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HISTÓRIA DO ÓRGÃO E DO PRELÚDIO MUSICAL NA CONGREGAÇÃO CRISTÃ

NO BRASIL – A MEIA HORA


Samuel Lungareze, 01/07/16.

Falar de um instrumento musical é sempre um prazer porque a música penetra no nosso ser e é capaz de
transmitir o sentimento humano. E quando falamos de um instrumento como o órgão o prazer é indescritível
porquanto esse instrumento já se encontra no inconsciente humano relacionado sobremaneira a expressão
da fé. Durante séculos foi o órgão o principal instrumento da igreja (católica) presente em quase todas as
localidades e sendo utilizado em conjunto com a celebração como uma forma “didática musical” de
evangelização de muitos povos. Em algumas catedrais alguns órgãos são verdadeiras obras de arte com
mobiliários incrivelmente ricos e adornados, ocupando fachadas inteiras de algumas igrejas. O som é algo
indescritível, podendo ser tão suave como vozes de crianças, com notas agudas e graves, assim como
também pode ser um som tão imponente e tão penetrante em nossas almas que nos fazem estremecer. Em
um mesmo instrumento uma variedade tão grande de timbres que quando muito bem combinados e
registrados trazem como resultado uma música que pode transformar vidas. Em igrejas protestantes embora
existam as diferenças doutrinárias, e as concepções artísticas sejam diferentes, ele também está presente,
ainda que não tão imponente no tamanho ou na ornamentação, fazendo parte das celebrações e conduzindo
o canto e a fé de milhões de fiéis em toda a face da terra.
De 1910 a 1932 não havia orquestra na Congregação Cristã no Brasil (CCB), apenas algumas igrejas
possuíam órgãos ou Harmônios, e não existiam músicos na Congregação, mas existiam alguns membros
(irmão ou irmã) que estavam no culto com a função de “puxar os hinos” dando assim a entrada e a altura, o
tom, e de certa forma conduzindo o canto da irmandade. O número de fiéis da CCB não era tão expressivo.
Alguns dos Anciães quando viajavam para realizar Batismos ou Santas Ceias em outras localidades
procuravam levar os “puxadores de hino” para reforçar e melhorar ou facilitar o Canto.
Um dos Encarregados Regionais mais antigos do Brasil, José San Felipe (Encarregado Regional no Brás),
relata que em 1929 foi realizado no Bairro do Brás (na congregação antiga) uma coleta para compra do 1º
órgão daquela Congregação. Nessa época existiam poucas Congregações na capital e algumas poucas no
interior de São Paulo. Em 1932 foram trazidos dos Estados Unidos 2 órgãos enviados pela irmandade de
Chicago e nesta ocasião o Ir. Louis Francescon incentivou que fosse instituída a parte musical na CCB.
Inicialmente isso ocorreu nas Congregações do Brás, Bom Retiro e Lapa na capital de São Paulo.
Em algumas localidades também eram utilizados o Harmônio que era um instrumento semelhante ao órgão,
geralmente possuindo apenas um teclado e que precisava ser pedalado pelo instrumentista para fornecer o
ar necessário para vibração das palhetas. Na congregação do Brás também existiu um piano que era
executado sempre em conjunto com os músicos. O ministério no final dos anos 50 achou por bem remover
o piano e deixar apenas o órgão como instrumento harmônico e sendo executado somente pelas irmãs.
Existiu na Congregação do Bairro do Ipiranga (São Paulo, SP), na Rua Bom Pastor, um órgão de tubos
embutido na parede de fabricação de um organeiro do Rio Grande do Sul. Também existiu outro órgão de
tubos na Congregação do Bairro da Vila Prudente (São Paulo, SP). Esse último curiosamente foi tocado por
um membro de ascendência japonesa chamado Masayuki Nakagawa, durante os anos de 1954 a 1956,
porque era o único irmão que tinha condições de executá-lo na época.
Masayuki Nakagawa estudou música na Congregação da Vila Prudente entre os anos de 1941 a 1945, sob
a orientação do Irmão Encarregado de Orquestra João Geraldo. Em 1945 foi aprovado em teste para tocar
flauta na CCB pelo Ir. João Finotti. Em 1954 foi convidado pelo Irmão João Claro para tocar provisoriamente
o órgão até que a esposa de João Claro e a irmã Ester Romeiro concluíssem seus estudos, e fossem
aprovadas pela comissão de Examinadoras. Masayuki Nakagawa foi aprovado para tocar o órgão pelas
Examinadoras coordenadas pela Irmã Ana Spina Finotti.
