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HIPNOSE E PSICOTERAPIA: INTERSEÇÕES

Aron Giffoni
INTRODUÇÃO
Falar sobre Hipnose hoje em dia é mais fácil do que antes. Várias pessoas a divulgam
pelas redes sociais existentes, e isso é um fator muito positivo, pois quebra um pouco a
misticidade e oculticidade que insistem em caminhar lado a lado com ela. No entanto, a falta
de informação ainda é fator de descredenciamento da técnica. Mesmo com a ampla
divulgação, a Hipnose ainda enfrenta muitos preconceitos que prejudicam a pesquisa e a
atuação na área, principalmente dentro do universo acadêmico.
Muita dessa aversão vem do fato de que Freud utilizava a técnica e, em algum
momento abandonou para desenvolver mais abertamente a associação livre. Freud e Breuer
obtiveram muitos resultados positivos com a Hipnose, no entanto, a técnica foi deixada de
lado devido a limitações no atravessamento de resistências, provavelmente causado pela
utilização de técnicas não muito eficazes. Também havia o fato de que a Hipnose,
momentaneamente, acabava com os sintomas dos pacientes, mas alguns não conseguiam
chegar à sua causa. E, a partir daí, como bem diz Neubern (2006), a Hipnose virou tema
maldito para a psicologia clínica, uma vez que jamais poderia atingir, de fato, a causa dos
problemas.
Com o avanço da ciência, das ideias e das pesquisas na área, o quadro se modificou.
As técnicas utilizadas hoje são mais abrangentes e modernas, e buscam extrair do paciente o
máximo de informações, para que nada lhe seja sugestionado de forma equivocada e
pretenciosa.
Alguns conselhos profissionais passaram a reconhecer a Hipnose como ferramenta
auxiliar para diversos tratamentos. O Conselho Federal de Psicologia (CFP) reconheceu
oficialmente a técnica com a publicação da Resolução 0013/2000, o que dá respaldo aos
profissionais da Psicologia para utilizarem a Hipnose como mais um instrumento de
trabalho.
Serão colocados aqui alguns apontamentos sobre a importância da Hipnose para a
Psicologia Clínica, onde ela pode atuar e em quais situações. Essa discussão é importante,
principalmente no momento atual, onde a Hipnose foi envolvida numa polêmica atuação
novelística. Esse envolvimento comprometeu os avanços conquistados a respeito da validade
e cientificidade da técnica, e também sobre a execução de terapias por Coachings. Esse
acontecimento provocou a ira dos profissionais da Psicologia, e consequentemente do CFP,
que emitiu nota de repúdio à forma com que foi tratada na novela uma situação de abuso
sexual.
A Hipnose tem se mostrado uma ferramenta funcional para o tratamento de diversas
situações, e o objetivo deste texto é ampliar a discussão para outros meios, principalmente o
acadêmico, local que reproduz ainda certa descrença sobre a técnica, e por esse motivo, não
desperta o interesse pelo aprendizado e pelo conhecimento da Hipnose.

