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UNIVERSIDADE FEDERAL DO TRIÂNGULO MINEIRO

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ATENÇÃO À SAÚDE DOUTORADO

MÁRLON MARTINS MOREIRA

BASES EPISTEMIOLÓGICAS DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO:


Evolução da ciência

UBERABA
2018
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UNIVERSIDADE FEDERAL DO TRIÂNGULO MINEIRO

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ATENÇÃO À SAÚDE DOUTORADO

MÁRLON MARTINS MOREIRA

BASES EPISTEMIOLÓGICAS DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO:


Evolução da ciência

Trabalho apresentado ao
Programa de Pós-Graduação
em Atenção à Saúde –
Doutorado, da Universidade
Federal do Triângulo Mineiro
como requisito parcial para
obtenção de aprovação na
disciplina de Bases
Epistemológicas do
Conhecimento Científico.
Profa. responsável: Dra. Leila
Aparecida Kauchakje Pedrosa

UBERABA
2018
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Período Pré-Socrático e
Socrático
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Surgida na Grécia Antiga por volta do século VI a.C., esta é considerada a


primeira corrente de pensamento. Os filósofos anteriores a Sócrates se preocupavam
com o Universo e com os fenômenos da natureza, buscando explicações por meio da
razão e do conhecimento científico.
O mito foi predominante durante muito tempo na cultura grega ocidental. Com
finalidade do relato de um acontecimento em tempo determinado e primordial, um
princípio qual de algum Ente Sobrenatural.
A principal característica dos filósofos pré-socráticos (como ficaram
conhecidos todos aqueles que vieram antes de Sócrates) é o estudo da physis,
palavra grega que significa “o princípio da evolução e do progresso das coisas na
natureza”. Nesse contexto a palavra “princípio” tem um papel fundamental para
entendermos a grande mudança que se opera na passagem do pensamento
mitológica para o filosófico. Quando buscamos o princípio de alguma coisa estamos,
na verdade, buscando duas coisas: como ela veio a ser e o que faz com ela seja o que
é.
As correntes pré-socráticas podem ser classificadas em:
1 - Escola Jônica, cujos principais representantes são Tales de Mileto,
Anaximandro de Mileto e Heráclito de Éfeso. O primeiro filósofo foi Tales de Mileto,
que viveu no período compreendido entre o final do século VII e meados do século
VI a.C, para ele, a água era a substância única sobre todas as coisas; toda vida está
desta forma ligada à água, sendo esta a fonte de todas as coisas. Heráclito de Éfeso
introduziu a noção metafísica e epistemológica sendo que para ele, o fogo seria a
origem de tudo.
2 - Escola Pitagórica, cujos principais representantes são Pitágoras de
Samos, Filolau de Cretona e Árquilas de Tarento. De acordo com Pitágoras, que
asceu em Samos, vivendo apogeu de sua vida em torno de 530 a.C. e falecendo no
início do século V a.C, tudo era baseado em provas dedutivas. Em sua filosofia os
pitagóricos indicaram o número (e seus componentes) como "princípio" da physis, ao
invés da água, do ar ou do fogo. Aristóteles, referindo-se à doutrina de Pitágoras
escreve que estes viam os números em todas as situações: nos acordes musicais e
nas notas, em toda a realidade o número era a base de todas as coisas;
3 - Escola Eleata, tendo como principais representantes Xenófanes de
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Colofão, Parmênides de Eléia, Zenão de Eléia e Melissos de Samos. A escola Eleata


