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A POÉTICA E A RAPSÓDIA SOB O OLHAR FILÓFICO DE SÓCRATES.

Daniel Gomes Cunha

Resumo: Este trabalho se propõe a analisar o papel da poesia e mais especificamente o da


rapsódia no pensamento socrático, a partir do dialogo escrito por Platão, Íon. Discutir, através
de uma breve análise da obra, como se dá a relação entre poesia e filosofia, no pensamento
platônico e como se desdobra a metodologia dialética de Sócrates para definir o que seria a
função do rapsodo e se neste caso, consiste em uma arte ou numa técnica e quais seriam suas
implicações filosóficas.

Palavras – chave: Ciência. Filosofia. Inspiração. Íon. Poesia. Rapsódia. Sócrates. Técnica.

1. Introdução.
A relação entre filosofia e a poesia é um tema relevante, e muitas vezes conflituoso, na
história da literatura universal. Desde a antiguidade Sócrates é tido como representante da
filosofia ocidental, um ícone da racionalidade. Enquanto que a tradição considera o sentido
poético, às vezes como algo insubordinado aos próprios padrões do pensamento, escapando
da racionalidade e se entrelaçando as afeições, cujos alvos são os sentimentos, lugar onde a
razão é enfraquecida.
Talvez seja o caso do diálogo Íon, Sócrates enquanto racionalista, defensor da
primazia da razão na formação do cidadão, foi um crítico agudo da poesia no seu tempo, não
que ele não aceitasse a poesia em qualquer circunstância, mas que o seu lugar nunca deveria
ser onde a razão deveria imperar. No Íon podemos perceber algo desse nível na postura
socrática de interrogação, sua característica peculiar, o elenkhós, encurrala seu interlocutor,
Íon de Éfeso, em suas inquirições dialéticas. O desejo do filósofo fica cada vez mais evidente,
quando a questão da relação entre poesia e técnica é trazida para o debate, a fim de esclarecer
o papel do rapsodo na arte poética.
Podemos ter uma boa compreensão hermenêutica da obra a partir da própria
movimentação dialética das premissas do diálogo. O intuito filosófico sempre se mostra no
ímpeto de tornar racional qualquer discurso, até mesmo o da arte poética.


Discente do curso de Licenciatura em Filosofia da UESB, e-mail: danielgcunha77@gmail.com. Trabalho
realizado sob a orientação do prof. Jasson Martins, para avaliação da III unidade da disciplina de Estética I.
2. Um exame dos movimentos dialéticos no Íon.
A obra se inicia no encontro entre o filósofo ateniense Sócrates e o rapsodo efésio Íon,
vindo das festas de Asclepíades, em Epidauro, como vencedor da disputa entre os rapsodos.
Sócrates, empenhando lisonjas ao ego inflamado do premiado Íon, elogia a arte
poética, pela beleza que ela proporciona aos que a ouvem. Há quem diga que isto é apenas um
pretexto para dar inicio a uma serie de interrogações. A primeira delas se apresenta quando ao
perceber que Íon apenas é terrível em Homero, Sócrates o questiona sobre esse saber apenas
de Homero e se não é possível que ele saiba da mesma forma de outros poetas:

Sócrates. Por que, então, és terrível em Homero, mas em Hesíodo e nos


outros poetas, não? Ou Homero fala acerca de coisas totalmente diferentes
daquelas de que falam todos os outros poetas? Não é acerca da guerra que
ele discorre na maior parte das vezes e acerca das relações dos homens uns
com os outros, tanto dos bons quanto dos maus, tanto dos leigos, quanto dos
peritos, e acerca de deuses em suas relações uns com os outros e com os
homens, e acerca de como eles se relacionam, e acerca dos acontecimentos
celestes, e acerca dos acontecimentos no Hades, e da gênese tanto de deuses
como de heróis? Não são dessas coisas aquelas acerca das quais Homero fez
sua poesias?

Íon. Dizes a verdade, Sócrates.

Sócrates. Mas, então? Os outros poetas não falam dessas mesmas coisas?
(PLATÃO, 2011, p.31; 531c-d).

