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Carmelo da Sagrada Família

Encontro com as Monjas Carmelitas Teresianas.


Pouso Alegre de 19 a 20/05/2007

1. Effatha1
(Mc. 7,31-37)

Para uma nova pedagogia dos sentidos.


(Conhecer-se para amar a Deus e aos irmãos)

Introdução
Vivemos num tempo, onde nunca como antes,
somos cotidianamente assediados e invadidos
involuntariamente por um bombardeamento de
informações, imagens, sons, coisas, aromas e sabores,
atrativos ou não, eles violentamente nos seduzem e
padronizam nossa vontade.
Para este tempo onde as palavras, ordem e
disciplina, tornaram-se sinônimos de tirania e poder
de controle sobre a vontade, resta-nos agora ver os
mais fracos atraídos como uma débil mariposa ao
brilho enganoso do ter, do poder e do prazer que
acabam submetendo-se à força atrativa do “império
dos sentidos”.
Fascinados por um atraente discurso e um
exibicionismo sedutor, quase hipnotizante, tornam-se

1
Palavra de origem aramaica muito usada por Jesus especialmente para intervenção de
cura de alguma doença relativa aos sentidos. O seu significado quer dizer: Abre-te.
1
susceptíveis ao descontrole total das suas paixões e
não dominam mais sua vontade.
Colocam o querer acima do poder. O problema
não é mais o preço e nem dinheiro, ou ainda o quanto
custa, custe o que custar o importante é comprar, é
vender, é possuir; ter para exibir, não importa como eu
consiga o que vale é saciar minha vontade.
O sentido de pertença é elevado ao seu absoluto.
As palavras eu quero, eu preciso, eu posso, eu mereço,
eu me presenteio tornaram-se uma constante da
vontade. Não temos mais poder de controle sobre as
nossas vontades e paixões, transferimos às coisas o
poder e a força da decisão da posse.
Não somos nós que escolhemos, são as coisas
nos escolhem e nos submetemos à sua vontade.
Tornamo-nos coisificados pelo desejo dos objetos da
nossa vontade, juntos eles nos fascinam, nos atraem e
dominam nossos instintos.
Porém quanto mais possuímos, mais vazios nos
sentimos, quanto mais temos, mais insatisfeitos e
insaciáveis nos tornamos.
Chegamos ao ponto de maximizar o desejo; o
que mais me atrai e sacia minha vontade, não é
satisfazer-me com o que é meu, mas o que me aguça a
vontade e preenche o meu desejo é ter, é possuir, o
que não me pertence.
Desta forma cresce descabidamente a corrupção
nos diversos setores da vida social, há roubo, injustiça,
engano e morte. A raiz desse mal estar social tem
como diagnóstico o enfraquecimento das instituições,
a família, a Igreja o Estado, e a Educação.
Vivemos numa sociedade que prima pelo
consumo, seja de coisas ou de pessoas, elas me
satisfazem, enquanto servem e suprem meu desejo;

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passada a vontade, tudo se torna esquecido, velho,
obsoleto, descartável, é considerado como lixo.
Enfim acabamos por nos tornar cada vez mais
infelizes, melancólicos e abatidos, caminhamos pela
estrada da nossa história desmotivados e sem
esperança.
Diante dessa atual conjuntura existencial do ser
humano torna-se urgentemente necessário uma firme
e sincera mudança dos valores que norteiam as nossas
relações humanas.
A lógica que predomina nesse sistema de
relação é dominadora e controladora das nossas
vontades para manipular o nosso desejo, cria e orienta
nossas necessidades segundo o lucro.
Diante desse grande tsunami do capital e do
lucro, o consumo manipula cotidianamente a nossa
vontade e aguça nossos sentidos, alimenta nosso
apetite na busca de mais consumo.
É necessário posicionarmos o barco da nossa
existência de maneira diferenciada para enfrentarmos
esta grande maré.
Para nós carmelitas diante desta constatação,
remar contra essa maré é voltar ao essencial da
nossa vida cristã e carmelitana a fim de torná-la mais
humana possível. É reafirmar aqueles valores
absolutos e inalienáveis que recebemos pelo anúncio
da boa notícia do evangelho de Jesus Cristo.
Diante de tantas e más notícias que diariamente
recebemos, o evangelho é a boa nova da alegria e da
esperança para o mundo, tem a capacidade de mudar
na essência a nossa vida.
O evangelho por três milênios nos assegura
aqueles valores essenciais e reais da convivência
humana, tais como: a solidariedade, a justiça, a

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igualdade, a fraternidade, o cuidado com a ecologia e
a paz; coisas que a atual globalização não alcançou
como prática das suas ações, temas tão conhecidos
que servem somente de recheio para os discursos
políticos, porém pouco ou quase nada objetivados.
Entre os grandes dirigentes internacionais, essas ações
nunca se tornaram alvo de prioridades das grandes
discussões, prevalece sempre o interesse político e
econômico sobre a defesa da vida.
Aprendemos que a força do anúncio do
evangelho se sustenta na práxis desses valores
essenciais ensinados pelo Rabino de Nazaré. Jesus no
seu modo ser e agir no confronto com o homem do
seu tempo vivia e ensinava esses valores. Sua atitude
de vida continua válida para o homem de hoje, ela
deve ser para nós cristãos e carmelitas uma caixa de
ressonância no nosso modo de ser e agir no mundo.
As atitudes de Jesus de Nazaré são para nós,
mais que uma proposta de vida, é uma
provocação.
E neste Encontro das Monjas do Carmelo da
Sagrada Família vamos refletir, meditar, dialogar
com Deus e fazer uma auto-avaliação: A partir da
práxis de Jesus de Nazaré:

 De que forma vivo minha caminhada rumo à


santidade: sou individualista ou penso que há
muitos irmãos trilhando a mesma estrada
comigo?
 Como Carmelita Teresiano sou desejoso de
instaurar o reino de Deus entre nós ou será que
estou vivendo a espiritualidade carmelitana de

4
maneira narcisista somente para a minha auto-
satisfação e minha própria salvação?
 Tenho consciência que para instaurar o reino de
Deus entre nós ele deve começar pela minha
própria conversão e transformação?
 Como me comporto diante dos acontecimentos
adversos da vida, vejo a mão de Deus, ando na
presença do Deus vivo?
 Como carmelita estou revelando a face do Cristo
orante?
 Estou sendo um sinal de esperança no mundo?
 Sei unir-me aos outros para o serviço de Deus?
Eis o grande exemplo, o nosso vir-a-ser, encarnar
em nosso modo de ser e agir as atitudes de Jesus de
Nazaré. Ele era reconhecido pelos seus
contemporâneos como uma pessoa que somente fazia
o bem2, essa deve ser a nossa carteira de identidade
de cristão, e como carmelitas no dizer de santa
Teresinha: “passar fazendo o bem sobre a terra”, e
para isso não precisamos esperar chegar ao céu, mas
iniciar já aqui na terra esse pré-anúncio do reino.
O anúncio do reino pregado por Jesus vem
acompanhado de sinais de cura, salvação, libertação e
vida, são sinais que pré-anunciam o tempo da graça 3.
Em seu ministério público Jesus interpretava o ser
humano na sua totalidade, confrontava a sua tríplice
dimensão relacional:
 O homem na sua relação consigo mesmo. (o ser
pessoa)
 O homem na sua relação com o próximo. (com o
mundo)

2
Mt. 12, 12; Mc. 7,37; Lc. 6,27; At. 10,38.
3
Lc. 4,18.
5
 O homem na sua relação com Deus. (o
transcendente)
Vamos agora examinar nossas relações de maneira
mais abrangente:
 Na vida familiar e social procuro atentamente
discernir a ação de Deus na vida de cada pessoa
que convivo?
 Respeito os direitos e a dignidade de cada
pessoa e sou consciente de que Deus pode
também falar comigo através delas?
 Minha vida tem sido coerente com a justiça, com
a verdade, a fraternidade, e a bondade?
Sabemos que essa empreitada de mudanças
pessoais em nossa vida exige muito de nós.
Estamos conscientes que apesar das nossas
limitações é conosco que Deus conta e para tempos
difíceis como estes, são necessários pessoas de
espíritos robustos e firmes.
O nosso comprometimento com essas mudanças
deve iniciar a partir da conversão da nossa própria
existência, uma maneira diferente de ser, agir e
interpretar o mundo.
Para este tempo cheio de desafios, precisamos
no dizer de Teresa de Jesus, pessoas que sejam “fortes
amigos de Deus”; pessoas que tenham capacidade de
sair do conforto do seu eu e desinstalar-se, sair de si
para ir ao encontro do outro.
É diante desse panorama existencial da grande
família global na qual estamos inseridos, sistema da
qual fazemos parte integrante, e sofremos as
conseqüências dos seus malefícios, mas também
usufruímos dos seus benefícios, é nessa sociedade que
queremos pela força da fé que professamos resistir a
6
todos os sinais que expressam a força do anti-reino de
Deus.
Queremos a partir do evangelho que “é força de
Deus para aqueles que nele crêem” resistir a essa
corrente opositora, que escraviza, oprime e mata a
vida natural e sobrenatural do ser humano.
Vamos nos comprometer com o evangelho da
vida, ele tem a capacidade de libertar e não
escravizar, levantar e não derrubar, curar e não ferir;
contém em si palavras de vida e não de condenação e
morte.
Com esta pequena reflexão, queremos inverter a
lógica dos nossos sentidos, do qual constantemente
somos constrangidos a viver. Queremos neste
encontro recuperar a nossa força para que possamos:

 Deixar o ter, a posse, o consumir, o comprar


demasiadamente e inutilmente, para escolher
uma vida mais simples, sóbria e moderada.
 Renunciar o poder, a autoridade e o mando, para
preferir a gratuidade, a oblatividade e o
voluntariado, a serviço do bem comum.
 Trabalhar o prazer egoísta, interesseiro e
enganador, a fim de que ele se transforme em
prazer da alegria, da castidade, da pureza, do
afeto e da ternura sem medo e preconceito.
 Deixar a busca insana e exibicionista do status
social, dos títulos e da fama a fim de ser
aclamado, conhecido e aceito por todos, para
viver no anonimato, no escondimento, na solidão
e no silêncio.
Queremos a partir da fé que professamos,
radicada no grande exemplo do rabino de Nazaré e da

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sua Mãe santíssima, interpretar essa dolorosa
realidade através da Palavra de Deus.
Como Carmelitas Teresianos, queremos através
dessa grande Escola de Espiritualidade do Carmelo do
Descalço, que constituiu uma fileira extensa de
santidade para a Igreja, ter na experiência dos seus
santos e santas um mapa orientador para poder
discernir e conhecer melhor o ser humano.
A Espiritualidade do Carmelo Descalço, ao longo
da sua história, formou pessoas dotadas de santidade
e com uma larga experiência de conhecimento da
alma do ser humano. Se para o doente do corpo são
necessários doutores e médicos, assim para o enfermo
na alma são necessários doutores em santidade.
As experiências humanas e divinas dos santos,
que no seu tempo e ao seu modo, viveram os grandes
desafios humanos de sua época, continuam ecoar
como experiência válida e sempre atual para
interpretarmos o ser humano. E para conhecermos
mais este universo humano que é o homem vamos
desconstruir a sua história.