negava a mudança e transformação da natureza. Xenófanes de Colofão defendia a
ideia de um e que a verdade seria certa; nenhum homem conheceu e nem
conhecerá. De acordo com Parmênides, todo ser seria imutável. Para Zenão de
Eléia, a realidade seria uma, contínua e indivisível.
4 - Escola Atomista, cujos principais representantes são Leucipo de
Abdera e Demócrito de Abdera. Os filósofos da escola Atomista dedicavam-se aos
estudos do cosmos, que acreditavam que toda “matéria” seria constituída por
átomos e vácuo. Demócrito de Abdera tinha uma concepção mecanicista do
universo e acreditava que o ser era constante, imutável e que se movimentava pelo
espaço vazio.
A escola eleata mostra que suas preocupações eram mais abstratas e
podemos ver nelas o primeiro sopro de uma lógica e de uma metafísica. Defendiam a
existência de uma realidade única, por isso são conhecidos também como monistas. A
realidade para eles é única, imóvel, eterna, imutável, sem princípio ou fim, contínua e
indivisível.
Os sofistas defendiam uma educação que objetivava a formação de um
cidadão pleno, pronto para agir politicamente em prol do crescimento da cidade.
Sócrates buscava entender o funcionamento do Universo por meio de um viés
científico e considerava que a verdade está ligada ao bem moral dos seres humanos.
O discípulo de Sócrates, Platão, defendia que as ideias eram o foco do
conhecimento intelectual e os pensadores deveriam entender o mundo da realidade.
Aristóteles desenvolveu a lógica dedutiva clássica como uma maneira de alcançar o
conhecimento científico.
Sócrates é considerado um marco divisório da história da Filosofia Grega e o
seu pensamento era desenvolvido a partir de diálogos críticos com seus interlocutores.
Sócrates sai da physis e vai para a praxis (a existência humana em todas as
suas dimensões sociais. Sai da cosmologia para a antropologia (ética). Luta pela
independência do pensamento, pelo método de análise conceitual, e procura sair do
senso comum, da opinião para o conhecimento (episteme).
Sócrates tem em seu método o diálogo, composto de dois momentos: o da
ironia, em que Sócrates interroga quem diz saber; e o da maiêutica, em que o
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interlocutor, após reconhecer sua ignorância, inicia a investigação sobre os


conceitos. O filósofo se considera parteiro das ideias.

O filósofo também teceu severas críticas à forma como a democracia


ateniense implantada, bem como a aspectos da cultura grega, crenças religiosas e
costumes. O filósofo começou a ser visto como uma ameaça ao funcionamento da
sociedade grega vigente na época, uma vez que os jovens começaram a formar um
grupo de discípulos.

Para Sócrates a causa do mal é a ignorância, se conhecêssemos o bem não


praticaríamos o mal, por esta razão o conhecimento de si mesmo é condição
suficiente e necessária para se aperfeiçoar. Foi condenado a beber veneno e ficou
preso por cerca de um mês, até sua morte, em 399 a.C.
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Período Pós-Socrático
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Período relativamente longo com pouca produção filosófica, em uma época


histórica diferenciada que vai do final do período clássico do ano 320 antes da nossa
era até ao princípio da era do cristianismo.
A filosofia Pós-Socrática surgiu após o desenvolvimento da Filosofia Pré-
Socrática, mais focada na explicação do universo e da matéria, e após Sócrates
oferecer um caminho mais voltado à ética e a política. As correntes que se
destacaram neste período foram o ceticismo, cinismo, epicurismo, estoicismo e
ecletismo.
Pirro de Élida, (365 - 275 a. C.) foi o fundador do ceticismo, também conhecido
como pirronismo; uma epistemologia fundamentada na descrença, que poderá ser
total, relativa ou parcial. Embasada na permanente consciência que a razão não é
capaz de captar a verdade. As dúvidas fazem parte da lógica da realidade, em
entendimento quanto ao passado, presente e futuro, conhecer é de certo modo
enganar-se, mesmo que seja parcialmente.
O saber desenvolve-se pela subjetividade, pela sua complexidade, sendo que
o homem é incapaz de conseguir elaborar algo de forma exata e segura.
O cinismo foi outra corrente filosófica do período Pós-Socrático e que teve
como fundador Antístenes (445 - 365 a.C.), discípulo de Sócrates. O cinismo iniciou-
se no período de Platão e Sócrates, mas só ganhou destaque no período
helenístico. Os cínicos valorizavam o simples e defendiam a ideia da necessidade
de se desprender dos bens materiais e pactos sociais.
O epicurismo iniciou-se a partir de Epicuro de Samos (341 à 270 a.C.), que
fundou a escola filosófica “O Jardim”. Os epicuristas desenvolveram ideologia
epistemológica que a vida não tem muito significado, vivemos porque temos que
viver, não existe motivo para existência. Dessa forma, a finalidade da vida é o
prazer, sendo que o mesmo estende-se a uma relação complexa da sua razão de
ser.
O estoicismo se constitui progressivamente pelas contribuições sucessivas
dos três primeiros chefes da escola: Zenão de Cítio (322 - 262 a. C.), que depois de
ter sido discípulo de Crates, fundou a escola cerca de 300 a. C.; Cleanto de Assos
(312 – 232 a. C.) e Crisipo (227 - 204 a. C.).
O estoicismo defendia a existência voltada de certa forma para o mundo da
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simplicidade, não apegar as exigências das aparências do mundo fundamentado no


