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TRANSFORMA MEU PRANTO EM DANÇA

Cinco passos para sobreviver à dor e redescobrir a felicidade

HENRI NOUWEN

Tradução de B e a t r i z G o t a r d e l o F r a g a M o r e i r a

THOMAS NELSON BRASIL


Rio de Janeiro 2007

Sumário
Agradecimentos
Prefácio
Introdução

CINCO PASSOS EM TEMPOS DIFÍCEIS


Saindo de Meu Eu para um Mundo mais Amplo
Agarrar e Soltar
Do Fatalismo para a Esperança
Da Manipulação ao Amor
Da Morte Temível para a Vida de Gozo
Notas

Agradecimentos

Meus melhores agradecimentos a Maureen Wright e a Sue Mosteller, do Henri


Nouwen Literary Centre, e a Gabrielle Earnshaw, do The Henri J. M. Nouwen
Archives and Research Collection, da Biblioteca John M. Kelly da Universidade de St.
Michael’s College, em Toronto. É quase dispensável dizer que este livro jamais viria à
luz sem elas. Agradeço, ainda, a John Mogabgab, por seu enorme encorajamento, e a
Robert Jonas, pela permissão para compartilhar a sua história.

Prefácio

“Não será suficiente" — imaginei — "visitar só os arquivos." Compilar Transforma


Meu Pranto Em Dança iria requerer uma dedicação mais profunda de minha parte.
Eu iria, logicamente, selecionar dentre as centenas de páginas de anotações das
conferências e dos sermões transcritos que Henri Nouwen havia deixado arquivados em caixas
enfileiradas em prateleiras. Eu tinha plena confiança de que esses arquivos, com escritos inéditos
do sacerdote e escritor, forneceriam amplo material para um livro. Décadas de leitura dos livros de
Nouwen sobre a vida espiritual e o ministério em um mundo necessitado demonstraram o grande
interesse que ele possuía pela oração e sua percepção da natureza humana. Isso eu já sabia. Mas
desejava obter um conhecimento maior de Nouwen. Enquanto trabalhava com o material
arquivado queria absorver mais da presença pastoral que estava por detrás daquelas páginas
manuscritas e notas datilografadas.
A oportunidade veio-me por acaso. Meu amigo John Mogabgab, assistente de Henri
durante seus anos na Yale Divinity School e atualmente editor do apreciado jornal Weavings,
sugeriu-me que também visitasse Daybreak, a comunidade que acolhe pessoas
profundamente incapacitadas, e onde Henri trabalhou nos últimos anos de sua vida.
Como os arquivos estavam situados à pequena distância de Daybreak, a visita pareceu-me
propícia. Passaria o período do dia durante aquela semana na Biblioteca John M. Kelly,
do St. Michael's College, em Toronto. E então, gastaria as noites em Daybreak,
conversando com os companheiros de Henri, conhecendo os integrantes da comuni dade,
jantando com os principais integrantes e seus assistentes, e me hospedaria no próprio
Cedars, uma combinação de casa e biblioteca que Henri fundou, e na qual viveu e escreveu.
Naqueles dias, aprendi muito sobre o homem escondido atrás das palavras, até a
hora de partir. Kathy, a secretária de Henri nos últimos anos, apanhou-me no aeroporto
para levar-me a Daybreak. Ela aguardava-me com uma tabuleta: "A Comunidade
Daybreak dá as Boas-Vindas a Timothy.” E como fui bem recebido! Sue Mosteller, a
testamenteira de Henri, e incontáveis outros membros da comunidade acolheram-me em
seus cultos matutinos de louvor, nos grupos dos lares, nas refeições ao entardecer e nas
conversas espontâneas ao lado da copiadora.
Kathy, Sue e os demais deram-me vislumbres do homem cujo coração estava
constantemente voltado para as almas feridas. Pude sentir que ele viveu com imensa e
inspiradora energia. Era frequentemente chamado por pessoas com profundas
necessidades, gente que não tinha nenhum contato prévio com Henri e de quem as
personalidades públicas gostariam de ficar isoladas.
E a própria comunidade! Há anos, Henri havia pedido demissão de Harvard
para passar um ano sabático escrevendo em Trosly-Breuil, na França, na primeira
comunidade L’Arche, a serviço dos portadores de deficiências físicas e mentais. Sentiu-
se tão em casa que, em 1986, aceitou o convite para ser pastor da comunidade l’Arche de
Daybreak, perto de Toronto, Canadá.

PREFÁCIO

Sua descoberta de Daybreak, afirmaram seus amigos e ele próprio, representou um retorno ao lar. Esse
professor que instruiu alguns dos mais brilhantes e eloquentes estudantes de Teologia da nação — em Notre
Dame, Yale e Harvard — passou os últimos anos de sua vida ministrando profundamente através de sua presença
gentil (e às vezes veemente) e de suas palavras simples e de bênçãos pastorais. Naturalmente, ele continuou a
escrever, e sua influência só fez aumentar, num dos grandes paradoxos que as figuras verdadeiramente grandes
costumam encarnar.
Após a morte de Henri Nouwen em 1996, o interesse por seus escritos só cresceu. O segredo disso,
creio, vai além do seu jeito habilidoso de comunicar ou sua realização surpreendente. Mais do que qualquer
coisa, esse constante interesse em sua obra é resultado daquilo que Henri foi: um coração quebrantado diante
de Deus e escancarado para seus companheiros e leitores. Henri foi complexo e inacabado; ele bem o sabia e
nunca escondeu isso. Mesmo assim, ele também sabia que havia um serviço a realizar. Sofrimento a tratar.
Esperança a levar para os lugares escuros da vida.
Espero que o leitor perceba que tudo isso preencheu os sermões, palestras e anotações que forneceram o
material para este livro. Transforma Meu Pranto Em Dança oferece mais lampejos da pena — e da vida
— deste levemente arqueado, mas sempre apaixonado pregador da espiritualidade. Ao mesmo tempo que
aprendemos com esse cronista das possibilidades da vida humana vibrante com Deus, esperamos que nossas
aflições também se transformem em expectativa e, até mesmo, em dança.
Timothy Jones, Outono de 2 0 0 1 .

Introdução

 E S P E R A N Ç A PA R A N O S S O M U N D O F E R I D O
Hoje à, tarde recebi um telefonema de meu amigo Jonas. Estava em choque: sua voz tremia
e quase não se ouvia. Sua filhinha, contou-me, falecera quatro horas depois de nascer:
"Margaret, nosso filho Sam, de três anos, e eu havíamos esperado tanto a chegada desse bebê!
Rebeca nasceu prematura, numa cesariana de emergência, mas parecia que ia sobreviver." Os
sinais vitais, porém, logo revelaram aos pais que ela não resistiria.
Na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), Jonas e Margaret seguraram nos braços aquela
pequena vida, e então tudo acabou. Jonas contou-me que orou pela criança e fez o sinal da cruz.
Fui muito tocado por suas palavras seguintes: "Enquanto dirigia do hospital para casa, eu disse
a Deus: O Senhor nos deu Rebeca e agora eu lhe devolvo. Mas eu sei que um lindo futuro está
sendo frustrado. Dói muito perder minha filha. Eu me sinto tão vazio!'"
Procurei as palavras certas. Que poderia dizer-lhe naquele momento? Eu não queria,
de modo algum, interferir em sua profunda dor. Mas também sabia que não podia deixá-lo
sem uma palavra de consolação. Respondi: "Rebeca é sua filha — sua e de Margaret — para
sempre. Sam terá sempre uma irmã. Rebeca foi dada a vocês apenas por umas horas, e não
foram sem razão. Suas orações não foram em vão. Ela está agora no abraço eterno de Deus."
Nossa conversa foi longa. Sei que minhas palavras trouxeram pouco conforto. O que mais
precisávamos era nos abraçar e chorar. Como a nossa amizade foi importante naqueles momentos!
Fiquei outra vez pensativo, como qualquer de nós fica quando uma dor nos atinge e nos fere
profundamente: Por que aconteceu isso? Para revelar a glória de Deus? Para lembrar-nos da fragilidade da
vida? Ou, quem sabe, para aprofundar a fé daqueles que continuam vivos? É difícil responder "sim" a todas
essas perguntas, quando tudo parece tão escuro.
Quando penso em Margaret e Jonas segurando a pequena Rabeca em seus braços, penso também
em Maria, a mãe de Jesus. Quantas pinturas e esculturas representam-na abraçando o corpo sem vida, em seu
regaço. Ela não parece desolada, nem sem esperança, mas que dor sentiu ao ver seu Filho morto numa cruz! Ao
lembrar-me de meus amigos, Margaret e Jonas, sou movido a orar.
Os sofrimentos que todos nós suportamos requerem, certamente, mais do que simples palavras, mesmo
palavras espirituais. Frases eloquentes não podem aliviar nossa dor profunda, mas sempre encontramos algo especial
que nos conduz através dos sofrimentos. Ouvimos um convite para deixar que nosso lamento se transforme numa
fonte de cura, que nossa tristeza se torne uma passagem da dor à dança. Quem Jesus declarou que seria bem-aventurado?
"Aqueles que choram" (Mateus 5,4). Aprendemos a olhar nossas perdas de frente, e a não fugir delas. Ao aceitar sem
repulsa as dores da vida, poderemos encontrar o inesperado. Ao convidar Deus para participar de nossas
dificuldades, fundamentaremos nossa vida — até mesmo seus momentos tristes — em alegria e esperança. Ao
parar de querer apossar-nos da vida, receberemos mais até do que conseguimos agarrar por nós mesmos. E
aprenderemos o caminho para um amor mais profundo pelos outros.
Como podemos aprender a viver assim? Muitos de nós somos tentados a pensar que, se sofremos,
a única coisa importante é o alivio da dor. Queremos escapar a qualquer custo. Mas quando aprendemos a
mover-nos através do sofrimento, em lugar de tentar evitá-lo, vamos aceitá-lo de modo diferente. Estaremos
dispostos a deixá-lo ensinar-nos. Começaremos, até mesmo, a perceber como Deus pode usá-lo. O sofrimento
deixa de ser aborrecimento ou maldição de que temos de fugir sem poupar esforços, para tornar-se um
caminho para uma realização mais profunda. Basicamente, lamentar significa enfrentar o que nos fere na
presença daquele que pode curar.
Isso não é fácil! Essa dança não incluirá passos que não exijam esforços. Teremos que praticar, com
certeza. Com isso em mente, procuraremos mostrar neste pequeno livro cinco passos de uma vida
fundamentada em Deus. Esses passos não farão a dor desaparecer; não significarão que poderemos evitar vales
escuros e noites sem fim. Mas esses passos de dança na coreografia curadora de Deus irão levar-nos
graciosamente através do que nos pode causar dano, para encontrarmos cura, enquanto suportamos o que nos
poderia desesperar. Podemos, então, encontrar um meio de cura que permita que nosso espírito ferido
dance outra vez, sem medo de sofrer ou de morrer, porque vamos aprender a viver com esperança
permanente.

CINCO PASSOS EM TEMPOS DIFÍCIEIS

1. SAINDO DE MEU EU PARA UM MUNDO MAIS AMPLO

Ao chegar a Daybreak, a comunidade de ajuda a pessoas incapa citadas onde tenho sido
pastor, eu estava passando por um grande sofrimento. Meus muitos anos no meio acadêmico,
minhas viagens entre os pobres da América Central e depois as palestras que dava ao redor
do mundo, contando tudo o que havia visto, deixaram-me esgotado. Meus compromissos
faziam-me correr como louco. Em vez de prover um alivio para meus próprios
conflitos, minha correria para dar palestras aqui e ali só intensificava minha per turbação
interior. E, por causa dos meus muitos compromissos, eu nem podia lidar
profundamente com minha dor. Continuava com a ilusão de que tudo estava sob meu
controle, e assim ia evitando o que não queria enfrentar dentro de mim e no mundo ao
meu redor.
Mas, quando cheguei, pude testemunhar o enorme sofrimento d e p e s s o a s q u e
v i v i a m a l i , c o m d e f i c i ê n c i a s m e n t a i s e físicas. Comecei a enxergar meus
problemas sob novo foco. Percebi que faziam parte de um sofri m e n t o muito maior.
Consegui, então, através dessa descoberta, nova energia para viver em minha própria
miséria e dor.
Percebi que a cura começa quando tiramos nossa dor do isolamento diabólico e
passamos a ver que, por mais que soframos, sofremos em comunhão com toda a
humanidade, bem como com toda a criação. Ao agir desse modo, nós nos tornamos
participantes da grande batalha contra o poder das trevas. Nossa pequena vida participa de
algo muito maior.
Também descobri que aqui as pessoas quase nunca pergun tam: "Como posso
livrar-me do meu sofrimento?" Perguntam, porém: "Como posso fazer dele uma ocasião de
crescimento e descoberta?" Entre elas, algumas não conseguem ler, outras nem ao menos
podem cuidar de si mesmas: são homens e mulheres rejeitados por um mundo que só
valoriza quem é perfeito, inteligente e sadio. Mas pude ver ali pessoas aprendendo a fazer
uma conexão entre o sofrimento humano — ou seja: seu próprio sofrimento — e o
sofrimento de Deus Elas ajudaram-me a ver que o caminho através do sofrimento não é
negá-lo, mas viver integralmente no meio dele. Elas indagavam-se sobre como transformar
o sofrimento numa oportunidade, em vez de vivê-lo como uma demorada inter rupção na vida
delas.
Como podemos fazer essas conexões por nós mesmos? Como realizar essa
mudança, deixando de lutar para evitar a nossa dor e pedindo a Deus para compensá-la e
usá-la de forma agradável?

