Você está na página 1de 5

Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira

Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades


Disc.: Metodologia da Pesquisa Interdisciplinar em Humanidades
Prof. Jon A. M. Cavalcante

Aluno(a): Michel Vincent de Oliveira Sampaio

1ª AVALIAÇÃO ESCRITA

ACARAPE - CEARÁ
2018
QUESTÕES E SUAS RESPECTIVAS RESPOSTAS:

1) A partir do texto de Mafalda Nesi Francischett, “O entendimento da


interdisciplinaridade no cotidiano”, discutido em sala de aula, aponte as
diferenças entre multidisciplinaridade e interdisciplinaridade. Em seguida,
identifique e explique três características da interdisciplinaridade. (2,5 pontos)

Mafalda conceitua inicialmente a multidisciplinaridade como “a gama de disciplinas ligadas


principalmente pelo diálogo paralelo entre os especialistas”, ou seja, trás a ideia de que o
conhecimento pode ser “retalhado” em partes distintas, em paralelo uma com a outra, mas
sem possuir grau colaborativo entre si.
A interdisciplinaridade tem o objetivo de fazer ligações entre disciplinas e seus
conhecimentos podendo transformar saberes específicos em algo mais fragmentado e rico,
rompendo barreiras entre diferentes áreas.
Segundo Francischett, um dos principais precursores dos estudos da interdisciplinaridade foi
Georges Gusdorf que sugeriu em suas pesquisas a possibilidade de uma menor distância
teórica entre as disciplinas de ciências humanas. Interdisciplinaridade apresenta uma forma
mais flexível, menos engessada de educar.

Entre as características da interdisciplinaridade está a possibilidade de rever o velho e torna-


lo novo; O diálogo entre disciplinas revelando novos indicadores de conhecimento; Trabalha
em parceria com a necessidade de troca de conhecimentos; Respeito ao modo singular de
cada caminho do conhecimento; Construção coletiva de um novo tipo de conhecimento
colaborativo; Articulação entre teorias e práticas.

2) Escolha um tema/assunto que possa ser pensado a partir de duas disciplinas que
estejas matriculado/a neste semestre. Destaque as contribuições que cada uma
dessas disciplinas poderia oferecer ao estudo sobre esse tema (preencha as
colunas abaixo). Por fim, aponte as reflexões sobre esse tema a partir das trocas
entre os saberes dessas disciplinas (colocar na terceira coluna). (2,5 pontos)
Tema/assunto: Capitalismo

Disciplina 1: Experiência, Disciplina 2: Território e poder Reflexões mediante as


prática e significado trocas entre as disciplinas

Nessa disciplina abordamos Atualmente nossos estudos


inicialmente as questões sobre nesta disciplina estão mais
totalidade e para isto ligados aos conceitos e A estrutura de uma sociedade
precisamos adentrar na debates referentes à capitalista fomenta as
epistemologia política das territorialidade que se refere diferenças bruscas entre as
estruturas sociais. Dito isto, não somente ao espaço físico classes sociais (como salienta
adentramos recentemente nos (material), mas ao valor Marx). As lutas entre as
estudos sobre as estruturas do simbólico (imaterial) que pode classes surgem no sistema
capitalismo explanado representar, ou seja, a capitalista que trás a ideia
profundamente pelo cientista territorialidade é um tema central da propriedade privada
social alemão Karl Marx que plural visto que existe um e de um sistema onde a
elaborou a teoria de que as processo de construção burguesia (minoria
transformações da sociedade variante de territórios de populacional) possui maior
aconteceriam através das lutas acordo com a atribuição de poderio de bens e riquezas
entre as diferentes classes seus distintos significados. gerando, dessa forma uma
sociais. imensa desigualdade social.
A territorialidade demonstra
que o valor do território pode
ser diferente de acordo com
seu significado para cada
indivíduo. Dessa forma, os
assuntos das duas disciplinas
apontadas interagem quando
grandes empresas detentoras
de poder capital invadem terras
indígenas, por exemplo para
extração de petróleo ou outras
matérias primas,
desrespeitando o valor
simbólico do território para nos
indígenas. Isso ocorro bastante
com as populações ribeirinhas
e quilombolas. Nesse sentido o
capitalismo demonstra que a
burguesia (grandes empresas
e multinacionais) detentoras de
poder impõem que seus
motivos para extração de bens
minerais são mais importantes
que os sentimentos e as
vivencias territoriais dos
indígenas. (de acordo com o
exemplo).

3) A partir do texto de Boaventura de Sousa Santos, “Conhecimento e transformação


social: para uma ecologia dos saberes”, explique e exemplifique as monoculturas do
saber, das classificações, da classe dominante, do tempo linear e da produção capitalista.
Por fim, aponte duas contribuições que a ecologia dos saberes pode oferecer aos estudos
sobre os fenômenos humanos. (2,5 pontos)
Segundo Boaventura, existem várias formas de produção de ausência e são identificadas,
todas elas como monoculturas. A primeira das monoculturas é:

 A monocultura do saber científico e do rigor. Que é a ideia de que existe apenas uma
forma de conhecimento e todas as outras não são válidas, ou seja, considerar que todo
conhecimento que não está dentro dessa monocultura é ignorante. Tratar qualquer que
seja o conhecimento de ignorante é a primeira forma de produzir ausência. Podemos
exemplificar esse tipo de monocultura como acreditar que a medicina científica é mais
importante e válida que as medicinas realizadas por conhecimentos homeopáticos.
 A monocultura das classificações é a ideia de normalizar e naturalizar diferenças de
hierárquicas de culturas, sexos, raças superiores e outras inferiores. Como exemplo
podemos
 A monocultura da escala dominante é o tipo de conhecimento considerado universal
independente de onde foi criado. Segundo o texto de Boaventura, a globalização
classificou alguns conhecimentos e áreas como universais. Um exemplo é o que
fazemos com o estudo das artes na universidade que trata as artes clássicas gregas e
romanas como as centrais ou mais importantes, ignorando outras formas de estudos
artísticos como a arte japonesa ou chinesa, por exemplo. Essa ausência trás a
invisibilidade desse tipo de conhecimento e a continuidade da dominação do
conhecimento considerado universal.
 O quarto tipo de monocultura é a linear, que é a ideia de que os países desenvolvidos
caminham na direção e o sentido histórico do tempo e todo conhecimento que está
fora dessa simetria de desenvolvimento mundial de acordo com o tempo cronológico
do mundo não pode ser credibilizado.
 Dos tipos de monocultura, temos como última a monocultura da produção capitalista
5que mostra que a estrutura da produtividade capitalista é baseada na competitividade
e emergência de lucros chegando a tornar a jornada de trabalho humana em moldes de
sistemas escravistas. O sistema de produção de alimentos através da agricultura, por
exemplo, são acelerados através de transformações químicas dos alimentos, mudando
a forma de produção para um único ciclo.

O estudo sugerido por Boaventura de uma Ecologia dos Saberes propõe uma nova
epistemologia, a do Sul, que nos trás uma proposta de inclusão global de vários tipos de
conhecimento. Em minha opinião, a Ecologia dos Saberes é um caminho introdutório para o
respeito das diferenças culturais, raciais, sexuais, etc. Levando em consideração que nenhum
conhecimento seja empírico ou não, é mais importante que o outro, mas sim, o contrário.
Descolonizar o conhecimento é abrir os olhos para novas perspectivas e trazer à tona vozes
que foram caladas até hoje em nosso conhecimento ocidentalizado e, em consequência,
limitado da vida.

4) A partir dos textos de base sobre a Interseccionalidade e do vídeo de Kimberlé


Crenshaw assistido em sala, identifique uma experiência de violência (sobre a qual
tenha informações), descreva pelo menos três marcadores sociais dos sujeitos presentes
nessa experiência (ex: classe, gênero, raça, território, geração etc) e aponte os possíveis
efeitos das intersecções/articulações entre esses marcadores na experiência concreta.
(2,5 pontos)

Certo dia vivenciei um episódio real do qual fiquei bastante impactado. Estava eu comendo
um pastel com uma amiga na praça da Gentilândia no bairro Benfica, quando avistei cerca de
5 rapazes (brancos) atacando com palavras 1 rapaz (negro) que, aparentemente, tinha
problemas mentais. Este rapaz estava com suas vestimentas sujas e caído no chão próximo
onde eu estava. Um dos rapazes brancos estava numa moto chutando o rapaz (negro) e
gritando acusava o rapaz de ter tentado roubar o celular de sua namorada. Após ser chutado
várias vezes, o rapaz negro conseguiu correr para o centro da praça e então os 5 rapazes
brancos vieram atrás dele e o pararam com chutes. Um deles pegou uma casca de côco para
jogar no rapaz. Vendo essa cena de longe não consegui aguentar. Fui para perto deles e
conversei com o que estava na moto perguntando porque estavam fazendo aquilo. Ele
respondeu que o rapaz teria tentado roubar o celular de sua namorada. Nesse momento já
tinham várias pessoas ao redor do rapaz negro. Algumas querendo linchá-lo e outras
indignadas com a cena esbravejando que aquilo era desumano. Eu voltei a conversar com o
rapaz branco e disse deixasse ele ir embora, que talvez devesse estar com fome e que era
morador de rua, que aparentemente tinha problemas mentais. Após alguns minutos de
discussão os rapazes resolveram deixa-lo ir embora.

Bem, nessa situação a amiga que estava comigo me disse que aquilo era justo já que o rapaz
tinha tentado roubar um celular. E eu perguntei se realmente era justo ver 5 pessoas brancas,
privilegiadas assassinarem em praça pública um rapaz morador de rua, com problemas
mentais e negro, que se torna ainda mais invisibilizado pela sociedade. Acredito que eram pra
ter denunciado à polícia. Nesse momento refleti que nada foi analisado naquele contexto. O
rapaz tinha vários marcadores sociais, era negro, pobre, morador de rua e mentalmente
problemático e teria sido morto sem qualquer sentimento de culpa.

Possivelmente caso esse mesmo rapaz fosse rico, branco e mentalmente sadio, poderia ter
sido diferente. Ou se ele fosse morador de rua branco e mentalmente sadio poderia ter sido
apenas denunciado à polícia. Com certeza diriam que ele era louco ou algo do tipo. Mas não,
todos esses marcadores, principalmente o da cor, o deixou em apuros sem voz e sem o direito
humano à vida naquele momento.

A sociedade tradicional atual tenta invisibilizar as estruturas e dinâmicas de interação entre


dois ou mais eixos de subordinação social. O racismo, o sexismo, as diferenças de classe etc.,
trazem à tona e enfatizam as desigualdades sociais trazendo desempoderamento e opressão
relacionadas à mulheres, etnias, raça e classe social, etc.