status, pensadores importantes na história da Filosofia foram influenciados por esse
movimento, afirmando que o ser humano atinge a plenitude e a felicidade quando
abandona todas as paixões terrenas, contrariedades, aborrecimentos e
desassossegos.
Muitas correntes helenistas influenciaram no desenvolvimento dessa nova
mística (tendência para vida religiosa e contemplativa), que foi chamada de
cristianismo. É importante compreender a dimensão que o advento do cristianismo
assumiu, perceber que nosso pensamento não seria o mesmo sem essa herança.
Aa novidade mais importante talvez seja a de uma nova experiência do
tempo, que tem, por sua vez, implicações na concepção sobre a origem da realidade
e na concepção da história. Para os gregos, o tempo é circular, o que supõe, entre
outras coisas, a eternidade do que existe e a negação da criação do mundo. O
cristianismo, por meio da herança do Antigo Testamento, apresenta uma concepção
linear do tempo, uma concepção que até hoje é a nossa.
No cristianismo, o que é, é porque está no tempo. Deus cria o mundo e com
ele o tempo. Cada acontecimento é único, nada se repete, o que faz do tempo um
processo linear, aberto; com um princípio (a criação), um final (o advento do reino de
Deus) e um acontecimento singular que lhe dá seu sentido pleno: a encarnação do
filho de Deus. Os adeptos ao cristianismo eram dotados de boa argumentação e
defendiam a importância de abster de vícios para atingir a pureza dos céus. A partir
do século III, o cristianismo passou a exercer domínio não apenas sobre o
pensamento, mas também sobre o mundo político dos romanos. A influência do
cristianismo se tornou cada vez maior e permaneceu até o fim da Idade Média.
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Período Medieval
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Toda a cultura medieval é profundamente influenciada pela doutrina da igreja


cristã, inclusive a epistemologia. Muitos estudiosos acabaram chamando esse
momento de Idade das Trevas. Eles acreditavam que o mundo medieval tinha
soterrado o conhecimento produzido pelos gregos e romanos. O estudo dos
fenômenos naturais e das relações sociais por meio da observação, por exemplo, teria
sido substituído pelo misticismo religioso.
Partindo da concepção de que só Deus é perfeito e o ser humano é limitado,
os filósofos da patrística afirmam que a razão humana não é capaz de obter o
verdadeiro conhecimento. A única certeza possível é aquela dada pela iluminação
da graça divina, quando o ser humano sente Deus em seu coração. Para aqueles
que não tiveram a graça deste contato sensível com Deus, a atitude mais sensata é
a de seguir os ensinamentos daqueles que tiveram tal graça, ou seja, seguir os
ensinamentos dos profetas, dos apóstolos e dos santos. Em outras palavras, só há
uma certeza possível e essa certeza só poucos podem ter; aos demais resta apenas
ter fé.
As características mais representativas da Idade Média são: o feudalismo,
as relações de suserania e vassalagem, as Cruzadas, as ordens de cavalaria e a
Peste Negra. A fé, então, cria uma posição intermediária entre o ceticismo e o
dogmatismo, e essa posição intermediária é chamada de sabedoria e consiste em
aceitar como verdades as revelações divinas. Isso quer dizer que, embora o
conhecimento não seja possível, o ser humano pode se firmar em algo que é mais
seguro que a mera opinião.
Nesse período, São Tomás de Aquino e vários outros filósofos formulam
uma nova visão de mundo na qual a racionalidade humana deixa de ser serva da fé
para ser vista como irmã, como igual. O argumento principal era o de que tanto a fé,
quanto a razão, quanto os sentidos são dons dados por Deus. Logo, a razão e os
sentidos, quando bem utilizados, levam ao conhecimento das mesmas verdades
fornecidas pela verdadeira fé. Utilizando a filosofia de Aristóteles, os escolásticos,
aos poucos, restabelecem a confiança na razão e na experiência e as colocam como
capazes de auxiliar o ser humano em seu itinerário rumo a Deus.
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Idade Moderna e
Contemporânea
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O desenvolvimento de formas racionais de organização social e de modos