O órgão de tubos do Ipiranga foi utilizado até o final da década de 60, início da década de 70, sendo depois
vendido para outra denominação religiosa, e os órgãos de tubos foram substituídos por órgãos eletrônicos,
os quais eram mais práticos, menores, mais baratos e de mais fácil manutenção. Uma das organistas da
década de 60 foi a Irmã Divanir Depret que aos 11 anos de idade (em 1958) começou a tocar no órgão de

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tubos. Segundo ela a igreja possuía uma galeria onde ficava o órgão e os músicos. Depois a igreja foi
fechada para uma reforma e o órgão foi reposicionado na parte debaixo do templo. Foi nessa época que
iniciou a prática na congregação do prelúdio musical, que na linguagem da congregação se chama “meia
hora”.
Na década de 50 o ir. Miguel Spina visitou nos Estados Unidos a congregação e lá viu pela primeira vez
alguém que fazia um prelúdio (meia hora antes do culto), hábito presente em diversas outras denominações
evangélicas. O irmão Miguel Spina percebeu que era muito bom, que isso trazia muita comunhão para a
irmandade, ajudava a manter a igreja em mais silêncio e ajudava na comunhão para que se fizesse as
orações. Trouxe para o Brasil a ideia e aprovado pelo ministério iniciou-se a fazer a meia hora antes dos
cultos no ano de 1958.
Em 1957 a Irmã Divanir Depret relata que “nessa época tinha 10 anos de idade e estava se preparando para
iniciar a tocar nos cultos do bairro do Ipiranga e participava todas as segundas-feiras, as 19:30 horas no
Brás, para com todas as organistas da época, aprenderem como tocar a meia hora, que seria iniciada nos
cultos em breve” e que a reunião “técnica” era feita pela irmã Anna Spina.
Em 30 de maio de 1959 ocorreu 1ª reunião geral de ensinamentos aos encarregados de orquestra e a ata
dessa reunião nos revela sobre a meia hora em um tópico sobre horário que normatizava como seriam os
horários e a ordem dos serviços:
“Onde houver órgão este começará a tocar uns vinte minutos mais ou menos antes do início
do culto; ao faltar cinco minutos parará para ser então executado o hino do silêncio que tem
que ser iniciado no máximo até cinco minutos antes do começo do culto; esse hino deve ser
executado completo, e o do final, após o termino do serviço deve ser só uma estrofe...”
A ata da reunião de 1959 também revela que já existia na época uma equipe de 9 irmãos que trabalhavam
na compilação do novo hinário (nº4, lançado em 1965).
Em 22 de setembro de 1962 foi realizada no Brás outra importante reunião, agora destinada para as irmãs
organistas – entre os assuntos que constam na ata dessa reunião encontramos orientações de como realizar
a meia hora, a finalidade da meia hora, medidas para solucionar os problemas com as introduções e meia
hora, recomendações sobre vestuário, testes (exames) e namoros com pessoas estranhas a fé.

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Divanir Depret conta que “quando em 1958 começou a fazer a meia hora nos cultos do Ipiranga a irmandade
gostava muito e isso gerou uma mudança de hábito na irmandade, que antes dessa época, quando ainda
não havia a meia hora, o povo conversava muito e também existia o hábito de quando algum irmão adentrava
ao salão da igreja se fazia uma saudação a toda a irmandade (“A paz de Deus com todos”), de forma que
não havia comunhão entre a irmandade. Quando iniciou a ser feito a meia hora mudou completamente o
comportamento, podia-se fazer a oração individual, havia comunhão. Ao fazer a meia hora, ela procurava
explorar todos os recursos de timbres, das flautas, do órgão”. A mãe da irmã Divanir morou na congregação
do Ipiranga de tal forma que a filha podia explorar e tinha como estudar todos os recursos daquele órgão de
tubos o que proporcionava uma execução muito segura dos hinos.
