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Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA

Centro de Ciências Humanas - CCH


Curso de História 7° Período
Disciplina: Ceará II
Acadêmicos: Maely Mesquita e Valério Samaronni

ENSAIO SOBRE OS TEXTOS:

O Ceará dos Coronéis

&

Da Revolução de 30 ao Estado Novo.

SOBRAL

2018
PARENTE, Francisco Josênio C. O Ceará dos “coronéis”(1945 a 1986). Souza de S (ed)
Uma nova história do Ceará. Edições Demócrito Rocha, Fortaleza, 2002.

Maely Mesquita

O texto de Francisco Josenio Camelo Parente descreve o cenário político do Ceará


de 1945 a 1986 a partir de discussões sobre a as relações políticas e os desafios da
redemocratização do estado sob uma perspectiva do macro ao micro dessas relações e das
figuras dos “coronéis” como elemento do se fazer política no Ceará. Parente é graduado
em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Ceará (1971), mestre em Sociologia
pela Universidade Federal do Ceará (1984), doutor em Ciência Política pela Universidade
de São Paulo (1998) e Estágio pós-doutoral no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio
de Janeiro (2006).

Para introduzir e melhor identificar o processor e o período político a ser estudado


no texto, o autor divide as fases desse cenário político nacional e regional em três fases:
a primeira, a partir de 1964 marcada pela redemocratização do país, a segunda fase traz
consigo a própria ditadura militar e uma forte “modernização conservadora”1. A terceira
fase, então, inicia-se com o governo de Sarney e uma nova mudança no se fazer política
e as eleições diretas. Tais fases nacionais são utilizadas como paramentos para a análise,
comparação e compreensão do que era assim então o Ceará dos “coronéis”. Parente
mostra a criação e a dinâmica dos partidos nacionais sob uma perspectiva institucional, e
o modo como elites se relacionavam com essa política, partindo de sua fragilidade até seu
crescimento e fortalecimento dentro da política, inserindo e fortalecendo esses ditos
“coronéis” do Ceará.

Assim, Parente começa a descrever a narrativa e as nuances do campo político


cearense explicando como cada estado desenvolviam seus partidos, suas singularidades e
características que compunham o cenário político local. As elites passam por seus altos e
baixos acentuando sua fragilidade entre 1945 e 1964, o período de redemocratização do

1
Destaque do autor
país e estabelecimento dos partidos locais. O fato de seus governadores não conseguirem
reeleger seus sucessores só mostrava como a fragilidade das oligarquias estava
aumentando.

Segundo o autor os partidos no Ceará possuíam características próprias que


tentavam responder a questões da sociedade e da política cearense, nesse período surgem
os partidos: PSD (Partido Social Democrata) UDN (União Democrática Nacional) PTB
(Partido Trabalhista Brasileiro) PSP (Partido Social Progressista).

A elite começa a se reerguer a partir de Távora que escapou da deposição por sua
amizade com Castelo Branco e influência do tio, Juarez Távora, junto aos golpistas. A
longo prazo, a Ditadura acabou beneficiando Távora e as elites pois, contando com a
amizade do presidente (cearense) Castelo Branco, obteve, além de prestígio político,
muitos recursos para seus projetos industrialistas.

Do outro lado vê-se a esquerda buscando se reorganizar após o Golpe de 1964,


tendo grande influência junto ao movimento estudantil através do PORT (Partido
Operário Revolucionário Trotskista), AP (Ação Popular) e PCdoB. O Partido
Comunista do Brasil também liderou o movimento estudantil universitário.

Na sucessão, contudo, Távora não conseguiu indicar um nome do seu agrado. O


cenário político mudou com a instalação do bipartidarismo no país (no Ceará, a ARENA
reuniu a maior parte dos políticos da UDN, do PSD e do PSP, enquanto no MDB
ingressaram políticos do PTB, das esquerdas e uma ala do PSD, chefiada por José
Martins Rodrigues) e com a determinação de eleições indiretas para governador, a
forma escolhida pelos deputados estaduais, que na prática apenas se referendasse o
nome indicado pelos militares. Paulo Sarasate, amigo de Castelo Branco e ardoroso
defensor da “Revolução” de 1964, conseguiu que fosse eleito, para surpresa geral,
o deputado Plácido Aderaldo Castelo (1966 -1971).

