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XI Semana de Extensão, Pesquisa e Pós-Graduação - SEPesq

Centro Universitário Ritter dos Reis

Identificação e Análise dos Processos de Estamparia Ancestrais

Tatiana Laschuk1

1. Introdução

A indústria de estamparia têxtil atual se utiliza de um arsenal de processos de


estamparia, que engloba desde processos antigos, como a serigrafia, até processos
contemporâneos, como os processos de estamparia digital.
Entretanto, para se chegar a esses processos utilizados na indústria têxtil, muito se
evoluiu no que se relaciona a tecnologias, substratos têxteis e químicos, bem como às
técnicas. Tais tecnologias são o resultado do aperfeiçoamento de técnicas e métodos de
estamparia que evoluíram ao longo dos anos, sendo que os processos de estamparia
ancestrais exercem forte influência sobre os processos utilizados atualmente.
Além da influência dos processos de estamparia ancestrais sobre os industriais, os
mesmos influenciam fortemente as técnicas manuais de estamparia utilizadas no cenário
têxtil atual, que, apesar de serem minoria em comparação aos processos industriais, têm
ganhado espaço sobre as superfícies têxteis. A utilização de técnicas manuais estimula o
estudo e a reinvenção dessas técnicas manuais de trabalho, bem como o resgate de
técnicas manuais já fundamentadas. Segundo Treptow (2009), os trabalhos manuais agem
como potencial estratégia de diferenciação de produtos no mercado, em oposição aos
produtos produzidos em série.
É sobre a influência dos processos ancestrais de estamparia na estamparia manual
contemporânea que o presente projeto de pesquisa versa, estabelecendo-se a seguinte
pergunta: como o estudo sobre as técnicas empregadas nos processos de estamparia
ancestrais podem contribuir para o desenvolvimento de técnicas manuais de estamparia
atualmente?
Para responder a essa pergunta, o presente projeto de pesquisa docente, em
andamento, no Centro Universitário Ritter dos Reis, intitulado “A Influência dos Processos
de Estamparia Manuais Ancestrais sobre a Estamparia Contemporânea”, foi estruturado em
quatro etapas:
1. Identificação dos processos de estamparia ancestrais;
2. Oficinas experimentais de estamparia com práticas manuais sobre os processos;
3. Desenvolvimento de um conjunto de técnicas;

1 Doutoranda, UniRitter, tatiana_laschuk@uniritter.edu.br

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SEPesq – 19 a 23 de outubro de 2015
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4. Oficinais de aprendizado com o corpo da graduação e entidades ligadas ao centro


Universitário Ritter dos Reis.

A primeira fase da pesquisa, que será apresentada no presente artigo, cujo objetivo é
mostrar os principais achados sobre as técnicas de estamparia ancestrais utilizados até a
Revolução Industrial, momento da história em que se deu início à utilização de processos
de estamparia em larga escala.

2. Metodologia

A pesquisa apresentada no presente artigo se caracteriza como exploratória, através


de levantamento bibliográfico.

3. Resultados e Discussão

A estamparia têxtil é um processo ao qual se aplicam elementos gráficos com uma


ou mais cores sobre a superfície de um tecido (Gomes, 2007; Laschuk, 2009). Segundo
Neves (2000), a estamparia têxtil é um conjunto de técnicas e processos de impressão para
a transferência de imagens e/ou desenhos para a superfície de tecidos. Com uma
abordagem mais ampla, Laschuk e Rüthschilling (2015) conceituam a estamparia como:
um conjunto de processos de impressão, utilizados de forma individual ou associada,
responsável pela reprodução de desenhos, imagens, formas e texturas sobre a
superfície do substrato têxtil através de corantes, pigmentos, tintas e produtos
químicos corrosivos (à cor e a fibras) e isolantes.

