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IGREJA LUTERANA

Revista Semestral de Teologia

Igreja Luterana

I greja L uterana SEMINÁRIO CONCÓRDIA Diretor Gerson Luis Linden Professores Acir Raymann, Anselmo Ernesto Graff,

SEMINÁRIO

CONCÓRDIA

Diretor Gerson Luis Linden

Professores Acir Raymann, Anselmo Ernesto Graff, Clóvis Jair Prunzel, Gerson Luis Linden, Leo- poldo Heimann, Paulo Proske Weirich, Paulo Wille Buss, Raul Blum, Vilson Scholz

Professores Eméritos Donaldo Schüler, Paulo F. Flor Norberto Heine

IGREJA LUTERANA ISSN 0103-779X Revista semestral de Teologia publicada em junho e novembro pela Faculdade de Teologia do Seminário Concórdia, da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB), São Leopoldo, Rio Grande do Sul, Brasil.

Conselho Editorial Paulo P. Weirich (Editor), Gerson L. Linden e Acir Raymann.

Assistência Administrativa Ivete Terezinha Schwantes e Ademir de Lima Plep.

A

Revista Igreja Luterana está indexada em Bibliografia Bíblica Latino-Americana

e

Old Testament Abstracts.

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Í ndice

ARTIGOS

ALIANçA DO SANGUE (finAL)

5

Paul G. Bretscher

A ESPECULAçÃO FILOSÓFICA DA EVOLUçÃO DARWINIANA E DA TDI

29

Alexsandro Martins Machado

AUXÍLIOS HOMILÉTICOS

43

LIVROS

187

IGREJA LUTERANA

Volume 70 – Novembro 2011 – Número 2

A

rtigos

A ALIANçA DO SANGUE (finAL) 1

III. O SANGUE DA REDENÇÃO

Paul G. Bretscher

Em ambos os testamentos (antigo e novo), a ideia da redenção está intimamente ligada à da expiação. Redenção é simplesmente outra ima- gem da salvação, outro lado do diamante da graciosa aliança de Deus para com o homem caído. No hebraico são usadas duas palavras com quase igual frequência, significando redenção. São gaal e padah. Bom número de passagens em que ambas ocorrem mostram que devem ser consideradas sinônimos. Por exemplo:

Jr 31.11: Porque o Senhor redimiu [padah] a Jacó, e o livrou

[gaal] da mão do que era mais forte do que ele.

Os 13.14: Eu os remirei [padah] do poder do inferno; e os res-

gatarei [gaal] da morte.

Lv 27.27: Mas, se for dum animal imundo, resgatar-se-á [pa-

se não for resgatado [gaal],

dah], segundo a tua avaliação (

vender-se-á segundo a tua avaliação.

Is 35.9,10; (

tados [gaal] do Senhor voltarão.

Os remidos [padah] andarão por ele; os resga-

);

)

Dever-se-ia também mencionar um terceiro verbo: qanah. É a palavra hebraica usual para “comprar”, “adquirir”. Em poucas passagens ele é usa- do com sentido religioso definido, como sinônimo de gaal e padah. Desta forma, por exemplo, no cântico libertário de Moisés, Êx 15.13, 16: “Com

a

tua benevolência guiaste o povo, que salvaste [gaal] (

)

até que passe

o

povo que adquiriste [qanah].” Veja-se também Sl 74.2: “Lembra-te da

congregação, que adquiriste [qanah] desde a antiguidade, que remiste [gaal] para ser a tribo da tua herança.”

Outra palavra que interessa aqui é o substantivo kopher, usualmen- te traduzido como “resgate”. Observem que kopher é uma das formas substantivadas de kaphar, “fazer expiação”, do qual tratamos no capítulo

1 BRETSCHER, Paul G. The Covenant of Blood. Concordia Theological Monthly. Vol. XXV, 1954, n. 1, 2, 3; January, February, March: pp. 1-27; 109-125; 199-209. Traduzido pelo Rev. Ivo Dreyer, pastor na Comunidade Evangélica Luterana Cristo, Schroeder/SC. A primeira parte deste artigo foi publicada na edição anterior, volume 70, junho 2011, número 1.

Igreja Luterana

anterior. Porém kopher deriva seu sentido original de “cobrir”. Assim o resgate é uma “cobertura” quase no sentido em que nós hoje temos “co- brir” um empréstimo. Para o que nós queremos agora é muito importante observar que kopher, onde quer que seja usado, significa o pagamento dum preço. Assim, vejam:

Pv 6.35: Um homem enfurecido “não se contentará com o resgate [kopher], nem aceitará presentes, ainda que sejam muitos.” Jó 36.18,19: Guarda-te, pois, de que a ira não te induza a es- carnecer, nem te desvie a grande quantia do resgate [kopher]. Estimaria ele as tuas lamúrias e todos os teus grandes esforços para que te vejas livre da tua angústia?

A idéia da redenção, como a da expiação, ocupa lugar proeminente na lei cerimonial do AT. Aqui não nos é necessário definir as particularidades das leis referentes às várias redenções. Observemos, porém, rapidamente alguns pontos que nos auxiliam no que buscamos agora. 1. A primeira, e religiosamente mais importante de todas as remissões,

é a do primogênito dos homens e das primeiras crias dentre os animais. Isso é determinado pela primeira vez em Êx 13.2, 12-15:

Consagra-me todo o primogênito; todo o que abre a madre de sua

mãe entre os filhos de Israel, assim de homens como de animais,

é meu (

todo primogênito dos animais que tiveres; os machos serão do Senhor. Porém todo primogênito da jumenta (impuro) resgatarás com cordeiro; se o não resgatares, será desnucado; mas todo primogênito do homem entre os teus filhos resgatarás. Quando

Apartarás para o SENHOR todo que abrir a madre e

).

teu filho amanhã te perguntar: Que é isso? Responder-lhe-ás: ( ) Pois sucedeu que, endurecendo-se Faraó para não nos deixar sair,

o Senhor matou todos os primogênitos na terra do Egito, desde o

primogênito do homem até o primogênito dos animais: Por isso eu sacrifico ao Senhor todos os machos que abrem a madre; porém a todo primogênito de meus filhos eu resgato.

Observem que: (1) Em Israel é considerada perdida a vida de todos os primogênitos machos, tanto dos homens quanto dos animais. Desta

forma é evidente que os filhos de Israel foram poupados da maldição da décima praga no Egito não porque eles fossem bons e indignos de morte

e julgamento, mas unicamente porque a misericórdia de Deus planejou

redenção para eles; (2) Israel deve estar para sempre ciente de que, por causa dos seus pecados, suas vidas estão tão perdidas perante Deus tanto quanto as dos que foram abatidos no Egito; não têm direito à vida; (3) A

a aLIança do sangue

memória disso é simbolizada na lei da redenção. O macho primogênito de qualquer animal limpo deve ser sacrificado a Deus. Deve morrer. O macho primogênito de um animal impuro, como o jumento, deveria ser remido pela morte de um carneiro em seu favor, ou seria desnucado (aqui sem derramamento de sangue, porque esta não pode ser uma morte sacrificial). Os primogênitos dentre os seres humanos deviam ser remidos. O modo desta última redenção não é claramente determinado aqui. A implicação parece ser, a esta altura, que o filho primogênito também é redimido pela morte de um carneiro, ou por meio de algum outro sacrifício. Mais tarde, na Lei do Sinai, Deus toma para Si mesmo os levitas em lugar dos primogênitos de todo Israel, para servirem como sacerdócio Seu no Seu Tabernáculo (Nm 3.12,13). Sob este novo esquema os filhos primogênitos do restante de Israel são agora redimidos por dinheiro (cinco siclos, Nm 3.45-51), a ser usado para o serviço do santuário. O pagamento deste

dinheiro de redenção estava implícito quando os pais de Jesus o trouxeram ao templo a fim de apresentá-lo ao Senhor “e fazer com ele o que a lei ordenava” (Lc 2.22,23,27). Em Nm 8.17-19 e 18.15-17, encontram-se as diretrizes detalhadas sobre este cerimonial de redenção. Na Lei são também estabelecidas prescrições legais precisas para ou- tras redenções: redenção de campos (Lv 25.23-34), redenção de homens que na pobreza se venderam a si mesmos como escravos (Lv 25.47- 55), vingança (“redenção” gaal) cruenta ao abater um assassino (Nm 35.11,12,19,30-33). Em conexão com a lei da vingança cruenta contra um homicida é claramente determinado que “não aceitareis resgate [kopher]

pela vida do homicida, que é culpado de morte (

fará pela terra por causa do sangue que nela for derramado, senão com

nenhuma expiação se

)

o sangue daquele que o derramou.” Sem discutir detalhadamente qualquer uma destas redenções, em to-

das elas existe um pensamento claro que se relaciona muito intensamente com o nosso assunto: a redenção em si, no verdadeiro sentido da palavra (cf. acima, a relação de kopher e qanah com gaal e padah) envolve sem- pre um preço. O preço pode ser um sacrifício, como de um cordeiro, ou

o pagamento de dinheiro, ou ainda a morte do assassino; porém sempre

há um preço a ser pago. A redenção sempre custa alguma coisa. Voltemo-nos agora especialmente às muitas passagens nas quais Deus é chamado de Redentor do Seu povo. Será que estamos, então, aprovados ao ver em cada emprego do substantivo “Redentor” a idéia

de que custa alguma coisa a Deus salvar o homem? Eu defendo que isso

é uma implicação muito necessária da própria palavra. Com certeza, há

muitas passagens em que este sentido é obscurecido, nas quais a divina redenção do Seu povo é atribuída não ao pagamento de um preço, mas

a um simples ato do Seu poder:

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Êx 6.6: Vos resgatarei com braço estendido, e com grandes ma- nifestações de julgamento. Êx 15.13,16: Com a tua benevolência guiaste o povo, que sal-

vaste; com a tua força o levaste à habitação da tua santidade

) (

emudecem como pedra; até que passe o teu povo, ó Senhor, até que passe o povo que adquiriste [qanah]. Sl 77.14,15: Tu és o Deus que operas maravilhas, e, entre os povos tens feito notório o teu poder. Com o teu braço remiste o teu povo, os filhos de Jacó e de José. 1 Cr 17.21: Quem há como o teu povo Israel, gente única na terra, a quem tu, ó Deus, foste resgatar para ser teu povo, e fazer a ti mesmo um nome, com estas grandes e tremendas coi- sas, desterrando as nações de diante do teu povo, que remiste do Egito?

Sobre eles cai espanto e pavor; pela grandeza do teu braço

Pode-se perceber que todas estas passagens referem-se à libertação na

qual o poder de Deus foi demonstrado mais notavelmente, especialmente

a libertação do Egito. Mesmo aqui a palavra redimir carrega a implicação de que Deus teve que pagar algum preço, a fim de ser o Deus de miseri- córdia para com esta nação pecadora e rebelde, e para que pudesse usar

o Seu poder em favor deles, e não para destruí-los. (Vejam especialmente

as palavras: “Na tua misericórdia” e “adquiriste”, na passagem acima, de Êx 15). Há outras passagens nas quais a redenção divina está especialmente associada à ideia de um preço que Deus teve que pagar:

Sl 74.2: Lembra-te da tua congregação, que adquiriste [qanah]

desde a antiguidade, que remiste (gaal) para ser a tribo da Tua herança. Is 43.1-3: Não temas, porque eu te remi; chamei-te pelo teu

nome, tu és meu (

de Israel, o teu Salvador; dei o Egito por teu resgate, a Etiópia e Sabá por ti. Visto que foste precioso aos meus olhos, digno de honra, e eu te amei, darei homens por ti, e os povos pela tua vida.

Porque eu sou o Senhor teu Deus, o Santo

)

A interpretação desta passagem é difícil. Pode referir-se a alguma

situação política obscura na qual os povos vizinhos de Israel caíram con- quistados enquanto o próprio Israel é poupado. Em todo caso, está muito claro que o pagamento de um preço está implícito nas palavras “redimir”

e “resgate”. Uma passagem marcante é o Sl 49.6-15, que mostra que a redenção

a aLIança do sangue

humana é, definitivamente, redenção da morte, e que o preço é superior ao que homem algum sonha poder pagar:

Dos que confiam nos seus bens e na sua muita riqueza se gloriam? Ao irmão, verdadeiramente, ninguém o pode remir [padah], nem pagar por ele a Deus o resgate [kopher] (pois a redenção da alma (vida) deles é caríssima, e cessará a tentativa para sempre), para que continuasse a viver perpetuamente, e não visse a cova.

Os versos seguintes descrevem, poeticamente, o desalento de toda tentativa humana para fugir da morte. Então, vem o clímax (v. 15): “Mas Deus remirá a minha alma do poder da morte [sheol], pois ele me tomará para si.” Assim fica evidente que o preço para redimir da morte a vida huma- na, morte à qual ela está sujeita por causa do pecado, está muito acima daquilo que qualquer um pode pagar. Há somente um que pode pagar o preço: Deus, em cujas mãos o salmista, confiantemente, se entrega, e em quem ele encontra a vitória sobre “o poder da sepultura”.

O preço que Deus assumiu pagar pela redenção do pecador torna-se claro somente à luz do cumprimento. Isto, porém, não significa dizer que

o povo de Deus do AT nada poderia saber a respeito. O próprio protoevan-

gelium (Gn 3.15) o sugere. A Semente da mulher, por meio de quem um dia a cabeça da serpente seria esmagada e ser-lhe arrebatada a vitória sobre o homem, esse descendente sofreria em Si mesmo tudo o que o

homem sofre através da maldade do diabo, incluindo a tentação, a dor, o suor, o sofrimento e, finalmente, a morte. Porque somente através deste sofrimento conseguirá Ele conquistar a vitória em favor do homem. Porém, a mais clara de todas as passagens veterotestamentárias sobre

o

preço da redenção divina do homem é a que se encontra em Isaías 52

e

53. Aqui estão os grandes luzeiros desses belos textos da redenção,

que demonstram que o alto preço da redenção é a morte o Servo eleito de Deus. O preço é sangue e, por isso, a aliança da redenção pertence à aliança do sangue.

Is 52.3: Assim diz o Senhor: Por nada fostes vendidos; e sem dinheiro sereis resgatados.

Is 52.9,10: Rompei em júbilo, exultai a uma, ó ruínas de Jerusa- lém; porque o Senhor consolou o seu povo, remiu a Jerusalém. O Senhor desnudou o Seu santo braço à vista de todas as nações; e todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus.

Is 52.13,15: Eis que o meu Servo (

)

borrifará muitas nações.

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Este salpicar é o do sangue, como em Êx 24.8. O sangue de animais aspergiu apenas uma nação. O sangue aspergido pelo Servo será de be- nefício universal, pois Ele aspergirá “muitas nações”. Depois vem o cap. 53, que é de todo relevante para os nossos inten- tos; porém comentaremos apenas algumas frases: Vv. 4-6: “De fato ele

tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si

) (

Exatamente como as iniquidades e transgressões eram colocadas so-

bre a cabeça do animal do sacrifício (Lv 1.4) ou sobre a cabeça do bode emissário (Lv 16.21,23), assim o Servo tornou-se o substituto de todos os homens no pecado e na morte. Vejamos Is 53. 7: “Como cordeiro foi levado ao matadouro ( )” Esta imagem difere daquela da “ovelha perante seus tosquiadores”, que vem logo a seguir. O cordeiro levado ao matadouro é o cordeiro do sacrifício, que derrama o Seu sangue como oferta pelo pecado. V. 10:

“Quando der ele a sua alma como oferta pelo pecado.”

O Servo, ao entregar sua vida (i.e., Sua alma), torna-se a oferta pelo

pecado dos homens. V. 11: “Ele [Deus] verá o penoso trabalho de Sua

alma [vida], e ficará satisfeito (

as iniquidades deles levará sobre Si.”

O sacrifício do Servo, morrendo sob a culpa dos nossos pecados, é

aceitável a Deus. O preço da redenção é pago totalmente: chega à altura da justiça e da ira de Deus. V. 12: “Derramou a Sua alma [vida] na morte.”

O derramamento de Sua vida contém a imagem do derramamento

do sangue do sacrifício. Pois, ao esvair-se o sangue, esvai-se a vida para dentro da morte. Este é o preço da redenção. Este preço, a morte do Servo eleito de Deus, deve ser lido em cada passagem em que Deus é chamado de Redentor do homem, redimindo-o do pecado e da morte. Vejamos algumas:

Mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos.”

)

Jó 33.28: Ele redimiu [padah] a minha alma de ir para a cova; e a minha vida verá a luz. Jó 33.24: Então Deus terá misericórdia dele, e dirá ao anjo:

Redime-o [pada, variante raro de padah], para que não desça à cova; achei resgate [kopher]. Jó 19.25,26: Eu sei que o meu Redentor vive, e por fim se levan- tará sobre a terra. Depois, revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne verei a Deus. Vê-lo-ei por mim mesmo, os meus olhos o verão, e não outros. Sl 103.4: Ele é quem perdoa todas as tuas iniqüidades, quem sara todas as tuas enfermidades; quem da cova redime a tua vida. Os 13.14: Eu os remirei do poder do inferno, e os resgatarei da morte; Onde estão, ó morte, as tuas pragas? Onde está, ó inferno, a tua destruição?

a aLIança do sangue

Em todas as passagens acima sentimos uma situação de verdadeiro consolo e da mais profunda alegria. O homem que viveu em horrível de- sespero e perseguido pelo horror da morte, encontra, agora, salvação, vida e vitória – não em sua própria bondade, poder ou habilidade, mas no preço resgatador pago em favor dele por um Deus extraordinariamente misericordioso e gracioso. Visto a Bíblia ensinar tão claramente que a morte está no mundo unicamente como soma das consequências do pecado humano, não nos surpreende encontrar outras passagens em que a libertação humana do pecado é pintada como o alvo da redenção. Desta maneira, os seguintes textos:

Sl 130.7,8: Espere Israel no Senhor, pois no Senhor há misericór- dia; nele, copiosa redenção. É ele quem redime a Israel. Is 44.22,23: Desfaço as tuas transgressões como a névoa, e os teus pecados como a nuvem; torna-te para mim porque eu te remi. Regozijai-vos, ó céus, porque o Senhor fez isto; exultai vós, ó profundezas da terra; retumbai com júbilo, vós, montes, vós bosques e todas as suas árvores, porque o Senhor remiu a Jacó, e se glorificou em Israel. Is 59.20: Virá o Redentor a Sião e aos de Jacó que se converte- rem, diz o Senhor.

Qualquer redenção que remover do homem a maldição do seu pecado terá também esta consequência, a saber: apaga a ira de Deus e restaura a paz entre o homem e o seu Criador. Assim:

Is 54.5,7,8,10: Porque o teu Criador é o teu marido; o Senhor

dos Exércitos é o seu nome; e o Santo de Israel é o teu Redentor

Por um breve momento te deixei, mas com grandes miseri-

córdias torno a acolher-te; num ímpeto de indignação escondi de ti a minha face por um momento; mas com misericórdia eterna me compadeço de ti, diz o Senhor, o teu Redentor. Porque os montes se retirarão, e os outeiros serão removidos, mas a mi- nha misericórdia não se apartará de ti, e a aliança da minha paz não será removida, diz o Senhor, que se compadece de ti. (Veja também Is 63.7-9).

) (

O pleno significado do preço da redenção divina torna-se claro em muitas passagens do NT. É bem provável que o povo de Israel, ao ler as Escrituras do AT e perceber as muitas passagens em que seu Deus é cha- mado Redentor, não aplicou, nestes termos, a esta palavra o pleno sentido de pagamento de um preço. Porém, à luz do cumprimento soa sempre de

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novo, com brilhante clareza, o fato de que a nossa redenção custa alguma coisa e que somente Deus, em Cristo, pode pagar esse preço. O preço é o sangue e a morte do Filho de Deus.

) para

dar a sua vida em resgate por muitos.

At 20.28: O Espírito Santo vos constituiu bispos para pastorear a

igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue.

Rm 3.24: Sendo justificados, gratuitamente, por sua graça, me- diante a redenção que há em Cristo Jesus. 1Co 6.20: Porque fostes comprados por preço.

Gl 3.13: Cristo nos resgatou da maldição da Lei, fazendo-se ele

Mt 20.28 (também Mc 10.45): O Filho do Homem veio (

próprio maldição em nosso lugar, porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro.

para resgatar os que esta-

vam sob a lei.

Ef 1.7: No qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão

Gl 4.4,5: Deus enviou seu Filho (

)

dos pecados, segundo a riqueza da Sua graça. (Vejam também

Cl 1.14).

1Tm 1.6: O qual a Si mesmo se deu em resgate por todos.

Tt 2.14: O qual a Si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos

de toda iniqüidade, e purificar para si mesmo um povo, exclusi- vamente Seu, zeloso de boas obras. Hb 9.12: Pelo seu próprio sangue, entrou no Santo dos Santos, uma vez por todas, tendo obtido eterna redenção. Hb 9.15: Intervindo a morte para remissão das transgressões. 1Pe 1.18,19: Sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis,

como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil proce- dimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue

de Cristo, como de cordeiro sem defeito e sem mácula.

2Pe 2.1: Até ao ponto de renegarem o Soberano que os resga- tou. Ap 5.9: Porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação. (Ve- jam também 14.3,4).

Os apóstolos viam, claramente, em Cristo e Sua morte o cumprimento de cada referência profética veterotestamentária a Deus como o Redentor do Seu povo. Desta forma o NT se apoia no AT. Seus grandes conceitos brotam dos conceitos do AT, exatamente como ele derrama sobre o AT a luz da salvação plenamente realizada e gloriosa, muito além dos sonhos humanos.

a aLIança do sangue

IV. O SANGUE DA CIRCUNCISÃO

As Escrituras não contêm uma única passagem que coloque, clara e inconfundivelmente, a aliança da circuncisão dentro da aliança do sangue. Faltando-nos um texto assim, não podemos saber com certeza se o povo de Israel sempre via no rito da circuncisão o significado do sangue tal como eu o percebo aqui, ou se tiravam as mesmas conclusões que eu tiro.

