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[ ANAIS ELETRÔNICOS ]

[ Organizadores ]

Adriane Vidal Costa


Gabriel Amato
Guilherme B. de Almeida
Luan Vasconcelos
Miriam Hermeto
Rodrigo Patto Sá Motta

Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um


olhar crítico, para não esquecer

Belo Horizonte
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas
2014
Seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
18 a 20 de março de 2014
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas

[ Reitor ]
Jaime Arturo Ramírez

[ Vice-reitora ]
Sandra Regina Goulart Almeida

[ Diretor da FAFICH ]
Fernando de Barros Filgueiras

[ Vice-diretor da FAFICH ]
Carlo Gabriel Kszan Pancera

[ Chefe do Departamento de História ]


Tarcísio Rodrigues Botelho

[ Coordenadora do Colegiado de Graduação em História ]


Adriane Vidal Costa

[ Coordenador do Programa de Pós-Graduação em História ]


José Newton Coelho Meneses
[ Realização ]

Grupo de pesquisas História Política, Culturas Políticas na História –


UFMG

[ Comissão organizadora ]

Adriane Vidal Costa


Gabriel Amato
Guilherme B. de Almeida
Luan Vasconcelos
Miriam Hermeto
Rodrigo Patto Sá Motta

[ Diagramação dos anais ]


Gabriel Amato

[ Apoio ]
Seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não
esquecer (2014 : Belo Horizonte, MG)
S471a Anais eletrônico do Seminário 1964-2014 : um olhar
crítico, para não esquecer [recurso eletrônico] / Organizado
por Rodrigo Patto Sá Motta, Miriam Hermeto Sá Motta,
Gabriel Amato Bruno de Lima . - Belo Horizonte :
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, 2014.

1 pdf e-book (514 p.)


Textos apresentados em Seminário realizado de
18 a 20 de março de 2014, em Belo Horizonte, Minas
Gerais.

ISBN: 978-85-62707-55-1

1. Ditadura e ditadores - Brasil.2. Brasil – História -


1964-2014. I. Motta, Rodrigo Patto Sá . II. Hermeto,
Miriam. III. Lima, Gabriel Amato Bruno de. IV.Título.

CDD: 981.063
CDU: 981.063
[ Sumário ]

Apresentação ........................................................................................................................ 3

Textos .................................................................................................................................... 6

A representação do Nordeste na MPB: uma análise através das canções de Geraldo


Vandré e Gilberto Gil – Adolfo Borges Santos ............................................................ 6

A modernização conservadora no sertão pernambucano durante o regime militar


(1964 – 1985), um estudo de caso: Projeto Sertanejo – Alexandre Black de
Albuquerque ...............................................................................................................15

“É o caos, o caos que está instaurado em volta e dentro de mim”: Dias Gomes e as
reflexões sobre o papel dos artistas e intelectuais após 1985 – Aline Monteiro de
Carvalho Silva ........................................................................................................... 26

A “revolução” não será comemorada: horizonte de expectativa e as políticas de


memória da grande imprensa brasileira frente ao contexto dos 50 anos do golpe –
André Bonsonato Dias .............................................................................................. 36

Entre o consenso e o conflito: Os ministros do Superior Tribunal Militar no processo


de liberalização da ditadura militar brasileira (1974-1979) – Angélica do Carmo
Coitinho ......................................................................................................................48

A morte do estudante secundarista Edson Luís e seu regime de historicidade –


Angélica Müller ...........................................................................................................58

Memórias de histórias de violação dos direitos humanos durante as ditaduras


militares no Brasil e no Cone Sul – Anna Flávia Arruda Lanna
Barreto........................................................................................................................ 68

O anticomunismo na imprensa diária de Sorocaba (1964-1968) – Bruno de


Barros......................................................................................................................... 80

Ufanismo, conservadorismo e iconografia política na música popular brasileira: um


estudo de caso sobre o EP Wilson Simonal, novembro de 1970 – Bruno Vinícius
Leite de Morais........................................................................................................... 87

A verdade que o Brasil suporta: um estudo sobre a Comissão Nacional da Verdade –


Carlos Artur Gallo....................................................................................................... 99

Uma cidade apática? O início da ditadura civil-militar no Rio de Janeiro segundo o


Cinema Novo – Carlos Eduardo Pinto de Pinto........................................................111

A canção e o censurável – Cecília Riquino Heredia ................................................121


A legitimação da autoridade e a positivação da democracia: Castelo Branco visita
Blumenal-SC em 1965 – Cristina Ferreira................................................................130

A Campanha Operário Padrão: uma iniciativa para a conformação dos trabalhadores


durante a ditadura militar – Daniela de Campos.......................................................141

Com-paixão: um estudo sobre a resistência feminina em Belo Horizonte na Ação


Popular entre 1964 e 1972 – Débora Raiza Carolina Rocha Silva...........................150

O anticomunismo no A Imprensa: Igreja católica contra as Ligas Camponesas (1962-


1964) – Dmitri da Silva Bichara Sobreira..................................................................160

“Sempre fui mais de esquerda”: memória e história de uma arenista gaúcha –


Eduardo dos Santos Chaves.....................................................................................170

Filhos de hoje, homens de amanhã: 1964 aconteceu em abril – Enzio Gercione


Soares de Andrade...................................................................................................181

O Movimento de Cultura Popular do Recife (MCP) nos autos dos Inquéritos Policiais
Militares (IPMs) produzidos pelo Regime Militar Brasileiro (1964-1985) – Fábio Silva
de Souza...................................................................................................................189

A disputa pelo significado de guerrilha durante os governos militares brasileiros


(1964-1985): considerações preliminares – Fabrício Trevisan................................ 202

Memória de segunda geração no documentário brasileiro recente – Fernando


Seliprandy................................................................................................................ 213

Jornais e jornalistas mineiros: a censura na vigência do AI-5 (1968-1978) – Flávio de


Almeida.................................................................................................................... 220

Integrar o Brasil, combater a “subversão”: universitários e militares na criação do


Projeto Rondon (1967-1969) – Gabriel Amato Bruno de Lima.................................231

A Polícia Militar do Estado de São Paulo durante a ditadura civil-militar (1970-1982):


notas de uma pesquisa – Gabriel dos Santos Nascimento.......................................239

Mulheres e militância: um estudo sobre os padrões de representação simbólica


durante a ditadura militar no Brasil – Gabriella Nunes de Gouvêa.......................... 252

Cinefilia e militância política: enquadramentos e cortes em tempos de golpe –


Geovano Moreira Chaves ....................................................................................... 263

Leonel Brizola: rumo a Guanabara (1962) – Graziane Ortiz Righi .......................... 273

O Conselho de Segurança Nacional e a Ditadura (1964-1969) – Guilherme Bacha de


Almeida ................................................................................................................... 286
A literatura brasileira contemporânea e a (re)construção do passado: o papel dos
narradores nos romances de Milton Hatoum – Juliane Vargas Welter.................... 293

O chamado “caso Diaféria”: o desenrolar do processo contra o cronista acusado de


violar a Lei de Segurança Nacional – Kelly Yshida.................................................. 302

Os Clubes 4-S de jovens rurais durante os anos iniciais da Ditadura Militar no Brasil
(1964-1970) – Leonardo Ribeiro Gomes.................................................................. 313

Cerceando liberdades: a AESI universitária e a ingerência do regime militar na UFMG


– Luan Aiuá Vasconcelos Fernandes....................................................................... 325

Reparação e afeto: a luta pela memória no documentário feito por parentes de presos
políticos no Brasil – Luciana Carla de Almeida........................................................ 336

O Território do Terror: agitações, prisões e repressões no alvorecer do golpe civil-


militar no Amapá – Maura Leal da Silva................................................................... 347

Testemunho e esquecimento durante a transição brasileira: as denúncias de Inês


Etienne Romeu e suas repercussões (1981) – Mauro Eustáquio Costa Teixeira.... 358

O humor gráfico, um instrumento de resistência cultural e política à ditadura?


Reflexões sobre a ação dos chargistas do jornal Pasquim, frente à censura do regime
autoritário brasileiro – Mélanie Toulhoat.................................................................. 369

O golpe em cena: história e memória no quintal do “Teatro CPC-UNE” – Natália


Cristina Batista......................................................................................................... 379

Questionamentos sobre as relações de condicionalidade entre proposições artísticas


e o contexto político do Brasil na década de 1960 nas obras dos Salões Municipais
de Belas Artes da Prefeitura de Belo Horizonte – Nelyane Santos e Rodrigo
Vivas......................................................................................................................... 390

A resistência estudantil ao golpe civil-militar de 1964 na cidade de Ouro Preto-MG –


Otávio Luiz Machado................................................................................................ 402

Direito à verdade e à memória: (re)memorar é preciso – Paula de Souza


Constante................................................................................................................. 412

Qual nome? A pesquisa onomástica em contextos transicionais: reflexões sobre o


modelo de justiça de transição – Pedro Ivo C. Teixeirense..................................... 424

Carta(s) de 1967/69 e constitucionalismo: “tivemos constituição”? – Raoni Macedo


Bielschowsky............................................................................................................ 438

O Golpe de 1964 e a repressão ao movimento de “trabalhadores favelados” em Belo


Horizonte – Samuel Silva Rodrigues de Oliveira..................................................... 449
Construindo a importância política: movimento estudantil e a estratégia cultural na
cidade de João Pessoa (1976 a 1979) – Talita Hanna............................................ 460

O Estado de exceção é a regra: vidas sujeitadas à justiça militar em tempos de


ditadura – Tásso Brito.............................................................................................. 468

Ação Democrática Parlamentar: anticomunismo, democracia e radicalização política


(1961-1965) – Thiago Nogueira de Souza............................................................... 476

“Criar é resistir”: a produção cultural em tempos de autoritarismo – Valéria Aparecida


Alves......................................................................................................................... 485

Análise das audiências públicas da Comissão Nacional da Verdade: apontamentos


sobre a articulação dos conceitos de história de vida, luta por reconhecimento e
memória coletiva – Vanessa Veiga de Oliveira........................................................ 496

Raul Seixas no torvelinho dos anos de chumbo: autoritarismo, contracultura,


redemocratização – Vitor Cei................................................................................... 507
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UFMG, Belo Horizonte – 18 a 20 de março de 2014

[ Apresentação ]
Neste momento – em que se completa o cinquentenário do Golpe de 1964 – vivemos
condições propícias para análises menos afetadas pelo calor de um dos eventos políticos
mais traumáticos da história brasileira do século XX. O distanciamento no tempo favorece
um olhar mais analítico e menos passional, ainda que interessado politicamente e
compromissado com o repúdio à violência e ao autoritarismo.
Em que pese essa constatação sobre o distanciamento temporal, os temas
relacionados ao Golpe e à Ditadura continuam plenos de atualidade, já que alguns aspectos
do seu legado seguem nos interpelando e permanecem à espera de soluções satisfatórias:
o autoritarismo que continua impregnando certas relações sociais; a democratização
incompleta do Estado e da sociedade, parte dela ainda incapaz de exercer a cidadania
plena; os níveis elevados de violência social e policial que nos assolam; as desigualdades
sociais (de renda, de educação, de acesso à justiça) extremas que ainda caracterizam a
paisagem brasileira. Seria um equívoco atribuir à Ditadura a culpa pelo surgimento de tais
problemas, visto que eles fazem parte das estruturas da nossa sociedade há muito tempo.
No entanto, o Golpe interrompeu um processo político que poderia ter levado ao
enfrentamento de algumas dessas questões, já que segmentos populares estavam se
organizando e demandando sua inclusão política e social. Mais ainda, as políticas
implantadas pela Ditadura contribuíram para agravar sobremaneira as desigualdades
estruturais da sociedade brasileira.
A atualidade da Ditadura deve-se também ao impacto duradouro, portanto, ainda
visível entre nós, das políticas de modernização implantadas naqueles anos, que, até certo
ponto, distinguem o caso brasileiro dos regimes políticos semelhantes vigentes nos países
vizinhos pela mesma época. Os militares brasileiros e seus aliados civis lograram
deslanchar um processo de modernização que implicou mudanças importantes na
infraestrutura do país, com repercussões principalmente na economia, nas comunicações,
no aparato tecnológico e científico, na indústria cultural, entre outros. No entanto, tal projeto
modernizador teve como par inseparável a conservação dos pilares tradicionais da ordem
social, cuja base é a exclusão (política e social) perene das camadas subalternas. Uma
modernização conservadora, portanto, e acima de tudo autoritária, já que os projetos de
desenvolvimento foram comandados pela tecnocracia civil e militar, e as dissensões que
não eram passíveis de cooptação foram entregues à máquina repressiva (também ela
modernizada naqueles anos).
O contexto atual é também propício para esta reflexão, tendo em vista o
aquecimento das “batalhas de memória” sobre o período. Há alguns anos vem sendo
debatida uma espécie de vitória simbólica dos “vencidos”: se os militares venceram no

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4 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
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campo político durante os anos da ditadura, a memória social que se construiu sobre o
período, no processo de redemocratização, tem marcas mais presentes das esquerdas,
tanto no que tange ao reforço do par resistência/dominação, quanto na construção de um
imaginário que encerra nos anos 1964-1985 certos males da sociedade brasileira – como a
tortura, a violência do estado, as políticas públicas que fomentam a desigualdade social. No
campo da historiografia, essa vitória simbólica vem sendo questionada há alguns anos com
estudos que tratam da temática de maneira mais complexa. No que tange à memória social,
no entanto, esse debate ganhou corpo mais recentemente, especialmente em função da
política de memória que vem sendo implementada, em níveis federal e estaduais, nos
últimos anos, com a tentativa de rever os processos de anistia e a construção de uma justiça
de transição – com instituição de comissões de verdade.
Exatamente por sua atualidade e relevância, a Ditadura Militar tem sido objeto de
inúmeras investigações (acadêmicas e jornalísticas), atraindo cada vez mais jovens
pesquisadores formados nas Universidades. O incremento nas pesquisas com enfoque na
Ditadura salta aos olhos, se comparamos o quadro atual com a última efeméride relevante,
a dos quarenta anos do Golpe em 2004. Nos últimos anos, muitos trabalhos têm aparecido
no cenário acadêmico, por vezes explorando sendas originais a partir de novos enfoques,
em outros casos baseando-se nos acervos documentais abertos recentemente à pesquisa.
Tendo em vista esse cenário acadêmico e político, propomo-nos a organizar o
seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer no âmbito do Programa de
Pós-Graduação em História da FAFICH/UFMG. Nosso propósito foi o de reunir
pesquisadores da casa com convidados externos, na expectativa de contribuir para o debate
acadêmico sobre o tema. Entre os dias 18 e 20 de março de 2014, cerca de trezentos
inscritos assistiram a seis mesas redondas sobre os temas do golpe; da ditadura e o cenário
internacional; dos embates culturais e intelectuais; das relações entre a história e a
memória; dos movimentos sociais e ativistas contra a ditadura; e, por fim, da transição e dos
desafios da democratização.
Em contraste com eventos anteriores, desta feita decidimos abrir inscrições para a
apresentação de trabalhos de pós-graduandos e pós-graduados cujas pesquisas
abordassem temas relacionados ao evento. Esse gesto deveu-se à percepção do
incremento nos trabalhos acadêmicos sobre o golpe e a ditadura, e também à convicção de
que os jovens pesquisadores têm muito a oferecer à historiografia dedicada a tais objetos.
Selecionar os trabalhos inscritos foi uma tarefa árdua, já que recebemos um número
elevado de propostas (140, no total), provenientes de todas as partes do país. Mas ficamos
contentes pelo interesse despertado pelo evento, e pela oportunidade de reunir tantos
pesquisadores engajados no estudo do golpe e da ditadura. Diante do espaço e tempo

ISBN: 978-85-62707-55-1
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UFMG, Belo Horizonte – 18 a 20 de março de 2014

disponíveis para as discussões, a comissão selecionou 90 trabalhos para serem


apresentados em mesas temáticas realizadas durante o evento. Das pesquisas aprovadas,
74 foram efetivamente debatidas durante o seminário e 49 delas têm, agora, os textos
publicados nestes anais eletrônicos.

Comissão organizadora do seminário


1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer

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[ Textos ]

A representação do Nordeste na MPB:


uma análise através das canções de Geraldo Vandré e Gilberto Gil

Adolfo BORGES Santos


Especialista em História e Culturas Políticas pela UFMG
adolfoborgess@yahoo.com.br

Introdução

Durante os conturbados anos 60, a Música Popular Brasileira (MPB) traz para seu
âmbito questões ideológicas, sociais e políticas, que muitas vezes se confundem com as
discussões estéticas da canção. Expressão artística com uma grande potencialidade para
se comunicar com as “massas” ela era pensada como algo que poderia contribuir de forma
eficaz para formação de uma brasilidade autêntica e legítima; era essa a percepção dos
agentes envolvidos na construção dessa instituição1.

A música enquanto expressão cultural tinha um duplo sentido: o de se comunicar


com o povo e o de incorporar a cultura popular como tema de sua produção. Assim,
possuindo um papel que ia muito além do entretenimento e do mero deleite estético, tendo
também uma tarefa social a cumprir; a conscientização da população e a construção de uma
nação livre, soberana, tentando criar, a partir do pensamento do nacional-popular, uma
cultura autenticamente brasileira.

Dentro da cultura política do nacional-popular o Nordeste brasileiro – juntamente com


a favela carioca e o seu samba2 – serviu como inspiração para a criação musical,
oferecendo ritmos e informações poéticas para canções que tentavam ser a expressão de
uma brasilidade original, buscando um homem em estado puro, não contaminado pelo
capitalismo desumano.3

1
A questão da MPB ser uma instituição, mais que um gênero musical, é colocada por Marcos
Napolitano em seu livro Seguindo a canção: engajamento político e indústria cultural na MPB (1959-
1969). Para ele a MPB consegue agregar inúmeros ritmos e gêneros musicais diferentes. Assim o
que faz com que toda essa diversidade seja agregada em apenas uma sigla se da muito mais em um
nível sociológico e ideológico.
2
O espetáculo Opinião foi uma tentativa de unir esses dois mundos e a classe média, visto que em
seu projeto, original, unia Nara Leão, representando a classe média, João do Vale representando o
nordeste e Zé Keti representando o samba do morro carioca.
3
Tal análise é baseada na teoria do romantismo revolucionário, criado por Michel Lowi e Robert
Sayre, citado por Marcelo Ridenti em seu livro Em busca do povo brasileiro: Artistas da revolução, do
CPC à era da TV.

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Ao mesmo tempo em que o Nordeste fornecia os elementos para a construção desse


novo homem, esta mesma região era também cenário do que havia de mais arcaico no país.
Assim tínhamos, por um lado, o camponês pobre, mas valente, fraterno, preocupado com a
comunidade e não praticante de um individualismo burguês, um indivíduo que apesar do
sofrimento, da opressão das oligarquias e das dificuldades do clima ainda era muito
apegado às suas tradições e à sua terra e isso era o que o Nordeste tinha de mais precioso
e que poderia servir de modelo para toda a nação. Por outro lado ali reinavam o
coronelismo, as oligarquias e as grandes famílias tradicionais, que comandavam com mãos
de ferro a região.

O cenário descrito acima é recorrente em narrativas encampadas por diversas


correntes ideológicas, artísticas, culturais, políticas e sociológicas. Como ressalta o autor
Durval Muniz de Albuquerque Jr, em sua obra, A Invenção do Nordeste e outras artes:

O nordeste não é recortado só como unidade econômica, política ou


geográfica, mas primordialmente, como um campo de estudos e produção
cultural, baseado numa pseudo-unidade cultural, geográfica e étnica. O
Nordeste nasce onde se encontram poder e linguagem, onde se dá a
produção imagética e textual da espacialização das relações de poder.
Entendamos por espacialidade as percepções espaciais que habitam o
campo da linguagem e se relacionam diretamente com um campo de forças
que a institui. (ALBUQUERQUE JR, 1999. p. 33)

Para o autor, não se deve pensar o Nordeste como um espaço geográfico possuidor
de uma realidade pura e simples, a qual artistas, cientistas e políticos se debruçam para
alcançá-la; não se deve pensar que existe um verdadeiro Nordeste a ser alcançado pela
produção intelectual. Antes disso deve-se analisar a região como algo que se constrói e se
reconstrói a cada discurso que toma o tema como ponta de partida.

A importante obra de Albuquerque Jr, trata a questão de maneira original e abarca


uma temporalidade que vai desde os anos 20 até o momento em que, de acordo com esse,
há uma radical contestação tropicalista dos enunciados e imagens construídas sobre o
Nordeste brasileiro. No entanto, como não era o objetivo proposto pelo autor, ele não nos
diz de que maneira há esse rompimento. O presente artigo pretende jogar um pouco mais
de luz sobre esse momento da MPB, ao analisar a produção de um expoente do movimento
tropicalista, Gilberto Gil e um autêntico representante da cultura política do nacional-popular,
Geraldo Vandré.

Quais foram os pontos de discordâncias musicais, políticas e ideológicas entre os


dois? De que maneira buscaram retratar o Nordeste em suas músicas? Como esses
projetos são expressados em suas canções? Como dialogam com as referências artísticas
anteriores e as reproduzem em seus trabalhos? Um ajudou a lançar as bases de um novo

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projeto musical brasileiro, o outro sente que o seu trabalho foi derrotado, o que significa isso
para história musical, cultural e política do Brasil? Vale ressaltar que tanto Vandré como Gil
são nordestinos, e trazem memórias e referências artísticas do lugar onde nasceram, mas
trabalham cada um a seu modo sobre um mesmo material.

Uma análise sobre a produção desses artistas pode iluminar questões relevantes
sobre a história dos anos iniciais da ditadura militar brasileira. Para tal análise e para o
entendimento mais fácil do trabalho irei analisar as canções de Geraldo Vandré primeiro,
depois as de Gil, para que posteriormente seja traçado um paralelo entre as obras. Vale
ressaltar que no trabalho de conclusão de curso apresentado em, 2013, para o curso de
especialização, História e Culturas Políticas, da UFMG, do qual esse artigo é derivado,
foram analisadas 12 canções, aqui serão analisadas apenas 4.

Geraldo Vandré, o nacional-popular e o Nordeste

A primeira canção analisada será Terra plana e posteriormente Ventania. As duas


canções seguem a tendência do disco que é privilegiar expressões musicais originárias do
campo com violas, queixada de burro, triângulo assim como outros instrumentos ligados a
sonoridade rural. A tristeza, a angústia de um mundo em modificação, também é presença
marcante nas faixas, além, claro, da preocupação com a comunicação com o público. Nem
todas as canções tratam claramente do Nordeste, a análise será feita com base em algumas
imagens e enunciados que evidenciam que a região é citada e serve claramente como
inspiração para a produção das canções.

Rimar amor e dor é uma constante para Vandré como ele mesmo deixa claro na
primeira faixa Terra Plana, que abre sendo declamada tendo uma viola ao fundo:

Meu senhor, minha senhora // Me pediram pra deixar de lado toda tristeza /
pra só trazer alegrias e não falar de pobreza / e mais, prometeram que se eu
cantasse feliz / agradaria com certeza / eu não posso enganar / misturo tudo
que vi / canto sem competidor / partindo da natureza do lugar onde nasci /
faço versos com clareza; / a rima, belo e tristeza / não separo dor de amor /
deixo claro que a firmeza do meu canto / vem da certeza que tenho / de que o
poder que cresce sobre a pobreza / e faz dos fracos riqueza / foi que me fez
cantador.

Nesse trecho podemos verificar várias características de sua obra. A arte para ele
possui um imperativo ético de denunciar a miséria do povo brasileiro, para se fazer esse
trabalho ele parte da terra onde nasceu, a Paraíba:

Eu sou de uma terra plana/ De um céu bem largo e profundo.

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O Nordeste é o espaço em que se encontra uma gente pobre, mas forte, capaz de
lutar e de oferecer resistência, e o que é mais interessante é que ele enxerga nos
nordestinos um povo querendo se organizar como é característico da visão do romantismo
revolucionário que imperava nos anos 60:

Aos pés de muitas igrejas/Lá você vai encontrar


Esperança e caridade,/Querendo se organizar.

Logo em seguida a canção vai tocar em outro tema recorrente nas produções
voltadas para a temática nordestina, a religiosidade:

(...)mil cegos pedindo esmola e a terra inteira a rezar. // Se um dia eu lhe


enfrentar / não se assuste capitão / só atiro pra matar / e nunca maltrato não /
na frente de minha mira / não há dor nem solidão. // E não faço por castigo /
que a Deus cabe castigar / e se não castiga ele / não quero eu o seu lugar /
apenas atiro certo na vida / que é dirigida pra minha vida tirar

A religiosidade nordestina é aqui apresentada como uma das formas de luta de


revolta, e não como alienante, se misturam duas figuras o beato e o cangaceiro, cangaceiro
que não incorre no ato covarde da tortura, mas apenas defende a sua vida contra o
opressor, neste caso o capitão. Ao analisar o discurso da esquerda nacionalista em relação
a esses dois personagens Albuquerque Jr diz que:

O cangaço e o messianismo surgem ora como experiência alienante, ora


como desalienadora no discurso das esquerdas. A esquerda lança mão dos
mitos do cangaceiro e do santo para denunciar as condições de injustiça e
miséria do Nordeste, ou mostrá-los como mitos populares que devem ser
dessacralizados, deseroicizados, para que o povo encontre a verdadeira
forma de revolta (...) (ALBUQUERQUE JR, op cit, p.221)

A canção Terra Plana, evidencia outra característica de Vandré, aqui já citada, a


angústia presente na melodia e nas letras das músicas. Mesmo o seu canto sendo contente
é capaz de fazer uma pessoa chorar assim como um lamento sertanejo relatando sua vida
miserável. Sentimento que não provoca uma inércia, mas que também convoca a ação.

Gilberto Gil, a Tropicália e o Nordeste

A primeira canção de Gil a ser analisada será Coragem pra Suportar, ela trata do
sertão nordestino e ainda é bem calcada no estilo de canção típico do nacional-popular. O
nordestino nesta canção é visto como forte e valente, lembrando a consideração de Euclides
da Cunha que cunhou a célebre frase; “O sertanejo é antes de tudo um forte” aproximando-
se das composições de Vandré e de tantos outros artistas da MPB. Mesmo porque a letra

ISBN: 978-85-62707-55-1
10 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
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data de 1964, período em que Gil ainda era claramente influenciado pelo nacional-popular
em seu trabalho. O que é inovador nessa canção é a presença da expressão do som
universal, marcada pela guitarra de Sérgio Dias e na melodia que o baixo faz ao fundo. Tal
composição melódica é permeada da influência dos Beatles.

Se na poética ela ainda é uma composição típica do nacional-popular, ao fim ela se


torna uma canção tropicalista por justapor musicalmente o canto tradicional nordestino ao
elemento externo do pop urbano, colocando tudo em um mesmo plano. Demonstra-se assim
que, para Gil, não era impossível se falar do Nordeste apenas usando os elementos
musicais tradicionais locais, poderia se tratar das questões da região com um aspecto
modernizante, mas colocando essa modernização no mesmo plano do arcaico o que leva o
ouvinte a ter certa inquietude.

A letra também carrega a influência de João Cabral de Mello Neto, passando uma
mensagem direta sem rodeios, “uma coisa tosca, esculpida brutalmente, bonita” (Gil, apud
Rennó, 2003, p,61):

Lá no sertão quem tem /Coragem pra suportar/Tem que viver pra ter
/Coragem pra suportar/E somente plantar/Coragem pra suportar (...)//Ou
então vai embora/Vai pra longe e deixa tudo/Tudo que é nada.

No final a música deixa mais clara ainda a questão da migração nordestina,


necessária a quem deseja ter uma vida melhor O que demonstra que algumas imagens e
discursos do nacional-popular ainda estão presentes na poética tropicalista, no entanto
utilizadas de maneiras distintas.

A canção Procissão, talvez seja uma das mais estudadas obras de Gilberto Gil, ela já
havia sido lançada em seu disco anterior, mas com um arranjo totalmente diferente do disco
de 1968. A sua produção antiga ainda é bem calcada nos moldes do nacional-popular, ela
reproduz a religiosidade presente no interior nordestino e tem como inspiração a sua
memória pessoal, já que na sua cidade natal era recorrente essa manifestação religiosa.

Portanto a referência dele não era apenas feitas em cima de discursos realizados por
outros artistas, mas de uma memória pessoal. No entanto a segunda versão, apresentada
no disco em questão, parece parodiar a primeira, ao colocar distorções de guitarras e ritmos
pop, que foram acrescentados pelos Mutantes. Gil ainda sobrepõe a sua visão infantil sobre
as procissões religiosas acrescentando uma visão esquerdista a essa:

Eles vivem penando aqui na terra/esperando o que Jesus prometeu,/ E Jesus


prometeu coisa melhor/Pra quem vive nesse mundo sem amor/Só depois de
entregar o corpo ao chão/só depois de morrer neste sertão.

ISBN: 978-85-62707-55-1
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Ao mesmo tempo em que é empregado certo respeito às manifestações religiosas


nordestina, é também feito uma incriminação, por considerar essa também uma
manifestação alienante, pois é necessário arrumar um jeito para viver aqui na terra e não só
aguardar a ajuda de Deus:

Mas se existe Jesus no firmamento/Cá na terra isso tem que se acabar.

Todas as tradições nacionais estão postas em um mesmo balaio, agregando também


o novo. Tal característica não era trazida de maneira aleatória, mas refletia uma grande
preocupação contra a mera transposição do elemento estrangeiro ao ambiente nacional;

O Tropicalismo também integrou elementos da música pop, então moda


mundial. A integração se deu devido à preocupação com o consumo e, acima
de tudo, devido às possibilidades apresentadas pelo pop de, combinando-se
com outros elementos, produzir efeitos artísticos de crítica musical brasileira.
Assim não é adequada a idéia de que o pop foi integrado apenas por
decorrência de sua irradiação internacional. Esta questão não escapou aos
tropicalistas que discutiram os vários aspectos da importação cultural e
sentiram a necessidade de se defender dela. Para além das determinações
do mercado, sua discussão tinha outro objetivo: evidenciar os ‘muros do
confinamento cultural brasileiro’. A integração da música pop contribuiu para
ressaltar o aspecto cosmopolita, urbano e comercial do tropicalismo e, ao
mesmo tempo, comentar o arcaico na cultura brasileira. (FAVARETTO p.27
1979)

Assim o que era arcaico na cultura nordestina, o que era tradicional, não era
rechaçado pelos tropicalistas, mas comentado em suas canções de maneira distinta das
composições tipicamente nacionalistas. O Nordeste aqui não é avesso à modernidade, mas
também não existe uma divisão clara entre o arcaico e o moderno: antes uma comunhão
entre os dois elementos. A procissão, arcaica, junto a uma crítica esquerdista contra
alienação, e a modernidade cosmopolita pop, se une em torno de uma mesma canção.

Outra questão a ser comentada é a critica ao paternalismo empregado não só ao


povo brasileiro, mas em especial ao Nordeste:

(...)Muita gente se arvora a ser Deus/E promete tanta coisa pro sertão/que
vai dar um vestido pra Maria/Que vai dar um roçado pro João/Entra ano e sai
ano e nada vem/Meu sertão continua a Deus dará,/Mas se existe Jesus no
firmamento,/Cá na terra isso tem que se acabar.

Isso nos remete à crítica feita por Albuquerque Jr, ao afirmar que o Nordeste surge
do reconhecimento da derrota e que por isso existe a necessidade de tutelá-lo.

O discurso continua sendo o do paternalismo, a repetição dos enunciados sobre a


miséria e a incompatibilidade da região com a modernidade mesmo quando, o discurso do

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nacional-popular, criticava e denunciava a miséria da região. Mas o que os tropicalistas


tentaram fazer foi romper com esses conceitos, utilizando-se deles mesmo de forma irônica,
deslocados dos seus lugares iniciais. Gil combate o paternalismo da direita de maneira
direta na letra e o da esquerda no deboche, visível na melodia.

Conclusão

A presença do Nordeste na obra de Gil e Vandré é marcante, como vimos, ambos


usavam a região para tratar da realidade brasileira. Tanto um quanto o outro admitem o
atraso econômico nordestino e brasileiro, no entanto isso os levava a diferentes propostas
para a resolução do problema. Enquanto o tropicalista Gil acreditava na modernização, sem
ter uma concepção de progresso puramente nacional-popular, e faz isso ao agregar
elementos musicais estrangeiros à tradição do cancioneiro nordestino, mostrando a
compatibilidade dessas duas formas, Vandré se negava a utilizar tais elementos trabalhando
apenas com que ele considerava tradicional, original, sem o elemento exógeno.
Demonstrando, dentro de um pensamento nacional-popular, que ali poderia estar à semente
para a formação de um projeto de nação mais fraterna e humana. Os dois trabalharam
fortemente a tradição cultural nordestina e as resgataram, por vezes, nas mesmas
manifestações artísticas: nos cantadores de feiras, no canto sertanejo dos vaqueiros, nas
manifestações religiosas e nas inúmeras imagens recorrentes nas produções intelectuais do
nacional-popular, que perpassaram as produções cinematográficas, literárias, teatrais etc.

O resgate dessa tradição, no entanto, serve para a construção de dois projetos


culturais distintos.

Sobre o prisma do materialismo histórico, Walter Benjamin faz a seguinte análise em


relação ao resgate da tradição:

(...) Cabe ao materialismo histórico fixar uma imagem do passado, como ela
se apresenta, no momento do perigo, ao sujeito histórico, sem que ele tenha
consciência disso. O perigo ameaça tanto a existência da tradição como os
que a recebem. Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se as classes
dominantes, como seu instrumento. Em cada época é preciso arrancar a
tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela. (...) O dom de despertar
no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador
convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o
inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.
(BENJAMIN, 1994, p. 224).

Geraldo Vandré, mesmo não sendo o historiador a quem Benjamin faz referência,
trabalha com o passado e a tradição e tenta resgatá-la como uma forma de luta contra o

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opressor - que para ele seriam as forças capitalistas estrangeiras que atuavam em diversas
áreas, inclusive na esfera cultural exportando para as regiões periféricas do capitalismo
suas formas. Na música isso se daria na influência do pop britânico e norte americano que a
cultura nacional estava sofrendo. Trabalhar sobre o material tradicional brasileiro, mais
especificamente o nordestino, era reacender a centelha da esperança, era criar uma contra-
hegemonia cultural, capaz de combater o imperialismo yankee.

Na visão do compositor paraibano, Gil com o seu projeto tropicalista representava


também um inimigo a ser combatido, pois esse ameaçava corromper a MPB – instituição
verdadeiramente brasileira, na ótica de Geraldo Vandré – com uso de estrangeirismos
musicais. Para Vandré, o tropicalismo mesmo tendo a preocupação com a tradição, não
ajudaria a mantê-la viva, pois a mistura que o movimento propunha já a leva à morte.
Gilberto Gil, ao contrário de Vandré, acredita que o resgate das tradições misturadas a
referências musicais universais faz com que essas permanecessem vivas e em constante
evolução.

Nesse artigo esboço uma breve discussão de como o discurso em relação ao


Nordeste brasileiro permeou a produção musical brasileira dos anos sessenta. Mostrando
como a concepção política e estética – que naquele momento se misturavam – moldavam
também o discurso das produções culturais em relação à região.

Referências
1) Bibliografia

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Massangana; São Paulo: Cortez.

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história da cultura. Trad. Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense.

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Paulo: Brasiliense, 1984.

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brasileira. São Paulo: UNESP, 2009.

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Horizonte: Autêntica, 2005.

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MPB (1959-1969). São Paulo: Annablume, 2001.

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RIDENTI, Marcelo. Em busca do povo brasileiro: artistas da revolução, do CPC à era da TV.
Rio de Janeiro: Record, 2000.

RISÉRIO, Antônio. O solo da sanfona: contextos do Rei Baião. Revistausp, São Paulo,
1989/1990

SILVEIRA, Dalva. Geraldo Vandré: a vida não se resume em festivais. Belo Horizonte: Fino
Traço, 2011.

2) Discografia

GILBERTO GIL. Gilberto Gil. São Paulo: Polygram/Fontana/Philips, 1968. 1 LP.

GERALDO VANDRÉ. Canto Geral: EMI Odeon, 1968. 1 LP.

ISBN: 978-85-62707-55-1
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A modernização conservadora no sertão pernambucano durante o regime militar


(1964 – 1985), um estudo de caso: Projeto Sertanejo

Alexandre Black de ALBUQUERQUE


Mestre em História pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
xandeblack2@yahoo.com.br

Introdução

Este artigo parte do interesse de se lançar um olhar sobre o processo de


desenvolvimento regional durante o governo militar e a chamada “modernização
conservadora ou autoritária”, essa última permeia toda a história nacional, antes e depois do
processo ditatorial iniciado em 1964 e finalizado em 1985. O autoritarismo – que enxerga o
Estado como uma máquina capaz de se sobrepor aos interesses da sociedade e a ser
quase infalível, prescindindo das experiências locais e atuando, supostamente, em nome do
bem comum –, já era fato antes do golpe militar de 1964 e, de forma atenuada, existe até os
dias de hoje.

A escolha do semiárido pernambucano como referência para o estudo ocorreu por


dois motivos. Em primeiro lugar, por ter sido esse estado um dos maiores beneficiados pelos
incentivos fiscais da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste – SUDENE e pelos
programas de desenvolvimento postos em prática pelo Governo Federal; em segundo lugar
pelas secas periódicas que assolam essa região. Entre os programas de desenvolvimento
implementados no Sertão pernambucano1, destaca-se o Programa Especial de Apoio ao
Desenvolvimento da Região Semi-árida do Nordeste – Projeto Sertanejo, que objetivava
melhorar o nível de renda dos pequenos proprietários, arrendatários e sem-terras,
integrando-os à economia de mercado; no entanto, não foi bem isso que ocorreu,
sequestrado pelos interesses das elites locais, o programa terminou por beneficiar,
fundamentalmente, a grande propriedade e a indústria, tanto a produtora de insumos
agrícolas como a consumidora de bens agrícolas.

Breve Relato da Política Agrícola dos Governos Militares

O golpe militar de 1964, apesar de se pretender redentor do Brasil, não contribuiu


significativamente para modificar a realidade do semiárido, no entanto, é verdade que,
através do que se convencionou chamar de “modernização conservadora”, conseguiu criar
algumas ilhas de prosperidade em meio à miséria, como por exemplo, o polo de fruticultura
para exportação de Petrolina.

1
O Estado de Pernambuco está dividido em 5 Mesorregiões: Metropolitana do Recife, Mata
Pernambucana, Agreste, Sertão e São Francisco.

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Tão logo o golpe de 1964 tornou-se vitorioso, a reforma agrária, como política de
desenvolvimento do campo, seria abortada, o governo militar expressaria um novo momento
da discussão nacional sobre distribuição das terras. Inicialmente, encamparia o discurso da
reforma agrária, mas, ao mesmo tempo, apaziguaria os ânimos dos latifundiários, ao torná-
la de difícil execução.

Vale salientar que a intensa essão das elites rurais contra qualquer processo que
visasse uma melhor distribuição de terras ocorreu em todo o território nacional, e não só no
“Nordeste oligárquico e atrasado”. Contendo em seu texto diferenciações entre as regiões, o
Estatuto da Terra parecia confirmar que o problema agrário se concentrava na região menos
desenvolvida, quando, de fato, a luta pela terra se desenrolava de norte a sul do país.

A Agricultura do Sertão

Dominada pelo binômio latifúndio/minifúndio e pelo sistema gado/algodão2, a


agricultura sertaneja operava com baixa produtividade, sendo incapaz de produzir
excedentes em quantidade suficiente para alimentar a população e fornecer divisas para
financiar a importação de máquinas e equipamentos industriais. A modernização do setor
agrícola se fazia necessária, segundo seus defensores, por ser conveniente à redução dos
preços dos alimentos, como medida para aumentar o poder de consumo das massas. O
assalariamento do meio rural faria crescer o mercado de bens industriais e a demanda por
insumos por parte de uma agricultura modernizada favoreceria a expansão da indústria.
Logo, as expectativas que recaiam sobre a modernização do campo eram imensas. Para os
arautos da modernização o mais importante à transformação da agricultura, em um grande
sistema empresarial, seria a formação de uma nova mentalidade “capitalista” na população
do campo, como supostamente estava ocorrendo nas áreas urbanas mais desenvolvidas do
país. A emergência desse “novo homem” seria capaz de dinamizar a economia, pois com
sua “racionalidade”, tomaria decisões que, em última instância, privilegiaria a acumulação de
capital e a geração de emprego e renda. Em outras palavras, a modernização significaria a
ampliação do modo capitalista intensivo de produção e de distribuição nas atividades

2
No sistema gado/algodão o algodão ocupava as áreas mais úmidas da propriedade, deixando para
a pecuária extensiva à zona mais seca. Em geral, após a colheita, os resíduos eram transformados
em pasto para os animais. As relações de trabalho eram diversificadas. Havia a sujeição, em que o
trabalhador morava na terra e dispunha de uma pequena área para plantar e pagava por esse
“arrendamento” com parte dos bens produzidos e com trabalho para o latifundiário. Na parceria, o
aluguel da terra era pago com apenas um produto: o algodão, ficando vetadas outras culturas por
serem menos rentáveis. No arrendamento propriamente dito, o pagamento era em dinheiro, mas, só
na aparência, o rendeiro tinha mais liberdade, uma vez que não podia plantar o que quisesse e sua
renda monetária era tão escassa que apenas pagava o arrendamento e, em geral, terminava por ter
que trabalhar para o proprietário alguns dias por semana, em troca de um pequeno salário ou comida.
Por fim, havia o trabalho assalariado.

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agrícolas. Esse processo ganharia força durante o regime militar, ficando conhecido como
“modernização conservadora”. Martins (2008, p. 49) define bem o fenômeno:

Modernização conservadora tem sido a expressão corrente utilizada para


qualificar a intervenção da ditadura no campo. Popularizou-se na imprensa,
em rodas parlamentares, nos meios de técnicos e acadêmicos. Conforme
esclarecem estudiosos, se convencionou conceituar assim um padrão
capitalista de agricultura que modificou as relações de produção, sem alterar
o regime fundiário.

Como se constata do exposto, a modernização da agricultura não transformou a


estrutura agrária do Sertão. Baseada no uso mais intenso de tecnologia e insumos
industriais, o desenvolvimento no setor agrícola se apresentou:

Altamente assimétrico e ‘concentrador’ nos seus efeitos sobre os diversos


grupos. Em outros termos, a mudança tecnológica não é neutra para os
grandes proprietários rurais e camponeses, e tendeu a acrescentar a
disparidade entre estes dois grupos, dos quais somente os primeiros estão
em condições de absorver inovações complexas, fruto do grau de
desenvolvimento capitalista. (ALVES; FIORENTINO, 1980, p. 2).

Essa assimetria entre o grande e o pequeno proprietário, não foi, todavia, fruto,
apenas, da disparidade de renda, o fato do Estado ter sido capturado pelas oligarquias, que,
aliás, sempre ocuparam uma posição central na estrutura do poder, aumentou essa
disparidade, ao concentrar os investimentos na grande propriedade. A forma da relação do
Estado com os diversos agentes sociais e a estrutura agrária, então existentes, parecem ter
sido elementos decisivos para que a tecnologia fosse relativamente neutra na questão da
concentração de renda ou até na amplificação desse processo. O ineficiente acesso a bens
imateriais, como educação, foram mais importantes, sobretudo num ambiente de maior
intensidade tecnológica.

A Mesorregião do Sertão Pernambucano

Na Mesorregião do Sertão de Pernambuco o sistema gado/algodão aparenta, a


primeira vista, fazer menos sentido. De fato, em Pernambuco, a maior parte da área
ocupada pelo sistema estava inserida num subsistema gado/policultura alimentar tradicional.
O algodão no estado era descontínuo e ocupava uma área relativamente exígua mas
importante economicamente. As semelhanças ecológicas, geológicas e produtivas, no
entanto, fizeram com que Melo (1978) colocasse a Mesorregião do Sertão Pernambucano
dentro dos limites desse sistema. No município de Triunfo, por exemplo, a cultura da cana-
de-açúcar era dominante, em parte, pela altitude, que passa dos 1000 metros, com índices
pluviométricos bem superiores à média do Sertão e, em parte, pelos solos de qualidade
pouco usual na região.

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A interação gado/algodão, a partir do século XIX, proporcionou estímulo para a


expansão da economia da Mesorregião do Sertão Pernambucano e mudanças na
demografia local, na medida em que a cultura do algodão necessitava de muitos mais
braços que a pecuária. A estrutura agrária da região, Herança da colonização portuguesa,
no entanto, manteve-se inalterada: grandes latifúndios entrecortados por pequenas
propriedades rurais. A ocupação da maioria das terras por imensas propriedades rurais,
grande parte ociosa, impediu o crescimento do mercado interno, mesmo após a abolição da
escravidão, promovendo, ainda, forte concentração de renda e criando poderosos grupos de
poder que atuavam no sentido de se perpetuar no comando da máquina pública.

Nas pequenas propriedades do Sertão a principal forma de cultura agrícola era a de


subsistência. Era, sobretudo, neste subsetor dedicado a produção de alimentos, que se
encontrava o mais baixo nível de capitalização da agricultura, o que contribuía para
perpetuar a baixa produtividade do trabalho e do solo, tornando praticamente inviável a
produção de um excedente comercializável. A situação era pior entre os pequenos
agricultores pois, sem acesso a bens imateriais, como educação, reproduziam em suas
terras as técnicas dos latifúndios, extremamente prejudicais ao solo, causando erosão e
baixa produtividade. Uma dessas técnicas era a broca, que implica na derrubada da mata e
na limpeza do terreno pela queimada. Nos latifúndios o sistema gado/algodão (ver nota de
rodapé 3, p. 2) dominava, sendo responsável pelo pequeno excedente da economia
sertaneja.

O ponto comum a todos os tipos de relações econômicas entre pequenos e grandes


proprietários e arrendatários era a baixa produtividade do trabalho e a insignificante
utilização de meios monetários nas transações estabelecidas entre as partes. No processo,
o latifundiário foi capaz de criar um mecanismo de transferência de renda que se
materializava no momento da comercialização da produção, cabendo aos parceiros e
arrendatários apenas uma fração do valor, ou quantidade do produto, notadamente do
algodão. Desta forma, relações de classes extremamente desiguais impediam o
desenvolvimento local. A intervenção da ditadura tentaria mudar o quadro de estagnação
sem, no entanto, alterar a estrutura agrária.

O Projeto Sertanejo

O Projeto Sertanejo estabelecido pelo Decreto n. 78.299 de 23 de agosto de 1976,


parecia assumir uma posição contrária à “modernização conservadora” ao apoiar o pequeno
proprietário e os agricultores sem terras e defender investimentos através do crédito, para a
reestruturação agrária, tendo em vista aumentar a resistência da pequena propriedade
camponesa à seca. No entanto, já no seu nascedouro, o projeto foi deturpado, atendendo

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produtores com pouco menos de 100 ha e, sobretudo, produtores que possuíam entre 100 e
500 ha. Os produtores não proprietários e os trabalhadores sem terras foram, logo de início,
excluídos, não tinham como oferecer garantias ao sistema de crédito. Segundo Carvalho
(1987, p. 211) o Projeto Sertanejo,

Originário da SUDENE, [...] pretendia orientar-se para o tratamento do


problema das secas através do fortalecimento das unidades de produção
agropecuária da zona semi-árida do Nordeste e da exploração das
potencialidades de um desenvolvimento adaptado as condições ecológicas
da Região, notadamente pela extensão das ações desenvolvidas nos
perímetros irrigados do DNOCS às áreas que os circulavam.

O programa tinha intenção de atuar, de alguma forma, em relação à reestruturação


agrária do semiárido, mas isso não passou de intenções. Cortes de verbas comprometeram
ainda mais os resultados das intervenções e o fato do Sertanejo se articular com muitos
programas que igualmente não estavam atingindo os objetivos traçados, apenas piorava o
quadro. Também seria um programa para superar a seca, como afirmou, em tom oficioso, o
jornal Folha de São Paulo (12/05/1976, p. 13),

A área de Sertão do Nordeste, a mais subdesenvolvida do país, terá


requintes tecnológicos apenas experimentados por países altamente
industrializados da Europa. A sofisticação do Sertão, através da
implementação do “Projeto Sertanejo”, permitirá que dentro de cinco a dez
anos o problema da seca seja superado facilmente pelos lavradores.

Essa descrição otimista da “Folha” jamais se concretizou e, em pouco tempo, assim


como ocorreu com outros programas, os pequenos agricultores listados, inicialmente, como
o principal público alvo, foram superados pelos grandes proprietários rurais, que detinham o
poder político na região e estreitos laços com o governo federal, sempre em busca do apoio
das oligarquias regionais para manter a governabilidade.

No final de 1982, auge do projeto, segundo Vasconcelos (1983), estavam


funcionando 107 núcleos, beneficiando 14.474 produtores rurais, dos quais 8.971 (62%)
possuíam propriedades com menos de 100 ha e 5.503 (38,0%) entre 100 e 500 ha. A
superfície abrangida pelo projeto alcançava 474.000 km2, e a área total das propriedades
diretamente beneficiadas atingia 1.803.000 ha. Esses produtores rurais representavam,
entretanto, uma ínfima parcela (1,6%) dos 917.843 que deveriam ter sido beneficiados.

Os principais pontos do programa estavam relacionados com a escassez d’água no


semiárido, a estrutura agrária da região, a melhoria das condições de produção e, por
último, o desenvolvimento de culturas voltadas para o mercado. Para isto propunha: a)
formação de reservas de água, b) intensificação da produção irrigada, c) economia do uso
de água, d) fomento à agricultura seca, e) intensificação da produção pecuária, f)

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conservação e melhoria do solo, g) reorganização da estrutura fundiária, h) prestação de


assistência técnica, i) prestação de serviços, j) aperfeiçoamento do sistema de
comercialização e cooperativismo.

No papel muitos projetos tocavam nessas questões, mas na prática, as ações


realizadas iam na direção contrária aos objetivos explicitados. Documento interno da
SUDENE (1980, p.1) chamava atenção para o fato das áreas escolhidas nem sempre
atenderem ao critério de menor resistência à seca e afirmava que o projeto nada fizera pela
reestruturação agrária e, a assistência técnica, praticamente, não havia chegado ao campo,
dois anos após o seu inicio.

Na avaliação do Projeto Sertanejo, a SUDENE (1981, p.4) observou que os técnicos


do programa, em geral, não conheciam as especificidades do Sertão, apenas seguiam a
cartilha convencional contribuindo, dessa forma, para a má utilização dos já escassos
recursos. Entre as práticas danosas referia-se ao desmatamento indiscriminado, que
provoca erosão no solo, a irrigação excessiva capaz de salinizar o solo, os silos mal
projetados, o plantio de espécies impróprias ao local, a invasão de áreas propícias à lavoura
pela pecuária, etc.

Em relação, especificamente, as ações realizadas com o intuito de aumentar a


resistência da produção local à seca, a SUDENE (id., p.4) afirmou:

Com o objetivo de aumentar a resistência das unidades produtivas, as


equipes técnicas dos núcleos têm se preocupado, sobretudo, com as formas
de acumular água e com a perfuração de poços, esquecendo ou
desconhecendo as recomendações mais seguras dos estudiosos da zona
semi-árida no sentido de uma maior adaptação da economia às condições
ecológicas pela exploração selecionada de plantas e animais.

O Projeto Sertanejo sofreu, também, como outros implementados na região, de


problemas de excessiva “centralização administrativa, em nível de administração central e
de diretorias regionais, por parte do DNOCS, sem delegação de poderes aos gerentes dos
núcleos para administrarem o programa e para gerirem os recursos financeiros” (SUDENE,
1979, p. 67).

Por sua vez, o Ministério do Interior (VASCONSELOS, 1983), chamou atenção para
uma série quase interminável de deficiências de ordem técnico-administrativas que
prejudicavam ainda mais o Projeto Sertanejo, destacando, entre elas: i) instabilidade
funcional do pessoal contratado, ii) diferentes normas administrativas no tocante a salários,
diárias, etc, iii) localização inadequada de algumas sedes de núcleos, iv) tetos financeiros
definidos de forma aleatória sem prévio estudo, v) utilização de recursos do programa como

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fonte de financiamento de outras atividades, vi) modificação de projetos no meio da


execução, vii) concentração de oferta de crédito de curto prazo, viii) descontinuidade de
repasse aos agentes financeiros.

Segundo o Banco Mundial (1983), em 1981, apenas de 5% a 10% das metas


globais do projeto foram atingidas. Nem mesmo a criação de 30 mil empregos diretos (4 mil
em Pernambuco), e 99 mil indiretos (10 mil em Pernambuco), contribuiu para influenciar a
realidade do projeto, ainda mais levando-se em conta que esses empregos representavam
apenas 2,7% da População Economicamente Ativa – PEA da área beneficiada.

Em relação aos recursos, um montante considerável de verba foi destinada ao


projeto a fundo perdido e sua quase totalidade liberada, mesmo que com atraso. No entanto,
cabe salientar que, em termos de destinação dos recursos, grande parte, cerca de 70%,
foram “[...] mais centralizados na implantação da infra-estrutura técnico-administrativa que
nos segmentos de apoio ao Programa, inclusive assistência técnica, [...]”(VASCONCELOS,
1983, p. 60).

Ao contrário do que ocorreu com os recursos a fundo perdido, o apoio do governo


federal, no tocante ao crédito rural do Projeto Sertanejo, foi de pouca expressividade. Na
verdade, de todos os recursos (idem), 51% receberam autorização do Conselho Monetário
Nacional – CMN e, apenas 40%, tiveram autorização do Banco Central.

A partir de 1983, o Projeto Sertanejo deveria ser absorvido pelo Projeto Nordeste, o
que não ocorreu. O Projeto Sertanejo foi um conjunto de oportunidades perdidas. Lutando
contra a falta de recursos financeiros que terminaram por decretar sua extinção.

Os entraves, no entanto, dificilmente poderiam ser corrigidos, pela própria natureza


da modernização autoritária, que privilegiava o grande em detrimento do pequeno. Não é de
se estranhar, portanto, que só em teoria o Projeto Sertanejo estivesse voltado para o
pequeno agricultor, este não foi exatamente um grupo beneficiado pelas políticas de
modernização implementadas pelo governo militar.

O Caso de Dois Núcleos do Projeto Sertanejo

A análise dos documentos sobre a constituição de dois núcleos do Projeto Sertanejo


em Pernambuco, situados em Salgueiro e Custódia, merece especial atenção, não só por
permitir desvendar a realidade socioeconômica dessas áreas na época da implementação
das ações, bem como para constatar o que efetivamente foi realizado e sua coerência com
as diretrizes do projeto.

ISBN: 978-85-62707-55-1
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Sabe-se que o objetivo geral do Projeto Sertanejo era tornar a agricultura do


semiárido mais resistentes à seca, favorecendo, sobretudo, os produtores não proprietários,
os trabalhadores sem terras e os produtores com menos de 100 ha.

Os núcleos de Salgueiro e Custódia3 abrangiam uma área de 2.827 km2 e envolviam


municípios que, juntos, se estendiam por mais de 9.000 km2 abrigando cerca de 150.000
pessoas em cada núcleo. Como estavam no Sertão, os núcleos sofriam dos problemas
comuns à região: baixa precipitação pluviométrica, evapotranspiração superando as
precipitações, temperatura média ao redor de 27ºC, inclusive com a chamada Caatinga
hiper xerófila como cobertura vegetal. Até o relevo das duas áreas, distantes cerca de 177
km entre si, eram semelhantes, possuindo superfícies suavemente onduladas com algumas
áreas fortemente onduladas. Em relação às águas de superfície, os dois núcleos
apresentavam as mesmas deficiências típicas do Sertão, mais em relação às águas
subterrâneas, o núcleo de Custódia parecia ter uma situação bem melhor, com mais
disponibilidade desse recurso e com melhor qualidade. As duas regiões apresentavam solos
pobres, dificultando o desenvolvimento agrícola e social. Constituíam-se, assim, como
típicas regiões aptas a receber o Projeto Sertanejo. A estrutura agrária era tipicamente
brasileira, com forte concentração de terra e com os latifúndios ocupando as melhores
áreas. Em qualquer uma das regiões, as principais culturas agrícolas eram o algodão, milho,
feijão, mandioca e mamona. A pecuária era de vital importância e a produtividade geral
muito baixa. Mais de 70% da população economicamente ativa trabalhavam no setor
primário. O setor industrial praticamente inexistia, empregando não mais que 311 pessoas
no núcleo de Custódia e 661 no núcleo de Salgueiro. Com tão baixo dinamismo econômico,
não se poderia esperar a existência de um setor terciário muito desenvolvido, o que limitava
ainda mais as opções de emprego, contribuindo para o péssimo quadro social, tão comum
ao Sertão.

Em relação aos transportes, vital para o escoamento da produção e importação de


bens, os dois núcleos estavam, relativamente, bem servidos, pois eram cortados pela BR-
232 e pela Rede Ferroviária Federal, além de outras BR’s e PE’s que os ligavam a Recife e
a municípios do Sertão e Agreste e até, de forma relativamente eficiente para o padrão
regional da época, a outros estados, incluindo capitais. Isso, no entanto, não significou um
sério impulso ao desenvolvimento, como demonstra os documentos produzidos.

Quando se trata das condições sociais da população a situação era bastante


precária. Os indicadores educacionais de Custódia e Salgueiro revelavam uma elevada taxa

3
Os dados desse tópico estão em Departamento Nacional de Obras Contra as secas – DNOCS,
1977a e DNOCS, 1977b.

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de analfabetismo. A grande maioria da população de 15 anos e mais não havia sequer


concluído as quatros primeiras séries do então chamado ensino 1 (atual ensino
fundamental). Poucos conseguiam ter acesso ao 2º grau (atual ensino médio). Some-se a
essa situação a baixa qualidade do ensino ofertado, apresentado altos índices de evasão e
reprovação. Em relação à saúde a realidade não era diferente: faltavam médicos, dentistas
e leitos hospitalares para atender uma população sujeita a doenças infecto-contagiosas e,
em geral, com serias carências alimentares.

Com isso, as poucas oportunidades que surgiam não podiam ser bem aproveitadas
pela população de baixa renda, espremida entre o latifúndio, o analfabetismo e as péssimas
condições de saúde. O sistema de Extensão Rural não era capaz de superar essas
deficiências e, talvez, nem almejasse, ligado que estava aos grandes proprietários de terras.
Tendo por base esse contexto o Projeto Sertanejo visava “a reestruturação das explorações
familiares de tamanho adequado, previamente estabelecidos, capaz de serem explorados
racionalmente, dando melhores condições ao pequeno e médio agricultor de resistir aos
períodos de estiagem” (DNOCS, p.62, 1977a)

As ações preliminares para a implantação dos núcleos foram semelhantes, diferindo,


apenas, no total de agricultores que seriam beneficiados. No núcleo de Custódia foram
cadastrados 9.318 possíveis beneficiários, enquanto no de Salgueiro, 6.926, em ambos os
casos, representavam produtores não proprietários, produtores sem terras e produtores com
menos de 100 ha, destacando-se, no total, estes últimos.

Para alcançar o desenvolvimento das pequenas propriedades o programa tentou


algumas alternativas, como a associação de agricultura irrigada/agricultura seca, utilização
de plantas resistentes à estiagem e elaboração de um seguro agrícola. Estudos seriam
realizados tendo em vista a melhor forma de implementar essas alternativas.

Isso, por si só, não seria fácil, pois os projetos desenvolvidos pelo Sertanejo
envolviam vários órgãos e empresas federais e estaduais: DNOCS, EMBRATER, BB, BNB,
INCRA, entre outros –, totalizando 14 entidades diferentes que teriam que funcionar
interligadas com bastante precisão. Evidente que os projetos desenvolvidos em Custódia e
Salgueiro, como outros do Sertanejo, não atingiram os objetivos do programa, não lograram
alcançar a reestruturação fundiária nem mudar a realidade do pequeno agricultor.

Considerações Finais

O desvendamento de uma parte da ação do Estado brasileiro no semiárido


pernambucano durante a ditadura militar, mostrou que as políticas empreendidas
beneficiaram apenas pequena parcela da população sendo, desse modo, incapazes de

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modificar com a intensidade desejada a realidade local. Alocando verbas em projetos


duvidosos, quase invariavelmente favorecendo os de sempre – latifundiários,
atravessadores e industriais –, o Estado tentava impor uma “revolução capitalista” em uma
zona econômica extremamente subdesenvolvida, mesmo para os padrões brasileiros. A
consequência foi o surgimento de enclaves com razoável dinamismo econômico, incapazes,
porém, de influenciar o restante do semiárido, onde se encontrava a grande maioria da
população da região.

As velhas formas de desenvolvimento local, no entanto, não foram abolidas, os


novos e velhos métodos se superpuseram ampliando a presença do Estado. O Projeto
Sertanejo não cumpriu seus objetivos. Na verdade havia, quase sempre, uma divergência
entre o foco teórico do projeto, e sua atuação na prática. Como fica claro no caso de
Salgueiro e Custódia, onde os produtores sem terra e os pequenos produtores foram
suplantados pelos proprietários com até 100 ha ou mais.

Esse processo de inserção do semiárido na economia nacional - “reivindicado” pela


inevitável modernidade que, enfim, deitava raízes no território nacional, na ótica dos
militares, nada mais era, no entanto, que a velha “modernização conservadora” em sua mais
fiel tradução: o autoritarismo a serviço de uma minoria.

Referências

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Paulo, São Paulo, 12 de maio. 1976, primeiro caderno, p. 13.

MARTINS, Mônica Dias. Açúcar no Sertão: a ofensiva capitalista no nordeste do Brasil.


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SUDENE. Projeto Sertanejo: relatório anual de acompanhamento. Recife, 1979.

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Recife, 1981.

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NORDESTE DO BRASIL S.A.. Projeto especial de apoio ao desenvolvimento da região
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“É o caos, o caos que está instaurado em volta e dentro de mim”: Dias Gomes e as
reflexões sobre o papel dos artistas e intelectuais após 1985

Aline Monteiro de Carvalho SILVA


Doutoranda em História na Universidade Federal Fluminense (UFF)
alinemcs@gmail.com

Este artigo pretende versar brevemente, através da obra Meu Reino por um Cavalo,
sobre a produção de Dias Gomes no período da redemocratização e restabelecimento da
democracia plena no país. O dramaturgo era, nos anos de 1950, 1960 e 1970, conhecido
por suas obras teatrais e televisivas críticas a situação do país, ao governo, a política, e etc..
Nos anos de 1980 e 1990, refletiu, através da ficção e da literatura sobre o papel dos
intelectuais e artistas atuantes no período anterior e sua função dentro da nova realidade do
país.

Escrita em 1988, Meu Reino por um Cavalo foi uma das primeiras obras produzidas
pelo autor durante as duas últimas décadas de vida, onde apareceram questões que
mostravam como o autor lidava com a nova realidade que se apresentava a ele, ao país, ao
mundo. A questão da memória, da trajetória de Dias Gomes, das preocupações do presente
em relação ao passado, da função do artista e intelectual no pós-ditadura militar, tanto
através da personagem fictícia e quanto a do próprio dramaturgo, são caras a este trabalho.
Pretendo então pensar os cruzamentos entre a trajetória do autor, os questionamentos
sobre sua função na nova realidade política e social brasileira dentro do contexto da
redemocratização e consolidação da democracia.

Dias Gomes nasceu na Bahia, em 1922, mudando-se com a mãe para o Rio de
Janeiro ainda na adolescência. Escreveu sua primeira peça aos quinze anos; aos dezoito
anos já estava escrevendo para a companhia de teatro de Procópio Ferreira. Poucos anos
depois saiu da companhia e começou trabalhar em São Paulo na emissora de rádio de
Oduvaldo Vianna (Pai). Foi nesse período na capital paulista que filiou-se ao Partido
Comunista Brasileiro, de onde viria a se retirar na década de 1970. A carreira do dramaturgo
ganhou vulto concomitantemente ao crescimento e a afirmação do Teatro Brasileiro
Moderno e sua vertente mais popular.

Mesmo com a retomada do seu teatro e o sucesso de suas peças, em 1964 o


dramaturgo voltou a trabalhar no rádio. Com o golpe em abril do mesmo ano, foi demitido
sumariamente da Rádio Nacional. Sem o emprego da Rádio Nacional, Dias Gomes procurou
outros meios de obter renda durante os cinco primeiros anos de ditadura. De 1969 a 1977
deixa de escrever para o teatro, rompendo esse hiato com As Primícias. O ano de 1969 foi
um marco na carreira de Dias Gomes, pois foi quando o autor de O Santo Inquérito passou

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de reconhecido teatrólogo a escritor de telenovelas. Em fins dos anos de 1980, Dias Gomes
decidiu parar de escrever novelas, voltando dedicando-se ao teatro e às minisséries
televisivas. Morreu em 1999, em meio adaptação de sua peça Dr. Getúlio, sua Vida, sua
Glória para a tevê.

A peça Meu Reino por um Cavalo passa-se em quatro planos diferentes: o da


realidade, o da ficção, o da memória e da alucinação. A personagem principal é Otávio
Santarrita1, um dramaturgo em meio a uma crise artística e pessoal. Uma das personagens
secundárias e a segunda a ser apresentada ao público é sua esposa, Selma Santarrita2,
seguida por Solange3, atriz que protagoniza as peças de Otávio e sua amante. As outras
personagens que aparecem ao longo da peça são os filhos de Otávio e Selma, Tavinho4 e
Soninha5, e alguns pequenos personagens, que entram rapidamente em cena, como o
Assaltante, que tenta roubar a casa de Selma e Otávio e sai sem levar nada; o Analista, que
escuta o desabafo de Otávio; o Oficial, que o interroga em um de seus delírios; o Produtor
das peças do dramaturgo; o Imortal6, que visita Otávio quando este está tentando uma
cadeira na Academia; o Juiz, que media a luta entre Selma e Solange; e até Vianninha,
quem vem ajudá-lo em seu processo de criação.

A história desenvolvida por Dias Gomes é um retrato sobre as incertezas, as dúvidas


e as inseguranças de um artista e intelectual em fins da década de 1980. Otávio Santarrita é
um teatrólogo que está em meio a uma crise criativa, intelectual e pessoal. Meu Reino por
um Cavalo foi escrita em 1988, tendo sido encenada pela primeira vez no ano seguinte 7.

1
Otávio Santarrita é assim descrito pelo autor: “[...] Otávio Santarrita tem mais de cinquenta anos,
mas aparenta bem menos. Espírito inquieto, ultra exigente consigo mesmo, obcecado pela ideia fixa
de se superar sempre e consciente de sua responsabilidade como intelectual. A crise em que se
debate advém de tudo isso”. Ressalto que a questão do intelectual, de sua função na sociedade, a
autocrítica ao seu papel, tem espaço nas obras de Dias Gomes desde fins dos anos de 1960, em
peças como Amor em Campo Minado (ou Vamos Soltar os Demônios) (1969) e Campeões do Mundo
(1979). (GOMES, 1989, p. 13.)
2
“Selma é uma mulher bonita, nos seus quarenta e cinco anos, elegante, inteligente, personalidade
ofuscada pela personalidade mais forte de Otávio. Tem consciência disso, o que motiva um tom
sempre crítico e ressentido em relação a ele”. (GOMES, 1989, p. 14.)
3
“É uma bela mulher de quarenta anos, com o fascínio pessoal das primeiras atrizes. Alia beleza e
sensualidade. O fato de colocar tudo em função de sua carreira não faz dela uma pessoa calculista
ou interesseira”. (GOMES, 1989, p. 22.)
4
O filho do casal é inserido na peça e descrito de maneira a mostrar rebeldia, revolta: “Entra um rock
pauleira. Som altíssimo. [...] Tavinho entra dançando. Vamos chamá-lo de um típico representante da
juventude desengajada pós-moderna”. (GOMES, 1989, p. 27.)
5
Soninha tem catorze anos, está grávida e não sabe qual dos namorados é o pai: “Volta o rock
pauleira. Soninha entra dançando alucinadamente com os três namorados. Quando cessa a música
ela está diante de Otávio e Selma. Namorados saem”. (GOMES, 1989, p. 38.)
6
É interessante ver como Dias Gomes retrata o Imortal, como uma personagem arrogante, que se
sente superior aos outros, de forma a parecer um idiota através de suas falas (GOMES, 1989, p. 67-
80). Anos mais tarde, o novelista viria fazer parte da Academia Brasileira de Letras.
7
A peça estreou em 17 de maio de 1988, no Teatro Nelson Rodrigues, no Rio de Janeiro. No elenco
estavam nomes consagrados – Paulo Goulart, Nicete Bruno e Ângela Leal – como as personagens

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A peça trouxe para o palco os dilemas e os conflitos do próprio dramaturgo. Os


questionamentos da personagem Otávio mostravam não apenas as confusões do
dramaturgo fictício, mas também do próprio Dias Gomes. Nosso autor expressou na fala da
personagem as suas confusões diante daquele mundo em que não se encaixava e não
compreendia as mudanças que vinham ocorrendo. Em sua autobiografia, o novelista afirmou
que quando terminou de escrever a obra percebeu que havia

até certo ponto (me) desnudado em público, ao tentar expor minhas


perplexidades sobre aquele momento histórico e questionar meu ofício de
escritor.[...] A identificação de Santarrita, escritor teatral, com o autor da
peça era inevitável. Apesar de muitas dessemelhanças, essa ilação tinha
sua razão de ser: eu colocara em meu protagonista minha angústia na
forma de retratar um mundo em alucinante transformação, na tentativa
desesperada de adequar o teatro ao mundo, para dar-lhe a dimensão de
nosso tempo, como já tentara em Campeões do Mundo.[...] Tomado de
tremenda confusão mental, Otávio Santarrita quer escrever uma peça,
escreve quatro ao mesmo tempo, e sua cabeça se transforma num
verdadeiro caos, quando decide, concomitantemente, pensar o mundo e o
teatro. Mas o teatro tem sentido? O mundo tem sentido? (GOMES, 1998, p.
343-344)

O primeiro diretor da peça, Antonio Mercado, no prefácio de Meu Reino por um


Cavalo, afirmava também que a dramaturgia nacional passava por um período complexo e
parecia

debater-se num impasse de criatividade, não há saída senão mergulhar


fundo na crise. Dostoievsky anotava em seu Diário que às vezes é preciso
desesperar-se para que do desespero nasçam novas perspectivas. Em
termos de dramaturgia, isso implica em renunciar às fórmulas consagradas,
questionar os arquétipos teatrais de todos os tempos, repudiar a delimitação
tradicional das categorias estéticas, subverter as regras e receitas de
construção dramática, na tentativa de inventar um palco adequado à
coreografia fantástica, alucinada e caótica das personagens do nosso
tempo. No fundo, é isso que Otávio Santarrita tenta fazer nesta peça,
inspirado Dias Gomes – ou vice-versa? (GOMES, 1989, p. 9.)

Era latente para Dias Gomes e Antônio Mercado que o teatro nacional precisava
transformar-se, criando novas encenações, ideias e conceitos.

Personagem central da trama de Meu Reino por um Cavalo, Otávio Santarrita é um


escritor teatral que está em meio ao processo de criação de seu novo espetáculo, mas que,

principais. Contava ainda com Benjamin Cattan, Jandir Ferrari e Kiki Lavigne nos papéis secundários
e com um elenco de apoio. O diretor dessa versão foi de Antônio Mercado, sendo a música e a trilha
sonora de Guilherme Dias Gomes, filho do dramaturgo. Ao falar sobre a encenação da peça em sua
autobiografia, Dias Gomes disse que a peça ”não foi entendida pelos críticos dos grandes jornais,
muito pouca gente mesmo a entendeu. O espetáculo foi remontado em São Paulo, excursionou a
Salvador, e o equívoco continuou. Sim, um grande equívoco, sustento com absoluta convicção. Tive
outros fracassos em minha carreira, todos justificados – este totalmente injusto. A fúria niilista com
que alguns críticos o atacaram faz me pensar. E me traz à memória o desabafo de Tchecov: ‘Se eu
tivesse dado ouvido aos críticos, tinha morrido bêbado na sarjeta’”. (GOMES, 1998, p. 344.)

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devido a sua confusão mental, está compondo quatro peças ao mesmo tempo. Em sua
volta, há uma mistura de realidade e delírio, e é onde desenrolam-se seus problemas, suas
crises e sua relação com as demais personagens.

Otávio se vê perdido em meio aos compromissos de trabalho; a falta ou excesso de


criatividade, mas que para ele é mais uma confusão mental do que qualquer outra coisa
(GOMES, 1989, p. 19); ao pedido de divórcio de sua mulher após vinte e dois anos de
casamento e sua relutância em aceitá-lo; aos problemas com os filhos – o vício do filho e a
gravidez da filha; em relação à sua amante, pela pressão dela para terminar a peça para
que possa protagonizá-la. Para Otávio as coisas estão saindo do controle, “é o caos, o caos
que está se instaurando em volta e dentro de mim” (GOMES, 1989, p. 50.).

Em uma das cenas escritas por Dias Gomes, surge, em meio a uma das alucinações
da personagem Otávio Santarrita, a figura de Vianninha, sendo travado o seguinte diálogo
entre eles:

VIANNA – Olá, companheiro. Como é que é?


OTÁVIO – (Levanta-se, surpreso.) Vianninha! Você não tinha ido...?
VIANNA – (Sorrindo.) Claro que sim. Vim só te dar uma força. Os
companheiros me pediram. Tarefa... Paulinho e o Leon estão preocupados
com você. O velho também.
OTÁVIO – É... acho que estou entrando em parafuso.
VIANNA – Eu sei. Também passei por isso. É uma barra.
OTÁVIO – E como é que se sai dessa, companheiro? Me diz.
VIANNA – Mergulhando de cabeça na confusão. De repente as coisas ficam
claras como água em pote de barro. Não se desespere. Vá fundo que você
chega lá.
OTÁVIO – É bom ouvir isso. Você não sabe como a coisa piorou depois que
você se foi. Ah, você não sabe. Tá muito sofrido.
VIANNA – Tem que sofrer, tem que sangrar.
OTÁVIO – Bons tempos aqueles...
VIANNA – Meu avô deve ter dito isso. Meu pai também. Nossos filhos
provavelmente irão dizer, que merda de mundo vocês nos deixaram. Porque
a culpa é nossa mesmo. Só que, como dizia um amigo meu, no bonde da
História, nunca sente no banco que viaja de costas.
OTÁVIO – Porra, Vianna, a gente agitou, a gente sonhou... a gente fez
coisas! Ou você tem dúvidas? Eu confesso que tenho.
VIANNA – Se você tem dúvidas, é porque está vivo. É bom, é ótimo ter
dúvidas. Duvide sempre. Não acredite em nada sem duvidar um pouco. As
pessoas que têm certeza de tudo nunca são confiáveis. Vai fundo,
companheiro. Dê um abraço na turma.
Vianninha desaparece. Muda a luz. (GOMES, 1989, p. 94-95.)

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Neste trecho aparece a ideia de aquela geração, da qual Otávio fez parte, lutou, correu atrás
de seus ideais, não escreveu sua história da forma que desejaram, que lutaram, o que
levara o protagonista a fazer indagações, refletir sobre o passado, o presente e as
possibilidades de futuro.

O dramaturgo fictício reflete sobre o mundo em que está vivendo, sobre os novos
padrões, sobre as certezas inabaláveis que caíram por terra. O teatrólogo questiona-se:

OTÁVIO – Será que só eu sou assim? Você. Você não tem dúvidas?
Ninguém tem dúvidas? Todo mundo sabe para onde ir, o que fazer, por que
lutar? Será que todo mundo acorda de manhã, escova os dentes, sai de
casa, sabendo exatamente como ocupar o resto do dia de uma maneira que
dê sentido à sua vida? Houve um tempo em que eu sabia, sim. O mundo
era dividido em dois, preto e branco. Nada de semitons. Os que queriam
mudar tudo e os que não queriam mudar porra nenhuma, Uma linha clara
demarcando os dois campos. Ou se estava de um lado ou se estava do
outro. E o sentido da História nos parecia cristalino. Tínhamos grandes
causas, grandes bandeiras. A campanha do petróleo... a luta pela paz... as
Ligas Camponesas... o CPC... a luta contra a ditadura.(GOMES, 1989, p.
16.)

Dias Gomes fala, em alguns trechos da peça, sobre a situação vivida no país, como
a questão econômica, as altas e as constantes mudanças nos preços dos produtos; trata da
questão do crescimento da violência, da necessidade de segurança privada, dos assaltos,
etc.. O país é, para Otávio,

um trânsito muito louco, um país muito louco, ninguém respeita sinais, mão
e contramão... “proibido estacionar”... “proibido ultrapassar”... “proibido
dobrar à esquerda”... “proibido matar índios”... “proibido derrubar árvores”...
“velocidade máxima de 60 quilômetros”... inflação: mil por cento ao ano!
Onde vou aplicar meu dinheiro? Bolsa, dólar, overnaite... Para onde vai este
país e para onde vamos todos nós? Roleta-russa! (GOMES, 1989, p. 84)
A juventude daquele período era desengajada, não lutava por seus ideais, por suas
opções, sendo alienada em relação à condição política do país, do mundo, e da sua própria
situação. Essa falta de engajamento aparece bem no trecho em que há o diálogo entre pai e
filho:

[...]
TAVINHO – Acho que é por sua posição política meio babaca.
OTÁVIO – Babaca?
TAVINHO – Isso de engajamento. Já era.
OTÁVIO – Engajamento não é sectarismo político, maniqueísmo ideológico,
realismo socialista, essas bobagens. Nunca embarquei nessa. Mesmo
quando militava no Partido, sempre preservei a minha liberdade de criação.
Nunca submeti uma peça minha à apreciação de qualquer Comitê. Sempre
8
fui um indisciplinado e me orgulho disso . E hoje sou um livre-atirador.

8
Dias Gomes sempre disse em entrevistas e em sua autobiografia que o Partido Comunista

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TAVINHO – E por que você precisa ser atirador? Atirar em quê? Por quê?
Pra que?
OTÁVIO – Porque do contrário não tem sentido... Tudo passa a ser inócuo.
TAVINHO – Atira pro alto, velho.
OTÁVIO – Isso é alienação.
TAVINHO – É... Alienação é o grande barato do pós-moderno. Para com
essa babaquice de querer retratar o mundo, conscientizar pessoas, teatro
social, esse troço. Isso é papo dos anos 60, quando vocês pensavam que
iam mudar tudo. Não mudaram porra nenhuma. Ninguém mais tem saco pra
isso.
OTÁVIO – (Profundamente chocado.) Me deixa olhar bem pra você... Sabe
que às vezes custo a acreditar que você seja meu filho?
TAVINHO – Isso é problema teu lá com a velha... (Sai.) (GOMES, 1989, p.
85-86)

Está claro ao leitor – e expectador – de Meu Reino por um Cavalo que Otávio
Santarrita não se identifica com os padrões e modelos atuais, com o que ele considera
alienação e desengajamento, com a falta de objetivos, de motivos para lutar. O dramaturgo
não compreende mais o teatro, ele já não é mais como conhecia, é sem engajamento, não
busca mostrar a realidade nem transformar o mundo, o país, a sociedade. Para ele o “nosso
mundo atual já não se ajusta ao drama, então o drama já não se ajusta ao mundo. Foi
Brecht quem disse isso, ou algo parecido. É preciso ajustar o teatro ao mundo, dando a ele
a dimensão do nosso tempo” (GOMES, 1989, p. 28).

Um dos grandes motes deste texto era a tentativa de Dias Gomes – e Otávio
Santarrita – de se adaptar a nova realidade do país, do mundo e do teatro. Em 1985, havia
se encerrado o governo militar que havia ficado vinte e um anos no poder; o país estava em
um processo de redemocratização. Em 1988, ano em Dias Gomes escreveu a peça, essa
nova democracia estava consolidando-se, a nova constituição saia do papel, e o povo
estava aprendo a lidar com as mudanças políticas e sociais que vinham ocorrendo. Para os
dois teatrólogos – tanto o da ficção, quanto o real – que vinham de certezas e lutas nos anos
de 1950, 1960, e 1970, aqueles anos de 1980 estavam recheados de incertezas e poucas
resoluções. Dias Gomes afirmou, em sua autobiografia, que sua personagem estava
baleada pela confusão ideológica do final do século XX (GOMES, 1989, p. 344.), assim
como o autor de Roque Santeiro estava.

Brasileiro, do qual fazia parte, nem nenhum de seus Comitês culturais o havia obrigado a escrever
sobre nenhum tema, censurado ou vetado nenhuma de suas peças. Sobre ser um indisciplinado,
também é uma referência constante quando fala sobre sua trajetória de vida, tanto que o título de sua
autobiografia é Apenas um Subversivo. Segundo o próprio, “em disciplina deixava muito a desejar,
como sempre, já que a rebeldia se afirmava como traço marcante de meu caráter”. (GOMES, 1998, p.
31.)