 AVA L I A N D O N O S S A S P E R D A S
Um passo precipitado nessa dança pode parecer simples, embora muitas vezes
não venha tão facilmente: somos chama dos a sofrer nossas perdas. Parece paradoxal, mas
cura e dança começam com uma visão honesta daquilo que nos causa dor. Enfrentamos
perdas secretas que nos paralisaram e nos mantiveram prisioneiros de rejeição, vergonha ou
culpa. Não alimentamos a ilusão de que podemos ludibriar nosso caminho por entre dificuldades. Ao tentar
esconder dos olhos de Deus e de nossa própria consciência partes de nossa história, tornamo-nos juízes de
nosso passado. Limitamos a misericórdia de Deus aos nossos medos humanos. Os esforços que fazemos para
nos desconectar de nossos sofrimentos terminam por desconectar nosso sofrimento do sofrimento de Deus
por nós.
Quando Jesus disse: "... pois não vim chamar justos, e sim pecadores" (Mateus 9,13), estava afirmando
que só aqueles que são capazes de enfrentar sua situação de dor estarão aptos para a cura e para a entrada em
uma nova maneira de viver.
Algumas vezes temos que nos perguntar quais são nossas perdas. Ao fazer assim, vamos lembrar quão
real é a experiência de perda. Talvez você saiba o que é perder um dos pais. Quanto me lembro da dor sentida
após a enfermidade que levou minha mãe à morte! Podemos presenciar a morte de uma criança ou de um
amigo. E também perdemos pessoas, às vezes dolorosamente, por causa de desentendimentos, conflitos ou
raiva. Posso ficar esperando a visita de um amigo que não vem. Falo a um grupo e espero uma recepção
calorosa, mas ninguém se manifesta. Alguém pode levar de nós o emprego, a carreira ou, até, o bom
nome.
Podemos ver esperanças estremecerem por causa de uma enfermidade que nos acomete, ou sonhos
se desvanecerem quando alguém em quem confiamos nos trai. Um membro da família pode deixar o lar
com muita raiva, e ficamos nos perguntando em que falhamos. Muitas vezes, nosso sentido de perda é
maior ainda. Leio o jornal de hoje e encontro noticias ainda piores do que as de ontem. Nossa alma geme
de tristeza diante da pobreza ou da destruição da beleza natural de nosso mundo. E
perdemos o sentido da vida, não só porque nosso coração fica cansado, mas também
porque alguém ridiculariza nossa maneira de pensar e orar. Nossas convicções, então,
parecem de repente fora de moda, desnecessárias. Até a nossa fé parece vacilar. Essas são
decepções potencialmente presentes em qualquer vida.
Vemos esse revés como um obstáculo ao que pensamos que deveríamos ser:
saudáveis, bonitos, livres de desconforto. Consideramos o sofrimento irritante e sem
sentido. Fazemos o máximo esforço para nos livrar de nossa dor. Alguns de nós
preferimos a ilusão de que nossas perdas não são reais, que são apenas interrupções
temporárias. E, assim, gastamos muita energia em negá-las. "Minhas perdas não podem
me impedir de viver no plano da realidade" — dizemos a nós mesmos.
Muitas tentações alimentam essa negação. Ocupações constantes, por
exemplo, tornam-se um modo de fuga daquilo que, em outras circunstâncias, seria
confrontador. O mundo em que vivemos jaz no poder do maligno, e o maligno prefere
distrair-nos e preencher cada tempo livre com muitas tarefas, encontros, negócios,
produção de objetos. Ele não permite que haja espaço para uma dor genuína, para um
choro. Nossa excessiva ocupação transforma-se em maldição, mesmo quan do
achamos que ela fornece alívio para a dor que levamos dentro de nós. Nossa vida
ultracarregada só serve para nos impedir de enfrentar a inevitável dificuldade que
todos, em algum momento, teremos.
A voz do mal também nos tenta a simular uma fachada invencível. Palavras
como vulnerabilidade, renúncia, rendição, choro, lamento e dor não serão encontradas no
dicionário do diabo. Certa vez, alguém me disse: "Nunca demonstre sua fraqueza, pois
você será usado; nunca seja vulnerável, pois irá machucar-se; nunca dependa de outros, porque perderá sua
liberdade”. Isso tudo pode aparentar bom senso, mas em nada reproduz a voz da sabedoria. Só imita um
mundo que nos quer respeitosos, sem questionar os limites e as compulsões que nossa sociedade determinou
para nós.
Enfrentar nossas perdas também significa desafiar a tentação de pensar que o mundo tem a
obrigação de suprir nossas necessidades. Temos necessidades, é verdade! Desejamos atenção, afeto,
influência, poder. E nossas necessidades nunca parecem satisfeitas. Até atitudes altruístas podem conter um
emaranhado dessas necessidades. Assim, quando pessoas ou circunstâncias não preenchem todas as nossas
necessidades, nós nos afastamos ou espancamos agressivamente. Nutrimos nosso espírito ferido. E
tornamo-nos ainda mais necessitados. Ansiamos por soluções fáceis, ignorando qualquer coisa que
possa nos sugerir outra saída.
Gostamos, também, de vitórias sem esforços: crescimento sem crise, cura sem dores e ressurreição sem
a cruz. Não é de admirar que gostemos de assistir a desfiles militares e de aplaudir heróis que retornam, operadores
de milagres e recordistas. Também não é de admirar que nossas comunidades pareçam organizadas para manter o
sofrimento à distância. As pessoas são sepultadas de maneira a disfarçar a morte com eufemismos e
ornamentação rebuscada. As instituições mantém reclusos os seus doentes mentais e criminosos, numa contínua
negação de que eles pertencem à Família humana. Até nossos hábitos do dia-a-dia levam-nos a disfarçar nossos
sentimentos, e a comunicar-nos polidamente, mas sem sinceridade, evitando, assim, um confronto honesto e
curador. Amizades tornam-se superficiais e temporárias.
A maneira de Jesus é tão diferente. Embora ele tenha tra zido grande conforto e
tenha vindo com palavras suaves e toque curador, não veio para eliminar nossas dores.
Jesus entrou em Jerusalém, nos seus últimos dias, montado num jumento, como um
palhaço numa parada. Esse foi o seu jeito de fazer-nos lem brar que enlouquecemos
quando insistimos em vitórias fáceis ou quando pensamos que podemos disfarçar o
que nos aflige, gastando nosso tempo em futilidades. Muito do que realmente vale a
pena só acontecerá através de confronto.
O caminho entre o Domingo de Ramos e o Domingo de Páscoa é o caminho
da paciência, o caminho do sofrimento. A nossa palavra paciência deriva do antigo
radical patior, que significa sofrer. Aprender a paciência é não nos rebelarmos con tra
cada adversidade, porque, quando insistimos em esconder nossas dores com "Hosanas"
fáceis, corremos o risco de perder nossa paciência. Quando a frivolidade do caminho
fácil se desgasta, nós tornamo-nos amargurados e cínicos, ou violentos e agressivos.
Em lugar de tudo isso, Cristo convida-nos a permanecer em contato com os
muitos sofrimentos de cada dia e a expe rimentar o começo da esperança e da nova
vida, justamente aí onde vivemos, no meio das feridas, dores, falência. Ao observar sua
vida, os seguidores de Cristo perceberam que, quando todos os gritos "Hosanas'' da
multidão cessaram, discípulos e amigos o abandonaram. Depois de Jesus gritar "Deus
meu, Deus meu, por que me desamparaste?", foi então que o Filho do Homem
ressuscitou da morte; foi então que ele rompeu as cadeias da morte e tornou-se
Salvador. Este é o caminho da paciência, que nos conduz vagarosamente do triunfo
fácil à árdua vitória.
Terei menor tendência a negar meu sofrimento quando aprender, que Deus o usa para moldar-me e
atrair-me para mais perto de si. Deixarei de ver minhas dores como interrupções dos meus planos e serei mais
capaz de vê-las como meios de Deus fazer-me pronto a recebe-1o. Deixarei Cristo viver junto às minhas dores c
perturbações.
Lembro-me de um velho sacerdote que me disse em certa ocasião: "Eu sempre me queixava das
constantes interrupções ao meu trabalho, até que entendi que minhas interrupções é que eram o meu
trabalho." As coisas desagradáveis, os momentos difíceis, os reveses inesperados carregam em si maior
potencial do que imaginamos. Porque o percurso do Domingo de Ramos ao Domingo de Páscoa nos tira da
vitória fácil construída de pequenos sonhos e fantasias, para nos levar à árdua vitória oferecida pelo Deus que
espera para nos purificar através de sua mão, que cuida e é paciente.
Aprendi com meus amigos em Daybreak que, no centro de nossa fé cristã, percebemos um Deus
que toma sobre si o fardo do mundo inteiro. O sofrimento convida-nos a depositar nossas feridas em mãos
maiores. Em Cristo, vemos Deus sofrendo por nós. E ele chama-nos a compartilhar os sofrimentos do
amor de Deus por um mundo ferido. Das dores pequenas às mais esmagadoras de nossa vida, todas estão
intimamente ligadas às maiores dores de Cristo. Nossos pesares diários estão ancorados em um pesar maior, e,
portanto numa maior esperança. Nada, absolutamente, em nossa vida foge do domínio do juízo e da
misericórdia de Deus.

 O QUE ACONTECE E O QUE NÃO ACONTECE


A grande questão não é aquilo que nos acontece, mas sim a maneira como reagimos ao
que nos acontece. Não podemos mudar muitas circunstâncias em nossa vida. Sou branco,
pertenço à classe média e tenho uma boa educação. Nem sempre tomei decisões
conscientes sobre todas essas coisas. Aliás, muito pouco do que tenho vivido tem a
ver com minhas decisões: as pessoas que conheço, o lugar onde nasci e as tendências de
minha personalidade.
Nossa escolha, então, tem muito a ver, não com o que aconteceu ou acontecerá
conosco, mas com nosso modo de agir em face das circunstâncias e voltas que a vida
apresenta. Em outras palavras: reagirei à minha vida com ressentimento ou gra tidão?
Imagine que você e eu colidimos nossos carros um contra o outro numa rodovia. Eu
poderia, além de sofrer ferimentos sérios, desenvolver forte ressentimento e amargura.
Então, eu me arrastaria pela vida afora, lamentando: "O acidente acabou com tudo: estou
falido e a vida tornou-se um peso!" Você pode sofrer as mesmas perdas, mas perguntar:
"O que me ocorreu pode servir para alertar-me a viver de uma nova maneira? Será esta
uma oportunidade de conquistar algo novo? De fazer com que minha provação sirva de
testemunho a outros?"
As perdas podem ser inegociáveis. Mas temos uma escolha: como vivenciamos
essas perdas? Somos chamados vez após outra a perceber o Espírito de Deus trabalhando
em nossa vida, c conosco, mesmo nos momentos mais escuros. Somos convidados a
escolher a vida. O segredo para entender o sofrimento é deixar de nos rebelar contra os
inconvenientes e as dores da vida.

 PA RT I C I PA N D O D E U M A D A N Ç A M A I O R
Lamentar é algo que nos empobrece e nos faz lembrar vivamente de nossa
pequenez. Mas é precisamente aqui, no meio da dor, da pobreza ou da fraqueza que o
Dançarino nos convida a levantar e a dar os primeiros passos. É dentro do nos so
sofrimento, e nunca fora dele, que Jesus entra em nossa tris teza, toma-nos pela mão,
puxa-nos gentilmente fazendo-nos ficar de pé e nos convida a dançar. E descobrimos o
caminho da oração, como o salmista: "Converteste o meu pranto em dança" (Salmo
30,11), porque, no âmago da nossa tristeza, encontramos a graça de Deus.
E, enquanto dançamos, percebemos que não precisamos ficar confinados ao
diminuto espaço da nossa tristeza, mas podemos sair dali. Paramos de centralizar nossa
vida em nós mesmos. Chamamos outros para dançarem conosco a dança maior.
Aprendemos a dar espaço a outros, e principalmente ao "Outro Gracioso" que está no
nosso meio. E quando nos fazemos presentes para Deus e seu povo, nossa vida é ainda
mais enriquecida. Constatamos que o mundo é nossa pista de dança: nosso passo torna-
se mais leve e ligeiro, porque Deus está chamando outros a dançarem também.
Um amigo escreveu-me uma carta narrando sua descober ta. Ele havia decidido
passar a semana após o Natal com seu pai, que sofre do Mal de Alzheimer. Certa
manhã, ao encontrar o pai seguindo seu programa de tratamento diário, achou-o muito
ansioso e agitado. Seu pai estava muito preocupado, acreditan do que sua própria mãe,
falecida há muitos anos, antes até do nascimento de meu amigo, estivesse precisando de
sua ajuda. Suas preocupações eram uma clara evidência de uma profunda angústia que
ele não conseguia expressar abertamente.
Meu amigo levou-o para dar um passeio de automóvel pelo campo. Poucas palavras
foram trocadas entre eles, mas meu amigo percebeu que a ansiedade de seu pai diminuíra
e que ficara mais calmo. Depois de um silêncio de quase uma hora, seu pai virou-se para
ele, olhou-o e disse: "Fazia tempo que não tínha mos um encontro tão bom assim." O
filho sorriu, reconhecendo que seu pai estava certo. A angústia havia-se transformado
em paz; a perda resultara em ganho. Até o silêncio entre eles promoveu cura.
Grande parte de nossa trajetória através do sofrimento tem a ver com esses
momentos inesperados. São momentos que chegam como presentes na nossa espera ou na
nossa luta. São momentos muitas vezes relacionados com as pessoas que Deus põe em
nosso caminho.
Não fazemos nosso percurso partindo de nossa vida insignificante na direção
da graça maior de Deus por simples decisão pessoal ou esforço isolado. Quando
nossas necessidades nos levam a nos apoderar desesperadamente de um lugar, quando
nossas feridas não curadas determinam a atmosfera ao nosso redor, nós nos tornamos
ansiosos. Mas, então, deixamos que nossa ferida nos lembre da necessidade de cura.
Enquanto dançamos e avançamos, a graça provê o terreno onde damos nossos
passos. A oração põe-nos em contato com o Deus da dança. Conseguiremos ver além
da nossa experiência de tristeza ou de perda aprendendo a receber um amor que tudo
abarca, um amor que vem ao nosso encontro nos mo mentos do dia-a-dia.
E assim esperamos pacientemente, se a situação o exige, aguardando os presentes
que nos alcançarão onde estivermos. Observe as maravilhosas e exuberantes flores
pintadas pelo famoso pintor holandês Vincent van Gogh. Quanto pesar, quanta tristeza, quanta
melancolia experimentou em sua complicada vida! E, ao mesmo tempo, quanta beleza, quanto êxtase! Vendo
as suas vibrantes pinturas dos girassóis, quem pode dizer onde termina o lamento e onde começa a dança?
Nossa glória vem oculta no sofrimento, se permitimos que o próprio Deus dê a si próprio como um
presente em nossa experiência de dor. Se nos voltamos para Deus, sem nos rebelarmos contra nossa ferida,
permitimos que ele a transforme em bem ainda maior. E deixamos que outros se unam a nós e descubram
isso conosco.