Laschuk e Rüthschilling (2015) classificam os processos de estamparia em quatro


categorias:
- Estamparia por adição à cor: feita através da coloração dos tecidos de forma pré-
determinada, por meio da adição de corantes e/ou de pigmentos (PRICE;
COHEN; JOHNSON, 2005);
- Estamparia por isolamento: prevê, antes da adição de corantes através do
tingimento, o bloqueio de áreas específicas do tecido, a fim de formar a estampa
em locais estrategicamente isolados;
- Estamparia por corrosão à fibra: são utilizados produtos químicos que corroem
um tipo de fibra, devendo ser feitos em tecidos com mistura entre fibras;
- Estamparia por corrosão à cor: prevê a retirada de corantes do tecido através de
produtos químicos branqueadores.

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Além da reflexão sobre a categorização dos processos de estamparia, é importante


considerar os aspectos técnicos dos processos de estamparia. Laschuk e Rüthschilling
(2014) acreditam que os designers necessitam de conhecimento técnico para o
desenvolvimento de projetos em estamparia e destacam os seguinte requisitos a serem
considerados pelo designer de superfície: sistema de produção, limite de cor, matéria-prima,
tipo de impressão, motivo e layout.
A partir dos requisitos técnicos elencados por Laschuk e Rüthschilling, foram
escolhidos os requisitos nos quais o presente artigo pretende focar: o substrato químico
utilizado, como corantes, tintas, produtos isolantes ou descolorantes, bem como o método,
os recursos físicos, como ferramentas e matrizes utilizados, a fim de se atingir o resultado
final de forma eficaz. A matéria-prima não foi abordada, visto que para esses métodos todas
as matérias-primas podem ser utilizadas, desde que sejam compatíveis com o corante
selecionado. A quantidade de cores também não foi abordada, visto que a quantidade
depende da habilidade do artesão em conseguir aplicar mais de uma cor à estampa.
A seguir são apresentadas as principais técnicas de estamparia ancestrais
encontradas e a forma como as mesmas são aplicadas sobre os substratos têxteis, citando
as técnicas acima, dentro das respctivas classificações:

Técnicas de estamparia por isolamento


Leheria – Nesta técnica o tecido é torcido e amarrado por barbantes ao redor de uma
corda, para posterior imersão em banho de tingimento, tendo como resultado uma
padronagem em zig-zag (SIMON-ALEXANDER, 2013).
Itajime –Técnica em que o tecido é dobrado em plissados verticais, quadrados,
retângulos e triângulos, e prensado entre duas placas de madeira com desenhos, com
fixadores. Os desenhos das placas de madeira e a forma como o tecido for dobrado,
determinarão a padronagem formada pela técnica (GUNNER, 2007).
Shibori - Um termo universal para prévia manipulação de tecidos antes do tingimento,
que se tronou sinônimo de inúmeras técnicas de isolamento. Gunner (2010) define o Shibori
como uma sofisticada técnica de isolamento com amarração e costura (GUNNER, 2007).
Arashi Shibori – Nesta técnica o tecido é envolto em cilindro de forma comprimida,
para passar por posterior tingimento (GUNNER, 2010).
Plangi – A técnica do plangi tem origem na Malásia e se utiliza de pregos e barbante
para isolar áreas localizadas do tecido que, posteriormente, recebem corante ou tinta,
formando efeitos localizados em formato redondo, proveniente das amarrações com os
pregos (LARSEN, 1976).
Tritik – Nesta técnica o tecido é costurado de forma linear (running stitch). Depois de
costurado, o tecido deve ser comprimido e posteriormente imerso em banho de tingimento
(BELFER, 1992).
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Batik – Se utiliza de cera aplicada de forma manual através de uma caneta especial,
chamada de kalan, a fim de isolar áreas específicas do tecido, impedindo assim a absorção
de corantes no tingimento (BELFER, 1992).
Tsutsugaki – Utiliza pasta de arroz para isolar o tecido em áreas estratégicas com
desenhos no tingimento. A pasta de arroz é aplicada através de bisnaga (YANG, 2000).
Katozome - A pasta de arroz é aplicada, a fim de isolar o tecido de áreas
estratégicas para formar a padronagem no tingimento. A diferença dessa técnica para o
tsutsugaki é que o katozome é aplicado através de um estêncil (YANG, 2000).

