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CAMINHOS PARA O SILÊNCIO NA POESIA DE MAX MARTINS

Autor: Thiago de Melo Barbosa


thiagomelob@hotmail.com
Orientador: Antônio Máximo Ferraz
maximoferraz@gmail.com

Resumo: O artigo concentrar-se-á na exposição das “linhas de força” do projeto de


mestrado intitulado “A Voz do Silêncio na Poesia de Max Martins”, que tem por finalidade
fazer um percurso interpretativo pelos textos do poeta Max Martins em diálogo com a
questão do silêncio entendida como essência da linguagem.

Palavras-chave: Poesia, Silêncio, Max Martins.

Abstract: The article will focus on the exposition of the “lines of force” of the master's
project titled "The Voice of the Silence on Max Martins’ Poetry", which aims to make a
interpretative journey through the texts by the poet Max Martins in dialogue with the
silence question understood as the essence of language.

Keywords: Poetry, Silence, Max Martins.

Sobre a obra de Max Martins (1928-2009), poeta paraense que dedicou mais de
meio século da sua existência ao exercício de “luta com as palavras”, no sentido
drummondiano do termo, é possível afirmar que, ainda hoje, em 2013, ela foi pouco
estudada e permanece quase que totalmente desconhecida fora do estado do Pará. E mesmo
dentro do estado, apesar de muito reconhecido e aclamado, poucas são as publicações
críticas realmente significativas acerca da poesia martiniana, entre estas, merecem destaque
uma edição da revista Asas da Palavra, da Universidade da Amazônia (UNAMA) e um
artigo (que pode ser encontrado em várias fontes, inclusive no meio digital) intitulado
“Max Martins, Mestre-Aprendiz”, do filósofo, crítico literário e amigo do poeta, Benedito
Nunes. Tal fortuna crítica, ainda que contando com o brilhante texto — certamente o mais
influente trabalho sobre o autor — do professor Benedito Nunes, está muito longe do ideal,
haja vista as qualidades e peculiaridades da produção desse poeta.
Entretanto, nem tudo são dores no que diz respeito à recepção crítica da poesia de
Max Martins, isto porque, de alguns anos para cá, o poeta parece ter começado a cair nas
“graças” da academia. Para se ter uma ideia mais clara dessa assertiva, basta observar que
nos últimos três anos foram defendidas quatro dissertações de mestrado cuja temática
girava entorno do “assunto” Max Martins, são elas: Max Martins e a Modernidade: uma
poética (de tradução) da tradição ocidental, de Lenilde Pinheiro; 1952: a poesia de O
Estranho de Max Martins, de Melissa Alencar; Cartas ao Max: limiar afetivo da obra de
Max Martins, de Élida Pinheiro; e Por uma história da recepção da obra de Max Martins,
de José Francisco Queiroz1. Além destes, o poeta que um dia gritou, parafraseando Graça
Aranha, “Que morra a academia!”, também já possui, como fortuna crítica acadêmica,
vários trabalhos de conclusão de curso e, vale destacar, uma tese de doutorado, intitulada
Max Martins: biografia literária e edição de excertos de seus diários, em processo de
produção, no curso de pós-graduação em Literatura Brasileira da USP, pelo doutorando
Paulo Roberto Viera.
Frente a isso, o novo pesquisador que tenha interesse em estudar esse poeta,
encontra-se, de imediato, diante de uma visão dúbia sobre a recepção do autor: por um
lado, se vê a carência de publicações e da inserção de Max Martins no cânone nacional, por
outro, um real e crescente interesse acadêmico e um lugar cativo no cânone regional. Estas
duas visões parecem contraditórias, e realmente o são, contudo, não excludentes. Isto
porque, as fronteiras entre o nacional e o regional (e/ou local) estão cada vez mais
dilatadas, uma vez que, especialmente por conta do advento da internet, as produções
(tanto críticas quanto artísticas) podem atingir um alcance quase que ilimitado, sem que
haja necessidade de um “aval” do centro, o que, indubitavelmente, favorece certa
independência do regional com relação ao nacional.
Toda essa discussão acerca de cânone regional e nacional, dilatação de fronteiras
etc. poderia, muito bem, ser desenvolvida num trabalho não só sobre o Max, mas sobre a
maioria dos autores paraenses. Contudo, esses pontos foram tocados aqui apenas para que
se tenha uma pequena ideia do atual lugar do receptor que intenta estudar a obra do poeta
em questão, que, como toda poesia autentica, abre inúmeros caminhos para se adentrar.
Certamente nunca será fácil escolher entre tantas portas que a poesia oferece, porém, é
necessário não se deixar paralisar diante das possibilidades, mas, sim, encarar a travessia
por aquela cuja questão desde já se inscreve no receptor e na obra.
Conheci a poesia de Max Martins em meados de 2008, quando estudante do curso
de Licenciatura em Letras da Universidade do Estado do Pará. O encantamento e o desafio
que aqueles “poemas diferentes” — extremamente herméticos aos meus olhos da época —
provocaram em mim foram tão grandes que, já no ano seguinte, em 2009, uma urgência