A partir daí, Sócrates o encaminha a concluir que aqueles que sabem reconhecer quem
fala bem ou quem fala mal a respeito de determinado assunto, poderão ser considerados juízes
sobre estes (532a-b). É o inicio de um esboço para determinar a possibilidade da técnica
poética.
É reconhecido também por Sócrates que Íon sofre de tédio ao ouvir outros poetas, mas
que ele não sabe ao certo o motivo para tal, considerando que talvez seja apenas que Homero
é realmente o melhor poeta entre todos, ou por que ele conhece muito bem a Homero e pode
falar sobre tudo nele.
A resposta a essa questão é tratada a seguir através de uma analogia. Nela Sócrates usa
como ilustração, um imã, que une vários anéis suspensos, ligados entre si através do
magnetismo que se origina da pedra. Da mesma forma o poder divino é o magnetismo que
perpassa das musas que são a pedra, aos entusiastas, unindo os anéis suspensos. Esses
entusiastas são os poetas e os rapsodos e todos aqueles que são inspirados pela poesia.
Cada poeta recebia da musa uma inspiração divina e através da sua poesia produz
enthousiasmós, naqueles que as ouvem, segundo aquilo que era orientado pela musa. Esse
dunámei: poder divino, que os leva a falar coisas belas, perpassa da musa ao poeta, o rapsodo
e aqueles que são, numa sequência, entusiasmados. A beleza da obra poética é então,
inspirada pelos deuses, de modo que os poetas são interpretes deles (535a). Os deuses lhes
retirando o senso se servem deles, os tornando servidores.
Aí está então a resposta de Íon, que é por uma concessão divina que ele é terrível em
louvar Homero e não por uma técnica (536d). Mas Sócrates não se aquieta por aí, sua
insistência vai mais além, haveria algo mais a ser questionado em Íon, pois para o filosofo,
Íon não sabia de tudo em Homero, por mais que acreditasse no contrário. Íon não falava de si
mesmo, ele repetia apenas aquilo que falou o poeta, enquanto era tomado (536a), dessa forma,
aquilo que o poeta falava com tanta beleza e que gerava entusiasmo, era algo além da
capacidade humana. Mas uma vez que sendo possuído o poeta e falando o deus através dele, o
que era Íon, como rapsodo afinal? Seria ele um interprete do deus? Ou se essa era a função do
poeta, não seria a rapsódia uma técnica? E qual seria o seu saber enquanto tal?
A partir destes questionamentos, Sócrates mostra a Íon um novo conceito em relação à
obra homérica, que provavelmente lhe passou despercebido. Dizendo lhe; que nela existem
determinadas citações que correspondem a algumas ciências específicas, mas que são mais
bem compreendidas por aqueles que possuem a técnica correspondente (537e). As mesmas
coisas são conhecidas pelas mesmas técnicas, quem não possui tal técnica não sabe o que se
diz bem ou mal, a respeito das coisas (538a-b).
Mas se na obra de Homero se apresentam, conhecimentos sobre condução de carros,
que é própria do condutor e sobre a cura de feridas e enfermidades que são próprias do
médico. Se forem estes os mais aptos a discernir esses elementos da obra de Homero. Qual
seria então o conhecimento a respeito da técnica rapsódica? Esta é a grande questão proposta
por Sócrates, a rapsódia não se trata de uma técnica e talvez por detrás dessa inquirição, esteja
seu posicionamento politico-pedagógico.
Na busca por identificar quais são os conhecimentos próprios da técnica rapsódica, Íon
afirma que serão todos. Ele afirma que o rapsodo é aquele que saberá o que dizer a qualquer
pessoa. Sócrates refuta-o, mas Íon afirma que ao menos ao general, o rapsodo sabe o que dizer
e que um bom rapsodo é um bom general, porém, não tem certeza do contrário.
É aí que sua contradição fica exposta (541d-e; 542a). Acreditando-se que Íon tenha
razão e que seria a mesma coisa, tanto a técnica militar, relativa ao general, quanto a técnica
rapsódica, concluiria se então que ele poderia não ser bom em Homero se fosse um bom
general. De tal forma que ou ele seria injusto em assumir que é louvável na poesia homérica,
sendo também um bom general, ou que ele escolha ser divino, apenas transmitindo aquilo que
o poeta por inspiração disse. Ao escolher que: “... é muito mais belo o ser considerado
divino”, Sócrates finaliza afirmando que a beleza da poesia nada tem a ver com a técnica.

3. A perspectiva filosófica do papel da rapsódia e da poesia


Podemos derivar da análise filosófica de Sócrates algumas premissas que podem
definir um conceito do que seja a verdadeira função do rapsodo. Primeiramente, apesar de
tentar encontrar a possível “arte” do rapsodo, as respostas de Íon demonstram uma
argumentação fragilizada, pois apesar de interpretar a poesia, Sócrates acredita que nem ao
menos isso ele possa ser, a saber, um interprete; dadas as condições estabelecidas sobre
conhecimento e técnica. Portanto, se conclui que o rapsodo, não passa de um falso especialista
ao ser apenas um imitador daquele que é inspirado (SILVA, 2014, p 100).
Sócrates considera a techné, uma episteme e, portanto um aspecto racional da poética.
Íon não satisfaz esses requisitos como rapsodo, que para o ateniense seria o mais importante,
sendo apenas considerado um inspirado entusiasta. A dificu
ldade filosófica encontrada aí é que a inspiração é desprovida de conteúdo racional.
Em seguida, com uma breve descrição dos movimentos destacados do rapsodo, que ao
executar sua função; compreende, interpreta e encena, esta ultima através da epídeixis
(performance). O espectador se torna envolvido na “natureza encantatória da poesia”,
contrária à posse da razão, teremos aí o contágio que para Sócrates é entusiasmo (GALERA,
2012, p.5). A premissa é; se Íon é um interprete, logo sua tarefa não será técnica. As
premissas de Sócrates partem da ideia de que: “quem sabe a técnica deve poder falar de todas
suas ocorrências” (idem, p.7). O que torna a convicção de Íon questionável é a forma como
está vulnerável aos ataques socráticos, quanto ao sentido epistêmico, pois para o filosofo, sua
ênfase numa demarcação epistemológica da poética, não considera a possibilidade da rapsódia
ser uma técnica, desse modo, Íon não pode falar de algum conhecimento em comum em
relação a outro rapsodo, conforme afirma Fabio Galera em seu artigo:

No caso de Íon, segundo Sócrates, o mesmo deveria saber não apenas sobre
Homero, mas sobre todos os poetas. Isto demarca o objeto de investigação
próprio ao técnico sobre a poética. Íon deveria ser capaz de dizer algo sobre
qualquer poeta, pois caso fosse um technites, teria conhecimento das regras
que orientam a totalidade dos modos de produção poética. O que não é capaz
de demonstrar, pois Íon sabe apenas sobre Homero; sua técnica alcança
apenas o modo de produção de Homero (GALERA, 2012, p.12).
A conclusão foi que Íon era um transmissor e não tradutor, ou interprete; ele não
revela o sentido das palavras, mas produz afeição através da força divina. É como se a
dignidade da função fosse rebaixada cada vez mais, em detrimento do elevado tom elogioso
com o qual Sócrates iniciou o diálogo. É um exemplo da própria sagacidade do método do
filosofo.
Uma ultima premissa se forma e finaliza a perspectiva critica socrática, que é a que
contem maior peso dentre as demais. Partindo da concepção de Sócrates sobre a poesia,
como; palavra doada, ou “concessão divina”, theía moíra (536d), isso irá definir a rapsódia e
a poética como fora do âmbito humano. Os poetas são excluídos da habilidade de uma
produção técnica da poesia, pois ao serem possuídos pelos deuses, não tem controle sobre os
resultados de sua prática de forma consciente (RIBEIRO, 2009, p.89). Os termos
enthousiasmós e theía moíra são noções que definem os poetas e rapsodo como
intermediários e transmissores, e de modo algum eles participam da produção daquele
conhecimento.
Uma critica é estabelecida no texto platônico em relação à poesia. Uma vez que ela é
usada na Grécia clássica pedagogicamente para ensinar valores e modos, os poetas querem
ensinar, mas não conhecem tecnicamente o conteúdo daquilo que falam (RIBEIRO, 2009,
p.101).

4. Conclusão
Tendo por pressuposto a relação entre Sócrates e a poesia, ficam evidentes os
contornos que ele traça sobre o tema. Para Sócrates como já se percebe na República, nos
livros III e X, especificamente. O tema da poesia deve ter uma restrição, não somente quanto
às questões pedagógicas-politicas, que implicam na formação do cidadão, mas também quanto
ao caráter epistemológico da poética, que é o fator mais acentuado no Íon.
Como percebemos, constata-se para Sócrates que a poética e a rapsódia são apenas
concessões da divindade, e o fator humano se apresenta apenas na inspiração, que é o poder
do próprio deus em ação. Não vem, portanto, do homem o sentido, ele não coopera e não
participa desse processo que se torna vazio de racionalidade. A poesia serve apenas de
encantamento, mas isso após ter o deus se servido do homem.
Sabendo que a técnica poderia explicar um sentido racional da função, revelando seu
caráter cognitivo, ela sendo evidente, traria a função do rapsodo e do poeta um estatuto mais
elevado na própria formação da consciência humana. Visto que este não é o caso e de que não
se trata afinal de uma técnica, a rapsódia. Caberá então, de acordo o posicionamento socrático
relega-la ao âmbito da divindade, e não a importância da investigação racional humana.

Referências.

GALERA, Fábio: A compreensão da téchne como epistéme no Íon: um modelo hermenêutico


de racionalidade. Desenredos: Piauí, v. 4, n. 14, p. 1-18 , setembro 2012

PLATÃO: Íon. Trad. OLIVEIRA, Cláudio. Belo Horizonte: Autêntica, 2011

RIBEIRO, José A.: Uma interpretação comparativa dos diálogos Íon e República de Platão.
Polymatheia: Revista de Filosofia, Fortaleza, v.5, n. 7, p.88-110, 2009

SILVA, Diógenes G. M.: O rapsodo inspirado e o falso especialista: uma breve leitura do íon
de Platão. Theoria: Revista Eletrônica de Filosofia Faculdade Católica de Pouso Alegre, v.6,
n.15, p. 91-103, 2014