 G R AT I D Ã O N O C E N T R O D A V I D A
Uma amiga deixou recentemente a comunidade Daybreak para dirigir outra semelhante. Seus anos
de trabalho abnegado e fiel foram marcados por momentos de grande alegria, como também de grande pesar.
Havia feito amizades calorosas e profundas, concluído com êxito muitos projetos e assumido papéis de
liderança. Experimentara, também, fracassos e desapontamentos porque alguns daqueles relacionamentos
antigos foram se quebrando pelo caminho, e mesmo no final de seu tempo ali. Durante os meses que
precederam a sua saída, ela e outros membros da nossa comunidade disseram: "Estamos agradecidos por todas as
coisas boas que aconteceram, por todas as amizades que fizemos, por todas as esperanças que vimos
concretizadas. Resta-nos, apenas, aceitar os momentos doloridos."
Ao ouvir comentários assim, comecei a pensar no que exatamente significou para minha amiga
e para os outros membros da comunidade o fato de escolherem ser gratos por tudo o que havia
ocorrido no âmbito de sua preciosa comunhão. Como sua gratidão os ajudou a entrarem
mais profundamente numa dança de cura e celebração de alegria? Talvez nada possa
nos ajudar mais a sair de nosso pequeno “eu mesmo" para um mundo mais amplo do
que lembrar-nos de Deus em gratidão. Essa perspectiva coloca Deus presente em tudo
na nossa vida, e não apenas nos momentos que sepa ramos para culto ou outras
disciplinas espirituais; não apenas nos momentos em que a vida parece mais fácil.
Se Deus está presente em nossos momentos difíceis, então tudo na vida, por mais
insignificante ou difícil que possa parecer, abre-nos para a obra de Deus entre nós. Ser grato
não significa reprimir nossas tão lembradas feridas. Conforme formos levando a Deus
nossas feridas — honestamente, c não superficialmente algo de mudança cm nossa
vida pode lentamente começar a acontecer. Descobrimos que Deus é aquele que nos
chama para a cura. Percebemos que toda dança de celebração deve entrelaçar pesar e
bênção num mesmo passo alegre.
Certa ocasião, vi um escultor remover grandes pedaços de uma enorme rocha na
qual escava trabalhando. Pensei, então: Quanta dor deve estar sentindo aquela rocha! Por que esse
homem a machuca tanto? Enquanto olhava, vi surgir, aos poucos, a figura de uma graciosa
bailarina, fitando-me nos olhos da imaginação, como a dizer: "Seu tolo! Não sabia que
eu tinha de sofrer para entrar na minha glória?" O mistério da dança é que seus
movimentos só se tornam visíveis através do sofrimento.
Sarar é permitir que o Espírito Santo me chame para dançar e crer de novo que,
mesmo na minha dor, Deus vai orquestrar e guiar a minha vida.
Nossa tendência, porém, é dividir nosso passado em coisas boas para relembrar
com gratidão e coisas dolorosas para aceitar ou esquecer. Essa maneira de pensar, que à primeira vista
parece ser tão natural, impede-nos de ver a totalidade do nosso passado como nascente da nossa vida futura, e isso
nos mantém focalizados em nosso ganho ou em nosso conforto. Torna-se uma forma de categorizarmos e, de
certo modo, controlarmos as coisas. Essa perspectiva acaba tornando-se uma nova tentativa de evitarmos enfrentar
nosso sofrimento. Aceita essa divisão, desenvolveremos uma mentalidade na qual esperamos acumular mais
lembranças agradáveis do que desagradáveis, mais situações que nos deixem alegres do que aquelas que nos deixem
ressentidos, mais experiências para celebrar do que para lamentar.
Gratidão, em seu sentido mais profundo, significa viver a vida como um presente para ser recebido
com agradecimentos. E a gratidão verdadeira alcançar tudo na vida: o bom e o ruim, a alegria e a dor, o santo e
o não tão santo. E fazemos isso porque nos tornamos conscientes da vida de Deus, da presença de Deus em
relação a tudo o que acontece.
É isso possível em uma sociedade para a qual a alegria e o pesar permanecem radicalmente separados?
Onde o conforto é tido como algo que não deve apenas ser esperado, mas exigido? Propagandas dizem-nos que
não podemos experimentar alegria em meio a tristezas. "Compre isto", dizem, "faça aquilo, vá lá, e terá
um momento de felicidade que fará você esquecer sua tristeza.” Mas será que não é possível abraçar com
gratidão toda a nossa vida e não apenas as coisas agradáveis de que gostamos de relembrar?
Se o pranto e a dança fazem parte do mesmo movimento de graça, podemos ser gratos em
relação a cada momento que já vivemos. Podemos encarar nossa inigualável jornada como a maneira de
Deus moldar nosso coração a fim de que sejamos mais semelhantes a Cristo. A cruz, o símbolo principal
de nossa fé, convida-nos a ver graça onde há dor; a ver ressurreição onde há morte. O chamado para ser
grato é um chamado para confiar em que cada momento pode ser experimentado como o caminho da cruz
que leva a uma nova vida. Quando Jesus falou a seus discípulos antes de sua morte e ofereceu-lhes seu corpo
e seu sangue como presentes de vida, também partilhou com eles tudo o que havia vivido — tanto sua
alegria quanto sua dor, tanto seu sofrimento quanto sua glória — e os capacitou a iniciarem sua própria
missão com um senso de profunda gratidão. Dia após dia, achamos novas razões para acreditar que nada nos
separará do amor de Deus em Cristo.
Claro que é mais fácil empurrar as lembranças ruins para baixo do tapete da minha consciência e só
pensar nas boas coisas que me agradam. Esse parece ser o caminho da satisfação. Ao fazer assim, porém, deixo
de descobrir a alegria sob o pesar, o significado de ser induzido a sair do confinamento das lembranças
dolorosas. Deixo de encontrar a força que se faz visível em minha fraqueza, a graça que Deus revelou a
Paulo: "A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza" (2 Coríntios 12,9).
A gratidão só nos ajudará nessa dança se for cultivada. Gratidão não é emoção simples ou atitude óbvia.
Ser grato sempre requer prática. É preciso esforço contínuo para redefinir o meu passado inteiro como a
maneira concreta de Deus conduzir-me até este momento. Ao assim fazer, devo encarar não só as feridas de
hoje, mas as experiências passadas de rejeição, abandono, fracasso ou medo. Quando Jesus disse a seus
discípulos que estavam intimamente ligados a ele como os ramos a uma videira, ainda teriam que ser
podados para produzir mais fruto (João 15,1-5). Podar, que é o mesmo que cortar, dá nova forma, remove o que
reduz a vitalidade. Quando vemos uma vinha podada pouco acreditamos que ela possa dar frutos de novo. Mas
quando vem a colheita, percebemos que a poda permitiu que os galhos concentrassem sua energia na produção
de mais uvas.
Pessoas agradecidas são as que aprendem a celebrar mesmo através de lembranças difíceis e
atormentadoras, porque sabem que a poda não é mera punição, mas preparação. Quando nossa gratidão pelo
passado é apenas parcial, da mesma forma nossa esperança de futuro nunca poderá ser completa. Mas
submetendo-nos à poda que Deus realiza em nossa vida não ficaremos tristes, e, sim, esperançosos por aquilo que
ele irá fazer em nós e através de nós. A colheita trará suas próprias bênçãos.
Tenho aprendido, gradualmente, que o chamado à gratidão nos pede para dizer: "Tudo é graça."
Enquanto nos ressentirmos de situações indesejadas, relacionamentos com um desfecho diferente do que
desejávamos e erros que nunca gostaríamos de ter cometido, então parte do nosso coração permanecerá isolado,
incapaz de produzir fruto na vida nova que está à nossa frente. Desse modo, manteremos fora do alcance de
Deus uma parte de nós mesmos.
Em lugar disso, podemos aprender a ver a lembrança de nossa experiência passada como
oportunidade para uma conversão ativa de nosso coração. Permitimos que aquilo que recordamos nos faça
também nos lembrar de quem somos, não de nós mesmos, mas de Deus. Se estivermos verdadeiramente
prontos para uma nova vida a serviço de Deus, verdadeiramente plenos de alegria na perspectiva da vocação
revelada por Deus para a nossa vida, verdadeiramente libertos para sermos enviados para onde Deus nos guiar,
nosso passado inteiro, reunido na amplidão de um coração convertido, vai tornar-se a fonte de
energia que nos moverá para a frente.
Foi, então, importante que a partida de minha amiga de nossa comunidade fosse
vista como um momento no qual revi mos tudo o que ela havia vivido conosco e
dissemos: "Graças sejam dadas a Deus!" Recordar a sua história em nosso meio como a
jornada de Deus ao seu lado levou-a a firmar-se no caminho de seu novo chamado.
Quando penso na minha própria dor e na perturbação e inquietação interior que
senti quando cheguei a Daybreak, per cebo como Deus foi bom por me trazer não a um
lugar protegido, isolado da dor, mas ao contrário: em nenhum outro lugar posso
presenciar melhor as provações do que entre pessoas inca pacitadas que têm sofrido não só
a perda de sua agilidade mental e mesmo física, mas também do apoio familiar, das
oportunidades de estudar e dos privilégios de casarem-se e de viverem uma vida
independente. Vivo cercado de pessoas com enormes e inevitáveis necessidades. E mais:
em nenhum outro lugar tenho festejado tanto e tão ricamente como entre esses homens c
essas mulheres que têm lamentado tantas perdas. Quando celebramos juntos, não é pela
conquista de graduações, prêmios, promoções ou recompensas, e, sim, porque o presente
da vida evidenciou-se no meio dc tantas perdas.
Adornos, cartões, velas, pacotes de presentes, abraços, sorri sos e beijos são todos
expressões de vida e esperança. Quando faço parte dessas comemorações, sejam elas
pequenas, à mesa do jantar, ou grandes, na capela ou no salão de festas, fico maravilhado
diante da dança para a qual o Espírito Santo nos chamou.

2. AGARRAR E SOLTAR

Há muitos anos tenho apreciado ver trapezistas em ação. Esse amor começou quando meu velho
pai, então com 89 anos, veio me visitar. "Vamos ao circo", decidimos. Naquela tarde, assistimos a cinco
trapezistas da África do Sul: três que voavam e dois que os sustentavam. Eles dançavam no ar! Os
voadores pairavam no ar e tudo representava perigo, até o momento em que eram agarrados pelas fortes
mãos de seus parceiros. Eu disse a meu pai que sempre sonhei voar assim, e que achava que fugia de minha
real vocação!
Fico sempre emocionado com a coragem de meus amigos circenses. A cada desempenho,
confiam em que seu voo terminará quando suas mãos deslizarem para o aperto seguro das mãos do
parceiro. Sabem também que só o ato de soltar-se da barra de segurança permite-lhes voarem com leveza
para a próxima. Antes de serem pegos, precisam soltar. Precisam desafiar o vazio do espaço.
Viver com essa disposição para soltar é um dos maiores desafios que enfrentamos. Quer se trate
de pessoas, posses ou reputação pessoal, em tantas áreas nos agarramos a todo custo. Tornamo-nos
heroicos defensores de nossa felicidade alcançada com tanto empenho. Consideramos
nossas perdas inevitáveis como fracassos na batalha da sobrevivência.
O grande paradoxo é este: ao soltar, recebemos. Encontramos segurança em
lugares inesperados de risco. E aqueles que tentam evitar todo risco, os que tentam
garantir que seu coração não seja partido, terminam num inferno criado por eles
mesmos. C. S. Lewis escreveu em Os Quatro Amores:
Amar é, antes de tudo, tornar-se vulnerável... Se você quer, com certeza, manter [seu
coração] intacto, então não deve dá-lo a ninguém, nem mesmo a um animal. Envolva-o
cuidadosamente com distrações e pequenos luxos; evite todos os embaraços; tranque-o na
segurança do cofre de seu egoísmo. Mas nesse cofre — seguro, escuro, inerte e sem ar — seu
coração mudará. Ele não se quebrará: — tornar-se-á inquebrável, impenetrável, irredimível... O
único lugar fora do céu onde você pode ficar absolutamente livre do perigo de amar é o inferno.
(1)
De muitas maneiras, quanto mais insistimos em controlar nossa vida, e quanto
mais resistimos ao chamado para manter as mãos abertas, tanto mais teremos que negar a
realidade de nossas perdas e mais artificial nossa existência se fará. Essa crença de que
devemos segurar com todas as forças aquilo de que precisamos é uma das maiores fontes
de nosso sofrimento. Mas, ao conseguir soltar bens, planos e pessoas, mesmo com todos
os riscos entramos numa vida de nova e inesperada liberdade.
Como podemos viver com uma disposição mais aberta? Outro passo para
tornar nosso lamento em dança é deixar de nos apoderar do que temos, não tentar
manter um lugar seguro onde descansar, não tentar coreografar a nossa vida nem a dos outros, mas
render-nos ao Deus a quem amamos e a quem queremos seguir. Deus convida-nos a experimentar não
estar no controle, como um convite à fé.

 A GRANDE ILUSÃO DA VIDA


É uma grande ilusão acharmos que a vida é uma propriedade a possuir ou um objeto a segurar, e que as
pessoas podem ser manipuladas ou governadas. Às vezes, estabelecemos uma certa lógica pela qual as coisas
devem acontecer do jeito que queremos. Até os nossos sonhos revelam tantas vezes quão profunda é essa
ilusão. Quando não conseguimos ser heróis de dia, pelo menos pensamos que podemos sê-lo à noite. Nos sonhos,
aparecemos como gênios mal compreendidos, ou como libertadores tardiamente reconhecidos por aqueles que
nos criticaram.
Essa ilusão às vezes nos põe a caminho de uma busca frenética de individualidade e autorealização.
Queremos ser "autênticos conosco", ou pelo menos com a nossa autoimagem. Ficamos tão ocupados com a
nossa identidade que só nos preocupamos em sobressair em meio aos demais e agir melhor do que eles. Essa é
a ilusão que nos lança no caminho da competição, da rivalidade e, até, da violência, porque nos torna
conquistadores que lutam por um lugar no mundo, mesmo às custas de outros. Essa ilusão leva alguns a um
nervoso ativismo, impelidos pela crença de que cada um é apenas o resultado de seu trabalho. A mesma ilusão
leva outros à introspecção, com a pressuposição de que eles são os seus próprios sentimentos mais profundos.
A percepção dc como essas ilusões nos controlam vem geralmente através de uma crise ou
adversidade. Diante de uma grande dor ou de um inevitável desgosto, percebemos quão pouco de fato
controlamos nossa vida, quão debilmente nossos protestos mudam a realidade. Algo acontece para nos
fazer perceber que podemos abrir mão de uma ambição acalentada, dar adeus a um amigo ou aceitar
um corpo enfermo. Desistimos da esperança de um casamento ou do reconhecimento de uma carreira
que parece fora do alcance. Olhamo-nos ao espelho e admitimos que não somos surpreendentemente
bonitos, nem sempre o centro da atenção nas festas ou conversas, nem sempre brilhantes. E lembramos que a
vida não só inclui perdas, mas de que, em certo sentido, todos iremos perder tudo, porque iremos,
inevitavelmente, morrer. Ao mesmo tempo, percebemos que a vida talvez seja mais do que
simplesmente viver.
Essas descobertas lembram-nos de nossa humilde posição no esquema das coisas. Elas livram-
nos do autoengrandecimento. Talvez a nossa necessidade de manter as mãos abertas se mostre mais
evidente nos relacionamentos no dia-a-dia. Amar alguém significa permitir que esse alguém reaja de
formas sobre as quais não temos nenhum controle. A cada momento, você se compromete de modo
intimo e amoroso com a outra pessoa e se torna, pelo menos até certo ponto, sujeito ao
contentamento de ouvir um sim, ou ao desapontamento de ouvir um não. Quanto mais gente você
ama, maior é o seu potencial de sentir dor. Esse é o grande mistério do amor: ao mesmo tempo em
que ele pode ser recebido, pode, também, ser rejeitado. Cada vez que você ama está entrando no
risco do amor.
Olhe para a história de Jesus nos últimos capítulos de sua vida. Vez após outra no Novo
Testamento lemos a expressão "entregou", referindo-se a Jesus e seus seguidores. Deus entregou seu
filho pelos nossos pecados. Jesus deixou de ser aquele que pregava, que falava, que curava, que
tomava a iniciativa. O que foi feito, a ele foi feito. Foi cuspido, levado à cruz, fla gelado,
crucificado. O Verbo, aquele através de quem tudo foi criado, torna-se agora a vitima de
sua criação. Esse foi o significado de sua morte: sair do controle, por nossa causa, por
causa de muito amor.
Nossa dor e o sofrimento do Senhor estão intimamente li gados. Quando choramos,
morremos para alguma coisa que nos dá uma percepção de quem somos. Nesse sentido,
o sofrimento tem muito a ver com a vida espiritual. Desistimos de lutar pela negação de
nossas limitações. Deixamos de segurar uma parte de nossa identidade como cônjuge, pai
ou mãe, membro de uma igreja, cidadão de uma comunidade ou nação. Podemos, até,
sofrer por causa de nossa fé. Os primeiros seguidores de Jesus foram entregues à
perseguição e à morte. E assim acabamos ad mitindo, não sem muitas lágrimas, que
algumas vezes temos que deixar ir aquilo que consideramos precioso.
O peso de tudo isso torna alguns de nós cínicos. "De que serve tudo isso?" —
concluímos. A tentação é reagirmos com lamúrias constantes aos nossos planos e
programas frustrados, O pesar transforma-se num constante amargor.
Essas realidades levam outros a compulsões desesperadas. Na tentativa de
suavizar seus medos, acabam por aumentá-los; acham que cada vez mais têm que manter
o controle e aumentar a preocupação. Essa insistência cria ansiedade e agitação. Na
verdade, enquanto nossa reação ao mundo for guiada pelo desejo de controlar e manter,
jamais seremos satisfeitos. E, a partir do momento em que nossas necessidades não
forem satisfeitas, concentraremos nosso esforço nos meios, perdendo a visão do fim.
Tornamo-nos como alguém que comprou mer cadorias em exagero para apaziguar seu
medo de ir à falência. E, então, ficou com tanto medo de ladrões que nem saia de casa. Acabou
prisioneiro de seu próprio medo, apesar de todas as tentativas para escapar dele.
Mas os discípulos de Jesus deixaram suas redes, a fonte de sua segurança econômica, c as suas
famílias, a fonte de sua segurança emocional, para seguir aquele que prometeu satisfazer os desejos mais
profundos de seu coração. Sabemos o que essa incerteza significa. Mas então, quando soltamos as amarras,
sentimos que algo de novo, algo maravilhoso, pode acontecer em seu lugar.