ISBN: 978-85-62707-55-1
32 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
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As duas últimas décadas da vida de Dias Gomes, sua produção artística foi
desenvolvida em um ritmo menos intenso. A queda de sua produção ocorreu paralelamente
ao final do governo dos militares; ao processo de redemocratização; ao fim da chamada
“grande família comunista” 9. Houve, para o autor e outros que compartilhavam as mesmas
ideias, a perda das bases políticas, sociais e econômicas do projeto comunista internacional
e com o fim do PCB; além do aparecimento de novos atores políticos, sociais e intelectuais,
entre outras questões.

Após ter entrado para a Rede Globo no ano de 196910 e ter criado, durante a década
de 1970, alguns de seus maiores sucessos televisivos, como o Bem Amado e Saramandaia,
tendo se afastado por alguns anos da cena teatral, voltou a escrever peças em 1977 (As
Primícias), nos anos de 1980 a produção do dramaturgo foi arrefecendo. Naquele período,
em que já era um reconhecido e badalado autor de telenovelas, decidiu por questões
pessoais e pela doença e morte de sua esposa Janete Clair, distanciar-se das telenovelas,
com exceção das produções de Roque Santeiro e Mandala. Em inícios de 1980 lançou uma
série baseada em sua novela O Bem Amado, tendo sido refúgio para aquele período
conturbado.

Em 1988 também adaptou O Pagador de Promessas à tevê11, sofrendo censura


econômica por parte da emissora. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1991,
voltando, um ano depois, à televisão com Ferreira Gullar, quando escreveu a série As
Noivas de Copacabana. Em 1993 lançou o livro Derrocada e em 1995 levou às telas da
televisão a polêmica minissérie Decadência, que também tornou-se livro. Em 1996,
novamente com a colaboração de Ferreira Gullar, escreveu a mininovela O Fim do Mundo.
Adaptou para a televisão em 1997, o livro Dona Flor e seus Dois Maridos de seu amigo
Jorge Amado, novamente com Ferreira Gullar e Marcílio Moraes. Veio a falecer em um
acidente automobilístico dois anos depois.

Nos anos de 1980 e 1990, a militância política e a crítica ao governo foram


gradativamente perdendo espaço, fazendo com que os intelectuais e artistas atuantes nos
anos de 1950, 1960 e 1970, procurassem adaptar-se as transformações, a nova realidade
que abria-se para eles. Antes e durante a ditadura militar, a principal matéria-prima de Dias

9
Este termo foi cunhado por Marcelo Ridenti em seu livro Em Busca do Povo Brasileiro. O autor
considera que esta “grande família comunista” foi um grupo de intelectuais e artistas que pensou e
produziu, ao longo de várias décadas, especialmente os anos de 1950, 1960 e 1970, para um
determinado Brasil e utilizou a arte para tal produção. (RIDENTI, 2000.)
10
Segundo ele, dois motivos o levaram a aceitar a proposta de trabalho na Globo, emissora
identificada com o governo militar e que sofria duras críticas por parte de seus pares: a sua situação
econômica e a oferta de uma “uma plateia verdadeiramente popular” (GOMES, 1998, p. 255-256.)
11
Dias Gomes adaptou um bom número de suas peças para a televisão, como O Berço do Herói, que
se tornou Roque Santeiro, O Bem Amado, O Pagador de Promessas, entre outras.

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33 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
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Gomes era a análise crítica da política, das questões sociais, do governo. Com o fim do
regime, a volta da democracia, o fim do Partido Comunista, a queda do muro de Berlim,
entre outros fatores, houve, para o dramaturgo e outros artistas, a necessidade de habituar-
se aos novos desafios apresentados por aquele contexto.

A geração de Dias Gomes, ligada à esquerda, a uma proposta de teatro engajado,


acreditava ser responsável pela construção da nação, estando à ideia de nação e de povo
indissociáveis, além de crerem que era a população brasileira quem garantiria a unidade
nacional. Para além, consideravam-se intérpretes das massas populares e precisavam
auxiliá-las na tomada de consciência de sua vocação revolucionária. Eram os criadores de
um projeto que tinha como objetivo a emancipação das classes populares e o
desenvolvimento econômico (PECÁUT, 1990).

Para além, temos que pensar a relação entre esta produção e o que se objetiva
passar a posteridade. Como afirma Pierre Laborie (2009, p. 92) em suas discussões acerca
da questão da memória, “cada memória social transmite ao presente uma das múltiplas
representações do passado que ela quer testemunhar. Entre diversos outros fatores, ela se
constrói sob influência dos códigos e das preocupações do presente, por vezes mesmo em
função dos fins do presente”. Mais do que isso, a memória acaba por afetar a construção de
opiniões e de visões posteriores do passado, que é estabelecido por conta de apreensões,
percepções, intenções, etc., vindas do presente. A memória surge através de múltiplas
representações do passado, acabando por ser exacerbada, com sua natureza militante e
justiceira, “ainda mais quando ela se faz portadora de questões ou mesmo de reivindicações
identitárias, leva a raciocinar sobre o passado em função unicamente de fins do presente”
(LABORIE, 2009, p. 94).

Dias Gomes escreve suas peças e obras literárias, utilizando-se da ficção e das
experiências que estavam ocorrendo em um determinado momento para representar a
realidade, mas também é influenciado por pensamentos e códigos que derivam do passado.
Não é a toa que em Meu Reino por um Cavalo, a geração de Otávio era militante, engajada,
que lutava por seus objetivos, por um teatro engajado, enquanto a geração de seus filhos,
ou melhor, a imagem que ele tem de Tavinho, Soninha e da juventude em fins dos anos de
1980, é de alienação, desengajamento, de desinteresse sobre os rumos do país, da política,
da sociedade. É interessante observar a visão do autor, através de suas personagens, sobre
a geração que nasceu e começava a crescer e amadurecer após o fim do governo dos
militares. Se sua geração lutou, enfrentando as pressões políticas e muitas vezes físicas de
um regime de exceção em busca de seus objetivos, a geração de seus filhos, que vivia as

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34 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
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vésperas do novo milênio já não tinha pelo que lutar, pelo que combater, sem empenhar-se
– talvez vocação para tal – na luta por seus objetivos.

Para Ênio Silveira, amigo e editor de várias peças do teatrólogo, e que escreveu a
orelha da peça, Meu Reino por um Cavalo é uma comédia que reflete sobre como nossos
valores, muitas vezes considerados irrefutáveis, podem ser relativos. Senso assim, Dias
Gomes era coerente com os propósitos que fizeram escrever esta obra, como

a repulsa a ortodoxia uniformizada e o desejo de afastar-se um pouco das


limitações duma objetividade “realista”, MEU REINO POR UM CAVALO é
como que uma metralhadora giratória atingindo vários alvos com uma só
rajada: a conformidade burguesa, a rigidez estrutural do teatro
convencional, os arquétipos sociais e individuais do bom comportamento
preconcebido.

Em suma: Dias Gomes quis sentir-se livre de todas as malhas em que se


achava envolvido para reencetar, em plena liberdade de movimentos, sua
busca de linguagem inovadora – e provocadora – para a sua já famosa
dramaturgia. (GOMES, 1989)

Antonio Mercado era partidário da mesma ideia que Ênio Silveira e destacava que as
fórmulas consagradas e os valores absolutos não eram mais realidade, estando em falência.
Reforçava que

o protagonista desta peça é um autor que, em muitos aspectos, traz as


impressões genéticas de seu colega e criador, o também dramaturgo Dias
Gomes, capaz de utilizar magistralmente a ironia, o humor e a sátira para
discutir os temas mais candentes e relevantes sem aborrecer as plateias.
Como Dias, Otávio jamais abdica da autocrítica ferina e sarcástica, mesmo
nos mais graves momentos de crise. E como Otávio – um materialista
histórico “ecumênico e sensual”, indisciplinado e rebelde – Dias Gomes
reafirma neste texto a sua fé no teatro e na capacidade de autossuperação
do homem. Criador e criatura são dois livre-atiradores que compartilham as
mesmas perplexidades, as mesmas inquietações e a mesma energia
criadora na tentativa brechtiana de adequar o teatro ao mundo. Para dar-lhe
a dimensão do nosso tempo. Do contrário, a arte para eles seria inócua e a
ação humana desprovida de sentido. (GOMES, 1989, p. 8-9)

As duas últimas décadas do século XX foram marcadas por diversas transformações


no cenário político e mundial. Essas mudanças foram sentidas por Dias Gomes e por uma
geração de artistas e intelectuais, no Brasil e fora deles, ligados à esquerda, a uma arte
engajada, a luta por ideais políticos e ideológicos. Para o dramaturgo e seus iguais, havia o
sentimento de estar passando por uma crise ética e política, que contribuía para modificar a
percepção do mundo e de seu trabalho.

Dessa forma, a maneira que percebia e analisava o país e o mundo em


transformação estão presentes em suas obras dos anos de 1980 e 1990. O processo de
abertura da ditadura militar até a redemocratização do país, passando pelo governo do
General Figueiredo; pelas Diretas Já; pela euforia da eleição de Tancredo Neves e a

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decepção com sua morte; pelo governo de José Sarney; pela eleição, mandato e
impechamant de Fernando Collor e a subida a presidência do seu vice, Itamar Franco; e
pela eleição e reeleição de Fernando Henrique Cardoso, acabam sendo inspiração e estão
representadas em suas peças e projetos televisivos. No plano mundial, a crise do
comunismo internacional, o fim da URSS, a queda do muro de Berlim, também
influenciaram nas suas produções.

Meu Reino por um Cavalo, apesar de seu final – Otávio Santarrita finalmente
consegue escrever sua peça, acabando com sua crise criativa, e se separando da mulher,
ficando com sua amante – é uma obra pessimista com uma conclusão satisfatória. Há, em
seu fim, um sinal de esperança para Otávio e para Dias Gomes. Em outras de suas
produções posteriores, esse tom pessimista ganhará destaque novamente, como na obra
Derrocada, na minissérie e, posteriormente, livro, Decadência. Em 1995, em entrevista ao
programa Roda Viva, o dramaturgo reafirma que a dramaturgia, e as outras artes, estavam
em crise, que provavelmente só passaria no início do século XXI. Para ele, vivíamos “um fim
de século, um característico fim de século, em que realmente não há nada. Nós esperamos
que vá acontecer alguma coisa, e certamente irá acontecer” (GOMES, 2012, p. 152.).
Aquele fim de século, para o novelista, decadência era a palavra que melhor definia o
momento histórico brasileiro e mundial; ela era ética, estava ligada a economia, às artes, e
etc.. Afinal, aquele era um característico momento de transição.

Referências

DELGADO, Lucilia A. Neves & Ferreira, Jorge Luiz (horas.). O Brasil Republicano: o Tempo
da Ditadura. Rio de Janeiro: Editora Civilização brasileira, 2003, v. 4.

GOMES, Dias. Apenas Um Subversivo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.

___________ . Meu Reino por um Cavalo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.

GOMES, Luana Dias; GOMES, Mayra Dias (org.). Dias Gomes. Rio de Janeiro: Beco do
Azougue, 2012.

LABORIE, Pierre. “Memória e Opinião”. In: AZEVEDO, Cecília; BICALHO, Maria Fernanda
Baptista; KNAUSS, Paulo; QUADRAT, Samantha Viz; ROLLEMBERG, Denise. Cultura
Política, memória e historiografia. Rio de Janeiro: FGV, 2009.

RIDENTI, Marcelo. Em busca do povo brasileiro: artistas da revolução, do CPC à era da TV.
Rio de Janeiro: Record, 2000.

PÉCAULT, Daniel. Os Intelectuais e a Política no Brasil. São Paulo: Ática, 1990.

ISBN: 978-85-62707-55-1
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A “revolução” não será comemorada: horizonte de expectativa e as políticas de


memória da grande imprensa brasileira frente ao contexto dos 50 anos do golpe

André Bonsanto DIAS


Doutorando em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (UFF)
andrebonsanto@hotmail.com

A questão da memória e de como o passado nos chega ao presente é questão


extremamente crucial para pensarmos como as práticas comunicacionais se inserem na
sempre conturbada relação que envolve discursos e temporalidades. Somos
contemporâneos de uma fase em que impera uma suposta “cultura da memória”
(HUYSSEN, 2000). Sintoma evidente de um caráter político intrínseco às práticas e
processos comunicacionais que ganham contornos mais claros neste momento atual. A
intensificação desta problemática na sociedade contemporânea se deve ao fato de que,
cada vez mais, há uma grande potencialização de discussão pública e política referente à
questão do lembrar que é perpassado pelo campo midiático. Nesses embates pela
legitimação da memória e do esquecimento as mídias ocupam lugar fundamental e
privilegiado, sendo um dos principais agentes que conferem “memorabilidade” aos fatos. O
presente, como discurso máximo do jornalismo, nunca esteve tão repleto de sentidos
passados.

. Presenciamos recentemente, com as repercussões do trabalho da Comissão


Nacional da Verdade e as efemérides dos 50 anos do golpe militar no Brasil, as
rememorações chegando ao limite da exaustão. Praticamente todos os grandes órgãos de
imprensa editaram edições especiais referentes ao golpe e a ditadura. Pauta, obviamente,
alavancada pelos inúmeros debates em universidades, passeatas e manifestações públicas,
programas de televisão, documentários, lançamentos de livros que recolocaram à cena
pública discussões que já haviam ganhado força latente em nossa sociedade nos últimos
anos. Como bem observou Marly Motta (2014), 1964 nunca esteve tão próximo a nós. Bem
mais perto agora, cinqüenta anos depois, do que em 1974, por exemplo, na época da
primeira comemoração “redonda” do golpe. Evidenciando que não é o distanciamento
temporal o fundamental legitimador das questões de memória, mas sim as suas articulações
políticas no e para o presente.

Partindo dos conceitos de Koselleck (2006) e suas reflexões sobre a “semântica dos
tempos históricos” o que este estudo pretende analisar é, em uma espécie de prelúdio às
comemorações do golpe, como a grande imprensa escrita de nosso país acabou por
instaurar certo “horizonte de expectativa” frente às efemérides. A forma como estas
empresas vêm se utilizando do passado para legitimar acontecimentos no presente são,
infere-se aqui, pensados a partir de estratégias que, muitas vezes, podem acarretar em

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37 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
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certo “abuso” e “manipulação” da memória, (Ricoeur, 2007) visando estritamente a objetivos


atuais e particulares. A questão será problematizar de que forma o passado vem sendo
utilizado nos textos da imprensa em um embate em que muitas vezes se confundem
memória e opinião. A forma como a legitimação da Comissão Nacional da Verdade e as
comemorações do golpe de 1964 serão inscritas na imprensa vão ser fundamentais para
entender como determinada forma de passado será (ou gostaria de ser) entendida e
interpretada pela sociedade. Aqui percorreremos um caminho inicial, delineando alguns
horizontes que nos surgem ainda como interrogações, como veremos.

As batalhas de memória sobre o regime militar: uma memória “liberal”?


Apesar de ambígua e extremamente conflituosa, fica cada vez mais evidente como
vem se articulando os espaços por negociação de uma “verdade” histórica referente ao
período da ditadura militar em nosso país. Se, em um primeiro momento, optou-se pelo
esquecimento sobre aqueles anos, o que vemos hoje é algo como, inversamente, uma
espécie de “dever” de lembrança como política de memória. Hoje, a distância parece
confortar, permitindo olhar o passado sob outras perspectivas.

Em um momento de constante revisão política de nosso passado, - impulsionado


pelos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade - ninguém mais se sente,
aparentemente, confortável em defender uma situação já não mais hegemônica em nossas
políticas de memória. Este fato é problematizado há um bom tempo pela historiografia, mas,
segundo o historiador Daniel Aarão Reis (2004), uma “orientação de hostilidade à ditadura”
se torna hegemônica apenas com as comemorações dos 30 anos do golpe militar, em fins
do século passado. Os vencidos de então foram celebrados, condenando os poderosos que
comandavam o país pelos crimes e torturas e revelando uma arquitetura praticamente
simplificada da memória coletiva. A ditadura é então agora vista como um “tempo das
trevas”, um “fantasma do passado”. “Os militares, estigmatizados gorilas, culpados únicos
pela ignomínia do arbítrio. A ditadura, quem apoiou? Muito poucos, raríssimos, nela se
reconhecem ou com ela desejam ainda se identificar. Ao contrário, como se viu, todos
resistiram.” (AARÃO REIS, 2004, p. 50).

Esta versão, um pouco simplificada dos acontecimentos do passado é, para o


historiador, uma “incômoda” memória que serviu, inclusive, como álibi para muitos atores
que passaram a compactuar desta conjuntura e, sob uma espécie de apagamento dos
rastros do passado, afirmá-la no presente. Assim, como ocorre em muitos casos envolvendo
histórias ditas “traumáticas”, empreende-se uma alternativa de demonizar a ditadura,
celebrando incondicionalmente os valores democráticos. A ditadura apareceria como uma
força estranha e externa, como uma “chapa de metal pesado”, sufocando idéias e atitudes

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daqueles que aspiravam liberdade. Escolheu-se desta forma outro caminho, “mais tranqüilo
e seguro, avaliado politicamente mais eficaz, o de valorizar versões memoriais
apaziguadoras onde todos possam encontrar um lugar.” (AARÃO REIS, 2014, p. 7)

Interpretações do passado que se tornam hegemônicas principalmente nos discursos


memorialistas e nas opiniões da grande imprensa. Em suma, estas lembranças acabam por
suprimir aquelas não sintonizadas com a ideia do “apaziguamento” ou “reconciliação” e que,
em certo sentido, buscam necessariamente um esquecimento pelo viés simplificador da
memória. Uma memória que, compactuando com as problematizações de Marcos
Napolitano (2014), poderia ser denominada de memória “liberal”. Aquela que tende a
privilegiar a estabilidade institucional, criticando posições mais radicais. Aquela que condena
o regime, mas relativiza o golpe; que é porta-voz de um discurso de baluarte da democracia
e de repúdio à ditadura. É uma memória que condena os excessos, de ambos os lados,
contrária a punição dos agentes que cometeram crimes na ditadura e à revisão da Lei da
Anistia – o dito “revanchismo” -, para nos atermos a alguns exemplos mais práticos.

Mas a busca de reconciliação pela memória “liberal” não se daria mais a partir do
esquecimento. Pelo contrário, é preciso que se lembre. Que se lembre para que não mais
aconteça. Para que, enfim, os erros do passado possam ser apreendidos e aprendidos por
uma lembrança daquele sombrio regime ditatorial. É preciso que, na balança conciliatória da
memória, a lembrança se dê por uma política que exuma o peso dos rastros conflituosos. No
entanto, por mais que estas memórias sejam hegemônicas, existe uma série de outras,
subterrâneas, que caminham à margem, clamando por legitimação. Vide, por exemplo, as
diversas manifestações desencadeadas em decorrência das efemérides dos 50 anos do
golpe, muitas favoráveis a uma nova intervenção militar, que chegou inclusive a desenterrar
a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, notória manifestação conservadora em
1964. A própria imprensa, em geral, cede espaço para articulistas que defendem este viés
de interpretação do passado, apesar de que, em muitos casos, são contundentemente
criticados e até ridicularizados, como que portadores de uma espécie de memória
anacrônica e desvirtuada.1

Há, portanto, lutas nesta arena da memória e a imprensa não passa ilesa às críticas
enquanto detentora de uma suposta memória “liberal”. Ao mesmo tempo em que entra em
disputa a busca por uma “verdade” histórica, é preciso considerar que este passado é
muitas vezes rememorado de forma seletiva, visando, sobretudo, um caráter conciliador da

1
A volta da Marcha da Família foi amplamente divulgada pela imprensa, muitas vezes de forma
irônica, como na coluna “Marcha a ré” de Ruy Castro, publicada na Folha em 19 de março de 2014.
Disponível em: www1.folha.uol.com.br/colunas/ruycastro/2014/03/1427499-marcha-a-re.shtml Acesso
em: 3 de abril de 2014.

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memória pautado em objetivos particulares. Essas críticas são geralmente partilhadas por
agentes da mídia alternativa, historiadores e pesquisadores que, em vários momentos,
ganham espaço na própria grande imprensa para partilhar suas opiniões, muitas vezes
conflituosas entre si. Este constante embate de memórias conturba o processo de
reconfiguração do passado, uma vez que amplia a complexidade do processo de
apaziguamento dos rastros memoriais, refutando um pouco a tese, muito difundida hoje
pelos grandes órgãos de imprensa, - apesar da mea culpa já assumida por alguns deles,
como veremos adiante, - ao assumirem-se como grandes protagonistas da resistência e da
democracia em um período de trevas em que, quando não agiam, era porque nada poderia
ser feito para enfrentar as garras de um regime truculento e opressor.2
Versão atualmente refutada de forma contundente como podemos observar, por
exemplo, no recente livro publicado pelo jornalista e professor da PUC-RS Juremir Machado
da Silva. Sua obra “1964: o golpe midiático-civil-militar” é enfática em denunciar o apoio de
praticamente toda grande imprensa à deflagração do golpe que depôs Goulart e que,
posteriormente, atuou em um sutil e bem articulado trabalho de apagamento dos rastros:

O conservadorismo e o golpismo estão no DNA da mídia brasileira. Sempre


disfarçados de radical defesa da Constituição, da legalidade e da
democracia. Depois do estrago feito, os jornalistas sempre encontraram um
jeito de saltar do barco, de inverter o jogo e de reassumir os bons papéis.
Na hora do aperto, a leviandade serve de álibi e de provocação. [...] Alguns
arrependimentos viriam logo e serviriam depois para narrativas de
autoglorificação. Outros, contudo, jamais lamentariam. Ninguém, que se
saiba, pediu desculpas. Apostaram no esquecimento. Afinal, o jornal de
ontem só serve para enrolar peixe. O tempo de desencavar o passado, no
entanto, acaba por chegar desenterrando equívocos e expondo vísceras
ideológicas. (SILVA, 2014, p. 54-55)

Em um campo mais estritamente político, temos o notório caso do grupo “A verdade


sufocada” 3, que busca refutar a hegemonia das ditas memórias de esquerda e pela versão
“imposta” pelos meios de comunicação social, principalmente agora, em tempos de
Comissão Nacional da Verdade. O site em questão tem como um dos objetivos divulgar a
obra intitulada “A verdade sufocada: a história que a esquerda não quer que o Brasil
conheça” (2006). Em sua nona edição, o livro, escrito pelo coronel reformado do Exército
brasileiro Carlos Alberto Brilhante Ustra se coloca como uma resposta ao projeto do governo

2
Ver, por exemplo, entrevista recente de Carlos Heitor Cony à revista Veja: “Tem muita mistificação.
Muita gente que ficou dentro do armário, debaixo da cama, e hoje é vendida na televisão como herói
da resistência. Não houve essa resistência toda, pelo contrario. A turma toda aceitou o golpe ou ficou
em cima do muro.” Disponível em: http://veja.abril.com.br/blog/meus-livros/entrevista/muita-gente-
ficou-dentro-do-armario-e-hoje-e-vendida-como-heroi-da-resistencia-diz-carlos-heitor-cony/ Acesso
em: 1 de abril de 2014.
3
www.averdadesufocada.com

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“Memórias Reveladas”4 e ao livro “Direito à Memória e à Verdade” (2007), publicado pela


Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República do governo Lula, que
impulsionou consideravelmente o acesso aos arquivos secretos da ditadura. A sinopse de “A
verdade sufocada” deixa claro como estão postos os embates entre memórias que aqui
estamos procurando problematizar:

A obra desfaz mitos, farsas e mentiras divulgadas pelos derrotados para


manipular a opinião pública e para desacreditar e desmoralizar aqueles que
os venceram. […] Realmente é uma história que muitos não querem que o
Brasil conheça. É verdade que alguns setores não querem difundi-la. Ainda
continuam tentando sufocá-la. Poucas livrarias se dispuseram a vender o
livro. Algumas vendem, mas não o expõem nas vitrines. É um livro que
incomoda, porque traz à luz a verdadeira história dos “heróis” cultuados
hoje, de seus atos terroristas, de seus crimes e das organizações a que
5
pertenciam.

Desta forma, defendemos aqui a posição de que a memória é relacionada sempre a


partir de um contexto, de um presente particular onde, dialogicamente, disputam estratégias
e negociam-se sentidos. Para o sociólogo Nilson Alves de Moraes (2005), toda memória
social se articula na perspectiva de uma disputa “em que algumas idéias, estratégias e
sentidos são permitidos, enquanto outros são omitidos, silenciados, ocultos ou
manipulados.” (MORAES, 2005, p. 96). Assim, a memória se constitui como poder e luta
pela imposição de determinada hegemonia. Já sua eficácia, depende das formas, usos e
apropriações de controle da memória social, papel desempenhado hoje com grande
protagonismo por nossas mídias. Pois, como afirma o pesquisador Roger Silverstone
(2002), a memória é um objeto “para ser fixado e investigado, desafiado e analisado”, é um
lugar de lutas “amargas” em que em um passado pretende “ser reivindicado para o presente
e o presente ser reivindicado para o futuro. Mas que passado, e de quem?”
(SILVERESTONE, 2002, p. 231)

A imprensa e sua “liberal” política de memória: entre lembranças e esquecimentos.


É sob este panorama crítico dos embates pela legitimação das memórias que a
imprensa se posiciona neste momento. Podemos pontuar aqui a título de exemplificação
dois editoriais publicados no momento de implementação da Comissão Nacional da
Verdade, em maio de 2012 e que evidenciam de forma clara o caráter “liberal” assumido por

4
www.memoriasreveladas.arquivonacional.gov.br
5
Disponível em:
www.averdadesufocada.com/index.php?option=com_content&task=view&id=5&Itemid=6 Acesso em
04 Abril 2014.

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dois dos principais órgãos da grande imprensa de nosso país. Em 16 de maio, editorial da
Folha de S. Paulo pede “mais luz” afirmando que a Comissão, ao buscar analisar os crimes
precisa “transcender debate viciado sobre revanchismo e reforçar o valor dos fatos contra
toda forma de obscurantismo.”6 O editorial mostra-se cético, ao afirmar que antes mesmo de
empossada, a Comissão já estava envolta em polêmicas, o que atestava a “impropriedade”
de seu nome. De acordo com o jornal, não será possível excluir da análise os casos de
crimes cometidos pelas esquerdas, que lutando contra o regime, vitimaram inocentes. Ao
final, afirmava: “duvidoso que a comissão consiga produzir grandes revelações. No quarto
de século transcorrido, muita documentação já veio à luz, e o que não veio pode estar
perdido.” 7

Já O Globo, em editorial publicado no mesmo dia, é mais enfático quanto


suas proposições ao discernir sobre “o que se espera da Comissão Nacional da Verdade.”
Para o jornal, a proposta da Comissão, em si, já é um grande avanço parra um regime
democrático aperfeiçoar suas idéias, mas que, salvo observação, esta não se dê sobre uma
visão revanchista, que segundo a empresa, vem contaminando a proposta por alguns
órgãos do governo. Mas, de acordo com o editorial, este não seria problema maior, uma vez
que o revanchismo jamais teve validade jurídica. Defendido pela Leia da Anistia de 1979 e,
mais recentemente, respaldado pela decisão do Supremo Tribunal Federal, “a questão da
punição deixou, de uma vez por todas, de fazer sentido.” 8

É este o teor sob o qual se posiciona a imprensa de nosso país, ao carregar e


propagar um forte caráter “liberal” das memórias: contrária à ditadura, mas ao mesmo tempo
contra todas as formas de radicalizações e revanchismos que poderiam desvirtuar-se no
presente. A Comissão, sintoma da maturidade política de nosso país deverá, segundo os
jornais, ser feita então sem violência e na base da legalidade.9 Discurso muito próximo, vale
lembrar, assumido por estes mesmos órgãos na defesa dos preceitos “democráticos” em
março de 1964. É preciso investigar, portanto, como esse passado nos chega ao presente e
sob quais conjunturas. O forte teor celebrativo do passado, presenciado nos últimos anos
com a proximidade das efemérides máximas dos 50 anos do golpe caminha,
coincidentemente, a políticas particulares de construção de identidades históricas em alguns

6
MAIS LUZ. Folha de S. Paulo, ano 92, nº 30.359, p. A2, 16 de maio de 2012.
7
Idem.
8
O QUE SE ESPERA da Comissão da Verdade. O Globo, ano LXXXVII, n º 28.772, p. 6, 16 de maio
de 2012.
9
Em editorial recente, O Globo posicionou-se mais uma vez de forma contrária à revisão da Lei de
Anistia ao afirmar que esta tem “legitimidade política e histórica”. Para o jornal, a discussão a respeito
de sua revogação “não se sustenta, mas que, infelizmente, ainda alimenta tentativas de uma revisão
tão impossível quanto indesejada. [...] E é indesejada porque o Brasil hoje é uma nação pacificada,
em plena democracia.” (ANISTIA tem legitimidade política e histórica. O Globo, ano LXXXIX, n º
29.45, p. 16, 2 de abril de 2014.

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órgãos de nossa imprensa. Se nos atermos no caso da grande imprensa escrita, foco de
nossa discussão, podemos situar como marco o exemplo pioneiro e aparentemente trivial da
Folha de S. Paulo que, ao completar 90 anos, em 2011, digitalizou todo seu acervo para
consulta10. O Estado de S. Paulo11, em maio de 2012 e O Globo, em 2013, também se
utilizaram da mesma política 12.

Acredita-se que estas ações, muito mais do que realizar um trabalho memorialístico,
tem o evidente interesse de construir uma história particular para os referidos periódicos,
com objetivos estritamente político-identitários levando em conta as situações atuais. Com a
proximidade das “comemorações” dos 50 anos do golpe civil-militar no Brasil e as
investigações da Comissão Nacional da Verdade há, supõe-se aqui, a articulação de uma
política de memória clara desses jornais, buscando um desvencilhamento de seu passado
político de apoio ao regime militar. A disponibilização – por parte das próprias empresas - de
toda sua trajetória em um simples clique, para qualquer leitor interessado, evidencia que
suas histórias e identidades podem ser postas à prova a qualquer momento e já não é mais
possível uma tática de apagamento dos rastros deste passado. A preocupação agora é de
uma apropriação seletiva destas lembranças, visando objetivos atuais e particulares.

Derrida (2001), em suas “impressões freudianas” sobre os arquivos acredita que,


enquanto impressão e local de estocagem e conservação os arquivos não atuariam apenas
como um conteúdo “arquivável” do passado, mas também como penhores do futuro. “O
arquivamento tanto produz quanto registra o evento. É também nossa experiência política
dos meios chamados de informação.” (DERRIDA, 2001, p. 29). Portanto, a implementação e
utilização de um arquivo surge enquanto uma experiência bastante peculiar de “promessa”
de futuro. “Trata-se do futuro, a própria questão do futuro, a questão de uma resposta, de
uma promessa e de uma responsabilidade para amanhã. O arquivo, se queremos saber o
que isto teria querido dizer, nós só o saberemos num tempo por vir.” (DERRIDA, 2001, p.
50-51)

Assim, a forma como estas empresas midiáticas vêm articulando sua relação com o
passado ganha outros contornos, pautadas sob demandas conjunturais. Na Folha, o caso
da ditabranda, polêmico editorial publicado pelo jornal em 2009 e que repercute –
negativamente - até hoje, gerou uma série de manifestações a respeito dos usos políticos do
passado na imprensa e de como este processo de uso e apropriação da memória coletiva
caminha intrínseca e ambiguamente relacionado à construção da identidade de seus

10
http://acervo.folha.com.br/
11
http://acervo.estadao.com.br/
12
http://acervo.oglobo.globo.com/

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13
discursos. No Estado de S. Paulo, a morte de Ruy Mesquita, então diretor da empresa,
em maio de 2013, evidenciou, em vários textos, um exacerbado discurso de autodefesa
pelos princípios da “liberdade democrática” de cunho fortemente político.14 E mais
recentemente presenciou-se o caso emblemático de O Globo que, em uma atitude até então
inédita na grande imprensa de nosso país, procurou efetivar uma autocrítica em relação ao
seu apoio ao golpe militar de 1964.

O editorial de O Globo, publicado no último dia 31 de agosto, afirma que esta


autocrítica surge de uma ampla e antiga discussão interna da empresa, que veio à tona
devido ao “clamor das ruas” das recentes manifestações populares de junho passado.
Momento oportuno, afirmou o jornal, para evidenciar seu “incondicional e perene apego aos
valores democráticos”. A lembrança de apoio ao golpe fora sempre um “incomodo” para o
jornal, mas agora, fazendo parte da “história”, não havia mais como refutá-la. O texto, ao
final, justifica-se:

Contextos históricos são necessários na análise do posicionamento de


pessoas e instituições, mais ainda em rupturas institucionais. A História não
é apenas uma descrição de fatos, que se sucedem uns aos outros. Ela é o
mais poderoso instrumento de que o homem dispõe para seguir com
segurança rumo ao futuro: aprende-se com os erros cometidos e se
enriquece ao reconhecê-los. Os homens e as instituições que viveram 1964
são, há muito, História, e devem ser entendidos nessa perspectiva. O
GLOBO não tem dúvidas de que o apoio a 1964 pareceu aos que dirigiam
o jornal e viveram aquele momento a atitude certa, visando ao bem do
país. À luz da História, contudo, não há por que não reconhecer, hoje,
explicitamente, que o apoio foi um erro, assim como equivocadas foram
outras decisões editoriais do período que decorreram desse desacerto
original. A democracia é um valor absoluto. E, quando em risco, ela só
15
pode ser salva por si mesma.

Esse recente caso ainda repercute amplamente, sendo constantemente reutilizado


pela empresa ao longo das efemérides para reafirmar seu apego aos ideais democráticos.
Em tempos de Comissão da Verdade, fóruns, blogs e publicações alternativas discutem
estarrecidos a atitude da empresa e as intrínsecas relações da imprensa com a ditadura
militar. Uma nota do Clube Militar chegou a causar grande repercussão, ao acusar o jornal e
sua “mudança de posição drástica”: “Equívoco, uma ova! Trata-se de revisionismo,

13
Para uma análise a respeito das “políticas de memória” utilizadas pela Folha ao longo da história e
suas repercussões no caso da ditabranda, consultar Dias (2014).
14
Vale uma consulta à edição imprensa de 22 de maio de 2013, onde o jornal publicou um caderno
especial contendo diversas matérias e artigos, vários de forte tom memorialístico, relembrando
qualidades ímpares do ex-dirigente.
15
APOIO EDITORIAL ao golpe de 64 foi um erro. O Globo. 31 de agosto de 2013. Disponível em:
www.oglobo.globo.com/pais/apoio-editorial-ao-golpe-de-64-foi-um-erro-9771604 Acesso em 10 set
2013.

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16
adesismo e covardia do último grande jornal carioca.” Na Folha, único jornal entre os
grandes que possui um ombudsman ativo, Suzana Singer, responsável pela sessão, chegou
a afirmar que este fora um caso em que, pela primeira vez se viu “tamanho ato de contrição
na imprensa brasileira. Trata-se do principal conglomerado de mídia assumindo um erro
editorial -não de informação- sobre um momento decisivo da história recente do país.”17
Atitude que, segundo a jornalista, a própria Folha “o jornal mais aberto a críticas” não tivera
a coragem de assumir, mesmo durante as polêmicas envolvendo a ditrabranda, em 2009.
Se há interesses ou não, em virtude das vésperas dos 50 anos do golpe, este ato de
“estrondosa mea-culpa” é um importante passo a caminho da transparência, acredita a
jornalista: “Quem sabe “o futuro já começou”, como diz o slogan de fim de ano da
emissora.”18

O horizonte de expectativa da imprensa frente às efemérides dos 50 anos:


considerações preliminares.

Objetivando uma apropriação sutil das conceituações do historiador Reinhart


Koselleck (2006), podemos aferir que a empresa utilizou-se de certo prognóstico para
orientar-se frente a um futuro que estaria evidentemente se descortinando. A “difícil arte do
cálculo político”, segundo o historiador, implica sempre em um diagnóstico que inscreve o
passado no futuro que, por sua vez, associa-se a determinada situação política. Desta
forma, “fazer um prognóstico já significava alterar uma determinada situação. O prognostico
é um momento consciente de ação política. Ele está relacionado a eventos cujo ineditismo
ele próprio libera. O tempo passa a derivar, então, do próprio prognóstico.” (KOSELLECK,
2006, p. 32)

Um prognóstico só pode ser inferido a partir daquilo que Koselleck (2006) denomina
de “espaço de experiência” – o passado “atual, aquele no qual acontecimentos foram
incorporados e podem ser lembrados” (p. 309) - e um “horizonte de expectativa” – que se
“realiza no hoje, é futuro presente, voltado para o ainda-não, para o não experimentado,

16
NOSSA OPINIÂO – equivoco, uma ova! Disponível em: http://clubemilitar.com.br/nossa-opiniao-
equivoco-uma-ova/ Acesso em 10 set 2013.
17
SINGER, Suzana. Fantasmas do passado. Folha de S. Paulo. 08 de setembro de 2013. Disponível
em: www1.folha.uol.com.br/fsp/ombudsman/127978-fantasmas-do-passado.shtml Acesso em 10 set
2013.
18
Idem. Vale ressaltar que no último dia 30 de março a Folha assumiu publicamente, pela primeira
vez, seu erro em editorial. O texto, mantendo o caráter “liberal” sob o qual já problematizamos,
afirmava: “O regime militar (1964-1985) tem sido alvo de merecido e generalizado repúdio. [...] às
vezes se cobra, desta Folha, ter apoiado a ditadura durante a primeira metade de sua vigência,
tornado-se um dos veículos mais críticos na metade seguinte. Não há dúvida de que, aos olhos de
hoje, aquele apoio foi um erro. Este jornal deveria ter rechaçado toda violência, de ambos os lados,
mantendo-se um defensor intransigente da democracia e das liberdades individuais." (1964. Folha de
S. Paulo, ano 94, nº 31.042, p. A2, 30 de março de 2014)

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para o que apenas pode ser previsto.” (p. 310) Desta forma, prognósticos estão
relacionados diretamente ao presente, onde se entrelaçam relações de ação concreta entre
passado e futuro. São as experiências que orientam os prognósticos, mas estes também
são determinados pela necessidade de se esperar algo. “Voltada para um campo de ação
mais amplo ou mais estreito, a previsão libera expectativas, a que se misturam também
temor ou esperanças.” (KOSELLECK, 2006, p. 313) É pensando justamente nesta
confluência temporal dos prognósticos que, acredita-se aqui, políticas de memória estão
sendo articuladas. A ação revisionista de O Globo, decorrente de um amplo projeto de
resgate e preservação de sua história19 foi, antes de tudo, uma tentativa particular de
construção identitária que visa, a partir da resignificação da memória, afirmar seus valores
em um presente particular. Estas questões evidenciam como são constituídos,
politicamente, os embates comunicacionais a respeito da legitimação de uma “verdade”
sobre o passado por parte destas empresas. O que estes grupos almejam é elaborar um
discurso hoje aceito como “verdadeiro”, impedindo outras “verdades” de emergir, em um
constante jogo de disputas e negociação de sentido. 20

As políticas implementadas pela Comissão Nacional da Verdade vêm colocando à


cena pública inúmeras discussões revisionistas sobre período da ditadura, ganhando outros
contornos em nosso presente. A imprensa, obviamente, possui um papel importante na
ampliação deste debate, uma vez que ao noticiá-los e discuti-los auxilia no processo de
consolidação dessas lembranças. Muitas vezes, a imprensa assume-se com certo grau de
protagonismo, divulgando documentos inéditos e novas interpretações – como nos casos do
ex-deputado Rubens Paiva e do atento ao Riocentro, por exemplo. Mas todo jogo de
memória, como bem destacamos, é ambíguo, complexo e conflituoso. Por mais que a
imprensa carregue consigo esta memória “liberal”, uma memória apaziguadora e baseada
na dita legalidade democrática, as mídias trabalham concomitantemente com a memória e a
opinião (LABOIRE, 2009), que muitas vezes se manifesta de forma contrária aos jogos do
passado no presente.

Através da rememoração e dos usos do passado no presente, a mídia noticiosa


acaba por transmitir representações particulares sobre o passado e, desta forma, acaba por
intervir na fabricação da opinião sobre determinado tema. Para o historiador Pierre Laborie
(2009), o problema maior se dá quando a opinião acaba por se apropriar da memória,
transformando opinião em uma verdade sobre o passado, muitas vezes tida como verdade
única e irrefutável. O processo de midiatização da memória aumenta seu poder de
19
Para mais, consultar o site do projeto http://memoria.oglobo.globo.com/
20
Como afirma Silverstone, (2002, p. 235) a pretensão da memória na mídia é a da “retórica da
verdade”: “Lembrar. Definir o passado. Foi assim. Imaginem.”

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recepção e influência, mas também “transforma sua natureza fazendo da verdade sobre o
passado uma questão de opinião [...] O que era uma narrativa, uma representação ou um
ponto de vista sobre o passado torna-se a história desse passado (LABOIRE, 2009, p. 92).
Como portadora de uma opinião em particular e construtora de memórias, a imprensa
deveria estar atenta a estas ambíguas relações. Até que ponto os textos propagados por
esses jornais estão confundindo memória e opinião? Há a busca por uma verdade histórica
sobre este passado? Como vimos, neste embate sempre conflituoso de legitimação das
memórias da ditadura, vários pontos de vista buscam, a partir de suas lembranças, uma
“verdade” sobre os fatos do passado. Esta questão é crucial para se pensar a problemática
política da memória coletiva em um contexto comunicacional.

O objetivo desse texto não foi analisar as efemérides em si. Procurou-se apenas
delinear um horizonte, elucidar expectativas para análises futuras. É pensando estas
questões, aqui problematizadas de forma breve, que se buscará, em análises posteriores,
perceber como os acontecimentos referentes ao passado da ditadura militar no Brasil serão
lembrados, noticiados e enquadrados frente a políticas próprias de articulação e legitimação
de um presente particular que, como vimos, parece ser uma preocupação evidente de certas
empresas. Analisar os “usos” deste passado pela imprensa em relação a uma preocupação
intrinsecamente relacionada à verdade que estas pretendem legitimar sobre o (seu)
passado. O que, para estas empresas, é considerado digno de ser lembrado e como elas
relacionam estas questões à memória do acontecimento? 21

A proposta será perceber como estes acontecimentos, cruciais para a consolidação


de uma memória coletiva de nosso passado, irão repercutir nas páginas da grande imprensa
e, mais, como eles serão pensados em um processo que caminhe à construção de uma
identidade própria de legitimação dos discursos da imprensa frente àqueles anos. As
comemorações do acontecimento estarão condicionadas a um enquadramento particular,
visando objetivos particulares? Qual “verdade” será posta em evidência e como ela será
articulada, em um discurso que buscará se utilizar do passado para legitimar práticas
discursivas do presente? Entender essas práticas e apropriações seletivas do passado nas
narrativas midiáticas é entender de que forma as mídias auxiliam ou às vezes acabam por
conflitar ainda mais a interpretação dos acontecimentos cotidianos.

Referências

21
Reflexões que pretendem ser respondidas pelo autor em sua tese de doutorado a ser defendida no
Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFF.

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In: GONDAR, Jô; DODEBEI, Vera (orgs.). O que é memória social? Rio de Janeiro: Contra
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2014.

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SILVERSTONE, Roger. Por que estudar a mídia? São Paulo: Edições Loyola, 2002.

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Entre o consenso e o conflito: Os ministros do Superior Tribunal Militar no processo


de liberalização da ditadura militar brasileira (1974-1979)

Angélica do Carmo COITINHO


Doutoranda em História, Política e Bens Culturais pelo Centro de Pesquisa e Documentação
de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV)
angelicadocarmo1@yahoo.com.br

Este artigo tem como objetivo uma introdução aos resultados das pesquisas que
venho realizando sobre os ministros do Superior Tribunal Militar (STM) no período entre
1974 e 1979, anos do governo Geisel, quando teve início o processo de distensão do regime
militar brasileiro. Tenho como objetivo compreender as flutuações do projeto de
institucionalização da ditadura, da abertura e da redemocratização, através de um estudo
sobre as decisões dos ministros do STM, onde são analisadas suas ambivalências, a
diversidade entre eles e se essas decisões mantinham uma relação harmônica com a
dinâmica do período, exercendo influência nesse projeto de liberalização ou ainda se
deixando influenciar por ele.

Ao STM foi atribuído pelo Ato Institucional nº 2, editado em 27 de outubro de 1965, a


responsabilidade pelo julgamento de civis acusados de crimes políticos. Inicialmente os
crimes estavam previstos na Lei nº 1802 de 1953, que definia os crimes contra o Estado e a
ordem política e social; mais tarde os crimes passaram a ser definidos na Lei de Segurança
Nacional1. Com o AI-2 ficou estabelecida a nova composição do STM, antes composto por
11 ministros, passou a contar com quinze ministros vitalícios, indicados pelo presidente da
República, entre os quais, três oficiais generais da Marinha, três oficiais generais da
Aeronáutica, quatro oficiais generais do Exército e cinco juízes civis. A Justiça Militar teve
papel fundamental na conjuntura política do período, razão pela qual analisá-la significa
compreender um importante espaço de decisões, já que nos julgamentos eram definidos
quais seriam os limites da oposição ao Estado.

A Justiça Militar foi organizada ainda no século XIX, em 1808, ano da chegada da
Família Real. Sua atuação nunca se deteve apenas ao julgamento de crimes cometidos por
militares, “ao longo de sua existência, prevaleceu certa fluidez na definição dos crimes
políticos que ora pertenciam à alçada da justiça comum, ora da militar” (SILVA, 2010, p. 17).
Também não foi nova a atribuição de atuar no julgamento aos opositores de um regime de
exceção. Durante o Estado Novo (1937-1945), o STM atuou como um tribunal de segunda

1
As Leis de Segurança Nacional foram formuladas pelo Executivo através dos Decretos-Leis n° 314
de 13 de março de 1967, n° 510 de 20 de março de 1969, n° 898 de 29 de setembro de 1969 e pela
Lei nº Lei 6.620 de 17 de dezembro de 1978.

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instância, julgando os recursos que advinham do Tribunal de Segurança Nacional, criado em


1936.

Para estudar o STM é necessário que ele não seja visto tão somente como mais um
órgão da repressão a serviço do Executivo. Os ministros atuavam com base nas leis de um
estado de exceção, mas alguns deles tentaram minimizar o autoritarismo desses
instrumentos legais de modo que pudessem julgar como no período anterior ao golpe de
1964, quando vigorou um Estado democrático (1945-1964), garantindo direitos mínimos aos
cidadãos, como pude concluir nas pesquisas feitas nos processos do STM disponíveis no
Fundo Brasil Nunca Mais no Arquivo Edgar Leuenroth (AEL/Unicamp).

A pesquisa que viso realizar é uma ampliação daquela que foi feita durante o
mestrado, na qual analisei a trajetória de um de seus ministros no STM, o General de
Exército Rodrigo Octávio Jordão Ramos, de 1973 a 1979 (COITINHO, 2012). As conclusões
às quais cheguei me fizeram optar por continuar a estudar o mesmo tema, ampliando-o para
o conjunto de ministros desse Tribunal. Naquela ocasião pude concluir que o referido
General foi um exemplo de um projeto de abertura fracassado, já que seus constantes
pedidos para a apuração de denúncias de torturas e as críticas aos procedimentos
realizados durante os Inquéritos Policiais Militares (IPM) e nos julgamentos, em sua maior
parte, não foram considerados pelos outros ministros.

O General Rodrigo Octávio, na maioria dos julgamentos, mas não em todos, esteve
atento aos formalismos jurídicos, considerando fundamental a manutenção do poder
Judiciário, atribuindo um papel de extrema importância a essa instituição tanto na
institucionalização do regime quanto no caminho rumo a um Estado de direito. Apesar de
reconhecer que os juízes atuavam sobre os “escombros da ordem jurídica desmoronada”,
acreditava que cabia a ele e aos seus pares julgar da maneira mais honesta possível, dentro
dos limites de uma legislação excepcional, tentando corrigir os seus possíveis erros e
excessos que causavam uma “violência inútil” (RAMOS, 1975, p. 16).

Analisando os processos, notei que não era somente o General Rodrigo Octávio que
pensava dessa maneira. Outros ministros fizeram declarações de cunho crítico sobre os
procedimentos antijurídicos, como as torturas e as confissões extrajudiciais que muitos
insistiam em usar para confirmar uma condenação, e as conclusões às quais o STM
chegava. Havia também, não podemos esquecer de maneira alguma, aqueles ministros que
destoavam desse conjunto e acreditavam que os limites da oposição ao Estado eram
mínimos. Por isso, considerei necessário ampliar a pesquisa para o conjunto de ministros

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que atuaram no Tribunal castrense durante o governo Geisel, quando teve início o processo
de liberalização do regime.

Uma das principais conclusões a que cheguei é a de que os ministros atuavam


diretamente como definidores dos limites do Estado como cerceador dos direitos de todos
os cidadãos, principalmente aqueles que eram membros da resistência, em um período no
qual muitos desses procuravam maneiras novas de opor-se politicamente ao Estado, não
mais através da luta armada. Ampliando agora a análise para o conjunto de ministros,
pretendo verificar de que maneira os ministros reagiram ao processo de abertura colocado
em prática pelo governo e também como desejavam influenciar nesse processo, já que é
certo que os ministros poderiam interpretar as Leis de Segurança Nacional de modo que as
tornassem mais brandas ou não, como pode ser notado nos acórdãos do STM.

Além das conclusões, há algumas hipóteses às quais cheguei após a análise dos
documentos utilizados durante a pesquisa realizada no mestrado, que servem como ponto
de partida para desenvolver os objetivos desse trabalho. Primeiro, avalio que os ministros
influenciaram diretamente no projeto de abertura política, uma vez que podiam definir os
limites entre o arbítrio do Estado e os direitos dos cidadãos, no tocante à aplicação da
legislação em vigor. Em segundo lugar, considero ainda que muitos ministros ora tendiam
para um lado, ora para outro – atentando sempre para uma pluralidade de posições políticas
e ideológicas e que nenhum permanecia estaticamente em qualquer uma delas - pois havia
a interpretação que podiam fazer do texto jurídico. Por isso, é importante não polarizá-los ou
encaixá-los em quaisquer definições que poderiam empobrecer a análise dessa instituição
durante o período em questão.

Desse modo, é fundamental fugir definitivamente das polarizações rigorosas


atribuídas aos militares, e nesse caso também aos magistrados civis, principalmente aquela
que os divide entre “duros” e liberais. Há, por outro lado, uma multiplicidade de tendências
políticas no Tribunal, isso significa que mudam de pensamento até mesmo em julgamentos
diferentes envolvendo casos muito parecidos, como a validade ou não das confissões
extrajudiciais para condenar um réu. A pesquisa buscará compreender quais eram essas
tendências políticas existentes, lembrando sempre que as opiniões mudam de acordo com
os acontecimentos que eram colocados à frente dos ministros, sujeitos às interpretações
que podiam fazer da lei diante de um determinado fato considerado criminoso e do contexto
que lhes era apresentado.

Após a análise dos acórdãos realizados entre os anos de 1973 a 1979, nos quais
havia justificativas de votos do ministro General Rodrigo Octávio, pude concluir que é

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importante considerar os embates que se travavam entre os ministros até que chegassem a
um veredicto. As decisões eram repletas de nuances ou discordâncias nada sutis que
evidenciavam as disputas existentes no Tribunal e a diversidade entre os ministros no que
diz respeito às interpretações jurídicas e sobretudo aos seus pensamentos sobre a
sociedade e o regime em vigor. Por isso, considerei ser importante dar continuidade ao
trabalho para que pudessem ser analisados não somente os ministros que se
harmonizavam com as decisões de Rodrigo Octávio, mas também aquelas vozes
dissonantes, considerando o processo de liberalização em curso.

Sendo assim, o trabalho a ser realizado pode contribuir com o preenchimento de


algumas lacunas que penso ainda existirem nos estudos sobre o Superior Tribunal Militar
durante o período da ditadura militar. Apesar de já terem sido expostos ao longo do texto, os
itens a serem considerados são os seguintes: tenho a intenção de avaliar o que venho
chamando de vozes dos ministros e verificar o modo como agiram e influenciaram no
processo de liberalização política da ditadura militar, analisando se suas decisões
mantinham uma relação com as incertezas do processo de abertura. A partir daí, será
possível considerar a multiplicidade de pensamentos políticos existentes entre os ministros
militares e magistrados civis, compreendendo ainda como concebiam a sua atuação e a da
Justiça Militar.

O estudo dos militares nas ciências humanas e sociais vem despertando cada vez
mais o interesse daqueles que pesquisam a História do Brasil, desde o Império até a
República, passando pelos tempos de ditadura que o país viveu durante o século XX.
Novas abordagens vêm sendo realizadas a partir de diferentes enfoques metodológicos,
como o uso dos processos criminais e da história oral, dando lugar a trabalhos que analisam
o papel das Forças Armadas, das instituições militares e dos indivíduos que as integraram,
bem como a relação dessas instituições e dos militares com a sociedade civil. Mais
recentemente, um novo tema vem ganhando espaço: a Justiça Militar.

Muitos autores, entre sociólogos, juristas e historiadores, escreveram sobre a Justiça


Militar, levantando questões, hipóteses, afirmando algumas de suas impressões e,
principalmente, abrindo espaço para que novos trabalhos sobre o tema fossem realizados a
partir de uma pesquisa em seus arquivos, quando esses estivessem disponíveis para
consulta. Entre outros temas, verificam o padrão decisório da Justiça Militar, como os
julgamentos eram conduzidos, a repressão judicial e extrajudicial, o papel dos ministros do

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STM e se interrogam sobre em que medida o Tribunal contribuiu para a institucionalização e


legitimação do regime. 2

Apesar de neste artigo ter tratado apenas do período que já venho pesquisando há
algum tempo, referente ao governo Geisel, considero que as tensões pela condução do
projeto de abertura não terminaram em 1979, muito menos houve a finalização desse
processo com a entrada de Figueiredo na presidência. Deste modo, a pesquisa que realizo
é dividida em três períodos Um primeiro de 1974 a 1979; um segundo que compreende
1979, envolvendo especificamente o período posterior à decretação da Lei de Anistia; e um
terceiro de 1980 a 1984. Esses períodos foram divididos com base no contexto político e
jurídico do regime militar, que influenciaram nos julgamentos do STM, ou seja, na maneira
como os juízes julgavam os opositores do regime. Considero, ainda, que essas decisões
influenciavam e mostravam as disputas existentes em torno do projeto de distensão,
institucionalização do regime e de redemocratização, que não foi feito sem tensões. O STM
constituía uma arena de disputa pelo “direito de dizer o direito” (BOURDIEU, 2010, p. 212) e
ainda contribuía para o poder de legitimação do regime, já que dava um aspecto de
normalidade ao julgamento de civis acusados de crime contra o Estado; por outro lado, o
processo constituía uma garantia para os presos políticos de que não mais seriam mortos
nos porões da ditadura militar.

Em 1974 Geisel assume a presidência e enfrenta uma conjuntura internacional


desfavorável, com o presidente norte-americano criticando as violações aos Direitos
Humanos e a Comissão Internacional de Anistia divulgando denúncias sobre a prática de
torturas no Brasil. Internamente o MDB, partido de oposição ao governo, havia alcançado
vitória nas urnas em eleições no final de 1973. A luta armada já havia sido liquidada pelo
aparato repressor, estavam quase todos mortos, presos ou exilados, crescia então a luta
contra o regime, mas dentro da legalidade, a partir do próprio MDB e em movimentos da
sociedade civil, como o Movimento Feminino pela Anistia, criado em 1975. Já em agosto de
1974, Geisel anuncia uma distensão lenta, gradual e segura.

Lenta, sem pressa, devagar; gradativa, por etapas, de modo que se


pudesse avaliar, a cada momento, o caminho percorrido, as novas
circunstâncias, os objetivos alcançados e os desafios a serem
enfrentados; e segura, sob controle, com a máxima segurança
possível (REIS FILHO, 2014, p. 99).

2
Entre os autores que analisam a Justiça Militar, podemos citar: OLIVEIRA (1980, 1994); PEREIRA
(2010); SILVA (2007, 2010, 2012); LEMOS (2004); MACIEL (2003); D’ARAUJO (2006); ALVES (2009);
MATTOS (2002); WANDERLEY (2012).

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Esse processo de liberalização não se deu, no entanto, sem conflitos, até mesmo
entre os ministros do STM havia aqueles, tanto civis quanto militares, que se opunham ao
ritmo desse processo. Essas divergências podem ser sentidas nos processos criminais e
também nos artigos que os ministros escreviam. Alguns acreditavam na eficácia do projeto
de liberalização, outros o consideravam um risco à institucionalização do regime e à
consecução dos objetivos de 1964, como muitos ministros diziam. Tais “contradições
continuariam a se manifestar por longos anos, até início dos anos 1980” (REIS FILHO, 2014,
p. 102).

A Lei de Anistia de 1979 introduz um elemento novo na jurisdição do STM e levanta


opiniões contrárias entre seus ministros quanto ao conteúdo da Lei. Além disso, a Lei de
Segurança Nacional de 1978, já havia introduzido um novo aparato legislativo, sob o qual os
ministros necessitavam se debruçar. Em 1979 é criada uma Comissão, dois dias antes da
promulgação da Lei de Anistia, integrada por dois ministros do STM para decidir sobre o
encaminhamento dos processos à luz da nova lei, que concedia anistia àqueles
processados e julgados por crime político. Depois desse período, a partir de 1980, os
processos referentes a crimes políticos diminuíram consideravelmente, porém, como analisa
a historiadora Angela Moreira Domingues da Silva, as decisões do STM pareciam atuar na
contramão do processo de redemocratização durante o período do governo Figueiredo.

Apesar da concessão da anistia, a manutenção da LSN [Lei de


Segurança Nacional] permitiu que trabalhadores, estudantes,
jornalistas, religiosos e até parlamentares continuassem sendo
perseguidos com cobertura da Justiça Militar. Na visão de Heleno
Fragoso, o STM que havia sido, “nos primeiros tempos, um autêntico
e bravo tribunal, onde o cidadão perseguido encontrava justiça”,
mudou sua postura (SILVA, 2010, p. 154).

No período do governo Figueiredo, ainda podemos perceber entre os ministros do


STM conflitos quanto aos rumos do processo de redemocratização. Uma nova Lei de
Segurança Nacional foi promulgada em 1983. O STM durante o período entre 1980 e 1984,
ano em que consta um último processo contra um civil acusado de crime contra a
Segurança Nacional, ainda esboça tendências contrárias ao processo de redemocratização,
mas também há conflitos para que ele possa ser efetivado, inclusive com a tentativa de
apuração do conhecido caso do Riocentro, onde enquanto acontecia um grande evento de
música, uma bomba explodiu no colo de um militar no estacionamento do local.

Uma instituição não é algo abstrato ou que possa ser analisado como um corpo
homogêneo, pois são os indivíduos que a constroem. É preciso analisar os embates
travados no interior do próprio STM, ou seja, entre os indivíduos que ali exerciam funções

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jurídicas, para que se possa compreender como chegavam a uma decisão, considerando
suas ideias sobre a sociedade e a política naquele contexto. Essas foram as primeiras
observações feitas a partir dos documentos já analisados, servindo para nortear a pesquisa
e estabelecer o quadro teórico para direcionar o trabalho com os documentos, verificar o
funcionamento do Tribunal e a própria dinâmica entre os juízes militares.

Utilizo a caracterização de “militares”, feita pelo antropólogo Celso Castro,


reconhecendo que embora possa ser atribuída uma unidade aos militares, não constituíam
um corpo coeso, razão pela qual esse não deve ser o ponto de partida de uma investigação.
Havia um “campo de possibilidades aberto aos atores sociais” e também “uma considerável
margem de manobra para a formulação de projetos individuais e coletivos” (CASTRO, 1995,
p. 10).

Ao estudar as vozes dos ministros, ou seja, o que falavam nos processos e nas suas
publicações poderemos compreender os militares em sua pluralidade, não os identificando
em grupos fechados nem em um mesmo grupo a todo momento. Nesse sentido, parto do
princípio de que não há como polarizar os militares em composições ideológicas e políticas
bem delimitadas, indo ao encontro das conclusões do cientista social João Roberto Martins
Filho, que procura “trazer à luz as características de heterogeneidade, divisão e fluidez
especificamente militares que caracterizam as práticas políticas castrenses” (MARTINS
FILHO, 1995, p.36).

O primeiro passo ao analisar militares é abandonar a perspectiva que confere


oposição rígida entre “linha-dura” e “castelistas”, pois é sempre possível modificar e ampliar
essa análise, buscando identificar possíveis nuances. Como afirma João Roberto Martins
Filho, “a paisagem das correntes militares nas Forças Armadas brasileiras caracteriza-se por
uma pluralidade de posições e por uma complexidade de fatores de desunião e cizânia que
impede uma análise em termos duais” (MARTINS FILHO, 1995, p. 114).

Podemos concluir, ao ter em vista essa heterogeneidade entre os ministros, que o


conflito esteve presente no STM durante todo o regime militar. Havia divergências quanto à
interpretação da legislação, aos procedimentos jurídicos e, a partir disso, poderemos
identificar de que maneira os ministros do STM atuaram no período de liberalização do
regime militar. Para dar conta desse objetivo trabalharei com os conceitos de campo e
habitus, utilizados pelo sociólogo Pierre Bourdieu.

Entre os juízes há habitus comuns que estão presentes no funcionamento do STM,


como a pretensão de racionalidade na execução dos julgamentos, para que possam manter

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sua legitimidade perante a sociedade, objetivando que essa veja os acórdãos apenas como
resultados das interpretações da legislação, sem qualquer conotação de ordem política. É
correto afirmar, no entanto, que os juízes podiam aproveitar-se de toda a subjetividade
presente na interpretação do corpus legislativo, uma vez que utilizam técnicas que “tendem
a tirar o máximo partido da elasticidade da lei e mesmo das suas contradições, das suas
ambiguidades ou das suas lacunas” (BOURDIEU, 2010, p. 214). Nesse sentido, Bourdieu
mostra que o direito e a prática jurídica são dois processos arbitrários. Essa última porque é
fruto da interpretação dos juízes, dotada de condicionantes sociais e culturais. Mas há
também casos em que os valores dos juízes terão que se sujeitar aos ditames da lei, como
conclui o autor:

As práticas e os discursos jurídicos são, com efeito, produto do


funcionamento de um campo cuja lógica específica está duplamente
determinada: por um lado, pelas relações de força específicas que
lhe conferem a sua estrutura e que orientam as lutas de concorrência
ou, mais precisamente, os conflitos de competência que nele têm
lugar e, por outro lado, pela lógica interna das obras jurídicas que
delimitam em cada momento o espaço dos possíveis e, deste modo,
o universo das soluções propriamente jurídicas (BOURDIEU, 2010,
p. 211).

Há um espaço aberto para as decisões individuais, mas que esbarram na lógica do


que é possível fazer, dos limites estabelecidos pelos próprios pares. O conflito está presente
em qualquer campo, mas o objetivo final é sempre a manutenção da instituição, por isso
qualquer elemento que ameaçasse a existência do STM, no caso em questão, tenderia a ser
excluído. Isso ocorreu com o General Rodrigo Octávio. Em 1979, os outros ministros
consideraram que seus discursos e decisões poderiam comprometer a legitimidade do
Tribunal e acabaram impedindo sua eleição para a presidência do STM (COITINHO, 2012).
O mesmo ocorreu com o General Peri Bevilacqua, aposentado compulsoriamente em 1969,
por motivos semelhantes: a crítica aos procedimentos da Justiça Militar (LEMOS, 2004a).

Compreender o funcionamento do Tribunal no contexto do processo de liberalização


significa perceber de que maneira seus integrantes exerciam suas práticas jurídicas,
proferindo sentenças sob imperativos institucionais limitadores - a farda -, ou fazendo
prevalecer o exercício da liberdade que julgavam ter – a toga. Em outras palavras, os
ministros decidem atendendo a duas lógicas: as relações de força específicas do campo – o
militar e o do direito - e o espaço dos possíveis do próprio texto jurídico. A partir daí, será
possível analisar como os ministros chegavam à determinada decisão. Nesse sentido, torna-
se fundamental a análise desses indivíduos singulares que exerceram um papel importante
no interior de grupos sociais e em determinado processo social, enfatizando sobretudo a

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relação entre os indivíduos e o contexto no qual estão inseridos, pensando quais lógicas
estão atuando sobre as suas decisões.

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A morte do estudante secundarista Edson Luís e seu regime de historicidade

Angélica MÜLLER
Professora do Mestrado de História do Brasil da Universidade Salgado de Oliveira e
pesquisadora-associada ao CHS/Paris 1.
angelicamuller@usp.br

A morte de Edson Luís em 1968 (e as inúmeras manifestações que a partir deste


incidente ocorreram) foi amplamente divulgada pela mídia da época. Suas imagens
puderam ser vistas em filmes, tornou-se poesia em versos cantados e foi exaustivamente
narrada em nossa historiografia. O objetivo deste breve texto é apresentar analiticamente os
elementos que ajudaram a compor a morte do estudante secundarista como um ponto de
memória capaz de gerar um regime de historicidade1 sustentado pelo movimento estudantil
organizado em torno da UNE. Ainda, pretende analisar os desdobramentos deste episódio
no plano memorial e seu uso político pelo movimento quando da comemoração dos 75 anos
da UNE, em 2012.

---

Com a implantação do golpe civil-militar, em 1964, seguido do incêndio do prédio


da União Nacional dos Estudantes (UNE) na Praia do Flamengo, 132 (RJ), o restaurante
estudantil Calabouço (lugar que outrora abrigara uma prisão - e só este ponto já é
carregado de um forte significado), situado na cidade do Rio de Janeiro, local que também
sediava a União Metropolitana de Estudantes (UME), passou a ser o foco de concentrações
e manifestações estudantis. A péssima qualidade da comida, o aumento do seu preço e a
própria instalação física adversa foram motivos para realização de muitos protestos, que
começaram a se intensificar no início do ano de 1968. Em 28 de março, mais uma
manifestação da Frente Unida dos Estudantes do Calabouço (FUEC) estava programada e,
desta vez, a polícia invadiu o restaurante e acabou matando um estudante: Edson Luís, a
“primeira grande vítima” do regime ditatorial. Os estudantes rapidamente se deram conta do
significado potente desta morte e que a mesma poderia se transformar numa arma contra o
regime. Segundo Jean Marc, presidente da UNE eleito em 1969:

1
Entendo como “ordens do tempo” ou “regime de historicidade”, referência empregada por François
Hartog, a “costura” de diferentes regimes de temporalidade que traduz e ordena as experiências do
tempo articulando passado, presente e futuro e dando sentido à relação entre as diferentes
temporalidades. Hartog refere-se a um regime de historicidade entendido como a maneira pela qual
uma sociedade trata seu passado e como se propõe a utilizá-lo. HARTOG, François. Regimes
d’historicité: présentisme et expériences du temps. Paris: Seuil, 2003. p. 19.

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“Mas a reação à morte do Edson Luís foi de uma amplitude, de uma


radicalidade que ninguém imaginava, mesmo os que achavam que o ano
seria de mobilizações. Mas rapidamente a gente percebeu o potencial de
mobilização para além da universidade – até porque o Edson Luís não era
universitário, mas secundarista, comensal do restaurante do Calabouço. Ele
era um menino que estudava à noite e trabalhava durante o dia, [...]. A
mobilização que se fez em torno disso, se fez dirigida para a classe média
da Zona Sul. Fui eu que inventei a fórmula de parar os espetáculos em
todos os teatros da Zona sul para fazer a denúncia do assassinato do
Edson Luís. Parei pessoalmente seis teatros e alguns cinemas. No começo,
fazíamos com certa hesitação, mas depois fomos adquirindo confiança e as
2
pessoas aderiam”.

Com receio de que a polícia sumisse com o corpo, os estudantes levaram-no para a
Assembleia Legislativa (o lugar previsto para o término da manifestação do dia).
Organizaram um “Comando Informal do Calabouço” constituído das entidades
representativas dos estudantes, parlamentares e intelectuais/artistas. Segundo a lembrança
de Vladimir Palmeira, entre os nomes escolhidos estavam José Américo Pessanha,
professor da Faculdade Nacional de Filosofia, pelos professores; Hélio Pellegrino,
psicanalista e escritor, pelos intelectuais e o senador Marcello Alencar, que teve seus
direitos cassados em 1969, pelos políticos3.

Na própria Assembleia foi realizada a necropsia pelos legistas e também o velório


do estudante, que tomou grandes proporções. A bandeira nacional foi colocada sobre o
caixão. A utilização da “Casa do Povo” e dos símbolos nacionais ajudaram na criação de um
funeral digno de um herói nacional. Fato é que milhares de pessoas compareceram ao
velório de Edson Luís e, o suplício da exposição de seu corpo, acabou por tornar-se um
ritual não somente religioso como também político. Um longo cortejo, que entoou várias
vezes o Hino Nacional, foi realizado levando mais de cinquenta mil pessoas da Assembleia
Legislativa até o cemitério São João Batista. Nesse sentido, a fala de Jean Marc corrobora a
impressão de que os estudantes esperavam este momento para reagir – ato que caracteriza
a resistência.

2
Entrevista de Jean Marc von der Weid concedida ao Projeto Memória do Movimento Estudantil. Rio
de Janeiro, 07.10.2004.
3
Entrevista de Vladimir Palmeira concedida ao Projeto Memória do Movimento Estudantil. Rio de
Janeiro, 12.09.05.

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Momento em que caixão com o corpo do estudante sai da Assembleia Legislativa. Foto: Arquivo Nacional.

A comoção pela morte de um estudante acabou não só por abalar a sociedade


como também levou a uma mudança na forma de atuação, tanto dos estudantes, como dos
militares. Maria Ribeiro do Valle, apresenta a tese de que a morte de Edson Luís foi a chave
para utilização da violência, como arma revolucionária, por um lado, e como arma
repressiva, por outro4. No entanto, sabemos que a violência já se fazia presente no cotidiano
do regime. Houve algumas mortes de estudantes por parte da repressão policial e, as ideias
revolucionárias com armas em punho já estavam sendo experimentadas mesmo antes do
golpe. Nesse sentido, por que a morte de Edson Luís toma outra dimensão? Por que ela
passa a ser um ponto de inflexão na história do regime? Acredito que para consolidação do
evento como importante ponto de memória, alguns elementos ajudaram, a saber: o papel da
imprensa; a divulgação da obra de Arthur Poerner, O Poder Jovem; e a própria memória da
chamada “geração 68”.

O papel da imprensa

Toda imprensa deu ampla cobertura ao acontecimento, o que ajudou a consolidá-lo


como evento de caráter nacional. Cabe ressaltar que em 1968 boa parte da mídia que
apoiou o golpe já se encontrava contrária ao regime. E a liberdade que a mesma ainda
usufruía, sem dúvida, contribuiu para o fechamento da ditadura com a instalação do AI-5 no
final daquele ano. Nesse contexto, a mobilização nacional dos estudantes em torno da

4
VALLE, Maria R. do 1968: o diálogo é a violência. Campinas: Editora da Unicamp, 1999.

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morte de Edson Luís encontrou eco nas páginas dos jornais e revistas da Grande Imprensa
liberal (bem como da oposicionista), o que levou o evento a ter uma grande repercussão,
tornando-o um ponto de memória, não somente na história do ME, como também lembrado
pela sociedade em geral.

Revista Manchete, nº 834, 13 abril de 1968. Acervo: ABI

Um dos combatentes mais acirrados, o Correio da Manhã, que em suas páginas


publicou inúmeras reportagens sobre o assunto, apresentou, num suplemento dominical
(normalmente momento de maior circulação) um “dossiê” contendo textos de vários
jornalistas sobre a tragédia da morte do estudante. Um de seus colaboradores, Hélio
Pellegrino, que participou de todo desenrolar dos fatos através da Comissão já citada,
redigiu o texto “Morte e ressurreição de Edson Luís”. Entre outras reflexões, enfatizou:

“Tombou morto um jovem estudante brasileiro, nosso filho – não um porco.


Edson Luís, varado pela bala assassina que o matou, não teve tempo de ter
tempo. O tempo de sua vida ao qual tinha direito, e do qual foi
miseravelmente roubado, ergueu-se de súbito diante da Nação como uma
imensa catedral sagrada, sob cujas abóbodas milhões de vozes
deflagraram sua revolta. O tempo de Edson Luís, dilacerado e destruído
pela bala homicida que o cortou, tornou-se de repente tempo histórico,
tempo brasileiro, tempo de cólera e de consciência – tempo de gritar: Basta!
Há instantes privilegiados em que um destino pessoal se dissolve no
movimento da história. [...] Morto, ele nos comoveu a todos nós, além de

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qualquer palavra. E não só nos comoveu, mas nos moveu. E nos move. Sua
5
morte é herança nossa. De todo o povo brasileiro.”

O primeiro ponto a ser ressaltado é a proximidade, para não dizer familiaridade,


com que o jovem estudante foi apresentado. Foi durante o velório que os estudantes criaram
o slogan: “Mataram um estudante, podia ser seu filho”. A partir de então, a figura de Edson
Luís foi utilizada através desta proximidade com a realidade de muitos outros estudantes.
Edson Luís encarnou os ideais de um pobre jovem nortista que veio para o Rio de Janeiro
estudar em busca de “um lugar” dentro da sociedade, como afirma a brasilianista Victoria
Langland6. Além de representante genuíno das agruras do seu povo, a figura de Edson Luís
passou a representar o silenciamento que parte de uma juventude engajada foi relegada e,
ao mesmo tempo, serviu de motor para ação.

É nesse sentido que Pellegrino utilizou deliberadamente a questão temporal. A


narrativa instaura um vai-e-vem entre, passado, presente e futuro. A morte aqui não aparece
como um peso morto. Aparece como uma força que serve para seguir, para lutar, para agir,
ou melhor, para reagir. Resistir, no presente, significou um caminho de busca para
mudanças futuras. E, como nos afirmou Hannah Arendt, é a busca do futuro que nos impele
de volta ao passado7. Entretanto, contrariando a fórmula proposta pela filósofa alemã, me
parece que aqui o “tesouro foi encontrado”, e seus “herdeiros” souberam transmiti-lo e
preservá-lo. Afinal, como escreveu Pellegrino: “Sua morte é herança nossa”.

O Poder Jovem e a consolidação de uma memória histórica sobre o ME

Quando da morte de Edson Luís, o jovem jornalista Arthur Poerner já estava com
os originais prontos do livro O Poder Jovem (1968), cujo conteúdo apresenta a trajetória do
movimento estudantil no Brasil desde a colônia. Foi quando seu editor Ênio Silveira, da
Civilização Brasileira, pediu à Poerner para escrever uma nota suplementar para ser
anexada ao final do livro. Redigida em cinco páginas, a nota, datada em 03 de abril de 1968,
inicia com a constatação das previsões feitas pelo autor sobre o aumento da violência contra
os estudantes. Poerner descreve os principais momentos do velório, cortejo e enterro de
Edson Luís. Em suas conclusões, o tom militante, que prevalece em toda obra, continua
presente:

5
Correio da Manhã, 07 de abril de 1968, p. 4, 4º Caderno.
6
LANGLAND, Victória. “Neste luto começa a luta”: la muerte de estudiantes y la memória. In: JELIN,
Elizabeth; SEMPOL, Diego (Comps.). El passado en el futuro: los movimientos juveniles. Buenos
Aires: Siglo XXI, 2006. p. 21-62. (Colección Memórias de la Represión). p. 4.
7
ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2011. 7ª ed. p. 37.

ISBN: 978-85-62707-55-1
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“Como saldo extraordinariamente positivo e importante, restou, de todos


êsses acontecimentos, a constatação de que a morte de Edson Luís de
Lima Souto levou os estudantes a procurarem, realmente, a total integração
com o povo, sem a qual – conforme observei nos capítulos anteriores – a
rebelião dos jovens se exaurirá por si mesma até que êles cheguem,
naturalmente, aos postos que lhes estão reservados na sociedade brasileira
– à custa dos enfartes e arterioscleroses que dizimarão, inevitàvelmente,
com ou sem baionetas, os velhos que usurparam o poder nacional. (...) É
claro que essa atitude estudantil foi facilitada pelo clima emocional
provocado no País após o assassinato de Edson Luís – que incutiu ânimo
de participação em amplos setores da população – da mesma forma que,
por outro lado, a decisão dos jovens enfrentou enormes dificuldades, como
o nível inferior de organização dêsses setores. Só mesmo a maturidade
demonstrada por alguns líderes estudantis – que não posso elogiar,
nominalmente, por motivos de ordem policial – propiciou a superação de
8
tais problemas.” (Grafia original)

O tom romântico revolucionário da época impresso na passagem (e em toda obra)


apresenta também premissas do próprio partido comunista (PCB) do qual Poerner era
filiado: conforme o autor, o objetivo central d’O Poder Jovem é mostrar a importância da
participação política, um dos princípios da democracia. Participação esta que deveria existir
através da juventude organizada, em franca oposição “aos velhos que usurpam o poder”.
Com a assinatura do Ato-5, O poder jovem foi um dos primeiros livros a ser censurado e, a
partir de então, tornou-se a referência crucial para todas as gerações subsequentes de
militantes, a “Bíblia” do movimento estudantil como muitos afirmam. Não por acaso, o livro já
se encontra na sua 5ª edição (de 2004). Assim, O Poder Jovem pode ser entendido como a
própria memória histórica9 do ME encabeçado pela UNE e, seu escrito, que fornece aos
militantes um “modelo de vida”, cristalizou a imagem da morte Edson Luís como o símbolo
das lutas daquela geração.

O trabalho/dever de memória

Dentre os inúmeros depoimentos da “geração 68”, gostaria de destacar uma


passagem de Bernardo Joffily, que foi vice-presidente da UBES em 1968:
“Os jornais da época contam que eles [a polícia militar] alegaram que
estavam em inferioridade de fogo, que os estudantes começaram a atirar

8
POERNER, Arthur José. O poder jovem: história da participação política dos estudantes brasileiros.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968. p. 367.
9
LAVABRE, Marie-Claire. Le fil rouge: sociologie de la mémoire communiste. Paris: Presses de
Sciences Po, 1994.

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pedras, e o coronel que comandava a ação mandou atirar, terminando por


matar o Edson, um rapaz pobre que comia no Calabouço e que veio do
Pará para o Rio de Janeiro. Ele tinha um esquema: como não tinha onde
morar, acabou arrumando um lugar para dormir também lá, no Calabouço.
O Edson Luís era uma pessoa meio que adotada pelo movimento. Não era
uma liderança, mas uma pessoa muito querida. Foi morto porque estava
numa passeata contra o fechamento de um restaurante estudantil – essa é
a moral da história. Eu não estava nessa passeata. (...) No dia seguinte, foi
que comecei a ter noção do quanto custa para os opressores do povo
matarem um estudante de 17 anos a tiros porque ele está pedindo que não
10
fechem um restaurante.”

Mais uma vez aparece a questão da proximidade (e a aproximação do depoente


com o objeto). Jofilly se refere ao estudante morto como “o Edson”, mas deixa transparecer
que não conhecia-o. Ainda, como apresentado em outros estudos, Edson Luís era apenas
um comensal do restaurante e não tinha ligação com a militância. Todavia, na lembrança de
Bernardo Joffily ele já aparece como “uma pessoa querida, meio que adotada pelo
movimento”. Ora, o movimento estudantil organizado passa a “adotar” Edson Luís a partir do
momento de sua morte, mas não em vida. Se o jovem secundarista efetivamente não era
um militante, sua morte serviu como catalisador de lutas e marcou, além da sua geração, as
subsequentes através do simbolismo exercido tornando-se, dessa maneira, elemento central
da memória histórica propagada pela UNE. Assim, podemos inferir que essa aproximação
seja menor com a personagem em si com o que a sua morte passou a representar.

Ainda, Joffily, como outros, não estava presente quando aconteceu o crime. Soube
depois, sem saber de quem se tratava. Porém, através de sua lembrança, uma lembrança
compartilhada, pode traçar os acontecimentos do fatídico dia. A memória coletiva sobre a
morte de Edson Luís relembrada, passa fazer parte de um histórico pessoal, remetendo ao
“fenômeno de projeção” defendido por Michel Pollak, gerando, dessa maneira, uma
afirmação ainda maior para seu presente. Toda a “geração 68” relembra dos
acontecimentos mesmo sem os ter vivenciado no ato. É o que Pollak define como
“acontecimentos vividos por tabela”, dos quais a pessoa nem sempre participou, mas que,
no imaginário, tomaram tamanho relevo que, no fim das contas, é quase impossível que ela
consiga distinguir se participou ou não.11

10
Entrevista de Bernardo Jofilly concedida ao Projeto Memória do Movimento Estudantil. São Paulo,
08.11.2004.
11
POLLAK, Michael. Memória e identidade social. Revista de Estudos Históricos, Rio de Janeiro,
FGV, v. 5, n. 10, p. 200-215, 1992. p. 2.