No ano de 1971 com as bênçãos do então Presidente da República, Garrastazu


Médici, e a pressão dos militares, foi indicado para governar o Ceará o coronel e
engenheiro César Cals de Oliveira, o que não agradou muito Vírgílio Távora, que contava
em voltar ao poder. Por sua vez o cenário dentro do ARENA fortalecia-se o grupo do
coronel Adauto Bezerra, figura vinda de uma poderosa família de Juazeiro, ligada ao
cultivo de algodão e ao ramo bancário.
Nos anos de 1970 e início da década de 1980, dominaram politicamente o estado
os três “coronéis do Ceará”, todos militares de carreira, Virgílio Távora, Adauto
Bezerra e César Cals. Os três possuíam um tipo de acordo o que seria o “Acordo dos
Coronéis” que resguardavam suas cúpulas e dividiam as bases entre eles, não deixando
espaços para o MDB local.

Após a administração de César Cals (1971-1975), foi a vez de Adauto Bezerra


assumir o governo entre 1975 e 1978. No ano de 1979, Virgílio Távora, com o apoio de
Geisel, voltou ao governo cearense e consolidou a transição para então modernidade
conservadora, com obras estruturais e de cunho industrialista.

No final da década de 1970 com a “abertura democrática” ocorridas no país,


houve um hibrido de partidos, onde ARENA virou PDS e o MDB, PMDB, o acordo
dos coronéis passa assim a se desestruturar.

Em 1982 os três coronéis disputavam acirradamente a indicação de quem seria o


novo governador do estado e a questão sucessória foi levada ao presidente
Figueiredo, que firmou o “Pacto de Brasília”, no qual os coronéis dividiriam o estado
entre si. Gonzaga Mota que era aliado a Virgílio Távora seria então o governador, Adauto
ficaria com o cargo de vice e Virgílio com uma vaga no Senado. Já César Cals ficaria
assim com a prefeitura de Fortaleza.

Esta era a “modernidade” política do estado do Ceará que ainda possuía em suas
práticas o autoritarismo, clientelistas e que como passar do tempo só enfraquecia essa
elite. É nesse momento que se abre espaço para novas forças políticas. Em 1985, Maria
Luiza Fontenelle, do PT, era eleita prefeita de Fortaleza e em 1986 surge o nome do
jovem empresário Tasso Jereissati, que mais tarde passaria a governar o Ceará.

Considerações

Com o texto de Parente vê-se que as práticas dessa política que se criou ao longo
do período da ditadura geraram uma cultura política nociva que permeia até nossos
tempos. O clientelismo ainda presente nas relações e no ato se fazer política, onde partidos
ideologicamente opostos juntam suas alianças e formas suas oligarquias, fazendo tudo
aquilo para assegurar seu quinhão no poder público.
A história de e desenvolvimento dos partidos e a “dança das cadeiras” no cenário
político descrito pelo autor de “ O Ceará dos Coronéis” só evidenciam uma questão
pertinente no meio político: o domínio e o controle das elites na política brasileira.

O autor se detém aos relatos de jornais da época para mostrar como se deu as
relações e os acontecimentos políticos. Mais uma vez pode-se entender o caráter político
da imprensa e como ela afetou e influenciou a compreensão da população a respeito do
próprio cenário político cearense. O texto não fala nem pontua a relação dessas elites com
a população, mas contextualizando e historicizando os relatos abordados pelo autor ao
longo do texto vê-se que as notícias e os discursos dessas elites através da imprensa tem
a mesma função e força que possuem até hoje; o moldar e consolidar um plano político.

O Ceará não está isolado como o único estado a desenvolver tais práticas, o
contexto político nacional e internacional da época era solo fértil para essas relações e
acontecimentos. O texto de Francisco Josenio C. Parente além de levantar questões ainda
muito atuais pinta o quadro político cearense com as nuances que lhe são necessárias.
SOUZA, S. Da. Revolução de 30” ao Estado Novo. Uma nova história do Ceará.
Fortaleza: Demócrito Rocha, p. 287-316, 2002.

Valério Samaronni