 DEIXANDO PARA TRÁS AS NOSSAS COMPULSÕES


Estar plenamente convertido é permitir que Deus nos conduza para fora de nossas compulsões.
Significa que aceitamos desistir de tentar incessantemente "dar um jeito" nas coisas. A liberdade é o
oposto das obsessões compulsivas.
Claro, isso não é fácil, principalmente porque somos motivados por necessidades prementes. Por
exemplo: sentimo-nos solitários e assim procuramos — às vezes desesperadamente — alguém que possa
remover nossa dor: o marido, a esposa ou um amigo. Somos muito apressados em concluir que alguém ou
alguma coisa pode, finalmente, acabar com nossa carência.
E assim passamos a esperar muito dos outros. Passamos a ser exigentes, dominadores e, até,
violentos. Os relacionamentos entortam-se debaixo de enorme peso, porque depositamos exagerada seriedade
neles. Sobrecarregamos nossos semelhantes com poderes imortais. E, nos piores momentos, fazemos deles
instrumentos para preencher nossas expectativas.
Mas sempre que escolho outros deuses, fazendo de pessoas ou eventos a fonte de minha alegria,
constato que minha tristeza só tende a aumentar. Quando exijo de outros aquilo que só Deus pode dar,
experimento dor. Um salmo do Antigo Testamento aponta em outra direção: "Ao Senhor declaro: Tu és o
meu Senhor; não tenho bem nenhum além de ti" (Salmo 16,2). Essa oração provém da experiência religiosa de
um adorador que sabe estar protegido pela presença de Deus no templo. O salmista continua a declarar que
Deus é a sua "porção", "cálice" e "herança". Essas imagens se reportam a um tempo anterior em Israel, quando
os levitas, servos de Deus, não tiveram parte na herança dada às outras tribos, pois o próprio Deus foi a sua
porção (Deuteronômio 10,9). Percebemos que a fonte de alegria do salmista era uma vida vivida em
comunhão com Deus.
Muitas coisas em nossa vida são obviamente de imensa importância para nós. Não podemos ser
completos sem gente para amar e sem gente que nos ame. Necessitamos de comida e um lugar para viver;
desfrutamos da companhia de um amigo e do prazer de ler um livro. Mas manter a mão aberta significa
lembrar que não somos o que adquirimos e realizamos, mas, sim, o que temos recebido. As mais profundas
alegrias não provêm do dinheiro que ganhamos, de amigos que nos cercam ou de resultados obtidos. Somos,
realmente, as pessoas que Deus fez em seu infinito amor. Somos os dons que recebemos, não as vitórias que
conquistamos. Enquanto nos desgastamos, tentando ansiosamente nos afirmar ou receber afirmação de outros,
continuamos cegos àquele que nos amou primeiro, habita em nosso coração e formou o nosso verdadeiro eu. Mas
ainda podemos abrir nossos olhos. Podemos ver um novo caminho adiante.

 SAINDO DA CASA DO MEDO


O medo torna-se um grande obstáculo para que se realize esse movimento. Se
existe algo que me deixou admirado ao via jar através dos Estados Unidos para falar e
ensinar é que somos um povo receoso. Tememos necessidades físicas ou desconforto.
Sentimos apreensão por nossa segurança e por nossos empregos. Até nossos medos e
suspeitas em relação a outros leva-nos a proteger nossos pertences. No plano das relações
internacionais, os países abastados constroem muralhas de proteção ao redor de suas
riquezas para que nenhum estrangeiro as roube. Construí mos bombas para proteger
aquilo que estamos convencidos a ter que defender. Numa grande ironia, porém,
tornamo-nos prisioneiros de nossos próprios medos. Quem é capaz de amedrontar- nos
exerce poder sobre nós. Aqueles que nos levam a viver na casa do medo, em última
análise, tiram a nossa liberdade.
Quando vivi há alguns anos entre os pobres da América Latina, encontrei um
povo vivendo de jeito diferente. Eles haviam aprendido que o medo não precisava
dominar. Diante da tortura, opressão e pobreza, havia gente vivendo com gratidão e
em paz. Encontrei menos medo ali do que nos países ricos (como os noss os), onde
muitos possuem tanto. E foi aí que, de repente, percebi outro aspecto da opressão:
não aquela que impera sobre pobres e humilhados, mas a opressão paradoxal que impera
sobre os que detêm o poder. Porque, no lado oposto da pobreza das nações do
Hemisfério Sul, estão o medo, a culpa e a solidão do Hemisfério Norte. O
sofrimento de países opulentos como o nosso — sua ansiedade e solidão — vem
como consequência oculta da negligência aos menos afortunados. Este sofrimento
acompanha a nossa in justa extravagância.
Onde quer que vivamos, o convite de Cristo acena-nos para sairmos da casa do
medo e nos mudarmos para a casa do amor, deixando nossa possessividade para trás e
escolhendo em seu lugar a liberdade. O Verbo se fez carne e armou a sua tenda entre nós,
para que Deus pudesse viver entre nós na casa do amor. E Jesus nos disse que ele iria
para o Pai, para preparar uma casa para nós; e assim podermos fazer nele o nosso lar, assim
como ele faz o seu lar em nós. "Onde você está?" — ele pergunta. "Está vivendo no lugar
de amor?"
Jesus fala-nos nos Evangelhos com outras palavras fortes: "Não tenha medo." É
uma frase que ressoa através de toda a história do Evangelho, pronunciada pelo anjo Gabriel
a Zacarias antes do nascimento de João Batista, a Maria antes do nascimento de Jesus e às
mulheres que foram ao túmulo de Jesus. E o Senhor mesmo a pronunciou quando apareceu
aos discípulos: "Não tenham medo" (Mateus 28,10). É como se Deus estivesse dizendo: "Eu
sou o Deus de amor, o Deus que convida você a receber os presentes da alegria, da paz e da
gratidão que os pobres descobriram, o Deus que convi da você a soltar seus medos, para poder
começar a partilhar com os outros o que entesourou para si."
À medida que fixarmos nossos olhos diretamente naquele que diz "não tenha
medo", poderemos, lentamente, abrir mão dos nossos medos e aprender a viver num
mundo sem fronteiras zelosamente protegidas. Estaremos livres para enxergar o
sofrimento de outros povos, livres para responder sem defensivas, mas com compaixão,
com paz, com a nossa própria pessoa.
 CONVERTENDO AS ILUSÕES ATRAVÉS DA ORAÇÃO
Esse movimento vem através da oração. Vemos vez após vez nos Evangelhos que
Jesus se retirava sozinho para orar, às vezes bem antes do amanhecer. Ao orar, Jesus dava-
se conta, cada vez mais, de que o Pai dos Céus era quem o enviara. Era Deus que lhe
dava as palavras para dizer. Ele não requereu quaisquer "prê mios" de ministério; antes,
simplesmente ouviu.
Só a oração nos permite ouvir outra voz, ser sensíveis a maiores possibilidades,
encontrar um caminho para fora de nossas necessidades de ordem e controle. Então, as
questões que parecem moldar a nossa identidade já não importam tanto: Quem diz coisas
boas sobre mim? Quem não diz? Quem é meu amigo? E meu inimigo? Quantos gostam
de mim? Quando fazemos de Deus o centro de nossa vida, a nossa percepção de quem
somos dependerá menos do que os outros pensam ou falam de nós. Dei xamos de ser
prisioneiros do interpessoal.
De fato, orar mostra-nos como impedir o interpessoal de tornar-se um ídolo. Orar
faz-nos lembrar que aprendemos a amar só porque vislumbramos ou percebemos um
primeiro amor, um amor supremo. Aqui está o caminho do amor que transcende o
interpessoal: "Nós amamos porque ele nos amou primeiro" (1João 4,19). Encontramos
liberdade quando somos tocados por aquele primeiro amor, pois é aquele amor que nos
arrebatará de nossa alienação e separação. É um amor que pode aquietar nossa compulsão
por acumular bens e fazer de conta que podemos organizar o futuro. É o amor que nos
permite amar os outros.
Orar torna-se, então, uma atitude que vê o mundo não como algo para ser possuído,
mas como um presente que nos fala constantemente do Pai. Orar liberta-nos do sofrimento
que vem da insistência em fazermos as coisas do nosso jeito. Orar abre nosso coração para
receber. E orar refresca-nos a memória para percebermos como outras pessoas nos revelam o
presente da vida.
Quando oramos, estamos admitindo que não sabemos o que Deus vai fazer, mas,
ao mesmo o tempo, lembrando que nunca o descobriremos se não nos expusermos a riscos. Aprendemos
a estender nossos braços para o profundo mar ou para os altos céus com mente e coração abertos. De muitas
maneiras, orar torna-se uma atitude perante a vida, de abrir-se para um presente que está sempre vindo.
Criamos coragem para permitir que aconteçam coisas novas, coisas sobre as quais não temos controle, mas que
agora parecem menos ameaçadoras.
E é aqui que encontramos coragem para enfrentar nossas limitações e nossas feridas, seja nossa
aparência física, nossa rejeição por parte de outros, nossas lembranças de ofensas e abusos, ou a opressão
que nos foi imposta por outros. À medida que nos sentimos livres para clamar em nossa angústia ou
desaprovar o sofrimento de alguém, nós nos descobrimos sendo lentamente conduzidos a um novo lugar.
Ficamos condicionados a esperar por aquilo que nós, em nossa força, não podemos criar ou orquestrar.
Compreendemos que alegria não é uma questão de festas e balões, de possuir uma casa, ou, mesmo, de ter
filhos que vão bem na escola. A alegria provém de uma experiência mais profunda: a experiência com
Cristo. No tranquilo ouvir da oração, aprendemos a distinguir unia voz que diz: "Eu amo você, seja você
amado ou não por outros. Você é meu. Edifique seu lar em mim, como eu tenho edificado meu lar em você”.
O Jesus ressurreto disse a Pedro: "Quando você era mais jovem, vestia-se e ia para onde queria; mas,
quando for velho, estenderá as mãos e outra pessoa o vestirá e o levará para onde você não deseja ir." João contou-
nos que, deste modo, Jesus queria indicar o tipo de morte pela qual Pedro haveria de glorificar Deus. E, então,
Jesus disse-lhe: "Segue-me" (João 21,18-19). Como isso é radical! Um psicólogo diria-nos: "Quando você
era jovem, alguém cingia e guiava você, mas agora que você é velho siga na sua própria
força." Mas Jesus diz que maturidade significa crescer em disposição para ser conduzido,
até a lugares que não escolheríamos com entusiasmo. É nessa hora e nesse lugar de
necessidade que nos voltamos para Deus. Percebemos que não podemos viver sem ele. E
todos os reconhecimentos e confortos da vida passam a ser vistos sob uma nova luz.
Isso é difícil de dizer e facilmente sujeito a más interpreta ções, como o
masoquismo. Mas não estou falando do desejo de ser castigado, e, sim, de ser despido de
nossa confortável confiança na família, amigos, saúde e maneiras familiares de pensar.
Podemos fazer assim porque em oração aprendemos a confiar que nossa nudez será,
afinal, coberta de bondade. Prantear e la mentar não significa apenas enfrentar nossas
perdas. O lamento acolhe nossas perdas como meios para seguir a voz do amor de maneira
mais radical.
O Evangelho chama-nos continuamente a fazer de Cristo a fonte, o centro e o
propósito de nossa vida. Nele encontramos nosso lar. Na segurança desse lugar, nossa
tristeza pode remeter-nos a Deus, e, até, guiar-nos ao seu abraço amoroso. É assim que
prantear e lamentar nossas perdas, em última análise, leva-nos à consciência de que somos
amados por Deus. Prantear e lamentar faz-nos vislumbrar um futuro que não podemos
imaginar por nós mesmos, um futuro que inclui dança.
Esse é o caminho de Jesus. O Homem de Dores, que co nhece o que é padecer
(Isaías 53,3), prometeu alegria: "Tenho lhes dito estas palavras para que a minha alegria
esteja em vocês c a alegria de vocês seja completa" (João 15,11). "Vocês se en tristecerão",
disse Jesus, "mas a tristeza de vocês se transformará em alegria" (João 16,20).