Está realmente claro que na maior parte da história do povo de Deus a circuncisão nada mais era do que uma obra religiosa habitual e rotineira,

e que poucos – se é que houve alguém – a realizavam com uma noção

mais profunda do que a de ser ela mero sinal distintivo do povo escolhi- do de Deus, dado por Deus. Apesar disso, a ausência de uma referência escriturística direta não prova que o sinal da circuncisão não tenha um significado mais profundo. Na verdade, nossa experiência geral com os sinais sob os quais Deus oferece Sua aliança mostra que o próprio sinal nunca é apenas um símbolo sem sentido, porém que, de algum modo, contém em si mesmo a mensagem daquilo que ele significa. Se procu- rarmos um texto assim no sinal da circuncisão, podemos encontrá-lo, no mínimo por inferência e dedução, se não por afirmação direta, na aliança do sangue. Visto que a maioria das conclusões obtidas neste capítulo são reconhecidamente deduções, não as apresento com certeza dogmática.

Para mim, no entanto, a circuncisão, quando interpretada à luz da aliança do sangue, depreende uma rica beleza espiritual, plenamente dentro da analogia da Escritura, e em harmonia com toda referência escriturística

à circuncisão. A instituição da aliança da circuncisão entre Deus e Abraão está regis- trada em Gênesis 17. Observem especialmente os vv. 10-14:

Esta é a minha aliança, que guardareis entre mim e vós e a tua descendência: todo macho entre vós será circuncidado. Circun- dareis a carne de vosso prepúcio; será isso por sinal de aliança entre mim e vós, todo macho nas vossas gerações, tanto o escravo como o comprado a qualquer estrangeiro que não for da tua estirpe. Com efeito, será circuncidado o nascido em tua casa, e o comprado por teu dinheiro; a minha aliança estará na vossa carne e será aliança perpétua. O incircunciso, que não for circuncidado na carne do prepúcio, essa vida será eliminada do seu povo; quebrou a minha aliança.

Os termos desta aliança podem ser esboçados de maneira bem sim- ples: (1) ela tem em vista todo macho nascido na casa de Abraão, bem como todo macho escravo comprado por dinheiro; (2) o tempo regular da

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circuncisão é o oitavo dia de vida do bebê; (3) a circuncisão consiste em cortar a carne do prepúcio; (4) este corte deixará marca permanente na carne do homem que é circuncidado; (5) esta marca na sua carne ser-lhe-á por toda a vida, o vestígio e sinal de que ele vive num relacionamento gracioso com Deus; (6) submissão à circuncisão significa obediência à ordem de Deus e confiança em Suas promessas. Por isso, aquele que não

é circuncidado rejeita a aliança de Deus, e dela não participa. Este último ponto, a importância da ao receber a aliança da circun-

cisão, é enfatizado pelo apóstolo Paulo, em Rm 4.11: “E Abraão recebeu

o sinal da circuncisão como selo da justiça da fé que teve quando ainda

incircunciso; para vir a ser o pai de todos os que crêem, embora não cir- cuncidados, a fim de que lhes fosse imputada a justiça.” Para Paulo, a fé que confia na aliança da graça de Deus é muito mais importante do que o sinal exterior da própria circuncisão. Por meio desta fé Abraão alcançou justiça perante Deus. Sua circuncisão veio a ser o sinal e o selo de sua justiça, isto é, do seu relacionamento pactual com Deus. Desta forma a aliança opera em dois sentidos: (1) de Deus para o homem, levando a graciosa promessa divina de perdão e vitória, selando esta promessa na carne circuncidada do homem; (2) do homem para Deus, pelo fato de a promessa e o selo serem recebidos alegre e humildemente, pela fé. Poderíamos novamente adaptar a explicação de Lutero sobre o poder do batismo: “Como pode a circuncisão fazer coisas tão grandes?” Resposta: “O ato exterior da circuncisão, na verdade, não as faz, mas a

palavra de Deus (i.e., seu mandamento e promessa), que está em e com a circuncisão, e a fé que confia nesta Palavra de Deus na circuncisão. Pois sem a palavra de Deus a circuncisão nada é, a não ser mutilação da carne; porém, com a Palavra de Deus ela é a circuncisão, isto é, sinal, símbolo

e selo da graciosa aliança de Deus, na carne do homem.” Devemos ainda examinar outro importante texto antes de delinearmos

a relação entre a aliança da circuncisão e a aliança do sangue. É aquele

incidente um tanto confuso na vida de Moisés, registrado em Êx 4.24-26.

Ele acontece pouco depois de Moisés receber seu comissionamento divino, enquanto está peregrinando com Zípora, sua mulher, e seu filho Gérson, para voltar com Arão ao Egito:

Estando Moisés no caminho, numa estalagem, encontrou-se o Senhor, e o quis matar. Então Zípora tomou uma pedra aguda, cortou o prepúcio de seu filho, lançou-o aos pés de Moisés e lhe disse: sem dúvida tu és para mim esposo sanguinário. Assim o Senhor o deixou. Ela disse: Esposo sanguinário, por causa da circuncisão.

a aLIança do sangue

Evidentemente, Zípora e Moisés haviam outrora discutido a respeito da

circuncisão de seu filho; senão ela não teria chegado a conclusão imediata, quando a vida de Moisés estava em jogo, de que Deus o afligia por não ter circuncidado Gérson. A própria Zípora repele a crueldade da circunci- são. No entanto, agora que a vida de Moisés está por um fio, ela mesma executa o ato e leva o prepúcio ensanguentado a Moisés, lançando-o aos seus pés, desgostosa por mostrar que a circuncisão tinha sido realizada.

O SENHOR deixa Moisés restabelecer-se. A observação de Zípora mostra

que ela ainda não entendia o sentido daquele ato; repudia sua crueldade, tendo sido levada a vencer sua repulsa unicamente por causa da ameaça

à vida de Moisés.

Aqui, porém, interessa especialmente a referência à crueldade do ato da circuncisão. Está o significado deste sinal especial de Deus para com seu povo outra vez no derramamento de sangue? É a aliança da circun- cisão, portanto, apenas outro aspecto da aliança do sangue? Lembremos de novo o texto-chave, Lv 7.11, e concentremo-nos nele agora: “A vida da carne está no sangue. Eu vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pelas vossas almas.” “A vida da carne está no sangue”. Já tratamos da carne e do sangue dos sacrifícios de animais do AT. Porém aqui, na circuncisão, tratamos, não de carne e sangue de animais, mas do próprio homem, exatamente como Deus havia dito a Abraão: “Minha aliança estará na vossa carne e será aliança perpétua.” Vimos que o sangue de animais não possui valor intrínseco para remir o pecado, pois o animal é inferior ao homem; não suficientemente pre- cioso para ser o substituto do homem na morte. O que dizer do sacrifício humano, o sangue do próprio homem? Isso é coisa nojenta para Deus (Dt 12.31; 2Rs 16.3; Ez 23.37-39; Mq 6.7). Além do mais, o sacrifício humano não serve como substitutivo para a morte do homem; o homem não pode substituir-se a si mesmo, visto que a sua vida já está perdida. Ainda assim, na circuncisão é derramado o sangue do homem – derrama- do apenas em parte, não para causar a morte, mas apenas para lembrar ao homem que sua vida não é sua; que ele não tem direito à vida; que

a morte é fartamente merecida como salário do pecado. A circuncisão

contém, ao mesmo tempo, o evangelho da graça de Deus, pois o homem ainda vive, embora seja derramado sangue. Ele deve morrer; no entanto, não morre. O único sacrifício suficientemente precioso, a ser verdadeiro substituto em favor do homem, ainda será oferecido em favor dele pelo próprio Deus. “Nele serão benditas todas as nações”. Por toda a sua vida, pois, o homem leva em sua carne o símbolo e sinal da circuncisão, que lhe diz que derramou perante Deus um pouco do seu próprio sangue – uma poderosa recordação do preço que ele deve pagar por seu pecado. Também

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lhe diz que Deus realizou em favor dele uma libertação maravilhosamente misericordiosa. Esta é a beleza da aliança e do seu sinal. O próprio sinal é distintivo e inconfundível. Nenhum outro corte da carne humana, nenhuma outra perda de sangue humano poderia deixar um sinal tão claro e permanente, sem, no entanto, prejudicar qualquer função do corpo. A circuncisão não exige testemunhas nem registros em papel, nem certificados. A aliança está na carne do homem por aliança perpétua. Embora seja circuncidado ao oitavo dia, e ainda que não se lem- bre pessoalmente do ato, ainda assim ele saberá, através de sua própria

carne, que a circuncisão foi realizada. E se ele conhece o seu significado, sua própria carne irá lembrar-lhe constantemente de que sua vida está perdida pelo pecado; porém, está salva pela graça de Deus. E quanto à mulher? Em relação a remissão do primogênito, observamos que as leis de remissão se aplicam unicamente a crianças do sexo mas- culino. Aqui, novamente, a circuncisão é apenas para o menino. Significa isso que a mulher é desprezada e omitida da aliança de Deus? De jeito nenhum! O sólido parecer da Escritura é que a mulher é a companheira do homem; que no casamento os dois são uma só carne. Os sinais da redenção e da circuncisão são dela através do marido. Ao mesmo tempo,

o próprio fato de a mulher não participar pessoalmente da circuncisão

sublinha o fato de que a circuncisão é sinal da graça de Deus, não mais nem menos. Ela não é a aliança em si. Por sua própria natureza, sendo sinal, possui valor somente se o homem compreende o que ela significa. Se ela é símbolo, como Paulo o expressa, então ela tem valor somente quando o homem está pessoalmente ciente do que ela significa. Se é um selo, ela o é apenas quando o homem crê o que ela sela (cf. Rm 4.11, acima). Assim, novamente, o sangue da sua expiação não é superior ao sangue dos animais sacrificados sobre os altares do homem. É somente selo, sinal e símbolo de um sangue mais precioso, por vir.

Na Escritura se evidenciam três abusos com a circuncisão, que lan- çam ainda mais luz sobre a própria circuncisão. O primeiro é o pecado do homem ante sua sanguinolência, representado por Zípora, que clama a Moisés: “És para mim esposo sanguinário, por causa da circuncisão”. O fato de Zípora se ofender dessa maneira indica que ela não percebeu o significado espiritual do derramamento de sangue. Outrossim, ela não se submete pela fé ao mandamento de Deus, nem confia na sua promessa

– o que ela devia ter feito, mesmo quando não entendia a plena intenção

do grande favor de Deus. Se alguém se escandaliza com a sanguinolência da circuncisão, perceba, em contrapartida o valor extremamente grande que o mesmo Deus, instituidor da circuncisão, coloca no sangue do ho- mem em outros textos da Escritura. Lembrem, por exemplo, as palavras da aliança de Deus com Noé: “Se alguém derramar o sangue do homem,

a aLIança do sangue

pelo homem se derramará o seu; porque Deus fez o homem segundo a sua imagem” (Gn 9.6). Observem também que a circuncisão é o único derramamento de sangue humano que Deus irá permitir. Todos os outros ferimentos na carne humana são condenados como abominação ao Senhor. Vejam, por exemplo:

Lv 19.28: Pelos mortos não ferireis a vossa carne; nem fareis

marca nenhuma sobre vós: Eu sou o Senhor. 1 Rs 18.28: E eles [os profetas de Baal] clamavam em alta voz, e se retalhavam com facas e com lancetas, segundo o seu cos- tume, até derramarem sangue. (cf também Lv 21.5; Dt 14.1; Jr 16.6).

É, pois, evidente que o sangue é altamente precioso aos olhos de Deus. Ele não derramaria uma única gota de sangue humano, a não ser que tivesse razão extremamente importante para requerê-lo. Escandalizar-se frente a sanguinolência na circuncisão, e na realidade diante do ato, é deixar de perceber a profundidade da depravação humana ou deixar de compreender a finalidade da terrível e infalível ameaça de Deus: “No dia em que dele comeres, certamente morrerás.” Abuso maior e mais comum acontece com a circuncisão, quando se perde o seu significado espiritual. Com tanta facilidade ela se torna sim- plesmente um ritual religioso, cumprimento humano da lei de Deus, que pelo simples ato exterior, ex opere operato, é suficiente para garantir a salvação eterna do homem sob a aliança de Deus. Assim o homem es- queceu que na circuncisão Deus estava lhe dando um presente de valor tão grande que torna o homem eterna e inevitavelmente devedor a Deus. A circuncisão subverteu-se numa dádiva que o homem oferece a Deus, mediante a qual espera receber uma recompensa devido à sua obediência. Ela se tornou símbolo de orgulho nacional, em vez de humildade pessoal. Desta forma, a circuncisão pode ser evitada e blasfemada pelos ímpios filhos de Jacó na história de Diná, em Gn 34; ou, novamente, pelo rei Saul que, levianamente, ordena que Davi lhe traga cem prepúcios de filisteus como dote pela sua filha Mical, 1Sm 18. É contra tais ideias mundanas a respeito da circuncisão, tão falhas em apreciar seu significado espiritual e por isso viver em espírito de arrependimento humilde e fé diante de Deus, que se dirigem as muitas exortações ao povo de Deus para circuncidarem também, e especialmente, os seus corações. Assim, por exemplo:

Dt 10.16: Circuncidai, pois, o vosso coração, e não mais sejais

teimosos.

Dt 30.6: O Senhor teu Deus circuncidará o teu coração, e o co-

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ração da tua descendência, para amares ao Senhor teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma, para que vivas. Jr 9.25,26: Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que castigarei a todos os circuncidados, juntamente com os não-circuncidados. Ao Egito, a Judá e a Edom, e aos filhos de Amom e Moabe, e a todos os que cortam os cabelos nas têmporas e habitam no deserto, porque todas as nações são incircuncisas, e toda a casa de israel é incircuncisa de coração (cf. também Jr 4.4). Rm 2.28,29: Porque não é judeu quem o é apenas exteriormen- te, nem é circunciso o que é somente na carne. Porém judeu é aquele que o é interiormente, a circuncisão a que é do coração, no espírito, não segundo a letra, e cujo louvor não procede dos homens, mas de Deus (cf. também Cl 2.11).

O terceiro abuso com a circuncisão aconteceu no tempo dos apóstolos,

quando os mestres judeus desejavam retê-la com exigência legal mesmo depois de ter vindo o cumprimento em Cristo. A circuncisão, como vimos, pertence à sombra de coisas por vir. O sangue da circuncisão desaparece inevitavelmente na obscuridade, uma vez que nos foi revelada a plena glória do sangue da cruz de Cristo. Portanto, ater-se às ordenanças da circuncisão é muito mais que simplesmente negação da liberdade cristã. Constitui negação do próprio Cristo – em primeiro lugar, porque da con-

formidade exterior à lei faz-se uma exigência adicional para a salvação, e assim Cristo já não é mais o Salvador todo-suficiente; em segundo lugar, porque o pleno significado para o sangue, com sua mensagem de lei e evangelho, é sepultado sob a vazia realização de uma obra exterior.

O homem que, vendo o sinal da circuncisão em sua própria carne, puder

dizer em arrependimento e fé: “Minha vida está perdida; devo morrer por causa do meu pecado, todavia, Deus poupou a minha vida e prometeu oferecer outro sacrifício em meu lugar,” – este homem, descobrindo a morte e a ressurreição de Cristo, compreenderá, pronta e alegremente, que aqui está o cumprimento da sua salvação. Colocará agora toda a sua confiança no próprio Cristo, e entenderá que a circuncisão é agora tão desnecessária como os sacrifícios veterotestamentários de animais, pois o Grande Sacrifício já foi oferecido. Os mestres judaicos, por outro lado, que teimavam em insistir que os cristãos gentios deveriam ser, no mínimo, circuncidados, revelaram com isso que para eles a circuncisão era apenas uma obra de obediência por parte do homem, não um canal de graça de Deus. Mediante esta obediência o homem mereceria o favor de Deus; cumpriria sua parte no acordo (barganha) com Deus e poderia esperar pela recompensa divina. Havia, talvez, um toque de orgulho na- cionalista nesta insistência com a circuncisão. Querendo glorificar Israel, esqueceram de glorificar o Deus de Israel.

a aLIança do sangue

Qualquer desses espíritos é totalmente incompatível com a verdadeira religião de Deus tal qual ela chega ao seu auge em Jesus Cristo. Paulo dedica quase a Epístola aos Gálatas a este problema. Ele não faz rodeios. Vejam, por exemplo, suas instigadoras palavras em Gl 5:

Eu, Paulo, vos digo que, se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará. De novo testifico a todo homem que se deixa circuncidar, que está obrigado a guardar toda a lei. De Cristo vos desligastes vós que procurais justificar-vos na lei, da graça decaístes. (Porque nós, pelo Espírito aguardamos a esperança da justiça que provém da fé.) Por que em Cristo Jesus, nem a circuncisão, nem a incircuncisão, tem valor algum, mas a fé que atua pelo amor (vv. 2-6). Oxalá até se mutilassem os que vos incitam à rebeldia [i.e., que eles se mutilassem a si mesmos] v.12.

Ou de Gl 6.12-17:

Todos os que querem ostentar-se na carne, esses vos constran- gem a vos circuncidardes, somente para não serdes perseguidos por causa da cruz de Cristo. Pois nem mesmo aqueles que se deixam circuncidar guardam a lei, antes querem que vos circun- cideis, para se gloriarem na vossa carne. Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo ( )

Pois nem a circuncisão é coisa alguma, nem a incircuncisão, mas

Quanto ao mais, ninguém me moleste;

o ser nova criatura (

porque eu trago no corpo as marcas [não da circuncisão, mas] de Jesus.

)

Assim, diz Paulo, se tu queres levar no teu corpo qualquer marca ou sinal físico da realidade de que és cristão, não o seja a circuncisão, antes, porém, as marcas dos sofrimentos que, como nova criatura, tens supor- tado por causa de Cristo.

V. O SANGUE DA PÁSCOA

O auge cerimonial e espiritual da religião do AT era a celebração da Páscoa; no NT, é a Ceia do Senhor. Nestas duas comemorações, espe- cialmente porque uma se liga à outra, a aliança do sangue é revelada em toda a sua clareza e beleza. As palavras que Jesus proferiu naquela noite pascal no Cenáculo: “Isto é meu sangue, o sangue do Novo Testamento”,

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constituem a simples chave que confirma e sumariza a unidade dos tes- tamentos na aliança do sangue. Se este cálice é o sangue de Jesus Cristo no novo testamento, então há, ou havia, também o sangue do antigo testamento. Agora, porém, o novo cumpre o antigo e o anula. Fluindo o sangue do Novo Testamento de Cristo, cessará para sempre o fluir vete- rotestamentário do sangue de animais. O que Jesus estava celebrando pela última vez com Seus discípulos no cenáculo, em Jerusalém, era a Páscoa do AT. A celebração havia sido instituída pelo próprio Deus a fim de ser comemorada para sempre nos tempos de Israel como memorial da poderosa e graciosa libertação do povo de Deus da escravidão egípcia. Se ela convinha a Jesus, embora es- tivesse Ele mesmo sem pecado, para cumprir toda a justiça em favor dos pecadores, então Ele teve que comemorá-la, e o fez com alegria. Pedro e João fizeram os preparativos. Eles providenciaram o cenáculo como lugar em que Jesus, na companhia dos Seus discípulos, poderia celebrar a festa.

Providenciaram o cordeiro sem defeito, e o sacrificaram no templo. Puseram

o sangue com hissopo na verga e na ombreira da porta. O cordeiro foi

assado ao fogo, de acordo com a ordem de Deus, assado inteiro e levado para o jantar juntamente com pães ázimos tempero para carne, e o vinho, que era parte essencial de cada refeição. Enquanto comiam a refeição pascal, cujo significado tanto Ele como Seus discípulos compreendiam, Jesus institui a celebração do Novo Testamento, que deve permanecer como preciosa herança da Igreja “até que Ele venha”. Os discípulos estavam comendo o corpo do cordeiro que haviam sacrificado. Todavia Jesus agora lhes dá o pão, dizendo: “Tomai, comei, isto é o meu corpo, que é dado por vós”. Os discípulos estavam bem cientes da importância central do sangue do cordeiro, que é passado nos umbrais da porta. Todavia, Jesus

agora pega o cálice de vinho, dá-o a eles, e diz: “Bebei todos deste. Isto

é o meu sangue do Novo Testamento, que é derramado por muitos para

a remissão dos pecados. Fazei isto em memória de mim”. Pode-se obter bom número de paralelos importantes entre a celebração do AT e a do NT:

1. Cada uma é instituída por ordem de Deus. Vejam Êx 12.1ss.: “O

por

todas as vossas gerações.” Também 1 Co 11.23ss: “O Senhor Jesus ( )

disse (

2. Cada celebração acarreta o sacrifício de um cordeiro. No AT, vejam

Êx 12.23: “É o sacrifício da Páscoa do Senhor” (também Êx 34.24; 23.18; Nm 9.7). No NT, observem especialmente 1 Co 5.7: “Pois também Cristo,

o nosso cordeiro pascal, foi imolado.” Também as palavras “dado” e “der- ramado”, na instituição da Ceia do Senhor, indicam sacrifício.

3. Em cada comemoração o sacrifício consiste num cordeiro sem de-

Senhor falou a Moisés e Arão (

)

fazei isto (

).”

)

Dizendo (

)

Guardá-la-eis (

)

a aLIança do sangue

feito. Assim, Êx 12.5: “Vosso cordeiro será sem defeito.” No NT, vejam 1

Pe 1.19: “Sois (

de cordeiro sem defeito e sem mácula.” Também Hb 4.15: “Embora sem pecado.” O cordeiro da AT, sendo fisicamente perfeito, não tinha motivo para ser morto. Cristo, nosso Cordeiro, é sem pecado e, portanto, não sujeito à morte, pois a morte é o salário do pecado.

4. Em cada celebração não era quebrado nenhum osso do sacrifício.

pelo precioso sangue de Cristo, como

)

redimidos (

)

Assim, Êx 12.46: “Nem lhe quebrareis osso nenhum.” No NT, vejam Jo

19.33-36: “Chegando-se, porém, como vissem que já estava morto, não

lhe quebraram as pernas (

seus ossos será quebrado’.” Aqui João vê, novamente, em Jesus “o Cordeiro

de Deus”, o cumprimento do sacrifício do cordeiro pascal do AT.

5. Em ambas as comemorações, é comendo a carne do sacrifício que

o indivíduo participa do sacrifício e recebe pessoalmente seus benefícios.

Assim, Êx 12.47: “Toda a congregação de Israel o fará.” Vejam também 1Co 10.18: “Considerai o Israel segundo a carne: não é certo que aqueles

que se alimentam dos sacrifícios são participantes do altar?” Na festa do NT, vejam as palavras de Jesus: “Tomai, comei; isto é meu corpo, que é dado em favor de vós.”

