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UMA CONCEPÇÃO SOCIOLÓGICA DO DIREITO

H. Lévy-Bruhl

apud: INTRODUÇÃO À CIÊNCIA DO DIREITO

André Franco Montoro

Minha concepção de Direito é decididamente sociológica. O direito não existe a não

ser para os homens vivendo em sociedade, e não se pode conceber uma sociedade

humana em que não haja ordem jurídica, mesmo em se tratando de um estado

rudimentar. Isto se exprime em latim pelo adágio conhecido “Ubi societas, ib jus”

(onde há sociedade, há direito).

Insistamos um momento sobre essa idéia: é exato dizer que as sociedades arcaicas

e rudimentares, que conhecemos pelo etnografia ou pela tradição, tê, na verdade,

instituições jurídicas? Alguns o contestam. Todos sabemque, nesse estágio de

civilização as instituições são, em grande parte, indiferenciadas e mergulham numa

atmosfera mística. Mas o fato de se apresentarem sob um aspecto sobrenatural não

retira das regras sociais o seu caráter jurídico, seja qual for a importância do

processo de secularização de que elas serão objeto. O seu traço essencial é a

obrigação que a sociedade impõe a seus membros. E é nesse elemento obrigatório

que consiste, em última análise, a natureza própria do direito. Toda sociedade, ainda

mesmo que primitiva, comporta, pois, uma ordem jurídica.

Isso é tão verdadeiro que se pode, na minha opinião, inferir da existência de

instituições jurídicas a existência de uma sociedade humana. E, invertendo os

termos da equação que acabo de citar, afirmar com igual certeza “ubi jus, ibi

societas” (onde há direito, há sociedade). As sociedades não são puras construções

do espírito. Elas possuem bases naturais solidamente estabelecidas, das quais as


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mais características são as instituições jurídicas. Onde instituições deste gênceto

existem pode-se tranquilamente afirmar que há um vínculo entre os homens. É

assim que as organizações internacionais, que vemos surgir de todas as partes ao

redor de nós e das quais uma das mais significativas foi, depois da 2ª Guerra

Mundial, o Tribunal de Nuremberg, que julgou e condenou os principais criminosos

de guerra, são igualmente manifestações irrecusáveis da existência de uma

sociedade humana, à qual talvez falte, apenas, tomar consciência de si mesma.

É certo que estas primeiras aproximações não nos esclarecem muito sobre a

natureza do direito. Limitam-se a nos indicar o quadro em que se desenvolvem

instituições jurídicas. Para precisar o que elas são eu me contentarei com breves

indicações. Proponho a seguinte definição: “O Direito é um conjunto de regras

obrigatórias que determinam as relações sociais, tal como a consciência coletiva do

grupo as representa a cada momento”.

Esta definição exigiria longas explicações, porque se refere a noções como

“consciência do grupo” ou “representações coletivas”, que eu considero

pessoalmente como definitivamente estabelecidas pela sociologia contemporânea,

mas que ainda são discutidas. Peço aos leitores que as aceitem, ao menos como

hipóteses de trabalho, que serão confirmadas pela sequência de minhas

considerações. Chamo a atenção para as últimas palavras da definição que propus,

onde declaro que o direito é tal como a consciência coletiva do grupo representa as

relações sociais “a cada momento”. Esta precisão é da mais alta importância e

requer algumas explicações.

O meio social não pode ser como fixo e imóvel. Pelo contrário, ele está em

transformação perpétua. Submetido a influências de toda espécie, ele é

essencialmente mutável. Por definição, um grupo é diferente hoje do que foi ontem
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e do que será amanhã. Antes de mais nada, seus elementos constituintes – quero

dizer, os homes e as mulheres que o compõem – não serão mais os mesmos: alguns

terão desparecido, outros terão aparecido. Mas, até mesmo supondo que sejam as

mesmas pessoas físicas, seus sentimentos e pensamentos terão sofrido

necessariamente algumas mudanças. O direito, que é a expressão destes

pensamentos e sentimentos está, portanto, ele também, submetido a uma

transformação perpétua.

