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LEITURAS DE UM REALISMO JURÍDICO-PENAL MARGINAL.

HOMENAGEM A ALESSANDRO BARATTA

PAULO CÉSAR CORRÊA BORGES


(ORG.)

N. 2
SÉRIE “TUTELA PENAL DOS DIREITOS HUMANOS”

CO-EDITOR – NETPDH - NÚCLEO DE ESTUDOS DA TUTELA


PENAL E EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

ISBN 978-85-7983-249-9
A HIPÓTESE DO FIM DA VIOLÊNCIA NO DISCURSO
DA MODERNIDADE PENAL

Salo de Carvalho*

1. CIVILIZAÇÃO, BARBÁRIE E CIÊNCIAS CRIMINAIS

Os projetos político e científico da Modernidade, no qual se inserem


os discursos das ciências criminais – conjunto disciplinar integrado pelas
ciências penais dogmáticas (direito penal e processo penal) e não-
dogmáticas (criminologia) –, têm como objetivo central a busca da
felicidade através da negação da barbárie e da afirmação da civilização.
Nas mais diversas construções teóricas sobre a primeira natureza
humana (Freud) – do bom selvagem (Rousseau) ao homo lupus (Hobbes) –
, o Estado moderno, fundado nas premissas do contrato social, representaria
a forma política de superação da infância da humanidade. Na era civilizada
da segunda natureza, caberia ao ente estatal a criação de instrumentos para
concretização do ideal civilizatório, extirpando, constante e gradualmente,
os resquícios da natureza selvagem do humano.
A justificativa da intervenção estatal é baseada na hipótese de que o
homem, no estado de natureza, gozaria amplamente sua liberdade, não
havendo qualquer restrição à fruição dos desejos. No entanto a
impossibilidade de convívio se estabelece em face da tensão entre desejos
ilimitados e bens limitados.
O uso da violência definiria, portanto, as relações na primeira
natureza. A forma de anular o estado de guerra, corrupção do estado ideal
(idílico) de natureza, é a instituição do poder civil, que representa o status
de maturidade em contrapondo à infantilidade.
A incerteza do gozo dos bens, face à possibilidade de expropriação
pela força, conduz à necessidade do pacto. Os homens, em troca de
segurança, optam por limitar sua liberdade, alienando certo domínio ao
*
Mestre (UFSC) e Doutor (UFPR) em Direito. Pós-Doutor em Criminologia (Universidade
Pompeu Fabra, Barcelona).
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repositório comum denominado Estado. Como regulador, caberia ao poder
instituído executar esta quantidade alienada em caso de violação das leis de
convivência. Nesta proposição, o direito penal será vislumbrado como
mecanismo idôneo para resguardar os valores e interesses expressos no
contrato e como instrumento simbólico de punição dos que violaram as
cláusulas contratuais livremente aceitas. Através da ideia de consenso o
condenado adere à punição, motivo pelo qual é percebida como legítima.

2. CIÊNCIAS CRIMINAIS, RACIONALIZAÇÃO E O OTIMISMO


DA CULTURA

A formação do Estado Moderno carrega consigo princípios de


organização e racionalização da administração pública que definirão o perfil
do sistema de justiça penal. Outrossim, em paralelo à organização
burocrática dos poderes, são projetadas inúmeras expectativas outras
decorrentes do processo de racionalização, civilização, maturidade do
humano: segurança, felicidade e autonomia individual, p. ex.
Se as agências de controle social são inseridas na burocracia
moderna com os objetivos de gestão e controle dos desvios (caráter
preventivo) e punição dos delitos (caráter repressivo), o direito (penal), ao
pretender-se científico, recepciona o estatuto e a programação do
racionalismo. Na trilha das demais ciências, seguindo o estatuto científico
da civilização, as ciências criminais são lançadas na grande aventura da
Modernidade: elaborar tecnologia (racionalidade instrumental) direcionada
ao progresso e ao avanço social, de forma a conquistar condições de
felicidade individual e bem-estar comunitário.
A expectativa das comunidades científica e política em relação à
ciência jurídico-penal não é outra, portanto, que a de desenvolver
instrumentos capazes de erradicação do resto bárbaro que
insistentemente emerge na cultura. As violências, manifestas em inúmeras
e distintas condutas desviantes, impedem a constituição da civilização. O
fenômeno da violência representa, portanto, um dos últimos obstáculos a ser
extirpado para que o projeto civilizatório se torne pleno.