racionais de pensamento prometia a libertação das irracionalidades do mito, da religião
da superstição, liberação do uso arbitrário do poder, bem como do lado sombrio na
própria natureza humana, uma nova visão de mundo estabeleceu-se e o homem
despertou suas capacidades crítico-reflexivas. Além disso, foi neste período em que
ocorreu a transição entre a sociedade feudal e a capitalista, marcando o início da
degradação das estruturas socioeconômicas.
Este período foi marcado com a promessa do projeto da modernidade,
através da racionalização da vida, possibilitando ao homem a sua realização, sua
liberdade e afirmava, com muita convicção, que o primeiro passo, para que isso
ocorresse, seria criticar a religião.
A razão instrumental, na qual a modernidade se fechou, deve ser entendida
como a capacidade de poder intervir na natureza segundo objetivos humanos pré-
estabelecidos. Em partes, a modernidade cumpriu sim o seu projeto, mas, por outro
lado, ela hoje é proclamada como perversa, como uma força ambivalente, pois gerou
uma crise, na qual o homem domina a natureza e o outro.
Após a crise do saber instrumental, inicia-se a Pós-Modernidade, cujos
pilares mostram que a história da sociedade não é a de ideias, mas sim a história de
condições sociais, na qual o homem é mais inconsciente que consciente. Pode-se
dizer que este período traz, como principal característica, o seu aspecto cibernético-
informático e informacional. Uma prova disso é que, no cenário pós-moderno, reinam
mais estudos e pesquisas sobre a linguagem e a inteligência artificial.
Existe uma tendência muito grande dos indivíduos se isolarem do mundo e
viverem apenas para e com às suas máquinas, perdendo a identidade própria e se
afastando cada vez mais do mundo real. Tem-se estabelecido uma ideia de ciência,
enquanto tecnologia intelectual; e agora, o saber é e será produzido para ser
vendido e é e será consumido para ser valorizado numa nova produção, deixando
ele de ser para si mesmo seu próprio fim, pois “perde seu valor de uso”.
Esse novo período tem, como marcas, dois elementos. O primeiro é a
incredulidade, que trouxe, como consequência, a crise dos conceitos “razão”,
“sujeito”, “totalidade”, “verdade” e “progresso”; e o segundo elemento é o esforço
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científico, tecnológico e político no sentido de informatizar a sociedade. Entretanto,


essas mudanças não alcançaram toda a população do planeta. Há ainda uma
intensa desigualdade social tanto no interior dos países como entre países de
diversas localidades do globo.

Considerações finais

A ciência está em constante evolução. Muitas teorias estão sendo superadas


por novas teorias. O que era tido como verdade no passado, hoje não é mais. A
teoria da Evolução que foi contra o criacionismo da Bíblia e interveio na fé dos
cristãos ainda hoje gera discussão e já não é aceita pela maioria dos cientistas.
Uma visão retrospectiva sobre o processo de produção do conhecimento coloca em
destaque o carácter dialógico que, com maior ou menor intensidade e fazendo uso de
suportes e formas de expressão diferentes, esteve sempre na base deste processo.
O processo de subdivisão da história geral em períodos recebeu diversas
críticas, dentre elas pode-se destacar a escrita, que ocorreu em diferentes períodos
e culturas, o que tornava impreciso sua comparação cronológica e também a
delimitação dos marcos para o fim e começo dos períodos. Porém é importante
destacar que em qualquer período, mesmo que permeado por críticas, a evolução
das pesquisas e do conhecimento ocorreu.
As controvérsias científicas são momentos cruciais na história da evolução do
conhecimento, que importa conhecer e compreender enquanto instrumento
privilegiado para o conhecimento do processo de evolução, diante da importância de
refletir acerca da evolução ocorrida ao longo dos anos e a necessidade de buscar o
entendimento do processo de consolidação dos principais marcos da história geral a
fim de ampliar a visão crítico-reflexiva dos processos para correlacionar à
epistemologia.
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TEXTOS COMPLEMENTARES