1. Desconstruindo a nossa própria história.


(Dimensão ad extra: perspectiva em relação ao mundo)

“Desconstruir para construir, derrubar para reerguer,


criticar até os fundamentos para recolocar
fundamentos e realizar um novo modo de existência,
esta é a tarefa “messiânica” do verdadeiro
conhecimento crítico, sua missão redentora e
instauradora de um futuro mais humano. A
consciência, no entanto para ser crítica, deve também

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criticar a si mesma, observar com distancia crítica as
suas próprias condições”. 4

I. A desumanização do Homem.
Vamos começar refletindo primeiramente sobre o
grande problema do qual a humanidade passa e os
seus desafios para podermos enfrentá-los. Como
cristãos e carmelitas queremos ter uma atitude
diferente nessa sociedade tão desumanizadora. Nosso
primeiro enfrentamento que iremos refletir é: a
desumanização do homem.
Rezaremos neste momento a oração em
Preparação para a V Conferência Geral do Episcopado
Latino-Americano e Caribenho em Aparecida, em SP.

II. O Homem: Rosto Humano de Deus.


É este rosto humano que vem passando por um
lento processo de desumanização, vem sendo
desfigurado da sua dignidade criadora de imagem e
semelhança divina. Faz-se urgentemente necessário
unir nossas forças em defesa e proteção da vida na
sua totalidade. Necessitamos de pessoas que ensinem
o ser humano a arte de amar e verdadeiramente viver
e amar. Precisamos recuperar o legado da família
como Escola de amor e vida e a Igreja como portadora
do múnus5 de Escola de santidade, sua missão e de
santificar a humanidade.

4
Revista Convergência: Do “amor à sabedoria” a “sabedoria do amor” – Consciência
“critica” em tempos “pós-críticos” – Frei Luiz Carlos Susin.
5
Palavra de uso eclesiástico, referente aos sacramentos. Tarefa, dever obrigatório de um
indivíduo; encargo, obrigação.
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III. Fome, Miséria e violência.
Diante de tantos sinais de morte que nos cercam
e dos mais desastrosos conflitos de desumanização do
homem, preocupa-nos a morte de milhões de irmãos
que são devorados pela fome, pela miséria, pela
violência.
Preocupa-nos ainda a morte moral de outros
tantos milhões de irmãos que vivem na trivialidade do
ter, do poder e do prazer, atingidos cegamente pela
superficialidade, pela banalidade e profundamente
enraizados no seu egoísmo.

IV. A inércia e passividade.


Vivemos no tempo da inércia e da passividade,
estamos na era do vazio, na época onde encontramos
tudo pronto e pré-fabricado, não precisamos fazer
nada, estamos perdendo a capacidade criativa do novo
e isso reflete profundamente no íntimo da nossa
existência. Esforçamo-nos para crescer por fora, a
superficialidade se apresenta como um ideal de vida,
as grandes aspirações humanas reduzem as nossas
buscas e projetos de vir-a-ser em somente ganhar
muito dinheiro, ficar famosos e aparecer na televisão.

V. Vazio: o nada.
Continuamente precisamos preencher os
espaços de vazios da nossa vida com coisas, imagens
ruídos, sabores e aromas para nos satisfazer e nos
completar. Com isso estamos produzindo pessoas
anêmicas para a vida social. Quanto à vida de fé e a
prática da espiritualidade existe um contingente
enorme de “cristãos anões”, e na vida eclesial uma
doença que se alastra é o “nanismo espiritual”.
Estamos produzindo uma geração externamente bem
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alimentada, sarada, robusta, grande na sua estatura
externa, porém debilitadas, enfraquecidas e anêmicas
na alma, grandes por fora e anões por dentro.

VI. Muros divisórios.


Segue ainda mais os desafios da nossa
desconstrução. Em nossa maneira de viver e enfrentar
a realidade fazemos de conta que somos fortes e
corajosos, entretanto não conseguimos esconder
nossas inseguranças e medos, acabamos por construir
grandes masmorras de segregação nos nossos
relacionamentos, nos tornamos cada vez mais
solitários e temerosos.
A sociedade atual encontra-se doente,
insensível, e cansada, em vez de enfrentar a sua
doença, entrega-se lentamente a dependência do
consumo desenfreado do álcool, às drogas e a internet,
se encontra cada vez mais entediada e inerte diante
da televisão vendo a história passar.

VII. O “homem light”.


Estamos criando o “homem light”, superficial e
narcisista, entregue ao dinheiro, ao poder, ao gozo
ilimitado. Tudo nos convida ao descompromisso, não
temos tempo para os valores absolutos, porém nos
entregamos freqüentemente às frivolidades.
A vida se apresenta cada vez mais cômoda, a via
escolhida é sempre a do menor esforço, preferimos o
meio termo, pois a mediocridade está na moda.
Traçamos caminhos sem meta sobre projetos
inconsistentes e a superficialidade se propõe como um
valioso ideal de vida.

VIII. Máscara e aparências.

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Vivemos num tempo de aparências, nossa vida e
os nossos relacionamentos tornaram-se como um
grande simulacro arquitetônico. Como aqueles edifícios
antigos do qual se destrói tudo por dentro e se
conserva somente a fachada. E assim é o
procedimento humano estamos vivendo de fachada, o
que conta é estar bem maquiado, bem mascarado,
enfeitamos com subterfúgios o nosso verdadeiro rosto,
falseamos a realidade e findamos por nos auto-
enganar.

