?
– Talvez, uma outra hora, nós dois.
– Combinado, será nosso segredo.
E fez-se a confusão. É que nesse momento, deslocado do fluxo comum do tempo, algo
estranhamente especial ocorreu, é exatamente quando sente uma pontada estranha entre seus
olhos, não sabe bem se vem a ser um espasmo ou descarga de calor que fizesse trepidar as
junções invisíveis de seus ossos e o terremoto em pouco tempo se espalhasse por toda a
cabeça, e isso o fez sorrir. De alguma forma sentiu-se internamente irrigado, jorrava, o sangue
corria melhor, tal como o lacre entre seu toque e suas idéias era muito mais diáfano. Podia
esticar a mão e compor letras de canções, versos de poesia, perceber as coisas quase num
delírio transcendente. A verdade, junto de tantas outras loucuras, era uma mulher lívida se
contorcendo sensualmente na cama, estava ali a sua espera, ia tomá-la, tinha seu próprio
harém. Com essa miragem por um instante mínimo se esquecia de quem ele era, isto é, sua
história e seus rumos. O homem no presente é tudo que se tem, mas somente em seu
presente é imediatamente nada. Foi inebriante perceber como as memórias e as vontades
voltavam, umas sobre as outras, numa torrente infreável que parecia resgatar a sua vida de um
contato quase completo com a escuridão, um fogo que se ergue dentro da pressão odiosa de
um hematoma, dentro do desejo nos músculos a ponto de torcê-los e fazer um nó. Acerta,
acerta, grita um eco de gargalhada dentro de si. Lembrou-se, sem causa alguma para lembrar-
se, deixando levar-se unicamente por sua readmissão de si mesmo, de quando esteve no
parapeito do passadiço, Sabrina é uma certeza de que se pode amar, mas isso não é cura
alguma de solidão, e essas coisas, por mais que pareçam criar ponte entre a gente, não são
exatamente elas que o fazem, e sim o mais cru e suado esforço, a mais esmiuçada
compreensão, sendo todo o resto no máximo fontes para inspiração, mas que de toda forma
mostra-se ardil quando nos cega, tal qual a fé pode tornar os homens aparentemente melhores
mas torna suas cabeças um berço que nina temores e deficiência. Dessa maneira ele não
queria ver coisas que poderiam não existir. Meu caro, nada além da coincidência a tinha levado
até ali, nada além do acaso e vontade é a forja de escolhas futuras. Sabrina se apagou para
sempre. Em seguida, lembrou-se quando vinha caminhando pelo estacionamento. O silêncio
lhe dava conforto. Aquele vazio de poucas pessoas, o horizonte que, se olhasse com bastante
atenção, notaria ser a baía toda escura lá ao longe que estava camuflada, mas soprava um
vento gelado de não dizer nada, e não dizer nada às vezes é bom. E a briga.
Lembrou quando viu a frente as formas claras de Fabrício e Igor, seus reconhecíveis
comparsas cercados e coagidos pela imagem de seis estranhos, é mesmo, agora vai
lembrando-se que talvez tenha sido a sua imagem junta a daqueles tais Victor e Andriolli que
ocasionaram no estopim que fez Igor anteceder-se e pular com um soco no rosto de um dos
inimigos, e aí foi inevitável conter o estouro de vozes agora em sua cabeça. Vocês querem isso
mesmo, é?, dizia um som de origem desconhecida mas que ecoava. Sem briga, sem briga,
dizia outra, que foi cortada brutalmente pela imagem relâmpago de Fabrício chocando-se
contra a porta de um carro com um homem forte metendo a cabeça em seu peito e batendo
com os braços nas costas. O som seco e breve dos ossos se chocando, o atrito desordenado
das roupas, os automóveis naquele canto que recebiam trombadas, os passos que
sapateavam em danças brocas. Lembrou quando partiu em corrida, e a cabeça lhe doía
quando ia sacudindo, e julgou estar bem próximo de ter um ataque epilético, ainda assim
mordeu a própria boca e quase gargalhou. Lembrou da cotovelada que acertou a nuca de um
estranho, é, formigou todo seu braço no instante seguinte, a sensação de ver aquele cara se
curvando era mais do que perfeita. Imagina que está espancando o tal do Frederico.
Toma, seu filho-da-puta, por achar que pode sair por aí fazendo as coisas conforme
desejar e ignorando as reações dos outros, quer saber?, vai, rouba a filha dos outros, continue
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achando que pode, pois é, estou aqui para mostrar que não é bem assim, posso quebrar meus
ossos e sair completamente contundido, mas faço você sangrar, te mostro o caminho do
inferno, que eu já conheci. Lembrou de dar de costas num carro e contundir alguma vértebra,
certamente a cara que vem daí não é das melhores, o desconhecido da vez tenta imobilizá-lo
segurando os braços, em contrapartida movia o joelho fracamente como podia para acertá-lo,
mas só consegue afetá-lo quando conseguiu dar com a ponta do pé num dos joelhos,
imediatamente o tal se curvou. Mas uma sombra pulou de lá perto e partiu-lhe a mão no rosto,
tudo se anestesiou e sacudiu, em seguida recebeu mais pancadas que espalhavam fraquezas
no corpo todo. Acerta ele, acerta o veado!, gritava a voz que vinha sabe-se lá de onde e na
verdade não era exatamente sábia já que encorajava a todos, via o céu rodando com a
perspectiva de uma formiga, então girou a mão como um martelo até acertar a barriga de
alguém próximo, então escorregou apoiado pelo carro por alguns instantes até jogar-se contra
o corpo do rapaz mais a frente, chocando-se noutro carro, mesmo sem ser atingido
diretamente lhe doeu. Onde estou?, para onde vou?, alguém certa vez lhe disse que se
acostumasse a sempre fazer essas perguntas acordaria dos sonhos, porque as repetiria dentro
deles caso viesse a ter um pesadelo, se lembrava, e tentava, mas nunca funcionou. Foi quando
recebeu um pontapé nas costelas, que conseguiu segurar um quase-nada com os braços, em
seguida vem um soco na boca do estômago quando, ao se curvar, apagou por uns instantes.
Sentiu a pontada estranha nos olhos, e o sangue escorria para fazê-lo funcionar muito melhor.
Deglutiu o sangue de bom gosto, mas enojado pela quantidade que descia.
Tudo rodou mais ainda, para que estou fazendo?, se inquiriu novamente quando os
pensamentos riam, os pés lhe faltaram no chão. Sentiu a brisa percorrer-lhe o corpo como se
caísse, mas só eram suas costas que se inclinavam por alguns segundos, logo vem o choque
entre elas e o capô. Estava preso pela garganta enquanto estapeava e chutava para se
defender. Um jato de sangue com cor forte pintou belamente o cenário fosco que podia ver dali,
passando pelas costas do sanguinário que o prendia. Acompanhando o jato seguiu um rapaz
cambaleando que logo cairia pelas mãos do gordo fortíssimo. Nessa hora, enquanto chutava
as costelas de seu algoz, que por enquanto agüentava com esforço, e ele rosnava reclamando
do pouco ar entrar, com os olhos embrulhando notou silhuetas taciturnas chegando. Elas já
vinham lá de longe, mas gradativamente a proximidade não deixava se enganar, de fato
vinham se aproximando e tornando-se reais. Até a hora dos resmungos. – Ei, ei, que é isso?,
que é isso? Esse é meu carro!, cuidado com o carro!, vão amassar com a droga do carro!, olha
aí, oh, olha aí! – grita, grita e grita. Paciência, amigão, pensou, eu realmente gostaria de sair
daqui de cima mas aparentemente meus esforços já estão bastante empenhados nisso, e aí,
alguma sugestão?, qualquer idéia é bem vinda, não se acanhe, vamos lá.
Consegue apoiar as pernas no peito do grandalhão que o segura, empurra com todas as
forças que podia e não foi inútil, ele o largou jogado e cambaleando para trás, e acontece que
acabou por se chocar com os rapazes inocentes, mas é melhor não pensar assim, que de
culpado todo mundo tem um pouco, que vinham em busca do carro deles, e têm de esperar,
que as coisas esporadicamente assumem utilidades diferentes, e agora esse tal do carro é um
campo de batalha, coitados dos que só querem usar o estacionamento. O imbecil virou-se
violentamente, quase desferiu um golpe, aquilo certamente seria confundido com um. Os
sujeitos recém-chegados o foram empurrando para trás, tudo assim, bem desajeitado mesmo,
mas o importante é que o afastem, devem é estar com medo de eles mesmos receberem. Alex
não sabe se respira ou se ri, acabou pigarreando enquanto arranhava a própria garganta. O tal
Fabrício, que não mais é razão de nada, está estirado no chão, seu rosto era uma poça de
sangue fresco, desses que brilham ao luar e cheiram à distância, e se aquilo é um movimento,
é para agonizar. Aqueles que não tinham nada a ver só foram mesmo se misturar na luta
quando outro dos desconhecidos achou que aqueles três estivessem agredindo o companheiro
ao empurrá-lo, foi digno de pena ver como um deles foi acertado covardemente na cabeça por
uma coronhada. Sério, o rapaz chegou a cambalear trocando as pernas e piscando os olhos,
lutando com a sensação que lhe dizia ser melhor desmaiar, a cabeça está pesando, foi quando
o reconheceu. Era ele aquele mesmo camarada que riu gentilmente do comentário no
banheiro, e nunca, sabe-se muito claramente, foi do interesse dele nem dos amigos defender
alguns dos lados, provavelmente só se protegerem e eventualmente ao carro, a essa altura já
com seus amassados e de brinde uns arranhões, uma marca de corpo e na pior das
alternativas o vidro todo trincado, como se acertado por um taco, é o que imagina, não é para
fazer sentido. Os canalhas agora estão em desvantagem, tanto pela inclinação dos novos
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envolvidos que por azar foram agredidos pelo grupo de lá, tanto porque o gordo voraz quebrou
o nariz de um e conseqüentemente o nocauteia, fica para a próxima, amigo.
Estava um pouco tonto quando gritaram algumas coisas, umas ameaças quaisquer, uns
palavrões, suas bichas, maricas e não sei o quê, vocês não têm bolas, mas a circunstância
dizia ser melhor que os bandidos levassem consigo seus caídos. Alex escorregou pelo capô,
teve de auxiliar a testa com a mão para domar a vista, se deixasse ela contornaria todas as
formas, menos das coisas que devia. Teve um espasmo quando o vulto branco passou
rapidamente a sua frente, racionalizou rápido que era mais uma investida e cruzou o rosto nos
braços, mas era só aquele Victor que passava, menos machucado ele se jogava de joelhos
para atender o tal Fabrício, que teve o que devia.
– Minha cabeça – murmurou vagamente a voz como de quem não sabe ao certo o que
falar. O rapaz de mais cedo se apoiou no capô, constatou haver sangue nos dedos depois de
passá-los quase atrás da cabeça.
E não presta muita atenção em nada por muitos instantes, deduz que o álcool tenha
acabado por ajudar, sente-se estranho, mas isso não quer dizer que sinta muita coisa. Com a
atenção vaga esteve olhando-os os rostos, vendo por exemplo os que iam ao amparo do
companheiro ferido, um outro deles também foi atingido, mas este foi no canto dos lábios,
ninguém irá relevar uma coisa dessa. Falando em lábios, sentia os seus inchados, supunha
estarem todos cortados e escorrendo sangue, talvez não tanto como estaria do seu supercílio,
que devia ser tanto que escalda um de seus olhos de forma que parecia tê-lo mergulhado
numa bacia cheia de plasma, enxerga tudo vermelho. Sabia estar começando a tontear, mais
soube do que a sentiu, não é lá uma sensação decisiva, uma das quais havia de se recordar
pelo resto da vida, ainda assim era nova e isso bastava. A noite estava mesmo sendo boa.
Sentou-se no capô como quem cambaleia para trás e resolve se apoiar, então voltou sua
atenção para o estranho ao lado e lhe falou. – Você está bem?
– Um pouco tonto, mas só deve ter inchado – torceu o pescoço com rosto amargo.
– Eu não estou. Além de tonto acho que vou desmaiar a qualquer instante. Devo precisar
de uns pontos na testa – e frustrou-se ao sacar o maço de cigarros do bolso e encontrá-lo
vazio.
– Essa é uma coincidência um pouco ruim – falou o rapaz, como quem fala de
desimportâncias, e sorria, só pareceu reconhecê-lo agora.
– O que eles queriam? – perguntou um dos estranhos, ao qual fingiu não ter ouvido porque
está com muita preguiça.
O que considerou na verdade foi a disposição do rapaz, esse mesmo, até então incógnito,
tendo notado a sua decepção de há pouco, o estendendo a sua própria carteira cheia de
cigarros para que pegasse um. Mesmo com a face transtornada acreditou olhá-lo da forma
mais cordial de todas. Os dois sentaram-se apoiados naquele capô, juntos silenciaram e
observaram. Restava muito até que todos estivessem recompostos, o tempo que passasse não
faria mais diferença.
Hoje ele conhecia André.

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Pensava quantas são as pessoas que vêm de passagem por nossas vidas, das quais
tantas saem sem serem experimentadas. Não é que se possa realmente prová-las e nem elas
a si, e entre a angústia e o tempo não resta muito a se fazer, a não ser esquecê-las a todas e
torná-las iguais no esquecimento, então suspirar. Imaginava se poderia apontar, é, assim,
mesmo superficialmente, sem muita pretensão ou crédito, que não fosse nada mais que o
acaso de mover o dedo, uma daquelas pessoas quaisquer andando pela rua, uma que possa
lhe servir de herói mitológico a pisotear subjugando a cabeça de medusa, que seria a sua
própria, e preferindo não ser muito metafórico pensou nessa pessoa como lhe sendo
simplesmente aquela que um dia o desnudaria, que lhe faria realizado pela profunda parceria.
Em algum canto, alguma psicologia iluminada, ou de terapeuta charmosa ou mesmo de
circunstância atordoante haveria de decifrar-lhe, olhá-lo sem se empedrar, e descobriria que
isso estaria ocorrendo quando se desse conta de que coisas que outrora não sabia de si
mesmo poderiam vir à tona, o que antes era secreto há de tornar-se por fim revelado, alguém
que o ajudará a perceber as suas entranhas.
Riu na intimidade ao imaginar as possibilidades do que Ana pensará quando ler o bilhete
de hoje, estou trabalhando, volto mais tarde, ao que ainda não pretende voltar desse lugar em
que está, jogado de qualquer modo sobre o banco. É mesmo um bom lugar essa confeitaria,
parece não haver nada quando você vem andando por essas ruas, e quando se dá conta se
abre isso que a princípio não é mais que um buraco na parede que alguém tem de pagar para
possuir, e organizado com o empreendimento não importa de quem, agora é capaz de servir
esse bolo surpreendente, e uma nova garfada.
Um carrilhão de gritos invade a sua falta de devaneios, e a sua falta de devaneios pensa
sobre o conhecido sujeito num capô de carro, mas parece que lá longe tinha havido um
assalto, talvez alguém tenha morrido, alvejado de extermínio ou atropelado, não é de se
estranhar e isso não o importa nem um pouco, nada importa se não imaginar causa para gritos
e pessoas que vêm se dispersando e olhando para trás, tremendo e fugindo do que elas
mesmas não sabem. Ou vai ver estão derrubando por nada umas daquelas esculturas horríveis
com o busto de uns personagens muito importantes para a história e ele não faz idéia de quem
são. Ele não se importa com os bustos, e está feito criança a inquietar-se que brinca de se
debruçar nos limites de qualquer coisa, parapeito, abismo ou balcão, para se olhar o quê
também não se sabe, mas então vigiou o prédio antigo que está a espionar, à essa hora, que
está com preguiça de ver qual é, já a noite se mostra mesmo às desatenções, as janelas
iluminadas parecem de enseada sempre distante, que nunca se alcança e só ali está para se
ver. Então mais uma vez revisa os métodos que vai usar em sua abordagem, que é mesmo de
ousadia demais, provável que destinada a falha, não importa que não acredite nela, basta que
os outros digam que existe, e você não tem um plano b, um plano alfa, você sabe acontecer
uma só vez, e não pode demonstrar nenhuma hesitação dessa, o conteúdo do que vai dizer
pode ser imbecil se houver uma forma interessante, por ter um dilema que ainda não decidiu
qual é, é que está com a testa enrugada de como se pensando algo muito importante. Os
ponteiros que não vê podem continuar passando, e você vai adiá-los. Espera estar em casa
antes do temporal, e como ação gosta de desconectar-se de pensamentos, feito transar
pensando no seriado da tevê ou no relatório do chefe, apenas não pense em coisas
assexuadas, por favor, então ele vai deslizando os dedinhos pelo seu envelope de
encomendas.
Então esteve caminhando à medida que pigarreava, não o inverso, que é de desagrado do
cheiro de fritura ou nervosismo sobre tudo, e o ar carregado lhe arde nos olhos e por isso ou
pelo clima estava vendo a tudo mormaço, desde os paralelepípedos cinzentos e sem vida, ou
os bancos de mendicância de praça cercada de copas escuras das árvores em caminhos
antipáticos, até as propagandas das conquistas do nosso metrô, mas não é para o metrô que
vai e anonimamente se mete na descarga de gente. Consegue via seleção natural roubar
espaço nas fileiras à margem da calçada, que é para aguardar a vez de atravessar a rua. Aí
vem o bolo de gente a empurrá-lo para frente e parecem tentar matá-lo, os mais apressados
desembestam pela rua a esquivar-se dos carros que reclamam, buzina, buzina, por pouco nem
um pouco de sangue. E vai ser esperto e aproveitar o engarrafamento de gritos e monóxido de
carbono e motores roncando para passar por entre os carros e atravessar.
É agora, mas é dramático um agora considerando que precisaria de coragem a atravessar
a rua e passar a porta, foi aberta pelo cordial porteiro que demonstra estar com os
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pensamentos distantes e ainda assim o deseja uma boa noite, senhor, antes fosse cego para
não olhar a ninguém.
Há pouco deixou a porta que por si só se fechará, afastou com as mãos a cortina que
separa e protege o recinto onde ingressa do de antes, deu-se com a inconfundível meia-luz dos
restaurantes, as mesas dispostas a preservar a discrição familiar. Pronto, devia estar por ali,
tinha o nome, sabia do rosto, não precisa de mais endereços.
O rapaz magro e de cabelos curtos e penteados para trás já está sobre o palco acomodado
no piano. É inevitável vê-lo quando os feixes da ribalta são praticamente toda luz do lugar,
clube de jazz ou coisa assim. E então o acaso toma conta e dirige seu olhar. Sentiu-se bem
porque as pessoas sentem-se assim quando vêem as coisas pelas quais conspiraram
funcionando. Agora não restava mais muito a se fazer, se pôs a caminhar entre as mesas
quase vazias até estar de frente àquela, pensa de si mesmo uma sombra incômoda que
precisa acontecer. O que não era de se espantar, a julgar pela reação do senhor, o velho que
inicialmente virou-se excitado pela rudeza de dispensar a um garçom dos chatos, e acaba se
vendo atormentado por muito mais que isso. Ele estava se mexendo na cadeira, como ainda
desconfiando dos próprios olhos.
– O senhor precisa de alguma coisa? – perguntou nervosamente o tal senhor do
cavanhaque grisalho, ajeita os óculos sobre o nariz como para averiguar qualquer coisa, mas
não, meu senhor, você de fato não o conhece, nunca se viram antes, e mal sinal, que se deixe
tomar essa iniciativa que agora já lhe foi roubada.
– Poderia me sentar? – arriscou apontando uma qualquer cadeira vazia.
– É um jornalista? – pergunta áspera.
– Não, senhor, vim realmente por conta própria.
– Por conta própria – repetiu.
– Isso.
– Um fã?, o quê? – enervou-se ainda mais.
– Nada disso, senhor, mas ainda sei quem você é, Nicolas Condor, artista, colunista etc.
– Não é de admirar – destilava sua arrogância, amansou por um instante –, mas está
confirmado, sou mesmo eu, rapaz, foi um prazer. Agora eu gostaria de...
– Eu sei, mas se não fosse muito incômodo eu pediria para conversar um pouco.
Tê-lo interrompido pareceu que ia custar-lhe a alma. O velho se calou, podia vê-lo curvar
tanto as juntas das sobrancelhas que pareciam ir de encontro ao nariz, o fulminava com um
olhar agressivo e prepotente que poderia intimidar a quem não viesse preparado.
– Meu amigo, quem raios é você?
– Alex – e estendeu a mão, ao que o homem o cumprimentou forçosamente.
– E?
– Só Alex, nenhuma referência útil além dessa. Também não me conhece, é verdade,
melhor não se preocupar com isso. Não acho que não devam aparecer sujeitos violando de vez
em quando sua privacidade, mesmo que eu pudesse tê-lo apenas reconhecido porque tomava
um drinque ali no bar, olhei pra cá e, veja só, se não é aquele artista do qual os jornais
escrevem, que está na televisão, coisa desse tipo, o senhor sabe como é.
– Ao que parece não foi o caso.
– Não foi. Eu vim aqui especialmente pra pedir um favor.
– Um favor, senhor Alex? – perguntou com tom cético.
– Por favor, sem o senhor – abanou uma mão.
– E qual seria? – continuou.
– Eu espero antes de tudo que o senhor não estranhe.
– Você vai me perdoar, mas só a sua aparição aqui já me é um tantinho estranha – e
sacudiu os gelos dentro do copo da bebida.
O pianista insinuava estar no começo de suas melodias, não só pelas notas consistentes
que agora soam, como pelo fato que este senhor Condor, terminadas suas últimas palavras,
dividiu o olhar entre uma rápida vista ao palco e novamente frisando o adstringente olhar em
Alex, o apressava, e ele supunha se o senhor supunha que ele, tal qual os homens que contém
uma obstinação que nem sempre se vê nesses tais, não estaria disposto a deixá-lo tão
facilmente. Essa concessão não seria uma das quais faria. Teve de silenciar, não foi
exatamente uma necessidade, mas julga que será mais respeitoso, por uns instantes, que
fosse.
– Preciso de uma ajuda.
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– Se não é da imprensa como soube como poderia me encontrar? – o velho se ilumina.
– Um amigo meu é câmera de um telejornal desses, parece que só passa de manhã cedo,
desses que as senhoras de idade vêem. Parece que ele te entrevistou um outro dia, estou
certo? – curvou-se e sacou a carteira de cigarros enquanto fala, já estava puxando um.
– Sem cigarros, por favor – imediatamente o velho Condor interveio –, tenho estado sem
fumar e tenho o direito de não te cheirar.
– Claro, perfeitamente – e guardou de volta.
– Que dizia sobre um amigo? Poderia ser mais específico?
– Talvez o nome venha a ajudar.
– Tenho quase certeza que não.
– Devo arriscar? – dá com os ombros –, as minhas referências estão escassas.
– Anda, anda.
– Marcus, eis o nome.
– Não reconheço, deve ter comparecido a uma coletiva, o sanguessuga inofensivo. No
último mês houve umas duas.
– É, vai ver é mesmo isso. Foi ele quem soube que o senhor costuma freqüentar esse
lugar, isso chegou a mim.
– Por vias ilegítimas, devo mencionar – curvou a cabeça sobre a mesa com um quê de
ameaçador. – Ao contrário do que o senhor possa pensar, não forneço informações dos meus
hábitos, não fico espalhando da minha vida e de dados pessoais para veículo algum, não me
importa qual é ou se é tão desastroso quanto o caso do teu amigo.
– Por favor, não precisa mesmo me chamar de senhor.
– Às vezes o estou fazendo para deixar claro o incômodo.
– Foi o que eu quis dizer...
– Se importa de finalmente ir ao centro da questão?
– Será que enquanto falamos eu não poderia pedir uma bebida?
Em resposta ele bufou ao virar em direção ao palco.
– Faça como bem entender, presumo que não seja por ingenuidade que continue me
assaltando, mas seu jogo não me cansa tanto quanto gostaria.
– É o aval que eu precisava. Mas não se incomode, não irá demorar mais do que o
desagrado faz parecer – pensou se a demonstração racional de sua posição não viria a ser
ainda mais prejudicial a sua imagem, é algo como ser ainda mais perigoso o louco que sabe o
que faz. – Garçom, por favor, me traz o mesmo que o desse senhor, sim? – tratou de intercalar.
– E então?
– Apesar de o senhor não dever nada a mim, da mesma forma que momentaneamente não
devo ao senhor, preciso fazer ainda uma advertência anterior, sim, é tipo uma cláusula, ou o
que for. Eu vim aqui te fazer uma proposta, quanto a essa há duas coisas que posso garantir,
que vai nos beneficiar e que vai te polemizar – essa parte do discurso até que surtiu um bom
efeito, foi bom tê-lo feito, mesmo que a idéia tenha surgido repentinamente.
– Sim, prossiga.
– Para que o que eu vou propor surta efeito, preciso inevitavelmente de seu aparato, não
exatamente o seu, assim, mas de um artista da praça de caráter ideal. Por já te conhecer de
outras circunstâncias eu tive essa oportunidade de poder investigar exatamente a você.
– Investigar? – ele se curvou sobre a cadeira, no seu olhar não está explícito se havia se
ofendido ou coisa próxima, pode não haver mais que desconfiança. – E quanto a meu caráter
ideal – arfou num riso de escárnio –, qual a questão?
– É uma pessoa de quem se espera o inesperado.
– Por que tirou essa conclusão?
– Está sentado com os patrícios, mas é desses que os repugna ou finge repugnar, eles
gostam dessa imagem da ovelha desgarrada, parece estar deslocado.
– Que te faz pensar isso?
– Não sei se é bom, mas algumas pessoas não se acomodam em canto algum, elas nunca
conseguem se encontrar.
– E realmente veio aqui sem saber o que eu diria, correto?, sem saber uma resposta, a
julgar o meu caráter. Mas a resposta parece um pouco óbvia, não?
– Achei que ia reconhecer a minha ousadia.
– Ora – aí sim ele conteve uma risada –, o que você esperava, rapaz? O estereótipo de um
velho excêntrico, um babão interessado em figuras que lhe pareçam peculiares, testando a
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todos que passam por si como se precisasse encontrar um discípulo para saciar o seu ego,
que basta que me despertem o interesse para que esse imbecil se renda?
O garçom veio sem que visse e deixou o drinque sobre a mesa. Olhou levemente por cima
da própria testa e agradeceu com o gesto.
– Sim, é mais ou menos isso o que tenho pensado... – meiosorriu e mirou por instantes o
palco.
– Escute, só sou alguém que zela preciosamente pelos próprios momentos de paz e
solidão. Eu acho que mereço.
– Sim, sim – e tornou a dar mais um gole. Talvez o descaso o tenha enraivado um pouco
mais.
– Se já te ouvi por tanto tempo e nada disse do meu interesse, o que te faz pensar que vou
ouvi-lo ainda mais?, não contradiga a sua opinião sobre meu caráter imprevisível, meu amigo,
demonstrando a segurança de que eu continuarei, a não ser que só queira me dar motivos pra
que eu o tome como mais um bajulador barato.
– Não tenho certeza – melhor erguer a cabeça quando se tem as atenções renovadas –,
desculpe, foi apenas uma idéia que eu teci sobre uma reação possível, acho que nem merece
ser levada a sério. Senhor, não tenho razões para bajulá-lo.
– Sim, espero. E, antes que possa pensar, isso que estou fazendo não é ser prepotente,
mas a gente aprende a filtrar, escute bem e aprenda, evitar os lobos desse mundo.
– Foi bom ter avisado. Esse rapaz toca bem o piano.
– E quanto a você, senhor Alex? – o encarou, parecia estudá-lo.
– Não toco bem piano. Não, estou brincando, eu entendi, bem, ainda não disse se aceitou
ou não minha proposta.
– Mas você não a fez – exclamou com o jeito moderado.
– É verdade. Sei que isso vai parecer ainda um pouco mais estranho, mas preciso que a
aceite no escuro, o máximo de garantias que posso oferecer são as que já dei.
– Assim você extrapola com qualquer limite – ia falar mais.
– Estou falando sério – falou antes que pudesse terminar.
– E afinal, o que você quer?
– Criei algo que destrói tudo que é tido como bom, dou motivos para ninguém querer estar
em paz, e fiz um pouco mais que isso que não sei pôr nas palavras. Gostaria que isso fosse
ouvido.
– Que vem a ser?
– Por acaso veio na forma de um livro.
– É escritor, então é isso?
– Não sei, até hoje não fiz mais que escrever algumas idiotices, e não sei exatamente
porquê. A verdade é que nem tenho muita vocação para isso. Mas gostaria de que desse um
jeito de me colocar no jornal de artes em que trabalha, posso escrever sobre qualquer assunto
que me dêem.
– É isso que me veio pedir, um trabalho?
– Não, essa é a conseqüência agradável. O que eu pedi é que use sua imagem para
publicar o que eu fiz. Pra que o tome pra você, sem ser seu.
– E no que consiste?
– Motivos para que tudo possa vir a ser diferente.
– Não seja vago, se quer alcançar algum resultado aqui, comigo, o mínimo que te peço é a
precisão.
– Acho que eu traduzi a morte para anos de civilização, entre essas mortes está o declínio
das idéias que mais se adoram, paz, liberdade, tudo isso.
– Não me parece surpreendente, alguns filósofos já fizeram isso e essa tem sido a
preocupação de alguns outros da nossa atualidade.
– Esse é um manual prático de uma nova forma de se viver – parecia repetir a mesma
coisa com tranqüilidade e certeza como das quais se reflete muito para se concluir.
– Então agora te pergunto, por que disse que eu teria de aceitar nas escuras? – ergueu a
cabeça como se fazendo uma pergunta inteligentíssima.
– Ainda estou sendo vago para que o senhor possas ter uma pálida idéia do que é. Não
seria justo eu te mostrar havendo a possibilidade de me contrariar. Seria triste demais para
mim. Vai lá, entende, seria o meu fim, um risco dos que não se correm.

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– Agora você não está sendo ousado – riso –, mas iludindo-se, garoto. Injusto é o que você
me propõe, as coisas andam bem diferentes desse ritmo que seria conveniente a você.
– Sim, o senhor teria de se arriscar.
– Com quais garantias?, a sua palavra?
– As que eu já dei, o que você ganharia é óbvio, desde estímulo artístico – falou sem muita
certeza –, até as oportunidades de melhoria de vida, enriquecer, não sei, é isso pelo que as
pessoas prezam e para isso se usam de meios chulos ou não. Esse me parece bem autêntico.
– É?, eu estaria ganhando, hum? – o velho falou em tom de disciplina.
– Primeiro estaria me fazendo um favor, depois estaria promovendo seu trabalho. Corrija
se eu estou errado, o artista, nesse caso é você, deseja o reconhecimento.
– Do público que o interesse, ao menos.
– Sim, mas pra isso precisa dos meios de comunicação a seu favor, coisa assim.
– É, naturalmente, ainda que isso sempre tenha lá suas tantas controvérsias.
– Eu te ofereço essa oportunidade.
– Como tem certeza – se curva na mesa – de que conseguirá isso para nós?
– Não é difícil garantir, as coisas polêmicas conseguem fácil seu lugar entre as outras. Só é
preciso que tenha – e pensa uns instantes – essa base, um impulso, que o lance e possa
garantir que torne-se autônomo, e isso o tempo vai nos mostrar.
– É isso?, uma polêmica hipócrita? Que entrará em circulação e depois será ignorada,
como as tantas?
– Por mais que pareça não é completamente assim que acontece – Alex sorriu, que essas
palavras o despertaram a reação de algum pensamento tão profundo quanto antigo –, ela fica
na alma das pessoas, é engolida de forma a fazer parte da sua história, desce para o caroço.
– Não precisa ensinar-me sobre isso, garoto. Eu sei o que acontece com essas coisas,
tenho idade suficiente para ter visto o bastante delas, são enterradas pela inércia e
adormecidas. As palmas se apagam, no final das contas não resta mais nada. São enfeites do
ócio diário, logo se convertem em utopias ou subalternas, enfeites sem vida na menção de
qualquer um do futuro, e nós já teremos morrido, você já terá morrido.
– É que talvez a verdade seja dura demais.
– O que quis dizer com isso?
– Pense o seguinte, traduzi coisas sobre a verdade, o que quer que isso signifique, livre de
abstrações. Ao mesmo tempo em que sei estar falando a verdade, sei que aquilo não é
exatamente o melhor para nosso bem-estar, conseguiu perceber o ponto?
– Só a intenção, não o objeto. Ainda é muito vago.
– Imagine que eu dou métodos práticos para o homem ser melhor do que é, sendo que
isso significa dispor inteiramente de suas qualidades e da... iluminação sobre ele mesmo. Sim.
Eu quero descobrir se somos do jeito que somos hoje por falta de escolha inteligente ou porque
já estamos no caminho certo do que pode nos ser melhor.
– Desculpe, para você pode fazer sentido, para mim é falácia. É bem melhor que mo diga.
– Então aceita? – o piano soou numa nota grave.
– Aceito, certo, tem minha palavra – pareceu tremer um pouco no tom de voz quando
apertou o próprio copo, mas as palavras estiveram claras e límpidas. Aquilo soou lindamente.
Foi aí que quase que por reflexo Alex prensou sobre a mesa, firmemente com a palma da
mão, a pasta que esteve carregando consigo. Condor a olha com semblante de quem não
entende além do que se vêem os olhos.
– Pode abrir, está aí dentro – Alex tremeu um pouco as costas ao retorná-la sobre o
respaldo da cadeira, gesticulou com a mão. Tentou estar demonstrando um pouco de
segurança, ele mesmo considerou que não tinha sido tão bem sucedido.
Não foi preciso mais que uma passada de dedos do senhor, assim ele se adiantou para
que o envelope tenha sido rasgado em suas bordas e agora esteja arreganhado. O velho,
esboçando um ar grave onde não se lia mais profundidades, o tomou pelas mãos e o debruçou
verticalmente, deixou dessa forma que o seu preenchimento deslizasse para fora. Foi aí que
aquele pedaço conjunto de papel desceu, era claramente um livro encadernado como o
permitia a improvisação, era grosso não só pela textura, mas dispunha de suas muitas folhas, e
na capa toscamente preta e com as letras num branco forte, as únicas palavras que se liam
eram o título, O retorno à escuridão.
– É isso? – perguntou Condor.