1
As duas primeiras dissertações citadas foram defendidas em 2011, a terceira em 2012 e a última no início
do corrente ano, 2013. As referências completas das dissertações estarão contidas na bibliografia do presente
trabalho.
quase angustiante de compreender aquele poeta me impulsionou a escrever o projeto de
iniciação científica “O Percurso Estético de Max Martins”, o qual foi aprovado pouco antes
do falecimento do autor. Esse trabalho, um tanto quanto “megalomaníaco”, objetivava
mapear, livro a livro e de modo cronológico, todas as mudanças de caráter “estético-
formais” empreendidas pelo autor no decorrer da sua trajetória poética, porém findou como
uma espécie de análise “estilístico-hermenêutica” sobre os três primeiros livros2 do poeta,
graças à realidade revelada pelo tempo — impossível executar uma pesquisa do tamanho
que se pretendia em apenas nove meses — e as sensatas orientações do professor
Wenceslau Otero Alonso Jr.
O projeto de iniciação científica pode não ter sido executado exatamente do modo
como foi planejado, no entanto, foi mais ou menos um ano que fiquei, juntamente com
meus companheiros de pesquisa na época, Janaína Torres e Pedro Nascimento, em contato
direto com os textos martinianos, se não “resolvendo todos os enigmas” destes, como
pretensiosamente ambicionava, ao menos aprendendo e vislumbrando as inúmeras veredas
que se abriam cada vez mais que se aprofundava o mergulho na poesia. Logo compreendi
que não seria tarefa das mais fácies “compreender aquele poeta”, entendi que ainda
precisaria de anos para conhecê-lo como desejava. Desde então, a curiosidade e a paixão
pela poesia de Max Martins apenas aumentou e, consequentemente, o impulso para a
pesquisa sobre a obra também, ainda mais quando, após algum tempo, chego à mesma
conclusão que Francisco Queiroz chegou, na sua dissertação, já citada, sobre a recepção
dos escritores locais, ao afirmar que:

Sempre que um autor local ganha alguma projeção na mídia ou no meio


acadêmico costuma-se tratá-lo sob um enfoque subjetivo e, assim, a
discussão sobre os aspectos propriamente literários ficam em segundo
plano, sem que possamos conhecer o seu trajeto de publicações e a
relação que os demais autores venham a possuir ente si (QUEIROZ,
2012, p. 11).

A consciência de tal constatação ajudou-me na delimitação dos caminhos que


gostaria de trilhar pesquisando a poesia martiniana. Partindo disso, dois pontos foram
colocados como princípios básicos para o trabalho que ora desenvolvo: primeiramente,
evitar um enfoque subjetivista sobre a obra, especialmente no sentido da utilização de
fórmulas prévias — que normalmente mascaram a subjetividade com o discurso da