XI. Os Heróis.
Os nossos heróis se tornaram cada vez mais
efêmeros, passam tão depressa como a moda e a
música, tornam-se rapidamente um rótulo uma marca
para serem consumidos. Os meios de comunicação são
especialistas em criar e recriar esse tipo de modelo de
herói descartável, esses são os modelos passageiros
que são apresentados a esta geração para serem
imitados e seguidos.
Esses heróis efêmeros são gerados nos diversos
setores da vida social, seja na política, na religião, na
arte e principalmente na televisão e na música,
pessoas admiravelmente vazias e inóspitas,
verdadeiros zangões sociais.
6

6
Macho de diversas sociedades de abelhas sociais, caracterizado pelo porte superior às
operárias e ausência de ferrão. Alheio às atividades de manutenção da colméia, não
produz mel e possui apenas papel reprodutor.
Derivação: por metáfora: Uso: pejorativo. Indivíduo que vive a expensas de outrem, ou
explorando de forma constante benefícios ou favores alheios; um parasita.

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Mas também podemos encontrar alguns
lampejos de esperança e resistência no meio desta
sombra que paira sobre os nossos heróis, apesar de
serem pouquíssimos ainda existem aqueles que
orientam a sua produção cultural e de fé para o
fortalecimento de uma sociedade mais humanitária.
Contamos com algumas vozes que se levantam.

XII. As motivações.
Outro problema para enfrentarmos são os
distanciamentos o enclausuramento social e falta de
compromisso. Estamos sempre fugindo de qualquer
compromisso que não vise lucro, status social, ou
promoção pessoal; somos especialistas em fugas e
desculpas, a falta de tempo é sempre nosso melhor
argumento, porém o mais inconsistente.
Precisamos ser empurrados pelos outros e nos
cansamos e desanimamos com muita facilidade.
Somos especialistas para iniciar, no fazer muita coisa,
mas são poucas aquelas que conseguimos terminar
bem feito (academia, caminhada, violão, aulas de
informática, etc. sem contar aquelas referentes à vida
eclesial e na vida espiritual).

XIII. O próximo distante.


Comunicamo-nos pela internet com pessoas lá
do outro lado do mundo, mas cada dia conhecemos e
falamos cada vez menos com os nossos vizinhos. O
telefone celular tornou-se algo imprescindível, mas
cada dia conversamos menos com nossos irmãos, não
temos tempo para uma conversa olho no olho.
Atualmente o que está afastado e longe esta cada vez

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mais perto e o que está perto está cada vez mais
longe.

XIV. A crise da palavra.


Sabemos cada vez menos, estamos nos
afastando do verdadeiro conhecimento e da sabedoria.
Sabemos muito e de muitas coisas, mas cada vez
entendemos e sabemos menos. A lógica do consumo
destrói a cultura, a palavra cada vez mais está mais
esvaziada de sentido, precisamos de profetas, de
palavras valentes, comprometidas com a defesa da
vida, que incendeiam corações e que guiem os nossos
passos por caminhos de plenitude. Estamos cansados
de palavras vazias, basta de tanto palavreado oco, de
tanta mentira e tanta frivolidade, de palavras sem
alma dos discursos políticos e sermões religiosos, de
palavras sem sabedoria do ensino dos professores e
mestres, palavras intoxicadas pela retórica do
academicismo, palavras estúpidas e banais das
publicidades da TV. Estamos aturdidos por conversas
vazias e sem alma, estamos cada vez mais
incomunicáveis, tristes isolados, sem possibilidade de
nos encontrar.
Precisamos de palavras com as quais podemos
sacudir as consciências, animar, levantar, entusiasmar,
provocar ímpetos de ousadia. Devemos nos arriscar ou
então nos calar, desanimar e sufocar a palavra.

XV. Deus: Rosto divino do homem.


A humanidade vem passando de maneira insana,
por profundas e dolorosas mudanças, podemos chamá-
la de “um processo de desumanização” e diante desta
triste constatação, a Igreja jamais perdeu a esperança

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no homem. Ela sempre foi para a humanidade um farol
orientador que ilumina a todos nos momentos mais
difíceis e exigentes da nossa história. Diante de tantas
más notícias a Igreja não tem outra proposta, nem
outro projeto para nos apresentar a não ser o
evangelho da vida.
A Igreja se compromete e renova sempre seu
compromisso com o anúncio da boa-notícia de Nosso
Senhor Jesus Cristo. E nós queremos hoje renovar a
nossa adesão de fé, única, preferencial e exclusiva
pelo evangelho de Jesus de Nazaré, para que, a partir
da palavra de Deus, podemos mudar o curso da nossa
história.

2. Reconstruindo a nossa história.


(Dimensão: ad intra: perspectiva vista a partir do ser humano)

“Saindo de novo do território de Tiro, seguiu em direção do mar da Galiléia, passando por Sidônia e
atravessando a região da Decápole. Trouxeram-lhe um surdo que gaguejava, e rogavam que
impusesse as mãos sobre ele. Levando-o a sós para longe da multidão, colocou os dedos nas
orelhas dele e, com saliva, tocou-lhe a língua. Depois, levantando os olhos para céu gemeu e disse