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Como assim, se é isso?, é como se lhe escancarasse quase sem preliminares a alma,
falasse das coisas mais íntimas pelas quais com grande dificuldade é que o pensamento foi
capaz de descer, rastejou e mendigou por alguma inspiração, como se falasse das formulações
mais inteligentes que é capaz de ter, e minuciosamente articuladas para que não faltasse em
aspecto nenhum a pormenor coerência ou verdade que fosse, para que houvesse o mínimo de
pedantismo e o máximo da objetividade, e ele vem com pergunta simples como essa,
sintetizando todo o conteúdo daquelas páginas impressas, só deus sabe o trabalho que teve
até para imprimi-las, a julgar pela capa? O primeiro homicida de fato teve suas razões, não um
osso pré-histórico roubado, mas um desdém matador. Mas calma, ele se diz. De repente você
se enganou com as impressões, é isso, foi só um equívoco, você realizou mal, e isso é tudo.
Olha só, ele já está olhando com outro aspecto para o livro posto sobre a mesa, agora já há um
certo interesse, nem que seja só um pouquinho de curiosidade, ao menos é o que parece ter
sido despertado, não é só por gentileza que ele vai folheá-lo daqui a pouco. Tudo bem, as
coisas vão regressando aos poucos ao seu ritmo normal.
– Do que se trata? Objetivamente – perguntou ao folhear, talvez a partir da resposta ele
fosse procurar nas primeiras páginas algum excerto compatível.
– De como pode começar a haver gente livre. Por que tentariam uma coisa dessas, e das
possíveis conseqüências dessa iniciativa – se ele lhe perguntasse é isso? novamente, tinha a
certeza de que viraria a mesa por cima de sua cabeça. Era só um senhor de idade metido, o
máximo que faria era conservar o seu orgulho num pedido pouco escandaloso de socorro,
desacreditaria do que estava acontecendo um pouco antes de ser atingido no crânio pelo copo
de vidro, a vingança é sempre plena.
– Parece interessante. Em que consiste a controvérsia? – e foi isso que ele perguntou.
– Na dúvida se o homem quer pagar os preços da sua liberdade. E se ela é assim tão
maravilhosa.
– É um anarquismo? – ergueu as sobrancelhas.
– Não, é claro que não, na anarquia há muita ordem, e uma coisa dessas não pode existir.
– Falo do sentido vulgar, o pejorativo que as pessoas usam.
– Então é a melhor vulgaridade que você já viu – e riu com um tom de prepotência que foi
amargamente convincente. – Não, isso não se baseia na questão clássica, luta de direitos,
exploração e não sei o quê, não é nada disso, é mais humana do que antes, e é isto.
– É uma idade média caótica?, onde não se tinha nem se sabia para onde olhar?
– Talvez – e essa resposta pode ter soado agradável, que ele franze o cenho e anui.
– Vai dizer-me que preciso ler para compreender a idéia?
– Acho que sim.
– “O absoluto em nada há de nos valer, chegou a hora de acabá-lo, assim enxergaremos
muito mais” – abriu numa das páginas iniciais e leu com tom de pergunta, devia indagar se o
trecho não traduzia uma idéia em geral do que viria a encontrar a seguir.
– É, o primeiro passo desse método é amoralizar o sujeito. Aniquilar tudo que ele acredita.
– Método – ainda folheava.
– O retorno à escuridão é um método que propõe retornar ao estado bruto das coisas.
– Para serem livres? – tom de riso, olhou rapidamente quando desgrudou os olhos do livro.
– Não só, ser livre é o primeiro passo. Para o homem ser melhor, coisa com que sonham
essas idéias que ficam adormecidas na gente, é como você falou.
– É?, e como?
– Você lerá – aponta, tremendo –, não se desapontará, não.
– Bem, é uma tese interessante.
– Pois é – interessante?, é isso que ele vem dizer?, certo, era melhor não se apegar muito
aos termos.
– Quer que eu seja o meio para lançá-lo em seu nome – voltou a antiga pauta, agora
fechava o livro.
– Não, em meu nome não.
– Por que não?, ainda essa? O livro não pode ter um autor?
– Não é isso, é por questão que diz respeito unicamente a mim. Eu não posso vincular a
minha imagem a isso de forma a me prender, não sei, eu não acredito em laços autorais, não
sei, está pronto e ponto, e querendo ou não ele sempre me seria uma referência, uma
referência dessas que podem comprometer, não sei, é um presságio, não sei. Não sei o que
seria de mim, eu sou mais que isso, ele também é mais do que eu, se é que me entende,
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somos diferentes, mas também é igual, é quase como um alter-ego, acho que nem isso,
porque é mesmo bastante diferente, já não sei, eu fico confuso, além do quê, quero ter espaço
para as outras coisas, eu quero um emprego, quero ser normal, ou ao menos espaço para não
me arriscar, se é que me entende.
– De qualquer jeito seria muito mais publicidade a você, não é o que quer?, não foi o que
disse?, do artista?
– Não exatamente – e o olhou seriamente, como se tivesse algo a dizer mas não soubesse
pôr em palavras –, esse cara não sou eu.
– Agora começamos a nos entender – sorriu pela primeira vez.
– Então quero fazer o meu pedido secundário, a conseqüência imediata mas muito
necessária – ponderou se não estava sendo excessivamente abusivo, mas prosseguiu.
– O que é, agora? – para simpatia há limites.
– Preciso me mudar para outro lado da cidade, é a culpa de vivermos num lugar tão
grande, tenho meus próprios motivos para tal, mas o que posso dizer é que são questões
pessoais das quais não posso abrir mão.
– Como pretende que eu te consiga ainda isso, rapazinho?
– Com o jornal, não sei – dá de ombros –, um trabalho fixo é importante. Sabe como é,
aquela conversa de que eu quero mudar, ser uma pessoa mais responsável, estabilidades, vai
ver são os sintomas da meia-idade.
– Não posso te garantir isso – rosnou levemente, pobre da simpatia tímida que outrora veio
–, o acordo, olha lá, que já fui muito tolerante em aceitar, diz respeito apenas a arranjar uns
acessos a teu retorno à escuridão, o que devo dizer, não será muito difícil de fazer, tudo bem,
sem problemas, é tranqüilo, no máximo ele encalha e ponto final, para mim isso não faz lá
muita diferença, para o jornal muito menos, não seria o primeiro fiasco. Mas as conseqüências,
ainda mais quando és tu quem as diz, querer que eu as preveja já é um pouco demais – aí o
tom tornou-se duro –, isso porque não digo abusivo, e aí, não acha?
– Antes de tudo eu te pedi um favor.
– Já não o estou fazendo?
– Certo. Pode me dar em outra ocasião uma resposta definitiva, hum?, talvez?
– Depois que eu o ler, somente. Dê-me formas de contato, e eu lhe dou as minhas, o
número do telefone etc. É nosso combinado, e por enquanto é tudo.
– Muito obrigado. Acho que acabou estando mais disposto a fornecer seu tempo do que
parecia, na verdade tomei mais do que eu prometi.
– Acabou fugindo do nosso controle, notei que você também não previa – respondeu, e
voltou-se a apresentação. Tocava uma musica animada.
– Acho que a única coisa que me resta a fazer é me desculpar, agradecer e ir – e sorriu
com sinceridade flamejante. – Essa é a única cópia, foi caro para mim imprimi-la, confiei a
você, o senhor tem uma vida em mãos, por favor, peço cuidado.
– Não tem com que se preocupar. Trato é trato, seja absurdo, ridículo, o que for, e é
mesmo esse o caso, mas está certo. Eu gosto do ridículo. E é porque a assinatura hoje em dia
nada mais vale, se é que algum dia valeu, mas enfim, gosto de me arriscar com a palavra.
Bem, é isso. E já que incomodou, a pedra já atirada, o que tem achado do pianista?
– Não sei, não entendo muito de música.
– Se não tiver outro mecenas para abordar com a mesma conversa fiada, fique aqui e
assista.
– Pensei em comemorar em casa chamando algumas amigas, mas fico e assisto.
– Deixe as comemorações para depois, quando puderem ser mais intensas e serem por
muitas coisas ao mesmo tempo. Você tem mesmo muita coragem, rapaz. Me diga, de onde
você desenterrou essa cara-de-pau?
– É que eu sou muito deprimido e auto-destrutivo.
Além da ribalta o pianista mostra todo seu talento. A verdade é que quando se dedicava a
atenção para tal, os acordes pareciam soar mais intensos, a coisa parecia ter um sentido que
não era de enfeite. Por mais que mantivesse o rosto fixo na direção dos espasmos do homem,
nas suas costas debruçadas sobre as mãos, os dedos rápidos contra as teclas, a energia e o
dinamismo que deviam ser as causas das contorções enigmáticas de seu semblante, para
onde quer que ele olhasse O retorno à escuridão o ofuscava. As palavras atrás da capa
pareciam contidas de berrar. Sabe, esse era um desses acontecimentos que dividem épocas,
como um dia foi a invenção da escrita, a queda romana, as grandes navegações, as
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revoluções burguesas ou a queda do muro, e o pianista não sabe disso, nem ninguém, e o
pianista continuava uma melodia calma, as vozes da platéia comentavam seus assuntos em
burburinhos que o desrespeitam. Como oposições perfeitas à calmaria que lhe inspirava essa
nuvem elegante de fumo que subia saído de bocas certamente nobres, à eloqüência perfeita
que se formava do choque entre o som das cordas e as vozes distantes, fúteis, distraídas nelas
mesmas, só podia visualizar fortemente, quando cerrava as pálpebras e conquistava seu breve
instante de total privacidade, aquelas multidões subindo apinhada pelas escadarias estreitas do
metrô, aquela onda ininterrupta de gente se comprimindo, parecendo sentir frio, parecendo
conter ansiedades, dizendo tudo em tão pouco tempo.
Teve a impressão de que o rosto escuro e penetrante de um vulto fantasmagórico o fitava
enquanto confundia-se com a marcha da multidão. Reconheceu aquele olhar embaçado que
parecia comunicativo, parecia tentar dizer-lhe alguma coisa, mas se a vida toda dedicasse para
que tentasse compreendê-lo, a vida inteira seguiria desperdiçando. O outro sumiu mais uma
vez, não poderia dizer quando retornaria. Agora só via a gente seguindo em direção ao escuro,
àquela concepção mortiça que tinha de vida, a um futuro que o problema não era exatamente
não saber como seria, mas supor que não havia. Do piano soou um arpejo funéreo. Abriu os
olhos, as poucas luzes que com eles fechados via já eram todas ilusórias. Se foi assim a noite,
e a vida seguia das mesmas formas que sempre. E tudo está indo mudar.

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A tela do computador flamulava à frente com algumas poucas linhas cheias de erro. Não
conseguia ir além disso, as atenções estavam escassas, as poucas restantes desperdiçava
com nada. Independente do caminho que venha a ser tomado, caminho qualquer que em
diversas ocasiões futuras ainda caberá a ele mesmo conhecer, e independente das suas
oscilações temporais, nas quais teve certas circunstâncias valiosas vivenciadas e, como é
próprio da lembrança, ter tornado-as tangíveis a compor a verossimilhança de seu caráter e do
espírito dentro da força centrípeta de seu eu desconhecido, então, independente do caminho
que venha a adotar e dos caminhos que possam se abrir para ele, a única certeza que se pode
ter é que, em certo momento de sua história, ele se encontrará gravitando em torno do
acontecimento naquela rua que esteve após partir do Schneider, quando disse a si mesmo
que, se quisesse sobreviver, condição talvez um pouco exagerada, devia retornar à escuridão.
Como se sabe, esse processo do retorno, diante de sua procedência mais básica, pode ser
brevemente descrito como revolução e destrinche da memória, da imaginação e de toda arte
de forças ocultas que se carrega na psique, independentemente do tempo em que se situe, e
imediatamente tendo de perceber que todos os tempos da existência devem ser
compreendidos porque estão todos nesse tempo eterno, nesse presente momento que é feito
da visão dos vários demais. Por isso conclui que o presente é mais extenso do que parece.
Como dito em outra ocasião, sem o passado ele se torna algo vazio, sombrio e incerto. O
futuro ele sempre sente que não terá. Isso define quem ele é.
A intenção até agora era falar sobre a eficiência no uso de verbas públicas para
construções de monumentos, o título é arte empregando gente. A verdade é que... selecionou
todas as palavras que restam, hesitou um quase nada e as apagou. Era isso, estava acabado,
ele era um cara acabado, não conseguia mais, não podia articular nada que não fosse de
algum jeito referente a hoje mais cedo, no Schneider. Digitou a seqüência de letras sem
sentido, o barulho das teclas parece fascinante. Reclinou a tela do computador, deu uma
espiadela além dela. Teve certeza, ela tinha passado de novo como quem não quer nada, mas
ele sabia, o estava vigiando. Sempre estava arranjando um pretexto para espionar, certamente
a essa altura já teria visto que ele não progredia e já estaria associando coisa com coisa, em
pouco tempo viria perguntar e aí, tudo bem?, você me parece um pouco diferente hoje, e ele
diria aquele tudo bem bastante vacilante, em seguida por mais que tentasse desconversar não
conseguiria, e ela o espremeria com todas artimanhas que pudesse ter em mãos, não pararia
enquanto não conseguisse arrancar alguma coisa que lhe tirasse também a paz. Ai, pensa, as
mulheres de minha vida. O barulho da televisão baixinha a não ser assistida por ninguém já faz
algum tempo que o deixa afoito.
Carla já está de novo à mesa e lia alguma coisa, que seria?, estava com as pernas
cruzadas, quase!, dessa vez quase foi ele que se mostrou bisbilhotando. Tratou de olhar para o
monitor, estão lá os muitos as preenchendo umas duas linhas, ficou tempo demais com o dedo
preso na tecla. E a mulher, veja, ela ajeita os óculos, certamente não conseguia se concentrar,
era praxe desses gestos pequenos, veja só, puxando o brinco na orelha assim, remexendo os
dedos por entre os cabelos curtos, parecem uma meia-lua em sua cabeça, olha. Cuidado, ela
moveu a cadeira de novo. Pare. Concentre-se nos seus próprios afazeres, Alex, que ainda são
muitos, mas o que é isso, até que tem tempo, não se afobe mais do que precisa, reconsidere,
fale sobre alguma amenidade, algo que possa se desenvolver espirituosamente e com
facilidade, pense em algo melhor, procure bem, que talvez já te esteja na ponta da língua, vai
lá. E só lhe vinha na mente a imagem daquela lona vermelha, essa expressão que por
instantes ocupou toda sua imaginação, e ela flamulava como se viesse a despencar e fosse
envolver ao mundo todo, as cortinas daquele teatro são inconfundíveis, sempre abertas porque
é sempre dia da encenação de um episódio, tudo que for crônica de si mesmo. Ver vermelho
assim é como afundar-se uma vez mais em piscina de sangue. Levantaria-se, mas os olhos
ainda estariam impregnados por uma viscosidade entranhosa, com o tempo seria apenas com
esses óculos, o de vísceras e coisas apodrecendo, que poderia enxergar o resto do mundo.
Teve um espasmo nos dedos e começou a escrever. A sociedade se reunia mais uma vez,
como sempre permeava entre a gente o clima do mistério, o segredo não nos oprimia, ele
desperta algo de emocionante, eu podia ver no rosto de alguns a vontade afoita de sorrir. No
início éramos mesmo muito poucos, tudo que falávamos parecia se omitir logo quando saindo
da boca, mas com o tempo... cuidado, homem, aí vem Carla voltando.

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É, e vem trazendo um copo d’água na mão, mas ele sabe que isso é só pretexto para que
ela se pusesse a caminhar e aliviasse o nervosismo da curiosidade, até voltar e se pôr
novamente no posto da espionagem. Virou sonoramente a folha da revista, sentada ela
balançava as perninhas, agora parecia tão entretida com seus próprios assuntos que o faz
duvidar se volta e meia ela já chegou a perder um pouco de tempo com ele, mas isso tudo é
truque, a incerteza do engano é a impressão que ela quer instaurar, é mais bem treinada do
que parecia. Escreveu um pouco mais. Todas as vezes que hesitei, André agia como se o que
eu temesse fosse ridículo, mas ele mostra essas coisas com tanta naturalidade que me
convence, é tão simples que eu passo a duvidar de mim mesmo. Sempre tem um rapaz que
manda, não precisa ser oficialmente, mas sempre tem aquele sujeito que inspira mais
confiança, pelo visto ele é esse cara. Ainda bem, porque prefiro ser o cara chato... minha
nossa, agora parecia que ela vinha para o sofá, ela vem andando mesmo, teve de selecionar e
apagar tudo, sorte que consegue fazê-lo a tempo, antes que ela possa perguntar que raios
pensa estar fazendo com esse ar de seriedade e mistério que ela sabe muito bem ser inútil. Ela
rouba o conforto do espaço de suas pernas esticadas, porque pensa ter o direito de vir se
sentando, e você, mesmo que resmungue, a aceita, talvez porque goste dessa camisola que
ela está usando, fica bonitinha, agora está se curvando para alcançar a mesinha, dela pegou
algo. É, tem a enojada e infalível certeza do que era quando começou a aumentar o som da
televisão, aí imediatamente pensa em esbravejar, gritaria ei!, não está vendo que eu só quero
um pouco de concentração?, estou trabalhando, que cretinice é essa de me ignorar? Parece
mesmo que você quer chamar atenção, pode ser algum tipo de carência, eu não sei, mas não
sou seu terapeuta e nem padre para ouvir confissões, dê o fora, tudo o que eu quero é
desfrutar dos meus remorsos, idéias, desesperanças etc. Bem, esse discurso chamaria
atenção demais, é melhor que deixe-o para lá.
Além do quê, ganhou sua deixa, aí fingiu salvar no computador um documento, fingir
porque está vazio, e suspirando como de alívio gratificante, como ah, finalmente acabei esse
longuíssimo trabalho, fecha o computador de colo e também finge se permitir relaxar. Franziu
as bochechas quando a olhou, era como se dissesse, olha, você está aí, nem tinha te visto,
olá!, e ela retribui o sorriso que não quer dizer muita coisa. É quando ele foi iluminado pela
idéia de que se conduzisse com naturalidade a conversa, se tudo não ficaria bem.
– Chegou mais cedo em casa? – perguntou, esticou os pés para o chão.
– Às seis. Você passou o dia fora – e daí?, ele certamente era o primeiro a saber disso, e
de qualquer jeito não perguntou nada. Você, mocinha, não está sendo nada esperta.
E ele pensa rapidamente nas possibilidades do que dizer. É claro que simplesmente não
comentar soaria estranho, talvez não para ela, mas para si mesmo, o que já basta para que
não durma essa noite, travado pela certeza do deslize, então sente-se na obrigação de
defender-se sem antes ter sido atacado. Ia falar que foi pegar o dinheiro que ficou de receber,
mas melhor não, essas mentiras que envolvem coisas substanciais não só têm as pernas
curtas, são capengas de nascença. Pensou em falar que estava com aqueles seus amigos,
esse pessoal, assim não estaria mentindo, ainda que não sejam seus amigos, mas pode incitá-
la a curiosidade de saber o que o levou a vê-los durante o dia, ou simplesmente perguntaria
por quê?, mesmo sem supor nada, seria uma dessas perguntas inocentes, mas isso o faria ter
de ainda inventar ainda mais, até a hora de meter os pés pelas mãos. Aí, aproveitando a idéia
de ser o mais geral possível, falou rapidamente.
– Fui receber umas instruções no prédio do trabalho – levantou as sobrancelhas e falou
pausadamente, como tratam as pessoas das coisas quotidianas.
– Certo – até que ela reagiu bem, toda essa articulação para nada, nem precisava ser
convencida, nunca esteve realmente interessada. – Viu o que passou na televisão?
Antes que pudesse com toda sua lucidez dar-se conta do motivo, imediatamente já subia-
lhe na espinha um arrepio, aquela mesma sensação desagradável que parece dar a parecer
que toda consistência que nos resta vai amolecer e nos trair, vai fazer com que caiamos tortos
e desmilingüidos. Se ficou pálido nem achou modos de disfarçar, a única coisa que vinha na
cabeça era, que merda de destino, acharam o bendito cadáver da mulher, a essa hora já o
estarão exibindo nos noticiários. E essa Carla é astuta, sabe-se lá como, mas devia ter dado
um jeito, alguma maneira, depois de alguma investigação, é claro que ela viu e associou coisa
com coisa, sabe-se lá como e sabe-se lá o que se tem a associar, mas isso não importa,
pronto, nem precisaria temer mais pela imprevisibilidade de alguém dos de dentro, agora que

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estava fora já estaria tudo acabado. – O quê? – só pode murmurar com um tom baixo e sem
vida.
– Aquela história do programa de reabilitação das periferias que deu nos últimos dias.
Alguns moradores dizem que estão sendo expulsos porque a prefeitura vai derrubar suas
casas, coisa assim. Já estão escandalizando um pouco demais, não acha?
O susto foi embora tão rápido que agora só resta a sensação de como sou estúpido, mas
tudo bem, ainda restam as seqüelas nos olhos trêmulos, e se falar vai dar-se conta que tornou-
se gago. Balançou a cabeça como quem quer sinalizar alguma coisa mas não sinaliza coisa
alguma, acaba dando com os ombros.
– Não sei, não soube disso, mas acho que não é algo raro de se acontecer.
– Bem, a mídia aproveita o que dá audiência, e qualquer coisa bastante enfeitada,
adaptada, de um jeitinho ou de outro, dá audiência – ela continuou.
– Então se qualquer coisa é útil, qual o problema?
– Não sei, foi algo que apenas saiu.
– Entendi.
– Quer comer alguma coisa?
– Comi na rua, mas obrigado.
Ela silenciou, até então não o tinha sequer olhado. Por enquanto ao menos era melhor que
as coisas ficassem assim, por ficar. A apatia de Carla era a garantia de que estava em paz. O
único problema parece estar exatamente em reconhecer quando ela o estava desvendando e
quando julgava que nada tinha a descobrir. Aí lembrou o porquê e o como de tê-la conhecido, e
esses instantes nos quais refletia passaram de tal maneira que, por um tempo, a olhou como
se a admirasse, como se não houvesse o que esconder e nem com o que se preocupar. O
rosto fino para o qual ele não deve nada, os delineares branquinhos, os óculos redondos, a
atenção vidrada, mas comum, ao se ouvir um noticiário de todo dia, aí depois, como agora, ela
o olha de relance a perguntar o porquê de encará-la estranhamente.
– Não comece a ficar estranho, por favor – disse a sorrir.
– Tem um jeito de eu ficar estranho?
– É assim, olhando como se estivesse pensando, ou como se esperasse algo. Ficar
encarando as pessoas é constrangedor.
– Só se você for curiosa. Mas você pode me ignorar e deixar que cada um se entretenha a
seu modo.
– Vamos... não faça isso.
– Certo, vou me conter – e continuou olhando.
Ela riu, o olha feito estivesse insegura da recomendação de fazê-lo parar. Ele pensa que se
fossem em outros tempos era certo que ela já carregaria alguma resposta na ponta da língua.
Geralmente as moças intensas são assim, breves e demolidoras, é daí que seus estilos
ramificam. A mais ardilosa cita algum podre de seu passado e usa algum defeito arquivado
como argumento para invalidar seu comportamento incômodo, a mais direta xinga e distorce as
feições, vá encher o saco de outra, a recalcada olha com cara de fúria que parece prestes a
explodir mas não de perder o pódio. Em uma certa hora, tanto seu rosto não mais lhe atraía
como nada mais faz muita diferença. O que restou foi curvar-se para o lado, debruçou-se,
contentou-se com os sonhos que lhe surgem vida afora, e aí se deixou divagar. Revirou os
olhos para dentro. Esteve voltando ao passado.
Sonhava um sonho que há tempos não lhe vinha, era noite, o quarto todo estava escuro, e
em frente a janela das ruas, opondo-se a penumbra estava Júlia, nua. Já fazia algum tempo
que ela o olhava em silêncio, é assim que está a enxergá-lo além da carne e do osso. Não que
ela seja realmente capaz de incitar uma impressão tão pontiaguda feito esta, mas, como se
sabe, nos sonhos, as sensações ou adormecem completamente ou se ampliam a fazer inveja
na própria realidade, que passa a ser um sonho ainda mais distante em função da sonolência
que se tornou. E talvez por estar sentindo Júlia assim, etérea, esvoaçante, devesse considerar
que há aí um dos significados que tem a seu respeito mas é incapaz de perceber, até
momentos como esse. Achava que tinha se livrado dela, mas aí está ela para arruiná-lo e para
liquidar suas esperanças. Fazia valer aquele ditado que diz de uma pessoa ser lobo em pele de
cordeiro, de fato o era, apesar de na situação ser ela uma engenhosa víbora que não mostra a
peçonha, está envolvida por uma espécie de karma de fatalidade, tudo com ela acabará
fatalmente, mesmo que ele não saiba exatamente porquê, mesmo que nesse momento ela não
fizesse questão de se esconder ou revestir-se em dotes de mistério, ela tenta se mostrar, e
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quando ele não a entende só está clara a sua incompetência, e ele padece. Deixa-me em paz,
ordenou, mas a imagem permanece. O problema podia estar em si mesmo, que se não tinha
coragem suficiente para expulsá-la, como poderia?, para que tenha forças, para que esteja
convencido de uma coisa, é preciso de um porquê. E ela não arruinava sua vida, não o fazia
mal, não fazia nada que o inspire a repudiá-la, a verdade está muito longe disso, no máximo
ela fazia coisas perdoáveis e que a tolerância da convivência o força a fingir esquecer, é coisa
que faz parte, não cabe considerar.
Ainda assim arriscou-se de novo, deixa-me em paz, por favor, vai embora. Mas do que
você está se escondendo?, perguntou-se inesperadamente como idéia que não é propriamente
sua. Está se sentindo ameaçado?, não sei. Bem, não. Então, qual a grande angústia?, qual a
origem desse veneno?, dessa corrosão intestinal?, isso está se tornando repetitivo, é
extremamente maçante, eu quase não agüento mais. Mas acontece que foi por sua própria
vontade, pouco importa qual situação é a desta, se está indomável ou domesticada, que agora
essa imagem está aí aparecendo, mas não, por sua vontade veria ainda muitos outros rostos,
este em si não o traz nenhum significado especial, mas em breve verá todos esses rostos, meu
caro, muito em breve.
Acordou por ter a impressão de que alguém se aproxima ou em algo o ambiente se altera.
Ainda não dispondo da lucidez de captar, doeram-lhe as pálpebras por instinto, as abriu e a
devastadora luz veio queimar os olhos, virarei cinzas, não, choraminga, eis o fim. Ana estava
de pé em frente às cortinas, as abriu e deixa o dia raiar. A sensação da contração dos olhos
vem com dor passageira e forte, soco nas têmporas ou acupuntura errada no chakra da visão
que sempre andou cego, a agulhada o arranca um gemido. Bom dia, ela te cumprimentou.
Parece mesmo ser um lindo dia, a você que não passou a noite tentando colocar seu corpo
para dentro de um sofá, não ficou preocupada com a deformidade da coluna vertebral e se um
dia vai se descobrir corcunda. Pôs-se a se cobrir ainda mais, resmunga a intenção de dizer
todas essas coisas e agarrou a ponta do lençol e o trouxe para a cara.
– É tarde, já é hora de levantar – diz a mulher, e pode ouvir seus passos a trotar pela sala.
– Não tenho nada com isso. Pode deixar a sala escura.
Nem se lembrava exatamente em que ponto da noite tinha deixado que o sono chegasse.
Certamente foi em algum momento entediante do filme que assistia, para o qual na noite
passada resolvera mudar quando decidiu ser chato assistir a coletiva do senhor Condor, cuja
cópia da fita foi cedida gentilmente por Marcus, a quem ele seria eternamente grato. Achou que
pudesse conhecer melhor com quem estava lidando, se não isto, ao menos teria idéia do
comportamento público desse Condor. Mas acabou não lhe servindo de muita coisa, o diálogo
mantido entre os jornalistas da platéia e o velho quase não era um diálogo, e as perguntas
eram sempre feitas de maneira tão formal e respondidas com reciprocidade. Que monótono
não haver um escândalo maior, não perguntas sobre escândalos, mas algo como uma antiga
amante chegar no salão o acusando de ser pai do seu filho, enfim, qualquer coisa que fosse
rasteira, que arranque vaias e ohs, tudo o que estou precisando, diz-se, é um pouco do
inesperado. Mas talvez precise me acostumar com o morno, as pessoas vivem de morno, devo
descobrir por que gostam do morno, que se elas podem, eu também posso. Fechou os olhos
para proteger-se do sol e gravado na memória ainda via o rosto de Júlia sorrindo-lhe e dizendo
oi, isso o relembra do mal humor que deve de praxe sentir pelas manhãs.
Esgueirou a cara para fora dos cobertores, pela televisão desligada deduz que alguém
durante a noite o poupou do esforço de ouvir algumas reclamações pela manhã. Movimentou
com dificuldade a cabeça, viu que Ana já está de costas dentro da cozinha, os azulejos da
divisa desta com a sala refletiam as variedades matinais bem na sua roupa branca, arabescos
estilosos da vida moderna, parecia que os fiapos dos cabelos eram uns faróis, mas até que não
o ofuscava. Piscou os olhos para enxergá-la melhor.
– Não se importa de levantar mais cedo toda manhã pra aprontar todas essas coisas? –
perguntou, enquanto coçava a garganta com a língua.
– Como assim? – ela virou de relance para conferir.
– Marcus demora pra ir ao trabalho, sempre acorda mais tarde, toma o café e ainda fica um
tempo depois com os pés pra cima. Aí eu e ele ficamos à toa conversando bobagens até a
hora dele sair, é quando eu volto a dormir. De mim então nem se fala, eu reclamo até pra ir à
feira ou à farmácia quando um de vocês tá gripado. E no máximo você resmunga.
– O que te deu? – ela quase riu. Ao fundo de sua voz, o barulho de coisas na frigideira.
– Só curiosidade, mesmo.
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– Se você acha que sou explorada dessa maneira que tá dizendo, o mínimo que você
podia fazer é agir um pouco diferente, não acha?
– Não sei, ainda não pensei sobre isso. Mas se não te incomoda, por que eu mudaria?
– Nossa!, eu realmente agradeço a consideração.
– Não é nada disso, não entenda mal. Deixa pra lá – coça a cara.
– Acho que cada um deve fazer a sua parte, eu me esforço para fazer o que posso – ela
continuou.
– Onde está aquele espírito feminista que fala de mudar o quadro das mulheres dentro da
família e do mundo etc etc?
– Alex, que babaquice é essa?, desde quando você se interessa por mim?
– Não sei, às vezes a pessoa acorda com uma iluminação diferente da que sempre tem.
– Sei, e pra começar a pôr a sua nova iluminação em prática, pode se levantar e vir aqui
me ajudar.
– A dor nas costas tá me matando, você não tem idéia do que esse sofá pode me fazer.
Não tinha muita certeza, mas misturado com os distantes sons urbanos que amanheciam
teve a impressão de por trás das paredes finas identificar o barulho de água caindo, presumiu
que o camarada esteja lá no banho, a acústica das paredes sempre o confunde, a cacofonia do
dia o deixa enjoado, talvez só a suporte durante a noite pelo longo tempo que teve para se
acostumar, acontece que a essa altura o dia já se foi. E esses cantos de passarinhos, não
pode suportá-los pelo tempo que lhe resta de vida, alguns já devem estar debruçados no
parapeito da varanda, orquestras inteiras de um forçoso bom dia, bom dia, bom dia, de
repetição que por ser repetição o estremece e já o deixa a tremer só pela idéia de ouvir. Mal
ouve Ana, sua voz lhe chegou muito mais distante do que estava, então levantou o pescoço e o
coçou, a barba por fazer raspou-lhe os dedos, ia fazer sinal para que repetisse, mas ela deve
tê-lo notado antes, de forma que se adiantou.
– E o que tem feito?
– Ontem fui ao mercado, fiz algumas compras pra nós.
– Eu vi, fiquei impressionada – fala brevemente. – Que mais?
– Está esperando algo em especial? – apoiou a cabeça no braço do sofá. Deus, e essa dor
ao virar de lado, queria ter exagerado ao falar do sofá.
– Certo, vou perguntar. Qual o seu interesse naquele artista?
– Artístico – mas não conteve uma risadinha.
– É sério.
– Não precisa se preocupar, na hora certa saberemos.
– Saberemos? Como se você não soubesse ainda?
– É isso.
Rolou para manter a pança para cima, que a última pauta não vem sendo agradável.
Qualquer coisa que desperte pensamentos induz à necessidade de se estar só, e é que cada
vez mais isso vinha se tornando difícil, e aí, como parte de alguma ironia, ele se diz que ia
praticar o retorno à escuridão. É mais uma daquelas idéias que parecem surgir de um riso
corriqueiro mas a qual vê-se fazer sentido e tudo mais. Fechou os olhos, e como se fosse mais
produtivo recordar linearmente do panorama que já tinha realizado, se pôs a retornar até a
noite da briga e do capô. Visualizou, ou de repente uma coisa assim não se vislumbra, mas se
degusta, se saboeira a sensação que era ter gosto de sangue na traquéia, foi tão eficiente que
chegou a mudar a expressão, puxa, que noite, diz aí, você vai achando que uma saída no
estacionamento é uma coisa simples, e quando se deu conta está precisando de uns pontos na
cabeça. Pensa só se eles tivessem uma arma, que aí vir pegar o carro seria fatal, é prova de
que nunca sabemos o que nos espera na esquina seguinte, finalmente vemos o quão não
podemos controlar absolutamente nada, sempre somos insuficientes diante da surpresa ou da
morte, essa coisa que todos esperam, mas de conteúdo pior que as travessuras e traquinagens
no dia das bruxas, são coisas que esperamos mas ainda gritamos de susto, e tenta agora
lembrar do eco da voz de André. É um amigo marcante, de deixar cicatrizes, e há muito não o
via, tentou agora lembrar da forma que a brisa soprou com apatia de coisa, que o chão úmido
crepitava inconsciente de si... que mentira, pára. Por ter pensado em André inevitavelmente
pensou em Júlia, essa sua maldição das madrugadas mal dormidas. Restituiu-se, apertou mais
firmemente as pálpebras, é como se sentisse dor e se distraísse.
Bem, bem, retomava aquele processo de imersão e entendimento. O homem que deseja
se livrar das âncoras às quais foi acostumado a ter amarradas na canela precisa repensar,
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antes de tudo, quais os efeitos dessas idéias, doutrinas, o que forem, como vêm a funcionar
dentro de si, e pode isso parecer uma forma genérica de se pensar sobre uma coisa, uma
fórmula alegórica que por acaso ele descobriu, mas não, o pretexto para realizar esse processo
pode ser encontrado em qualquer situação diária e, no seu caso, o pretexto está nos seus
próprios episódios que vêm vivendo, como o sentimento de receio que teve ao ser esbravejado
pelo motorista quando cruzou desatento a rua, que abriu margens à indignação e a noção de
intolerância, que me levou a temer?, se pergunta, o que me levou a me sentir acuado por
aquele sujeito franzino, mas de expressão ameaçadora, simplesmente porque tinha uma voz
ríspida? Até que limite o instinto de sobrevivência é realmente um instinto natural, quando é
que passa a nos ser paranóia imposta?, o nosso medo se refina ao longo do tempo, e se
alguma coisa não nos coage é porque foi mal aproveitada. E pode vir a coagir. Aí, fez o retorno
para entender como se sentiu diante daquela briga que aconteceu faz tanto tempo, de modo a
tentar responder por que cada chute, cada cabeçada e o sangue descendo o supercílio o
faziam sentir-se tão vivo, e por que naquela hora, que podia ser uma outra qualquer, estava
convencido da sua disposição de matar um desconhecido simplesmente porque sim. É verdade
que o homem exclusivamente dócil é uma vítima dessa sua gentileza, esse é o homem
estimulado pelas propagandas que o iludem com aquela máxima do faça tua parte por todas as
coisas, enquanto é levado a subestimar que isso pode tirar a sua vida ou arruiná-la. A parte
que está fazendo só servirá ao uso de uma coletividade que não vai chorar a perda da pessoa
que era, mas da pessoa que servia e estimulava a crença, obediência e combatência. Que
melhor pode haver à pessoa senão sua própria lucidez e, como coisa antes de qualquer coisa,
a sua própria sobrevivência?, o gentil é como o bicho que se entrega nas garras do predador, o
gentil ou esse estado dos aficionados, que por suas próprias razões é interessante que haja
submissão geral, ou pode também ser gentil o sujeito que nada tem a perder, nem as
esperanças, está vivo por acaso e dessa forma deixou de ter tudo a temer.
Outro que olhasse para a cozinha veria a mulher manuseando a louça e pondo a mesa, a
mecânica familiar mais simples. Alex não, ele vê o potencial assassino oculto, a frustração
atrás das sobrancelhas firmes, a raiva que pode surgir das mãos delicadinhas, prestes a tomar
uma faca e espumar de descontrole. Porque, quando menos esperasse, ela passaria a lâmina
em sua garganta. Mas julgar as pessoas só pelos seus impulsos é subestimá-las, de fato, há
sempre mais a ser visto.
A forma como o mundo anda é covarde, o que se faz a muitas pessoas é covardia,
principalmente por essas formas de covardias terem de ser praticadas pelo apoio perpétuo de
mentiras. A sinceridade faz falta, com sinceridade até a violência torna-se mais bonita. Esses
conceitos em especial eram opiniões muito individuais a ele, não podia exatamente raciociná-
las com as demais. Então, mais uma vez crescendo na forma de um gameta irônico, resolveu
retornar à escuridão com a idéia sinceridade, afinal ele não vai querer contradizer-se ao tomá-
la como absoluta. Por que devemos prezar pela sinceridade?, perguntou-se, já que a ilusão
provou constantemente anestesiar os sentidos às coisas feias, amenizar o desespero em
situações de tragédia, já que é sabido que conhecimento muitas vezes pode não trazer
felicidade. Essa provocação a qual se induzia não era simples capricho, principalmente quando
todo o seu método está apoiado numa ânsia obcecada pelo esmiuçar da verdade. Então, que
devia achar da sinceridade?, um valor absoluto e inquestionável em qualquer situação?,
contaria sobre a esposa do melhor amigo que ela o trai, essa mesma moça que aparentemente
o ama, quando se vê que ele nunca esteve tão feliz?, justificaria a revelação com a crueldade
do direito de saber?, ou seria arrogante a ponto de ser ele a julgar a paz e proteger o
camarada?, às vezes não ser arrogante é fraqueza de burros que não tomam escolhas.
Contaria para o pai que descobriu que ele só tem mais dois meses de vida?, diria para a gente
que a justiça deslizou mais vezes do que acertou?, com que objetivo, para quê? Não
respondendo nem que sim, nem que não às perguntas anteriores, pensou se a única forma
crucial de sinceridade não era a verdade consigo mesmo, sem a qual aparentemente nos
tornamos todos verdadeiramente estúpidos. Talvez seja somente isso o que até então vem
sendo praticado. Então se diz que a sinceridade só caiba àqueles que escolheram ser fortes.
Parece justo que possamos escolher. Parece justo, e só posteriormente retornará à escuridão
quanto às interpretações da justiça, mas enfim, parece justo que todos possam questionar o
que seja dito, assim como parece justo que todos mereçam duvidar de tudo até que lhes
provem o contrário, ou então que fiquem loucos.