Ensino inovador de enfermagem a partir da perspectiva das


epistemologias do Sul

O enfermeiro em formação deve ser inserido em um processo de ensino-


aprendizagem dinâmico e influenciado pelo contexto social, político e econômico da
sociedade, sendo capaz de atuar de forma eficaz em situações diversas, indo além
dos conhecimentos adquiridos.
A relação harmônica compartilhada entre educador e educando, quando
experimentada em teoria, torna-se ferramenta fundamental para se executar com
excelência a avaliação do ensino-aprendizagem como instrumento auxiliar do
educador, que busca fazer da educação uma prática emancipatória para seus alunos e
para a sociedade.
As epistemologias do Sul são uma proposta que denuncia a lógica que
sustentou a soberania epistêmica da ciência moderna, que se desenvolveu com a
exclusão e o silenciamento de povos e culturas que, ao longo da história, foram
dominados pelo capitalismo e colonialismo. a colonização do saber vai além da
exclusão de raças, gêneros, religiões, culturas, pois submete funções sociais e
educativas às leis da pesquisa e do conhecimento do mercado mundial e de empresas
multinacionais.
Ao refletir sobre o processo de ensino de modo geral, constatamos que o
professor instrui, ou melhor, educa seu aluno a partir de diferentes linguagens, na
medida em que age sobre o modo de pensar e de agir dele e não por meio de uma
lista de conteúdos soltos e fragmentados, mas através de dispositivos didáticos, de
tarefas e exercícios de leitura e de escrita que o levam a refletir, a mudar seu modo de
pensar, de ver o mundo e de agir nele e sobre ele.
O professor, ao exercer seu papel de facilitador do conhecimento, precisa
primariamente acolher o educando, de forma a melhorar a construção dos sabores.
Isso significa a possibilidade de formação de um contexto favorável, numa situação em
que seja ela satisfatória ou insatisfatória, agradável ou desagradável, bonita ou feia;
capaz de gerar aprendizado para amos os envolvidos. Hoje na educação superior,
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tem-se discutido intensivamente a necessidade de uma mudança nas metodologias de


ensino, idealizando novos sujeitos sociais, novas formas de prestação de serviços e
novas maneiras de formar e avaliar os futuros profissionais.
A educação faz parte da especificidade humana, um ato de intervenção no
mundo, é relacionada à cidadania. Dessa forma, enfermeiros educadores têm um
papel profissional e ético no desenvolvimento de um ambiente propício para a
aprendizagem, que incentive os alunos a pensarem e raciocinarem, o que requer um
planejamento estratégico.
O reconhecimento do ensino como fenômeno plurifacetado e de
responsabilidade social significa também admitir a sua dimensão ética, para além de
sua complexidade epistemológica; visto que todo processo avaliativo não apresenta
uma verdade absoluta e findada, e os saberes da formação acadêmica, os saberes da
prática, da experiência, da vivência educativa concreta ganham validade e legitimidade
como guias da práxis e definidor do habitus do professor, permitindo adquirir uma
razão interativa com a experiência social; potencializando o aprendizado.
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Caracterização do desenvolvimento epistemológico da saúde e das


práticas complementares

Esses novos modos de aprender e praticar a saúde, caracterizam-se pela


interdisciplinaridade e por linguagens singulares, próprias, que em geral se
contrapõem à visão altamente tecnológica de saúde que impera na sociedade de
mercado, dominada por convênios de saúde cujo objetivo precípuo é gerar lucro e
fragmentar o tratamento do paciente em especialidades que não dão conta da
totalidade do ser humano em busca de remédio para seus males.
No período histórico da Idade Média, em que se acreditava que a natureza era
somente fruto da criação divina e, assim, o processo de adoecimento consequência do
“pecado”, as práticas que visavam o bem estar físico, passavam pelo exercício
religioso, ou seja, pela prática da reza e benzedura. A inquirição, própria da filosofia,
passou a ser adotada como instrumento racional para a averiguação das possíveis
causas do adoecimento, sendo a busca sintomatológica embasada em um modelo
ético e humanista.
É nesse panorama que o repertório de práticas integrativas, com seu vasto
arsenal de recursos, pode contribuir para a integração disciplinar, pois descende de
uma tradição milenar de uso continuado e praticamente inalterado dos mesmos
recursos tecnológicos, pautados por natureza interdisciplinar. A importância dessa
característica permite afirmar que se trata de algo absolutamente sustentável e de
extrema importância para as práticas que se valorizam no trabalho de saúde pública.
Hipócrates, considerado o pai da medicina moderna, reconhecia a doença
como parte da natureza, dando prosseguimento à vertente dinâmica, no processo
gradual de transição da consciência mítica ao pensamento racional, a que se fez
referência e no qual a filosofia grega teve papel fundamental. Para esse médico grego,
a saúde era a expressão de uma condição de equilíbrio do corpo humano, obtida
através de um modo de vida ideal, que incluía nutrição, excreção, exercício e repouso
adequados.
Sob a poderosa influência do paradigma cartesiano, a ciência médica
desenvolveu-se rapidamente durante os séculos XVII e XIX. Os interesses voltaram-se
gradativamente para as enfermidades crônicas e para as não-infecciosas, frente às
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mudanças demográficas e ao envelhecimento da população dos países desenvolvidos.