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Effatha, que quer dizer “abre-te” Imediatamente abriram-lhe os ouvidos e a língua se lhe
desprendeu e ele falava corretamente.
Ele tem feito somente o bem; faz tanto os surdos ouvirem como os mudos falarem”
Mc. 7,31-37.
I. Reeducação dos Sentidos.
Iniciaremos nossa reflexão desconstruindo nossa
história, vamos repensá-la e repassá-la por um
processo de reconstrução na ótica de Jesus de Nazaré.
Nesta ótica seremos auxiliados pelo exemplo dos
santos do Carmelo.
Ao longo da história da salvação Deus suscitou
no meio do seu povo pessoas destemidas e corajosas
para escreverem uma verdadeira história de amor
entre Deus e a humanidade, entre erros e acertos
assim caminhou o homem. Entretanto, chegada à
plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, a
palavra encarnada do Pai para reescrever e recapitular
esta história de amor e salvação em Jesus Cristo.
Jesus de Nazaré é a palavra encarnada do Pai na
história humana. Sua missão entre os homens é de
salvador da humanidade, este é o verbo do qual Deus
vai conjugar a história humana.
Jesus é o mestre da palavra, o rabino dos pobres,
mas é também o construtor da história, a “pedra
angular” a reconstrução e soerguimento de um mundo
novo.
A Igreja jamais perdeu a sua esperança no
homem, Deus continua a suscitar no meio do seu povo
sinais de esperança, homens e mulheres que apontem
caminhos novos, caminhos de santidade.
João da Cruz e Teresa de Jesus são para nós
carmelitas duas setas indicativas de orientação. Seus
olhares estão voltados para a terra, mas seus corações
estão voltados para Deus. A vida de João da Cruz e
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Teresa de Jesus são sinais que apontam para Deus e
nos ajudam na reconstrução da história humana.
João da Cruz, este carmelita do século XVI, mais
que um doutor místico, é um profundo conhecedor do
ser humano, um doutor em humanidades.
Sua voz ecoa silenciosamente ao longo da
história, mas fala com a firmeza e autoridade de um
tenaz profeta de Deus, fala ao homem do seu tempo
como quem conhece o ser humano ao largo do espaço
e no tempo da história.
Sua mensagem é um firme diagnóstico do
homem do nosso tempo, principalmente para este
momento histórico que estamos vivendo, do qual
precisamos com urgência:
 Homens e mulheres com sentidos proféticos para
interpretar a história.
 Homens e mulheres que levantem os corpos
cansados pelo desânimo dêem firmeza e
compasso os pés vacilantes dos temerosos,
 Homens e mulheres que abram caminhos de
esperança, e sacudam as nossas consciências e
nos dêem um alento novo.
 Homens e mulheres que sejam protagonistas de
um novo tempo e possam escrever uma história
diferente desta qual vem sendo escrita.
Para construirmos uma história diferente será
necessário reconstruirmos as nossas relações na ótica
de Jesus de Nazaré. Ele é nosso modelo exemplar,
pois, “sendo Filho de Deus, assumiu nossa condição
humana em tudo, exceto no pecado”, veio para
“derrubar o muro de separação” entre o céu e a terra,
encurtou os distanciamentos entre o reino de Deus e a
cidade dos homens.
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Vamos iniciar essa nossa grande empreitada de
transformação do mundo transformando a história da
nossa própria existência. Devemos primeiramente
passar por um processo de desconstrução dos nossos
conceitos, isto é, desmontar nossa maneira de ser, agir
e pensar. Alerto, entretanto que esse processo de
desconstrução não é uma destruição do nosso ser
pessoa; uma total demolição da nossa constituição e
dos fundamentos básicos da nossa construção, isso iria
contra o humanismo teresiano tão defendido por João
da Cruz e Teresa de Jesus.
Vamos agora refletir naquilo que será preciso
desconstruir em nós, aquilo que é preciso mudar na
nossa maneira de:
 Ser e agir no mundo,
 Reformular nossos conceitos tão cristalizados e
imutáveis,
 Transformar o nosso modo de pensar e refletir,
 Mudar a forma ingênua de interpretarmos o
mundo,
 Vivenciar de forma piedosa e piegas o modo de
viver a nossa fé.
 Sair da inércia do meu mundo ideal para ir de
encontro das ações do nosso mundo real.
Essas mudanças nos tornarão aptos para
poderemos reiniciarmos a nossa reconstrução humana.
Não podemos derrubar aquelas estruturas
fundamentais de sustentação de nossa vida humana e
religiosa, o ser humano não é totalmente
inaproveitável, ao contrário, nele existe estruturas
básicas, e este é o nosso mapa de orientação que
queremos reencontrar, isto é, a planta original do
nosso modo de vir-a-ser no mundo.

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A nossa desconstrução deve nos levar a
reencontrar os fundamentos basilares da nossa
formação humana, reencontrar esses fundamentos
que para nós carmelitas teresianos, é voltar ao
essencial, recuperar valores adormecidos e quase
esquecidos, escondidos no fundo do baú da nossa
existência, é dele “o Senhor vai descobrindo coisas
novas e retirando as coisas velhas”, basta que
tenhamos a coragem e ousadia de confiar-lhe a chave
da nossa existência às mãos divinas.
Ele virá para limpar a eira porque só Ele tem a
força capacitadora de “fazer novas todas as coisas”.
Iniciamos este segundo momento da nossa
reflexão a partir de um novo “novo effatha” (abre-te)
de Jesus em nossa vida, isto é, uma nova abertura
para Deus. Deixar que a autoridade deste “novo
effatha” de Jesus abra as nossas consciências para
uma nova conseqüência do nosso ser e agir no mundo.
Sabemos que ao longo do ministério público de
Jesus de Nazaré ele abriu os sentidos humanos dos
seus contemporâneos para que eles pudessem
contemplar o limiar de um novo tempo de libertação
(Mc. 7,31-37). Jesus começa desamarrando os sentidos
do ser humano para que eles pudessem ver, ouvir,
sentir, tocar, para proclamar e anunciar o Verbo da
vida, a chegada do limiar de um novo tempo, tempo
da graça e da libertação.
Na Espiritualidade do Carmelo Descalço, João da
Cruz em seus ensinamentos também nos apresenta
um itinerário de desconstrução e reconstrução do ser
humano, onde a alma que busca a Deus pela fé vai
iniciar na Subida do Monte Carmelo, uma verdadeira
via de purificação dos sentidos.