HIPNOSE E PSICOTERAPIA
De acordo com Cordioli (2008), psicoterapia “é um método de tratamento realizado
por um profissional treinado, com o objetivo de reduzir ou remover um problema, queixa ou
transtorno definido de um paciente ou cliente que deliberadamente busca ajuda” (p.21). Essa
definição é base para relacionarmos o uso da hipnose na psicoterapia, uma vez que a
proposta da hipnose enquanto ferramenta terapêutica é, justamente, auxiliar o profissional
para ajudar os seus pacientes nas mais diversas situações, seja ela reduzir ou remover um
problema.
A hipnose é um estado alterado de consciência onde a mente do sujeito possibilita a
ocorrência de alguns fenômenos que, em vigília, seriam mais difíceis de ocorrer. De acordo
com Ferreira (2011), o paciente redistribui a sua atenção, aumenta a disponibilidade para o
reavivamento e lembrança de memórias passadas já esquecidas, aumenta a
sugestionabilidade, ou seja, todos os fatores que a hipnose produz rebaixam a defesa
consciente do sujeito, o que possibilita uma intervenção mais eficaz. Além disso, durante a
hipnose, o paciente pode apresentar modificações na motricidade, modificações metabólicas
e no sistema imunológico, modificação na percepção pelos órgãos do sentido, alteração das
funções mentais e das sensibilidades, modificações na interpretação de acontecimentos e
modificação nos hábitos.
A decisão de usar a Hipnoterapia como norteador da psicoterapia deve ser em comum
acordo com o paciente, devendo ele ser avisado e psicoeducado para que entenda o processo
e facilite o transe hipnótico (Ferreira, 2011). Ainda, Ferreira destaca que a partir da
dissociação provocada pela Hipnose, podemos imprimir no paciente uma divisão clara entre
o funcionamento mental consciente e o funcionamento mental não consciente. Segundo ele,
”é possível que uma parte do cérebro registre uma informação transmitida dentro dos limites
perceptíveis do consciente, mesmo que o paciente não esteja conscientemente prestando
atenção a essa informação, e é possível depois recuperar essa informação” (p. 785). Ou seja,
separar o EU que observa do EU que experiencia algo facilita ao paciente que compreenda
melhor determinadas situações, e não vivencie, de fato, sentimentos e emoções que
porventura podem vir a se manifestarem.
As induções
Podemos dividir as induções em duas escolas básicas e mais comumente usadas, que
são a Clássica e a Ericksoniana. Na escola clássica, temos as induções diretas, ou seja,
aquelas que dão comandos específicos para o rebaixamento da consciência, com técnicas de
relaxamento progressivo, ou técnicas de exaustão ou de choque. Já a hipnose ericksoniana
possui outro desdobramento, que detalho a seguir.
De acordo com Ferreira (2011), o psiquiatra americano Milton Erickson revolucionou
a hipnologia do século XX, quando cria uma abordagem totalmente diferente do que se tinha
até então. A abordagem interativa centrada no paciente é uma indução indireta e sugestiva, o
que permite ao paciente ter escolhas durante o processo. Ela é também centrada no cliente,
ou seja, faz-se necessária a observação de todas as reações, comportamentos e emoções do
paciente, pois isso será utilizado no tratamento e no decorrer da hipnoterapia. De acordo com
Erickson (apud Ferreira, 2011), “a tarefa do terapeuta é provocar no paciente um processo de
ressíntese interna, a partir do qual pode proceder efetivos resultados” (p.29). A partir das
reações, das respostas que o paciente dará, podemos capturar um importante material que
poderá ser usado no futuro, dependendo dos objetivos terapêuticos.
Segundo Araújo (2013), pela abordagem ericksoniana o cliente acessa os processos
inconscientes, liga-se a eles e passa a utilizá-los para ressignificar diversos outros processos,
que trarão um bem-estar psíquico. Também conhecida como hipnose conversacional, a
abordagem ericksoniana leva o cliente a um estado se relaxamento por meio de conversas
normais (ou naturais) embutidas dentro de estratégias específicas desenvolvidas por
Erickson.
Vale ressaltar que todas as técnicas são precedidas por muito estudo técnico sobre a
estrutura da consulta, anamnese, etc., além de conhecimentos aprofundados em induções
variadas. Também é ponto importante a se discutir a regressão a vidas passadas. É
consensual o entendimento científico de que, caso o paciente apresente um material
relacionado a outras vidas, trata-se única e exclusivamente de criatividade mental deste
paciente, e um bom terapeuta deverá saber aproveitar o material e verificar se é possível
fazer associações com o aqui e agora. Portanto, não é objetivo que o paciente chegue a esse
ponto, mas é algo que não é possível de se controlar e evitar, pois se existe a crença, pode ser
que esse paciente, espontaneamente, apresente alguma situação nesse universo espiritual.
A seguir apresento algumas técnicas de hipnoterapia sugeridas por Ferreira (2011), de
forma resumida, pois não é intenção aqui criar um manual de hipnoterapia e psicoterapia.
Hipnografia: indicada para pacientes que tem dificuldades para se expressarem
oralmente. Nesta técnica o paciente expressa suas emoções pela pintura. Após colocar o
paciente em relaxamento profundo, estimula-se movimentos automáticos dos braços, e com
uma tela de pintura a sua frente, pede-se para que o mesmo pinte o que vier à mente. O
terapeuta dialoga com o paciente ainda sob hipnose, para verificar quais associações serão
feitas por ele (p. 786).
Hipnoplastia: técnica parecida com a Hipnografia, onde o paciente irá se expressar
pela modelagem, seja com argila, massa de modelar ou outros. As associações também são
verificadas com o paciente em transe (p.786).
Indução de sonhos: com o paciente em transe, dá-se uma sugestão pós-hipnótica
indireta para que ele sonhe com algum assunto específico ou com algum assunto que o esteja
preocupando, e que se lembre dele para conta-lo na próxima consulta (p.787).
Escrita automática: esta técnica também é indicada para pacientes com dificuldade
em falar. Aqui o paciente se expressa por meio da escrita, e além de servir para associações
futuras, é muito utilizada para situações em que nomes, locais e números foram esquecidos.
Essa técnica é comumente usada com testemunhas que precisam se lembrar de algo e não
conseguem. Com o paciente sob hipnose, pede-se que escreva automaticamente o que é
necessário (p.788).
Associação de ideias: solicita-se ao paciente que fale aleatoriamente, o que vier a sua
cabeça. A seguir, o hipnoterapeuta pronuncia uma série de palavras e pede para que o
paciente diga imediatamente o que está em sua cabeça. Durante a hipnose reduz-se a
resistência do sujeito, e o terapeuta deve ficar atento às possíveis associações que farão
sentido ao caso do paciente (p.789).
Hipnoterapia analítica: indicada para a recuperação de experiências, memórias e
afetos reprimidos do paciente. Faz uso das técnicas acima mencionadas, além da regressão
de idade. Aqui é frequente a dissociação do EU observador e do EU participante (p.789).
Relembrança e revivificação: formas de acesso a conteúdos reprimidos do
funcionamento mental. Enquadram-se aqui as regressões (p. 790).
Terapia Cognitivo – Comportamental: conhecida também como hipnoterapia
cognitiva, esta abordagem reforça os pressupostos de que os problemas psicológicos são
resultados de cognições disfuncionais. Aqui, tudo o que é feito sob hipnose pode ser feito
sem ela. É utilizada principalmente para a modificação de padrões de pensamento
disfuncionais, crenças e declarações negativas (p. 790).
Técnica fracionada (dentro e fora): o paciente é submetido ao transe, onde busca-se
material relacionado à problemática que ele traz, e logo após é posto em vigília para que o
conteúdo seja discutido. Isso torna-se um ciclo durante a sessão. O importante aqui é a
discussão em vigília (p.792).
Hipnossíntese: nesta técnica considera-se que o paciente, por si só, é capaz de
descobrir o seu problema e de encontrar uma solução para ele. Após a indução, o paciente é
orientado a desfrutar da hipnose como quiser, e se caso sinta-se como se estivesse falando,
que continue. O paciente fica cerca de 30 minutos no transe, e depois é retirado (p.792).