3. A IMAGEM DO HOMEM CIVILIZADO

A figura do bourgeois renascentista, conviva da aristocracia pré-


revolucionária, evoca este homem civilizado – apreciador das artes, da
gastronomia requintada, do vestuário alinhado. Elegante, culto, incentivador
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das ciências humanas e naturais, cultiva a arte das boas maneiras, da
linguagem polida de referência cortês. Educado nas academias, poliglota, é
refinado no trato com seus semelhantes.
A imagem do homem burguês do século XVIII representa, no
imaginário ocidental, o ápice desta cultura romântica apolínea. A
perspectiva apolínea sustenta o modelo metafísico socrático de reforço dos
valores morais de Justiça, Beleza, Bondade e Verdade, referências do
homem civilizado. A metafísica apolínea, portanto, segundo Nietzsche,
evoca “a verdade superior, a perfeição desses estados na sua contraposição
com a realidade cotidiana tão lacunarmente inteligível (...).”127
E neste imaginário, ao polido homem da cultura é contraposto seu
outro: o bárbaro. A negação do convívio amistoso e a ruptura com as
regras e os limites impostos pela civilização caracterizam os atos daquele
que, por atavismo ético ou estético, não ultrapassou a infância da
humanidade e, em consequência, não atingiu a segunda natureza, a natureza
domada pelas disciplinas da cultura.
A representação do bárbaro como esteticamente feio e moralmente
corrompido, como perverso desprovido de freios inibitórios cujo habitat é
estabelecido nas margens da cultura, solidifica a imagem do civilizado como
virtuoso frequentador do cotidiano urbano, de suas instituições e dos locais de
socialização.
As teses spenceriana e darwiniana da evolução das espécies fornecerão
importante chave de interpretação para elaborar a dicotomia fundamental da
criminologia clássica: criminoso bárbaro versus cidadão civilizado. O homem
da Modernidade, o último homem na conceituação de Nietzsche,

considera a si mesmo o ponto mais avançado do


desenvolvimento histórico da humanidade, acreditando que a
finalidade dessa história consistiria precisamente na chegada
do moderno. Orgulhoso de sua cultura e formação, que o
elevaria acima de todo passado, o último homem crê na
onipotência do seu saber e do seu agir.”128

4. O ‘OUTRO’ DO CIVILIZADO: O BÁRBARO

Mas se o homem moderno (bourgeois) é alçado ao patamar supremo


da cultura, colocado no ápice da evolução da espécie, o estigma do bárbaro

127
Nietzsche, O Nascimento da Tragédia, p. 29.
128
Giacóia Jr., Nietzsche, p. 56.
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irá identificar aquela minoria de pessoas que não ultrapassou as necessárias
etapas de evolução. Sem transpor definitivamente a primeira natureza, estão
condicionadas a romper, a qualquer momento, as regras do convívio
pacífico, pois são estrangeiros e não fazem parte da cultura.
Na criminologia de Garófalo, seja do ponto de vista ético – “há
indivíduos moralmente inferiores, assim como os há e houve sempre
superiores (...)”129 – ou desde perspectiva estética – “se é certo que o senso
moral é um produto da evolução, natural admitir que ele seja menos
aperfeiçoado nas classes que representam um grau inferior de
desenvolvimento físico” 130 –, o homo criminalis, perdido no abismo do
atraso antropopsicológico e incabível na civilização, estará eternamente
vinculado às noções de anomalia moral, fisiológica e sexual.
Nas palavras de Ferri

o criminoso nato pode ser um assassino tranqüilamente


selvagem, um depravado violentamente brutal, um refinado
obsceno por conta de uma perversão sexual proveniente de
uma defeituosa organização física. Ele pode também ser um
ladrão ou falsário. A repugnância em apropriar-se do bem
alheio, esse instinto lentamente desenvolvido pela vida social
na coletividade, falta-lhe em absoluto (...). Tive ocasião de
demonstrar, no estudo psicológico de um homicida nato, que a
aparente regularidade de sua inteligência e de seus sentimentos
pode encobrir tão completamente sua profunda insensibilidade
moral, que seu verdadeiro caráter escapa àqueles que ignoram
a psicologia experimental.131

A patologia das condições físicas e psicológicas, refletida na


degenerescência individual deste selvagem, se mantém apesar da evolução e
aponta sua distinção com o homem da cultura.

5. O HOMO NATURALIS ADORMECIDO

Se a representação do criminoso (e do louco) no discurso


civilizatório é a do fisicamente degenerado, do moralmente corrompido e do
socialmente degradado, sendo, portanto, o delito atributo específico de
minoria de insanos que não logrou ultrapassar as etapas do processo

129
Garófalo, Criminologia, p. 14.
130
Garófalo, Criminologia, p. 16.
131
Ferri, Os Criminosos na Arte e na Literatura, p. 32/35.
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evolutivo, a criminologia crítica, no campo das ciências criminais, apontará
uma das maiores e das mais radicais feridas da cultura ocidental.
O pensamento crítico de ruptura com as idealizações da dogmática
penal, sobretudo das teorias do delito e da pena, produz efeitos terroríficos
profundamente importantes para a análise dos discursos sobre o processo
civilizatório e sobre a formação da cultura como adestramento da natureza
humana ao colocar em cena o homem da cultura como sujeito dos atos de
barbárie.
Se Sade evoca em sua literatura libertina o homo naturalis
adormecido no cortês homem da Modernidade; Sutherland imputa ao
industrial capitalista a responsabilidade pelos crimes da grande política
(ilícitos da esfera pública); e a criminologia feminista desnudará a
violência privada presente no lar, último reduto de segurança e de
civilidade.