19
Esse caminho que João da cruz nos propõe, é um
“novo effatha” dos nossos sentidos, ele segue a
práxis de Jesus de Nazaré, traça um novo
redirecionamento, uma nova pedagogia para educar a
nossa maneira sensitiva de ver, ouvir, pensar e
interpretar o mundo e a nossa realidade.
A sua maneira terna e mansa de falar nos
provoca, nos leva a refletir sobre esse tema, que se
converte em uma proposta humanamente possível
de se realizar.
A reeducação dos sentidos apresentada por João
da Cruz não é uma maneira tirânica de conversão, não
é uma proposta coercitiva, ele se opunha
decididamente ao formalismo e a desumanidade do
estilo de espiritualidade de sua época, principalmente
contra aqueles diretores espirituais que ele comparava
a “ferreiros espirituais”.
João da Cruz criticava esse tipo de pedagogia
espiritual que ele comparava ao procedimento dos
ferreiros, que batiam com força na barrela de ferro até
imprimir-lhes o molde segundo os seus desejos.
As almas nas mãos desses diretores espirituais
tornavam-se suas vítimas, forçavam-nas até adaptá-
las aos seus conceitos, forjando-as segundo o seu
modelo convencional de perfeição ascética. Sabia
muito bem que essa espécie de ascetismo é um sério
defeito, porque não passa muitas vezes, de expressão
do mais incorrigível orgulho espiritual.
A clareza e a lógica desse carmelita revelam o
seu insuperável conhecimento experimental nas coisas
de Deus e do procedimento humano, isso faz dele o
maior e o mais seguro de todos os teólogos e místicos.
Para empreendermos uma nova pedagogia dos
sentidos segundo os ensinamentos de João da Cruz, e

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para vivermos mais plenamente a nossa humanidade,
é necessário passarmos por um processo de
esvaziamento da nossa parte sensitiva.
Essa experiência será como abrir o ralo da nossa
própria existência a fim de que saia toda água parada
e suja, para que venha o Senhor que é uma fonte de
água límpida e pura que “mana e corre” mesmo nas
noites escuras dos nossos sentidos, venha com o seu
“effatha” e abra a torneira da sua graça para que a
água nova tome posse de todos os espaços vazios da
nossa vida.
Esta abertura para Deus é uma experiência de
esvaziamento, um tema muito caro para são João da
Cruz: o Tudo que é Deus e o nada do ser humano se
encontram. Deus ao criar o homem faz uma
experiência de esvaziamento, porque ao criar ele sai
de si, tira um pouco de si e se doa. Em contrapartida o
homem ao ser criado por Deus participa do TUDO que
é o próprio Deus, não se esvazia, mas é gratuitamente
preenchido por Deus.
O processo pedagógico de João da Cruz tem a
intenção de conduzir o homem a um total
esvaziamento de si, até chegar à experiência plena do
seu nada, em seguida ele vai preenchendo nosso vazio
com o tudo de Deus.
Poeticamente João da Cruz vai desconstruindo o
homem velho e com o auxilio divino vai reconstruindo,
redesenhando, recriando o rosto do ser humano
segundo a imagem e semelhança divina, eis o
processo de transformação:

Para vir a saborear TUDO – Não queiras ter gosto em NADA.


Para vir a saber TUDO – não queiras saber algo em NADA.
Para vir a possuir TUDO – Não queiras possuir algo em NADA.
Para vir a ser TUDO – não queiras ser algo em NADA.
Para vir ao que não GOSTAS – há de ir por onde não GOSTAS.
Para vir ao que não SABES – hás de ir por onde não SABES.
21
Para vir a possuir o que não POSSUIS – hás de ir por onde não POSSUIS.
Para chegar ao que não ÉS – hás de ir por onde não ÉS.
Quando reparas em algo – deixas de apropriar-te do todo.
Para vir de todo ao tudo – hás de deixar-te de todo em tudo.
E quando venhas de todo a ter – hás de tê-lo sem nada querer.

Doxa Kenosis
(Gloria=Ascensão)
(Aniquilamento=rebaixamento)
(Para chegar de todo ao tudo) (Hás de tê-lo sem
nada querer)

O tema do nada e da negação permeou toda a


vida de João da Cruz, esta experiência, principalmente
nos últimos momentos de sua vida em Úbeda. João da
Cruz foi um homem experimentado pelo sacrifício.
Atualmente somos educados somente para a
posse, qualquer proposta que venha precedida da
palavra não é interpretada como afronta,
impossibilidade, negação de direitos, não somos
educados para saber perder ao contrário única
exclusivamente para ganhar, somos produto de um
mundo essencialmente competitivo.
A espiritualidade do Carmelo Descalço vai
trabalhar justamente com esse paradoxo, nas palavras
de Edith Stein: “saber perder para ganhar”, a perda
dificilmente é refletida como uma possibilidade, como
algo possível de ser encarado e vivido para se alcançar
um objetivo e acabamos pecando pelo excesso.
A proposta de João da Cruz a partir do nada, e
da negação, quer nos ensinar que para se chegar ao
TUDO, isto é, o TUDO que não é efêmero, que não é
algo coisificavél, sensitivo, mensurável, ouso ainda
afirmar, o TUDO que não é comprável, esse TUDO é
DEUS, e Deus é espírito, transcendente, eterno,
divino.
Esta é uma proposta que busca fazer-nos
pessoas mais fortes e robustas na vida espiritual, a fim
22
de que a vida material não nos torne escravos do ter,
do poder e do prazer.
João da Cruz diz que para o homem chegar a
Deus, é necessário que seja totalmente livre, pois
como afirma: “se um pássaro está atado, por mais que
seja, somente por um frágil e fino e fio, ele sempre
será um pássaro amarrado, e não poderá alçar vôos
mais elevados”.