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Conseguiu tudo isso por se lembrar da noite do capô, sentiu-se feliz por ver em si mesmo
sua idéia a comprovar-se, se é cobaia de si mesmo ou do retorno à escuridão é algo que nunca
chegará a saber. Mas, como nos conta a expressão que diz sobre tudo ter seus diversos lados,
nem sempre apenas os proveitosos, dentro de sua demorada introspecção deixara de notar a
mesa agora pronta, tal como a chegada de Marcus, que engravatado já se acomoda entre os
pãezinhos e outras coisas cheirosas e quentinhas. Levantou-se e foi se sentar. Não se fez de
rogado, logo a torrada quente já ocupa o prato, da mesma forma caçou pelo queijo, está
servido. Tomaram todos o café da manhã com cumplicidade e a máxima serenidade quotidiana
que se possa imaginar. A cada nova garfada na omelete ou bocada nos pães, lhe subia com
sutileza aquele fogo, para depois converter-se numa fúria que era como se o apertasse as
vísceras, tudo por não mais suportar estar ali, queria fugir, não sabia por quanto poderia evitar,
e por dentro está gritando e revirando tudo que for simétrico, por fora está a retirar uma fatia de
queijo. O jeito como os casados olham um para o outro é desprezível, começa a parecer que
qualquer forma de hábito também é. Condenava a si mesmo quando começava a considerar
normal que aqueles dois passassem dias sem olhar para o rosto um do outro, quando até uma
briga resolveria as coisas, coisas que não sabe quais são, mas uma briga diria muito mais, um
choque era tudo o que precisavam, apenas precisavam se chocar um ao outro, mas às vezes é
nítido demais que não se suportavam, perderam o interesse até da briga, enquanto ainda há
muitas coisas que os prendem, talvez seja mesmo o amor cru, quem sabe?, e ele gosta de
coisas cruas.
Então, talvez numa das primeiras vezes em sua vida, se viu pensando em qualquer coisa
sobre o futuro. No início como um sonho simples, como esses de que todos fazem idéia, que
inicialmente se deseja estar bem e realizado, lidando com as coisas que gosta, mas aos
poucos o sonho toma mais vida e alimenta as esperanças, mesmo que essa não tenha um
destino, às vezes não precisa de rumo, mas apenas está lá, sonâmbula e tateando pelos
cantos, incerta a que cômodo desliza, e em seguida ele se verá traçando uns planos
consistentes, se perdendo em situações imaginárias e cometendo toda classe de desatenções
que cometem os que esquecem do presente para viver no depois. Divagou com a conversa
que o casal agora estava tendo, refletia acerca do tom de voz, do temperamento, aí se punha a
imaginar uma solidão que de repente nem devia existir entre eles, assim como tristezas que ele
presumia viver escondidas num outro sorriso. Talvez tudo isso só diga respeito a você, Alex.
Se pudesse a ele haver um futuro diferente, como antes estaria se colocando a pensar, e
se essa projeção no além de si mesmo ainda poderá existir um dia, ele nunca saberá, mas a
verdade é que esse instante, no qual agora se encontra, definiu um certo rumo de sua história
para sempre, entenda-se o agora como uma importante matriz. Levava o garfo misturado em
várias coisas à boca quando o telefone tocou, parou só um centésimo de instante para associar
o som com a respectiva coisa que o grita. Marcus fez que ia levantar para atender, mas Ana
tomou a dianteira e docilmente disse que ela mesma o faria, assim caminhou até a mesa do
canto da sala e tomou o fone do gancho. Alô?, se passaram alguns instantes de espera,
quando ele a olhou ela estava espreguiçando, ficava bonita fazendo isso com aquela blusa que
usava para dormir, ela tem peitos bonitos, ela levantava e podia insinuar sua saúde. Oi, sim,
tudo bem, continua, é esse mesmo o número, então levantou um bocadinho as sobrancelhas
como que acabando de ouvir algo que estranha, e aí foi que se virou na direção da mesa e
falou.
– Alex, querem falar com você.
Ainda não tinha sequer engolido a comida, foi rapidamente que virou a cabeça, tratou de
não mostrar euforia. Arrastou a cadeira e foi ao telefone, o qual lhe foi entregue pela mulher
com expressão de pergunta, uma coisa assim não pode ocorrer sem que preste satisfação.
– Oi – falou.
Aí veio a voz do outro lado da linha.
– Bom dia – a voz foi reconhecida.
– Senhor – murmurou, olhando para trás e vendo que os outros continuavam seu desjejum,
isto é, às vezes deviam dar lá sua olhada.
– Sou eu, pelo visto esteve a minha espera.
– Estive – por alguma dessas tantas causas que se tem, o excitava mais a idéia do perigo
que qualquer outra, havendo perigo só na imaginação ou não, tanto faz, mas ao falar de forma
lacônica parecia estar tratando de algo proibido, isso trata de inspirá-lo.

128
– A semana foi dura, tive que arranjar um tempo que não tinha para poder ler suas idéias –
bem, então o tinha lido, era começo o suficiente, está claro o bastante, mas era de se esperar.
– Sim, compreendo.
– E naturalmente estudei o que me propôs.
– O que achou?
– Digno, além disso não sou eu que posso julgar, melhor deixar que o tempo o faça.
– Então isso significa um sim.
– É, meu rapaz, colocarei o seu retorno à escuridão em circulação – sussurrou gravemente
a voz do outro lado.
– Agora é nosso o retorno à escuridão – anuiu com um sorriso invisível, mas gratificante. O
orgulho já calmo amainou, agora que era estável parecia já não ter por que existir.
– Que pensa que vai fazer comigo?
– Quê? Não entendi.
– Me julga um velho bandido, mas o que acontece, meu rapaz, é que isso não significa que
eu queira abrir os braços para aceitar o peso do mundo sobre mim.
– É claro, e não vejo por que teria de fazer uma coisa dessas.
A voz do outro lado riu. Sem um rosto era impossível decifrá-la. A respiração tremulou por
causa da velhice, e a voz continuou.
– Em que apuros você está se metendo, rapazinho?
– Não entendi.
– Ora, mas tudo que eu falo você diz não entender. Tente parecer menos estúpido. O que
eu estou dizendo é que você parece ter seus próprios problemas lá com as gravidades que só
você entende. Devo te elogiar, fiquei impressionado, e não é pelas coisas que você disse, mas
como disse e para quê. Isso tudo foi no mínimo interessante, mesmo você sendo um
desconhecido. Na verdade é precisamente por você ser um cara qualquer que isso é
interessante. Não vou julgar tê-lo descoberto por ter lido algumas de suas penitências – esse
termo soou com uma profundidade atávica –, é o que acredito, e acredito que você também
ache que isso seria subestimá-lo, o que me diz?
– Não sei exatamente o que pensar.
– Que é isso?, desespero?
– Não, senhor. E quanto aos outros termos?
– Preciso encontrar-lhe, quando pode? – a voz pareceu mudar seus rumos.
– Temos outras pendências?
– Ainda falta tratar das que você mesmo criou.
– Claro. Posso qualquer dia, qualquer hora, mas se marcar desde já eu agradeceria.
– Antes me mate uma curiosidade.
– Qual? Diga.
– Por quê?
– Por que o quê? – sacudiu a cabeça.
– Por que fez isso tudo – respondeu didaticamente –, o que realmente quer? Como sai
ganhando?
– Às vezes se faz as coisas simplesmente porque devem ser feitas.
– Tu és pensante, não um imbecil – exclamou.
– Bom, já é algum reconhecimento, fico feliz.
– Não me venha com essa, responda.
– Senhor.
– Fala.
– Há uma parábola oriental que conta sobre uma criatura que vivia acomodada nas folhas
de um rio, acho que todos já ouviram falar pelo menos uma vez nessa história. Aí a criatura
resolve soltar-se.
– É, conheço.
– Eu sou a criatura – disse e riu, como se satisfeito.
– Se me recordo bem, ela se espatifa nas rochas.
– Nesse caso sou uma outra criatura – pausou por um segundo. – Não sei, é um risco,
talvez eu esteja querendo descobri-lo e ainda não saiba.
– É, rapazinho, mas não está me convencendo.
– Não faz tanta diferença, eu acho. Onde posso encontrá-lo?
– No hotel, à mesma hora de antes, daqui a três dias.
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– Está ótimo. Mas escute, vou me adiantar, e quanto as outras coisas que pedi? – vigiou
atrás de si quando ouviu o som da água trincando nos pratos, com sorte teriam levado em
conta que não terminara a refeição e deixaram algo sobre a mesa.
– Iremos conversar sobre o jornal, da próxima vez que nos encontrarmos não seremos
apenas nós dois.
– Certo – murmurou –, e quanto à estadia?
– Está pedindo muito, rapaz, sabe disso, melhor que não abuse da sorte.
– Não estou lhe fazendo uma surpresa.
– Isso você já fez antes. Apenas está sendo exigente.
– É um risco – coça a cara.
– Nem tudo é sempre um teste.
– Eu não sei, senhor. Eu vou descobrir.
– E descobrirá o quê?
– Até que ponto se pode confiar na palavra.
Do outro lado da linha por instantes não se fez som algum.
– Estou com o que você fez, posso publicar como se fosse de outro, não quero mesmo que
seja meu, e me livrar de tudo isso, o encontro, o seu pedido, que eu te conheço e que
conversamos – sussurrou.
– Estaria disposto a isso, senhor Condor?
– Posso estar considerando agora.
– Vá em frente – respirou fortemente.
– Não se importa, senhor Alex?
– Não acho que queira fazer uma coisa dessas.
– E se ainda assim o fizer?
– Nesse caso terá conseguido um inimigo por ter roubado os créditos que eu não pedi.
A risada esganiçada soou do outro lado, ainda assim aquela coisa rosnada, velhaca, feriu
seu discernimento. O senhor Condor então falou.
– Faço o que for preciso, não sei o que quer com isso, mas adianto que vou conseguir o
que me pede, assumo todas responsabilidades pelo livro. Eu fico com os pesos. Eu abro os
braços e assumo tudo por você. E me responsabilizo pelo que você não assinou.
– Está me prometendo?
– Adianto que pode arrumar as malas.
Talvez esse som que tenha ouvido tenha sido mesmo o de um trovão, ele veio de longe,
seco e amordaçado, cachorro velho que tenta uivar para a lua que não há, ele deduz que por
instantes tivesse se deixado seduzir por um cochilo, estava mesmo precisando e ele veio
reivindicar-lhe a alma sem memorando prévio. Quando abriu os olhos percebe como a noite
está muito mais densa e opressiva da que se lembrava, por trás das venezianas umas danças
de sombras estranhas se formavam, em tudo em torno impregnava o silêncio que era cortado
pelo som apagado de chuva na janela. Esticou o pescoço por sobre o sofá, essa sim é uma
boa hora de estar em casa, coça o rosto e julga estar com os olhos vermelhos de cansaço. As
imagens da televisão ainda transmitem a todos nós num volume sussurrante a programação da
noite, um filme onde uma mulher olha a porta do quarto e parece assustada em supor o que
poderia haver lá dentro. Alex se pôs sentado no sofá e imaginou, com o rosto curvado sobre as
mãos, se talvez agora não tivesse muito mais lucidez para pensar, a verdade é que ainda há
muito a ser esclarecido de si para si sobre seus últimos episódios. Vou fazer um discurso, se
disse, vou levar a eles da sociedade tudo o que penso anotado num papelzinho e na hora nada
vai me faltar, verão o que é ânimo e entusiasmo, verão o que sou capaz de fazer, não sou o
rapaz chato, a verdade é que nunca fui, simplesmente não sei o que ser, e o que sou vem de
improviso.
Menos, bem menos, suspirou, deixou que o som da chuva o lavasse, e no escuro começou
a temer que qualquer fantasma aparecesse, podia ser qualquer um, do passado ou do futuro,
assombrá-lo é o problema. E Carla dormindo apoiada no braço. Deve ter apagado em alguma
hora do filme, só agora ele a notava, lá está ela com a cabeça recostada no topo de uma
almofada, parece tão suave que nem a posição desconfortável a importaria. Só aproveitava o
seu sono sem semblantes e sem dificuldades. Ela gosta de assistir filmes assim, só com a luz
da própria televisão. Talvez tenha adormecido antes da chuva chegar. Foi uma visão
pacificadora, algo como uma manjedoura que apesar de tosca poderia ser forte para suportar
uma tempestade que eventualmente viesse, não sabe exatamente, mas é o que lhe parece. É
130
hora de começar a ver realmente a que mudanças foi submetido, sabia que as coisas não
seriam nem um pouco lineares, mas ter chegado a um estado como esse era algo que não
havia suposto, e se era mesmo a criatura do rio, por que havia de estar agonizando?,
contradizer-se sempre é o pior de tudo, e sem poder supor o que será no instante a seguir.
Algumas coisas, na verdade essas são ainda recentes, saltavam-lhe memória afora. Por causa
de uma palavra..., soava aquela voz qualquer, que é a voz de todos nós quando se evoca um
pacto e por ele se justifica tudo, a questão paira sobre o significado do trato, assinatura com
sangue para o diabo, e é como se estivesse prostrado diante do que o pacto representará,
ajoelhado numa penitência que implora compreender, o que ele fez, o que causou, de que
modo, como pôde se dar?, impossível retornar à escuridão assim, feito paralisado por derrame,
boca torta, caído ao chão, o próprio cansaço dizia não ser boa hora, que não há como, que era
melhor que aguardasse outra possibilidade. Aí pensava que a vida eram muitas outras coisas
mais, como sair para passear com o cachorro, devia comprar um, como também fazer amizade
com o frentista do outro lado da rua para que o chamasse de irmão sempre que estivesse a
passar, mas a obsessão teima em ensandecer, como numa lupa monstruosa, o significado das
coisas que a despertam, obsessões nunca dormem em paz, as coisas dentro das quais suas
obsessões residem não poderiam permitir-lhe paz. Ali estava ele pensando no dia em que
entrou por aquela porta de casa, que cruzou o vestíbulo do lugar até então desconhecido e se
disse, estático, muito sem graça e triunfante, consegui. De quando, antes disso, recebeu as
chaves da mão do velho, de quando ele o disse vá em frente, e ainda essa, o que ia pensar
quando o visse agora? Pondere, entre tantas coisas essa é uma das quais menos importam. O
filme deve estar numa cena de suspense, bem baixinho uma música tensa toca.
Caminhou com cuidado para não fazer os pés se esfregarem no carpete e produzir
qualquer barulho mais intenso, dispondo de outros zelos dirigiu-se até uma daquelas janelas do
corredor. Quando afastou com os dedos o lance da veneziana, veio uma sensação malograda
que com força quase transbordou opressão adentro do seu casulo quietinho, era porque via
aquela rua para onde dava a janela, a tempestade castigava todas as coisas que estão ao
alcance de sua vista, desde a formar os córregos lamacentos que vão descendo rua abaixo,
até embrutecer as feições dos prédios não muito diferentes que via cercando a sua paisagem.
Se fosse espiá-los por tempo demais, como nesse caso em particular ele faz, poderia ver,
atravessando a escuridão de praxe, a fraca oscilação de aparelhos de tevê acesos que escapa
pelos vidros. Boceja, como se enfim afagado e o temporal não fosse apocalíptico, e se pôs por
alguns poucos instantes a tentar imaginar as identidades das pessoas que vivem atrás
daquelas paredes, que seriam velhas e escuras como todas dos apartamentos desse bairro
com sua decadência, seus rococós, seu tom clássico, para ele significa estar tudo
apodrecendo. Existem poucas coisas mais tranqüilas que olhar a noite enquanto todos
dormem, então está se permitindo relaxar. Voltou-se para dentro quando as formas já soavam
incoerentes demais, parece ser um dos efeitos das trevas, quando se as olha por muito tempo,
parecerem borrar mais e mais, quererem borrar a tudo como se estivessem vindo na sua
direção, querendo borrá-lo também, andar pelo corredor é mais consistente, é menos etéreo,
voltava para seu universo de evidências por se descobrir.
– Carla – sussurra demoradamente ao pé do ouvido da moça, toca seu ombro –, Carlinha.
Acorda. Vai pra cama. É melhor.
A garota ronrona após uns toques, se encolhe ainda mais e se apegou a sonolência.
– Depois – murmura sem abrir os olhos. – Só mais um pouco.
Ergueu-se de volta, atende seu pedido. Por algum tempo a ficou observando, ela se
encolhe ainda mais, talvez reconheça que o tempo esfria, gemia de aconchego. Pensou se não
deveria aproveitar a madrugada para terminar os trabalhos pendentes, querendo ou não as
coisas ainda estão sendo esperadas dele. Decidiu que não havia momento para dormir mais
ótimo que esse. Conseguiu as cobertas da moça, a revestiu, no que pareceu ser bem recebido
pelo instinto dela de agarrar-se aos lençóis, e depois pôs-se ele mesmo recostado do outro
lado do sofá, cobriu-se também, encolheu-se, assim dormiu.