 DANDO ABERTURA A UM DEUS SURPREENDENTE


Todo esse discurso do deixar ir pode desafiar algumas convicções arraigadas. Mesmo
em nossa fé, podemos necessitar abrir nossos dedos e abrir nossos braços para um Deus
surpreendente.
Tempos atrás, encontrei um estudante sentado nos degraus de um prédio no
campus, com a cabeça apoiada entre as mãos. "Que está acontecendo?", perguntei,
"Qual é o problema?"
"Bem", respondeu ele, "tudo parece demais. Há muitos cursos, muitas coisas
interessantes para fazer, muitas opções. Sinto-me como uma criança numa confeitaria,
que só tem cinquenta centavos e não sabe como gastar."
Fico pensando nesse novo amigo, porque, repetidas vezes, comunicamos em nossa
escola, trabalho e vizinhança que, se ti véssemos mais tempo e energia, poderíamos chegar
lá, conquistar a vida. Mesmo em nossas aulas e palestras sobre Deus, temos a tendência de
reduzir Deus aos nossos preconceitos e sistemas. Temos um certo medo de Deus, afinal.
Queremos amá-lo, mas levantamos uma cerca e mantemos Deus à distância. Nossos
hábitos e nossos costumes espirituais tornam-se a nossa cerca. Na verdade, dizemos a
Deus: "Se você quiser vir, terá que usar a velha entrada, o velho caminho."
Mas, frequentemente, o sofrimento ensina-nos uma lição sobre a
incompreensibilidade de Deus. Ele disse através de Isaías: "Assim como os céus são mais
altos do que a terra, também os meus caminhos são mais altos que os seus caminhos" (Isaías
55,9).
Essa é uma palavra destinada a libertar-nos. Convida-nos a não conformar
Deus aos nossos desejos, nem a tentar "dar um jeito" nas regras. Porque nós não
poderíamos, mesmo que tentássemos, decifrar Deus completamente e então pensar:
"Finalmente, agora entendo tudo." Ao contrário: quando toda a perturbação acaba e
finda-se a longa noite, saímos com as mãos vazias, mãos que estendemos a Deus.
Nossa espera em Deus e nossas perguntas sobre aonde ele nos está levando
podem, então, cultivar em nós uma crescen te sensibilidade à presença de Deus, bem
como à sua ausência. Aprendemos a aceitar as maneiras surpreendentes de Deus e sua
presença intermitente em nosso meio. Não mais admitiremos secretamente que, se
trabalharmos exaustivamente nos assuntos do reino, ou em nossas tarefas, ou nas atividades
da igreja, seguramente iremos experimentar Deus falando conosco. E diminuirão as
vezes em que ficamos à espera de Deus firmados em nossos planos ou cálculos.
Em Teologia, fala-se muito em quem Deus é, em como en tendemos que seja e em
como atua. Falamos do que cremos ser verdade. Haverá, também, se não insistirmos em
sistematizar o Infinito e o Inefável, uma série de negativas: Deus não é só jus tiça, não é
só amor, não é só libertação, não é só isso ou aquilo. Deus é maior que nosso coração.
Conhecemos o suficiente para sabermos que Deus ultrapassa toda a nossa capacidade de
pensamento ou imaginação.
Nesses momentos Deus nos pede para sairmos de nossas gaiolas seguras, para
parar de calcular os riscos. Jesus nos convida: "Tome a sua cruz e me siga; deixe seu
pai e sua mãe se for preciso. Não insista em saber exatamente o que virá depois, mas
creia que você está nas mãos do Deus que irá guiar a sua vida." Podemos fazer isso
porque a Escritura nos diz muitas ve zes: "Não tenha medo. Dê-me uma oportunidade.
Sou o seu Salvador, Guia, Amigo, Noivo."

 LARGANDO O ANTIGO
A postura de mãos abertas pode significar o abandono de nosso apego a certos preconceitos. Somos
solicitados a nos render a uma visão de Deus e do seu povo maior do que a que agora conhecemos. Talvez
tenhamos que desatar algumas caixas que não mais podem conter a amplitude da verdade de Deus. Talvez
tenhamos que descobrir outra postura para pessoas com quem gastamos tempo diariamente, ou encontramos em
nossas idas e vindas para o escritório, ou vemos nos noticiários. Talvez descubramos que orar nos ajuda a ver os
outros como pessoas que precisam ser acolhidas e amadas.
Jesus contou a parábola sobre um fazendeiro que contratou uma série de trabalhadores de roça.
Independente da hora do dia em que foram contratados, no final "recebeu cada um deles um denário" (Mateus
20,9). Alguns estiveram trabalhando desde bem cedo de manhã e ficaram furiosos quando Jesus mostrou que Deus
é livre para perdoar a quem quer perdoar. Nosso Deus não está limitado pelos regulamentos impostos por nossas
limitadas expectativas. Os ouvintes de Jesus ficaram ainda mais furiosos quando ele demonstrou tanta
compaixão por Maria Madalena, uma prostituta, e por Mateus, um coletor de impostos.
Quando você entra em íntima comunhão com Deus, entra também em íntima comunhão com seu povo.
Oração é comunhão com Deus na privacidade de nossa própria intimidade. É, também, comunhão com o povo de
Deus ao redor do mundo e através dos séculos. Esse amor sobrepuja o medo que nos separa. Esse amor nos permite
largar nossos medos.
Pode parecer difícil, mas esse tipo de amor, quando opera -em nós, oferece-nos, em última
instância, um escape da justiça própria e da opressão. Resgata-nos da ilusão que faz o rico pensar que
sabe o que é melhor para o pobre; que faz o homem achar que conhece o que é melhor
para a mulher; ou o branco pensar que sabe o que é melhor para o negro. Salva-nos da
ilusão de poder que nos leva a Auschwitz, Hiroshima ou Jonestown.
 ALMEJANDO O DIA
Esse amor também impede que a desistência de nossa ilusão de controle vire mera
passividade. Arejar nossa pequena visão de Deus ou nossos preconceitos não quer dizer
que deixaremos de nos importar, ardentemente, pelas coisas de Deus. Vez após outra,
vemos na Bíblia o povo de Deus trabalhando ativamente no projeto novo de Deus.
Lutar por justiça. Buscar o reino. A segunda carta de Pedro fala que estamos
"esperando o dia de Deus e apressando sua vinda" (3,12). Este é um chamado para
ficarmos de olhos abertos, acordados, alertas e sempre vigilantes e, desta forma,
engajados em trabalhar pelo bem, enquanto vigiamos.
Nossa atitude de espera, vigilância e serviço inclui, sobretudo uma certa
vidência, ou seja, discernir a vinda de Cristo ao nosso meio e ao nosso mundo. Há em
sua vida um espaço onde o Espírito de Deus tem a liberdade de falar, atuar ou aparecer?
Ser contemplativo significa despojar-nos das vendas que nos impedem dc ver sua vinda
cm nós e ao redor de nós. Significa aprender a ouvir naqueles espaços de quietude que
deixamos para Deus e desse modo saber como relacionar-nos melhor com o mundo ao
nos s o redor.
Recentemente, tomei algum tempo para passear por Nova York. Notei que a
maioria dos lugares está atulhada de coisas. Tudo é muito aglomerado naquela cidade!
Parece que temos medo de espaços vazios. O filósofo Spinoza denominou isso
horror vacui. Queremos sempre encher o que está vazio. Nossa vida fica muito cheia. E quando
não estamos cegos pela atividade preenchemos nosso espaço interior com a culpa de coisas
passadas ou preocupações de coisas futuras. Talvez boa parte de nossos medos venha da
imprevisibilidade dos espaços vazios, da hipótese de que algo novo aconteça conosco, algo que
nos conduza a um lugar aonde talvez não queiramos ir. Podemos até não querer ouvir o que Deus
tem a dizer.
Aqui está o lugar onde podemos cultivar um coração aberto. Disciplina é o esforço
concentrado para criar algum espaço em nossa vida, onde o Espírito de Deus possa nos tocar,
guiar, falar e conduzir a lugares imprevisíveis, onde não estaremos mais no controle. Muitos
autores que escrevem sobre a vida espiritual falam sobre o "estar atento" para Deus. A atenção
ajuda-nos a concentrar nosso olhar inteiramente em Deus, a convidá-lo a entrar de modo mais
completo em nossa vida. Isso nos leva às profundezas das misericórdias curativas de Deus. Esta
atenção, escreve Simone Weil, consiste em suspender nosso pensamento, deixando-o
desligado, vazio e pronto para ser penetrado pelo objeto... Todas as traduções erradas,
todos os absurdos nos problemas de geometria, toda a inabilidade de estilo e todos os
defeitos de conexão entre ideias em composições e ensaios, todas estas coisas são
atribuídas ao fato de que o pensamento se apoderou de uma ideia muito precipitadamente, e
sendo, deste modo, prematuramente bloqueado, não está aberto para a verdade. O motivo
é que sempre queremos ser muito ativos; queremos conduzir uma busca... Nós não obtemos
os mais preciosos presentes saindo em busca deles, mas especando por eles.(2)
Disciplina, nesse sentido, não é como às vezes a consideramos — dominar, por exemplo, a disciplina
da Sociologia, do Direito ou da Enfermagem. Não estou falando sobre um compêndio de matérias ou um
conjunto organizado de princípios e práticas. Disciplina, no sentido que desejo apresentar, é deixar em nosso
coração um espaço onde possamos ouvir o Espírito Santo de um modo transformador. É guardar espaço em
nossa vida para tornar-nos sensíveis e receptivos à Palavra de Deus. Encontramos nesses atos arriscados algo
que excede de modo maravilhoso o que poderíamos haver feito por nós mesmos sem o auxílio de Deus.
Esta é unia lição que aprendo sempre de novo, vez após vez.
Desde aquela ida ao circo com meu pai, desde que fiquei fascinado por trapezistas, tenho-me juntado
ao grupo anualmente, durante uma semana, para viajar com eles. O líder do grupo disse-me recentemente:
"Henri, todos me aplaudem porque, quando dou aqueles saltos e piruetas, eles acham que sou um herói.
Mas o verdadeiro herói é quem me pega. A única coisa que eu preciso fazer é estender as mãos e confiar;
confiar em que ele vai estar lá para me levar ao alto novamente."
Podemos dizer o mesmo de Deus, que cerca a nossa pequena vida e espera para nos segurar: nas boas e
nas piores situações, tanto nos momentos precários quanto naqueles em que voamos a grandes alturas. Alguém
que está em nós e também além de nós torna tudo isso possível. Por causa disso, podemos nos desapegar da
vida: tanto das alegrias quanto dos pesares. Nós, também, podemos reaprender a voar — a dançar.

3. DO FATALISMO PARA A ESPERANÇA

Você consegue hoje lembrar-se do que fazia exatamente há um ano? Sobre seu assunto preferido? Se
estava zangado ou feliz, ansioso ou confiante? Pode ser que guarde a vivida lembrança de algo dramático que
haja ocorrido. Para a maioria de nós, porém, o que nos preocupava naquele dia ficou nebuloso ou já se
desvaneceu de nossa memória consciente. Seria mais difícil ainda se eu lhe pedisse para falar de fatos de três
ou quatro anos atrás. Eventos que nos fizeram grudar na TV parecem relances do passado. Alguns assuntos,
então bastante atuais, perderam sua urgência. Colegas ou amigos que naquela época tinham nossa atenção podem
estar praticamente esquecidos hoje.
De repente podemos ficar chocados ao ver quão efêmera é a nossa existência. É como a água que
não podemos reter nas mãos. Esse reconhecimento pode nos entristecer, já que nos faz perceber que algo em nós
morre a cada instante. Podemos ser levados a concluir que nunca deveríamos ter grandes expectativas. Podemos ser
levados a esquecer que novas possibilidades quase sempre nos aguardam depois da curva.
Mas enquanto presidentes e papas vieram e se foram, enquanto guerras explodiram e chegaram ao fim,
enquanto alguns perderam o emprego logo após serem reconhecidos por seu talento, enquanto crianças
cresceram sem saúde e depois se tornaram heróis do esporte, enquanto tudo isso, e muito mais, transpareceu, algo
se formou que nem a morte nem a enfermidade podiam destruir. Para aqueles que têm olhos para ver e
ouvidos para ouvir, muito em nossa vida fugaz não está passando, mas permanecendo; não está morrendo, mas
nascendo; não é temporário, mas eterno. Diante da fragilidade de nossa vida, temos uma razão maravilhosa
para ter esperança.
Alguns denominam "graça" a esta realidade oculta; outros chamam-na de "a vida de Deus em nós", e
ainda outros de "o Reino de Deus entre nós". Seja qual for o nome que você dê, se focalizou seus olhos e seus
ouvidos neste precioso centro, começará a perceber que todas as torrentes de tempo e circunstância que atuam sobre
ele servem apenas para dar brilho ao que se revelará como um precioso c imperecível presente. Todo aquele que
crê, Jesus nos diz, tem a vida eterna (João 6,40). Eis aí a imensa revolução: ele vir plantar neste mundo efêmero e
temporário a semente da vida eterna. Em muitos sentidos, é isso que o termo vida espiritual quer dizer:
desenvolver o eterno em meio ao temporal; o permanente dentro do passageiro; a presença de Deus na família
humana; a vida do Espírito divino dentro de nós.
Perceba essa presença misteriosa, e sua vida ganhará novo rumo. Você sentirá alegria no mesmo
contexto em que outros nutrem queixas; experimentará paz enquanto o mundo conspira em guerras e encontrará
esperança mesmo quando os noticiários divulgam desespero. Você descobrirá um profundo amor, mesmo
quando pairar o ódio ao seu redor.

 S E D U Ç Ã O D O FATA L I S M O
Nem sempre parece simples. Às vezes, nós esquecemos-nos de ver o eterno em meio ao
temporário. Às vezes, enxergamos a transitoriedade da vida como causa para resignação.
De acordo com o Dicionário Webster, "fatalismo é a aceitação de cada evento como
inevitável". Essa visão é bem mais comum do que imaginamos. Albert Nolan escreve em Jesus
Before Christianity: "Fatalismo é a atitude predominante na maioria das pessoas, na maior parte
do tempo. Surge em frases como: 'Nada pode ser feito a respeito disso'; 'Não se pode mudar o
mundo'; 'Você tem que ser prático e realista'; 'É preciso aceitar a realidade"(1). Uma pessoa
fatalista diz: "De que adianta? No final, vamos perder. Somos vítimas do destino." Essa atitude
nos leva facilmente ao ressentimento, à amargura, à desesperança, ao desespero.