6. Em cada celebração o sangue derramado na morte é sumamente

importante. No AT, o sangue do cordeiro deve ser passado, com hisso- po, nas ombreiras e nas vergas das casas em que se come a festa (Êx 12.7,22). A Lei do AT, como vimos, proíbe comer sangue (Gn 9.4; Lv 17.10-14). No NT, porém, o sangue se torna parte da celebração: “Tomai, bebei todos deste; isto é meu sangue do Novo Testamento.” A própria

idéia de que o sangue deste novo sacrifício deve ser bebido indica, outra vez, que a aliança do sangue chegou ao seu cumprimento. O respeito por todo sangue, inculcado tão profundamente no AT, é agora substituído pela reverência maior para com o sangue de Jesus Cristo, o Filho de Deus. A ordem do Concílio da Igreja de Jerusalém, para que as igrejas gentílicas se abstivessem de carne de animais sufocados e de sangue, foi dada por causa da consciência dos judeus, como é explicado em Atos 15.20,21:

“(

Porque Moisés tem, em cada cidade desde tempos antigos, os que os pregam nas sinagogas, onde é lido todos os sábados.”

para se cumprir a Escritura: ‘Nenhum dos

)

)

que se abstenham (

)

da carne de animais sufocados e do sangue.

7. A cada celebração Deus une Sua promessa. Desta forma, Êx 12.13:

“Quando eu vir o sangue, quando eu ferir a terra do Egito” (vejam também v. 23). Com a ordenança da Páscoa Deus une, portanto, a promessa de poupar Seu povo da praga da morte dos primogênitos, que Ele lançaria sobre os egípcios. Há certas implicações que não podemos perder de vista. Está claro que no julgamento de Deus o povo de Israel merece a morte e

a destruição tanto quanto os egípcios. Por outro lado, por que é necessário

um sacrifício a fim de poupá-los? O próprio fluir da vida do cordeiro para

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a morte, como sempre acontece no esquema sacrificial, implica expiação:

a morte de um animal em favor da morte do homem. Assim a Páscoa

testifica a impressionante verdade de que o homem é pecador, e que o salário do pecado é a morte. Mas a Páscoa é, acima de tudo, evangelho.

A

ira de Deus recai, não sobre o homem, que merece morrer, mas sobre

o

cordeiro imaculado, sendo o homem poupado da destruição da parte

de Deus. Indiretamente, portanto, a promessa de perdão do pecado e da graça divina está inserida no sacrifício pascal. Na Ceia do Senhor, do NT, o perdão do pecado é prometido diretamente: “Isto é Meu sangue, derramado em favor de vós para a remissão dos pecados”. 8. Tanto a Páscoa quanto a Ceia do Senhor são dadas ao homem como solenidade memorial. O povo de Israel deve celebrar anualmente a Páscoa para se lembrar da maravilhosa libertação divina de seus pais da servidão egípcia; portanto, do poder, da misericórdia e da fidelidade do Senhor. Desta forma, Êx 12.14,26-27:

Este dia vos será por memorial e o celebrarei como solenidade ao SENHOR: nas vossas gerações o celebrareis por estatuto perpétuo

Quando os vossos filhos vos perguntarem: Que rito é este?

Respondereis: É o sacrifício da páscoa do SENHOR, que passou por cima das casas dos filhos de Israel no Egito, quando feriu os egípcios e livrou as nossas casas.

). (

O fato de a solenidade ter de ser celebrada ano após ano mostra, no-

vamente, que o significado do sacrifício do cordeiro vai muito além daquele evento transitório da libertação do Egito. Este é o sangue da aliança da graça de Deus com seu povo, por todas as suas gerações, pelo qual eles podem estar sempre seguros da contínua misericórdia e do perdão de Deus, bem como da Sua fidelidade; o sangue pelo qual Ele nunca os abandonará, mesmo se eles se voltarem contra Ele. Ele, porém, certamente levará a efeito o cumprimento da Sua aliança da redenção. É interessante observar quantas vezes faz-se referência, no AT, à poderosa manifestação da graça de Deus para com Seu povo no Êxodo. Do começo ao fim da história de Israel, este é o grande acontecimento histórico sobre o qual se fundamenta

a fé em Javé, acontecimento ao qual a memória se volta para conforto e garantia de contínuo perdão e livramento em toda tribulação.

A Páscoa do NT também é solenidade memorial – porém não mais da

libertação do Egito, mas de Jesus Cristo, que pelo Seu sangue é “o Cor- deiro de Deus que leva embora o pecado do mundo.” Desta forma, 1Co 11.25,26: “Este cálice é o Novo Testamento no meu sangue. Fazei isto todas as vezes que o beberdes, em memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciais a morte do Senhor até que Ele venha.”

a aLIança do sangue

Quando nós hoje comemos o corpo de Cristo na Ceia do Senhor e bebemos o Seu sangue, devemos fazê-lo em memória da Sua morte. O próprio fato de comermos Seu corpo é nossa garantia de que Ele real- mente morreu, exatamente como o comer do cordeiro assado do AT era prova clara e evidente de que o cordeiro realmente havia derramado seu sangue na morte. Além disso, nosso comer e beber nesta celebração nos dizem que Cristo morreu como sacrifício – e que não foi simplesmente morto como os animais que servem de alimento, porém que morreu vo- luntariamente – com uma determinação, a saber, em favor da remissão

dos nossos pecados, como substituto para a nossa morte. Finalmente, cada comungante deste sacrifício, cada pessoa que come e bebe dele, tem

a garantia absoluta da parte de Deus: “É por ti que Ele morreu; por tua

salvação e para tua vitória sobre a morte. Por meio deste comer e beber

te tornas participante no Seu sacrifício.” Ele realmente morreu; Ele morreu como sacrifício. Ele morreu por mim! Tudo é minha garantia pessoal da parte de Deus quando eu como e bebo em memória de Cristo, anunciando

a morte do Senhor até que Ele venha. 9. O nono paralelo entre a Páscoa do Antigo e a do Novo Testamento

diz respeito à necessidade da fé. Embora a palavra “fé” não seja men- cionada no relato da instituição da Páscoa, ela está claramente implícita. Vejam, por exemplo, Êx 12.27,28: “Então o povo se inclinou, e adorou. E foram os filhos de Israel, e fizeram isto: como o SENHOR ordenara a Moisés, assim fizeram”.

Comparem também Êx 4.31: “E o povo creu (

)”.

A própria obediência nos diz que eles creram. Quão fácil teria sido ri-

dicularizar esta estranha ordem de Deus, desprezar o sangue e considerar tola superstição o fato de alguém crer que o sangue na porta iria apartar da casa a morte. Quão prudente teria sido a sabedoria dos homens que achavam impossível que numa única noite, sem aviso, seria destinado à morte o primogênito de todos os egípcios, e unicamente o primogênito, dos homens e dos animais! Israel, porém, não se submetia a nenhuma dessas dúvidas. Levava

a sério tanto as ameaças de Deus, bem como Suas promessas. Humil- demente eles obedeciam – e pela obediência da fé foram poupados. A importância da fé neste evento é reconhecida pelo autor de Hebreus, que observa (11.28): “Pela fé (Moisés) celebrou a páscoa e o derramamento do sangue, para que o exterminador não tocasse nos primogênitos dos israelitas.” Contrastem isso com a reação de muitos nos dias de Ezequias. Quando

o rei reinstituiu a Páscoa, desleixada há décadas, eles “riram-se e zom- baram dos mensageiros” (2 Cr 30.10) porque julgavam tudo aquilo algo

tolo e desnecessário, pois não tinham fé.

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Assim também no NT, para celebrar devidamente a Ceia do Senhor, é

necessário verdadeiro espírito de humildade, arrependimento e fé. Por isso Paulo adverte: “Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice.” (1 Co 11.28). Aquele que come de modo leviano, negligentemente, como se estivesse dando alguma coisa a Deus, em vez receber dEle as mais preciosas dádivas e promessas – essa pessoa traz maldição sobre si mesma. É “réu do corpo e do sangue do Senhor” e “come

e bebe juízo para si, não discernindo o corpo do Senhor” (1 Co 11.27,29),

corpo este que se discerne pela fé. Tal pessoa pisoteia o Filho de Deus,

profana o sangue da aliança com o qual foi santificado, e ultraja o Espírito da graça (Hb 10.29). Também no AT a ira de Deus se volta contra toda a rotina, orgulho e observância das Suas celebrações cerimoniais sem a fé. Assim, Is 1.14: “As vossas solenidades (incluindo a Páscoa), a minha alma as aborrece; já me são pesadas: estou cansado de sofrê-las.” 10. A décima comparação entre a Páscoa do AT e a Ceia do Senhor, do NT, é antes um contraste, uma contraposição de valores. O relato da Pás- coa deixa claro que o sangue do cordeiro nos umbrais das portas não tinha valor real, intrínseco. Não é sangue de superstição que, por ser sangue, tenha algum poder mágico para afugentar os espíritos destruidores. Pelo contrário, ele é chamado de “sinal”. “O sangue vos será por sinal nas casas em que estiverdes” (Êx 12.13). Desta forma o sangue do cordeiro tem o poder de poupar vidas humanas, não por ser sangue, mas unicamente de- vido à ordem e à promessa de Deus. Ele tem poder porque Deus diz que ele possui este poder. É a aliança do sangue, o sinal da promessa da graça de Deus. Visto ser ele apenas um sinal, nenhum cordeiro é suficiente para este sacrifício. Deviam ser sacrificados tantos cordeiros para que todo o Israel pudesse comer e o sangue ser passado em cada porta. Dois mil novilhos e dezessete mil ovelhas estavam envolvidos nos sacrifícios de Ezequias (2Cr 30.24). Ano após ano a matança deveria continuar, pois o sangue é sinal do preço futuro. Ele próprio não é o preço da redenção para libertar o homem do pecado e da morte (vejam também Hb 10.1,2). Quão infinitamente mais precioso é, portanto, o sangue da Páscoa do NT. Este é o sangue do Filho de Deus, o sangue do Novo Testamento, “que é derramado em favor de muitos, para a remissão dos pecados” (Mt 26.28); não por poucos, nem sendo necessário derramá-lo sempre de novo, senão que é o único sacrifício por todo o pecado do mundo inteiro. Este é o sangue do Cordeiro de Deus, que leva embora o pecado do mun- do. O sangue do cordeiro do AT é sinal da aliança de Deus. A aliança é o sangue do Cordeiro de Deus, de modo que Jesus pode verdadeiramente dizer, não “isto significa o novo testemunho do meu sangue”, mas “este é

o novo testamento.” Este cálice é o meu sangue, e este sangue é o novo

testamento. Não mais um sinal da graça e do perdão, mas o perdão, a salvação e a própria vitória!

a aLIança do sangue

11. A última comparação entre a Páscoa e a Ceia do Senhor diz respeito

a sua restrição. Êx 12 deixa claro que a Páscoa não é para todos: Vejam os vv. 43-48: “Nenhum estrangeiro comerá dela. Porém todo escravo comprado por dinheiro, depois de o teres circuncidado, comerá dela. O

estrangeiro e o assalariado não comerão dela. (

comerá dela.” A celebração da Páscoa é concedida exclusivamente ao povo da aliança de Deus. Na verdade também não-israelitas, todo aquele que desejasse

entrar nesta aliança, deveria fazê-lo mediante o rito da circuncisão. Assim também a Ceia do Senhor pertence unicamente ao povo de Deus, à Igreja Cristã, ao único corpo de Cristo. Vejam 1Co 10.17: “Porque nós, embora sendo muitos, somos unicamente um pão, um só corpo; porque todos participamos do único pão.” Aqueles que participam desta Ceia para a glória do único verdadeiro Deus e Salvador Jesus Cristo não ousem comprometer a exclusividade desta fé, participando em quaisquer outras celebrações ou sociedades religiosas. Assim, 1Co 10.20,21: “Eu não quero que vos torneis associa- dos aos demônios. Não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios.” Exatamente como a circuncisão era pré-requisito fundamental para a participação na celebração da Páscoa, assim o Batismo se faz necessário para os que desejarem receber a Sagrada Comunhão. Embora isso não seja afirmado diretamente, está, porém, implícito nas passagens acima, pois vinculam-se à ordem missionária de Mateus 28: “Ide e ensinai [fazei

discípulos de] todas as nações, batizando-as (

somente para cristãos; porém o meio divinamente ordenado para tornar- se cristão é o Batismo cristão. Estes são os maiores paralelos entre a Páscoa e a Ceia do Senhor. Aqui, novamente, vemos claramente demonstrado como o NT procede do Antigo, o ilumina e é revelado já no Antigo. Pois a religião da Bíblia, Antigo Testamento e Novo, é essencialmente uma só. No próprio ponto central dessa uma só religião está o conceito do sangue. Resta, além disso, um pensamento a ser trabalhado nesta discussão da aliança do sangue como é revelada na Páscoa e na Ceia do Senhor. É o significado do comer da carne dos sacrifícios. Referimo-nos à sua importância no ponto 5, acima; porém são pertinentes aqui algumas observações adicionais. A Páscoa não era o único sacrifício a ser comido na religião do sangue do AT. Determinadas porções de certas ofertas por pecados e transgressões, trazidas pelo povo, deviam ser comidas pelos sacerdotes no santuário (cf. Lv 6.26,29,30; 7.6-9). Não nos interessam agora as detalhadas regulamentações que regiam esse comer. Está claro, porém, que o comer dos sacrifícios por parte dos sacerdotes era mais

A Ceia do Senhor é

Nenhum incircunciso

)

)”.

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do que simples meio de suprir suas necessidades físicas. Ele tinha real significado religioso. Certa vez, quando Arão e seus filhos queimavam o bode de uma oferta pelo pecado em vez de comê-lo, Moisés os reprova severamente, dizendo (Lv 10.17-20): “Por que não comestes a oferta pelo pecado no lugar santo? Pois coisa santíssima é: e o SENHOR a deu a vós, para levardes a iniquidade da congregação, para fazerdes expiação por eles diante do Senhor” (vejam também Êx 29.33). Desta forma, o comer da oferta pelos sacerdotes faz parte do ritual pelo qual é feita expiação em favor do povo.

A única oferta, além da Páscoa, a ser comida pelo próprio povo era a da oferta de paz. Esta era sempre um sacrifício de ação de graças e louvor voluntários a Deus por Suas bênçãos (Lv 7.12,16; 19.5). Normalmente a própria pessoa que trazia a oferta pacífica matava o animal; porém o sa- cerdote queimava a gordura sobre o altar, e recebia a coxa e o peito como porção sua (Lv 7.29-34). Depois o próprio ofertante comia a carne cozida (2Cr 35.13; Zc 14.21); não assada, como acontecia com o cordeiro pascal. Duas regras claras regiam este comer: (1) a carne devia ser comida no dia em que era oferecida (ou no caso de um voto, no dia seguinte). Toda carne deixada para depois do tempo estipulado, deveria ser queimada (Lv 7.15-17); (2) Ninguém moral ou cerimonialmente impuro poderia comer

a oferta pacífica (Lv 7.20,21). Em Lv 7.18 é dito, indiretamente, que esse

comer também possuía significado religioso: “Se da carne do seu sacrifício se comer ao terceiro dia, aquele que a ofereceu não será aceito, nem lhe será atribuído o sacrifício: coisa abominável será, e a pessoa que dela comer levara a sua iniqüidade” (vejam também Dt 15.20). Desta descrição podemos perfeitamente inferir que a oferta pacífica, quando devidamente oferecida e comida em fé, é aceita por Deus, sen- do imputado perdão a quem a ofereceu e dela come. O significado mais completo deste comer é sintetizado nestas palavras do apóstolo Paulo, em 1 Co 10.18: “Considerai o Israel segundo a carne; não é certo que aqueles que se alimentam dos sacrifícios são participantes [comungantes] do altar?” Aqueles que comem dos sacrifícios são participantes do altar. Comer

a carne do cordeiro sacrificado é ter a garantia pessoal de que o cordeiro sacrificado morreu vicariamente, em favor daquele que dele come. Assim, a refeição pascal era a mensagem divina personalizada e individualizada da graça para quem dela comia. E desta forma, no NT, o comer do sacrifício dá a quem come a mais elevada garantia: “O sacrifício foi oferecido em meu favor, por meu pecado; não apenas pelo pecado do mundo em geral, mas por mim individualmente.” Isso tem consequências importantíssimas para a doutrina da presença real. Uma Ceia do Senhor em que não se come o corpo e nem se bebe

a aLIança do sangue

o sangue do sacrifício não possui qualquer significado sacramental. Ela simplesmente não é a Ceia do Senhor. Ela perde todo bocado do conforto

e da certeza pessoal que Cristo deseja dar ao pecador nesta Ceia. É como

se o judeu se escandalizasse com a sanguinolência do sacrifício do cordeiro

pascal e dissesse: “Comerei o pão, e que o pão represente o cordeiro.” Ele se tornaria culpado de rejeitar a aliança de Deus, pois sem a morte do

cordeiro não há sacrifício; e sem o comer do sacrifício não há certeza para ninguém de que o sacrifício é seu perdão e salvação. A mesma coisa com

a Ceia do Senhor. Substitutivos, símbolos, apenas pão e vinho, de nada

adiantarão. Ou comemos do verdadeiro sacrifício e bebemos o próprio sangue derramado por nós – por mais impossível que seja explicar isso – ou, afinal, não comemos nem bebemos nada. Por isso, se não comemos

o verdadeiro sacrifício, fazemos uma farsa do sacramento. O argumento dos Reformados, de que o corpo de Cristo se encontra no

céu e que, portanto, não pode estar verdadeiramente presente, evidencia- se totalmente errado aqui. Nós comemos o corpo que é “dado”, “partido”, isto é, o corpo que morreu. Bebemos o sangue “derramado”; e o próprio derramamento de sangue significa morte. No sacramento nós proclamamos

a morte do Senhor até que Ele venha. É o corpo e o sangue do Cordeiro

de Deus, nossa Páscoa, que é sacrificado em nosso favor, é o corpo e o sangue que comemos e bebemos nesta Ceia – e sacrifício significa morte.

Aqui, na morte de Cristo, está a Sua maior glória e nossa eterna esperança. Esta observação, evidentemente, não diminui o mistério. Se, afinal, fizer alguma coisa, ela se une a ele: pois nós devemos sempre reconhecer que

o Cristo morto e o Cristo vivo são um só, inseparável e imutavelmente

único. Porém, no sacramento toda a nossa atenção se concentra em Sua morte pelo nosso pecado na aliança (testamento) do Seu sangue. Para a razão humana tudo isso é mistério medonho. Todavia, para a fé simples

e de criança, é mistério sublime, algo de grande conforto e de profunda

alegria. Esta é a aliança do sangue, um dos grandes temas que soa ao longo de toda a Escritura Sagrada como o coro de magnífica e harmoniosa mú- sica. Deus conceda que esta música da salvação através do sangue possa brotar mais e mais em nossos corações até participarmos com Cristo da nova celebração no reino de nosso Pai.

A ESPECULAçÃO FILOSÓFICA DA EVOLUçÃO DARWINIANA E A TDI

INTRODUÇÃO

Alexsandro Martins Machado 1

A luta pela sobrevivência da fé tem sido um desafio desde a sua gê- nese. Das perseguições por parte dos judeus às grandes perseguições romanas; dos anfiteatros aos tribunais do mundo moderno a fé tem sido objeto de ataques. E a forma mais sutil e eficaz de se combater toda e qualquer defesa de cunho teológico é a argumentação racional baseada em uma cosmovisão arreligiosa, e este trabalho diz respeito a esse campo de crítica ao cristianismo. Na verdade, em nossos dias, devido ao grande avanço científico e filosófico, a crença em um ser superior tem sido te- mática de ataques ferrenhos por parte de grandes intelectuais, como por exemplo, o professor de Oxford, Dr. Richard Dawkins. E mais uma vez a necessidade de oferecer uma resposta coerente às indagações levantadas se faz necessário. No entanto, os apologistas da fé dos tempos modernos necessitam aprender agir de maneira coerente com o campo no qual estão sendo desafiados a lutar, e precisam enfrentar os adversários com as mesmas armas com as quais estão sendo atacados, pois, agindo desta forma, talvez consigam mostrar para as pessoas que doam seus ouvidos e aten- ção aos apóstolos do ateísmo moderno que ser cristão não é sinônimo de ignorância e falta de cultura. E para que tal situação se consuma de maneira eficaz nos ouvidos destas, o conhecimento científico pode ser um grande aliado e talvez represente uma urgência para os teólogos destes tempos presentes. Neste trabalho faremos uma breve introdução ao debate que tem se acalorado em nossos dias frente um tema muito polêmico que é a teoria da Evolução. Não temos por intenção sanar todas as dúvidas, mas abrir a discussão e deixar nossos leitores de olhos abertos à importância que esta temática representa. Acreditamos que não será a única publicação que será feita em nossas revistas, mas que servirá de introdução a muitas que virão e que, com certeza, queremos participar delas.

1 Alexsandro Martins Machado é Bacharel em Teologia (ULBRA), Licenciado em História (ULBRA), Bacharelando em Genética e Biologia Molecular (ULBRA), Pós-graduado em Metodologia do Ensino de Filosofia e Sociologia (UNIASSELVI), Pós-graduando em Teologia (Seminário Concórdia). É professor de Ensino Religioso e Filosofia no Colégio São Lucas (ULBRA) de Sapucaia do Sul/RS desde 2009 e Colégio Luterano Concórdia de São Leopoldo desde 2011.

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Pensando dessa forma, desejamos aos leitores destas breves palavras uma boa leitura e o desejo que Deus os engaje nesta luta contra as forças que se opõem à fé que uma vez se manifestou em nossas vidas e serve de canal pelo qual Deus nos dá, gratuitamente, a salvação em Cristo.

DARWIN

No outono de 1831, um jovem estudante de teologia apresentava-se a um capitão chamado Fitzroy como candidato voluntário para uma viagem através do mundo em sua embarcação. Este entusiasmado jovem alegava interesse por pesquisa científica. No entanto, após breve observação, o Capitão hesitou em levá-lo por que considerava que, pela forma do nariz do rapaz, ele não tinha nem mentalidade nem energia necessárias para ser um bom cientista. O nome deste jovem era Charles Robert Darwin. No entanto, talvez felizmente, para o progresso do pensamento cien- tífico, o Capitão Fitzroy mudou de idéia, e o jovem estudante de teologia embarcou para a maior de suas experiências; dar a volta ao mundo e, de acordo com alguns cientistas “cristãos” evolucionistas, interpretar a palavra de Deus como esta se revela no texto sagrado dos seres vivos e no planeta terra. Henry Thomas e Dana Lee Thomas em A vida de grandes cientistas chega a dizer que Darwin

saiu a explorar e interpretar a palavra de Deus como foi gravada na Bíblia dos Seres Vivos. Da aula de teologia, que é o estudo de Deus, foi promovido ao sacerdócio da antropologia, que é o estudo do homem. E a sua missão de sacerdote foi relatar aos seus semelhantes à épica, embora ainda incompleta, jornada humana do ínfimo ao sublime. (THOMAS, 1965, p.107)

Mas quem foi este homem que marcou a história da ciência e por que tanto espanto causa aos religiosos? É a respeito disto que falaremos no próximo ponto ao explanarmos um pouco da vida deste brilhante natura- lista britânico do século XIX.