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A pista de dança está quase vazia, não tinha mais que uns transeuntes. Percebe que,
quando assim, a música se torna lá menos substancial, parece embriagar muito menos, o que
nos prova que música também é coisa da visão, se duvidar de outros sentidos demais, então,
quanto menos sentidos persuade, mais fácil de se ignorar, eis o caso. Já faz algum tempo que
precipita o olhar lá para baixo, segue os movimentos de uma daquelas garotas que estão ali ao
bar, por algum tempo detém sua atenção sobre ela, enruga a testa e reflete que ele deve estar
dando a parecer que pensa coisas muito enigmáticas. Riu-se ao dar-se conta que não
conseguiria formular nada que fosse mais difícil que uma reação, ou seja, se alguém lhe
dissesse olá, ele responderia, se o tocassem se arrepiaria, o batam e se encolherá, um ou
outro ai etc. A garota lá fica cada vez mais à vontade, conclusão tomada por ela estar tirando a
jaqueta de couro preto e jogando-a nos próprios ombros, não é dessas que gostam de usar a
chapelaria, ela ainda permanece próxima ao balcão, deu uma volta em si mesma, que deve ser
para estudar toda essa gente, ou aqueles que a interessarem, mas tem recato, não parece
desesperada e espera o pedido que fez ao bar, que tudo pode ser feito entranhado de cuidado,
ela não parece dispensá-lo. Seria idiotice à sua atenção não se ater ao corpo delgado, à
cintura fina, aquelas curvas apertadas da camiseta branca, é uma manipulação evidente de
seus olhos, todos os recursos mesmo com discrição gritam por Alex, logo presumirá que não
só por ele, ali está ela se debruçando ao bar, volta e meia olhava para trás, pode estar à
espera de alguém ou somente caçava, é melhor tomar cuidado para ele mesmo não ser
reparado.
Despeja os restos do fumo no cinzeiro com o que julgava ser um solene ar de indiferença,
torna o olhar para suas proximidades, confuso como se o lacre de entre situações distintas
fosse indistinguível, baixaria assim as sobrancelhas austeras que assumem que seus olhos
espreitavam coisas que pesam, tornando a sorrir de um instante ao outro, coisa que talvez
consista em mais um indício que quase tudo do que faz é inocentemente teatral, ou,
considerando por outros termos, talvez o bicho se adapte aos vários meios que o cerquem em
sintonia com suas próprias vantagens, ele quer extrair vantagens de tudo mas se pega
encenando e fracassando. Mas o que lhe recepciona a cara de falso conforto é mais fumaça,
ainda empesteia o ar como um círculo de vários cheiros, aí fumou passivamente aquilo que
não se sabe quem despejou. Embebedou-se mais um pouco, virou o copo. Sorriu ainda mais,
dizia com isso calma lá, amigão, já está tonto.
– Nesse mundo estamos só, não se pode confiar mesmo em ninguém – disse Barbariccia.
– Por quê? – perguntou Alex.
– Foi um daqueles cretinos, senão um complô deles a fim de me derrubar. Imagine você os
problemas que isso não me rendeu com os caras grandes?, pense só.
Pensou que devia se referir àqueles que sempre andam com ele, que a hipocrisia lhes é
uma norma não vale a pena duvidar, mas até os bárbaros se organizam com suas éticas que
aos de fora parecem contraditórias, a desordem é esse outro lado que ficou por entender. Tudo
o que pôde fazer foi assentir quase nada, dizia algo como um é, não exatamente sei ao que
você se refere, não passei por isso, mas imagino, e é isso aí, é como são as coisas, que isso
dá para saber muito bem.
– Como andam as coisas? – Alex tornou.
– Um pouco de perda de crédito, inevitavelmente perda de contatos, uns canais
importantes em uns pontos importantes, é isso, a credibilidade vai junto, mas ainda estou vivo,
sigo sobrevivendo. O importante é estar vivo, isso é o que conta, o resto se manda buscar.
– É encorajador, parece que nada é certo, nada é fixo ou enraizado. Não sei, já não sinto
mais como se estar vivo fosse encorajador. Como vai a esposa? – repara no fato de nas vezes
que falava dela mostrava mais paixão que muitos dos românticos que vagam por aí, o que o
levava a pensar que o trato constante com a hostilidade fazia crescer uma necessidade ainda
maior de compensação, daí nascerá a forma mais pura de amor.
– Em casa com a pequenininha, a levando pra escola, esse tipo de coisa, vai bem.
– E ela, com quantos anos está?
– Vai fazer sete daqui a dois meses.
– Lembro de uma foto dela no seu colo – bufa rindo da coisa surpreendente.
– Pois é, o tempo passa, a vida vai-nos esquecendo no meio do caminho.
– Não diga isso, você até que vai bem, fez-se lembrar, algo assim – e não sabe se essa é
uma ironia.
132
– Mas há coisas que me fazem sentir o pior de tudo, exemplo, só me sinto mesmo ótimo
quando estou sozinho.
– Nesse caso desculpe atrapalhar.
– Não se preocupe, você não faz diferença, Alex – e conteve a gargalhada junto de tosses.
– Isso mudou tudo, agora me sinto muito mais lisonjeado, obrigado por contribuir.
– Não fale besteira – Barbariccia continuou rindo –, sabe como é, existem – e começa a
gesticular – vários tipos de valores, de, de – busca o que falar – atenção que você deposita
sobre alguém. Você sabe que por nunca ter me pedido nada pode contar comigo quando for
preciso. Mas eu tenho a impressão – tosse-tosse – que eu não tenho o seu estilo, que você
nunca precisaria, se é que existe mesmo uma coisa como essa, se não é frescura. É melhor
não desdenhar, que do amanhã não sabemos, é, sim.
Alex acena positivo envolto da neblina de fumaça, Barbariccia lhe serve o copo uma vez
mais, o uísque caía pesadamente ao fundo com o som do gargalo cantando.
– O que anda aprontando?
– Vou me apresentar pra um trabalho por esses dias – coçou o queixo.
– Parece importante. O que vai fazer?
Alex suspira rindo como se dissesse é, importante, sim, assim como o engraxate de
sapatos encara a importância de seu ofício porque sabe que os clientes precisam estar
apresentáveis, caso contrário poderia comprometer diretamente as estruturas da dinâmica de
nosso sistema, pense só, o moço chegaria desengonçado e com o sapato furado a uma
entrevista de emprego e jamais seria aceito por ser visível como ele é um pé rapado, o
engraxate sabe que é peça vital para manter uma farsa e encorajar a boa vontade do poder,
assim como o cliente chega ao doutor e o vê com respingos de lama no couro do calçado, é
quase como sentir um dentista ter mau hálito ou vê-lo com os caninos amarelos. É por essa
consciência crítica de que o engraxate não abandona seu posto, e dia pós dia segue
corajosamente fazendo frente às agruras do viver, mas o que torna seus conhecimentos
indispensáveis, constituindo talvez até mesmo a parte mais fundamental da pirâmide de nossas
produções.
– Vou escrever umas besteiras que os outros me pedirem – acenou positivamente.
– Ganha bem?
– Isso ainda vou ver, mas acho que já dá pra prever. Mas fiz uns trabalhos por aí e fiquei
de receber um bom adiantamento, então tudo bem.
– Escute, se estiver precisando de algo, qualquer ajuda etc, sabe mesmo o que fazer.
– Não, tudo bem, mas obrigado – tragou mais ainda o cigarro. – As pessoas trabalham,
não sei, a honestidade parece justa – engoliu num trago o que tinha no copo.
– Sei, os que fazem trabalhos como o meu é porque estão desesperados, não, quando eu
digo desesperado mais parece que é de morder os cotovelos, digo no sentido de não verem
mais alternativa alguma, mas de repente é mesmo porque são muito ambiciosos, ficam
desesperados de fome. Ou simplesmente temos talento pra isso. O problema é que a gente se
apega.
– Ainda assim muita gente precisa de você – volveu a cabeça para as direções da pista lá
em baixo.
– É isso que me dá valor?
– Se há outra forma de se encontrar um, eu não sei.
– Compreendo, compreendo.
– Se não for você, vão arranjar outro e colocar em teu lugar para fazer o serviço sujo.
Precisam disso, sempre tem alguém para fazer a coisa pesada, o que todo mundo despreza,
quem as faz são pessoas capazes de arcar com as conseqüências. Os garotos bons seguem o
que mandam os chefes.
– E você é um rapaz bom, Alex? – e sorriu.
– Não, sou o cara mau.
– É, tem lá o seu sentido, mas você não é o cara mau de verdade. Você não sabe o que é
maldade. Você talvez seja o cara esperto, mas eu não sei muito bem. Eu não sei que tipo de
cara é você. Mais um copo?
Acenou que tanto fazia com a mão, a vista cruzava rasante as formas lá de baixo, agora
havia mais confusão no salão, os mais corpos dando-se aos conformes de suas danças e tudo
mais. Focou a atenção em grupos de estranhos pululantes, como predador resenhou-lhes
habilidosamente as formas, mas foi mesmo ao bar que contornou diversas vezes, indo e vindo,
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estudando com velocidade e em silêncio a qualquer coisa, e novamente a encontrou, aquela
garota que viu chegar não tinha ido muito longe, se entretinha no balcão com uma daquelas
garrafas de cerveja, agora está sentada e tem à sua sombra um rapaz que vendo assim de
longe parece mesmo elegante. Talvez ela o conheça, é que ele estava sério, geralmente
estranhos sorriem uns aos outros quando querem se impressionar, nesse caso ele parecia
seguro do que fazia e talvez não se preocupe em ser diferente do que é no geral. Surtia algum
efeito, a moça sorria, um daqueles sorrisos distantes de quem avisa que não quer se envolver
ou dar atenção demais, mas simultaneamente anuncia que com jeito e certo esforço as coisas
podem vir a ser diferentes. Ela olhava para os cantos, assim, como quem não quer nada, como
quem não se decidiu, nem conheceu as opções que tem, como quem não pretende muita coisa
nova, e ele ia gradativamente aproximando-se, inclinando-se sobre ela, pronto, agora ela o
afastou um tantinho, disse que não era bem por aí, fez uma cara séria, mas é uma dessas
caras que podem ser contornadas. Aí ele sentou-se ao lado e falou alguma coisa do tipo, pára
com isso, vamos lá, deixa que eu te pago a próxima, quem sabe não sou tão desagradável
assim? Ela o olhava, fitando como quem pensa. Deve estar cogitando algo do gênero devo?, é
apropriado?, não sei, não sei. Mas a indecisão fez concessões e ela sorriu de forma que
acatava com seja lá o que tenha sido mesmo dito, o rapaz deve satisfazer-se, que sorriu de
volta, e Alex ficou contente em adivinhar o diálogo com tanta clareza, confirmado pelo fato do
cara agora erguer sua mão sinalizando que viesse o barman.
Foi remetido quase involuntariamente a uma de suas lembranças.
Primeiro ouviu o som dos tacos quando batem contra as bolas, experimentava tão
vividamente que não faltava muito para ouvi-las abocanhadas num gole das caçapas. O cheiro
que vinha ao seu nariz mudara. Era um desses pubs, não recordava ao certo que música era
aquela que estava tocando ao fundo, só tinha a certeza de ser uma melodia popular, dessas
calmas, dessas que estejam atualmente fazendo um sucesso quase mínimo, e ele é ignorante
para reconhecê-la. Olhou para o lado, se entreteve com a imagem de uns sujeitos no bilhar,
mas nunca foi esse um jogo que o tivesse fascinado, por sinal não se considera muito bom em
jogo algum, deve ser por falta de dedicação, da preguiça que tem simpatia com o hábito de
enjoar fácil, não só de jogos, mas de jogos também. De qualquer forma, ali na mesa o mundo
segue bem melhor, tinham organizado sobre ela um lance de garrafas vazias, o cinzeiro mais
parece um ferro-velho embrulhado. O rapaz imediatamente à frente, André, fumou o resto de
seu cigarro, pigarreou com excesso e atirou a guimba. Nessa ocasião a consciência o tinha
abandonado por algum pouco tempo. Reparava como as garotas sozinhas do bar olhavam
todas para aquele Fabrício, ele se exibia todo enquanto rodeava a mesa a girar o taco, ele
pode. Não aprendeu com a surra do outro dia, alguns nascem abençoados, era praticamente
uma perda de tempo sair com um rapaz desses, ou talvez fosse a imagem de Sabrina junto a si
na mesa que servisse para intimidar as solteiras quando fossem eventualmente olhá-lo, prefere
essa hipótese.
– Tinham policiais por todos os lados, alguém mandou que nos cercassem, não sei bem –
André contava. – Disseram que foi um dos nossos que atirou uma pedra, mas isso ninguém viu
e ninguém sabe, aí deram o aviso para avançar.
– Que coisa brutal – a garota tomou um gole de cerveja.
– Aí teve gente correndo pelas escadarias, fugindo para o trânsito parado, foi uma droga,
os carros tentavam escapar, mas batiam uns nos outros.
– Tá falando do quê? – Alex sentiu-se despertar, os olhou.
– Da revolta dos estudantes – respondeu com disposição.
Alex tomou mais um gole e sentiu a vista rodar, como as íris de um caça-níquel. Era melhor
ir parando por aí. Tomou mais um.
– O que eles fizeram?
– Você não soube de nada?
– Devia saber? – olhou para os outros como se pedisse confirmação.
É, talvez André tenha se constrangido, às vezes isso acontece a ele, ainda assim se
emenda com o sorriso. – Foi o seguinte, a reitoria encaminhou faz uns meses um projeto de
privatização da universidade, isso ocasionaria imediatamente em uns cortes de gastos, do tipo,
acabar com os dormitórios gratuitos, cortar alguns projetos de pesquisas importantes,
maximizar o lucro e diminuir as bolsas, você sabe, transformar o aluno num número sem
qualquer conteúdo.
– Parece bastante interessante – Alex arrota. – Desculpe.
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– Os grêmios estudantis estão engajados nessa luta faz um tempo, mas ao que tudo indica
começamos a perder – falou em tom de quem encara as coisas com formalidade, mas insinua
sentir azia.
– Isso é cruel – falou Sabrina, a maldita já está o bajulando.
– Acontece todos os dias – falou Alex.
– Caramba, Alex, não é assim – André contesta, a erguer os braços.
– É, não fala bobagem – a doutora agora.
– O que é isso, uma conspiração?
– Imagina só, a gente organiza uma manifestação pacífica e os motivos ocultos – isso ele
falou todo eloqüente – nos forçam a recuarmos, dá razões para a polícia nos cercar, e
aproveitando qualquer pretexto a tropa de choque é acionada. Eu soube de um cara que
quebrou as duas pernas com uma só porrada de cassetete, outro foi atingido por uma bomba
daquelas de cerâmica bem no rosto, ficou surdo por três dias – ia contando as coisas e
conforme fazia ia gesticulando animadamente, deve estar bêbado –, muita gente ainda foi se
refugiar dentro da própria universidade, lançaram gás lacrimogêneo nas portas, porque lá
dentro não podem entrar. Tudo para que a gente se dispersasse.
– Não sei como perdi isso.
– Não foi aí que Caio ficou daquele estado? – a doutora voltou-se a Alex.
– Caio?, quem é Caio?
– Alex, pare com isso, ande.
– Não posso ajudá-la, desculpe, realmente não me lembro.
– Caio é um colega que mora conosco, André. Parece que se meteu no meio da confusão
que você esteve, ele ficou uns cinco dias internado, passou por um processo traumático, agora
está com uma depressão chata, evita falar e no máximo resmunga pelos cantos...
– Que droga – ele murmurou tomando mais um gole –, e o pior é ver que as mesmas
pessoas que fazem isso é as que deviam nos amparar, aí eu me pergunto, elas nos protegem
por que é oportuno, correto?, quando não for, bem, é na merda que nos deixarão. Gente assim
que nem a gente, normais, que não tem a quem recorrer, é na merda que acabaremos – mais
um gole sonoro.
– Pior que é verdade.
– Você apanhou? – Alex.
– Tomei alguns chutes na costela e quebrei o braço, mas desacordei pelo calor e por causa
dos estilhaços de uma bomba de cerâmica. Disseram também que eu recebi uma porrada de
cassetete na nuca, mas não lembro, senti depois a dor, mas associei aos chutes – já tinham
detalhes demais, certamente alguma coisa nessa história ele estava inventado.
– Ao menos você foi preparado para a noite do estacionamento – e não conteve a risada.
– É – riu timidamente, ao que indicava que não levou a sério.
– O que não nos mata, fortalece.
– Alex gosta de se passar por sabido, gosta de parecer o cara – ela o deprecia.
– Pode falar das outras coisas nas quais eu sou o cara, também – riu ordinariamente,
notou que ela tenta disfarçar o desgosto, mas ainda assim acabou por fitá-lo fortemente. Se
ressentiu por ter dito isso, mas continua simulando a risada. É que não pode mostrar um
arrependimento assim.
– Bem no alvo – a intenção do humor de André deve ter sido de apaziguar.
– Foi o que ela disse quando eu lambi seu clitóris – e pôs os braços ao redor dela.
– Alex, dá pra parar? – resmungou –, André, o que você faz, que eu não lembro?
– Direito – trincando um sorriso.
– É mesmo, André?, e o que o levou a isso? – Alex.
– Parece oferecer bastante possibilidade – levantou as mãos como se dissesse, olha, não
sei exatamente que resposta dar a você, então me perdoe se eu estiver sendo um pouco clichê
demais, tenho vergonha de ser mais específico e explicar meus desejos além do óbvio, perdão.
– Possibilidade, hein?, diga rápido, não pense, você é um ambicioso ou um idealista?
– Acho que idealista – e sorriu.
– Está vendo, Sabrina?, está vendo? É disso que precisamos, o futuro será claramente
diferente. Preciso urgentemente de um cigarro, só deus sabe a vontade que me deu de fumar.
– Houve um pouco de sarcasmo, ou foi impressão? – André olhava vagamente.
– Não sei, preciso refletir sobre isso, é que às vezes eu falo as coisas assim e só depois
vou me dar conta do que elas significaram.
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– Pare com isso – resmungou de novo a mulher.
André riu de um jeito um pouco esnobe, mas parecia querer disfarçar. – E você, Alex, o
que faz?
– Ele não pode dizer, seu passado é um mistério, deve ser um criminoso – ela tem que se
meter.
André acaba de acender outro cigarro, Alex vê o próprio rosto iluminado numa fogueira
imensa que tem sua origem nos cantos de um clarão. Ouve o som da combustão, o ar prestes
a incinerar, tudo está prestes a explodir. Se tragasse, a mesa inteira ia virar frangalhos, ia ser
empurrado com os destroços na cara. Pode deslocar-se como se estando na tal da revolta, a
sentir fortemente aquele cheiro de suor esfregando-se na sua cara, caindo entre os gritos que
já não consegue identificar de que parte do espaço estão vindo e aqueles sons secos dos
vidros estilhaçando, ou também de quando explode alguma coisa, aquele ruído demorado que
ensurdece até que se tonteie por si só e então caia com o rosto no asfalto. Aí via a fileira de
policias com aqueles escudos e porretes, os últimos batiam nos primeiros como método
primário do exército que apavora o inimigo, uma fumaça negra os envolvia, aí vinham ordens
graves de parem!, parem já com a baderna, e junto vinham os sussurros de xingamentos e
ameaças não oficiais, tipo, seu vagabundo filho-da-puta, vou quebrar sua cabeça, malandrinho
de merda, coisa que completa a parte legítima e a torna um pouco mais divertida. Colocou-se
tanto nessa situação que uma hora era quase como se não respirasse, sentiu-se asfixiar,
estava tão abafado que o ar mal podia escorregar para dentro.
Os carros tiveram suas janelas arrancadas, o bando de bárbaros furiosos subia pelos
capôs e gritava, não se deixarão intimidar a custo algum, tudo isso ocorria dentro do cenário
onírico que não era sentido nem com muitos detalhes nem com muitas formas, apenas via e
entendia essas coisas como se a consciência estivesse falindo e rodopiasse antes dos
instantes da própria queda, via o crucial ocorrendo, isso continha o significado de tudo, e isso
era tudo. E o crucial era, no caso, as garrafas voando, o tufão de fumaça, as pedras se
batendo, algumas delas atingiam-lhe a cabeça. Vê-se caído, agachado e protegido num círculo
de homens que o chutavam, as botas espessas são aço a bater em cada osso, sempre
achavam um espaço para atingir-lhe, é inútil retorcer-se. Cerrou os olhos e expulsou as idéias.
Olhou então para André, os olhos parecem fumegar, é certo que alguns brilham mais que
outros. Ainda assim havia alguma coisa diferente, sabe como é, quando se sente que ainda há
algo indecifrável e não se expressa, que existe atrás da timidez deslocada e mesmo da fácil
comunicação, atrás da lábia ou das coisas que demonstra no sorriso ou na indignação, feito um
monstro de filme de horror que ainda não despertou. Pensou se não é isso mesmo algo
diferente, uma atração espiritual que fascinava mas o repelia, um certo tipo de poder, que se
diga assim, que desconhecia entre os gêneros que andam por aí. Olhou para o lado, para
Sabrina, ia constatar se o que vê não é resultado da bebida. Ela tinha lá a sua ardência, apesar
de que há umas semanas tinha mais do que tem hoje, tinha lá a sua profundidade, mas nada
que comunicasse, nada que fosse mais do que já conhecia ou importava. Ela não importava
muito. E em André não há tanta coisa de diferente do sujeito da fila do banco ou da mulher que
sentou ao seu lado hoje no metrô, mas parecia poder ser mais, em algum momento descobriria
todo seu potencial.
Mas ele haveria de sentir-se mal quando lhe vêm essas crises de superioridade. É quando
se acha ser um diabo espiando a humanidade, um gênio distante, lúcido e muito poderoso,
como se no fim lhe coubesse dar um veredicto sobre o que lhe está abaixo. A soberba
humildade que sentia aborrecia a si mesmo, um desses momentos em que se detesta e no
entanto não pode se ver livre disso. Ouve ainda a conversa prosseguir distante, não dependem
de si para nada, o mundo sobrevive sem a sua presença.
– Contaram sobre o episódio das garagens para mim – Sabrina.
– Mas acabou tudo bem, o mais engraçado é ter conhecido os caras assim. Não posso
dizer que a primeira impressão foi das melhores, mas as coisas se contornam...
– Sou psiquiatra, posso lhe dizer que os loucos são atraentes, mas nunca pelas
impressões que dão...
Alex arrota.
Sobre a noite do incidente, nas periferias daquele lugar cujo nome era XV, tendo a
pronúncia naturalmente como sendo quinze, nome que por sua vez se atribui ao fato do clube
ficar perto de uma praça batizada por algum evento histórico importante, Alex lembra-se agora
do que se deu com os companheiros que seguiam aquele André, dos quais um deles
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obviamente se trata do dono do carro que foi motivo de briga para uns e puramente campo-de-
batalha de outros, então, lembrou-se de um desses caras ter insistido para que fossem ao
hospital mais próximo, disse que estavam todos machucados e estavam perdendo sangue, que
não se pode deixar uma coisa dessas para lá. Só o que ele pensava era, merda, espero que
tumor não se pegue com porrada, posso ter um na cabeça, mas ainda acho que uma noite de
sono é tudo que me basta, que sempre me bastou. Por uns instantes cogitou se aquele rapaz
loiro estendido no chão, um dia o conheceu, não já era um cadáver, por algum tempo a idéia
não o mobilizou muito, como se fosse mesmo justo supor que as coisas tivessem se saído
dessa maneira, como fosse justo não lamentar caso fosse verdade. Mas ele se contorcia e
dava seus tremeliques, está num estado deplorável, mas há sinal de vida, é o bastante.
Contudo aquele seu outro amigo dentre os efêmeros, Igor, chora ao levantá-lo, desesperou-se,
tremia ainda mais que o espancado, aí ele seguia repetindo diversas vezes, por que fizeram
isso com ele?, assim não tem cabimento, perderam a linha, olha o que fizeram, olha só!, como
se não tivesse feito com prazer aos outros o mesmo que fizeram ao desgraçado, a emoção é
sempre interesseira, cega e bastante estúpida, então Alex boceja e tonteia.
Aí se lembrou de quando esteve naquela fila interminável de cadeiras, sentado, sentindo-
se uma pequena partícula, diminuído e anônimo, lembrou-se do cheiro de éter, mais parece a
ante-sala do necrotério, a julgar o que sinto, se dizia, deve mesmo ser, e lembra-se da
inconfundível monotonia da parede toda branca, o folhear de papéis em algum lugar próximo,
também aquele rolar das rodinhas das macas que guincham de longe, era uma tortura ouvi-las,
e a tosse de algum sujeito com tuberculose logo atrás de si, essa hipótese o estremeceu. Um
ou outro velho que passou mal durante a madrugada e teve de vir ao pronto-socorro, havia
também a mãe que mimava a criança cansada e que ainda teria de fazer uns outros exames
para descobrir que teve uma dor de barriga. A emergência de seu caso excede a todos esses.
Mas aqueles enfermeiros carrancudos que vieram, carrancudos provavelmente por trabalharem
toda a noite, então não teria como culpá-los pelo nervoso, eles disseram que não, que
emergência era relativa, que o sujeito que foi espancado era que tinha que ser levado logo ao
pronto-atendimento, ele tinha prioridade. Como não estava com muita dor e sentia cada vez
mais o sono se aproximar, concluiu com uma obviedade infalível que é o fim, já começo a
sentir os frios que dizem exalar da inexistência, vou ser mais um dos que morrem nas filas do
atendimento. Ao menos morrerei sendo uma vergonhosa verdade, é tudo que posso querer. A
criancinha olhava para sua roupa empapada de sangue, devia estar curiosa. Pensou em dizer
é, vai se acostumando, pequeno, esse tipo de coisa é que você ainda vai ver muito na sua
vida, na tv, na esquina, melhor não estranhar. Mas a palidez da criança o compadeceu. O
olhava de um jeito bem tristonho. Deve ser uma puta dor de barriga o que ela tem. O velho
barbudo tossiu na fileira de trás, sabia quem era a pessoa pois já o tinha olhado, podia sentir
as gotículas nojentas de seus perdigotos pousando em sua nuca. Pronto, era isso, estava
contaminado com uma infecção bizarra.
Virou-se para o sujeito ao lado, o sangue lhe escorria pelos ombros partindo da testa, a
contenção da bolsa de gelo que lhe deram não adianta muita coisa. Ele mantém a cabeça
baixa. Mas está ali, é sua última esperança.
– Ei, qual o seu nome mesmo?
– André.
– André, pelo amor de deus, não teria outro cigarro pra me arranjar?
Por alguns momentos ele sorriu de volta como se tomasse obviamente como piada, mas
talvez o rosto de Alex, com um de seus olhos quase fechando, no jeito de bolha inchada de
lama, não lhe fizesse parecer que brincava.
– Acho que não pode fumar aqui – explicou.
Se debruça sobre as cadeiras. Pensou se as enfermeiras ali no balcão da recepção
chegariam a flagrá-lo, era quase certo que sim.
– Não tem importância – sacudiu uma mão, depois silenciou, depois continuou. – Sou Alex,
e você? Ah – murmurou na mesma hora –, é André, desculpa, minha cabeça tá meio – não
terminou a frase, ela é auto-suficiente, atazanada, zonza, rodopiando, o que fosse, bastou que
ficasse apontando para as próprias têmporas.
– Não, tudo bem – disse que entendia.
– Diz aí, André – continuou –, o corte tá muito feio? – se debruça sobre ele a fim que
olhasse.
Ele balançou a cabeça comunicando que não sabe dizer.
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– Tudo bem – jogou as costas na cadeira. – Será que nos conseguem uns analgésicos?
– Não sei, acho que se pedirmos podem ficar com pena e nos dar.
– Sabe, até que não tá doendo, queria mesmo é um sonífero.
– Eu acho que a enfermeira não vai nos chamar tão cedo, isso sim – e sorriu.
– Olha aquelas ali, é por isso que as pessoas morrem na fila dos hospitais, elas ficam de
fuxico ao invés de trabalharem, olha.
– Certamente elas são as culpadas – riu conforme a dor permitia.
– Diz aí. Do que elas estão falando?
– Do médico bonitão? – tentou descobrir se a resposta era suficiente.
– Ótimo, ótimo – Alex riu, revirou a cabeça. – Olha só, tudo se resume a um belo partido, a
existência se resume a um belo partido.
– Certamente não somos nós.
– Não tem nem como cogitar uma coisa dessas. Não somos nós.
– Mas ainda penso, o que se vê num doutor desses, isto é, além da conta bancária? – está
tentando ser divertido.
– Vê se com o rapaz do necrotério é assim. Mas também dizem que a libido desses caras é
afetada pelo trabalho. Que fundo de poço.
– Acho que elas não vão vir nos atender mesmo.
– Finge um enfarto pra você ver. Deixa elas desesperadas num instante. Imagina só,
estragar a carreira delas assim, por nada. Expor suas desatenções escrotas. Que merda.
– Elas não iam tolerar uma sacanagem dessas – sorri. – Eu ia ser feito de lixo hospitalar.
Nunca mais iam saber de mim.
Alex riu. Esticou os braços pelas cadeiras, aos poucos já se sentia melhor. Tudo era
apenas um grande drama. Sempre esteve bem. Como o tempo passou e as moças do plantão
não vinham trazer notícias, deu alta a si mesmo quando levantou-se e falou que certo, no
máximo vão nos dar um placebo, é melhor que a gente dê uma volta no restaurante do
hospital, um café eu posso pagar.
A depender da ocasião em que as pessoas se conhecem, é possível que se crie um
vínculo profundo entre elas. Nesse caso houve mesmo um pacto de sangue. Acabaram criando
laços de afinidade naquela cafeteria, simpatia dessas que, a partir deste momento, poderia
ainda evoluir a respeito, amizade, fraternidade e esses refinados gêneros das relações, mas
assim, momentaneamente, como quaisquer outros desconhecidos, estavam se pondo a falar
trivialidades do dia-a-dia, desde os placares dos jogos de futebol, sobre o que André era mais
entendido que Alex, tratando também da deficiência na administração do tal do lixo hospitalar,
ao que André também parece mais bem entendido, até as pernas bem torneadas da
enfermeira que entrou para providenciar a sopinha de algum paciente, que foi do que Alex
mostrou-se mais animado a tratar. André lhe parece uma dessas pessoas que, às vezes, por
alguma pendência que teve na vida, sentem-se no dever ou se sentem bem em causar bem-
estar nos outros. Era uma boa pessoa. O que foi bem recebido, afinal estava longe de Alex a
idéia de querer confrontar as inseguranças e complexos que André possa ter, muito menos se
aprofundar em seus melindres existenciais e frustrações, mas em suma ele pareceu bastante
transparente, salvo por em certos momentos ser um tanto acuado demais. Às vezes se retinha,
mas, em determinados assuntos, e o padrão desses determinados assuntos ele ainda não teve
tempo de perceber, mas talvez um dia venha a percebê-los, ele desandava a falar. Talvez seja
um sintoma de ansiedade ou depressão. É um bom rapaz.
Contou do episódio atual com que esteve envolvido, a história da universidade,
reivindicações, resistência e sabe-se lá o que mais, e sobretudo como era ruim – ele não se
expressou dessa maneira, mas dava a entender pelos termos que usava e a forma cabisbaixa
de falá-los – ver os objetivos que tem serem retalhados pela violência, pela força instituída,
disse assim mesmo, pela violência e pela ignorância, que contra a força maior ninguém pode e
que, para quem tem poder, argumento é enfeite. Ele tem uma clareza de realidade bacana, o
único problema é que é um tanto sonhador, supunha medidas vagas demais para todas as
coisas, como por exemplo quando disse que para tudo se resolver quanto àquele problema
bastava principalmente a boa vontade do tal reitor da universidade, que ele culpava de má fé.
Quem não ouve cuidado, ouve coitado, e Alex não conhecia ninguém que não tivesse ido à
merda por ficar parado enquanto contava com a boa vontade dos outros. Mas o sujeito aqui na
mesa é jovem, isso é justificável, a vida aos poucos trata de nos dar novas caras, de brinde
vêm as cicatrizes. E não é só para esse rapaz, pensou, que a vida ainda há de mostrar suas
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faces com merda impregnada, mas inclusive para mim, já que não deve ser à toa quando
dizem que estamos sempre aprendendo, que há sempre algo novo a se adquirir, cicatriz de
merda. Deve ser isso o que adquirimos. Mas todas essas coisas talvez estivessem além do
bem e do mal, talvez não fossem assim tão ruins e meramente fossem o que fossem.
Às vezes Alex não prestava atenção no que André falava, então ele acabava tendo de se
repetir, é bom dar-se ao luxo do pretexto de estar sangrando. Às vezes resolvia se concentrar.
André chegou a falar um pouco dos policiais e como eles agem como bem entendem. Alex
tinha lá sua quase nada experiência com policiais mas não cabe relevá-la. Após esse gênero
de discussão, preferiram, num consenso silencioso, não conversar nada como trabalhos,
reitores influenciados por interesses obscuros e essa sorte de coisas. Adotaram um rumo de
conversa como o jeito que andava cheio o metrô nas horas de pico, veja só, era quase capaz
de passarem uns vinte minutos para conseguir chegar na bilheteria, ou como os ônibus
passavam atrasados nos lugares mais escondidos da cidade. Alex chegou a mencionar que
certas vezes pensava que as coisas são feitas assim para que as pessoas se atenham, como
eles dois, a se distraírem pensando somente sobre o problema pequeno das coisas, quando é
natural que haja muito mais no que reparar. Voltaram aos assuntos grandiosos. Aí André disse
que acreditava na intenção das pessoas. Que teve, como qualquer outro, diversas
oportunidades para se desiludir com elas, mas que continuar intacto era uma promessa que há
muito tempo fizera a si mesmo. Talvez seja um apego à ingenuidade, contra-argumentou Alex,
por uns instantes tinha esquecido o que pretendia falar pois o café veio quente demais na
boca, então André disse que não acreditava ser inocência partir do pressuposto que as coisas
podem ser melhores. Mas isso era metafísico, ele achou, era etéreo demais e, como se sabe,
idéias etéreas é algo que todos têm, mas que não servem quando precisamos pôr algo
efetivamente no papel, quando do que precisamos é de uma prática articulada e de projetos
para levar comida à boca da pessoas e mantê-las vivendo dia-pós-dia.
À base de sofismas, Alex conseguiu remeter André à questão de que ele teria de se voltar
a um tipo de conduta cética e pouco idealista muitas vezes enquanto lidasse com as
bifurcações do direito, tentou descobrir se ele não veria o idealismo liquidado, ao que ele se
mostrou dogmático e convicto que não. Um dia esse rapaz se frustra, pensou, mas é melhor
nem discutir. Que pessimismo, Alex, chega a ser mórbido que pense assim, disse para si
mesmo, e resolveu se embalar nas possibilidades do talvez e não mais questioná-las tão
duramente. Debateram um pouco sobre a questão das comidas hospitalares não terem gosto
algum, é que tudo que é prazeroso faz mal, diz Alex, e não demorou para que André
concordasse. Discutiram um pouco de religião do mesmo modo, por alto, esse é um ponto
importante, mesmo que não se seja praticante de algum culto ou coisa parecida, a própria
predisposição a uma convicção qualquer já pode revelar bastante da pessoa. Alex conta que é
agnóstico, preferiu dizer com curtas palavras que este representa um modo perfeito de vida, e
ciente de sua incapacidade de ser muito expressivo ou falar com precisão das coisas que
pensa, é que Alex se conhece o suficiente para saber que não tem nada de sucinto, para piorar
ocorre que tem muito de cansativo, não se alonga muito a falar dos seus motivos, que
basicamente consistem no culto a são Tomé, a estória de que tinha de ver para crer. Mas bem,
de toda forma é isso um tanto estranho, isto é, se uma coisa já foi vista, não é mais necessário
que se creia nela, ela simplesmente é constatada, pronto, então por si só a crença é um pouco
banal. Desconsiderando essas questões, pode-se dizer ser o único trecho proveitoso do
mandamento, seja qual mandamento fosse, quando aparecia esse fragmento. Você quis dizer
evangelho, corrige André, mas Alex diz que não, quis dizer mandamento no sentido de que
ordena, assim sendo tudo será uma seqüência deles, dez é apenas a raiz, a ponta do iceberg.
Já André tinha algum rancor pela figura de um deus, o que pode se dar por diversas causas,
negação da figura paterna e da opressão, mas evidentemente não deixa isso claro e quando
disse ser ateu o fez com delicadeza. Alex argumenta que o ateísmo pode ser um pouco
contraditório, porque acreditar que deus não existe é tão imbecil quanto acreditar que existe,
mas André é mais esperto e não está disposto a se deixar intimidar por protestos pré-
fabricados, e explica que seu caso não é de desacreditar, mas de possuir uma ausência de
crença, o que já muda tudo, ainda que possuir uma ausência seja um termo engraçado, enfim,
era clara, ainda assim, a inconformidade existencial que existe em alguns, como em André, a
insinuar que ou algo deu-se muito errado em sua vida, ou ele está ciente que independente do
que ela é podia ser muito melhor.

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Aproveitando o assunto, conversaram um pouco sobre deus. André parecia carregar
consigo, para mencionar sempre que preciso, aquele dilema da lógica que algum sabido criou,
então perguntou que, se deus sabe da maldade do mundo e não a cura, talvez não seja
onipotente como dizem, se ele é onipotente e não cura a maldade do mundo, então não é bom
como devia, se é que deus deve algo a alguém, talvez satisfações, então é inevitável que se
deparem com a questão, que raios afinal é deus?, parece que ele sempre vive num mar de
contradições, mas se não se contradisser ele deixará de sê-lo, e que não viessem com aquela
história de livre arbítrio dos homens e não sei mais o quê, isso parece mais pretexto para
justificar que coisa divina alguma ocorra, mas ainda continuar acreditando nela, então ser deus
deve ser mesmo um trabalho muito difícil, ou muito simples, contradizer-se a todo instante.
Então Alex olha para o vazio, pondera por instantes e conclui, talvez ocorra que deus não
pense.
A mesma enfermeira retornou, lá vem ela abrindo a porta de vidro, o mesmo rebolado.
Chegou a perguntar para o senhor de idade próximo ao balcão algo que parecia ser se a sopa
estava boa, ou talvez se precisa de alguma coisa, um pouquinho de sal, um adoçante, um
pouquinho de eutanásia. O velhinho a recebe bem simpaticamente, pena que ela não deva ter
simpatizado com a idéia de por um acaso ir e ver como estavam os marmanjos imundos de
sangue logo ali, veja. Alex forçou André a reparar nas pernas, são mesmo gostosas. Então ele
já ria, não parecia sentir mais o inchaço da cabeça, e após umas piadas comentou que deviam
sair mais vezes para conversar à toa e quem sabe tomar uma bebida. Era boa a idéia. Alex não
falou de si mesmo em qualquer instante porque não há muito o que dizer.
– Alex? – chamou Sabrina, tudo se desfaz num turbilhão instantâneo. Sabe-se lá o que
esteve sendo dito enquanto esteve ausente.
– Foi a última garrafa, prometo – ergueu as mãos como se rendesse, o sorriso torto no
rosto.
– Por um instante achei que tivesse apagado – foi o rapaz quem continuou a falar –, estava
contando de quando estávamos na tabacaria, de quando o colega achou que o maço que
estava saltando do seu bolso era roubado.
– Foi hoje mais cedo. Eu não pude me conter.
– É sério? – a doutora.
– Claro que não – arfou –, o velho fez confusão.
– Parece que seu amigo ganhou de novo na sinuca – falou André.
– Já faz um tempo que liguei pra Letícia, ela disse que estaria a caminho, estranho – falou
a moça.
– Se me dão licença, vou descumprir o que falei sobre aquela garrafa ser a última. Estou
um saco, mas prometo que vou me conter, só vou ali pegar mais uma.
Ele levanta-se, inicialmente testa o seu costume em estar de pé, então se dá conta que
pode andar. Inalou um pouco o cheiro típico dos bares, uma mistura de estofados, ácaros,
perfumes cansados, cigarro no cabelo e álcool, e aí vinha o estalido das bolas da sinuca que
trotava mais uma vez. Apoiou os cotovelos sobre o balcão, o responsável por ele atendia um
grupo de garotas, o qual ele olhou e flertou de algum jeito que arranca risada delas. Alex, você
é o cara mais só deste mundo. O barman veio se aproximando, foi que Alex não se fez de
rogado, – Pega mais duas iguais àquela pilha ali na minha mesa, sim? – pediu duas para da
próxima vez que tivesse vontade não tivesse que se levantar. Entregue a encomenda, apanha
uma em cada mão e vai se retirar, mas o simpático senhor do bar ainda interveio quando se
debruçou para chegar mais perto e foi lhe comentar alguma coisa. – Quer pagar mais umas
pras mocinhas que olhava? – e entorta o rosto na direção delas, estavam agora acomodadas
numa mesa do canto que lhes serviria bem para os assuntos inúteis de garota fútil, e então ele
responde.
– Deixe que elas paguem para mim – responde soberbo e foi dar meia volta para retornar.
Quando voltava a mesa na qual ele sempre esteve viu duas novas moças de pé em frente
a ela. Tardou alguns segundos até que o raciocínio começasse a funcionar, mas acabou por
reconhecer a primeira pelas tranças castanhas e pelo boné que usava, o jeito maroto era o de
Letícia. A que usa jaqueta preta ele não reconhece. Se a primeira impressão das coisas é a
que vale, então teria eternamente a primeira impressão de uma bunda, da qual realmente não
vale a pena pensar se valeu a pena. Mas pode lembrar das costas esguias e bem desenhadas.
Foi se aproximando, podia ver que André olhava ambas, não poderia discernir se com mais ou
menos atenção para uma delas, a essa altura começou a ouvir a voz dos companheiros, teve
140
de se aproximar. Chegou perto o suficiente para que ainda pegasse a palavra amiga recém-
despontada da voz de Letícia, sobre quem curva o pescoço e se apóia com o queixo no ombro,
disse oi com a intenção de causar um breve susto, ao que ela se virou para dar-se conta de
que é ele que estava lá.
– Olá, minha ilustre amiga – falou sorrindo, é, e foi quando seus olhos encontraram o da
outra mulher pela primeira vez. Deve ter sido uma boa impressão.
Ela sorria quando a olhou, parece feliz, em suma pensou se não teria sido uma gafe chegar
ignorando sua presença, mas desiste da idéia da desculpa e relaxou. Conteve-se em acenar
com a cabeça para a moça do rosto bonitinho, o olhar brilhante, parece que essa noite seria
sina sua reparar nisto de olhos brilharem, e aqueles cabelos negros penteados e escorrendo
de forma a completar as formas do rosto. Reparou em tudo tão rapidamente que se perdeu.
Era dessas belezas cotidianas, das que se vê por toda parte e nem por isso são menos
atraentes. Não poderia deduzir qualquer coisa mais complexa do que isso só por ter visto
olhos, rosto e o corpo típico das mulheres que se vêem todos os dias.
– Desculpa o atraso, os outros rapazes estavam saindo pra outro lugar – se adiantou
Letícia –, sabe, tive de arrumar a bagunça. Peguei a minha amiga no caminho.
Alex teve de comprimir-se entre a mesa e as garotas para retornar ao lugar onde esteve
sentado. Sorriu em forma de agradecimento por tão gentilmente abrirem passagem para ele.
– Foi bom eu ter trazido duas cervejas – e as pôs sobre a mesa.
– André, essa é Letícia, divide o apartamento conosco – lá veio Sabrina.
– Não vai nos apresentar sua amiga? – Alex.
– Sou Júlia.
Com o espírito regressando para aquela mesma mesa onde sempre esteve, sentado em
frente ao companheiro de longas datas, aquele mesmo Barbariccia com o qual durante essa
noite troca palavras desimportantes, com o qual conversa sobre a passagem dos seus dias,
dessa maneira estimulavam, entre si, o hábito interessante de comparecer uns na vida dos
outros. A expressão do seu próprio rosto mudara, mantinha um sorriso que acabava se
mostrando difícil de permanecer. Ainda chegou a ver a cena de Barbariccia virando-se para
conversar com uns de seus empregados que vinham numa ou outra ocasião para comunicar-
lhe coisas, ele não parecia tão favorável ao receber essas notícias, ou talvez seja apenas
melhor tratar tudo, o mundo todo com certa rigidez. A garota lá de baixo já está aos beijos com
o cara. O uísque dessa vez desceu queimando menos. Rangeu os dentes, decidiu que era o
último copo, que já se acostumou demais, ao que em silêncio o deslizou pela mesa e com o
olhar sinalizou que não. Viu a moça lá de baixo se pondo de pé, fez que ia colocar de volta o
casaco e o rapaz a auxiliou quando ela estica os braços. A vestiu e tocou suas costas
levemente, contato de corpos, coisa assim, como se apontasse a direção e a dissesse que
ande, ela o atendeu e caminhou, ou apenas se deixou levar, tanto faz. Alex despediu-se de
Barbariccia.
A moça inspira discrição, gestos reservados, jeito de caminhar que talvez sirva para que
percebamos que pode se esconder atrás disso uma personalidade forte, se não isso, apenas
que pensa de si mesma muito forte. Não é à toa que o rapaz que a acompanha possa ser
ofuscado quando ela fala, mesmo que provavelmente a voz dela venha baixinha, como um
mmm gostoso, um gemido no timbre certo, às vezes parece completamente desinteressada
com as coisas que estão a sua volta, mas às vezes ergue a cabeça e nos brinda com aquela
certeza de que somos tremendamente fascinante. Há também o meio termo, que é quando ela
resolve olhá-lo fixamente, mas ainda assim não se pode decifrar se o que há é compenetração,
ou uma dessas delicadezas a que as pessoas se dão por serem gentis, e na verdade ela não
dá a mínima. Tinha também o detalhe do sorriso mordendo os lábios, que é aquele que insinua
seu tesão delicado, e ainda quando é acompanhado de uma risada, ela geralmente se estende
longamente, sem histeria, é tipo uma incontinência da respiração que quer acelerar, um arfar
de quero mais.
Tinha em mente o trajeto que realizariam, ou seja, não demorariam a cruzar aquele
corredor da gente que costuma se acumular a conversar junto à segurança camuflada, à beira
da entrada. Apesar dos passos serem meio lentos e terem de desviar do tráfego, vão passando
por esses cantos ora escuros, ora faiscantes de diversas luzes, e não importando, é claro, as
nuances menores e obstáculos comuns aos caminhos percorridos, valendo-lhes apenas a
intenção, essa era exatamente a de se conduzirem para fora. Ele perguntaria se ela estava de
carro, mas sabe, ela responderia com um sorriso amigável que não era exatamente boa idéia,
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é, a descartava, mas quem sabe se ele não insistisse um pouco?, por isso ele perguntaria o
que tem demais. Ela diria que não, que não era boa idéia. Ele falaria cheio de segurança para
persuadi-la que talvez fosse melhor levá-la ao apartamento dele, e ela hesitaria mais uma vez.
Prefere que seja na sua casa?, perguntaria com a objetividade que não era para ser
exatamente indelicada, mas que serve para pressioná-la. Ela levantaria o rosto com uma
expressão súbita de susto dizendo que claro que não!, ora, que maluquice, e depois sorriria
abaixando o rosto, dizendo para que tirasse essa idéia da cabeça, que era o melhor que fazia,
porque ele tem que entender que uma coisa assim não é possível. Em breve ele retomaria a
conversa, isso de levá-la para sua casa, mas a repetição seria desagradável, tem de inovar na
estratégia.
Começaria a falar sobre como está o céu, melhor estaria se houvessem estrelas, mas
como geralmente não há, já que as nuvens cinzentas usualmente as escondem durante a
noite, e durante o dia não lhes é natural que se mostrem, restava ainda falar daquela lua com
aspecto cadavérico, sujo e doentio. A lua está bonita essa noite, mas o que ocorre é que tenho
algo muito mais belo para observar aqui na terra. Certo, às vezes é melhor não ter poesia
demais, os mais talentosos podem acabar contaminados de pieguice, e para pieguices esse
não é o instante mais propício, presume-se que o cara não tenha falado nada disso. Além do
quê, se o senso de ironia permitisse, o eventual elogio seria tomado às avessas, o caso é que
a lua da cidade é horrorosa como uma bruxa velha. Mas ele poderia falar somente do frio, citar
alguma coisa do tipo, é, quando as coisas estão vazias assim o vento me arrepia com muito
mais facilidade, nem que seja essa brisa fraquinha. Então ele teria se dado conta que, por
acaso e não por sua própria inteligência, teria tocado no assunto de que estão sozinhos,
seguindo por esta rua deserta, na qual podem ainda ouvir os sons da casa noturna vindos lá de
trás, não é algo ainda assim que chegará a tornar o passeio menos silencioso. A garota olharia
para trás, constataria com serenidade o fato de que não há mais ninguém por perto, olharia
para os lados e notaria que até a iluminação é pouca, que só há um poste a cada muitos
metros, e eles estão bem mais adiante, lá onde as calçadas já tangenciam a negridão das
águas da baía, e olhariam para frente de novo, não parece haver uma vivalma por esse longo
caminho, só o umbral, e até o som da danceteria vai-se distanciando, só resta a maresia do
mar, suas ondas assombradas e o deserto atlântico, restam também os passos ecoando, e a
essa altura a garota ia se mostrar um pouco trôpega, efeito de bebida. Ainda assim o rapaz
ofereceria mais um gole da garrafa que trazia, ela aceitaria mais pela animação que por
agrado. Tropeçaria mais um pouco, ele a seguraria, os dois ririam. Terminada a garrafa, o
rapaz a jogaria para longe com a sensação de estar com isso cometendo um gesto como o de
varrer o mundo, até descobrir-se aparentemente tão bêbado ou tolo quanto a mulher.
É claro que ele não deixaria escapar uma oportunidade assim, logo ele já estaria se
aproximando cada vez mais dela, isto é, no começo, viria tocando seu braço, auxiliaria seus
passos, caminharia mais devagar, juntaria mais os corpos, ele veria que ela parece um tantinho
ruborizada. A essa altura a luz mais forte de todas é de uma dessas cabines telefônicas, não
mais que um gabinete mal iluminado errando por aqui, e a claridade comunicaria ao rapaz que
seu tempo está se esgotando, precisa dar o bote antes que a realidade os chame de volta. Aí
voltaria com aquela história de irem para o carro, e usaria da tentação de que ela também
queria, dava para ver, e pressionaria mais ainda perguntando por quê?, e diria olhe para mim,
não esconda o rosto. Ela apenas sorria, encabulada ou estaria jogando, é claro que fingia
alguma coisa, dizia que não sabia, não estou certa. Ele perguntaria, você não quer nada,
afinal?, seria bastante deselegante, a deixaria sem palavras. Então ela diz que quer, mas
também não quer, ai, que dúvida, não me pressione, não sei, não sei. Andariam mais um
pouco no silêncio, o vento sopraria nos cabelos e ela se encolheria instantaneamente, ele
perguntaria se sentia frio, a moça responderia que não era importante, ainda assim ele a
abraçaria, e mesmo que ela não pretendesse ela amoleceria.
Ele aproximava o rosto do dela, aí já se deslocavam, as pernas já ensaiariam uma
coreografia bêbada, de prestes a cair por qualquer irregularidade do chão, mas era esperto, o
sujeito, e seria fácil perceber que a estaria desequilibrando de propósito, e já ia abraçando, a
cercando, ela há de rir um tanto antes de bater com as costas na parede, depois o rosto ficaria
mansinho, ou apagava seduzida pelo sono, com olhos que não se agüentam abertos, ou é que
não tinha mais ou nunca teve motivos para não se entregar. O rapaz ainda a arrastaria, e
segurava suas mãos e pressionava seu corpo até o umbral que será ainda mais denso nas
sombras da cabine, ela pensaria ter ouvido o vento rugir com mais intensidade, na verdade era
142
a boca dele no seu pescoço, o abocanhando. Devia estar bom, que se não não se rendia, é,
não ia se desmilingüir assim, com só um pouco de asco no rosto. Eles se beijariam ainda mais,
se ela tentasse se mover estaria barrada que é para não dar espaço à dúvida, até que as mãos
do rapaz começassem a pegá-la com mais fúria, a respiração se torna mais descontrolada, a
tentar invadir as roupas dela. Ela abriria os olhos e tentaria se mover, veria que não pode,
gemeria algo, sacudiria a cabeça e conseguiria balbuciar aquele pára inaudível. Ele a
suspendia com as pernas, os corpos chacoalhando, ele não a ouvia, e se ouvia não a queria
levar em conta. Assim mesmo. Ainda assim ela repetiria a ordem, ou pedido, ou choramingo,
que tudo isso pode-se confundir na mesma coisa, dessa vez suplicava com mais firmeza, toda
a que conseguiu reunir. Ele sem se dar muito trabalho perguntaria por quê?, ela diria que não
deviam, ao menos não hoje, não aqui, nesse lugar horrível, não agora, o sussurro morreria mal
saído da boca, e ainda sem maiores capacidades de argumento ela simplesmente repetiria
mais vezes que parasse, pára, pára, sério, por favor, não quero, assim não, pára. Tentaria
afastá-lo com as mãos, mas é mais forte e estava decidido, tudo mostra que é impossível,
debruçaria todo o peso que tinha sobre ela. Ele ainda tornaria a perguntar uma ou duas vezes
o porquê de ela estar reagindo, mas não ouvindo absolutamente nada que o fosse convincente,
nada feito. Ela já estava ali, ela foi porque quis, o que estaria esperando?, que ele fosse
inocentemente compreender e não fosse pedir nada em troca?, nem todos gostam de
joguinhos, minha querida, talvez os seus amantes de merda, mas eu não, o respeito é uma
palavra distante para esses dois.
Ela o bateu no ombro sem forças, o rosto deformou-se de semblante de impotência, era o
anúncio de choro que não chega a sair. Sabe deus e poucos outros aonde as mãos do
camarada já iam, no pescoço, nas pernas, nos peitos, na barriga. Alex saltou da escuridão e
pousou com força nas costas do cara. É, e diz-se que em certas ocasiões a força humana é
capaz de se multiplicar, a comprovar essa menção há o que se sabe sobre os loucos, dos
quais dizem que o desespero os torna mais fortes, ou até mesmo se vê isso em fortes
contrações de dor, que pode ser o seu caso, ainda que não como a mulher ao dar a luz e se
tornar incrivelmente vigorosa, ou, ainda tratando-se do exemplo da mulher, a força que é capaz
de ter a mãe ao ver um filho em perigo, capaz de levantar um carro se a criança estiver
debaixo dele, ou mesmo em vão saltar na frente do trem, que aí mais importou a coragem, o
que não vem a ser muito diferente, mas Alex separou a garota do homem, que veio a
cambalear para trás e a murmurar que merda significa isso?, mas esse não é um perdão que
baste, e nada bastará. Alex o puxou e com todas as forças que reuniu e o jogou na direção da
cabine, fez com que batesse o rosto contra a parede de vidro, a face se contraiu, mas o
homem ainda não pode raciocinar, e o louco que o segura veio mais uma vez e não há de se
contentar, não é o bastante. Ele não se contenta. Deu com a cabeça do cara no vidro por mais
uma vez, puxou-o para trás e o jogou com o impulso, então atravessou a vidraça. De algum
canto se ouve de susto o gemido abafado da mulher.
Mas olha, que de repente não foi tão boa idéia a sua, o sujeito mesmo empapado de
estilhaços ainda assim se esforça ao virar-se, está tentando atingi-lo. A sorte é que é golpe de
pessoa tonta. Pode dar um passo para trás sem muita dificuldade e vê-lo acertar o vazio, tudo
se deu muito rápido. Foi precisamente nessa hora que se decidiu, ia matá-lo. Avançou e
acertou-lhe um soco bem no rosto, o sujeito tonteou virando a cara e se desequilibrou, e
quando ele pudesse situar-se novamente só viria que o estranho pulou com as duas mãos em
sua direção. Não poderia conter o peso, ele o empurrou, e para assegurar que a presa cairia
jogou-se em cima dela, então caem ambos a fazer bagunça no vidro partido. Vá em frente,
Alex, só mais uns golpes, bata com a cabeça dele no chão. Aí foi uma desgraceira, em pouco
tempo estavam os dois caídos nos estilhaços da cabine telefônica, um tentando rolar por cima
do outro, mas Alex o acerta com o cotovelo e o golpe parece particularmente doer. Em troca ia
recebendo joelhadas nas costelas, mas não faz mal, a dor estava anestesiada pela vontade, e
sobretudo lhe satisfazia ver que o camarada já ia perdendo suas forças, quando por exemplo
se conteve em ficar protegendo o próprio rosto e se contorcendo onde as investidas davam
certo. Pára, pára, a voz ofegante implora, parece estar fungando sangue após o soco no nariz.
– Pára, filho-da-puta? – ria, rangia os dentes, estava possesso e feliz.
O segura pelas crinas e o dá com a cabeça de encontro ao chão, a amassá-la nos
estilhaços. É, certo, teve de repetir o processo mais umas vezes. Aparentemente já o está
pondo para dormir, não oferece mais muita resistência, os braços dele tentam agarrar o vazio e
reagir contra nada. Bem, até que a idéia de matá-lo não era algo que o fascinasse tanto assim,
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o sentimento de pena, que é um sentimento mais negativo, é maior. Só via aquele corpo
decadente, de rosto cortado, ainda a se virar e babar com dificuldade, se afogando no próprio
catarro, tentando respirar. Não oferece qualquer ameaça. Alex parou porque começou a
cansar. Esticou os braços, como se os espreguiçando. Levantou-se, aí ele mesmo cambaleava
de cansaço. Respirava copiosamente, mas se sentia extremamente glorioso. Não resistiu e
ainda soltou um pontapé nas costelas do imbecil. E olha só, que o desgraçado não desmaia, o
reflexo do chute se propaga no corpo todo, parece um epiléptico, chega a encolher as próprias
pernas. Sua satisfação foi vê-las sangrar quando as esfrega contra o vidro. Deixa ele aí.
Um som de náuseas ecoa no escuro de ali perto, é forçado a voltar a atenção. A garota
parece mesmo estar passando mal. Coitada, não viu se ela esteve o tempo todo
acompanhando a briga, mas agora se apóia no muro e, debruçada como está, associando isso
ao som visceral que acaba de ouvir, deduz que há pouco ela vomitou e não foi pouco. Isso aí,
se faz mal tem mesmo que colocar para fora. Ainda meio tonta ela se virou, deixou que as
costas batessem na parede, pronta para inalar, e inalou muito ar. Ela o encarou por muitos
instantes.
Deu um, dois, quase tropeçou, três passos para trás, tudo o que ela fazia não podia distrair
seus próprios olhos, nada podia vidrar mais sua atenção. É, Alex, seu olhar também não
desviou. A voz atrás de si vinha do gancho do orelhão quebrado, provavelmente comunicava
que o serviço está inoperante. Júlia deu as costas e saiu correndo.