O fatalismo atormenta-nos de muitas maneiras. Ele afeta nossos relacionamentos. Usamos


rótulos e comportamentos que nos impedem de esperar qualquer coisa nova uns dos outros. "Ela é
assim mesmo" — declara alguém, presumindo que o assunto esteja resolvido. "Esse
comportamento é típico dele" — resmungamos. O lugar onde trabalhamos ou as instituições com
as quais lidamos podem nos impor o mesmo pensamento: "É assim que as coisas são feitas aqui."
E assim desistimos de tentar atuar de forma diferente, mesmo quando estamos diante de uma
possibilidade melhor. Lamentavelmente, aceitamos ser tratados de forma dolorosa e prejudicial.
Permitimos que outras abusem de nós, não por causa de nossa humildade, mas porque nos
desesperamos ao aceitar que nada pode ser mudado. Vemos o destino — ou os maus-tratos habituais
como um poder anônimo que nos mantém prisioneiros.
Tudo isso afeta nossa reação às questões globais: pobreza, guerra e opressão. "Esse
problema social é muito complexo para que eu me envolva com ele", afirma alguém.
"Minha atuação não faria a menor diferença!" E muitos que estão presos na po breza, ou
outro mal social, têm dificuldade em crer em que as coisas podem melhorar. E assim
desistem de buscar uma saída de sua prisão socioeconômica, desistindo do sonho de um
modo de vida mais justo.
Todas essas e muitas outras formas de fatalismo revelam nosso desespero oculto.
Supomos que o destino é um poder anônimo que nos mantém aprisionados. Seus efeitos
colaterais atormentam-nos. O fatalismo pode manter-nos dependentes de rotinas, de ações
que poderíamos ter mudado com urgência se tivessem sido examinadas. Leva-nos a aceitar
como normal a satisfação que encontramos em situações disfuncionais e doloro sas, que
crescem atreladas às nossas queixas, sintomas c vícios.
Um dos mais insidiosos aspectos do fatalismo está relacio nado com nossa
resistência à cura. Ficamos cativos de um abatimento que insiste em que nada mais pode
ser feito. O fatalismo reforça nosso obstinado apego ao antigo. Tornamo-nos
teimosamente relutantes em considerar qualquer coisa fora de nossa parca experiência. O
fatalismo pode levar-nos à depressão, ao desespero e até ao suicídio.
A história do paralítico no tanque de Betesda, no Evange lho de João, mostra essa
resistência. Jesus pergunta ao homem: "Você quer ser curado?" O pobre homem diz que
tentara entrar nas águas curativas, mas que sempre alguém descia antes dele. Sua queixa
é ao mesmo tempo a explicação de sua condição e a evidência de sua depressão. Porque, ao
lado de seu desejo de ser curado, habita um senso de inutilidade que o faz permanecer
apático diante de Jesus. Seus esforços frustrados tinham-no de tal forma desencorajado
que ele parecia haver quase desistido dc esperar e querer. Que outro motivo teria Jesus ao
perguntar-lhe: "Você quer ser curado?" (João 5,1-9).

 F É C O N T R A O FATA L I S M O
Dizer que uma situação "está fora de meu controle" pode denotar uma expressão
fatalista, ou, então, marca de fé. Afinal, a fé parece concretizar-se na resignação. Ela
também nos pede para dizer: "Entrego-me nas mãos que estão além das minhas: Mas fé
é muito diferente de fatalismo. É o seu extremo oposto. Antes de ser uma manifestação
de resignação passiva, a fé nos conduz a uma disposição cheia de esperança. Uma
pessoa dc fé está disposta a deixar que coisas novas aconteçam e assume
responsabilidades que ultrapassam possibilidades jamais cogita das. Confiar em Deus
permite-nos viver em expectativa ativa, e não em cinismo. Quando encaramos a vida
como um presente, como um bem valioso que nos foi dado por um Deus amoroso, e não
extraído com luta de um destino impessoal, lembramos que, no âmago da realidade,
permanece o amor do próprio Deus. Isso significa que a fé cria em nós uma nova
disposição de deixar a vontade de Deus cumprir-se.
A palavra inúmeras vezes traduzida no Novo Testamento como fé vem de uma
palavra antiga que significa literalmente "confiar". Fé é a profunda convicção de que
Deus é bom e de que a sua bondade triunfará de algum modo. Fé é essa confian ça
pessoal e íntima, pela qual você pode dizer: "Eu me entrego em tuas fortes e amorosas
mãos." Não é difícil notar como a esperança genuína é diferente do mero otimismo. Não
estamos falando de uma atitude eufórica que nos faz acreditar que tudo será melhor
amanhã. O otimista diz: "A guerra vai terminar; suas feridas serão curadas; a depressão
vai acabar; tudo vai logo melhorar." O otimista pode até estar certo, mas,
lamentavelmente, pode também estar errado. Nenhum de nós tem o poder de controlar
as próprias circunstâncias.
Não, nem a esperança nem a fé vêm de predições positivas sobre a situação do
mundo. A esperança também não depende dos altos e baixos da nossa vida diária.
Antes, a esperança tem a ver com Deus. Temos esperança e gozo em nossa fé porque
cremos que, embora o mundo em que vivemos esteja envolto em trevas, Deus triunfou
sobre este mundo. Jesus disse: "No mundo passais por aflições; mas tende bom ânimo,
eu venci o mundo" (João 16,33). Seguimos Alguém que não está limitado nem
derrotado pelos sofrimentos do mundo.
Jesus nos perguntaria: "Você crê? Você confia? Confia em que Deus o ama de tal
maneira que deseja lhe dar tão somente vida?" Quando tento responder a essas perguntas,
percebo quão longe devo ir. Uma parte de mim diz: "Quero ter certeza de que certas
coisas já estão no lugar antes de dar o salto da fé." Sempre que tento confiar,
percebo quantas pequenas condições imponho a essa confiança. Sempre que confio,
vejo quão arraigada é minha resistência. E quantos outros níveis eu descubro que
ainda restam para a fé penetrar! Nem sabemos quantos. Mas nossa vida é renovada
cada vez que confiamos mais. Damos o salto da fé e da confiança e imediatamente
passamos a enxergar o próximo patamar de possibilidades.
Ter esperança não quer dizer evitar ou ser capaz de ignorar o sofrimento. Na
verdade, a esperança nascida da fé amadurece e se purifica através de dificuldades. A
surpresa que experimentamos na esperança não é aquela em que, inesperadamente, as
coisas terminam sendo melhores do que esperávamos. Porque, mesmo quando nada muda, podemos continuar
nutrindo uma viva esperança. O fundamento de nossa esperança está naquele que é mais forte do que a vida
e os nossos sofrimentos. A fé nos faz chegar à presença sustentadora e curativa de Deus. Uma pessoa em
dificuldades pode confiar, com base na crença de que algo mais é possível. Confiar é levar em conta a
esperança.
Isso também quer dizer que confiar é não exigir sempre os pormenores do que acontecerá. Deus quer
que experimentemos vida, mas o que isso exatamente significa está em aberto. Deus quer que experimentemos
cura, mas como podemos saber com precisão como a cura irá manifestar-se? Deus quer levar-nos a uma nova
posição de fidelidade, mas de que modo ou através de quê? Não temos que decidir tudo ou saber tudo, e nem
mesmo vislumbrar muita coisa. Se tentarmos nos dedicar a encontrar solução para tudo, perderemos nosso
espírito de confiança. Uma pessoa de fé aprende tanto a confiar, que o resultado dessa confiança é entregue nas
mãos daquele sobre quem a confiança é depositada. Esperamos Deus revelar alguns pormenores de seu plano e
então nos sentimos tentados a saber mais ou a controlar; mas, enfim, não somos capazes de fazê-lo.
Essa espécie de atenção diária voltada para o eterno não fatiga nosso coração nem exige esforços
massivos. Tem mais a ver com atenção a Deus do que com perfeição, tem mais a ver com um desejo de ver
Deus, mesmo diante das nossas fraquezas. Simone Weil escreve:
A atenção é, em geral, confundida com uma espécie de esforço muscular. Se alguém
diz a seus alunos "agora, prestem atenção!” vai vê-los contraindo as sobrancelhas,
prendendo a respiração e enrijecendo seus músculos. Se depois de dois minutos lhes
for perguntado em que prestavam atenção, é provável que não saibam. Estiveram
concentrados no nada. Eles não prestaram atenção, apenas contraíram seus músculos.
(...) Como esse tipo de esforço nos cansa, temos a impressão de que estávamos trabalhando. É
uma ilusão. O cansaço nada tem a ver com trabalho. (...) A inteligência só se desenvolve
e frutifica na alegria. (2)
As implicações para a vida espiritual são imensas. O fator essencial para o nosso crescimento fora
do fatalismo é um anseio por Deus. Mais importante que qualquer plano ou conjunto de técnicas é a nossa
receptividade, em relação a cada dia e a cada instante.

 TEMPO REAL E TEMPO CRONOLÓGICO


A esperança que cresce arraigada em confiança nos coloca numa relação diferente no que diz respeito às
horas e aos dias de nossa vida. Somos frequentemente tentados a ver o tempo como cronologia, como chronos,
uma série de incidentes e acidentes desatrelados. Esta é uma das maneiras pelas quais pensamos poder dirigir
ou subjugar nossas incumbências. Ou uma maneira de nos sentirmos vítimas de nossos programas
preestabelecidos, porque essa abordagem também significa que o tempo se torna um fardo. Dividimos nosso
tempo em minutos, horas e semanas, deixando que todos esses compartimentos nos dominem.
Como não somos um povo ainda totalmente convertido, mergulhamos de cabeça no tempo do
relógio. O tempo torna-se um meio para atingir um fim, e não momentos para gozar da presença de Deus ou
para dar atenção a outros. E acabamos acreditando que aquilo que é real está sempre por vir. Tempo
para festejar, orar ou sonhar fica de fora. Não é de admirar, que nos sintamos tão fatigados ou
deprimidos! Não é de admirar que às vezes nos sintamos desamparados ou empobrecidos em nossa
experiência com o tempo.
Mas o Evangelho fala de plenitude de tempo. O que buscamos já está aqui. O contemplativo
Thomas Merton escreveu certa vez: "A Bíblia trata de plenitude do tempo, o tempo para um evento
acontecer, o tempo para uma emoção ser sentida, o tempo da colheita ou o tempo da celebração da
colheita." (3) Começamos a ver a história não como uma coleção de eventos que interrompem o que temos
de fazer. Vemos o tempo à luz da fé no Deus da história. Vemos como os eventos deste ano não são apenas
uma série de incidentes e acidentes, felizes ou infelizes, mas evidências das mãos modeladoras de Deus, que
deseja que cresçamos e nos tornemos maduros.
O tempo precisa ser transformado, em vez de chronos, mero tempo cronológico, em kairos,
um termo em grego do Novo Testamento que significa oportunidade, aqueles momentos que parecem
prontos para um propósito intencional. Então, mesmo se a vida continua a parecer agitada e a ter momentos
difíceis, podemos dizer: "Alguma coisa boa está acontecendo diante de tudo isso." Temos vislumbres de
como Deus pode estar cumprindo Seus propósitos em nossos dias. O tempo torna-se não apenas algo para
atravessar, manipular ou governar, mas a arena onde Deus trabalha conosco. Aconteça o que acontecer, de bom
ou mau, agradável ou problemático, olhamos e perguntamos: "Que será que Deus pode estar fazendo aqui?"
Vemos os acontecimentos do dia como oportunidades contínuas para mudar o coração. O tempo aponta para
o Outro e começa a nos falar de Deus.
Somos, porém, parte de uma cultura muito impaciente. Queremos muitas coisas e as queremos
rapidamente. E achamos que precisamos ser capazes de remover as dores, curar as feridas, preencher as lacunas e
criar experiências de grande significado, agora! Não é difícil perceber quão impacientes somos. Temos planos
e projetos e a convicção de querer realizá-los, e então ficamos irritados quando algum impedimento se
interpõe em nosso caminho.
Mas uma visão do tempo como kairos ajuda-nos a ser pacientes no crer. Se formos pacientes neste
sentido, podemos olhar cada acontecimento do dia — esperado ou inesperado — como portador de uma
promessa para nós. A paciência produz em nós a compreensão de que não podemos forçar a vida, e, sim,
deixá-la desenvolver-se e crescer a seu próprio tempo. A paciência permite-nos ver encontros,
acontecimentos do dia e o desenrolar da história de nossos tempos como parte daquele lento processo de
crescimento.
O outro lado de nossa paciência é o tédio. Quando as coisas não acontecem como planejamos,
quando não vemos nada grande acontecer, quando não estamos mais preocupados com todos os nossos planos e
projetos, podemos nos sentir entediados. O tédio também surge de nosso fatalismo, porque reflete o
desmembramento de nossa experiência. Um dia vem a ser apenas outro dia; um ano, outro ano. Tudo já foi
dito, não há nada novo sob o sol, e a vida torna-se como um pedaço de madeira flutuando em água estagnada.
Não é sempre fácil resistir à impaciência e ao tédio. Jesus contou a história de dez virgens que pegaram
suas lâmpadas c foram ao encontro do noivo. Cinco eram desprovidas de discernimento e se esqueceram de
levar azeite (Mateus 25,3). Quando, finalmente, chegou o noivo, suas lâmpadas haviam apagado.
Semelhantemente a elas, quando não podemos fazer o noivo chegar cedo, ficamos sentados
nos lamentando. Então, nossas lâmpadas se apagam. Arriscamo-nos a perder a satisfação de
nossos desejos mais profundos. Mas o desejo impaciente de fazer nascer grandes coisas e o
tédio que sentimos quando as coisas não correm como desejamos, a ponto de perdermos o
interesse por elas, mostram que esquecemos que a vida cresce em plenitude através da espera e,
frequentemente, do sofrimento.

 RECUSANDO-SE A ORAR
Quando dei aulas de espiritualidade em Harvard Diviniry School, os alunos falaram-me
de sua esperança de uma vida mais repleta de fidelidade e oração. "Quero começar de novo" —
diziam alguns. Ou: "Quero dedicar-me mais ao meu crescimento espiritual." "Sinto-me como se
estivesse vivendo um momento critico."
Outros manifestaram grande hesitação. "Estou com medo deste curso", disse-me uma
estudante ao me escrever. Ela sabia que entregar sua vida a Cristo acarretaria algum
desconforto: "Aprender a expor o lixo, livrar-se dele e ouvir a voz de Deus no lugar que ficou
vazio." Outro se preocupou com o esforço requerido para superar seu profundo ceticismo.
"Quero ser uma pessoa espiritual" — admitiu — "mas resisto a essa ideia."
Enfrentaremos o mal, declarei a meus estudantes. E, apesar de acharmos força e
cura no Espírito para vencer, não pude prometer uma experiência fácil. Ninguém pode. Somos
desafiados a oferecer a Deus e uns aos outros o nosso melhor, algo que só conseguiremos com
esforço disciplinado. "Quero esforçar-me para abrir meu coração, em vez de endurecê-lo",
comentou um de meus alunos. O Evangelho aguarda as novas descobertas que faremos nos
espaços livres que deixamos em nosso coração.
Como permitir que essa abertura à presença libertadora de Deus permeie as
nossas orações? Quantas vezes ouvi gente dizer (e eu também disse a mim mesmo!):
"Estou tão ocupado em atividades que negligencio o tempo para orar e ver Deus
trabalhando em minha vida." Certa vez, uma estudante com parou seu relacionamento
com Deus a "uma espécie de fogo que dá energia a todos os interesses externos de
minha vida. Eu não quero que esse fogo se apague". A resposta encontra-se no duplo
recurso da memória e da expectativa.