Se nos compenetrarmos desta verdade incontestável, estaremos imediatamente em

presença de um dos problemas mais importantes do direito. Este, acabamos de ver,

está perpetuamente em mudança. Mas, por outro lado, essa mobilidade é, em larga

medida, incompatível com as exigências da via social. O homem tem necessidade de

saber como se comportar uns em relação aos outros, mas como saberão, se as

regras imperativas a que devem ser submetidas variam de um momento para o

outro? Sem dúvida eles têm a intuição de que essas regras não lhe são estranhas,

mas emanam deles próprios – e é essa, aliás, a razão profunda do adágio segundo o

qual “presume-se que ninguém ignora a lei”. Mas esse sentimento geral e vago não

basta para guiar os homens no seu comportamento cotidiano. As regras de direito

devem ter um mínimo de precisão e rigidez indispensáveis à segurança das relações

sociais. Elas o adquirem pelo fato de se expressarem em palavras e, nas sociedades

modernas, através de fórmula escrita. Mas daí surge um inevitável conflito entre o

caráter estático da norma e o dinamismo da vida. E esse conflito dá ao direito, que

parece ao profano tão frio e austero, um aspecto dramático e, algumas vezes, até

mesmo patético. É apaixonante acompanhar o esforço dos homens para alcançar a

justiça através de fórmulas que, por definição, não poderão realizar plenamente.

Ao mesmo tempo em que sociológica, a concepção do direito a que me filio é

realista. E esta palavra tem para mim dois sentidos precisos. A atitude realista
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consiste em considerar as regras jurídicas como fatos, ou mesmo como coisas. Esta

atitude se impõe a quem se preocupa em estudar o direito cientificamente, pois a

ciência do direito não é uma ciência normativa (expressão que contém em si uma

contradição), mas uma ciência das normas, o que é completamente diferente. Ela se

impõe também a todo jurista que, elevando-se acima da pura técnica, dirigesuas

reflexões para o direito. Ela permite eliminar, como destituídas de significação,

falsos problemas como o de procurar o fim do direito. O direito não tem finalidade,

como a religião ou a arte. Como elas, e talvez mais intensamente, ele exprime a

vontade e as aspirações eminentemente mutáveis do corpo social.

De outra parte, esse realismo não deve ser confundido com um positivismo extremo.

Ele procura, ao contrário, atingir todos os fenômenos jurídicos, mesmo os que não

sejam catalogados como tal. Eu atribuo uma importância apenas relativa aos

critérios formais. Por isso, não hesito em considerar como regras de direito as

prescrições obrigatórias observadas de fato e em eliminar as regras que existem

somente em papel, convencido de que apenas um esforço desse gênero permite

apreender a realidade jurídica.


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DIREITO COMO ORDENAMENTO NORMATIVO COATIVO


Norberto Bobbio

In:Dicionário de Política (fragmento)

Entre os múltiplos significados da palavra Direito, o mais estritamente ligado à

teoria do Estado ou da política é o do Direito como ordenamento normativo. Esse

significado ocorre em expressões como “Direito Positivo italiano” e abrange o

conjunto de normas de conduta e da organização, constituindo uma unidade e tendo

por conteúdo a regulamentação das relações fundamentais para a convivência e

sobrevivência do grupo social, tais como as relações familiares, as relações

econômicas, as relações superiores de poder, também chamadas de relações

políticas e, ainda, a regulamentação dos modos e das formas através das quais o

grupo social reage à violação das normas de primeiro grau ou a institucionalização

da sanção. Essa normas têm como escopo mínimo o impedimento de ações que

possam levar à destruição da sociedade, a solução dos conflitos que a ameaçam e

que tornariam impossível a própria sobrevivência do grupo se não fossem resolvidos,

tendo como objetivo a consecução e a manutenção da ordem e da paz social. Se se

juntar a isso, conforme ensina a tendência principal da teoria do Direito, que o

caráter específico do ordenamento normativo do Direito em relação às outras

formas de ordenamento normativos, tais como a moral social, os costumes, os jogos,

os desportos, consiste no fato de que o Direito recorre, em última instância, à

força física para obter o respeito das normas, para tornar eficaz, como se diz, o

ordenamento em seu conjunto, a conexão entre o Direito entendido como

ordenamento normativo coativo e política torna-se tão estrita, que leva a

considerar o direito como principal instrumento através do qual as forças políticas,

que têm nas mãos o poder dominante em uma determinada sociedade, exercem o

próprio domínio.