A VIDA DE DARWIN

Darwin nasceu em Shrewsbury, no dia 12 de fevereiro de 1809, filho de um dos mais influentes médicos da Inglaterra, o Dr. Robert Waring Darwin, e neto de um célebre naturalista chamado Erasmo Darwin. Sua mãe provinha de uma família da alta sociedade e que cultivava grande interesse pelas artes. Assim, desde pequeno, Charles foi criado num am- biente de alto nível cultural.

a esPeCuLaçÃo FILosÓFICa da eVoLuçÃo darWInIana e a tdI

Quando pequeno, o menino revelava um singular interesse por animais

e certo espírito de catalogador de espécies. Não são poucas as referên-

cias que falam de suas gigantescas coleções de insetos e pássaros entre outros que o pequeno naturalista coletou em sua infância. A curiosidade pelo comportamento animal o fascinava a tal ponto de quase perder-se em seu jardim familiar observando a bicharada em seu habitat. O Dr. Robert muitas vezes externou sua preocupação com seu filho, que para ele era tido como um grande preguiçoso, e temia muito pelo futuro do menino. Também o fato de o menino Charles não revelar inte-

resse pelo seu ensino no colégio assustava seu pai. Especialmente pelo fato deste tê-lo enviado a um colégio de estudos clássicos, onde o menino, para decepção de seu pai, nunca se fechou com as disciplinas estudadas no mesmo e principalmente pelo estudo de latim e grego. Os professores também notavam esse desinteresse e declaravam que o pequeno Darwin tinha atitudes de “atividade de um cérebro desarranjado”. Seus colegas compartilhavam do parecer dos professores, inclusive deram o apelido de “Fumaça” ao menino naturalista, talvez por sua atenção dispersa e atitude inconstante. O pai, aborrecido com o jovem de experiências “absurdas” e suas caçadas de ratos, o enviou para estudar medicina na Universidade de Edimburgo. Na vida, como estudante de medicina, o jovem não demorou a de- monstrar seus desacertos com o curso, pois considerava muito entediante as aulas de anatomia. Já nas aulas de prática médica a carreira encontrou

o seu fim. Darwin ficou horrorizado com as cirurgias que eram feitas, pois

as pessoas urravam de dor, especialmente pelo fato de naquele tempo

tudo ser feito sem anestesia.

Percebendo que o garoto não havia nascido para ser médico, seu pai

o envia para estudar teologia no Christ’s College. Foram três anos per-

didos, conforme o próprio Darwin nos relata. No entanto foi ali que ele teve contato com o professor Henslow, mestre este que intercedeu para que Darwin pudesse ingressar na viagem a bordo do navio Beagle como naturalista. Charles Darwin partiu em sua viagem ao redor do mundo no ano de

1831, da qual retornaria cinco anos mais tarde com uma rica coleção de exemplares de espécies desconhecidas do velho mundo em que fora criado.

E devido às comparações que fizera entre as estruturas morfológicas dos

animais e a observação que já fazia sobre a luta pela sobrevivência, este teólogo entrou em conflito com suas prerrogativas religiosas. Depois de muitas experiências, investigações e pesquisas em outros autores, o homem que outrora foi considerado um menino sem futuro, cujo nariz não despertou afinidade em Fitzroy, lançava um livro que aba- laria os alicerces da sociedade acadêmica mundial. Neste livro, Darwin

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revelava sua teoria, o fruto de suas pesquisas bem como suas conclusões. Abria espaço para críticas, como também declarava que a mesma ainda precisava de alguns complementos, mas mesmo sem expressar isto de forma direta, deixava claro que seu posicionamento o colocava em rota de colisão com o pensamento religioso. Darwin teria feito uma viagem de longos cinco anos ao redor do mundo, pesquisando-o, talvez para mudar a concepção que o homem tinha do mesmo. Seu livro A origem das espécies por meio da seleção natural ainda hoje continua como uma grande obra.

A bíblia de todo naturalista e biólogo que visa entender o mundo pura e

simplesmente por meio de processos físico/químico/biológicos.

O LEGADO DE DARWIN

O legado de Darwin, hoje, é conhecido de todo mundo. Para ele, a

diversidade biológica que vemos em nossa frente é fruto de mudanças que os seres vivos vieram tendo com o passar de longos períodos na história da vida sobre a terra. Na verdade, a vida teria se originado em um tempo muito longínquo, em pequenos microrganismos de estruturas bem simples, sendo indicados hoje como os coacervados os candidatos a este ponto da história evolutiva da vida e, a partir de então, por mudanças que estes organismos vieram sofrendo com o passar dos anos, alguns se tornaram

mais aptos na luta pelo alimento enquanto outros que teriam tido mudanças que os desfavoreceram na luta pela sobrevivência acabaram extintos. E numa sucessão de bilhões de anos esta variação teria dado origem a toda

e qualquer espécie de seres vivos dos tempos presentes.

O mecanismo de explicação de Darwin, em sua obra, não é muito di-

fícil de ser entendida e sua comprovação, para o naturalista, vem de suas experiências com seleção de espécies em cativeiro com fins de reprodução visando diferenciações morfológicas. E como tudo isto foi comprovado por experimento, para Darwin o mecanismo que fazia com que através do cruzamento de poucas amostras de pombos fosse possível a produção de novos exemplares com características que os diferenciava de seus an- cestrais, a evolução seria plausível de maneira um tanto similar. Só seria necessário que a terra tivesse mais tempo de existência do que os seis mil anos alegados pela religião e o conhecido calendário de Usher. E para dar mais força ao que Darwin vinha alegando, outros cientistas de renome como Charles Lyell, Ernest Heinrich Haeckel e Alfred Wallace trouxeram cada um suas contribuições para a teoria da evolução. Assim, não era só um naturalista que estava a fazer estas afirmações, mas as evidências começavam a brotar de vários ramos da ciência. E desde lá até nossos dias não param de surgir novas evidências que corroboram o que Darwin argumentou em sua obra.

a esPeCuLaçÃo FILosÓFICa da eVoLuçÃo darWInIana e a tdI

Devido a esta situação, a teoria da origem das espécies por meio da seleção natural dominou o cenário científico mundial durante os seus 150 anos de existência, e toda e qualquer pessoa que sonhasse se aventurar na viagem ao mundo das ciências biológicas tinha de aceitar a evolução das espécies conforme exposto pelo pensamento do naturalista britânico Char- les Darwin. Mas esta situação não ficaria inquestionável para sempre.

TEORIA DO DESIGN INTELIGENT

Na década de 90, do século XX, uma equipe de cientistas renoma- dos começou a levantar certas questões em relação ao mundo natural que não encontravam explicações lógicas na teoria darwiniana. E graças aos esforços de um grande advogado norte-americano chamado Phillip E. Johnson, no ano de 1993, na cidade de Pajaro Dunes, no estado da Califórnia, realizou-se um encontro destes pesquisadores com fins de discutirem seus pontos de desacordo com a teoria da Evolução. Estive- ram presentes cientistas das mais variadas áreas. Eram físicos, químicos, biólogos, matemáticos e outros. Inclusive grandes nomes que figuravam em publicações defendendo a teoria evolutiva por seleção natural. Cito aqui o próprio autor de uma obra fantástica em defesa da evolução, o Doutor Dean H. Kenyon, o qual outrora evolucionista, agora debandaria em defesa de uma explicação alternativa sobre a origem da vida e da variedade biológica. Estes homens trouxeram de suas áreas contribuições para o que viria se configurar como a teoria da origem da vida e das variações entre as espécies por um designer projetista. Alguns destes cientistas, outrora grandes defensores da teoria da evolução por meio da seleção natural, no entanto, agora haviam mudado de ideia. Iniciava assim uma fase científica no que já era conhecido desde a década de oitenta como Teoria do Design Inteligent (TDI). Na década de 90 do século XX muito se produziu neste sentido. Foram vários livros que apareceram defendendo que nem tudo na natureza podia ser explicado pelo modelo evolutivo conforme proposto por Darwin e os neodarwinistas. E desta vez não era uma teoria baseando seus argumentos em prerrogativas religiosas como fazia e faz o criacionismo, mas brotava um rebento do próprio campo especulativo do empirismo científico.

Design significa desenho, projeto, plano, tipo de construção ou planejamento. Basicamente, a Teoria do Design Inteligente (TDI) é uma teoria científica com consequências empíricas e desprovida de qualquer compromisso religioso. Ela se propõe a detectar empiricamente se o design observado na natureza é um

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design genuíno (produto de uma inteligência organizadora) ou um produto do acaso, necessidades e leis naturais. (LOURENçO, 2007, p. 42)

O doutor Phillip Johnson sentiu-se satisfeito pelo encontro de Pajaro

Dunes, pois ali pode perceber que não faltariam aliados em sua homérica aventura na luta contra a teoria que imperava nos meios científicos. Seu livro Darwin no banco de réus foi um sucesso e ainda hoje reflete esta feliz investida do renomado advogado. Ao lado deste defensor do TDI, homens como Michael Behe também fizeram suas publicações como a sua grande obra A caixa preta de Darwin. Neste trabalho, este grande bioquímico lançou a público os fundamentos do que seriam os princípios básicos da TDI. Sua analogia da ratoeira como princípio da complexidade irredutível tem prendido muitos ratos de laboratório que persistem no pensamento darwiniano. E como o espaço que temos é limitado, iremos nos deter no conceito da complexidade irredutível.

A COMPLEXIDADE IRREDUTÍVEL

O conceito de complexidade irredutível, conforme Behe expõe nas

páginas 47 a 56 de sua obra, apresenta-se como confronto ao que Darwin expõe em sua obra A Origem das Espécies: “Se pudesse ser demonstrada a existência de qualquer órgão complexo que não poderia ter sido formado por numerosas, sucessivas e ligeiras modificações, minha teoria desmo- ronaria por completo” (BEHE, 1997, p. 47). De acordo com o proposto por Behe, existem na natureza certas estruturas muito complexas em que um número muito grande de “peças” moleculares que interdependem umas das outras para que o sistema estrutural tenha uma funcionalidade não encontram explicação pelo modelo evolutivo. Para exemplificar sua interpretação, ele usa uma ratoeira com sua funcionalidade e a inter- dependência de cada parte que forma sua estrutura, e a partir deste exemplo, o bioquímico desafia a comunidade científica a demonstrar, por experimento, a possibilidade de se retirar uma peça das partes essenciais da ratoeira e mesmo assim ela continuar funcionando para o objetivo a que foi planejada. Desta analogia, Behe entra no mundo microscópio, e mostra toda a complexidade e interdependência de certas estruturas moleculares pre- sentes nos seres vivos, que assim como no caso da ratoeira, desafia o mundo científico para que demonstrem por experimento como poderiam retirar partes essenciais destas estruturas e as mesmas permanecerem com sua funcionalidade. Desta forma, ou estas estruturas, assim como a ratoeira, teriam sido planejadas e construídas com suas peças em conjun-

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to ou não seria possível que a origem da mesma se desse por processos evolucionários conforme proposto pelos apologistas da teoria darwiniana. A isto se deu o nome de complexidade irredutível, ou seja, uma estrutura cuja funcionalidade depende da presença de várias peças moleculares devidamente ordenadas e planejadas para a função que desempenham. Mas detectar e definir complexidade irredutível é algo que depende de muita minúcia e atenção às leis físico-químicas que regem o mundo em que vivemos, e Michael Behe sabe bem disto.

O primeiro passo para determinar a complexidade irredutível

consiste em especificar a função do sistema e todos os seus com- ponentes. Um objeto irredutivelmente complexo será composto de várias partes, todas as quais contribuem para a função. A fim de evitar os problemas encontrados em objetos extremamente complexos (tais como olhos, besouros, ou outros sistemas bio- lógicos multicelulares) começarei com um exemplo mecânico simples: uma modesta ratoeira. (BEHE, 1997, p. 50)

Após este primeiro passo, o bioquímico anuncia as partes essenciais de uma ratoeira e para este ponto uma pequena ilustração da mesma está sendo usada abaixo:

uma pequena ilustração da mesma está sendo usada abaixo: Behe anuncia qual seria o segundo passo

Behe anuncia qual seria o segundo passo para a detecção de comple- xidade irredutível:

O segundo passo para determinar se um sistema é irredutivel-

mente complexo consiste em perguntar se todos os componentes são necessários à função. Nesse exemplo, a resposta, claro, é sim.

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Suponhamos que, enquanto está lendo durante a noite, você ouve

o ruído de pequenas patas na copa, vai até uma gaveta e pega a

ratoeira. Infelizmente, devido à fabricação defeituosa, falta uma das peças listadas acima. Que parte poderia estar faltando, mas que, ainda assim, nos permitiria pegar o rato? (Ibidem, p. 51)

Mas para podermos entender como a evolução não encontra resposta para os sistemas biológicos de complexidade irredutível precisamos ter bem claro as distinções entre os conceitos de precursor físico e conceitual e para este ponto Behe novamente se esmera em sua explicação. E quanto ao precursor físico ele afirma o seguinte:

A ratoeira descrita acima não é o único sistema que pode imo-

bilizar um rato. Em outras ocasiões, minha família usou uma ratoeira de cola. Em teoria, pelo menos, podemos usar uma caixa inclinada, apoiada em uma vareta que pode ser derrubada. Ou podemos simplesmente atirar no rato com uma espingarda de chumbinho. Esses, porém, não são precursores físicos da ratoeira comum, uma vez que não podem ser transformados – um passo darwiniano após outro – em uma ratoeira com base, martelo, mola, trava e barra de retenção. (Ibidem)

O que ele quer dizer com isto é que, para que uma estrutura biológica possa ser entendida como irredutivelmente complexa, ela não pode apre- sentar possibilidades de ser fruto de pequenas mudanças graduais que ocorreram em organismo mais simples cujo resultado foi a estrutura mais especializada, por exemplo; ao analisar a estrutura do olho, não podemos defini-lo como uma estrutura que apresente complexidade irredutível se podemos observar estruturas mais simples que por mutações possíveis viessem a dar a capacidade de visão a seres que a desenvolveram. E assim definimos o conceito de precursor físico. Já o precursor conceitual parte de um princípio diferente.

Para esclarecer esse ponto, considere a seguinte sequência:

prancha de skate, trem de brinquedo, bicicleta, motocicleta, au- tomóvel, avião, avião a jato, espaçonave. Parece uma progressão natural, uma vez que é uma lista de mecanismos, todos os quais podem ser usados para transporte, e também por estarem alinha- dos em uma ordem crescente de complexidade. Eles podem ser conceitualmente ligados e fundidos em um contínuo único. Mas, digamos, será a bicicleta um precursor físico (e potencialmente darwiniano) da motocicleta? Não. Trata-se, apenas, de um pre- cursor conceitual. Nenhuma motocicleta na história, nem mesmo

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a primeira, foi fabricada apenas modificando-se uma bicicleta

através de etapas. É bastante possível que um adolescente, numa tarde de sábado, pegue uma velha bicicleta, um velho motor de cortador de grama e algumas peças avulsas e (com umas duas horas de trabalho) construa uma motocicleta que funcione. Mas esse fato demonstra apenas que seres humanos podem planejar sistemas irredutivelmente complexos, o que já sabemos.

E após delimitar o que seria, falando de uma forma simples sobre os

postulados do princípio da complexidade irredutível, no livro Caixa preta de Darwin, Michael Behe passa do campo teórico para o prático e começa

a citar exemplos do que ele está falando em sistemas bióticos. E para

surpresa de qualquer leitor, os exemplos são fantásticos. No entanto nos limitaremos a expor a figura de apenas um dos exemplos trabalhados em seu livro. Depois de ter falado da complexidade irredutível das células que nadam usando um cílio, Behe dedica boa parte de sua obra falando do flagelo bacteriano e deste traremos uma figura e pequena abordagem. Mas an- tes disto veja que biólogos evolucionistas já produziram muito sobre este sistema complexo, mas ninguém arrisca uma resposta darwiniana para sua complexidade.

A literatura profissional geral sobre o flagelo bacteriano é quase

tão rica quanto a existente sobre o cílio, com milhares de traba- lhos sobre o assunto publicados nos últimos anos. Esse fato não é surpreendente: o flagelo é um sistema biofísico fascinante e as bactérias flageladas têm importância médica. Ainda assim, mais uma vez, a literatura evolucionista brilha pela ausência. Embora nos digam que toda a biologia deve ser vista através das lentes da evolução, nenhum cientista jamais publicou um modelo que explicasse a evolução gradual dessa extraordinária máquina molecular. (Ibidem, pág.78)

A estrutura do motor do flagelo é tão complexa que Behe cita como este

já foi encarado e analisado por pesquisadores. Veja em poucas palavras o

que o livro Caixa preta de Darwin traz em maiores profundidades.

A natureza rotativa do motor flagelar bacteriano constituiu uma

surpreendente e inesperada descoberta. Ao contrário de outros sistemas que geram movimento mecânico (músculos, por exem- plo), o motor bacteriano não usa energia diretamente, que é armazenada em uma molécula “portadora”, como a ATP. Em vez disso, para se mover o flagelo usa a energia gerada por um fluxo

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de ácidos que circula na membrana bacteriana. Os requisitos de um motor baseado em tal princípio são muito complexos e estão sendo objeto de pesquisa ativa. Muitos modelos foram sugeridos

para o motor, nenhum deles simples. [

usa um mecanismo de remo. Por isso mesmo, deve satisfazer as mesmas condições que outros sistemas de natação. Uma vez que o flagelo bacteriano é necessariamente composto de pelo menos três partes – um remo, um rotor, e um motor – ele é de comple- xidade irredutível. A evolução gradual do flagelo, assim como a do cílio, encontra obstáculos enormes. (Ibidem, p. 78)

O flagelo bacteriano

]

gradual do flagelo, assim como a do cílio, encontra obstáculos enormes. (Ibidem, p. 78) O flagelo

a esPeCuLaçÃo FILosÓFICa da eVoLuçÃo darWInIana e a tdI

Com esta figura, podemos observar a complexidade do motor existente em bactérias ciliadas, como a Escherichia Coli. Literalmente temos um

motor e, diga-se de passagem, o mais potente motor do mundo. Complexo,

e numa estrutura onde para que seu funcionamento seja real, ele neces-

sita de todas as peças montadas numa sequência lógica. E para este tipo de motor, não temos nenhum exemplo na natureza que possa servir de precursor físico para tal complexidade, ou seja, temos a nossa frente um exemplo vivo de complexidade irredutível. O que isto significa? Bom, isto nos diz que, ou este sistema segue uma automatização inteligentemente

planejada ou não há como explicar tal estrutura senão por meio de um milagre. Mas milagres são coisas de religiosos e neste caso muitos evolu- cionistas têm preferido acreditar em milagres do que num designer. Quem se interessou por este sistema molecular complexo poderá acessar um pequeno vídeo que mostra este motor flagelar em pleno fun- cionamento pelo seguinte endereço: http://www.youtube.com/watch?v=

QklutWm19MY&feature=fvsr

Com este pequeno exemplo podemos perceber que bactérias do tipo Escherichia coli não causam dores somente físicas, mas causam dores psíquicas e filosóficas em muitos cientistas. Junto à complexidade irredutível, a TDI conta com antevidência genial

e a informação aperiódica como ponto de apoio para a sua defesa, no entanto, não teremos tempo e espaço suficiente para falar das mesmas neste artigo, mas ofereceremos referências de onde as mesmas podem ser encontradas e, talvez, num próximo trabalho falaremos delas. A realidade é que a teoria do design inteligent tem oferecido sérios questionamentos para a teoria da Evolução e não são poucos os cientistas que têm abandonado a teoria darwiniana e abraçado a TDI. No entanto, no mundo acadêmico, esta situação tem provocado muitas controvérsias,

e como fruto destas, os debates estão surgindo entre evolucionistas e

TDIstas. No ambiente universitário, podemos citar como exemplo deste con- fronto os Simpósios realizados na Universidade Mackenzie nos anos de 2008, 2009 e 2010 sob o tema Darwinismo hoje, e que contou com a

presença de grandes nomes tanto da TDI quanto da Evolução. Os Simpó- sios com suas palestras e debates estão todos disponíveis nos seguintes endereços virtuais:

1º Simpósio realizado em 2008: http://www.mackenzie.br/11549.

html

2º simpósio realizado em 2009: http://www.mackenzie.br/2_darwi-

nismo_videos.html 3º Simpósio realizado em 2010: http://www.mackenzie.br/3_darwi- nismo_videos.html

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E no que diz respeito a uma leitura mais pormenorizada dos pressu- postos e evidências da TDI, o Professor Dr. Marcos Eberlin disponibiliza de maneira virtual sua grande obra fomos Planejados no seguinte ende- reço:

http://www.fomosplanejados.com.br/ Além de contarmos com grandes obras publicadas como: Darwin no banco de Réus; Caixa preta de Darwin; Criação X Evolução; O enigma das origens; não tenho fé suficiente para ser ateu; Deus existe e tantos outros. Destes cito também na bibliografia conforme usada para este trabalho.