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Esquecia qual vez era que folheava de novo a mesma revista e ainda vê páginas que
nunca viu antes. Põe a cabeça no lugar, Alex, se concentre, não finja que não sabe o que está
te ocorrendo. Certo, não se pode discutir, ele prefere fingir um pouco mais, então será isso. Na
revista, uma folha inteira é ocupada por um fundo preto e a pele cristalina e quase nua de uma
menina, é a propaganda de um diamante. Era mais ou menos assim, se tratava de uma dessas
jóias do tamanho de uma gota d’água a cobrir um pouquinho das pernas da moça, o brilho que
emitia ofuscava e impedia que se visse todo o resto, é bom porque a nudez sempre funciona,
imagina se o anúncio fosse de lingerie. Trata de virar a página antes que alguém visse, que ele
está olhando por tempo demais e pode ficar nítido no que quer reparar, em algum canto o
brilho do diamante há de falhar, na próxima folha encontrou a matéria sobre alguém muito
famoso, só ele em todo mundo não haveria de conhecer. Leu um pouco da reportagem, mas
não agüenta por muito tempo e fechou. O mundo não para de produzir porcarias.
Tenta refazer sem fins maiores que matar o tempo os caminhos que percorreu para chegar
nesta sala de esperas onde está, pensa que se tivesse de voltar sozinho é quase certo que ia
se perder. Vigésimo e alguma coisa era o andar, dividira o espaçoso elevador com uma gama
variada de sujeitos arrumados e carrancudos, desses que não se conhecem entre si e ficam a
resmungar porque estar naquele lugar deve ser um fardo insuportável, e então miram o brilho
dos números por torcer que lhes chegue logo o andar, quando ele mesmo saiu não quis
imaginar os que tinham ficado para os andares seguintes, quão mais alto, pior e mais velhos
são, que o andar daqui se mede por nervosismo. Aí foi à recepção, a mocinha pediu-lhe a
identidade, deu-a, ela prontamente se pôs a conferir as informações no computador, por tanto
tempo o fez que ou é muito estúpida ou pensa que ele é estelionatário. Enquanto isso, ele olha
a vidraça das paredes do saguão. Alto assim não a abrem, que deve ventar demais, pensa se
nos sugaria para fora feito pane em avião, a mocinha arrancada de sua mesa a empalidecer e
explodir. O brilho escaldante do dia esquenta as coisas lá fora, aqui dentro temos um delicioso
ar-condicionado, aqui dentro o dia só serve para iluminar a vista da cidade, arranha-céu e
torres cinzentas, peças feias de um quebra-cabeça inerte, e voltou-se à mulher, ela o tinha
chamado mas esteve distraído, senhor?, senhor?, ela o aguarda. Acena que agora a ouve, e
ela fingindo-se bem disposta aponta a direção que devia seguir.
Então atravessou um corredor com várias portas, no fim faria a curva, mas tinha também a
porta transparente que dava para um salão desses onde se tem gente trabalhando, ainda não
o via, mas ia cruzá-lo, a porta se abriu e o rapaz que esperava veio atendê-lo, porque não se
pode deixar a gente solta por aí, depois ia conduzi-lo por uma labiríntica infinidade das fileiras,
com a periferia dos olhos pode ver cubículos, salas de revelação, salas de xerox, salas de
áudio-visual, sala das reuniões, sala do cafezinho, sala dos esporros, deve ter sala de
palmatória, sala da conversa-furada, salas não-identificadas, salas fechadas, salas secretas,
corredores, e finalmente o lugar-nenhum onde chegou, feito andasse em círculos ou feito tudo
fosse igual, está nessa recepção de bancos acolchoados onde ninguém ousa respirar. A porta
pela qual o mundo todo espera se abre, dela saiu um homem engravatado que afrouxou o
colarinho e foi embora.
Pára, Alex, por mais que se diga da cabeça vazia ser oficina do diabo, às vezes se ignora
que foi o diabo que a fez assim, nesse caso não adianta prender-se a outra coisa qualquer ao
se pensar, nada funciona a não ser o foco da própria perturbação, há quanto tempo não via
Júlia?, pensou, é claro que era isso que não lhe saía da cabeça. A resposta à pergunta foi a
seguinte, é, hum, hum, faz realmente muito tempo, suficiente para se dar conta que os rostos
mudam, mas ainda carregam essa familiaridade fascinante para que sempre nos lembremos
que nunca deixamos muito de ser o que somos. Júlia. Imagina como ela andava, viva, sorri,
que só são mesmo vivas as coisas que se vê ou estão perto. Sabe, quando a conheceu ela
tinha lá suas ambições, ambição de se dar bem, porque é esforçada e conseguirá na vida a
posição que desejar, está disposta a fazer qualquer coisa para conseguir o que quer, isso é
algo que não se diz com todas as letras, mas se percebe quando ela deixa escapar, como num
sorriso ou quando se dá conta que falou demais. Então se constrange, de novo um sorriso e
um fale mais sobre você. Não é nada que se destaque do que se costuma ver por aí, é só que
não esperava vê-la, de repente foi só susto. É que quando as pessoas mudam parece ser
exatamente para o que nunca poderiam ser, não sabe dizer se é esse o caso, mas enfim, pois
é. É, Júlia. Estava contente por tê-la encontrado. Ainda assim é irônico que não deixe de ser
uma assombração a inocentemente persegui-lo, não importa as diferenças, as revisões ou as
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surpresas, a assombração parece que há de ser sempre a mesma, então ele sorri, e conclui
que a assombração sou eu mesmo, a implicar, é isso que você faz, implicar com os seus
próprios demônios e depois lamuriar-se com ai, como eles me angustiam, todos eles. Colocou
a mão sobre a testa e a curvou, se disse que está tudo bem, que agora não faz mais diferença.
A secretária é uma senhora de idade e com aspecto bastante respeitável, parece um poço
de lealdade e coerência, clamando por um caixão. Ela ficava indo e vindo dentro do espaço de
sua mesa-balcão, transportando um ar metódico às coisas que fazia, seja trazer um papel ou
olhar por alto um telefone que não a merece, ela tem de sujeitar-se a tocá-lo. Ajeitou ele
mesmo a sua própria gravata, inspirado pelo gesto do sujeito que passou um pouco antes,
aquilo devia definir um ar de importância à pessoa, algo do tipo, ai, as responsabilidades hoje
em dia têm me pesado muito, ando precisando relaxar, aí suspirava. Era quando afrouxava a
gravata e desabafava um tantinho, permitindo que as costas deslizassem pela cadeira, sou
alguém muito importante. Imaginou se não tinha causado inveja com seu gesto tão executivo,
executivo, riu internamente quando pensou nesse termo, enfim, se não tinha causado inveja
àquela moça bem vestida e de jeito formal, mas ela estava compenetrada nos papéis que lia,
que são as coisas importantíssimas que está suando por ter de entregar, ai, será que vão
gostar?, será que é bom o bastante?, ai, a vida feita de ais. Foi aí que o horário começou a
aborrecê-lo. Veja bem, ele considerou, que tanto aquele senhor que rabisca umas coisas na
agenda, como também o outro que lê uma das revistas disponíveis e a própria moça que lia
suas coisas, todos esses, ao que indicava sua memória com um pouco de incerteza, tinham
chegado antes. E ora, sou um cara dos ocupados, não tenho o dia inteiro para ficar a mercê da
ocasião dos outros, riu mais uma vez. Talvez só precisem mesmo pôr uma janela nessa sala,
que assim do jeito que é é um ambiente um pouco claustrofóbico, era como se fosse projetado
para coagir as pessoas a não pensar em outra coisa diferente do assunto que as levou ali.
Júlia.
Não é isso que o tinha levado ali, que loucura, loucura de roer as mãos e começar a
implorar que saia da cabeça, mas é que ela sempre o invade para confundir e atrapalhar, é
quase como quando se troca o nome de quem se quer chamar, um desses atos falhos que
comprometem a vida toda, a sua vida é um ato falho onde chamou por Júlia quando quis um
café, por favor. Júlia continua longe.
– Senhor Alex? – é o que pergunta a senhora. É uma dessas vozes em harmonia com o
ambiente, voz-de-enfeite.
Ele ergue de súbito o rosto, vê a secretária atrás do balcão a buscar quem na sala viria a
ser o tal senhor Alex. Ele fica em dúvida, mas respondeu.
– Sim.
– O diretor o aguarda – comunicou com indiferença.
Ergueu-se sem contestar, esse é o meio tempo em que a senhora já volta a seus serviços.
Imaginou o que leva uma pessoa a trabalhar com arquivos, exigência, cópias e mais cópias de
mil chatices, telefonemas de gente desagradável, tudo repetido por várias vezes e tudo durante
quanto o dia durasse, há muitas coisas que permanecem sem respostas, uma delas, e também
a mais insignificante, é a secretária do escritório do diretor. Ele vai até a porta, ao olhar de
relance por cima dos ombros viu que, com uma tranqüilidade búdica, aquelas outras pessoas
permanecem obcecadas quando deviam angustiar-se pelo tempo devorá-las. Levou a mão à
maçaneta da porta, já ia abri-la, mas ouviu, vindo de um sussurro discreto, aquelas palavras,
senhor, melhor ajeitar, quando olha para o lado a senhora simula um nó ao pescoço. Curvou-
se ligeiramente, tentou olhar para si mesmo, depois seguiu o que considera ser a orientação
dada e apertou a gravata. Sentiu sufocar um pouco, mas entende que é assim que devem ser
as coisas, e aí entrou pela porta.
Imediatamente se deparou uma vez mais com a claridade do dia, e a mobília que o cercava
de todos os lados parece irradiá-la por suas superfícies. É como previa, uma dessas salas bem
servidas, a estante com uns livros etc etc, os quadros na parede, o carpete, os sofás, as
janelas de venezianas entreabertas, mas nada disso teria importância se não fosse pelo senhor
de aspecto grisalho e altivo atrás de sua mesa, em torno dele todas as futilidades gravitam e é
por ele, não por você que acaba de chegar, que as futilidades são o que são. Tinha porte, o
senhor, não as futilidades, da gente que lida com coisas importantes, apesar de ao certo não
saber do que ele viria ser o diretor, se de edição, se financeiro, se administrativo, se
presidencial, enfim, diretor de cinema não deve ser, nem de teatro, mas de alguma coisa que
lhe vá resolver a vida, então está certo. Seguia as informações que Condor o passou, é isso e
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deve ser o suficiente, além do quê, de todo modo, chamá-lo de diretor, não, de senhor diretor,
já deve fazer com que o ego reconheça estar na posição que almejou, ao menos numa
favorecida em relação às demais que pelejam com o suor e adversidades de um mundo agro,
está realizada a vida e, assim, ignorando qualquer conhecimento ou ignorância mais profunda
sobre o caráter ou o espírito de qualquer um com quem conversasse, se manteria em paz. Ele
se ergueu, e aí veio com um sorriso de educação para cumprimentá-lo. Alex estendeu a mão e
ele a apertou com firmeza.
– Bom dia, senhor Alex.
– Bom dia, senhor diretor – moveu a cabeça com gentileza.
– Por favor – e estendeu a mão apontando as cadeiras – queira se acomodar.
– Obrigado – que gentileza, e se sentou. Seu corpo afundou gulosamente naquela
poltrona, tem de comprar uma igual para sua casa.
– Então – o diretor ia tomando o seu lugar da mesa –, bem, tenho ouvido falar a seu
respeito.
– Obrigado, senhor – mantinha a coluna reta, mas era um pouco doloroso.
– Talvez possa servi-lo com alguma coisa. Água, café, chá?
– Bem – fez que pensou por alguns instantes –, um café, sim.
O homem apertou imediatamente um botão do telefone, – Dona Carmen, por gentileza,
providencie dois cafés.
Alex olha o retrato da menina loirinha que quase sem sombra de dúvidas se trata da filha
do senhor. Ela está brincando com o cão muito peludo num quintal e ao fundo via-se a casa,
falar casa é medíocre, trata-se de um casarão, palacete que deve ser um desses que fica em
regiões emblemáticas da cidade, bairros que muito poucos são os que vão, menos ainda os
que vivem por lá, esse tipo de coisa. A mulher num outro retrato deve ser a esposa que só está
casada por dinheiro e comodidade. Ficaria reparando em outros souvenires que enfeitavam a
mesa, como por exemplo a bolinha de cristal comprada em outro continente que quando se a
gira fica fazendo flocos da neve flutuar, mas sente as pálpebras pesarem um pouquinho feito
tivesse sido ele a ser posto de cabeça para baixo, estou nevando, ele pensa a imaginar-se
como um souvenir, e não imagina que mesa gostaria de abrigá-lo, sente sono, que não é
exatamente sono, mas noite mal dormida. Seus pensamentos teimam em ficar oscilando sobre
questões diferentes, teve de domá-los como se torcesse uma toalha, precisa batê-la no chão e
por fim transpira de cansaço.
– Imagina de quem seja o quadro na parede atrás de minha cadeira? – parece estar
tentando ser simpático.
– Vejamos – murmurou sem muita consistência, mas ainda assim parece bonito, falar
assim lhe confere um ar de elegância. O quadro é dessas coisas modernas e manchadas que
poucos vêem coisas faláveis –, não, senhor, já vi parecido, mas não faço idéia.
– Foi um presente de seu amigo – o diretor sorri.
– Entendo.
– Devo dizer-lhe. O vi poucas vezes fazer o que tem feito por você, toda essa
recomendação. Isso me fez pensar. Qual o tipo de relação de vocês?, se conhecem há muito
tempo?
– Sim, senhor, amigos de longa data.
– Ele está assumindo tudo por você, correto? Vai representar o que você fez sem mesmo
assiná-lo. Tomou a responsabilidade sem ter a autoria. É impressionante.
– Obrigado, senhor.
– Mas devo confessar que me pegou um tanto desprevenido, meu jovem, e isso me deixa
um tanto quanto, vamos dizer assim, transtornado.
– De que forma, senhor?
Nesse instante a porta se abriu. Ele não deu mais que um olhar para ver de quem se trata,
desde antes deduziu ser o café, a dona Carmem, defunto que nas horas vagas é secretária,
vem trazê-lo, assim ela chega andando elegantemente, do jeito que ela deve sempre ser, a
imagina agarrando-se no senhor diretor ao fim do expediente, ai, senhor diretor, não tenho
idade para isso, ela dá essa risadinha, mas é sua decrepitude que me atrai, viu, cachorra?
Deixou meticulosamente os copinhos sobre a mesa, ao que imediatamente se pôs a sair, tão
rápido que não seria esse o tempo nem de uma fala para outra. É um pouco enrustida demais,
essa senhora. Vai ter câncer no estômago.

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– Obrigado – Alex disse enquanto ela largou os copos. Aproveitou enquanto ela não saía,
afinal deve ser essa uma conversa íntima, e toma um gole do copinho. Está quente demais que
fere o paladar, o gosto de cafeína está no ponto.
– Entenda-me. Ele disse que você está nos oferecendo um privilégio, essa foi a palavra
que o senhor Condor usou, e que em troca deseja receber um trabalho.
Alex gostou do termo, privilégio é uma boa concepção da coisa. Até hoje não tinha se
importado das maneiras como o velho ia cumprir com suas palavras, mas tendo em sua frente
um esboço do que está sendo feito já lhe parece ligeiramente satisfatório. Aí ele sacudiu
levemente a cabeça como se dissesse, é, é, as coisas podem ser encaradas assim mesmo,
privilégio, privilégio é uma boa concepção da coisa.
– Sim, sim – fez o gesto e disse essas palavras.
– Mas veja bem, temos um sistema seletivo, uma dinâmica encarregada estritamente do
recrutamento de novos empregados, por trás disso se move um aparato burocrático – esse
cara gosta mesmo de dificultar as coisas – que não envolve apenas a minha vontade, não
depende apenas do meu aval. É difícil para mim dar prioridade a uma pessoa, espero que não
entenda mal, não é nada pessoal, é claro. Mas há uma série de pessoas na nossa fila de
competências. Um emprego fixo não é coisa que se sorteie hoje em dia. Você entende.
Presumo que estaria cometendo uma certa gafe contra a ética, se não se incomoda de eu
tornar as coisas tão claras, e a ética é mesmo importante, até mesmo numa pequena forma de
injustiça.
– Não gostaria de causar problemas, senhor.
– Eu sei, senhor Alex, ao que tudo indica você é de fato um homem razoável.
– O senhor também, senhor diretor.
Por alguma razão o diretor pareceu desconcertar. Alex sabia o porquê. Provavelmente o
homem só teria tentado manter em vista o abismo que os separava, ou seja, algo do tipo, ele
pode julgar o seu caráter da maneira como o fez, porque nesse gesto tão cotidiano, mas cheio
de profundidades, diz o que ele era e deixava de ser, mesmo que nunca o tivesse visto antes
na vida, que aí revela, certamente, que o patamar no qual se senta é superior, os propósitos
são outros, as castas são diferentes, nascemos para fins distintos. Aí vem Alex naquela
aparência de inocência e arruína tudo. Agora o diretor sorria tremulando um pouco, de
vingança apenas olhava. Soprou um pouco do cafezinho, não queria ferir a língua uma vez
mais.
– Bem, o senhor talvez possa nos arranjar seu currículo, referências de outros empregos,
alguns números para contatos. Esse tipo de coisa pode fazer muita diferença, se fizer pesar
para seu lado será sempre um homem de sorte.
– Eu não tenho um currículo.
– Você não tem um currículo? – ecoou, mas agora a frase vêm com incredulidade.
– Nada que valha a pena saber, senhor. Tenho as referências que já foram dadas, estou
me apoiando nelas – e bebericou mais um gole.
– Você tem a amizade de alguém renomado, mas não apresenta quaisquer outras
referências profissionais, alguma forma de eu poder me instruir melhor sobre você?
– Não, senhor.
– Você não tem absolutamente nada a me apresentar?
– Tenho O retorno à escuridão.
– Ah, isto – o diretor ergueu um pouco o queixo, tenta formar essa expressão grave, o que
conseguiu. Em seguida, ajeitou os óculos sobre a base do nariz, agora está recuando até as
costas estarem amparadas no colchão da cadeira.
Com gestos pesados e suficientemente sem mais demoras ele abriu alguma das gavetas
que tinha nesses cantos de sua mesa, dela tirou algo e colocou prontamente sobre a
escrivaninha. Antes que viesse tocar a superfície já pode ser reconhecido, era o retorno à
escuridão, lá está a capa preta inconfundível. Reparado nisso, ainda havia algo estranho, o que
ele notou que, se olhasse bem, pode ver que apresenta diferenças pequenas como uma
encadernação consistente e até a qualidade superior do material de que é feito a capa, não
pôde conter um leve franzir das sobrancelhas.
– Não é o original – afirmou.
– Obviamente que não, foi uma cópia encaminhada a mim.
– Há outras?
– Presumo que não, mas, em breve... – e franze um pouco a boca.
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– É mesmo?, o senhor chegou a ler? – Alex esticou os braços sobre o estofado da
poltrona, achou que essa posição o deixasse mais intimador.
– Sim, superficialmente, algumas páginas. Sim.
– E está interessado?
– Achei um tanto agressivo, se me permite o comentário.
– Não posso negar.
– Te sendo bem sincero, não gostei nem um pouco.
– Hum.
– Mas o conteúdo é moderno – bufa. – Uma dessas... coisas da modernidade. É peculiar,
eu não chamaria de um livro de cabeceira – e sorri –, mas tenho de pensar no meu público.
– Essas são as coisas que não me dizem mais respeito. Mas, quanto ao emprego, para o
jornal poderei escrever sempre que mandarem.
– Compreendo. Mas creio eu que não possa usar meu poder dessa maneira.
– Me pergunto por quê.
– Eu já te expliquei, é inadmissível que eu passe por cima de outros.
– Os outros o oferecem o retorno à escuridão?
– Não é esse o caso.
– É justo que não julgue a mim, julgue a coisa à sua frente – e apontou, mas conteve a
vastidão de seus gestos, eles podem ser lidos de muitas formas quando intensos demais. – Eu
só quero essa recompensa. E então, de que referência além dessa precisa?
– Isto é algo que precisamos considerar com calma – balançou a cabeça, escapava da
questão.
– Não parece uma troca comum e rápida?
– É tudo que você quer? – perguntou, as sobrancelhas tocavam no nariz, o parecia
estudar, tenta inutilmente compreender de quem se tratava, antes perguntasse, e ouviria um
não sei.
– É tudo que quero do senhor – achou que isso tinha soado especialmente grave. – Mas se
não estiver interessado, não tenho nada a fazer, a não ser procurar outros pra abordar, eu não
sei.
– Não, estimo que não será necessário.
– Então?
O diretor arfou, mas teve de manter um ar de solenidade, – Acho que posso conseguir o
que você pede com um pouco de esforço, talvez. Mas tem de me assegurar algumas
condições.
– Que não afetem as anteriores, que sejam quaisquer, senhor.
– Devo recomendar-lhe que essa conversa não saia daqui. Os motivos, eu espero que
compreenda.
– Que conversa, senhor?
– Bom, está certo. Por via das dúvidas, pedirei que dentro de alguns dias o telefonem para
dar a confirmação. Presumo ter recebido com uns outros dados o seu número para contato
atual.
– O que o senhor recomenda para meu começo?, posso falar da violência, de desemprego,
da exclusão das gentes, não sei.
– Isso tudo você já fez, escolhamos algo mais brando. Fale dos parques, por exemplo, ou
dos teatros. Temos bons teatros na cidade.
– Excelentes teatros, senhor, permita-me a ênfase.
– Acho que estamos entendidos – e estendeu-lhe a mão, elas se apertaram. – Providencio
ao senhor um motorista para casa?
– É bom, já que nunca tivemos essa conversa e presumo ser mais oportuno que por via
das dúvidas eu saia pela garagem do edifício. À propósito, quando será nossa primeira
reunião?
– Vá com um pouco mais de calma. Pessoas espertas não são assim tão bem-vindas
quanto você pensa.
– Meu senhor, não quero o seu cargo, apenas um salário.
– É mais inteligente do que eu pensava – e tirou o fone do gancho. – Já providencio o
carro.
Posteriormente chega à conclusão de que por mais que caminhasse e repetisse o
processo por aqueles corredores nunca saberia dizer quando por fim há de se acostumar com
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esses caminhos, quando estará apto a percorrê-los novamente, e ele não pretende fazê-lo
nunca mais. Acabou sendo a conduzi-lo um certo homem franzino e de movimentos rápidos,
umas feições rudes e que deve ter a língua cortada para não ter de falar os segredos que sabe.
Certo que é um desses homens que fazem o serviço pesado da gente importante, limpam as
suas sujeiras, as caquinhas do nenê. Talvez já esteja a ser enviado para algum assassino, não
pode afirmar com certeza, mas há algo de medonho naquilo que circunda ou entrou em contato
com o retorno à escuridão, algo de pagão e mafioso, enquanto garagem só é um codinome
qualquer para lugar de despacho, não é algo que se deva ignorar, apesar de não parecer ser
essa uma situação em que permitiria que se façam tempestades em copos de água. Pelo sim,
pelo não, durante todo o tempo vigiou com uma curiosidade tranqüila os trejeitos do serviçal
que o guiava, que sempre vai na frente, de repente mudava a direção do percurso, mas
sempre que o fazia tornava para trás para constatar que ainda o segue. A essa altura,
imaginava se conseguiria desviar nem que temporariamente os seus lapsos para algo que não
fosse relacionado ao retorno à escuridão. Ou Júlia. São muito parecidos. É que atualmente se
passa o seguinte, uma vez tendo sido a coisa materializada como idéias sucessivas, impressas
e tudo mais, o que nele constava passava a ser tão real quanto o fato do próprio Alex existir,
isso senão ainda mais real, já que as coisas que não apresentam vida própria alongam sua
existência por mais tempo do que as formas de vida que as consomem.
Sendo assim, percebia a falha nas palavras que agora há pouco havia dito, referentes à
responsabilidade que tinha sobre o retorno à escuridão. A verdade é que, independente das
normas que asseguram que o criador tenha seus direitos sobre a obra, o retorno à escuridão,
desde sua primeira linha, quando o objetivo genérico do que começava a ser feito sequer era
previsto, aquelas letras já começavam a adquirir vida mais do que própria, isto é, talvez até
uma forma superior de existência, e esse era o sinal óbvio de que em pouco tempo o retorno à
escuridão se tornaria uma espécie de bicho independente. Muito perigoso. É uma dessas
agonias que às vezes vem e no caso o poria a pensar o seguinte, meu caro, sois mais que um
instrumento?, por mais brilhante que sejam as idéias geridas, transcritas, pensadas ou faladas,
o controle que se tem sobre isso é ínfimo, o resto tudo vem de algum berço cerebral profundo,
que por sua vez define o ser humano como sendo um incrível ser auto-suplente de pequena
parte consciente projetando-se para fora e supondo o que acontece à sua integridade escura,
no lado negro da lua.
Por isso, se pode entender o motivo para ele não buscar o apego ao título de autor
daquelas idéias, ao qual se diria que tem o direito, mas por quê?, é que seu trabalho até agora
consiste na tarefa de um compositor, engenheiro ou cientista, que é a tarefa daquele sujeito
que adquire a maestria do manuseio das peças que lhe são dadas, ainda não sabendo
propriamente que desconhecido e que função é que as formula, que criatividade tão profunda
será essa, assim ele articula, ele molda, alimenta, dá formas e cria, de onde vem não saberia,
é a criança pequena que não sabe da vida e supõe ter sido trazida pela cegonha. Ainda assim,
não foi com ausência de orgulho que ele concluiu diante de si mesmo que o retorno à
escuridão é a manifestação da humanidade latente, o elo perdido à nossa individualidade que,
por acaso ou por destino, se confunde erradamente com egoísmo. Trata-se, assim, de uma
necessidade gritante de ser posta para fora, só que muito sonolenta, que em algum período do
tempo acorda para dizer que veja só, talvez já seja boa idéia que sejamos ouvidas, e aí entra
Alex, que talvez seja esse sinal. O que indica a potencialidade de algo ser compreendido talvez
seja, antes de tudo, a predisposição de ver esse algo sem refutá-lo de preconceito, sem
escarninho pelo ridículo da novidade, sem qualquer indisposição enraizada que nos afasta do
choque que devia ser natural. Por outro lado, Alex tem medo. Um medo intuitivo de ser um
pária ou próprio anti-cristo.
O retorno à escuridão tem a pretensão de mudar as estruturas de como se pensar. Mas a
intenção, se descrita simplesmente por essa forma, cairia junto das coisas etéreas que na
prática não nos faz diferença e nada mudam. O retorno à escuridão quer definir que não haja
nada produzido pelo homem que se diga inevitável ou que não possa ser espontaneamente
reformulado. Por exemplo, não é absoluto que o assassinato seja ruim. O assassinato muitas
vezes atua como instrumento pacificador, enobrecedor ou de sobrevivência, o assassinato ou
coisa qualquer, como o ódio ou a corrupção, nada disso é absoluto, e uma idéia ser julgada
como idéia é burrice, que só se pode definir valor à coisa que aconteça, a idéia feita carne. O
mais ferrenho humanista com um revólver nas mãos até poderia claudicar em alvejar o tirano
sanguinário que oprimiu e pôs gente feito bezerro em câmaras de gás, ou um qualquer que
150
oprimiu as minorias, poderia alegar que é preciso uma justiça imparcial, assim apenas estaria
dando a arma que se precisa para ser ele o próximo cadáver dos segundos, um cadáver do
fracasso ou da honra, não importa. Ou este cara gostaria de dar para outro a responsabilidade.
Outra pessoa sujaria as mãos. A vida é feita de pessoas sujando as mãos o tempo todo.
Conclui-se simplesmente que toda a regra tem sua exceção, e até mesmo esta de toda regra
ter sua exceção deve ter lá a sua, e a exceção final de todas as coisas é a verdade, e
engraçado que só se a terá excedendo a tudo que se tem, não é por aceitá-la que se a
descobre, mas exatamente por não querer aceitá-la, por aceitar-se o por quê?
Um valor clássico das conveniências, por exemplo, é a conservação da própria vida, sendo
ela o único bem que portamos de fato, é o bem maior que trataremos de conservar, isso está
claro. Mas, ainda assim, não é isso algo que defina uma lei orgânica, como, por exemplo,
definir que temos pernas e não asas, pois esse valor – o da vida, não das asas, por tudo que é
mais sagrado – pode ser facilmente desmentido pelo suicídio. Dessa maneira, não havendo
regras reais e havendo esse consistente possibilismo, ainda que aqui entendamos um homem
não por uma consciência iluminada sobre seus atos, mas por um inconsciente que resolveu
reconhecer-se como tal e desde então insinua que vai acordar, bem, diante do possibilismo dos
atos, através deles o homem pode tornar-se diferente a todos os instantes. E nada do que se
conhece foi inevitável, e nada do que será assim é por sê-lo.
A única coisa da qual não se pode escapar é da existência de algumas coisas naturais que,
por não terem princípio humano, e assim não estando predispostas a apresentar controvérsias,
no máximo têm seus modos de serem ritualizadas. E uma coisa natural é, por exemplo, que
existe uma força que nos prende ao chão, e outra verdade é que todo homem precisa pôr em
dia suas necessidades fisiológicas, como se alimentar, repousar, cagar, desconsiderando por
ser inoportuno o caso de alguns monges e outros sujeitos que vez em quando aparecem para
nos dizer o contrário, que comem luz, coisa assim. Outra importante coisa natural, e aqui Alex
se aventura um pouco mais na esfera das coisas subjetivas, é algo que, apesar de
constantemente reparado e normalmente aceito, torna-se perigoso e corajoso dizê-lo como
verdade, e é aquilo de que a gente é só um pouco consciência, e que o si mesmo não é
somente o que se sabe de si, tal como não é constante. Reconhecer a isso pode ser uma
desculpa para se isentar de responsabilidade. O retorno à escuridão diz que alegar ignorância
não nos torna menos responsáveis. Até porque não há deus nenhum fora de nós para
transferirmos a responsabilidade das nossas falhas ou os prêmios dos nossos acertos. Ou a
alegria que esperamos ter um dia. A responsabilidade está toda no tremendo caos humano.
Já foi dito do homem ter de conhecer a si mesmo para conhecer aos deuses e ao
universo, talvez o homem que conheça a si mesmo simplesmente não queira mais lá saber de
deuses, ou então estará muito cansado para conhecer a algo mais. Um homem que
dispusesse de cem por centro de consciência de si próprio seria absurdamente livre de si
mesmo. Poderia fazer qualquer escolha que fosse galgada na inteligência de saber de onde
vem o estímulo que o induz a essa vontade, teria os medos iluminados, as implicâncias e os
anseios e os arroubos, o homem livre de si mesmo teria idéia de todos seus impulsos, ainda
que não vá lá responder questões celestiais como de onde eu vim?, e para quê?, saberia quem
ele é, e por que é, e o que vem se tornando a cada instante. Esse homem não nos interessa
porque não existe, e é disso que trata o retorno à escuridão.
Portanto, antes mesmo de tudo, o homem não pode ser livre de si mesmo, ainda que tenha
uma porção como consciente, essa que formula os pensamentos e diz-se eureca, ela é
inteligente e lúcida, por mais que alguns espécimes da nossa raça gostem de fazer parecer
que não. Essa forma consciente aprendeu a alienar-se estranhamente da integridade – a
porção que é capaz de reconhecer um estou triste já não é a mesma que está infeliz –, como
se se projetasse para fora e tentasse, num estudo de espelhos e rastreamento, compreender a
si mesma, se olhar quase como nos olharia alguém de fora, mas apenas quase, que não
enxergamos tanto assim.
Por isso, o retorno à escuridão aceita a consciência como a ponte inteligente entre o
espaço e o inconsciente humano. Em parte, a carga de impressões que nos vêm pode ser
assimilada pela linguagem que a consciência usa para interpretar as coisas, que chama-se de
razão e se usa de seus tantos métodos, mas em parte a carga de impressões nos desce rumo
a um universo interino, e a resultante secreta dessas tantas coisas se colidindo produzirá,
terrivelmente, o que somos, mesmo que não saibamos o que venha isso a ser.

