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O que se podé i d4preender do percursg

de Michel Pêcheux na elabor~ção da

Análise de Discurso,;'é que ele propps uma

forma de reflexãocsobre a linguag m que aceita o deséonforto de não se aje r nas evidências e no lugar já·feito. Ele erceu com sofisticação eesmere a arte d. refle- tir nos entremeios.'

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Michel Pêcheux

o DISCURSO

~ ESTRUTURA pU ACONTECIMENW

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_lradução: Eni Puccinelli Orlandi

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fbntes

Copyr i gbt © 1 98 8 Illinoi s U ni v e r s it y P r ess

2 ª Edição - 1 9 9 7

.

Tít u l o origina l : Di sco ur se: Stru ct u r e a r Eve n t ?

. Dir e ito s ced i d os p a r a a p u bli ca çã o em líng u a por t u g u e s a p a r a a P o nt es E di t o r e s .

Co o r d e na ção Edit o ri al: Erne s t o G ui m a r ã e s

Ca p a: J oã o B a p t í st a d a C osta Ag u i a r

R evi sã o : E r ne s to G uim a r ães V â ni a A p a r e c id a d a S il v a

PON T E S E DITORE S Ru a Ma ri a M o nt e ir o 1635 13025. 1 52 C a mpin a s SP Br as il Fon e ( 019 ) 252 .6 01 1 Fa x (01 9) 2 5 3 . 0769

19 9 7

Impr e sso n o Br a si l

Nota ao Leitor

I -

In t rodução

lNDICE

II Ciênc i a, Estrutura e Escolástica

I II - Ler, Descrever, Interpretar

Notas

B

i b l iografia

7

15

, 29

43

59

6 7

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NOTA AO LEITOR

o que se pode depreender do percurso de Michel Pêcheux na elaboração da Análise de Discurso é que ele propôs uma forma de reflexão sobre a linguagem que aceita o desconforto de.não seajeltarnas evidên-

e no lugar Já-f~!!9 ! \ Ele exerceu com sofisticação e

esiiiêroã- a rt e de refletir nos entremeios.

- cias

Assim, os , princípi()s teóricos que el ~ estabelece se alojam não em regiões já categorizadas do conhecimento mas em interstícios disciplinares, J lo ~ ã ~ qu ~ as dis _

ciplinas deixam ver em sua articulação contraditória.

~ ~-----'

~

: Aí ele faz r aoa : Il í arem os procedimentos da Análise de Discurso na (des)construção e compreensão incessante de seu objeto: o discurso.

. --- ------

Em seu domínio específico de reflexão, a Análise de Discurso vai colocar questões para essas disciplinas,

sistematicamente. E , em seu trabalho, percorre menos

o acúmulo de conhecimentos pos i tivos e mais os efeitos de certeza que esses conhecimentos produzem, fazendo

a história de suas ciências.

A Análise de Discu r s . Q -

quer se a considere como

de

s e apresenta com efeito como que se faz no entremeio

e nt re ,

de a E ,.ál! se. E . isto compreen- no - campo das disciplinas , no

da desconstrução, ou mais precisamente no contato do histórico com o lingüístico, que constitui a materiali- dade específica do discurso.

um '- lspositivo

de análise

ou como a instauraç ã o

novos gestos de leitura - uma forma de conhecimento

e que levem

conta o c Ql lf

r.

sua teoria e sua prática en o-se - o entremei ô " sej ã

.onto . a.contradicã

mente, ou melhor , para compreender as formas de exis- tência possível de uma ci ê ncia da história. Desse modo

/ ~.~ ~~~~.,J~E9.>~~ ,,~~~X!~ rti.~!.~<1.?",.r.,,.~">~?,q~~

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. " parenta

o }~ OVlIE : ~ . l1:to.da." i nterpr eta çã o,

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~) ~ ?~~l 1 t ê ' ' ' ~ o ~ - ~ ~~~~~or isto~ . ~~:a h·i:.stó r ia está 11 colocada".

. , / ' .E â ' A : ii ahse de Discurso trabalha just a mente no lugar " ~ ~fs . : € . · ( ~ ~ : p~ ~ !~~ n! . ~ f " " . : " " c rülJldoum esp a ço teórico "em' que se pode produzir o 11 desçolamento" dessa relacão, des-

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Paralelamente, sem negar o percurso pelo marxis- mo, ele no entanto experimenta seus limites e se apre- senta na ' sua responsabilidade como ' teórico da lingua- gem: o de quem não protege e não se protege em Marx. Ao contrário, ' aceita seu desafio entrecruzando três

caminhos: o d ç L acont ~ çi 1 JlentO' r - · o ." , da.estrutura e . Õ - dél

. Nesse seu presente . trabalho ,

M . Pêcheux

fala da

estabilizados e equívocas, inves-

~ tellsã o e n tre < d es ~ l c i ão

e interpretacã o i

na Análise de

_J~I D is ~ º . , ,_ Sem - c onf~!!dir s ~~ -crítiê;(s: - como ' ele - ~~~~ ~ '

"-dIz: com o 1I covarde alívio de numerosos intelectuais

franceses(?) que reagem descobrindo, 11 Teoria" os havia 11 intimidado" . "

afinal,

que a

Ainda uma vez, M. Pêcheux avança pelos entre- meios, não deixando de levar em conta a presença forte

da ~ !lexão

. sobre a /· · m a t ~ :! ~! ! ~ ~

.E _ ~ _ ! i~ _ g~ T ~J i a agora esse espaço

das

\ 11 múltiplas urgências do cotidi~ ~~ interrogando essa

f hl ê J2rlª , , - ' m és mQ - ' '' pe r co rrendo

'

ne < ; ssidade de um "mundo semanticamente normal" do

C S " ~Tci t ô · prã g rnát i ç< . n Região de ~ .fl . l l í Y .o - co. e m que se

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e a ideologia )

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Campinas, setembro de 1990'

Eni Pulcinelli Orlandi

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relação entre os universos logicamente o das formulações irremed i avelmente

tigando as ~~la29 ~ ~ . ~0 ~~~

m ~ _ ~ t .!l 0tempo em que per c orre ' ã sfü imas

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5 ritívele do int~ ~ E. ~~tªy el ao

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de se fazer .j.nterm ~! ª . ç ªº , ~ . : ~~ - : . , .

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I Observando o entrecruzamento e a dessemelhança entre

l i --Ir) -?s objet ~~

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estável e os que têm seu

é

mõêfo :C ifé " e x rs !~ hci à -- : fe grdo t a p a r ênf ê m e nrê · - per a . prôpri ã ;--- - { : ~ : ,

I 1 1 ~_ ~ [ < C ç , §I DQ : 1 ªr ã mõ S : : : ~ d ' êl~i: ;~ ê õnfõ rná - ' ' ã - a e cr âià çãõ ~b d e , ~.~. " Õ '

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Refleti n do e n tão sobre a . quest;~ ' d a ]í i~ t 6 ri ~

I marx i smo, não vai negar à história seu caráter de inter-

esse ' se u modo ' de

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pretação , ao contrário , aprofunda

e X l st êilcíà " para poder compreendê -I a teó r ica e cr i tica-

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Este texto foi apresentado na Conferência "Marxismo e Interpretação da Cultura: Limites, Fronteiras, Restr i- ções" na Universidade de Illinois Urbana-Champaign,

de 8 a 12 de julho de 1983.

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SE EU LHE PEDiR UM PREGO, ELE VAI

ME TRAZER UMA

CAVILHA . MAS 5EEU '

LHE

PIO DiR

UN\f\

CF\YILl-lA .•.

SE EU TE PEDi UMA

CAVILHA

PRECisO DE UM PREGO.