 L E N D O A V I D A D E T R Á S PA R A A F R E N T E
Inicialmente, olhamos o passado para ver como os eventos aparentemente
desconexos de nossa vida nos trouxeram até onde estamos. Como o povo de Israel, que
refletiu repetidamente em sua história e descobriu que a mão de Deus os guiou através de
muitos acontecimentos dolorosos até chegarem a Jerusalém, assim nós também nos
detemos para discernir a presença de Deus nos eventos que nos formaram ou nos
desmontaram, porque, se não nos lembrarmos deles, permitiremos que memórias
apagadas virem forças independentes de efeito mutilador em nossas ações,
relacionamentos c orações. George Santayana declara: os que se esquecem de seu passado
estão condenados a repeti-lo. Esquecer o passado é como levar o nosso professor mais
íntimo a voltar-se contra nós; é a garantia de não poder encontrar o caminho da
confiança e da esperança.
Repassar as memórias significa, de certa maneira, contem plar lembranças
dolorosas. Como Louis Dupré observou, uma pessoa neuroticamente obcecada pelo seu
passado não se lembra, na realidade, mas tende a repeti-lo. Revivendo os eventos dolorosos, ela tenta
lograr um final diferente daquele que não quer aceitar. A memória nunca copia o passado, e, sim, traz o
passado ao presente, que pode, potencialmente, curar. Estimula vida nova a uma realidade passada, e a
substitui por um novo contexto.
A memória também nos faz recordar a fidelidade de Deus nas passagens difíceis e nos momentos de
alegria. Permite-nos visualizar como Deus extraiu o bem até de situações impossíveis. Recordar, desse modo,
permite-nos viver no presente. Não significa viver em outro tempo, mas no presente com toda a nossa
história, com urna percepção das possibilidades que, de outro modo, não pensaríamos em procurar.
Memória, portanto, tem muito a ver com o futuro. Sem memória, não há expectativa. Aqueles que
a têm curta pouco podem esperar. A memória ancora-nos no passado, faz-nos presentes aqui e agora e abre-nos
para um futuro novo.

 O OLHAR PARA A FRENTE


Experimentaremos, de modo bem diferente, os minutos, as horas e os dias de nossa vida quando a
esperança fizer em nós morada. Numa carta a Jim Forest, que naquela ocasião dirigia a Comunidade da
Reconciliação, Thomas Merton escreveu: "A real esperança não reside em alguma coisa que pensamos poder
fazer, mas em Deus, que está fazendo alguma coisa boa, de um modo que não podemos ver."
A esperança não depende de paz na terra, justiça no mundo ou sucesso nos negócios. A esperança está
pronta a deixar perguntas sem respostas e a manter desconhecido o futuro. A esperança faz-nos ver a
mão de Deus guiando, não só nos momentos tranquilos e agradáveis, mas também nas sombras
do desapontamento e da escuridão.
Ninguém pode dizer, com certeza, onde estará daqui a dez ou vinte anos. Você não
sabe se estará livre ou preso, se será honrado ou desprezado, se terá muitos ou poucos
amigos, se será amado ou rejeitado. Mas se você apegar-se suavemente a esses sonhos e
medos, estará aberto para receber cada dia como um novo dia e para viver a sua vida
como uma única expressão do amor de Deus para com a humanidade.
Há uma expressão antiga que diz: "Enquanto há vida, há esperança." Como
cristãos, também dizemos: "Enquanto há es perança, há vida.” A esperança pode mudar
nossa vida? Pode remover nossas tristezas e nosso fatalismo? Uma história me ajudará a
responder essas perguntas.
Um soldado foi capturado como prisioneiro de guerra. Seus aprisionadores
transportaram-no de trem para longe de sua terra natal. Sentiu-se afastado de seu país,
privado de sua família, isolado de qualquer coisa que lhe fosse familiar. Sua solidão crescia
enquanto continuava sem noticias do lar. Não conseguia saber se sua família continuava
viva ou como estava seu país. Perdeu qualquer razão para continuar a viver.
Mas, inesperadamente, recebeu uma carta. Estava cheia de borrões e manchas,
rasgada nas beiradas por causa do tempo que demorou a chegar. Mas dizia: "Estamos
esperando você voltar para casa. Tudo está bem aqui. Não se preocupe." Instanta neamente
tudo lhe pareceu diferente. Suas circunstâncias não mudaram. Continuou executando o
mesmo trabalho árduo e vivendo da mesma mísera ração, mas agora ele sabia que alguém
estava esperando por sua libertação e retorno ao lar. A esperança mudou sua vida.
Deus escreveu-nos uma carta. As boas-novas da revelação de Deus em Cristo
declaram exatamente o que nos esperar. Às vezes, as palavras da Bíblia não nos
parecem importantes ou nem chamam a nossa atenção. Mas naquelas palavras
podemos ouvir Jesus dizendo: "Estou esperando por você. Estou lhe preparando uma
casa e há nela muitos aposentos." Paulo, o apóstolo, afirma: "Transformem-se pela
renovação da sua mente”. (Romanos 12,2). Ouvimos uma promessa e um convite para
viver uma vida com a qual nem poderíamos sonhar se levássemos em consideração tão
somente os nossos próprios recursos.
Daí advém a esperança que nos da um novo poder para viver, nova força.
Encontramos uma forma, mesmo na tristeza, na doença e até na morte, de jamais
esquecer nossa esperança.
Temos vislumbres desse modo de vida mesmo quando pre cisamos admitir quão
obscuramente o percebemos, e quão imperfeitamente o vivemos. "Agarro-me à
convicção de que posso confiar em Deus", tenho que dizer vez por outra a mim mesmo;
"embora não consiga dizê-lo, digo-o assim mesmo." Ouso dizer isso, mesmo quando
nem tudo está perfeito, quando sei que outros vão criticar minha ação, quando temo
que minhas limitações vão desapontar muita gente e a mim mesmo. Mas ainda confio
em que a verdade brilhará, mesmo quando não posso captá-la totalmente. Ainda creio
que Deus aperfeiçoará o que eu não posso, em sua graça e seu insondável poder.
O paradoxo da expectativa é que aqueles que creem no amanhã viverão melhor
o hoje; aqueles que esperam que a ale gria surge da tristeza podem descobrir o começo
de uma nova vida diante da velha; aqueles que aguardam a volta do Senhor podem,
antecipadamente, descobri-lo em seu meio. Assim como o amor da mãe por seu filho
pode aumentar enquanto ela espera por seu retorno e assim como pessoas que se amam
podem redescobrir-se após um longo período de ausência, do mesmo modo a nossa
íntima relação com Deus pode se tornar mais profunda e madura enquanto esperamos
pacientemente com expectativa por seu retorno.
Manter essa esperança de crescimento, crer, ao menos, em sua possibilidade é dizer
"não" a toda forma de fatalismo. É dizer um "não" a cada situação em que pensaríamos:
"Eu me conheço, não posso esperar nenhuma mudança." Esse "Não" que damos ao
desencorajamento e ao desespero vem no contexto de um "sim" à vida, um "sim" que
pronunciamos mesmo diante da fragilidade de tempos vividos num mundo de
impaciência e violência. Porque, mesmo quando pranteamos, não esquecemos que a
nossa vida poderá, afinal, unir-se a uma dança maior de vida e esperança: a dança de
Deus.

4. DA MANIPULAÇÃO AO AMOR

Se alguém lhe perguntasse se você é compassivo, é provável que diria que sim. Ou, pelo
menos, "Acho que sim". Mas se nos detemos para examinar a palavra compaixão, fica mais
complicado responder: a palavra vem de uma raiz que, literalmente, quer dizer "sofrer com".
Mostrar compaixão significa compartilhar a "paixão", o sofrimento do outro. Compaixão
compreendida desta forma exige mais de nós do que um mero impulso de piedade ou uma
palavra de simpatia.
Viver com compaixão significa entrar nos momentos sombrios do outro. É penetrar
em lugares de dor, é não recuar ou desviar os olhos quando alguém agoniza. Significa
permanecer onde pessoas sofrem. A compaixão é o que nos impede de dar explicações fáceis
e ligeiras diante da tragédia na vida de alguém que conhecemos ou amamos.
De certa forma, podemos pensar que abrir o nosso eu para a dor dos outros poderá
intensificar a nossa própria dor. Quantas pessoas correm para onde outros estão sofrendo? Quem
ouve com facilidade alguém chorar, reclamar ou compartilhar uma pequena tristeza? Uma vez
confrontados com a pobreza, com o sofrimento, com o luto, dizemos a nós mesmos: "É
melhor ir para um lugar onde eu me sinta mais confortável." Esta é a nossa lógica natural.
Mesmo quando resistimos à tentação de fugir e pensamos que ouvimos com
empatia, ainda assim tentaremos escapar ou evitar a dor de alguém. Imagine que
alguém chegue a você e diga: "Quero conversar com você sobre uma decepção. Eu
não sei até quando vou aguentar." Alguma coisa em nós deseja ime diatamente consolar a
pessoa. "A coisa não é tão ruim como você está vendo", podemos ser tentados a dizer.
"Pense positivamente: Há aspectos positivos a considerar!"
Lembro-me de quando visitei, como sacerdote, uma mu lher que havia sofrido
perdas devastadoras por causa de um furacão e uma inundação que assolaram a
vizinhança onde morava. Encontrei-a só, fitando desesperadamente o dano causado à sua
casa. Ela dizia a si mesma: "Sou inútil. Não sirvo para nada. Desde que meu marido
morreu, sou um fardo para mim mes ma, para meus filhos, para meus vizinhos.
Ninguém mais precisa de mim. Só me resta uma coisa: morrer." Embora eu a conheces se
como uma mulher tipicamente extrovertida e sociável, agora nem conseguia
reconhecer-me.
"A senhora não tem razão para sentir-se deprimida", res pondi. "Veja, seus filhos a
amam e gostam de visitá-la. Você tem netos maravilhosos, que estão felizes de ter uma
avó como você, que gasta tempo com eles. Seu filho está planejando vir con sertar sua
casa. E, além disso, poucos moradores da vizinhança tiveram tão poucos danos como
você."
Eu não a ajudei com essas palavras. Deixei-a mais deprimi da ainda, mais
perseguida pela culpa, mais consciente de uma pressão para enfrentar o mundo com um
sorriso. Minhas palavras soaram mais como acusação do que consolação. "Afinal'', continuei, “meus
argumentos para você sentir-se bem são melhores que os seus para sentir-se mal." Eu não havia acolhido os
sentimentos dela, ofereci-lhe apenas argumentos. Quando saí, deixei ali uma mulher mais triste que antes, mais
sobrecarregada, porque eu nem parei para ouvi-la. Não lhe dei permissão para sentir-se triste num momento
triste.
Em tantos encontros, tentamos desviar o nosso olhar da dor. Procuramos ajudar nossos amigos a
superarem rapidamente seu processo de sofrimento. Sem demora, buscamos encontrar formas que renovem a
alegria de uma criança e o ânimo de uma tia enferma. Agimos, porém, o tempo todo movidos por um
sentimento menor de "sofrer com" o outro e maior pela nossa necessidade de evitar o desconforto que
tememos sentir. Assim, incansável e secretamente, desejamos afastar-nos do epicentro da dor. Claro que
nossas evasivas não auxiliam ninguém, pelo contrário: fazem com que as pessoas acionem seus sistemas de
defesa e afugentem aqueles que precisam de cuidado.
Uma razão pela qual reagimos desse modo provém de nosso recuo diante de nossa própria dor.
Evitamos nos aproximar do sofrimento dos outros, em parte, por causa de nossa relutância em aceitar nosso
próprio sofrimento. Porque a adversidade do outro nos sugere o que pode doer também em nós. Esses
lembretes perturbam. Mas a nossa hesitação em olhar honestamente para o sofrimento do outro, em estar ao lado
de alguém que está atravessando um período de dor, confere às conversas a obrigação de fazer com que o
outro "reaja" de forma positiva. Insensata é nossa persistência em negar nossas perdas, o que nos conduz a
um crescente desejo de controlar a vida de outras pessoas. Em seu penetrante estudo, The Betrayal of the
Self, o psicanalista Arno Gruen demonstra, convincentemente, como “ a verdadeira fonte
de nossa crueldade e insensibilidade está na rejeição de nosso sofrimento"(1).
Porque é fácil cair na ilusão de que as pessoas são proprie dade nossa, que
podemos usá-las, que temos o direito de gover nar seus sentimentos. Ao dar conselhos
prematuros sobre como aguentar a dor, precipitando-nos em tranquilizar e encorajando
através de conselhos, dizemos muito sobre nossa própria neces sidade de soluções rápidas
e suaves. Quando forçamos esse tipo dc consolação nos outros, tornamos almas feridas
em objetos ou projetos.
Por mais que esse tipo de aproximação pareça nos isolar das feridas e das
necessidades dos outros, termina por não nos ajudar em nada. Ficamos encastelados em
nossa própria insistência no conforto. Na verdade, uma abordagem possessiva em
nossos relacionamentos gera muitos de nossas decepções, pois é raro que as pessoas
reajam positivamente aos nossos esforços de governar a sua vida ou orquestrar suas
reações às dores. Encontramos relacionamentos curvados ou até quebrados sob o peso
de expectativas que lhes impomos por causa de nosso mal estar diante do sofrimento
do outro. Ficamos então ainda mais solitários, atrás dos muros de nossos
desapontamentos e nossas tristezas.

 POR QUE OUTROS NOS DESAPONTAM?


A tensão imposta nos relacionamentos — tensão de todos os tipos — parece
proliferar num tempo como o nosso, quando as pessoas parecem bastante
interessadas em amiza des , companhe iris mo e comunidad e. A o mes mo tempo em
que livros e revistas buscam trazer soluções para as nossas dificuldades relacionais, as
famílias fragmentam-se e se dissolvem-se hoje mais que em qualquer outro tempo. Um número cada vez
menor de famílias jovens consegue estabelecer-se cercada do apoio da família de origem. Temos vivido diante
de grande desarticulação e solidão angustiante no mundo de hoje.
Apesar de todos os conselhos da psicologia popular, todos os programas dedicados à melhoria dos
relacionamentos, todos os seminários e conferências sobre relacionamentos saudáveis, não estamos felizes. E,
por causa da ênfase de nossa cultura dada à psicologia e aos relacionamentos interpessoais, importamos a
mentalidade do consumismo à nossa intimidade. Esperamos mais de nossos amigos e parceiros do que,
realmente, podem ou querem dar. Boa parte do nosso sofrimento vem da nossa solidão, que se intensifica por
causa de nossas agudas necessidades.
O psiquiatra Thomas Hora compara a ênfase que nossa cultura dá ao interpessoal com o entrelaçar
dos dedos das duas mãos. Os dedos podem entrelaçar-se só até o ponto em que surge um impedimento.
Então, o único movimento possível é para trás, provocando atrito e até dor entre os dedos fortemente
entrelaçados.
A fé cristã sugere outra imagem: duas mãos juntas, em repouso, paralelas, num gesto de oração,
apontando além delas mesmas e movendo-se livremente, uma em relação à outra. Só desta maneira uma
relação pode ser verdadeiramente duradoura, porque é assim que o amor mútuo é experimentado, amor que
participa do amor anterior e maior para o qual aponta. Assim, nós tornamo-nos pessoas, umas para com
as outras, no sentido original da palavra em latim: persona, "soar através" (per significa "através" e
sonare dá ideia de produzir som).
Assim, "soamos através" de um amor maior que nós mesmos, um amor que podemos passar adiante,
mas não reter. Passamos a ser pessoas que revelam umas às outras o amor divino que nos abraça e nos mantém
juntos, ao mesmo tempo em que oferece amplo espaço para mover-nos livremente.
Nos mais significativos relacionamentos de nossa vida, Deus não é uma reflexão posterior.
Descobrimo-nos uns aos outros como vivas lembranças da presença de Deus. Amizade e casamento e
outros relacionamentos entre os que fazem parte da comunidade da Igreja tornam-se meios para revelar uns aos
outros o original amor de Deus, que tudo envolve, no qual participamos e do qual nos tornamos revelações
humanas.