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A cabeça é um cárcere explosivo. Divagando um pouco mais, é também por isso que surge
a comunicação. A comunicação, a troca, é universal. É a coisa mais natural de todas, de si
para si ou para além. Todo o resto já não é tão universal assim. A comunicação quer
agoniadamente expressar intenções, dar a entender idéias, a comunicação quer fazer a coisa
solitária ser, se tornar, mas é absurdamente falível, é apenas um meio, estão aí para
comprovar isto uns erros na concordância ou mesmo grandes mal-entendidos. Então, mesmo
que o homem esteja se relacionando com o mundo, está condenado à prisão de si mesmo. É
uma solidão medonha. Sua capacidade de compreensão das coisas não depende da clareza
da informação, mas da eficácia de sua própria inteligência. Cabe o ditado que para bom
entendedor basta meia palavra. Para que não se perca o tema, é esse um aspecto que
permeia a constituição espiritual das pessoas, que se vê nas suas relações. Elas têm isso em
comum, é algo que as une. O poder nasce das pessoas sendo entre si, o poder é a ponte entre
o indivíduo e a plenitude que ele deseja alcançar, esteja essa no céu ou a sete palmos do
chão.
O retorno à escuridão não se compromete a explicar a tudo, mas mostra esse tudo para
que quem tenha olhos veja.
Tudo que o homem até hoje tem se tornado é um produto caótico de vários fatores. A
necessidade, que nos que precisamos nos alimentar, nos protegermos do frio ou do calor etc,
conveniência, que se desdobra da necessidade mas se traduz em facilidades, comodidades e
praticidades que trazem prazer ou ajudam a trazê-lo, ação, que pode ser resultante de uma
escolha sábia ou idiotice, independente disso cospe de volta suas reações, o mundo, que por
exemplo geograficamente não depende de nós, assim ferrenhamente faz com que tenhamos,
até então, improvisado para nos organizarmos conforme seu humor, e o pensamento, que
conciliando a todos os fatores anteriores é capaz de criar coisas para melhor nos posicionar
dentro da realidade que deus ou big-bang nos deu. Tendo em vista gêneros tão abrangentes,
comprovamos uma vez mais que não existe organização que inevitavelmente precisou ser
aquela, que não poderia ser diferente. O que se deu foi a cooperação entre os fatores
mencionados, o que, por sua vez, conduziu a história.
Não precisávamos viver essa civilização. Não precisávamos ter esse estilo de vida. Esse
mundo não foi a melhor das escolhas. Foi apenas uma delas. A história nos revela os
interesses dos indivíduos e o que eles são capazes de tramar para a própria satisfação. Toda
guerra é por satisfação, toda revolução foi um protesto contra a sua falta. A liberdade põe a
todos em lutas de interesses, e eis o grande risco a todos nós, à toda existência. Mas, no fim,
aos sobreviventes da seleção natural ou da sorte, ou, ainda, se o homem for mais inteligente
do que se tem mostrado, aos sobreviventes do entendimento, o resultado entre nós é
igualdade. E finalmente o paraíso.
– Para onde, senhor? – o motorista era jovem, tinha um jeito razoavelmente malandro,
assim, mascando chiclete e sentado com desleixe no banco. Não é desses que combinam com
o uniforme, não é um desses que se tornam simbiontes com o cargo.
O carro também tinha lá o seu conforto. Quando olhou pelo vidro uma última vez, ainda
pôde ver que o sujeito magricela e de rosto cruel estava parado, vigiando, ali de mais adiante,
próximo a uma pilastra, até que constatasse que de fato já teria ido embora. Até mesmo dentro
do elevador não parou de esmiuçá-lo. Como se Alex fosse saltar antes do andar certo e fugir
sabe-se lá por quê, como se fosse correr o risco de se perder. Agora estavam em algum nível
dos subterrâneos, por fim só restaram poucas pessoas no elevador na hora de sua parada,
dentre as quais alguns sujeitos que ainda adentravam pelas passagens entre os carros na
busca dos seus.
– Para longe desse cara, faça o favor – respondeu voltando o rosto para dentro. O
motorista arrancou.
Agora, que já se punham em movimento, pode relaxar enquanto espera chegar em casa.
Lhe faltava pouco para entrar em seu torpor, o espaço de onde não se comunica, e aí, com um
pouco de dificuldade da memória, se martelou para arrancar do seu fundo o endereço de onde
mora. Tropeçando um pouco, hesitando em uma ou outra informação, não lembrava do maldito
número do prédio, aos poucos vai passando todos os dados. Pronto, agora em que ia pensar?,
em Júlia?, não, isso o chatearia.
– O senhor trabalha com a assessoria? – o motorista perguntou com ar formal.
– O quê? – e só então se deu conta do que o distraíra, não pôde conter o riso. – Não, não
– acenou. – Sou só desses de serviço pequeno.
152
– Certo – o rapaz também se sentiu à vontade para rir, sem exagero. – Sou Hugo. O
senhor então está trabalhando no jornal.
– Pelo amor de deus, devemos ter a mesma idade, não há o que nos separe, não sou
senhor, Hugo – aí percebeu se não seria cômodo, enfim, afrouxar a gravata, o que fez na
mesma hora. – Sou Alex. Sinto que consegui uma vitória hoje, é uma boa sensação. Quer falar
a respeito?
– Certo, está certo – viu que o olhou num instante pelo retrovisor, possivelmente o está a
considerar. É, era uma boa idéia, talvez a partir desse rapaz pudesse conhecer os segredos da
espionagem dos motoristas, vai saber. – É você quem manda, Alex.
Parou alguns instantes para pensar o porquê dessa gentileza ser tão agradável, é você
quem manda, franziu um pouco da testa e está começando a ficar com dor de cabeça.
– Não, acho que não vale a pena falar sobre isso. Foi uma conversa que nunca existiu.
Dirige há muito tempo, Hugo?
– Há uns três anos.
– Conhece bastante a cidade?
– Sempre parece que continuam fazendo ruas novas, tem sempre uma viela que não se
conhece, chefe. Eu diria que dá pro gasto.
– Quando eu precisar de você, é só chamar?
O motorista riu, – Só se algum patrão mandar. Não tô dirigindo nem pra mim.
– Entendi – e meiosorriu.
Coincidências ou não, na verdade devia mais ser do horário, as ruas que viu passar dali
estão todas abarrotadas de gente, não havia uma tranqüila sequer, em alguns cantos as ondas
de caos pareciam prestes a transbordar calçada afora e inundar as pistas, como tsunami
devorando um estaleiro. Com os vidros fechados, sente por sinestesia o odor acre da fumaça
que saía em abundância do escapamento do carro à frente, em resposta pigarreou. Não podia
escapar também da cacofonia dos motores ronronando, os automóveis ao redor pareciam
ferozes ao avançar e frear sacudindo, guinchos estridentes apitavam, um profeta envolto de
tanta gente em cima de um tablado na calçada anunciava o fim dos tempos, e esse sinal à
frente, que demora. Isso se é por causa do sinal que estão parados, pode ter sido um acidente,
não, não está havendo escândalo e as pessoas estão bem dispersas, não há mulher histérica
gritando ai meu deus, ai meu deus, nem abutres farejando cheiro de coisa ruim, então são
muitos os focos de suas desatenções. Ai, isso agora parece ser o som distante de hélice de
helicóptero, deve ser uma dessas reportagens que filmam rentes dos arranha-céus como anda
a extensão do tráfego, e agora as náuseas, aí curvou a testa sobre a mão.
Com as pálpebras bem cerradas vê como se o contorno branco de muitos sinos tilintassem
de um lado ao outro dentro do escuro, faziam tê-lo a idéia de que não precisava retornar a
lugar algum, que invariavelmente sempre estaria na escuridão, lá, onde disseram ter aceso as
falsas luzes, onde evitavam que se enxergasse o próprio escuro. Distinguia movimentos
lácteos nas trevas profundas, no espaço sideral de um vazio aterrador as estrelas dançavam,
alguns relâmpagos clareavam a sua verdadeira visão. Permitiu pelo acaso que essas
lamparinas da psique despertassem as criaturas que bem entendessem. E não adiantou em
nada mais do que na criação de figuras doentias, formas vultuosas e dementes desprovidas de
qualquer porquê inteligente às suas caras, como aquelas que deixamos que apareçam quando
passamos pelo estado de vigília, onde nada é consistente porque nada exatamente precisa
fazer sentido, é que não queremos mesmo que faça por já estarmos cansados de todos.
Alex é a marionete de suas contradições, e algo, do qual não há de se negar as sádicas
intenções, como um deus ou alguém que esteja escrevendo a sua história, impunha que ele
continuaria a ser o espectador eterno dessas memórias, da sua própria história, para a qual se
cabe a torcida por um final feliz, mas não se pode invadir o romance e mudar o seu roteiro.
– Por quê? – soou a pergunta como se lhe fosse conseqüência natural, pertence a uma
linda voz feminina.
– Os outros têm mesmo uma obsessão com porquês – ele respondeu.
– Não acha que eu tenha motivos para querer saber? – ela continuou.
– A dedução é sempre mais saborosa, fique com ela.
– Não me faça mistérios, é cruel de sua parte.
– Desculpe, não posso evitar, não é exatamente intencional e não é que seja crueldade, é
só que não posso dar uma resposta que seja suficiente.
– Então por quê?
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– Nem sempre temos uma explicação pro que fazemos.
– Isso é meio estúpido.
– Isso é admitir a verdade, nada mais.
– E é você que sabe da verdade?
– Alguém tem que saber, senão ela não existiria.
– Não divague, tudo que quero saber é um por quê. Fizemos algo de errado?
– Óbvio que não.
– É alguma chance que não se possa ter outras vezes na vida?
– Isso não posso dizer – e ponderou –, digo que talvez.
– O que está acontecendo? Você mudou?
– Há tempos não consigo mais acompanhar esse tipo de coisa...
– Me avise se estiver sendo inconveniente... – ela choramingou.
– Não, eu entendo.
– Talvez não haja mesmo respostas.
– Ela existe, só não faço a mínima idéia qual é.
– Não fale com esse tom.
– Que tom?
– De que há algo muito transcendental em algo que não passa de sua vontade.
– Pensei que a vontade fosse transcendental etc.
– E isso realmente interessa?
– Não, não interessa.
– Sabe, por outro lado é como se estivesse realizando um sonho meu.
– Por quê?
– Porque isto que você é, é isso o que eu queria ser.
– Como assim?
– Nunca se sabe quando você poderá abrir a porta e ir embora para sempre.
– Isso não é verdade.
– Considere, nem você sabe.
– Tudo que tenho são indícios do que fazer.
– Você é assim com todas as coisas.
– É que mesmo cômodas as pessoas querem algo.
– Eu só quero te entender.
– Por quê?, isso é inútil, eu nem consigo, e você não ganharia nada com isso. Eu não sou
nem um pouco interessante. Essa é a verdade mais escabrosa e mais verdadeira que existe.
– Não sei bem, é apenas uma sensação, ou o indício de uma.
– E como é essa sensação?
– Parece que algo se aperta, eu não sei com certeza.
– É que vai sentir minha falta.
– Talvez. É, creio que isso não seja um problema...
– O hábito tem dessas coisas, ele nos vicia mesmo quando sabemos estar convivendo com
algo que nos é amargo.
– Por favor.
– Que foi?
– Se esse é o porquê de você estar partindo, não tenho nem mais o que falar.
– Já te disse, o porquê eu não sei, eu estava falando de você.
– Quando sempre o que interessou foi o porquê de você estar indo embora.
– Sim.
– É essa a sua grande chance de alguma coisa?
– Eu não tenho certeza.
– É por isso que você realiza um sonho meu, você pode arriscar.
– Gostaria de ter arriscado mais vezes?, gostaria de estar se arriscando?
– Às vezes tudo o que eu queria era ter motivos para fazê-lo...
– Eu não tenho exatamente motivos, ou talvez os tenha, mas não procuro esquadrinhá-los.
– Acha que eu esteja buscando nos lugares errados?, que eu esteja esmiuçando demais?
– Eu não sei, não faço a menor idéia do que dizer quanto a isso, desculpe.
– Eu devia estar te desejando toda sorte de coisas boas, não colocando empecilhos.
– Não é empecilho, eu realmente entendo.
– Acho que no fim me acostumei com a sua amargura.
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– É importante pra mim ouvir isso, que bonito, agradeço sinceramente.
– E quando parte?
– Eu não vejo a hora.
A prosa da qual se recorda pode caber, como de essência camaleônica, a qualquer
contexto, a qualquer ocasião. Sendo assim, a primeira voz com um por quê?, que por acaso foi
a voz daquela tal Ana, a quem nunca mais verá, mas poderia muito bem ser a voz de Júlia,
sim, poderia mesmo ser a voz de Júlia, é possível que também seja de qualquer um diante de
um adeus. Alex pensa se essa seria mais uma daquelas verdades naturais ou só um mais um
fetiche desastroso que criou. Era como se ainda olhasse as paredes descascadas, como se
ainda pudesse estender a cabeça para o lado de fora e se deparar com a noite iluminada com
o aspecto de mistério que assume no horizonte da cidade num ângulo que não mais veria, que
mesmo feio, nublado, comum, anônimo, confuso, em alguns instantes o faria ter saudades, tem
saudades de tudo em seu passado, até das coisas horríveis. Era amaldiçoado com uma terrível
visão de passado, de forma a saber das coisas e da forma como elas foram, e mesmo como
haveriam de ser, com uma visão que no presente nunca teria. É levado a concluir que tinha
saudades era das ocorrências, simplesmente por saber que elas já foram, já tiveram seu tempo
de ser, e é muito fácil lamentar por seu fim.
O profundo desinteresse por qualquer coisa externa a seu próprio ego parece criar um
ambiente próprio, feito cobaia isolada in vitro, assim, quando ergue os olhos das mãos,
despertando da atemporal passagem de catalepsia, pareceu não haver no mundo mais sons
que os do próprio coração ou da distante vibração de carro. Reconhece a rua por onde estava
passando, houve tempos em que a sua familiaridade com ela era diária, hoje em dia não resta
mais que uma pálida impressão de que um dia foi algo que conheceu. A velha que atravessa a
rua nunca pareceu tão ranzinza e amedrontada, as crianças de rua que nos obrigam a fechar o
vidro antes que venham tentar roubar o relógio nunca foram tão furtivas, o helicóptero que filma
do céu os assuntos do trânsito nunca tão silencioso, o cego do sinal nunca pareceu tão seguro
com sua bengala e com os passos de tartaruga, não se importa que o carro venha na
contramão, o motorista não olha mais no retrovisor, ninguém o vigia nem nunca vigiou, sente
um grande conforto. Se alguém retorna ao passado, responde-se, é porque há ainda o que se
acertar e que não foi, é porque tem coisa em branco, e não se terá paz até que ela esteja
preenchida.
Assim, com uma dessas ressacas típicas dos desacostumados que se põem a levantar
cedo, nosso herói prosseguiu a alternar os momentos de lucidez com o falso escrutínio das
insônias e, mesmo desconcentrado, por coincidência ou sorte da memória deu-se conta de que
não era à toa que uns edifícios da vizinhança pareciam ser familiares. É por aqui, instrui o
motorista com murmúrios que não têm muita intenção de se propagar. Entenderá que deverão
cruzar as sombras dos prédios altos, ingressarão naquelas vielas das construções mais
antigas, e após algumas ladeiras e alguns pedestres nos passeios mais agitados, ele ainda não
se lembra se foi grato o suficiente ao rapaz. Bem, o suficiente deve ter sido, sequer lembraria
quais os termos que acabara de usar para despedir-se, ali, quando chegava à sua rua, se é
que é sua, se é que pode se dizer assim, a considerar todas ruas em que durante sua vida já
habitou, essa é sua porque é onde está atualmente, assim como tudo, tudo lhe pode pertencer,
mas sempre por um tempo ridículo.
Passou pelo portão, com o equilíbrio dos improvisos o forçou, atravessou o vestíbulo onde
a luz do sol mal entra, não olha as caixas de correio, não olha muita coisa. O zelador é o velho
que cuida, por exemplo, da manutenção da fonte do pátio, que é o que faz agora, a desentupir
coisas que não devem estar entupidas e limpar o que se sujará na próxima chuva, e pelo que
se viu também exerce o trabalho de jardineiro, é comum quando na janela da varanda ouvir-se
os sons das ervas-daninhas sendo cortadas, o picote das tesouras e um assovio de se passar
o tempo. A sonolência o faz esquecer-se de um bom dia, boa tarde, de repente um olá.
Quando se dá conta já está na sacada de seu átrio, diante da maldita fechadura emperrada,
precisa ainda acostumar-se com os mimos que a chave exige ao se girar. Uma vez, duas, a
distração pelo gorjeio estranho de algum passarinho nas muradas, os sons que ainda não
definem o que vêm a ser suas origens se abafando por atrás das paredes dos lares, e entrou.
Conseguiu meter-se adentro, finalmente, que sufoco, supôs se não é essa a sensação do
aconchego que as pessoas têm ao retornar para seus cantos, seus lares, para se ter o prazer
de ver as coisas como foram deixadas, ali dispostas de acordo com seu gosto, postas na mesa
ou na estante conforme realizou a sua mão e a de ninguém mais, as coisas prontas para o uso
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conforme ele bem entende. Deve ser essa uma das coisas que com o tempo se acostuma, que
em breve não haverá a mesma alegria apaixonada ao tratar ou pensar sobre isso, com o tempo
seus dias ali irão se tornar iguais, o igual parece nos tornar indiferentes, ou a falta de atenção o
forçará a ver sempre a mesma coisa como mesma coisa, se é que uma mesma coisa pode ser
diferente de si mesma, que complicação, não havia nada que lhe trouxesse conforto que não
viesse da indiferença. Não gosta disso.
Andou, reconheceu onde estava, reconheceu-se, fez mais uma porção de coisas
mecânicas e desinteressantes enquanto poderia jurar não as estar fazendo, desabotoou de
qualquer jeito o paletó, ia andando pela casa como se não soubesse lidar com tantas escolhas,
arrancou a gravata, quando perceber estará novamente na sala. O computador estava sobre a
mesa da mesma forma que esteve pela manhã. Sua privacidade é inviolável, da mesma forma
não mexeu na mobília que está como a encontrou, não porque não pudesse, mas porque não
apraz. Decora o habitat com seus toques próprios de familiaridade, como deixar o cinzeiro ao
alcance das suas mãos se as estendesse, supondo que venha a estar estirado pelo sofá, pois
ponderou e calculou tudo que fará e providenciou para que tudo lhe esteja preparado. E ligou a
televisão enquanto se despia. Pensou se esquentava o almoço agora, faz uns dias que ele
compra uns congelados num mercado não muito próximo. Não sabia exatamente por que o
tinha feito. Deitou-se. Ainda estranhava o dia alto entrando pelas janelas. Talvez seja melhor
erguer-se novamente e fechar as venezianas. Não, concluiu, vou me distrair.
O que pensaria acerca de seu novo hábito de vagar a esmo pelas ruas?, O que pensaria
acerca do hábito de vigiar a tudo?, feito fosse necessário o conhecimento sobre desde os
armazéns próximos até as ruelas que tenha cruzado?, como um desses misteriosos que
passeiam pela noite com as mãos metidas nos bolsos da sobreveste, a quem ninguém sabe de
onde veio ou o que vai fazer nos próximos minutos?, por que você segue olhando as coisas
como se esperasse alguma coisa delas, procurando algo que nem você mesmo há de saber o
quê, mas talvez ocorra que encontre?, estava precisando inalar, mas que fosse de um ponto de
vista estrangeiro, a normalidade das coisas. Nada melhor que fazê-lo à noite, é naturalmente
quando as circunstâncias se tornam propícias para tanto, a discrição se torna mais possível, as
distâncias e o subterfúgio, próprios a observar de perto que ou quem quer que seja, ao mesmo
tempo em que ele não passará de uma assombração, um vampiro a dobrar a esquina e a
escolher a vítima incauta.
Era ele maior algoz das encruzilhadas, um novo santo iorubá encarnado, nos becos ou
além da iluminação dos postes, era assim que se sentia e esse é o papel que encenava, era a
besta, o predador de tudo que se possa ver e tenha vida, sente necessário disseminar a sua
semente de discórdia que geriu em segredo, a produzir essa sua doença que só se transmite
pelo contágio com o sangue, ou com alguma sorte se encara demais alguém. Assim espreitava
o infeliz, que pode ser desde o sujeito saindo da loja de roupas onde trabalha, a moça
comprando um dos últimos exemplares do jornal do dia na banca. Ela passaria, assim, no meio
da multidão, e ele a acompanharia. Vigiaria mesmo um casal namorando no banco do parque.
Sentia alimentar-se das almas quando tomava, sem que se dessem conta, suas privacidades.
O que para ser eficiente poderia se dar de diversas maneiras.
Sentaria-se, por exemplo, num ponto de ônibus, encolheria o tronco como qualquer um que
quisesse escapar do frio da noite, abriria sonoramente as folhas do jornal, olhando-as, mas não
as lendo, pois estaria a ouvir a conversa das duas senhoras sentadas aqui atrás. Não
interessava de verdade a doença de fulano, do acidente tristíssimo com o primo da vizinha, o
divórcio dos pais da coitada, a traição do noivo da mocinha, mas é incansável, é magnífico
perceber a devoção e a contentação que as pessoas dedicam às coisas quaisquer e quais
seriam essas, perceber ao que davam importância, é que sempre se dá a opinião mesmo que
ela não esteja bem formada, isto é, precisa violar as pessoas enquanto elas estejam estando.
O sujeito da lojinha dizia da ineficiência das propagandas que alertavam sobre a obtenção das
doenças, um jovem o combatia com alguns índices que lera no jornal, um outro mais tímido
passava e se continha em dar uma risadinha, não era sua intenção demorar, provavelmente diz
aquele riso com soberba, é, eis que estão aí protestando e contestando, e na verdade não
falam absolutamente nada de coisa com coisa, estão todos equivocados, bem-intencionados
ou não, não sei o que os move ou o que querem, mas estão errados quando na verdade quem
tem autoridade sobre isso, bem, não é que seja eu, mas devo ser o mais próximo.
Para se descobrir o que uma pessoa é, precisaria que ela se escancarasse e se mostrasse
de uma maneira que nem ela mesma saberia como, que fizesse do instante o aproveitamento
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máximo de si mesma, como num escândalo, como virasse uma metralhadora disparando sem
parar. Mas pode entender a gente enquanto ela está, é isso que faz. Se um episódio é pré-
conceito saudável, como a garota no semáforo disposta a atender o rapaz elegante que veio
perguntar se sabia as horas, ou se é ferramenta de sobrevivência, como quando vê um sujeito
mal vestido vindo na direção contrária, e se afasta, que pode ser ladrão. Em tudo há algo
pedindo para ser reparado, se acontece é para ser enxergado. Nada que esteja oculto há de
permanecer irrevelável, disse aproximadamente cristo, e no princípio das coisas tudo era
intenção e ainda continua sendo etc, e por aí podemos descobrir muitas outras citações
relacionadas. Os silenciosos continuam sendo os que mais deixam transparecer o que lhes
vêm a importar.
Podia ser o pastor pregando cheio de fé na calçada, frente a sua igreja das que tanto se
vêem, ou dentro do ônibus aquela estudante com rosto doce e esperançoso escrevendo e
lendo no diário as suas confissões para o futuro, para quem pudesse ler. Não sabia que Alex a
violava, bisbilhotava em segredo as coisas em quais ela não deve depositar muito valor, mas
se importaria de deixar a qualquer um vê-las, não gostaria de esquecer o seu diário num
ônibus. E o que mais seria precioso a ela?, que mais te importa, minha querida?, diz para mim,
conta tudo sem querer, conta tudo o que eu possa ver. Ao que julgava estar fazendo mais que
inspecionando, julgava descobri-la da forma que um conhecido nunca o faria, porque esse
estaria cego por seus encantos, defeitos, estaria cego pelo que ela é, o que acaba sendo
apenas o que parece ser, em geral, estaria persuadido por seus jeitos, pela identificação ou
pela repulsão. O que ele está fazendo agora é encontrá-la, um pouco de imaginação, atenção
e relaxamento seriam o bastante. Há quem naturalmente julgue tais fetiches, talvez ele próprio
às vezes se pegue com essa idéia, como frutos de uma certa desocupação obsessiva, chegou
ele mesmo a defini-la como infantilidade, mas é infantilidade das boas, paciência. Realiza
solitariamente a pesquisa sobre a mesmice quotidiana, e pergunta-se ao fim de cada noite o
que é que torna essa mesmice exatamente essa?, não existe responsável direto por isso, não
há o grande bode expiatório que se espera, tudo continua ainda sendo responsabilidade de
quem alimenta sua continuidade, tudo ainda continua sendo o problema de cada um.
Estava com calor, mas a preguiça de abrir as janelas ou ir ao quarto era ainda maior, a sua
inércia e o sofá o amarravam. A televisão, emudecida, assim era seu jeito de assisti-la,
passava as imagens do noticiário local da tarde, já lhe veio logo na mente o pressuposto de
que não contém nada importante, que a tarde não é hora da audiência, ele não sabe por quê,
mas não é, que as coisas grandes são deixadas para a noite. Claro, as pessoas estão nos
seus trabalhos. A reportagem fala sobre uma feira de bichos. Devia ser isso, caso contrário o
pônei em questão teria fugido do zôo, mas não devia ser, ele estava enfeitado com uns laços,
trata-se de um pônei afeminado. Mas a chamada mudou e pôde ver, saindo de um prédio,
cercado de uns sujeitos e perseguido pelos flashes dos fotógrafos que rapidamente
convergiam, aquele seu conhecido Condor. Que devia estar esse velho fazendo por aí?, não se
importou muito, achou que era só uma dessas aparições que ocorre à gente relativamente
famosa para que não se esqueçam da sua cara. Pensou se não estaria ocupado com sua
própria publicidade, se bem que ele parecia rude ao dirigir uma ou outra palavra às câmeras,
palavras que podiam dizer que saíssem do caminho, que fossem se danar, ou que não dava
esse tipo de resposta, não quer imaginar qual tenha sido a pergunta, agora ele entrava no
carro e não podia mais ser visto.
As coisas estavam indo de vento em popa, eis aí seu ponto de vista acerca de suas
contemporâneas idas-e-vindas. Atualmente sente que esteve fluindo melhor que nunca o seu
rendimento criativo, não serão poucas as vezes em que se encontrará sentado numa cadeira
da mesa de sala, sob a luz fraca de abajur, debruçado rudemente na tela de seu computador a
transcrever as suas coisas. Se não isso, poderia encontrar-se com as pernas para o alto no
sofá, com o computador agora a apoiar-se na sua pança, enquanto ele deixava a sala
preparada para clarear vez ou outra com os lampejos da tevê.
Estava trabalhando numa teoria, já está razoavelmente desenvolvida, que abordava
algumas controvérsias do latrocínio e do assassinato em geral. Talvez não seja exatamente
original, Alex se perdoou caso não fosse, mas nada impede que seja ele a descobrir por si só a
idéia que paira no ar, a mesma que um outro alguém pode ter desbravado em suas próprias
ocasiões. Enfim, o que ele dizia era o seguinte, baseado nos índices de que o latrocínio ocorre
em maior escala motivado por trivialidades da sociedade, como o roubo de coisas que não nos
são necessárias à sobrevivência, mas se estimulam com propagandas. Aí citava o caso do
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rapaz que estava desaparecido e dias depois encontraram seus seqüestradores e assassinos
num shopping, compravam com os cartões de crédito da vítima alguns pares de tênis e blusas
com marca. Era uma dessas extensas críticas à civilização do consumo que não se leva a
muito canto, a não ser à própria indignação.
Resenhou a periferia da mesa com uma olhada rápida, constatou que ainda estavam lá,
impressas como achou que deviam, as ótimas matérias que julgava ter feito sobre o processo
de pavimentação dos bairros periféricos, a diminuição do pedágio nos estacionamentos
públicos e a reconhecida política de reflorestamento que vem sendo encaminhada pelo
governo. Se viesse a calhar, depois de um tempo enviaria aquilo da crítica sobre a sociedade
dos consumos, tudo isso torna bem claro e está implícito em suas memórias que aquele
telefonema prometido ocorreu, há quanto tempo exatamente não se lembra, a ele tem se
tornado indiferente a quantidade de dias ou semanas inteiras.
Não tinha sequer a certeza se a voz pertencia àquele diretor com quem falara. E, mesmo
se fosse, para todos os efeitos se falavam pela primeira vez. Foi um diálogo curto, nem por isso
insuficiente.
– Com quem falo?
– Quer falar com quem?
– Com o senhor Alex.
– É ele mesmo – era inegável como se acostumou ao título de senhor.
– Falamos do jornal das artes.
– Sim.
– A sua admissão foi analisada. Está tudo em ordem.
– Certo, sim, obrigado.
– Entraremos em contato para as novas instruções.
Os olhos piscaram, a vista está cansando, é melhor que pare por um tempo. Estava
adiantado, portanto não faz mal assim. Não é porque uns foram crucificados que você também
precise ser, também é que o que o motiva nesses últimos instantes não é alguma obrigação
crucial, senso de responsabilidade, coisa e tal, é sim uma espécie de prazer que vem do
orgulho, uma necessidade incontrolável de se mostrar, de falar as coisas que deduz, e essa
coisa da expressão pode ser mesmo universal, uma preocupação de todos, mesmo que nem
sempre se articulem e nem sempre sejam maciças, catalogadas num só volume como no caso
do retorno à escuridão. Assim, o que agora tinha eram vários volumes que complementavam,
em fragmentos de percepções distintas, o mesmo fundamento de idéia, a idéia que é ele
mesmo. É a mesma obsessão, a coisa do homem livre. As noitadas, vale ressaltar, veja muito
bem, que muito diferentes das de algum tempo, são feitas com outros fins. Eram poucas as
vezes em que voltava sem ter reparado em um detalhe interessante de mais um capítulo da
vida, de por exemplo reparar como o trânsito diário é um instrumento para a gente se exibir e
se testar, até perceber que isso se dá porque toda forma de heroísmo e as formas mais
intensas da emoção são as que gravitam em torno da morte, por isso, deduz, todo homem que
passe perto de entregar a própria vida é um herói, há muito a ser considerado sobre isso. Ele
pode peneirar ouro do que aparenta não ter nada que interesse.
Tudo isso começava com uma ou outra anotação, como dessas das quais se diz nota
mental e depois se percebem coisas ainda mais fascinantes para tratar a seu respeito, vai ver
tudo acaba num grito de eureca. Agora já tinha um conjunto de crônicas que poderia usar ou
não, que poderiam um dia vir a ser reconhecidas ou não, poderiam ou não fazer alguma
diferença, diferente das questões do reflorestamento, que é justo deixar isso para os
movimentos verdes ou vegetarianos. Aí digitou mais umas linhas, mas a distração vem
comprometendo muito do desenvolvimento. Era uma hora aconselhável para parar, o que fez
satisfatoriamente. Esticou o pescoço, deu espaço para que a fadiga pudesse retirar os seus
espólios, e aí vagou a atenção pelos arredores. Aqueles livros empilhados ainda estavam no
mesmo lugar onde deixara, não propriamente arrumados, mas de fácil identificação.
Instintivamente volveu-se em direção às prateleiras de onde os tirou. Havia uma alma
desocupada e faminta o suficiente para consumi-los, ao menos até que essa alma fosse
persuadida pela melancolia confortável da vagabundagem.
Esteve lendo simultaneamente alguns deles. Um de poesias de um sujeito que não
conhecia, mas quando lera lhe parecia um tanto vulgar, tolinho. Inicialmente pareceu estranho
até ser finalmente de seu agrado, tratava-se o rapaz de um beberrão agressivo, era quase
imaginar que um desses maltrapilhos que se vêem pelos bares da vida afora, aquele mesmo
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desdentado, envelhecido e viciado, do qual todos sabem não ser capaz de qualquer
entrosamento entre os próprios colegas de botequim por já lhe ser difícil formular alguma frase
inteira, imagina só que ele fosse à sua casa, sentasse de um jeito estrebuchado na cadeira e
se dissesse que agora ia escrever. E haveria ainda assim coerência, ou talvez não fosse
exatamente isso, mas algo que pudesse se aproveitar e que era bonito e verdadeiro.
Engraçado. O outro era uma reunião de crônicas um pouco góticas, havia uma ou outra parte
de versos, dentre as quais leu algo sobre um corvo. Um corvo!, espanta-se, e algo
metafisicamente se identificou consigo, como se olhasse para a penumbra da porta e
imaginasse que um bicho feito aquele também estivesse vigiando e apregoando coisas sobre
sua sina. A outra capa que estava visível era de um livro sobre a história contemporânea,
achou que seria de algum modo interessante que o lesse. Junto a este estava um chumaço de
papel com anotações enroladas, não as identificou numa primeira vista, então se estica e as
pega.
Enrugou um pouco o rosto, colocou as folhas do tablete ao melhor alcance da luminária.
Reconhece o esboço de seus garranchos, as coisas são mesmo diferentes feitas à mão nua,
quando já faz muito tempo que se perdeu esse hábito. Tentou identificar suas palavras na
prancheta, mas não soube dizer ao certo de quando e a qual ocasião específica elas
pertenciam, pensou, com um realce da sabedoria que sentia portar, que era melhor que das
próximas vezes colocasse-lhes as respectivas datas. Mas aí pôde ler, Hoje comecei por um
tipo magricela, a primeira vista se trata de um rapaz acuado. Estava na calçada com mais
gente, esperava o sinal abrir quando reparei. Ele andava com as costas bastante encurvadas,
olhava baixo, usava roupa pesada. Pensei ser um desses sujeitos que trocam a vida pelos
estudos e nunca conseguem se sarar da escolha. O rosto era feio não só por ser ossudo, mas
também é muito pálido, e veio, vinha andando, já se aproximava da faixa, quando um desses
mais apressados quase que trombou nele, mas o rapaz foi mais ágil, conseguiu desviar do
encontro e naturalmente seguiram seus caminhos. Ele tem consciência de sua estatura e de
sua fraqueza. Deve ser por isso que age desse jeito enrustido, é normal que tenha se
acostumado. Talvez ele estivesse pensando sobre isso, talvez esteja tão acostumado que ele
próprio não vai mais considerar um acontecimento assim. É trivial como respirar. Sendo assim
ou não, há motivos para ele repensar toda a sua vida a basear-se naquela calçada. Podemos
extrair daí os motivos para a timidez nos passos, ou da precaução agressiva que carrega.
Conclusão um, sempre sugerimos o que somos, e não é isso algo difícil de se perceber, mas
isso não é coisa que se fala, é coisa que se intua. Conclusão número dois, pensar sobre que
outros motivos nos levam a nos marginalizarmos.
Deu um meiosorriso, vira a outra página. A idéia de sintetizar as empreitadas vampirescas
num bloco de notas era prática, porventura não corria o risco de algo se perder nos
departamentos muitas vezes ineficientes da lembrança. Enquanto isso, como em resposta,
tentava recordar das feições do tal sujeito. A surpresa foi a de constatar que só podia imaginá-
lo à partir das coisas que acabara de ler, independia de quem as tivesse escrito ou se ele
tivesse anteriormente visto a cena, agora essa era uma forma transformada de ver a mesma
coisa. E ainda leu mais, Entrei numa dessas casas noturnas. Estava andando e por acaso a
encontrei. Era bem discreta, fica ali quando se sobe uma antiga rua bastante escura, e olha
que já passei muitas vezes pela avenida próxima, e comecei a reconhecer o que era quando vi
umas garotas características na porta, elas logo vieram provocar daquele jeito que as putas
fazem, chamando com o dedinho, mostrando as pernas, falando ops, e sorrindo. Elas são
legais. Resolvi deixar levar e entrei. Fiquei no bar algum tempo, olhei as dançarinas por mais
outro, é difícil reconhecer se os clientes, as pessoas por perto se tornam mais espontâneas ou
se se vêem compelidas a agir com mais artificialidade, eu não sei. É difícil saber se se
descobrem ou se adequam. A bebida dá apoio nessas ocasiões, faz com que se permitam,
isso é interessante, tanto é que vou bebendo, e penso se as pessoas vêm aqui em busca de
algo em específico ou para conhecer em parte mais por curiosidade que qualquer coisa o que
diabos deve acontecer nesse tipo de lugar, e isso é mesmo um pouco óbvio, mas como e por
que acontecem. Mas isso talvez esteja refletindo mais minha situação hoje que a deles,
porque, por exemplo, muitos ali da frente parecem ter lá suas experiências com isso, então
certamente o caso não é de curiosidade, mas vício, ou como queiram chamar o hábito que lhes
apetece. Acho que estou sendo chato, mal agüento ler o que escrevi. Senti que poderia estar
divagando demais, resolvi mudar. Fui e paguei por algum tempo nessas salas escuras que a
moça fica dançando do outro lado, achei que seria mais íntimo. Aqui estou rascunhando essa
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parte, ela não me vê, está lá dançando, nesse momento se esfregando no vidro. A moça não é
muito bonita, dá para o gasto do pessoal, tem olhos verdes e atualmente usa uma parte da
roupa de couro que vestia, enquanto eu escrevo ela vai tirando, e eu ainda acho que o
problema das putas é usar maquiagem demais. Há pouco me usei de tom de pirraça com ela,
mas na verdade o leitor, que sou eu, vai entender que isso fazia parte de um processo mais
importante de pesquisa e que as trapaças portanto se perdoam, então, perguntei se ela sentia
prazer com isso, mas ela respondeu dizendo que estava louca de tesão, creio que não seja
algo a se levar em conta. Perguntei se alguma vez já tinha se interessado por algum cliente, e
ela me responde com uma voz afetada que estava louca por mim. Eu não devo estar sendo
convincente, não devo estar sendo muito original, não sei. Que horas você sai?, eu perguntei,
ela deve ter mentido de novo dizendo que não tinha hora, que ia ficar a noite toda, e que era
uma pena, mas que ia me compensar fazendo uma surpresinha, e eu não sei se olho ela
tirando o que sobrou da roupa ou se escrevo. A conclusão que até agora eu tenho é que o
prazer virou mesmo um mercado, não só ele, a vida toda, que tudo tem um preço, até a moça
aí da frente, não só o corpo, mas a atenção e se duvidar um interesse de verdade. Eu devo
custar muito pouco. Ela não pára de dançar em torno dum metal e está lá a repetir os mesmos
movimentos, não pára nem mesmo quando me responde, geme o tempo todo. Parece essas
secretárias de filme pornô. Então, me pergunto se esteja aí um mercado que valha a pena, isso
de abrir mão do prazer individual pelos outros, se esse sacrifício compensa à garota. Presumo
ser uma necessidade que a leve ali, deve ser um lugar tão fácil de se entrar, apesar das
merdas que uma vez dentro eu acho que existem. Mas julgar suas necessidades é
prepotência, ou talvez seja algo que eu deva, mas me sinto identificado por ela me parecer
uma vítima, o que não devia fazer, não é muito inteligente se cegar assim, é também um pouco
de arrogância, eu me sinto um idiota. Perguntei se ela estava feliz, isso com um poder de
intimidação que na hora me veio muito forte, saiu dos bons, e ela só sorriu, atuando ou não ela
não sabe o que responder, depois dançou muito melhor.
A campainha do telefone tocou e no silêncio em que estava foi o mesmo que tirar de seu
transe a pontapés o monge que medita há anos, desses que deixam até a sombra marcada na
parede em frente da qual se prostrou, eis o desrespeito milenar, e tal representação justifica o
espasmo que teve, recua a cadeira da mesa num pulo rápido, solta o bloco de notas feito
tivesse em mãos a prova de uma culpa, e deixa-o cair aberto na parte que incitou uma
discussão existencial entre um padeiro e um baleiro no fim de seus expedientes, isso porque
perguntou a ambos se era possível ficarem satisfeitos com um ofício simples, se isso não é
conformismo. Mas enfim, talvez em outra ocasião ele volte à cadernetinha e lembre-se
aproximadamente o que cada um deles defendeu. Agora, o telefone. Deu a volta e
espreguiçou, ao mesmo tempo alcançou-o do lado, logo ali nas prateleiras.
– Alô? – atendeu.
O outro lado está mudo, ainda assim pode-se ouvir que há alguém atrás da linha, que
talvez estivesse desatento demais para saber que sua chamada já tenha sido efetuada. Ouvia
o sussurro dos sons do ambiente do lado de lá. Alô, chamou novamente, mas aí a ligação foi
cortada. Conferiu brevemente que de fato a ligação tinha caído ou sido desligada, ao ter
certeza esticou-se mais uma vez para colocá-lo no gancho. Obviamente não há com o que se
importar, dentre os tantos enganos que se cometem o tempo todo ao se telefonar, ou talvez
ainda supondo outras razões mais específicas, como a pessoa que ligara perceber estar
naquele momento mais ocupada do que pensava para que fosse se enrolar num diálogo, e
desligasse sem prestar satisfações para que esperasse um momento mais propício.
Logo ele estará ali, jogado, esticando as pernas para o alto daquela forma já tão
conhecida, procurando enquanto revira o corpo a posição mais cômoda para se engajar nas
coisas do mundo. A primeira página anuncia o jornal das artes, a matéria que vinha em
destaque era algo que lhe fugia do conhecimento. Pensou que merda, que a única coisa que
me interessa não consta, aí ele estava folheando as páginas, passando em diversas ocasiões
o olho por mais de uma vez na mesma folha, como se para assegurar que não estivesse de
fato perdendo nada, e encontrou o que buscava bem abaixo de uma matéria das de menor
importância. Lá estava escrito, com o título em letras não tão destacadas, mas que fazem jus
ao conteúdo da reportagem, nesse caso só vindo a se tratar de uma discreta propaganda. Leu
as seguintes palavras diversas vezes, Em noite de exposição, apresentando à cidade o tratado
que nos conduzirá ao estado de espírito crucial à reforma que tanto se fala, mas que de tão
pouco se diz. É com orgulho que, em breve, dos seios do jornal das artes há de brotar O
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retorno à escuridão. E então a isso seguia a informação de uma data e outros dados desses
fúteis, da bibliografia, selo da edição e coisas que se mencionam nas letras miúdas.
É isso, não tinha muito que fazer, é conveniente e previsível que visse a propaganda desse
tal retorno à escuridão numa nota de rodapé, além de impregnada de clichês como de que
tanto se fala, ou pior, de que tanto se fala, mas que de tão pouco se diz, é para de fato não
dizer nada, reservando essa parte qualquer para um nada qualquer, e ele acaba por inspirar-se
num desses outros clichês, que suspira e se diz, paciência. E reforma, eles disseram, que
merda de reforma, o quê. Atirou o jornal de qualquer jeito por sobre a mesa, com muito menos
respeito do que quando o trouxe.
A noite vinha se aprofundando e não trazia com ela qualquer barulho de fora, qualquer
distúrbio até as fronteiras das venezianas. Já estava enfiado no lavabo, passava a lâmina do
barbeador no rosto espumado, distraía-se por nada mais específico, através da porta
entreaberta do banheiro assiste os vultos fantasmagóricos de televisão. Ia terminando de
raspar a barba, tratou dos outros asseios, enxaguou o rosto, pôs-se a tomar uma ducha, saiu
desnudo pela casa com a toalha pendurada pelos ombros, o assoalho deve ficar seco por si só.
Depois eu limpo, pensou. Foi abrir o armário, afastou as fileiras com cuidado quase metódico,
reuniu um desses moletons, a calça, o sobretudo. Já arrumado estava na sala, parado por
alguns instantes em frente da mesa, punha de volta como quem não quer nada os papéis que
teimavam em escorregar para fora dela, olhava em volta indiferente do que via, como se
ganhasse algum tempo, como se precisasse estar seguro que sabe-se lá o quê estava em
ordem.
Apanhou o relógio, com a portinhola aberta ele marca foscamente algumas horas após o
pôr-do-sol. A essa altura as ruas já estarão mais preparadas para ele. Daqui a pouco é hora de
sair.