CONCLUSÃO
É muito escassa ainda a literatura que verse sobre os usos da Hipnose na psicoterapia
especificamente. Apresentei aqui alguns instrumentos para compor a caixa de ferramentas do
Psicólogo. Na psicoterapia, a Hipnose contribui significativamente em situações que o
paciente não tenha uma facilidade em se expressar verbalmente, e em situações em que
ocorre deficiência de memória.
A própria Psicologia está se abrindo mais ao tema, com profissionais se
especializando em diferentes esferas do campo psicológico e complementando-os com
técnicas hipnóticas. Algumas instituições de ensino oferecem capacitação específica para
profissionais da área da saúde, e é bom que isso aconteça, pois hoje vemos muita mistura de
espiritualidades e misticismos que não condizem com a cientificidade que é própria da
ferramenta.
É fato que há mau uso da Hipnose por profissionais despreparados e instituições
desqualificadas, mas cabe a nós trabalharmos para que cada vez mais a Hipnose assuma seu
lugar dentro do consultório e da própria Psicologia, atuando de forma incisiva no tratamento
do paciente.

BIBLIOGRAFIA

Araújo, Jovino da Silva Alves. (2013). Técnicas de indução hipnótica na abordagem


ericksoniana. In Ferreira, M. V. C. (Ed.). Manual Brasileiro de Hipnose Clínica (610 pp.).
São Paulo: Editora Atheneu.
Cordioli, Aristides Volpato. (2008). As principais psicoterapias: fundamentos teóricos,
técnicas, indicações e contra-indicações. In Cordioli, A. V. (Org.). Psicoterapias:
abordagens atuais (3 ed. 886 pp.). Porto Alegre: Artmed.
Ferreira, Marlus Vinícius Costa. (2011). Hipnose na prática clínica. (2.ed. 883 pp.). São
Paulo: Editora Atheneu.
Neubern, Maurício da Silva. (2006). Hipnose e Psicologia Clínica: retomando a história não
contada. Psicologia: Reflexão e Crítica, 19 (3), 346-354. Disponível em:
http://www.scielo.br/pdf/prc/v19n3/a02v19n3.