A prática médica havia se deslocado quase que exclusivamente para o hospital, daí a
necessidade de melhor conhecê-lo, o que se materializou em inúmeros estudos sobre
as organizações oficiais, as profissões, as atitudes e os padrões culturais.
Como alternativa para a superação dos modelos causais clássicos, centrados
em ações individuais, como os métodos diagnóstico e terapêuticos, a vacinação, a
educação em saúde, ainda que dirigidos aos denominados grupos de risco, haveria
que privilegiar a dimensão coletiva do fenômeno saúde-doença, através de modelos
interativos que incorporassem ações individuais e coletivas.
As Práticas Integrativas e Complementares têm o objetivo de garantir a
prevenção de agravos, a promoção e a recuperação da saúde, com ênfase na atenção
básica, além de propor o cuidado continuado, humanizado e integrado em saúde,
contribuindo com a resolubilidade do sistema de saúde com qualidade, eficácia,
eficiência, segurança e participação social no uso. Além disso, tais práticas colaboram
para que a medicina se torne cada vez mais humanizada. Ademais, as Práticas
Integrativas e Complementares fazem com que o cidadão se sinta mais à vontade e
integrado ao Sistema Único de Saúde. Isso porque ele passa a se sentir mais
respeitado, valorizado e, principalmente, bem acolhido.
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Epistemologia do cuidado de enfermagem: uma reflexão sobre suas bases

Elucidar o processo de enfermagem, evoca sobre as relações de cuidado, que


rotineiramente são manifestadas ao longo da vida. O processo de cuidar envolve uma
relação mútua de ajuda, de crescimento e autorrealização. Conhecer e atender essas
necessidades se torna instigante e de certa forma representa um desafio no contexto
atual das práticas de saúde, no qual é necessário e fundamental se considerar a forma
como a produção dessas práticas tem se efetivado, voltadas muito mais às doenças e
não ao indivíduo.
A atenção com o cuidar, desenvolvido pela enfermagem, é responsável por
nortear a profissão; que se desenvolve através da aplicação de conhecimento
específico e de outros saberes que ancoram o desenvolvimento de raciocínios,
julgamentos clínicos, tomadas de decisões, sensibilidades e profissionalismo. E é
através destes conceitos, que as atividades do profissional da enfermagem vão sendo
desenvolvidas e implementadas.
O desenvolvimento epistemológico na saúde não costuma dedicar a atenção
devida às dimensões socioculturais relativas aos fundamentos filosóficos; porém este
desenvolvimento não poderia ser diferente do próprio desenvolvimento da noção de
sujeito e universo que a própria humanidade tem construído. Durante todo esse trajeto
de criação e construção de conhecimentos e conceitos, observa-se a aceitação e
rejeição de paradigmas ora tidos como verdadeiros e ora como falsos. Portanto todo o
processo de desenvolvimento epistemológico na saúde ocorre justamente na
confrontação de opostos, nos quais talvez algum dia seja possível superar o
entendimento pobre da teoria sobre o real processo de saúde, doença, cuidado e
prevenção.
Essa nova prática do cuidado é manifestada pelo enfermeiro com significativa
importância, mediante ação efetiva e centrada em conhecimentos científicos, voltada
aos doentes, e possibilitando ao enfermeiro assumir um papel mais expressivo, no
sentido de ajuda-los não só a enfrentar as dificuldades em torno da doença, mas
também de cuidá-lo nas suas necessidades individuais, mediante a visualização,
testagem e intervenção profissional.
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Com o tempo, com o emprego dos estudos de casos, percebeu-se a necessidade