CONCLUSÃO

Uma parte do mundo universitário, hoje, tem aberto as portas para este incrível debate científico-filosófico. E os dois lados têm apresentado suas teorias e as defendido de maneira honrosa e digna de suas titulações. No entanto, tanto um lado quanto o outro possui lacunas e evidências. A pergunta que fica é: qual será o clímax disto tudo? Talvez o futuro venha a nos revelar. Mas como podemos ver do que foi escrito acima, há uma história fantástica por traz deste debate que merece nossa atenção, princi- palmente por sermos uma instituição envolvida com escolas onde a teoria darwiniana convive e conviverá com a confessionalidade. E como lidar com esta situação talvez seja o grande desafio para o qual precisamos nos po- sicionar de maneira coerente para evitar dois extremos; o indiferentismo com a confissão de fé e o fundamentalismo religioso. A esperança do mundo cristão precisa partir de uma fé desafiadora contra os falsos ensinamentos e é a mesma que Dr. Behe transparece em seu livro bem como quando expõe ao falar das palestras da professora Dra. Lynn Margulis:

Lynn Margulis é professora emérita de biologia na Universidade de Massachusetts. Muito respeitada por sua teoria, amplamente aceita, de que as mitocôndrias, as fontes de energia das células de plantas e animais, foram outrora células bacterianas independentes, Margulis diz que a his- tória acabará por julgar o neodarwinismo uma “pequena seita religiosa do século XX, dentro da fé religiosa geral da biologia anglo-saxônica”. ‘ Em suas muitas palestras, ela pede a biologistas moleculares presentes na plateia que citem um único e inequívoco exemplo de formação de uma nova espécie pelo acúmulo de mutações. Ninguém aceita o desafio. (BEHE, 1997, p. 35) Se este desafio de Margulis sobreviver às novas descobertas e tiver a divulgação necessária, poderemos num futuro bem próximo trazer Deus

a esPeCuLaçÃo FILosÓFICa da eVoLuçÃo darWInIana e a tdI

para os debates científicos e falar com consciência acadêmica e científica que esta presente existência não se limita simplesmente a um mundo material, mas sim que o mesmo é fruto de um designer que planejou de acordo com sua antevidência genial como as coisas deveriam ser. E a gran- de contradição da formação educacional que Ron Carlson ironiza poderá ser encarada ao campo que lhe pertence, o da especulação filosófica:

No ensino básico, me ensinaram que um sapo transformando-se em príncipe era conto de fadas. Na universidade, me ensinaram que um sapo transformando-se num príncipe era um fato!” (Ron Carlson)

REFERêNCIAS

DARWIN, Charles Robert. Origin of Species, 6. ed. Nova York: New York University Press, 1988. BEHE, Michael. Caixa preta de Darwin: o desafio da bioquímica à teoria da evolução. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor Ltda., 1997. JOHNSON, Phillip E. Darwin no banco de réus. São Paulo: Cultura Cristã, 2008. LOURENçO, Adauto. Como tudo começou: uma introdução ao Criacio- nismo. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2007. GEISLER, Norman; TUREK, Frank. Não tenho fé suficiente para ser ateu. FLEW, Antony. Deus existe: as provas incontestáveis de um filósofo que não acreditava em nada. São Paulo: Ediouro, 2008. MORRIS, Henry M. et al. O enigma das origens. COLLINS, Francis. A linguagem de Deus: um cientista apresenta evi- dências de que Ele existe. DAWKINS, Richard. As evidências da Evolução: o maior dos espetá- culos da terra. THOMAS, Henry, THOMAS, Dana Lee. Vida de grandes cientistas. Porto Alegre/ RS: Editora Globo, 1965. Sites:

http://www.mackenzie.br/11549.html

http://www.mackenzie.br/2_darwinismo_videos.html

http://www.mackenzie.br/3_darwinismo_videos.html

http://www.fomosplanejados.com.br/

AUXÍLIOS HOMILÉTICOS

PRIMEIRO DOMINGO NO ADVENTO

27 de novembro de 2011

Salmo 80.1-7; Isaías 64.1-9; 1 Coríntios 1.3-9; Marcos 11.1-10

O TEMPO

Estamos no tempo de Advento, um tempo antes do Tempo. Olhando para as vitrines e lojas, parece que esse Tempo já chegou. Mas Advento é diferente da euforia de dezembro. Advento é tempo de sobriedade, vi- gilância, esperança, paciência. Hoje, no dia de Advento, o Rei está vindo. Estamos preparados para recebê-lo?

AS LEITURAS DO DIA E SUGESTÕES HOMILÉTICAS

Isaías nos dá dicas para esta preparação no Advento. “Sais ao encon- tro daquele que com alegria pratica a justiça, daqueles que se lembram de ti nos teus caminhos” (64.5, TM 64.4). Nestas palavras você ouve o eco do “Fazei isto em memória de mim”. “Praticar a justiça” e “lembrar do SENHOR nos seus caminhos” tem a ver com a fé. Praticar a justiça e lembrar do SENHOR são atos decorrentes da fé. Advento é, na verdade, uma celebração de três tipos de adventos, vindas de Jesus. É um olhar para o Seu primeiro advento em humildade vindo através da Virgem, da manjedoura e da cruz. Esta é a razão porque ouvimos novamente o Evangelho do Domingo da Entrada Triunfal (Qua- resma) neste Domingo de Advento. Este é o Rei que esperamos. Aquele que entrou em Jerusalém montado num burrico emprestado cuja coroa é feita de espinhos e cujo trono é uma cruz. Este é o Rei que declara guerra em prol de Seu povo e até mesmo em prol de Seus inimigos. O mundo jamais conheceu Rei ou líder como este que dá a Sua vida para salvar o mundo. Assim como foi glorioso e triunfante o advento da Entrada Triunfal, ele também foi um advento de humildade e fracasso. O Rei entra em Jerusalém para morrer, para ser crucificado por mãos de políticos e reli- giosos. Voluntariamente o Rei entra sozinho na batalha para vencer nosso pecado tornando-se pecado por nós, para vencer nossa morte por meio da Sua morte. Jesus veio para cumprir a justiça de Deus em nosso lugar. Este é o pressuposto. Não há como nós cumprirmos a justiça de Deus. É o que Isaías confessa e admite: “Todos nós somos como o imundo, e todas as

Igreja Luterana

nossas justiças, como trapo da imundícia” (64.6, TM 64.5). O melhor que imaginamos ser, o melhor que imaginamos fazer - tudo é trapo de imundí-

cia. (A propósito, o termo hD[i significa “período menstrual” e só é usado nesta passagem.) Esta é uma confissão. Não se trata de um sentimento de tristeza ou de culpa; enfim não se trata de sentimento algum. Trata-se de uma atestação, a realidade imutável de que qualquer coisa que fizer- mos, por mais pura e sublime, está manchada, poluída pelo pecado de sorte que o que consideramos “obras justas” são, na verdade, imundícia

à luz da lei de Deus. Reconhecer a gravidade do nosso pecado ou, mais propriamente, da nossa natureza pecaminosa é apenas o prelúdio da preparação para o tempo de Advento. É também uma súplica, um grito por misericórdia, um olhar sobre as promessas de Deus. “Não te enfureças tanto, ó SE-

NHOR, nem perpetuamente te lembres da nossa iniquidade.” É a súplica de Isaías. “Olha, nós te pedimos: todos nós somos o teu povo.” Somos

o teu povo!

Deus se lembra de nós, sim, mas apenas por causa de Jesus. Este é o acordo que Ele fez conosco. Mas apenas Ele o fez: nosso pecado em troca

da justiça de Jesus. “Troca feliz”, como diria Lutero. A entrada de Jesus em Jerusalém não foi por um circuito de vitória. Não era um Rei voltando para casa em triunfo depois de derrotar seus inimigos na batalha. Não se tratava de uma parada militar. Antes, era para que se “cumprisse toda a justiça”.

E embora a multidão de discípulos estivesse certa em cantar “hosana ao

Filho de Davi”, eles não faziam a mínima ideia do que isso significava ou para que Ele tinha vindo. A ficha só iria cair naquele fim de semana.

O que nos sustenta é o segundo advento de Jesus, o advento da sua glória oculta. É o advento da Sua vinda sacramental, a saber, pela Palavra

e

Santa Ceia - uma vinda por vezes desprestigiada. Muitas vezes pensamos

e

agimos como se Jesus tivesse vindo, ido e um dia voltará. Mas a noção

da “volta” de Jesus não faz justiça à presença de Jesus. A invisibilidade de Jesus não faz dEle um ausente. Na verdade Ele está mais plenamente presente conosco do que quando esteve com o Seu primeiro grupo de discípulos. Ele está conosco por meio da Sua Palavra em todas as suas formas sacramentais, ou seja, no Batismo, Santa Ceia, na palavra do per- dão anunciada em Seu Nome - até a consumação dos séculos! Jesus está

conosco, como prometeu. Ele retornou à Sua glória anterior à direita do Pai para que pudesse “ser tudo em todos” e “encher todas as coisas”. Significa que Aquele que estamos esperando é o Mesmo que já está aqui. O Reino que estamos aguardando é o Reino que já veio. A glória que esperamos

é a glória que já está aqui, embora de forma humilde e oculta. Na epístola de hoje o apóstolo diz: “Não vos falta nenhum dom, aguar- dando vós a revelação de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual também vos

PrImeIro domIngo no adVento

confirmará até ao fim para serdes irrepreensíveis no Dia de nosso Senhor Jesus Cristo.” Havia em Corinto aqueles que achavam que lhes faltavam os necessários dons espirituais para sobreviver. De outro lado, havia aqueles que achavam que transbordavam dons. Paulo lhes assegura que nenhum dom lhes faltava. Textualmente, dois termos são importantes aqui: pri- meiro, embora os Coríntios preferissem talvez o termo pneumatika, para “dons espirituais” (12.1), Paulo emprega o termo cari,smata para lhes lembrar de que tudo o que têm é por graça (1.7). Porque onde a Palavra

é pregada, o corpo e sangue de Cristo são distribuídos, onde há Batismo,

ali está o dom espiritual necessário para preparar o caminho do Senhor. Podemos até cismar que não estamos preparados para o Advento e que não nos sentimos “espirituais” ou “tão perto de Deus” como deverí- amos. Mas, “espiritual” nada tem a ver com sentimento ou emoção; tem a ver com fé, é “Espiritual”. Fé é confiança nas coisas que hão de vir. É a certeza em coisas que se não veem. Advento é tempo de fé. Se sentimos ou não, não vem ao caso porque nada nos falta, Espiritualmente falando. Temos Cristo, Sua Palavra e sacramentos, portanto, temos tudo o que precisamos no preparo para o Dia de Cristo. Este é o terceiro Advento - a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo em grande glória para julgar vivos e mortos. É o dia da ressurreição e da Vida. Vem o Dia quando o pecado não mais existe, quando a morte morreu, quando a vida reina e quando o governo de Jesus se torna visível a todos. Isto é Advento. Não é fazer compras e mais compras, preparar-se para as

festas, cozinhar, assar e comer. Claro, fazemos isso e não está nada errado em fazê-lo, mas há algo mais em andamento. O Dia está chegando. Sua Luz começa a brilhar. É a primeira vela no Advento. A Estrela não demora

a chegar. Na Sua luz vemos a Luz. Nela estamos preparados. Aquele que

veio em humildade, que vem em Palavra e Sacramento, virá em glória -

mara,na qa,, “Vem, Nosso Senhor!” (16.22).

SUGESTÃO DE TEMA

“Preparados para os adventos do Rei”

Acir Raymann São Leopoldo/ RS acir.raymann@gmail.com

SEGUNDO DOMINGO NO ADVENTO

4 de dezembro de 2011

Salmo 85; Isaías 40.1-11; 2 Pedro 3.8-14; Marcos 1.1-8

NOTA INTRODUTÓRIA

A segunda carta de Pedro tem como um dos seus alvos mais específi- cos ensinar seus leitores a lidar com os falsos ensinos e com os que ficam indiferentes, e até zombam da palavra de Deus (2 Pe 2.1; 3.3-4). Uma palavra importante dessa epístola é conhecimento. O antídoto para ensinos falsos e profetas infiéis é aperfeiçoar-se na habilidade em discernir as coisas (2 Pe 1.3, 5, 8; 3.1, 18). Aquela situação particular exigia uma ênfase tríplice no ensino apostólico de Pedro. 1º, estimular o crescimento cristão a partir da capacitação dada por Deus (capítulo 1); 2º, combater veementemente falsos ensinos e falsos profetas (capítulo 2) e 3º, encorajar e animar à vigilância em função do iminente retorno do Senhor Jesus (capítulo 3).

2 PEDRO 3.8-14

Ao tocar no assunto da promessa da volta de Jesus, Pedro lembra o povo de Deus que aqueles que estão fazendo pouco caso ou vista grossa desse assunto esquecem que esse mesmo mundo já havia sido destruído pelo dilúvio e que esses mesmos céus e terra agora estão reservados para o fogo. Nas entrelinhas é possível perceber que a armadilha que os descren- tes estavam tentando armar para os cristãos era a aparente “demora” de Deus em cumprir suas promessas de retorno e destruição. Por isso as palavras de 2ª Pedro 3.8-14.

O TEXTO

Vv.8-9: Pedro possivelmente faz referência direta ao Salmo 90.4. Lá

o salmista contrasta a eternidade de Deus com o curto espaço de tempo

de vida do ser humano. Aqui, o apóstolo quer mostrar o contraste entre

a eternidade e a paciência de Deus com a impaciência humana. O que pode parecer demorado às pessoas deveria ser visto como uma manifestação da paciência de Deus, dando mais tempo para que haja arrependimento de todos. O primeiro componente do arrependimento é

segundo domIngo no adVento

olhar para si, reconhecer que somos pecadores e depois voltar nossos olhos para Jesus Cristo, nosso Senhor. O segundo elemento do arrependimento

é deixar de olhar para si como fonte de segurança e autocontemplação e

olhar confiadamente para o Deus misericordioso revelado através de Jesus

Cristo. O grande desejo de Deus é que nossas esperanças e expectativas de futuro, nesta vida e para a eternidade, sejam colocadas nas mãos bondosas de Deus. V.10: A promessa de Deus é essa: um dia Jesus volta. Só que a na- tureza cronológica dessa volta é de completa imprevisibilidade. Não dá para marcar no relógio ou numa agenda. Outra coisa que ele deixa claro

é que a partir do seu retorno não haverá mais nada a fazer. Todo dia é o dia do Senhor. Porém, sua promessa é que haverá o último dia do Senhor. Nesse dia ele mostrará todo o seu poder, sua dis- posição para salvar e sua autoridade para julgar. Nesta “passagem final” de Deus por esta terra o universo todo entrará em colapso, céus e terra se desintegrarão. A mente humana não tem condições de imaginar esse dia, senão esperá-lo em atitude de contrição e fé. V.11: A vida santificada é uma resposta do pecador justificado pela fé em Cristo Jesus. Não há como separar este pedido de Pedro de tantas outras exortações à santidade nas outras epístolas. É preciso lembrar que esses pedidos são endereçados em primeiro

lugar a cristãos batizados e regenerados pelo Espírito Santo. É muito curta a nossa visão em perceber a dimensão real da participação humana no processo de santificação. Porém, uma vez que o Espírito e Cristo habitam no cristão, não é difícil compreender que, em última análise, Deus faz de fato tudo em nossa vida, inclusive a vida santificada. Todavia, é importante diferenciar a forma como tratamos desse tópico. Ou falamos em vida santificada como fruto da fé e sinal de gratidão por tudo o que Deus nos concede; ou falamos em santificação como obras que mereçam alguma espécie de recompensa. É óbvio que a motivação à vida santificada não pode ser carregada com nenhum tipo de compulsão legal. Assim, o apelo a seguir a vontade de Deus em nossas vidas é fruto da gratidão e isto por sua vez eliminará qualquer ideia de que “nos tornamos bons fazendo coisas boas”. Nem fará com que se reivindique alguma honra especial ou recompensa. Vida santificada com espírito de gratidão trans- ferirá a glória somente a Deus. Por isso que Lutero considera a gratidão como a mais excelente virtude e melhor forma de servir a Deus, pois ela

é uma obra exclusiva do cristão, ninguém outro a consegue praticar. V.12: “Venha o teu reino” é uma petição ensinada por Jesus e orada pelos cristãos de todos os tempos. Ela não deixa de ser um pedido para que Jesus volte logo. Por esse versículo, a vida piedosa também poderia “apressar” a chegada do dia do Senhor. Porém, isto ocorrerá desde que

Igreja Luterana

esta vida promova o arrependimento de incrédulos, preparando assim o caminho do Senhor e indo ao encontro do que de fato Deus quer, a saber, que todos cheguem ao arrependimento. É possível até que essa alusão de Pedro esteja relacionada à crença judaica de que o pecado das pessoas impede a aparição do Messias, mas se bem entendido, pode ensinar os cristãos algo sobre viver piedosamente. Só que essa interpretação conflita um pouco com a visão paulina, es- pecialmente em 2 Ts 2.1-7, quando o apóstolo fala que a vinda de Jesus “não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia e seja revelado o homem da iniquidade, o filho da perdição (v.3). Vv.13,14: A promessa para os que creem é de um novo lar. Novos céus e nova terra. É uma frase bonita e que está reafirmada na revelação feita ao apóstolo João em Apocalipse 21.1. No novo que nos espera tudo será diferente, a começar pela vida para sempre e sem pecado algum. Enquanto esperamos por isso, Pedro encoraja seus leitores a se empenhar pela paz, pureza e justiça. Estas são dádivas de Deus, operadas e concedidas pelo Espírito através do ouvir do Evangelho, da recepção dos sacramentos e que é vivida no dia a dia. Recomendação parecida o apóstolo Paulo faz aos Romanos (Rm 12.9-21). Ser encontrado na paz é mais do que remover pensamentos e atos hostis, mas é um estado em que Deus confere a paz através da fé em Jesus Cristo.

REFLEXÃO HOMILÉTICA

Deus é um Deus que faz promessas. Ao longo das Escrituras ele não só promete como mantém e honra o cumprimento delas. Ele garante deixar aberta a porta da salvação (Ap 3.8). Ele promete nos proteger e livrar do mal (Ap 3.9-10). Ele também assegura que um dia irá voltar e que nenhum dos que creem em Jesus serão afastados da presença dEle (Ap 3.11-12a). Quando se sabe das promessas de Deus, não se faria de tudo para obtê-las? Um dos maiores desejos do ser humano é viver e viver bem. Se possível para sempre. O tema morte é seguramente um assunto que nem gostamos de falar, ainda que seja uma realidade tão presente e real. O mesmo quem sabe poderia ser dito em relação à volta do Senhor Jesus. Quando se olha para as promessas de Deus, especialmente àquelas que nos prometem vida eterna, um novo céu e um novo lar, é difícil acreditar que haja tantas pessoas que ainda não creem nas promessas de Jesus. É sinistro. Não obstante, a maioria das pessoas procurarem por essa vida e muita gente o fazem fora do cristianismo, quem sabe seja essa uma prova muito convincente que o mal existe. Que o diabo cega as pessoas com a incredulidade e o ser humano definitivamente não consegue por

segundo domIngo no adVento

si só mover uma palha para crer nas promessas que Deus faz. Crer em Jesus e na vida eterna é um dom. Não confiar na promessa da vida eterna, algo que o ser humano tanto sonha, é prova de que estamos mortos em nossos pecados e cegados pelo mal. Porém Deus não desiste de nos relembrar sempre de novo as suas promessas. Hoje ele está nos certificando que além de tudo é paciencio- so, que deseja que todos cheguem ao arrependimento [à contrição e à confiança], antes de implodir o mundo todo e apresentar um novo céu e uma nova terra, maquete desenhada no livro de Apocalipse e nos quais habita justiça e que já podemos observar com os olhos da fé.

Anselmo Ernesto Graff São Leopoldo/RS agraff@uol.com.br

TERCEIRO DOMINGO NO ADVENTO

11 de dezembro de 2011

Salmo 126; Isaías 61.1-4, 8-11; 1 Tessalonicenses 5.16-24; João 1.6-8, 19-28

Advento nos remete à teologia do já e ainda não. Estamos, diaria- mente, lidando com as coisas últimas e penúltimas da teologia. É nesta

perspectiva que direciono este estudo: com vistas à volta de Cristo, como lidamos com nossa vida enquanto o grande dia não chega? As leituras do dia nos ajudam a caracterizar a espera por Cristo, des- crevendo as coisas penúltimas que marcam os cristãos. Apropriadamente escolhida, a passagem do apóstolo Paulo agora analisada pode nos dar um norte para vivermos a expectativa da volta de Cristo. Vejamos as orientações de Paulo para nos preparar para o encontro final. “Regozijar-se” ou “alegrar-se” é um fruto do Espírito (Gálatas 5.22-23). Como Paulo afirma em Colossenses 1.24, há boas razões para manifestar um “estado de alegria ou de bem-estar”. A espera é proporcionada por uma certeza de acontecimentos e acompanhada por este estado, mesmo tendo todos os motivos contrários para se alegrar. Afinal, os tessalonicenses, assim como Paulo, também estavam sendo perseguidos, o que poderia levar a outra avaliação da realidade. Por isso o fruto do Espírito, uma alegria que não se encontra em meio à dor deste mundo e muito menos

é fruto da teologia da glória. A alegria descrita é em termos da teologia da cruz. Assim como, depois de uma longa estiagem, brotam em meio à secura plantas que novamente crescem e dão frutos. A outra marca que acompanha aqueles que aguardam a volta de Cristo

é a oração. Lutero sugere que o “Pai Nosso é prescrito para nós para que

vejamos e ponderemos a necessidade que nos há de impelir e obrigar a que oremos incessantemente” (Catecismo Maior III, 24). Também a Fórmula de Concórdia nos ajuda entender o que Paulo está sugerindo: “Devemos pedir sem cessar pelo mesmo Espírito e por sua graça, por intermédio de exercício diário de ler e praticar a palavra de Deus, ele preserve em nós a fé e seus dons celestes, nos fortaleça de dia a dia e nos conserve até o fim” (Declaração Sólida II, 16). “Dar graça” ou literalmente “expressar gratidão pelos benefícios ou bênçãos recebidas” também acompanha os crentes nos tempos penúlti- mos. Em outras palavras, é perceber o que se ganhou e cuidar do que se ganhou. Como membros do corpo de Cristo, os cristãos são convidados a

terCeIro domIngo no adVento

“cumprir” com suas responsabilidades dentro desse corpo. Essa respon- sabilidade é gratidão, é benécia, é responsabilidade, é vocação.