E PORQUE EU

JA ' QUE UM PREGO É UMA

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UMA GAVI LH A

NA o E t-'ot~ UI'M PORCA

MAS UM PREGO ,

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I. INTRODUÇÃO

a história daquele velho teórico I

erudito/marxista que queria fabricar sua biblioteca so-

zinho?

Vocês conhecem

_ Era naqueles longínquos tempos em que os ' ma r -

o x ist i ~ pensavam poder . construir tudo por si mesmos:

aeeonomia, a história , a filosofia, a psicologia, a l í n-

güística , a literatura , a sociologia, a tecas . :

e as biblio-

As dificuldades tinham começado com a confusão entre parafuso, rosca e porca. Todos sabem, entretanto , que o sistema de base genérico-sexual da tecnologia elementar implica, como princípio estrutural, que as roscas e as porcas se casam. Mas reinava a esse respeito uma estranha confusão no marxismo: assim, o velho marxista tinha absoluta convicção de estar equipado de

. parafusos celibatários marxistas , quando na verdade não

dispunha senão de roscas ~

sem porcas. ,

E toda vez que ele

se punha

a trabalhar ,

era a

cada

uma com um buraco , em perfeita coincidência. Colooava

, no vazio,

mesma coisa: ele juntava duas peças de madeira ,

a rosca no buraco e gira v a, girava, girava

sem nenhum resultado,

estava sempre se desfazendo.

de forma que sua construção

Chegou gente de todo tipo, com toda espécie de

orca

cada um lhe dizendo:

11 olha isto! Isto tem talvez

P

algo a ver com o que efeito . havia toda uma nológicas, estruturalistas,

,

,

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você esta ,

série de porcas: porcas fcnome-

-?"

(

com

azen o , nao.

.

hermenêuticas,

eXIstenc.lalS,

discursivas , lingüísticas, psicanalíticas , epistemológlcas,

' desconstrutivistas,

fem i nistas , pós-m o dernas,

e

t c

).

Durante

muito tempo, o velho marxista lhesres-

pondia: 11 deixem-me tranqüilo, deixem-me ~azer meu tra- balho , sem me complicar ainda mais as coisas com suas porcas!". Mas agora n e nhum mar x ista (ao me~os ne-

nhum marxista univer ~ itário

resposta parecida:

que se preze) dana uma

hoje o marxismo procura casar-se,

ou contrair relações exhaconjugais

, Para entrar na reflexão que empreendo aquicon t

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voc ê s, sobre ( ( di~~~~ ~o ~~ ? _ e ~~~~~~ ,, ~ _~~rn.:?,,~~~~!~~ cimento imag1l 1 0varIos camm n os muito dIferentes .

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.

Um p r imeiro

caminho . seria t omar

como tema

um ienunclã'd1 e trabalhar

L -~---J

.

a par t ir del e; po r e x emplo , o

16

enunciado "On a gagné" [ " Ganhamos"]

atravessou

20 horas e alguns minutos (o acontecimento, no ponto

de . encontro de uma atualidade e uma memória).

tal como ele

a França no dia 10 de maio de 1981, às

-- Um outro

caminho ,

mais clássico , na aparência

~ ,_ ~ _(_l~~ . ~ ~ l ~ ssico hoje?), consistiria em partir de

~ ! l lif~ º- ª losón ª,

por exemplo, a da relação entre

Marx e Aristóteles, a propósito da idéia de uma Ciência

da estrutura.

-: - Mas múltiplos saberes competentes logo me amea-

çam, surgindo com a espessura de suas referências

todos os horizontes da filosofia e das ciências humanas

e sociais; eles me lembram que não sou um especialista,

nem de Marx, nem de Aristóteles ,

filosofia. E que não disponho mais (ao menos por en- i quanto) de via de acesso especialmente preparada para '

ointerior

dobra há dois anos em torno do 10 de maio de 1981.

de

nem da história da .

do imenso arquivo , oral e escrito , que se des-

>- E então? Não seria

melhor (terceiro caminho possí-

vel) eu me ater sabiamente ao domínio 11 profissional"

o da

tradição francesa . de análise de discurso? 1. Por exem ' :

no qual encontro, bem ou mal, minha referência:

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• • • . •~. - . ,., -

.

pio , levantando, na configuração dos p ~ õb í e n; as teóricos

e de procedi~entos

que se colocam hoje para essa dis-

"Comõ-de-;cricooea-)

. 3 P: l ina ~ o . ~t etâ ç ã (ren t re - --ã - á ffâl ise

( análise como interpretaç ã o?

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Mas se me refugio nesta tática de intervenção, como

evitar as muitas e longas considerações prévias, neces-

sárias

que eu gostaria . de dizer e o que será entendido?

a uma regu l agem, um " t uning"

mínimo entre o

17

i

.1

I

I

A evocação

de alguns nomes próprios

(Saussure,

Wittgenstein, Althusser, Foucault, Lacan

) ou a men- .

ção a campos do real (a história,

ciente

posição de trabalho

a língua,

o incons-

uma

) não são suficientes

para caracterizar

Não serei eu obrigado

a começar

por uma sér~

de "cha r n~as " J ~~<!~ ~ 9! ~ ~ ~ l?~~ !Q § " m g~ ~ c!S!n TI JǪ9 que

n~da _ ~

nj.o vão funcionar senão como ~ l gnos

de reconhecimento opacos, fetiches teóricos?

que

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Ou então vou eu tentar empurrar

vocês nesta -

- de J?'!Qfedimentos técnicos, próprios à análise .~eJli!s'-

curso?

ultra rápida, por necess i dade

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Ou ainda: devo tentar, pela apresentação de alguns

resultados desses procedimentos, c~ç _ ~ : lq§ _ -º~ pertinência e de . seu interesse - enquanto as pesquisas

~~

atuãi ' st~;dêm ~ ' ã " iites ' de - tudà,

do que ~ ,. X~~~t , yªJ~t .

, PQ§ta"s"?

a 2 ! ºduziLq .u§.sJ-º~~, mais

l.

.!g!. : :1ªJ 1 4 . ªs!~ ." ~t1Posta das " res-

.

Dizemos em francês que não se "pode ir por qua -

tro caminhos"

quando · se vai direto

ao essencial

Mas qualseria.

no caso, essa via maravilhosa do essen-

cial,

pela qual o "negócio"

do qual pretendo

lhes falar

colocar-se-ia sob seus olhos como umfilme

sem volta

nem retoque?

Considerando

essa via como um mito

religioso,

/: ~ ~ ," ' prefi r op:1~~~ f º ! @ [ e m .

avªnç ªx~hJl ' ~ Ç L t, ! : ?:ª!} , 4: 9

S>S , . ~! , ~~

~iii1I~~()que_~,a~~. ~ . 2.<!~. evocar.

(o doªçgp:! ~ç i t g ~ !2 L _ ~

18

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(' ciª _~_~ t. ! , . ~ ~u ~ , Q . 9a tensão . ~~!!~ descrição e interpreta - i j

~~.

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.in terior da análise do .

.discurso), ) retocandô "cada'"

um····deiês'""p;r;'"~fct~~~çpirdalã(;· doS ~ ~u tros dois.

1 .

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. an amos.

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Paris, 10 de maio de 1981, 20 horas (hora local):

a imagem, simplifica da e recomposta eletronicamente,

do futuro presidente da República Francesa aparece nos Estupor (de maravilhamento ou de ter- ror): é a de François Mitterand!