Nesse período o hinário em uso era o de nº 3, o qual possuía 330 hinos, dos quais 30 eram destinados as
reuniões de jovens e menores. Muitos dos hinos do hinário nº 3 tem seus arranjos, assim como no hinário
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nº 2, concebidos e preparados para a execução “ao piano”, com arranjos para uma ou duas vozes e um
acompanhamento na clave de fá de forma muito ritmada e movimentada, alguns como valsas e outros como
marchas, muito provavelmente preservando os arranjos originais de hinários norte-americanos e adaptando-
se apenas algumas notas da melodia para o texto em português. Nessa época no início dos anos 50 não
existia mais o piano na Congregação do Brás (SP) e como já foi descrito anteriormente a CCB não utilizou
piano em todas as Congregações, tendo utilizado somente no Brás (Congregação antiga da Rua
Uruguaiana), Ana Spina inclusive tocava piano, mas sempre acompanhada do órgão. Segundo os relatos
esses hinos sempre traziam um pouco de desconforto porque eram muito ritmados e as marcações eram
feitas de forma muito acentuada pelos músicos que se aventuravam na clave de fá. Assim, podemos
entender que diversos hinos do hinário nº 3 não eram apropriados para execução no órgão durante uma
meia hora e a execução talvez não era tão fácil.
Outra inovação do Hinário nº 3 foi a demarcação dos trechos de introdução, através de um símbolo *
(asterisco). Assim a orquestra ou organista executava um trecho compreendido do início do hino até o sinal.
No hinário nº 2 essa demarcação não existia e ficava a cargo do interprete ou mesmo não havia essa
introdução. A introdução servia para fixar a tonalidade, trazer melodia do hino à tona e facilitar o canto pela
congregação.
Aliado a esses fatos, nesse período o hinário nº 4 já estar sendo preparado, podemos indagar se entre outros
fatores, se a meia hora também não serviu de motivação para a comissão dos 9 irmãos, entre eles a irmã
Ana Spina, a modificar a escrita do hinário, alterar a mão esquerda, clave de fá, para uma escrita harmônica
mais homofônica, mais sóbria, mais suave, com menos ou quase nenhum ornamento, para que facilitasse
a execução pelas irmãs organistas e para que a execução nos desse um “caráter mais sacro” nos hinos.
Enquanto o hinário nº 4 não ficava pronto algumas medidas de controle e regras de execução da meia hora
precisavam ser muito bem estabelecidas. A ata da reunião de 1962 cita e regulamenta através de medidas
para solucionar a situação:

Uma pergunta que não nos deixa calar: se a irmã Ana era conhecedora de música, não conhecia a forma
da escrita de uma partitura de órgão? Então por que ela escreveu o hinário mantendo características de um
hinário para orquestra, ou de 4 vozes, sem o acréscimo da pauta da pedaleira?
Uma das respostas que encontramos analisando as fontes históricas é que em diversos lugares do interior
de São Paulo, e por quê não no interior do Brasil ainda se usavam o harmônio, um instrumento muito
semelhante ao órgão, no entanto, não possuíam a pedaleira, e era um instrumento que tinham dois pedais
que precisavam ser acionados e “pedalados” para que o ar fosse introduzido no instrumento e produzisse o
som, com a vibração de palhetas, de forma semelhante as harmônicas. Portanto para esse instrumento de
nada serviria um pentagrama “de pedaleira”, se assim fosse feito, porque ele não poderia usar.
Outra resposta que podemos encontrar é que o órgão eletrônico com pedaleira era um instrumento muito
recente na orquestra da congregação e que a grande maioria das organistas eram irmãs que haviam
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inicialmente estudado piano, e que não possuíam o domínio da técnica de tocar órgão, sem falar que
precisariam ser criados a partitura para 450 hinos.
Por último, o hinário nº 4 iria trazer para a CCB um novo paradigma musical, porque traria no seu conteúdo
cento e quarenta hinos novos, sem falar nas inúmeras alterações que foram realizadas nas harmonias e na
letra de quase todos os hinos. Podemos imaginar que o lançamento do novo hinário iria provocar uma grande
transformação musical e que a igreja talvez não tivesse recursos financeiros suficiente para editar uma
variedade de hinários diferentes (incluindo uma versão só para organistas) e assim o mais importante era
termos uma versão que poderia ser utilizado por qualquer irmão músico e, de forma adaptada, utilizado por
todas as irmãs (versão do hinário em Dó).