Essas três marcas ou características acompanham aqueles que aguar- dam pela volta de Cristo. “Alegria”, “oração” e “gratidão”, essas três, são a resposta da atuação do Espírito Santo. Quando Paulo sugere “não apagar

o Espírito” ele pode estar refletindo a moralidade. A ética e a vida cristã

fazem parte das coisas penúltimas. Nenhum ser humano constrói uma nova

realidade pelas ações e intenções éticas. Pelo contrário, a fé existencial e confessada cria em nós uma novidade de vida responsável na vocação. Apatia e imoralidade, palavras bem presentes nesta carta, não fazem parte da vocação cristã e elas podem “apagar o Espírito”. No versículo 20 Paulo usa a palavra “profecia” para marcar bem a quem os tessalonicenses sempre de novo precisavam dar ouvidos. Profetas, tanto do Antigo como do Novo Testamento, apresentam a palavra de Deus para situações específicas e sempre de novo apontam para as últimas coisas. A esses precisamos ouvir em vez de valorizar os dons e habilidades, como aconteceu com alguns de Tessalônica. Em 1 Coríntios 14.2, Paulo nos mostra o que é mais urgente: ouvir a profecia: “Pois quem fala em outra língua não fala a homens, senão a Deus, visto que ninguém o entende,

e em espírito fala mistérios. Mas o que profetiza fala aos homens, edifi- cando, exortando e consolando”. Esta profecia é testada diante do mal. “Julgar” e reter o que é bom e “abster-se” do mal. Como afirmam nossas Confissões: “Somente a Escri- tura Sagrada é o único juiz, regra e norma de acordo com que todas as doutrinas devem e têm de ser discernidas e julgadas quanto a serem boas ou más, corretas ou incorretas” (FC Epítome. Prefácio 7). A “santidade completa” é resultado da obra doadora e pacificadora de Deus através do Espírito Santo. Ela é aplicada ou dada ao ser humano como um todo [Paulo usa a expressão “espírito, alma e corpo” para des- crever o ser humano na sua totalidade] e ela perdurará até a “vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”, quando não mais será necessária a atuação do Espírito Santo (ver Mateus 25.1-13; 1 Tessalonicenses 4.13-18). A garantia de tudo isso não é de Paulo nem nossa, mas é “daquele que nos chama, daquele que nos elegeu e que faz as coisas acontecerem” (João 6.44). Uma sugestão homilética é explorar as três marcas que estão pre- sentes enquanto aguardamos a volta de Cristo e como elas são frutos ou consequências da atuação do Espírito Santo que nos leva até o encontro com Cristo, no último dia.

Clóvis Jair Prunzel São Leopoldo/RS cjprunzel@gmail.com

QUARTO DOMINGO NO ADVENTO

18 de dezembro de 2011

Salmo 89.1-5 (19-29); 2 Samuel 7.1-11, 16; Romanos 16.25-27; Lucas 1.26-38

CONTEXTO

As leituras bíblicas que estabelecem o tema para o dia têm como elemento comum o papel do rei Davi. A base está na leitura do Antigo Testamento (2 Sm 7.1-11,16). Davi manifesta sua vontade de erigir um templo para Deus. Mas ao invés de ver sua iniciativa reconhecida, recebe da parte de Deus, por boca do profeta Natã, a promessa de que Deus é que irá erigir a casa de Davi e que esta casa e o seu reino serão para sem- pre. O Salmo do dia (Sl 89.1-5, 19-29) faz referência direta à promessa encontrada em 2 Samuel 7. Deus fez uma aliança com Davi e estabelecerá sua posteridade e firmará o seu trono (vv. 3,4, cf. v. 29). O Salmo deixa explícito que na base destas ações de Deus para com Davi e sua casa está à fidelidade de Deus. O evangelho do dia faz menção à promessa de duas maneiras: na referência feita pelo narrador de que José era “da casa de Davi” (Lc 1.27) e nas palavras do anjo Gabriel a Maria, referindo-se ao Menino: “Deus, o Senhor, lhe dará o trono de Davi, seu pai” (v. 32). O texto da epístola do dia conclui a carta de Paulo aos Romanos com um tom doxológico. Alguns documentos (variantes) colocam este mes- mo texto ao final do capítulo 14 ou do capítulo 15. Mas a maioria e os melhores documentos têm este texto ao final da Epístola. De fato, é um final muito próprio para este que é um dos mais importantes escritos do Novo Testamento. Alguns temas da própria Epístola retomam agora numa expressão de louvor às realizações de Deus – o poder de Deus para con- firmar, a ação objetiva do evangelho, a manifestação do projeto de Deus nas Escrituras, etc.

DESTAQUES DO TEXTO

Paulo estabelece como motivo básico para o louvor a Deus o fato de que ele é “poderoso para vos confirmar”. A nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH) explicita o que o uso do verbo sthri,zw denota: “Ele pode conservar vocês firmes na fé”. Esta ação de Deus é feita por intermédio de pessoas que ele envia (cf. Lc 22.32; At 18.23; 1 Ts 3.2), mas é ele o autor da conservação na fé e, desta forma, da proteção aos seus filhos contra as ameaças à salvação (cf. 2 Ts 3.3).

quarto domIngo no adVento

A ação de Deus em sustentar seus filhos acontece, conforme expressa

Paulo, “conforme o meu evangelho e a pregação (proclamação) de Jesus

Cristo”. A segunda expressão poderia ser lida como um genitivo subjetivo (possessivo) – a proclamação que é de (pertence a) Jesus Cristo (= Jesus

é

aquele que proclama); ou como um genitivo objetivo – a proclamação

a

respeito de Jesus Cristo (ou seja, aquela proclamação em que Jesus é

o

objeto, o tema, o assunto). As duas alternativas são possíveis e nada

impede que as duas idéias sejam consideradas, ainda que a segunda pareça ser mais provável. Levando em conta o genitivo objetivo, as duas expressões usadas por Paulo no texto são sinônimas: o “evangelho” é a “pregação de Jesus Cristo”. A NTLH deixa isto explícito ao traduzir: “de acordo com o evangelho que eu anuncio, isto é, a mensagem a respeito de Jesus Cristo.” Vale lembrar que em Paulo (e isto vale para o Novo Testamento como um todo) “evangelho” tem um sentido dinâmico – refere-se à proclamação,

ao anúncio concreto da ação salvífica de Deus. Assim, por exemplo, Paulo pode referir-se ao “início do evangelho” (Fp 4.15) como sendo o começo da sua ação de proclamar a mensagem de Cristo (NTLH - “nos primeiros tempos em que anunciei o evangelho”). Em Paulo – e assim sempre deve ser para a proclamação cristã – o evangelho, a mensagem a respeito de Jesus, é o que há de mais fundamental. Ele desvenda a vontade eterna de Deus, não apenas apresentando-a como uma mensagem entre outras, mas sendo o instrumento dinâmico e fundamental da ação de Deus – Deus salva por meio do evangelho (cf. Rm 1.16; 2 Tm 1.10).

A ação de Deus em sustentar seus filhos, tendo em vista a salvação,

está dentro da “revelação do mistério guardado em silêncio nos tempos eternos”. O próprio evangelho (como boa nova da salvação em Cristo) é um “mistério”, assim como particularmente a ação de Deus de salvar gentios

e judeus pelo mesmo meio, a obra redentora de Cristo (cf. Ef 3.4-6; Cl

1.26,27; 2.2,3). Ele precisa ser revelado. Ninguém chega a ele por meio de uma reflexão própria ou sabedoria humana (cf. Mt 11.25). Conhecer

a Deus, sua obra, a salvação, é dádiva, pois é revelação sua para os que

nada conheciam e nem tem como descobrir com seus próprios recursos intelectuais ou morais. A ação de Deus em manifestar seu plano de salvação, por meio do evangelho, que desvenda o mistério e proclama Cristo, busca a “obediência da fé, entre todas as nações”. A expressão “para a obediência por fé” –

u`pakoh. pi,stewj - (também usada em Rm 1.5) pode significar “obedecer

à mensagem da fé” ou ainda “obediência que brota da fé”. Uma expressão

semelhante (usando o verbo u`pakou,w) é encontrada em At 6.7, onde Lucas se refere ao crescimento do anúncio da palavra de Deus entre os judeus, inclusive com sacerdotes vindo a crer – Lucas expressa isto dizendo que

Igreja Luterana

até mesmo alguns dentre os sacerdotes “obedeciam à fé”. Desta forma, não se deveria considerar a “obediência” aqui como uma expressão de submissão à lei, mas trata-se da aceitação daquilo que é dado na fé, ou seja, a graça de Deus. A ação de Deus em desvendar o mistério oculto através da proclamação do evangelho traz como fruto levar as pessoas a reconhecerem na sua graça em Cristo o único caminho de redenção. No v. 27 Paulo retoma o que iniciara no v. 25, com uma expressão no dativo, mostrando seu propósito de reconhecer a glória de Deus em suas ações de sustentação do seu povo e revelação do evangelho a todos os povos: “Ao Deus único e sábio seja dada glória”. É significativo que numa Epístola conhecida pelo seu conteúdo doutrinário, em que se destaca o ensino sobre a justificação pela fé, conclua com uma nota doxológica, cúl- tica! No entanto, isso não foge do que se poderia esperar do apóstolo. Em Paulo solidez doutrinária e espírito de adoração andam lado a lado. Para ele não existe uma distinção entre o que é “teórico” e o que é “prático” na vida dos cristãos e da Igreja. Firmeza no ensino puro da palavra de Deus e atitude de glorificação ao mesmo Deus estão dentro da fidelidade daquele que reconhece em Deus o doador de todas as boas dádivas.

SUGESTÃO DE USO HOMILÉTICO

Considerando-se o contexto litúrgico, especialmente a partir da pro- messa de Deus a Davi em 2 Sm 7, chama a atenção o fato de que Deus prefere servir a ser servido! Davi quer lhe construir uma casa, mas é Deus que estabelecerá a casa de Davi e a abençoará. Por meio desta casa (descendência) abençoará todos os povos, na vinda do “filho de Davi”, Jesus Cristo. A fidelidade de Deus em garantir a realização de sua promessa também é um elemento importante a ser considerado para a mensagem deste dia, levando em conta a proximidade do Natal, com o início da concretização das promessas de salvação. No texto da Epístola, Deus é glorificado por aquilo que ele tem realizado – na conservação dos seus filhos na fé, no desvendamento de seu propó- sito eterno em Cristo, através da palavra profética e pela manifestação do evangelho a todas as nações. A celebração conduzida por Paulo neste final da Epístola é uma antecipação do reconhecimento que a Igreja triunfante fará na eternidade. Ela tem em vista a manifestação da graça de Deus no tempo, através do evangelho de Cristo. São muito próprias as palavras com as quais Martin Franzmann conclui seu comentário à Carta aos Roma- nos, referindo-se a este texto: “os romanos não precisam temer; sejam quais forem as tarefas que empreenderem, não trabalharão inutilmente. Precisam apenas prostrar-se em adoração perante o Deus cuja sabedoria dirige toda história ao alvo que ele lhe destinou, à glória de sua graça. A

quarto domIngo no adVento

fé percebe esse alvo e essa glória mesmo agora e canta louvores a Deus por meio daquele em quem a glória de Deus se manifestou, por meio de Jesus Cristo.” (Carta aos Romanos, Concórdia Editora, p.231). Uma das possibilidades de organizar o material do sermão seria com um tema exortativo, apontando para as razões dadas por Paulo para o louvor a Deus:

Deus seja louvado para sempre, também entre nós:

- Pois age com poder para nos conservar firmes na fé, operando por meio da proclamação sempre eficaz do evangelho de Jesus;

- Pois manifestou o que nenhuma pessoa poderia descobrir por si só, e o fez a todos os povos, pelo anúncio de sua palavra.

- Pois agindo desta forma conosco e com os povos Deus mais uma

vez expressa sua fidelidade, a mesma revelada a Davi e concretizada no

“filho de Davi”, nascido em Belém.

Gerson L. Linden São Leopoldo/RS gerson.linden@gmail.com

DIA DE NATAL

25 de dezembro de 2011

Salmo 2; Isaías 52.7-10; Hebreus 1.1-6 (7-12); João 1.1-14 (15-18)

JESUS VEIO PARA NOS PURIFICAR

CONTEXTO

1. É Natal de Jesus. O maior evento da história da igreja cristã. Dia

do maior de todos os milagres: Jesus, a segunda pessoa do Deus Triúno, deixa os céus, vem à terra, torna-se criança e nasce pobre em Belém, com um único grande objetivo – purificar os pecadores, salvar os pecadores, dar a vida eterna aos pecadores. 2. A nossa perícope não fala especificamente sobre a história do Natal de Jesus. É um documento teológico que fala sobre a pessoa de Cristo, sua obra redentora e seu retorno aos céus. Mas os cristãos, que vão ao culto, querem ouvir novamente a história do milagre do Natal de Jesus. Se não houver algumas profecias do AT e se não for repetido o cenário do nascimento de Jesus, conforme a história de Lucas – se isto não ocorrer, os

ouvintes voltarão frustrados do culto. Por isso, importa, antes de analisar Hebreus 1.1-6, lembrar alguns momentos específicos referentes ao Natal de Jesus. Escolher algumas das seguintes sugestões:

- Is 9.2 : “O povo

- Is 9.6 : “Um menino

- Is 6.14: “A virgem

- Gl 4.4,5: “Plenitude do tempo

- Lc 2.7-20: “Deu à luz

viu

grande luz”

seu nome será”

Emanuel”

hoje vos nasceu

enviou seu Filho”.

voltaram”

3. Por melhor que possa ser o sermão sobre a perícope, se o pregador

não contar a história do milagre do Natal de Jesus, os ouvintes voltam para seus lares insatisfeitos e decepcionados. Há estudos sobre esta colocação. Nós também somos assim.

TEXTO

1. O autor de Hebreus apresenta um profundo estudo teológico sobre

a Cristologia da segunda pessoa da Santíssima Trindade. Mas, apesar da importância dos muitos atributos e qualificações do Salvador, dois verbe- tes merecem destaque especial: Filho (Jesus) e purificação. É o sumário da mensagem da perícope. Vejamos alguns detalhes que enriquecem a mensagem:

dIa de nataL

2. Deus falou: muitas vezes, de muitas maneiras – Deus não silen-

cia:

Falou pessoalmente

Falou através de anjos

Falou através de sonhos

Falou através de visões

Falou através dos profetas (há textos bíblicos).

о Fala hoje na Sagrada Escritura

о Fala hoje através dos pregadores cristãos.

3. Últimos tempos falou por meio do Filho:

- O Filho é Jesus Cristo

- Sobre “últimos tempos” há duas interpretações:

о Nos dias em que Jesus viveu na terra

о Com Jesus iniciaram os tempos escatológicos, i.e. a última fala até o fim do mundo;

о Esta segunda parece ser a mais correta.

4. Seu Filho:

É Jesus Cristo, a segunda pessoa da Trindade

Filho de Deus

Herdeiro de todas as coisas

Através de quem Deus criou o universo

Sustenta todas as coisas do mundo

É esplendor da glória de Deus Pai

É

purificador dos nossos pecados

É maior que os anjos

Vitorioso, é exaltado à direita de Deus

“Toda autoridade me foi dada no céu e na terra” – Mt 28.18

Conferir Fp 2.5-11.

Curiosidade: Embora apresente a clara doutrina (Cristológica), Hebreus

não menciona o nome Jesus nem salvação, usa outro linguajar. Mas a verdade bíblica está clara nas palavras: Filho e purificação do pecado.

5. Purificação dos pecados:

Aqui está expresso o resumo de toda a obra redentora de Jesus Cristo.

• palavra traduzida por purificação significa:

A

о

о

о

о

о

Tornar puro e santo o que é impuro e pecador

Lavar o que está sujo

Limpar a sujeira

Declarar limpo e com saúde espiritual

“Tirar a roupa imunda e colocar roupa nova e limpa”

• produto que Jesus usou para nos purificar é, especialmente,

seu sangue. Só o sangue de Jesus lava, limpa e purifica: 1

O

o

Igreja Luterana

Jo 1.7: “E o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo o pecado”.

Lutero, explicação 2º Art. Credo Cristão: “Creio que Jesus Cris-

com seu santo e precioso

to

me salvou de todos os pecados

sangue ”

6. Os pecados

São a impureza espiritual

São a sujeira que condena e mata

Rm 5.12: “Por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte”.

Rm 6.23: “Porque o salário do pecado é a morte

7. Natal de Jesus - Paulo: “Quem me livrará do corpo desta morte?”

- Hebreus: “O Filho nos purificará de todos os pecados”

- Mt 1.21: “Nome de Jesus porque ele salvará o seu povo dos pe- cados deles”

hoje vos nasceu o Salvador, que é

- Lc 2.10,11: “Não temais Cristo, o Senhor.

- Jo 3.16: “Deus

tenha a vida eter-

deu seu Filho

nele crê

na”.

DISPOSIÇÃO

Baseados no texto e contexto do Natal, sugerimos a seguinte dispo- sição:

- Ressaltar e chamar a atenção pelo grande evento do dia: Natal do Salvador Jesus.

- Próprio declamar as conhecidas palavras de Lc 2.10-12

- As palavras: “hoje vos nasceu o Salvador” leva ao tema da Epístola

para o culto de hoje:

JESUS VEIO PARA NOS PURIFICAR

Para justificar este tema, três razões principais:

1. Porque só Jesus tem o poder de nos purificar 1.1 A igreja cristã celebra hoje o maior milagre do mundo e da cris- tandade: o nascimento de Jesus Cristo. Jesus veio, nasceu, foi “introdu- zido”.

dIa de nataL

1.2 Jesus é o Filho de Deus. É a segunda pessoa do Deus Triuno, é o

“Verbo que se fez carne e habitou entre nós”.

-

Jesus é maior que os profetas e os anjos que anunciaram seu Natal. Jesus veio para salvar.

1.3

Só Jesus é Deus, é eterno, é Criador, é Salvador,

-

È o Purificador

-

Jesus é Deus Forte, Príncipe da Paz, o Bom Pastor

-

É o Reconciliador

-

Só o seu sangue pode tirar as impurezas do pecado

-

E o processo de purificação de Cristo começa com o Menino Jesus, continua no Calvário e culmina com sua ressurreição e ascensão.

1.4

Sem Natal de Jesus

-

não existe purificação dos nossos pecados

-

não existe salvação e libertação da morte

-

Feliz Natal só com Jesus, o Purificador.

2. Porque a nossa impureza é muito grande 2.1Ninguém pode salvar-se, não pode purificar-se, não pode limpar-

se, não pode comprar ou pagar o preço de sua redenção. Importa ler e comentar o Sl 49.7.

2.2 O pecado tornou impuro e causou a doença, envelhecimento, morte

de todo o universo, de todas as criaturas.

2.3 A incredulidade, a rejeição de Jesus, o inferno, a condenação e

morte eterna são causadas pelo pecado.

2.4 A salvação ou purificação espiritual não pode ser removida “com

ouro ou prata”, mas somente “o sangue de Cristo nos purifica de todo o pecado”.

2.5 Por isso o povo de Deus olha para o Jesus Purificador e lembra as

mas eu os lavarei e

promessas de Deus em Is 1.18: “Os seus pecados

vocês ficarão brancos como a neve, brancos como a lã” – purificados.

2.6 Natal de Jesus: “Hoje vos nasceu o Salvador”.

3. Porque sem a purificação é impossível entrar na vida eterna

3.1 O cap. 21 de Apocalipse fala do novo céu e nova terra e das be-

lezas e felicidades que há na vida eterna. Mas também em 21.8 o Cristo glorificado relaciona os que não vão entrar na vida eterna, entre os quais

a

estão os impuros, os pecadores: “

parte que lhes cabe será no lago que arde ”

3.2 Paulo reforça esta impossibilidade de um impuro entrar na vida

aos incrédulos

aos impuros

eterna: “

nenhum impuro

tem herança no reino de Cristo e de Deus”

(Ef 5.5)

Igreja Luterana

3.3 Em 1 Co 5.9,10, o apóstolo repete esta verdade: “Não vos enga-

neis: nem impuro

herdarão o reino de Deus”

3.4 Por isso: “Fugi da impureza” (1 Co 6.18); “Vinde a mim todos

e eu vos aliviarei” ( Mt 11.28); “Por isso quem crê no Filho tem a vida

eterna” (Jo 3.36)

CONCLUSÃO

1.

Natal é o milagre em que Jesus veio salvar o mundo

2.

Jesus veio para nos purificar de todos os pecados

3.

Só Jesus tem este poder de nos purificar

4.

Como nossa impureza é muito grande, só o sangue de Jesus nos

pode lavar e limpar

5. É condição de Deus: só os purificados por Cristo poderão viver na

felicidade da vida eterna

6. Por isso: “Glória a Deus”! Feliz Natal!

Leopoldo Heimann São Leopoldo/RS pastorleopoldoheimann@yahoo.com.br

VÉSPERA DE ANO NOVO

31 de dezembro de 2011

Salmo 90.1-12; Isaías 30.(8-14)15-17; Romanos 8.31b-39; Lucas 12.35-40

CONTEXTO

O texto de Romanos 8.31-39 precisa ser reconhecido no seu contexto, a

fim de não perder o ponto fulcral que é a doutrina da eleição da graça que fundamenta a perícope. No entanto, antes de desenvolver o ensinamento sobre a eleição da graça, o apóstolo expõe os artigos fundamentais da doutrina cristã: o pecado, a justificação e a santificação. Desta forma, a doutrina da eleição da graça, tal como é ensinada nos textos anteriores à nossa perícope bem como outras passagens (Ef 1.3ss.; 2. Ts 2.13ss.; 2Tm 1. 9; 1 Pe 1.1,2), está plena de conforto para os cristãos e serve de fortalecimento para a vida cotidiana.

êNFASES E ANÁLISE DOS TEXTOS

Salmo 90.1-12

O título apresenta Moisés como autor, sendo que os versículos 7-12

demonstram um fundo histórico definido: os últimos meses da caminha- da do povo de Israel pelo deserto, quando a geração adulta que saíra do Egito estava agora rapidamente desaparecendo. Por isso, os primeiros versículos (1-6) mostram o Criador como sendo eterno e a vida terrena efêmera. O primeiro versículo, como Dt 33.27, mostra que o povo de Deus não tinha lugar de habitação desde os dias de Abraão e que o Senhor sempre tinha sido, e continuava sendo, o lugar de descanso e refúgio

para seu povo (Sl 91.9). Nos versículos seguintes (7-12) as tristezas da vida são constrastadas com a santidade de Deus, único onde é possível encontrar a serenidade à alma e segurança de vida. Quem conhece ? (v.11) destaca a importância do ser humano de buscar o arrependimen- to e voltar os olhos e o coração para seguir o Senhor, o que demonstra corações sábios (v.12) Isaías 30.15-17

O texto está inserido dentro de um contexto onde o ponto eram as

negociações com o Egito, a fim de estabelecerem uma aliança. Isaías chama à atenção da loucura de tal objetivo, por isso dirige a mensagem ao povo, chamado de filhos rebeldes. Estes haviam demonstrado falta

Igreja Luterana

de confiança no Senhor e agora procuravam fazer aliança com o Egito. Mesmo alertados contra tal prática pelo profeta de Deus, mantinham-se persistentes em seus intuitos políticos, o que caracterizava uma rebelião contra o Senhor. Mesmo Deus advertindo o povo e mostrando o caminho certo de libertação, nada é obedecido e as admoestações se tornam vãs (v. 15) e resposta do povo a Deus: “não” (v.16). Por isso os próprios cavalos adquiridos no Egito serão usados para fugir em cavalgada precipitada e desesperadora. Romanos 8.31b-39 Este texto demonstra a importância da fé a partir da grandiosidade do amor de Deus no propósito da salvação em Jesus Cristo. Isso o escritor

faz incentivando os seus leitores a tirarem as conclusões a partir de suas perguntas:

V. 31: Poderia haver maior e vigoroso incentivo à fé do que a certeza

da presença do Senhor Deus ao lado dos seus? Não há nenhum mais po-

deroso do que o Senhor Todo-poderoso, Criador dos céus e da terra. Não há, absolutamente, nenhum outro que pode fazer frente a Deus.