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Histórias relatadas, acontecimentos relembrados atravessam um tempo e são


reconstruídos, trazendo a possibilidade de atualização do passado no presente. Afinal, a
memória é a construção do passado pautada por emoções e vivências e os eventos são
lembrados à luz da experiência subsequente e das necessidades do presente12. Presente e
passado se interpenetram. Relembrar a morte de Edson Luís em outros contextos, significou
recuperar um passado de luta que pudesse pautar a luta de então projetando novas
possibilidades para o futuro. E assim, a memória sobre a morte de Edson Luís é
reconstruída passando a servir de “modelo” para orientar, “iluminar" os militantes do
presente.

Em outro período da vida política do país a UNE comemorou seus 75 anos, em


2012, ano em que o governo instituiu a Comissão Nacional da Verdade. Uma solenidade foi
organizada para o dia 11 de agosto (dia do estudante) no terreno da Praia do Flamengo,
132 – o histórico local-sede da entidade. A comemoração teve um mote especial: anunciar o
início das obras da nova sede da entidade, projetada por Oscar Niemeyer. Ao entrar no
terreno, o convidado passava por um túnel em cujo local foi montada uma
exposição/homenagem aos mortos do ME. O texto de abertura da exposição, além de
reforçar o já apresentado no convite, dizia:

“Nesse caso, não poderíamos deixar de homenagear aqueles que, com sua
vida, defenderam nossos ideais na luta por liberdade. Quinze nomes foram
escolhidos para representar as centenas de vítimas deste período negro de
nossa história. Nomes que conferem uma importância suprema para o
movimento estudantil. Nomes de jovens heroicos que foram presos,
torturados e mortos por uma ditadura. O túnel mostra a passagem do
tempo; a ponte une passado e presente. E se no passado vivemos uma
escuridão, a travessia nos leva ao presente de esperanças renovadas e ao
13
futuro desenhado pelos traços de Niemeyer”.

No túnel escuro, apenas viam-se as silhuetas de corpos. No panteão elegido pela


UNE, a primeira imagem remeteu ao corpo de Edson Luís, um dos principais personagens
através do qual a UNE consolidou sua identidade de grupo. Mais uma vez, a interpenetração
dos tempos se mostrou capital. Reforçada, ainda, pela música que se escutava, na
passagem do túnel: Pesadelo, de MPB 4:

“Quando o muro separa uma ponte une

Se a vingança encara o remorso pune

12
DELGADO, Lucília de A. Neves. História oral e narrativa: tempo, memória e identidades. In: História
Oral. Revista da Associação Brasileira de História Oral. nº 6. São Paulo: 2003. p. 9-25.
13
Convite Ato UNE 75 anos. Acervo pessoal.

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...

Você corta um verso, eu escrevo outro


14
Você me prende vivo, eu escapo morto”

Mais que uma homenagem aos mortos, Edson Luís é evocado no discurso do
presidente da UNE, Daniel Iliescu:

“Heróis como aquele de quem falaremos agora, um humilde jovem


paraense, de origem pobre, que veio de Belém para o Rio de Janeiro na
expectativa de um futuro melhor. Um jovem estudante, que chegou do norte
em busca da redenção para sua própria história pessoal, mas que acabou
extraindo a redenção de toda uma geração, que inspirou milhões. Esse
jovem, de quem nos lembramos agora e a quem homenageamos, é o nosso
glorioso e imortal Edson Luís, um mártir, um símbolo, um bravo personagem
da história brasileira covardemente subtraído da vida pelo tiro de um
soldado. Edson Luís sabia o que fazia. Protestava em favor dos estudantes
brasileiros no restaurante calabouço e dessa forma escolheu o destino de
ser herói. O exemplo de Edson Luís preencheu de certeza o coração dos
bons, inundou as ruas e as praças do Brasil, espalhou-se como uma
metástase de esperança e resistência. Era preciso lutar, era preciso confiar,
15
era preciso amanhecer.”

A fala de Iliescu, carrega todos os simbolismos que permeiam a história da entidade


e que moldaram sua memória histórica: instala o maniqueísmo determinando o lado (bom)
que os jovens (sempre) estiveram, demarcado já na leitura de Poerner; utiliza, ainda, as
metáforas da luz e escuridão, muito presente nos discursos de militantes. Nesta
reconstrução realizada 44 anos depois do episódio, Edson Luís aparece como um militante
consciente de seu papel na história, por isso um herói. As falas de Hélio Pellegrino, Arthur
Poerner e de Bernardo Joffily (para citar os três exemplos aqui apresentados) foram
atualizadas, no presente, através do discurso de Iliescu. E a figura de Edson Luís rompe a
barreira dos tempos para se eternizar; aquele cuja lembrança permanece na memória dos
homens. Afinal, é no plano memorial que os homens podem imortalizar a morte.

14
Gravada em 1972 pelo grupo MPB-4, a música Pesadelo driblou a censura e causou grande efeito
por apresentar, sem meias palavras, a realidade vivida nos porões do regime então vigente.
Importante ressaltar que parte da estrofe desta música foi usada no convite das comemorações
organizadas pelos estudantes paulistas nos 10 anos da morte de Edson Luís e 5 anos da morte do
estudante da USP, Alexandre Vannucchi Leme, em 1978. Maiores informações sobre as
comemorações de 1978, ver: MÜLLER, Angélica. "Você me prende vivo, eu escapo morto": a
comemoração da morte de estudantes na resistência contra o regime militar. Rev. Bras. Hist., 2011,
vol.31, no.61, p.167-184.
15
Discurso de Daniel Iliescu, Presidente da UNE, durante o ato de comemoração dos 75 anos da
entidade em 11 de agosto de 2012. Retirado do site da UNE: http://www.une.org.br/2012/08/leia-o-
discurso-de-75-anos-da-une-por-seu-presidente. Acessado em 05/11/2013.

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A morte de Edson Luís exerce a função de símbolo do ME, seu conceito de luta,
peça fundamental de identidade para seus militantes. Lembrando que na Grécia antiga a
representação de símbolo se apresentava através de um objeto cortado em duas partes que
foram separadas (pelo tempo) e que, posteriormente, se encontraram permitindo aos seus
detentores se reconhecerem. E o símbolo de Edson Luís, apresenta, assim, um regime de
historicidade encampado pela UNE.

Trazer a “presença invisível” dos mortos é um modo, ainda, de acentuar a


continuidade do movimento. Movimento este que percebe no passado, um campo de
disputas por um futuro desejado. O que evidencia não só uma das características do ato de
comemorar, mas que também exprime certa “ordem do tempo”: maneira de usar um
“patrimônio” - o passado vivido e reapropriado - seja na resistência contra a ditadura militar,
seja nas lutas pelas quais a UNE empunha sua bandeira nestes últimos anos.

Referências

ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2011. 7ª ed.

DELGADO, Lucília de A. Neves. História oral e narrativa: tempo, memória e identidades. In:
História Oral. Revista da Associação Brasileira de História Oral. nº 6. São Paulo: 2003. p. 9-
25.

HARTOG, François. Regimes d’historicité: présentisme et expériences du temps. Paris:


Seuil, 2003.

LANGLAND, Victória. “Neste luto começa a luta”: la muerte de estudiantes y la memória. In:
JELIN, Elizabeth; SEMPOL, Diego (Comps.). El passado en el futuro: los movimientos
juveniles. Buenos Aires: Siglo XXI, 2006. p. 21-62. (Colección Memórias de la Represión).
LAVABRE, Marie-Claire. Le fil rouge: sociologie de la mémoire communiste. Paris: Presses
de Sciences Po, 1994.

MÜLLER, Angélica. 1968: memória dos atores e seus reflexos. História Oral: Revista da
Associação Brasileira de História Oral, Rio de Janeiro, n. 10, p. 51-64, dez. 2008.

________. "Você me prende vivo, eu escapo morto": a comemoração da morte de


estudantes na resistência contra o regime militar. Rev. Bras. Hist., 2011, vol.31, no.61,
p.167-184.

POERNER, Arthur José. O poder jovem: história da participação política dos estudantes
brasileiros. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.

POLLAK, Michael. Memória e identidade social. Revista de Estudos Históricos, Rio de


Janeiro, FGV, v. 5, n. 10, p. 200-215, 1992.

VALLE, Maria R. do 1968: o diálogo é a violência. Campinas: Editora da Unicamp, 1999.

ISBN: 978-85-62707-55-1
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Memórias de histórias de violação dos direitos humanos durante as ditaduras


militares no Brasil e no Cone Sul

Anna Flávia Arruda LANNA Barreto


Professora adjunta do Centro Universitário UNA
annaflav@prof.una.br

Introdução
No final dos anos de 1970, quando a ditadura militar brasileira anunciava as
primeiras medidas de distensão democrática, os regimes militares dos países do Cone Sul
praticavam medidas de recrudescimento do autoritarismo e de intensificação do aparato
repressivo. Prisões arbitrárias, eliminação sumária de militantes políticos, cassações, exílio,
banimentos políticos, invasões de domicílios, sequestros e desaparecimento de crianças
filhas de militantes políticos ou opositores do regime eram práticas que endossavam a
repressão política nos países do Cone Sul e usurparam os direitos humanos de milhares de
brasileiros, chilenos, argentinos, paraguaios e uruguaios. Essas práticas foram denunciadas
por sobreviventes, refugiados e familiares de presos políticos durante os anos de 1970 e
1990, ao Comitê de Defesa dos Direitos Humanos para os Países do Cone Sul (Clamor),
com sede na cidade de São Paulo, Brasil.

O objetivo deste artigo é apresentar uma análise dos casos de sequestro, tortura e
desaparecimento de crianças e adolescentes, filhas de militantes políticos durante as
ditaduras militares no Cone Sul e Brasil, registrados no Fundo Clamor, localizado no Centro
de Documentação e Informação Científica – CEDIC, da Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo / SP, entre os anos de 1970-1990 e sua contribuição para o processo de resgate
da memória histórica dos casos de sequestro, prisões e tortura de crianças e adolescentes,
durante as ditaduras militares no Brasil, Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai.

A metodologia empregada na realização desta pesquisa descritiva1 é composta de


pesquisa bibliográfica e a pesquisa descritiva analítica documental. Através da consulta e
análise dos documentos do Fundo Clamor foram selecionados documentos cujas
informações remetam ao desaparecimento, sequestro e tortura de crianças e adolescentes;
à prisão e/ou sequestro de militantes grávidas, procurando descrever a situação da
apreensão e encarceramento, forças repressoras envolvidas na operação de prisão. Além
desse acervo, foi realizada uma pesquisa documental dos Arquivos do Terror, no Centro de
Documentação e Arquivo para a Defesa dos Direitos Humanos (CDyA) da Corte Suprema

1
Esta pesquisa está sendo desenvolvida no Programa de Pós-Graduação de História da
Universidade Federal de Minas Gerais, em nível de Pós-Doutorado, com a supervisão da professora
doutora Heloísa Maria Murgel Starling.

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de Justiça do Paraguai, que contém registros dos trinta e cinco anos da ditadura militar de
Alfredo Stroessner no Paraguai.

O argumento central desta pesquisa consiste na afirmação de que os arquivos do


Comitê em Defesa dos Direitos Humanos dos Refugiados dos Países do Cone Sul
(CLAMOR), disponíveis no Fundo Clamor e nos Arquivos do Terror, contribuem, de forma
significativa, para o resgate da memória histórica do período ditatorial e para a conquista da
cidadania plena nesses países, sendo o Brasil protagonista da implantação da Doutrina de
Segurança Nacional na América do Sul.

O fundo Clamor
O fundo Clamor encontra-se distribuído em 106 caixas arquivo, 28 pastas para
periódicos e 1 pasta para arquiteto. Reúne documentos textuais, orais e iconográficos. Os
documentos foram adquiridos através de doação do Centro Ecumênico de Serviços à
Evangelização e Educação Popular (CESEP), em 1993.
Esta documentação foi reunida durante a atuação do Comitê de Defesa dos Direitos
Humanos para os países do Cone Sul2 (CLAMOR), fundado em 1978 por três pessoas
ligadas a defesa dos direitos humanos: Jan Rocha, Luiz Eduardo Greenhalgh e Jaime
Wright. Os três se reuniram em São Paulo para verificar a possibilidade de divulgação das
atrocidades cometidas contra os direitos humanos dos argentinos, uruguaios, paraguaios,
chilenos e brasileiros durante o regime militar desses países. Procuraram o Cardeal
Arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns para comunicar a presença no Brasil de refugiados
políticos que relatavam histórias de desrespeito aos direitos humanos. Dom Paulo acolheu a
ideia e solicitou que o Comitê, por motivos de segurança, permanecesse vinculado a
Comissão Arquidiocesana de Pastoral dos Direitos Humanos e Marginalizados, da
Arquidiocese de São Paulo.

O nome “Clamor” foi o nome dado ao boletim do Comitê de Defesa dos Direitos
Humanos para países do Cone Sul, cujo primeiro volume foi publicado em junho de 1978. O
nome foi inspirado no Salmo 88,2 – “Ó Senhor, deus da minha salvação, diante de ti clamo,
de dia e de noite. Chegue a minha oração perante a tua face; inclina teu ouvido a meu
clamor”. A intenção dos fundadores do Comitê era denunciar as contínuas violações dos
direitos humanos ocorridas na América Latina.

A imagem que marcava o símbolo do Clamor era um desenho de uma chama que
brilha através das grades de uma prisão, criado pelo ex-preso político Manoel Cirilo de

2
Organização civil, informal e clandestina, fundada na cidade de São Paulo em 1978 e encerrada em
1991.

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Oliveira Neto, que foi libertado em 1979. Além do símbolo, o Comitê também possuía um
slogan “Direitos Humanos não tem fronteiras”. Com esse slogan o Comitê percorreu todos
os países do Cone Sul e buscou auxílio financeiro e político junto a organismos
internacionais como o Conselho Mundial das Igrejas, a Anistia Internacional, Nações Unidas
e Banco Mundial.

Segundo correspondências e testemunhos que chegavam ao Clamor, as principais


violências cometidas pelos órgãos da repressão eram assassinatos, torturas,
desaparecimentos e sequestros de familiares de militantes políticos, sobretudo, de crianças,
filhas de militantes grávidas que eram presas pela polícia destes países ou através da ação
conjunta das forças repressoras dos países do Cone Sul, normalmente gerenciada por
integrantes da Operação Condor3. Havia listas de adoções nos presídios para os bebês que
viessem a nascer de mulheres que foram presas grávidas. As mulheres eram torturadas e,
após o parto, eram mortas e suas crianças eram entregues para a adoção, muitas delas
para famílias de militares. Ao todo, o Comitê ajudou a localizar vinte e sete crianças
desaparecidas.

Segundo denúncias realizadas por militantes políticos e pelos integrantes do grupo


Clamor, o Brasil não só exportou conhecimento de violência policial e militar como também
fazia parte de uma conexão com outros órgãos de repressão situados nos países do Cone
Sul. Uma prova disso seria a existência de computadores com terminais ligados nos
principais aeroportos do continente para seguir a movimentação daqueles que eram
considerados subversivos ou inimigos da Pátria.4

Os arquivos do terror
A base de dados dos Arquivos do Terror contém cerca de 60.000 registros dos
documentos localizados no Centro de Documentação e Arquivo para a Defesa dos Direitos
Humanos (CDyA) do Supremo Tribunal de Justiça do Paraguai . Esta base de Base de
dados foi desenvolvida através do Projeto Memória Histórica, Democracia e Direitos
Humanos (MHDDH), acordo firmado entre o Supremo Tribunal de Justiça, da Universidade
Católica de Assunção e da ONG The National Security Archive . Cada registro inclui o
código para imagens de microfilme, data do documento, tipo de documento, linha e nome; e
se for o caso, a origem, as organizações e localização geográfica. São fichas policiais, listas de
3
Ação conjunta das forças repressoras dos países Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai, Uruguai,
criada em 1975. A função principal dessa operação era neutralizar e reprimir os grupos que se
opunham aos regimes militares montados na América do Sul. O nome da operação faz referência a
uma ave andina, símbolo de astúcia na caça às suas presas.
4
Estas informações foram retiradas de documentos encontrados no Fundo Clamor, Arquivo do
Comitê de Defesa dos Direitos Humanos para os Países do Cone Sul, do Centro de Documentação e
Informação Científica – CEDIC – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo / SP.

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entradas e saídas de presos, notas do chefe de investigações, informes confidenciais, controle de


partidos políticos, publicações periódicas, listas de suspeitos, informações sobre agremiações e
grupos considerados subversivos, controle de sindicatos e objetos como livros e cédulas de
identidade.
Durante a Ditadura Militar do general Alfredo Stroessner, milhares de paraguaios
foram detidos, torturados, exilados e muitos desaparecidos. A ditadura paraguaia (1954-
1989) gerou traumas e ressentimentos ainda presentes na população. Como todas as
ditaduras latino-americanas, ela violou os direitos humanos, cerceou liberdades e promoveu
mortes e desaparecimentos de cidadãos em nome da Segurança Nacional.

Uma das vítimas da ditadura paraguaia durante o governo do general Stroessner foi
o advogado Martín Almada que, desejoso de conhecer detalhes das acusações que o
colocara preso entre 1974 a 1977 e da morte de sua esposa, solicitou um habeas data às
autoridades judiciais paraguaias. Em 1992, atendendo ao pedido de habeas data5 do
advogado, as autoridades encontraram em Lambaré, cidade que fica a vinte quilômetros de
Assunção, um acervo composto de cerca de 60.000 registros de documentos contendo
informações sobre a ditadura do general Stroessner. Entre os documentos encontrados
ressaltam-se os documentos relativos ao funcionamento da Operação Condor com a ação
conjunta dos países Brasil, Paraguai, Chile, Uruguai, Argentina. Segundo López (2010),
antes de assumir a presidência Stroessner se reuniu secretamente com membros do
Comando Sul dos Estados Unidos. Nesta reunião foi assinado um pacto com altos oficiais
americanos e brasileiros, como parte do plano dos aliados anticomunistas durante a Guerra
Fria e a Doutrina de Segurança Nacional, implantada na década de 1960, por meio da
ditadura militar brasileira (LÓPEZ, Miguel H, 2010: p. 437-470).

Memórias resgatadas
Y unas de los golpes eran los que me marco que no se ni donde ni cuando
me llevan a arriba con la niña en brazo y también me hacen preguntas, y la
niña se pone mal porque me empiezan a pegar estando la niña en mis
brazos. Entonces yo para calmarla a niña le doy el pecho. Es más me dolió
6
porque para mi más le torturaron a la niña delante de mí.
O texto acima se refere ao depoimento de Maria Felicita Gimenez prestado à
Comision de Verdad y Justicia do Paraguai, no dia 11 de novembro de 2006. Ela foi presa e
torturada durante a ditadura do general Strossner, junto com sua filha. Ações como essas
eram utilizadas em técnicas de interrogatório para obtenção de informações consideradas

5
O habeas data assegura o direito de toda pessoa ter acesso a informação e aos dados sobre si
mesma.
6
Depoimento de Maria Felicita Gimenez prestado à Comision de Verdad y Justicia do Paraguai, no
dia 11 de novembro de 2006.

ISBN: 978-85-62707-55-1
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essenciais para o Estado de Segurança Nacional vigente nos países do Cone Sul e no
Brasil.

O avanço de denúncias e pesquisas nessa área apontou para a prática dessa


modalidade de “terrorismo de estado” em outros países do Cone Sul. Dados do relatório da
Secretaria Especial de Direitos Humanos do Brasil apontam como saldos das ditaduras do
Cone Sul os seguintes números:

no Brasil foram 50 mil pessoas presas, 20 mil torturados, 356 mortos e


desaparecidos, 4 crianças provavelmente sequestradas. No Uruguai foram
166 desaparecidos, 131 mortos, 12 bebês sequestrados, 55 mil detidos.
No Paraguai foram de 1 mil a 2 mil mortos e desaparecidos, 1 milhão de
exilados. No Chile foram 1.185 desaparecidos, 2.011 mortos (embora
estatísticas extraoficiais falem em até 10 mil assassinados), 42.486 presos
políticos apenas em 1976. Na Argentina foram 30 mil mortos e
desaparecidos e 230 crianças seqüestradas (BRASIL, 2009: p. 101).

No caso argentino, a maioria das crianças sequestradas tinha suas identidades


omitidas e eram posteriormente adotadas ilegalmente por famílias ligadas direta ou
indiretamente à repressão. Muitas crianças sequestradas junto com seus pais foram
adotadas por oficiais da repressão. Exemplo dessa situação é o caso da criança Mariana
Zaffaroni, sequestrada quando tinha dezoito meses de idade, junto com seus pais Jorge
Roberto Zaffaroni Castilla e María Emilia Islas de Zaffaroni em Buenos Aires, no dia 27 de
setembro de 1976, por forças da repressão argentina e uruguaia. A partir dessa data os
familiares de Mariana iniciaram uma busca para encontrá-la. No dia 20 de maio de 1983 o
jornal argentino “Clarin” de Buenos Aires publicou um apelo, com a foto da menina,
solicitando a quem tivesse qualquer informação de Mariana, que entrasse em contato com
as Abuelas da Plaza de Mayo7 ou com o grupo Clamor em São Paulo. Vinte dias após o
apelo chegou uma carta anônima da Argentina enviada ao grupo Clamor. A carta informava
que Miguel Angel Furci, membro do Serviço de Inteligência do Estado (SIDE), estaria com
Mariana em um subúrbio de Buenos Aires. A menina havia sido registrada como filha
legítima do casal Furci, sendo registrada dois anos após o seu nascimento. Segundo
Mariana Zaffaroni,

Hasta los 17 años creí que me llamaba Daniela Furci. Después de recuperar
mi identidad el proceso de adaptación fue bastante lento, yo no me quería
hacer cargo de mi historia. Pero cuando nació mi hija, todo empezó a fluir

7
Organização de direitos humanos argentina, fundada em 1977, que tem como finalidade localizar e
restituir às suas famílias legítimas todos os filhos sequestrados e desaparecidos durante a última
ditadura militar argentina (1976-1983).

ISBN: 978-85-62707-55-1
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con mi familia. Ahora, al ver personas parecidas a mí, tengo la sensación de


pertenecer. Esto yo no lo había sentido nunca a pesar de que tuve una
8
infancia feliz.

Segundo Samantha Viz Quadrat (2003: p. 167-181), a tortura de militantes políticas


durante e após a gravidez e, posterior sequestro dos bebês, eram práticas comuns
exercidas por membros da ditadura militar argentina. As militantes grávidas eram
sequestradas e após a ocorrência dos partos, geralmente em centros clandestinos, as
crianças eram retiradas das mães com a falsa informação de que seriam entregues aos
avós. Após a separação, a mães, geralmente, eram executadas. Esta prática tinha como
objetivo difundir o terror entre a população, quebrar o silêncio dos pais, educar as crianças
com uma ideologia contrárias a de seus pais biológicos. Para execução desse plano o
exército argentino difundiu instruções de seis manuais específicos. O manual intitulado
“Instrucciones sobre procedimiento a seguir con menores de edad hijos de dirigentes
políticos o greminales cuando sus progenitores se encuentran detenidos o desaparecidos”
(abril de 1977), ratifica a intenção dos militares de entregar para orfanatos ou famílias de
militares crianças com até quatro anos. Acreditava-se que até essa idade, essas crianças
estariam livres da influência política de seus pais. Várias das crianças nascidas em cativeiro
continuam desaparecidas. Segundo dados da Secretaria Especial de Direitos Humanos
(BRASIL, 2009: p. 101), na Argentina, cerca de 230 crianças, filhas de militantes políticos,
foram sequestradas durante o período da ditadura militar, sobretudo entre os anos de 1976
e 1983. Dessas crianças, 1099 conseguiram recuperar sua identidade biológica, graças ao
trabalho da Abuelas de La Praza de Mayo10. Desde aquela época até a atualidade as
Abuelas mantém um trabalho de busca de informações sobre as crianças desaparecidas
durante o regime militar argentino.

A repressão argentina concentrou-se em Buenos Aires, responsável por quase


metade dos desaparecimentos políticos. Contudo, outras cidades como Córdoba, La Plata e
Mendoza tiveram intensa atuação das forças armadas argentinas nas práticas repressivas.
Os principais alvos da repressão eram os sindicalistas, membros do partido peronista,
intelectuais, estudantes e jornalistas. Diferente do que ocorreu no Brasil e no Chile,

8
Disponível em: http://plansistematico.blogspot.com.br/2011_11_01_archive.html. Acesso em: 18 de
abr. 2014.
9
Abuelas de la Plaza de Mayo. Testemonios de Netos. Disponível em:
http://www.abuelas.org.ar/areas.php?area=testimoniosNietos.php&der1=der1_mat.php&der2=der2_m
at.php. Acesso em 19 de abr. 2014.
10
Associação civil, criada em 1979, por avós de crianças desaparecidas que iniciaram uma luta pela
defesa da vida e pelo direito de manter unidos os membros oriundos do mesmo sangue. Essas avós
ficaram conhecidas no mundo inteiro como símbolo da luta contra a ditadura em defesa dos direitos
humanos e do direito de voltar a ter o convívio com seus netos e netas.

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advogados que defendiam prisioneiros políticos e juízes também eram alvos da repressão
argentina. Segundo Anthony W. Pereira, a ditadura argentina expressou uma “quebra radical
com a legalidade anteriormente vigente e num ataque em grande medida extrajudicial aos
oponentes do regime” (PEREIRA, 2010: p. 44). A nova “constituição” proibia a atividade dos
partidos políticos e cancelava quase todos os direitos civis, sociais e políticos dos cidadãos,
em função de um constante Estado de Sítio.

No Paraguai, umas das principais estratégias utilizadas pelas forças repressivas para
obtenção de informações consideradas relevantes a respeito das ações praticadas pelos
“terroristas”11 era a prisão e tortura de filhos de militantes políticos durante a realização dos
interrogatórios. Tortura psicológica e física era praticada com as crianças, filhas de
militantes políticos, como mecanismo de obtenção de informações. A citação que segue
subsidia essa informação:

… Tenía 11 años, nos subieron llevándonos a todos en el chorro, luego nos


llevaron ahí en donde el agua estaba medio estancada y ahí nos
sumergieron la cabeza y luego sacaban de nuevo así sucesivamente y nos
preguntaban otra vez: “¿en dónde está Victoriano Centurión?”, y le volvimos
a decir de nuevo que no sabíamos nada y nos volvieron a meter en el agua,
ahí casi me ahogué, al no decirle nada me soltaron y le trajo a otra persona,
así sucesivamente a cada alumno le traían allí y les torturaban.(Marciana
Cano, Costa Rosado, 1980) (COMISIÓN DE VERDAD Y JUSTICIA, 2008: p.
91).

A situação dessas crianças estava determinada pelas condições em que se


encontravam suas mães. Três situações são identificadas pela Comisión da Verdad y
Justicia do Paraguai (COMISIÓN DE VERDAD Y JUSTICIA, 2008) mulheres que tinham
bebês e foram detidas junto com eles; mulheres que estavam grávidas durante sua
detenção e que tiveram seus filhos na prisão; mulheres que tiveram que deixar seus filhos
com outros familiares devido a situação de sua prisão, mantendo separadas dos mesmos
durantes anos.

Segundo dados da Comisión da Verdad y Justicia do Paraguai, dos 2059


testemunhos recolhidos, 15,7% correspondem a filhos e filhas de militantes políticos que
sofreram violações de seus direitos humanos. Desses testemunhos 56% correspondem a
homens e 44% a mulheres. Importante destacar a estigmatização dessas meninas, muitas

11
Designação dada pelas militantes aos militantes políticos contrários ao governo de Alfredo
Stroessner.

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vítimas de violência sexual, que até a idade adulta mantiveram um sentimento de culpa e
vergonha pelo que passaram. O testemunho abaixo subsidia essa informação:

...Ya tenía 12 años cuando eso… después a las niñas que sacaron... una es
mi prima, y que dicen que fue violada, yo no sabía cuando eso que le
sucedió, pero vi que sangraba y vinieron a meterla otra vez con el grupo.
C.F., Caaguazú, Costa Rosado, 1980 (COMISIÓN DE VERDAD Y
JUSTICIA, 2008: p. 93).

Durante a ditadura paraguaia, foram detidas 577 crianças e adolescentes. Dessas


289 foram torturadas, 39 exiladas, 7 desaparecidas e 3 executadas (COMISIÓN DE
VERDAD Y JUSTICIA, 2008: p. 93).

No caso brasileiro, as autoridades militares procuraram procurou manter ações


repressivas seletivas, preservando uma “aparente normalidade institucional com focos de
ação violenta” (TELES, 2013: p. 8). Contudo, violações dos direitos humanos de crianças e
adolescentes, filhas de militantes políticos fizeram parte do cotidiano de muitas famílias
brasileiras, ameaçadas pelo medo da tortura e do desaparecimento forçado de seus
familiares. O caso de Maria Auxiliadora, sequestrada no dia 13 de dezembro de 1968, junto
com seus filhos André (3 anos) e a Priscila (2 anos) é exemplo dessa prática. Seus filhos
ficaram quatro meses detidos nas dependências militares e submetidos a situações
degradantes e subumanas.

Há ainda os casos de crianças e adolescentes que foram presos e, algumas vezes,


torturados junto com seus pais, como é o caso do adolescente Ivan Seixas (16 anos) filho do
operário paranaense Joaquim Alencar de Seixas. Ambos foram presos em 16 de abril de
1971 e levados para as dependências da 37ª Delegacia de Polícia e posteriormente para o
Destacamento de Operações de Informações/Centro de Operações de Defesa Interna de
São Paulo (DOI-CODI/SP). Ambos militavam no Movimento Revolucionário Tiradentes
(MRT) quando foram presos. Pai e filho foram torturados juntos e após o assassinato de
Joaquim Alencar de Seixas, sua residência foi invadida, sua mulher e filhas foram presas.
Ivan passou seis anos preso sem responder a um julgamento.

No dia 30 de setembro de 1969, Virgílio Gomes da Silva Filho foi preso junto com
sua mãe e mais dois irmãos. No dia anterior seu pai Virgílio havia caído nas mãos dos
agentes da repressão e foi assassinado. Sua mãe e irmãos foram presos quando estavam
hospedados em uma casa praiana em São Sebastião / SP. Na época, seu irmão mais velho
Vlademir tinha oito anos, Virgílio seis anos e Isabel, sua irmã mais nova tinha somente
quatro meses. Todos foram detidos na sede da Operação Bandeirantes (OBAN). As três

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crianças foram arrancadas de sua mãe Ilda e levadas para o Juizado de Menores, onde
permaneceram por dois meses. Antes disso passaram por vários interrogatórios. Ilda
permaneceu presa até o ano de 1979, permanecendo incomunicável a maior parte do
tempo. As crianças foram separadas e cada uma delas foi morar com um tio. Às vezes elas
se reuniam e ficavam paradas em frente a um poste onde sua mãe, ainda presa, poderia
avistá-los. Após ser libertada e reunir sua família, Ilda e seus filhos foram morar em Cuba
onde permaneceram até concluírem o curso universitário(PIMENTA e TEIXEIRA, 2009).

Em 19 de fevereiro de 2013 morreu em São Paulo Carlos Alexandre Azevedo,


torturado quando tinha apenas um ano e oito meses de vida no Departamento Estadual de
Ordem Política e Social (Deops), em 1974. Carlos era filho do jornalista Dermi Azevedo,
militante e um dos fundadores do Movimento Nacional dos Direitos Humanos (MDNH). No
dia 14 de janeiro de 1974, Carlos Alexandre e sua mãe foram levados à sede do Deops
paulista, onde seu pai estava preso. Durante o interrogatório de Dermi, os policiais jogaram
Carlos Alexandre no chão e machucaram sua cabeça. A tortura deixou sequelas em Carlos
que viveu toda a sua vida submetido a tratamentos com antidepressivos e antipsicóticos. No
dia 19 de fevereiro deste ano Carlos Alexandre pôs fim à sua vida com uma overdose de
medicamentos12.

Em junho de 1970 quatro crianças - Ernesto (2 anos e 3 meses), Zuleide (4 anos e


10 meses), Luis Carlos (6 anos e 7 meses) e Samuel (9 anos),- presas com a avó e os pais,
foram enquadrados como subversivos e banidos do País por decreto do então presidente
Emílio Garrastazu Médici. Elas foram embarcadas em um voo rumo a Argel, capital da
Argélia. Após presenciarem a tortura de seus pais e avó e de serem torturadas, foram
banidas do Brasil com base no Ato Institucional Nº 13 que permitia “banir do território
nacional o brasileiro que, comprovadamente, se tornar inconveniente, nocivo ou perigoso à
segurança nacional”.

Nenhuma das crianças que tiveram os pais assassinados, clandestinos ou


encarcerados teve o direito de desfrutar da convivência familiar, escolar ou comunitária.
Seus relacionamentos eram marcados por restrições e segredos. Os finais de semana eram
passados em cadeias, únicas ocasiões que podiam visitar seus pais.

12
Morre em São Paulo homem torturado pela ditadura quando tinha um ano. Disponível em: <
http://noticias.terra.com.br/brasil/,ead367d062fec310VgnVCM3000009acceb0aRCRD.html>. Acesso
em 01 mar. 2013.

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Considerações finais
Há um consenso na historiografia sobre o protagonismo do Brasil em ações de apoio
e sustentação das ditaduras que se instalaram no Cone Sul após 1964. Este protagonismo
incluía ações de repressão, sobretudo troca de informações, fornecimento de documentos,
troca de prisioneiros, treinamento em área de inteligência e em técnicas de “interrogatório”
com a colaboração dos serviços secretos norte-americanos e britânicos. A historiografia
analisa que esse processo se expandiu e intensificou ao longo de quase 20 anos e identifica
pelo menos três estágios distintos de colaboração entre as ditaduras, com participação
brasileira. O primeiro estágio começa a partir de 1964; o segundo, após o início da ditadura
chilena, um estágio que passa a incluir troca de prisioneiros sem registro, seqüestros e
assassinatos. O terceiro estágio, a Condor, a partir de 1975. O Acervo Clamor é importante
porque ele permite analisar e perceber essas ações e o protagonismo brasileiro nelas.
O resgate do conteúdo deste Fundo e de outros semelhantes é crucial para
percebermos a política de cooperação adotada entre os países do Cone Sul e Brasil, bem
como o protagonismo brasileiro nas ações de repressão, troca de prisioneiros e treinamento
em áreas de inteligência e técnicas de interrogatórios. Relatar essa história é contar casos
de lutas em defesa dos direitos humanos, mas também de casos de usurpação desses
direitos, com a utilização clandestina, mas explícita, de métodos de barbárie, de violência
física, psicológica e cultural, capaz de gerar uma cultura do medo alimentada pelo terrorismo
de Estado vigente nesses países. Conhecer essa história é garantir o não esquecimento de
fatos que desonraram a humanidade, que alimentaram o silêncio e a inação política e social.
Recordar esses fatos é oferecer à sociedade a chance de conhecer seu passado, aprender
com ele e, a partir disso, desenhar o seu futuro.

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O anticomunismo na imprensa diária de Sorocaba (1964-1968)

Bruno de BARROS
Mestrando pela Universidade de São Paulo (USP)
bruno_de_barros@yahoo.com.br

Introdução

A posição anticomunista, assumida na década de 1960, pelos jornais: Cruzeiro do


Sul, Diário de Sorocaba e Folha Popular, foi analisada como parte importante da
contextualização do golpe de 1964, na cidade de Sorocaba e será brevemente exposta no
texto a seguir.
O jornal Cruzeiro do Sul fundado no ano de 1903, em meio às disputas políticas
locais, ligadas ao Partido Republicano Paulista (PRP), no começo do ano de 1963, seu
proprietário foi persuadido a vendê-lo para alguns membros da loja maçônica da qual
pertencia.
O jornal passou por uma reforma estrutural, em agosto de 1964, tornou-se
propriedade da Fundação Ubaldino do Amaral, também, pertencente a mesma loja e se
empenhou em definir-se como liberal e republicano1.
Vitor Cioffi de Luca, natural do estado do Paraná, formado em jornalismo pela
faculdade Cásper Líbero, em 1951, dirigiu o jornal Folha Popular, até sair e fundar em 1958
o Diário de Sorocaba. Salienta-se, a respeito do dono dessa folha, um forte caráter cristão e
católico, e a crença em um modelo profissional de jornalismo, transferido para a orientação
e direção do jornal (Diário de Sorocaba, 06/07/1963 e 06/07/2011).
Na casa Paroquial de Sorocaba, em 17 de outubro de 1949, se organizou a
estruturação de uma folha de perfil “eminentemente doutrinário” e de cunho “absolutamente
cristão”, formulou-se ai os princípios do jornal Folha Popular. Durante a década 1950 este
jornal pertenceu à diocese de Sorocaba, posteriormente foi adquirido pela família Teixeira
dos Santos, porém, manteve entre seus redatores alguns membros do clero local.
O interesse em debater a história de Sorocaba e a ausência de trabalhos sobre a
história local, na qual sejam estudados os embates sócio-políticos, inerentes às
transformações da sociedade moderna, pautada pela urbanização, industrialização, e
conflituosa, entre os grupos políticos formados em seu interior levou a escolha destes
jornais, como fonte e objeto de pesquisa (LUCA, 2005). A proximidade em relação à disputa

1
Sobre a história dos jornais, muito foi publicado em materiais comemorativos dos mesmos. Alguns
livros – como o de José Aleixo Irmão (1996) - trouxeram informações relevantes sobre um dos jornais
estudados, porém, por estar vinculado ao grupo, ou a direção da folha, acabou por reproduzir o
discurso publicado nos textos comemorativos de fundação do jornal. Em contrapartida, procurou-se
comparar alguns destes textos, escritos em épocas diferentes e por diferentes autores para observar
distinções e contradições entre os mesmos. No mesmo sentido, se fez uma análise da primeira
edição de cada jornal na qual foi expresso o conteúdo programático das folhas estudadas.

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do controle político local é uma das principais características das folhas do interior, outra é
voltar-se para as questões da sociedade em que esta inserida, com a valorização de
notícias sobre município e estado, em maior grau, que as informações sobre o contexto
nacional (LUCA, 2005, CAETANO, 1981).
Em um país onde os jornais tem forte tendência a se autopromoverem como porta
vozes do povo, a força e a expressividade da imprensa se amplifica. Assim, esta se torna
importante instrumento de veiculação de ideias e doutrinas, elaboradas por sujeitos e
agentes políticos (MOTTA, 2002, CAPELATO, 1994, AQUINO, 1990 e 1994).

O anticomunismo e a presença comunista no contexto local

O anticomunismo das folhas locais é compreendido como a oposição, as ideias


leninistas-marxistas, e a revolução de 1917 na Rússia. Rodrigo Motta (2002) destacou o fato
do mesmo ser reivindicado em momentos que resultaram em uma virada autoritária, na vida
política brasileira, com a união dos grupos conservadores da sociedade, que reunidos sob a
mesma bandeira, lutaram pela manutenção de seu status quo.
Entretanto, é importante demonstrar ser este aspecto dos jornais locais fruto
convergente, tanto da situação nacional, como de elementos da história da cidade.
Os ideais libertários e de revolução social, tiveram penetração na classe operária e
levaram, entre o fim do século XIX e inicio do XX, a formação de partidos socialistas e
sociedades mutualistas entre os operários de Sorocaba. Após as greves de 1917 e 1919 o
viés libertário diminuiu drasticamente, devido coação dos industriais e a repressão do
Estado (ARAUJO NETO, 2006).
A partir de 1930 cresceu a influência comunista no movimento operário, foi, também,
desta década, a primeira onda anticomunista a contribuir para levar o país a um regime
ditatorial - o Estado Novo de Getúlio Vargas. É, também, do período o legado do fantasma
da Intentona Comunista, a assombrar as páginas dos jornais liberais, dispostos a abandonar
seus princípios em prol da luta contra o “perigo vermelho” (ARAUJO NETO, 2006, MOTTA,
2002, e CAPELATO, 1980).
Heber Ricardo da Silva (2009) demonstrou que durante 1945 e 1948, foi recorrente a
elaboração de imagens negativas do comunismo, por elementos binários, na grande
imprensa do eixo Rio-São Paulo, levados pela influência da guerra fria e pela breve
legalidade do PCB.
Em Sorocaba, no ano de 1946, ocorreram mobilizações e paralizações operárias na
qual participaram ativamente membros do partido comunista. Na cidade foram criados
“Comitês Democráticos Populares”, abertos a propaganda do PCB. Durante o ano de 1947,
na imprensa local, circularam manchetes como “A Rússia está construindo fábricas de

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bombas atômicas” e “O terrorismo implantado pela nova internacional”. Neste ano a cidade
recebeu as visitas de Luís Carlos Prestes e Jorge Amado, em apoio aos candidatos
comunistas locais. Com a ilegalidade do PCB, a estratégia dos candidatos locais foi de
agremiarem-se no Partido Social Trabalhista (PST). A contrapartida anticomunista veio em
forma de panfleto, na qual, se explorava uma situação pessoal de um deputado do Partido
Comunista e procurava estabelecer relações entre, a filiação ou simpatia, pelo comunismo,
como principio de derrocada e perdição moral (CAVALHEIRO, 2001).
O candidato comunista a prefeito ficou em segundo lugar nas eleições de 09 de
novembro de 1947 e foram eleitos 14 vereadores dessa sigla, para uma Câmara com 31
vereadores, inclusive a primeira mulher eleita como vereadora em Sorocaba (também pelo
PST). Entretanto, todos estes vereadores foram cassados pelo Tribunal Regional Eleitoral
que negou a existência do diretório do partido (Cruzeiro do Sul,15 de nov. de 1947, p. 1).
No início da década de 1960 nota-se que grupos conservadores reivindicavam para
que todos estivessem “De pé e a ordem”, pois, a “nação estaria em perigo”, e, por tal razão,
não se furtariam a intervir na vida política. Por outro lado, sindicatos locais, com lideranças
de esquerda, organizaram longas greves, da qual a principal, em 1963, foi a da E.F.
Sorocabana. Em meio a isso, um dos jornais locais, orientava seus eleitores para os perigos
da vitória do materialismo comunista ateu ou do laicismo maçônico, para o cargo de prefeito
ou vereador. Estes elementos demonstram as circunstâncias político-sociais pela qual
passava a cidade e indicam alguns matizes, da opinião da imprensa local2 (ALEIXO IRMÃO,
1996 e GUARINO, 1987).

O anticomunismo na imprensa diária de Sorocaba


No Brasil a característica de oposição anticomunista teve aspectos próprios, a
oposição religiosa, pelo catolicismo, foi base principal da mobilização anticomunista. Por sua
vez, a oposição norte-americana contra o comunismo, consolidou a imagem ideológica de
perigo contra o mundo livre, sobretudo, após a revolução em Cuba (MOTTA, 2002).
A análise da imprensa sorocabana concentra-se no segundo momento de reviravolta
anticomunista, destacado por Rodrigo Motta, do qual se inclui o contexto do golpe civil
militar de 1964.
Na semana do Comício pelas Reformas de Base, os jornais de Sorocaba, valeram-se
da incitação do temor ao comunismo e sua identificação com o governo, enquanto inimigo
da liberdade democrática, da família, da propriedade e da religião, como se pode ver nos
títulos de suas matérias:

2
Ver as seguintes edições dos jornais - Folha Popular: 30 de nov. de 1963, p. 1, 11 de out. de 1963,
p. 1 e 06 de out. de 1963, p. 1. No Diário de Sorocaba: 11 de out. 1963, p. 1 e 26 de nov. de 1963, p.
1.

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POVO SOROCABANO OROU CONTRA O COMUNISMO. (DS, 15 de mar


de 1964, p.1) / Autonomia da Guanabara corre graves riscos (CS, 10 de
mar. 1964, p.1) / Governador apela aos universitários para que
permaneçam na luta pelas liberdades (CS, 11 de mar. de 1964) / Comício
de hoje: expectativa e protestos (CS, 13 de mar. de 1964, p. 1).
Ameaçadas de invasão as terras da fazenda Ipanema (FP, 10 de mar. de
1964, p. 1 e 2) / Jovens Sorocabanos integrados no movimento anti-
3
comunista de Bauru (FP, 15 de mar. de 1964, p. 3).

Além de jovens envolvidos em atividades anticomunistas, havia senhores da


sociedade local, dispostos a empunhar armas para defenderem-se da “cubanização” do país
e, também, senhoras católicas em “cruzada” contra extinção da religião e da liberdade.
Portanto, não chega a surpreender a divulgação, nos três jornais, no dia 18 de
março, de portaria da delegacia regional, com a convocação de voluntários dispostos a
unirem-se a polícia, para resistir contra a suposta investida de Cuba ou Moscou.
Este fato, pela perspectiva da força e caracterização do discurso, produzido na
imprensa, declarou a destituição da representatividade do governo, pois, o mesmo estaria,
agora, a serviço dos interesses sombrios e externos, e não mais do povo que lhe delegou o
poder. Caberia, assim, oficialmente ao “democrata convicto” e aos “homens de bem” a
“defesa das liberdades constitucionais” e das “instituições democráticas nesta hora
conturbada” contra o governo4.
Na portaria para chamada de voluntários é marcante a especificação do tipo de
individuo almejado para pertencer ao Corpo de Inspetores. Deste seria exigido “Verdadeira
vocação democrática e cristão (sic) comprovada com rigorosa sindicância a ser feita pela
delegacia” (Cruzeiro do Sul, 18 de mar. de 1964, p.1).
Os dias posteriores de campanha contrárias a Goulart – identificado com o
comunismo e a subversão das leis5 - tornou-se embasada pelo fervor religioso da “marcha
da família por deus, pela liberdade”:

Convocado o povo cristão de Sorocaba para Grande concentração


democrática (DS, 25 de mar. de 1964, p. 1) / Povo sorocabano vai à praça
pública: em defesa do regime e da Constituição (CS, 24 de mar. de 1964, p.
1) / “Lutamos por uma Pátria livre”: Sorocaba defende hoje seu lema (CS,

3
Os nome dos jornais Cruzeiro do Sul, Folha Popular e Diário de Sorocaba serão nas citações trados
por suas respectivas iniciais.
4
Para a portaria baixada pelo delegado regional e a integra dos critérios para integrar o grupo de
voluntários, ver as edições dos jornais Cruzeiro do Sul (este disponível on-line), Diário de Sorocaba e
Folha Popular dos dias 18 e 19 de mar. de 1964. A respeito da perda de representatividade do
governo Goulart, produzida por um discurso estratégico para esta finalidade, e seu resultado efetivo
ver Luiz Fiorin (1988).
5
Algumas das notas publicadas na imprensa, antes e depois do golpe, identificaram as ações e
objetivos de João Goulart como uma ação de levar o país ao comunismo. Daí expressões como
“comunização” ou “comunizantes” para fazer referencia a ação de Goulart. Ver: Diário de Sorocaba,
19 de mar. de 1964 e 03 de abr. de 1964.

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25 de mar. de 1964, p. 1) / Marcha “Com Deus, Pela Família” em Sorocaba


(FP, 25 de mar. de 1964, p. 1).

Os jornais, Cruzeiro do Sul e Diário de Sorocaba, assumidamente apoiaram a


marcha em Sorocaba, programada justamente para o dia 25 de março, mesmo dia, de um
comício local em favor das reformas de base. As noticias do Comício em apoio as Reformas
e da “Marcha” foram divulgadas de forma mais equilibrada pela Folha Popular.
O primeiro impulso repressivo do regime, após, efetuado o golpe civil militar, e a
destituição do presidente, foi noticiado com entusiasmo e alivio pelos jornais, por ser a
vitória contra o inimigo comunista:

Represália Anti-Comunista prossegue: DOPS funcionou na E.F.


Sorocabana (FP, 05 de abril de 1964, p. 1) / Propaganda comunista
aprendida em Sorocaba, vinha do palácio do catete (FP, 9 de abril de 1964,
p. 1) / Lancetado o abcesso (ROCHA, Jurandyr, CS, 02 de abr. de 1964,
última página) / Sem um tiro: terminada a maior crise brasileira (CS, 03 de
abr. de 1964, p. 1) / Libertaram Porto Alegre as forças da Democracia,
Jango pediu e obteve asilo / Caminho de Castro derrubou Goulart (DS, 3 de
abr. de 1964, p. 1) / Revistada pela polícia a sede do Partido comunista em
Sorocaba (DS, 04 de abr. 1964, p. 1)

A oposição ao modelo econômico seguido pelo governo militar e a ausente melhora


nas condições econômicas foram ponto em comum de críticas ao regime pelos jornais, entre
1964 e 1968. Entretanto, os jornais, Cruzeiro do Sul e Diário de Sorocaba, foram cautelosos
a respeito do retorno a maior participação da sociedade no debate político. Estiveram
favoráveis a sua ampliação, porém, receosos, pois, desconfiavam da orientação da
crescente oposição política ao regime, de tal maneira que esses jornais mantiveram seu
voto de confiança no regime.
A rejeição da identificação, com os ideais leninistas-marxistas, ou com o comunismo,
no jornal Folha Popular, equilibrou-se com a crítica ao autoritarismo do regime militar, desde
o início de 1965.
Durante esses anos os jornais frequentemente recorreram a dois tipos de
representação dos comunistas ou de países comunistas. Um deles, comum aos três jornais,
foi a publicação de notícias e opiniões comparativas e negativas a respeito de países
comunistas, como China, Cuba, e URSS. A Folha Popular, por sua vez, publicava tirinhas
que aludiam os mesmos elementos negativos mostrados nas notícias e informações
vinculadas sobre esses países.
No ano de 1968, com o crescimento da agitação nacional, se retomou
gradativamente o discurso anticomunista nos jornais Diário de Sorocaba e Cruzeiro do Sul,
como é possível ver no títulos dos editoriais: Hora e vez dos agitadores (DS, 05 de abr. de
1968, p. 3) / Imperialismo e Comunismo (CS, 26 de jan. de 1968, p. 2).

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O jornal Folha Popular publicou, durante o primeiro semestre de 1968, artigos


assinados pelo padre Aldo Vannucchi, a maioria em sua primeira página, de onde se retirou
os trechos a seguir:

O Brasil não merecia essa situação. Sair das comedias políticas de Jango
Goulart para cair nesse regime de terror e estupidez, positivamente não
agrada a ninguém. A não ser aos pescadores de águas turvas. (FP,
04/03/1968)/ Uma das características mais tristes da realidade brasileira
atual é o silencio das classes assalariadas. (...). É o medo da prisão
também, por subversivo... (FP, 20/04/1968, p.1)

As alegações prévias para o golpe de 1964 foram reinvocadas, nos editoriais dos
jornais Cruzeiro do Sul e Diário de Sorocaba - O comunismo como sinônimo de ateu, a
preocupação com a desordem social, o desrespeito à hierarquia - a serviço de Cuba e seu
projeto revolucionário - foram readaptados para momento atual. Já o principal argumento
utilizado pelos jornais como o causador da crise política em 1968 foi a infiltração comunista
no meio estudantil.
O jornal Folha Popular, nos últimos meses do ano, teve sua circulação,
continuamente interrompida, e em dezembro foi anunciada sua venda.
A edição do Ato Institucional nº 5 foi justificada como uma resposta do regime a
reorganização das forças comunistas, infiltradas na oposição, política ou estudantil. Da
mesma maneira, após algum tempo, como em 1964, as justificativas para o AI-5, nos artigos
e editoriais, ou, em forma de charges, voltaram-se para o combate a corrupção.
Por fim, a análise dos três jornais demonstrou a permanência, mesmo em jornais que
publicaram artigos de opinião contrários ao regime militar, de discursos ou alusões
anticomunistas, entre 1964 e 1968. Creditou-se a onda anticomunista local em 1964 não
apenas a conjuntura nacional, com grande polarização política, mas, também, a um histórico
de mobilização e reivindicação ativa de partidários da esquerda na cidade.

Referências

1) Jornais

Cruzeiro do Sul
Diário de Sorocaba
Folha Popular

2) Bibliografia

ALEIXO IRMÃO, José. A Perseverança III e Sorocaba (Do suicídio de Vargas à Sagração do
Templo), Sorocaba-SP, Fundação Ubaldino do Amaral, 1996.

AQUINO, Maria Aparecida de. Censura, Imprensa, Estado Autoritário (1968-1978). O


exercício cotidiano da dominação e da resistência. O Estado de S. Paulo e Movimento. 166

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f. Dissertação (Mestrado em História Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências


Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1990.

ARAUJO NETO, Adalberto Coutinho de. Entre a revolução e o corporativismo. A experiência


sindical dos ferroviários da E.F. Sorocabana nos anos 1930. 283 f. Dissertação (Mestrado
em História Econômica) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade
de São Paulo, São Paulo, 2006.

CAETANO, Kati Eliana. História, sociedade e discurso jornalístico: análise de alguns jornais
veiculados em Corumbá-MS durante o Estado Novo. Dissertação, 192 f., Dissertação de
Mestrado na área de linguística, Faculdade de Filosofia E Ciências Humanas, Universidade
de São Paulo, 1981.

CAPELATO, Maria Helena, PRADO, Maria Lígia. O Bravo Matutino (Imprensa e ideologia no
jornal “O Estado de S. Paulo”), Editora Alfa-Omega, São Paulo,1980.

FICO, Carlos. Versões e Controvérsias sobre 1964 e a Ditadura Militar. Revista Brasileira de
História. São Paulo, v. 24, nº 47, 2004.

FIORIN, José Luiz. O regime de 1964: discurso e ideologia. São Paulo, Atual, 1988

LUCA, Tania Regina de. História dos nos e por meio dos periódicos, In: PINSKY, Carla
Bassanezi (org). Fontes Históricas. São Paulo: Contexto, 2005.

MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Em guarda contra o “Perigo Vermelho”: o anticomunismo no


Brasil (1917-1964). São Paulo, Perspectiva: FAPESP, 2002.

SANTOS, Guarino Fernandes dos. Nos Bastidores da Luta Sindical. São Paulo, Ícone
editora, 1987.

SILVA, Heber Ricardo. A democracia impressa: transição do campo jornalístico e do político


e a cassação do PCB nas páginas da grande imprensa, 1945-1948 [online]. Editora UNESP;
São Paulo: Cultura Acadêmica, 2009. 240 p. Disponível em <<http://books.scielo.org>>

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Ufanismo, conservadorismo e iconografia política na música popular brasileira: um


estudo de caso sobre o EP Wilson Simonal, novembro de 1970

Bruno Vinícius Leite de MORAIS


Mestrando em História pela UFMG
bruno_viniciusdemorais@hotmail.com

O estudo da História, como sabemos, é constantemente tomado por revisões,


motivadas por alguma descoberta documental, uma nova abordagem ou o deslocamento da
análise a partir de diferentes atores. Assim tem ocorrido com a abordagem da nossa última
ditadura, conforme temos percebido nas diversas mesas e comunicações deste seminário
quanto aos 50 anos do golpe de 1964. A produção historiográfica sobre o período recebeu
um novo e polêmico foco nos últimos anos através de um grupo de historiadores que,
desejosos de combater um aparente “enquadramento da memória” do período ditatorial em
torno da noção de resistência, passaram a enfatizar o apoio recebido pela sociedade civil.
Deste modo, analisam a articulação entre setores civis e militares que resultou no golpe de
Estado de 64, e a ditadura militar dele consequente, enfatizando o papel da sociedade civil
como uma colaboração – termo retirado da forte inspiração na historiografia francesa sobre
o governo de Vichy durante a ocupação nazista.

Assim, num deslocamento de objeto do grupo da resistência, que seria uma parcela
menor da sociedade brasileira ou mesmo algo exógeno a ela (REIS, Daniel Aarão, 2010),
passam a enquadrar as análises, sobretudo, sob as classes médias que teriam se
beneficiando do regime, justificando estudos em torno do que foi chamado de criação de
“consenso” na construção social do nosso regime autoritário, conforme obra organizada por
Denise Rollemberg e Samantha Quadrat (2011). Nesta nova abordagem, que renomeou a
natureza da ditadura como “civil-militar”, destacou-se também estudos sobre o período do
“milagre econômico” que, se era chamado de “anos de chumbo” pela memória de
resistência (por ser o mais repressivo do regime), é recordado como “anos de ouro” para
muitos, inclusive pela forte aprovação ao governo Médici. Embora tal apoio ou respaldo de
setores da sociedade sejam evidentes para se pensar qualquer regime de exceção que dure
tanto tempo (21 anos), tais aspectos aparentemente encontravam-se à margem da memória
e historiografia sobre o período, justificando o destaque das recentes abordagens1. No caso,
faço uma ressalva, “anos de ouro” para os setores que se beneficiaram, já que podemos
relembrar aqui que foi um período de grande arrocho salarial e de enorme aumento da
desigualdade social, com intensa concentração de renda. Tudo isso submetido à forte
controle da circulação de informação, através de censura, e constantes e densas

1
Sobre o respaldo popular ao governo Médici, um interessante artigo é o de Janaína Martins Cordeiro, Anos de
chumbo ou anos de ouro? A memória social sobre o governo Médici. Publicado in: Revista Estudos Históricos,
Vol. 22, No. 43, 2009, p.85-104.

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propagandas apologéticas à realidade nacional. Ressalva importante para se atentar ao


risco de que, ao combater o enquadramento que teria produzido uma memória de
resistência para toda a sociedade, isolando a ditadura como um embate entre militares
golpistas e civis vitimizados, o contraponto pode ser o risco de se produzir uma memória de
uma sociedade adesista (ou, conforme o lugar comum dessa vertente historiográfica,
“colaboracionista”). O que seria igualmente falso e reducionista, mas ainda mais perigoso
quanto a potenciais implicações éticas e morais, visto o impacto dos usos da produção
histórica, sobretudo da história recente, para questões políticas e identitárias da sociedade.

Apesar do forte impacto dessa nova historiografia, a problemática do posicionamento


adesista ao regime (termo que prefiro em detrimento ao “colaboracionismo”) no campo da
música popular, de grande importância para a problematização do campo artístico do
período, ainda foi pouco trabalhada pelos historiadores. Aspecto que motivou o presente
texto, que objetiva refletir sobre o momento no qual o politicamente controverso cantor
Wilson Simonal demonstrou afinidade com o ufanismo conservador da ditadura militar
brasileira em um EP, lançado em novembro de 1970.

O nome de Simonal já havia aparecido com certo destaque em meio às discussões


sobre as situações que buscaram conferir alguma legitimidade ao regime militar, o que uns
chamam de “consenso”. Também pudera! Cantor de enorme sucesso popular nos anos
1960 caiu em desgraça em um momento simultâneo à explosão do escândalo de ter se
envolvido em um processo judicial referente à prisão e tortura de seu contador, no qual
Simonal se declarou um colaborador do DOPS. Tendo desaparecido da memória social,
fonográfica, e da produção acadêmica sobre o período, há pouco mais de 10 anos surgiu
um destacado interesse sobre a vida e obra do artista, o que o jornalista Ricardo Alexandre
chamou de “simonalmania”, retomando uma expressão midiática surgida nos anos 1960
para se referir ao sucesso do artista. Paralelo a esse reestabelecimento da obra do cantor
entre os cânones da canção brasileira, foi defendida em 2007 uma dissertação por Gustavo
Alonso Ferreira, posteriormente publicada em livro (2011), analisando-o como um “bode
expiatório” na construção da memória de resistência por uma sociedade que estaria
negando seu apoio à ditadura. Além desta, outra dissertação, defendida por Adriane Hartwig
em 2008, analisa Simonal enquanto um instrumento descartável do sistema, com toda sua
produção artística voltada para a alienação das massas ante a exploração capitalista.

Embora os trabalhos historiográficos citados enfatizem o caráter politicamente


conservador de Simonal, os autores pouco se debruçaram sobre o momento em que a
produção artística do músico esteve mais diretamente atrelada ao discurso oficial do
governo ditatorial, neste EP (Extended play – uma gravação em vinil intermediária entre o

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Compacto - single - e o Long Play, ou Álbum) de novembro de 1970. Chamadas pelo próprio
Simonal de músicas “nativistas”, as canções presentes no EP – das quais nenhuma
apareceu em um álbum regular do artista – causaram furor na crítica da época, sendo
escorraçadas por veículos de informação. Como a revista Veja que comparou as canções
lançadas no EP com o velho livro Por que me ufano do meu país (ALEXANDRE. 2009: 179).
Das quatro canções presentes, três já haviam aparecido em outros EPs lançados nos dois
meses anteriores, sendo a única inédita a canção “Resposta”.

Para melhor estudarmos o comportamento político expresso no EP, proponho


começar com uma análise desde a capa. As capas de discos, apesar da forte presença em
nosso cotidiano e até da relação afetiva que muitos estabelecem com elas, ainda são
objetos pouco trabalhados pela historiografia. Além da função inicial de serem embalagens,
proteções do disco, também são mecanismos comerciais para sedução do consumidor e, ao
mesmo tempo, um meio de comunicação entre o artista, sua obra, e o seu público através
de um recurso visual. Portanto, são um convite à obra musical ali contida e podem anunciar
ao público, antes mesmo da audição do disco, uma mensagem que o artista queira
transmitir. Assim, mesmo uma capa sem um trabalho aparente estabelece uma
comunicação através de sua simplicidade, como o álbum branco dos Beatles (1968), o do
Caetano Veloso (1969) ou o Back in Black do AC/DC (1980), com sua capa negra, entre
outros.

No que se refere às capas com um trabalho gráfico, essa relação se torna ainda mais
evidente. O uso de um trabalho gráfico pensado para as capas de disco advém da década
de 1930, com inspiração do layout publicitário, conforme as dissertações do historiador Erick
de Oliveira Vidal (2008) e do designer gráfico Jorge Caê Rodrigues (2007). Mas a partir dos
anos 1950 que vemos a presença de um trabalho gráfico mais cuidadoso nas capas de
disco, inclusive com o uso de fotografias, algo de custo elevado no período. No entanto, com
um caráter artístico pouco reconhecido. Ainda assim, a partir dos anos 1960 e a solidificação
do consumismo pela Cultura Jovem, segundo Rodrigues, a arte gráfica dos discos aparece
como um importante mercado de trabalho para vários designers e mesmo artistas plásticos
renomados, como Andy Warhol (que nos anos 1950 já era o principal ilustrador dos discos
de jazz do selo Blue Note) nos EUA ou Cândido Portinari, no Brasil. Neste período também
vemos a elaboração de capas mais complexas, conceituais, embora sempre comerciais.
Afinal, conforme a visão de um destacado design de capas brasileiro do período, César
Villela: “Não se pretende que alguém ‘entenda’ uma capa de LP mas sim que sinta
decisivamente atraído por ela” (Cesar Villela em LAUS, Egeu. Apud. VIDAL. 2008: 87).

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Ainda assim, ao contrário de Villela, aqui é defendida a possibilidade do


entendimento, sim, das capas de disco, para além (mas não eclipsando) do efeito de
atração exercido por elas. As capas, assim como pôsteres e outdoors, também são recursos
imagéticos através dos quais se veiculam mensagens que informam sobre o contexto no
qual foram produzidas e sobre as intenções dos artistas envolvidos naquela obra artística.
Assim, a dissertação de Vidal, inovou, analisando a relação entre a estética dos “silêncios”
da Bossa Nova e a valorização dos “espaços vazios” nas capas produzidas pela gravadora
Elenco. As capas também são interessantes objetos para o estudo da revolução
comportamental vista na segunda metade do século XX, inclusive da agressividade e da
contestação aos costumes atribuída à juventude, como em vários exemplos ligados ao rock
and roll. E da cultura de grupos marginalizados, se pensarmos em diversos gêneros
considerados “popularescos”, como “brega”, rap, vertentes do samba e etc., para citar casos
nacionais.

Além de um objeto para a história social, acredito que as capas também possam
contribuir no trabalho do historiador do político. Casos como o LP Sandinista lançado pelo
grupo The Clash em 1980, é ilustrativo, com o titulo em vermelho sugerindo um apoio ao
governo revolucionário nicaraguense vitorioso no ano anterior sob uma das ditaduras mais
ferozes da América Latina. Doze anos depois, o álbum de estreia da engajada banda
estadunidense Rage Against the Machine também impacta pela famosa capa, com o monge
em chamas, chamando atenção aos problemas tibetanos e já antecipando o ouvinte para o
som pesado, incendiário, e as letras altamente politizadas que caracterizam o grupo.
Seguindo essa linha de raciocínio, diversas capas do músico e ativista nigeriano Fela Kuti
também são representativas de possibilidades de análises políticas.

Para além das possibilidades de leitura referentes às modificações comportamentais


ou de temáticas políticas contestatórias e/ou associadas à esquerda, as capas de disco
também permitem leituras sobre o posicionamento conservador. E aqui retomo da longa
digressão para a análise do EP lançado por Simonal em novembro de 1970. O historiador
Gustavo Alonso Ferreira, quando cita sobre este trabalho menciona brevemente as
similaridades de sua capa com “o famoso cartaz do Tio Sam conclamando os americanos a
aderir ao exército.” (FERREIRA. 2011: 317). Através de um interessante artigo de 2003 do
historiador Carlo Ginzburg, podemos refletir melhor sobre tal aproximação. Nesse artigo,
intitulado Tu país te necessita: un estudio de caso sobre iconografia política, Ginzburg
promove uma elaborada análise do famoso cartaz.

Como sabemos, o cartaz original não é o que retrata o símbolo estadunidense, mas
sim um que apresenta o sisudo e destacado general inglês Lord Kitchener e com os dizeres

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“seu país precisa de você” (fig.1). Lançado em setembro de 1914, antes da adoção do
alistamento obrigatório, com colaboração do efeito do cartaz, contam-se cerca de 35 mil
alistamentos ao dia, chegando à surpreendente cifra total de dois milhões e meio de homens
alistados (GINZBURG. 2003: 15). Tal fenômeno de resultado contribuiu para o que foi
chamado de triunfo da imagem, o cartaz, sobre o personagem real, Kitchener. Como
comprovação do feito, ainda durante a Primeira Guerra Mundial e imediatamente depois,
“versões mais ou menos reelaboradas do pôster de Lord Kitchener foram feitas na Itália,
Hungría e Alemanha. Nos Estados Unidos e na União Soviética, Lord Kitchener reapareceu
representado como Tio Sam (fig. 2) e como Trotsky, respectivamente” (idem. Pg.18). Esse
resultado é interessante para pensarmos no que o historiador Eric Hobsbawm diagnosticou
como o processo de “lealdade e da subordinação voluntária dos cidadãos ao seu governo”,
que não é uma lealdade às elites, “mas ao Estado e à nação”. (HOBSBAWM. 1999: 36).
Uma diferença, ainda seguindo o argumento de Hobsbawm, entre as guerras atuais e as
anteriores à idade contemporânea, na qual o Estado conseguiu o feito (considerado por
Hobbes impossível mesmo para o Leviatã) de convencer o cidadão a “estar pronto para o
ato supremo de abdicar de sua liberdade e de sua vida” em nome do Estado (idem, ibidem).

Tamanho sucesso do cartaz foi relatado já em sua época como efeito do olhar
penetrante de Kitchener e a estratégia de comunicar diretamente com o público alvo. A partir
daí, Ginzburg promove uma sugestiva abordagem sobre as tradições de que seria devedora
a potência narrativa da imagem. Ele conclui que remete a duas tradições interconectadas: a
das figuras com o olhar “de frente”, capazes de aparentemente ver a tudo; e às figuras com
dedos apontando em relevo. Além dessas tradições, existentes desde antes do século XV, o
pôster bebe amplamente da linguagem da publicidade, conforme exemplos da primeira
década do século XX, nos quais já apareciam tanto o dedo indicador apontado para “fora do
quadro”, quanto às recomendações do uso de um invasivo “tu” (ou “você”) para reforçar a
mensagem, através de um caráter pessoal, como em uma carta. Aliás, seguindo no
argumento de Ginzburg, um estudo publicitário publicado em 1910 trazia analogias entre a
publicidade e a guerra. Curiosamente, as técnicas utilizadas para alcançar o objetivo
comercial, foram empregadas para vender a guerra, no pôster e suas apropriações
(GINZBURG. 2003: 29).

O uso de técnicas que remetem a uma sólida tradição artística e também às fórmulas
da publicidade parecem muito propícias para pensar o LP de Simonal. Aliás, inclusive como
metáfora da própria música do cantor, transitando sempre entre a sofisticação nos arranjos
das canções que, segundo o próprio artista, lhe seria uma tendência íntima (ALEXANDRE:
180) e o caráter comunicacional, comerciável, que sempre buscou empregar. A expressão
facial de Simonal na capa (fig. 3), no entanto, não parece transmitir uma convocação sisuda

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como a dos cartazes de guerra citados, mas sim a transmissão de uma mensagem, que
seria essa expressa nas canções.

Fig. 1: Alfred Leete. Lord Kitchener, “Seu país precisa de você”, cartaz de recrutamento, Inglaterra,
1914. Fig. 2: Flagg. J.M. “Eu quero você para o exército dos Estados Unidos”, cartaz de recrutamento,
Estados Unidos, 1917.

Fig. 3: Wilson Simonal, Extended Play, novembro de 1970. ODEON. Arte não creditada.

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Se dividirmos em dois grupos o conteúdo do álbum, encontramos duas canções que


são ligadas à orientação do artista rumo à black music e as duas “nativistas”. Dentre as
black, “Canção nº 21” (Neto/Bittencourt) e a composta pelo próprio Simonal, “Que cada um
cumpra com o seu dever”. Nesta última, como por uma ponte com as músicas nativistas, o
cantor afirma que, em diversos setores da sociedade, numa espécie de mensagem de
ordem, cada um deve cumprir com o seu dever. Embora não cite que dever seja esse, é
possível supor – pensando no contexto e no posicionamento expresso pelo cantor em
entrevistas do período, nas quais ressaltava ser oposto à luta armada, passeatas e outras
“badernas” (ALEXANDRE, 2009: 178 e 345). Defendia ainda que quem não está satisfeito
com esse regime de exceção deveria trabalhar para mudá-lo no futuro, e não ficar
atrapalhando agora (idem: 177-178). Portanto, o “dever” a ser cumprido por cada um parece
ser o da contribuição pacífica para o progresso do “país que vai pra frente”. Tal
posicionamento pode ser comparado aos esforços do governo em propagar a ideia da
ordem a contribuir para o engrandecimento da nação, tão difundidas pelo regime no período.

Mas, escolhendo uma canção para melhor representar a postura de adesão à visão
do regime neste EP, seria a agitada “Brasil, eu fico”, composta, assim como a outra canção
“nativista” do álbum, “Resposta”, por Jorge Ben. Nela, a primeira consideração está no seu
próprio título, dialogando com o famoso slogan do período, “Brasil, ame-o ou deixe-o”, criado
pela Operação Bandeirantes - OBAN (FICO, 2004: 273), e que virou relativa febre nacional,
inclusive como adesivo de carros. A OBAN foi “uma organização paraestatal e extralegal
financiada pelo capital privado nacional e multinacional para colaborar com o Estado na
repressão à esquerda armada” (ALONSO, 2011: 93) – mais uma vez nos remetendo à
participação de setores da sociedade civil, neste caso, em um dos exemplos extremos. A
canção tem por refrão: “esse é o meu Brasil, cheio de riquezas mil. Quem não gostar ou for
do contra que vá pra...” Seguindo um naipe de metais censurando, mas sugerindo, o famoso
palavrão.

Além da referência aos inúmeros exilados e ao grande número de auto exilados,


estava diretamente ligada à euforia ufanista do período, os “anos de ouro” do Governo
Médici que, reforço, também foi o mais repressivo do regime, legitimando a nomenclatura de
“anos de chumbo” pelo qual ficou conhecido, além de podermos sugerir que fossem “anos
de aperto” para aqueles que sofreram com o arrocho salarial e o aumento da desigualdade
social (que, aliás, só viria a ser combatida com políticas federais mais efetivas após o
ingresso no século XXI). Curiosamente, conforme ressalta Gustavo Alonso Ferreira (pg.
317-318) apesar da leitura direta sobre a canção feita inclusive no período, Jorge Ben, o
compositor da música, a regravou no ano seguinte, alterando o nome para “Aleluia, aleluia”,

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citando Simonal e incluindo uma referência ao futebol, sem sofrer aparentemente nenhuma
grande contestação.

A música restante do disco, “Resposta”, também é de Jorge Ben e também traz forte
carga ufanista, contando com versos como “pois eu sou um amante, um amante do meu
país, eu sei onde é meu lugar e sei onde eu ponho o meu nariz”, fechando o bloco de
músicas “nativistas”. E através dela, é propício fazer uma importante ressalva. Embora a
ênfase deste trabalho seja no momento em que a obra de Simonal (sob composição de
Jorge Ben) esteve dialogando com a propaganda do regime, seria reducionista analisa-las
apenas sob essa perspectiva. As duas canções ufanistas não foram compostas
“gratuitamente”, mas fizeram parte de mais um debate musical brasileiro, como houve antes
famosos debates quanto à concepção de “malandragem” entre Noel Rosa e Wilson Batista e
o debate conjugal do casal recém-separado Dalva de Oliveira e Helivelton Martins. Neste
caso, um debate entre Jorge Ben e Simonal contra Juca Chaves.

A canção “País tropical”, maior sucesso da carreira de Simonal e também composta


por Jorge Ben (gravada em 1969 tanto por Simonal, quanto pelo compositor e por Gal
Costa), foi interpretada como direitista na gravação de Simonal. Embora não seja o
interesse deste pequeno texto problematizar sobre a razão pela qual tal gravação foi tida
como direitista na interpretação de Simonal e não nas outras duas lançadas no mesmo ano,
é curioso conjecturar que a recepção da mensagem de uma canção muito se dialoga com a
percepção quanto aquele que a canta. Nesse caso, as opiniões divulgadas de Simonal,
mesmo em um período ainda anterior ao polêmico caso do contador, ajudam a compreender
a impressão que o cantor estava levando para a temática das canções que interpretava o
seu ufanismo e bons olhos quanto ao período. O que difere, sobretudo, da irônica
interpretação da mesma canção feita pelos tropicalistas em disco da Gal Costa.

Juca Chaves, então exilado, compôs uma sátira chamada “Paris Tropical”, citando
nominalmente Simonal (“alô Brasil, alô Simonal, moro e namoro em Paris tropical”) e
ironizando os versos da canção satirizada. Esta foi respondida por Jorge Ben, na voz de
Simonal, com a já citada “Brasil, eu fico”. A contra resposta de Juca Chaves foi uma
divertida canção chamada “Take me back to Piauí”, que contém os versos “Adeus Paris
Tropical, adeus Brigitte Bardot. O champanhe me fez mal, caviar já me enjoou. Simonal
estava certo na razão do patropi, eu também que sou esperto vou viver no Piauí.”.
“Resposta” parece encerrar a disputa, retomando e respondendo, inclusive, aspectos da
canção “Paris tropical” – o que deixa a dúvida se ela teria sido uma reposta composta antes
de “Brasil, eu fico”. Aqui, parto das datas de lançamento das canções para a construção da
hipótese quanto a ordem das respostas.

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A ressalva sobre o “contexto interno” das canções é importante para se pensar os


limites desse comportamento de adesão. É inegável que os artistas, Jorge Ben e Simonal,
poderiam escolher outros termos para se inserir na disputa e defender a ainda hoje
aclamada “País tropical”. A escolha dos termos por Jorge Ben e da gravação por Simonal
devem ser vistos como atitudes conscientes de sujeitos históricos ativos, capazes de
escolhas. Sujeitos, aliás, que tinham consciência de serem artistas com carreiras
consolidadas, sobretudo Simonal que se encontrava no auge da carreira. Portanto, um
artista que devia ter noção do peso social causado pela representação de seu canto,
chegando a superar por cerca do dobro de vendas de discos no ano anterior, 1969, o
tradicional campeão de vendas, Roberto Carlos (ALEXANDRE, 2009: 167). Portanto, um
artista que devia ter noção do peso social causado pela representação de seu canto. A
percepção de outros elementos, como as entrevistas2, permitem afirmar que Simonal,
embora intérprete e não compositor das canções, se identificava com as referências
ufanistas, representativas do ideal de Brasil Grande, professadas pelas letras de Jorge Ben
e em sintonia com o discurso ditatorial.

O cantor Simonal, portanto, se não parece ter demonstrado em outras canções uma
real sintonia com o regime, nesse EP aparece como um difusor de um tipo de “Brasilidade
conservadora” 3, uma visão de nacionalidade e patriotismo compartilhada com vários
brasileiros na época e que era expresso pelo governo em slogans como “esse é um país
que vai pra frente” e “ninguém segura este país”. Seria o caso de comparar uniformemente a
posição adesista de Simonal aqui apresentada com o geral dos artistas e a maioria dos civis
que participaram, por exemplo, das comemorações do sesquicentenário da independência?
Ou os que comemoraram a vitória da seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo de
1970 ou a aquisição de uma televisão ou um carro, ainda que em um contexto repressivo e
autoritário, mas demarcado por forte controle de informação e difusão de propagandas
apologéticas ao regime? E destes todos com figuras como a do empresário Henning Albert

2
Ambos os livros sobre Simonal citados trazem referências a entrevistas do cantor nas quais tal
identificação pode ser confirmada. Destaco a concedida à Folha de São Paulo, 22 de agosto de 1982,
p. 176, na qual afirma que o golpe militar era a única saída naquele contexto; e a para a Veja, 25 de
novembro de 1970, p.179, na qual defende sempre ter sido “meio ufanista”, referindo-se às canções
aqui trabalhadas.
3
Marcelo Ridenti, na introdução desta obra, apresenta a “Brasilidade”, termo comum para os
brasileiros, conforme seu sentido corrente, como “’propriedade distintiva do brasileiro e do Brasil’,
fruto de certo imaginário da nacionalidade próprio de um país de dimensões continentais, que não se
reduz a mero nacionalismo ou patriotismo, mas pretende-se fundador de uma verdadeira civilização
tropical. (...) [encontrada] de formas distintas e variadas à direita, à esquerda, conservadoras,
progressistas, ideológicas ou utópicas.” No decorrer da obra o autor, no entanto, debruça-se sobre a
vertente revolucionária, à esquerda do espectro político, dessa proposta de brasilidade. In: RIDENTI,
M. Brasilidade Revolucionária. Editora UNESP, 2010. P. 09.

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4
Boilesen ou das casas de tortura civis? Ou ainda planificar, partindo de todos esses, as
camadas da população que não tomaram uma posição abertamente combatente ao regime
como apoiadoras do governo? Acredito que não. Há diversas gradações de cinza nesta
“zona cinzenta” 5 entre a adesão e a resistência. Os limites e possibilidades da relação entre
a sociedade civil e a ditadura militar brasileira ainda aguardam muitos debates da memória e
da historiografia. 6

Referências

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Paulo. Globo. 2009. 390 p.

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Wilson Simonal e os limites de uma memória tropical. Rio de Janeiro, Record, 2011. P. 477.

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em: http://www.academiadosamba.com.br/memoriasamba/bibliografia/pdf/Livro-Bambas-do-
Samba.pdf. Captado 04/09/2013, 20h10.

4
Henning Albert Boilesen foi um empresário de destaque, presidente do Grupo Ultra e grande
incentivador e financiador da OBAN. Foi assassinado por “justiçamento” em uma ação conjunta de
grupos de guerrilha em 1971. O empresário ficou conhecido por um gosto sádico de assistir
pessoalmente a sessões de torturas no DOPS. Informações sobre ele podem ser vistas no
documentário Cidadão Boilesen, dirigido por Chaim Litewski, 2009.
5
O termo “zona cinzenta” surge inicialmente com Primo Levi, sendo utilizada para descrever os
prisioneiros de campos de concentração colaboradores ou mediadores de nazistas na obra I
sommersi e i salvati. Alonso utiliza a definição de Pierre Laborie, pensando a França sob ocupação
nazista. Laborie define “zona cinzenta” como um “’lugar social’ no qual os indivíduos se portam, ao
mesmo tempo, entre as luzes da resistência e as trevas da colaboração” (ALONSO, 2011: 299-300).
O autor propõe o uso do termo para trabalhar as complexidades de Simonal, momento de sua
argumentação com qual concordo.
6
A relação entre memória e história, enquanto questão basilar do estudo historiográfico é bastante
presente em diversos trabalhos. Deste modo, muitos dos textos nesta bibliográfica abordam o
assunto. Para uma discussão mais direta quanto a memória neste trabalho foram utilizados os textos
Ulpiano Bezerra de Menezes, Maria Inés Mudrovic e os artigos de Michel Pollak de onde foi retirado,
aliás, a expressão “enquadramento da memória” aqui utilizada.

