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PODER JUDICIÁRIO

T TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

Registro: 2018.0000493910

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos de Agravo de


Instrumento nº 2038919-97.2018.8.26.0000, da Comarca de São Paulo, em
que são agravantes ADROS SEGURANCA E VIGILANCIA LTDA e WF
SERVICOS DE PORTARIA E CONSERVACAO PATRIMONIAL LTDA, é
agravado JANESFER COMERCIAL LTDA ME.

ACORDAM, em sessão permanente e virtual da 11ª


Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo, proferir a
seguinte decisão: Deram provimento ao recurso, nos termos que constarão
do acórdão. V. U., de conformidade com o voto do relator, que integra este
acórdão.

O julgamento teve a participação dos Desembargadores


GILBERTO DOS SANTOS (Presidente) e MARINO NETO.

São Paulo, 2 de julho de 2018.

Renato Rangel Desinano


Relator
Assinatura Eletrônica
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Voto nº 22.456
Agravo de Instrumento nº 2038919-97.2018.8.26.0000
Comarca: São Paulo - 1ª Vara Cível
Agravantes: Adros Seguranca e Vigilancia Ltda e Wf Servicos de Portaria e
Conservacao Patrimonial Ltda
Agravado: Janesfer Comercial Ltda Me
Juiz(a) de 1ª Inst.: Paulo Guilherme Amaral Toledo

AÇÃO DE DESCONSTITUIÇÃO DE TÍTULOS DE


CRÉDITO – Prestação de serviços – Celebração de acordo
entre as partes – Previsão de restituição de cheques à autora,
sob pena de multa diária – Hipótese em que o patrono das
rés afirma que, por equívoco, destruiu os títulos de crédito –
Impossibilidade de cumprimento da obrigação –
Inexistência de cobrança indevida dos títulos – Ausência de
prejuízo para a autora – Incabível a cobrança da multa –
RECURSO PROVIDO.

Trata-se de agravo de instrumento tirado de decisão


que, em “ação de desconstituição de títulos de crédito c/c devolução de
quantias pagas e obrigação de não fazer”, em fase de cumprimento de
sentença, proposta por JANESFER COMERCIAL LTDA ME contra ADROS
SEGURANÇA E VIGILÂNCIA LTDA e WF SERVIÇOS DE PORTARIA E
CONSERVAÇÃO PATRIMONIAL LTDA., manteve a cobrança de multa por
descumprimento de obrigação prevista no acordo celebrado entre as partes
(fls. 80).

Recorrem as executadas. Alegam a impossibilidade de


cumprimento da obrigação de restituir os títulos de crédito emitidos pela
exequente, uma vez que, por equívoco, foram incinerados pelo advogado

Agravo de Instrumento n.º 2038919-97.2018.8.26.0000 - São Paulo - Voto nº 22.456


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das executadas. Sustentam que a destruição dos títulos é fato


superveniente que impede a cobrança da multa prevista no acordo, sob
pena de enriquecimento sem causa da exequente. Afirmam que não estão
em mora. Argumentam que eventuais perdas e danos devem ser
efetivamente demonstrados. Subsidiariamente, aduzem que o valor da multa
ofende os princípios da razoabilidade e proporcionalidade, devendo ser
reduzido, nos termos do art. 537 do Código de Processo Civil. Requerem a
concessão de efeito suspensivo.

Recurso recebido com a concessão do efeito pleiteado e


não contraminutado.

É o relatório.

PASSO A VOTAR.

Depreende-se dos autos que, em 22/08/2017, as partes


celebraram acordo, homologado por sentença (fls. 50), em que as
executadas, entre outras obrigações, comprometeram-se a proceder à
devolução de oito cheques emitidos pela exequente, no prazo de 30 dias,
sob pena de multa diária no valor de R$ 500,00 (fls. 46/49).

Decorridos 87 dias após o prazo estipulado no acordo, a


exequente pleiteou o bloqueio de ativos financeiros das executadas, até o
limite de R$ 43.500,00, a título de multa pelo descumprimento da obrigação
(fls. 68/69).

Então, as executadas informaram que, por equívoco,


seu patrono destruiu os títulos de crédito, tornando impossível o
cumprimento da obrigação (fls. 71/72).

Agravo de Instrumento n.º 2038919-97.2018.8.26.0000 - São Paulo - Voto nº 22.456


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O d. juízo a quo rejeitou a justificativa apresentada pelas


executadas, nos seguintes termos:

“Vistos.
1 - Rejeito a justificativa de fls. 61/62.
Segundo o alegado, a destruição dos títulos de
crédito que deveriam ter sido restituídos para a parte
exequente ocorreu por culpa do advogado constituído
pela executada e que a representa, razão pela qual o
ocorrido não afasta a incidência da multa pelo
descumprimento da obrigação.
Vale acrescentar que a parte executada,
representada por seu advogado, assumiu a obrigação de
restituir os títulos, sob pena de multa diária, concordando
expressamente com a incidência desta, tal como fixada
na sentença exequenda, ou seja, até alcançar o valor
atualizado dos títulos.
Assim, não há que se falar em redução nos
termos do art. 537 do CPC porque a própria executada
anuiu com o valor da multa e com os limites fixados.
Ademais, justifica-se a penalidade porque os
títulos podem eventualmente cair em mãos de terceiros
de boa-fé e a exequente vir a ser obrigada ao seu
pagamento.
2 - Rejeito a alegação de ato atentatório à
dignidade da Justiça porque, segundo noticiou o patrono
da executada, ele o fez por culpa e não por dolo.
3 - Para o prosseguimento da execução,
proceda-se à penhora de numerário, observados os
cálculos de fls. 60, providenciando a parte exequente o
recolhimento das despesas no prazo de cinco dias.
No silêncio, aguarde-se provocação no arquivo.
Int” (fls. 80).

Respeitado o entendimento do d. juízo a quo, o


afastamento da multa é medida que se impõe.

Isso porque o patrono das executadas, Dr. Érico Borges


Magalhães, declarou que, “ao incinerar os documentos referentes ao
processo, em razão do acordo firmado, por equívoco, destruiu os títulos de
créditos” (fls. 71/72), fato que torna impossível o cumprimento da obrigação.

Agravo de Instrumento n.º 2038919-97.2018.8.26.0000 - São Paulo - Voto nº 22.456


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Frise-se que a restituição dos cheques tinha como único


objetivo impedir sua cobrança pela executada ou por terceiros.

Ocorre que o risco de cobrança indevida ficou afastado


pela notícia de que os títulos foram destruídos, não se vislumbrando
qualquer prejuízo para a exequente a justificar o recebimento do valor da
multa.

Cumpre ressaltar, ademais, que o patrono das


executadas responde pessoalmente pela veracidade de suas afirmações.

Portanto, diante da impossibilidade de restituição dos


títulos à exequente, incabível a cobrança de multa pelo descumprimento da
obrigação.

Ante o exposto, pelo meu voto, dou provimento ao


recurso.

RENATO RANGEL DESINANO


Relator

Agravo de Instrumento n.º 2038919-97.2018.8.26.0000 - São Paulo - Voto nº 22.456