Simultaneamente, os apresentadores de TV fazem estimativas calculadas por várias equipes de informática eleitoral: todas dão F. Mitterand como 11 vencedor". No 11 especial-eleições" desta noite, as tabelas de porcenta -

gem põem-se a desfilar. As primeiras

reações dos res-

ponsáveis políticos dos dois campos já são anunciadas, assim como os comentários ainda quentes dos especia -

listas de politicologia; uns e outros vão comecar a "fazer

trabalhar" o acontecimen! 9 (o J atQ

p

;s cifras, as atü ã íi d ãd ;~

Eovo,

r imeiras . declarações). em seu context ~ e

- éspa ç ô - " '(re ~ m ~ m - 6 iI~ :, g , ~ ~

e1 ~ _ con-' Y ~~~~q~e já c " OOl e ça

a

re b .!]:ani ?; .l ! t : o socialismo francês de Guesde a J aurês,

o

Congresso de Tours, o Front Popular, a Liberação

Esse acontecimento que aparece como o "global" *

da grande máquina televisiva, este resultado

super-copa

percussão mundial (F. Mitterand ganha o campeonato de Presidenciáveis da França) é o acontecimento jorna- lístico e da mass-media que remete a um conteúdo só-

de uma

de futebo l político ou de um jogo de re-

19

cio-político ao mesmo tempo perfeitamente transparente

(o veredito das cifras , a e v idência das tabelas) e profun-

damente opaco. !§,/,~Q~r~.Q:::4!:~çií.~sobre~f~'Qa \ deno -

minação desse acontecimento improvável tinha come - çado bem antes do dia 10 de maio , por um imenso trabalho de formulações ( retomadas , deslocadas , inver- tidas, de um lado a outro do campo polít ico) tendendo a prefigurar discursivamente o acontecimento , a dar-lhe forma e figura, na esperança de apressar sua vinda ou de impedi-Ia; todo ess e processo vai continuar,mar- cado pela novidade do d i a 10 de maio. / M às _ ~ J a novi- dadenão ti t 1 l 1L QP . ª ç icl ª - d e .-do-acoutec i mento, - ins c x i t a J! .o

j ~~' <?1? H q!-! 2 . , ~~ , ~u~ . ~ " A~ D ominª ç . º~§ _ ~ . 9 i · ' e~ , 4iiç ii~

ou

"F. Mitterand

é eleito presidente

da República

Francesa"

"A esquerda

france s a

leva a vitória

eleitoral dos

presidenciáveis"

"A coalização socialista-comunista .França "

se apodera

da

não estão evidentemente em relação interparafrástica; esses enunciados remetem (Bedeutung) ao mesmo fato, mas eles não constroem as mesmas signif icações (Sinn). I j .jo confronto discursivo prossegue através do aconteci-

I I.

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20

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.E " depois , no meio dessa circulação-confronto

de

(

TV durante toda

mo tempo ' umaconstatação --eum ' apelo: todos os pari - sienses para quem esse acontecimento é uma . vitória se

reúnem em massa na Praça da Bastilha , para gritar sua alegria (os outros não serão v i stos nessa noite). E acon- tecerá o mesmo na maior parte das outras cidades. Ora ,

entre esses gritos de vitória, há um quevai

uma intensidade particular: é o enunciado-" On a gagné " - ---

que não vão parar de atravessar

a noite , surge um flash

ormulações,

a tela da

que é ao mes-

"pegar" com

[ti Ganhamos! "] repetido sem fim como um eco ines-" gotável , apegado ao acontecimento .

.::-.Ir < f ' ~ : ~ ' r i~ iTd; d ; - ddessei;~ ~enunciado~ ;i ~ cole- ' \

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I

• ! tivo é absolutamente r p a rticular : , ; ela não tem nem o .

~. , - ~ - ---~ -- ~> - - ~

" f' conteúdo nem a forma " "' fiet - rr"'á'"' @ ruturaenunciativade

l ~:íd~I;:~~i~~2~~1~~ ' :;a~~~~'

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r,a~~~~~iA~~ " ;r~ ê t~t , ;~ d

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com un C r n Ií f o " ' é ' uma mel o dia determinados (on-a - ga- gné/ dó-dó-sol-dó) constitui a retomada direta, no espaço do acontecimento político, do grito coletivo dos torce- dores de uma partida esportiva cuja equipe acaba de

ganhar. ~ r lliLnm!: ç -ª- º - ~ mento

pação Qassiva 3 , do espectador-torcedor se converte em

~ i idade co l etiva _ g ~1 . \ 1~ . l L YQÇ a f t r P · ~ i ~ r G ' Ü z àndo ~ a fest ~ da vitória da equipe, tanto mai S ' inte t i ' S a r ne nf é " quanto ela era mais improvável.

~ ll ! _ q !!~ Qa ~ tic i -

tenha aparecido assim pela

primeira vez em maio de 1981, com esta limpidez , como a metáfora popular adequada ao campo político francês , convida a aprofundar a crítica das relações entre o fun-

cionamento

, O fato de que o esport e

da mídia

e aquele

da " classe pol í tica" ,

sobretudo depois dos anos 70 4

21

I

I

I i,

I

, rn todo caso, o que podemos

dizer é que este

m taf rico em torno do enunciado

"On a gagné"

I " unham s"] v eio sobredeterminar

o acontecimento,

ubllr h a ndo s u a equivocidade: no domínio esportivo, a

vidência d o s resultados é sustentada pela sua apres ~ n-

II apropriados" pelos torcedores que se identificam à equipe) ~Q .- ª .I 2~J . !ªsw nota ç õe ~ ~ ecu p .dárias do res ~ não é certo que se possa mostra r ou descrever o que a equipe vencedora ganhou.

ração

em um quadro

lógico (a equipe X , classificada

. Tomados pelo ângulo em qu e aparecem através da

na

ené sima divisão, derrotou

a equipe Y; a equipe X

mídia, os resultados eleitorais ap r esen t am a mesma uni-

est

á, pois , qualificada

pa r a se confrontar

com a equipe

vocidade lógica . O universo das po r centagens de resul-

Z

e t c ) . O "resultado"

de um jogo é, evidentemente,

tados, munidos de regras para determinar o vencedor é

~

bje t d de co~entári; ; -

e de reflexões

estratégicas poste-

ele próprio um espaço de predicados, de argumentos e

r

~ s

(d ; - parte - dos-' ~T tãe ' s d e

equip ê : crêC o ~ tadores

relações logicamente estabilizado: desse ponto de vista ,

esportivos , de porta-vozes de interesses comerciais, etc) ,

dir-se-á que no dia 10 de . ma i Q ~ . 1q 2ois de ~~ a

pois sem]2 . re há outros

jogos no horizonte

, mas en-

proposição "P. Mitterand foi eleito presidente da Repú-

-

quanto tal , seu - ~ ~ sult~dC0 fê riv - ãae o o üm - u niverso logica-

mente estabilizad ~ ( C onstru ído

_o

~

~

po r u i n c ó n JuiiT c ; r clilti-

--·-- . ····0

~,,

~

. ~

.

vamente simples de argumentos , de predicados e de

i~~Lã çQ~sI:B~i~~~_pocÍ;"-ed~~~xausH!vameneverté

de

-;tr;Vés

uma série . de ' respo s ' t a s un~yocâsa ue§ tges . f ªª, i ã i s

q

(sendo a pr!nd pa r , "- êv id êilfê mente:

y ' ? ' '') ' o' . , '

"h

'

o

.•

.···

X.

- ;".

,

'

"

' .

-

• "

"cL~

fª-tº,q

g ~m _ g ~ -

o

n ou,

,.,-.,-~

_-

~' ' ' - ' ''

'""

ou

'''' ' " ~ "~ ,, ,

,

,

,

.

''''',.

.