Técnicas de estamparia por adição à cor


Kalamkari –Técnica que utiliza a união entre o bloco de madeira e a caneta kalam.
Os blocos de madeira são esculpidos com desenhos para a impressão de tecidos (CRILL,
2008).
Estêncil - É uma técnica que se caracteria pela passagem de tinta através de
desenhos vazados, comumente em papel grosso (PHIPPS, 2011). A aplicação de tinta faz
com que a tinta só penetre nas áres “descobertas” pelo estêncil, fazendo aparecer a
padronagem.
Cilindros de argila – Utiliza uma matriz cilíndrica entintada para a aplicação de
estampas, possibilitando a regularidade do módulo de repetição, se caracterizando pela
estampa de forma contínua (JOYCE, 1993).
Blocos de madeira - São fabricados originalmente em madeira, mas podem também
ser fabricados em metal ou linóleo, nos quais os motivos das estampas são esculpidos.
Cada bloco representa uma cor em que é aplicada a sobre a face do bloco esculpida, a qual
é então pressionada manualmente sobre o tecido (GOMES, 2007).

4) Conclusões

Os resultados da pesquisa, que está em desenvolvimento e é de caráter exploratório,


foram obtidos através da pesquisa bibliográfica, mostrando-se de extrema importância para
a próxima fase do projeto que consiste na realização de oficinas vinculadas aos processos
de estamparia ancestrais. Isso porque é importante que os alunos compreendam as origens
dos processos sobre os quais estão aprendendo e como eles podem tomar como referência
os processos antigos para adaptar à realidade do trabalho manual. O próximo passo do
projeto, que possui caráter experimental, será baseado nos achados da pesquisa aqui
apresentada.
A definição dos aspectos técnicos relacionados à estamparia foram de extrema
relevância para a pesquisa, a fim de definir os materiais que serão utilizados, bem como por

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ajudarem no estudo dos materiais que serão substituídos, a fim de trazer uma abordagem
sustentável ao projeto.

5) Palavras-chave

Estamparia Ancestral; Estamparia Manual; Processos de Estamparia; Processos


Manuais;

Referências bibliográficas

BELFER, Nancy. Batik and Tie Dye Techniques. Dover Publications, 1992.
CRILL, Rosemary. Chintz: indian textiles for the west. London: V&A Publishing,
2008.
GOMES, João Manuel. Estamparia a metro e à peça. Porto: Publindústria, 2007.
GUNNER, Janice. Shibori for textile artists. Kodansha America, 2007.
Joyce, Carol; Textile design, The complete Guide to Printed Textiles for Apparel
and Home Furnishing. Watson-Guptill Publ., 1993.
LARSEN, Jack Lenor. The dyer's art: ikat, batik, plangi. New York: Van Nostrand
Reinhold, 1976.
LASCHUK, Tatiana. Design Têxtil: da estrutura à superfície. Porto Alegre: Ed.
UniRitter, 2009.
______. A análise dos processos de estamparia têxtil sob o ponto de vista
técnico e projetual como apoio ao design de superfície. Educação Gráfica, Bauru, v. 18,
n. 2, p. 1-17, dezembro 2014.
______. A adequação dos processos de estamparia nas etapas produticas de
produtos de moda e vestuário. In: COLÓQUIO DE MODA, 11º, 2015, Curitiba.
PHIPPS, Elena. Looking at Textiles: a Guide to Technical Terms. Los Angeles: J.
Paul Getty Museum, 2012. 112 p.
PRICE, Arthur; COHEN, Allen C.; JOHNSON, Ingrid. JJ Pizzuto's fabric science
swatch kit. Fairchild Publications, 2005.
SIMON-ALEXANDER, Shabd. Tie-Dye: Dye It, Wear It, Share It. New York: Potter
Craft, 2013.
TREPTOW, Doris. Inventando moda: planejamento de coleção. Florianópolis: D.
Treptow, 2009.
YANG, Sunny, Narasim, Rochelle M; Textile Art of Japan. Japan Publications
Trading Company, 2000.

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