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A verdade que o Brasil suporta: um estudo sobre a Comissão Nacional da Verdade

Carlos Artur GALLO


Doutorando em Ciência Política na UFRGS
Bolsista CAPES
galloadv@gmail.com

Introdução
Entre 1964 e 1985, o Brasil viveu sob uma ditadura civil-militar. Com o final da
ditadura, mas, sobretudo a partir da primeira década dos anos 2000, questões relacionados
ao saldo da repressão política volta e meia têm vindo à tona, chamando à atenção para a
necessidade de se pensar e implementar políticas destinadas ao enfrentamento das marcas
que o autoritarismo deixou na história recente do país. Uma política pública específica
formulada em países que viveram experiências autoritárias diz respeito à criação de uma
Comissão da Verdade. Dito isso, neste trabalho estudamos a Comissão Nacional da
Verdade (CNV) brasileira, seu surgimento, e sua atuação.
Para melhor organizar a exposição, dividimos o estudo em três seções. Na primeira,
fazemos uma breve retrospectiva de alguns pontos da história recente que consideramos
essenciais para compreensão da problemática a ser trabalhada. Na sequência, nos
detivemos na análise do processo de elaboração do 3º Programa Nacional de Direitos
Humanos (PNDH-3) e do Projeto de Lei que criou a CNV. Na terceira e última parte,
analisamos os resultados até agora produzidos pelos trabalhos da Comissão da Verdade,
atentando para os percalços surgidos em sua trajetória.

Antecedentes históricos
O primeiro dos países do Cone Sul a sofrer um Golpe
de Estado no contexto da Guerra Fria e vinculado à Doutrina de Segurança Nacional (DSN)
foi o Brasil, onde, entre os dias 31 de março de 1º de abril de 1964, foi iniciada uma ditadura
civil-militar que se estenderia até 1985. Embora seja complicado afirmar com certeza a
variável que levou ao Golpe, é possível observar que a tomada do poder pelos militares teve
seu acontecimento relacionado à motivações econômicas (MARTINS, 1988) e anti-
comunistas (MOTTA, 2002), sendo a intervenção das Forças Armadas frequentemente
associada, na época, a um cenário político marcado pela instabilidade gerada a partir de
agosto de 1961, quando ocorreu a renúncia do presidente Jânio Quadros (SKIDMORE,
1988).
Em 1964, os mesmos setores das Forças Armadas que em 1961 haviam tentado
impedir a posse do vice-presidente eleito, porque viam nas suas ações uma aproximação
com o comunismo (quando Jânio renunciou, Jango estava em viagem oficial à China

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100 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
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comunista), realizam o golpe frustrado anteriormente. Contando agora com o apoio de


integrantes das elites econômicas, que tinham interesse na reorganização do mercado, e
eram contrários à relização das “Reformas de Base” propostas pelo Governo Jango, os
militares ocuparam as estruturas de poder existentes, mas, durante o regime burocrático-
autoritário (O’DONNELL, 1986) por eles encabeçado, algumas instituições políticas
tipicamente democráticas seguiram funcionando.
Bastante aplicada desde o momento da consolidação do Golpe, no Governo Castelo
Branco (1964-1967), a repressão seria aprofundada a partir de 13 de dezembro de 1968,
com a edição do AI-5. Considerado como o “golpe dentro do golpe”, e publicado durante o
Governo Costa e Silva (1967-1969), o AI-5 suspendeu o direito de “habeas corpus”,
possibilitou que os militares fechassem o Congresso Nacional ou aos Poderes Legislativos
Estaduais e Municipais, além de facultar aos integrantes do regime cassar mandatos
políticos em geral e aposentar funcionários públicos.
De 1968 à primeira metade dos anos 70, o país vivia entre os “Anos de Chumbo”,
marcado pela perseguição, a tortura, as mortes, os desaparecimentos e o exílio de
opositores, e o “Milagre Econômico”, resultado do processo de alinhamento do sistema
econômico nacional aos novos padrões de desenvolvimento do capitalismo internacional
(MARTINS, 1988). No ano de 1974, época em que o regime continuava colhendo os frutos
do crescimento econômico e a neutralização dos opositores que atuavam fora do sistema
partidário atingia seu auge, o ditador-presidente Ernesto Geisel (1974-1979) organiza e
começa, a partir do próprio governo, um projeto de transição “lenta, gradual e segura”. Em
seus quase onze anos de duração, o projeto de abertura política se desenvolveu
paralelamente à crise internacional do petróleo e ao esgotamento do “Milagre Econômico”.
Com os avanços do processo de transição, ocorre também o renascimento da
sociedade civil, que se organiza pelo menos em dois momentos: entre 1978 e 1979, na luta
pela anistia; e entre 1983 e 1984, na campanha pelas “Diretas Já”, que reivindicava a
realização de eleições diretas para Presidência da República nas eleições de 1984.
Altamente negociado e controlado ao longo de sua duração, o processo de transição no
Brasil garantiu que os agentes envolvidos com a repressão ficassem impunes (mediante a
publicação da Lei de Anistia – Lei nº 6.683/1979), garantindo ainda, e aos setores da elite
civil diretamente relacionados à ditadura, sua sobrevivência enquanto atores políticos
relevantes no novo cenário político (ARTURI, 2001, p. 11-12).
Em 21 anos de ditadura, o aparato repressivo brasileiro deixou como saldo da
repressão, além de resquícios psicológicos e sociais da aplicação da DSN (PADRÓS, 2008):
aproximadamente 50 mil pessoas presas somente nos primeiros meses depois do Golpe;
pelo menos 426 mortos e desaparecidos políticos; um número até hoje desconhecido de
mortos em protestos; 7.367 indiciados e 10.034 atingidos por inquéritos realizados em 707

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processos que tramitaram na Justiça Militar por crimes contra a Segurança Nacional; 4
sentenças de morte (não consumadas); 130 desterrados; 4.862 cassados; 6.592 militares
atingidos por atos do regime; milhares de exilados políticos; e centenas de camponeses
assassinados (ALMEIDA; et al., 2009, p. 21; ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO, 1985).

A criação da Comissão Nacional da Verdade


A eficácia resultante da incorporação, em âmbito interno, das normas e dos
princípios internacionais de proteção aos direitos humanos, pode ser analisada tendo-se por
base as políticas de direitos humanos existentes em cada país (GONZÁLEZ, 2010, p. 108).
No que se refere especificamente ao caso brasileiro, verifica-se que a elaboração de
políticas de direitos humanos avançou significativamente desde a realização da Conferência
de Viena, em 1993.
Isso porque, além de ter reinserido o tema na pauta de discussões, a Conferência
formulou algumas sugestões para que os países preocupados com a proteção dos direitos
humanos pudessem reorganizá-los internamente (KOERNER, 2003). Uma das sugestões da
Conferência, nesse sentido, era a criação de “Programas Nacionais de Direitos Humanos”.
O PNDH foi sugerido e previsto no item 71 da Carta de Viena, em 1993, e sua elaboração,
segundo Rodrigo Stumpf González (2010, p. 113), talvez seja a ação mais concreta
realizada pelo Governo Federal para estabelecer uma agenda nacional com vistas à
formulação de políticas para os direitos humanos, e, além disto, alinhá-la aos parâmetros
internacionais fixados em Viena.
As duas primeiras edições do PNDH, o PNDH-1 e o PNDH-2, foram lançados
respectivamente em 1996 e 2002, durante os Governos de Fernando Henrique Cardoso
(FHC). A nova edição do PNDH, ficou a cargo do sucessor de FHC, o presidente Luís Inácio
Lula da Silva, que governou o país de 2003 a 2010. No tocante ao PNDH-3, é visível que
houve uma significativa ampliação do tratamento da memória da repressão no país, sendo
reservado à temática um Eixo Orientador específico: o Eixo VI, intitulado “Direito à memória
e à verdade” (BRASIL; SECRETARIA DE DIREITOS HUMANOS, 2010).
Além de prever a preservação e promoção da memória da repressão (Diretriz nº 24)
e a revisão da legislação que, produzida durante o período militar, ainda estava em vigor
(Diretriz nº 25), de acordo com a Diretriz nº 23, também estava prevista a criação, em 2010,
de uma Comissão da Verdade (não realizadora da Justiça) a exemplo da “Comissão da
Verdade e Reconciliação” sul-africana, que funcionou na África do Sul na segunda metade
da década de 1990.
Apesar da ampla mobilização obtida durante a formulação do PNDH-3, antes de se
encaminhar o lançamento da nova edição do Programa, em dezembro de 2009, houve uma
tentativa de que suas disposições passassem pelo crivo de todas as pastas ministeriais, no

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102 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
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intuito de aferir maior legitimidade ao documento (31 Ministérios aprovaram o texto,


conforme: BRASIL; SECRETARIA DE DIREITOS HUMANOS, 2010, p. 11)1. Passando por
cada um dos ministérios para apreciação, o lançamento do Programa atrasou em quase um
ano devido à apresentação, por parte do Ministério da Defesa, de um posicionamento
contrário à apuração das violações durante o período autoritário (IPEA, 2010, p. 285).
Entre o final de 2009 e o início de 2010, ocorreu uma série de manifestações
públicas e discussões polêmicas em torno do Eixo VI, além de críticas duras a outros
dispositivos do Programa que não tratavam do período autoritário. No final das contas,
integrantes dos mesmos setores das Forças Armadas que, representados pelo Ministério da
Defesa (chefiado por Nelson Jobim), haviam levado ao atraso na finalização do texto do
PNDH-3, terminaram influenciando a opinião pública no momento em que começaria a sua
implementação, classificando o conteúdo sobre a ditadura como “revanchista”2.
Como resultado, o Governo Federal recuou, e, em maio de 2010, foi editado o
Decreto nº 7.177, que alterava dispositivos do Eixo VI. Com as alterações, referências às
“violações aos direitos humanos praticadas no contexto da repressão política” foram
suprimidas, sendo a menção às violações atrelada a conflitos políticos do período
mencionado pelo art. 8º do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT), qual
seja, o período compreendido entre 1946 e 1988. Isso porque, para integrantes das Forças
Armadas, crimes cometidos “no contexto da repressão política” dava a impressão de que
somente violações praticadas por agentes do regime seriam investigadas, algo que, na
visão dos militares, seria revanchismo3.
Após o recuo do Governo Federal, o Projeto de Lei (PL) nº 7.736 responsável por
criar a Comissão da Verdade foi elaborado, começando a tramitar ainda em 2010, último
ano do Governo Lula. As votações na Câmara dos Deputados e no Senado foram
finalizadas respectivamente em setembro e outubro de 2011, primeiro ano do mandato da
presidente Dilma Rousseff. Em novembro, o texto foi sancionado pela Presidência da
República, dando origem à Lei nº 12.528. Antes, durante, e depois de aprovada a Lei,

1
“Retomando a experiência da primeira conferência, realizada em 1996, esta edição teve por objetivo
principal discutir propostas para subsidiar a elaboração do PNDH. Contando com a participação de
1.228 delegados em sua etapa nacional, a conferência foi precedida por etapas em todas as
unidades da Federação (UFs), por sua vez precedidas por 137 conferências municipais, territoriais e
livres” (IPEA, 2010, p. 284).
2
Os meios de comunicação deram ampla cobertura às polêmicas em torno do PNDH-3. No jornal
Zero Hora, por exemplo, no período que vai de 9 a 15 de janeiro de 2010 (referências completas ao
final do trabalho), quando as polêmicas atingiram seu auge, reportagens e editoriais deram destaque
às discussões. No auge das polêmicas, inclusive, Nelson Jobim (Ministro da Defesa) e Paulo
Vannuchi (da Secretaria de Direitos Humanos) ameçaram renunciar aos seus cargos.
3
In: “Lula assina novo decreto sobre Comissão da Verdade”, notícia de 13 de janeiro de 2010
disponível em: <http://www.bbc.co.uk/blogs/portuguese/br/2010/01/lula-assina-novo-decreto-
sobre.html>. Acesso em 09 de março de 2014.

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críticas constantes à Comissão foram apresentadas sobretudo por setores vinculados às


Forças Armadas, questionando sua necessidade e legitimidade (GASPAROTTO, 2013).

A Comissão da Verdade no Brasil: limites, possibilidades e desafios


No Brasil, a CNV iniciou suas atividades em maio de 2012 envolta em uma série de
polêmicas por um lado relacionadas aqueles que questionavam a sua necessidade, e, por
outro, às suas limitações, que de acordo com grupos de defesa dos direitos humanos,
juristas e, também de grupos de vítimas da repressão, prejudicariam o alcance dos seus
trabalhos. No que diz respeito àquelas que seriam suas limitações iniciais, é possível
mencionar pelo menos três: 1ª) o número dos membros da CNV, somente 7, para analisar
crimes cometidos em um país da dimensão do Brasil; 2ª) o tempo de duração dos trabalhos
da Comissão: dois anos (prorrogado por mais 6 meses em dezembro de 2013); 3ª) o
período a ser investigado.
Conforme visto na seção anterior, as polêmicas surgidas no lançamento do
Programa levaram a um recuo do Governo Federal, que alterou a redação de algumas
disposições do PNDH-3, e, no caso das previsões sobre as violações ocorridas durante a
ditadura civil-militar, houve supressão de expressões específicas que faziam alusão ao
período de 1964 a 1985. Assim, ao deslegitimar o uso da expressão “no contexto da
repressão política”, originalmente mencionado no caput do Objetivo Estratégico da Diretriz
23 (BRASIL; SECRETARIA DE DIREITOS HUMANOS, 2010, p. 173), e transpor para o
texto da Lei nº 12.528 que a CNV teria por finalidade esclarecer graves violações aos
direitos humanos ocorridas no período ficado no art. 8º do ADCT, o legislador possibilitou
que crimes cometidos contra opositores políticos na vigência da Segurança Nacional
pudessem ser equiparados a quaisquer violações ocorridas entre 1946 e 1988.
Desse modo, embora seus membros tenham definido como prioridade “[...] o
levantamento de informações relacionadas às mortes e desaparecimentos ocorridos durante
o regime de 64-85 [...]” (COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE, 2013, p. 2), não se pode
negar que, pelo menos simbolicamente, o fato de a CNV ter como objetivo geral coletar e
analisar dados sobre violações ocorridas durante períodos democráticos (de 1946 a 64) e,
ao mesmo tempo, sobre aquelas que foram praticadas na vigência do autoritarismo (de
1964 a 85), parece constituir uma subversão da finalidade de um organismo como esse.
Afinal, segundo Simone Rodrigues Pinto (2010, p. 132):

As comissões de verdade têm a responsabilidade de, ao construir a verdade


por meio dos diversos testemunhos, garantir a compreensão dos eventos do
passado, mas não apenas um evento específico e sim de todo um contexto
mais amplo. Representa o resgate da história de um país que, em função
das características próprias de um período de repressão, possui muitos
eventos não esclarecidos.

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Nesse sentido, ainda que graves violações tenham, com efeito, ocorrido no cenário
político imediatamente posterior ao final do Estado Novo no país, não parece acertado
esperar que uma Comissão da Verdade analise fatos do período democrático
concomitantemente aos fatos ocorridos durante a ditadura, já que não se tratam de
situações que fazem parte de um mesmo contexto.
A CNV foi oficialmente instalada em cerimônia realizada em Brasília no dia 16 de
maio de 2012, em um ato que contou com a presença de todos ex-presidentes da Nova
República (José Sarney, Fernando Collor de Melo, Fernando Henrique Cardoso e Luís
Inácio Lula da Silva). A partir de então, outras questões foram despontando como limites ou
possibilidades a serem trabalhadas por seus membros. Nomeados pela Presidência da
República, compuseram originalmente a Comissão: Cláudio Fonteles, ex-Procurador Geral
da República durante o Governo Lula; Gilson Dipp, Ministro do Superior Tribunal de Justiça;
José Carlos Dias, ex-Ministro da Justiça durante o Governo Fernando Henrique Cardoso;
José Paulo Cavalcanti, jurista e escritor; Maria Rita Kehl, psicanalista; Paulo Sérgio Pinheiro,
diplomata; e Rosa Maria Cardoso, advogada de presos políticos.
Em maio de 2013, ao completar 1 ano de funcionamento, a CNV publicou um
relatório resumindo as atividades realizadas no período4. Essa publicação possibilitou, por
um lado, que a Comissão deixasse claros os conceitos-chave que instrumentaliza na análise
dos dados que vem coletando, tendo viabilizado, por outro lado, que os interessados em
geral pudessem entender como seus trabalhos estão sendo realizados, quais suas
principais linhas de atuação, e seus recortes temáticos. Embora seja importante para dar
ideia do que fora feito, e traçar um panorama daquilo que já foi mapeado pelos membros e
funcionários a serviço da Comissão, os dados apresentados no relatório se resumiram, em
sua maioria, à referência a dados numéricos informando a quantidade de arquivos
identificados ou catalogados, além do número de audiências realizadas e de depoimentos
coletados, entre outras informações.
De acordo com Edson Teles e Renan H. Quinalha5:

O relatório lançado [...] mais parece um texto de apresentação institucional


da CNV do que efetivamente um balanço analítico dos trabalhos realizados
e dos resultados atingidos. Após praticamente metade do prazo total de
funcionamento da CNV, foi publicado um texto de apenas 20 páginas e, de
uma perspectiva qualitativa, há pouquíssima – para não dizer nenhuma –
informação nova. O relatório acaba assumindo caráter de carta de
intenções. A maioria dos verbos denota que a CNV “pretende”, “está
empenhada”, “está desenvolvendo”, todos remetendo a ações futuras, o que
ilustra o estágio atual de paralisia.

4
O relatório, “Balanço de Atividades: 1 ano da Comissão Nacional da Verdade”, encontra-se
disponível em: <http://www.cnv.gov.br/>.
5
In: “O trabalho de Sísifo da Comissão Nacional da Verdade”, artigo publicado no periódico Le Monde
Diplomatique, edição de setembro de 2013, e disponibilizado no blog da Boitempo.

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Bastante plural em sua composição, e, num outro sentido, a CNV veio enfrentando,
desde 2012, problemas relacionados à perspectiva que cada um dos seus membros possui
a respeito de questões importantes como: 1) entendimento sobre a possibilidade de punição
dos agentes da repressão; 2) visão sobre divulgação de dados parciais e prestação de
contas dos trabalhos realizados; 3) publicidade de dados coletados; 4) participação da
população. Ainda que possa ser considerada como algo natural, a existência de
divergências internas entre os integrantes da Comissão passou a ganhar destaque nos
meios de comunicação em 20136.
Em junho, a situação se agravou, culminando com a demissão de Cláudio Fonteles
da CNV. O estopim para saída desse membro, foi a veiculação de sua declaração favorável
à revisão da anistia e à punição das pessoas envolvidas com a repressão política (a
declaração foi publicada no site da CNV). Ao manifestar-se publicamente sobre a questão,
Fonteles chamou a atenção do público em geral para os problemas internos enfrentados
pela CNV, demonstrando que, além de divergências internas a respeito de temas
específicos, parecia haver entre seus integrantes uma divisão em torno da figura Paulo
Sérgio Pinheiro, coordenador da Comissão.
Em “Carta Aberta à Comissão Nacional da Verdade”7 redigida e assinada por um
grupo formado por familiares de mortos e desaparecidos, ex-presos políticos, entidades
vinculadas à luta por Memória, Verdade e Justiça, e militantes de direitos humanos, o
relatório foi criticado. No documento, publicado em 15 de julho de 2013, foram realizadas
críticas ao “Balanço de Atividades”, às limitações da CNV, e ao comportamento de alguns
dos seus integrantes.
A partir do segundo semestre de 2013, a atuação da CNV, apesar das limitações
apontadas, ganhou destaque na mídia, possibilitando alguns avanços positivos na árdua
tarefa de recomposição do passado recente do país. Fatos significativos, nesse sentido,
são: a) a exumação, em novembro de 2013, dos restos mortais do ex-presidente João
Goulart, falecido no exílio, na Argentina, em dezembro de 1976; b) a realização de audiência
pública, no dia 27 de fevereiro de 2014, na qual foram prestados esclarecimentos sobre o
caso do desaparecimento do ex-deputado Rubens Beirodt Paiva, ocorrido em janeiro de
1971, após terem-no levado para o DOI-CODI do Rio de Janeiro8.
A realização do traslado, da exumação e da cerimônia fúnebre (com honras de Chefe
de Estado) para o segundo sepultamento dos restos mortais do ex-presidente deposto foi

6
Em notícia veiculada pelo jornal Zero Hora (referência completa no final do trabalho) sobre
dificuldades enfrentadas pela CNV, consta que “o novo coordenador [José Carlos Dias] também
comentou recentes rusgas entre membros da CNV. Ele disse que não há desavenças, mas
‘temperamentos diferentes’”.
7
A Carta Aberta circulou pelas redes sociais, podendo também ser encontrada em diversos sites de
organizações de direitos humanos.
8
Ver “Relatório parcial sobre o caso Rubens Paiva” disponível em: <http://www.cnv.gov.br/>.

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bastante noticiada. Realizada em parceria com a Secretaria de Direitos Humanos da


Presidência da República, a exumação do cadáver busca identificar, mediante testes
científicos, se João Goulart foi ou não envenenado por agentes da repressão. Isso porque,
envolta em mistérios desde que ocorreu, sua morte tem sido frequentemente associada à
ações que teriam sido desenvolvidas através da “Operação Condor”.
Ao comentar a cerimônia realizada em Brasília para receber os restos mortais do ex-
presidente, Danyelle Nilin Gonçalves (2014, p. 212) observa que:

A simbologia de oferecer honras militares ao ex-presidente civil deposto


para a instauração de um regime militar, a concessão de honras de chefe
de Estado, o fato de estarem presentes diversos ministros, quase todos os
ex-presidentes pós-ditadura e a principal autoridade do país demonstra a
relevância dos atos que fazem parte de um conjunto de ações de
“reparação” aos perseguidos pela ditadura militar [...]

No que se relaciona ao caso Rubens Paiva, após terem acesso a documentos que
por mais de 40 anos foram sonegados, e terem ouvido o depoimento de militares da
Reserva, foram finalmente esclarecidas algumas questões importantes a respeito das reais
circunstâncias da morte do ex-deputado. integrantes da Comissão afirmaram ter reunido
prova documental e testemunhal suficiente para declarar: 1) que as versões apresentadas
pelos órgãos da repressão, que negavam resposabilidade pela prisão, tortura, morte e
desaparecimento do ex-Deputado, são falsas; 2) que a identidade de pelo menos dois
agentes da repressão envolvidos no caso haviam sido descobertas. Embora assumir
publicamente que o desaparecimento foi causado pelo aparato repressivo pareça algo que
não era essencial na atual conjuntura9, combinada com a declaração e publicização dos
nomes dos envolvidos no caso, a atitude da Comissão sugere que alguns avanços em
direção à Memória e à Verdade reiteradamente demandadas por vítimas da repressão e por
militantes de direitos humanos em geral podem ser esperados.
Afinal, a divulgação de “novidades” por parte da CNV seja limitada, ela sinaliza uma
ruptura com a estratégia assumida (na prática) em seu primeiro ano de atividades. Ou seja,
em vez de manter em sigilo dados obtidos com a realização de audiências, busca de
documentos e tomada de depoimentos, ou, então, limitar-se à reprodução de dados
disponibilizadas em livros e relatórios organizados por grupos de vítimas da repressão (caso
dos relatórios organizados por familiares de mortos e desaparecidos políticos) e organismos
oficiais (caso dos informes da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República
e da Comissão de Anistia / Ministério da Justiça), a CNV potencializa seu papel de

9
Desde a edição da “Lei dos Mortos e Desaparecidos”, a Lei nº 9.140 de 1995, já havia sido
reconhecida a responsabilidade do Estado brasileiro pelo desaparecimento de Rubens B. Paiva, logo,
embora seja importante reafirmar publicamente a responsabilidade do Estado por esse tipo de crime
cometido pelo aparato repressivo, deve-se atentar para o fato de que um dos principais objetivos dos
trabalhos da CNV é o esclarecimento de fatos novos ou que até hoje não foram solucionados.

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realizadora do direito à memória à verdade ao dirigir-se à população para desconstruir


publicamente versões “oficiais” criadas pelo aparato repressivo.
Encaminhando-se para o final das suas atividades (com a prorrogação, o trabalho da
Comissão se estende até dezembro de 2014) e, tendo como dever imediato a publicação de
um relatório final consistente sobre o que foi possível esclarecer na vigência dos seus
trabalhos, a CNV tem pela frente um caminho no qual será necessário vencer alguns
desafios que, a curto prazo, não foram solucionados. Um primeiro desafio que segue se
apresentando à Comissão, é a necessidade de ampliação (ou de estabelecimento?) de um
diálogo entre a CNV e os comitês regionais e locais que foram criados por todo país nos
últimos dois anos.
Como segundo desafio, é possível mencionar a necessidade de que a CNV, e seus
integrantes, se empenhem em dar maior visibilidade a fatos pouco conhecidos ou até
mesmo desconhecidos do período autoritário. Reforçar alguns pontos específicos como a
existência de um aparato repressivo, o vínculo da ditadura com a DSN, o reconhecimento da
existência da “Guerrilha do Araguaia”, dentre outros pontos que por anos foram
obscurecidos por “políticas de silêncio”, certamente é importante. Ocorre, contudo, que a
Comissão não deveria estar dispendendo tanto esforço (e tempo) no levantamento, análise
e/ou catalogação de dados que já foram organizados por outros órgãos oficiais como a
CEMDP ou a Comissão de Anistia.
No que se refere às possibilidades de elucidação de novos casos ou de casos
emblemáticos como a morte do ex-presidente, e à devida recomposição de “partes” até
então desconhecidas ou adulteradas da história do país, tudo depende, em maior ou menor
grau, da própria capacidade de se fazer valer os efeitos jurídicos prometidos com a sanção
da “Lei de Acesso à Informação”, Lei nº 12.527 de 2011. Sancionada junto com a Lei que
criava a CNV, a regra responsável por estabelecer uma nova política nacional de sigilo
documental tem se mostrado limitada. Nesse sentido, de pouco adianta a Comissão da
Verdade ter direito à obter toda documentação que considerar necessária ao pleno
desempenho de suas atividades, se alguns arquivos específicos seguem inacessíveis.
O último desafio que se identifica para a CNV, diz respeito às dificuldades
enfrentadas pelos comissionários para definir uma linha de ação coesa, que forneça os
elementos necessários para lidar com questões que, em algum momento, deverão ser
enfrentadas. Essas questões (dilemas para o futuro) abrangem: 1º) um posicionamento claro
sobre a legitimidade da interpretação da Lei de Anistia que vem garantindo a impunidade de
agentes da repressão, e, se for o caso, encaminhamentos para que se pleiteie sua revisão
ou revogação; 2º) uma definição sobre as informações que, coletadas em arquivos ou
obtidas em depoimentos, serão publicizadas ou não.

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Considerações finais
Enfrentando antes, durante, e depois da aprovação da Lei que a
instituiu, a resistência de setores vinculados ao período autoritário e/ou comprometidos com
o conteúdo dos pactos que possibilitaram uma transição “lenta, gradual e segura”, a
Comissão da Verdade teve que lidar, ainda, com uma série de problemas de ordem técnica,
como o número limitado de integrantes, o prazo exíguo para a investigação das violações, e
a dificuldade de dialogar com a sociedade e com os comitês regionais e locais criados em
todas regiões do Brasil.
Se tem sido possível, por um lado, ampliar a visibilidade sobre aspectos
gerais da ditadura brasileira junto à população em geral, fomentando-se de alguma maneira
o debate e a reflexão sobre o que ocorreu entre 1964 e 1985, são visíveis, por outro lado,
limites na atuação da CNV. Combinada com a existência de divergências internas, que
expuseram para sociedade a “divisão” entre seus poucos integrantes, as limitações
decorrentes de uma complicada aplicação da nova política nacional de sigilo também tem
contribuído negativamente com os trabalhos em busca da verdade.
Fazer previsões a respeito do que se pode esperar até a apresentação do
relatório final da Comissão, é complicado. De qualquer forma, e, tendo em vista o que se
tem assistido a partir de maio de 2012, acredita-se que, embora tímida, até sua extinção a
CNV terá contribuído, sim, para que se lance um olhar menos condescendente e mais
comprometido com o resgate da memória da repressão política, servindo de base, quem
sabe, para a formulação de políticas mais efetivas com vistas à garantia dos postulados da
Memória, da Verdade, e, finalmente, da Justiça.

Referências

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SKIDMORE, Thomas. Brasil: de Castelo a Tancredo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

II – Notícias de jornal:

Plano de direitos humanos provoca onda de protestos. Zero Hora, Porto Alegre, 9 jan. 2010, p. 6.

Racha no governo faz presidente rever plano. Zero Hora, Porto Alegre, 11 jan. 2010, p. 6.

Editorial: A construção da verdade histórica (R.Fraga). Zero Hora, Porto Alegre, 11 jan. 2010, p. 12.

Editorial: Plano funesto (P.Brossard). Zero Hora, Porto Alegre, 11 jan. 2010, p. 13.

Lula tende a desidratar programa. Zero Hora, Porto Alegre, 12 jan. 2010, p. 6.

Editorial: Direito à memória e à verdade (D.Galimberti). Zero Hora, Porto Alegre, 12 jan. 2010, p. 15.

Editorial: As “crises” e os direitos humanos (A.Silva). Zero Hora, Porto Alegre, 12 jan. 2010, p. 15.

Lula vai reeditar plano para contornar crise. Zero Hora, Porto Alegre, 13 jan. 2010, p. 12.

Sob pressão, Lula altera plano de direitos humanos. Zero Hora, Porto Alegre, 14 jan. 2010, p. 28.

Grupos de direitos humanos defendem saída de Jobim. Zero Hora, Porto Alegre, 15 jan. 2010, p. 29.

Novo comando: Comissão da Verdade admite dificuldades. Zero Hora, Porto Alegre, 28 agosto 2013,
p. 18.

III – Documentos oficiais e legislação:

BRASIL. Decreto nº 7.177, de 12 de maio de 2010. Altera o Anexo do Decreto nº 7.037, de 21 de


dezembro de 2009, que aprova o Programa Nacional de Direitos Humanos – PNDH-3. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/>. Acesso em 28 de fev. de 2014.

ISBN: 978-85-62707-55-1
110 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
UFMG, Belo Horizonte – 18 a 20 de março de 2014

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<http://portal.mj.gov.br/sedh/pndh/pndh1.pdf>. Acesso em 28 de fev. de 2014.

_____. 2º Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-2). Brasília: Secretaria de Estado dos
Direitos Humanos, 2002. Disponível em:
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fev. de 2014.

_____. 3º Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3). Brasília: Secretaria Especial de


Direitos Humanos, 2010. Disponível em: <http://portal.mj.gov.br/sedh/pndh3/pndh3.pdf>. Acesso em
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âmbito da Casa Civil da Presidência da República. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/>.
Acesso em 28 de fev. de 2014.

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Verdade. Brasília: Comissão Nacional da Verdade, 2013. Disponível em: <http://www.cnv.gov.br/>.
Acesso em 11 de fev. de 2014.

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111 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
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Uma cidade apática? O início da ditadura civil-militar no Rio de Janeiro segundo o


Cinema Novo1

Carlos Eduardo Pinto de PINTO


Doutor em História pela UFF e professor da PUC-Rio
dudachacon@yahoo.com.br

A representação da cidade do Rio de Janeiro pelo Cinema Novo durante a década


de 1960 possui aspectos bastante diversificados, desde a exclusão social até o hedonismo
(PINTO, 2013b). Neste trabalho, analiso a forma como dois filmes abordaram as reações
(ou ausência delas) ao Golpe civil-militar de 1964 e à consolidação da ditadura,
especificamente como dados de identificação da urbe. Trata-se de O desafio (Paulo César
Saraceni, 1965) e A grande cidade (Cacá Diegues, 1966).

O primeiro aborda a recepção do Golpe por artistas e intelectuais, sendo considerado


um marco do cinema urbano cinemanovista, por não tratar diretamente da exclusão social,
deixando de focar as favelas cariocas. Um ano mais tarde, A grande cidade também trataria
do Golpe, embora não de forma central. As referências à militarização da cidade são um dos
traços evidenciados pela diegese, focada no contraste entre a migração nordestina para as
favelas (temas caros ao Cinema Novo) e o processo de modernização por que passava o
Rio de Janeiro, convertido em Estado da Guanabara (aspecto que o aproxima de O desafio).

Em ambos, apesar da forte politização das narrativas e das diegeses, o Rio não
aparece como uma cidade particularmente engajada, o que soa como uma ausência
significativa. Afinal, às vésperas do Golpe de 1964, a população carioca apresentava
expressiva polarização política. Em 1960, havia elegido, para o cargo de governador, a
Carlos Lacerda, um dos bastiões do conservadorismo político nacional, mas também lotaria
o Comício da Central, em que o presidente João Goulart receberia apoio às propostas
reformistas, dias antes do Golpe.

Tal perfil se manteria ao longo da segunda metade da década de 1960, enquanto as


feições ditatoriais do governo de Castelo Branco tomavam forma. Entre os sinais de repúdio,
ações da UNE (fechada no mesmo dia do Golpe) e os Oito da Glória, em 1965, protesto de
cineastas e escritores que terminou em prisão.

Nos filmes, a ausência desse aspecto específico da vivência urbana causa


estranheza. Afinal, ambos exibiam comprometimento com a apreensão dos aspectos

1
As reflexões contidas neste trabalho derivam da tese “Imaginar a cidade real: o Cinema Novo e a
representação da modernidade urbana carioca (1955-1970)”, que contou com bolsa CAPES nacional
e sanduíche no exterior.

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cotidianos da cidade, ao mesmo tempo que realizavam críticas ao status quo – o que, a
priori, os deixaria alertas para a dimensão politizada da ex-capital da República.

O trabalho se pauta pela busca de sentidos para esta ausência. Ao longo do


percurso, a proposta é compreender como os pressupostos políticos do Cinema Novo
moldam a cidade que, por sua vez, molda o Cinema Novo. E a partir desta relação entre
cidade e cinema, lançar luz sobre a forma como a ditadura poderia ser vivenciada em seus
momentos iniciais.

O desafio

Os protagonistas de O desafio são Marcelo (Oduvaldo Vianna Filho), um jornalista de


esquerda, e Ada (Isabela), sua amante, socialite casada com um industrial. A trama central
gira em torno da angústia dele diante do Golpe civil-militar e das pressões exercidas por
Ada, que vê nesta angústia sinais de que Marcelo não deseja dar prosseguimento à relação
amorosa. As pressões acabam levando Marcelo a romper o namoro, embora o final da obra
aponte para uma possível reconciliação. A partir das perspectivas de ambos, bem distintas,
a cidade é representada, como demonstro através da análise das sequências a seguir.

Marcelo está na redação da Revista O Cruzeiro, onde trabalha, discutindo o


posicionamento que os intelectuais devem ter diante do Golpe. Em seguida, entabula uma
conversa com Carlos (Joel Barcelos), fotógrafo com quem pretende produzir um livro. Carlos
diz que não devem ficar “conversando muito”, concluindo que, se “eles querem assunto
urbano, nem é preciso sair do Rio”. Bastaria “ficar com a chamada classe privilegiada [e]
sair por aí batendo as fotos pela Zona Sul”. Marcelo diz que só não começa a trabalhar
porque “não está acreditando”. A câmera se move pelo espaço entre eles, possibilitando
perspectivas diferentes, sem haver cortes na montagem. Carlos arremata: “Você acha que
eu estou satisfeito com a ideia do livro? Que era isso que eu queria fazer agora? O livro é
um caminho. É o que podemos fazer agora”. Depois de um longo debate, em que sua
postura inerte é criticada, Marcelo arremata: “Se você descobrir uma solução, uma melhora,
parabéns. Mas eu ainda estou vendo tudo escuro”.

Tal diálogo se mostra bastante instigante frente ao tema da representação da cidade, já


que o livro que vão fazer possui “assunto urbano”. Aqui, o filme parece estar se remetendo a
si mesmo – afinal, a narrativa se replica na diegese, marcando a sua diferença em relação
aos filmes que foram para o Nordeste enfocar o sertão ou subiram os morros para
representar as favelas. Saraceni fala sobre isso numa entrevista a Alex Viany,
contemporânea ao filme, em que lembra uma conversa de botequim que tivera com Nelson
P. dos Santos. Na ocasião, Nelson lhe falara sobre a possibilidade de fazer filmes na

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cidade: “Urbano, lembrava ele, significa também uma pessoa ‘cortês, afável, civilizada’, bem
comportada. Acho que eles querem esse tipo de cinema. Mas vamos ao cinema urbano: a
gente aproveita, faz filme na cidade e manda brasa” (VIANY, 1999, p. 121).

Note-se a utilização do pronome pessoal “eles” para se referir a uma demanda por
filmes urbanos, exatamente como na fala de Carlos, quando diz que, se “eles querem
assunto urbano, nem é preciso sair do Rio”. Em ambas as situações, a construção aponta
para um desejo geral, sem sujeito determinado. Quem quer cinema urbano “comportado”? A
crítica? O público? Os governantes? Todos, talvez. Pelo paralelo que se estabelece entre o
livro que Marcelo pretende escrever e o filme que Saraceni realizou, subentende-se que,
para ambos, o papel do artista deveria ser filmar na cidade, mas sem atender a essa
demanda. Por este motivo Marcelo se lamenta, dizendo não acreditar no projeto, por ainda
ver “tudo escuro”.

Saraceni, por seu turno, em vez de somente filmar a “chamada classe privilegiada” da
Zona Sul, representada por Ada, a contrapõe ao amante de classe média baixa, ativista
político, deprimido por conta da ditadura e da crise em seu relacionamento. Este dualismo
pode ser observado nas duas sequências analisadas abaixo, inseridas no filme após o
rompimento do namoro dos protagonistas.

Na primeira, Ada circula em torno da piscina de sua casa, apresentando uma postura
desolada, que a música extradiegética sublinha. Minha desventura (Carlos Lyra/Vinícius de
Moraes), canção com andamento lento e melodia triste que lembra um acalanto, é
executada por Carlos Lyra, se iniciando com os seguintes versos: “Ah, doce sentimento lindo
e desesperador/ Ah, meu tormento infindo que vai me matar de dor”. Depois de contemplar a
paisagem natural através da grade de segurança que circunda o pátio, segurando-se nela,
Ada é mostrada dirigindo pelas ruas da cidade, à noite. A câmera captura, através da janela
do carro – e sempre tendo o close do rosto de Ada em primeiro plano – o mobiliário urbano,
como placas luminosas, vitrines e painéis de lojas, quase sempre desfocados. Um dado
interessante é a montagem “picotada”, reforçando o sentimento de angústia e agitação
emocional da personagem, que termina escrevendo um bilhete para Marcelo, passado por
baixo da porta de seu apartamento.

No dia seguinte, depois de ler o bilhete, Marcelo caminha por uma feira livre, filmado
num plano-sequência. A câmera segue o personagem por trás, sempre num plano médio, o
que faz com que a visualização do espaço seja interceptada por sua figura. Enquanto ele
caminha, se ouve Arrastão (Edu Lobo/Vinícius de Moraes), na voz de Elis Regina, que
entoa: “Eh! Tem jangada no mar/ Eh, eh, eh! Hoje tem arrastão/ Eh! Todo mundo pescar!”.
Marcelo observa as barracas e as pessoas, principalmente os trabalhadores, sem se deter

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em nenhum lugar, nem parecer interessado em comprar nada. Diferente de Ada, que
permanece protegida por grades e janelas, se poderia afirmar que ele se mistura à
população, mas não de forma evidentemente proativa. Ainda, o fato de Marcelo usar um
terno escuro, que ocupa boa parte do quadro, cria um contraste entre sua figura e o
ambiente diurno – como se ele e o espaço se opusessem mutuamente. Ele caminha quase
até o fim da feira e da música, quando um corte seco (abrupto) leva a outra cena.

A partir dessas sequências é possível afirmar que Ada esteja presa em um arranjo
social do qual gostaria de se desprender, o que é visualmente reforçado pela barreira das
grades e dos vidros e musicalmente tematizado pela canção romântica, vinculada à Bossa
Nova (associada, no imaginário, ao refinamento das classes mais abastadas); Marcelo, por
sua vez, preso em uma capa de racionalidade quase patológica – um jovem
caricaturalmente moderno, se a racionalidade for entendida como elemento basal da
modernidade – não consegue “tocar” nada do que o circunda. A sua relação aparentemente
apática com a feira, espaço popular por excelência na vivência urbana, é rebatida pela
canção – também ela se refere a uma universo popular diferente do que é associado aos
compositores e a sua intérprete (artistas urbanos e de classe média) e não parece conseguir
“tocar” essa realidade de que se aproxima.

No entanto, em ambos os casos, não significa que não haja interação. Afinal, grades e
janelas, funcionando como molduras, “se voltam para a cidade a partir de um padrão de
interação constante” (DEVRIES, 2005, p. 1732), já que apenas se emoldura o que se deseja
exibir. Já no caso de Marcelo, mesmo que não toque com as mãos, o personagem percorre
a materialidade da urbe com o olhar – não se dá o acesso, mas a busca permanece.

Outro dado importante da representação urbana, e que se liga ao anterior, é que a


focalização não está no alto (utilização de gruas, grandes angulares, construção de
establishing shots) e, sim, no nível dos olhares dos citadinos, privilegiando os travelling
(MÜLLER, 2003). Como analisou Mônica B. Campo, mesmo quando a câmera está
localizada no alto “o foco observado é Marcelo e o olhar recai sobre os intelectuais por ele
representados” (CAMPO, 2011, p. 252).

Interessante também é o fato de haver muitas cenas escuras no filme e de que, mesmo
quando filmada de dia, a cidade pareça sombria. Isso é devido, em parte, ao
enquadramento fechado que comentei acima, como no caso de Marcelo andando pela feira.
Ali, o tom escuro de sua roupa, ocupando a maior parte do quadro, também acaba por
aumentar essa impressão. O fato de Marcelo ver “tudo escuro”, como ele mesmo dissera
cenas atrás, está relacionado diretamente à política. A sua reação ao Golpe é de paralisia.

2
Livre tradução de: "renvoient à la ville selon un schéma d’intéraction perpétuelle".

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Nesse sentido, chama atenção um dado que pode ser observado na comparação entre
o filme e um esboço de seu roteiro, que apresenta diferenças flagrantes em relação ao
resultado final3. Inicialmente, existiam muitas cenas em que Marcelo seria enfocado como
um militante. A cidade, por sua vez, apareceria como o espaço propício à política. Um bom
exemplo é uma sequência ambientada nas areias da praia do Leblon, à noite, em que
Marcelo participaria de um interrogatório improvisado, de um possível traidor que teria
facilitado o fechamento da UNE. No filme, não há nada parecido: os personagens
conversam sobre política, mas não se envolvem em militâncias.

Apesar de a política ser um dos temas centrais, ela não aparece, ao menos não em sua
vertente institucional (passeatas, protestos, comícios, greves etc). O que se vê de político
está vinculado às artes e aos meios de comunicação, nas inúmeras referências à cena
cultural carioca dos anos 1960 (CAMPO, 2011; PINTO, 2013b). É evidente que estes
também estão na cidade, mas ao fim a impressão é de que a materialidade das ruas não é
tomada como espaço da política, como poderia ter acontecido a partir do esboço do roteiro.

A grande cidade

Em A grande cidade, a diegese gira em torno de Luzia (Anecy Rocha), personagem


nordestina e migrante que chega ao Rio de Janeiro em busca de seu noivo, Jasão
(Leonardo Villar). Ele chegara anos antes e hoje é um matador de aluguel que mora na
favela da Mangueira (embora não cometa nenhum de seus crimes neste espaço, que
permanece como um local “puro”, de convivência pacífica). Enquanto procura se encontrar
no universo urbano, Luzia recebe ajuda de outros dois migrantes: Inácio (Joel Barcelos),
pedreiro que sonha voltar para o sertão, e Calunga (Antonio Pitanga), bem adaptado ao Rio,
por ter sido criado aqui. A partir dos olhares destes quatro personagens a cidade é
apresentada, sempre em contraponto com o sertão. O final, trágico, apresenta a morte de
Jasão e Luzia pela polícia e a perda de esperanças dos outros dois.

Uma das reações ao universo urbano mais evidente no filme é o temor. A personagem
Luzia se mostra nitidamente amedrontada em seu primeiro dia na cidade. Depois, em
momentos distintos, pergunta a cada um dos outros três se também têm medo. As
respostas variam: para Calunga, o medo é o que permite a ele sobreviver; para Jasão, é
algo a ser evitado, pois representaria sua derrota; para Inácio, é o que o liga a todos os
outros – o medo e a fraqueza diante das agruras da vida. Os comentários deste
personagem em especial formam um panorama interessante da vida no Rio em 1965:

3
Disponível na pasta “O desafio” dos arquivos da FUNARTE no Rio de Janeiro.

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enquanto ouvimos o seu discurso, vemos imagens de tanques de guerra estacionados ao


longo da estrada por onde ele passa de ônibus.

Um pouco antes, ele e Luzia passeiam pelo Monumento aos Pracinhas, no Aterro (e
Parque) do Flamengo, localizado no Centro, à beira da Baía de Guanabara. Embora o
Monumento fosse anterior, o aterro e o parque haviam sido inaugurados um ano antes,
como “coroação” do governo de Carlos Lacerda (1960-65), que tomara posse prometendo
devolver à ex-capital a sua modernidade perdida (PINTO, 2013a). Em seus planos, Lacerda
incluía a erradicação de favelas localizadas em áreas nobres e a consequente expulsão de
seus moradores (muitos deles, migrantes nordestinos). Daí, o posicionamento crítico que o
filme – identificado com o olhar dos excluídos – lança aos novos espaços construídos por
Lacerda.

Uma imagem de Luzia refletida numa das paredes de mármore negro do monumento é
exibida, enquanto ela se contempla. Parte do relevo presente no horizonte da baía está
visível por trás de seu rosto. No som extradiegético, Maria Bethânia canta Anda Luzia (João
de Barro): “a vida dura só um dia, Luzia/ E não se leva nada desse mundo”. Luzia vira-se, se
encostando à parede e perguntando para Inácio se ele seria capaz de dormir com ela. A
câmera, que a enquadrava num plano médio, aproxima-se, oscilando levemente. Corta para
um close dele: “Hein!?” A câmera volta a buscar o rosto de Luzia e ela responde “Nada”,
olhando para outro lado e sorrindo com um toque de malícia. Um conjunto de cinco caças
sobrevoa o Aterro.

Já no final do filme, o Parque do Flamengo é novamente utilizado como cenário. Após


testemunhar o assassinato de Luzia e Jasão, Calunga corre pelo Centro da cidade até
alcançar o Aterro. Em um plano geral muito aberto, Calunga é mostrado de corpo inteiro, um
pouco à direita do quadro, no meio de uma paisagem limpa, com algumas árvores recém-
plantadas. Ele fala olhando direto para a câmera, ao dizer que a valentia não serviu de nada
para eles – Luzia e Jasão – e que, em vez de faca, tiro, amor, traição, ele, que não fez
nenhum ato valente, tem riso e lágrimas e o manto da memória. “A guerra é grande e tá todo
mundo nela. Eu não!!!”. Ele abre os braços num gesto grandiloquente, e olha para o céu. Em
seguida, se dedica a um gestual que expressa angústia, até que, já filmado do alto de uma
grua, corre pelo Aterro, sendo esta a última sequência do filme.

A forma como as sequências analisadas acima estão inseridas na narrativa dá


margem a diversas interpretações. No caso do Monumento aos Pracinhas, há uma
apreensão desta localidade como espaço de lazer, o que está de acordo com a concepção
de seus criadores (MAUAD e NUNES, 1999); por outro lado, o Parque do Flamengo, em que
fica o monumento, também remete à administração de Carlos Lacerda, já comentada acima.

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No entanto, mesmo possibilitando outras leituras, não se pode dizer que as sequências
sejam de todo “inocentes” no que se refere à representação da ditadura. Afinal, os cinco
caças, a referência geral e difusa à “guerra” e o próprio Monumento aos Pracinhas remetem
às Forças Armadas, se configurando em opções no mínimo capciosas. Contudo, assim
como em O desafio, o tom assumido parece querer reforçar as reflexões intimistas diante da
crescente militarização e menos uma resposta explícita a ela – a política também está
ausente do Rio de Janeiro representado aqui.

O Rio, o Cinema Novo e a ditadura

Em depoimento a Silvia Oroz, Cacá Diegues disse que A grande cidade era “uma
tentativa de desmitificar aquela visão de ‘cartão-postal’ e mostrar certos aspectos do Rio de
Janeiro menos preciosos” (OROZ, 1984, p. 36). Ainda, o comparava com o seu filme
anterior, Ganga Zumba (1964), que possuía uma leitura mais “ideológica”, enquanto aqui a
leitura seria “emocional mesmo” (OROZ, 1984, p. 36). Em resumo, tratava-se de fazer um
“acerto de contas” afetivo com a cidade que o recebera quando criança (Cacá migrara com
a família, vindo de Alagoas, com seis anos de idade, sempre morando em bairros de classe
média da Zona Sul carioca).

Essa declaração de princípios, se auxilia na compreensão do interesse do diretor pela


cidade, não determina a leitura que ele fez dela. Aqui, lembro a distinção que Quentin
Skinner faz entre motivo e intencionalidade – enquanto o primeiro se localiza antes da
realização de uma obra, a segunda seria justamente o que se realiza na obra, através da
construção linguística que a compõe (SKINNER, 2012). Assim, nem todo motivo se realiza
como intencionalidade, ainda menos quando envolve uma dimensão emocional, cuja lógica
é mais tortuosa. Afinal, uma rede complexa de fatores está em jogo no processo de
percepção afetiva de uma cidade, sobretudo quando esta é dotada de capitalidade, o que
“contamina” a relação.

Em A grande cidade, o Rio dos cartões-postais ainda está presente, embora filmado a
partir de uma perspectiva crítica, que o associa a elementos negativos da diegese. Do lado
oposto, a favela da Mangueira aparece carregada de valores positivos, identificados, em
alguns momentos, ao sertão (PINTO, 2013a). Logo, o esforço em realizar uma
representação mais realista convive com uma dimensão simbólica, conseguida através da
evocação de leituras pré-estabelecidas. Além da favela como um lugar de pureza, há
também o Centro como espaço de memória (locus do Carnaval, da religião e da cultura
popular) e o Aterro como índice da modernização.

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Em termos narrativos, esta camada simbólica é evidenciada por planos bem estudados
e falas solenes; uso de gruas para filmar a cidade do alto, conferindo um tom mais “clássico”
a seus enquadramentos e certo esquematismo na escolha dos personagens – migrantes
sertanejos, marginais, favelados, burgueses. Contudo, estes mesmos personagens – de
forma a reforçar certa ambiguidade que se configura em traço estilístico do filme – se
retraem diante da política e da violência, buscando se realizar no plano da intimidade, em
sequências menos monumentais, com a câmera na mão. Porém, como já apontado,
acabam destruídos, apesar desta fuga.

O contexto da produção de O desafio é exatamente o mesmo de A grande cidade, ou


seja, coincide com o mandato de Lacerda no governo da Guanabara. Contudo, nada no
filme seria capaz de evocar diretamente tal período, já que não há imagens nem citações
sobre o Aterro4, nem se discute a problemática das favelas, os dois polos de maior atração
desse governo. É evidente, no entanto, o destaque dado aos eventos da política federal,
mas ainda sem reforçar a importância da cidade. É preciso lembrar que, além dos esforços
de Lacerda por manter a capitalidade, o governo Federal deixara aqui “uma enorme
máquina de funcionários públicos e estatais”, continuando a disputar o “poder de conformar
a política carioca” (MOTTA, 2000, p. 19). Como visto no início, a polaridade política da ex-
capital era flagrante, abrigando os adeptos de Lacerda, mas também aqueles que apoiavam
o governo Jango. Em seguida ao Golpe, a cidade ainda seria palco de inúmeras
manifestações, tanto por parte daqueles que apoiavam, como daqueles que rejeitavam o
evento.

Logo, mais que apenas uma mudança de escala – do local para o nacional – as
escolhas narrativas de O desafio também evidenciam a lógica da representação urbana. A
partir do contraste entre a cidade no filme e os traços que a historiografia aponta para ela,
enfatizo que o ponto de vista privilegiado é o dos personagens, e não o dos governos (ou
das ideologias). Marcelo, principalmente, encontra-se descrente de todo movimento popular,
ou dos estilos artísticos que se apoiem neles. O seu olhar rejeita essa porção da urbe,
evidenciando-se uma cidade verticalizada pelo modernismo, escura e fria, mimetizando
seus temores de militante em crise. A mesma focalização funciona para Ada, vivenciando
igualmente um momento crítico em sua busca pela realização pessoal.

Deste modo, apesar de pertencentes a estratos sociais distintos, os personagens de


ambos os filmes parecem se refugiar num universo intimista, mantendo-se afastados das
manifestações políticas cariocas, que sequer são representadas. Enfim, me deparo com a
pergunta do título: “Uma cidade apática?”. Seria mesmo isto que estes dois exemplares do
4
Apesar de ser possível conjecturar que uma pequena parcela de sua paisagem seja visível na cena
final.

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Cinema Novo estariam dizendo da vida urbana carioca no pós-Golpe? Marcelo e Ada
poderiam ser condenados por não fazerem nada diante da nova situação? Luzia e Jasão
teriam sido mortos por conta de sua inação, por terem sentido medo – e apenas medo? E
Calunga e Inácio, seriam corresponsabilizados por estas duas mortes, por se dedicarem
apenas a uma realização pessoal, sem se importar muito com o medo que se espalhava
pala cidade?

Defendo que a resposta seja “não” a todas as perguntas. A partir das análises, percebo
que, menos que apatia, os cineastas (também roteiristas) parecem querer representar a
perplexidade – esta que tomou conta das esquerdas, dos intelectuais e artistas
comprometidos com a lógica nacional-popular. Através de personagens que poderiam
representar a eles mesmos (como Marcelo, o intelectual) ou o Outro, tanto o condenado
(Ada, a burguesa) quanto os admirados (Luzia, Jasão, Calunga e Inácio, os migrantes
nordestinos favelados) – procuram tematizar menos as ruas da cidade mesma, mas as ruas
de suas intimidades tomadas de assalto por um evento sobre o qual ainda sabiam pouco,
mas já lhes causava perplexidade e paralisia.

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120 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
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VIANY, Alex. O processo do Cinema Novo. Rio de Janeiro: Aeroplano, 1999.

ISBN: 978-85-62707-55-1
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A canção e o censurável

Cecília Riquino HEREDIA


Mestranda em História Social na Universidade de São Paulo (USP) e bolsista da FAPESP
cecilia.heredia@uol.com.br

Durante a ditadura militar brasileira, a censura à canção – em virtude da


música ser considerada uma das artes de espetáculo com maior penetração social e aberta
a mudanças de padrões comportamentais e políticos – apresentou particularidades que
acabaram por interferir na própria produção dos pareceres dos censores e potencializar a
variada gama de discursos, relações e processos vivenciados pela Divisão de Censura de
Diversões Públicas (DCDP), órgão ao qual estava atrelada. A pluralidade de dinâmicas
envolvia, sobretudo, as motivações ao veto das obras musicais, que, indo além das
questões morais, políticas e sociais, ocorriam também por conta de críticas estéticas às
obras, erros gramaticais, denúncias de plágio e uma suposta defesa da boa cultura nacional.

Essa heterogeneidade de possibilidades para o censurável relacionava-se, por sua


vez, ao caráter multifacetado presente nas relações estabelecidas entre a atividade
censória, artistas, indústria cultural, sociedade e governo militar e chegou a ser também um
dos fatores responsáveis pelo grande número de discrepâncias entre pareceres relativos a
uma mesma canção, que ocorreram até a primeira metade da década de 1970 e
ressurgiram no início da década de 1980.

Diante do exposto, esta comunicação propõe um mapeamento das diferentes causas


que levaram, durante o período abordado, canções a serem censuradas, lançando luz
também sobre a maneira com a qual a censura musical se inseriu dentro do aparato
repressivo do Estado, respondendo às suas demandas e compartilhando de seu discurso
ideológico. Explorar-se-á, para este fim, as argumentações dos censores utilizadas para
justificar suas decisões; como o aparato legal acerca da censura tratava estes temas
proibidos – provendo ou não a eles fundamentação jurídica –; quais os assuntos que
causavam maiores discordâncias entre as apreciações dos técnicos e quais as diferenças
regionais e temporais observadas nestes procedimentos censórios ao longo do regime
militar.

A partir da análise de uma amostragem aleatória de processos censórios, composta


por 1.805 destes documentos, pertencentes aos anos de 1970 a 1984, observou-se a
existência de um maior equilíbrio e heterogeneidade entre os possíveis motivos que
poderiam levar uma letra musical a ser censurada até 1975. Já o mesmo não ocorreu
durante os anos seguintes, nos quais a pretensa defesa da moral e dos bons costumes

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representou mais de 70% dos vetos contabilizados por esta pesquisa, motivação seguida
apenas pela censura de músicas que contivessem críticas diretas ao regime militar.

A prática de vetar canções contrárias aos bons costumes recaía, principalmente,


sobre letras que abordavam o erotismo, homossexualidade, prostituição, drogas, violação de
leis, expressões maliciosas ou inadequadas e assuntos que ameaçariam a instituição da
família, como traição, filhos fora do casamento, divórcio ou inseminação artificial. Apesar de,
à primeira vista, os temas destas canções não apresentarem semelhanças aos conteúdos
das perseguidas obras de protesto, é importante ressaltar que os técnicos estavam cientes
do valor político em impedir a disseminação de “imoralidades”. Isto porque partiam de um
discurso anticomunista, difundido pela própria legislação censória, segundo o qual o
atentado aos bons costumes obedeceria a um plano subversivo, através do qual o amor livre
e as drogas seriam utilizados para desfibrar as resistências morais da sociedade,
enfraquecendo, assim, a nação e pondo em risco a segurança nacional. Além do mais, a
célula familiar, que pela ótica dos técnicos era posta em risco pelas músicas inseridas nesta
temática, representava um dos pilares de sustentação do discurso moralista do regime, que
buscava, através dele, apoio junto à sociedade.

Sob outra perspectiva, a questão da defesa dos bons costumes estava, ainda,
atrelada à tentativa de manter a ordem pública e, consequentemente, política, através de
vetos a músicas que, por exemplo, influenciassem, na ótica da censura, a prática de crimes.
Dentro deste quadro – no qual, para a censura, as informações veiculadas pelas músicas
passariam a ser consideras normais e cotidianas por parte do público1 – estão presentes
canções censuradas por descreverem carros em alta velocidade – contrariando,
supostamente, as leis de trânsito –, por abordarem o tema do aborto ou por relatarem
crimes passionais.

O ato, portanto, de proibir uma letra em virtude de seu conteúdo imoral estaria
intrinsecamente ligado à defesa da segurança nacional e da ordem vigente, o que
demonstra a mescla que ocorreu na censura musical, deste período, entre uma tradicional
preocupação brasileira com a conservação dos bons costumes da sociedade e os interesses
coercitivos específicos do regime então vigente. As palavras do censor da música “Menino
Jesus” – “defender os valores morais para o curso da Revolução Brasileira”2 – mostram que
os técnicos tinham consciência de que, ao proibirem mensagens contrárias aos bons

1
Parecer da censora Arlete Aparecida Corrêa, 17 de jun. de 1977, São Paulo. In: Processo de
censura da música “Psicologia”, de Ubiratam Mariano. FUNDO “DIVISÃO DE CENSURA DE
DIVERSÕES PÚBLICAS” ARQUIVO NACIONAL, COORDENAÇÃO REGIONAL DO ARQUIVO
NACIONAL, SÉRIE “CENSURA PRÉVIA”, SUBSÉRIE “MÚSICA”, CAIXA 725.
2
Parecer de censor desconhecido, 18 de mar. de 1971, Guanabara. In: Processo de censura da
música “Menino Jesus”, de Chico Buarque. DCDO/CP/MU.

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costumes, tanto as famílias quanto o regime estariam “a salvo” dos “planos subversivos”, o
que fazia desta proibição um ato político.

Mas, se, por um lado, esta preocupação moral está ligada à censura política
realizada durante a ditadura militar, em defesa da ordem vigente, por outro, devemos levar
também em consideração que a censura de costumes, na ótica dos próprios técnicos, era
aquela legitimada pelos setores mais conservadores da sociedade e estava arraigada a uma
tradição missionária presente no histórico da censura brasileira, configurando-se, assim, em
uma prática transparentemente institucionalizada.

O mesmo não pode ser dito, por sua vez, da censura estritamente política realizada
no seio da DCDP. Segundo Miliandre Garcia (2008), esta prática seria a maior amostra da
existência de uma grande conexão entre censores e governos militares. Consequentemente,
muitos técnicos negavam publicamente que faziam esta censura, pois “denunciar tal prática
significava assumir que a entidade, que se projetava como guardiã dos valores éticos-
morais da sociedade, feria tanto os princípios básicos da Constituição como também servia
aos interesses políticos dos governos” (GARCIA, 2008, p. 36). Além do mais, ao defender os
interesses políticos do Estado, os censores encobriam os crimes cometidos e as mentiras
sustentadas pelo regime, traindo também, desta forma, sua suposta missão de tutelar e
proteger a sociedade.

Mas, apesar deste esforço, por parte dos censores, em evitar assumir publicamente
que vetavam temas políticos, negando assim uma aproximação com o autoritarismo vigente,
eles não tinham a preocupação de esconder esta posição de defesa do regime em seus
pareceres, principalmente naqueles que abordavam as “canções de protestos”. Estas obras
mostraram-se, nos documentos analisados, uma categoria musical com características
temáticas, e mesmo estéticas, muito bem delimitadas, que, a todo o momento, eram
“reconhecidas” pelos técnicos durante o exame. Seu conteúdo ideológico estava
relacionado, por exemplo, à utopia, luta armada, conscientização política, inconformismo e
críticas diretas ao regime; sua linguagem seria marcada pela astúcia e pelo simbolismo
(elementos constitutivos da chamada “linguagem da fresta”3) e sua sonoridade estaria
relacionada a uma moderna música brasileira, com sons irreverentes, atrelados a um
público jovem. No parecer da música “Campos”, o censor expõe que

As letras musicais em epígrafe seguem a tendência da moderna música


nacional e internacional, fazendo o gênero da chamada música de protesto,

3
Linguagem oblíqua, utilizada principalmente na imprensa crítica, que, segundo Vasconcellos (1977),
era a única capaz de driblar a censura.

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Pop, muito a gosto dos jovens. São escritas inteligentemente, a linguagem é


4
simbólica, podendo gerar diferentes interpretações.

Este parecer demonstra também, para além da preocupação com a intenção do


autor em criticar o regime através de sua letra, o medo relativo às interpretações que
poderiam ser feitas a partir dela – e que estavam fora do controle da atividade – e o uso
instrumental da mesma por parte da oposição. Isto porque as obras de protestos eram
consideradas um “verdadeiro libelo contra a ordem pública e a organização social”5, capaz
de gerar o incitamento de grupos sociais, conforme pontua o censor da música Victor,
Victória:

Composição sobre lutas, desespero e revolta, incitando ao protesto e ao


combate, que poderá se transformar em hino de protesto e incitamento à
luta armada, razão pela qual sou de parecer, tendo como base o descrito no
decreto 20.493, de 1946, art. 41, letras d, g e h, que não deverá ser
6
liberada.

A citação concomitante destas três letras do artigo 41, por sua vez, – proibindo,
respectivamente, qualquer obra que fosse “capaz de provocar incitamento contra o regime
vigente, a ordem pública, as autoridades constituídas e seus agentes”, ferisse “de qualquer
forma, a dignidade ou interesses nacionais” ou induzisse “ao desprestígio das fôrças
armadas” –, mostra as instituições específicas ameaçadas com a canção de protesto, às
quais a censura demonstrava abertamente salvaguardar.

Ainda sobre o parecer de “Victor, Victória”, a preocupação demonstrada pelos


técnicos com o incitamento de grupos sociais através de críticas contidas em letras musicais
abre caminho para um terceiro grupo de canções que constantemente encontrava-se da
mira do serviço censório: as canções que denunciavam, por exemplo, as dificuldades de
sobrevivência dos trabalhadores, a marginalização social de grupos específicos, a
discriminação racial e, também, abordavam a questão da luta de classes e as reivindicações
de movimentos sociais.

Por um lado, a iniciativa da censura em ocultar evidências segregacionistas e os


problemas econômicos que atingiam grande parte da população brasileira tinha como
objetivo preservar a imagem de uma sociedade desprovida de tensões sociais, promessa de
um regime supostamente comprometido com o “desenvolvimento econômico aliado à justiça
social” (AQUINO, 1990, p. 144). Mas, por outro lado, as denúncias em questão também

4
Parecer de censor desconhecido, 16 nov. 1971, Brasília. In: Processo de censura da música
“Campos”, de Tetê Catalão e Luiz Maranhão. DCDO/CP/MU/CX 714.
5
Parecer da censora Jacira da Costa França, 4 jul. 1973, Brasília. In: Processo de censura da música
“Gozação n° 1”, de autor desconhecido. DCDO/CP/UM/CX 643.
6
Parecer da censora Avelita Barros, 2 set. 1977, Brasília. In: Processo de censura da música “Victor,
Victória”, de autor anônimo. DCDO/CP/UM/CX 725.

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aparecem nos documentos analisados como perigosas formas de incitamento à luta de


classes, como mostra o parecer, de 1977, da canção “Plegaria de labrador”, composta por
Vitor Jara:

Em oração, prega-se a revolta e a necessidade de união para a luta a fim de


se conseguir a liberdade, a justiça e a igualdade, mesmo a custa de se
chegar até a morte. Somos de parecer, tendo como base o decreto 20.493,
art. 41, letra “d” e “g”, que a letra não deverá ser liberada, por agredir aos
interesses nacionais e se constituir um hino de revolta e instigação à luta
armada”.

É interessante notar que, neste caso, a música, apesar da presença da denúncia


social, não aponta diretamente para falhas específicas do regime militar brasileiro, pelo fato
de ser composta por um artista chileno, que escreve sobre a realidade de seu país. Dentro
desta perspectiva, portanto, a preocupação da censura não giraria em torno,
necessariamente, da imagem do governo supostamente distorcida que poderia ser
transmitida às classes populares, mas, sim, do descontrole social que poderia ser gerado
pelo embate de classes, contribuindo, na ótica da atividade, tanto para a opção destes
setores populares pela luta armada – que, conforme podemos observar pela data do parecer
lido, ainda era um fantasma no final da década de 1970 – quanto pelo descontentamento
com o sistema capitalista moderno, que era a base econômica das políticas modernizantes
do regime militar.

Por fim, se os procedimentos e preocupações dos técnicos, apontados até este


momento, durante o exame censório, respondiam de forma direta ou indireta às demandas
do Estado autoritário e refletiam as representações e preocupações contidas na ideologia
adensada pela Doutrina de Segurança Nacional e seus desdobramentos, o mesmo não
pode ser dito dos conteúdos “censuráveis” que serão expostos a seguir.

Analisemos, primeiramente, o processo censório da música “Tiro ao Alvaro”,


resultado de uma parceria entre Adoniran Barbosa e Oswaldo Moles, que integra o conjunto
de obras que a censura considerava “deseducativas”. Embora tenha sido composta na
década de 1950, foi enviada pela primeira vez ao serviço censório somente em 1973,
ocasião em que Adoniran pretendia gravá-la em LP. Na primeira vez em que chegou ao
órgão censório, a música foi vetada por conta de sua “falta de gosto” e as palavras “taubá”,
“artomorve” e “revorve” foram destacadas pelos técnicos. No ano seguinte, a letra foi
novamente enviada para exame e sua liberação, desta vez, ficou sujeita à correção dos
erros gramaticais da letra, o que foi cumprido pelos autores. Apesar de a obra ter sido,
consequentemente, liberada pela censura, Adoniran não gravou, durante anos, esta versão
aprovada.

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Este procedimento, de interditar uma canção em decorrência de erros ortográficos,


foi muito comum nos primeiros anos da década de 1970 e efetuado, principalmente, pelos
técnicos do órgão censório do Distrito Federal – um censor chega a afirmar que vetar letras
em decorrência de erros seria uma diretriz da DCDP de Brasília. O fato de, na maioria
destes casos, a liberação das letras estar atrelada à correção dos erros apontados faz com
que esta motivação ao veto pareça uma interdição banal. Goulart, entretanto, aponta para
um primeiro perigo deste tipo de intervenção da censura nas obras examinadas: ela era
sutil, não perceptível por parte dos leitores (GOULART, 1990, p. 22).

Mas esta temática aborda, também, outras questões problemáticas envolvendo,


principalmente, a concepção do papel da censura por parte dos técnicos. Voltemos ao
exemplo do processo de “Tiro ao Alvaro”. Ele representa um momento no qual a atividade
interferiu diretamente no processo criativo de uma canção, não somente impedindo a
divulgação de trechos, mas com “sugestões”, através das quais a obra poderia ser liberada.
Na letra de Adoniran Barbosa, a correção dos erros ortográficos modificou o seu caráter
popular, já que este era um artifício comum na obra do autor para representar aspectos de
uma linguagem presente nos bairros redutos de imigrantes operários, na São Paulo dos
anos 1950.

Ao solicitarem a correção desta letra, e de outras várias, entretanto, os censores do


processo em questão não buscavam calar esta voz representante dos oprimidos. Em um
parecer de 1972, por exemplo, um técnico afirmou decidir pelo veto a erros gramaticais “sob
a pena de se permitir um trabalho deseducativo na música popular brasileira, fato este,
amplamente explorado e combatido por quase todos os meios de comunicação existentes”7.
Já no caso de Mais beijinhos, a música, que continha erros ortográficos, foi censurada
“considerando que somos obrigados, principalmente, a zelar pela boa educação dos jovens
adolescentes”8. Esta missão tutelar do censor, principalmente em relação aos jovens e ao
povo, era referendada nos pereceres pelo art. 77 do Decreto 20.493/1946, que determinava
proibição de “irradiação de trechos musicais cantados em linguagem imprópria à boa
educação do povo, anedotas ou palavras nas mesmas condições”.

Outro artigo, utilizado com menor frequência, para corroborar esta decisão censória
era o n° 4 do Decreto 5536/1968: “Os órgãos de censura deverão apreciar a obra em seu
contexto geral levando-lhe em conta o valor artístico, cultural e educativo, sem isolar cenas,

7
Parecer do censor Sebastião Minas Brasil Coelho, 13 de julho de 1972, Brasília. In: Processo de
censura da música “Mariza”, de Osvaldo Barbosa da Silva. DCDO/CP/MU/CX 716.
8
Parecer da censora Selma Chaves, 3 de jan. de 1976, Guanabara. In: Processo de censura da
música “Mais beijinhos”, de João Barone. DCDO/CP/MU/CX 736.

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trechos ou frases, ficando-lhe vedadas recomendações críticas sobre as obras censuradas”.


Ele suscita, entretanto, outra perspectiva, além da educação, levada em consideração pelo
censor ao vetar letras pela forma linguística incorreta: a questão da qualidade artística da
música. No parecer da canção Alegria, por exemplo, o censor afirma que a letra oscila
quanto ao nível artístico, pois é uma “criação primária, onde o vernáculo é totalmente
ignorado”9.

Há, ainda, dois outros aspectos considerados pela censura ao vetar letras em
decorrência da questão ortográfica/gramatical. O primeiro era a não compreensão do
sentido e da mensagem transmitidos pela música, o que ocorria, segundo os técnicos,
justamente pelos erros de português da letra. Já o segundo, remetia à construção e
preservação de uma imagem de eficiência da censura perante a sociedade, conforme
explica o parecer da canção Maria das Graças:

A letra em epígrafe constitui um amontoado de frases sem concordância


lógica, com flagrantes erros ortográficos e de concordância verbal, cuja
liberação comprometeria, a nosso ver, a imagem do padrão de trabalho
desta DCDP. Sugerimos, smj [salvo melhor juízo], que se alerte o
10
responsável para uma correção na sua obra” .

Há, portanto, no contexto desta motivação, quatro perspectivas diferentes


relacionadas a quais preocupações o censor deveria ter em mente durante o exame
censório: a educação do povo, o valor artístico da canção, a delimitação da mensagem
conduzida pela mesma e a imagem de eficiência da atividade. Esta heterogeneidade de
posturas, de concepções relativas ao papel da censura, assim como a subjetividade em
definir o valor artístico de uma obra, explica o motivo desta temática ser não somente
delimitado cronológica e regionalmente, mas também representar um dos assuntos que
mais gerou discrepâncias entre pareceres, justamente por estar vinculado ao imaginário
multifacetado do censor musical.

Por fim, uma última temática relativa ao “censurável” será destacada nesta
comunicação, também apontada no primeiro parecer do processo de “Tiro ao Alvaro”. Ao
vetarem canções em decorrência de seu “mau gosto”, por possuírem “linguagem
irreverente”, falta de sentido, ausência de mensagem ou mesmo pelo fato do autor
supostamente não ter conseguido expressar a mensagem que gostaria de transmitir através

9
Parecer dos censores Onofre Ribeiro da Silva e Florialdo de Carvalho Queiroz, 7 de jul. de 1975,
Brasília. In: Processo de censura da música “Alegria”, de Aparecida Graudi. DCDO/CP/MU/CX 653.
10
Parecer da censora Jacira da Costa França, 27 de jun. de 1974, Brasília. In: Processo de censura
da música “Maria das Graças”, de José de Ribamar Oliveira Sousa. DCDO/CP/MU/CX 736.

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da letra, os censores levam em consideração principalmente a estética das canções,


colocando-se como defensores de uma “boa cultura”.

Neste momento, portanto, imbuídos de uma roupagem intelectual, os agentes


mostravam “reconhecer” uma obra de qualidade, cujas características, entretanto, eram
totalmente subjetivas – gerando muitas discordâncias no exame das músicas desta
categoria. Isto porque se, por um lado, esta era uma postura comum na atividade,
principalmente na primeira metade da década de 1970, por outro, ela não era normatizada
nem institucionalizada, uma vez que não se constituía em uma demanda oficial das
diretrizes organizacionais do serviço censório, muito menos do regime militar. Retomando,
inclusive, o art. 4 Decreto-lei 5.536 de 1968 – “Os órgãos de censura deverão apreciar a
obra em seu contexto geral levando-lhe em conta o valor artístico, cultural e educativo, sem
isolar cenas, trechos ou frases, ficando-lhe vedadas recomendações críticas sobre as obras
censuradas” –, está sublinhado que o papel da censura não era julgar esteticamente as
canções em seus pareceres. Consequentemente, estes últimos exemplos de motivações ao
veto estão, também, relacionados à grande parte das ocorrências de discrepância entre
pareceres relativos a uma mesma obra.

Concluindo, uma das principais características da censura à canção, ocorrida


durante a ditadura militar, foi, portanto, esta pluralidade de opções para o que deveria e
poderia ser censurado em uma obra musical. Esta particularidade, por um lado, está
atrelada ao caráter multifacetado do imaginário social dos censores, que atribuía diversos
papéis à atividade, relacionados tanto à vigilância e coerção dos instrumentos da oposição
ao regime, quanto à suposta defesa da sociedade e da cultura nacional. Por outro, a
heterogeneidade do censurável foi também motivada pela grande penetração social da
canção, que possuía os mais diversos públicos, era reproduzida em uma grande variedade
de espaços e meios de comunicação e permitia a divulgação das mais distintas ideias e
representações.

Referências

AQUINO, Maria Aparecida de. Censura, Imprensa, Estado Autoritário (1968-1978): o


exercício cotidiano da dominação e da resistência: O Estado de São Paulo e Movimento,
São Paulo: EDUSC, 1999.

GARCIA, Miliandre. Ou vocês mudam ou acabam: teatro e censura na ditadura militar. Tese
(Doutorado em História) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do
Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2008.

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GOULART, Silvana. Sob a verdade oficial: ideologia, propaganda e censura no Estado


Novo. São Paulo: Marco Zero, 1990.

VASCONCELLOS, Gilberto. Música Popular: de olho na fresta. Rio de Janeiro: Graal, 1977.

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A legitimação da autoridade e a positivação da democracia: Castelo Branco visita


Blumenal-SC em 1965

Cristina FERREIRA
Doutoranda em História Social pela UNICAMP e professora titular de Pesquisa em História e
História do Brasil do Dep. de História da Universidade Regional de Blumenau – FURB
cris@furb.br

Introdução
Em meio aos eventos de transição e alternância de poder da esfera executiva do
Brasil na década de 1960, chama atenção a importância que as cidades do interior
assumem no cenário político nacional, pois se tornam alvo da presença, em carne e osso,
de autoridades públicas. Diante de tal problemática de pesquisa, este artigo tem o objetivo
de analisar e discutir os propósitos, interesses, jogos de poder e bastidores políticos
atrelados à visita do primeiro Presidente Militar, Humberto de Alencar Castelo Branco, à
cidade de Blumenau-SC, com a finalidade de problematizar sua eventual representatividade
na constituição das Culturas Políticas, elaboradas em sociedade a partir do Golpe Civil-
Militar de 1964.

Castelo Branco esteve na capital, Florianópolis, e cumpriu uma agenda de visitas e


encontros políticos em Blumenau (22/maio/1965). Sua presença na cidade foi articulada
pela Federação da Indústria e Empresários de Santa Catarina (FIESC), situação que
corrobora o interesse do grupo econômico do governo da Ditadura Militar na questão do
desenvolvimento industrial. Na oportunidade, o Presidente optou por conhecer duas das
mais importantes indústrias da região: Eletro Aço Altona S.A e Artex S.A, do ramo
metalúrgico e têxtil, respectivamente. Além das fábricas, Castelo Branco desfilou a pé em
um curto trajeto na Rua 15 de Novembro, principal avenida do centro da cidade,
acompanhado de autoridades militares e civis. Este ato indicou uma quebra de protocolo e
foi presenciado por uma quantidade imensa de expectadores interessados em ver o
General. Tal situação transformou-se em espetáculo público, ato simbólico que dá suporte
às estratégias do Estado autoritário, à procura de um campo gerador de reciprocidade e
identificação entre autoridades e sociedade civil.

Castelo Branco em busca da “Ordem e Progresso”


No interstício de 1963 e 1964, a nação vivia certa instabilidade político-partidária,
agravada pela crise institucional e econômica, responsável por uma espécie de sensação de
descontentamento em uma parcela de civis e militares que, juntamente com políticos rivais,
promoveram a deposição de Jango por meio de um golpe de Estado (31/Março/1964). Era
nítido que os militares receberam o apoio de alguns segmentos da sociedade civil,
manifestado em passeatas que reuniram centenas de pessoas nos espaços públicos de
cidades brasileiras, dotadas de expressiva representatividade na vida política nacional. Na
sequência, os militares assumem o governo brasileiro e, no dia 15 de abril, um Ato

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Institucional nomeou, sem eleições diretas, o novo Presidente do Brasil: General Humberto
de Alencar Castelo Branco.

Em meados de 1963, Castelo Branco, a convite do Ministro da Guerra, Jair Dantas


Ribeiro e do Presidente Jango, foi promovido a Chefe do Estado-Maior do Exército (EME).
Esta circunstância concedeu-lhe um papel de destaque na hierarquia do alto comando
militar, bem como o “respeito de seus subordinados” (DULLES, 1979). Ao assumir a
Presidência da República em 1964, Castelo Branco tornou-se Oficial da Reserva e foi
investido do título de “Marechal” (NETO, 2004: p. 276). De certo modo, o General Castelo
Branco reunia em si qualificações suficientes para assumir o cargo de Presidente da
República e sua escolha envolvia, sobretudo, o “prestígio entre seus pares e conexões com
o IPES” (REIS FILHO, 2002: p. 36) (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais), mantido por
empresários e políticos alinhados com a proposta de ajuda financeira dos Estados Unidos
para o Brasil. Portanto, a indicação de Castelo Branco para o cargo esteve envolta em um
processo político de legitimação do poder instaurado no país naquela ocasião. A partir de
então, sua imagem como presidente-militar foi alicerçada sob um viés oficial, constituída
cuidadosamente por “livros como os de Luís Viana Filho, chefe da Casa Civil de Castelo
Branco, e de Daniel Krieger, líder do governo no Senado” (FICO, 204: p. 31-32), que
contribuíram para a consolidação de um perfil “moderado” e “legalista”.

Por outro lado, convém frisar que, logo nos primeiros meses de seu mandato,
Castelo Branco promoveu ações na contramão desses rótulos, em especial a prorrogação
de seu próprio mandato de Presidente, em Julho de 1964 e a imediata criação do Serviço
Nacional de Informação (SNI), responsável pela formulação de um aparato repressivo de
identificação e a ordenação de prisão aos cidadãos considerados contrários ao regime.

A partir de 1965, as determinações políticas de Castelo Branco oscilavam de forma


constante, o que denotava certa fragilidade do governo na tomada de decisões importantes.
Neste período inicial da Ditadura Militar, as políticas autoritárias estavam centradas na
“blindagem” do Estado e “na despolitização dos setores populares (operários e
camponeses)”. De fato, as principais ações do primeiro presidente militar envolveram atos
arbitrários à liberdade política e ao exercício da cidadania, tais como: 1) a instauração do
bipartidarismo; 2) a criação de uma lei limitante da atuação da Imprensa e 3) a Constituição
de 1967, cuja característica principal era o aumento de poder concedido ao Executivo em
detrimento do Judiciário e Legislativo. Os mecanismos punitivos de seu governo atingiram
militantes e “sindicalistas foram depostos e políticos perderam seu mandato e/ou seus
direitos políticos” (QUADRAT, 2006: p. 132), em uma clara demonstração do enrijecimento
das políticas de Estado. Portanto, o primeiro Presidente militar a partir de 1964 exerceu uma
política pautada na censura, com um número considerável de civis punidos: 3.644, de um
total de 5.517, somente durante seu governo. Ainda convém agregar a estes dados a
quantidade de oficiais das Forças Armadas e militares punidos na gestão de Castelo
Branco, cuja representatividade atingiu 90% das sanções realizadas durante a Ditadura
Militar em seus vinte e um anos de vigência (NAPOLITANO, 2014: p. 71-73).