,.;;,--,.,

Questões

do tipo "quem

ganhou na verdade?

em

realidade? além das aparências? face à história?",

etc

aparecem como questões que não se r iam pertinentes ,

e ,

i

Y

no limite , até absurdas , esportivo .

a propósito

de um resultado

Provavelmente,

isso ' se prende

ao fato de que a

questão do jogo é Iogícamente definida como estando contida em seu resultado: "tal equipe ganhou" significa "tal equipe ganhou o jogo em questão contra tal outra",

ponto, acabou .

tíveis de se associarem

As marcas

e obj e tos simbólicos

susce -

a esta

vitória (e, logo, de serem

22

~ ~ ~ ã ~ ~f . õ ~ ! SI ~~ L~;

o Ü t õ - ~

Mas, siniultaneamente , o enunciado "On a gagné" I" Ganhamos"] é profundamente EmMi º, -; " sua materiali- dade léxico-sintática (um pronome "indefinido" em po- sição de sujeito, a marca temporal-aspec t ual de reali- zado , o lexema verbal" gagner" ["ganhar"], à ausência

de complementos) imerge esse enunciado em uma rede O\! r elações associativas implícitas - paráfrases, implí-

. ' cações, comentários , alusões, etc -
I

isto é em uma série

'

~==~~

\ heterogênea de enunciados, funcionando sob diferentes

\I, !e g i s ~ ! riável ;

discu !~y o s : - e

~

~ ~ ~ bT I Idãdê 1 ógica

'

: . ~

- v ã -

\

li?",

, Assim , a interpretação político-esportiva que acaba de ser evocadanão funciona como proposição estabili- zada (designando um acontecimento loca iza o como um

ponto em um espaço d ~ . J ! ~ ju Ex~~~} ógicas s; nã 1êõ";;

,o su j ei t,2

a condiçã~, de nã~, S~, interr~ar a referência

do verbo , gagner mentos elididos.

[ganh a r

[ , nem a de seus comple -

2 3

11\

I"

i

I:

I:

11!

iJ

I ~

1

Dois anos depois, a questão reaparece do debate político :

no circuito

li On a gagné!" [li Ganhamos!"].

nós nos hav í a-

I I1

11\

I ~

I I1

I

ri

mos regozijado

esquerda ,

de nós, tinham feito - os mesmos

[li Ganhamos! "]. E a cada vez era uma "experiência"

que não tinha durado muito, no atoleiro das abnegações,

discursos. "On a gagné!"

do mesmo modo em cada vitória

da

em maio de 36, na Liberação.

Outros, antes

i il

!:!

dos entusiasmos,

brilho

súbito e fogo de palha, antes

e da derrota

consen-

o guê,

h ~a re,~aída, do d,e~~oronamento

~

tida.

I;

11 ~>como, e por quê? :

ti

On a ga,gne! [li Ganhamos! "]. panhamos

I: U ~

I

I

li

i'

(

» < " .

'"

~ Sobre o ( ~ ~ . ~ ~ ~~ , ~ ~ ~_ ~ ~~~~!~quemdo : ganhou?

,'11i

A sintaxe da língua f r ancesa permite através do on

"I

t,

'

r indefinido, deixar em suspenso enunciativo a / designa-

de quem ganhou:

dos

da França"? ou daqueles ; que sempre apoiaram a pers- pectiva do Programa , Comum? Ou daque l es que, não

mais se reconhecendo

reita/ esque r da, se sentem ' , no entanto, liberados subita-

,

i , mente pela partida

I

,

,

f

í

'

I

í,

'

, i

'j':

\

i

i

I

: ~

l

:

i ~

1

-,

ção da identidade

trata-se do "nós"

ou do. "povo

militantes dos partid o s de esquerda?

na. categorização parlamentar d i -

d'Estaing que , "

e de tudo o nunca tendo

com a

de Giscard

que ele rep~ - U ü - aãqueles

feito política", estão surpresos e entusiasmados

i dé i a de que enfim "vai : mudar"?

O apagamento do agente induz um complexo efeito

d e retorno , m i s tu rando dive r sas posições milit a nt es com a posição de participação pass i va do espectador eleito-

2

4

ral, torcedor hesitante e cético até o último minuto

em que o inimaginável

cado e o torcedor voa

acontece: o gol decisivo é mar-

em apoio à vitória "

"l I

J) e n unciado

unde aqueles ,9 , ue ainda

"O

•• I _ n a gagne

r

'''[''G

an h amos

:; ~?\ ia ~r ,~ ~ _ ~ ~E i ~~ : ~~ _ : ~ gu ~ !~ . ~ . , _ 'l ~ ~ j~ ~ l !ªS? ~. ~ ~ ~ E ~ i -

tavam

~=

.

'

"b/ ) iob r e o complemen t o do enunciado:

como, por quê?

ganhou o quê,

Uma espiada no dicionário nos ensina que o verbo

gagner [ganhar] se const r ói :

com um "sujeito animado" vontade, de sentimento,

a vida, ganhar tanto por mês;

(um agente dotado de

de intenção, etc) : ganhar

,

- ganhar em uma competição, ser, o vencedor;

- ganhar

grande prêmio;

em ' um jogo de azar, ser o vencedor do

.

I

I

I'

I

I:

II

I

!

I

!

I

I

I

I

:

i

'

-

ganhar ter-reno, espaço, tempo (sobre o adver-

s

ário) ;

ganhar galardões, uma medalha

- ganhar um lugar, um posto, um l ugar (cf. vol- tar para seu posto);

-

(homens, aliados. simpatizantes

ganhar

a simpatia

de a l g u ém , ganhar

);

alg u ém

25

·;r~";

ou com um "sujeito inanimado"

(uma coisa, um

processo desprovido

de vontade própria,

de senti-

mento , de intenção):

. são então "agentes"

que se

to r nam objetos :

- o calor , o frio, o entusiasmo,

a a le gr i a , a tristeza

deram de mim, dele, de nós

o sono, a doença,

me, o, nos ganham (se apo-

).

, Que parte , cada um desses funcionamentos léxico-

sintáticos subjacentes, tomou na unidade- equívoca desse

g r ito coletivo que repercutiu?

mos"]

mento, mas os complementos não estão longe: ganhamos

rodada (antes das legisla-

tivas); mas também (em funç ã o do que precede) ganha-

mos por sorte, como se g a nha o grande prêmio quando

nem se acredita ;

adversário, já com a Er~messa de ocupar pos i ções neste terreno e, antes de tudo ; ocupar com to d a leg i timidade

o jogo, a partida, a primeira

"On a gagné" [It Ganha-

A alegria da vitória se enuncia . sem comple-

e , clar o , ganhamos

terreno sobre o

o lugar do qual governamental

õ poder na F r ança , r é uma E.ará f ras ~

se governa a França, o lugar do poâer

e do poder do Estado; u ~ esquerda toma

lausível do entE} -

; P c l ado-fórmula , "on a g a gn é " ["ganhamos"],

~o prolon ~

g~meI).to do acontecimento, _

.

O poder a tomar: enfim, alguma coisa que se pode-

ria mostrar a título de complemento do verbçgagner

Ij

[ganhar],~

é ce r to que s epOss ã : S ~ tstr !t

! ! ~ t i2

esfor ~~, ou , ~eito

de forma

O t t p od~r:' apa~ece,

unívoca ~ o- . ç l ~f l . y * ~ ~

efetivamente , ora como !!m ob j eto adqulr ld<;> {Justo

resultado

de u m grande

inespera'! o

26

da sorte ; de toda forma, o bem supre m o

nistrar o melhor para o b ~

de todos),

espaço , resistente à conquista, no confronto contínuo

que va i admi- ora como um

.* contra as feodaHdades de toda . ordem (que tudo fizeram

-

- -

para que "isto jamais acontecesse"

e que continuam

I '

I

I

>

I

a resistir) ora como um ato performativo a se sustentar

(fazer o que se diz), ora como no v as relações sociais

a serem construídas .