II. Desprendimento das amarras.

O homem ao aproximar-se de Deus sai da sua


condição efêmera e se lança na aventura do Eterno,
deixa a mentira em busca da Verdade, passa da morte
à Vida, do nada ao Tudo, da finitude ao Infinito.
Se os sentidos ao longo da nossa experiência
humana tornaram-se uma amarra, a mão divina pode
suavemente desatá-lo como se fosse um simples laço.
A nossa união com Deus não depende de nós,
não somos nós que procuramos a Deus, é Deus
primeiramente que nos procura, assim afirma João da
Cruz: “quanto mais o homem busca a Deus, muito
mais Deus busca o homem”. São duas vontades
orientadas para um mesmo fim, a vontade de Deus
que busca o homem, e a vontade do homem que
busca a Deus.
Porém a causa movente primeira é sempre Deus,
a ação inicial do movimento desse encontro entre
Deus e a humanidade, é sempre Deus a causa de
atração. Ele sai de si e vem ao nosso encontro.
É um Deus que fala, ouve, caminha conosco,
um Deus que vê os nossos sofrimentos e alegrias,
participa da nossa história, sacia nossos sentidos
mesmo às escuras. É um Deus que dá gosto e sabor

23
à nossa vida, pois se tornou comida e bebida, alimento
eucarístico, podemos tocar, sentir sua presença
através desses sinais sensíveis da sua graça. Pelos
sentidos, Deus se doa a nós, ele nos toca e nós
podemos tocá-Lo pela força da fé, esses sinais nos
dão novo alento, nos colocam em sintonia e em
comunhão de sentimentos.
Estamos diante de um grande desafio, reorientar
nossos sentidos em busca do essencial, do sumo bem
que é Deus. A primeira constatação que João da Cruz
faz sobre Deus é que ele é: “noite escura” para a
alma nesta vida. (I Sub. 2-1).
Esta “noite escura” ou ainda conhecida como a
“noite da purificação dos sentidos” tem a
seguinte tarefa: “A purificação leva a alma à união
com Deus pode receber a denominação de noite por
três razões”.
 1° Renunciando a tudo o que possuía, a alma
priva-se da vontade (apetite) de todas as coisas
do mundo, pela negação delas.
 2° Quanto ao caminho tomar para se atingir o
estado de união com Deus. Este caminho é a fé,
a noite verdadeiramente escura para o
entendimento humano.
 3° Destino último da alma: Deus é um ser
incompreensível e infinitamente acima das
nossas faculdades.
 Conclusão: “Por estas três noites há de passar a
alma a fim de chegar à divina união”.
A razão desta “noite, não é outra senão somente
esta: Deus transcende a toda realidade sensível; é
espírito puríssimo. Por isso, somente transcendendo

24
esta realidade existencial chegaremos a Ele”. Repetirá
São João da Cruz:

 Quando reparas em alguma coisa,


Deixa de arrojar-te ao tudo.
 Porque para vir de todo ao tudo,
Hás de negar-te de todo em tudo.
 E quando vieres a tudo ter,
Hás de tê-lo sem nada querer.
 Porque se queres ter alguma coisa em tudo
Não tens puramente nada em Deus teu
tesouro.
É na constatação dessa realidade onde começa a
história e a aventura da alma enamorada que busca a
Deus. Sente na alma o desejo de buscar a Deus, não
para saber e conhecê-lo através de curiosidade
intelectual ou especulação filosófica, senão para
vivenciar e reverenciar a realidade divina na sua
própria humanidade.
Viver a vida divina não é outra coisa senão, viver
uma vida teologal, fundada na fé, na esperança e no
amor, esta é a vida em Cristo. A “experiência de Deus”
não algo que caminha a margem da experiência
cotidiana como, andar, comer, chorar, estudar
trabalhar, ser pai, ser mãe, filhos etc. Não é uma
experiência que está à margem desses
acontecimentos da vida cotidiana, mas é justamente a
maneira de podermos experimentar em todos esses
momentos a condição divina que permeia a as nossa
escolhas e história da nossa humanidade.
Precisamos esclarecer um pouco o que venha a
ser este “evento da fé” na vida humana que
chamamos de “experiência de Deus”, para João da
Cruz, não é através da força humana que se chega até
25
Deus, o movimento primeiro de aproximação é sempre
divino, é Deus que se aproxima do homem. Neste
sentido não é o homem que faz a “experiência de
Deus”, mas “o homem é uma experiência de Deus” é
Deus quem faz uma experiência divina em nossa
humanidade. Quanto mais nos humanizamos mais
divino nos tornamos.
A experiência de Deus que podemos também
chamar de experiência mística é o encontro de duas
vontades, a vontade divina de se revelar ao homem, e
a vontade humana de encontrar a Deus. O movimento
divino de busca e encontro é ao mesmo tempo, o
movimento de um Deus velado (escondido) e revelado
(manifesto).
Deus é coberto de mistério, ao mesmo tempo em
que se revela, é sempre um Deus escondido. Esta é a
pedagogia divina para atrair-nos, ele manifesta ao
homem somente uma pontinha muito pequena do
grande aiceberg daquilo que ele é realmente, mostra
um lampejo da sua glória para atrair-nos.
Este é o modo de Deus revelar-se a nós, essa
revelação é ao mesmo tempo encoberta e escondida,
é por este mistério que ele atrai o homem pela fé. “É
pela experiência da fé que se des-cobre algo que
estava justamente ali em-coberto, escondido, uma
realidade invisível escondida no visível e que se me
oferece com um sentido e uma significação última”.7
Deus é noite, e noite dos sentidos para se chegar
a Deus, afirma João da Cruz, porém devemos ter muito
cuidado com esta afirmação de que os sentidos nos
privam da possibilidade de se alcançar a Deus.