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Diante deste cenário, pairava uma espécie de onda de insatisfação e a


“impopularidade do governo” tomou conta da opinião pública. Esta “atmosfera de
descontentamento” (REIS FILHO, 2002: p. 40) causou aborrecimentos aos políticos
apoiadores do Golpe Civil-militar de 1964, mas também gerou desgosto junto à própria
população, em especial trabalhadores, empresários e donas de casa. Tal situação se
desencadeou a partir das medidas tomadas pela equipe de Castelo Branco para conter a
inflação que, além de prejudiciais, também foram ineficientes e trouxeram à tona uma “série
de ataques ferrenhos à política econômica do governo” (DULLES, 1979: p. 216).

Outro elemento associado a esta questão remetia à própria figura do presidente,


considerado um tanto quanto distante da população no exercício de seu cargo. Com o
propósito de reverter esse quadro e reiterar aos civis a necessidade de compreensão em
relação às atitudes mais contundentes do governo, dentre outras ações, Castelo Branco
iniciou um processo de deslocamento por diversas regiões da nação, sem restringir-se
apenas aos grandes centros urbanos, em busca da conquista, reconhecimento e
identificação do povo com os preceitos democráticos, ideal simbólico do Golpe de Estado
que os militares consideravam como a “Revolução de 1964”. Durante seu mandato, visitou
inúmeras cidades do interior, cuidadosamente escolhidas, tais como: Uberaba, Ipatinga, Boa
Esperança (MG); Caxias e Carolina (MA); Porto Nacional (GO) e Campina Grande (PA). Sua
presença nestas localidades estava relacionada com a participação em eventos de ordem
pública, comemorações cívicas e/ou militares, inauguração de obras ou, até mesmo, no
apaziguamento de questões políticas e/ou militares. As viagens realizadas pelos
governantes apresentavam uma natureza diversa e, além de “implicações políticas”,
estavam eivadas de elementos simbólicos que auxiliavam na “estratégia de constituição e
de legitimação do poder” (REVEL, 1989: p. 106). Esta escolha decisiva prevaleceu nas
viagens de Castelo Branco e demais políticos interessados em constituir uma “identidade
positiva da ditadura militar” (REIS FILHO, 2002).

Nos dias 21 e 22 de maio/1965, Castelo Branco veio pessoalmente a Santa Catarina,


em atendimento ao convite feito pelo Governador Celso Ramos, articulado com a Federação
da Indústria e Empresários de Santa Catarina (FIESC). No primeiro dia, o Presidente visitou
a capital, Florianópolis, sob um esquema de segurança a cargo do Exército Nacional. No
cronograma oficial a cumprir constavam diversas atividades, dentre as quais: honras
militares, almoço no 5º Distrito Naval; homenagem para recebimento do título de “Cidadão
honorário de Florianópolis” e pernoite na Ilha de Santa Catarina.

No dia seguinte, rumou para Itajaí no avião da Força Aérea Brasileira (FAB) e o
percurso até Blumenau foi feito de automóvel oficial. Durante o trajeto, o esquema de
segurança foi reforçado pelo 23º Regimento de Infantaria de Blumenau. As atividades
programadas na visita, de aproximadamente quatro horas, foram as seguintes: 1) Recepção
do Prefeito e demais autoridades em frente à Prefeitura Municipal; 2) Desfile pela Rua 15 de
Novembro até a Matriz São Paulo Apóstolo e passagem pela Igreja; 3) Visita ao parque
industrial, Electro Aço Altona S/A e Artex S/A, dos ramos metalúrgico e têxtil,

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respectivamente; 3) Encontro com autoridades no Grande Hotel e, por fim, 4) Almoço


informal. A programação, no entanto, não pode ser analisada apenas sob a ótica desta
sequência de atividades, pois a ênfase da excursão do presidente recaiu sobre sua visitação
às indústrias. As fontes documentais demonstraram que, parte desta escolha diz respeito ao
fato de que na década de 1960, o setor econômico industrial de Blumenau passava por uma
fase de expansão, sendo o principal centro industrial de Santa Catarina, com 17,5% do total
dos negócios (MAMIGONIAN, 1966: p. 452). As indústrias, predominantes do ramo têxtil,
ocupavam o décimo lugar em relação aos centros têxteis do Brasil e, na área de produção e
transformação de metais, também se destacavam nacionalmente. Esses dados reforçam o
interesse do governo militar na região do Vale do Itajaí, apontada como área dotada de
potencial para contribuição no processo de reversão do quadro de crise econômica vigente.

No entanto, ao mesmo tempo em que as “políticas de modernização” implantadas


pelos militares e seus aliados civis acarretaram em “mudanças importantes na infraestrutura
do país, com repercussões principalmente na economia, comunicações [...]”, o
desenvolvimentismo excluía parte da classe trabalhadora e defendia que a “elite produtiva”
se responsabilizasse pela contenção de movimentos trabalhistas. Portanto, era uma espécie
de “modernização conservadora” e os “projetos de desenvolvimento foram comandados pela
tecnocracia civil e militar” (MOTTA, 2014: p. 8), com a retaguarda de um forte aparato
repressivo de censura, destinada a conter oposições.

Alinhada com as questões de cunho desenvolvimentista, a imprensa catarinense


reservou porcentagem generosa de seus editoriais para noticiar a visita de Castelo Branco a
Santa Catarina. No caso da imprensa de Blumenau, o periódico A Nação editou vinte e dois
artigos e, por sua vez, dois jornais de circulação estadual publicaram juntos um total de
quinze artigos (O Estado, nove e A Gazeta, seis). Curioso foi constatar que, mesmo diante
do fato comprovado de que a passagem de Castelo Branco a Blumenau privilegiou as
indústrias, A Nação tenha optado por mencionar os trabalhadores em apenas dois artigos,
nos quais destacou a disciplina como característica central dos industriários locais.
Conforme o jornal, o presidente teria a oportunidade de fazer uma excursão e entrar em
contato com “a disciplina do operariado e as possibilidades desenvolvimentistas de nosso
parque industrial” (OLIVEIRA, 1965: p. 3). E, a chegada do Presidente à Artex S/A foi
descrita com ênfase no fato de que os “operários [...] se agrupavam disciplinadamente frente
a sua fábrica” (A Nação, Ano XXI, n. 117. Blumenau, 25/Maio/1965, p. 1-2.) para a
tradicional saudação, sem a necessidade do cordão de isolamento, conforme demonstra a
Figura 1.

As questões de ordem eram muito valorizadas na visitação das autoridades, sobretudo


por conta da preservação da figura política em questão, ainda mais em se tratando de um
militar, rodeado de seguranças por todos os lados. Na Figura 1, o ângulo escolhido pelo
fotógrafo (Hans Raun) valorizava as personagens principais da comitiva presidencial e
autoridades locais, por outro lado, em segundo plano aparece claramente o público
aglomerado nas laterais da avenida, precedido de uma numerosa quantia de seguranças

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trajados com seus ternos escuros, designados para assegurar a ordem, em um perfeito
aparato de construção da representação simbólica do poder político vigente.

Acervo: Arquivo Histórico “José Ferreira da Silva” – Blumenau.

Figura 1: Ernesto Geisel, Prefeito em exercício Edgar Müller, Presidente


Castelo Branco, Governador Celso Ramos e militar não identificado.

A simples menção da imprensa sobre o comportamento exemplar dos operários


também estava articulada com a ênfase no ideário de “ordem e progresso”. Tal propósito
não escapou ao pronunciamento do próprio Presidente diante do prédio da Prefeitura
Municipal, no qual ressaltava o “espírito de trabalho”, a “ordem” e o “progresso” (A Nação,
Ano XXI, n. 116. Blumenau, 23/Maio/1965, p. 1-6) da população do Vale do Itajaí, discurso
que reforçava o ideal de “cidade industrial e do trabalho” atribuído pelos meios de
comunicação e empresários locais a Blumenau e, cuja disseminação, criou uma espécie de
bordão para a cidade.

Via de regra, as visitas de autoridades públicas eram dotadas de um caráter


protocolar, responsável pela ritualização de atos simbólicos e ritos consagrados que
envolviam a passagem por “fábricas, portos, oficinas, monumentos” (REVEL, 1989: p. 112),
quase como uma inspeção nos eixos norteadores da vida pública da localidade. Na ocasião
da passagem do Presidente Castelo Branco não foi diferente, no entanto, a tônica da
ritualística também se fez notar por meio de uma peculiaridade importante, o contato com as
crianças. Estes aspectos foram captados pelo fotógrafo em situações diversas e fornecem
“uma pista para se chegar ao que não está aparente ao primeiro olhar, mas que concede
sentido social à foto” (MAUAD, 1996: p. 12).

Na Figura 2, diante de uma imensidão de populares, o esquema de segurança


permitiu a aproximação de uma criança para cumprimentar o Presidente, cuja oportunidade
não escapou também à imprensa local que noticiou: “seus passos [eram] interceptados por

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crianças que se dirigiram a seu encontro abraçando-o demoradamente” (A Nação, Ano XXI, n.
116. Blumenau, 23/Maio/1965, p. 1). Um gesto aparentemente simples, mas com um
significado de apelo à figura da autoridade, não apenas como representante do poder
político da nação, mas também como pai de família e ser humano que, por sinal, viajou ao
Estado acompanhado de sua filha, Antonieta Castelo Branco (A Nação, Ano XXI, n. 115.
Blumenau, 22/Maio/1965, p. 1-6.). Esta situação traduz com evidência a necessidade do
governo autoritário de investir na obtenção do consentimento da população civil, intenção
corroborada por intermédio da aproximação com seu governante máximo.

Acervo: Arquivo Histórico “José Ferreira da Silva” – Blumenau.

Figura 2: Rua XV de Novembro, nas proximidades da Igreja Matriz, em um


encontro entre autoridades militares, civis e eclesiásticas (22/05/1965).

Outra situação peculiar demonstrada pela Figura 2 refere-se ao fato do Presidente


estar a pé, em plena rua principal da cidade, diante de um público numeroso e contíguo à
autoridade. Isto ocorreu à revelia do protocolo oficial inicialmente previsto, no qual o trajeto
pela Rua XV de Novembro seria realizado de automóvel. O próprio Presidente decidiu
alterar a programação oficial e fazer o percurso a pé, gesto que provocou “entusiasmo” e
“admiração” na população (A Nação, Ano XXI, n. 117. Blumenau, 25/Maio/1965, p. 1-2.). Por
outro lado, tal atitude também pode ser pensada enquanto uma espécie de “espetáculo
físico da soberania” (A Nação, Ano XXI, n. 117. Blumenau, 25/Maio/1965, p. 1-2.)
presidencial, articulada juntamente com o ideal de aproximação com a população brasileira.
A imprensa se regozijou com esta atitude e enfatizou: “foi um gesto bonito, muito raro em
chefes de Estado, sempre presos às regras do protocolo” (A Nação, Ano XXI, n. 117.
Blumenau, 25/Maio/1965, p. 1-2). Eis então, uma tentativa de diferenciar a figura de Castelo
Branco dos demais Presidentes, como forma de identificação e constituição de apoio ao
novo soberano da nação. Jacques Revel inspira a análise deste gesto presidencial, pois,
segundo ele, no caso da movimentação de autoridades, “espera-se ainda do povo reunido
que reconheça o regresso da soberania pública encarnada num homem que vem refugiar-se
nele” (REVEL, 1989: p. 117).

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A personificação do homem no presidente e vice-versa aparece demonstrada nas


fotografias, que auxiliam na compreensão das diferentes representações sociais e códigos
de comportamentos em diferentes grupos socioculturais (Cf. CARDOSO, 1997). A
combinação entre imagens e elementos textuais, também inspira uma análise mais
completa dos processos históricos, por isso, é importante indicar que alguns trechos
redigidos nos periódicos se constituem a partir da leitura dos registros fotográficos.

Acervo: Arquivo Histórico “José Ferreira da Silva” – Blumenau

Figura 3: José Ferreira da Silva, ex-prefeito da cidade, ao lado de Castelo


Branco, em desfile na Rua XV de Novembro, com destaque para o
cumprimento à população (22/05/1965).

As Figuras 2 e 3 capturaram e perpetuaram o flagrante de um presidente simpático e


carismático que “manteve um contato mais direto com o povo, [...] manifestando a sua
confiança entre o calor dos aplausos e a chuva de pétalas de flores e papel picado que lhe
era jogado das sacadas de todos os edifícios” (A Nação, Ano XXI, n. 117. Blumenau,
25/Maio/1965, p. 1-2.). O contato físico com o povo que “o cercava para um abraço ou um
simples apertar de mão” (A Nação, Ano XXI, n. 117. Blumenau, 25/Maio/1965, p. 1-2.) era
capaz de transformar a autoridade desconhecida em ser humano de carne e osso frente à
população.

O aceno de Castelo Branco (Figura 3), em uma demonstração de interação e atenção


junto à população, era um flagrante constante, presente na maior parte das séries
fotográficas acerca de sua visita. Raramente o Presidente olhava ou fazia pose diretamente
para as câmeras nas imagens analisadas, opção que remete ao fato de que os próprios
registros fotográficos podem ser utilizados tanto para a “legitimação de uma determinada
escolha quanto, por outro lado, o esquecimento de todas as outras” (MAUAD, 1996: p. 576).
Logo, a imagem também pode ser considerada uma espécie de “memória silenciosa”
construída “na lembrança, mas também no esquecimento” (MOTTA, 2012: p. 27), ou seja, o

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processo de interpretação
ção de eventos históricos pela via imagética deve considerar não
apenas as evidências e destaques óbvios, mas também os pormenores negligenciados e os
silenciamentos intrínsecos às fontes escritas e/ou em formato de imagem.

Por isso, para além de autoridades


autoridades e personagens ilustres, salta aos olhos o número
imenso de expectadores que acompanhou a visita de Castelo Branco, transformada em
evento público. Na Figura 4, novamente aparecia em destaque a presença das crianças
uniformizadas de branco, ladeando a escadaria
escadaria central da Igreja Matriz São Paulo Apóstolo,
ato simbólico que dá suporte às relações que estão em pauta nas estratégias do governo
militar em sua busca pela tão desejada padronização do comportamento da população.

Acervo: Arquivo
Arquiv Histórico “José Ferreira da Silva” – Blumenau.

Figura 4: No centro, o presidente Castelo Branco, acompanhado de


autoridades políticas e religiosas locais. Na segunda fileira, logo atrás do
presidente, o chefe do gabinete militar, Gen. Ernesto Geisel (22/05/1965).

Na ocasião, o jornal A Nação registrou que havia papel picado, foguetes e uma
“ovação popular”, com destaque para senhoras e crianças que burlaram “o “cordão de
isolamento” [e] apressavam-se
apressavam em cumprimentar o presidente daa República, oferecendo
[uma] corbelha de flores” (A
A Nação,
Nação, Ano XXI, n. 116. Blumenau, 23/maio/1965, p. 1-6).
1 Esta
menção da imprensa às crianças e mulheres é uma espécie de referência às saudações
representativas das famílias locais, com o intuito de propor
propor uma suposta identificação dos
habitantes da cidade com as decisões governistas e seu presidente, Castelo Branco, para
gerar aprovação e apoio às ações impositivas do governo autoritário e incutir uma ordem
pública vinculada aos poderes militares.

As autoridades
oridades eclesiásticas, presentes nas Figuras 2 e 4, apareceram alinhadas com
o Presidente neste evento, principalmente, diante do fato do novo governo instaurado

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recorrer a preceitos religiosos para justificar sua proposição de governo pautado na


“democracia cristã”, tão propagada pelos militares a partir de 1964.

É válido mencionar que, independente da agressividade proposta pelos instrumentos


de controle do Estado e a centralização do poder, na fase de transição da forma de governo
e consolidação do regime autoritário existiam pontos convergentes com os ideais nacional-
estatistas, a exemplo da aproximação do Presidente com o público em geral e da permissão
para funcionamento de alguns sindicatos corporativos, considerada “uma das vigas mestras
da democracia populista” (Informativo Hering, Ano I, n. 7. Blumenau, Julho/1965, s/p). A
busca pelo apoio da população nas ações governistas era endossada pelas autoridades,
que tiveram a oportunidade de palestrar diretamente com o presidente, pois “foram
unânimes em afirmar o espírito altamente democrático de S. Excia que, deixou de lado
todos os capítulos do protocolo, confraternizando-se com a maioria” (A Nação, Ano XXI, n.
118. Blumenau, 26/Maio/1965, p. 1-6).

Segundo a imprensa, o presidente “dispensava especial interesse pelos problemas


locais” (A Nação, Ano XXI, n. 118. Blumenau, 26/Maio/1965, p. 1-6) e o fato é que, no
almoço informal realizado no Grande Hotel de Blumenau, autoridades estaduais e
municipais, representantes de diversas entidades sindicais e classes produtoras tiveram a
oportunidade de conversar pessoalmente com Castelo Branco, que recepcionou e ouviu
atentamente a todos. Obviamente, mesmo que o governo lançasse mão de uma série de
artefatos de cerceamento de liberdades aos civis, era fundamental a caracterização de
Castelo Branco como “democrático”, em uma nítida referência ao lema do retorno da
liberdade, propagado pelo novo governo instaurado, sob a justificativa de que não
permitiriam ações políticas semelhantes às praticadas pelo governo de João Goulart.

Portanto, a visita do general-presidente assumiu um cunho de reafirmação


“revolucionária” que, feito “intervenção salvadora” (Cf. REIS FILHO, 2004), visava dar a ler o
Marechal ou, em outras palavras, passar a imagem do militar-cidadão, em especial, no
espaço de poder ligado à economia ou à religião. E “de paragem em paragem, [uniu] um por
todos os pontos do percurso. Constituiu como um todo o espaço que circunscreveu. Em
contrapartida, construiu sobre a sua deambulação a sua própria legitimidade” (REVEL,
1989: p. 269). Por isso, este investimento sobre a figura pessoal do Presidente foi legitimado
pelo próprio Castelo Branco em carne e osso a desfilar pela cidade.

Considerações Finais
As viagens de Castelo Branco imediatamente após assumir a Presidência da
República em abril de 1964 não se restringiram somente aos grandes centros urbanos e
capitais. Essa ação está interligada com estratégias políticas elaboradas no afã de conduzir
a opinião pública a uma visão positiva quanto ao regime instaurado. O interesse na
legitimação do governo dos militares convergia também com as questões ligadas ao
potencial desenvolvimentista do Brasil que, no caso de Blumenau, foi articulado com sua

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presença nas indústrias do setor têxtil e metalúrgico, onde esteve em contato com
autoridades locais, trabalhadores e sindicalistas.

Castelo Branco passou a visitar cidades do interior em busca do reestabelecimento da


ordem, mas também com o intuito de aproximar-se da população em geral, de preferência
para ser identificado como um político dotado de capacidade de liderança e responsável
pela reconstituição da ordem social do país. O intuito das viagens estava relacionado à
demarcação de poderes e à garantia da supremacia territorial do governo ditatorial ainda em
fase de estabelecimento, para evitar ameaças em sua forma de promover e fazer política e
vincular sua imagem aos preceitos da “ordem e progresso”.

Todavia, a análise destes deslocamentos do Presidente não pode ser feita por uma via
reducionista, que se restringe à mera estratégia de autoridade política, com objetivos
puramente oficiais. O cerne das visitas visava a legitimação da autoridade do governo
militar, com um grau de intencionalidade específico em torno do desenvolvimentismo
econômico e da entronização, em território brasileiro, do reconhecimento e aproximação
entre as autoridades e a população.

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A Campanha Operário Padrão: uma iniciativa para a conformação dos trabalhadores


durante a ditadura militar

Daniela de CAMPOS
Doutora em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e docente
no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul
dcampos7@hotmail.com

A presente comunicação aborda a construção do operário padrão, por meio de um


concurso nacional, assim denominado, a partir da concepção dos empresários industriais.
Para tal, entende-se, que a Campanha Operário Padrão foi um instrumento que visava
disciplinar os trabalhadores, não somente aqueles que participaram do concurso, mas
especialmente os demais, por meio do exemplo imposto pelo operário modelo. Assim, as
regras criadas pelos patrocinadores da campanha tendiam a escolher e, de certa forma,
“fabricar” um modelo a ser seguido pelos outros, e, por conseguinte, disciplinar a mão de
obra. Este trabalho é resultado de pesquisa realizada para tese de doutoramento em
História, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em História da PUCRS, sob orientação
da Profa. Dra. Claudia Musa Fay.
A Campanha Operário Padrão, inicialmente uma iniciativa exclusiva do jornal O
Globo, iniciou ainda na década de 1950, circunscrita ao estado do Rio de Janeiro. Na
década seguinte, já sob a ditadura militar, o Serviço Social da Indústria – SESI aliou-se ao
jornal para tornar o concurso nacional. Segundo Bárbara Weinstein, após 1964, o SESI
pouco inovou em programas e ações voltadas ao trabalhador; sua inserção no concurso
para premiar um operário modelo foi uma das poucas inovações implantadas após o golpe
civil-militar, uma vez que o contexto político favorecia esse tipo de investida. Para a entidade
empresarial essa Campanha se configurava num “veículo conveniente para um discurso que
enfatizava o esforço individual e a cooperação com o patrão como a chave da ascensão
social para os operários” (WEINSTEIN, 2000: p. 351.).
O concurso envolvia várias etapas até se chegar ao vencedor final, na fase nacional.
Primeiramente eram eleitos os operários nas fábricas. As empresas aderiam
espontaneamente à campanha e, percebe-se, pelos documentos analisados na pesquisa,
maior envolvimento de empresas de grande porte. Escolhidos os operários das fábricas,
esses participavam da escolha estadual. Todos os operários padrão estaduais concorriam
na fase nacional. Os candidatos se dirigiam ao Rio de Janeiro, onde era feita a seleção, e de
lá para Brasília, a fim de serem recepcionados pelo Presidente da República.
Para tornar-se operário padrão, ou melhor, para obter o título, uma vez que aqueles
que se inscreviam no concurso muito provavelmente detinham características de

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trabalhadores exemplares, o candidato de antemão deveria obedecer a alguns critérios


(assiduidade, maior tempo de empresa, cursos realizados e outros de cunho moral).
No tocante às empresas, deveriam ser contribuintes do SESI. O operário deveria
estar ligado às atividades produtivas da fábrica, podendo exercer funções de mestre ou
chefe de seção, mas não podia desempenhar atividade administrativa.
Foi possível perceber, ao longo da pesquisa, que o concurso era, acima de tudo, a
exaltação do trabalho, do labor constante e dedicado e isso numa sociedade que necessitou
“reabilitar o valor do trabalho”, especialmente nos anos 30 do século passado. Mas também
era, a partir desse objetivo principal, um modo de adequar a força de trabalho, de discipliná-
la.
A compreensão do disciplinamento da mão de obra, por meio do discurso do bom
operário encarnado pelo OP, não pode se descolar do contexto político vivido pelo Brasil a
partir da segunda metade dos anos 1960, com a implantação de uma ditadura. Como já
enunciado, a COP foi uma das iniciativas voltadas aos trabalhadores mais significativas do
empresariado nacional nesse contexto político.

A campanha Operário Padrão como prática disciplinadora


A COP foi uma ação da classe empresarial, através do SESI, ainda que tenha sido
idealizada pelo O Globo e que tenha contado com sua colaboração durante toda sua
vigência. Com ela se queria demonstrar o perfil do trabalhador ideal e procurava-se, por
meio de uma ação nacional, estender um padrão para todos os trabalhadores vinculados às
empresas que contribuíam com o SESI e, dessa forma, disciplinar a mão de obra. Esse
disciplinamento, parece-nos, nesse contexto, que adquiriu um caráter sutil, pois não era uma
conformação forçada, mas, sim, uma prática que tinha o objetivo de premiar o melhor, o
mais dedicado, aquele que demonstrou, por anos, estar atento à lógica da produção e que
conseguiu relativo sucesso material por meio de seu trabalho, sem, para isso, precisar
entrar em conflito com o empresariado. A COP foi uma importante ação que encontrou um
contexto ideal: um regime ditatorial.

Parece, a partir da análise dos documentos, que o trabalhador que participava do


concurso o fazia, inicialmente, porque a empresa o escolhia, sendo que alguns
desconheciam a campanha antes disso, o que revela que o concurso tinha mais valor para a
empresa, a qual também se beneficiava de ter um operário exemplar, do que para os
próprios trabalhadores. Após participar e, eventualmente, ser escolhido OP, o discurso
sobre o evento se transformava, visto como algo muito positivo para todos os trabalhadores
e inclusive de importância à indústria no progresso nacional (SESI-DN, Opinião de operários
padrão, 1979).

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Nos objetivos da Campanha, dizia-se que, para a empresa, era importante a


participação, pois “é um elo a mais de ligação entre os patrões e operários”, também
porque, “ao exaltar o trabalhador, a campanha valoriza a empresa que ele pertence e que
lhe dá os meios necessários para desenvolver o seu trabalho” (SESI-DN, informações gerais
sobre a Campanha Operário Padrão, 1979).

A principal virtude que o operário deveria demonstrar era sua dedicação ao trabalho.
Para comprová-la, seu depoimento ou documentos funcionais não eram suficientes.
Segundo regulamento do concurso, isso deveria ser atestado pela chefia imediata. Logo, se
não houvesse a concordância dos seus superiores hierárquicos, o trabalhador não
participaria do concurso.

A interpretação desse item era norteada pela comprovação do “esforço e boa


vontade do empregado em bem desempenhar suas funções”. Os avaliadores também
deveriam considerar situações excepcionais em que se atestaria a diligência em relação ao
trabalho como, por exemplo, “um princípio de incêndio em que o empregado tenha ajudado
a apagar, trabalho em horário extra durante prolongado período de tempo para resolver uma
emergência qualquer que atingiu a empresa, etc.” (SESI RS. Interpretação dos Requisitos
Exigidos dos Candidatos, 1974).. Ademais, ser devotado ao trabalho significava ter recebido
promoções, nunca ter sido repreendido ou punido, ser alvo de elogios, e, fundamentalmente,
ter “comportamento disciplinar”. Nesse caso, importavam mais os aspectos
comportamentais que a capacidade técnica.

O discurso sobre os objetivos da campanha estava relacionado à promoção do bem-


estar do trabalhador, tal como se percebe nos documentos analisados. Dessa forma, “a
Campanha Operário-Padrão tem[tinha] como objetivo maior valorizar o trabalhador e a
própria Empresa, aproximando o SESI aos meios empresarial, sindical, autoridades e
Entidades, visando ao bem-estar do trabalhador" (SESI-DN. Objetivos da Campanha
Operário Padrão, 1975).

Para além do que estava aparente, havia um discurso subjacente que desejava
promover a adequação do conjunto do operariado segundo padrões estabelecidos pelo
empresariado nacional: vida exemplar, apego às relações familiares (família de tipo
patriarcal), práticas religiosas cristãs, preferencialmente católicas e valorização do progresso
material obtido através do trabalho. A disciplina inerente ao concurso deveria, conforme
Gaudemar, “construir y dar continuidad a un determinado orden productivo, a un sistema de
autoridad, dominio y jerarquia aplicado a la producción” (MENDOZA, 1991: p. 19).

A coordenadora nacional da Campanha, Sra. Áurea Fialho, afirmava que o objetivo


do SESI, ao dirigir o evento, era “estimular os bons operários que pudessem servir de

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exemplo aos demais trabalhadores, pelo preenchimento de condições sócias e profissionais.


Premiar o aumento da produtividade, méritos e conduta exemplar. Consagrar o trabalho
anônimo dos que constroem a base do desenvolvimento do país” (FIALHO, 2009).
Certamente esse era um discurso disciplinador, mesmo porque a própria palavra “disciplina”
constava no regramento e demais documentos do concurso. Partindo dos conceitos
elaborados por Foucault, a disciplinarização, neste caso, deveria ocorrer identificando e
premiando o “bom exemplo”, e não punindo aqueles que não se enquadravam nos preceitos
estabelecidos.

Assim, também é preciso pensar de que forma a noção de tempo, fabril, maquínico,
disciplinado, relacionava-se com os objetivos da Campanha Operário Padrão. À primeira
vista, estabelece-se uma relação na valorização dos itens “assiduidade” e “pontualidade”
para o trabalhador participante. Como, num primeiro momento, a indicação do OP nas
empresas era realizada pelas chefias, a escolha do trabalhador estaria adequada a essas
normas.

O discurso da Campanha não era eliminar os “maus”, mas sim fazer com que, a
partir de um dado exemplo, também se conformassem a realidade que se pretendia.
Segundo Foucault, “a divisão segundo as classificações ou os graus tem um duplo papel:
marcar os desvios, hierarquizar as qualidades, as competências e as aptidões; mas também
castigar e recompensar. [...] A disciplina recompensa unicamente pelo jogo das promoções
que permitem hierarquias e lugares; pune rebaixando e degradando” (FOUCAULT, 1987: p.
151).

Seguir uma religião era um princípio do concurso. Preferencialmente, o trabalhador


deveria ser ativo na comunidade religiosa e isso era sobremaneira valorizado, como se
depreende da leitura dos currículos. A “vida comunitária” era entendida, basicamente, pelas
atividades de cunho religioso ou vinculadas a uma instituição religiosa, o que pode ser
verificado em documento que instruía sobre os requisitos exigidos pelo concurso, posto que
“o fato de o empregado fazer ou haver feito parte da diretoria de tais entidades [religiosas]
valorizará ainda mais sua atuação” (SESI RS. Interpretação dos requisitos exigidos dos
candidatos. Porto Alegre, 1974) . Até mesmo quando se pensou em revisar as diretrizes da
Campanha, não se discutiu sobre a exclusão ou relativização desse quesito. O
pertencimento a um grupo religioso, preferencialmente católico, tinha um caráter
moralizador, era um comprovante seguro que aquele trabalhador defendia ou era adepto de
valores morais condizentes com aqueles propalados pelo SESI. Ademais, a Igreja é um
importante instrumento de controle social, especialmente quando se pensa em seus setores
mais conservadores. Ser um fiel seguidor das concepções religiosas, durante os anos 60 e

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70 do século passado, também, podia significar indiferença ou aversão ao discurso


comunista, tão combatido nessa época.

A dedicação incondicional à família também era um requisito de grande valor para se


tornar um OP. Uma família geralmente numerosa, como era o caso desses trabalhadores,
constituía mais uma garantia moral. Determinada disciplina fabril toma de empréstimo
elementos familiares, especialmente relacionados à figura do pai. Na sua unidade familiar, o
operário padrão é o chefe, aquele que provê as condições materiais de existência da família.
Na empresa, “el patrón es esa figura social que administra, ‘como buen padre de familia’, un
patrimonio particular constituído por la fabrica pero también por todo aquello que hace
posible da vida de esa ‘familia’ al margen del trabajo” (GAUDEMAR, 1991: p. 76). Não se
prescindia da hierarquia que deveria existir na fábrica e nas relações sociais, defendida pelo
concurso e desvelada de uma forma humanizada.

Para o SESI, a participação do operário no concurso poderia lhe oportunizar algo


único na vida: “ser um trabalhador modelo, um padrão”. Para a entidade social, significava,
ao menos no discurso oficial, ir “ao encontro de seu grande objetivo: a paz social no Brasil”
(SESI – DN. Campanha Operário Padrão, 1982).

A atuação do SESI, além de promover a valorização da atuação do


trabalhador e de contribuir para seu bem-estar social (e de seus
dependentes), o que é óbvio e incontestado, também resulta em especiais
vantagens para as empresas empregadoras, embora de forma indireta, mas
nem por isso menos real e palpável (SESI – DN. Campanha Operário
Padrão, 1982).

Pode-se pensar que a Campanha Operário Padrão, sob a ótica dos mecanismos de
disciplinamento, atuava pedagogicamente sobre os trabalhadores, ao ensiná-los como agir,
dentro e fora da fábrica, a fim de alcançar sucesso, material e social. Assim, a partir do que
foi referido sobre a disciplina, ou poder disciplinar, segundo Foucault, é possível entender os
objetivos dos mecanismos que agem nesse sentido: extrair do corpo o máximo de suas
forças, produzindo ações e comportamentos de ajustamento, submetendo e sujeitando os
corpos, mas também indivíduos capazes e com aptidões determinadas (ARAÚJO, 2012: p.
31). De outra parte, também se compreende que o operário padrão representava um modelo
que atingiu relativa estabilidade material, mesmo porque não se tratava de um simples
operário, mas sim de trabalhadores que desempenhavam algum cargo de chefia. A
perspectiva de melhoria de vida ou padrão social podia ser o maior atrativo para os demais
trabalhadores. A mensagem revelada pelo concurso era a de que, se o trabalhador seguisse

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os preceitos morais e, principalmente, trabalhasse com dedicação e disciplina, poderia


melhorar seu nível de vida.

A COP e o contexto político


Se o concurso que premiava o trabalhador ideal iniciou em meados da década de
1950, foi a partir decênio seguinte e, mais ainda, nos anos de 1970 que teve um
funcionamento pleno e que abrangeu todo o território nacional. Weinstein (1995) indica, em
seu estudo sobre o SESI, que o contexto dos anos de 1960 e 70 tornou favorável o sucesso
da iniciativa. A paz social que se buscava pela integração e harmonia entre as classes
possuía mais sentido num governo ditatorial.

A participação do Estado na Campanha1 se estabelecia pelo envolvimento do


Ministério do Trabalho na fase de julgamento, tanto estadual (através das secretarias)
quanto nacional, pela presença do próprio Ministro. Esse órgão também outorgava uma
medalha (mérito ao trabalho) aos operários vencedores.

O presidente da República recebia os operários ao final de cada edição do concurso


e, com isso, reforçava a ideia de prestígio que se destinava ao exemplo do operariado
nacional, bem como reverenciava aquele trabalhador que estava alinhado à perspectiva de
harmonia entre as classes. Nessa cerimônia, também, estava presente o Ministro do
Trabalho. Segundo o ministro do trabalho, Arnaldo Prieto2, a campanha vinha “ao encontro
dos altos objetivos do governo do Presidente Ernesto Geisel que tem, no homem brasileiro,
a preocupação maior de todo o planejamento nacional” e acrescentava que a iniciativa
deveria servir de “estímulo e inspiração aos trabalhadores brasileiros”, pois, dessa forma,
estariam “consolidando a paz social que desfrutamos em nosso país” (O Globo, 4 de
setembro de 1975. Carta enviada pelo Ministro do Trabalho a Roberto Marinho.).

O presidente militar Emílio Médici participou da entrega do prêmio ao OP nacional


em 19733. Em seu discurso, conclamou a importância da iniciativa do SESI e do jornal O

1
Em 1976, o estado de São Paulo, por meio de decreto, estabeleceu apoio institucional e monetário
ao concurso. Em 1984 publicou novo decreto atualizando o valor do prêmio pago ao OP estadual.
ESTADO DE SÃO PAULO. Decreto 8.660, de 27 de setembro de 1976. Prevê o apoio da
Administração Estadual à “Campanha Operário Padrão” e institui prêmio referente ao certame. No
Rio Grande do Sul, a prefeitura municipal de São Leopoldo, cidade com maior número de operários
eleitos no concurso no estado outorgou títulos de cidadãos leopoldenses a dois operários padrão
daquele município. Como na época pesquisada a sede do Departamento Nacional do SESI se
localizava no Rio de Janeiro, fazia parte da programação do concurso em sua fase final a visita ao
governador daquele estado. O OP RS do ano de 1984, Sr. Antonio Luiz Rodrigues da Silva relatou
em entrevista concedida para esta pesquisa que “apertar a mão do governador Brizola foi a maior
emoção” de sua vida.
2
Arnaldo da Costa Prieto foi Ministro do Trabalho de maio de 1974 a março de 1979.
3
Além do presidente da República estavam presentes na solenidade o Ministro do Trabalho, o Chefe
do Gabinete Civil, Chefe do Gabinete Militar e o Chefe do SNI, o que pode denotar a importância que
o governo atribuía ao concurso. O GLOBO, novembro de 1973.

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Globo e ressaltou a existência da integração entre empregados e empregadores, discurso


que estava alinhado aos ideais dos empresários.

Sinto satisfação e orgulho e dou tanto valor a essa promoção que no ano
passado incluí o Operário Padrão na delegação brasileira que nos
representou na Conferência Internacional do Trabalho, em Genebra. Foi
uma representação brilhante com os melhores homens do trabalho do
Brasil, acrescida ainda do Operário Padrão, mostrando a perfeita integração
que existe hoje em nosso País entre empregados e empregadores. E é
exatamente essa perfeita integração que tem permitido que o Brasil cresça
nas proporções em que está crescendo (O Globo, novembro de 1973, grifo
nosso).

A integração entre as classes desejada pelo governo e pelos empresários era


perseguida exaltando o tipo de trabalhador aclamado pelo concurso, mas também
sufocando possíveis movimentos sindicais, minimizando a participação social dos operários.
Além disso, apesar do crescimento apresentado pelo “milagre econômico”, pouco desse
crescimento chegou de fato aos trabalhadores nacionais, pois conforme Matos esse foi um
período de “arrocho salarial e [de] superexploração da força de trabalho que, garantidos pelo
controle do governo sobre os sindicatos, elevavam em muito a lucratividade do capital”
(MATO, 2009: p. 109). Portanto, apesar do discurso de valorização do trabalhador nacional,
como o produtor de riqueza, não havia uma política econômica de fato voltada para a
melhoria de vida dessas pessoas.

A indústria nacional foi beneficiada pelas políticas econômicas da ditadura,


especialmente no período do “milagre”, mesmo que à custa de endividamento externo. No
âmbito do concurso, também se procurou exaltar o papel da indústria nacional. Em algumas
edições do concurso, particularmente nos anos de 1970, o candidato deveria responder, em
seu currículo qual, ao “papel da indústria no progresso nacional”, mesmo que não tenham
sido localizadas, nos currículos examinados, respostas a esse questionamento.

No início da década de 1980, ainda sob os auspícios de uma ditadura, presenciava-


se uma abertura política controlada pelo governo, desde o final da outra década, e o
ressurgimento do movimento sindical. Ainda assim, o Estado nacional continuou
participando e exaltando o concurso. Em 1981, o presidente João Figueiredo, ao receber os
OPs vencedores daquele ano, associou a seleção daqueles operários operada pelo SESI a
uma prática do exército4.

4
Gaudemar e, especialmente, Foucault indicaram a apropriação de modelos da disciplina militar para
eficácia da disciplina fabril, no início da “era da disciplina”.

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[...]devo ressaltar que a cerimônia de hoje se destaca porque me lembra,


muitas vezes, aquelas em que tomei parte no Exército, em que também era
obrigado a destacar, entre os meus soldados, aquele que por suas virtudes
morais e pela sua dedicação ao serviço e a instrução tinha servido de
exemplo para os seus companheiros (O Globo, 24 de novembro de 1981).

Os organizadores do concurso estavam atentos às transformações sociais que


vinham ocorrendo na política nacional, especialmente no que tangia à maior abertura, aos
movimentos sociais voltando à vida nacional e, em particular, ao movimento operário que
renascia com as greves do Grande ABC paulista. Isso parecia preocupar um pouco os
patrocinadores, porque o operário que se desejava não era aquele reivindicativo, então, era
necessário reafirmar os objetivos do concurso, por conseguinte, enfatizar valores como a
paz social, a manutenção da hierarquia, a disciplina e a participação operária ordeira.

Eu sei perfeitamente que agora nós tivemos, já nessa fase de “abertura”,


esses movimentos operários sindicais. Aí são reivindicações, digamos
materiais e imediatas, enquanto em nosso campo praticamente é de outro
tipo; quer dizer, o Operário-Padrão seria muito bem-vindo se ele estivesse
participando de algum conselho municipal em âmbito menos de
contribuição, com ideias à frente de todos, nos problemas do sindicato
(SESI-DN, Filosofia...).

Assim, ao mencionar o movimento reivindicativo protagonizado pelas entidades


sindicais, procurava desqualificá-las afirmando que estas possuíam um caráter apenas
material e imediatista. Ao passo que promovia a exaltação dos propósitos da Campanha,
que visavam a um bem maior.

[...] trata-se da exaltação do trabalho pelo trabalho, da glorificação do


trabalho, em que não há nenhuma vantagem imediata para o trabalhador
[...] a maior gratificação é o reconhecimento das virtudes do trabalhador e a
gratificação de representar o trabalhador [...] Nós estamos agora, depois de
quinze anos de Revolução, estamos empenhados num esforço muito
grande que se convencionou chamar de “abertura”. Este esforço,
evidentemente, é no sentido de procurar, para a nação brasileira, um
estatuto jurídico, ou um regime, um sistema, ou uma vida jurídica que
propicie o máximo de realização individual, e nisso se considera a pessoa
humana, dentro da ordem e da disciplina. Evidentemente, tivemos um
período de restrições e agora caminhamos para a chamada manifestação
(SESI-DN, Filosofia...).

Em 1985, a propaganda destinada à divulgação da Campanha, transmitida pela


Rede Globo e também veiculada em seu jornal, mencionava a necessidade de eleições
diretas para a escolha do OP. Como vimos na pesquisa, o OP de cada fábrica era indicado

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por setores hierárquicos mais altos da empresa e, depois disso, poderia haver eleição entre
os trabalhadores ou se aclamava o indicado pelas chefias. Com o advento de manifestações
sociais pela aprovação da Emenda Constitucional Dante de Oliveira, concentrada na
Campanha Diretas Já!, em 1983, tornava-se difícil para os meios de comunicação ou outras
instituições a continuidade do apoio antes dado ao regime ditatorial5. A COP mais uma vez
acabou por incorporar o que ocorria na sociedade como tentativa de se modernizar.

Ao findar o período da ditadura, o concurso não teve duração mais prolongada, pois
se questionava a validade desse tipo de iniciativa, inclusive no próprio âmbito empresarial.

Referências

ARAÚJO, Inês Lacerda. Vigiar e punir ou educar? Biblioteca do Professor: Foucault, São
Paulo, n. 3, p. 26-35, 2012.

COLBARI, Antonia L. Ética do Trabalho. A vida familiar na construção da identidade


profissional. 2. ed. São Paulo: Letras & Letras/FCAA/UFES, 1995.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. 21. ed. Petrópolis: Vozes, 1987.

______. Microfísica do Poder. 25. ed. Rio de Janeiro: Graal, 2012.

GAUDEMAR, Jean-Paul. El orden y la producción. Nacimiento y formas de la disciplina de


fábrica. Madrid: Trotta, 1991.

MATOS, Marcelo Badaró. Trabalhadores e sindicatos no Brasil. São Paulo: Expressão


Popular, 2009.

MENDOZA, Carlos Alberto Castillo. Estudio introductorio. In: GAUDEMAR, Jean-Paul. El


orden y la producción. Nacimiento y formas de la disciplina de fábrica. Madrid: Trotta, 1991.

WEINSTEIN, Barbara. The model worker of the paulista industrialists: The “Operário Padrão”
Campaign. Radical History Review, Durham, NC, p. 92-123, Winter 1995.

______. (RE)Formação da Classe Trabalhadora no Brasil (1920-1964). São Paulo:


Cortez/CDAPH-IPHAN/Universidade São Francisco, 2000.

5
A própria Organizações Globo, em sua página institucional, menciona a necessidade que teve no
período de se adequar à nova realidade brasileira, ainda que, de acordo com o explicitado na página
“a pressão dos militares sobre a Rede Globo atingiu o seu ápice”, tomando “a forma de intimidação
pessoal”. Antes apoiadora e alvo de benefícios do regime, em seguida, adapta seu discurso por ser
repreensível a continuidade do apoio. MEMÓRIA GLOBO. Diretas Já. Disponível em:
<http://memoriaglobo.globo.com/erros/diretas-ja.htm>. Acesso em: 20 dez. 2013.

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Com-paixão: um estudo sobre a resistência feminina em Belo Horizonte na Ação


Popular entre 1964 e 1972

Débora Raiza Carolina Rocha SILVA


Pós-graduanda em História, historiografia e Culturas Políticas pela UFMG
raiza.rocha@hotmail.com

Percebe-se que, passados 50 anos do golpe civil-militar sucedido no Brasil em 1964,


pouco se viu sobre a participação das mulheres na luta contra o regime ditatorial, dando
lugar ao um intenso silenciamento das vozes femininas nesse período. Assim, acredita-se
que investigar a presença feminina nesse contexto político seja de extrema relevância, pois
insere a mulher como sujeito ativo e também protagonista da história de luta contra o
autoritarismo no país.

Diante disso, o presente estudo buscou compreender o processo de inserção e a


atuação das mulheres que militaram na organização de esquerda denominada Ação Popular
(AP) em Belo Horizonte, entre os anos de 1964 – ano do Golpe Militar – e 1972, ano de
desmantelamento da organização na capital mineira. Para este entendimento, utilizou-se
como fonte de pesquisa, entrevistas realizadas com três militantes da organização, a saber:
Gilse Maria Westin Cosenza, Delsy Gonçalves de Paula e Magda Maria Bello de Almeida
Neves e os documentos produzidos pela Polícia Política de Minas Gerais, o DOPS/MG.

Nas pesquisas feitas até o momento, não foram encontrados trabalhos que
tratassem da luta feminina especificamente em Minas Gerais, tampouco em Belo Horizonte.
A partir dessa averiguação, iniciou-se uma busca por fontes documentais – arquivos do
DOPS e entrevistas – que indicaram que a quantidade de mulheres na luta contra a ditadura
na capital mineira foi abundante, principalmente, na Ação Popular. Notou-se ainda, que
escolher a AP como meio de luta foi o resultado de múltiplas circunstâncias, vivências e
sentimentos, entre eles a paixão e a compaixão.

Ação Popular e a presença feminina

Os anos iniciais da década de 60 foram marcados pela efervescência das lutas


populares promovidas por sindicalistas, operários, marxistas, camponeses, profissionais
liberais e estudantes; que lutavam por reformas trabalhistas, por terra, pela reorganização
da educação, emancipação da economia, controle da inflação, melhoramento dos espaços
urbanos, mudanças nos sistemas judiciário, tributário e bancário. Dentre essas
reivindicações, eram solicitados ainda, que o PCB saísse da clandestinidade e que o voto
fosse permitido a toda população, inclusive aos analfabetos e oficiais subalternos das forças
armadas.

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Nesse ínterim desenvolvia-se a Ação Popular, que teve em sua base a ideologia
cristã humanitária. O histórico de formação da organização foi permeado por diversas
transformações e alterações de pensamento, estando intimamente ligado a três processos
de mudanças em diferentes instituições: Igreja Católica, Movimento Estudantil e Esquerda,
neste caso, o Partido Comunista (PC).

Conforme Lima e Arantes (1984, p.19-20) a AP formou-se em 1962, principalmente


no âmbito estudantil, por meio de integrantes da Juventude Universitária Católica (JUC), um
dos componentes da Ação Católica, que por sua vez, constituía-se em um grupo de leigos
da hierarquia da Igreja. Nesse momento a JUC aparecia cada vez mais como força política
organizada no ME, acompanhando mais ativamente os movimentos de massa, lutando
contra a tentativa de golpe das forças militares na tomada de posse de João Goulart,
mobilizando-se expressivamente em favor das reformas de base e posicionando-se contra o
capital estrangeiro.

Em Minas Gerais, a JUC se fortalecia nos Diretórios Acadêmicos (DA), Diretórios


Centrais de Estudantes (DCE), e por consequência, na União Nacional dos Estudantes
(UNE). Minas Gerais teve um dos grupos mais influentes organizados da JUC, composto
principalmente por alunos da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal
de Minas Gerais (Lima e Arantes, 1984, p. 28). Alguns documentos produzidos pela UNE
neste período, refletem a influência do pensamento jucista, que baseado nas ideias de
Mounier, buscava um “novo” socialismo, “mais humanitário”; como é o caso da Declaração
da Bahia, de 1961, e da Carta do Paraná, de 1962 (Arantes e Lima, 1984, p. 20-30; Ridenti,
2007, p. 237).

Para compreender porque os ideais da JUC conseguiram ser difundidos com tanta
amplitude na UNE, é necessário entender que o Partido Comunista Brasileiro (PCB), desde
1958, passava por reformulações políticas, consideradas reacionárias pelos mais radicais. O
pensamento dos estudantes não ia ao encontro do pensamento do PCB, que buscava o
reformismo e o distanciamento da radicalização. Este posicionamento fez com que o
“Partidão” perdesse expressividade, dando espaço para o amplo crescimento da JUC, e por
consequência, criando condições para a formação da AP. A organização crescia, entretanto,
cresciam também as contradições internas, e com a Igreja, que questionava a extrema
aproximação dos jucistas com ideais marxistas. Tais divergências culminaram no
surgimento da Ação Popular, conduzida pela ala mais esquerdista da JUC, que buscava
criar uma organização independente. Assim, os limites impostos pela Igreja Católica, a
expressividade do pensamento marxista humanista no Movimento Estudantil e a

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necessidade de se criar uma “Nova Esquerda”, propiciaram o surgimento da Ação Popular,


como alternativa política (Ciambarella, 2007, p. 105).

Principalmente entre os anos de 1962 e 1964, a história do Brasil foi marcada pela
busca por transformações estruturais, gerando uma grande efervescência dos movimentos
de massa, com caráter nacional-reformista, que reivindicavam a Reforma Agrária, melhores
condições de trabalho e aumento de salário, ampliação de vagas nas escolas e
universidades, principalmente através de sucessivas greves de trabalhadores rurais e
urbanos e de estudantes. Este era também o posicionamento de diversas mulheres
brasileiras e Gilse, Delsy e Magda partilhavam dessa ideia, pois nesse período, ambas já
realizavam trabalhos voltados para a justiça social, tanto nas favelas, quanto em fábricas e
escolas.

Observa-se que, as mulheres aqui estudadas, iniciaram sua militância antes do golpe
e atuavam principalmente na Juventude Estudantil Católica e na Juventude Universitária
Católica, em manifestações nas ruas, na conscientização trabalhista e política nas fábricas,
alfabetizando as favelas, e buscando reformas no âmbito cultural e educacional. Segundo
Gilse, é nesse período que inicia sua luta na JEC, em Belo Horizonte, cidade que a essa
época possuía somente três escolas de ensino secundário gratuito, o Instituto de Educação,
o Colégio de Aplicação e a Escola Estadual Central. Segundo Gilse: “Era o período de
Jango, um período onde estava efervescente a mobilização no Brasil. E os estudantes, a
UNE e a UBES, também puxavam uma luta pela reforma da educação, pelo direito a
educação”1.

Nota-se então, que no período pré-golpe de 64, as militâncias de esquerda tinham


como ponto central de seus discursos a luta em favor das Reformas de Base, e após o
golpe civil militar tomaram a resistência ao novo regime instaurado como foco principal.
Neste ínterim, a participação feminina também começou a trilhar um novo caminho,
inserindo-se na resistência ao militarismo, e também na luta pela liberdade e pela
emancipação da mulher.

A Ação Popular, assim como outras organizações de esquerda, participou


ativamente pelas Reformas de Base, e na luta contra a ditadura, mas, como diferencial,
contou com uma ampla presença de mulheres em seu interior. O sociólogo Marcelo Siqueira
Ridenti (1990) fez um levantamento, a partir da documentação do BNM (Brasil Nunca Mais),
identificando quantas mulheres foram processadas por terem ligação com movimentos

1
COSENZA. Entrevista concedida à autora em 29/08/2013.

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armados de esquerda, e apresenta através de dados estatísticos o percentual de militantes


presentes em cada organização. A partir do exposto por Ridenti, verificou-se que a AP foi
um dos organismos com maior número de mulheres processadas, 127, em âmbito nacional,
representando 27,0% do total de processados. Levando em conta o histórico da condição
feminina ao longo dos anos e a conjuntura do Brasil neste momento, nota-se que este é um
número considerável, e até extenso, para a época.

Nas fontes documentais do DOPS-MG, observa-se que participação feminina em


Belo Horizonte na AP, foi numerosamente significativa. Como exemplo, tem-se a pasta
0044, rolo 004, com uma relação de integrantes da AP, na qual se encontram relacionados
765 nomes, sendo que 230 são nomes de mulheres, representando 30,2% do total.

Verificou-se que tais escolhas se deram por caminhos diferentes, misturando acaso,
entusiasmo, amor, amizade, influências, ideologia política e religião. No caso de Gilse
Cosenza, um dos caminhos que a levou a optar pela AP, partiu de questões ideológicas e
da necessidade de atuação menos passiva e mais ativa. Gilse foi uma das primeiras
mulheres a dirigir um DCE na Universidade Católica de Minas Gerais (UCMG), hoje PUC-
Minas. Inicialmente atuava na Ação Católica (AC), especificamente na Juventude Estudantil
Católica (JEC), e depois na Juventude Universitária Católica (JUC). Posteriormente, no dia
primeiro de abril de 1964, dia do Golpe, fez sua escolha pela AP. Ela afirma que nesse
mesmo dia saiu da faculdade em direção a Praça Sete, no centro da capital, na intenção de
encontrar alguém que a orientasse sobre como agir a partir desse momento. Entretanto,
chegando ao local, encontrou apenas militares armados e estudantes perdidos. Em sua
narrativa diz:

[…] nesse dia eu cheguei a conclusão de que não bastava eu estar na Ação
Católica. Eu sabia que existia a Ação Popular, mas nunca tinha me
interessado em entrar para a Ação Popular. A Ação Católica, a JEC e a
JUC, estavam me bastando. Mas nesse dia eu falei: não, agora a história é
outra. Eu preciso estar organizada, em uma organização independente de
religião, que possa ajudar todos aqueles... e lutar contra a ditadura. Então
nesse dia eu procurei a Helena Paixão e falei: eu quero entrar hoje na Ação
Popular. (COSENZA. Entrevista concedida à autora em 29/08/2013)

No caso de Delsy, a luta pelos problemas sociais já fazia parte da sua vida. Após se
formar no ensino secundário, permaneceu na Ação Católica até ingressar na universidade,
em 1966. Durante este período, a mesma participou de passeatas, manifestações,
panfletagens, pichações durante a madrugada, e atuava como professora de jovens e
adultos em uma Escola Estadual, no bairro São Gabriel. Posteriormente, no final de 1966,
foi dar aulas no Colégio Municipal de Contagem, no bairro Eldorado. É neste momento que

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ingressa na AP, fundando, junto a alguns operários e militantes, uma célula da AP. Neste
sentido, nota-se que sua escolha veio pelo afeto, no sentido literal da palavra, aquilo que a
afetava. Segundo Delsy:

Eu estava na JEC. A JEC era Juventude Estudantil Católica, e cobria até o


Segundo Grau. Eu tinha fechado o Segundo Grau. Mas eu ainda estava
ligada com aquelas pessoas da Ação Católica. E aí, assim que eu fiz o
vestibular e que eu passei, eu tinha contato com essas pessoas, com todos
os meus amigos que estavam aqui. Cada um deles foi por um caminho
político. O meu caminho foi um caminho mais afetivo. Eu estava ligada com
a Ação Católica, as pessoas que estavam mais próximas de mim foram
direto para a Ação Popular e eu fui também para lá. Mas eu tinha uma base
política forte, eu queria transformar o mundo, eu queria fazer revolução. Era
um desejo fundo, fundo. E eu ia fazer isso onde? Com quem? Com os meus
amigos, com aquelas pessoas que eu gostava. Então, nesse sentido eu falo
que foi uma decisão afetiva.

[...] Eu tô te contando essa história pra você entender que eu num entrei na
AP primeiro para depois saber o que que eu ia fazer. Cê entendeu? Eu fui
fazendo as coisas que eu achava que devia fazer. Como eu estava com
uma dificuldade econômica muito grande, porque eu tava dando aula, o
Estado ficou oito meses, sem pagar, a minha situação assim de
sobrevivência era uma situação muito complicada. Então ele (um padre
amigo) me ofereceu no final de 66, pra eu poder trabalhar no colégio,
situado na Cidade Industrial, Colégio Municipal de Contagem, e eu comecei
a dar aula lá. E aí, quando eu comecei a dar aula lá, aí então eu encontrei
um pessoal da AP, que eram também meus amigos e nós nos reunimos. Aí
sim, aí eu comecei a me sentir dentro de uma organização. (DELSY.
Entrevista concedida à autora em 26/10/2013)

Magda Maria Bello de Almeida Neves nasceu no Rio de Janeiro e aos sete anos
mudou-se para Juiz de Fora, cidade em que concluiu seus estudos até a graduação.
Sempre estudando em colégios católicos e em contato com as atividades da Ação Católica,
se aproximou inicialmente a JEC em 1962. Influenciada pelos ideais progressistas de
justiça social dos religiosos dominicanos, começou a trabalhar principalmente na
arrecadação de alimentos e roupas para levar para as favelas da cidade. Em 1964
ingressou no curso de Serviço Social da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), e
como era de praxe, ingressou na JUC e assumiu o Diretório Acadêmico do seu curso. A
direção da entidade a aproximou da Ação Popular, que neste momento já estava atuante na
universidade. Mudou-se para Belo Horizonte em 1969, trabalhou como Assistente Social
durante um ano, e ingressou no Mestrado em Ciência Política na Universidade Federal de
Minas Gerais. Na capital mineira se encontrou com algumas amigas juiz-foranas militantes
da AP.

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Compreende-se por meio das falas das militantes e dos documentos, que existia
nelas um desejo profundo de transformação da realidade social brasileira, o que vai atraí-las
para essa organização, no entanto, o que se verifica, é que outros fatores contribuíram para
essa adesão: a religião, a base de formação da AP – Juventudes Católicas -, o curso
universitário, os ofícios e a ideologia apista.

Considerações finais

Quando se estuda sobre a memória do período militar brasileiro, identifica-se em


muitas obras, de forma sutil, uma história sobre a resistência masculina, em que são
citados, em alguns casos, somente a atuação dos homens que resistiram a esse regime.
Quando não há essa evidência, percebe-se uma história “assexuada”, em que não há
diferenciação entre homens e mulheres. Contudo, nota-se que a atuação feminina possui
especificidades que as diferenciam, necessitando que, em certos casos, se faça uma
“história do feminino”, uma “história de mulher”, uma “história de gênero”. É preciso não
generalizar, é preciso diferenciar e especificar as múltiplas visões possíveis. Para se
entender a história da atuação política da mulher, por exemplo, requer que seja observado o
histórico do papel feminino no âmbito público.

Ser mulher militante nos anos de 1960 demandava o rompimento com múltiplos
padrões, com a família, com sua feminilidade, com sua privacidade. Era preciso reivindicar
para os outros o fim da ditadura, e para si mesmo o direito de ser livre, de ser independente,
de ser considerada ser pensante e capaz de “fazer política”.

Os “anos dourados” ditavam que a mulher dessa época deveria simplesmente ser:
bonita! Essa propaganda de um creme facial, presente na Revista Capricho de 1958 mostra
isso:

“A beleza é obrigação. A mulher tem obrigação de ser bonita. Hoje em dia


só em feio quem quer. Essa é a verdade. Os cremes protetores para a pele
se aperfeiçoam dia a dia. Agora já temos o creme de alface “Brilhante” ultra
concentrado que se caracteriza por sua ação rápida para embranquecer,
afinar e refrescar a cútis. Depois de aplicar esse creme, observe como a
sua cútis ganha um ar de naturalidade encantador à vista. Experimente-o. É
um produto do Laboratório Alvim & Freitas.”

As mudanças culturais, econômicas e políticas ocorridas em fins dos anos de 1950 e


início dos anos de 1960, tais como a modernização das máquinas e o processo de
adaptação ao fim da II Guerra Mundial, trouxeram uma maior “domesticidade” da mulher,
que a essa época, deveria se restringir ao espaço privado. As propagandas de

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eletrodomésticos o lugar de donas-de-casa, mães, esposas, mantenedoras da ordem e do


casamento, sem poderes políticos e condicionadas a um comportamento passivo.

Em Minas Gerais, percebe-se, mais acentuadamente, que as ações femininas deste


período deveriam ser direcionadas ao cuidado da família. À mulher mineira do início da
década de 1960 era atribuído o papel de doméstica, responsável por manter a família como
cerne da sociedade, e reclusa ao privado, sem a possibilidade de contestar e ser inserida no
espaço público. Nesse momento, criou-se em Belo Horizonte a Liga da Mulher Democrata –
LIMDE, formada por mulheres belorizontinas, donas-de-casa, mães, avós e filhas, que
começam a se organizar com a finalidade de reforçar o tradicionalismo mineiro e combater o
comunismo. Segundo Janaína Cordeiro, a inquietação com o futuro das famílias e o medo
do comunismo sempre foi a principal preocupação das organizações femininas de direita,
que não pretendiam em nenhum momento assumir o espaço que era direcionado ao
homem2.

Esse medo com a aproximação do comunismo também estava relacionado ao


simbolismo de mudanças que ele poderia trazer, inclusive sobre o posicionamento da
mulher. Segundo Rodrigo Patto Sá Motta:

Outro golpe sério na família tradicional: os comunistas investiram contra a


hierarquia natural, questionando o poder paterno dentro do núcleo familiar e
o papel do homem na sociedade. Pretendiam “libertar a mulher” da sua
secular submissão e de sua tradicional função doméstica, estimulando-a a
igualar-se ao homem. Ao contrário, de manter-se como esteio do lar,
guardiã dos valores da família, a mulher deveria desvencilhar-se das
atividades domésticas e abraçar o trabalho profissional. (2002, p.70)

Embora esse pensamento permeasse o imaginário social nesse período, muitas


mulheres começaram a ingressar na universidade e a “transgredir” os padrões e modelos
“predestinados” a elas.

Durante a investigação, percebeu-se que Belo Horizonte foi campo de agitações que
modificaram o cenário político e cultural brasileiro, sendo berço, juntamente com outros
estados, do surgimento da Ação Popular, organização que militou ativamente contra a
ditadura. Viu-se ainda que a presença de mulheres que romperam com as “regras” de
gênero de sua época e com a ordem política e legal que estava em vigor, foi intensa nessa
organização, contribuindo na luta para o fim do estado ditatorial militar.

2
CORDEIRO, Janaina Martins. Femininas e formidáveis: o público e o privado na militância política da
Campanha da Mulher pela Democracia (CAMDE). Revista Gênero. v.8. p. 175-208, 2009.

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É importante ressaltar que nesse período, embora muitas mulheres já se


interessassem por escritoras feministas, tais como Simone de Beauvoir, Betty Friedan,
Germaine Greer, Heloneida Studart, entre outras, o feminismo e a luta pela “condição
feminina” só se inseriu nas mulheres brasileiras como foco principal, a partir de meados de
1970, principalmente após a Conferência Mundial sobre as Mulheres, feita na Cidade do
México, em 1975. Antes disso, a condição das mulheres foi sendo colocada em segundo
plano, no início dos anos de 1960, lutando antes de tudo pelas Reformas de Base e
posteriormente, com o golpe civil militar, a luta foi outra vez adiada, tendo que ser nesse
momento, contra a ditadura. Desse modo, muitas mulheres agiam em oposição ao aparato
repressor, em detrimento da luta por melhores condições e por igualdade. Gilse aponta que
lutava diariamente em contra o regime militar e pela valorização da mulher:

A luta contra a ditadura, a luta pelo socialismo, etc. e tal, não abarcava, não
pegava como programa a questão da mulher. Não tinha como programa,
vamos dizer. Era uma luta de todos, homens e mulheres, de pessoas, de
povo. Agora, a gente enfrentava, em qualquer, todos os nossos atos do dia-
a-dia, da vida privada, da vida pública, a gente enfrentava o fato de ser
mulher. E nós tínhamos de não só lutar com a família, como nós tínhamos
de lutar com a sociedade, com os valores da sociedade e tínhamos de lutar
entre os próprios companheiros homens, pra que eles nos respeitassem
como tendo tanta capacidade como eles, entende? Nas mínimas coisas.
Então nós fazíamos essa luta assim, junto. Mas pra fazer essa luta assim,
nós sabíamos que nós tínhamos que diante dos companheiros, ser capazes
de tratar, discutir, opinar, saber, e ser capaz de dirigir, é, a luta. Nós
tínhamos que saber muito mais do que eles pra conseguir ser aceita. Então
nós estudávamos MUITO, nós mulheres estudávamos mais do que os
companheiros. Eles não precisavam provar nada, nós precisávamos.

Por fim, considera-se que todo esse engajamento feminino, essa luta, e por
consequência, esse sofrimento, contribuíram para uma infinidade de mudanças. Duas delas
em especial constituíram-se como decisivas, o fim do governo ditatorial, levando em
consideração que suas ações resultaram pelo menos, na desestabilização do regime militar,
e para a emancipação feminina. No período em que agiam, talvez essas mulheres não
tivessem consciência de que suas práticas, suas vivências e seu comportamento,
contribuiriam para a liberdade feminina. Entende-se que suas atuações estabeleceram-se
como um momento de experiência de conquistar um novo lugar para atuar politicamente,
socialmente e culturalmente.

Referências

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O anticomunismo no A Imprensa: Igreja católica contra as Ligas Camponesas


(1962-1964)

Dmitri da Silva Bichara SOBREIRA


Mestrando em História na Universidade Federal da Paraíba (UFPB)
dmitri_bichara@hotmail.com

Este trabalho busca discutir o anticomunismo na Paraíba através do jornal A Imprensa,


de responsabilidade da Cúria Metropolitana de João Pessoa, nos anos de 1962 a 1964. O
anticomunismo no Brasil se configura como o medo de que a ideologia comunista, através
de seus simpatizantes, chegue ao poder no país.
O anticomunismo na década de 1960 é fundamental para entender o golpe civil-militar
dado em 31 de março de 1964. Naquele ano, o então presidente João Goulart dava
margens para que os setores mais conservadores da sociedade acreditassem que estava
em execução um plano de tomada de poder pelos comunistas no país. Durante todo seu
governo, os grupos de esquerda tiveram liberdade para agir, criando organizações (ou
fortalecendo as já existentes) e realizando ações como greves, passeatas e comícios,
gerando uma perturbação na ordem social e política existente.
Em todo Brasil os grupos populares e de esquerda ganhavam notoriedade.
Trabalhadores sindicalizados, estudantes, políticos, membros da Igreja Católica, buscavam
mudanças nas estruturas sociais, políticas e econômicas do Brasil. No nordeste, grupos de
trabalhadores rurais ganhavam força política na luta por melhores condições no trabalho do
campo e por uma distribuição democrática das terras produtivas da região. As Ligas
Camponesas será o foco principal deste trabalho.
O impresso A Imprensa, teve papel fundamental para disseminação do anticomunismo,
visto suas publicações, que mesclavam o dia-a-dia da Igreja Católica com a pauta política
da época, a exemplo das reformas de Goulart e o comunismo ao redor do mundo. Além dos
vários textos em que analisava-se política a partir da doutrina cristã. A partir disso,
podemos enxergar o periódico não apenas como fonte histórica confirmadora, mas levantar
problemáticas a partir dele.

O anticomunismo contra as Ligas Camponesas em favor da paz agrária

Conta-se que o rei Alexandre certa vez prendeu um pirata e perguntou-lhe


com que direito vivia infestando os mares. “Com o mesmo direito,
respondeu o prisioneiro, com que V. M. vive devastando o mundo inteiro.
Mas porque faço isso num pequeno navio, sou chamado salteador; V. M.
porque o faz com armada e exército, é considerado imperador”. O dinasta
limitou-se a rir, sentindo-se desarmado para castigar o pirata, e o deixou em
paz. (BARRETO, A Imprensa, João Pessoa, 10 de junho de 1962, p. 1)

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É com essa analogia que o colunista descreve a situação agrária na Paraíba na década
de 1960. Os piratas seriam os proprietários de terra, “Todo o mundo vive com as vistas
sôbre êsses homens. Tôda a acusação de exploradores para eles.” (BARRETO, A
Imprensa, João Pessoa, 10 de junho de 1962, p. 1). E Alexandre, O Grande, representaria
os camponeses, trabalhadores rurais assalariados, que “Ninguém lhes aponta os males.
Ninguém se apercebe do que vivem praticando. O dinheiro lhes chega às mãos (Deus sabe
como), e não há quem diga que são exploradores.” (BARRETO, A Imprensa, João Pessoa,
10 de junho de 1962, p. 1).
Pode parecer sem nexo ilustrar nessa analogia o poderoso conquistador macedônico
representando os camponeses, que lutavam não só por um pequeno pedaço de terra para a
sobrevivência, mas por igualdade e justiça nas relações de trabalho no campo. Porém é
assim que o discurso anticomunista do jornal vai ser pautado. A força que os camponeses
estavam ganhando dentro do estado deixava os grupos latifundiários paraibanos em alerta,
mostrando-se necessária uma desconstrução da luta dos trabalhadores rurais em benefício
da manutenção da estrutura agrária excludente em que vivia nordeste. Assim, no meio da
luta agraria, colocava-se o grande latifundiário como vítima do camponês. Uma forma de
desvirtuar a interpretação do leitor que passou a ver o camponês como um inimigo que o
governo reformista de Goulart estava criando.
O problema agrário no estado é polarizado pelas Ligas Camponesas e pelos
proprietários de terras, mais especificamente no chamado Grupo da Várzea ou bloco
agroindustrial. Esse último era um grupo formado pelos latifundiários e usineiros da
chamada zona da várzea, ou zona da mata. Suas atividades econômicas estavam ligadas à
exportação de produtos como a cana-de-açúcar e seus derivados, abacaxi e à pecuária
extensiva. A principal zona de influência desse grupo eram os municípios de Sapé, Marí,
Mamanguape, Araçagi, Pilar, São Miguel de Taipu, Santa Rita, Cruz do Espírito Santo e
Caldas Brandão. Um grupo bastante fechado, no qual se utilizava de casamento entre
membros das famílias para manter o sistema de hereditariedade das terras.
Sobre a questão agrária na Paraíba, Cesar Benevides (1985) relata que na década de
1960 ocorreram uma série mudanças na estrutura agrária. Houve o início da mecanização
do trabalho rural e o aumento da quantidade de terras destinadas à prática da pecuária
extensiva. O camponês, que antes trabalhava no latifúndio para poder morar e usufruir de
um pequeno pedaço de terra, era, como relata o autor, substituído pelo trabalhador sazonal.
As relações entre trabalhador e empregado no campo não eram semelhantes às dos
centros urbanos, pois a legislação trabalhista não havia chegado ao âmbito rural. Antes do
surgimento das Ligas Camponesas, as discursões políticas não eram pautadas junto aos
trabalhadores rurais. A falta de conhecimento dos trabalhadores rurais era um fator que
contribuía para o atraso do campo em relação às cidades.

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O Grupo da Várzea, controlava a máquina administrativa do Estado em favor da


manutenção de uma ordem no campo que favorecesse seus interesses. A falta de
organização dos trabalhadores rurais dava margem ao controle dos camponeses pelos
latifundiários fazendo deles dependentes econômicos e controlados políticos. Esta
organização social no campo ficou conhecida como paz agrária. Era uma prática:

[...] garantida pelo jogo entre o Grupo da Várzea e o Estado populista,


fundamentava-se na exploração máxima do campesinato, na medida em
que a oligarquia tradicional mantinha o monopólio do estoque de terras
através do coronelismo, que representava a dominação de uma classe
sobre a outra. (BENEVIDES, 1985, p. 32)

A paz agrária englobava os dois principais partidos na Paraíba, o Partido Social


Democrático (PSD) e a União Democrática Nacional (UDN). As duas agremiações sempre
se entendiam quando era necessário manter a ordem vigente no campo, na chamada
“conciliação conservadora”. Porém, de pacifica, essa organização rural não tinha nada. Todo
o aparato repressivo do Estado era utilizado para assegurar ao latifundiário o controle da
terra e a subordinação do camponês. Indivíduos comprometidos com a manutenção da
ordem pública estavam a serviço dos principais grupos oligárquicos da agroindústria. O
camponês se encontrava em uma situação de completo desamparo social por parte do
governo, que ainda agia contra sua integridade física sempre que era considerado
necessário.
Devido essa situação de marginalidade social do trabalhador rural, grupos de
camponeses se organizaram nas Ligas Camponesas1. A tomada de consciência de classe
pelos trabalhadores rurais trouxe para o debate não só as relações de trabalho no mundo
rural, mas toda uma estrutura agrária elitista.
A luta do camponês tomou grande repercussão no meio urbano. Suas reinvindicações
foram incorporadas por estudantes, jornalistas, membros da igreja, trabalhadores sindicais,
profissionais autônomos (advogados, por exemplo) e seguimentos da classe política
(principalmente os membros do extinto PCB). Não só as lutas camponesas foram
incorporadas pelos seguimentos urbanos, as barbaridades cometidas contra os
camponeses, como os assassinatos, também foram motivos de protestos pelos segmentos
engajados nas lutas agrárias.
Toda essa movimentação surgida a partir das Ligas fez com que o Grupo da Várzea
entrasse em estado de alerta. O governador, que estava politicamente localizado entre os

1
As primeiras Ligas Camponesas foram organizadas pelo Partido Comunista Brasileiro em 1947, mas
foram desativadas devido o partido ter sido colocado na ilegalidade. Mais tarde, no final da
década de 1950, as organizações camponesas voltam em Pernambuco, no Engenho da Galiléia,
tomando grandes proporções por todo o nordeste.

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trabalhadores organizados e os grandes latifundiários (UDN)2, precisou se decidir por um


lado, optando pelos conservadores. Isso resultou numa intensificação do aparato repressivo
contra os camponeses.
Mas a violência sobre o camponês não era só física. Muito se falava a respeito da
situação do campo. A imprensa passou a difundir ideias contra os camponeses,
desqualificando a causa agrária como “agitadora” e “baderneira”. O fato dos camponeses
reivindicarem uma nova organização da estrutura agrária, alicerçados pela proposta de
Reforma Social do presidente João Goulart, levou os conservadores, inclusive à alta cúpula
da Igreja Católica, a acreditarem que as Ligas Camponesas eram um dos meios de
infiltração de ideologia subversiva no Brasil, visando uma Revolução Comunista, ou mesmo
porque elas eram uma forma de derrubar a paz agrária.
A desconstrução da luta do camponês começa pela reforma agrária. Ela não era
condenada por completo pela Igreja Católica. Só a partir do momento em que ela se vincula
à ameaça externa comunista o jornal passa a criticá-la. O periódico demonstra em alguns
pontos ser bastante simpático às causas trabalhistas camponesas, apenas criticando o
modo como eles estão agindo.
A Igreja tinha uma ligação com o problema no campo, apoia e mostra meios para a sua
organização. Ela tem apreço pela reinvindicação do trabalhador rural quanto às melhorias
de salário e das condições de trabalho em geral. O grande problema da questão agrária é
quando os camponeses vão reivindicar mudanças através de modos classificados como
“violentos”. A solução cristã que a Igreja propõe (que ela chama de “reforma agrária”) não
pode dar margem a atitudes como a invasão das terras dos latifundiários, que, segundo
eles, é uma ação de violência e desrespeito à ordem pública, que é inspirada nas ações de
violência que instalaram o comunismo em Cuba (A Imprensa, 18 de fevereiro de 1962, p. 2).

A reforma agrária verdadeira seria aquela que modificasse a mentalidade


retrograda de alguns proprietários. E que lhes desse senso de justiça
fundamentado na caridade cristã. Por aí chegaríamos às metas da reforma
satisfatória para as duas classes. (BARRETO, A Imprensa, 2 de junho de
1963, p. 1)

Ou seja, para os católicos, toda a reivindicação camponesa deve ser feita desde que
não modifique a estrutura agrária vigente, que é excludente, elitista e violenta, mas altere o
comportamento e o pensamento do proprietário. Quando as lutas dos trabalhadores do
campo são pautadas para o fim do latifúndio, elas perdem toda a sua legitimidade. As Ligas

2
De acordo com Cittadino (1998), Pedro Gondim foi eleito com o apoio popular que conquistou com o
movimento “queremista” e com o apoio financeiro e político de sua campanha pelos políticos da
UDN

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Camponesas são contra o latifúndio, portanto, o problema não são os trabalhadores rurais,
sim as Ligas, formadas pelos agentes comunistas infiltrados.
Mas o que neste trabalho classifico como um sistema excludente, elitista e violento, o
jornal entende como ordem. As invasões de propriedades na luta pela democratização da
terra, propostas que são direcionadas ao benefício da sociedade como um todo, são
consideradas apenas agitação e desordem:

Já estamos fardos dessas incursões das ligas camponesas, pelas


propriedades alheias. O ideal que o agitador Julião prega, não é de reforma
pacífica. Nada de reinvindicações de direitos por meios legais, como devem
ser as nossas vitórias democráticas. O que o preocupa, em todos os
momentos, são os expedientes violentos. A confusão de quem espera tirar
algum proveito aos seus planos eleitoreiros. Eis o que é o programa das
ligas camponesas no nosso Estado e nos Estados vizinhos. (BARRETO, A
Imprensa, 14 de janeiro de 1962, p. 1)

Julião, ao qual o autor se refere é Francisco Julião, político pernambucano líder das
Ligas Camponesas. Ele é colocado como o personagem que mais incentiva a desordem das
Ligas Camponesas, pregador a ideologia comunista. Para o jornal, “Quer Deus para si e o
diabo para os outros” (A denúncia... 15 de abril de 1962, p. 8), pois defende a divisão das
terras, mas é dono de uma vasta propriedade rural. O interesse de Julião é fazer da classe
camponesa massa de manobra para suas pretensões comunistas.

Que confiança nos pode merecer a massa numerosa, guiada pela bandeira
de um Julião? Certamente ele não falará nessas comemorações de 1º de
maio. Aqui ou ali estará presente, não para mostrar as possibilidades do
nosso progresso, com o trabalho dos operários; mas para pregar as suas
ideias revolucionárias, de agitador maníaco e desorientado para que os que
dele se querem aproveitar. E para dizer que o caminho da salvação
nacional é o da escravização soviética, sob as leis draconianas, ora em
vigor na infeliz república cubana. (MENDONÇA, A Imprensa, 29 abr 1962, p.
1)

Os expedientes violentos, que o jornal aponta, não são via de mão única. A luta do
camponês através das Ligas é uma forma de resistir à violência empregada pelos grupos
latifundiários. Quanto a essas práticas contra o trabalhador rural eu destaco duas ocorridas
na Paraíba. A primeira ocorreu em 1962, foi o assassinato do líder camponês João Pedro
Teixeira, em uma emboscada da estada de Café do Vento, que liga os municípios de Sapé a
João Pessoa. O ocorrido gerou grande revolta dos setores de esquerda que passaram a
protestar contra o ocorrido. Em resposta aos manifestantes, o jornal publica o seguinte
depoimento:

Infelizmente esqueceram um ponto essencial, em suas acusações. Quando


condenaram fortemente (e o fizeram muito bem), o sacrifício de uma vida,

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pelo fato de discrepância ideológica, deixaram de se recordar os fatos mais


horripilantes, da mesma natureza, praticados recentemente, pelo barbado
de Cuba. Lá o monstro pode matar, porque certamente para esses seus
admiradores e partidários meridionais, predomina a mesma convenção dos
antigos batavos, que infestavam as nossas terras: para lá da linha
equinocial não existe crime!... O paredon de Fidel Castro é apenas o
patíbulo da legalidade, para perder a quantos se tenham recusado a ser
“patriotas”... (Clerofobia... 8 de abril de 1962, p. 1)

O jornal tenta desqualificar o protesto dos grupos populares de esquerda, como


trabalhadores sindicalizados, jornalistas, estudantes, políticos e artistas justificando um
crime com uma situação que ocorrera em outro país. A linha antiviolência seguida pela
imprensa católica perde sua sustentação com uma declaração em que, a morte de João
Pedro Teixeira não é nada perto do que acontece no “paredon” de Fidel Castro.
Junto com o aumento da repressão do Estado aos camponeses, o jornal reforça sua
linha editorial favorável aos grupos latifundiários. Ela procura criar uma afinidade política
dentro da classe trabalhadora do campo com o grupo agroindustrial. Criando uma
separação de ideias entre o camponês comum e as Ligas Camponesas.
J. Barreto conta em uma de suas colunas, sobre um depoimento que escutou de um
agricultor da cidade de Guarabira sobre um latifundiário da cidade.