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Lembra-se de quando estava vagando pelas ruas e a troco de umas moedas afundadas na
mais íntima profundidade de um dos bolsos recebia de uma dessas tantas bancas de jornal o
exemplar dos mais recentes, abriu, leu o destacado anúncio da primeira página, falava sobre
uma noite da arte. É, depois eu vejo sobre isso, se disse, enquanto fechava o caderno e
inalava a brisa de muitos cheiros dos passeios noturnos. E veria mesmo. Agora está sentado
da maneira que aprendeu-se a sentar, metida a cabeça em destinos distantes, profundos por
preconceito com o raso, porém vagos, fingidos a tratar-se das tramas neurais do nosso mundo.
Olhava para fora, ali pelas vidraças do café, há muitas coisas nas quais reparar, tinha os carros
que fazem que vão estacionar, o mormaço impregnado no vidro, o poste que se curva bem
perto dali e torna a óptica um dos fenômenos mais peculiares da natureza, com aqueles
milhões de feixes sujos, mortos, debruçando-se como caíssem, frutas a passarem da
maturidade e apodrecerem, derramando-se sobre todas as coisas próximas, que, como se é
sabido, foram criadas para abafar a tristeza das coisas no seu natural, em seus por si só. Por
fatalidade, a desviá-lo do centro original das idéias, se é que há algum, o que agora vê é a
porta do carro a se fechar parado logo a frente. Estica um pouco da cabeça a bisbilhotar, a
discrição não o permite que fizesse mais.
Os rapazes com as câmeras fotográficas cercam de vez em quando, assim, vinham
espreitando calmamente e cheio das gentilezas as mesas dos sujeitos que importam. É desses
que todos conhecem, menos ele. Fez a promessa de que a partir de hoje leria aquelas páginas
das revistas, que parecem ser as mais chatas, que falam sobre pessoas etc, arrumam-se
pretextos para bajulá-las, nascem os ilustres porque todos parecem muito vitoriosos. Ali do
outro lado do salão um senhor gordo e já careca pelos intemperismos do tempo abraça a
sorridente esposa, que é para ceder ao jovenzinho uma boa imagem. Certo, descanse seus
olhos. Os fechou por instantes. E quanto a você, Júlia?, como é que vai?, e não pôde ocultar
por muito tempo sua infração, seu crime espiritual, e a consciência, por vias irônicas ou não,
esgueirando-se nele através de uma forma cômica de encarar a si mesma, que aí torna-se
muito mais tolerável, faz relembrá-lo de outros assuntos, e ele tem alguns, a pensar, por
exemplo, na simpática vendedora da loja de vídeos que há uns dois ou três dias foi o seu alvo
principal de noite de caça, quando chegar em casa poderia ler o capítulo destinado a ela no
seu bloco das anotações, por um acaso pode querer.
A seguiu desde o final do expediente, foi fácil acompanhar seus rastros por causa daquela
gente que sempre se aglomera nas calçadas comerciais. Estão sempre cheias, ele tem
aprendido que quanto mais gente melhor, que desenvolve a sua astúcia ao passo que se
camufla. A impressão que inicialmente teve é que a moça manca um pouco, talvez da fadiga
por andar com o salto-alto, depois constatou que seria realmente fácil de acompanhá-la, de
fato mancava um tantinho, e olha só, que essa noite foi brindado com um espécime um pouco
mais exótico, como um lagarto tropical ou tartaruga gigante, quem sabe não pode tirar daí a
substância de muitos comportamentos, hein?, será um exercício interessante, aprecie-a com
gosto, dever de casa além da conta, dos que se correm para se gabar a mãe sobre como o fez
direitinho.
Ela parou por algum tempo numa loja de conveniências, ele achou melhor que só entrasse
um pouco depois, que ninguém está acima de suspeitas e ele não pretende levantá-las,
mesmo sendo mestre das técnicas de dissimulação. Pensou que também fosse bom comprar
alguma coisinha. De algumas prateleiras a distância não a perdia de vista, ela manca sem
encantos pela área dos frios. Pela quantidade de guloseimas supérfluas que vai pondo na
sacola deve estar atendendo também os outros da sua família, a quem ela deve ser muito
apegada por causa de ser manca, não teria mais a quem recorrer quando na infância era
caçoada, se é que não ficou assim por acidente, então, deve estar comprando para o
namorado, o amante que a visita nos sábados, que ela é bonitinha, avô doente, tio, e uns
outros quaisquer, que ela não é tão jovem, também não é dessas pessoas de meia-idade, um
mundo exótico de possibilidades, como a inexplorada e indígena América.
Sacou uma moedinha das que sempre se tem nos bolsos, e estando em frente à máquina
dos cigarros é previsível o que tinha em mente. Alex não faz muita distinção entre as marcas,
por isso logo se vê descer uma carteira qualquer, provavelmente aquela que o apetecia um
pouco mais, tratou de apanhar, vai abrindo, fumou. Para poder acompanhar a sua presa à fila
do caixa ainda apanha uma revista qualquer. Pôs-se atrás dela, e à frente ainda havia uma
senhora de idade com algumas sacolas a serem registradas pelo camarada do balcão. A culpa
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de ter pensado em Júlia foi a voz da moça. Ele não tinha culpa dela ser doce, e a memória
realiza lá suas conexões, estranhas ou não, entre as coisas, não precisam também ser bem-
vindas, é bem certo que às vezes só precisa de um estopim para que aja uma avalanche
cerebral, e agiu. Enfim, a senhora do balcão virou-se um pouco distraída, assim quase deu
com os braços na moça. Pôde até sentir-lhe o cheiro da cabeça estando assim tão próxima,
cheiro de cabeça de mulher. Desculpe, senhora, disse de forma comum a moça à senhora, e
daí veio a voz, ao que a senhora sem pestanejar agarrou a alça das suas coisas e já trotava
embora, meio desconcertada, os velhos andam mais ou menos da mesma forma, ou devagar
ou parecendo constrangidos de viver. O mal já tinha sido feito, a garota falou e já estava a ser
atendida, e a testa dele enrugando-se como se dizendo, legal da tua parte ficar me lembrando
esse tipo de coisa, sem querer ou não, e agora?, presumo que há de ser você a saciar meu
desejo, você, que nem me conhece, que nunca antes me viu, que só tem comigo em comum o
fato de eu te seguir. Fuzilou a moça dali, de costas para ele, desprevenida, julgando-se a salvo
de todos os males do planeta, que deve ignorar toda a ruindade que numa hora assim possa
vir a lhe ocorrer, mas Alex está debruçado sobre suas costas.
Tinha vontade de fazer muitas coisas, uma delas é a maldade de passar-lhe uma rasteira e
zombar, mas não fará nada, e o raciocínio que vinha desenvolvendo até agora, um tal de
doçura que nasce feito flor das dificuldades da vida bruscamente se aniquilou, que a flor da
doçura murchou e ele foi iluminado com algo muito mais interessante. E se Júlia ainda mora no
mesmo lugar de antes?, depois do que houve, presume que por comodidade e paz ela não
deseje vê-lo, mas talvez, e somente talvez, quem sabe depois ela se anime, passada a
surpresa de encontrá-lo?, quem sabe ele não a acaba tranqüilizando?, todos sabem, Alex, que
o que quer é um motivo para vê-la, por mais que isso o angustie, por mais que algo lhe doa e
torne essa idéia desagradável.
Mas ele se lembra de onde ela morava, ao menos até a época em que eram amigos. É,
Júlia. Até hoje lhe é suficiente defini-la com poucas palavras, aqui vão elas, garota mimada que
nunca precisou de muito esforço para ganhar as coisas, as coisas que ela quer e faz gosto. Os
sonhos são comuns, como daqueles que desejam satisfazer a todos os próprios desejos
enquanto lutam pela paz no planeta, mas, ao notarem que essa luta é um pouco mais dura do
que se pensa, nesse caso se restringem apenas à parte do sucesso e da própria carreira, todo
o resto é deixado para mais adiante, num futuro que deus guarda, se ele mesmo já não o
esqueceu. Ela é do tipo que pode chorar quando vê um filme de qualidade e bastante
comovente, sem exageros, sem pieguices, faz-se de tímida, vai também bocejar em outras
películas e sair implicando, fazendo-se de enfadada, e é rígida e concisa a tratar-se das
eventuais obrigações que lhe surjam, que é para tornar-se confiável a todos que puder, que é
coisa da mulher independente que tem meios além de sorriso para cativar. É uma moça
moderada, é um pouco enjoada, capaz de se tornar sem graça e infantilmente desagradável
quando o ambiente não lhe está a altura, girando com o dedo, cara de ai, que chatice, o gelo
dentro do copo com uísque, sem se tocar do quanto isso pode ser angustiante para os outros,
porque os está pressionando tão escancaradamente que é falta de educação que reparem e,
ao que se lembre, ela não liga de verdade muito para os outros. Teve toda a vida para treinar
como ser articuladora, das causas disso não se sabe, se a vida foi assim ou assada, quais
foram seus exemplos, mas parece mesmo que aprendeu, ignoram-se as razões, meramente
quis ou permitiu-se, e é sem dúvidas no que melhor emprega sua inteligência. E ela sempre te
foi um problema.
Ele não a deseja porque ela possua algo demais, um apetrecho que nunca viu, uma beleza
incomum, uma marca exclusiva, algo que a faça ter se tornado necessária. Ele a deseja porque
a viu primeiro. Não é justo que André a tenha conseguido, mas muito menos justo seria que
tentasse tirá-la dele, e isso ele nunca fará, que não é um cretino, não é como se fosse com um
outro qualquer, que aí tudo bem, tudo jóia, de pouco importa, é uma das coisas da vida, que as
fêmeas não vêm com etiquetas ou encoleiradas, mas não com André. Não faria uma coisa
dessas, nem mesmo se Alex, de fato, pudesse conseguir algo. E isso é o que se pode ter como
possibilidade das mais remotas, tão remota quanto, por exemplo, a de Júlia, coincidentemente,
por alguma obra do acaso ou de força mais sinistra, estar nesse mesmo encontro, em algum
lugar próximo à tal cafeteria onde ele atualmente está.
Essa moça é, ou melhor, foi uma amiga querida, a quer bem, e ele está mesmo disposto a
protegê-la, não especifica de quê, ainda que não seja de tudo, que alegar tudo é um pouco
demais, mas é como faria a qualquer um de seus amigos, mas sem exageros, sem sacrifícios
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ou excessos, que ele não é mártir nem estúpido, não teve até hoje porquê de sê-lo e não é
como se ela já tenha mesmo precisado de proteção, e quando sim, na verdade sempre dispôs
de outras fontes para obtê-la. Mas quem sabe as coisas não mudaram, hein?, e seria hipocrisia
se não admitisse que foi por um pingo dessa esperança que ele desistiu da presa antiga, a
vendedora da loja de vídeos que, devendo ser felizmente a ela que não tem mais ninguém a
sua espreita, saiu caminhando ao seu manco destino, que torna-se desinteressante. E ele já
tem um novo horizonte clareando como sol em sua mente. Foi à rua que seria sua meta, para
que se aproximasse dela foi preciso penar por duas horas dentro do metrô, mas não fazia mal,
que nos metrôs geralmente se têm muita gente, banquete para quem aprende a sugá-las e
principalmente para quem não se cansa, seja pela solidão, que impõe poucas variedades do
que se fazer, ou por gosto, assim ele nunca estará plenamente desocupado com todo seu
tempo inútil, puro e em branco.
Em certo momento, quando o túnel abriu-se e pôde ver a cidade e enxergar os seus
prédios, lá, todos acesos nas suas discrições, lembrou-se de um sonho em que essa claridade
era toda de um fogo horrendo, o mundo estava em chamas. Quando isso ocorrer, pensou,
estarei exatamente feito aquele imperador romano, que enquanto a cidade explodia tocava
suas músicas no terraço do palácio e observava tudo ruir, devia rir e purificar-se de todos seus
pecados.
Estava na rua. Estava certo de ser aquela, só não estava certo sobre qual era o
apartamento, uma vez também estando certo do prédio. Olhando assim, só se via um bloco de
pedra que não inspira nada. Nunca subiu, mas por alguma razão que não convinha lembrar já
tinha estado naquela rua, faz idéia de qual seja o andar, algo entre o quinto e o oitavo, e assim
não foi difícil supor mais ou menos a altura, e ver que desses andares não havia janela
apagada. Bom, pensou, se é aqui mesmo que ela está, as pessoas são muito fáceis de serem
encontradas. Agora é só ir até a guarita da portaria, que perguntando pelo nome já se acha
quem se deseja, vai lá, de nada adiantará ficar parado em frente a essa banca de jornal, como
se estivesse algo aí que o interessasse, como se você estivesse disfarçando, desviando a
atenção de lá de cima. A verdade é que a covardia, também a própria coragem, geralmente se
manifestam somente no momento em que realmente se fará a diferença, a hora h, e ele, assim
como buscou convencer-se de ir, agora está procurando motivos para desistir. Se por um
acaso tiver de saber se ela ainda mora ou não com os pais, se tiver de saber se ainda mora
naquele apartamento onde você vê um ou outro vulto por trás das cortinas, não será nessa
noite. Talvez em alguma outra.
Algo pesado é posto em cima da mesa, soou abafado, e isso o assustou. Era um desses
sustos que em resposta se ergue a cara sem grandes escândalos. Era mesmo aquele senhor.
O rosto agressivo de Condor o olhava de um jeito estranho de se entender, era severo, porém
amistoso e profundo. Não sabia há quanto tempo estava ali, há algum não se importava mais
com as portas da cafeteria, há mais ainda não se importava com as fileiras de carro e a gente
desinteressante, não como a América rica e selvagem, mas como colonizadores desastrados.
Mas o que o gelou realmente, arrepiando-lhe até os ossos, foi ver que é O retorno à escuridão
que foi largado sobre a mesa. A capa negra mais atávica que nunca tem a imensidão de um
oceano escuro contido nas curvas de couro, era forte mas não parecia, e por não parecer
tornou-se ainda mais perigoso, e as letras do título estavam mais brilhantes que antes, era algo
de qualidade, não dessas coisas amadoras que se vêem rondando por aí. A tomou
imediatamente com a palma da mão, a arrastou, ciente da consistência das páginas, a querer
comprovar ainda mais, guiou até o seu colo.
– Essa é a primeira edição? – perguntou, só teve força para desviar um pouco o olhar.
– É um presente meu a você.
– Esse é pra mim – repetiu, abaixando o rosto. Deslizou os dedos pela capa, sentiu o
relevo e coisa assim. E a satisfação o visita por um tempo. Para isso sequer fazia diferença
que na capa só conste o berrante título e o autor fosse assim tão descartável, como estando
implícito que fosse escrito por todos ou por alguém que já se perdeu, ou que agora a ninguém
ou a todos pertença.
Abriu. Vê logo as orelhas, esse restinho da capa que serve de marcador de página, lá
estão algumas embromações de algum comentador, compadre de Condor, que pode ser
qualquer um e não o interessa. A primeira página repetiu o título em caracteres menores. Na
segunda, em letras pequenas estão as tais informações técnicas sobre a gráfica, a impressão
etc. Agora já está na terceira e lá jaz, em caracteres comuns, na parte que usualmente se usa
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às dedicatórias, o seguinte, deixai, ó vós que entrais, a toda esperança, e virando-se essa
página se via o início do conteúdo, impresso realmente parecia mais coerente, tinha uma
beleza única, nem pior e nem melhor do que já conhecia. Por ser diferente do usual o pertence
menos ainda, prefere nem mesmo ler, devido a causas como essa tudo o que pode sentir, mais
uma vez, é esse vazio que se preenche a si mesmo por não admitir nada existente além dele.
– Que é isso escrito?, deixai toda esperança?
– Foi uma liberdade que tomei – respondeu o velho, e tomava outra liberdade ao puxar
uma cadeira e se sentar. – Em um clássico, essas palavras estão gravadas na porta do inferno.
– Parece aterrorizante, eu gosto, não sei. Mas talvez não seja tão boa idéia associá-lo com
coisa assim, com inferno.
– Ninguém até hoje tinha falado novamente do inferno, você fez.
– Certo, você me convenceu – e repõe o livro fechado em cima da mesa.
– E espero não tê-lo feito esperar.
– Estou bem.
– Chegou faz muito? – ergueu o dedinho, sem nem olhar requisitou a presença de algum
garçom, e não seria de se espantar se com tão pouco viesse mesmo algum, se duvidar
correndo.
– Não se preocupe, estive me entretendo.
E alguém veio mesmo. E era um rapaz vestido feito um pingüim todo lustroso. Não
cumprimentou, não interrompeu nada, apenas olhou como se desse boa noite, é incrível como
é adestrado a se comunicar no silêncio, e se prostrou de forma que deu a entender que era
todo ouvidos.
– Me veja uma xícara, por gentileza – requereu Condor sem gentileza.
– Para mim, nada.
– Então, pelo que vi – veio mais uma vez Condor –, as mesmas figuras de sempre já estão
a postos.
– Eu não conheço ninguém.
– E por que deveria?, são os mesmos críticos, políticos, jornalistas, metidos, empresários.
São todos velhos.
– O senhor também é velho, mas eu entendi o que quis dizer.
– Isso não lhe tira a razão, assim como eles eu não reconheci a hora em que devia me
aposentar.
– Não diga isso, ainda te há vida.
– Não use clichês que você não domina.
– Desculpe, tem razão, que abandonemos a vida na hora certa, quando convir, não sei.
– Como vai a casa?
– Está ótima, tenho me esforçado para manter tudo em ordem, é isso, vai bem.
– Lhe vem sendo proveitosa? – o garçom chegou com a xícara de café, não leva dois
segundos até que o servisse e se fosse, foi quase num piscar de olhos.
– Nunca fiz as coisas tão bem – sorriu e ergueu um pouco os ombros.
– Assim eu espero. Não seriam pequenas as conseqüências caso você desaponte o meu
investimento em você.
– Você está me ameaçando.
– Não, é um desabafo – e sorriu cruelmente. – Fizemos uma troca de favores, mas agora o
que temos é um pacto que nos une além disso, um pacto de semearmos juntos um tanto além
do que você me deve.
– É?
– É. Estou adotando você. Assim, você me deve produção e respeito, e eu te devo
oportunidades. Você será meu segredo e eu recebo seus créditos.
– Verdade, tudo bem, eu agradeço o que fez até agora, acho que tudo vai caminhando
bem.
– Finalmente? – e bebeu do café.
– Não entendi.
– As coisas vão andando finalmente bem?, antes estavam longe disso?
– Não foi isso que eu quis dizer. Apenas vão andando bem – anuiu com a cabeça.
– Não é mesmo da minha conta – e terminou sonoramente um outro gole.
– Não faz mal – passou os dedinhos mais uma vez por sobre a capa.
– Está orgulhoso?
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Fez que sim.
– Ótimo.
– Acha que as críticas serão boas?
– Como eu posso ter certeza?
– Não é para ter, mas você conhece os tipos, ou ao menos parece fazer idéia de quem
são. Diga-me o que acha.
– Acho que o chamarão de sem causa – levantou as sobrancelhas.
– A mim não, não me conhecem.
– Estava falando do livro.
– Certo. E por quê?, não é isso que se mostra.
– Então, rapazinho, aprenda que eles não darão o nome que as coisas merecerem, dão o
nome deles e emprestam suas imagens para poder se repudiarem, porque muitos se sentirão
agredidos, mas não poderão falar. Isso seria vestir a carapuça.
– Entendi.
– E há também os que falarão sobre a originalidade e a inovação, sobre o brilhantismo e o
choque, mas que depois de algum tempo farão com que essas idéias façam parte daquele
imaginário coletivo que já falamos, este éter inútil que permeia nossas idéias, onde a inspiração
dorme e ronca, no máximo tendo uns espasmos de sonâmbulo...
– Esses não vão se sentir ofendidos?
– Vão se sentir menos, porque não vão se dar conta de que a agressão também é contra
eles. É melhor fingir que não viram.
– Verdade. Entendi.
– E há aqueles que não estão aqui hoje, e que talvez você nunca os conheça, mas que
levarão profundamente a sério tudo o que foi dito e criarão pequenos focos que teimarão em
fazer dessas idéias menos imaginárias e mais reais. Essas pessoas podem ser sujeitos sérios,
ou desesperados que precisam se ocupar de alguma coisa, ainda assim são todos tolos que
precisam de frangalhos, de retalhos, e o primeiro que os vier com um sabor diferente, tomarão
achando que é remédio, e eu espero ter me feito claro.
– Será?
– É assim que sempre ocorre – falou em tom profético.
– Seria curioso.
Nessa mesma hora chegou um sujeito jovem com a sua máquina fotográfica envolta no
pescoço.
– Senhor, eu poderia? – dirigiu-se exclusivamente para Condor.
– O senhor vai tirar a foto de qualquer maneira – falou com escarninho notável, aí virou o
corpo de forma a ser visto de frente. O rapaz posicionou a câmera. Era dessas modernas, não
precisa sair sequer o flash. O estalo é tudo.
– Obrigado, e boa noite – e se foi.
Condor bufou. – Eles sempre estão à caça de coisas que não publicam. É um acúmulo,
quanto mais inutilidades melhor. São todos iguais, esses frangos. Preste atenção, Alex, vá
aprendendo. Lá está o mesmo rapaz agora indo pedir a mesma coisa na mesa daqueles
rapazes ali, vê?
– Qual o problema?
– Ele sequer sabe o que quer.
– Bem, pra mim está nítido. Tirou a foto da jovem que está acompanhando o homem.
– Vão publicá-la em alguma trigésima página de revista para imbecis.
– E o senhor?, não tem esposa?, alguém pra acompanhá-lo?
– Viúvo duas vezes, divorciado da terceira.
– Parece ter visto bastante coisa.
– Não tenho a pretensão de afirmar. Mas a verdade é que vi, sim – e assumiu um ar
profundo.
– Pensei se eu não devia vir com uma acompanhante, mas acho que o fracasso seja mais
charmoso.
– Por isso aqui estamos, sós – o velho ergueu levemente os braços.
– Façamos um brinde. Minha xícara está vazia, mas não faz mal.
– Ao retorno à escuridão?
– Ao fracasso já está bom – e ergueu a xícara, ao que o velho, como uma risada sensível,
acatou.
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– É uma pena que os homens de nosso tempo não enxerguem as coisas como nós –
bebericou o senhor.
– É indiferente, não sei dizer ao certo.
– Contenta-se com bem pouco – limpou a barbicha grisalha com o lenço.
– Quem muito quer, só com muito se satisfaz.
– Aos poucos vou conhecendo suas filosofias de vida.
– Gostou?, tenho algumas outras – e espia o lado de fora como quem espera por algo.
– É, eu imagino.
– E o senhor? Quais as suas?
– Antes dois pássaros em minha gaiola do que um voando solto.
– Livre adaptação do provérbio, é isso?
– Licença poética.
Mas Alex talvez mentisse, e essa possibilidade veio para si na forma de uma intensidade
que, esperando apenas um pouco mais, há de se tornar verdade. Será mesmo que está
personificando o sujeito das poucas ambições?, talvez não seja bem assim, quando alguns
sábios já disseram da vontade ser infinita, ela nunca cessa de existir, é sempre persistente. O
problema é quando a vontade não é simples, eis o seu caso, em que tenta disciplinar a si
mesmo e convencer-se, num processo muitas vezes não dos espontâneos, do absurdo que ele
próprio representa, enquanto soterra esses absurdos, que presume também que muitos o
façam, por razões da praticidade. Mas sempre houve, meu caro, e isso não se pode negar,
pólvora dentro do entulho onde despejou suas loucuras.
Dizem os sábios que aonde há fumaça, já antes se ateou o fogo, que algo já explodiu e é
capaz que mais venha aí, Pompéia que nos diga. E não fuja dos sintomas disso, sendo um
desses a sua fúria sem motivo ou distinção, essa cólera às vezes o surpreende, é de uma bruta
explosão de que precisava, uma dose cavalar de qualquer coisa, de um atentado assassino,
um desses estouros que o ensurdeceria, mas antes que possa dar-se conta do chiado agudo
que entorpeceria seu cérebro, do gosto estranho vindo à boca e dos olhos a tentar fugir das
orbes, os estilhaços do vidro arrebentado já estariam voando, as mesas estariam sendo
varridas e um cheiro de carne queimada estaria subindo enquanto o ar chamuscante sopraria
um vendaval de cinzas secas sobre tudo. É um desses sonhos rápidos, com muitas sensações
e poucas imagens, e seria um desses dos quais se acorda gritando, com um calafrio que faz
trincar até os dentes e arrepio que vai corroendo os ossos, acordaria pulando e quase bateria
no teto. E então pensa, pobre de mim que só sonhei.
E então começara. O estalo de um isqueiro. Tilintou um prato, retumbou na audição feito
estrondo. O eco de uma riso grave, a brisa gelada que vem da rua, ainda que tudo aqui esteja
fechado. Arrepiou-se até a alma, nos olhos só havia trevas. Todos esses fenômenos assumiam
proporções tenebrosas, ao mesmo tempo que a sensação que tem é claramente a de estar
afundando a sua existência em cada coisa que sentia, a divergir-se e a se recompor, sem
porquê ou sem querer, em cada ponto infinito do espaço.
Fechou os olhos e se viu afundar rumo ao nada de águas densas. E deve ser essa a
maldição do infinito sobre nós, não nos centra em nenhum ponto, contesta o nosso senso de
espaço, torna o tempo banal, faz com que tenha de atolar-se na própria pequenez e é deixado
ao léu de um lugar que não enxerga e é tão grande quanto permite o temor. O portal dantesco
ao fim do átrio, que em plumas e danças sombrias se formou, dizia com letras de fogo, deixai,
ó vós que entrais...!, e aí se ouviam os gritos agônicos do inferno, um túnel cheio de algazarra
das lascivas, um rosto desesperado, outro vomitando as tripas, o sussurro de alguns seres ao
pé de seu ouvido, desses anjinhos e diabinhos que ficam cada um num lado da cabeça, as
verdades por detrás das teratologias, rostos monstruosos, demônios, demônios, demônios,
cacos de espelhos quebrados que caoticamente refletiam o que tinha de ser a mesma coisa,
tinha de ser ele, mas não era, não seria. Aí esteve tudo escuro, as voltas todas pararam.
Parecia agora que estava se esgueirando numa descida perigosa e gosmenta. Parecia, na
verdade estar sendo conduzido, lentamente arrastado por alguma coisa, um duende que vem
na noite escura, um monstro albino e cadavérico, de repente é o outro, mas nada havia, era ele
o tal corpo que ia rastejando sem querer rumo à uma mucosa que reveste segredos uterinos.
Meteu o cigarro na boca, não tardou até que a sensação flamígera percorresse-lhe o corpo.
Por acaso estava o livro aberto no colo, e não podia mesmo imaginar a possibilidade
insensível de olhar aquelas letras, e ele não as propriamente lia, apenas as olhava então a
perceber como eram terríveis, era uma besta viva que, sombria, encarava de volta os olhos
167
acovardados. Que foi que eu fiz?, se perguntou, e aí se passou um daqueles instantes em que
a insanidade, é que há ocasiões em que se abrem portas para que ela se manifeste com mais
força, sufoca a razão dos mais brutos. Algo fantasmagórico o fez amolecer, e a sensatez
obviamente interveio, dizendo que calma, que é só a emoção ficando forte, a surpresa o
persuadindo, mas respira fundo e retoma os passos da dança, mas a razão só é usada porque
não se descobriu outra forma de se pensar que agrade o desenvolvimento do senso comum,
dessa forma ele é forçado, mesmo sabendo dessas fragilidades, a supor essa razão como
forma legítima de expressar um choque entre a alma e a natureza das coisas que não estão
dentro dela. E tentando na razão ancorar-se, vai exclamar, enquanto olha aquelas folhas e elas
pareciam induzir-lhe a um mergulho no elo perdido com sua mônada, e começa a supor que lá
dentro não haja muito mais que lama, o que fiz?, o que fiz?, por que essa idéia?, por quê?,
não, isso é algo muito perigoso, é que não é sempre que a verdade se insinua tão crua para si
como fez agora, porque adotou um sentido que ele não previu, e da mesma forma que a
escuridão antes o engoliu e perguntou-lhe, acaso abandonaste a esperança e tudo o mais,
como recomendado?, agora o expulsou, porque ele hesitou em responder.
– Fantástico – balbuciou, tragando ainda mais do fumo. A tremedeira que agora lhe toma
as mãos é típica do cigarro, nada mais.
A cafeteria subitamente era a mesma que sempre foi, e o forte aroma o faz lacrimejar de
susto.
Era uma outra fotografia que Condor o estava mostrando e ele fingia perceber. Curvou o
rosto, expeliu pelas narinas um quanto da fumaça, viu que a imagem da figura é de uma
modelo linda que parecia ser uma estátua pelo jeito que ia maquiada por pó-de-arroz e outros
recursos, os quais não entende e não sente curiosidade. Os olhos são brilhantemente verdes,
tinham um quê de felinos, deve ser essa a intenção, e ao que no mesmo instante que pensou a
respeito, veio Condor a confirmar.
– É outra coleção que estão lançando, chama-se as danças de bastet, era a deusa egípcia
com a forma de gato – e pára a olhá-lo, depois continua. – Veja as outras fotos, aqui, e essa.
Vê o contraste entre clássico e moderno?, esse sujeito é bom, é um dos poucos garotos que
fotografam direito, veja essa outra foto, ele junta morbidez com sensualidade, e tem um tato
perfeito para as modelos que escolhe, é verdade, veja a menina, nem feia, nem bonita.
Diferente. Percebe?
– Percebo – entreabriu a boca e soprou a fumaça para cima.
– Daqui a pouco – olha o relógio – tenho uma coletiva para apresentar o nosso livro.
– Hum.
– Agora me dê a sua opinião de leigo, quais das três coleções que mostrei é mais
chamativa?
– Hum. Gostei da de estátuas. Essa dos olhos verdes – coincidentemente é a única que
viu.
– Certo. Por um instante achei que o público ia gostar mais da serpente chinesa. Tem mais
detalhes, é mais frondosa, as pessoas gostam das coisas grandiosas.
– É uma possibilidade, eu não sei.
O velho passou a palma sobre a mesa, tomava as fotos que espalhava, e murmurou algum
palavrão inaudível quando percebeu algumas das folhas molhadas pelas gotículas do suor das
mobílias, e talvez tenha querido queixar-se num grito, mas é quando, pelo acaso dos
quaisquer, o olhar cai sobre a direção da entrada, pareceu enxergar algo que lhe signifique
alguma coisa, pelo que parou e continuou voltado por alguns instantes. – Me viram. Vão vir até
aqui, e são pessoas com quem tenho de falar.
Deu-se conta da mensagem passada, sinalizou fazendo mostrar que entendia o recado,
piscou levemente os olhos, o gesto também contribui à formação do meiosorriso afável, e não
demorou para que estivesse se pondo de pé a caminho da saída, cada um com seus assuntos,
cada tipo com o que os apeteça, ainda que eu não saiba, ele pensa, quais são os meus, sei
quais não são. E foi-se caminhando pelo corredor, divagou um pouco entre os quadros, mas as
atenções pairam mesmo nas extensões da gente, rostos que se levantam e depois se abaixam,
eram olhos que se ofuscam e daí piscam, sombras que sendo vistas só com esses interesses
não apresentam nada que seja fascinante, roubada toda a grandeza que se diz haver na raça
humana, aqui são depressivamente nada, e é isso tudo que pode compor a gente existindo, aí
já está a subir umas escadinhas. Foi.