6. DESENCANTO E FRAGMENTAÇÃO

No âmbito das ciências criminais, as criminologias crítica e pós-


crítica, ao tematizarem os inúmeros desdobramentos e as variáveis do
processo de racionalização da violência pública do lupus artificialis
(agências estatais de controle social) direcionada (finalidade) à anulação das
violências privadas do lupus naturalis, permitiram notar a violência do
próprio projeto civilizatório ocidental.
De forma diversa, os discursos dogmáticos do direito penal e as
criminologias pós-positivistas (neurocriminologia e biologia criminal)
seguem atualizando a perspectiva idealista de anulação do selvagem do
humano. Não por outra razão perdem-se no emaranhado das metodologias e
nas discussões metafísicas, forma de contemplação e de defesa contra a
evidência da crise que indicam o rumo do abismo teórico.
Conforme leciona Timm de Souza, não é difícil perceber que “(...)
sob uma camada hegemônica e colorida de frenetismo e desespero não
suficientemente conscientizados, repousa uma infinita multiplicidade de
fragmentos culturais, fragmentos que são sobras ou ruínas vítimas da
violência e das promessas não cumpridas de um modelo civilizatório e,
especialmente, de uma modernidade ingenuamente otimista e
intrinsecamente violenta. Nunca como agora foi tão visível incisiva verdade

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do famoso dito de Walter Benjamin: ‘nunca houve um monumento de
cultura que não fosse também um monumento de barbárie’.”132
A premissa básica que orienta esta fala, portanto, é a de que as
ciências criminais, direcionadas a anular a violência do bárbaro e a reafirmar
os ideais civilizados, ao longo do processo de constituição (e de crise) da
Modernidade, produziram seu oposto. Assim, apesar do nobre fim (fim da
violência), o sistema penal colocou em marcha tecnologia de uso desmedido
da força, cuja programação, caracterizada pelo alto poder destrutivo, tem
gerado inominável custo de vidas humanas
O motivo deste aparente paradoxo é apresentado por Morin: “la
barbarie no es sólo un elemento que acompaña a la civilización, sino que la
integra. La civilización produce barbarie (...).”133
Assim, evidencia-se o fato de que a manifestação do não-civilizado,
ou seja, a violência, não representa um resto bárbaro em vias de extinção.
Pelo contrário, integra e constitui o húmus do humano.
Se ao homo artificialis foi delegada a gestão das virtudes e a
repressão das perversões, concebendo-se o poder punitivo estatal como
reserva ética dos valores morais civilizados, a criminologia crítica
demonstra ser esta concepção romantizada. Sobretudo porque o poder penal,
longe de seguir a programação civilizatória de supressão das crueldades do
homem natural, será constituído, ele próprio, como instrumento de
violências.
O lupus artificialis, detentor de desejos e vontades de violência, ao
invés de anular as perversidades do bárbaro, as potencializa, pois não atua
de maneira ascética. Por ter sido criado e, sobretudo, por ser operado por
lupus naturalis, suas virtudes e vícios são naturalmente transpostos,
(re)produzindo em nível institucional o cotidiano ambíguo de virtudes e
devassidões da vida privada.
Na intersecção entre psicanálise e criminologia, a questão central das
violências modernas e contemporâneas é exposta: o erotismo do exercício
do poder.
Em Os 120 Dias de Sodoma, Sade expõe as medidas pelas quais o
exercício do poder se torna assustadoramente erótico, sexualizado. Cria,
pois, condições de perceber não apenas a condição humana, mas a
falibilidade das instituições geradas para conter os vícios do homem. O

132
Timm de Souza, Em Torno à Diferença, p. 129.
133
Morin, Breve Historia de la Barbarie en Occidente, p. 19.
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poder, incontrolado em seu estado bruto, circula, fascinando e apaixonando
todos aqueles que corporificam as instituições.
Calligaris, ao comentar a obra de Sade, “peça chave do quebra-
cabeça moderno”, é preciso: “o poder assombra a fantasia erótica moderna
(...). O exercício do poder é contaminado por modalidades de prazer e de
gozo aprendidas na cama, ou seja, por um erotismo violento, sombrio e, em
geral, envergonhado.”134
As conclusões possíveis sobre o ideal do fim da violência no
discurso penal são indigestas, pois não apenas é desfeito o sistema
maniqueísta ético e estético que sustentou desde o nascimento da
modernidade os processos de criminalização e punição, como é desnudada a
erótica do poder.
O intuito deste discurso, portanto, para além de apresentar
descritivamente o diagnóstico das violências produzidas pela configuração
inquisitiva das ciências criminais–, é provocar aberturas, cisões, ranhuras na
lógica do pensamento autoritário e genocida que rege o agir dos sistemas
punitivos.

REFERÊNCIAS
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Lenz, 2001.
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GELSTHORPE, Loraine. Feminism and Criminology. in The Oxford
Handbook of Criminology. 3. ed. Oxford: Oxford Press, 2002.
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134
Calligaris, Os 120 Dias de Sodoma, p. 12.
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KLOSSOWSKI, Pierre. Sade, mi Prójimo. Madrid: Arena, 2005.
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