2
Respectivamente: O Estranho, de 1952; Anti-Retrato, de1960; e H’Era, de 1971.
“objetividade científica”, mas que findam é por ditar os rumos do caminhar interpretativo
— e, posteriormente, na verdade, concomitantemente, concentrar-se no estudo das
questões que a própria obra opera, i.e, acima de tudo, se por à escuta dos poemas: lê-los.
Em tempo de grande voga dos Estudos Culturais, Antropológicos, Pós-coloniais e
Cia., ou seja, na atual conjuntura, em que o pêndulo das principais linhas crítico-teóricas da
literatura tão fortemente pende para o lado do receptor (vale lembrar o famoso tripé que
norteia os estudos literários: autor, obra e leitor) em seu contexto sociocultural, a opção
pela ênfase na obra, no texto propriamente dito, pode parecer anacrônica ou, para os menos
polidos, até mesmo rançosa. Uma abordagem assim, vista de relance, facilmente é taxada,
como se insulto fosse, de formalista e/ou estruturalista.
Não desmereço os estudos formalistas, estruturalistas, pós-coloniais, biográficos,
culturais ou seja lá quais forem, todos têm suas razões de ser, e não existiriam não fosse a
grande abertura que a obra de arte, inevitavelmente, instaura. Todavia, para “o caso” Max
Martins, pelos motivos já expostos e por alguns outros que ainda serão, senti-me
impulsionado, sobretudo, para uma abordagem que levasse em conta, prioritariamente, a
interpretação da obra. Com essa escolha quer-se, inclusive, a diferenciação entre o presente
trabalho e os outros que recentemente foram feitos sobre o autor no âmbito acadêmico,
focando em uma parte do “bolo” ainda pouco mexida. Isto é possível uma vez que, dos
trabalhos pesquisados — as dissertações citadas alguns parágrafos acima —, dois focam na
discussão sobre o lugar do autor (e sua obra, logicamente) dentro da poesia moderna, um
corresponde a uma leitura autobiográfica apenas inspirada nos textos (e na vida) de Max
Martins e, o último, ateve-se ao estudo dos textos críticos sobre o autor. Ou seja, em
nenhum o foco principal foi a leitura-interpretativa da obra poética de Max Martins como
um todo.
Contudo, não se quer dizer, com isso, que os outros pesquisadores abdicaram de
ler a obra em favor de reflexões extraliterárias. De for alguma se afirma isso, pois sabemos
que para cada trabalho desses, a lida com, e o conhecimento dos, poemas foi essencial. O
que se pretende salientar com essa linha argumentativa é que mesmo que todas as
pesquisas partam da obra, o resultado exposto pende, nos casos em questão, ora mais para
o lado do contexto histórico, ora para o lado da recepção, do leitor (seja crítico ou não).
Aqui, por outro lado, tentar-se-á que os resultados da pesquisa retornem para a obra,
seguindo a ideia de um “círculo hermenêutico”. Não se trata, entretanto, de uma nova
“morte do autor”, pois estamos com Heidegger quando este afirma, em A Origem da Obra
de Arte, que:

O artista é a origem da obra. A obra é a origem do artista. Nenhum é sem


o outro. Do mesmo modo que nenhum dos dois porta sozinho o outro.
Artista e obra são em-si e em mútua referência através de um terceiro,
que é o primeiro, ou seja, através daquilo a partir de onde artista e obra de
arte tem seu nome, através da arte (HEIDEGGER, 2010, p. 37).

Com essa reflexão, o pensador expõe-nos ao óbvio muitas vezes esquecido, i.e,
recorda-nos do mútuo pertencimento que há entre artista e obra, no caso da literatura, entre
autor e texto. Deste modo, torna-se patente que, indiferente as nossas artificiais oposições
teóricas, o que há, para o artista e sua arte, como o elo que os definem e ao mesmo tempo é
defino por eles, é a Arte. Por isso não faz sentido, dentro desta linha de raciocínio, falar
nem em morte do autor, nem em vida, uma vez que seguindo esse caminho chega-se à
união indissolúvel obra-autor.
A citação de Martin Heidegger ajuda-nos a diluir um pouco as oposições, que nós
mesmo construímos, entre os elementos da arte. Contudo, alguém pode de repente
perguntar: “mas e o receptor? E o contexto?”. Acredito que uma das saídas para tais
perguntas encontra-se na ideia de interpretação, de hermenêutica: está na consciência de
que a obra só se faz completa quando fruída. Assim, não há motivos para se ressaltar um
em detrimento do outro, visto que aquilo que interpretamos, desde sempre, já ressoa em
nós, receptores que compartilham as mesmas questões com a obra, tal qual bem esclarece
as palavras de Benedito Nunes, no seu ensaio “Interpretação, discurso e verdade”:

Ora, estamos aqui lidando com a base do interpretar, que se aplica ao


texto, porque, na nossa situação, só interpretamos o que já
compreendemos previamente, na medida da nossa facticidade, isto é,
como ser-no-mundo, já circunscritos por objetos, vivendo em
determinado estado de conexão com os outros. O “círculo hermenêutico”
é, pois, uma expressão da nossa própria finitude (NUNES, 1999, p. 76).