O hinário nº 4 trouxe em 1965 uma nova realidade, um novo período musical, e podemos testemunhar um
fato totalmente novo no âmbito da Congregação Cristã no Brasil, quando presenciou-se no Brás numerosos
ensaios com a finalidade de “ensinar a irmandade a cantar os novos hinos” e a mais revolucionária das
atitudes do Ministério, a autorização e o desígnio à uma organista, uma irmã Examinadora, para que uma
mulher conduzisse esses ensaios, a irmã Ana Spina.
Em 1992 uma importante inovação foi o lançamento da versão do hinário nº 4 exclusiva para organistas.
Antes dessa versão as organistas precisavam adaptar a leitura do hinário dos músicos para a execução às
teclas. O novo hinário para organistas (capa cinza) tinha como novidades uma sugestão de dedilhado para
ser utilizado na execução a três vozes (soprano, tenor e baixo), orientações relativas ao uso da pedaleira,
registração e contagem dos tempos, visando facilitar e uniformizar a execução dos hinos, adaptações foram
feitas para melhor acomodação das mãos, orientações para as organistas sobre a execução e marcações
contidas no hinário.
Visando um maior aperfeiçoamento da música chegamos ao hinário nº 5 e para um melhor planejamento, a
partir de junho de 2009 iniciou-se um censo junto a irmandade para contabilizar a quantidade de hinários
que seriam necessários imprimir para que, na 1ª impressão, todo o território nacional, toda a irmandade
pudesse ser atendida com pelo menos um exemplar para cada membro. Na 1ª impressão do Hinário nº 5
da CCB foram impressos 6 milhões de hinários a uma velocidade de 100.000 hinários por dia, que ficaram
armazenados em um depósito de 1332 m2 em São Paulo. Foram impressos 140.000 hinários de órgão na
primeira impressão do hinário nº 5. Nesta totalmente modificada em relação ao hinário nº 4 agora consta
com a pauta para a pedaleira e uma escrita totalmente destinada a execução das teclas. Muitas notas
repetidas foram substituídas por notas de valor maior proporcionando a sensação de legato durante a
execução. Podemos dizer que hoje realmente temos um hinário escrito da forma correta para as organistas
e que verdadeiramente elas hoje tocam o que está escrito, o que no passado precisavam adaptar.
Acompanhando a evolução do órgão mais de uma dezena de novos livros e métodos de estudo foram
escritos, adaptações de métodos clássicos do estudo tradicional anterior com adaptação do pentagrama da
pedaleira, assim como também uma série de compilações de estudos visando o preparo e o
aperfeiçoamento da organista que deseja tocar os hinos na congregação.
As introduções dos hinos até podem ser substituídas na ausência da organista pela introdução realizada
pela orquestra embora o efeito não seja o mesmo, porém é uma norma que a função e o serviço da meia
hora é exclusivo para as organistas. Se o intuito da música na Congregação é auxiliar a irmandade no elevar
do canto para o louvor a Deus podemos dizer que de forma particular o órgão exerce outras funções além
dessa, visto que milhares de corações se achegam a presença de Deus em suas orações particulares,
lágrimas são derramadas, súplicas são elevadas ao altíssimo, pedidos de perdão e misericórdia, todos
conduzidos por uma sublime e solene música executada pelo órgão durante a meia hora. O povo que chega
a congregação é conduzido aos seus lugares e convidados pelo som a se posicionarem e a elevar os
pensamentos ao Criador, esquecendo das desilusões e tristezas dessa vida, se preparando para o início do
culto, entrando em comunhão com Deus, para em seguida, após o toque de um hino (hino do silêncio)
poderem definitivamente, todos a uma só voz, abrir os corações em louvores e cânticos de hinos ao grande
Mestre. Na CCB a música não é apenas um acessório, permeia todo o serviço de culto, tem um papel
especial, busca aproximar os fiéis de Deus, permitir que suas almas se coloquem perante Deus e com Ele
alcancem íntimo contato. O canto congregacional permite uma igualdade entre os fiéis que repercute no ato
de cultuar e resulta não apenas em um louvor coletivo, mas afeta todos os atos da celebração, permitindo
uma experiência sublime, e o órgão...prepara o espirito da igreja com a meia hora, conduz a orquestra com
as introduções, e proporciona uma música...divina.
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