::cc::.--

" "On a gagné " [" Ganhamos"]:

I

1

• - -

I

-

I

b lh

\

há dois anos <2equí-

-

acre di ltam nIsto ,,, ,

nos postos go-

vernamentais, tanto quanto nas diferentes camadas da

voco da fórmula trabalha

a esqu e rda

- = <

I

ue

11

popu açao; e a tra a a a uees

e ' aqueles que estão em falta quanto à crença; a ueles <.

qú " e esperam um 11 grande movimento p opular" ~ aqueles ~ '

que se resi nam ao a-politismo generalizado;

' os

11 res-

ponsáveis" eos outros,os

homens de apareI

os e os

11 simples particulares"

, . , - De onde resulta um

doloroso

estiramentoentre

duas tentações para escapar à questão :

do aconteci-

mente do dia 10 de maio, por exemplo , fazendo-o coincidir completamente com o plano logicamente

-

a tentação

de nega r o equívoco

estabilizado das instituições políticas (" sim ou não,

a esquerda está no poder na França?

mos as conseqüências.

, . ")

se sim, tire -

,

~ -

ou então a de

negar o próprio acontecimento ,

fazendo como se, finalmente, nada tendo aconte-

cido ("0 que ganhamos?"),

os problemas seriam

I

I

li

I

;/

'li

,I

li

li li

l

l

l

I

d

i

i

i

'

I

!

I

I

I

'

estritamente

os mesmos se a direita

esti ve sse

no

poder 10,

27

,

fi

i l

i

, Ceder a uma ou outra dessas duas tentações sepa-

-

raria definitivamente as "duas esquerdas" u~a .da o~tra, I entregando as duas ao advers~~i~ \~ se,a direita vIe~se

I

!

I

-,

a

retomar o -poder na França

nos

venamos -

muito

tarde -

o que U nós" ter í amos

perdido).

A

partir do exempl~ de um _ acon,t~cimento, o "do

dia 10 de maio de 1981 ; a questao teó rica que coloco

é, pois, a dQ estatuto dasdiscursividades

um acontecimento, entrecruzando

rência logicamente estável , - suscetíveis

voca (é sim ou não, é ~ ou y , etc) e formulaçoes

irremedia~~ i mente equívocas.

~u~ trabalham

proposiçoes de ap~-

de resposta U~l-

i} " L v \~- A~

.

~ , o

e ~ ~

.

M~ _ ' ~ " " ; - "'.·

' _' . "'

'.

~

~_+(~i~!~lLJ!i§-ç!J.~§IY2§de :talh:;

o

. mente ' independentes dos . enunciados que produzlm~s a seu - respeito, vêm trocar seus ' tra j etos com outr . ,?~ tipos de objetos , cujo modo d e existência parece regido pela próp r ia maneira com que . falamos deles : _

ap d r ente - privilégio de serem

estável, detendo

.ate certo ponto, . larga-

uns devem ser d e clarados mais reais que outros?

- há um espaço s u bjac e nte comum ao desdobra - - mento de objetos tão desseme l hantes?

\ São essas as questões que gostaria de abordar agora.

28

lI. CIÊNCIA, ESTRUTURA E ESCOL ÃSTICA

,

I

i

I

I

I:

II I:

I

I

I

!

I

Supor que, pelo menos em certas - circunstâncias,

-

----

há independência do

feito a seu respeito,

do que se

(coisas, seres . vivos , pessoas, acontecimentos, proces-

), "há real", isto é, pontos de impossível, deter-

não ser U assim" I (O real

sos

ob j eto face ~ qual9 .!!er ~~~ o significa colocar que, no interior

apresenta como -o universo físico-humano

minando aquilo que não Eode

é o imposs í

----

~

que seja de outro modo).

Não descobrimos,

pois, o real: a gente se depara

com ele; dá de encontro com ele, o encontra.

Assim, o domínio das matemáticas

e das ciências em que se

ou de um físico que ele

da natureza 1id ~ ~ - ~~~o - re al - n~ --m edida

pode dizer de um matemático

encontrou

a solução

de uma

q u estão

até então não

 

29

. ~ , -'

' I '

resolvida ;

e

parte do p r oblema (ele - ~acertou",

enquanto se

(todas as

que visam produzir transformações

e de inter - têrri que ver

pretação de que falaremos

com o real: trata-se de encontrar , com ou sem a ajuda das ciências da natureza , os meios de obter um resultado que tire partido da forma a mais eficaz possível (isto

é, levando em conta a esgotabilidade

da natureza) dos

que um aluno , face a um

u encontrou" tal

e diz- s e também

x ercício de matemática

11

de"

ou de física

tal ou tal questão),

per e , no , resto.

Um grande número de técnicas materiais

físicas ou biofísi-

.c as) por oposição às técnicas de adivinhação

mais adiante ,

processos naturais, para instrumentalizá-los, em direção aos efeitos procurados . ,

dirigi-Ios

A esta série vem se juntar

a multiplicidade

das

"técnicas"

de gestão social dos indivíduos: marcá-los ,

identificá-los, classificá-l ó s , compar á -Ios, _colocá-Ios em ordem, em colunas, emr tabelas , reuni-Ios e separá-los segundo critérios definid o s, a fim d e colocá - Ice no tra-

balho, a fim de fnst r u í -l c s,

rar , de W{ à teg ê ~ r 0S ' : e de ~ ~ !g üí : !º~ ~ - de levá - los à guerra e

' de lhesfazei " nrh ' ü - s

dic(» eco n ômico e político) - ' apiesenta ele também as .,

de fazê-los sonhar oudelí-

-' ~ - - - - i i steespaço administrativo (jurí-

{> : : i Ú i~ ~ ~ i E ~ ~ ~ ~ ~ ª ~ '- ~ª ~n ~ ~ QJ 9é . [~ç11 impossível"i : d l§l~~o ' I i v ' à ; : ,

• que tal pessoa seja solteira

e casada , qu e t enha , d iploma

e que não o tenha , que es t eja trabalhando

desempregado ,

que ganhe mais, que seja civil e que seja militar ,

t enha sido eleito para. r tal sido, etc

e que esteja

que ganhe menos ' de tanto por mês e

função

que

e que não o tenha

Ess e s ' espaços -

e

s t abelecidos

(enquanto

' atr avés dos

qua i s s e e nc ontram_

agentes e garant i a

dessas últi-

30

e re s-

ponsáveis de diversas ordens - repousam, em . seu fun- cionamento discursivo interno, sobre uma proibição : de interpretação, implicando o uso regulado de proposições

dis-

mas operações) detentores de sab er , e spec i alistas

lógicas (Verdadeiro ou Falso) com interrogações

juntivas (" cestado

de coisas 17 é A ou não-A?) e, corre-

lativamente,

discursiva 11 do tipo 11 em certo

1 1 se podemos dizer", 11 em um

m a is propriamente",

quaisquer aspas de natureza interpretativa,

locariam as categorizações; por exemplo, o enunciado:

"Fulano é muito "militar"

aliás, perfeitamente dotado de sentido).

a recusa

de certas marcas

de distância

sentido", 11 se . se desejar",

grau e x tremo", 11 dizendo

a recusa de que des-

que é,

etc (e, em particular,

no civil", enunciado

-

'.--

---'-----_ ---_

-- - " ' - - " - "'"' '

Nesses ' ~ spaços discursivos - tque mais acima desig-

,

- - - -- -- - - - - - - , - ---- -

.

)

namos como "Iogicamente ' es t abilizados , ") supõe-se que todo I sujeito falante sabe do que se fala , porque todo

~ CÜ t d _ º _- pt : o~uzido ,

nesses espaços j : é!í ete

proprieda-

des estruturais independentes . de sua enunci ~ : essas propriedades se inscrevem , tra:nsparentemente, em uma descrição adequada do universo , (tal que este universo é tomado discursivamente nesses espaços).