[...] colhi as mais interessantes revelações, da franqueza bem característica


do nosso matuto. Falou ele sobre o dr. Abdon Miranda, respeitável senhor
rural do município de Guarabira. Um cidadão bom e muito compreensivo,
ante as necessidades do pobre. Suas terras sempre estão prontas para os
que desejam trabalhar. Não há restrições para pessoa alguma. Se mais
tivesse mais serviria. Não explora a necessidade de quem quer que seja.
Cobra o arrendamento de conformidade com a produção do ano. Se o
matuto nada fez, essa situação ingrata é levada em conta – cristãmente –
podemos dizer por aquele cidadão de alma larga e sentimentos profundos
de humanidade. (BARRETO, A Imprensa, 5 de agosto de 1962, p. 1)

É enaltecido o espirito de caridade cristã que deve prevalecer nas relações trabalhistas e
políticas. Aquilo que o “matuto” vê como bondade, uma análise mais afastada daquela
relação entre o trabalhador-patrão, é entendida como exploração.
O discurso católico prega o clima de paz entre os indivíduos no campo. Muitos
problemas precisam ser resolvidos na relação entre trabalhador e empregado no meio rural,
mas sem dar margem aos agentes do comunismo, devendo ser vistos de cima para baixo. A
classe dominante tem de reavaliar suas atitudes e reformular sua relação com a classe
trabalhadora. O clima de agitação que os comunistas provocam não vai levar às verdadeiras
mudanças que o campo precisa. Para o jornal, os comunistas não desejam a reforma
agrária:

O que lhes interessa é a confusão. Que o país continue nessa insatisfação,


com as classes agitadas, vivendo a convicção amarga de interesses

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prejudicados. Porque só há proveito para os planos marxistas com a luta de


classes. Num clima de tranquilidade, o comunismo está morto. Sem
qualquer motivo a que se possa pegar, para os avanços premeditados. (O
que eles... A Imprensa, 16 de junho de 1963, p. 3)

A paz agrária, neste momento (1963) já está estava em crise. A atuação das Ligas
Camponesas colocava toda a classe conservadora em estado de alerta. A elite nacional já
começava a flertar com aqueles que sempre que necessário mostravam-se dispostos a frear
o avanço dos progressistas que pautavam mudanças sociais no Brasil: os militares.
Chegado o ano de 1964 na Paraíba, o segundo caso de violência aqui destacado, uma
tragédia ocorrida na cidade de Marí, na zona da mata paraibana, colocou novamente a
violência no campo em discussão. O episódio que ficou conhecido como “chacina de Marí”,
ocorreu no dia 15 de janeiro envolvendo camponeses e jagunços, quando os primeiros
teriam invadido uma propriedade dos Ribeiro Coutinho, importante grupo usineiro do Estado.
Cesar Benevides (1985; 120) narra o ocorrido, mostrando que aqueles camponeses não
haviam invadido a propriedade dos Ribeiro Coutinho, eles estavam fazendo um trabalho na
propriedade do senhor Nezinho de Paula, na estrada que liga Marí à cidade de Guarabira,
quando um grupo invadira a propriedade agindo com agressão contra os camponeses. Entre
as pessoas envolvidas na invasão estavam o chefe de uma companhia agroindustrial de
Sapé e membros da polícia militar do Estado.
Do conflito resultou uma série de mortes que abalou o estado, em sua maioria homens
ligados aos grandes proprietários rurais. Seguindo a linha dos principais jornais, o A
Imprensa, condenou o ocorrido, jogando a culpa da tragédia para o camponês, além de
aproveitar o incidente para renovar o discurso anticomunista no meio rural.

Não sei se estão olhando para essa vanguarda vermelha que se levanta
organizada pelos campos. Trata-se dessa nova forma de organização
comunista segundo o plano geral que deu bons resultados na China. O
plano de aproveitar toda a gente disposta a um movimento de renovação,
para sublevar as massas, em direitura ao ponto final, onde seja possível os
sobas da russificação assumirem as rédeas do governo. É isso mesmo, sem
tirar nem botar, o que estamos vendo nesse movimento de ligas
camponesas.
Reparemos bem na organização que se forma, aqui ou acolá. Os
comunistas de primeira linha – de real confiança para o partido, ou de
gabarito, como se diz – não aparecem. Ficam de fora, na direção geral,
tangendo as massas para ganharem terreno.
Não vamos pensar que Julião ou outros agitadores desse estofo tenham
prestígio para o partido comunista. São apenas elementos de choque que
prestam bons serviços para a causa da russificação, mas sem nenhum
compromisso dos mandões soviéticos para serem aproveitados, depois de
preparado o banquete. É o contrário do que podemos dizer. Serão os
primeiros sacrificados. Irão para a depuração, na certa.
Consideramos esse trabalho das ligas a serem formadas no interior. Nem
um elemento do partido comunista propriamente dito se acha filiado ao
quadro dos novos componentes. Fazem tudo – esses inspiradores
vermelhos – mas nada de figurarem no fim. Isto quer dizer que os nossos

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pobres rurícolas são entregues à sua própria sorte, para todas as


eventualidades da causa que abraçaram. Serão apenas tropas de
ocupação, mas o resultado do fim ficará pra os comandantes colocados na
retaguarda bem distante do fogo.
Não estranhemos isto, porque se trata do novo plano do comunismo, no
mundo. A exemplo do que se passou na China e em Cuba. Trabalho de
sapa muito bem pensado e organizado. Com o uso dos elementos mais
fáceis de ludibriar, que são os camponeses ingênuos ou a estudantada
inexperiente. O nosso Exército – estamos certos – está bem a par deste
expediente de comunização na América Latina. O grande movimento
dirigido pela sagacidade da rapôsa mestra do Kremlin. (BARRETO, A
Imprensa, 26 de janeiro de 1964)

Diante do ocorrido em Marí, dois pontos importantes sobre o texto do autor é passível de
debate. O primeiro é como é colocada a ideia de manipulação dos camponeses por parte
dos supostos “agentes comunistas” através das Ligas Camponesas. O colunista aparenta
não ter noção da consciência de classe que o trabalhador rural tomou nos últimos anos. A
classe camponesa mais uma vez é vista como massa de manobra de alguma força superior,
a dos agentes comunistas, que quer desvirtuar sua luta. E o segundo ponto vem para
reforçar um fato que já era pauta no periódico católico: a necessidade da presença dos
militares para resolver a crise no país.
O ocorrido em Marí repercutiu por meses nos meios de comunicação do Estado. No final
do mês de março o governador Pedro Gondim reforçou o aparato policial na Zona da Mata,
área de grande conflito entre camponeses e jagunços, no intuito de intimidar a atuação das
Ligas. J. Barreto, que se tornou o porta-voz oficial do anticomunismo do A Imprensa, vai
novamente defender a estrutura agrária em favor dos latifundiários, acusando de comunistas
aqueles que subvertem essa ordem:

Diante da gravidade da situação, o governo do Estado tinha de fazer que


lhe ditava a sua consciencia de principal responsável pela ordem pública.
Urgia o cumprimento de um dever sagrado, depois de uma extremada
tolerância que infelizmente resultou em prejuízo do povo. Das partes
letigantes.
De outra maneira seria a caminhada apressada para a anarquia – clima
apetecido pelos agentes comunizantes, que não estão reparando nos meios
a serem usados, para chegarem ao fim de seus planos. Quanto mais
confusão, tanto melhor para eles. A Paraíba – no plano geral, de
sovietização nacional – seria a cabeça da ponte, para a arrancada final por
todo o país. (BARRETO, A Imprensa, 22 de março de 1964).

Com o golpe civil-militar de março de 1964 os membros da Igreja foram comemorar a


tão aguardada intervenção militar que colocaria ordem no Brasil. Nos arquivos da Cúria
Metropolitana não constam exemplares do jornal católico pós-golpe, porém é sabido que na
Paraíba houve as Marcha da Família com Deus pela Liberdade que agregavam todos
aqueles que temiam pelos rumos que o país tomaria com Jango e os comunistas. E restou

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aos camponeses a desarticulação política e a submissão às práticas oligárquicas oriundas


da república velha que existem até hoje.

Considerações finais

Diante de tudo o que foi mostrado e discutido neste texto, podemos perceber alguns
pontos fundamentais no problema agrário paraibano. A alienação do homem do campo é
fundamental para a manutenção da ordem. O clientelismo que sustenta o poder de grupos
da elite local, com as reinvindicações das Ligas Camponesas tende a enfraquecer. A
consciência de classe que se criou no meio camponês é, sem dúvida, favorável para
aqueles que lutam contra a estrutura agrária paraibana. O comunismo e seus supostos
“agentes” tinham o interesse na organização camponesa, mas isso não anula o fato dos
camponeses se colocarem na luta por interesses próprios, não por mera alienação.
A questão do campo foi um dos principais alvos da cassação de políticos paraibanos no
pós-golpe. A importância que os militares deram às Ligas e aqueles que se envolveram com
suas atividades é grande quando analisamos outras fontes como os Inquéritos Policiais
Militares. A luta dos movimentos sociais do campo não era incorporada apenas por
trabalhadores rurais, uma série de profissionais estavam vinculados diretamente às Ligas,
como advogados, professores e funcionários públicos. Esses foram desvinculados de seus
cargos públicos, tiveram seus direitos políticos cassados e foram presos ou exilados do
país.
E no pós-golpe para onde foi o camponês comum? A tão sonhada reforma de
mentalidade do senhor latifundiário mudou? O camponês continuou à margem das mesmas
práticas eleitoreiras, subjugados às práticas de trabalho que vigoravam no século XIX e
vigoram até os dias de hoje.
Diante do exposto, a Igreja Católica, mesmo com o crescimento de grupos progressista
no interior da instituição, serviu como porta-voz dos interesses daqueles que mantinham a
ordem política excludente no nordeste. Ela utilizou-se de um discurso contra a violência para
reforçar o poder daqueles que empregam uma violência não só física e psicológica, mas
conjuntural no meio agrário paraibano. E, por consequência, agregou força no movimento
civil-militar que pôs fim à mais um período democrático brasileiro.

Referências
1) Hemerográficas

A denúncia do tartufo. A Imprensa. João Pessoa, 15 abr 1962, p. 8.

BARRETO, J. Nota do dia. A Imprensa. João Pessoa, 14 jan 1962, p. 1.

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169 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
UFMG, Belo Horizonte – 18 a 20 de março de 2014

BARRETO, J. Nota do dia. A Imprensa. João Pessoa, 10 jun 1962, p. 1.

BARRETO, J. Nota do dia. A Imprensa. João Pessoa, 05 ago 1962, p. 1.

BARRETO, J. Nota do dia. A Imprensa. João Pessoa, 02 jul 1963, p. 1.

BARRETO, J. Nota do dia. A Imprensa. João Pessoa, 26 jan 1964, p. 1

BARRETO, J. Nota do dia. A Imprensa. João Pessoa, 22 mar 1964, p. 1.

Clerofobia vermelha. A Imprensa. 8 abr 1962, p. 1.

O que eles querem. A Imprensa. João Pessoa, 16 jun 1963, p. 3.

MENDONÇA, I. Nota da cidade. A Imprensa. João Pessoa, 29 abr 1962, p. 1.

2) Bibliográficas

BENEVIDES, Cesar. Camponeses em marcha. Brasil: Paz e terra, 1985.

BERNSTEIN, Serge. “A Cultura Política”. In: Jean-Pierre Rioux e Jean-François Sirinelli.


Para uma História Cultural. Lisboa : Editorial Estampa, 1998.

CITTADINO, Monique. Populismo e Golpe de Estado na Paraíba (1945-1964). João


Pessoa: Editora Universitária/Ideia, 1998.

MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Em guarda contra o perigo vermelho. São Paulo: Perspectiva,
2002.

_________. Desafios e possibilidades na apropriação de cultura política pela historiografia.


In: MOTTA, Rodrigo Patto Sá (Org). Culturas Políticas na História: Novos Estudos, Belo
Horizonte: Argumentum, 2009.

RÉMOND, René. Uma história presente. In: RÉMOND, René. (Org.). Por uma História
Política, Rio de Janeiro: UFRJ/FGV, 1996a

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“Sempre fui mais de esquerda”: memória e história de uma arenista gaúcha

Eduardo dos Santos CHAVES


Doutorando em História pelo PPGH-UFRGS
educhaves4@hotrmail.com

Introdução

Após o golpe de 1964 e a instauração da ditadura civil-militar, parte significativa de


políticos, militares, intelectuais, sindicalistas e estudantes sofreram com as mais diversas
perseguições políticas implementadas pelos governos dos generais presidentes. Os
resultados da repressão do novo regime foram as cassações de mandatos, as prisões, a
tortura e o exílio, afinal a ditadura deixava claro: "Brasil, ame-o ou deixe-o".

No entanto, nem todos brasileiros estavam situados na resistência ao regime,


contrários às arbitrariedades e à violência imposta pela ditadura. Tanto no golpe quanto na
posterior ditadura havia uma gama de grupos e indivíduos envolvidos com diversas práticas
que o novo regime inaugurava. Muitos estiveram desde 1961 ligados a organizações
femininas, partidos políticos, entidades católicas, instituições empresariais, etc., que
colaboraram de diversas formas com a desestabilização do governo de João Goulart (1961-
1964). Assim, durante a ditadura muitos ainda estiveram comprometidos em apoiar e
trabalhar na legitimidade do novo governo seja através da propaganda ou mesmo de
manifestações públicas que reverenciavam a intervenção de março de 1964.

Contudo, a partir do final dos anos 1970, sobretudo após a Lei de Anistia de 1979,
com o processo de abertura política no país e o retorno de muitos daqueles que haviam sido
exilados, a narrativa sobre o regime ganhava novos contornos. A ditadura que outrora era
sinônimo de prosperidade e segurança, após 1979 foi sendo vista como sinônimo de
repressão e violência sobre uma sociedade que apenas resistia. Era uma memória que
sublinhava as arbitrariedades dos militares que, desde 1964, esmagaram a sociedade
brasileira como uma espécie de "trator".

De acordo com o historiador Daniel Aarão Reis Filho (2010, p. 171) o que
aconteceu foram verdadeiros “deslocamentos de sentidos”, os quais se fixaram na memória
nacional como verdades irrefutáveis. Seriam, esses deslocamentos, marcados por três
silêncios que fundamentaram e se estabeleceram em torno da Lei de Anistia de 1979. O
primeiro diz respeito ao silêncio em torno da tortura e dos torturadores. O segundo silêncio
refere-se às propostas revolucionárias das esquerdas entre 1966 e 1973. O terceiro e último
silêncio, talvez o mais importante para a discussão que pretendo neste texto, refere-se ao
apoio de parcela importante da sociedade brasileira ao regime civil-militar. O que ficou
cristalizado é que a sociedade brasileira, sempre prezando pela democracia, viveu a

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ditadura como um “pesadelo que é preciso exorcizar, ou seja, a sociedade não tem, e nunca
teve, nada a ver com a ditadura” (2010, p. 178). Tal abordagem esquece as diversas
manifestações de adesão e simpatia que floresceram durante o regime, como as Marchas
da Família com Deus pela Liberdade, ocorridas antes e após o 31 de março de 1964, a
popularidade do general Garrastazu Médici e as expressivas votações obtidas pela Aliança
Renovadora Nacional (ARENA).

No entanto, os apoios, como afirma Reis Filho (2010, p. 174), desmancharam-se no


ar naquele verão quente de 1979, sendo propagado pela sociedade o termo “Ditadura
Militar”, na tentativa de absolver-se de quaisquer cumplicidades com um regime considerado
abominável. São incômodas lembranças “[...] frequentemente colocadas entre parênteses, à
espera, para que possam ser analisadas [...]” (REIS FILHO, 2010, p. 174).

Esse triplo silêncio, ao viabilizar a anistia como um pacto de sociedade, solidificou


uma memória em que o regime e a sociedade não aparecem como cúmplices, mas como
inimigos de longa data. A ditadura, assim, ficou sendo vista como obra única e exclusiva de
uns poucos militares exaltados, os chamados “bolsões sinceros, mas radicais” que, após
assombrosa história, foi derrotada pelo povo.

Mas como explicar essas metamorfoses, esses deslocamentos de memória? Como


ficaram, após o final do regime, aqueles políticos que militaram na Aliança Renovadora
Nacional, ARENA, ao lado dos "gorilas", expressão que a esquerda utilizava para denominar
os militares? Como reconstruíram suas memórias como arenistas? Por que e como
silenciam sobre as cumplicidades com a ditadura?

A ARENA gaúcha

A ARENA embora tenha sido um partido que colaborava com a ditadura, dando
sustentação e legitimidade a vários atos dos governos dos cinco generais-presidentes, sua
trajetória não deve ser resumida a de um partido que servia aos interesses do regime. Pelo
contrário, é importante pensar, antes de tudo, que na ARENA ocorreram disputas e
discordâncias em relação a diversas medidas adotadas pelo governo federal, além de
cisões e discussões acaloradas que permearam os partidos nas esferas estaduais e
municipais, como é caso da ARENA gaúcha.

Após a decretação do AI-2, haviam especulações, espalhadas pela imprensa, sobre


a possibilidade de formar até três partidos: um que apoiasse a “Revolução de março de
1964”, um segundo de oposição e um terceiro, que congregaria políticos considerados de

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“centro”. A nova legislação impedia grandes possibilidades de arranjos partidários. Além


disso, para se somar a essa situação de desarticulação partidária foi decretado em 20 de
novembro de 1965 o Ato Complementar nº4 (AC-4), determinando que as novas
organizações partidárias deveriam possuir no mínimo 120 deputados federais e 20
senadores. Nesse sentido, só seria possível a criação de três partidos políticos, visto que o
Congresso comportava naquele contexto 409 deputados e 66 senadores.

Diante das novas regras estabelecidas, um grupo se organizou e aglutinou em um


único partido políticos que fariam a defesa do regime estabelecido, o que repercutia na
articulação e, posterior criação, de apenas mais uma agremiação partidária. Com
dificuldades de recrutar o número mínimo de membros, sobretudo de senadores, foi criado o
Movimento Democrático Brasileiro (MDB), em 4 de dezembro de 1965. Já a ARENA não
enfrentou problemas para atingir o número mínimo de membros, porém encontrou grandes
dificuldades na sua organização, em função de aglutinar diversas correntes políticas, que
tinham praticamente como único objetivo à defesa da ditadura.

No Rio Grande do Sul a ARENA congregou os membros da Ação Democrática


Popular (ADP), um bloco partidário criado antes das eleições estaduais de 1962 que reunia
PSD, PL, PDC, PRP e UDN. Este grupo de partidos além de eleger Ildo Meneghetti ao
governo do Estado no pleito de 1962, também colaborou nas eleições municipais de 1963,
elegendo prefeitos e vereadores em diversas cidades do Rio Grande do Sul. Tal
constatação nos leva a pensar que o surgimento ADP, nas vésperas das eleições estaduais
de 1962, facilitou, de certa forma, os contatos entre os membros de partidos políticos
diversos na organização da ARENA gaúcha. No entanto, essas mesmas tratativas não
minimizaram as disputas envolvendo os nomes que deveriam compor as Comissões
Diretoras Municipais, bem como os órgãos das esferas estaduais e federais. Para isso, o
meio encontrado pelo governo para apaziguar essas disputas foi a formação de
sublegendas, que possibilitava que diferentes grupos, agora atuantes no mesmo partido,
concorressem ao mesmo cargo nas disputas eleitorais.

Entre o final dos anos 60 e início dos anos 70 a ARENA demonstrava ser um
partido de peso no cenário político do Rio Grande do Sul. Em Porto Alegre, por exemplo,
com nove vereadores eleitos em 1972, a ARENA figurava como um partido que disputava
eleitores e conquistava parcela importante da capital. Dos vereadores arenistas eleitos no
pleito de 1972, nos chama atenção a expressiva votação de Dercy Furtado, com mais de
dez mil votos. Da mesma forma que muitos dos políticos arenistas da época, Furtado atuava
em áreas que, de certa forma, seriam estratégicas para os êxitos do partido na capital.
Como ela aponta em uma entrevista concedida quarenta anos depois,

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Eu pertencia ao clube de mães e à escola de pais. Fazia palestras por todo


o Rio Grande do Sul, por todo o Brasil, sem política, entendes? Eu era mais
ligada à Igreja. O Sesi me contratou para fazer palestras, e eu fazia muitas,
por isso fiquei conhecida. É importante ter um lastro de conhecimento
1
quando se quer concorrer .
Porém, Dercy Furtado não pode ser vista como uma "inocente dona de casa" usada
pela ARENA para angariar votos. As aproximações entre Furtado e os setores católicos
conservadores, assim como a estreita relação estabelecida entre a ex-deputada e arenistas
como o ex-prefeito de Porto Alegre, Telmo Thompson Flores, indicam a adoção de uma
posição política próxima aos ideais da "revolução de 1964" anteriores a sua candidatura em
1972. Deve-se ainda destacar que os vínculos de seu marido, Jorge Furtado, com o
empresariado e com políticos tradicionais gaúchos tenham, da mesma maneira, contribuído
para a eleição de Dercy, afinal entre 1974 e 1979 o administrador público Jorge Furtado foi
secretário geral do Ministério do Trabalho e ministro interino de Arnaldo Prieto, durante o
governo de Ernesto Geisel.

Quem era Dercy Furtado?

Passo agora a discorrer sobre a trajetória política da deputada arenista. Dercy


Furtado nasceu em Morungava, na época distrito de Gravataí, em 22 de setembro de 1924.
Filha de Melíbio Fernandes Vieira, um pequeno agricultor, e Etelvina Silveira Vieira, uma
professora, Dercy Furtado mudou-se com a família para Porto Alegre em 1936, aos 12 anos
de idade. A mudança ocorreu através do convite de seu irmão mais velho que já residia na
capital. A transferência para Porto Alegre possibilitou que Dercy concluísse os estudos
primários, embora tivesse dificuldades financeiras ao comparar-se com as colegas da sua
escola, pois teve que parar de estudar para ajudar nas despesas da casa. De acordo com
suas memórias, aos 14 anos foi “trabalhar no laboratório Geyer, onde assoprava com (seus)
fracos pulmões (pesava 48 quilos) entre quatro a cinco mil ampolas” (FURTADO, 1984).

Dercy Furtado retoma os estudos quando ingressa no Serviço Nacional de


Aprendizagem Industrial no Brasil (SENAI), completando o curso na Escola Visconde de
Mauá, em Porto Alegre. Nessa escola, conheceu seu futuro marido Jorge Alberto Jacobus
Furtado, na época seu professor de língua portuguesa, que segundo Dercy, “era bondoso.
Inteligente. Meio desajeitado. Mãos de intelectual. Religioso. Para mim ‘perfeito’”
(FURTADO, 1984). Dercy Furtado casou com Jorge Furtado em 1942, aos 18 anos de
idade, e teve seis filhos.

1
Entrevista concedida ao autor em 09 de novembro de 2012, na cidade de Porto Alegre.

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Ao longo de sua trajetória, Dercy participou de diversos movimentos assistenciais e


comunitários, principalmente os vinculados à Igreja, juntamente com o marido. Atuou no
Movimento Familiar Cristão, onde foi delegada do Sínodo Arquidiocesano de Porto Alegre e
fez parte da equipe da CNBB organizadora do Centro de Promoção da Doméstica. Eram
movimentos católicos espalhados pelo Brasil com fortes traços anticomunistas. Defensores
da família cristã, ocidental, católica, tais movimentos alcançavam diversos setores sociais,
além de atuar fortemente na propaganda anticomunista.

Por sua ligação com a Igreja e, especialmente pela assistência dada às domésticas,
Furtado ganhou notoriedade e foi convidada para participar de programas de rádio e
televisão. Segundo Furtado, “graças a todo este trabalho, em torno da família é que
lembraram (seu) nome para a Câmara de Vereadores” (FURTADO, 1984). Em 1972,
segundo Furtando, a convite do então prefeito de Porto Alegre, Telmo Thompson Flores se
filiou à Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e se candidatou à vereança, sendo eleita em
1972 com mais de dez mil votos, a mais votada do partido. A expressiva votação de Dercy
Furtado não foi apenas o resultado de uma campanha voltada para as mulheres,
especialmente para as domésticas e donas de casa. Além do que já foi exposto acima, o
resultado nas urnas de 1972 demonstra também o peso que o partido havia adquirido na
capital gaúcha desde o seu surgimento, elegendo inúmeros vereadores.

Sua atuação política foi também acompanhada pela defesa de seus ideais relativos
à promoção da mulher e a valorização da família cristã em programas de rádio e televisão,
além de uma coluna no jornal Zero Hora, denominada Opinião e a publicação de livros de
memórias2. Nesses espaços, mostrava-se ligada fortemente pelos ideais da "Revolução" de
1964, as iniciativas do partido e as realizações da ditadura.

Em agosto de 1976, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, a então


deputada estadual deixava clara sua afinidade política com os líderes militares que estavam
governando o país. Na tribuna afirmou o seguinte:

Antes de encerrar, quero deixar aqui meus cumprimentos ao Presidente


Geisel, que deve ser elogiado e estimulado pelas medidas que vem
tomando. Não podemos esquecer esse fato. Portanto, ao Presidente Geisel,
que com toda a razão vem coibindo alguns abusos, todo o nosso apoio
(Anais da ALRS, agosto de 1976).
Dercy Furtado teve uma atuação marcante dentro partido, assumindo o comando
da organização, atuando em grupos específicos, como na ARENA feminina. Em 1976,
quando era deputada estadual, foi eleita Presidente do Diretório Municipal de Porto Alegre.
Emocionada, fez um pronunciamento na Assembleia Legislativa demonstrando a maneira
2
Dercy Furtado também publicou as seguintes obras: Opinião, em 1974; Cortando as Amarras, em
1978; Orações que mamãe me ensinou, em 1984; e Construindo Catedrais: ideias para viver bem,
em 2009.

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pela qual sentiu-se uma arenista convicta, alinhada aos propósitos do partido e ao governo
"revolucionário".

Ontem, em Porto Alegre, no Diretório Municipal da ARENA, desenrolou-se


uma cerimônia que poderia ter sido simples, comum, normal, se não fosse o
fato inédito de uma mulher, pela primeira vez, assumir um Diretório e uma
campanha política no Rio Grande do Sul. Por esse fato, por esse
acontecimento, é que aquela cerimônia se tornou original, tornou-se uma
solenidade cheia de entusiasmo com a presença de inúmeras pessoas no
Diretório Municipal da ARENA.
Venho a Tribuna hoje para dizer [...] da minha alegria e do meu entusiasmo.
Várias vezes recebi grandes alegrias: as duas vitórias em campanhas
políticas tanto para a Câmara de Vereadores como para a Assembleia
Legislativa. Esses fatos encheram-se de ânimo e foram marcos na minha
vida toda. Entretanto, posso dizer que, ontem à noite foi, para mim, algo
inédito o que aconteceu. Foi de maior relevância e de maior importância
para mim assumir o Diretório Municipal da ARENA. Afirmo que foi um
acontecimento importante por confiança que a ARENA depositou em uma
mulher, porque assumir, ontem, foi um fato não imposto por regimentos,
pois o Vereador Carlos Rafael dos Santos poderia continuar à frente do
Diretório Municipal. (Anais da ALRS, 10 de setembro de 1976, p. 154)
Embora tenha um discurso voltado para a importância da presença feminina no
cenário político partidário, Furtado não deixa de apontar em seus discursos a importância
que o partido, a ARENA, tivera em sua carreira política. Se Dercy Furtado ingressou no
partido somente em 1972, como ressalta em seus livros de memórias e nos
pronunciamentos como deputada, é importante considerar que em pouco tempo, em apenas
quatro anos, assumiu um posto de comando na ARENA em uma capital da federação.
Políticos com carreiras mais longas que a de Dercy Furtado ainda não haviam ocupado o
cargo que a "defensora das mulheres" ocupava em poucos anos como vereadora e
deputada, o que demonstra também os espaços conquistados por ela dentro de um partido
composto majoritariamente por homens.

Quando era presidente do Diretório Municipal da ARENA da Porto Alegre, Furtado


utilizava seu espaço como deputada estadual para divulgar as atividades da agremiação,
assim como para convidar os demais deputados a colaborar com a ARENA, visitando as
dependências da sede da agremiação no centro da cidade de Porto Alegre.

O Diretório Municipal da ARENA está de portas abertas para receber todos


os amigos que desejam colaborar conosco. Desta tribuna faço um convite
especial aos Srs. Deputados e à imprensa, que em muitos podem nos
ajudar, apontando os nossos erros e nos estimulando nos acertos. Renovo
o convite: visitem-nos, sugiram-nos novas ideias, apoiem-nos nos acertos,
critiquem-nos e corrijam-nos nos erros. O endereço do nosso Diretório é
Rua Marechal Floriano nº 32, telefone é 21.87.10. Como é uma rua muito
movimentada e a sede do Diretório estava um pouco escondida, mandei
colocar oito grandes bandeiras; bandeiras com as cores da ARENA e que
estarão lá tremulando para a nossa alegria e para a alegria de todo o povo
de Porto Alegre. Então, essas bandeiras marcarão o local do Diretório
Municipal da ARENA. Lá encontrarão os Srs. Deputados e a imprensa, nove
funcionários dispostos a dar-lhes o melhor atendimento, desde o cafezinho

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até a rosa, que estará à mesa de todos os funcionários para dar aquela
acolhida fraterna e amiga de todos nós que lá estamos para servir.
Como "slogan" para todos os cartazes, painéis e carros, adotando o
seguinte - vou lançá-lo hoje, aqui, pela primeira vez -: "A ARENA É POVO
SEMPRE". Além deste "slogan", teremos ainda sub-"slogan", como outros
que poderão ser usados, "A ARENA CRESCE EM PORTO ALEGRE". Este
"slogan" se baseia no fato real e verídico que desde a eleição passada a
ARENA vem crescendo em Porto Alegre, tanto que, já na gestão do Prefeito
Dr. Telmo Thompson Flores, passamos de oito para nove Vereadores na
Câmara, com o que demos aos Sr. Prefeito a oportunidade de ter o seu veto
assegurado. [...]. Temos ainda outro "slogan", para reavivar a mente de
muitas pessoas que estavam esquecendo: "A ARENA É MAIORIA NO
BRASIL". Estes são os "slogans" da ARENA para esta campanha.
O fato de Dercy Furtado ter assumindo posições de comando no partido não
significava que era obediente a tudo o que o Diretório Nacional definia, nem mesmo um
apoio irrestrito aos mandos do executivo.

Porém, ao assumir uma posição de liderança na ARENA demonstrava afinidade


com o partido, com os políticos que compunham a agremiação e com aspectos relacionados
ao pensamento que, de certa forma, norteava a ditadura brasileira. Ou seja, no espectro
político daquele contexto Dercy Furtado se encontrava entre as direitas, os conservadores,
que tinham repulsa as transformações sociais, ao pensamento socialista e/ou mesmo
nacional-reformista. Além disso, estava ao lado de muitos homens e mulheres que
defendiam, em muitos casos, a cassação de mandatos políticos, os expurgos do
funcionalismo público, a censura, o banimento e até mesmo a tortura.

Na metade do seu último mandato, em agosto de 1985, quando se encontrava no


PDS, ingressou no PDT, segundo Dercy Furtado, a partir do convite de Leonel Brizola.
Segundo a ex-deputada,

Quem ouvia sempre os meus discursos? Leonel de Moura Brizola. Ele vivia
me ouvindo, e um dia o que fez? Chamou-me ao Palácio da Guanabara. Eu
fui, pois o admirava muito. Aliás, fomos eu e o Jorge.
– Deputada, eu a estou convidando a entrar no PDT.
– No PDT? Mas eu sou da Arena!
– Mas o seu discurso é de oposição. A senhora está mal. A senhora tem de
entrar é no PDT.
– Olha, eu entro com uma condição: se o senhor for lá em casa me buscar e
me levar até a Assembleia para eu entrar no PDT.
– Não há problema nenhum.
Um dia ele marcou, foi lá em casa me buscar – eu tenho todas as fotos em
que nós aparecemos juntos –, e eu vim de carro com ele. (Entrevista
concedida ao autor em 09 de novembro de 2012, na cidade de Porto
Alegre).
Em 1986 tentou reeleger-se deputada estadual pelo novo partido, mas não obteve
sucesso. Talvez, a nova sigla partidária, o PDT, não tenha oferecido base política suficiente
para a sua mais nova candidata. Provavelmente as antigas alianças políticas tecidas anos
atrás, quando militava na ARENA, tenham se afastado da candidata que aproximava-se do

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trabalhismo de Leonel Brizola, um dos grandes inimigos dos golpistas de 1964. Mas o
contexto político era outro, era de abertura política, era o momento propicio para se
esquecer antigas desavenças e seguir a vida.

Memórias da trajetória como arenista

Em 09 de novembro de 2012, nas dependências do Memorial da Assembleia


Legislativa do Rio Grande do Sul, foi realizada uma entrevista com a ex-deputada Dercy
Furtado. Aos 84 anos de idade, Dercy sentia-se entusiasmada em falar da sua vida pessoal
e familiar e da carreira política que tivera. No decorrer da entrevista, enfatizava a luta que
travou em defesa dos direitos das mulheres, destacando sua trajetória como parlamentar.
No entanto, Dercy não tinha mais as mesmas convicções políticas que tivera nos anos 1970.
Quando foi questionada sobre sua postura durante o golpe civil-militar, não negou sua
posição política no período, mas achou difícil responder a pergunta: "Nos anos 60, houve o
movimento de março de 64. Gostaria de saber da sua posição e da posição do seu marido,
Jorge Furtado, em relação ao movimento? - Ah, isso foi muito complicado, porque
estávamos pela Arena"3. Respostas como "puxa, agora não vou lembrar"4, foram
recorrentes e representam a maneira pela qual a ex-deputada sentia-se desconfortável em
falar de sua atuação política ao lado de militares e políticos conservadores.

Durante a entrevista a ex-deputada não se sentiu à vontade em falar que militou na


ARENA como fizera orgulhosamente nos anos 1970. Na entrevista afirmou o seguinte:

Sempre fui mais de esquerda. Entrei na Arena por causa do Dr. Telmo
Thompson Flores, mas eu me sentia mal, às vezes, junto com coronéis e
outras pessoas do partido. Eu queria um partido formado mais por
operários, por trabalhadores sem-terra. Meus discursos eram muito de
oposição. (Entrevista concedida ao autor em 09 de novembro de 2012, na
cidade de Porto Alegre).
Furtado narra sua trajetória como arenista descolada do partido. Ou seja, ela
pretende imprimir a imagem de que o partido utilizava estrategicamente do potencial
eleitoral de seus candidatos, sem que esses tivessem necessariamente vinculações
ideológicas e políticas com as ideias da "Revolução" de 1964 e consequentemente com a
ditadura civil-militar. Cito para exemplificar dois trecho da entrevista, em que Furtado
superdimensionou sua luta pelos direitos das mulheres e donas de casa, que, por sua vez,
servira a interesses de partidos e políticos:

O Pedro Simon, que era meu vizinho, ou melhor, que é meu vizinho [...] me
dizia: Meu Deus, como é que eu nunca te enxerguei, Dercy? Como é que tu

3
Entrevista concedida ao autor em 09 de novembro de 2012, na cidade de Porto Alegre.
4
Idem.

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estavas ali? Depois fomos deputados juntos. Isso do Dr. Telmo foi muito
interessante. Ele teve visão. Foi ele quem me disse: Tu vais lutar pela
mulher. Eu concordei: Ah, ótimo! Mas eles eram muito bons. Não tenho
queixa. O Marchezan foi uma pessoa maravilhosa, assim como o Faccioni.
Foram todos muito bons, mas eu não me sentia assim tão bem. (Entrevista
concedida ao autor em 09 de novembro de 2012, na cidade de Porto
Alegre).
Foram poucas as falas em que Furtado destaca sua participação na organização do
partido, na montagem de congressos femininos, na sua atuação frente à presidência do
diretório municipal do partido em Porto Alegre. Sobre os congressos femininos lembra que:

Sim. Eu organizei o maior congresso feminino da Arena. Veio gente de


todos os Estados do Brasil. Aquele auditório grande, o Dante Barone, ficou
totalmente lotado. Veio gente até do Amazonas. A família Collor, todinha,
também veio. O Collor, bem mocinho, estava na plateia. Convidei a mãe
dele, assim como outras mulheres muito importantes. A dona Leda Collor de
Mello era uma mulher importantíssima. (Entrevista concedida ao autor em
09 de novembro de 2012, na cidade de Porto Alegre).
A fuga em aparecer como cúmplice de um regime de exceção e a tentativa de frisar
que lutou pela democracia do país foi constante na entrevista. Isso se deve, em parte, ao
que foi apontado no início de texto: a partir da Lei de Anistia de 1979, uma memória se
consolidou e todos agora estão ao lado da resistência, distante de qualquer aproximação
com a ditadura dos militares, únicos responsáveis pelas arbitrariedades do período. Sendo
assim, afirmou que os membros do partido "[...] eram muito bons. Não tenho queixa. O
Marchezan foi uma pessoa maravilhosa, assim como o Faccioni. Foram todos muito bons,
mas eu não me sentia assim tão bem"5.

Nesse sentido, a autoconstrução de sua imagem como democrata que sentia-se


mal ao lado de "tiranos" e "algozes" parece corresponder a memória social do regime,
somadas a elementos que correspondem a história do Rio Grande do Sul. Ou seja, talvez a
narrativa de Dercy Furtado sobre sua trajetória política encontra assento mais confortável no
que chamo de "memória da legalidade". Uma construção de memória que se desenvolveu
particularmente no Rio Grande do Sul e que considera a sociedade gaúcha resistente à
ditadura civil-militar. Desde 1961, segundo essa perspectiva, os gaúchos partiram para a
resistência, para a oposição, sem nenhuma aproximação com o golpe e com o regime.
Apagaram-se as cumplicidades, as ambivalências e os paradoxos entre os "aguerridos"
gaúchos e a ditadura.

Mas como pensar esse esquecimento, esse distanciamento, de Dercy Furtado em


relação ao seu passado como arenista, suas aproximações com a ditadura? Uma das
explicações, como já foi em parte apontada no texto, se deve, em parte, a “invasão” das
memórias das esquerdas no campo historiográfico, a partir dos inúmeros relatos daqueles

5
Entrevista concedida ao autor em 09 de novembro de 2012, na cidade de Porto Alegre.

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que sofreram com cassações, banimentos, expurgos, torturas e exílios. Da mesma maneira,
é compreensível que, diante das “investigações” da Comissão da Verdade, sintam-se
também constrangidos a expor suas trajetórias políticas durante os “anos de chumbo”.
Penso que esse uso pragmático da memória não significa maquiavelismo ou oportunismo,
mas está relacionado a um cenário de luta entre diferentes atores que atribuem diferentes
sentidos ao passado. O objetivo do texto, dentro dos limites apresentados, não foi o de
"desmentir" as memórias de Dercy Furtado, mas mostrar, em certa medida que essas
construções de memória estão inseridas no tempo presente, momento no qual aparecer
como arenista torna-se constrangedor. Da mesma forma, a finalidade aqui não foi o de
"compreender" a postura de Dercy Furtado como ex-arenista sem inseri-la num contexto
político atual que condena a ditadura e seus agentes.

Interessante observar que Furtado vem realizando tal construção de memória, na


qual aparece como político de esquerda, desde os anos 1970, quando começou a publicar
livros sobre sua trajetória de vida e sua atuação como parlamentar. Nas obras aparecem
uma série de lembranças que se repetem ao longo da entrevista realizada em 2012,
colaborando para a ideia de uma parlamentar combativa, que sentia-se incomodada ao lado
dos "algozes". Isto significa que a edificação de uma memória distante da ditadura, dos
tempos de militância na ARENA, das relações de amizade e companheirismo com políticos
conservadores, já tem uma história que precisa ser investigada.

Referências

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GRINBERG, Lucia. Partido Político ou bode expiatório: um estudo sobre a Aliança


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Filhos de hoje, homens de amanhã: 1964 aconteceu em abril1

Enzio Gercione Soares de ANDRADE


Professor do Instituto Federal de
Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte,
balbec@uol.com.br

Em 1964, Natal, capital do Estado do Rio Grande do Norte contava com cerca de
200 mil habitantes; uma cidade que pela distância dos grandes centros urbanos nacionais,
sofria com os precários serviços de comunicação, acesso à cultura acadêmica ou diversão
de melhor qualidade. Ao mesmo tempo em que guardava ares ainda interioranos e
costumes provincianos, a cidade do Natal mesmo ao longe, acompanhava o ritmo de
mudanças que se processavam no Brasil desde meados da década de 50, do século
passado sob a égide e influência do “Desenvolvimentismo” capitaneado pelo Governo
Juscelino Kubitschek.

A este respeito à Historiadora Isa Ribeiro comenta:

“Após a morte de Vargas e a eleição de Juscelino Kubitschek, as mudanças


tornaram-se mais abrangentes. A política nacional desenvolvimentista,
adotada pelo novo presidente, fez emergir a necessidade de modernizar a
cidade como subsídio ao processo de industrialização. A noção de
desenvolvimento estava na possível reordenação da economia, apoiada na
ação efetiva do Estado. E o nacionalismo forneceria o referencial político para
um projeto que seria sustentado pelo governo, conhecido sobre o lema “50
anos em 5” (RIBEIRO, 2008).

O Brasil ia lentamente deixando de ser um país agrário-exportador para se tornar


uma economia industrializada periférica, o que se coadunava com as inflexões desejadas
pelo capitalismo globalizado que se encontrava em processo acelerado de formação.

É importante lembrar que a industrialização nacional já era um processo em curso


desde os anos cinquentas e suscitara uma ideologia de desenvolvimentismo, que como um
tornado, varrera o país, criando um misto de euforia e mudança; que era chegada a hora do
Brasil ser uma nação desenvolvida e também resolver seus graves e profundos disparates
sociais. Entretanto, tais mudanças não seriam suficientes para solucionar tantos
descalabros sociais do país, e as contradições econômicas catapultadas a primeiro plano,
tornavam nossos problemas mais evidentes; o otimismo que campeava pela nação foi
sendo substituído pela frustração dos setores mais pobres, embora a intelectualidade de
esquerda ainda acreditasse que seria possível uma transformação mais radical no Brasil.
Era a possibilidade de uma mudança que beneficiasse os setores sociais desprovidos da
nação, que atemorizava a classe proprietária.

1
O título remete as últimas palavras do “Relatório Veras” resultado das investigações feitas no Rio
Grande do Norte a respeito de supostas atividades subversivas, por ordem do governador potiguar
Aluízio Alves à época e simultaneamente ao livro de memórias de Mailde Pinto Galvão, que foi
indiciada neste mesmo relatório tendo por base o Ato Institucional nº1(AI-1) de 09 de abril de 1964.

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Todavia a década de 60 do século passado também foi marcada de forma acentuada


no plano internacional e interno por transformações profundas que afetariam o mundo e
suas relações geopolíticas, a política interna nacional, tendo impacto sobre a citadina
sociedade da cidade do Natal em maior ou menor escala. Entre estas transformações que
afetariam o continente sul-americano estava a chamada “Guerra Fria” e a crise do
“Populismo” no cenário político brasileiro. A respeito do primeiro acontecimento histórico, o
historiador britânico Eric Hobsbawm relata:

“Os 45 anos que vão do lançamento das bombas atômicas até o fim da União
Soviética não formam um período homogêneo único na história do mundo.
[...]. A Segunda Guerra Mundial mal terminara quando a humanidade
mergulhou no que se pode encarar, razoavelmente, como uma Terceira
Guerra Mundial, embora uma guerra muito peculiar. [...] A Guerra Fria entre
EUA e URSS, que dominou o cenário internacional na segunda metade do
Breve Século XX, foi sem dúvida um desses períodos. Gerações inteiras se
criaram à sombra de batalhas nucleares globais que, podiam estourar a
qualquer momento, e devastar a humanidade” (HOBSBAWN, 1995: p. 223-
234).

Se a “Guerra Fria” trazia em seu bojo o perigo de um holocausto nuclear real,


também trazia consigo devido à ação norte-americana uma ideologia anticomunista que
seria usada como base para a atuação de grupos políticos no Brasil no contexto do golpe de
estado em 1964. O historiador Rodrigo Motta nos aponta:

“Na crise de 1964, o argumento mais forte apresentado nos discursos


favoráveis à derrubada do governo fora o anticomunismo, mesclado às
acusações de que Jango pretenderia implantar um regime autoritário de
esquerda. Foi à percepção desse risco e seu alardeamento via imprensa a,
televisão, manifestações, marchas etc. Que permitiu a formação da grande
coalizão pró-golpe, bem como a desmobilização ou conquista de setores que
antes viam com simpatia os projetos governamentais” (MOTTA, 2006: p. 9-
26)

Este mesmo contexto teria outro elemento como protagonista, que seria a crise do
modelo político ou prática política que se convencionou na historiografia brasileira a se
denominar como “Populismo”. O termo foi e é alvo de inúmeras controvérsias (Cf.
FERREIRA, 2013), mas de uma forma geral adotaremos a perspectiva que este fenômeno
brasileiro foi contemporâneo e associado à emergência do trabalhismo e das suas
reivindicações no campo social nacional a partir da industrialização brasileira, num cenário
de políticos de carisma, de demagogia, do assistencialismo, principalmente em relação aos
trabalhadores e às camadas médias. Podemos também acrescentar as ideias de
“personalização do poder, a imagem, meio real e mística da soberania do estado sobre o
conjunto da sociedade e a necessidade da participação das massas urbanas” como
assinala o cientista político Francisco Weffort.

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O Populismo entra em crise quando não consegue equacionar as demandas das


classes trabalhadoras dentro do contexto democrático sem a possibilidade de uma mudança
que beneficiasse os setores sociais desprovidos da nação, o que assustava a classe
proprietária, que foi instada por sua vez a buscar o rompimento do Estado democrático de
direito, para preservar seus interesses e não permitir nenhuma descontinuidade naqueles. A
ruptura institucional se daria entre março e abril de 1964.

A prática populista no Estado do Rio Grande do Norte teve como expressão máxima
a figura do governador Aluízio Alves que tinha sido eleito em 1960 em uma coligação
denominada “Cruzada da Esperança” que contava com o apoio dos partidos PSD, PTB,
PTN e PDC, derrotando a oligarquia Bezerra de Medeiros, da qual fazia parte o Governador
Dinarte Mariz, assim como seu candidato ao governo estadual Djalma Marinho; ambos eram
membros da UDN. Segundo Wesley Garcia Ribeiro Silva (2011), em sua campanha:

“Aluizio Alves construiu um discurso em que se apresentava como


liderança política que romperia com o atraso econômico e com as
velhas oligarquias políticas conservadoras, que seriam patrocinadoras
desse atraso. Atento a importância do eleitorado das camadas
populares, fomentou estratégias de grande poder de persuasão junto
às massas. [...] o então Senador Dinarte Mariz, possuía uma antipatia
pela população comum, transformando Aluizio Alves no paladino das
camadas populares. [...] ofensas feitas aos correligionários de Aluízio
Alves apelidando-os de “gentinha”, por exemplo, foram capitalizadas
pelos coordenadores da campanha, e transformada em bordão,
associando a imagem do oponente a um representante dos ricos e
poderosos que mandavam e desmandavam no estado, sendo os
responsáveis pela corrupção política e a pobreza. Sua vitória
encarnaria, portanto, a própria conquista das camadas populares.”

Aluízio Alves realizou uma gestão de prestígio e que teve força no seio da
população, a quem ele chamava de “minha gentinha2“, todavia muito de seu sucesso se
deveu a realizações de caráter estrutural no Estado do Rio Grande do Norte como
eletrificação, melhorias em telecomunicações, habitação popular com verbas oriundas da
“Aliança para o Progresso”, programa norte americano instituído pelo Governo John
Kennedy que tinha como pano de fundo o combate ao comunismo e que também serviu
como força contrária ao avanço de movimentos populares apoiados pela esquerda política
nacional.

No plano municipal a Prefeitura do Natal na administração Djalma Maranhão,


realizava obras em colaboração com a população como, por exemplo, o calçamento de
2
Esta expressão adotada pelo governador Aluízio Alves se deve ao fato que na campanha eleitoral
de 1960 para o governo do estado do RN, o governador de então Dinarte Mariz afirmou que os
eleitores de Aluízio Alves eram de baixa extração social, querendo de forma preconceituosa e
classista, desqualificar a oposição que tinha a preferência do eleitorado. Num golpe de mestre, Aluízio
passou a adotar esta expressão em seus comícios, de forma paternalista o que lhe granjeava enorme
simpatia junto à população.

ISBN: 978-85-62707-55-1
184 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
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ruas, a transformação de praças em pontos de acesso à cultura com a instalação de


bibliotecas móveis, mas notadamente a implantação de um plano de alfabetização de jovens
e adultos que se intitulava “De pé no chão também se aprende a ler”, inspirado nas práticas
do MPC (COELHO, 2013) que se realizava em Pernambuco na administração Miguel
Arraes. Em suas memórias sobre o período entre 1961 e 1964, a escritora Mailde Galvão
(2004: p. 29-30) relata:

“O prefeito, com bastante dificuldade econômica, realizava a sua


administração priorizando os programas de alfabetização popular,
conscientização política e democratização da cultura. [...] Enquanto o
governo do Estado usava dólares americanos em seus programas de
educação, a Prefeitura com recurso próprios oferecia escolas para a
alfabetização de crianças carentes em Natal e divulgava o slogan
ESCOLA BRASILEIRA COM DINHEIRO BRASILEIRO. [...] As
divergências políticas radicalizaram-se, trazendo para o ambiente do
Estado as mesmas lutas que, no início dos anos 60, dividiam o país
entre forças de direita e esquerda.”

Quando o movimento golpista foi deflagrado e as primeiras notícias desencontradas


chagavam a Natal, o Prefeito Djalma Maranhão assumiu de imediato a defesa da legalidade
democrática, comunicando ao comando militar local o seu posicionamento e publicou nos
meios de comunicação natalenses uma nota de apoio ao governo João Goulart; Na já
referida nota, o Prefeito Djalma Maranhão declarou que a prefeitura do Natal tornava-se
naquele momento o quartel general da legalidade e da resistência. Mailde Galvão (2004: p.
29-30) nos conta:

“A ênfase da nota com a designação da prefeitura como “QG da legalidade”,


num momento em que as tropas já se encontravam mobilizadas, irritou os
militares e foi interpretada como uma ameaça de mobilização para a
resistência popular”.

O Governador Aluízio Alves na madrugada de 01/04/1964 publicou uma nota, que se


caracterizava pelo senso de oportunismo, procurando verificar para onde penderia a vitória
do embate entre as forças retrógradas e progressistas no contexto do Golpe de Estado; no
dia seguinte o Governador divulgou outra nota dando apoio ao golpe militar e às forças
armadas.Segundo o jornalista Dermi Azevedo (2012: p. 9-10):

“Os políticos norte-rio-grandenses que haviam participado da conspiração


pré-golpe estavam eufóricos. Entre eles Dinarte Mariz, um cacique da região
do Seridó, em cujo currículo constavam discursos e atitudes sempre
marcadas pelo anticomunismo rudimentar. Outros, mais novos buscavam
freneticamente adaptar-se à nova situação. Um deles era Aluízio Alves, um
carismático jornalista de Angicos[...]Muito se esperava de Aluízio Alves, em
termos de renovação da classe política estadual, no entanto, logo após o
golpe, iria tornar-se o único governador de Estado, na federação brasileira, a
decretar a punição em massa de servidores públicos acusados de
“subversão”.

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185 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
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Antes que as comissões investigativas fossem instaladas, Natal viu sua prefeitura ser
invadida por tropas do Exército, seu prefeito eleito Djalma Maranhão ser aprisionado e sofrer
um processo ilegal de impeachment, além da câmara de vereadores eleger um novo prefeito
sob coação militar.
Aluízio Alves apoiando-se no Ato Institucional Nº 1, instituiu uma comissão de
inquérito estadual paralela às que que haviam sido criadas pelos militares em todo o Brasil.
No Estado do Rio Grande Do Norte, ao lado da Comissão Geral de Investigação criada
pelos militares, havia duas comissões ditas de “alto nível” chefiadas pelos policiais
pernambucanos José Domingos da Silva e Carlos Moura Morais Veras, além das outras
implantadas nas diversas repartições públicas nas esferas federal, estadual ou municipal.
Desta forma foi armada a maior rede de investigação policial e militar em terras potiguares e
aí teve início o cabedal de arbítrios contra trabalhadores, intelectuais e estudantes. O
historiador Marcos Silva (2007: p. 183) relata que naquele contexto houve:

“O interesse de civis natalenses pela ditadura e as surpreendentes nuanças


entre certos intelectuais, que “esqueceram” seus compromissos anteriores
com a política cultural do deposto Prefeito Djalma Maranhão, ou alguns
militares, que se sentiam constrangidos com os acontecimentos e
arbitrariedades por eles protagonizados desde aquele abril.”

Na continuidade do processo “revolucionário” a Cidade do Natal ainda testemunharia


inúmeras atrocidades e perversidades; De imediato ocorreram como em tantas capitais
brasileiras, comemorações cívicas pelo golpe, com atos religiosos e passeatas. Os dois
principais jornais de Natal à época, a Tribuna do Norte e o Diário de Natal divulgaram em
manchetes tais eventos, como os que ocorreram no dia 07/04/1964.Este último periódico
estampava em sua 1ª página no dia posterior:

“CHUVA NÃO PREJUDICOU TRIBUTO DO POVO ÀS FORÇAS ARMADAS,


NA MARCHA DA FAMÍLIA COM DEUS. Foi talvez a maior concentração
cívica e popular que a nossa cidade já assistiu, a que todas as classes sociais
realizaram em homenagem às forças armadas vitoriosas no movimento de
redemocratização do país.” (Diário de Natal, 08/04/1964. Natal-RN.)

Além das efusivas e reacionárias comemorações, Natal seria palco de inúmeras


prisões de lideranças políticas e intelectuais, acompanhadas de denúncias de torturas
físicas; De mesma forma foi elaborada uma exposição de livros considerados subversivos
na antiga “Galeria de Arte 3Popular” na Praça André de Albuquerque; ressaltando-se que em

3
Esta galeria seria demolida em 1977, na administração do prefeito Vauban Bezerra. Ver em SOUZA.
Bernadete de Lourdes Queiroga. A Praça André de Albuquerque/Natal-RN, na Visão de Seus
Frequentadores. Natal, RN:2004. Encontrado em:

ISBN: 978-85-62707-55-1
186 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
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sua maioria eram livros doados pelo Exército Brasileiro às bibliotecas volantes, da Diretoria
de Documentação e Cultura. Argumentavam os novos donos do poder que aqueles livros
eram provas incontestes de preparação de guerrilha urbana e rural por parte da prefeitura
natalense; esse argumento demonstra que os novos mandatários também eram donos de
uma ignorância sem par.
Ao fim e após cinco longos meses, em 15/09/1964 os inquéritos estaduais de
suposta subversão foram entregue ao governador Aluízio Alves, resultando de imediato em
demissão do serviço público, aposentadoria compulsória, dentre outras medidas. O
governador potiguar publicou no Diário Oficial um decreto com a demissão sumária de “82
funcionários públicos.” As personalidades mais proeminentes que tinham sido presas como
o ex-prefeito Djalma Maranhão, seu irmão o ex-deputado Luís Maranhão Filho, os também
ex-deputados Aldo Tinoco e Floriano Bezerra foram encarcerados em Fernando de
Noronha; posteriormente Djalma e Luiz Maranhão teriam destinos trágicos. O 1º morreria no
exílio no Uruguai sem jamais retornar a Natal, e o 2º caiu na clandestinidade da luta armada
e foi trucidado pela repressão da década de 70, sendo um desaparecido político até o
presente momento.
Os outros envolvidos no “Inquérito Veras”, sem emprego deixaram o país ou
mudaram de Estado procurando reconstruir suas vidas interrompidas pelo golpe militar; O
educador Marcos Guerra, que coordenava a aplicação do método Paulo Freire no interior do
RN, se refugiou em Paris, assim como Maria Laly Carneiro que militava na Juventude
Universitária Católica. Nei Leandro de Castro, que se tornaria célebre posteriormente com o
livro “As pelejas de Ojuara”, e que havia sido detido por conta de um texto poético chamado
“Canto Geral” foi trabalhar com jornalismo e publicidade no Rio de Janeiro, seguindo o
Advogado e Jurista Hélio Vasconcelos. São alguns exemplos de pessoas que foram
duramente atingidas pelo arbítrio das primeiras horas de 1964.
Entre 1965 e 1966, os implicados no “Relatório Veras” seriam julgados pela Justiça
Militar; contudo, as implausíveis acusações, a falta de provas, associadas a falhas jurídicas
processuais, permitiu que uma grande parte daqueles fossem excluídos dos processos em
que estavam inseridos através de Habeas-Corpus.
Com a implantação da ditadura, os projetos educacionais e culturais da Prefeitura do
Natal, como o “De pé no chão também se aprende a ler” e “As Praças de Cultura” foram
extintos; a Galeria de Arte Popular sobreviveria mais alguns anos, mas foi sendo lentamente
obliterada em suas funções, tendo até mesmo exposições censuradas pela ação repressiva.
As bibliotecas volantes foram desmanteladas nos bairros periféricos da capital potiguar.

ftp://ftp.ufrn.br/pub/biblioteca/ext/bdtd/BernardeteLQS.pdf, acesso em 23/11/2013.

ISBN: 978-85-62707-55-1
187 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
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Estas experiências ficaram guardadas na memória daqueles que as vivenciaram e até


mesmo na geografia da cidade do Natal, por conta de sua desaparição. O Historiador
Ulpiano de Meneses (1992: p. 22) afirma que:

“A memória, como construção social, é a formação de imagem necessária


para os processos de constituição e reforço da identidade. [...] A memória é
operação ideológica, processo psicossocial de representação de si próprio,
que reorganiza simbolicamente o universo das pessoas, das coisas, imagens
e relações, pelas legitimações que produz”.

50 anos decorridos e estas memórias em sua maioria trágicas nos permitem


reconstituir em parte aquele universo, onde as palavras de justiça e paz não eram meras
figuras de retórica, onde havia uma embriaguez de generosidade e disponibilidade humana
na busca de uma sociedade mais justa e por que não dizer mais fraterna. Todavia, “ficaram,
porém e definitivamente, as marcas do sofrimento” devido à ação daqueles que encetaram a
face da destruição naquele momento singular da História brasileira, como relata Mailde
Galvão em suas memórias. Ela, que como tantos outros filhos daquele hoje, e que se tornou
parte dos homens do amanhã, testemunhou o fim de uma era e assim 1964, aconteceu em
abril. Era só o começo de uma longa jornada noite adentro.

Referências

AZEVEDO, Dermi. Dos anos 60 a Ditadura: Memórias Preliminares. In Subversão no Rio


Grande do Norte/Relatório Veras. Natal, RN: Comitê pela Verdade RN, 2012, p.09-10.

BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. O Governo João Goulart: As Lutas Sociais no Brasil, 1961-
1964. São Paulo: Editora UNESP, 2010.

COELHO, Germano. MCP: História do Movimento de Cultura Popular. Recife,


PE:CEPE,2013

FERREIRA, Jorge (org.). O Populismo e sua História, Debate e Crítica. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2013.

GALVÃO, Mailde Pinto. 1964: Aconteceu em Abril. Natal, RN: EDUFRN, 2004, p. 29-30 e
213.

HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos. O Breve Século XX (1914-1991). São Paulo:
Companhia das Letras, 1995, p. 223-234.

MENESES, Ulpiano. A História, Cativa da Memória? Para um Mapeamento da Memória no


Campo das Ciências Sociais. Revista Inst.Est.Bras. 34, 1992, página 22.

MOTTA, Rodrigo Patto Sá. O Anticomunismo Militar in O Golpe de 1964 e o Regime Militar:
Novas Perspectivas (Organização de João Roberto Martins Filho). São Carlos: Edufscar,
2006, p.09-26.

ISBN: 978-85-62707-55-1
188 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
UFMG, Belo Horizonte – 18 a 20 de março de 2014

RIBEIRO, Isa Paula Zacarias. As Praças de Cultura no Governo Djalma Maranhão.


Dissertação (Mestrado em História): Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal,
2008.

SILVA, Marcos. 1964 e Outras Correntezas (Um Coração nas Trevas) in Câmara Cascudo,
Dona Nazaré de Souza & Cia. Natal: EDUFRN, 2007, p.183.

SILVA, Wesley Garcia Ribeiro. A Cidade como Arena Política: Cultura Política e Espaços
Urbanos na Cidade do Natal (década de 1960). Encontrado em:
http://periodicos.ufpb.br/ojs/index.php/srh/article/view/12446, acesso em 22/11/2013.

SOUZA. Bernadete de Lourdes Queiroga. A Praça André de Albuquerque/Natal-RN, na


Visão de Seus Frequentadores. Dissertação (Mestrado em Psicologia): Universidade
Federal do Rio Grande Do Norte Natal, 2004.

WEFFORT, Francisco Correia. O Populismo na política brasileira. Rio de Janeiro: Paz e


Terra, 1978.

ISBN: 978-85-62707-55-1
189 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
UFMG, Belo Horizonte – 18 a 20 de março de 2014

O Movimento de Cultura Popular do Recife (MCP) nos autos dos Inquéritos


Policiais Militares (IPMs) produzidos pelo Regime Militar Brasileiro (1964-
1985)

Fábio Silva de SOUZA


Mestrando em História Social na FFLCH-USP. Pesquisa financiada pela FAPESP
fabiosilvads@yahoo.com.br

Os caminhos da repressão
Para abordar a abrupta interrupção das atividades do Movimento de Cultura Popular
do Recife, é pertinente alagarmos o escopo e contemplarmos outros olhares sobre os
motivos que levaram os militares, quando da instauração do Golpe Civil-Militar, a
interromper aquela experiência cultural no dia 31 de março de 1964. Sem nenhuma
pretensão de realizar, stricto sensu, uma exegese da lógica do ethos conservador da
sociedade pernambucana de meados do século XX, cabe realizarmos nossas reflexões
buscando responder uma questão. Por que os empreendimentos educacionais e culturais do
MCP se configuravam em ameaça aos promotores do Golpe de 1964?

Embora possa parecer acaciana, uma assertiva precisa ser retomada: o conflito entre
grupos sociais com projetos distintos de sociedade e de cultura era o maior problema do
Brasil nos idos dos anos 1960. Desse modo, a resposta para a nossa pergunta deve ser
buscada naquilo que mais refletia o estado de espírito daqueles anos. Ou seja, como a
cultura anticomunista dos militares procurava criminalizar os projetos que colocavam em
xeque um sistema de artes, de leis e costumes e de ordem social que privilegiava um
pequeno nicho abastado da sociedade, característica ainda mais forte em regiões
empobrecidas do Brasil, como o Nordeste.

Nesse sentido, a partir dos IPMs instaurados após o Golpe para investigar a atuação
política e cultural do MCP, buscaremos destacar o ponto de vista dos militares no que tange
àquela experiência. Esse caminho vai nos conduzir a melhor compreender quais eram as
preocupações das elites conservadoras acerca daquela nova forma de conceber a
sociedade brasileira levada a cabo pelos militantes em cultura do MCP.

A produção da culpa
Em 1967, foi publicado pela editora do Exército brasileiro (BibliEx) o terceiro volume
da coleção de livros que apresentava de forma didática as conclusões do inquérito policial
militar (IPM) sobre as atividades comunistas no Brasil. Tratava-se de mais um livro da
coleção organizada pelo coronel Ferdinando de Carvalho, cujo objetivo era levar ao grande

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190 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
UFMG, Belo Horizonte – 18 a 20 de março de 2014

público a visão dos militares acerca da efervescência política e cultural do período anterior
ao golpe de 31 de março de 1964.1

Nesse volume, foram abordados os seguintes temas: os meios de propaganda


comunista; a imprensa comunista; o Jornal Novos Rumos; a movimentação de rua; greves;
A Tática da Frente Única; O Partido Operário Revolucionário Trotskista (PORT); A Política
Operária (POLOP); A Ação Popular (AP); O Movimento Unificado da Revolução Brasileira
(MURB) e o Movimento de Cultura Popular do Recife. Esse estudo apresentava as
representações realizadas pelo Exército brasileiro sobre a “subversão” em cada uma dessas
organizações, com especial destaque ao MCP.

O intuito de vincular todos os movimentos de esquerda, independente de sua matriz


ideológica, ao termo genérico “comunismo”, contribuiu para que o MCP fosse alvo de outras
investigações desencadeadas pelos militares. Em 1967, portanto, mesmo ano em que foi
publicado o terceiro volume do relatório geral do IPM-709, o Conselho Permanente de
Justiça Militar aceitou denúncia contra dezoito pessoas arroladas em inquérito sobre as
atividades do movimento estudantil em Pernambuco no pré-golpe. Também nesse IPM, cujo
objetivo era investigar as “atividades prejudiciais e perigosas à segurança nacional, dentro
das normas, princípios e técnicas do Partido Comunista” (IPM – UNE – UBES /
Pernambuco. Op. Cit. p. 02), o MCP foi alvo de investigações.

Com base no IPM 709-3, bem como no IPM da UNE-UBES/Pernambuco, como


também eram conhecidos os referidos inquéritos, desenvolveremos algumas reflexões
acerca do lugar histórico legado ao MCP pelos militares golpistas que puseram fim ao

1
“Ferdinando de Carvalho, nascido em 21/08/1918. Formado em 1962 no curso de Estado Maior e
Comando das Forças Armadas (CEMCFA) da Escola Superior de Guerra (ESG), integrava o corpo
permanente da ESG por ocasião do movimento político-militar de 1964. A sua permanência como
coronel responsável pelo IPM do PCB causou uma série de problemas. Ele era identificado com a
“linha dura” e estava interessado em comprovar as ligações de Negrão de Lima (governador recém-
eleito pelo Estado da Guanabara no ano de 1965) com o comunismo. Por conta disso, houve conflito
entre setores militares que defendiam a permanência de Negrão de Lima, criando impasses entre a
Presidência da República e a comissão de investigação militar. Finalmente, depois de inúmeras
discussões entre a cúpula militar, Ferdinando de Carvalho solicitou a prisão do governador ao STM,
em resposta à ordem que recebera do governo de concluir as investigações. Com essa ordem, o
governo pretendia encerrar o IPM nº 709 como um instrumento de opressão contínua nas mãos da
“linha dura”. Ao pedir a prisão preventiva do governador eleito, Carvalho também ignorou a
advertência de Costa e Silva (então ministro da Guerra) aos encarregados de inquéritos no sentido de
que não tomassem medidas isoladas capazes de retardar as providências a serem tomadas até o
desfecho das investigações. O pedido de prisão foi julgado improcedente. Posteriormente, a
tendência que se impôs para resolver as dificuldades que o governo enfrentava com a “linha dura” foi
a do apaziguamento, sendo mantidos os comandos de unidades na Guanabara e confirmando o
coronel Ferdinando na chefia do IPM do PCB. Desse modo, o coronel foi considerado um
“especialista” na repressão ao comunismo, sendo promovido a general de brigada em 1973.” Cf.
verbete do Dicionário histórico brasileiro pós-1930, 2. Ed., Rio de Janeiro, FGV, 2001 apud CZAJKA,
2013: p. 247.

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regime democrático brasileiro, ao depor o presidente João Goulart (1961-1964).2 Essa tarefa
propõe trazer à tona como os militares viam aquela ebulição política e cultural, além de
identificar os elementos que os militares elegiam como “subversivos”, bem como discutir
como os militares lidaram com esses projetos e atores político-culturais após o golpe. Ao
considerarmos os IPMs uma investigação cujo resultado é buscado intencionalmente e com
clara consciência dos seus fins, nossas análises partirão das acusações que os militares
imputaram ao movimento pernambucano, bem como do argumento que fundamentava
essas inculpações.3 Esse procedimento nos conduzirá a compreender a cultura militar
anticomunista e de que forma o MCP se apresentava como uma ameaça ao projeto
encampado pelos militares em 31 de março de 1964.4 Dito isso, passemos a analisar o
conceito e a finalidade dos IPMs.

O IPM era um instrumento de investigação criminal, cuja finalidade era apurar a


existência e autoria de um delito militar. Ou seja, seu objetivo versava em criar um conjunto
probatório de elementos à propositura penal ou tão somente indícios que possibilitassem o
Ministério Público Militar apresentar denúncia, ou arquivamento da ação penal à autoridade
judiciária. Esses procedimentos foram estabelecidos pelo decreto-lei 6.227 de 24 de janeiro
de 1944. De acordo com o referido decreto, as imputações eram essencialmente
direcionadas aos militares das Forças Armadas que cometessem crimes definidos em lei, no
entanto, havia dispositivos legais em que civis poderiam ser investigados e indiciados por
IPMs.

À época do golpe, esses dispositivos eram fundamentados partir do art. 82 do


Código da Justiça Militar; do art. 108, § 1º da Constituição de 1946; bem como pela Lei de
Segurança Nacional, em vigor desde 1935. Nessas leis, qualquer cidadão, militar ou não,
comprovada sua culpa em crimes contra a segurança externa do país e/ou contra as
instituições militares era passível de ser investigado e indiciado em foro especial de
competência militar. Fora com base nessas prerrogativas que, a partir de 1964, os IPMs
foram utilizados de forma indiscriminada pelos militares golpistas para investigar, prender e
indiciar qualquer cidadão que se indispusesse contra a ordem ditatorial estabelecida.

Dito de outra forma, essas normas caracterizaram-se como uma espécie de “sinal
verde” para que os militares instaurassem, em qualquer tempo, contra qualquer pessoa e/ou
instituição, um IPM. Desse modo, embora a lei não previsse, os inquéritos foram utilizados
2
Ver, a respeito do Golpe de 1964, os trabalhos de RIBEIRO, 2013; BARRETO, 2004.
3
Os argumentos que desenvolvemos neste capítulo, intenciona destacar como o mecanismo da
“repressão preventiva”, foi utilizado pelo Regime Militar para criminalizar o MCP. Essa perspectiva se
fundamenta nas ideias elaboradas por Marionilde Dias Brepohl acerca da lógica da suspeição no pós-
golpe. Ver, a respeito da lógica da suspeição durante o Regime Militar brasileiro, BREPOHL, 1997.
4
A respeito da cultura anticomunista dos militares, trabalhamos a partir das definições elaboradas por
MOTTA, 2002.

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durante o Regime Militar como um instrumento de tutela da sociedade e de repressão


política sobre cidadãos e movimentos sociais. Isso significava que, no contexto da Guerra
Fria em que os militares cerraram as fileiras ideológica e política ao lado dos EUA, os
grupos que não comungassem com essas opções deveriam ser vigiados, criminalizados e
expurgados do convívio social.

Se no transcurso normal de uma investigação criminal a figura do indiciado, pessoa


sobre a qual recaem as investigações, só passava à condição de réu quando concluso os
autos e comprovada sua culpa em algum delito, na dinâmica constituída pelos militares a
partir de 1964, os indiciados já respondiam aos IPMs na condição de réus, cuja culpa só
precisava ser formalizada em documento, conforme deixava claro o Ten. Cel. Manoel Costa
Cavalcanti, presidente do IPM UNE-UBES/Pernambuco: “na realização do IPM que me é
atribuído, não abrirei mão de nenhuma prerrogativa que o CJM me faculta, inclusive as
possíveis prisões preventivas que julgar necessárias” (IPM – UNE – UBES / Pernambuco.
Op. Cit. p. 03).

Não estando presos a nenhuma espécie de normatização quanto à elaboração dos


inquéritos, os encarregados dos IPMs não faziam distinção entre discricionariedade e
arbitrariedade, dirigindo suas investigações como bem lhes conviessem. Nossa
argumentação se fundamenta no fato da convicção da culpa dos investigados serem
elaboradas antes mesmo das investigações começarem, conforme esse excerto de texto do
IPM 709-3:

A agitação e a propaganda são tarefas consideradas como permanentes e


fundamentais na vida partidária dos comunistas. Todo militante é sempre
um agitador, um propagandista ou ambas as coisas. Essa obrigação é
incutida de modo tão sistemático na mentalidade dos comunistas que se
torna um encargo natural, uma tendência constante e indefectível. É através
dessas atividades que os membros do Partido Comunista praticam o
proselitismo, angariam simpatizantes, mobilizam grupos para a ação e
aperfeiçoam suas convicções e capacidade de liderança (Inquérito Policial
Militar nº 709-3. O comunismo no Brasil: a agitação e a propaganda. Rio de
Janeiro: 3.v. Biblioteca do Exército Editora, 1967.)

Nesses termos, uma assertiva nos parece sintomática: o IPM não tinha o mero
caráter de uma instrução provisório à ação penal. O conjunto de provas obtido pelos
militares, independente de sua natureza, era considerado isoladamente e como sendo
idôneo para a elucidação de possíveis crimes. Sendo assim, suficiente para produzir a
convicção de culpa perante o juiz. Isso significava que as provas produzidas pelos inquéritos
embasavam de forma exclusiva as sentenças condenatórias levadas a cabo pela justiça
militar. Portanto, não havendo espaço para o contraditório, para a ampla defesa dos

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indiciados, depreende-se que os IPMs instaurados durante o Regime Militar brasileiro


excediam seus objetivos de busca da existência e autoria do delito militar prescrito em lei.
Suas investigações, bem como a produção de provas serviam, fundamentalmente, à
criminalização dos indiciados.5 No caso do IPM, um movimento de ação cultural, o crime
estava ligado ao conceito de “agitação”, condição para a subversão da ordem e inerente ao
militante, conforme denota o trecho acima.

A “subversão” do MCP nos IPMs: 709-3 e UNE-UBES/Pernambuco


Na visão construída pelos militares acerca do MCP, o movimento pernambucano
tinha como objetivo: “empreender uma impregnação ideológica coletiva de elementos
ignorantes, de frações incultas do povo, criando grandes possibilidades para mobilização
dessa gente, moralmente preparada para a aceitação de motivações subversivas” (Inquérito
Policial Militar nº 709-3. O comunismo no Brasil: a agitação e a propaganda. Op. Cit. p. 565).
Em torno dessa tese, os militares fundamentaram todo o conjunto de suas argumentações
no sentido de criminalizar a aliança governo municipal-intelectual-povo proposta pelos
intelectuais do MCP. Desse modo, dedicaremos esta parte do nosso estudo à análise dos
argumentos que fundamentaram essa tese nos respectivos IPMs.

A caracterização realizada do MCP nos referidos inquéritos era permeada por


concepções anticomunistas. Para os militares, as práticas culturais e educativas
desenvolvidas pelos militantes daquele movimento visavam, por um lado, à propaganda dos
ideais marxistas, de outro, à agitação revolucionária. Esse esforço empreendido pelos
militares em vincular o método e a finalidade do processo educativo do movimento
pernambucano à propaganda e à agitação partia da associação dessas práticas à definição
do teórico marxista Vladimir Lênin sobre esses dois conceitos.

Por propaganda entenderíamos a explicação revolucionária de todo o


regime atual ou de suas manifestações parciais, prescindindo de sabermos
se isto se faz em forma acessível sòmente a algumas pessoas ou para as
grandes massas. Por agitação, no sentido estrito da palavra (sic!)
entenderíamos o apelo dirigido às massas para a intervenção revolucionária
direta do proletariado na vida social (LÊNIN, Vladimir. Que Fazer? Apud
Inquérito Policial Militar nº 709-3. O comunismo no Brasil: a agitação e a
propaganda. Op. Cit. pp. 03-04).

Desse modo, a agitação e a propaganda foram apresentadas nos IPMs como sendo
a sensibilização dos setores populares em torno de uma determinada ideia. Uma espécie de

5
Para um detalhamento mais acurado sobre diretrizes formais da instauração dos IPMs durante o
Regime Militar, sugerimos a leitura de CZAJKA, 2010.

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194 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
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convite ao levante das paixões as mais calorosas das massas urbanas e camponesas.
Embora possa parecer que não haja nenhum tipo de nuança interpretativa nessa
argumentação, frisamos por um lado que, na ótica dos militares, o perigo não estava só em
despertar as paixões das massas, mas também, nos motivos da mobilização e de sua
decorrente ação social, e por outro, o latente desejo de criminalizar as ações do MCP pelas
suas possíveis vinculações ao comunismo internacional.

Analisemos de que forma essa argumentação embasava a criminalização do MCP:

A aliança estudantil-operária-camponesa foi incentada, através de métodos


de alfabetização nitidamente subversivos, onde se fazia incutir no homem
do campo o ódio de classe, inspirados na desigualdade social. Foi, dêsse
modo, promovido o incitamento da classe operária-camponesa, por meio de
campanha de alfabetização popular, cuja finalidade precípua era a
doutrinação dos princípios Markxistas-Leninistas (sic), com a incitação
constante do ódio de classe e pregação da violência, conforme se observa
pelos ensinamentos contidos na "Cartilha Proibida"[...], no "Livro de Leitura
para Adultos"[...] entre outros meios de ensinamentos subversivos
abordados no presente inquérito (IPM – UNE – UBES / Pernambuco. Op.
Cit. p. 05).

O teor da citação nos informa que para os militares, os métodos utilizados pelo MCP
fundamentavam-se, essencialmente, na sobreposição da ideologia de fundo marxista aos
processos de ensino. Para eles, os procedimentos de ensino-aprendizagem eram utilizados
como uma corrente de transmissão para a doutrinação política dos setores populares de
Pernambuco. Em matéria de agitação e propaganda, não existia nada comparável no
território brasileiro, no entendimento dos militares exposto a partir dos IPMs.

Para demonstrar concretamente o que o regime militar localizava como “subversivo”


na obra do MCP, passemos a examinar um trecho de uma “sondagem” para seleção do
corpo de professores das escolas do Movimento:

1. Assinale ao lado o que achar conveniente:


Quando você alfabetiza adultos prefere partir de:
– palavras
– sílabas
– letras, ABC. etc.
– sentenças ou frases
Por que essa preferência?
Porque acha?
mais rápido
mais interessante para os alunos

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mais fácil de ser usado pelo professor


2. Você acha que num programa de educação de
Adultos é suficiente apenas ensinar
a ler
a escrever
a cantar
ou que outras coisas acha que deve ensinar?
3. Para que você acha que serve realmente ao homem
adulto, operário, camponês, etc., saber ler e escrever?
4. Você sabe que em cada 10 brasileiros, há 6 que não sabem ler. Parece
urgente educar e alfabetizar essa grande quantidade que é a maioria do
povo.
Talvez seja difícil. Talvez seja impossível. Talvez seja desnecessário.
Talvez não seja preciso tanta pressa. Talvez não compense gastar tanto
dinheiro do país em alfabetizar adultos.
Que acha você?
5. Você acha que na maioria dos casos os operários camponeses, etc., estão
desejando alfabetizar-se?
Se desejam, por que e para que?
Se não desejam como despertar o interesse deles para isso.
6. Que acha você do andamento das coisas no Brasil?
Uns dizem que êle caminha para o desenvolvimento.
Outros: que só com a ajuda do estrangeiro poderá melhorar;
Que tudo vai bem e algo precisa mudar VOCÊ
a) que acha?
b) algo deve mudar? O que? Como?
c) Algo deve permanecer? O que? Por que?
7. Você acha que a educação de um povo ajuda a ele
Se desenvolver e a enriquecer? Por que?
8. Diga alguma das crendices ou superstições mais encontradas no pessoal
do seu lugar.
Você crê em alguma delas?
Quais?
9. Você acha que a natureza surgiu espontâneamente
ou que seu 1.º material foi criado por alguma fôrça?
Esclareça seu pensamento a esse respeito.
10. Você acredita que o homem pode modificar a natureza ou que esta é
inalterável?
11. Você acha que o homem pode desenvolver satisfatòriamente a sua própria
natureza (inteligência, sensibilidade, vontade)
– inteiramente entregue a si, sozinho?
– ou melhor quando em contato com outras pessoas?

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196 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
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Por que?
12. Você acha que, havendo possibilidade, seria melhor educar ou ensinar às
pessoas.
– individualmente (uma por uma) Por que?
– em grupos. Por que?
13. Você acha necessário criar um programa de educação de adultos para
Pernambuco especialmente, ou acha mais prático trazer um, já em uso
noutro Estado e aplicá-lo aqui?
Por que?
14. Se lhe coubesse sugerir aos Pôderes Públicos medidas indispensáveis à
proteção da saúde dos habitantes de sua localidade, que sugeriria de mais
6
urgente?

Arrolada nos IPMs como único processo de seleção do professorado do MCP, os


militares utilizaram esse material para indicar que ali estava montado um sistema de
perguntas que contribuía para determinar a filiação ideológica, as convicções políticas e
suas tendências em relação ao socialismo dos futuros professores. Essa estratégia visava
demonstrar a subserviência do movimento pernambucano aos preceitos do PCB, bem como
do PCUS (Partido Comunista da União Soviética). Mas não como formuladores teóricos que
recrutavam novos militantes. Os militares entendiam o MCP, dos principais dirigentes aos
estagiários, como divulgadores das formulações teóricas definidas pelo Comitê Central do
Partido Comunista Brasileiro. Como vimos, o MCP era plural, mas essa pluralidade não foi
levada em conta na hora de nomear todo o leque da esquerda que atuava no Movimento,
como “comunista”, o que, por si, era indicativo de culpa e subversão.