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O quadro à frente continuava a lhe ser uma porção de manchas, sabe-se lá que diabo
aquilo quer dizer, propósito é coisa que se invente, fiat, fiat, fiat, e se crie a coisa que se queira
batizar com o termo que prefere, todas as criações a desfilarem para Adão, e ele a dar o nome
para o que são, nos põe em dúvida sobre quem realmente inventou as coisas. Às vezes,
quando possibilita a ocasião, a gente comenta alguma coisa como, esse parece conter o
temperamento de uma paixão, ou então, vemos aqui o retrato de muitas faces da época em
que vivemos, ou esse parece ser um baile muito sinistro, lembra o rosto de uma mulher
solitária, é um novo jeito de se ver os velhos do parque, esse aqui já representa uma úlcera,
esse é uma parte da cidade que não se conhece etc, céus, e ainda havia toda uma exposição
nesta parede, para não ser insensível ele tem de permanecer fingindo-se vidrar. Ele ficou
mesmo feliz quando descobriu que estavam servindo vinho, é, antes isso do que nada, e foi
quando viu o maître a passar com a bandeja e suas várias taças que acendeu-se a esperança,
bebeu fingindo degustar, hei de comprar uma safra dessas lá para casa, ordenou-se.
Aí ouvia as vozes de uns que estavam atrás de si. Acho que podemos entender como a
lança que furou a cristo, só que dessa vez perfurando diretamente a nossa consciência,
entende?, certo, com bastante esforço e principalmente imaginação ele até pode ver uma
lança, mas ver cristo, meu amigo, seria coisa parecida a achar agulha no palheiro, e nem isso,
porque teoricamente a agulha no palheiro ainda existe. Chegou a conclusão de que os artistas
são treinados para ver coisas que não existem, mas isso o remeteu a um dilema, se o rapaz
vem e é habituado a ver coisa que não existe, sabe deus o que teria o próprio criador em
mente, criador, essa foi uma ironia, é o que têm em comum, ao traçar aquelas coisas, mais um
gole de vinho. É, talvez seja boa idéia enrolar, olhar para o outro lado, fingir que viu alguém
conhecido e deixar para depois, é uma estratégia sempre bem-vinda, principalmente quando
não prestam atenção em você. Tinha mais gente lá para o meio, não é de se espantar, essas
pessoas estão se acercando cada vez mais da escultura da serpente oriental, mais parecia um
dragão de escamas vermelhas, emitia umas luzes coloridas e tudo mais, ao redor ficam umas
gueixas dançando e seduzindo a platéia, já o bicho parece estar rugindo com uma fúria
eminente, assim mantém a boca toda aberta, e para abafar o grito mudo da fera já empalhada
criam-se focos de burburinhos e comentários que talvez suponham estarem vendo não a lança
de longinus, mas de são Jorge. E mais um gole. Ruborizou um pouco, deve ter sido o gosto
amargo das bebidas que fica concentrado ao fundo do copo, o que era o mesmo que constatar
que agora estava vazio, era uma pena. Assim que não tivesse ninguém por perto, e a conferir
isso ele já estava, ia deixá-lo discretamente num cantinho. E essa, agora?, parecia ser uma
exposição de fotografias, pareciam ser dessas realistas, que vêm jogadas do jeito mais simples
que for, sem muita estética, preto-no-branco e de contornos cinzentos, e a gente miserável, ou
as coisas cotidianas, como a cara de pontes e viadutos que vemos no dia-a-dia fosse arte,
esses artistas devem ser mesmo abençoados que fazem beleza em qualquer coisa, desde uma
rua mal pavimentada até o berreiro que o nenê abriu. Aí tem os ônibus e a desigualdade social,
a injustiça representada com montagens de retratos e a gente que anda falando de lado e
olhando o chão, com medo de navalhas, revólveres e da vida, que é muito perigosa. As luzes
da ribalta iluminam o retrato de um vagão de trem, parecia vir correndo, devia estar
descarrilado pelo excesso de sombras que foi usado para ilustrar sua passagem. Ainda veio a
mulher atrás dele, a falar.
– É impactante – ela sussurrou.
– É – ele acatou, aí jogou a cabeça para o lado ostentando toda sua displicência superior
–, é a consciência descarrilada. Perfurando a todos nós diretamente.
– Incrível.
– Sim.
Mas nada daquilo importa de verdade. Só importa o retorno à escuridão. Assim, nesse
instante houve algo que o atraía, algo que guiava invisivelmente a vontade de seus passos. Foi
de longe que deu com os olhos nos livros de capa negra. E de longe pôde ver a exposição, e
aqueles vultos agressivos e escuros enfileirados, os rastros invadindo as esferas onde não
deviam estar, que mais eram uma afronta, uma obscenidade que ninguém ainda percebeu. E
todas as fileiras com o livro agora o encaravam. Era isso que afinal valia à pena. E passa lá um
sujeito curioso, que só deve estar interessado em distrair-se, a averiguar do que se trata essa
coisa da capa preta, e sorrateiramente folheará, lia o índice que não muito o diria, abriria mais
a capa, rumaria mais a fundo, talvez atraído por um cheiro que não se saiba que sinta mas
persuade, uma moça também sentiu o tal perfume, que está lá indo olhar. E talvez se
169
perguntem que é isso?, de onde veio?, para quê?, umas perguntas na verdade tão comuns e
gerais, mas acontece que o livro da capa negra parece poder responder, e era claro onde tudo
gravitava. Só havia o livro de capa negra, todo resto eram os fantasmas a sua volta, era a sua
vaga imaginação, as possibilidades que exalavam dali como um hálito, ainda que não muito
certas de si mesmas. Em um só instante a escuridão se ergueu e desceu se quebrando sobre
tudo.

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É difícil de acreditar no que fez.
Alex, você é leite derramado ralo abaixo. Pára de se distrair, há coisas mais urgentes a se
tratar. Como por exemplo?, é de manhã, ele tem de se levantar, agora tem afazeres como
qualquer outra pessoa, tem de cuidar de criticar alguma notícia do dia, tem de inventar algo
sobre os parques para ninguém criticar, tem pelo menos de se mover, mas que é isso?, está
cedo, nunca acorda a essa hora, mas pode inventar uma rotina para se dizer que não tem mais
sono, então, ele nunca foi alguém de se importar com essas coisas, com todas as coisas que o
importam, certo, também nunca foi alguém de se importar com o futuro, e entretanto, como se
pode ver, aqui está ele tentando se convencer que tem que escrever coisas, que tem que
produzir, ser recompensado, tocar a vida adiante, e toda essa classe de coisas que se diz a
gente responsável, mas na verdade o que vem sendo é um homem ligeiramente acovardado. A
noite de ontem lhe está atravessada na garganta como osso de galinha.
O passado é uma gorda e estática assombração da qual só se pode fugir ou lamentar.
Cuspiu, a pia recebe pasta e saliva de redemoinho viscoso, ele suspendeu o rosto, Alex, é
claro, e não o redemoinho que já descia, e deparou-se com a imagem perdida em algum lugar
do outro distante lado, um misterioso, ainda que familiar estranho a olhá-lo nas profundezas, e
cobrava dele muitas coisas que tinham pendentes, mesmo que não saiba quais, o outro pode
dizer, pois o conhece como ninguém. Corajosamente decidiu que não seria ele a desviar a
cara. Não desviaria do espelho embaçado.
– Aqui estamos – disse-lhe o outro.
– Aqui eu estou – retificou Alex.
– Perfeitamente. E o que pensa que está fazendo?
– Enxaguando meu rosto, escovando meus dentes, me lavando.
– Não seja assim vulgar. Você quer me provocar. Não o faça...
– Por que não deveria?
– Não seria valentia atiçar-me, seria apenas imbecil. Não sou uma coisa qualquer a se
temer.
– Pretensão achar que o temo, ou que quero ser corajoso...
– Me admira que consiga mentir enquanto me olha bem no rosto.
– É algo em mim que ainda te invoca, tudo que tenho a fazer é entender a isto, só assim
me deixará em paz.
– O que tem a fazer é me achar um nome, já o disse.
– E por que não me diz também o que isso significa?
– Poucos pedidos já feitos foram mais simples do que esse, e você resiste, e é isso que me
pergunta.
– Esconde algo?, não responda a minha pergunta com outra.
– Escondo umas coisas, você esconde outras, ainda que não se possa esconder tudo de
todos, e às vezes aparece uma inteligência que nos sobressai, condenada a saber da gente.
– E essa no meu caso é você.
– Definitivamente, não é o melhor trabalho de todos.
– Que diabos você quer?, não pode ser apenas uma resposta. Um nome não diz tanta
coisa.
– Acho que eu gostaria de ser ouvido.
– É a consciência, por um acaso?, podia me dar um descanso.
– Não o sou.
– E o que é?
– É isso que perguntando.
– Vou embora, vou tratar da vida – se cansa e abana as mãos.
– Não é muito mais que isso que estamos fazendo.
– Vá embora, me deixe em paz.
– Me teme sem porquê.
– E ainda não desviei o olhar.
– Perfeitamente. Vai atender ao telefone?
– Está tocando, por um acaso?
– Não se faça de desentendido, ambos sabemos que é desgastante tentar ir contra o
óbvio, você não é um cão correndo atrás da cauda, isso é trabalho para os idiotas...
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– Eu o atenderia se tocasse, mas não vai – diz afoitamente.
– Como pode ter tanta certeza?
– Há coisas que são facilmente dedutíveis. Essa é uma delas.
– Falou tão cheio de si que acho que devo condecorar o seu instinto.
– Não precisa, deixemos para outra ocasião, dessa apenas nos esqueçamos.
– Porque eu digo que vai tocar.
– E quem é você para contestar um achismo com outro?
– Não sabia ser preciso de patente pra esse ofício.
– E se tocar, o que faço?
– Só posso dizer o que não deve fazer.
– E isso não me ajuda em absolutamente nada.
– Não supus que estivesse tão desesperado por ajuda.
– Vá a merda. Vá embora.
– Pode ir você, não sou eu que estou falando com o espelho.
O som do ralo da torneira emitiu um barulho nojento, foi o suficiente para fazê-lo erguer os
olhos de supetão e esfregar o espelho com a palma. Tudo o que vê é um rosto de bocarra
entreaberta enquanto dá-se conta de que a pia borbulhava ao terminar de sugar as últimas
imundícies. O outro mais uma vez foi mais esperto. O enervou e escapou antes que pudesse
reagir, não sabia ao certo como ou em quê, mas de algum jeito pegá-lo no flagrante, de
repente desnudá-lo e não mais precisar de um argumento que nunca teria para vencê-lo.
Chegou, inclusive, para instituir-lhe uma dúvida que antes não tinha, a que pensa que está
fazendo?, mas deixa os eventuais problemas trazidos pela assombração imaginária para mais
tarde, também porque não é coisa que tenha cabimento à gente sã ficar a ponderar.
– E, nesses instantes, me resta a orgulhosa certeza de que estamos construindo o nosso
mundo, aqui, produzindo a nossa cultura – exclamou uma voz dentro das lembranças, constitui
esse um trecho que não contém uma importância exata, mas abria as margens de muitas
outras coisas, é aqui que reside o problema.
Expulsou tudo isso da cabeça. Saiu do banheiro, foi tomando o corredor, disse a si mesmo
que tinha de abrir as janelas, essa negligência que o põe vivendo no escuro não faz bem à
saúde. Fez que ia entrar na cozinha quando dá com a esperança do farto desjejum, certamente
não será ele a fazer um, a não ser que fosse para a rua, achasse uma delicatéssen ou padaria
que servisse um café da manhã por quilo, e lá se encheria. Melhor não, a verdade é que sentiu
que até água desceria forçado garganta abaixo, ainda porque não tem ânimo de sair tão cedo.
Mais tarde esquento um congelado, um ovo eu também consigo fritar, com sorte não queimo
um bife, ele ia se dizendo.
Antes que pudesse se dar a qualquer trabalho que exija que pense mais que o costume,
vai cumprir a função já delegada de escancarar as janelas. Primeiro foi a da rua, não ficou
muito tempo para ver se já tinha lá uns movimentos ou não, mas quando foi a do hall, assim
que suspende as venezianas identifica a silhueta do seu José passando próximo a fonte,
certamente fará o mesmo que todos os dias, cuidaria dela e depois, quem sabe, se não
estivesse muito calor, que aí ele deve ficar com mais preguiça, o veria enroscando-se no muro
das sacadas e se pondo a cortar as trepadeiras. Seu José é o zelador que outras vezes já viu,
como vem a saber o seu nome é uma pergunta inútil, já que isto pode ter-se dado de qualquer
forma, que o senhor tenha vindo se apresentar ao novo morador, ou então porque estava
passando e quando checava a vazia caixa do correio a vizinha do lado vinha na outra direção,
e por um acaso da educação chegou a comentar bom dia, seu José, e não havendo ali outro
que pudesse ser José, não havia muito para concluir. Deixe o sujeito com seu serviço, é
verdade que você também tem os teus. É. Ele se disse que ia trabalhar.
– ... uma novela magnífica – a lembrança já veio selecionando assuntos –, e ainda O
retorno à escuridão, uma crítica aos nossos tempos com a angústia inovadora do jornal das
artes... – talvez não fosse a mesma voz que lhe voltasse à memória, mas não importa. Assim
foi anunciado, como se lesse o ingrediente de uma bula de remédio, uma coisa sem paixão, no
caso a vir depois de alguma coisa que é uma novela magnífica. Breve, insosso e sem sentido
como toda a pós-modernidade.
O computador apitou uma de suas coisas típicas.
Há algum tempo atrás houve um caso, numa lagoa que por acaso há num bairro
residencial, das pessoas terem visto um jacaré nadando ali, veja só, um jacaré, e ninguém
supunha como o bicho tinha chegado, de onde tinha saído, como o diabo tinha entrado, se veio
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pelo esgoto, se foi algum descuido do zoológico etc. Acabou que dizem que o jacaré está lá até
hoje, que não viola o limite das pessoas, que ainda assim, é lógico, temem se aproximar
demais das águas, e é aí que sempre surge um ou outro para confirmar de que de fato o viu,
era monstruoso etc, certa vez o vi saltar do nada a pegar um cisne que fica nadando por lá,
não deve ser um jacaré, mas sim um aligátor dos grandões. Houve uma mulher cujo filho
pequeno desceu para brincar nas margens da lagoa, pôr as pedrinhas para ricochetearem nas
águas e essa sorte de jogos, acontece que a criança sumiu e até hoje não se admite o porquê,
mas todos desconfiam de seu tenebroso fim no intestino do bicho. Podia escrever sobre isso,
até arranjou um bom título, o medo veste couro. Não deixou de soltar uma risada, era
impossível contê-la, se bem que era também um pouco difícil supor por que o jornal das artes
iria gostar de um artigo que falava sobre jacarés ou medo, teve a idéia de falar sobre natureza
morta, que combina mais com o editorial, não é que realmente associe a fera do pântano com
isso, é porque tinha um livro com exatamente esse título, natureza morta, preenchendo entre
tantos a arcaica e empoeirada estante e mais interessante que a pós-modernidade.
Certificou-se de ter recebido alguma coisa no correio eletrônico. A praticidade atual dessas
coisas facilita sua comunicação com a editoria do jornal, cujas mensagens nunca vinham
humanamente assinadas, apenas como A redação. É, e lá se encontra uma nova mensagem,
quando ele clicou e ela se abriu, nela leu-se, pesquisar e tratar da história dos nossos
importantes monumentos, A redação, e era mais do que suficiente o que já tinha lido, dando-se
conta de que a idéia da natureza morta e principalmente a do jacaré já tinham sido descartadas
antes mesmo de serem conhecidas, e também não detinha muito interesse em questionar
esses porquês. Estava claro, agora ia falar sobre os monumentos da cidade, não era mesmo
algo que ele conheça muito bem, de repente com alguma boa vontade fosse algo que lhe viria
a inspirar curiosidade. É. Pensou se já haveriam pessoas a comprar o retorno à escuridão, se o
seu aspecto está apresentável nas bancas e nas livrarias, aos transeuntes apáticos que
passam, coisa assim, é o tipo da imaginação que o faz se perder.
Acontece que o telefone tocou. Sabe-se lá que horas eram da manhã quando aconteceu.
Não lhe veio um desses sustos que a gente se treme de repente, ou salta com o corpo para os
lados, suando frio e sentindo as costas arrepiarem, os pelinhos eriçando de uma maneira que
parece ter vindo o susto por irradiação da alma, apenas aconteceu, e foi um desses raciocínios
rapidíssimos que se tem e poucas vezes se usa com propriedade, o que acabou lhe dando a
impressão momentânea de ter se desprendido do tempo e olhado o aparelho antes que de fato
tocasse, prevendo-o com magia.
Mas ainda está seguro, isto é, não se tem por aí umas câmeras nas paredes ou telas a
seguir-lhe os passos, que ainda se pode dispor de um tantinho de privacidade enquanto não
interesse ou diga respeito a alguém, mas ocorre que o suspense torna-se pior, veja, já vem
tocando de novo. O intervalo que se deu entre uma campainha e a outra não foi que tivessem
desligado. Não pense bobagens. Você não está livre. Não atender e depois ficar imaginando
pode ser pior. Agora Alex põe a mão sobre o telefone, espera por alguns toques para ver se
não desistem, se é não é uma dessas ligações casuais ou inseguras. Espera mais um pouco
para envolvê-lo com os dedos e convencer-se de que não há nisso nada demais, que
naturalmente deve pegá-lo.
– Alô – tentou tirar força da voz.
– Alô – responde a voz do outro lado. Era ele.
– Com quem quer falar? – fingiu.
– Com Alex, por favor.
– Sim, sou eu.
– Aqui é André.
– Ah, sim. Como está?
– Vou bem, e você?
– Tudo bem, tudo certo, estava aqui fazendo algumas bobagens.
– Estou atrapalhando?
– Não, não, claro que não.
– Liguei assim que tive um tempo.
– Ah, sim.
– E aí?
– Oi.
– Podemos sair um dia desses.
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– Bem, sim, posso achar uma brecha aqui na agenda.
– É claro. Conheço um bar legal.
– Sim – meio que sobrepôs –, a gente combina.
– Certo – pausou por um instante –, então tá bom.
– Foi bom revê-lo, André – e acaba sendo sincero. – Fazia bastante tempo.
– É verdade, mas quem é vivo sempre aparece.
– Tem razão, quando menos esperamos.
– É. Escute, agora eu...
– Sim – o cortou –, também tenho que terminar alguns trabalhos. Deixei acumular um
tantinho.
– É isso mesmo. Então nos falamos quando der.
– Perfeitamente – engasga. – Dê um abraço em Júlia.
– Pode deixar. Até.
– Até.
Quando pousa o telefone no gancho ainda o encara como quem estranha, provou e ainda
está em dúvida se gostou ou não, supunha que fosse ouvir uma última palavra saída do
aparelho, qualquer coisa que se emende, um escute, não foi só isso que eu quis dizer, enfim,
qualquer coisa que torne a conversa menos sucinta e mais iluminada do que foi. Mas está
mesmo acabado, agora as distâncias voltaram. A julgar pelo que se conhece das interações,
até diria que esse é o tipo de evento que não merece futuro algum. Aquela velha coisa de
velhos amigos que voltam a se encontrar, mas percebem ambos terem mudado, e percebem
ambos que os laços que antes existiam já não existem mais, que não tiveram como
acompanhar as mudanças um do outro e tampouco se importaram de vê-las acontecer. Não
existem muitos amigos de verdade. E mesmo que mudança alguma tenha ocorrido já bastaria
o receio de uma das partes, aí se vê gente tendendo a ser cordial entre si, mas sempre com
um pé atrás tanto para se mostrar quanto para receber, que não mais se sabe com quem fala,
e começa a se perguntar se um dia soube. Assim sendo, não houve muito mais que
cordialidade no que acaba de acontecer, a conversa que foi alfa e ômega, o fim de si mesma
quando mal começou, vida mais curta que de uma mosca, não parece haver nada depois
disso, e então ele se tranqüiliza, a preocupação veio e foi como se desse a uma descarga. Só
não previu o quanto se angustiaria logo depois. Agora ele tem de se relembrar.
Não importa aquela voz que lá na frente vinha com seu discurso, também não importam os
usuais cumprimentos vindos dessa fonte ou dirigidos a ela, nem os comentários que às vezes
debulhavam a sua sonolência. Não poderia enxergar tudo que estivesse mais à frente, são
essas cabeças a se enfileirar no auditório escuro, inoportunas, são os próprios olhos que já não
funcionam bem com claridade, quem dirá no escuro, como se pudesse distinguir os detalhes
das projeções que iam passando no projetor, como se pudesse dizer que aquela mancha
embaçada que via, e isso já a forçar a vista, é uma ave de rapina, como no divã de um
terapeuta, ou que aquele borrão preto é um sapo a engolir uma mosca, não quer pensar no
que isso venha a representar, não há nada indispensável a ser visto e as palavras da
apresentação de agora chegam todas fragmentadas.
Foi quando seus olhos caíram sobre a silhueta específica de uma daquelas fileiras. Está
cansado de ver silhuetas, mas o esboço dessa tem algo que o atrai, um fascínio que vai se
transformando em nervosismo.
Ele ficou naquela situação de não conseguir mover o rosto. Tenta constatar se aquela
familiaridade não seria impressão, mas não há impressão forte assim que não tenha seu fundo
de verdade, isto é, não é uma coisa das quais se force a se enganar, algo está errado, está
claro, se talvez estivesse um pouco mais perto, um pouco mais claro. Piscou os olhos e decide
que ia se esforçar e confirmar se via o que achava que via. Aí pasmou, de fato percebeu ser
André. Por mais que mantenha o rosto fixo, um piscar já é suficiente para desorientar-se e para
que o perdesse, como gente que se perde na leitura e custa para retomar, assim é sua
condição míope, saindo do ponto em que o viu nas sombras embaçadas, e naturalmente não
descansou a consciência, que a partir daí já dava seus saltos e rodopios, até constatar que não
tinha sido miragem, e pronto. O achou mais uma vez, é, de fato estava lá, nesse momento
voltado, a sussurrar, é o que pôde supor a julgar o modo como se inclina e como protege a
boca com a mão, a alguém ao seu lado. O ciclo completou-se. O destino resolveu ser um
pouco mais irônico, e certamente foi ele que conduziu André a curvar-se só um pouco na sua
cadeira, após naturalmente tratar de seus assuntos seja lá com quem for – seja lá, até parece
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