7
La experiencia de Dios: “Decid si por vosotros há pasado”, Revista de Espiritualidade nro
253, p. 455.
26
Devemos estar atentos, eles podem nos enganar
sim, e até falsear uma realidade, mas João da Cruz não
afirma que os sentidos são de todo negativo, pois esta
é uma constituição essencial do ser humano, não
afirma que se deva suspender todos os sentidos para
se chegar a união mística com Deus.
O próprio autor era uma pessoa que valorizava
muito os sentidos e sentimentos ordinários das
pessoas e das coisas, o que João da Cruz postula é
uma reeducação, redireciomento, uma conversão dos
nossos sentidos para se chegar a uma mais autêntica
comunhão com Deus.
Esta pedagogia de João da Cruz é muito atual e
necessária para este tempo presente do qual somos
cotidianamente assediados, manipulados e orientados
pelos nossos sentidos. Para este novo tempo
precisamos dar um novo sentido a nossa constituição
sensorial, reeducá-los, reorientá-los, enfim evangelizá-
los.

Para um novo Effatha dos sentidos.

 Adição: Ouvidos (parte corpórea)

27
Auscultar 8e Perscrutar9 = nos leva ao Conhecimento
(parte cognitiva).
O Ensino: Catequese e homilia.
 Visão: Olhos (parte corpórea)
Ver e Contemplar = nos conduz a Reflexão (parte
visiva).
A meditação: Fazer refletir na alma e no
conhecimento a realidade externa.

 Tato: Mãos (parte corpórea).


Tocar e Sentir = nos leva à Analise (parte sensitiva).
Os sacramentos: Sinais visíveis e sensíveis da
graça de Deus.
 Paladar: Língua (parte corpórea).
Degustar e Mastigar = nos ajuda na Experimentação
(parte expressiva).
A Palavra: verbalização dos sentimentos,
pensamentos e desejos: o anúncio.
Olfato: Nariz (parte corpórea)
Respirar e Inspirar = nos vivifica na
Espiritualidade (parte espiritual).
A Oração: trato de amizade e troca de
sentimentos com quem sabemos que nos ama.
Reeducar os sentidos é uma virtude
(virtus=força), ela nos capacita a um reordenamento
8
Escutar para identificar, ouvir diretamente, procurar saber; inquirir; investigar auscultar,
para formar sua opinião.
9
Tentar conhecer, procurar penetrar no segredo das coisas. Ex: vivia perscrutando os
mistérios da
devoção religiosa, perscrutava todos os rostos, na ânsia de melhor conhecer a alma do
homens
28
da nossa parte sensitiva, porque:“a virtude produz
suavidade, paz, consolação, luz, pureza e força, assim
como o apetite desordenado causa tormento, cansaço,
fadiga, cegueira e fraqueza”. (I Lv. Sub. XII, 5).
Evidentemente, quem anda metido nesses
apetites não anda em Deus e por si só não pode ver o
que Deus lhe pede. Eis a tarefa dos diretores
espirituais, orientá-los como ocupar, trabalhar, e
reorientar os sentidos, através de uma ascese
pedagógica no qual a mortificação seja entendida não
como penalidade coercitiva da liberdade mas escolha
livre, opção integradora de um ser humano mais pleno,
que saiba fazer as suas escolhas.
Aqui é onde a aventura de Deus começa a ter
consistência. Somente depois de apaziguar todos os
quereres é que a alma se posiciona a caminho do
encontro com Deus no cantar da alma: “Saí sem ser
notada, estando já minha casa sossegada”.
João da Cruz quer dizer que, a partir desse
momento, “somente Deus é o que se há de buscar e
conquistar”. Mas ele nos alerta, buscar a Deus na alma
não é o buscar a si mesmo: “ quem não busca
somente a Deus, busca somente a si mesmo” e quem
somente faz isso busca satisfações e recreações com
aquilo que não é Deus.
O exercício de sair à procura de “Deus em si”,
não é somente querer libertar-se disso e de outras
coisas por Deus, é também “inclinar-se a escolher, por
amor de Cristo, tudo quanto há de mais áspero, seja
no serviço divino, seja nas coisas do mundo: isto sim,
é amor de Deus” ( II Lv. Sub. VII, 5).
Esta é a condição daquele que começa a subir o
Monte Carmelo, o monte da fé, a condição é esta: “a
alma para ser digno altar de Deus, jamais há de

29
carecer do amor divino, nem tampouco há de mesclá-
lo com qualquer outro amor”, pois esse mesmo Senhor
“não consente que outra coisa more juntamente com
ele no mesmo altar”.
Esclarece João da Cruz que o único desejo que
Senhor admite consigo na alma é o guardar a Lei
divina do amor e levar a cruz de Cristo consigo: “A
alma, cuja única pretensão é cumprir perfeitamente a
lei do Senhor e carregar a cruz de Cristo, tornar-se-á
uma arca viva, que encerrará o verdadeiro maná, o
próprio Deus, quando chegar a ter em si esta lei e esta
vara perfeitamente, sem mistura de outra coisa” (I Lv.
Sub. V. 8}

Frei Geraldo Luis


Boletini ocd.
Convento São João da Cruz
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