Nessa perspectiva dos militares, entretanto, não existia liberdade ideológica nas
fileiras do movimento pernambucano. Todos os seus empreendimentos estavam
subordinados às necessidades e aos interesses do comunismo, cujo objetivo, segundo
argumentos constantes nos IPMs, versava em depreciar a ordem estabelecida por meio da
manipulação da alfabetização dos setores populares. No cerne dessa ideia estava a
intenção de caracterizar o processo de educação desenvolvido pelos militantes do MCP,
como uma estratégia, uma espécie de técnica criada, tão somente, para ampliar o campo de
ação da propaganda e da agitação daqueles que eram tidos como comunistas.

Cumpre-se destacar que embora esses argumentos pautados pelo anticomunismo


não fossem uma exclusividade legada ao MCP, conforme exposto pelo Cel. Ferdinando de
Carvalho na introdução ao primeiro volume do IPM-709:

6
Trecho de sondagem Apud Inquérito Policial Militar nº 709-3. O comunismo no Brasil: a agitação e a
propaganda. Op. Cit. pp. 573-575

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197 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
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Não quisemos que essa investigação tivesse apenas um sentido punitivo,


uma expressão coatora, em benefício da integridade institucional do País. A
ação judicial contra elementos isolados no quadro amplo do movimento
esquerdista no País tem menos importância do que o conhecimento
acurado da técnica de ação, das bases do proseletismo, das formas sub-
reptícias das alianças criminosas que se realizam nas brechas da
legalidade, na sombra da corrupção protetora.
Estamos convencidos de que a melhor defesa contra o comunismo está na
consciência esclarecida de cada pessoa, na percepção realista das
possibilidades nacionais, no pratriotismo indeclinável que não se submete
(...) (IPM-709, vol. 1, p. 2 Apud SOUZA, 2009.)

Essa argumentação ganhou mais força nas inculpações direcionadas àquele


movimento porque as atividades por ele desenvolvidas foram encaradas pelos militares
como fruto de uma “frente-única” das esquerdas pernambucanas. Isso significava que todos
os temas trabalhados na alfabetização de crianças e adultos eram tidos como “subversivos”,
uma vez que os militares conseguiam ligar até o tema mais despretensioso a alguma
organização de esquerda, o que por sua vez eles entendiam como sendo “comunista”. De
todos os modos, os militares buscavam construir uma imagem de que o MCP tinha como
principal propósito a destruição antipatriótica, pela criação e desenvolvimento do complexo
da insatisfação, do ódio e da revolta dos setores populares.

Como prova evidente da intensa propaganda e agitação “subversiva” promovida pelo


MCP, os inquéritos arrolavam uma expressiva amostra das atividades desenvolvidas pelo
movimento pernambucano. Nelas, tentou-se demonstrar os pormenores do trabalho que
visava, na ótica expressa pelos inquéritos, o persistente e inflexível intuito de moldar as
mentes dos trabalhadores rurais e urbanos analfabetos da sociedade pernambucana.
Vejamos uma dessas atividades, bem como os argumentos utilizados para criminalizá-la:

1 Risque o que você achar certo.


a) Povo é tôda a população de um país.
b) Povo são apenas aquelas pessoas produtoras de bens materiais.
c) Povo é a classe social econômicamente elevada.
d) Povo é o conjunto de classes, camadas e grupos sociais empenhados na
solução objetiva das tarefas de desenvolvimento progressista do país em
que vive.
2. Assinale o que achar correto:
O Brasil é um país:
( ) Desenvolvido
( ) Independente
( ) Socialista
( ) Agrícola
( ) Dependente econômicamente
( ) Subdesenvolvido
( ) Capitalista

1. Que significam essas iniciais:


SESP

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198 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
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CONSINTRA
EEUU
SUPRA
SUDENE
URSS
IAA
IAPI
UNE
CODEPE
SAI
2. Numere a segunda coluna de acôrdo com a primeira
(01) Democracia ( ) Govêrno de uma classe
(02) Reforma de Base ( ) Grupo de pressão popular
(03) Revolução ( ) Forma de governo
(04) CGT ( ) Govêrno do Povo
(05) IBAD ( ) Partido político
(06) PTB ( ) Mudança lenta de estrutura
(07) Presidencialismo ( ) Grupo de pressão internacional
(08) Ditadura ( ) Transformação parcial da estrutura
(09) Evolução ( ) Obstáculo ao desenvolvimento do país
(10) Imperialismo ( ) Transformação rápida da estrutura (...)

Vale a pena destacarmos mais uma vez essa atividade dentre todas as que foram
arroladas pelos IPMs. A partir dela, observamos com mais nitidez o distinto caminho trilhado
pelas interpretações que os militares desenvolviam acerca do comunismo e seus objetivos
nas obras do MCP. Analisemos as inculpações:
Essa prova, demonstra em seu texto claro, o sentido político subversivo do
Movimento de Cultura Popular, em virtude da base esquerdista e comunista
do seu material e dos seus processos de ensino.
A terminologia usada, as definições sugeridas, as idéias que procura
desenvolver, os assuntos encarados, todos os aspectos, em suma, que
podemos encontrar nesse documento significativo demonstra a sua
vinculação comunista (...) (Atividade do programa educacional do MCP
Apud IPM 709-3. Op. Cit., p.570 -572).

Conforme indica essa citação, não havia nenhum tipo de tergiversações. Todos os
argumentos procuravam associar as atividades do MCP ao comunismo, sinônimo de traição,
crime de lesa-pátria e subversão da ordem social e das tradições “cristãs”. O documento
analisado pelos militares mudava, mas a interpretação, como algo já viciada, era a mesma –
o MCP era um instrumento da propaganda ideológica comunista. E foi nesse sentido que as
resoluções dos inquéritos caminhavam. Na ótica dos militares, as condições de atraso e
pauperismo da Região Nordeste contribuíam para a infiltração das ideias bolchevistas no
território brasileiro. Sendo necessário barrar toda e qualquer experiência que contribuísse
para “insuflar um ideal revolucionário” nos setores menos abastados daquela sociedade.
Desse modo, cortar os laços de uma determinada intelectualidade de esquerda com os
setores populares fazia-se imprescindível ao projeto levado a cabo pelo Golpe Civil-Militar
em 31 de março de 1964. No próximo item, analisaremos, pormenorizadamente, a

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199 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
UFMG, Belo Horizonte – 18 a 20 de março de 2014

estratégia encampada pelos militares no sentido de associar os projetos e as atividades do


MCP àquilo que eles entendiam como “frente única das esquerdas pernambucanas”.

Os militares e o temor do “Zé Ninguém”


Para os militares, uma coisa lhes parecia certa, o “processo de comunização”
dependia de um pressuposto básico: a organização das camadas populares. Desse modo,
não cabia entender os projetos do MCP em termos lógico-formais. O que lhes interessava,
ao fim e ao cabo, era barrar os projetos cuja finalidade era fortalecer os anseios de mudança
das camadas oprimidas política e socialmente pela ordem vigente à época.

Como consequência da perspectiva de que a organização das massas era a


premissa básica para a “comunização”, os empreendimentos do MCP eram pensados e
interpretados a partir de uma ideia central. Os projetos educativos eram tidos como
exemplos de atividades que visavam à implantação de uma sociedade “comunista”. Nessa
chave de interpretação, o MCP teria como ponto de partida organizar sistemas e
sistematizar ideias, cuja finalidade seria colocar as camadas populares nas mãos dos
“emissários dos interesses do comunismo internacional”, sejam eles instituições, partidos
políticos ou qualquer outra organização de esquerda. Ou seja, os militantes em cultura
daquele movimento trabalhavam como agentes de controle ideológico, como reguladores de
valores e conhecimentos, cuja função era ratificar tudo aquilo que servisse ao ideário de
dominação política, econômica e social daqueles que eram entendidos como “comunistas”.

Dito isso, vale a pena entendermos essa leitura realizada pelos militares a partir dos
próprios empreendimentos do MCP. Para esse fim, vejamos o que versava seu hino,
simbólica fonte das principais diretrizes seguidas pelo movimento.

Onde homens houver que não saibam


O que a todos se deve ensinar,
um punhado de luz lavaremos
porque a Pátria nos manda levar.
Luta vã não será nossa luta,
oh! Humildes obreiros da paz,
pois, se a infância de luz não tivestes,
mesmo tarde uma infância se faz.

Côro Desde os cerros longínquos ao mangue,


vêde um povo aprendendo, de pé,
uma língua de heróis, esta língua
com seus cantos de luta e de fé

Este canto é de quantos desejam


uma Pátria celeiro de luz.
Uma terra sem campos de fome,
mas, de fortes à sombra da cruz.
É um grito de fé aos que dormem,

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200 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
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esquecidos de um povo que sua


ao encontro de pão, que não acha,
e à procura de um lar pelas ruas.

Côro Desde os cerros longínquos ao mangue, etc...

Mas, se um dia, as falanges do mal


Contra nós suas armas mover,
Por maior que se faça em perfídia
Não nos pode um covarde vencer.
Somos raios na luta e na paz,
- homens de aço de luzes na mão -,
Ao marchar a cultura levamos,
Popular e sublime à Nação. [...]

Ao desdobrar concretamente as questões implícitas a essa poética, observamos tudo


quanto, ironicamente, os militares condenavam como “inspiração comunista” nas atividades
desenvolvidas pelo MCP. O principal ponto a se destacar seria o esforço de repor uma
educação verdadeiramente democrática no circuito normal da vida dos setores menos
abastados da sociedade pernambucana, cujo objetivo seria a melhoria das condições de
vida das camadas populares em detrimento dos privilégios da ordem estabelecida. Ou seja,
pensar a educação como a principal engrenagem para solucionar os problemas com que se
defrontava a subdesenvolvida sociedade pernambucana de meados do século XX.

Desse modo, ao considerar o relevante papel desempenhado pelos


empreendimentos do MCP no sentido de organizar as camadas populares criticamente, os
militares o elevaram a categoria de peça fundamental no processo de preparação da mais
ampla unidade de todas as forças que desejavam lutar por uma sociedade que refletisse as
aspirações de mudança do povo. Neste sentido, ajudaram, involuntariamente, a consolidar a
memória de um movimento cultural orgânico, coeso e convergente ideologicamente, sem
divisões internas, ideia esta que procuramos matizar ao longo desse artigo. Dessa forma, o
caráter “subversivo” que levou o MCP a ser temido e incriminado pelos militares
conservadores foi a sua orgânica ligação com as camadas populares encaradas como uma
notável potencia revolucionária no contexto político e social pernambucano. Na visão da
repressão, extinguindo-se a ação cultural sobre as massas, os conflitos e desníveis sociais
deixariam de ser percebidos como foco de instabilidade política e social. Neste sentido, os
militares também não teriam supervalorizado a cultura como produtora da ação política, tal
como os “esquerdistas” que tanto temiam?

Referências

1) Fontes

Autos do IPM UNE – UBES/PERNAMBUCO. V. Iº/5. 1965.

ISBN: 978-85-62707-55-1
201 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
UFMG, Belo Horizonte – 18 a 20 de março de 2014

Inquérito Policial Militar nº 709-3. O comunismo no Brasil: a agitação e a propoganda. Rio de


janeiro: 3.v. Biblioteca do Exército editora, 1967.

2) Bibliografia

BARRETO, Túlio Velho; FERREIRA, Laurindo. (Orgs.). Na trilha do golpe: 1964 revisitado.
Recife: Massangana, 2004.

CZAJKA, Rodrigo. Os IPMs e a construção da subversão nos meios intelectuais no Brasil.


In: REIS FILHO, Daniel Aarão; ROLLAND, Denis (Orgs.). Intelectuais e modernidades. Rio
de Janeiro: FGV, 2010, p. 223-246.

Dicionário histórico brasileiro pós-1930, 2. Ed., Rio de Janeiro, FGV, 2001 apud CZAJKA,
Rodrigo. “A LUTA PELA CULTURA”: Intelectuais comunistas e o IPM do PCB. In:
Napolitano, Marcos; CZAJKA, Rodrigo;

Marionilde Dias Brepohl. A lógica da suspeição: sobre os aparelhos repressivos à época da


ditadura militar no Brasil. Revista Brasileira de História, vol. 17, nº 34, São Paulo, 1997.

MOTA, Rodrigo Patto Sá. (Orgs.). Comunistas brasileiros: cultura política e produção
cultural. Belo Horizonte: EDUFMG, 2013, v. 1, p. 247.

MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Em guarda contra o “Perigo Vermelho”: o anticomunismo no


Brasil (1917-1964). São Paulo: Perspectiva, FAPESP, 2002.

RIBEIRO, David. Da crise política ao golpe de estado: conflitos entre o poder executivo e o
poder legislativo durante o governo João Goulart. 2013. 231 f. Dissertação (Mestrado em
História Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São
Paulo, São Paulo. 2013.

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A disputa pelo significado de guerrilha durante os governos militares brasileiros


(1964-1985): considerações preliminares

Fabrício TREVISAN
Mestre em História pela UNESP-Franca
fabricio_trevisan@yahoo.com.br

O presente texto tem por objetivo contribuir com estudos e pesquisas acerca da
reconstrução do passado recente do Brasil, especialmente no que condiz ao período dos
governos militares brasileiros (1964-1985). A temática de assuntos relacionados com Estado
autoritário que vigorou no país por mais de vinte anos, especificamente em relação à
preservação da memória de indivíduos que foram alvos da repressão e sofreram com a
tortura, bem como, aos familiares que reivindicam os desaparecimentos e/ou mortes de
entes queridos, está em voga atualmente. Podemos elencar diversos fatores que
contribuíram para tornar esta discussão sempre presente: a ascensão à presidência da
República de Dilma Rousseff, ex-guerrilheira da Vanguarda Armada Revolucionária-
Palmares (VAR-Palmares); a constituição de núcleo de preservação da memória dos que
lutaram contra os militares, em parceria com o Arquivo Nacional, denominado Centro de
Referência das Lutas Políticas no Brasil – “Memórias Reveladas”; a instituição da Comissão
Nacional da Verdade (CNV) que irá trabalhar no sentido de elucidar (e não punir) violações
dos Direitos Humanos por órgãos governamentais de 1946 a 1988, com ênfase no períodos
dos governos militares brasileiros; e a reestruturação dos prazos de disponibilização de
documentos considerados “secretos” oriundos dos órgãos de repressão e informação
durante o regime militar.

Acrescentamos a questão da popularização de Carlos Marighella, um dos principais


líderes da guerrilha, por meio de filmes e canções, tais como um documentário sobre a vida
do ex-guerrilheiro lançado em agosto de 2012, bem como o rap “Mil Faces de Um Homem
Leal – Marighella” do grupo Racionais Mc’s. Com a democratização da Internet, a
divulgação de materiais como este se tornou mais abrangente, portanto contribuindo para
um maior acesso de informações, geralmente não transmitidas por veículos de comunicação
tradicionais. Por outro lado, em relação à disponibilização dos arquivos, há uma
determinada resistência por parte de setores das Forças Armadas no sentido de emperrar a
abertura de arquivos específicos, provavelmente, os que contém informações que podem
apontar aspectos que desagradariam os militares, no sentido de expor nomes de oficiais
ainda vivos envolvidos em crimes considerados como violação dos Direitos Humanos.
Ainda, notamos que determinados segmentos da sociedade civil procuram relativizar os
crimes cometidos durante a ditadura, como, por exemplo, o texto da “ditabranda” publicado

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203 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
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no editorial1 do jornal Folha de São Paulo, em fevereiro de 2009. O tema era sobre Hugo
Chávez e seu poder no controle do Estado venezuelano, o qual foi comparado com os
governos militares no Brasil, classificando-os e equivalendo-os como “ditabrandas”,
expondo, de certa maneira, a versão oficial dos militares em relação às atitudes tomadas
pelo regime.

Mais recentemente, uma estudante de Direito, ex-militante do partido Democratas


2
(DEM) , pretendeu (re)fundar a Aliança Renovadora Nacional (ARENA) com intuito de elevar
a moral da política brasileira e criar um espaço de união para eleitores “nacionalistas e
conservadores”3, os quais, atualmente, não conseguem se identificar ideologicamente com
outros partidos. De qualquer forma, a divulgação de tais documentos proporcionariam uma
possível investigação (objetivo da CNV) e punição de prováveis culpados e, no âmbito
acadêmico, novas abordagens nos estudos inéditos e circunstanciais sobre o período. Como
historiadores, compreendemos a importância de debater e discutir um “passado que não
passa” como indagou Hugo Vezzetti (2009) devido a assuntos considerados “pendentes”
relacionados a história recente de nosso país, como por exemplo a temática levantada por
nossa pesquisa.

Neste sentido, a disputa pelo significado de guerrilha inflama debates na sociedade.


A discussão gira em torno no sentido de caracterizar se os indivíduos que lançaram mão da
luta armada contra a ditadura eram guerrilheiros ou terroristas. Convém notar que, nos anos
dos governos autoritários militares, o termo guerrilheiro comportava significados diferentes.
Para os adeptos da esquerda, ser guerrilheiro era bom; tinha conotação de pessoa
comprometida com a democracia, alguém disposto a se sacrificar pelo país. Já o governo
instituído tentava associar guerrilha à violência, ao terror. Atualmente, a dita direita venceu a
disputa pelo imaginário do termo, já que a opinião pública agora equipara guerrilheiros a
terroristas. Sendo assim, de nada adianta os membros das Forças Armadas Revolucionárias
da Colômbia, as FARCs, por exemplo, insistirem em afirmar que são guerrilheiros e não
terroristas, uma vez que a sociedade em geral equivale os termos. Salientamos que não
estamos, de modo algum, julgando e/ou defendendo a atuação das FARCs, apenas
enfatizamos esse exemplo para explicitar a atualidade do tema do qual tratamos e, mais
uma vez, demonstrar como as questões do historiador partem de seu presente.

1
O editorial da Folha de São Paulo não leva a assinatura de nenhum jornalista específico, portanto a
opinião é oriunda de toda a redação, ou melhor, da cúpula política-administrativa do jornal.
2
Torna-se necessário frisarmos que a essência político-partidário do DEM é oriundo da própria
ARENA. Este último foi o partido de sustentação do regime militar.
3
O “nacionalismo conservador” foi representado pelo Partido de Reedificação da Ordem Nacional
(PRONA) de caráter fascista por volta de 20 anos no Brasil.

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Os governos militares brasileiros tiveram início em 1964, por um golpe de Estado (o


então presidente civil e eleito democraticamente João Goulart foi deposto) conduzido por
militares com respaldo de setores civis, como empresários e tecnocratas (DREIFUSS,
1981). O Estado brasileiro foi dominado pelas Forças Armadas (ao todo foram cinco
governos presididos por generais do Exército) até 1985. Para compreendermos a
problemática que envolve o golpe de Estado de 1964, devemos nos remeter à conjuntura
sociopolítica de instabilidade que o Brasil atravessava no início do decênio de 1960. A
tensão sociopolítica que pairava sobre a nação era alimentada pela influência externa,
disputas estratégicas e conflitos indiretos exercidos pela União Soviética e pelos Estados
Unidos na chamada Guerra Fria; e, principalmente, pelas transformações ocorridas na
mentalidade das Forças Armadas englobando o seu próprio modus operandi perante a
política, bem como a sociedade civil. Tais transformações foram inspiradas a partir do
convívio do Exército brasileiro com o Exército estadunidense durante a II Guerra Mundial.

Assim, podemos transpor a teoria em nosso contexto do golpe de Estado


comandado pelas Forças Armadas e, consequentemente, a institucionalização ocorrida no
decorrer dos governos militares brasileiros. O aperfeiçoamento jurídico do regime para
incluí-lo na legalidade, garantindo assim, legitimidade perante a sociedade civil foi,
basicamente, realizado por meio de Atos Institucionais - AI(s) e Atos Complementares -
AC(s) na Constituição vigente. No entanto, os que tentassem suplantar as fronteiras
jurídicas eram transportados para um espaço “inconscientemente” institucionalizado pelas
mesmas – a tortura física e mental dos considerados subversivos4.

Retomando à temática do golpe de Estado em si, faz-se necessário abordarmos as


principais causas de seu acontecimento e, consequentemente, versar sobre a confluência
entre militares e segmentos da sociedade civil na participação do ato ocorrido em 1964. Tais
características estão intrinsecamente conectadas com o profissionalismo da “nova carreira
militar”.

Sobre o assunto, a cientista política Maria Helena Moreira Alves (1984), em sua obra
intitulada Estado e Oposição no Brasil (1964-1984), revela-nos que a composição de
recursos para a constituição do Estado militar estava sendo desenvolvida há tempos no
âmago das Forças Armadas nacionais. No exórdio do decênio de 1960 foi organizada uma
complexa estrutura de coleta de informações, tanto por instituições civis, tais como o
Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática

4
Qualquer ação oriunda de apenas um único indivíduo ou um grupo que pudesse se tornar pública a
fim de descaracterizar o governo, na concepção do mesmo, era considerado como um ato
subversivo, uma subversão. Dessa forma, portanto, após o golpe de Estado em 1964, toda e
qualquer pessoa poderia ser considerada como um “subversivo em potencial”, sendo sujeito à prisão
e, se necessário, à tortura e à coerção.

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205 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
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(IBAD); como por organizações militares, tal como a Escola Superior de Guerra (ESG). Este
esquema tinha o intuito de aperfeiçoar, cada vez mais, a Doutrina de Segurança Nacional
(DSN).

A DSN possibilitou subsídios para a sustentação do Estado militar, tendo como maior
expressão nacional o general Golbery do Couto e Silva, coordenador responsável pela
principal tarefa atribuída ao complexo ESG/IPES/IBAD: a de criar e implantar eficazes redes
de informação consideradas imprescindíveis para a instalação de um Estado centralizado e
que estivesse de acordo com os novos preceitos militares. Golbery foi apontado por Alves
(1984: 35-46) como o mais influente teórico brasileiro do Exército. Em suas obras,
grandemente utilizadas pela ESG, o general desenvolveu o conceito de vários tipos de
guerras, preocupando-se em compor estratégias que informassem a melhor maneira de
lutar contra os “inimigos internos” e a “pressão psicológica” (SILVA, 2001, p.105).

O golpe civil-militar de 1964 teve considerável oposição, materializada e ramificada no


movimento estudantil, sindicatos, partidos clandestinos e organizações guerrilheiras. No
entanto, toda oposição aos governos militares é considerada, neste trabalho, como parte da
esquerda nacional, independente das concepções políticas dos grupos que as tenham
efetuado. Explica-se: por mais que uma seção da oposição não estivesse conectada com o
ideário de valores tipicamente comunistas ou com ideologia similar, a conjuntura global, que
obviamente influenciava o contexto brasileiro das décadas de 60, 70 e 80 do século XX, era
bipolarizada entre a União Soviética e os Estados Unidos. Em vista disso, para a
participação efetiva do processo político, era necessário escolher um caminho: ou de
esquerda, ou de direita. Levando em consideração essa bipolarização para a sociedade
nessa época de controle militar do Estado brasileiro, a oposição ao regime era de esquerda,
e os que o apoiavam eram de direita. Não pretendemos, nem vamos apresentar um longo
debate acerca dos conceitos direita e esquerda, entretanto consideramos necessário tecer
algumas considerações que vão ao encontro de Norberto Bobbio (1995, p.31):

“Direita” e “esquerda” são termos antitéticos, reciprocamente excludentes e


conjuntamente exaustivos. São excludentes no sentido de que nenhuma
doutrina ou nenhum movimento pode ser simultaneamente de direita e de
esquerda. E são exaustivos no sentido de que, ao menos na acepção mais
forte da dupla, uma doutrina ou um movimento podem ser apenas ou de direita
ou de esquerda.

Consideramos que o significado de uma palavra ultrapassa o conjunto de um simples


conceito, sendo assim visualizamos a temática guerrilha além da definição linguística do
termo. Em nossa opinião, a guerrilha deve ser estudada enquanto discurso, ou seja, como

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parte de uma construção histórica na qual diferentes grupos disputaram a propagação de


suas opiniões como verdadeiras. Foi a partir dessa disputa de significados entre oposição e
governo que queremos compreender o imaginário político da época em questão.

No tocante ao arco temporal, a disputa pelo significado de guerrilha na esfera do


imaginário político, pois é neste momento, de 1964 a 1969, durante os governos dos
marechais Humberto de Alencar Castello Branco e Arthur da Costa e Silva, que o governo
civil-militar promoveu uma série de procedimentos (contra atos ditos subversivos), tais como
prisões arbitrárias de importantes líderes políticos, estudantes e sindicais; censura entre os
meios de comunicação; proibição de manifestações contra o governo; dentre outros, a fim
de não permitir que a sociedade pudesse obter conhecimento da existência de uma
quantidade considerável da população brasileira que era contrária aos rumos que o governo
conduzia o país. Em contrapartida, a oposição (os que não foram presos nos primeiros
momentos após o golpe) tentava se rearticular após serem tomados “de surpresa” pelo
movimento civil-militar golpista.

A disputa pelo significado de guerrilha pode ser percebida, em nossa opinião, por meio
do embate discursivo entre a direita e a esquerda, não apenas durante os governos de
Castello Branco (1964-1967) e Costa e Silva (1967-1969), mas durante todo o período em
que o militarismo esteve no controle do Estado brasileiro. No entanto, faz-se essencial
endossar que ambos os grupos políticos carregaram uma densa pluralidade de aspectos,
elementos e sentidos que não nos permitem, como já apontado acima, categorizá-los
apenas como ideológicos. Logo, o objetivo de nossa pesquisa é analisar a incompatibilidade
de identidade entre a tradição rural representada pela teoria da guerrilha no campo e as
práticas urbanas dos guerrilheiros no Brasil pós-64.

A documentação selecionada e investigada, visando atender nossos objetivos, foi


composta por três grandes partes organizadas: 1) o corpus documental que nos permite
analisar os significados de guerrilha difundidos pela esquerda (organizações armadas de
oposição ao governo); 2) o testemunho que revela as concepções de guerrilha propagados
pela direita (governos militares instituídos em 1964); e 3) as fontes que informam sobre as
ideias de ambos os grupos.

Em relação às concepções da esquerda, temos acesso a diversos textos compostos


pelo conhecido militante Carlos Marighella. Dentre eles, há o Manual do Guerrilheiro
Urbano, escrito e “publicado” (mimeografado) clandestinamente em 1969. Nesse manual,
Marighella propõe diretrizes a serem seguidas por guerrilheiros essencialmente urbanos,
principalmente àquelas relacionadas à ideologia, ao modo de vida citadino, à subsistência, à
preparação técnica dos membros, bem como da utilização das armas. Por meio das

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207 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
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diversas informações contidas nesse manual é que acreditamos poder compreender a


identidade própria da guerrilha em manifestações urbanas. Além disso, podemos inferir
sobre a dicotomia entre o discurso teórico e a prática política da esquerda armada nacional
que possuía o intuito de derrubar os militares do governo do país.

Outro livro que demonstra as concepções da esquerda sobre a conjuntura da época


são os Escritos de Carlos Marighella, publicado em 1979 pelo extinto Editorial Livramento,
que reúne uma compilação de textos do mesmo autor. Este livro tem em seu conteúdo
textos de temáticas diversas, mas com um mesmo propósito: denunciar os malefícios
(segundo o autor) da ditadura – em sua esfera interna e externa – explicitando suas causas
e quem, supostamente, estaria dando sustentação para o regime. Outra temática abordada
neste livro pelo ex-militante da ALN também demonstra quais os meios e métodos (luta
armada e guerrilha) eram necessários para derrubar a “gorilada” – termo usado por
Marighella ao se referir aos militares governistas.

Não temos conhecimento do critério para a escolha de determinados escritos nessa


compilação, entretanto, em nossa interpretação, afirmamos que o mais importante em 1979
não era escolher a temática “X” ou “Y”, mas sim divulgar a maior quantidade de material da
esquerda possível, uma vez que esses estudantes não obtinham em mãos uma gama
espessa de textos devido à repressão e a censura impostas pelo governo.

Sendo assim, percebemos que Marighella faz considerações acerca do momento


político e socioeconômico que o Brasil atravessava nas décadas do militarismo e sugeriu
soluções para o que ele entendia como “crise” por meio da luta armada contra o Estado
militar. Em síntese, em toda a sua obra, Carlos Marighella afirma que o sistema capitalista
era o “grande mal” e deveria ser substituído pelo socialismo sendo que, naquele momento, a
derrubada da ditadura era imprescindível para alcançar o êxito proposto por meio de ações
armadas via guerrilha.

Quanto à documentação proveniente da direita, selecionamos os discursos,


pronunciamentos e entrevistas dos cinco presidentes militares, a saber: o marechal
Humberto de Alencar Castello Branco (1964-1967), o marechal Arthur da Costa e Silva
(1967-1969), o general Emílio Garrastazu Médici (1969-1974), o general Ernesto Beckmann
Geisel (1974-1979) e o general João Batista de Oliveira Figueiredo (1979-1985) – todos
procedentes do Exército Brasileiro.

Ainda como hipótese-investigativa desse estudo, pretendemos demonstrar um aspecto


específico por meio de uma branda comparação. Apesar dos documentos oriundos da
direita serem do mesmo contexto histórico da esquerda, os militantes oposicionistas tinham
pela frente inúmeros obstáculos devido a censura e repressão do governo; sendo assim, o

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material proveniente da esquerda não tinha a mesma divulgação e disseminação dos


discursos presidenciais. Em nossa interpretação, o poder de fogo da esquerda em relação à
divulgação e propagação de sua ideologia era ínfimo. A diferença em relação à direita (o
governo civil-militar e seus aliados e simpatizantes) era gritante, como já mencionado acima.

Assim, trabalhar com os escritos oriundos da esquerda, os quais foram compostos


pelos seus próprios militantes (no nosso caso Carlos Marighella), impõe um cuidado maior –
uma preocupação cautelosa e extremamente específica com essa singularidade que o
documento traz em relação a sua origem (quando foi escrito), sua impressão (a obtenção de
um local seguro em que haja uma máquina que se possa utilizar, de preferência sem custos
ou de baixo custo) e, posteriormente, a divulgação, propagação e recepção desse material –
justamente no sentido de tentar divulgar ao máximo, visando ampliar seu poder de alcance.

Dessa forma, temos consciência de que se trata de documentos carregados de


ideologia – assim como todos os são; entretanto, somente o discurso da esquerda ficou
conhecido por seu alto teor panfletário. Faz-se necessário apontar que também
classificamos os discursos dos “generais-presidentes” como panfletagem, no entanto, este
termo é mais comumente utilizado quando se trata da propaganda procedente da esquerda.
Acreditamos que todos os documentos históricos devam ser analisados com cautela, visto
que são imbuídos de opiniões e ideias de seus autores. A propaganda de determinada
concepção e a estratégia de convencimento de um discurso é perceptível em vários
documentos e não somente daqueles produzidos pela esquerda.

Interpretamos nossa documentação como discurso, pois se trata de um conteúdo de


carga ideológica de cada grupo (direita e esquerda). Os grupos são formados por indivíduos
que carregam um complexo de ideias, opiniões, valores e que, enquanto confraria,
concretizam as relações que fortalecem a convergência a um determinado grupo
sociopolítico e cultural. Portanto, o conteúdo ideológico presente em discursos por nós
utilizados, manifestando-se no ideário de cada agremiação, assume uma função de tentativa
de subjugação simbólica. Neste sentido, Helena Hathsue Nagamine Brandão (2004, p.28-
29) reforça nossa concepção ao ponderar sobre a legitimidade almejada para consolidar o
exercício de autoridade de cada grupo. Sobre esta correlação de forças, destacamos:

A linguagem enquanto discurso não constitui um universo de signos que


serve apenas como instrumento de comunicação ou suporte de
pensamento; a linguagem enquanto discurso é interação, e um modo de
produção; ela não é neutra, inocente e nem natural, por isso o lugar
privilegiado de manifestação da ideologia. [...] a linguagem é lugar de
conflito, de confronto ideológico, não podendo ser estudada fora da
sociedade, uma vez que os processos que a constituem são histórico-
sociais (Brandão, 2004, p.11).

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Todavia, apesar de nos referirmos ao termo discurso, convém informar que não
pretendemos fazer análise do discurso propriamente dita. Consideramos algumas de suas
abordagens oriundas do alongamento do debate sobre análise do discurso e atualmente
consideradas com a denominação genérica de análise de conteúdo, expressão que
incorpora elementos para além da Linguística.

Com o intuito de atingir o objetivo proposto consideramos que a análise da


documentação necessita de um suporte metodológico. O respectivo apoio é proveniente da
análise de conteúdo, pois esta proposta desenvolve um conjunto de instrumentos
metodológicos e possibilidades de técnicas, em constante aperfeiçoamento, que se aplicam
a discursos extremamente diversificados, como no presente estudo. Dessa forma, nossa
documentação concebe uma multiplicidade de discursos, pois, como apontado, trabalhamos
com os discursos oficiais dos presidentes, textos oriundos da esquerda e um processo-crime
que abarca distintas concepções por um viés absolutamente singular. Segundo Laurence
Bardin (2002: 10) a Análise de Conteúdo auxilia o investigador, em nosso caso historiador,
no esforço de interpretação de qualquer mensagem, pois “qualquer comunicação, isto é,
qualquer transporte de significações de um emissor para um receptor, controlado ou não por
este, deveria poder ser escrito, decifrado pelas técnicas de análise de conteúdo” (Bardin,
2002: 32. Grifo nosso).

Ressaltamos no excerto supracitado a possibilidade de influência na transmissão de


uma mensagem. Sobre essa intenção de controle discursivo, duas são as preocupações
gerais: “o número de pessoas implicadas na comunicação e a natureza do código e do
suporte da mensagem” (Bardin, 2002, p.33). Dessa maneira, deferindo ao sugerido pelos
estudos da análise de conteúdo, dividimos os discursos presidenciais em quatro tipos,
atendendo às categorias propostas por uma das técnicas dessa metodologia: a análise
categorial.

A técnica consiste em classificar os diferentes elementos nas diversas


gavetas segundo critérios suscetíveis de fazer surgir sentido capaz de
introduzir uma certa ordem na confusão inicial. É evidente que tudo
depende, no momento da escolha dos critérios de classificação, daquilo que
se procura ou que se espera encontrar (Bardin, 2002, p.37).

Como “critério de classificação”, propomos as seguintes categorias de conformidade


com o público alvo: 1) a nação, ou seja, a sociedade em geral; 2) aos militares, ou seja,
qualquer grupo de oficiais das Forças Armadas; 3) a administração, ou quaisquer grupos

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ligados ao governo federal, estadual ou municipal, tais como o Congresso Nacional e as


assembleias legislativas estaduais; e 4) a um público específico, tal como a população de
algum determinado município, um discurso em alguma ocasião festiva (como o aniversário
de uma empresa) ou a fala destinada aos funcionários de certa instituição.

Compreender para quem se fala é importante para analisarmos as concepções de


guerrilha, uma vez que, parece-nos óbvio, aquele que fala pretende estabelecer certa
comunidade de sentido em nome da compreensão. Assim, um “general-presidente” não
falará da mesma forma em um pronunciamento a nação e em um discurso em um clube
militar, por exemplo.

O espaço de disputa entre a direta e a esquerda (via discurso) se dá pelo imaginário.


O imaginário se caracteriza como um conceito plural (podendo haver diversos
“imaginários”), cujas representações políticas disputam a supremacia ou soberania
simbólica, pois as representações tendem a ser “universais”. Neste sentido, Bronislaw
Baczko (1985, p.310) afirma que “o imaginário social é, pois, uma peça efetiva e eficaz do
dispositivo de controle da vida coletiva e, em especial, do exercício da autoridade e do
poder. Ao mesmo tempo, ele torna-se o lugar e o objeto dos conflitos sociais”.

Dessa forma, encontramos um ponto crucial na questão do imaginário: a legitimidade


do poder. Como mencionamos acima, para exercer domínio sobre um determinado grupo
social (através dos discursos), é imprescindível ter um posicionamento respaldado pela
sociedade, pois

O poder tem necessariamente de enfrentar o seu arbitrário e controlá-lo


reivindicando uma legitimidade [...] O poder estabelecido protege a sua
legitimidade contra aqueles que a atacam, quanto mais não seja pondo-a
em dúvida. Imaginar uma contra-legitimidade, um poder fundado numa
legitimidade diferente daquela que se reclama a dominação estabelecida, é
um elemento essencial do acto de pôr em causa a legitimidade do poder.
Estes conflitos só são “imaginários” no sentido em que tem por objecto o
imaginário social, ou seja, as relações de força no domínio do imaginário
colectivo, e em que exigem a elaboração de estratégias adaptadas as
modalidades específicas desses conflitos (Baczko, 1985, p.310).

Diante do exposto, podemos compreender que o imaginário cria espaços de disputas


por um determinado significado (conceito) o que, em nosso trabalho, corresponde ao
conceito de guerrilha que tanto a esquerda como a direita defrontaram-se através dos
discursos e por confrontos diretos, a fim de exercer influência perante a sociedade. Portanto,
essa disputa pelo imaginário acarreta a formação de específicas culturas políticas, as quais
são perceptíveis a partir de atores sociais e políticos (individuais e coletivos) que vivem em

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constante estado de correlação de forças. Tal embate almeja a imposição de sua vontade a
outras pessoas e grupos políticos.

Em contextos e fenômenos políticos particulares, a soma dessa correlação de forças –


expressas nas mais diversas formas de representações verbais, discursivas, iconográficas,
gestuais, etc. – formariam, assim, a cultura política de uma determinada época e contexto
histórico. Em outros termos, a Cultura Política passou a ser entendida, segundo Ângela de
Castro Gomes (2005, p.29), como uma

[...] compreensão dos sentidos que um determinado grupo (cujo tamanho


pode variar) atribui a uma dada realidade social, em determinado momento
do tempo. Um conceito capaz de possibilitar a aproximação com uma certa
visão de mundo, orientando as condutas dos atores sociais em um tempo
mais longo, e redimensionando o acontecimento político para além da curta
duração.

Gomes (2005, p.28) acredita que o conceito de cultura política concebe uma
considerável abrangência de interpretações e explicações das concepções políticas de
“atores individuais e coletivos, privilegiando suas percepções, suas lógicas cognitivas, suas
vivências, suas sensibilidades”.

Dessa forma, portanto, a Cultura Política pode se manifestar de maneira concreta por
meio de projetos de sociedade, projetos de Estado, pela leitura compartilhada de um
passado comum ou pelo posicionamento em relação às culturas políticas estrangeiras.
Metodologicamente, o documento passa a ser visto como outro acontecimento, uma
materialidade construída por camadas sedimentares de interpretações, tornando-se um
objeto histórico discursivamente construído, influenciado pela intervenção subjetiva de seu
narrador.

O conceito de Cultura Política ganhou novos horizontes, abarcando de forma mais


complexa as relações sociais e as relações de poder, próprias da dinâmica social, sendo a
cultura política definida genericamente como um sistema de representações que permite ao
pesquisador a compreensão dos sentidos que um determinado grupo atribui ou atribuiu à
sua realidade social.

Este sistema de representações é concebido como um elemento construído ao longo


do tempo, com especificidades cronológicas próprias e únicas, e que não exclui a
possibilidade de mudanças em sua sistêmica, dada as transformações materiais, relacionais
e até tecnológicas que podem ocorrer na realidade social vivida.

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Enfim, apontamos neste trabalho concepções preliminares do que pretendemos


desenvolver em nossa pesquisa, o que é caracterizada pela disputa de significados de
guerrilha entre a direita e a esquerda, disputa esta caracterizada, mais especificamente pela
construção dos significados, e não propriamente um confronto prático.

Referências

1) Documentação

Discursos, pronunciamentos e entrevistas dos presidentes Humberto de Alencar Castello


Branco (1964-1967), Arthur da Costa e Silva (1967-1969), Emílio Garrastazu Médici (1969-
1974), Ernesto Beckmann Geisel (1974-1979) e João Batista de Oliveira Figueiredo (1979-
1985). – Arquivo da Biblioteca do Planalto (Brasília/DF).

MARIGHELLA, Carlos. Escritos de Carlos Marighella, São Paulo: Editorial Livramento, 1979.

MARIGHELLA, Carlos. Manual do Guerrilheiro Urbano, São Paulo, 1969 (Documento


digital).

2) Bibliografia

ALVES, Maria Helena Moreira. Estado e oposição no Brasil (1964-1984), Petrópolis: Vozes,
1984.

BACZKO, Bronislaw. Imaginação Social. Enciclopédia Einaudi (Anthropos-Homem), Lisboa:


Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1985.

BARDIN, Laurence. Análise do Conteúdo, Lisboa: Edições 70, 2002.

BOBBIO, Norberto. Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política, São
Paulo: Editora UNESP, 1995.

BRANDÃO, Helena Hathsue Nagamine. Introdução à análise do discurso, Campinas:


Unicamp, 2004.

DREIFUSS, René Armand. 1964: a conquista do Estado. Ação política, poder e golpe de
classe, Petrópolis: Vozes, 1981.

GOMES, Ângela de Castro. História, historiografia e cultura política no Brasil: algumas


reflexões. In: BICALHO, Maria Fernanda Baptista, GOUVÊA, Maria de Fátima Silva;
SOIHET, Rachel. Culturas Políticas. Ensaios de história cultura, história política e ensino de
história, Rio de Janeiro: MAUAD, 2005.

SILVA, Márcia Pereira da. Em busca do sonho: História, Juventude e Repressão. Franca,
1960-1970, Montes Claros: Unimontes, 2001.

VEZZETTI, Hugo. Sobre la violencia revolucionaria: memórias y olvidos, Buenos Aires: Siglo
Veintiuno, 2009.

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Memória de segunda geração no documentário brasileiro recente

Fernando SELIPRANDY
Doutorando em História social pela USP
seliprandy@usp.br

Estas análises partem da constatação de que, desde 2010, começam a surgir no


Brasil alguns documentários que trazem um olhar de segunda geração para a memória da
ditadura. Filmes dirigidos por filhas ou sobrinhas de ex-militantes, ou que contam com sua
participação direta na abordagem do passado autoritário.
A hipótese é que hoje esses documentários de “segunda geração” aos poucos
começam a constituir um corpus no Brasil. A pergunta que se coloca é se haveria alguma
especificidade intrínseca ao fato de esses filmes serem realizados por diretores de “segunda
geração”, que não protagonizaram os episódios do passado narrado.
É verdade que, em 1996, o pioneiro curta-metragem 15 filhos (Maria Oliveira e Marta
Nehring) já trazia as vozes de filhos de militantes torturados, desaparecidos e assassinados.
Mas apenas nos anos mais recentes essas vozes de segunda geração adensaram sua
presença no documentarismo brasileiro, a princípio dando mais espaço ao foco íntimo e
familiar na abordagem da história.
Em Diário de uma busca (Flavia Castro, 2010), a diretora-filha tenta desvendar as
condições da morte do pai, Celso Castro, ex-militante de esquerda, refazendo ao mesmo
tempo a trajetória de exílio da família.
Em Marighella (Isa Grinspun Ferraz, 2011), a diretora, sobrinha do líder guerrilheiro,
reúne os testemunhos que reconstituem a vida do tio.
Repare bem (Maria de Medeiros, 2012) traz o depoimento de Eduarda Ditta Crispim
Leite, filha de Eduardo Collen Leite, o “Bacuri”, em sua tentativa de construir uma imagem
do pai assassinado pela ditadura.
A diretora de Os dias com ele (Maria Clara Escobar, 2013) é filha do intelectual
Carlos Henrique Escobar, de quem tenta extrair, em um jogo de perguntas e esquivas, o
testemunho sobre a experiência passada do pai.
No filme Em busca de Iara (Flavio Frederico, 2013), Mariana Pamplona, sobrinha de
Iara Iavelberg, conduz as entrevistas acerca da vida e da morte da tia militante.
É claro que essa vertente atual do documentarismo brasileiro não está isolada das
cinematografias de outras partes. De fato, há hoje uma tendência global do documentário
contemporâneo à intimidade. No contexto sul-americano, é forte a produção documental
dedicada às ditaduras realizada por filhos ou familiares próximos de vítimas do
autoritarismo, notadamente na Argentina e no Chile, mas também no Uruguai e no Paraguai.

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Nesse campo, muitas análises evocam a noção de pós-memória para caracterizar


esses documentários. A noção foi proposta por Marianne Hirsch no contexto estadunidense
de rememoração do Holocausto pela geração posterior àquela que foi vítima do horror.
A apropriação da noção de pós-memória gerou polêmicas na Argentina. Beatriz Sarlo
criticou frontalmente a própria necessidade teórica dessa noção. Segundo a autora, a
fórmula da pós-memória não seria mais do que o resultado da “inflação teórica”
contemporânea, fruto de um gesto teórico “mais amplo que necessário” (SARLO, 2007, p.
95). Afinal, conforme argumenta:

Mas mesmo caso se admita a necessidade da noção de pós-memória para


descrever a forma como um passado não vivido, embora muito próximo,
chega ao presente, é preciso admitir também que toda experiência do
passado é vicária, pois implica sujeitos que procuram entender alguma
coisa colocando-se, pela imaginação ou pelo conhecimento, no lugar dos
que a viveram de fato. Toda narração do passado é uma representação,
algo dito no lugar de um fato. O vicário não é específico da pós-memória.
(SARLO, 2007, p. 93, grifos da autora).

Todavia, para além das apropriações locais e da crítica teórica à noção, o que diz
Marianne Hirsch sobre a pós-memória? Em artigo de 2008 intitulado “The generation of
postmemory”,1 a autora dedica-se de modo mais metódico a definir o termo. Hirsch – ela
mesma filha de sobreviventes do Holocausto – reconhece de saída que o debate está
pontuado por controvérsias. Afinal, ela escreve: “O que está em questão é precisamente a
‘salvaguarda’ de um passado traumático pessoal e geracional com o qual alguns de nós
possuímos uma ‘conexão viva’, bem como o deslocamento desse passado para o campo da
história.” (HIRSCH, 2008, p. 104, tradução nossa). Para Hirsch, as polêmicas e mesmo a
profusão de termos voltados à definição do fenômeno da memória de segunda geração de
algum modo estão ligadas à contradição que lhe é inerente:

[…] que descendentes de sobreviventes (de vítimas, assim como de


perpetradores) de eventos traumáticos massivos conectam-se tão
profundamente com as lembranças do passado da geração anterior que
eles necessitam chamar tal conexão de memória e que, portanto, em certas
circunstâncias extremas, a memória pode ser transmitida para aqueles que
não estavam de fato lá para viver um evento. Ao mesmo tempo – e isto está
pressuposto –, essa memória recebida é distinta da lembrança das
testemunhas e dos participantes contemporâneos aos fatos. Daí a
insistência no “pós” ou “posterior”, além dos muitos adjetivos qualificativos
que tentam definir, de um lado, um ato de transferência especificamente
inter e transgeracional e, de outro, as duradouras sequelas do trauma.
(2008, p. 105-106, grifos da autora, tradução nossa).

1
Uma versão ligeiramente reformulada desse artigo foi posteriormente publicada em HIRSCH, 2012.

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A autora esclarece ainda que o prefixo “pós” não sugere meramente uma
posterioridade temporal. No fundo, ela afirma, a pós-memória compartilha as complexas
sobreposições da “era dos pós” que caracteriza a virada do século XX para o XXI, “refletindo
uma complicada oscilação entre continuidade e ruptura” (2008, p. 106, tradução nossa).
Enfim, após as ressalvas, Hirsch define o termo com as seguintes palavras:

Pós-memória descreve a relação que a geração posterior àquela que


testemunhou traumas culturais e coletivos carrega acerca da experiência
daqueles que vieram antes, experiências que eles “lembram” apenas por
meio das histórias, imagens e comportamentos em meio aos quais
cresceram. Mas essas experiências lhes foram transmitidas de modo tão
profundo e afetivo que parecem constituírem memórias de próprio direito. A
conexão da pós-memória com o passado não é, portanto, de fato mediada
pela lembrança, mas pelo investimento imaginativo, pela projeção e criação.
(2008, p. 106-107, grifo da autora, tradução nossa).

Até aqui, ressalvas e definições. Mas a autora se propõe em seguida a examinar os


três pressupostos que estruturam a formulação da categoria: memória, família e fotografia. É
justamente nesse ponto que os limites da noção de pós-memória começam a se esboçar.
Em sua defesa da manutenção do termo memória no contexto do fenômeno de
segunda geração, Hirsch reconhece que a “pós-memória não é idêntica à memória: ela é
“pós”, mas, ao mesmo tempo, aproxima-se da memória em sua força afetiva” (2008, p. 109,
tradução nossa). Para a autora, “a quebra na transmissão resultante de eventos históricos
traumáticos necessita de formas de rememoração que reconectem e reencarnem
(reembody) um tecido de memória intergeracional que foi rompido pela catástrofe” (2008, p.
110, tradução nossa). No fundo, tal é o papel da pós-memória:

O trabalho da pós-memória, eu quero sugerir – e esse é o ponto central de


meu argumento nesse ensaio – luta para reativar e reencarnar (reembody)
as estruturas de memória mais distantes (social/nacional e
arquivística/cultural) ao reinvesti-las com potentes (resonant) formas
individuais e familiares de mediação e expressão estética. (2008, p. 111,
grifos da autora, tradução nossa).

Hirsch insiste que aquilo que é “pós” é ainda memória justamente porque fica assim
destacada “essa presença da experiência corporificada (embodied) no processo de
transmissão”, sinalizando “um laço afetivo com o passado, precisamente o sentido de uma
‘conexão viva’ corporificada (embodied ‘living connection’)” (2008, p. 111, tradução nossa).
Quando se dedica ao pressuposto familiar da noção de pós-memória, Hirsch segue
ancorando seus argumentos em ideias ligadas ao corpo e à corporificação. Ela escreve: “A
linguagem da família, a linguagem do corpo: atos de transferência não verbais e não
cognitivos ocorrem mais claramente dentro de um espaço familiar, frequentemente na forma
de sintomas.” (2008, p. 112, tradução nossa). Mas agora essa memória corpórea, somática,

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216 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
UFMG, Belo Horizonte – 18 a 20 de março de 2014

tem também um sangue: “A perda da família, do lar, de um sentimento de pertencimento e


segurança no mundo ‘sangra’ de uma geração para a outra […].” (2008, p. 112, tradução
nossa). No fundo, para Hirsch, trata-se sempre de transmissão: “O idioma da família pode
se tornar uma lingua franca, facilitando a identificação e a projeção através da distância e da
diferença.” (2008, p. 115, tradução nossa).
Mas é na argumentação dedicada à fotografia que Hirsch deixa transparecer com
mais clareza sua confiança nas possibilidades de transmissão de uma memória palpável
entre as gerações. Pois nesse item, para além da conexão viva da memória e dos laços de
sangue, opera o nexo indicial da fotografia. Ela escreve:

Mas é a tecnologia da fotografia em si, e a crença na referência que ela


engendra, que conecta a geração do Holocausto com a geração posterior. A
promessa da fotografia de oferecer um acesso ao próprio evento, junto com
sua fácil suposição de poder icônico e simbólico, faz dela um meio
inigualavelmente poderoso para a transmissão de eventos que permanecem
inimagináveis. (2008, p. 107-108, tradução nossa).

Ou ainda:

Através do nexo indicial que une a fotografia a seu objeto (subject) – aquilo
que Roland Barthes chama o “cordão umbilical” feito de luz –, a fotografia
[…] pode aparecer para solidificar os tênues laços que são moldados pela
necessidade, pelo desejo e pela projeção narrativa. (2008, p. 111, tradução
nossa).

A fotografia, para Hirsch, é o ingrediente que traz à tona de maneira mais direta a
materialidade da pós-memória: “Ela nos permite, no presente, não apenas ver e tocar o
passado, mas também tentar reavivá-lo ao desfazer o caráter definitivo da ‘tomada’
fotográfica.” (2008, p. 115, tradução nossa). Tanto mais ao se tratar de uma fotografia de
família: “Diferentemente das imagens públicas ou das imagens da atrocidade, contudo, as
fotografias de família, bem como os aspectos familiares da pós-memória, tenderiam a
diminuir a distância, a recobrir a separação, além de facilitar a identificação e a afiliação.”
(2008, p. 116, tradução nossa). A fotografia, enfim:

[…] conserva uma dimensão ‘incorporativa’ (corporificada): como


documentos de arquivo que inscrevem aspectos do passado, as fotografias
suscitam certos atos corpóreos (bodily) do olhar e certas convenções do ver
e compreender que acabamos por tomar como dados, mas que moldam e
aparentemente reincorporam (reembody), tornam material o passado o qual
estamos buscando entender e receber. (2008, p. 117, tradução nossa).

A insistência nas citações de Marianne Hirsch até este ponto é proposital. Trata-se
aqui de prestar atenção aos pressupostos da noção de pós-memória, e não apenas de

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217 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
UFMG, Belo Horizonte – 18 a 20 de março de 2014

evocar o termo, como comumente ocorre nas análises dedicadas às obras de “segunda
geração”. Levando em conta a descrição que faz Hirsch das três premissas centrais de sua
proposição, chega-se a algumas conclusões. Quanto à defesa de que a pós-memória é
ainda uma memória, nota-se que o cerne do argumento é a capacidade da memória de
estabelecer uma “conexão viva” com o passado. No que toca ao aspecto familiar da pós-
memória, o foco da autora está nos laços carnais, consanguíneos. No que diz respeito à
função da fotografia nesse processo, evoca-se abertamente a força do nexo indicial da
imagem com o passado fotografado. Juntos, a conexão viva da memória, os laços
consanguíneos e o nexo indicial da fotografia seriam como que os elos da transmissão da
memória de geração a geração. Esses três elos, porém, estão fundados em uma concepção
demasiadamente objetiva da memória, uma espécie de reificação que faz daquilo que se
lembra algo com corpo, carne, sangue, matéria, uma coisa que pode ser vista, sentida,
tocada. Na pós-memória de Hirsch, a memória que se transmite é como uma herança
palpável que avança no tempo, sempre adiante, obturando a cisão do trauma, um dom ou
um fardo que, apesar dos pesares, as gerações seguintes recebem em suas mãos.
É claro que Marianne Hirsch não ignora a problemática da representação do trauma,
muito menos a da representação de um trauma vicário. Ela menciona os impasses e
encruzilhadas desse terreno, evocando os autores já clássicos, mas as balizas de sua
proposição seguem firmes até o fim. A fórmula que Hirsch apresenta para essa
problemática, os três elos da pós-memória, parece dar uma resposta demasiadamente
simples – e talvez por isso mesmo tão sedutora – sobre as possibilidades de transmissão de
uma memória que, a despeito de tudo, está atada a um referente bem concreto. Diante da
aporia da representação do trauma, Hirsch busca encontrar uma solução de objetividade,
descrevendo aquilo que seria palpável na transmissão geracional da memória.
Frente a esse limite conceitual, é importante voltar agora a atenção para as imagens
dos documentários. Dois exemplos servem aqui para se pensar o fenômeno da memória de
segunda geração no Brasil: Diário de uma busca (Flavia Castro, 2010) e Marighella (Isa
Grinspun Ferraz, 2011).
A princípio, pode-se ter a impressão de que se trata de dois filmes análogos. De um
lado, a filha que busca resgatar a memória da militância, do exílio, do retorno e da estranha
morte do pai. De outro, a sobrinha que reconstrói a história de vida, engajamento e
assassinato do tio líder guerrilheiro.
Os minutos iniciais de cada um desses filmes pode reforçar essa sensação. Afinal,
há um paralelismo evidente na primeira sequência dos documentários: as vozes em off das
diretoras que dizem em primeira pessoa “meu pai” ou “meu tio”; a alusão a um mistério em
torno dos personagens centrais; as inserções de fotografias e de notícias de jornal.

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Entretanto, apesar desses paralelismos iniciais, o desfecho de cada um dos filmes toma
rumos opostos.
Nos últimos minutos de Diário de uma busca, a diretora se expõe em sua fragilidade,
quando não consegue ler a carta do pai e chora diante da câmera e de seu entrevistado. No
fim, a voz off de seu irmão termina a leitura da carta, na qual o pai escreve sobre suas
dificuldades de adaptação no retorno do exílio, suas neuroses e sua angústia, sua
transformação em um “cara amargo”, cético, que reconhece sua fraqueza. No plano final, o
irmão e a irmã, que durante todo o filme discordaram sobre os rumos da narrativa, seguem
para lados distintos. Flavia fica só no quadro, os sinos tocam, escurece. Restam as
inquietações, as suspeitas, as incongruências.
No documentário Marighella, o desfecho tem um tom oposto, beirando o apoteótico.
Em um registro bem convencional das entrevistas, ilustradas por imagens de arquivo, as
testemunhas afirmam o heroísmo do “santo do socialismo”, “um dos melhores quadros
políticos do Brasil no século XX”, aquele que cometeu erros, sim, tal como os Inconfidentes,
os alfaiates negros da Bahia, como Frei Caneca, os camponeses de Canudos ou de Santa
Catarina. Erraram, mas o Brasil seria muito mais pobre sem eles. Os artifícios estilísticos da
busca e da intimidade, tímidos e esparsos ao longo do filme, não passam de recursos
ornamentais, um esforço de inserir-se no documentarismo contemporâneo empreendido por
uma diretora ainda aferrada às convenções do documentário convencional de entrevista. No
fundo, o “tio Carlos” nunca deixa de ser Marighella, o herói guerrilheiro.
A diferença de tom no desfecho desses filmes indica que a distância geracional é
cruzada de maneiras distintas em cada obra. A introspecção de Diário de uma busca em
alguma medida conota um distanciamento com relação ao horizonte épico que pautava o
engajamento político da primeira geração. Mas, como em Marighella, a segunda geração
pode buscar também uma aproximação, uma adesão à perspectiva épica, adotando um
olhar monumentalizante para o passado.
Concluindo, a dinâmica que atravessa a distância geracional é complexa. Há
diferenças entre o olhar de uma filha e de uma sobrinha, mas tais diferenças dizem respeito
também às opções estéticas e narrativas de cada obra. Vê-se que a “guinada subjetiva” no
documentário brasileiro contemporâneo sobre a ditadura não implica necessariamente o
abandono das convenções da monumentalização. O foco introspectivo e o olhar
monumental são observáveis ao mesmo tempo no interior da tendência brasileira atual dos
documentários de segunda geração.
É difícil identificar, portanto, uma característica intrínseca à memória de segunda
geração no documentário, uma qualidade “pós” que estaria na essência dessa memória, um
traço palpável que garantiria a transmissão em nova chave. Enfim, não há uma substituição

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em bloco do épico pelo íntimo. O que existe são distintas perspectivas, ou, antes, as
tensões de memórias que ainda seguem em aberto, 50 anos após o golpe.

Referências

HIRSCH, Marianne. The generation of postmemory. Poetics Today, Durham: Duke


University Press, 29:1, 2008. p. 103-128.

______. The generation of postmemory: writing and visual culture after the Holocaust. New
York: Columbia University Press, 2012.

SARLO, Beatriz. Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva. São Paulo: Cia.
das Letras; Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.

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Jornais e jornalistas mineiros: a censura na vigência do AI-5 (1968-1978)1

Flávio de ALMEIDA
Jornalista e pós-graduado em Culturas Políticas, História e Historiografia pela UFMG
flavioalmeida.bh@gmail.com

Introdução

O objetivo deste trabalho é estudar a censura política em jornais de Belo Horizonte


logo após a instauração do Ato Institucional nº5, o AI-5, e seus efeitos sobre a prática
profissional dos jornalistas mineiros. A censura política em São Paulo e no Rio de Janeiro
vem sendo investigada desde o final dos anos 1970 e já conta com conjunto de trabalhos
densos, caracterizados por análises sobre o papel de jornalistas e censores, os conflitos, as
capitulações, as negociações e concessões que marcaram as complexas relações entre
Estado e Imprensa durante o regime militar.

Entre esses estudos, destacam-se o de AQUINO (1999), KUSHNIR (2004) e SMITH


(2000). São Paulo e Rio de Janeiro são os estados de imprensa mais influente, o que, por si
só, explica o fato de que lá os embates tenham sido mais intensos. No eixo Rio-São Paulo
estavam estruturadas as redações dos veículos de maior penetração, tanto os da grande
imprensa quanto os da imprensa alternativa, submetidos com maior regularidade à censura
prévia – O Estado de São Paulo/Jornal da Tarde, Pasquim, Movimento, Opinião, O São
Paulo, Tribuna da Imprensa e Veja.

Entretanto, há poucos estudos específicos sobre a censura à imprensa de Belo


Horizonte. Um deles é o de RABELO (2007), que analisa como o jornal alternativo De Fato,
nascido na capital mineira em 1976, enfrentou a censura e a pressão do regime. Em suas
pesquisas sobre a imprensa mineira da época, CARRATO (1996) e CASTRO (1997)
abordam o tema de forma tangencial. Também merece menção o estudo de caso
desenvolvido por SILVA (2011) sobre a censura aos dois principais jornais de Montes
Claros, no Norte de Minas, feita por oficiais da Polícia Militar de Minas Gerais.

Este trabalho procurou identificar como a censura se incorporou ao cotidiano das


redações a partir da visão de profissionais que trabalharam na época em alguns dos
principais veículos da capital mineira. Foram entrevistados os jornalistas Acílio Lara
Resende (Jornal do Brasil), Adval Coelho (O Diário), Afonso Celso Raso (O Diário), Aloísio
Morais (Jornal de Minas e De Fato), Carlos Lindenberg (Estado de Minas e Veja), Dídimo
Paiva (Estado de Minas), Fábio Doyle (Diário da Tarde), José Mendonça (O Diário e O

1
Este trabalho é uma síntese de monografia defendida no curso de Especialização em Culturas
Políticas, História e Historiografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG em
fevereiro de 2014.

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UFMG, Belo Horizonte – 18 a 20 de março de 2014

Globo), Luiz Fernando Perez (TV Itacolomi e O Estado de São Paulo), Manoel Hygino dos
Santos (O Diário), Roberto Elísio (Estado de Minas) e Washington Melo (Diário da Tarde),
além do empresário Afonso Paulino.2

A história oral foi o principal recurso metodológico e seu emprego está associado a
duas motivações. De um lado, a escassez de documentos escritos sobre a censura em Belo
Horizonte. Uma das poucas fontes materiais é uma pasta do Dops guardada pelo Arquivo
Público Mineiro, que contém as primeiras instruções para aplicação do AI-5 e da censura na
imprensa mineira. Por outro lado, a história oral não pode ser vista como recurso
sobressalente ao qual se recorre apenas porque faltam referências escritas mais robustas..
Conforme argumenta LOZANO (1996, p.24), trata-se de ferramenta fundamental para
construir a experiência humana, principalmente quando esta tem a memória como elemento
essencial.

Manual de instruções

Pouco depois de baixar o Ato Institucional 5, em 13 de dezembro de 1968, o regime


militar estabeleceu os primeiros critérios para a sua aplicação em todo o país. Em Belo
Horizonte, a Infantaria Divisionária da 4ª Região Militar (ID-4) logo se encarregou de
distribuir instruções para a execução da censura. Um documento “reservado” de 16 de
dezembro de 1968 assinado pelo general Alvaro Cardoso, comandante da unidade militar, e
pelo coronel Gentil Marcondes Filho, chefe do Estado Maior de Coordenação, estabelece
regras básicas para o controle da imprensa na área de jurisdição da ID-4. No documento
(ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO, pasta 4153, rolo 055), encontrado no acervo do Dops, os
oficiais deixam explícitos os dois principais objetivos da empreitada: “Obter da imprensa total
respeito à Revolução de 64, que é irreversível e que visa à consolidação da democracia, e
evitar a divulgação de notícias tendenciosas, vagas ou falsas”.

Esse manual abrangia três campos: político, econômico e psicossocial. No primeiro


caso, as proibições envolviam “noticiário que incite a luta de classes e a desmoralização do
governo e das instituições”; notícias e declarações de cassados por meio de porta-vozes;
críticas aos atos institucionais e divulgação de notícias para o exterior, “capazes de
comprometer a imagem democrática do país”.

2
Por limitações de espaço, nem todos os entrevistados tiveram depoimentos registrados nesta
síntese. Pelo mesmo motivo, a análise está concentrada em Estado de Minas e O Diário, ficando de
fora os outros veículos que integram o trabalho original: Jornal de Minas, De Fato e as sucursais que
atuavam em Belo Horizonte na época.

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No campo econômico, a preocupação dos militares recaía sobre notícias capazes de


“tumultuar” os setores financeiros, comerciais e de produção e sobre o noticiário que
pudesse “comprometer a imagem econômica do país”. Já no que chama de “campo
psicossocial”, as instruções da ID-4 vedavam informações referentes a prisões ou a atos
decorrentes da censura, com exceção das fornecidas ou autorizadas pelas fontes oficiais;
proibiam a divulgação de notícias ou comentários que provocassem a “desarmonia” entre as
Forças Armadas e destas com os poderes da República ou com a opinião pública; impediam
a divulgação de notícias sobre atividades estudantis de natureza política, sobre subversão,
movimentos operários e greves; além de recomendar que fossem evitadas “manchetes
escandalosas” sobre subversões e greves e sobre filmes que retratassem movimentos
revolucionários em outros países.

As entrevistas feitas para este trabalho indicam dois caminhos que permitiram a esse
conjunto de normas chegar aos jornais belo-horizontinos. Um deles foi a distribuição pura e
simples nas redações, como se recorda Carlos Lindenberg, que trabalhou como repórter de
polícia e redator de primeira página do Estado de Minas.

Quando baixaram o AI-5, veio para as redações um telex de um metro de


comprimento, dizendo o que era o AI-5 em relação à imprensa. Tinha esse
documento e esse documento ficava pregado no quadro da redação do
Estado de Minas. Quase uma regulamentação do AI-5 para a imprensa. Eu
me lembro claramente. Era grande, quase um metro de telex. Estavam lá as
3
implicações, o que poderia o que não poderia.
Outra via de repasse dessas instruções foram as reuniões mantidas entre o comando
da ID-4 e os principais dirigentes dos jornais de Belo Horizonte, como se pode inferir dos
relatos dos entrevistados somados a pelo menos um registro feito por um jornal belo-
horizontino. Eles confirmam que unidades militares baseadas na capital mineira também
abrigaram encontros do gênero. Em sua edição de 14 de dezembro de 1968, O Diário, da
Arquidiocese de Belo Horizonte, informava que o presidente do jornal, Wilson Chaves,
estivera na sede da ID-4, junto com dirigentes de órgãos de imprensa da capital mineira,
para tomar “conhecimento das recomendações relativas à publicação e circulação dos
veículos de divulgação em nosso Estado”. (O DIÁRIO, 14/12/68, p.1)

A partir dali, reuniões como aquela se tornariam relativamente frequentes. O


jornalista Manoel Hygino dos Santos, à época diretor de redação e assistente da diretoria de
O Diário, não participou do encontro convocado logo após a deflagração do AI-5. No
entanto, foi escalado pela direção do jornal para representá-la nas outras reuniões, que ele
estima em “dez ou mais”, ocorridas em um período de dois anos, sempre na sede do

3
Entrevista com Carlos Lindenberg concedida em 18/04/2013.

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CPOR.4 O confronto de testemunhos dos jornalistas entrevistados para este trabalho com a
documentação reunida pelo APM sobre a censura permite supor que inicialmente o controle
da imprensa em Belo Horizonte foi feito pela ID-4 ou por unidades por ela designadas. O
jornalista Adval Coelho recorda-se, por exemplo, da presença de professores e instrutores
do CPOR na redação de O Diário5, enquanto seu colega Afonso Celso Raso informa que
nas primeiras edições logo após o AI-5 os originais do jornal eram levados à sede da ID-4,
onde havia um censor à espera do material. Posteriormente, diz ele, os censores, ligados ao
exército, passaram a frequentar a redação.6

O “grande jornal dos mineiros”: censor de si mesmo

Principal veículo de Minas Gerais, o Estado de Minas publicou, em sua edição de 14


de dezembro de 1968 editorial em que tentava justificar o ato mais extremo adotado pelo
regime, qualificando-o como uma medida fundamental para restabelecer a ordem instituída
em 1964.

(...) Os acontecimentos das últimas horas só serão compreendidos se


colocados no contexto do processo revolucionário de 31 de março; nos
aspectos afirmativos como nas deficiências desse processo (ESTADO DE
MINAS. Testemunho necessário. 14/12/1968)
Se criou transtornos econômicos, operacionais e até conflitos éticos para alguns
jornais brasileiros, a censura estabelecida pelo AI-5 não representou qualquer problema
para o autointitulado “grande jornal dos mineiros”. Na visão de CARRATO (1996, p.96-99), a
censura acabou se convertendo em álibi para o veículo não publicar assuntos considerados
inconvenientes aos seus interesses. A tese do colaboracionismo é corroborada por relatos
de jornalistas que trabalharam no veículo durante o regime militar. O testemunho de Roberto
Elísio, por exemplo, é indicativo de que o censor – um coronel, segundo suas lembranças –
teve pouco trabalho no curto período em que cumpriu expediente na redação.

Ele nunca mexeu em nada. Até porque o Estado de Minas foi muito
favorável ao golpe militar. Era quase porta-voz (...) O Estado de São Paulo
depois começou com uns ‘furinhos’ de independência e eles começaram a
censurar. O Estado de Minas, pelo menos enquanto eu fui editor de política,
7
nunca foi censurado [grifo meu].
Se a censura prévia ou presencial praticamente não deu o ar de sua graça no
principal jornal de Minas Gerais, como explicar a adesão quase incondicional às diretrizes
do regime militar? Além da vocação governista do jornal – historicamente o veículo sempre
se alinhou com o Palácio da Liberdade –, o Estado de Minas também foi alvo de um

4
Entrevista com Manoel Hygino dos Santos concedida em 17/06/2013
5
Entrevista com Adval Coelho concedida em 13/05/2013
6
Entrevista com Afonso Celso Raso concedida em 03/05/2013
7
Entrevista com Roberto Elísio. 18/04/2013

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fenômeno que impactou profundamente a noção de liberdade de pensamento e de imprensa


entre veículos e profissionais brasileiros: a autocensura.8 E se praticamente não houve
censura direta, in loco, dos agentes do regime, sobrou autocensura na redação do EM-DT,
principalmente a de natureza empresarial. Portanto, não é de se estranhar que jornalistas
como Roberto Elísio, editor de uma área estratégica para os interesses do regime, tenham
passado incólume pelo jugo da censura.

Eu acho até que desenvolvi uma espécie de autocensura. Eu sabia o que


agradava e o que não agradava os militares. Você não ia escrever: “o país
está dominado pela ditadura”. Isso, claro, não ia sair. Então, você não
9
escrevia mesmo.
Editorialista do jornal durante 45 anos, presidente do Sindicato dos Jornalistas de
Minas Gerais no triênio 1975-1978 e figura constantemente associada ao sindicalismo
renovado que varreu o país na segunda metade da década de 1970, Dídimo Paiva relata a
atenção que os diretores da publicação dispensavam aos editoriais que redigia. “Tínhamos
um cuidado danado. Diziam: ‘Cuidado com o editorial’. E eu respondia: ‘Mas o senhor vai
ler, uai’”.10

O senhor em questão, na verdade, eram três: Geraldo Teixeira da Costa, Paulo


Cabral e Pedro Aguinaldo Fulgêncio, três dos principais dirigentes do jornal nas décadas de
1960 e 1970. Talvez por ter se cristalizado na dinâmica diária da redação, a interferência
dos diretores sobre o teor dos editoriais é minimizada por Dídimo. “Mas isso não era bem
censura. Alguém podia falar que não gostou daquela palavra lá e cortou”.11

O Diário e a crônica de uma censura anunciada

Em Belo Horizonte, às duas horas da madrugada, um oficial do exército


acompanhado de cinco soldados armados de metralhadoras chegava às
oficinas de O Diário, da arquidiocese de Belo Horizonte.
Esse breve relato feito por VENTURA (2008, p.251) aborda a visita que oficiais do
Exército teriam feito à sede do jornal O Diário, da Arquidiocese de Belo Horizonte, poucas
horas depois da deflagração do Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro de 1968. O Diário

8
O conceito de autocensura tem caráter polissêmico. Para AQUINO (1999, p.222), trata-se de uma
capitulação, já que o papel de censurar teria sido transferido do Estado para a direção do jornal.
SMITH (2000, p.136) considera imprópria a expressão autocensura, pois não se tratava de uma
sanção imposta pelos jornalistas a si mesmos, mas pelo regime às empresas de comunicação e a
seus profissionais. Já SOARES (1989, p.38) classifica a autocensura em duas modalidades: a
institucional, em que as empresas de comunicação acatavam as proibições recebidas, livrando-se da
presença de censores nas redações e do ônus de submeterem sua produção aos órgãos de Estado,
e a individual, que alcança, em maior ou menor grau, todas as pessoas que lidavam com a produção
de bens culturais, já que poderia desencadear demissões e atos de repressão.
9
Entrevista com Roberto Elísio. 5/4/2013
10
Entrevista concedida por Dídimo Paiva em 22/3/2013
11
Entrevista com Dídimo Paiva. 22/03/2013

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foi, durante décadas, um dos mais tradicionais veículos do Estado, rivalizando em alguns
momentos com o Estado de Minas na preferência dos leitores. Começou a circular em 1935
e foi controlado pela Cúria da capital mineira até outubro de 1969, quando em grave
situação financeira acabou vendido a um grupo empresarial.

O relato sucinto de Ventura sobre a presença de militares na sede de O Diário é


confirmado pelo jornal, que publicou na edição do dia seguinte, 14 de dezembro, uma nota
sem título no canto alto direito da primeira página (O DIÁRIO. 14/12/1968, p.1):

O Diário recebeu a visita de militares, na madrugada de ontem, que


examinaram matérias contidas em nossa edição de 13 de dezembro. No
mesmo dia, em atendimento à solicitação do general Álvaro Cardoso, o
Prof. Wilson Chaves, diretor-presidente deste jornal, a exemplo dos demais
dirigentes de órgãos de imprensa da capital mineira, esteve na ID-4,
tomando conhecimento das recomendações relativas à publicação e
circulação dos veículos de divulgação em nosso Estado. Assim, a partir de
hoje, nossas edições serão distribuídas após prévio exame das autoridades
militares de Minas Gerais [grifo meu].
Em poucas linhas, a nota traz duas informações-chave. Uma diz respeito à reunião
entre a cúpula do regime militar e dirigentes de jornais de Belo Horizonte. O redator do
jornal, mais cauteloso, chamou de “visita” o que, pelo relato de Ventura, pode ser
interpretado como invasão, considerando o forte aparato envolvido na operação. A outra
informação é o anúncio de que as edições seguintes de O Diário seriam submetidas ao
“prévio exame das autoridades militares”, eufemismo para “censura”.

Aqui cabe uma reflexão sobre a decisão de se publicar uma nota com esse teor.
Apesar de censurados, alguns dos principais jornais do Brasil não costumavam se
manifestar explicitamente. Receitas de bolos, versos de Camões e previsões meteorológicas
sombrias introduzidos no lugar de material interditado funcionavam como mensagens
cifradas que os jornais emitiam na expectativa – vã em muitos casos – de que seus leitores
desconfiassem de que algo anormal estava acontecendo.12

O Diário fugiu do padrão e trouxe a informação cristalina com o cuidado apenas de


evitar o termo “censura”. E a repetiu, de forma mais lacônica, na edição seguinte (O DIÁRIO.
15/12/1968): “Atendendo determinações dos altos escalões militares, esta edição de O
DIÁRIO circula após prévio exame de autoridades por eles designados”. Mesmo não se
lembrando dos detalhes que envolveram a publicação da nota, Manoel Hygino acredita que
o objetivo era deixar claro que o jornal vivia um momento de exceção e que o conteúdo

12
A publicação de receitas de bolo e do poema épico Os Lusíadas, de Camões, foram expedientes
adotados, respectivamente, pelo Jornal da Tarde e pelo Estado de São Paulo, pertencentes à família
Mesquita. Já o Jornal do Brasil publicou, em sua edição de 14 de dezembro de 1968, uma previsão
meteorológica alegórica, que fazia alusão aos tempos sombrios que se avizinhavam com o AI-5:
“Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes
ventos. Máx.:38, em Brasília. Min.:5, nas Laranjeiras”

ISBN: 978-85-62707-55-1
226 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
UFMG, Belo Horizonte – 18 a 20 de março de 2014

publicado não traduzia necessariamente a sua linha editorial. A decisão de anunciar a


censura que à primeira vista poderia soar como submissão ao autoritarismo recebe, do
então diretor de redação, uma interpretação oposta. “Poderia ser uma demonstração de
independência diante da situação, do quadro de coação que a imprensa vivia naquele
momento”.13

Um fato ocorrido dias antes da edição do AI-5 e que pôs O Diário no fogo cruzado de
uma crise entre o regime e a Igreja é indício de que a censura ao jornal talvez tenha
ganhado contornos próprios. A Arquidiocese da capital mineira era comandada na época por
Dom João Resende Costa e Dom Serafim Fernandes de Araújo, acabaram se chocando
com o regime por conta da prisão de quatro religiosos. No dia 28 de novembro de 1968, três
padres franceses – Michel Marie Le Ven, Francisco Xavier Berthou e Hervé Crogrense –,
além do diácono brasileiro José Geraldo da Cruz, que atuavam na paróquia do Horto, foram
presos pelas forças de repressão, acusados de práticas subversivas.

O jornal deu ampla cobertura ao episódio e já no dia 30 de novembro estampava


editorial de protesto (O DIÁRIO. Prisão de padres. 30/11/68) e matéria de teor informativo
sobre a prisão (O DIÁRIO. Exército detém 3 padres a pretexto de subversão. 30/11/68). Na
edição seguinte, o veículo começa a assumir uma posição de enfrentamento, denunciando,
em editorial, suposta “perseguição à Igreja” (O DIÁRIO. Perseguição à Igreja. 01/12/68). No
mesmo número, circulou íntegra da homilia lida em missas celebradas nas igrejas da
Arquidiocese (O DIÁRIO. Igreja de BH toma posição. 01/12/1968)

A partir daí, o assunto ganhou destaque crescente nas páginas do jornal, com
matérias e editoriais publicados diariamente, culminando com reportagem de tom mais
crítico em 12 de dezembro, dia do aniversário da capital mineira. Na ocasião, o então
presidente Costa e Silva visitou Belo Horizonte para paraninfar uma turma de economistas e
para a inauguração do Centro de Processamento de Dados do Governo de Minas. (O
DIÁRIO. Costa chega hoje, mas não falará da prisão de padres. 12/12/1968, p.1)

Em outra matéria de primeira página, o jornal católico falava abertamente em uma


crise entre o clero e o regime (O DIÁRIO. Dom João não vai ao almôço de hoje a CS.
12/12/1968). O arcebispo Dom João Resende Costa se negou a participar de almoço com o
presidente dentro das festividades de 71 anos de fundação da capital mineira. O arcebispo
enviou telegrama declinando do convite, o que foi interpretado “como agravamento da crise
entre o clero e o governo”. Em seguida, o jornal, que ouviu fontes em off the record,
informava:

13
Entrevista com Manoel Hygino dos Santos. 17/06/2013

ISBN: 978-85-62707-55-1
227 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
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Fontes do Palácio Cristo Rei, extraoficialmente, comentam que o Arcebispo


Metropolitano se sentiria constrangido em comparecer ao almoço. Seria
como se o pai de filhos aprisionados fôsse participar da mesa de refeições
daqueles que os haviam prendido.
Mesmo sem partir para o confronto direto, nota-se que O Diário assumira o papel de
porta-voz da Igreja de Belo Horizonte na crise com o regime militar. Esse processo, no
entanto, sofre uma inflexão exatamente com a adoção do AI-5 e com o início da censura nas
redações brasileiras. O assunto só voltaria à tona duas vezes, já no ano de 1969. Em nota
publicada no início de janeiro, o Diário informava que o ministro da Justiça, Gama e Silva,
estudava a soltura dos padres presos como forma de evitar um conflito diplomático com a
França. (O DIÁRIO. Padres franceses poderão ser libertados em breve. 4/01/1969). E a
última notícia sobre o episódio circularia apenas em fevereiro (O DIÁRIO. Padres em
liberdade. 6/02/1969).

Ao cruzarmos as implicações envolvendo a prisão dos padres e o endurecimento da


repressão com a implantação do AI-5 é possível inferir, com razoável grau de segurança,
que a censura foi diretamente responsável pela mudança de tom na cobertura do episódio
feita pelo O Diário. Com o jornal admitindo publicamente que estava sob censura, o
noticiário da detenção dos religiosos foi sumindo de suas páginas. O episódio da prisão e a
consequente crise entre Estado e Igreja parecem ter se encerrado no dia 6 de fevereiro com
uma nota seca e equidistante. Nada mais foi publicado desde então, nem mesmo um
comunicado saudando a decisão da justiça militar ou depoimentos dos padres relatando os
dois meses de cárcere.