E o que unifica a p arentemente

esses espaços dis-

de

curs i vos é uma t . série de evidências lógico - prá t icas,

nível muito geral, tais como:

I

um mesmo objeto X hão pode estar ao mesmo tempo em duas localizações diferentes;

-

-

mesmo t empo com a propri e dade

dade , não- P ;

um mesmo objeto , X não pode ter a ver ao

P , e ~ pr oprie-

31

I '

i

I

I

;

'I: I j

.

'I'

,

:

I:

I;

I

"

I

,

,

~

til

:'1

i I

.11:

J-_<,

.

!

:

um mesmo acontecimento A não pode ao mes- mo tempo acontecer e não acontecer, etc.

I:

.

I:

ii

i

:

'I

1

I

li

.

.1

I

Ora , esta homogeneidade lógica, que cond i ciona o logicamente repf " esentável como conjunto de proposicões

s

por uma ~rie de equívocos ; em part k~I; r termos como

l ~ i , ri g. ,or,ordem, E ~ io, etc ue "çobr XJ! l" ao mesmo

Ó domínio das

tempo, como um atc work heteróclit

~ uscet í ve k de serem verdadeiras ou falsas, é atravéssad ~

~~~~~

Ç1enclas ~f ltas, O das tecnologias e o das ad m il liê . t u!- ções 1 2 .

'

e,

.'

. Esta" cobertura" lógica d ~~ iões heterogêneas do

~ L é um E ~ . §!11~UQ bem mais . g~ iºi ç º ~ ~ il stem ~Ii o. para que possamos aí ver uma simples impostura cons - truída na sua totalidade por ~ g Yl l L . E .r i! 1cipemistifi~ ~ dor: tudo se passa como se, face a essa falsa-aparência

~ ~ ~l li al-so S ial-hi § i 9 . il l Q 1 J1Q ill . Q g ~ i i iQ _ cob ; to

por uma rede· de -EE2

ç ões lógicas, nenhuma pessoa

tivesse o poc.i ~ deesca Í ?ar totalme n te, ni esmo, e talvez

sobretu ~ - :~ ! ! .el~ ~ _ g y ; , : ; ~ - ~ ~r ~ ª . m :. :~ n~ 2 : ~ i t ; n Iórios":

como se esta adesão

sas razões, vir a se realizar de um modo ou de outro .

osi

d e C Q!lj ~

-.-.-

-

de' y~ sse , por imperio-

~ ~

-~.'

-,.-~- , -

~~

-.-~",

~

~

.

-

- ~ . - . -

Se descartamos todas as explicações que não o são

- na medida em que elas são apenas comentários dessa

mesma . adesão - , há talvez um.,E.onto crucial a consi- derar, do lado das múltiplas grgências do - éOtidiano ; mas colocar em jogo . este l ? . 9E tOsUl'õe suspender a ' pb;i-

!

~

~

. ~ .~ " " ~_"' - .~_ 1 ,,

""""I

~~~ii~~lIit~íí~~n~~

sentld, 9

neo do termo.

~!lE.!E!!1fL~3e

3

2

.'

també Q .' r t p o ·sentid õ< c o ritemporâ-

lJ ~.---·_~- , ~. = o,\,~",,

,

~,

I

!

A idéia de que os espaços estabilizados senam impostos do exterior, como coerções, a este sujeito pragmático, apenas pelo poder dos s~~ tistas, dos eSE,e- cialistas . e responsáveis administrativos, se mostra in- sustentável desde que se -"ãCÕn.SIderê' um pouco mais

.

seriamente. ' .

--

- - ~~-- -

"' - -" i

,;;c.f6.)

~ l

~

J~

,

-

\ .9 ~jeito pragmáti f g ! -

.

r

'\

<: »

~

' <)

'"

isto é , cada um de nós, .

os "i [ fn p les particulares" face às diversas urgências de

sua vida - ~or

dade de homogeneidade I Q~

tência dessa ll!ul. ! !E1i ~ id~~ ~ . A ~ . l? ~s. ,l !~~ =* ,ê. ! g ~ . m ª§ . jg gj- cos portáteis que vão da gestão ' cotidiana da existência (por exemplo, em nossa civilização ; o porta-notas, as

chaves, a agenda, os papéis, etc) até as "grandes deci- sões" da vida social e afetiva (eu dec i d~ f ~ ~ e ; - i ; t ~ - ' e

/.

si mesmo uma imperiosa

. neces. ~ /

isto se marca pela exis-

,.~,.~,.•.,•,.:

~

,,_~

"'~'

.,.

~"

~'r."_"''''''''''''''''''''',",'

:~d:~!~O'to~~-::~~:~~e~~~~~:t~I

-

- -

-

-

.-•.r o• .". '

•~.

~

_

~ (isto é , a ~éri ~ ~s _~ ~ jet q t .9. ! - lY~k~ ! Ü nos e que a rendemos a fazer funcionar, que i.Qgamose que

- ~----

- --- ~ """

< q '

- ~ . - .

J J ~InQ s. , que ~PE amos, que consertamos e que subs- gMm os)

Nesse espaço de necessidade -- eq y í Y9 Ç € 1,misturando ~ois ~ s e pessoa,s, ~ c ~ ico ~ . e ~ecisões mo ~ , :

modo . dê empre& . o e e 3 co l has polític ~ s, §~ à ; ' 1 _ - (desde o simples pedido de informação até a discussã ô , ~ o debate, o confronto) é suscetível de colocar em jogo !.

uma ~ ã ?

-

uma simplif i cação J lt l lV _ 2S!,e '---- ve n tualmente - .- - ~. mortal ~ -~'-- , - para -

. ~ ,

-~'--

- '-'

••

-

- ""- -

-,- . :

J2g~ das . P~? ~ 2. ª~~ , " , _ ~!: . ~ . ~~Y , ~L. I s

j

com, de vez em quando , o senti mento insidioso de

"

- .•_,,------

" ' • •

-

,

,,

,'~,- , --

-

•.•, ~

si-mesmo e/ou para os outros.

~_----

-.'

••

•••.• ••• _ ••

Jr-=.T

-

= .~-,.

~" " "

33

,.'

.

i

De nada serve negar essa necessídade 1d ~~ jgl de aparência, ~ículo de di§.Ü!nçõese ~ 9 rizações lógi-

, .• _~

cas: essa necessiq~iversal de um <t mundo seman- ticamente normal", istoé, normaÜz q .@, começa com a

relação de cada um com seu 2!9priº _ J ~ Q! 12oe. ~~~.§."_ªrre- 42res i~ _ diatQs (e antes de tudo com a distribuição de

~21 1

ê_

_e l!1~l:!.~ 9J2i~

~ -'?s,arcaicamente f ! . g:YX ~4 2 ~ _ l?eladis-

iunç!Q ~~~. ~~~~J~l11Yllt~ ~ _

- ~ - ~ " ~ .