V. 32: Pois este Deus não poupou a seu próprio filho, repetindo as pa-

lavras encontradas em Gn 22.12. Na interpretação judaica, o episódio com Isaque é tratado como exemplo clássico da eficácia redentora do martírio. Assim, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?, nos lembra a promessa de Mt 6.33: “Buscai pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas”. Vv. 33 e 34: Estes dois versículos apresentam uma linguagem foren- se que nos remete ao “perto está o que me justifica; quem contenderá comigo?” (Is 50.8ss.). Não há ninguém que possa acusar os eleitos de Deus, nem mesmo Satanás. V.34: as palavras o qual está à direita de Deus lembra o Salmo 110.1: “Disse o SENHOR ao meu senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés”. Estas palavras, cuja interpretação messiânica era axiomática entre os judeus dos tempos de Cristo, foram aplicadas a Jesus desde os primeiros dias da igreja, e demonstram o seu lugar de supremacia sobre o univer- so. Assim, e também intercede por nós, nos remete ao quarto Cântico do Servo (Is 52.13-53.12), onde diz, no final, que “pelos transgressores intercedeu” (Is 53.12).

V. 35: Quem nos separará do amor de Cristo? Através da fé o cristão

está unido inseparavelmente com Cristo por causa do seu amor. Não há nada que possa romper a ligação de sua comunhão com Cristo ou de tirar a fé. Para exemplificar, o apóstolo nomeia algumas influências hostis em- pregadas por Satanás que, porventura, poderiam prejudicar esta ligação:

tribulação (amargura, tormento, contrariedade, adversidade); angústia (aflição, ansiedade, agonia); perseguição (tratamento cruel com sofri-

VésPera de ano noVo

mento físico, tratamento injusto, maledicência, desonra); fome (falta de alimento, penúria, miséria, falta do necessário para sobrevivência); nudez (falta de vestuário, falta de ornatos, privação, simplicidade, singeleza); perigo (estado que prenuncia um mal para alguém, risco, situação grave); e, espada (o auge da perseguição, com a morte como prenúncio). V. 36: Num parêntesis o apóstolo mostra que o carregar de todas estas dificuldades e aflições está profetizado nas Escrituras, quando se refere ao Sl 44. 22, onde a igreja do Antigo Testamento lamenta que muitos membros precisam sofrer o martírio por causa de sua posição inabalável ao lado de Deus, que são considerados e tratados como ovelhas para o matadouro. V. 37: A partir de πασιν υπερνικωµεν (somos super vencedores, mais do que vencedores) o filho de Deus pode ter a certeza de que, ape- sar de todas as aflições nomeadas no versículo anterior, ele é mais do que vencedor (“super vencedor”) por intermédio do Salvador, que está à direita de Deus. Vv. 38 e 39: Através da explanação apresentada no texto, o apóstolo leva o leitor à conclusão do capítulo, onde qualquer poder existente no universo, seja ele bom ou mau, não tem capacidade e força suficiente para separar os filhos de Deus do amor do Pai que lhes foi assegurado em Cristo. Lucas 12.35-40 Neste texto do Evangelho Jesus salienta a importância da correta utilização dos bens para esperar a segunda vinda do Filho do homem, a qual é certa. Nesta espera, é sempre bom lembrar que as coisas terrenas são passageiras e os seguidores de Jesus devem estar alertas e cientes de que, nesta espera vigilante, crises acontecerão e deverão ser enfrentadas com uma fé fortalecida e alicerçada na Palavra de Deus. Por isso, Jesus diz (vv.35-36) para estarem os vossos lombos cingidos (υµων - demonstra uma ênfase dada por Cristo), i.é, cada discípulo precisa estar pessoal- mente pronto e alerta. Os mantos longos dos orientais eram dobrados e amarrados ao redor da cintura, assim quando o senhor chamar os seus servos estes estarão prontos para qualquer serviço que ele desejar. Por isso, o senhor (κυριοσ) que encontra seus servos em tal prontidão ficará tão satisfeito com os seus servos que inverterá os papéis, dando lugar aos servos à mesa e ele mesmo, o senhor, os servirá (v.37). O estar preparado e vigilante é destacado como importante em todo e qualquer momento, seja na segunda vigília ou na terceira (os judeus dividiam a noite em três vigílias; os romanos em quatro) (v.38). E Jesus mostra isso de uma foma bem prática, exemplificando com a figura do chefe de um lar que, se soubesse da hora em que o assaltante viria, estaria alerta e em prontidão para defender sua família. Por isso, Cristo alerta seus seguidores: estai

Igreja Luterana

preparados (γινεσθε ετοιµοι), vivendo em permanente prontidão para não serem surpreendidos pela chegada inesperada do Senhor.

SUGESTÃO DE USO HOMILÉTICO

Introdução: a efemeridade da vida e do que é importante em nosso mundo atual, salientando como tantas coisas (músicas, moda, acessórios, modelos de automóveis, bens de consumo, etc.) que eram importantes no princípio do ano hoje já são coisas do passado.

Tema: Só temos uma certeza: Deus nos ama!

1. No mundo tudo passa e nós passamos.

a) Moisés chama a nossa atenção disso no Salmo 90.

b) Muitas pessoas colocam seu coração em coisas efêmeras e a socie-

dade de consumo é um exemplo visível disso.

c) Deus não é um deus de consumo. O deus de consumo se chama

Mammon.

d) O povo de Israel que procurava fazer aliança com o Egito, contra a

vontade de Deus (conforme Isaías 30). e) Tudo passará – isso traz o sentimento de angústia, medo, pavor sobre o futuro para todos que não conhecem a mensagem do amor de Deus.

2. Na certeza do amor de Deus há vida.

a) O apóstolo, em Romanos 8, expõe as provas e a certeza do amor

de Deus por todos seus filhos. b) A doutrina da eleição da graça é confortadora para todos os filhos de Deus.

c) Por isso Jesus alerta para que nunca deixemos de estar atentos e

vigilantes (Lucas 12), mantendo sempre firmes a chama da fé.

Conclusão: Só temos uma certeza: Deus nos ama! E nesta certeza vivemos e nos movemos no mundo e na relação com os que estão ao nosso lado. A certeza de que somos amados por Deus nos dá forças para superarmos as dificuldades que precisamos enfrentar no nosso viver coti- diano. Mas, sempre lembrados de que “estamos no mundo, mas dele não somos” e que estamos caminhando rumo à patria celeste, que é o nosso verdadeiro lugar! Que este seja o nosso foco no ano que se inicia.

Clóvis Vitor Gedrat São Leopoldo/RS cgedrat@gmail.com

PRIMEIRO DOMINGO APÓS NATAL

1 de janeiro de 2012

Salmo 111; Isaías 61.10-62.3; Gálatas 4.4-7; Lucas 2.22-40

CONTEXTO

a) Histórico: Qual seria o clima que pairava sobre o povo de Israel

ao tempo do primeiro natal? Não seria exagero afirmar que havia tensão no ar. Vejamos alguns fatos para tentar corroborar essa tese. 1. A nação de Israel vivia sob o tacão do império romano, que se fir- mava como o maior império já existente sobre a face da terra;

2. O rei Herodes é marionete de Roma, além de perverso;

3. Há quatrocentos anos os céus se fecharam. Não há mais profetas,

não há mais anjos, não há revelação. Curiosamente, a última palavra do Antigo Testamento, Malaquias 4.6, é palavra “maldição”… Haveria Deus abandonado para sempre seu povo? Vejamos Gálatas 4.4: “Vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei”. Não. Deus não abandonara seu povo nem se esquecera de suas pro- messas. O Messias (“Cristo” em grego) viria para implantar o Reino de Deus. Nenhum aspecto do plano divino saíra errado. Todos os aconte- cimentos, seu tempo e desdobramentos, estavam debaixo do controle absoluto de Deus. b) Litúrgico: Agora, se você costuma ler os trechos bíblicos tradi- cionais que narram os acontecimentos que antecedem o primeiro natal, possivelmente já tenha notado o seguinte:

1. Deus rompe os quatrocentos anos de silêncio de maneira escan-

dalosa! Há tal volume de manifestações angelicais, comparáveis apenas ao

Apocalipse. Anjos aparecem em visões, visitações e sonhos a José, Zaca- rias, Maria e aos pastores de Belém.

2. Há uma mesma mensagem que aparece em todas as manifesta-

ções. Veja:

- Mas, depois de ter pensado nisso, apareceu-lhe um anjo do Senhor

em sonho e disse: “José, filho de Davi, não tema receber Maria como sua esposa, pois o que nela foi gerado procede do Espírito Santo” (Mateus

1.20).

- Mas o anjo lhe disse: “Não tenha medo, Zacarias; sua oração foi

Igreja Luterana

ouvida. Isabel, sua mulher, lhe dará um filho, e você lhe dará o nome de João” (Lucas 1.13).

- Mas o anjo lhe disse: “Não tenha medo, Maria; você foi agraciada

por Deus!” (Lucas 1.30).

- Mas o anjo lhes disse: “Não tenham medo. Estou lhes trazendo boas

novas de grande alegria, que são para todo o povo: Hoje, na cidade de Davi, lhes nasceu o Salvador, que é Cristo, o Senhor” (Lucas 2.10,11).

êNFASES

A vinda de Jesus a este mundo foi com o propósito de cumprir as determinações de Deus aos homens. Plenitude, estado completo determinado por Deus Quando Deus viu que nenhum ser humano seria capaz de cumprir a lei que Ele houvera determinado, então chegou o momento dEle enviar Jesus Cristo. Romanos 3.9-18: Que se conclui? Temos nós qualquer vantagem? Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado; como está escrito: Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a

Deus; todos se extraviaram, a uma se fizeram inúteis; não há quem faça

o bem, não há nem um sequer.

Ora, sabemos que tudo o que a lei diz aos que vivem na lei o diz para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus. Deus cumpriu as promessas que havia prometido Deus cumpriu a promessa de Gênesis 3.15: “Porei inimizade entre ti

e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá

a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”. Uma das promessas é que o Senhor Jesus viria nascido de uma mulher Portanto, Jesus Cristo é o cumprimento desta profecia, pois Ele é descendente da mulher:

Lucas 1.26-35: No sexto mês, foi o anjo Gabriel enviado, da parte de Deus, para uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem des- posada com certo homem da casa de Davi, cujo nome era José; a virgem

chamava-se Maria. E, entrando o anjo onde ela estava, disse: Alegra-te, muito favorecida! O Senhor é contigo. Ela, porém, ao ouvir esta palavra, erturbou-se muito e pôs-se a pensar no que significaria esta saudação. Mas o anjo lhe disse: Maria, não temas; porque achaste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem chamarás pelo nome de Jesus. Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; Deus,

o Senhor, lhe dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará para sempre sobre

PrImeIro domIngo aPÓs nataL

a casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim. Então, disse Maria ao anjo:

Como será isto, pois não tenho relação com homem algum? Respondeu- lhe o anjo: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus. Veio para cumprir a lei em forma de ordenanças Cristo viveu no período da lei, durante sua vida ele viveu a lei e, na sua morte, ele cumpriu toda a lei e as escrituras. Gálatas 4:5: Para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos. Romanos 10.1-4: Irmãos, a boa vontade do meu coração e a minha súplica a Deus a favor deles são para que sejam salvos. Porque lhes dou testemunho de que eles têm zelo por Deus, porém não com entendimento. Porquanto, desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer

a sua própria, não se sujeitaram à que vem de Deus. Porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê. Romanos 3.20: Visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado. Agora a justiça de Deus é concedida a nós por meio da fé em Jesus Cristo Efésios 2.8,9: Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Gálatas 2.16: Sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus, também temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois, por obras da lei, ninguém será justificado. Portanto, não queiramos ser justificados por guardar a lei em forma de ordenanças, mas sim, confiando no que Cristo fez por nós na cruz. Cristo na sua morte cumpriu a lei que não podíamos cumprir; sendo as- sim podemos ser justificados pela sua graça, um favor que Deus oferece

a nós pecadores. Eis aí a razão maravilhosa de Jesus Cristo vir a este mundo! João 3.16: Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha

a vida eterna. Nos ama, veio nos buscar e quer nos salvar. No texto de Gálatas 4.4,5 diz: “Vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei, para resga- tar os que estavam sob a Lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos”. No tempo determinado por Deus, Ele enviou seu filho Jesus nascido

Igreja Luterana

de mulher, nascido sob a Lei, ou seja, sob a obrigação de obedecer a Lei em nosso lugar tendo o propósito de nos resgatar da maldição do pecado. Quando Adão e Eva pecaram, fizeram a maldição cair sobre eles mesmos

e sobre todas as sucessivas gerações. A partir da queda de Adão, os seres humanos têm vivido debaixo de uma grande maldição e sofrimento. Todo

o avanço da ciência e da tecnologia não é capaz de dar ao ser humano a

verdadeira felicidade. Olhando para este texto de Gálatas, entendemos que através de Jesus fomos resgatados dessa maldição. Veja Gálatas 3.13: “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por

nós, pois está escrito: maldito todo aquele que for pendurado no madeiro. Ele nos resgatou para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios por Jesus Cristo”. Todo aquele que se achega a Jesus Cristo e o recebe como seu Salvador e Senhor não vive mais debaixo da maldição da Lei, é uma pessoa abençoada. Jesus é o Salvador que veio da parte de Deus para salvar o homem:

a) da ira de Deus - Evangelho de João 3.36: “Por isso quem crê no Filho

(Jesus) tem a vida eterna; o que, todavia se mantém rebelde contra o Filho (Jesus) não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus”.

b) da condenação - Romanos 8.1: “Agora, pois, nenhuma condenação

há para os que estão em Cristo Jesus”.

c) da escravidão de Satanás, do império das trevas - Colossenses

1.13: “Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o

reino do seu amor” e Gálatas 5.1: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais de novo ao jugo da escravidão”.

d) da escravidão do pecado - Romanos 6.1,2: “Que diremos, pois? Per-

maneceremos no pecado, para que a graça seja mais abundante? De modo nenhum! Como viveremos no pecado, nós que para ele morremos”? Quando Adão e Eva pecaram, Deus foi até eles (Gênesis 3-8) com a promessa de libertação da maldição do pecado (Gênesis 3.15). Essa promessa se cumpriu quando Deus enviou Jesus para ser o Caminho de volta para Ele (Pai). Jesus é o Caminho para a reconciliação com Deus. Ande nesse Caminho e será salvo. Muitos dizem que todos os caminhos levam a Deus, e em parte não deixa de ser verdade: os outros caminhos levam a Deus para juízo; só Jesus, o Caminho, nos conduz para a Salvação.

SUGESTÃO DE USO HOMILÉTICO

Tema: O Natal veio lançar fora todo o medo, porque Cristo nos liber-

tou!

PrImeIro domIngo aPÓs nataL

Partes: I- da ira de Deus II- da condenação III- da escravidão de Satanás IV- da escravidão do pecado

Aplicação: Com o Natal, vem a paternidade de Deus e, consequente- mente, nossa filiação: “a fim de redimir os que estavam sob a Lei, para que recebêssemos a adoção de filhos. E, porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho ao coração de vocês, e ele clama: “Aba, Pai”. Assim, você já não é mais escravo, mas filho; e, por ser filho, Deus também o tornou herdeiro” (Gálatas 4.5-7). Não fomos esquecidos nem abandonados! A mensagem do Natal é de paz eterna, não da transitória UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), porque essa pode falhar, mas do Príncipe de Paz, que veio para reacender a esperança no coração do homem. A mensagem do Natal é de grande alegria, porque foi nos dado o Salvador, que é Cristo, o Senhor.

Paulo Gerhard Pietzsch São Leopoldo/RS pgpietzsch@yahoo.com.br

CIRCUNCISÃO E NOME DO SENHOR / DIA DE ANO NOVO

1 de janeiro de 2012

Salmo 8; Números 6.22-27; Gálatas 3.23-29; Lucas 2.21

PERÍCOPES DO DIA

No Ano Litúrgico, o dia é o da Circuncisão e Nome do Senhor, cujo

relato encontra-se no texto do evangelho de Lucas. No calendário civil, é o dia de Ano Novo. Para muitos pregadores surge sempre a questão: Que tema pregar? Algum retirado das perícopes do dia, ou algo relacionado com o Ano Novo? As perícopes conduzem-nos à reflexão sobre o nome de Deus e mais especificamente sobre o nome do Deus-homem, Jesus Cristo. Para que serve um nome? Entre nós, o nome identifica alguém. Se dissermos “fulano de tal”, sabemos de quem se trata. Se o nome identifica, não é capaz, porém, de revelar mais coisas a respeito de alguém, como, por exemplo, o que faz, seu caráter, sua maneira de se portar, entre outras. Algo diferente acontece com o nome de Deus. Não somente identifica a Deus, mas também revela algo a respeito do relacionamento dEle com a sua criação e, mais especificamente, com a humanidade. Nos textos para o dia isto aparece da seguinte forma, resumidamente:

O Salmo 8 canta a magnitude do nome do Senhor. Exalta, na verda-

de, o próprio Senhor, cujas obras são nomeadas no decorrer do Salmo. Quando o nome do Senhor é mencionado, imediatamente se revela diante

de nós o próprio Senhor. Por isso, bendizer e invocar o nome do Senhor significa agir em relação ao Senhor e não apenas ao nome empregado por Ele para se apresentar.

O texto de Números 6.22-27 apresenta a bênção que deveria ser dita

sobre os filhos de Israel. Eles seriam abençoados em nome do Deus Trino, de forma que o nome do Senhor seria posto sobre os filhos de Israel. Na verdade, quem estaria sobre eles era o próprio Senhor para abençoá-los. Não era o nome semelhante a algo mágico com poder inerente, porém Deus na pessoa do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Em Lucas 2.21 lemos que, tendo sido circuncidado ao oitavo dia, o menino recebeu o nome de JESUS, como havia sido ordenado pelo anjo a José (Mt 1.21). Por que Jesus? “Porque ele salvará o seu povo dos pecados deles”. O nome, portanto, revela a pessoa: o Salvador.

CIrCunCIsÃo e nome do senhor/dIa de ano noVo

TEXTO: GÁLATAS 3.23-29

No texto de Gálatas encontramos detalhes a respeito da obra daquele a quem, por ordem divina, foi dado o nome JESUS. O apóstolo Paulo refere- se ao “nome completo”: Cristo Jesus. Parece que a intenção do apóstolo é deixar clara aos seus leitores a verdade na qual ele confiava, ou seja, de que o filho de Maria é o Messias (Cristo) Salvador (Jesus). O texto de Lucas leva-nos à concessão do nome que antecipa quem será aquela criança circuncidada ao oitavo dia. Com Lucas olhamos para frente; com

Paulo, olhamos para trás, para aquilo que se tornou possível graças à pes- soa e obra de Jesus. É, todavia, um olhar para trás diferenciado, pois não contempla simplesmente algo que aconteceu, contudo vem acompanhado da confissão do valor presente e sempre atual daquilo que aconteceu. É o que descreve o texto de Gl 3.23-29.

V. 23: Paulo aponta para dois momentos distintos: antes e depois da

chegada da “fé”. Que fé? A resposta encontra-se no versículo anterior, o 22, onde Paulo menciona “a fé em Jesus Cristo”. No versículo 23, com continuação no 24, o apóstolo descreve a realidade de antes da chegada da fé. “Estávamos sob a tutela da lei e nela encerrados”. A idéia aqui é a da lei como uma sentinela que vigia para que ninguém dela escape. A lei moral quanto a cerimonial exerceram tal função. Pelas palavras seguintes de Paulo depreende-se que não se tratava de uma sentinela vigiando quem estava separado para a condenação e morte, mas “para a fé que, de fu- turo, haveria de revelar-se”. A lei moral, escancarando a pecaminosidade tanto de judeus quanto de gentios, deixava à mostra a incapacidade de alguém encontrar, pela lei, a justiça necessária para se apresentar diante

de Deus. Tal justiça viria com a chegada da “fé”: Cristo Jesus. A lei ceri- monial, repleta de tipos, apontava para a promessa da vinda do Antítipo que traria a justiça exigida pela lei, contudo não alcançada por ninguém através dos seus esforços e obras.

V. 24: Neste versículo Paulo descreve a função da lei até a vinda de

Cristo: serviu de paidagogós, de aio para conduzir a Cristo. O paidagogós era geralmente um escravo utilizado por um pai rico, grego ou romano, que tinha como tarefa acompanhar os meninos dos sete aos dezessete anos, quando então alcançava a maturidade. Vigiava o menino, corrigia sua conduta e o guardava de amizades e influências perigosas. Tudo fazia com o objetivo de deixar o menino em condições de alcançar uma maturidade honrada. O que era feito, portanto, acontecia com vistas à chegada da maturidade, quando acabava a tarefa do aio. “A lei nos serviu de aio para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados por fé”, afirma Paulo. A função da lei como aio terminou com a chegada de

Igreja Luterana

Cristo. Tendo chegado Cristo, chegou aquele que justifica por meio da fé

nele. A lei não justifica, contudo, na sua função de paidagogós, conduziu

a Cristo, que é o evangelho.

V. 25: Aparece agora a realidade que surge com a chegada da fé: “já

não permanecemos subordinados ao aio”. Por quê? Porque o aio em nada justifica. Além disso, havia chegado Aquele para quem o aio conduzia. Os apóstolos não foram enviados ao mundo por Cristo para oferecer o

antigo sistema legal judeu. A missão deles foi outra: anunciar a Cristo e a justificação por meio da fé nele.