O que se vê é um jornal cada vez mais atrelado ao noticiário oficial, veiculando


quase que diariamente informações sobre cassações e expurgos perpetrados à luz do AI-5
(O DIÁRIO. AI-5 puniu 96 elementos: novas cassações virão. 14/03/1969). Tensa nos idos
de dezembro de 1968, a relação entre o regime e O Diário foi se amainando e evoluindo
para a cooperação tão sonhada pelos militares. Tanto que na edição de 28 de setembro de
1969 o jornal publicava um ofício de agradecimento assinado pelo general Gentil Marcondes
Filho (O DIÁRIO. Comandante grato à nossa imprensa. O Diário. 28/09/1969).

Comandante grato à nossa imprensa


Assinado pelo General de Brigada Gentil Marcondes Filho, comandante da
ID-4 e da Guarnição Federal de Belo Horizonte, o Diário recebeu
correspondência de agradecimento pela colaboração prestada às atividades
das Forças Armadas em nossa capital.
O AGRADECIMENTO
Com o nº 326-RP, o ofício do general Gentil Marcondes diz:
“1. Venho à presença de V.S. expressar em nome do comando da ID/4 e
Guarnição Federal de Belo Horizonte, os nossos sinceros agradecimentos
pela inestimável cooperação prestada por esse órgão de divulgação, nas
mais diversas oportunidades, a nosso pedido. [grifo meu]

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2. Expressando o nosso reconhecimento e esperamos continuar contando


com o vosso permanente apoio.
3. Aproveito o ensejo para apresentar a V.S. os protestos de estima e
consideração”.

Considerações finais

Este trabalho representa uma incursão inicial pelo tema da censura aos jornais
baseados em Minas Gerais a partir da visão de profissionais que aqui atuaram durante a
vigência do AI-5 (1968-1978). Em certos aspectos, o presente estudo sobre o cerceamento
à imprensa mineira no período constatou práticas, desdobramentos e relações entre
jornalistas e censores que se aproximam daqueles identificados por trabalhos já canônicos
no país. Um dos pontos convergentes é a mistura de acomodação e constrangimento que
tende a marcar a complexa relação entre censores e produtores de bens simbólicos,
incluindo aí jornalistas e jornais, naquilo que DARNTON (1992) define como um sistema
cultural em que “o censor se torna um colaborador do autor e o autor um cúmplice do
censor”.

Gestos de resistência – ainda que estéreis – também caracterizam a relação entre


censura e imprensa. Este, aliás, é um tipo de representação com o qual o jornalista prefere
se identificar. É muito mais nobre se insubordinar contra o censor do que negociar com ele.
No imaginário dos homens e mulheres de imprensa, as receitas de bolo do Jornal da Tarde,
os versos de Camões do Estado de São Paulo ou a altivez do Opinião, que recorreu ao STF
para denunciar a censura imposta pelo regime, eclipsaram a cumplicidade cotidiana.

Sob a perspectiva da resistência, tudo indica que a imprensa mineira não teve muito
do que se orgulhar. Aqui, em vez de publicar receitas ou poesias, o jornal católico O Diário
preferiu informar que estava sendo censurado nas duas edições seguintes ao AI-5,
outorgado em 13 de dezembro de 1968. No entanto, tal gesto não pode ser interpretado
apenas como pura submissão. Como argumentou seu então diretor de redação, Manoel
Hygino dos Santos, a decisão de estampar em primeira página os dois avisos de censura
pode ter sido uma forma de sinalizar ao leitor que o jornal vivia um estado de exceção e que
o que seria publicado a partir dali talvez não refletisse a política editorial do veículo.

O Diário, por sinal, é exemplo de como resistência e cooperação coexistiram no


embate entre Estado autoritário e imprensa. Pouco antes do AI-5, em novembro de 1968, o
jornal posicionou-se como porta-voz da Igreja em seus protestos contra o regime que
prendera quatro de seus representantes acusados de práticas subversivas. Muito
provavelmente essa atitude custou ao jornal a invasão e a censura anunciada em primeira
página logo após o AI-5. Aos poucos, premido pelo ato mais radical do regime militar, o

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229 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
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jornal assume uma postura de franca cooperação com os interesses da ditadura, a ponto de
reproduzir, em setembro daquele ano, um ofício em que a cúpula militar de Belo Horizonte
registrava sua gratidão pela colaboração prestada por O Diário.

Em outro veículo analisado, o Estado de Minas, a postura observada foi menos


contraditória. O jornal não chegou a ter problemas com a censura, já que tratou de se render
a outro tipo de controle, a autocensura, que em muitos casos chega a ser mais eficiente do
que a censura explícita, porque se instala silenciosamente nas mentes e não deixa vestígios
materiais.

A censura é um fenômeno histórico que tende a marcar profundamente aqueles que


produzem bens simbólicos, porque, como registra DARNTON (1992), ocorre em áreas
“nebulosas e obscuras, onde a ortodoxia se esbate em heresia e rascunhos fixam-se como
textos impressos”. Permanece, portanto, o desafio de se iluminar área tão cinzenta.

Referências

1) Bibliográficas

AQUINO, Maria Aparecida de. Censura, imprensa, estado autoritário (1968-1978): o


exercício cotidiano da dominação e da resistência. O Estado de São Paulo e Movimento.
Bauru: Edusc, 1999, 269p.

CARRATO Ângela. A “amena” casa de Assis. Papel e atuação do jornal Estado de Minas
na década de 60. Dissertação de mestrado. Universidade de Brasília, 1996, 144 p.

CASTRO, Maria Ceres Pimenta Spínola. Na tessitura da cena, a vida. Comunicação,


sociabilidade e política. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1997, 308p.

DARNTON, Robert. O significado cultural da censura: A França de 1789 e a Alemanha


Oriental de 1989. Revista Brasileira de Ciências Sociais, ano 7, nº 18, 1992, p 5-17

KUSHNIR, Beatriz. Cães de guarda: jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988.


São Paulo. Boitempo Editorial, 2004, 408p.

LOZANO, Jorge Eduardo Aceves. Prática e estilos de pesquisa na história oral


contemporânea. IN: FERREIRA, Marieta de Moraes; AMADO, Janaína. Usos & abusos da
história oral (orgs). Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1996, p.15-31.

RABELO, Ernane C. De fato: o jornal que enfrentou a censura em Minas Gerais. In: MELO,
José Marques de (org). Síndrome da mordaça: mídia e censura no Brasil. São Paulo:
Editora Metodista Digital, 2007, p.237-250

SILVA, Camila Gonçalves. A censura veste farda: elites conservadoras, policiais militares e
o consentimento da imprensa escrita à censura, durante o governo militar em Montes Claros
de 1964-1985 (dissertação de mestrado em História). Juiz de Fora: UFJF, 2011, 215p.

SMITH, Ane-Marie. Um acordo forçado. O consentimento da imprensa à censura no Brasil.


Rio de Janeiro: Editora FGV, 2000, 206p.

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SOARES, Gláucio Ary Dillon. A censura durante o regime autoritário. Revista Brasileira de
Ciências Sociais, São Paulo, v. 4, n. 10, jun. 1989, p. 21-43

VENTURA, Zuenir. 1968: o ano que não terminou (edição revisada). São Paulo: Editora
Planeta, 2008, 284p.

2) Arquivos
Arquivo Público Mineiro: Arquivo da Polícia Política (Dops). Disponível em
http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/dops_docs/photo.php?numero=4153.

3) Jornais
Estado Minas
O Diário

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Integrar o Brasil, combater a “subversão”: universitários e militares na criação do


Projeto Rondon (1967-1969)

Gabriel AMATO Bruno de Lima


Mestrando em História pela UFMG e bolsista do CNPq.
amatolgabriel@gmail.com

O deputado federal Bernardo Cabral, filiado ao MDB do Amazonas, não poderia


prever, mas aquela seria uma das últimas vezes em que ele discursaria no plenário da
Câmara Federal antes de ter seu mandato cassado pelo AI-5. O dia era uma terça-feira, oito
de outubro de 1968. Assim como em várias conjunturas desde a sua posse em 1967, Cabral
sentia, naquela oportunidade, a necessidade de falar para seus colegas deputados sobre o
Projeto Rondon. Desta vez, no entanto, o motivo que o levava a discursar era diferente. Em
suas palavras, “a minha presença nesta tribuna é para formular um veemente protesto.” O
alvo de seu desagravo eram as informações, em sua opinião mentirosas, transmitidas pela
rádio soviética Paz e Progresso acerca do programa de extensão universitária oficializado
pelo governo brasileiro naquele mesmo ano. Segundo Cabral,

notícia captada em 6 de agôsto [sic] e 3 de setembro, dizia, [sic] que a Operação


Rondon fora um fracasso, porque mercenários armados até os dentes, a serviço de
imperialistas norte-americanos, protegem grandes emprêsas [sic] industriais e
numerosos aérodromos, capazes de receber gigantescos aviões de transporte (Diário do
Congresso Nacional, Seção I, ano XXIII, nº 175, 8 de outubro de 1968, p. 6.929).

O deputado emedebista acrescentava ainda que a mesma rádio havia difundido


outra denúncia infundada sobre o Projeto Rondon. Segundo Cabral, a Paz e Progresso
divulgara que o rondonista Augusto Tortolero de Araújo, morto quando foi tomar um banho
no rio Acre durante a operação nacional do Projeto Rondon de janeiro de 1968, havia sido,
na verdade, assassinado por guardas de uma empresa norte-americana. Concluindo a sua
intervenção, o deputado lamentou o fato de os brasileiros desconheceram a região Norte do
Brasil e reafirmou a ideia de que o Projeto Rondon atuava justamente para integrar o país e
ocupar as regiões geográficas, em sua visão, “vazias” de nacionalidade brasileira. As
declarações da rádio soviética eram, na perspectiva de Bernardo Cabral, injustificadas e
frutos do desconhecimento estrangeiro acerca da realidade brasileira.

O espanto do deputado que o levara a formular esse protesto explica-se, na minha


perspectiva, por dois motivos. Primeiro, pelo fato de uma rádio estrangeira e – pior –
originária de um país comunista estar transmitindo notícias “mentirosas” sobre um programa
de extensão universitária nacional, muito elogiado por ele, por outros deputados, pela
grande imprensa e por professores universitários. Segundo, porque, ao elaborar tais
“inverdades”, a mesma rádio ainda dava a entender que o governo brasileiro estaria

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“entregando” a Amazônia para empresas norte-americanas, o que feria a soberania do


Estado nacional brasileiro – tópica muito cara aos setores nacionalistas daquele período,
seja à direita ou à esquerda.

Bernardo Cabral foi o primeiro parlamentar a falar sobre o Projeto Rondon na


Câmara dos Deputados, pouco mais de um ano antes. Seus discursos eram, em geral,
muito elogiosos tanto ao programa de extensão universitária como ao governo que o
organizava. No “ano quente” de 19681, ele foi uma das vozes parlamentares que engrossou
o coro de que o governo militar, sim, mantinha diálogos com aqueles que denominavam os
“verdadeiros estudantes” brasileiros, em detrimento dos estudantes tidos como
“subversivos”. Também em consonância com as representações dos deputados que
discursaram sobre o Projeto Rondon em fins dos anos 1960, Cabral construía uma
representação nacionalista sobre a ação empreendida pelo Ministério do Interior. Nela, as
operações em que se engajavam os estudantes universitários eram identificadas com ações
de patriotismo e de integração entre as partes da nação brasileira, na perspectiva
funcionalista da Doutrina de Segurança Nacional. Já em seu primeiro discurso sobre o tema,
em oito de agosto de 1967, Cabral defendeu, com os aplausos de seus colegas, que

ou a conquistamos [a Amazônia] de maneira positiva, patriótica e povoamos os seus


incomensuráveis espaços vazios ou continuaremos sob a ameaça constante e perigosa
da cobiça daqueles que querem povoá-la e explorá-la, apesar de serem estranhos à
nossa tradição, à nossa cultura e à nossa língua (Diário do Congresso Nacional, Seção I,
ano XXII, nº 89, 4 de agosto de 1967, p. 4.160).

A rádio Paz e Progresso, alvo do protesto de Bernardo Cabral, era uma das
emissoras de ondas curtas do chamado “mundo socialista” que mantinha uma frequência
radiofônica em português nas décadas de 1960 e 70. Sob a vigilância e censura da Polícia
Federal, os ouvintes brasileiros chegavam até a enviar cartas para a sua sede em Moscou,
solicitando boletins de programação e revistas especializadas, mas nunca recebiam
respostas dos soviéticos.2 Ao menos na memória social, as rádios estrangeiras que
transmitiam em português ou espanhol durante o período são lembradas por terem
denunciado as prisões arbitrárias e a violência política do Brasil da ditadura militar. Para os
objetivos deste trabalho, entretanto, cabe muito mais a reflexão acerca dos
entrecruzamentos entre os imaginários nacionalista e anticomunista no bojo do Projeto

1
Na historiografia brasileira sobre o período, o ano de 1968 é, em geral, recordado pela variedade de
movimentos contrários à ditadura militar que tomaram as ruas das principais capitais do país entre
março (morte do estudante Edson Luís) e junho (passeata dos Cem Mil) daquele ano. A juventude
universitária tem um lugar de proeminência nestas narrativas, já que, segunda esta perspectiva, “o
tufão estudantil varreu democraticamente todos os quadrantes da geografia mundial.” (MARTINS
FILHO 1996: p. 14).
2
Cf. o depoimento de José Marcos Lorente, disponível em
<http://www.sarmento.eng.br/Saudosismo.htm>. Acesso em 16 mar. de 2014.

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Rondon em situações como o protesto de Cabral do que a verificação da efetiva


transmissão ou não de notícias contrárias ao programa de extensão pela rádio soviética Paz
e Progresso. Afinal, pode-se afirmar que a narrativa de que uma estação de rádio comunista
difundia representações negativas acerca das ações do Projeto circulou em diferentes
espaços do Brasil em fins dos anos 1960, provocando um debate que nos fornece indícios
para analisar como esses imaginários – o anticomunista e o nacionalista – instituíam as
experiências de rondonistas no Brasil dos anos 1960.3

Em declaração ao jornal carioca Correio da Manhã do dia cinco de outubro de 1968,


o tenente-coronel Mauro da Costa Rodrigues, coordenador-geral do Projeto Rondon naquele
momento, também procurou desmentir as acusações supostamente difundidas pela rádio
soviética. Em concordância com o deputado Bernardo Cabral, Rodrigues classificou de
“levianas” e “caluniosas” as acusações direcionadas ao Rondon. Compartilhando e
construindo um imaginário nacionalista que constituía o Projeto Rondon, o tenente-coronel
também afirmou ao jornal que

as leviandades, divulgadas por alguns, além de mesquinhas, carecem de racionalidade,


quando tentam depreciar o trabalho do Projeto Rondon. Afinal, não somos tão ignorantes
e subdesenvolvidos para entregar a estrangeiros a solução de problemas brasileiros, da
magnitude da questão amazônica (Correio da Manhã, 5/10/1968, 1º Caderno, p. 3).

Também a revista Veja publicou matéria sobre o assunto no mesmo tom, alguns
meses depois do discurso de Cabral e da declaração de Rodrigues ao Correio da Manhã.
Em sua edição de primeiro de janeiro de 1969, os repórteres da publicação semanal
descreviam a atividade extensionista como sendo

apoiada pelos jornais americanos e combatida pela rádio Paz e Progresso, de Moscou,
que acusou as Operações Rondon anteriores de desviarem os estudantes da Amazônia,
‘com receio de que êles [sic] descobrissem lá as jazidas e aeroportos clandestinos
explorados pelos trustes americanos’... (Veja, edição nº 17, 1/1/1969, p. 15)

Este trecho é indício de como o imaginário anticomunista compartilhado por setores


da sociedade brasileira na década de 1960 procurava posicionar o Brasil ao lado do tão
aclamado “mundo livre” liderado pelos EUA no contexto da Guerra Fria, ao mesmo tempo
em que buscava distanciar o Brasil da URSS. Segundo a mesma matéria, o sucesso do
Projeto Rondon era tal que a iniciativa brasileira já havia se tornado “matéria de exportação”.
Em tom triunfalista e orgulhoso próprio do imaginário nacionalista de fins da década de
1960, a revista anunciava que o governo argentino teria manifestado o interesse em

3
O entendimento de imaginário aqui empregado aproxima-se daquele defendido por Cornelius
Castoriadis, para quem “é de maneira imanente, no seu ser em si e para si, que ele [o “real humano”]
é categorizado pela estruturação social e o imaginário que este significa; relações entre indivíduos e
grupos, comportamentos, motivações, não são somente incompreensíveis para nós, são impossíveis
em si mesmos fora deste imaginário.” CASTORIADIS, 1982: p. 193. Grifado no original.

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promover, na região da Patagônia, atividades semelhantes àquelas desenvolvidas pelos


rondonistas no Brasil.4

Os imaginários anticomunista e nacionalista no Projeto Rondon não se limitavam aos


espaços da Câmara dos Deputados e da grande imprensa brasileira do período. Por serem
constituintes das práticas dos rondonistas, eles também estavam presentes nas ações de
vigilância que o sistema de informações da ditadura militar empreendia com relação ao
programa de extensão. Com o assunto “Infiltração comunista no Projeto Rondon”, o informe
nº 618 da Divisão de Segurança e Informação do MEC, datado de treze de dezembro de
1968, alertava para o fato de que “elementos comprometidos com a situação anterior à
Revolução [sic] estariam sendo encarregados de coordenar os assuntos atinentes ao
‘Projeto Rondon’.” Para aquela divisão de informações, estudantes subversivos estariam se
“infiltrando” no programa de extensão, com o objetivo de provocar o “torpedeamento do
Projeto Rondon” (Arquivo ASI/UFMG, caixa 07/68, maço 34, folha 166). As formas de
nomear e classificar essas ações são características do imaginário anticomunista em
tempos de ditadura militar. A utilização da ideia de “infiltração” é indicativa da representação
do comunismo como uma doença, um vírus que penetra na nacionalidade brasileira a partir
do exterior. A ideia de atacar com um torpedo o Projeto Rondon, por sua vez, remete à
representação do “inimigo comunista” como alguém que se utiliza de táticas pouco
honradas, como o lançamento de torpedos à distância visando minar o programa de
extensão.

Enquanto o MEC se esforçava para repassar orientações de teor anticomunista para


as reitorias, o coordenador do Projeto Rondon vinha a público para negar a existência de
qualquer tipo de triagem ideológica na seleção de estudantes que iriam participar do
programa. Em longa entrevista publicada nas páginas amarelas da revista Veja em treze de
agosto de 1969, o tenente-coronel Mauro da Costa Rodrigues afirmava que o Projeto
Rondon também não fazia propaganda do governo, nem objetivava mudar o comportamento
dos universitários. Segundo ele, as ações do Rondon intencionavam

lembrar ao jovem que êle [sic] é responsável por tudo contra o que protestava; que não
deve ter medo de conquistar o País; que não adianta gritar que a Amazônia está sendo
vendida, se a condição que exige para ir para lá é de lhe pagarem 3.000 cruzeiros novos
por mês (Veja, edição nº 49, 13/08/1969, p. 5.)

4
Ação semelhante mas voltada para estudantes entre 16 e 18 anos foi, de fato, promovida pelos
militares argentinos anos depois, já no período da ditadura instaurada com o golpe de 1976. O projeto
foi criado em 1979, chamava-se ¡Argentinos! Marchemos hacia las fronteras e era organizado em
conjunto pelo Ministerio de Cultura y Educación e pela Gendarmería Nacional. Se no Projeto Rondon
as áreas a serem “integradas” eram o interior e as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil;
no caso do programa argentino a preocupação central se voltava para as regiões de fronteira em que
as distinções entre argentinos e estrangeiros eram mais fluídas. Sobre o tema, cf. RODRIGUEZ,
2010: p. 1.257-1.264.

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Esse desencontro de narrativas demonstra bem como os organizadores do Projeto Rondon


procuravam criar uma representação conciliatória e positiva do programa ao classificarem-
no como uma atividade nacionalista, ao mesmo tempo em que o imaginário anticomunista
também fundava as práticas rondonistas.

Mas, afinal, qual lugar ocupava o Projeto Rondon na conjuntura brasileira de fins dos
anos 1960? Como tem sido afirmado pela historiografia contemporânea sobre o período, as
relações entre a ditadura militar e as comunidades universitárias brasileiras nesses anos
foram caracterizadas pela ambivalência. Se, por um lado, o regime ampliou o número de
vagas nas instituições de ensino superior e modernizou as estruturas de ensino, pesquisa e
extensão; por outro, os militares buscaram vigiar e censurar o cotidiano universitário com o
objetivo de calar as vozes dissonantes. Se o movimento estudantil protestou contra a
ditadura em momentos como as manifestações de rua em 1968, houve estudantes que
procuravam levar as suas vidas apesar da ditadura ou mesmo nela se inserir. Para além da
dicotomia entre resistência e repressão, recorrente em certa memória social sobre o
período5, uma grande variedade de práticas foi acionada por universitários, militares e
professores. Com o slogan “Integrar para não entregar”, o Projeto Rondon foi um campo
profícuo para essas práticas. O programa de extensão foi criado entre os anos de 1967 e 68
e funcionou sob a coordenação do Ministério do Interior até 1989. Cerca de 130.000
estudantes-voluntários de diversas áreas do conhecimento e de diferentes Estados da
federação participaram de suas atividades, que envolviam principalmente ações realizadas
em regiões do interior do país durante as férias escolares.

O Projeto Rondon foi criado, dessa forma, em consonância com as preocupações de


alguns setores do governo com a integração nacional e com o desenvolvimento da
“consciência cívica” da juventude universitária. A própria escolha do nome do programa de
extensão é indicativa dessas demandas, na medida em que se apropriava da figura do
Marechal Cândido Rondon com o objetivo de alçá-lo ao posto de “bandeirante do século
XX”. Essa temática, própria de um imaginário nacionalista, encontrava ressonância entre
militares autoritários como o primeiro ministro do Interior da ditadura, general Afonso de
Albuquerque Lima; professores universitários como Wilson Choeri, um dos idealizadores do
Rondon; e parcelas dos membros das comunidades universitárias. Esta preocupação,

5
Segundo as pesquisas que tomam a memória social sobre o período como objeto de estudo,
constituiu-se, a partir de fins dos anos 1970, uma memória segundo a qual “a sociedade brasileira
viveu a ditadura como um pesadelo que é preciso exorcizar, ou seja, a sociedade não tem, e nunca
teve, nada a ver com a ditadura” (REIS, 2002: p. 9). No caso específico do Projeto Rondon, a quase
ausência de estudos historiográficos sobre o tema talvez seja explicada pela predominância desta
memória. Cabe ressaltar, todavia, que as memórias sobre as ações dos rondonistas são mais
complexas, como evidencia a nova edição do Projeto realizada desde 2005 e iniciativas como o
Memorial Projeto Rondon da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

ISBN: 978-85-62707-55-1
236 Anais eletrônicos do seminário 1964-2014: um olhar crítico, para não esquecer
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entretanto, não era compartilhada por todos os atores que, de uma forma ou de outra,
faziam parte do governo brasileiro durante a ditadura. A “nova forma de ocupação do
Estado” (NAPOLITANO, 2011: p. 215) instaurada com o golpe de 1964 abarcava também
grupos como liberais-conservadores, parcelas das classes médias, setores da Igreja
católica, dentre outros. A unificá-los, estava o outro imaginário que instituía o Projeto
Rondon: o anticomunista (MOTTA, 2002: p. 231-278). No caso do programa de extensão,
este imaginário expressava-se por meio da preocupação com o combate às atividades de
oposição ao regime ditatorial entre os estudantes universitários.

As ações de estudantes em torno do Projeto Rondon são representativas do “leque


de possibilidades intermediárias” (MOTTA, 2014: p. 310) entre a resistência ativa ao regime
e a adesão aos seus valores, tais como o nacionalismo ufanista de fins da década de 1960.
Houve desde boicotes ao programa de extensão universitária, como o realizado em 1968
pelo DCE da Universidade Federal de Minas Gerais (ROSENBAUM, 1971: p. 295-196), até
a participação a longo prazo de estudantes que, posteriormente, tornaram-se gestores do
Projeto Rondon, passando a coordenar as atividades dos novos rondonistas entre as
décadas de 1970 e 80. Essa variedade de comportamentos dos universitários diante de uma
atividade promovida pelo governo militar é indicativa da própria diversidade dos estudantes
do período, que não se restringiam àqueles que participavam dos movimentos estudantis.
Para alguns desses jovens, ser um rondonista supria demandas materiais ou simbólicas tão
diferentes como viajar para o interior do Brasil, ajudar pessoas mais pobres por meio da
construção de equipamentos públicos em pequenas cidades, obter uma experiência
profissional ou engajar-se em uma atividade cívica e nacionalista.

As políticas educacionais do regime, além disso, eram convergentes com a criação


do Projeto Rondon na medida em que buscavam empreender uma modernização
conservadora no ensino superior tendo como referência as instituições universitárias norte-
americanas. Essas políticas eram modernizadoras porque buscavam flexibilizar a estrutura
das universidades e atender a demanda crescente das classes médias por mais vagas no
ensino superior, mas eram também autoritárias porque perseguiam, vigiando e
aposentando, os professores universitários, e objetivavam enquadrar os movimentos
estudantis para minar seu potencial contestatório (CUNHA, 2007: p. 68-69 e p. 287-288). O
Projeto Rondon, nesse sentido, possuía tanto uma faceta ligada à política social de
diminuição das desigualdades regionais no Brasil como um aspecto educacional ligado à
instrução para o trabalho e ao que os gestores educacionais denominavam de
“despolitização do ensino” (MATHIAS, 2004: p. 167-171).
Envolvendo milhares de brasileiros especialmente entre os meses de janeiro,
fevereiro e julho, as operações do Projeto Rondon mobilizavam os estudantes do país para

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a atuação em atividades assistencialistas no interior do Brasil com o auxílio de militares e


professores universitários. Por um lado, o Projeto Rondon foi uma forma encontrada por
setores do governo militar de lidar com o que denominavam de “questão estudantil” em fins
da década de 1960. Uma prática que ia além da simples repressão às entidades estudantis,
também largamente utilizada. Para esses atores políticos, representações do imaginário
anticomunista significavam e constituíam as ações dos rondonistas, já que era preciso
afastar a “subversão” dos meios universitários. Por outro lado, o Projeto Rondon aparecia
como uma “aula prática de Brasil”. O imaginário nacionalista, nesse sentido, também
instituía o programa de extensão, na medida em que alguns dos objetivos centrais do
Projeto Rondon eram integrar o Brasil e dar a conhecer o interior do país aos estudantes
universitários. Essa representação do interior a ser experimentada, no entanto, era bem
delimitada e dizia respeito, na perspectiva dos gestores do Projeto, à unidade nacional, às
riquezas naturais do país e ao destino de grandeza do Brasil. Enfim, nas palavras do
tenente-coronel Mauro da Costa Rodrigues, em sua entrevista à revista Veja, o Projeto
Rondon “estará criando uma consciência nacional e tornado realidade o nosso sonho de
integração que, ainda hoje, existe apenas nos mapas” (Veja, edição nº 22, 5/2/1969, p. 46).

Referências

1) Acervos pesquisados

Biblioteca Central da UFMG – Fundo ASI/UFMG – Belo Horizonte, Minas Gerais.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional – Online.

Acervo digital da revista Veja – Online.

2) Fontes

AULA de Brasil desconhecido, Veja, edição nº 17, 1/1/1969, p. 14-15.

AULA prática de Brasil, Veja, edição nº 22, 5/2/1969, p. 44-46.

CORONEL Rodrigues desmente acusação ao Projeto Rondon, Correio da Manhã,


5/10/1968, 1º Caderno, p. 3.

Diário do Congresso Nacional, Seção I, ano XXII, nº 89, 4 de agosto de 1967.

Diário do Congresso Nacional, Seção I, ano XXIII, nº 175, 8 de outubro de 1968.

FILHO, Gastão Patusco. “Entrevista: Mauro Costa Rodrigues. ‘Não queremos moços
conformados’”. Veja, São Paulo, Edição 49, 13 de agosto de 1969, p. 3-6.

3) Bibliografia

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CASTORIADIS, Cornelius. A instituição imaginária da sociedade. Rio de Janeiro: Paz e


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CUNHA, Luiz Antônio. A universidade reformanda: o golpe de 1964 e a modernização do


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MARTINS FILHO, João Roberto. A rebelião estudantil: 1968 – México, França e Brasil.
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MATHIAS, Suzeley Kalil. A militarização da burocracia: a participação militar na


administração federal das comunicações e da educação, 1963-1990. São Paulo: Editora
UNESP, 2004.

MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Em guarda contra o perigo vermelho: o anticomunismo no Brasil.
São Paulo: Perspectiva, 2002

_______________________. As universidades e o regime militar: cultura política brasileira e


modernização autoritária. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.

NAPOLITANO, Marcos. O golpe de 64 e o regime militar brasileiro: apontamentos para uma


revisão bibliográfica. Contemporanea – História y problemas Del siglo XX.
Montevidéu/Uruguai, v. 2, 2011, p. 209-217.

REIS, Daniel Aarão. Ditadura militar, esquerdas e sociedade. 2. Ed. Rio de Janeiro: Zahar,
2002.

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ROSENBAUM, J. Jon. Project Rondon, a Brazilian Experiment in Economic and Political


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2, vol. 30, abril/1971, p. 187-201.

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A Polícia Militar do Estado de São Paulo durante a ditadura civil-militar (1970-


1982): notas de uma pesquisa

Gabriel dos Santos NASCIMENTO


Mestrando na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)
gabrielsn87@gmail.com

A repressão é um dos temas mais abordados pela bibliografia sobre a ditadura. No


entanto, a maior parte dos trabalhos concentra-se nos órgãos de repressão política,
deixando de lado as demais corporações. A esfera da segurança pública como um todo
sofreu grande processo de reestruturação, sendo militarizada e instrumentalizada sob a
lógica de combate à subversão. Visando fazer apontamentos neste campo pouco explorado,
este trabalho fará uma discussão sobre o caso da Polícia Militar do Estado de São Paulo,
entre 1970, ano de sua fundação, após a unificação da Força Pública e da Guarda Civil, e
1982, ano da primeira eleição direta para Governador. Tentando superar a notória
dificuldade de acesso às fontes policiais do período, são utilizados o acervo do DEOPS/SP,
livros do jornalismo policial da época, livros de policiais, além da documentação disponível
no Museu de Polícia.
A polícia é tema recente na historiografia brasileira, sendo objeto de estudo apenas a
partir dos anos 1980. Trabalhos importantíssimo sobre a polícia no final do Império e na
Primeira República, incorporaram dicussões que estavam sendo feitas já na Europa e nos
EUA (BRETAS, 1997a, 1997b e ROSEMBERG, 2010).A polícia não deveria mais ser vista
como um simples instrumento do Estado, mas uma organização "complexa" (MONJARDET,
2006, p.23) tensionada sempre entre os objetivos do Estado e os interesses e perspectivas
dos individuos que a compõe. Esse campo de estudos continua em expansão, porém, ainda
limitado principalmente ao período pré-30. Alguns poucos trabalhos abordaram a polícia na
Era Vargas e no período democrático posterior (BATTIBUGLI, 2010), enquanto, por outro
lado, as ciências sociais também produziram extenso material sobre a polícia após a
redemocratização (ALVAREZ et al., 2004). O período da ditadura militar, no que diz respeito
à polícia, permanece um campo praticamente inexplorado pela academia.
Para melhor compreender melhor o papel da polícia nesse período, se mostra
bastante útil o conceito de “utopia autoritária” utilizado por Carlos Fico (2001, pp. 41-42 e
2004, p. 75).1 Segundo o autor, ao chegar ao poder, os militares não constituíam um grupo
coeso com um projeto político definido. O que os motivou ao golpe foi, basicamente, o temor
de que a subversão e o comunismo se instaurassem no país. A adesão total à “Doutrina de
Segurança Nacional”, enquanto projeto estruturado de sociedade e concepção de realidade
1
A expressão aparece pela primeira vez na Introdução da obra conjunta Visões do Golpe de Maria
Celina D'Araújo, Gláucio Ary Dillon Soares e Celso Castro (1994, p.9), mas é melhor desenvolvida
posteriormente por Carlos Fico (2001, pp.41-42 e 2004, p.75).

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política, aplica-se apenas a uma pequena parcela de oficiais. No cotidiano do regime, os


pontos da doutrina efetivamente se mesclam entre si e com concepções externas, dando
origem às mais variadas posturas diante dos fatos. O que permanece como constante é a
busca por uma progressiva institucionalização do aparato repressivo, sob o comando das
Forças Armadas, o que garantiria a supressão da subversão permanentemente.
Dessa maneira, ocorreu um intercâmbio entre as práticas repressivas destinadas aos
criminosos de diferentes classes, e a violência aplicada anteriormente como “necessária”
contra os pobres, passa a ser vista igualmente como “necessária” contra a classe média.
Em contrapartida, ocorre uma sofisticação na aplicação da violência, com o
desenvolvimento de diversas técnicas de tortura física e psicológica. Essas técnicas seriam
utilizadas também contra os criminosos comuns (PINHEIRO, 1981, pp.33 e 1985, pp. 83-
84).
Os textos que de alguma forma discutem a polícia no período da ditadura podem ser,
grosso modo, divididos em três grupos: jornalistas, alguns poucos cientistas políticos e
policiais. Entre os jornalistas, o trabalho mais conhecido é o livro-reportagem ROTA 66:
a história da polícia que mata, do jornalista Caco Barcellos (1992). Neste livro, o autor
analisa a atuação da PMESP, se detendo especialmente nas Rondas Ostensivas Tobias de
Aguiar (ROTA), grupo de elite da Polícia Militar. O grande número de mortos em
circunstâncias suspeitas e a absoluta impunidade dos membros do Batalhão levam o autor à
tese de que a ROTA seria um “esquadrão da morte oficial” (BARCELLOS, 1992, p.119).
Percival de Souza, importante jornalista policial atuante já nos anos 70, possui
diversos livros onde relata episódios envolvendo criminalidade e violência policial (SOUZA,
1978 e 1981, por exemplo). Devido ao bom trânsito que possuia entre os policiais, seus
livros são repletos de relatos internos, na maior parte anônimos, formando cenários do
cotidiano policial, mostrando muito de suas regras e valores internos, que mutas vezes
passam ao largo da lei. É perceptível um tom fortemente moralista, onde os abusos de
poder e a corrupção são tributados à falhas de caráter de alguns indivíduos.
No campo da ciencia política, a atuação da polícia militar neste período só é
comentada de maneira periférica, como introdução à sua atuação em outros contextos (por
exemplo, NEME, 1999; ZAVERUCHA, 2010). A principal exceção é o artigo de Paulo Sérgio
Pinheiro intitulado Polícia e Crise Política: o caso das polícias militares, publicado em 1982,
portanto, ainda durante a ditadura. Nele, o autor argumenta que a extrema violência que
tomou conta da polícia militar principalmente a partir do fim dos anos 1960 é consequência
da crise política instaurada a partir do “golpe da junta militar em 1969”. Esta crise, resultado
da disputa de poder entre os diferentes setores das classes dominantes e dos setores do
aparelho de Estado, culminou no predomínio da concepção de que o poder deveria ser

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mantido principalmente pela coerção física. É nesse contexto que ocorre a reestruturação
das forças policiais, que origina a PMESP (PINHEIRO, 1982, p. 74).
Por fim, existem ainda alguns livros escritos por policiais. Assumindo um discurso
abertamente conservador, há as obras de Conte Lopes (1994) e Paulo Telhada (2011)
ambos oficiais da ROTA, conhecidos por possuir um extenso número de cadáveres em seus
currículos. O livro de Conte Lopes, Matar ou Morrer, foi escrito como forma de defesa contra
as acusações de Caco Barcellos (1992) de que ele não passaria de um "matador de
inocentes". O livro está repleto de histórias de sua carreira, envolvendo, em geral,
dramáticas cenas de tiroteios contra bandidos inescrupulosos que ameaçavam vítimas
indefesas. Já o livro do Coronel Telhada, apesar de conter vários casos de "heroísmos" de
policiais mortos em serviço, concentra-se em traçar uma cronologia do 1° Batalhão da PM,
de forma bem convencional, narrando mudanas organizacionais e burocráticas. Em ambos,
é bem perceptível a ideia, muito forte na PM, de que o policial é uma reserva moral em
guerra permanente contra o crime e contra detratores (de esquerda).
No campo político oposto, há o livro do Coronel Vicente Silvestre (1985). Silvestre
era parte do "setor militar" do Partido Comunista Brasileiro (PCB) que se articulava dentro da
Guarda Civil e da Força Pública desde os anos 50. O grupo conseguiu maner a articulação
mesmo após o golpe, sendo desmantelado apenas em 1975.2 O livro de Silvestre, apesar de
não abordar a sua militância, mas sim narrar uma história da Guarda Civil, deixa bastante
evidente uma diferença de visão do trabalho policial para com Telhada e Conte Lopes. Não
há violentos confrontos heróicos, tiroteios ou perseguições. O trabalho da Guarda Civil é
descrito muito mais como um serviço à população do que como uma "guerra contra o crime".
Há também uma ênfase nos clubes e associações de policiais (ausentes nos outros
trabalhos) onde se reforça o papel do nacionalismo de esquerda na sua constituição.
O sistema de segurança pública brasileiro tem suas principais corporações no âmbito
estadual. Até 1970, o sistema de segurança pública do estado de São Paulo era composto
basicamente por três corporações: a Força Pública, a Polícia Civil e a Guarda Civil.
A Polícia Civil exercia funções de polícia administrativa e judiciária, ou seja, era
responsável por instaurar inquéritos, realizar o cadastro e identificação de pessoas e
organizações, fiscalizar hotéis e pensões, licenciamento de veículos, realizar investigações,
além de diversas tarefas de assistência social. O delegado, bacharel em Direito, era a
principal autoridade a coordenar as tarefas de policiamento, realizado pelas outras
corporações. A Polícia Civil possuía ainda diversas delegacias especializadas, voltadas a
questões de costumes, menores, jogos, etc, das quais a mais importante era, sem dúvida, o
Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) (Battibugli, 2010, pp. 43-48)
2
Dossiê 50-D-18-2458 ao 2431 "Subversão na PM". DEOPS/SP. Arquivo Público do Estado de São
Paulo.

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A Força Pública (FP) era a maior corporação do estado, com um efetivo três ou
quatro vezes superior ao da Polícia Civil, dependendo do ano, e em média duas vezes maior
que o da Guarda Civil. Era a corporação responsável pela maior parte das tarefas de
policiamento, executando-o nas áreas onde a Guarda Civil não atuava, além de fazer
escoltas, controle do tráfego, serviço de guarda de edifícios públicos e incluía ainda o Corpo
de Bombeiros. Era uma corporação com forte caráter militar, com uma hierarquia
estruturada nos moldes do Exército, dividida entre praças e oficiais. Apesar disso, até a
segunda metade dos anos 60, não havia nenhuma subordinação de fato da Força Pública
às Forças Armadas.
A Guarda Civil (GC) era uma corporação civil fardada, com função de fazer
policiamento de rua e guarda de trânsito. Diferente da Força Pública, a Guarda Civil possuia
uma estrutura de carreira única, não tendo sendo sbordinados a nenhum código militar. Nos
anos 60, a sua atuação restringia-se ao centro da capital e a algumas das principais cidades
do interior, ficando as demais localidades com policiamento exclusivo da Força Pública
(BATTIBUGLI, 2010, p.55).
Em Abril de 1964, tanto a Guarda Civil quanto a Força Pública colaboraram com o
golpe. Os boletins de ambas as corporações trazem notas dede celebração do golpe,
indicando o total apoio da cúpula.3 No caso da Guarda Civil, o apoio não partiu somente da
instituição, mas de parte dos policiais, através do Centro Social dos Classes Distintas, que
lançou um Manifesto.4 No documento, os guardas apresentam a visão de 31 de março não
como um golpe ou uma revolução, mas como um ato de defesa da legalidade e da
liberdade. Ao fim conclamam todas as pessoas a colaborarem, principalmente os demais
guardas, pois “a luta pela Lei e Pela Ordem está inciada. Os Classes Distintas estão nas
trincheiras da Legalidade”.5
Por outro lado, se o comando das corporações estava totalmente alinhado ao golpe,
o mesmo não ocorreu com a totalidade dos soldados. O Boletim da Força Pública de 23 de
Abril de 1964 informa que, na noite do dia 1 de abril, foi distribuído em algumas unidades da
corporação, um manifesto do Centro Social dos Cabos e Soldados (CSCS), assinado pelo
seu presidente, Oirasil Werneck, incitando “as praças da Corporação à desordem e à
indisciplina”, opondo-se ao golpe. Foi aberto Inquérito Policial Militar (IPM) para investigar o
caso, chegando ao nome de seis soldados, inclusive do diretor do CSCS, que foram

3
Boletim Geral da Força Pública do Estado de São Paulo nº 68, 10 de abril de 1964, Anexo. Museu
de Polícia Militar; Boletim Geral da Guarda Civil de São Paulo nº 62, 3 de abril de 1964, Anexo.
Museu de Polícia Militar.
4
O equivalente militar do cargo Guarda Civil de Classe Distinta seria, a patente de Sargento, um dos
maiores postos entre os praças. Eram a classe mais alta da Guarda Civil a fazer policiamento de rua,
fiscalizando os demais guardas.
5
Boletim Geral da Guarda Civil de São Paulo, nº 60, 1º de abril de 1964, Museu de Polícia. página
sem número

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enquadrados no art. 7 do Ato Institucional nº1, que prevê demissão de funcionários públicos
vitalícios ou estáveis, caso atentem contra o regime. Diante disso, o Comandante Geral da
Força Pública decidiu encaminhar o caso, em primeiro lugar ao Governador do Estado, em
segundo lugar à Justiça Militar do Estado, e, por último, encaminha cópia ao comandante de
um quartel da aeronáutica citado na investigação. Estando sujeitos ao Código de Justiça
Militar, os seis policiais tiveram prisão decretada por 30 dias, a partir de 20 de abril.6
Até 1967, não houve nenhuma grande mudança na estrutura policial. A “eleição” de
Costa e Silva marca a chegada da “linha-dura” ao poder, que possibilita uma radicalização
do projeto repressivo. É promulgada uma nova Constituição, uma nova Lei de Segurança
Nacional (LSN), uma nova Lei de Imprensa e se inicia uma reforma administrativa. É
promulgada também a nova Lei Orgânica da Polícia (Decreto-lei nº 317, de 13 de Março de
1967) que institui a Inspetoria Geral das Polícias Militares (IGPM), ligada ao Ministério da
Guerra (HUGGINS, 1998: 151). A retomada das manifestações de rua, principalmente na
primeira metade de 1968, coloca a Força Pública e a Guarda Civil em confroto direto com
setores da classe média nos grandes centros urbanos. A guerrilha urbana inicia suas
primeiras ações, se tornando mais ativa após a promulgação do AI-5, em dezembro de
1968. Diante dessa crise, em 1969, são elaborados um novo Código Penal e um novo
Código de Processo Penal Militar, mais rigorosos e é alterada a LSN. Em São Paulo, é
criada a Operação Bandeirantes (Oban), um novo órgão da repressão, que unia membros
das Forças Armadas e das polícias. A sua estrutura unificada e centralizada, pensada para
um combate mais eficiente à guerrilha, foi depois transportado para o resto do país sob a
forma do DOI/CODI (FICO, 2001, p. 118).
Em Julho desse mesmo ano, ao mesmo tempo em que se cria a Oban, seria
promulgado mais um decreto (Decreto-lei nº 667), que atribuiu exclusividade do policiamento
de rua às policias militares. Avança o processo de centralização das forças policiais, com a
unificação da Guarda Civil com a Força Pública, o que, após mais algumas leis reguladoras,
culmina com a criação da Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP), em abril de
1970. Esse processo não foi bem recebido pelo conjunto das duas corporações. Relatórios
do DOPS apontam que oficiais da Força Pública de São Paulo e de Minas Gerais estariam
fazendo reuniões secretas para se articular contra a nova Lei Orgânica da Polícia, pela
extinção da IGPM e pela volta do comando às mãos de um integrante da corporação e não
mais do Exército. Um relatório do Serviço Secreto do Estado Maior da PM de Minas Gerais
mostra grande preocupação diante da possibilidade de levante armado da polícias militares
paulista e mineira, porém, ressalta que o movimento não tem um caráter “esquerdista”, mas

6
Boletim Geral da Força Pública do Estado de São Paulo, nº 74, 20 de abril de 1964, Museu de
Polícia. pp. 1012-1013

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que os policiais apenas temem que o Exército tire suas armas.7 O próprio Comandante
Geral da Força Pública, José Antônio Barbosa de Moraes, chegou a encaminhar um ofício
ao Secretário de Segurança Pública se posicionando contra o ante-projeto de lei orgânica da
polícia.8
Na Guarda Civil a situação era ainda mais tensa, pois a perspectiva de seus
membros era de que a corporação estava sendo dissolvida. Vicente Silvestre relata uma
sensação de humilhação perante o descaso geral do governo do Estado com as demandas
da GC ao longo de 1969 (SILVESTRE, 1985, p. 103). O debate sobre a unificação das
polícias precede em muito o golpe. No entanto, ele apontava para a unificação em torno de
um único corpo policial civil (BATTIBUGLI, 2010, pp. 179-188). A unificação de 1969
representou, na prática, a dissolução da Guarda Civil, tendo como resultado o aumento do
poder da Polícia Militar, em detrimento da Polícia Civil, particularmente nas operações de
rádio-patrulha, o que, inclusive, causou desconfortos e protestos entre estes (HUGGINS,
1998, p. 153).
A nova corporação é fortemente subordinada ao Exército, tendo seu comandante
como obrigatoriamente um oficial da ativa do Exército e não mais da própria corporação. O
Secretário de Segurança Pública passa a um militar nomeado somente com autorização do
Governo Federal. Segundo Cristina Neme, “se até 1967 as polícias estaduais eram
empregadas na repressão física através da Secretaria Estadual de Segurança Pública, com
a reorganização das forças policiais, em 1969, as polícias militares foram diretamente
envolvidas na repressão à dissensão popular, sob controle operacional do Exército” (NEME,
1999, p. 53).
Assim, o policiamento foi colocado sob a lógica da Doutrina de Segurança Nacional.
A Polícia Militar, teria como uma de suas funções o combate à guerrilha urbana, evitando
assim o desgaste da presença do Exército nas ruas (HUGGINS, 1998, p. 201-202). No
entanto, alguns autores ressaltam que não se deve superestimar a influência da Doutrina de
Segurança Nacional na polícia. Paulo Sérgio Pinheiro afirma que a Doutrina não alterou o
caráter da antiga Força Pública, que continuou violenta, mas serviu como uma nova
justificativa para os abusos (PINHEIRO, 1982, pp. 60-61). No livro Operários da Violência, a
socióloga Martha Huggins e os psicólogos Mika Haritos-Fatouros e Phillip Zimbardo (2006),
analisando o treinamento a que eram submetidos os ingressantes na PM, concluem que a
Doutrina de Segurança Nacional era “culturalmente difusa”, não sendo abraçada
automaticamente por todos e não implicando necessariamente na generalização da prática
de atrocidades contra criminosos. Muitos policiais, inclusive, se lembram com desdém

7
DEOPS. Relatório. 50-D-18-1020, Arquivo Público do Estado de São Paulo, 28/01/1968
8
DEOPS, 50-D-1018, Arquivo Público do Estado de São Paulo. O ofício original não tem data, mas foi
arquivado pelo DEOPS em 8 de Abril de 1968.

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desses ensinamentos. No geral, não há uma reflexão sobre ameaças a segurança nacional
por parte dos policiais, somente a ideia de que bandidos devem ser combatidos.
A guerrilha urbana, no fim dos anos 60 e início dos 70, fazia parte do cotidiano
policial, misturando-se com as operações contra o crime comum. O Boletim da Força
Pública de 9 de abril de 1970 apresenta três pedidos da Comissão de Promoção de Praças
(CPP) ao Comandante Geral. O Soldado PM Djalma Oliveira da Silva, do 1º Batalhão
“Tobias de Aguiar” recebeu uma proposta de promoção a cabo por ter colaborado na ação
que culminou na morte de Carlos Marighela, no dia 4 de novembro de 1969. O soldado
tornou-se um “exemplo vivo a ser seguido” quando, “agindo com desassombro e bravura”
utilizou seu cachorro adestrado para impedir a fuga de Frei Ivo, um frade dominicano que,
após ter sido torturado no DOPS, serviu de isca para Marighela. Já o Cabo PM Jorcelino
Santos da Silva e o Soldado PM Edwin Obst, ambos do 9º Batalhão Policial, foram
contemplados com pedidos de promoção após captura de “uma quadrilha de perigosos
assaltantes” liderados pelo bandido “Caveirinha”. A prisão envolveu perseguição e tiroteio,
onde o Cabo foi ferido. O terceiro caso também diz respeito à prisão de guerrilheiros.9 A PM
se envolveu diretamente no combate à guerrilha e seus soldados também eram alvo dos
ataques dos guerrilheiros. Um acontecimento pouco comentado pela bibliografia, mas que
teve grande impacto sobre a polícia militar foi a morte do Tenente Alberto Mendes, do 1º
Batalhão “Tobias de Aguiar”, em abril de 1970. O Tenente foi morto a coronhadas pela
Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), grupo de Carlos Lamarca, após ter sido
capturado em um conflito entre os guerrilheiros e a PM. A sua morte causou grande
comoção, e o Tenente foi nomeado “Herói Símbolo da Polícia Militar”. Essa fato, no entanto,
só é comentado em algumas memórias de policiais e de outros agentes da repressão.10
Ao longo dos anos 70, diversos oficiais vão realizar treinamentos com as Forças
Armadas, além dos currículos de formação passarem a incluir disciplinas sobre Segurança
Nacional e Guerra Revolucionária.11 As Tropas de Choque, que antes permaneciam
aquarteladas, aguindo apenas em casos de "distúrbios civis" são colocadas para realizar o
policiamento. Algumas delas, com função primordial de combate à guerrilha. Em 1970, o 1º

9
Boletim Geral da Força Pública do Estado de São Paulo, nº 66, 9 de abril de 1970, pp. 19-22
10
O seu cortejo foi seguido por mais de 10 mil pessoas, de acordo com o Jornal do Brasil, contando,
inclusive com a presença do Governador. Ver, Ulstra, 1987, p. 84 e Memorial do Cap. Alberto Mendes
Júnior situado no Museu de Polícia. Ustra ressalta bastante o impacto público de sua morte na época.
O autor, tenente-coronel do Exército e integrante do DOI/CODI paulista no início dos anos 70,
escreveu o livro numa tentativa de se defender das acusações de torturador que pesam contra ele.
Argumentando que todo o trabalho da repressão foi com o sentido de combater o “terrorismo”, ele
mostra diversos casos de vítimas dos grupos guerrilheiros, em geral militares ou policiais. São
apresentados como “Vítimas do Terror”, em oposição às “Vítimas da Tortura”, e mártires da
democracia. O caso também é comentado no livro do ex-policial da ROTA , Conte Lopes (1994)
11
Por exemplo, Boletim Geral da Polícia Militar do Estado de São Paulo, n° 11, 16 de Janeiro de
1973; n° 122, 4 de Julho de 1973; n° 14, 21 de Janeiro de 1974; n° 62, 3 de abril de 1974;

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Batalhão “Tobias de Aguiar”, foi convertido nas Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (ROTA),
para cumprir função de Ronda Bancária contra os assaltos a banco da guerrilha. Era
constituído por equipes motorizadas de quatro homens com armamento pesado. Com a
derrota da guerrilha, ainda no início dos anos 70, as Tropas de Choque foram mantidas no
policiamento e na repressão ao crime comum. Já existiam rondas semelhantes desde o fim
dos anos 50, mas elas ficavam a cargo da Polícia Civil. Muitos autores consideram que foi a
partir dessas Rondas que surgiu o Esquadrão da Morte (PINHEIRO, 1982, p. 70; HUGGINS,
1998, pp. 158-159).12 A ROTA se tornou célebre devido à sua grande violência e número de
mortos, tudo sob a conivência do Estado, que garante a impunidade. Isso levaria alguns
autores a classificá-la como a “institucionalização” do Esquadrão da Morte (PINHEIRO,
1982, p. 72; BARCELLOS, 1992, p. 119).
O discurso de Segurança Nacional é utilizado para legitimar a violência policial contra
grupos que não tem nenhuma relação com a subversão. Através da documkentação é
possível observar como a lógica da Doutrina de Segurança Nacional é absorvida e
instrumentalizada pela PM.
No fim dos anos 70, os jornais mostram uma grande preocupação com os
“trombadinhas” no centro de São Paulo. A solução posta em prática pela PM é utilização de
caratecas – policiais à paisana com treinamento em caratê – que farão patrulhas a pé pelas
ruas, em busca dos bandidos (em geral menores de idade). O que chama atenção (além da
heterodoxia da proposta) é a associação permanente feita com o combate à guerrilha do
início da década de 70. O idealizador da ação é o delegado Mitsuyuki Taniguchi, faixa preta
em caratê e ex-membro do Batalhão de Choque da PM, que promete usar a sua experiência
no combate à subversão nesta nova empreitada13. A relação de fato entre essa operação e o
combate à guerrilha não é explicada nos recortes existentes no Dossiê. A “contraguerrilha”
parece ter muito mais sentido como legitimação da prática, para policiais e para o público,
do que modelo de repressão neste caso. A relação que de fato ocorre com frequência é a
utilização do problema dos trombadinhas para reivindicar um endurecimento na legislação e
no sistema de segurança pública.14
Outro caso emblemático abordado pela imprensa aconteceu em março de 1973
quando, durante um jogo de futebol, o torcedor José da Silva cruzou a linha do campo e foi

12
Antes de ser promovido ao DOPS, o delegado Sérgio Paranhos Fleury, conhecido por seu
envolvimento no Esquadrão da Morte paulista, era membro de uma dessas Rondas, as Rondas
Noturnas Especiais da Polícia Civil (RONE). Martha Huggins mostra indícios de que, em algum
momento, no início dos anos 60, Fleury foi estimulado por seus superiores a montar o Esquadrão da
Morte.
13
JORNAL DA REPÚBLICA 20/12/79. DEOPS. OP 1161 Trombadinhas. APESP.
14
JORNAL DA TARDE 09/09/77. DEOPS. OP 1161 Trombadinhas. APESP. O artigo, entre outras
coisas, acusa a esquerda internacional de fazer uma campanha para desarmar as polícias, deixando-
as indefesas.

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atacado por oito soldados da PM, que o espancaram até a morte. A indignação popular foi
tamanha que os PMs foram cercados pelos torcedores, tendo que que solicitar reforços para
conseguirem sair do estádio. Questionado posteriormente sobre o ocorrido, o comando da
PM alegou, inicialmente e sem apresentar nenhuma prova, que José da Silva era um
subversivo.15 Desta forma, o suposto crime político, visto como principal ameaça no início
dos anos 70, é utilizado na tentativa de legitimar o arbítrio policial.
O projeto repressivo e conservador, no entanto, não era aceito sem resistências
dentro da corporação. O caso mais notável foi a denúncia, em 1974, contra um grupo de
policiais militares de integrar o PCB. Foi aberto um processo na Comissão Estadual de
Investigações (CEI)16 que apontava para a atuação dos antigos membros da já extinta
Guarda Civil, liderados pelo Ten. Cel. Vicente Sylvestre, que, através do Centro Social dos
Guardas Civis de São Paulo e da Polícia Militar, fariam “política classista”.17 Um ano depois,
o “setor militar” do PCB seria desmantelado com a prisão preventiva de 24 policiais militares,
incluindo Vicente Sylvestre, além de vários outros indiciados, totalizando 76 envolvidos,
inclusive no 1º Batalhão “Tobias de Aguiar”.18 No relatório do DEOPS sobre a questão nota-
se a grande preocupação com a possibilidade de perda de controle da Polícia Militar.
Sylvestre, “Doutrinador do PC”, é acusado de, desde de seus tempos na Guarda Civil, tentar
montar um “poderoso exército paralelo às Forças Armadas”, conspurcando “ (…) os
sagrados solos das casernas, onde se cultua precipuamente o amor à Pátria e às
19
Instituições”.
O caso atraiu atenção da imprensa nacional e internacional, que questionou o
tratamento dado aos policiais e a validade das confissões obtidas através de interrogatórios
com suspeita de violência. Um dos policiais presos, o Tenente José Ferreira de Almeida, 63
anos, morreu na prisão, supostamente por suicídio, de acordo com a versão oficial.20 No
Jornal do Brasil de 26 de maio de 1976, Vicente Sylvestre relata que foi torturado no DOI-
CODI, confessando a sua relação com o PCB.21 Em seguida foi expulso da PM, condenado
a dois anos de prisão e relegado à condição de “morto-vivo, proibido de exercer quaisquer
atividades públicas ou privadas e sua mulher foi conduzida à condição de viúva de marido

15
O GLOBO. 20/03/73. DEOPS. 50-D-18-2342. APESP
16
A CEI foi instituída através do Decreto-lei nº 6, de 6 de março de 1969, do Governador Abreu
Sodré. Estava sobre a responsabilidade da Secretaria de Segurança Pública e tinha a função de
investigar denúncias contra servidores públicos estaduais, civis e militares, incluindo denúncias de
subversão.
17
DEOPS. Relatório: Militares envolvidos em processos na CEI. 1974. 50-D-18-2318. APESP
18
DEOPS. Inquérito do PCB (PMs). 1975. 50-D-18-2476
19
DEOPS. Inquérito do PCB (PMs). 1975. 50-D-18-2458
20
DEOPS. Relatório: Jornal 'Los Angeles Times” publica prisão de comunistas. 1975. 50-D-18-2408.
APESP
21
JORNAL DO BRASIL 26/5/76 DEOPS. 50-D-18-2480

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vivo para receber uma pensão do Estado”.22 A utopia autoritária não poderia tolerar
subversão dentro do aparato repressor.
Além disso, as divergências entre os policiais, principalmente nas disputas de poder
entre a Polícia Civil e a Polícia Militar, indicam a dificuldade de se realizar plenamente o
projeto repressor. Os relatórios do DEOPS trazem registros dos conflitos entre as
corporações policiais. Brigas entre PMs e investigadores civis eram comuns.23 Chama
atenção o caso ocorrido em 16 de março de 1973, quando o investigador do DEOPS José
Roberto de Arruda parou o seu carro próximo ao DETRAN porque estava passando mal,
quando foi abordado por uma Ronda da PM. Ao descobrirem que se tratava de um agente
do DEOPS, os PMs o levaram até o pátio do DETRAN e chamando “reforços”. Arruda foi,
então, espancado por nove policiais militares. No mesmo dia o investigador se queixou ao
DEOPS e foi aberto um inquérito para apurar os fatos.24 O DEOPS era o Departamento da
Polícia Civil que gozava de maior prestígio durante a ditadura. Portanto, é provável que a
punição pela agressão fosse algo esperado. Mesmo assim, a oportunidade de espancar um
investigador pareceu compensar o risco para os PMs.
Apesar disso, a violência policial mostra um recrudescimento ao longo do período. A
sua impunidade era facilitada pelo fato dos PMs gozarem de foro militar. Assim, crimes
cometidos durante o serviço eram julgados pela Justiça Militar Estadual (JME), órgão
acusado várias vezes de corporativista, que, em geral, inocentava policiais de crimes
cometidos contra civis. Neme mostra que havia grande controvérsia sobre este ponto, pois
havia divergência de jurisprudência, o que permitia que PMs fossem também processados
na Justiça Comum.25 Essa divergência só foi “resolvida” em 1977, quando o general
presidente Geisel editou a Emenda Constitucional nº 7, conhecido como “Pacote de Abril”.
Editado após a derrota do Arena nas eleições, o “Pacote” declarou o fechamento do
Congresso por 14 dias, instituiu os senadores “biônicos” (nomeados pelo Governo Federal)
e também introduziu pela primeira vez de forma explícita na Constituição a competência da
JME para julgar crimes cometidos por policiais militares. A partir daí o STF passou

22
Battibugli 269. Sylvestre relata ainda que seu processo foi revisto em 1984 e anulado. Voltou ao
serviço da ativa, foi promovido a coronel, mas não teve disposição de continuar, solicitando
passagem à reserva (aposentadoria para militares).
23
Ver, por exemplo, DEOPS. Mensagem nº 5644/74. 50-D-18-2321. APESP. Trata-se de uma
briga entre um policial militar e um policial civil.
24
DEOPS. Mensagem 567. 1973. 50-D-18-2310. Ao informe seguem diversos recortes de jornal,
indicando a grande repercussão na imprensa.
25
A lei federal nº 192/36 e a lei estadual nº 2.856/37 já definiam a competência da JME para julgar
“crimes militares definidos em lei”. No entanto, a Súmula 297, editada pelo Supremo Tribunal Federal
(STF) em 1963 considerava policiamento uma atividade civil, estando os seus crimes sujeitos à
Justiça Comum. Depois do golpe foram editados os decretos nº 317/67, nº 667/69, nº 1072/69 e nº
66. 862/70, que definiam os crimes praticados durante o policiamento como sob jurisdição da JME. O
STF, no entanto, mantinha o seu entendimento de que se tratava de assunto civil (NEME, 1999, p. 70-
72).

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reconhecer a sua competência, anulando processos da Justiça Comum contra policiais.26


Paradoxalmente, a abertura democrática “lenta, gradual e segura” coincide com um
período de grande violência policial, principalmente no início dos anos 80. Ao lado das
discussões sobre Direitos Humanos e Anistia, surgem demandas de aumento da repressão,
como pela institucionalização da “prisão para averiguação”27, redução da maioridade penal e
instauração da pena de morte. Com a bandeira de defesa dos Direitos Humanos, Franco
Montoro (PMDB) assume o governo de São Paulo, em março de 1983, como o primeiro
governador eleito por voto direto desde 1966. Seu governo será marcado pela tentativa
(fracassada) de instituir uma “Nova Polícia”, através da reforma do sistema de segurança
pública de São Paulo, afetando diretamente as Polícias Civil e Militar. A gestão Montoro
apresenta uma complexidade própria, bastante discutida por Guaracy Mingardi, estando
portanto, excluída do escopo deste artigo (MINGARDI, 1992, pp. 63-127).

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26
Um exemplo é o caso ROTA 66, onde processo na Justiça Comum, que apontava para a
condenação de uma equipe da ROTA pelo assassinato de três jovens da classe média paulistana. O
caso aconteceu em 1975, mas se estendeu por anos. Em abril de 1979, os acusados tiveram seu
recurso extraordinário, alegando incompetência da Justiça Comum, negado pelo STF. Em outubro do
mesmo ano, o foi impetrado um pedido de habeas corpus sob o mesmo argumento, sendo que dessa
vez foi aceito, com base na Emenda nº 7, e o processo civil foi anulado. (NEME, 1999, p. 74-75;
BARCELLOS, 1992, p. 77-92).
27
Prisão sem flagrante ou mandato, ilegal, mas praticada abertamente pela polícia até meados
dos anos 80.

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Mulheres e militância: um estudo sobre os padrões de representação simbólica


durante a ditadura militar no Brasil

Gabriella Nunes de GOUVÊA


Mestranda em Comunicação pela Universidade de Brasília (UnB)
gabriellagou@gmail.com

Entre os anos de 1964 e 1979, estima-se que 600 mulheres estiveram distribuídas
entre quase todas as organizações de esquerda no Brasil (LIMA, 2000, p. 206), sendo que,
nos grupos armados, elas representaram cerca de 18% do número total de militantes
(RIDENTI, 1990, p.1). Em geral jovens, solteiras e integrantes das camadas mais
intelectualizadas do país (LIMA, 2000, p. 209), essas mulheres foram, sem dúvidas, sujeitos
importantes no cenário de reivindicação política durante a realidade instaurada a partir de
1964, assim como peças-chave para chacoalhar os estranhamentos e limitações que se
impunham à atuação feminina na sociedade. Uma notícia publicada no jornal Folha de São
Paulo em 13 de outubro de 1968, sobre o desfecho do 30º Congresso da União Nacional
dos Estudantes (UNE) em Ibiúna, destaca a presença de mulheres no grupo: “os presos são
estudantes de várias regiões do país. Todos jovens. Um terço, pelo menos, é constituído de
moças”.

A transgressão comportamental cometida por essas mulheres - para além da


transgressão política que a organização partidária, por si só, daqueles grupos representava,
considerando as imposições do regime - é discutida por diversos autores que se dedicam ao
assunto: integrar as organizações de esquerda significava romper com a construção social e
cultural que atribuía papéis específicos para homens e mulheres na sociedade. Em “1968, o
ano que não terminou”, Zuenir Ventura (2008, p. 204) narra um episódio que exemplifica a
construção social da época sobre o espaço e o papel destinado às mulheres: quando a atriz
Beth Gasper - que então se apresentava com a peça Roda viva em Porto Alegre - foi detida
pela polícia em uma tentativa de amendrontar o elenco e impedir que o espetáculo
continuasse em cartaz, um dos policiais, ao descer a atriz do carro e começar a ofensiva
contra ela, disse logo de início: “Esse espetáculo é ofensivo para as nossas esposas”. Em
“Revolução e Democracia” (FERREIRA; REIS, 2007, p. 363) uma militante identificada como
Maria do Carmo resumiu: “A guerra é para os homens; a mulher é o repouso do guerreiro”.

Considerando assim o cenário duplamente transgressor no qual as militantes


estavam inseridas, o presente estudo tem como objetivo analisar as representações1

1
O conceito de representação é aqui entendido com base nos estudos desenvolvidos por Moscovici
(2003) e Jodelet (1989) e, portanto, entendido como processo de constituição e construção de
percepções, ideias, imagens e paradigmas por parte dos indivíduos, as quais irão guiá-los na maneira
de nomear e definir os aspectos da realidade. Segundo Moscovici (2003, p. 32), “essas
representações são tudo o que nós temos, aquilo a que nossos sistemas perceptivos, como

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recorrentes sobre as mulheres militantes durante a ditadura no Brasil. Por meio de um


estudo bibliográfico e histórico-documental verificamos quais as imagens, e os sentidos a
elas ligados, que permearam o entendimento social naquele período sobre as mulheres
integrantes de grupos de resistência. Para tanto, nossa análise se centra em três espaços
principais de construção simbólica, ou seja, espaços relevantes no processo de construção
de representações sobre a militância, sendo eles: o governo, que para garantir legitimidade
para exercer o poder desejava inculcar na população a ideia do “perigo vermelho”, de tal
forma que muitas vezes esse perigo era apresentado à sociedade em proporções muito
maiores do que as que de fato ele poderia significar (MOTTA, 2010, p. 20); a imprensa, pois
não há como desconsiderarmos a construção dos sentidos sociais que se dava pelos mais
diversos veículos de comunicação acerca dos acontecimentos do período; e os próprios
grupos de resistência, afinal, essas organizações de esquerda também buscavam o apoio e
a adesão popular na luta de resistência contra a ditadura.

A partir, portanto, do estudo documental e bibliográfico centrado nos três espaços


acima citados, observamos que, em geral, as representações simbólicas sobre as mulheres
militantes estavam diretamente relacionadas ao menos a um dos seguintes padrões: afetivo-
sexuais; físicos/de beleza; e de personalidade.

E para dar início à discussão sobre o primeiro desses padrões, trazemos aqui as
palavras de Ana Maria Colling (2004): ao afirmar que “a repressão caracteriza a mulher
militante como Puta Comunista”, a autora exemplifica claramente a associação difundida
pelo regime militar entre as mulheres que integravam partidos de esquerda e a libertinagem.
Ou seja, tais mulheres representavam um contraponto à virgindade e ao recato que marcava
os tradicionais padrões afetivo-sexuais femininos, das “moças de família". Uma “possível
associação com a prostituição” (GIANORDOLI-NASCIMENTO et al., 2012, p. 19) era, assim,
muito comum quando tratava de referir-se às militantes.

Zuenir Ventura traz importante relato de como, em determinado momento do ano de 1968, o
governo “comprovou” a vida desregrada das militantes:

Contra a pílula havia resistências que iam do terror natural dos seus efeitos, não
de todo conhecidos, até o preconceito que via nela um instrumento de promoção
da promiscuidade. Em outubro, ao desmantelar o congresso da UNE em Ibiúna,
as forças policiais exibiram como troféu de guerra uma razoável quantidade de
caixas de pílulas apreendidas. Como se a pílula fosse um preservativo de uso
imediato como a camisinha, a polícia acreditava que a exibição provaria à opinião
pública que as moças tinham ido ao encontro preparadas para algo mais do que
discutir as questões estudantis (VENTURA, 2008, p. 38).

cognitivos, estão ajustados”, sendo, portanto, formas de conhecimento.

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Para João Batista de Abreu (2000, p. 133), confundir a censura política com a
censura de costumes - definindo comportamentos comprometedores do modelo
conservador - era uma estratégia do governo para enfraquecer os valores da sociedade.
Assim, seria muito maior o número de “opositores” ao regime e muito menores as
explicações a serem dadas em razão das prisões feitas pela repressão, já que as ameaças
ao bem-estar social estariam sempre onipresentes.

E a construção que se fazia em torno de uma alegada falta de moral das mulheres
militantes era tão intensa que, muitas vezes, elas próprias tinham problemas em se
reconhecer como tal em razão justamente do medo da exclusão moral e social que lhes
poderia ser imposta por fazerem parte de um grupo de esquerda. Era esse o caso de
Rosane2, que conta a opinião que tinha a respeito das mulheres militantes antes de
ingressar no movimento: “outra coisa também que eu não gostava [...] era que as mulheres
eram muito liberais. Pra mim, eram muito galinhas, muito piranhas” (GIANORDOLI-
NASCIMENTO et al., 2007, p. 368).

Já Suzana faz questão de ressaltar que a militância não se vinculava


necessariamente à recusa de determinados padrões de comportamento, tidos como
adequados às mulheres: “nós éramos meninas direitas. A gente passava a noite, por
exemplo, fora de casa, mas trabalhando, ali. Mas ninguém saia dali pra fazer um programa,
pra dormir com um cara, pra isso e aquilo” (idem, 2012, p. 287).

Exemplo das restrições a que estavam sujeitas, Sônia conta que quando ingressou na
universidade não ia a nenhum bar - considerado um “reduto masculino” - porque as colegas,
por proibição familiar, não podiam frequentá-los. Até que um dia ela resolveu deixar aquela
restrição de lado: “Eu falei: ‘Suzana, isso não tem cabimento não. Nós vamos lá’”
(GIANORDOLI-NASCIMENTO et al., 2012, p. 131).

Além das dificuldades enfrentadas no âmbito da família e da sociedade como um


todo, as militantes viviam ainda muitas disputas internas com os colegas de militância,
dentro das organizações. Zuenir Ventura (2008, p. 40) narra um exemplo de discriminação
de homens, militantes, contra suas colegas de partido em razão dos mencionados padrões
afetivos e sexuais: “Em 63, a hoje economista Liana Aureliano foi eleita delegada a um
congresso do PC e em seguida vetada por duas bases do Recife porque não era virgem”.

Mas, dentro da militância, não era só entre os homens que predominavam o preconceito e
os estereótipos: é interessante pensar ainda que, na luta para se mostrar como uma
militante “direita”, como apontou um dos depoimentos citado há pouco, muitas mulheres

2
Os nomes utilizados pelas autoras em questão para nomear as militantes são todos fictícios
(GIANORDOLI-NASCIMENTO et al., 2007; 2012).

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desvalorizavam suas próprias colegas. Ou seja: para se afirmar, elas utilizavam os mesmos
argumentos a partir dos quais eram desvalorizadas e, portanto, desejavam se manter
afastadas. Suzana explica que havia um grupo “tradicional” - “havia um certo preconceito em
relação a nós, era...o grupo, por exemplo, de mulheres que seguiam o modelo tradicional.
Elas percebiam que nós éramos diferentes” - e outro, das “radicais” - “esse outro grupo já
era um grupo muito mais avançado, mais livre. Então, eram outros valores do ponto de vista,
é... da sexualidade” (GIANORDOLI-NASCIMENTO et al., 2012, p. 287). O exemplo
evidencia como os processos identitários são complexos e se constituem a partir da
oposição inclusão versus exclusão, ou seja, o desejo de pertencer a um determinado grupo
faz com que os indivíduos busquem se diferenciar, excluir os demais grupos e transformá-
los naquilo que lhe é exterior3.

Além da associação entre mulher militante e padrões comportamentais afetivos, os


padrões físicos, ou seja, estereótipos quanto à beleza e feminilidade também faziam parte
das representações que permeavam o entendimento social da época sobre as militantes.
Maria do Carmo Brito, que por ocasião do seu depoimento vivia exilada na Argélia, afirmou:
“eu já tinha trinta anos quando fui aceitar que a gente podia ser militante e não precisava ser
necessariamente feia, horrorosa” (COSTA et al., 1980, p. 75). Nas próprias organizações de
esquerda, essas ideias eram compartilhadas por muitos colegas de militância, como mostra
trecho citado por Marcelo Ridenti do romance A fuga, de Reinaldo Guarany:

As mulheres na esquerda sempre seguiam uma linha bem definida. [...] elas em
geral se dividiam da seguinte maneira: quanto mais barra-pesada fosse uma
organização, mais feias eram as mulheres e menos havia; e quanto mais de
proselitismo fossem, mais mulheres havia e mais jeitosinhas eram. [...] Naquela
época não se falava de feminismo, e as mulheres da esquerda, que estavam
rompendo com montões de dogmas e tabus ao mesmo tempo, precisavam de um
braço peludo paras as horas de desamparo (GUARANY, 1984 apud RIDENTI,
1990).

Outro exemplo é dado por Zuenir Ventura, mas pode ser facilmente encontrado em
diversos trabalhos e estudos que tragam referências à militância feminina durante o regime
militar no Brasil: a personagem é Iara Iavelberg. “Iara não tinha muito a ver com suas
colegas de militância. Além de bonita, loura, alta, olhos claros e um sorriso aberto, era muito
vaidosa. Cuidava do corpo talvez com o mesmo zelo com que cuidava do fuzil” (VENTURA,
2008, p. 40). Iara, que integrou a Organização Revolucionária Marxista - Política Operária, a
Polop, é apresentada, assim, como uma exceção diante das demais mulheres militantes,
aquela que fugia à regra: “Bonita, charmosa, atrevida, prestes a completar 25 anos, Iara

3
Sobre este assunto, para mais detalhes ver HALL, 2000, p. 103-133.

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Iavelberg era uma lenda na esquerda. [...] Estava desquitada de um casamento precoce
quando entrou na Faculdade de Psicologia da USP” (AMARAL, 2011, p. 59).

Sinônimo da falta de vaidade, da ausência de feminilidade, desprovida de beleza: o


trabalho de ridicularizar as militantes passava ainda por um jornal da época, O Pasquim, que
além de se opor ao regime “voltava sua mordacidade igualmente para as mulheres que
haviam se decidido pela luta por seus direitos, ou àquelas que assumiam atitudes
consideradas inadequadas à feminilidade e às relações estabelecidas entre os gêneros”
(SOIHET, 2008, p. 3). Em uma charge de autoria de Ziraldo, publicada pelo jornal no final da
década de 19704, um homem repassa informações, provavelmente à polícia, sobre os
responsáveis por uma pichação dizendo: “Eram três, doutor... num fusca branco, de
madrugada, sorrateiros... Duas mulheres feias e uma pessoa do sexo masculino ao volante
[...]”. A charge expõe, assim, para além das representações sobre as militantes, que o
machismo expresso no jornal não era só um tema usado para alimentar as piadas e críticas,
mas configurava as relações dentro do próprio veículo, como evidencia o depoimento da
jornalista Marta Alencar ao documentário “O Pasquim: a subversão do humor” produzido
pela TV Câmara:

Eu era secretária de redação. Uma vez eu fiz um artigo para um almanaque


desses do Pasquim dizendo que no Pasquim lugar de mulher era na cozinha. E na
verdade eu fazia cozinha no jornal que, aliás, era uma atividade nada feminina na
época. Eu praticamente tinha que fumar charuto, cuspir no chão, falar palavrão
sem parar para ser respeitada. Eu não era realmente uma mulher, eu não tinha
um comportamento feminino, uma cabeça feminina. Eu tinha uma cabeça muito
masculina.

Em entrevista a Luiz Maklouf Carvalho (1998, p. 196), Lúcia Murat Maria


Vasconcelos afirmou: “na luta armada a gente perde um pouco da feminilidade”. E a
necessidade de valorização e reconhecimento, especialmente pelos colegas de militância, é
um ponto fundamental nessa espécie de descaracterização dos atributos femininos nas
mulheres que integravam os grupos de esquerda, já que elas queriam, por exemplo, assumir
posições de liderança no movimento. Era muito comum, como destaca Goldenberg (1997, p.
5), que as funções femininas nessas organizações ficassem restritas a atividades
consideradas “menores”: “as militantes deixavam de ser as ‘esposas-mães’ tradicionais para
cumprirem, dentro do partido, as funções domésticas (de limpeza, cozinha, proteção,
secretaria, etc.)”. Distanciar-se da concepção de mulher frágil, submissa, dependente, era,
portanto, uma forma de se mostrar capaz de estar à frente das atividades, das decisões dos

4
Disponível em SOIHET, 2008, p. 13.

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grupos e, inclusive, das ações armadas. Por isso Lúcia Murat completa: “salto alto não
combina com assalto”.

Na verdade, as militantes viviam com base em uma forte contradição: ao mesmo


tempo em que cobravam dessas mulheres dedicação total ao movimento e queriam contar
com elas no que fosse preciso, os homens militantes também as criticavam porque julgavam
suas atitudes e comportamentos muito masculinizados, como evidenciou o trecho do livro de
Reinaldo Guarany citado anteriormente. Em depoimento concedido em 2011 ao projeto
“Resistir é Preciso...”, desenvolvido pelo Instituto Vladimir Herzog, Adélia Borges conta que
as mulheres que lutavam por mais igualdade com relação aos colegas, homens, nas
organizações de esquerda eram acusadas de estarem se desviando do assunto principal,
que era a luta de classes. Os militantes então lhes diziam: “quando a gente conseguir o
socialismo, aí vocês vêm com essa conversinha de vocês, mas primeiro vamos garantir
isso”. Fica evidente, portanto, que não havia interesse e empenho desses homens em
integrar às discussões dos grupos as questões de gênero. Militante que atuou na Guerrilha
do Araguaia, Criméia Alice conta sobre a resistência do partido em permitir que mulheres
fossem a campo, lutar, e diz que “havia muitos militantes que eram contra. Na realidade,
havia os abertamente contra e os omissos, porque a favor não havia ninguém (LIMA, 2000,
p. 212).

Para Maria Lygia Quartim de Moraes, também em depoimento ao projeto “Resistir é


Preciso...”, “quando você está na esquerda você precisa provar, antes de mais nada, sua
seriedade para os seus próprios companheiros. E isso é muito desgastante”. Em seguida ela
completa: “como tudo relacionado à mulher, é sempre uma dupla jornada: a gente
enfrentava a ditadura e tinha de enfrentar ou a oposição ou uma certa complacência da
esquerda”.

Pensar em atributos femininos, por sua vez, nos remete a outro ponto importante do
nosso debate: a maternidade. E, para começar, citemos o documentário “Que bom te ver
viva” (1989), protagonizado por Irene Ravache e com roteiro e direção de Lúcia Murat - a
mesma citada anteriormente -, onde o assunto é recorrente nos depoimentos das
entrevistadas. O que vemos é que se o fato de ser mulher em diversos momentos foi o que
mais trouxe adversidades para a vida das militantes, foi ao mesmo tempo o que as fez
sobreviver e continuar lutando em várias ocasiões.

Em um depoimento emocionante, Maria do Carmo Brito, ao se referir à sua primeira


gravidez, diz: “descobri que a melhor coisa do mundo era ser mulher”. Também Rosalinda
Santa Cruz afirmou: “durante a cadeia toda o que realmente me segurou era a vontade de
ter um filho, a certeza que eu ia ter um filho [...] Ter um filho simboliza que a coisa continua,

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que a vida tá aí”. No caso de Criméia de Almeida, embora a experiência não tenha se
mostrado fácil, foi também uma forma de sobrevivência: “a gravidez marcou muito [...]. Foi
uma situação difícil ter um filho na prisão, mas foi uma sensação gostosa. [...] Uma segunda
gravidez jamais”.

Ter um filho representou ainda, para algumas militantes, um afastamento, de certa


forma, da série de atividades que desenvolvia. Raquel, por exemplo, conta que quando teve
seu segundo filho não conseguiu mais conciliar a vida doméstica com as atividades de
militante; começou a se sentir culpada - “me sentia a última das mães, porque eu achava
que os filhos precisavam...eu tinha que estar mais junto” - e fez uma escolha: “não
abandonei de vez a militância [...], tanto que acompanhei a reunião do sindicato, mas não
com o mesmo envolvimento”. É aí que, segundo ela, ficou evidente como a sua situação era
diferente da do marido: “Aí veio o que é a diferença para homem e para mulher. Ele (o
marido) não se sentiu culpado, nunca se cobrou nada [...] mas não precisava, então ele
conseguiu levar a trajet