Por isso, quando no começo deste texto falei em dar ênfase na obra, não quis dizer
no sentido usual, da polarização dos elementos, mas, sim, por crer que é pela obra, pelo
que a arte opera, que é possível se chegar a uma visão mais totalizadora, holística, das
questões que envolvem o poético. No caso da poesia martiniana, dentro da pesquisa de
mestrado, “A voz do silêncio na poesia de Max Martins”, na qual este texto é baseado, o
silêncio é questão que norteia o percurso interpretativo. O silêncio, entendido como
essência da linguagem, marca a travessia que se pretende com a pesquisa, porém, não é a
reflexão externa sobre “O que é o silêncio?” que a delimita, mas, sim, como esta está
intimamente relacionada com o fazer poético de Max Martins: quer-se pôr em evidência o
movimento dialético existente entre Silêncio e Poesia com os poemas.
A questão do silêncio é inerente a todo fazer poético, visto que, como foi dito, está
na essência da própria linguagem. Por isso, o trabalho visa não apenas discorrer sobre tal
questão, mas antes verificar por quais vias a poesia de Max Martins caminha na sua
direção, i.e, procura entender algo como o “grau” de consciência poética manifestada nos
próprios textos martinianos, bem como os recursos utilizados pelo autor para pôr em obra
tal questão. Sendo assim, é claro que o que se chama aqui de a “voz do silêncio” não é
exclusividade da poesia produzida por Max Martins, é antes, se é que se pode dizer assim,
uma “particularidade” da linguagem poética (Por isso no título optou-se pelo “na” ao invés
do “da”). Contudo, os “motes”, os guias para se percorrer esta questão vêm todos, no
presente trabalho, dos poemas desse autor: os textos conduzem à discussão e a discussão.
Certamente a abordagem aqui proposta não é das mais comuns, afinal, como se
fala a partir do silêncio? Não há nada o que dizer, no silêncio, cala-se. Entretanto, o
silêncio não é entendido neste trabalho como mera ausência de som, mas, sim, como uma
questão, e, posto desta forma, a pergunta de estranhamento poderia ser: “como não falar a
partir do silêncio?” uma vez que este pressupõe todo “falar”, portanto, todo pensar. Na
poesia, a busca pela instauração deste silêncio — o poeta roga: “E infundir silêncio nesta
mão de madeira escrevendo o caminho.” (MARTINS, 2001, p. 62) — vai na contramão da
atual Era da Informação na qual estamos inseridos; é a eterna luta da poesia contra a
instrumentalização da linguagem. Então, justamente por isso, é mais do que nunca
necessário a atenção para essa “voz do silêncio”, pois ela, além de questionar, assumindo
uma posição crítica com relação ao nosso modo de pensar (usar) a linguagem, com certeza
tem algo a nos dizer acerca da nossa própria condição de seres que habitam na linguagem.
Por fim, ressalto que essa reflexão acerca do silêncio manifestado — e não apenas
tematizado, vale dizer — dentro dos poemas de Max Martins, mostra também seu vigor e
sua relevância para um estudo acadêmico, na medida em que, mesmo partindo de um ponto
específico, auxilia na compreensão total do fazer poético deste artista, além de revelar
várias questões que habitam o abismo que é o silêncio, por si próprio, e também o operado
pela poesia martiniana, que não deixa de ser o mesmo, mas sem ser igual. Neste abismo
poético, “O som/ (subterrâneo)/ que o teu silêncio chama” (MARTINS, 2001, p. 75), as
questões que nos olham, fervilham no escuro, e é nele que vale a pena saltar à procura não
de respostas, mas de questões que estão ainda mais fundas.

REFERÊNCIAS

ALENCAR, Melissa da Costa. 1952: a poesia de O Estranho de Max Martins. 2011. 247f.
Dissertação (Mestrado em Letras – Estudos Literários) – Programa de Pós-Graduação em
Letras, Universidade Federal do Pará, Pará, 2011.

HEIDEGGER, Martin. A Origem da Obra de Arte. Trad. Idalina Azevedo da Silva e


Manuel Antônio de Castro. São Paulo: Edições 70, 2010.

LIMA, Élida. Cartas ao Max: limiar afetivo da obra de Max Martins. 2012. 190f.
Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica) – Programa de Estudos Pós Graduados em
Psicologia Clínica, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2012.

MARTINS, Max. Poemas Reunidos, 1952 – 2001. Belém: EDUFPA, 2001.

NUNES, Benedito. Hermenêutica e Poesia: o pensamento poético. Belo Horizonte:


Editora da UFMG, 1999.

PINHEIRO, Lenilde Andrade. Max Martins e a Modernidade: uma poética (de tradução)
da tradição ocidental. 2011. 122f. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Programa de
Mestrado em Comunicação, Linguagem e Cultura, Universidade da Amazônia, Pará, 2011.

QUEIROZ, José Francisco da Silva. Por uma História da recepção da obra de Max
Martins. 2012. 233f. Dissertação (Mestrado em Letras – Estudos Literários) – Programa de
Pós-Graduação em Letras, Universidade Federal do Pará, Pará, 2012.