de classificar e padronizar os problemas que mais frequentemente requeriam atenção
e cuidado pela equipe de enfermagem; e neste sentido foram sendo implementados e
construídos instrumentos para coletar informações, que permitiam a atuação de forma
mais eficaz e direcionada. Desta maneira, pode-se entender que o processo de cuidar
lógico e linear para solução de problemas, deveria ceder lugar para um modelo
metodológico, que permitisse gerenciar informações de modo a propor e implementar
intervenções direcionadas às demandas das pessoas.
Tornar cientifico este processo de coleta de informações, e a tradução destas no
cuidar; mostra a importância de todo esse processo evolutivo. Analisar as
intervenções, permite definir o alcance de melhores resultados, perante diagnósticos
específicos da enfermagem; ou ainda implementar ações direcionadas à determinadas
áreas ou especialidades; e responder questões atreladas à custos de todo esse
processo.
Diante desta dinâmica de mudanças e evoluções, é importante que se reflita de
forma crítica sobre as transformações sociais, que demandam estratégias articuladas
às necessidades sentidas a nível local e são vivenciadas pela população; pois este é o
grande foco do processo de enfermagem; analisar e registrar as informações, de modo
que o conhecimento adquirido, seja direcionado ao cuidar de forma integral de outro
ser humano de forma reflexiva. Esse cuidar deve acontecer de forma humanizada e
integral. O indivíduo deve ser visto como um ser individual, integrante de uma família e
de uma comunidade, num processo particular com quem interage e se submete a
fatores determinantes do processo saúde-doença.
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A produção acadêmica em fisioterapia: um estudo de teses a partir dos


pressupostos epistemológicos de Fleck

Fisioterapia, por muitos anos, limitou-se ao conhecimento oriundo de outras


ciências para justificar sua existência no ensino superior. No entanto, a procura
e o interesse no que se refere a criar e aplicar o conhecimento científico à
prática fisioterapêutica cresceram nos últimos anos. Fleck formulou uma teoria do
conhecimento caracterizada pela análise histórica e pela vinculação do cientista a um
determinado coletivo com o qual interage, tanto durante o seu processo de formação
como para a disseminação da sua produção. Assim, Fleck se posiciona radicalmente
contra os pressupostos epistemológicos do empirismo-lógico, em que a gênese do
conhecimento científico está em observações neutras, realizadas por um sujeito
igualmente neutro, que organiza os dados observados a partir de critérios apenas
lógico-matemáticos.
A partir da busca no banco teses da Capes, na opção assunto, com a palavra
Fisioterapia; uma grande variedade de áreas de concentração no doutorado foi
identificada. Esta diversidade correlaciona-se com a dispersão de teses por instituição
e também por área de concentração. Estes dados favorecem o entendimento de que a
área de concentração na intervenção fisioterápica está muito bem consolidada, pois a
maioria dos pesquisadores provêm da área de avaliação e intervenção em
Fisioterapia.
Porém, percebe-se que os principais impactos nas profissões da área da saúde
decorrentes do emprego do Relatório Flexner no seu ensino foram: a pouca ênfase na
prevenção e na atenção ambulatorial, a supervalorização do caráter curativo e
hospitalar, centrada no indivíduo, a dissociação das preocupações sociais das práticas
clínicas e a exclusão da análise da totalidade do organismo, resultado da
fragmentação curricular e da criação das diversas especialidades. O modelo
pedagógico hegemônico de ensino ainda é centrado em conteúdos organizados de
maneira compartimentada e isolada; não associando conhecimentos das áreas
básicas e conhecimentos da área clínica; adotando sistemas de avaliação cognitiva
por acumulação de informação técnico-científica padronizada e perpetuando modelos
tradicionais de prática em saúde.
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O percurso das temáticas das teses no decorrer dos anos foi processual, em que
velhas questões de pesquisa estão cedendo lugar a novos questionamentos, mais
humanos e sociais e menos experimentais. Mas, para que as produções científicas da
Fisioterapia contemplem o sistema de saúde vigente no País, com atenção integral à
saúde e transforme o estilo de pensamento tecnicista, é necessário cumplicidade dos
membros que compartilham esta ideia, cumplicidade conquistada com as circulações
de ideias intercoletivas e intracoletivas e uma suave coerção para um estilo de
pensamento mais humanista.
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SEMINÁRIOS