E também não serve de nada negar que esta ~c y S- sidade de fronteiras coincide com a construcão de lacos

~~

•• "

• ••

" "" ' "" '" ' ''

=- -

_

.'''''' ••' ''. ff_ • •

-' ' '''••. ' ,."• ••••• •,,,.•••!·.,

,

.--

,·~

d, E _ A ff i ~dênci aJace às ~!!1 l?la ~i ~ ~ , ~ : , ~: , ~ _ ~ ber, conside- radas como reservas de conhecimento acumuladas má- g,Yillil§:g~;;M12s:.r 14 contra .as ~~12écie: o

.~~~""'~_,

"

• ""•.""''':"''~"'''·

~_

•.• '''''~, WI." ,.''., r.;, ,''~·:.''." •.•.''.''. ''''''~~

,

,•• •••••• '

;;" •.~~~

~, Estado , e as !p-~uiçõe~

i u:Qcio. ~ o mais freqüente-

mente - pelo menos em nossa sociedade - como ~ l

)2l' i xiLegiadºs _ de

r§~-p.Q§.taa

; esta necessi . clacleou a essa

~~~1E_~lt<f~-~'

;::'--.-'~-~-"

.

I,r·"""'''-'''''·''''''''':''t~~.,;;

.:.1":/ As ' ( coisas-a-saber ~ .r é presentam assim tud,o

2.-Jl!!SL

arrisca faltar à felicida~ (e no limite à s im ple . s ., sQl n: . e.-

, - ,

-

"- - - ~~ ~ -~ ,, .

.,~

~ ~ - -- ~ ' "~ , ,

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"

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.

' .

'

.•

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.

yiqa biQ!ógi ~ '.l) dd ~. ~ í ~ it()p ~ ãgil l " ~i i s 9 ; ~ : isto é , tudo

(o

fato de ~e seja 11 real : ' ,qualquer que seja a tomada que

o ~

o ameaça E~io-J af ~ : ., i!iji~ ~ , que!sto , ~ ta

9

§ lJi~~~~

t ~Q ,

.

.!~ !!! :t _ ~ . ouD.:~ , Q , ~ ~obrea ~E~!~ O

real) ; não é n ~ ~ , ~§ .~árioter uma intuição ) i fenomenoló- '

e. ~ ~ ~daf h1 ! " ~~!I~ ~.itmª.~ l:~,.ª~i~ên;iº; '

=;s-

pon ~ âr. t eq da essência do tifoparase r af~tadol ? ~ Qr

~~sa

.d~,~nçª~i5-;-*-mesmé o ' õ - cõn t ;á;i ~ ; 'h'á .íi ~ ~is~s ~ a-saber~ '

(conhecimentos a gerir e a transmi t ir socialmente), isto

é, desc r ições de situações , d e sintomas e de a to s (a efe-

tuar ou evitar) associados às ameaças multiformes de

um real do qual 1/ J?in~~ que esse real é impieci2§~

P _ Q r .~

~~ j g n Q gL "ª , J ~ _ C' , =

~ - - - - - -

" '

- - -.--.-_- --

""".

.=~ ' - "" " " ' - - -

O projeto de um saber que unificaria esta ml,llH~ plicidade ~eteróclita das. coisas-a-saber em uma estrutura represertiáverliomogênea, a idéia de uma possível ciên- cia da estrutura desse real, capaz de explicitá-lo fora de toda falsa-aparência e de lhe assegurar o controle sem risco de interpretação (logo uma auto-leitura cien- tífica, sem falha, do real) responde, com toda evidência, a uma urgência tão viva, tão universalmente "humana", ele amarra tão bem, em torno do mesmo jogo domina- ção/resistência, os interesses dos sucessivos mestres desse mundo e os de todos os condenados da terra que o fantasma desse saber, eficaz, administrável e transmissível, não podia deixar de tender historicamente a se materializar' por todos os meios.

A promessa de uma ciência régia conceptualment e tão rigorosa quanto as matemáticas, concretamente tão

eficaz quanto as tecnologias materiais, e tão onipresente

quanto a filosofia e a política!

poderia ter resistido a semelhante pechincha? I ,

como a humanidade

!

i

' - Houve o momento da escolâstica aristotélica,

que estruturam a

/ linguageme u ' pensalI l çnt6 para fazer delas o modelo e

procurando d~~~g,,?lver as categorias

· ~ . · · ' · organonde " toda sistematização: questões disjuntivas

ou) sobre a divindade , o sexo dos

anjos, os corpos celestes e terrestres, as plantas e os animais, e todas as coisas conhecidas e desconhecidas Quantos catecismos não estrutura r am redes de questões -

em utrum (ou .

- respostas escolásticas?

t

!

t >

- . Há o momento moderno contemporâneo do rigor

positivo, aparecido no contexto histórico da constitui-

e da bio-

logia, associado à emergência

Direito (organizado em corpo de proposições) e também em um novo lance do pensamento matemático: um novo

organon, construído contra o aristotelismo e apoiado na

referência

até os

homogeneizar

espaços administrativos e sociais, através do método

de

"administração

hipotético-dedutivo

ção, enquanto ciências, da física, da química

de uma nova forma de

às. 11 ciências exatas",

procura . por sua vez

o real, desde a lógica matemática

experimental , de prova".

e

as

técnicas

- E, last but not Ieast, há o momento

da anto-

logia marxista, que pretende

de seu lado produzir

as

"leis dialéticas" da história e da matéria, outro organon

parcialmente semelhante aos dois precedentes, partilhan-

do de qualquer

- "a teoria de Marx

modo cor r i eles o desejo de onipotência

é todo poderosa porque é verda-

deira" (Lenin), No seu conjunto, os movimentos ope-

rários não puderam visivelmente resistir a este. presente extraordinário de uma nova filosofia unificada, capaz

de se institucionalizar nente crítico/organizador te/o Estado futuro):

dialética marxista (com Q Capital como arma absoluta,

11 o míssil mais poderoso lançado na cabeça da burgue- sia") se mostrou também capaz - do mesmo modo que todos os saberes de aparência unificada e homogê- nea - de justificar tudo , em nome da urgência 16 .

eficazmente, enquanto compo- do Estado (o Estado existen-

o d i spositivo de base da ontologia

o neo-pos i tivismo

e o marxismo formam assim as

em um

11 epistemes"

maio r es de nosso tempo, tomadas

36

encavalamento parcialmente contraditório em torno à questão das ciências humanas e sociais; tendo, no centro,

a questão da história, isto é, a questão das formas de existência possível de uma ciência da história.

. A questão aqui não é de saber se O Capital e as pesquisas que dele derivaram produziram o que chamei 11 coisas-a-saber": mesmo para os adversários, os mais ferozes, do marxismo, o processo de exploração capita- lista, por exemplo, constitui incontestavelmente uma

coisa-a-saber, da qual os detentores de capitais aprende-

ram

a se servir tanto, e, às vezes, melhor

que aqueles

que

eles exploram

17. O mesmo acontece,

para a luta

de classes e várias

outras li coisas-a-saber".

 

A questão é sobretudo a de determinar

se as coi-

sas-a-saber saídas do marxismo são, ou não, suscetíveis de se organizar em um espaço científico coerente, inte-

grado em uma montagem sistemática

tais como forças produtivas, relações de produção, for- mação sócio-econômica, formação social, infraestrutura

e superestruturas jurídico-política e ideológica, poder

de Estado,

plo, a descoberta galileana pode constituir a matriz

- do mesmo modo que, por exem-

de conceitos -

I

I

I I

!

!

'

I li

i

I

I '

I,

i

!

f

r

f

;

I

I

científica coerente da física , no sentido atual

desse ter-

mo 18.

O momento da ruptura galileana abriu

a possibi -

lidade de uma construção

do real físico enquanto

pro-

cesso, delimitando

o impossível próprio

a este real,

através de relações reguladas combinando a construção de escritas conceptuais e a de montagens experimentais

(colocando assim em jogo uma parte do registro das

~ ,'

•.

37

técnicas materiais evocadas mais acima). Desse modo os ~ ; pnmerros .I~strumentos (planos inclinados, guindastes, \

etc

m~nte ant:ci~ados no espaço tecnológico pré-galileano ;

e e no propno desenvolvimento

trumentos se transformaram para se adaptar às néêessi-

dades intrínsecas

produção de objetos técnicos industrializados

damente alargada, associada a uma nova divisão técni-

'

I

