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SOCIOLOGIA DAS DIFERENÇAS1

Carla Fabiana Costa Calarge2

No texto “Introdução á Vida não Fascista”, prefácio do livro “Anti-Oedipus:


Capitalism and Schizophrenia” de Gilles Deleuze e Félix Guattari, Michel Focault
propõe de forma brilhante (quase apaixonada): “a perseguição a todas as formas de
fascismo, desde aquelas, colossais, que nos rodeiam e nos esmagam até aquelas
formas pequenas que fazem a amena tirania de nossas vidas cotidianas”.
Nesse sentido o presente texto pretende se colocar, não pautado no rigor
científico, mas em reflexões da autora a respeito do tema Sociologia das Diferenças
a partir da disciplina de Tópicos Especiais em Sociologia. O tema, ainda que em
pauta na academia, está sem dúvida no cotidiano dos dias atuais, daí também sua
importância.
As discussões estão na mídia e nas nossas relações diárias. Por todos os
cantos podemos ouvir as pessoas proclamando a diversidade, a pluralidade, entre
outros termos apropriados pelo “senso comum”. Isso é um alívio por parte daqueles
que há vários anos lutam pelo combate á repressão, militando incessantemente em
busca de direitos, mas por outro lado é preciso saber: de que forma essas temáticas
estão colocadas. Será que apenas a discussão é perspectiva de uma sociedade
igual?
É claro que o tema não é exatamente simples de tratar, porque ele nos coloca
diante de nossas próprias regras. Somos obrigados a questionar nossas próprias
escolhas como forma de questionar as escolhas do indivíduo que não se coloca
como nós.
Alguns pontos podem ser evidenciados nessa altura. Primeiro que vamos
procurar delimitar do que trata a Sociologia das Diferenças, buscando seus
principais referenciais teóricos. Em seguida, que pretendemos discutir de forma essa
temática se coloca em nosso dia-a-dia, buscando abordar as temáticas mais
comuns.

1
Ensaio desenvolvido como pré-requisito para aprovação na disciplina de Tópicos Especiais em Sociologia, sob
a orientação da professora Priscila
2
Acadêmica do 3º ano de Ciências Sociais da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul
Nossa intenção não é de maneira nenhuma esgotar a abrangência das
discussões, mas explorar alguns dos principais questionamentos a serem propostos
aos indivíduos que se interessarem pela temática.
Richard Miskolci no texto “Do Desvio ás Diferenças” (2005) discute a
abordagem da sociologia nos fins do século XIX que buscava discutir as soluções de
seu tempo a partir do que eram consideradas normas gerais da sociedade, a
relevância disso está que os autores. Sob forte influência positivista, os teóricos
acabavam por determinar comportamentos saudáveis e doentios entre as
sociedades. Existia uma norma, e qualquer desvio era um problema a ser
solucionado.
Era a ascensão da ciência como legitimadora dos problemas, acarretando em
uma biologização da sociedade colocando os problemas sob essa ótica. Da mesma
forma como era a afirmação da sociologia como ciência, sendo necessário o rigor e
a técnica como forma de validar os estudos que se propunham a fazer.
Essa perspectiva não se passa só nos meios acadêmicos, mas está presente
em toda a sociedade, como demonstra Miskolci (op. cit.): “Dessa forma, todo desvio
passou a ser considerado doença assim como o desviante passou a ser declarado
um degenerado”.
Nesse período vemos a sociedade se configurar de forma inédita no planeta.
O capitalismo, a urbanização e a sociedade burguesa surgem e junto com ela novas
regras são colocadas. Focault evidencia como um momento de normalização, e a
partir daí surge a opressão do indivíduo que passa a viver regido sobre a regra, que
recebe o nome de “bio-poder”.
“Bio” no sentido de reger a forma como os indivíduos colocam “seus corpos”
em atuação, essa repressão estava materializada. E o “Poder”, no sentido das
práticas e discursos serem ditados de forma opressora. Os discursos a que nos
referimos, estão presentes na mensuração das taxas populacionais (numerando e
quantificando os indivíduos), na construção dos papéis sociais, nas normas de
decência, entre outros.
Mais objetivamente, em “História da Sexualidade I: A Vontade de Saber”,
Focault discorre sobre a migração da ars erotica para a scientia sexualis, em que a
primeira, representada pelos orientais, era uma busca pela exploração do prazer de
forma plena.
A outra, ocidental, trata exatamente dessa relação de poder imposta sobre os
indivíduos na forma de:
 Fazer falar, a confissão das pessoas passa a ser feita ao médico, ao
psicanalista;
 Conseqüências para atos desviantes;
 Configuração clandestina da sexualidade;
 A verdade seria posse daquele que recolhe e “diagnostica” a confissão;
 Os médicos são os possuidores da verdade, logo são eles que podem
dar o rótulo de normal ou patológico do comportamento.
Focault demonstra como o bio-poder se espalha na sociedade, atribuindo-lhe
a qualidade de onipresença. No início do texto o autor explicita que quer combater a
idéia de que a sexualidade é uma repressão que silencia, mas que, pelo contrário,
está atuando todo o tempo, nos discursos e nas práticas dos indivíduos, reafirmando
sua intenção.
Gayle Rubin contribui para discussão buscando na mesma perspectiva
compreender a forma como as relações dos indivíduos estão sujeitas a regras e a
interdições.
Em seu texto “O tráfico de mulheres” mais especificamente, Gayle Rubin revê
os textos de Freud, Levi’Strauss e Engels e busca criticar os autores, clássicos das
Ciências Sociais, demonstrando de que forma estes estão pressupondo teorias
pautadas na heteronormatividade, ignorando outras formas de relacionamento tão
naturais quanto possam parecer às primeiras.
Outra importante corrente a ser abordada nesse texto, e talvez a mais
polêmica de todas é a dos Estudos Queer, que em seu desenvolvimento combatia a
constituição de rótulos. Em outras palavras, quando utilizamos termos como
homossexualidade, heterossexualidade, entre outros, estamos supondo que existem
regras e padrões de conduta para os indivíduos.
Diferente disso, as teorias Queer desejavam discutir as questões da diferença
sob uma ótica que não exigisse conceituações, visto que compreendiam o ser
humano como um indivíduo inconstante e que transita entre as preferências, sociais
ou de sexualidade.
Para encerrar, é importante colocar que os estudos sobre as diferenças não
são de forma alguma defensores dessa ou daquela normatividade, mas que
combatem exatamente o pressuposto da norma. As normas existem para que os
que não se enquadram fiquem de fora.
A sociedade hoje está colocando as discussões nas ruas, a diversidade está
nas ruas. A questão do respeito está colocada para que os indivíduos possam se
sentir participantes e atuantes nesse processo de transformação.
Existe um ditado que diz que não há vento a favor para quem não sabe para
onde vai, e várias vezes podemos ter achado que seria utopia imaginar uma
sociedade de iguais, de liberdade de escolhas. Mas é preciso partir de um ponto, e
se for possível de diversos pontos. A meta está colocada, as discussões estão nas
ruas, mais agregados se juntam. Bem ou mal, chega a hora em que se alcança.