V. 26: Os judaizantes entre os gálatas queriam converter o aio, a lei,

em um dirigente tirano, quando Deus nunca assim quis que acontecesse. Colocavam exigências diante dos gálatas, impondo-lhes a necessidade de cumpri-las a fim de serem salvos. A verdade, todavia, era outra: “vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus”. Não é a submissão ao

aio que torna alguém filho de Deus, porém a fé em Cristo Jesus. Importa destacar aqui a função da fé não como uma boa obra, todavia tão somente como meio receptor daquilo que nos vem de Cristo, ou seja, perdão dos pecados e justiça diante de Deus.

V. 27: Um grande versículo a respeito do batismo! O batismo em Cristo

tem como resultado o revestir-se de Cristo. Toda a ação do batismo está

inteiramente conectada a Cristo. O batismo é a maravilha que é porque

está ligado a Cristo, sua pessoa e obra. Por isso dizemos que não é possível separar os meios da graça, e o batismo como sacramento é um meio da graça, da reconciliação objetiva em Cristo. Revestir-se de Cristo é estar coberto pela justiça de Cristo, a qual basta por si própria, não havendo necessidade de ação humana para preencher alguma falta na justiça de Cristo recebida no batismo.

V. 28: Em Cristo existe unidade. É Cristo quem une não a raça, a

condição social ou o sexo. Unidos todos estão na condição de filhos de Deus. Evidentemente que Paulo não está promulgando a chegada de uma nova situação física. Homem permanecia sendo homem; mulher conti- nuava sendo mulher; escravo permanecia escravo e liberto era liberto, assim como judeu não deixava de ser judeu, nem grego deveria apagar

sua origem grega. Paulo está falando na situação na casa de Deus, onde todos os crentes são por igual, filhos amados do Pai celestial. São muitos

e permanecem sendo muitos, todavia, em união com Cristo, são um, um

só corpo. Vindo Cristo, nada mais se exigia dos gálatas para estarem em pé de igualdade com os judeus diante de Deus.

V. 29: Ser de Cristo tem como resultado mais duas coisas: ser des-

cendência de Abraão e herdeiros segundo a promessa. Era a situação dos cristãos gálatas. Espiritualmente eram também filhos de Abraão. O que conta diante de Deus não é a filiação por meio da carne, porém através

CIrCunCIsÃo e nome do senhor/dIa de ano noVo

da fé. Ser de Cristo por meio da fé torna alguém descendente de Abraão e herdeiro segundo a promessa. Qual promessa? De que no descendente de Abraão seriam benditas todas as famílias da terra (ver Gl 3.8,9).

SUGESTÃO HOMILÉTICA

O texto da epístola (Gl 3.23-29) oferece material aplicável a uma série

de mensagens, pois pode ser abordado sob diversos ângulos. É uma ri- queza de conteúdo! Para ficar dentro da temática do domingo, a sugestão

é a seguinte: aproveitar o texto para apresentá-lo como o cumprimento

da missão consignada a Jesus Cristo por ocasião de sua circuncisão e recebimento do nome. Por que JESUS? De que maneira cumpriu a mis-

são indicada pelo seu nome? Qual o resultado de tal cumprimento para

a nossa vida? É um caminho possível de ser seguido, embora existam outros, evidentemente.

Paulo Moisés nerbas São Leopoldo/RS pmnerbas@gmail.com

EPIFANIA DO SENHOR

Salmo 72.1-11(12-15); Isaías 60.1-6; Efésios 3.1-12; Mateus 2.1-12

SALMO 72.1-11(12-15)

A expressão o filho do rei indica o filho de Deus, Jesus Cristo. O Salmo

é claramente messiânico. Da obra do Filho de Deus, e somente nele, os

aflitos (v. 2), o povo (v. 3) e os aflitos do povo (v. 4) terão julgamento justo, paz, salvação e liberdade da opressão e do opressor. Portanto, o filho de Deus terá como sua missão dedicar-se aos inde- fesos e oprimidos. Primariamente trata-se da acusação que paira sobre

a humanidade rebelde contra a comunhão de Deus. Por esta razão o

opressor é aquele que acusa a humanidade e a martiriza com a ameaça do juízo de Deus e que oculta do ser humano a possibilidade de ver Deus na sua misericórdia. O opressor se manifesta por meio de pessoas que não anunciam o perdão e a graça de Deus, que exercem opressão lançando culpa sobre o povo que é de Deus. Sem a intervenção do filho do rei, a justiça de Deus não se concretiza. Entretanto, não basta que o o Filho de Deus leve a justiça de Deus aos que estão privados dela. Também é necessário combater os inimigos que combatem a justiça que vem de Deus, ou o Evangelho. São auto- ridades, são reis que querem rivalizar com o próprio Deus e impor uma outra justiça sobre os fracos e aflitos. Mas eles terão de lamber o pó e dar honra a Deus.

Por quê? Porque ele acolhe o necessitado que clama, o aflito e o desvali-

revelaste aos pequeninos”

do. Ele é quem diz: “Graças te dou, ó Pai,

(Mt 11.25 -27), para então lançar o doce convite: “Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mt 11.28).

que

ISAÍAS 60.1-6

A igreja que prega e vive o Evangelho é a nova Jerusalém, em oposi-

ção a Jerusalém da lei opressora que sufoca a graça de Deus e a substitui

pela opressão, intolerância e culpa. A Jerusalém que mata e amordaça os profetas de Deus e, finalmente, mata o próprio filho, esta Jerusalém deve ser destruída para que floresça a Jerusalém divina. A profecia de Isaías aponta para aquele que fará resplandecer o reino de Deus onde impera

a cegueira dos fariseus, aqueles que pensam que veem, mas são cegos;

que se dizem sábios, mas são loucos; que se proclamam juízes do povo, mas são perversos e maus.

ePIFanIa do senhor

O evangelho da graça de Deus em Cristo, este Evangelho precisa estar presente e morar ali onde o sofrimento moral, o sofrimento da alma e o sofrimento físico moram. Deus quer estar com aqueles que são vitimiza- dos pelo sofrimento ou ameaçados porque se veem cercados por ele. Ali Deus quer morar. Somente a presença de Deus pode iluminar a vida e dar esperança. A ele as multidões acorrem. Mas sua presença precisa ser apontada entre o povo pela pregação do Evangelho, a boa notícia de um Deus presente e salvador.

MATEUS 2.1-12

Deus não depende da sabedoria dos sábios. Aliás, a sabedoria dos sábios não ultrapassa a si própria. Ela está limitada à dimensão humana

que é limitada pelo pecado da separação de Deus. Portanto, por mais que

o ser humano possa saber e conhecer, este saber nada revela além da-

quilo que a sua experiência lhe revela. Esta experiência está limitada pela

cegueira humana que nada sabe além de si própria. Ela tem uma noção a respeito de Deus e de quem ele deve ser. Mas também este conhecimento

está limitado à experiência humana. Neste sentido, estão certos aqueles que afirmam que as religiões têm deuses feitos à imagem do homem. Também entre os que se dizem cristãos, é comum apresentarem Deus à imagem do homem. Fazem isto os que racionalizam a respeito de Deus. Assim, os que querem ser justos diante de Deus pelo fato de cumprirem

a lei e não serem vistos como injustos e maus. Aí se contam também os

moralistas, como eram os fariseus. Deus, entretanto, não se manifesta pela sabedoria dos sábios. Ele nasce “entre as menores de Judá”, a ínfima Belém. Ele é frágil naquela criança. Ele é humilde naqueles panos. Não se impporta em ser conhecido como filho de Maria e de José. Pelo contrário, ele assume a carne e o sangue sobre si como todos os pecados a eles aderidos e vem para ser despre- zado, punido e morto. Entretanto, ele é o Todo-Poderoso, digno de todas as honras, a quem céus e terra prestam seus serviços e louvor. Porque ele decidiu salvar os cansados, sobrecarregados e aflitos, enriquecer os depauperados, curar as feridas e dar-lhes felicidade em vez de castigo.

EFÉSIOS 3.1-12

Era mais fácil falar mal do apóstolo Paulo do que falar bem. Maior e mais bem qualificado era o número dos que o perseguiam do que o número dos que o seguiam. Vinha de Jerusalém, do centro da igreja, o questionamento contra Paulo. E tinham maior credibilidade do que ele. Afinal, eram cumpridores da lei e pregavam aquilo que era mais coerente com aquilo que tinham como herança do passado escriturístico.

Igreja Luterana

Quem era Paulo? Um perseguidor dos crentes. Dizia-se convertido. Entretanto, estava entre gentios e defendia que estes não necessitavam

adotar os costumes, as leis da piedade herdada do judaísmo. Algo ofensivo para aqueles que reverenciavam a lei como fora herdada e que, segundo criam, não conflitava com a fé no Nazareno. Entretanto, nada parece demover Paulo de insistir numa outra visão do reino de Deus. Para ele Jesus, o perseguido e morto, era agora seu Senhor de cuja revelação ele não se afasta, haja o que houver. Aquele que

o chamou às portas de Damasco, este é o verdadeiro Deus. Nem tanto

pela sua glória e poder que o derrubaram e cegaram. Mas muito mais por tudo aquilo que o Saulo condenava em Jesus, o Nazareno. Ele chamava para sua comunhão pessoal os pecadores, os afastados, os doentes e os perseguidos e os confirmava como membros do reino de Deus e filhos amados de Deus. Nada poderia horrorrizar mais o fariseu Saulo. Esse Nazareno conspurcava e, pela sua atitude, no entender de Saulo, fazia

deboche da pureza da religião tal qual os fariseus, escribas, saduceus e todos os religiosos entendiam. Mas isto tudo se diluiu às portas de Damasco. A glória de Deus o iluminou na pessoa de Jesus. Ele, que o perseguia, era amado enquanto

o perseguia. Ele não só amava as vítimas de uma religião intolerante e

orgulhosa, mas amava mesmo os perseguidores, os que faziam as vítimas daquela religião. Quem poderia imaginar Deus desta maneira? Mas Deus

é insondável. Ele decidiu salvar todos indistintamente por uma dimensão de compaixão, misericórdia e perdão inimaginável ao ser humano. Mas ele o fez e o demonstrou ali, às portas de Damasco. De modo que Paulo, agora, é alguém com um só propósito de vida:

proclamar esta verdade que, para o ser humano, será sempre um misté-

rio: Deus salva a todos sem distinção. Eu, que sou o maior dos pecadores (1Tm 1), Deus tocou no corpo de modo que não me resta outra coisa do que testemunhar deste Deus que se revela maior do que tudo em graça

e misericórdia. Quem pode aceitar isto? Os perdidos e desesperados em seus pecados e culpas, os pequeninos, os aflitos a quem este Deus é apresentado. Os que se fazem justos e prezam a sua justiça própria, estes têm muitas dificuldades em aceitar-se como necessitados de perdão e compaixão. A Epifania sublinha a universalidade da presença de Jesus no mundo. Jesus não se apresenta como Rabino de Jerusalém. Ele não vem das es- colas oficiais de Jerusalém. Sua atuação provoca desconfiança e repúdio por parte da igreja oficial, representada pelos escribas e sacerdotes de Jerusalém. Pode-se vê-lo identificado com os de “sangue impuro” da Galiléia, mesmo na Samaria e até em Tiro e Sidon. Entre os judeus ele pode ser visto entre os excluídos moralmente e os doentes fisicamente.

ePIFanIa do senhor

Ele acolhe na sua comunhão pessoal aqueles que já não tinham mais

honra e dignidade “espiritual”. Ele os dignificou com o seu acolhimento

a ponto de eles vislumbrarem nele a redenção de suas vidas moralmente desperdiçadas.

A Epifania nos confronta com perguntas: Para que e para quem que-

remos ser igreja? Quem são os que acolhemos? Que tipo de pessoa se sente bem e à vontade na igreja que somos? Paulo tem somente uma resposta: repetir o movimento de Jesus

identificado com os perdidos, os de fora, os de longe e levar até eles a comunhão de Deus. Não como exigência ou tarefa. Mas como a própria natureza do ser igreja de Jesus Cristo.

A igreja é muito rápida e categórica em atribuir culpa e responsabili-

dade aos que se afastam e se mantêm à distância da igreja. Dificilmente se percebe na igreja uma autorreflexão de corresponsabilidade pelo afas- tamento daqueles que se mantêm à distância da igreja. É exatamente aí que Paulo identifica a sua missão como consequência

e seguimento da missão do Filho de Deus. Este não brilhava sob as luzes

da elite religiosa de Jerusalém. Ele era luz na escuridão dos perdidos, dos

“pequeninos”, dos excluídos de Jerusalém e de seu templo. A estes Jesus somente tinha duas palavras: “Hipócritas!” ou então: “Quem não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.” Mas os perdidos da casa de Israel, os galileus, os samaritanos, os de Tiro e de Sidon, os de fora, os ladrões, os doentes e endemoninhados, a estes finalmente chegou o Reino de Deus na pessoa do Nazareno.

SUGESTÃO DE ORGANIZAÇÃO DO MATERIAL

Tema: Deus procura os herdeiros do Reino Falsos herdeiros agem como proprietários e barram os herdeiros Jesus restabelece o direito dos herdeiros legítimos

Em Jesus e através da igreja, Deus dá posse da herança aos herdeiros

legítimos

Paulo P. Weirich São Leopoldo/RS weirich.proskep@gmail.com

PRIMEIRO DOMINGO APÓS EPIFANIA - O BATISMO DO SENHOR

8 de janeiro de 2012

Salmo 29; Gênesis 1.1-5; Romanos 6.1-11; Marcos 1.4-11

O MAIOR PRESENTE: O BATISMO DE JESUS E O MEU BATISMO

Acredito que a maioria, se não todos, gostam de receber presentes. Qual é o maior e melhor presente que você já recebeu? Você lembra quando recebeu este presente?

O maior presente que eu já recebi é um presente do qual nem sempre

me lembro. Muitas vezes, até, pareço esquecê-lo completamente. Mas, hoje, quero lembrá-lo, quero falar dele e compartilhar com vocês pelo menos alguns aspectos importantes de seu significado. Sim, estou falando do meu Santo Batismo. Acredito que todos aqui foram batizados. Então, na medida em que falo do significado do meu batismo para mim, cada um está convidado a refletir no significado de seu próprio batismo.

A Escritura Sagrada fala muito sobre o batismo. Ela descreve sua insti-

tuição, seu rico significado e relata casos de pessoas que foram batizadas. Só o fato de saber que o batismo foi instituído por Cristo e tem a ordem

e a promessa de Deus, já deveria me levar a lhe dar alto valor. Mas Deus, em sua Palavra, vai além e também fala dos múltiplos benefícios que o batismo me traz. À base de diferentes textos, quero, portanto, recordar

o que aconteceu comigo no dia do meu batismo.

No dia do meu batismo eu morri e fui sepultado. Não, não estou falando de forma figurativa como, por exemplo, no caso de uma pessoa que me ligou uma noite dizendo: “Pastor, hoje eu nasci de novo!” Ele acabara de sofrer um assalto e, quase milagrosamente, escapara com vida após contar com uma morte praticamente certa. Não é neste sentido que eu morri no dia do batismo. Mas, diz a Bíblia, eu morri literalmente. Vejamos Rm 6.3,4: “Ou, porventura, ignorais que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo”. Ali eu morri com Cristo para a vida antiga, a vida do pecado. Mas, assim como Cristo não permaneceu na morte, eu também novamente ressuscitei com ele para uma nova vida. Que presente ma- ravilhosamente indescritíve! Quantas pessoas gastariam fortunas para reverterem sua idade e nascerem de novo se isso fosse possível. Basta

PrImeIro domIngo aPÓs ePIFanIa - o batIsmo do senhor

pensar no quanto se gasta com produtos de maquiagem e com cirurgias plásticas que apenas escondem as marcas do envelhecimento. É, também, muito conhecida a lenda da fonte da juventude onde as pessoas idosas mergulham e saem com um corpo jovem. Mas maquiagens e cirurgias só conseguem esconder a idade e a tal fonte da juventude não existe. No

entanto, o batismo realmente me fez nascer de novo, como Jesus prometeu

a Nicodemos. O batismo me transferiu de uma vida sem Deus para uma

vida nova em que sou filho e herdeiro de Deus. A Igreja Antiga procurou simbolizar esta transição na cerimônia do batismo. Primeiro os catecúmenos (os que iam ser batizados) eram levados para uma sala pequena, escura e fria. Lá renunciavam ao diabo e todas as suas obras e caminhos. Depois eram levados para a sala do batistério, uma sala magnífica, aquecida, bem iluminada, decorada com mosaicos lembrando o paraíso. Nesta sala eram batizados em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Outra dimensão deste batismo é que ele me lavou dos meus pecados. Na cerimônia de batismo da Igreja Antiga, os catecúmenos tiravam suas roupas antes do batismo e, quando saíam da água, recebiam uma túnica branca representando a justiça de Cristo que agora os cobria. Este costume lembra a palavra de Paulo aos Gálatas (3.27) quando ele diz: “Pois todos

quantos fostes batizados em Cristo de Cristo vos revestistes.” A sujeira do pecado foi completamente lavada, removida pela água, agora estou limpo, puro, sem culpa diante de Deus. Ali se cumpriu a promessa encontrada em Isaías 1.18: “Ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como

o carmesim, se tornarão como a lã”.

Com meus pecados perdoados, as portas do céu se abriram para mim e tenho acesso ao Reino de Deus, estou integrado já agora no Reino da graça, recebendo perdão e vida e caminho em direção ao Reino da glória. Outro aspecto importante de meu batismo é que, através dele, eu fui incorporado em Cristo. Ou seja, me tornei parte de seu corpo. Por isso, tudo o que acontece com seu corpo também acontece comigo. Se ele morre, eu morro com ele; se ele ressuscita, eu participo de sua vitória e também ressuscito. Se ele está no céu, eu também estarei lá com ele. Se eu sou parte ou um membro do corpo de Cristo, isto também me faz olhar para o lado e perceber que sou irmão dos demais batizados, que há muitos outros que também receberam este grande presente e que somos membros uns dos outros, que convivem como os membros de um mesmo corpo e que devem servir-se mutuamente desta forma. Para me capacitar e guiar nesta nova vida em Cristo, me foi concedido no batismo o próprio Espírito Santo. Ele me chama pelo evangelho, me guia, ilumina, santifica, me conserva na nova vida que recebi.

Igreja Luterana

Muitos dão pouco valor ao batismo e o desprezam e põem outras coi- sas em seu lugar e dão um valor mais elevado a essas coisas. Só que, à diferença do batismo, cerimônias e ritos inventados pelo ser humano não têm a ordem e a promessa de Deus. Realmente, o presente que recebi no dia do meu batismo é tão grande

e maravilhoso a ponto de exceder toda a compreensão. Não posso vê-lo,

nem senti-lo – ele está além de minha razão e de meus sentidos. Mas pela fé que o Espírito Santo acendeu e conserva no meu coração eu posso receber este presente. Mas, o que acontece se eu esquecê-lo? Se eu não lhe der a devida importância e viver a antiga vida de pecados como se eu não tivesse sido

adotado por Deus? A certa altura, na Igreja Antiga, alguns ensinavam que o batismo só me purifica dos pecados anteriores. Após o batismo eu preciso me esforçar e viver uma vida agradável a Deus, sem pecados. Mais tarde, alguns começaram a ensinar que se o navio do meu batismo naufragar, isto é, se eu voltar a pecar após o batismo, eu ainda teria a possibilida- de de me salvar agarrando-me à tábua da penitência. Lutero contestou esta opinião dizendo que o navio do batismo não naufraga jamais – Deus sempre é fiel à sua promessa. Se eu cair do navio – se eu voltar a viver em pecado – o que preciso fazer é nadar de volta ao navio, isto é, preciso sempre de novo me arrepender e me apropropriar sempre de novo do perdão e da nova vida que o batismo me oferece e concede. O melhor, o mais maravilhoso que o batismo tem para me conceder ainda está no futuro. Sou lembrado disto ao pensar no batismo do meu Salvador Jesus. Ao sair da água, Deus Pai lhe falou do céu: “Tu és meu Filho amado, em ti me comprazo”! Por causa deste batismo e de tudo

o que se seguiu na vida terrena de Jesus, eu também vou estar um dia

na presença de Deus e, então, ele vai olhar para mim e dizer: “

tu és

meu filho querido, tu me dás muita alegria!”. Este momento vai ser tão indescritivelmente maravilhoso que ele vai perdurar para sempre e eu vou louvar a meu Deus e Salvador por toda a eternidade. Que presente maravilhoso Deus me deu no meu batismo. Quero sempre me lembrar dele e lhe dar o merecido valor. Deus o conceda. Amém. [Este texto é uma adaptação de uma mensagem originalmente profe- rida numa devoção na capela da ULBRA – Canoas, no dia 07/11/2011]

Paulo Wille Buss São Leopoldo/RS pwbuss@hotmail.com

SEGUNDO DOMINGO APÓS EPIFANIA

15 de janeiro de 2012

Salmo 139.1-10; 1 Samuel 3.1-10 (11-20); 1 Coríntios 6.12-20; João 1.43-51

CONTEXTO

Cenário Litúrgico: Epifania é a manifestação de Deus e da obra de Jesus ao mundo. No segundo domingo de Epifania as leituras apontam para as seguintes manifestações:

Salmo 139.1-10 (antífona, v. 14): Deus se manifesta como aquele que nos criou maravilhosamente e conhece até nossos pensamentos.

• 1 Samuel 3.1-10: Deus se manifestou a Samuel para confirmá-lo como profeta de Israel.

1 Coríntios 6. 12-20: Deus se manifesta através do uso que fazemos do nosso próprio corpo.

Jesus se manifesta para o início de seu ministério.

Cenário Histórico: A comunidade de Corinto está imersa em grandes problemas: divisões partidárias, pretensas sabedorias, egoísmo, orgulho espiritual, imoralidades, idolatria, preparo inadequado para a Santa Ceia, desordem na liturgia do culto. Parece que tudo está a indicar que isto nem seria uma congregação cristã. No entanto, Paulo dirige sua carta “a igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados para ser santos” (1Co 1.2). Ele deixa claro que Deus é o motivador para que os pecados sejam vencidos. Dentro deste cenário, onde a graça de Deus se manifesta em meio aos pecadores, o texto da epístola para o Segundo Domingo de Epifania enfoca o uso do corpo para a glória de Deus.

TEXTO

O amor de Cristo precisa regular toda a nossa vida dentro da liberdade cristã. Nada vai me subjugar ou me tornar cativo: “Todas as coisas me são lícitas, isto é, sou livre para fazer o que desejo.