) utilizados

pela física galileana eram inevitavel-

da física que tais ins-

desta , . corn , em efeito de retorno

indefini-

a

' f

co-social do trabalho (" eruditos",

engenheiros e

técni-

I

cos) que

faz

também

a física

apa r ecer

como

uma )

11 ciência

social" 19.

 

_J

r

As conseqüências intelectuais da descontinuidade

não é nem um colega, nem

i galileana se marcam

! que físico hoje , Aristóteles

I ~~rimeiro , físico: Aristóteles é simplesmente um grande

pelo fato que , para não importa

que

/ a fís i ca galileana e pós-gali~eana não i?terpreta o real

~ ftlo~~fo ; Un:a outra marca desta descontinuidadeé

/ :-: ~esmo

se, bem entendido ,

o movimento que ela . /

I

Ir: 1cIa ,.0 da constru?ão

do

real físico como processo , Y,

.

.,

t

nao deixa de ser objeto de múltiplas interpretações.

 

. "-"-"'-,

-

. A questão ' que colo c o aqui é a de saber se Marx, i

 

pode,ou

não, ser consid e rado

como o Galileu do

li conlK

tinente história'l ?". Há " um impossíve l específico à his- ;

 

\ tória, marcando estruturalmente

o que constituiria

o

de

) ' real? Há uma relação regulada

entre a formulacão

/

conceitos e a montagem de instrumentos suscetíveis de

 

aprisiona r em

esse real? / E podemos d i scernir ,

com o

advento do pensamento de Marx, umadescontinuidade tal que o real h istórico d e ix ass e de se r ob j eto de inter-

p ara s er cons -

pre t ações d iv erg e ntes, ou co ntr ad i tó ri as ,

38

t

ituído,

por sua vez, em processo

(por exemplo ,

em

"processo sem sujeito

nem fim (ns), segundo a célebre

fórmula de L. Althusser)?

A constatação

da 11 crise do marxismo"

é hoje sufi-

c ientemente admitida para que eu seja direto, dizendo:

udo leva a pensar que a descontinuidade epistemológica . ssociada à descoberta de Marx se mostre extremamente

precária e problemática.

historiador, nem o primeiro economista, no sentido em que Galileu seria o primeiro físico: Tucídides, que não

é aparentemente um colega para os atuais praticantes de

tanto

antes como depois de Marx. Tudo que podemos supor é eventualmente que Tucídides não será lido da mesma maneira, se esta leitura levar ou não em conta a 11 obra

historiografia 21, é seguramente um historiador

Marx não é nem o primeiro

de Marx" (quer dizer, de fato, tal ou tal leitura de tal

ou tal te x to assinado por Marx ou Marx-Engels.

Mas não podemos dizer exatamente o mesmo de todo

Na falta de

ser o fundador

grande filósofo: um pensamento . da importância da de Aristóteles

Marx seria um

grande pensamento que ' surge na história?

etc).

da ciência da história ,

o que, de certo modo

aco n teceu -

da famosa frase

pela qual ele rejeitou este adjetivo categorizante,

certos companheiros seus já haviam forjado enquanto ele vivia, por derivação a partir de seu próprio nome .

que

primeiro teórico marxista ,

o que poderia acontecer -

é que Marx foi considerado

a despeito

o

o fato de que Marx tenha assim

recusado se reco -

n hecer nos efeitos inicia i s assoc i ados à 1 1 recepção "

só-

39

. !

I

,

I

I

I

I

,

~

I

,

do-histórica

como uma ~ g ~ ão,

~ r x ,

em - q i.1e " se e nt e nde cornumente", Nesse ponto preciso

come ça, me parece, a temática aristocrática da "boa"

d e sua obra foi quase sempre entendida '

signif-icande- - de. J ato.: : Eu ) "_ KarI

: - masnão no sentido

sou , , ~ fe . t i Yªm _ en j § Ula L : o ,istél.: :

! e itura oposta às más leituras

(banais e falaciosas) ; ' da

inte r pretação justa, sempre em reserva quanto as inter-

pretações errôneas,

cesso de retificação potencialmente infinito.

da verdade como télos de um pro-

I

A fantástica série de efei t os escolásticos de desdo-

M ~ rx lido por

X/Marx lido por Y, etc) ao qual "0 marxismo" deu

lugar desde o começo, com um ad i am e nto quase i~de-

decis i va , não seria

fi~ido do momento da experiência

j

I ;

li bramentos. d~ leituta ~! éri ~ < ? /eso J @ co,

'I

'j

,

I

I

i

f

I

'

, II

i

<; do real histórico -

então tão

é, -o real visado especificamente

pela teoria marxista - seria literalmente inapreensível

n~~ 11 aplicações"

rético surge por um outra : viés, o da questão dos "ins-

espantosa: o impossível próprio à estrutura

isto

da dita ' teoria. O mesmo ponto apo-

saber" que concernem história, a sociedade, a polí- têm a estrutura das leis do tipo científico-gali- leano) é absolutamente compreensível que, como os pla- nos inclinados e os guindastes de Galileu, os primeiros "instrumentos" utilizados tenham sido tão ' dessemelhan- tes de suas novas finalidades 11 científicas", tão inade- quados a sua função transformadora, em uma palavra

tão grosseiros. (SQ os utopistas i ~ er.ados podem crer

~ --~ - - '

' .

.

.

que é possível .cOI 1 §. tn lir, ~ ~~ i Ei1 -º- l ais ins ! ru ~ !5's

~

do ).

só-

, ~õ:p õmico s " - . do

magicamente _~'2_i'

~'§"º-_ci_º_~§.ª-

~

- ; t ' · i . · , ,~··': ·· - - - -~-' ' - ' ''' '' .--.-~"", "" , . ,

""" "

,

' ~ "' ''' ' '

Mas o problema crucial, é que, à . medida em que

do marxismo como

se desenvolvem as 11 aplicações"

ciência-prática , os novos instrumentos, órgãos ou apa- relhos (relconstruídos sob sua responsabilidade 11 cientí-

fica" continuam a se parecer , grosso modo, com as

estruturas anteriores -

o

são mais- do que deslizes acidentais: em particular

às ' vezes com agravantes que

"

I1

I

I

I

trumentos":

se consideramos

(como é o caso , há um

mesmo patchwork, a mesma falsa - aparência da homoge-

século, para

uma parte n ã o negligenciá vel da humani-

neidade lógica - encaixando a estabilidade discursiva

dade) o marxismo CO I D ~

ciência da história posta em

P F~ ti ç - ª , _, 12elo

t

1

p x ºle ~ ~Eia~~,_ ~ ª~Y ~ !! 1 ~§ ~~ ~çlt {mr --i que ~ < > ~ ~ - p r a-

c i ~nçi'!em , ~ n1e~ ! . ~ 9., . J ~ ! , ; : t pcons " t r angidoª , a

.§9 c i al- histórie o exT s tent é : - i ogo

lh'"

.y.mª !F - de - rn iit r un i e ni ô s ·' " (i ils tit ui -

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organização,~

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~ _ ~~ ll t~ §

f ~ !E P J .esta.t : ~ . ", domu n4 º

_ ~~ : m ªrxista r ' toda .

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_ ~ , , ~ !~ ) " pª x a

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. ªo p 1e.~. I E ?. ~~m ~~ , ~ §

.que.

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como força de inte r venç ã o na histó rr a : '''-~ '

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-:f

 

Na medida em q u e se t rat a de i ntervi r n a h istória

ob

ede c en do

s u as l ei s (o que pressupõe que

a s ( I coisas-a -

4 0

-+

própria às ciências da natureza,

aos procedimentos de gestão-controle administrativo - não deixou de reinar nas diferentes variantes do marxis-

mo. ' Em outros termos, e para dizer a coisa brutalmente,

os instrumentos

cações"

indício que a ciência-prática em questão não foi jamais

às técnicas materiais e

não seguiram a teoria nas suas 11 apli-

o que pode também se entender como o

(ainda?) aplicada verdadeiramente

'

Mas falar ass i m, é ainda supor um "verdade i ro"

marxismo

vel" 22

d e

reserva

u m m arx i smo

" i nincont r á-

, É , no fundo, repetir a denegação do próp ri o

4 1

,:".1

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