 NOSSO ANSEIO POR ACEITAÇÃO


Tropeçamos, porém, de três maneiras significativas: primeiro, temos dificuldade por causa de
nossa profunda necessidade de sermos justificados, uma necessidade enraizada em nosso desejo intenso
de sermos queridos e aceitos pelas pessoas que significam para nós. Muitas coisas que pensamos fazer
pelos outros são, na realidade, a expressão de nosso impulso de descobrir nossa identidade no elogio dos
outros. Nossas necessidades impedem-nos de atuar e amar livremente. Thomas Merton escreve: "Aquele
que se esforça para atuar e fazer coisas para os outros ou para o mundo sem aprofundar seu
autoconhecimento, sua liberdade, sua integridade e sua capacidade de amar nada terá para oferecer a outros.
Não comunicará nada mais além da contaminação de suas próprias obsessões, suas agressividades, suas
ambições egoístas... seus preconceitos e ideias doutrinários." (2)
Aqui, situa-se o centro da critica de Merton ao nosso ativismo, a segunda maneira
pela qual tentamos governar os outros ou amar impondo condições. Acabamos fazendo coisas
para os outros só por fazer, ou para nosso benefício próprio. Essa espécie de ativismo
coleciona medalhas de honra ao mérito. É motivada por culpa, pelo sentimento de estar em
dívida, pelo sentido de ter que merecer justiça ou favor, de Deus ou de outros. Em última
análise, o ativismo coloca nossos próprios desejos não realizados no centro de nossos esforços.
Não ajudará, portanto, outros de forma íntegra.
Assim, forma-se um trágico círculo. Quanto mais tentamos nos justificar, mais
esbarramos com nossa inabilidade para fazê-lo. Quanto mais fardos carregamos, mais
sobrecarregamos os outros com nossas necessidades irreais. Não é de admirar que nossas
palavras não ajudem e que nossa presença não cure. Merton escreveu a seu amigo James
Forest: "Tudo que você fizer de bom não o fará por si mesmo, mas, sim, por se permitir,
em obediência à fé, ser usado pelo amor de Deus. Reflita mais sobre isso, e,
gradualmente, ficará livre da necessidade de provar alguma coisa a si mesmo, podendo
ficar mais aberto ao poder que atuará através de você sem o seu conhecimento."
Isso só ocorre pela convicção de que Deus continua em atividade neste mundo. Deus
age — sempre a cada momento em nossa comunidade e em nosso mundo. O ativismo
provém da incredulidade que insiste em que Deus não pode operar ou agir, e quer substituir a
suposta morosidade ou inércia de Deus por nossas atividades. Mas deveríamos saber que o que
fazemos para ajudar, servir e ministrar não tem o poder de criar nada sem Deus, mas é a nossa
resposta ao que Deus já está criando.
A oração, que nos põe frequentemente em contato com este Deus, faz dos outros
mais do que indivíduos a serem criticados e julgados, até erroneamente. Torna-os mais do
que objetos da nossa piedade ou "projetos", necessitando de nossas ma ravilhosas dádivas. A
oração, antes, irá nos ajudar a vê-los como pessoas a serem acolhidas, amadas com um
amor implantado em nós e que ainda age no mundo.
Isso nos leva ao terceiro tropeço que pode nos impedir de amar de verdade os outros: a
competitividade. E como somos competitivos! Queremos deixar nossa marca na vida; queremos
ser diferentes, especiais. Em níveis muito sutis, competimos sem querer, até sem perceber.
Comparamo-nos com os outros e preocupamo-nos com o que pensam de nós, mesmo quando
estamos servindo a eles. Indagamo-nos se servimos melhor que outros. Somos impelidos a uma
compulsão por realizar nossas obras de misericórdia.
Fazemos tanto isso que até formamos nossa identidade em comparação com outros.
De fato, nunca admitimos completa mente a possibilidade de desistir de nosso senso de
diferença, ou de penetrar onde outros são fracos, ou de compartilhar a dor do outro. Somos
extremamente protetores de nós mesmos e de nossas ambições para permitir isso.

 A C O M PA I X Ã O É P O S S Í V E L ?
Descobrimos então que, por melhores que sejam nossas in tenções, a compaixão não
faz parte do verdadeiro fundamento de nossa vida. A compaixão não surge como
resposta espontânea, mas vai contra a nossa natureza. É difícil acreditar que seja
humanamente possível.
Essa visão traz uma consequência salutar. Compaixão, em seu mais profundo sentido,
só pode ser atribuída a Deus. Esta é a mensagem central do Evangelho: Deus, que de modo algum
compete conosco, é aquele que verdadeiramente se compadece. Porque Jesus não dependia de pessoas, mas só de
Deus, é que pôde aproximar-se tanto do povo, e ser tão interessado, tão confrontador, tão desejoso de curar e de
cuidar. Relacionava-se com as pessoas não em beneficio próprio, mas pelo bem delas Para dizer isso em termos não
mais psicológicos: ele deu atenção sem intenção. Sua pergunta não foi "Como posso obter satisfação?", mas
"Como posso ir ao encontro de sua real necessidade?" Isso só é possível quando há uma satisfação mais profunda,
uma intimidade mais profunda, de onde podemos obter atenção. Seu amor pelos outros pode ser incondicional, sem a
condição de que suas necessidades sejam gratificadas, quando você tem a experiência de ser amado.
Pense sobre as pessoas que mais o influenciaram. Quando me lembro delas, sempre fico admirado
por descobrir que elas não tentaram influenciar-me, que não precisavam de minha resposta. Ao contrário:
irradiavam uma certa liberdade interior. Fizeram-me perceber que estavam em contato com um mundo
maior do que das mesmas. Apontavam para uma realidade maior que elas mesmas, da qual e na qual sua
liberdade se desenvolveu. Esse equilíbrio centrado, essa liberdade interior, essa independência espiritual eram,
misteriosamente, contagiantes.
Um ministério começa de verdade quando levamos outros a fazerem contato com uma realidade
maior do que nós mesmos — o centro do ser, a realidade do invisível —, o Pai que é a fonte de vida e de
cura.

 AGENTES GÊMEOS DO BEM


Com isso em mente, como nos mover para um lugar de amor profundo e transformador?
De que forma experimentar mais intensamente as alegrias e as dores de outra pessoa pode conduzir-nos
para fora de nosso calabouço de egoísmo e levar-nos a uma alegria maior? Como pode trazer cura aos
nossos relacionamentos quebrados? Como pode a compaixão de Deus tornar-se nossa? Só podemos
amar porque fomos amados primeiro. Jesus encontrava um lugar solitário para orar, e ali esse primeiro
amor era sentido. Só podemos servir aos outros quando não dependemos do modo corno vão reagir para
disso extrair todo o sentido do nosso ser.
Essa abordagem pode criar raízes em nós através de duas disciplinas. Solitude, para começar, não
significa tanto se retirar silenciosamente como resultado de sentimentos antissociais. Solitude significa que
o nosso estar só às vezes não ocorre como um fato triste necessitando de cura, mas oferece um lugar onde Deus
vem, trazendo comunhão. De fato, a solitude tem ricas raízes e conotações significativamente diferentes
de outra palavra frequentemente associada com ela: isolamento, que geralmente denota estar só em um
lugar neutro. E solidão sugere mais a dor da tristeza ou da ausência de alguém. Porque a solitude para o
cristão, não significa perambular por florestas, desertos ou montanhas para isolar-se, mas ousar permanecer
na presença de Deus. Não é separar tempo apenas para ficar só, mas é ficar sozinho na companhia de Deus.
O que você faz quando está a sós com Deus? Muitos de nós pensamos, falamos ou pedimos. Mas
quando ficamos a sós com Deus, como é vital ouvir! Solidão é o lugar onde você pode ouvir a voz que o
chama de amado, que conduz você à próxima página da aventura, que diz, como foi dito a Jesus nos
Evangelhos: "Este é o meu filho amado, em quem me comprazo" (Mateus 3,17).
Como esta palavra amado pode ressoar com força em nossa vida! Você pode ouvi-
la? Cada um de nós ouve vozes que se parecem com a de Deus: "Prove-se a si mesmo! Faça
algo significativo e eu lhe manifestarei o meu amor." Ou ouvimos: "Faça alguma coisa
relevante, assegure-se de que as pessoas falem bem de você. Acumule dinheiro,
propriedades, influência, e então eu o amarei." Em nossa insegurança, tentamos, a qualquer
custo, responder a essas vozes. Então, ficamos muito ocupados provando aos outros que
merecemos alguma atenção, que somos boas pessoas merecedoras de elogio ou de afeição.
Nós nos empenhamos para exercer alguma influência ou deixar uma marca. Muitas
vezes, damos a isso o nome de "vocação", mas Jesus chama de "tentação". Ele não tem paciência
com aquele que insiste para que pule do pináculo do templo com o fim de demonstrar poder
ou que transforme pedras em pães para provar suas credenciais ministeriais. Ele havia ouvido
que era o Filho Amado de Deus, e isso forma a base daquilo que ele faz e sabe que é chamado a
fazer. Ele não se preocupou em fazer, apenas, o bem superficial. Nele habita a presença de Deus.
É difícil ouvirmos a voz que proclama que somos amados em Cristo não por nossa
reputação ou atos magníficos, mas porque Deus nos amou com amor eterno. "Não escuto
nada", dizem alguns. Somos muito inclinados e muito condicionados a ouvir outras vozes que
insistem em "sucesso" ou "resultados". Só ouço as vozes que me apressam a ir a algum lugar, a
fazer alguma coisa ou a cumprir alguma ordem, pensamos às vezes. E desejamos, ardentemente,
ouvir também aquela outra voz.
Não estou insinuando que você ou eu deveríamos deixar de ver os frutos de nossos
ministérios, abrir mão de propriedades ou posses. Não estou dizendo que deveríamos desistir de querer
encontrar afeto e amor nos outros. Estou dizendo, porém, que nossa identidade pode encontrar seu
fundamento só naquela palavra de Deus para nós: que somos amados, e não nas instáveis promessas do
mundo. Em Cristo, vivemos como amados de Deus desde antes de havermos nascido e depois de havermos
morrido; todas as circunstâncias entre nosso nascimento e nossa morte não negarão essa realidade.
Jean Vanier, fundador das comunidades L’Arche, uma rede de comunidades como Daybreak, gastou
quatorze anos sozinho, orando, lendo e buscando a direção de Deus. Nunca planejou uma grande organização,
mas em algum momento daqueles encontros com Deus decidiu convidar duas pessoas deficientes para viverem
com ele e formarem uma comunidade de fé, serviço e adoração. Ele não pensou: "Tenho que ajudar o maior
número possível de pessoas." Ele não proclamou: "Vamos fazer algo por todos os deficientes mentais do
mundo." Antes, ouviu a voz que disse simplesmente: "Tome duas pessoas pobres e comece a viver com elas."
Vanier foi a urna instituição dc saúde e encontrou ali dois homens que sofriam de síndrome de Down,
duas pobres pessoas, sem pai ou mãe ou família, sem visitas ou amigos. Alugou uma pequena casa e resolveu:
"Vamos criar uma atmosfera de família aqui." Eles a chamaram de Arca, por causa da Arca de Noé, na
Bíblia (L’Arche, em francês, língua-pátria de Jean Vanier). E, naquele singelo princípio, tendo sido encubada num
período de solitude na presença de Deus, nasceu uma rede de comunidades que conta agora com três mil
membros, os deficientes e seus assistentes, em pequenos lares em todo o mundo.
A abordagem da solitude está associada ao modo de vivermos com nossas feridas e com outros
também feridos. Consumimos muito tempo procurando quem nos feriu e onde estão as nossas cicatrizes. Fomos
feridos ao longo da vida pelas próprias pessoas que nos amam: nossos pais, nossos filhos, nossos colegas, amigos,
cônjuges. Porque ninguém pode preencher nossas mais profundas necessidades de amor, assim devemos
aprender, em nossa solitude, a perdoar.
Constantemente, enfrentamos esse desafio. Antes de ir para o café da manhã tenho vinte pensamentos
sobre pessoas que deveriam, penso eu, ser só um pouquinho diferentes do que são. Se elas pudessem mudar de
aparência, se não chegassem sempre tarde, se não fossem tão grosseiras... Sempre estamos precisando aprender a
oferecer compaixão nessas situações, porque temos um coração que deseja coisas completas, e vivemos sempre
em situações que parecem incompletas. Andamos ou nos encontramos com pessoas que sempre vivem e
amam imperfeitamente.
Entre, porém, as pessoas que nos amam do jeito certo ou não tão certo, o amor de Deus nos alcança.
Se pudermos compreender, acima da estática e das distrações da vida tumultuada, perceberemos que o amor
de Deus veio antes de alguém nos machucar ou nos causar mal. Esse amor irá existir sempre, mesmo depois da
nossa morte. A Solitude, onde podemos nos afastar das miríades de vozes que nos falam coisas diferentes,
pode nos ajudar a ouvir de novo a voz do amor.
Se você acredita ser amado, pode oferecer perdão mesmo quando o perdão não pode ser recebido. Você
sempre diz: "Eu deixo você livre e estou disposto a perdoar, mesmo que você não possa me perdoar, porque estou
afirmando minha condição de amado." Você pode continuar dizendo: "Posso pedir perdão, mesmo que você não possa
me perdoar ainda, ou talvez nunca possa."
A solitude não se apresenta a nós com facilidade. Mui ta coisa conspira contra:
telefones tocando e outras conexões tecnologicamente avançadas que nunca nos
permitem o afastamento das pessoas, sempre solicitando nosso tempo e nossa atenção.
Você já tentou sentar-se em uma cadeira por uma hora, sem televisão, jornal, rádio,
telefone, tagarelices? Mesmo que você consiga isolar-se de uma sociedade
barulhenta, no conforto de um lugar sossegado, vozes interiores poderão surgir para
perturbar você ruidosamente.
Por que continuaríamos a falar de solitude como uma dis ciplina? Ela nos pede um
pouco de atenção. Isso porque, em nossa solidão, poucas vezes conseguimos ignorar
completamente a rejeição e a inutilidade. Queremos nos manter ocupados para
confirmar aos nossos egos inseguros que estamos de fato ali. Estar sozinho com Deus, em
silêncio, requer não prestar atenção a essas influências incessantes. Resolvemos esperar no
sossego do tempo com Deus para ter uma comunhão e uma compreensão mais profundas
do que as que podemos forjar.
Acrescentamos à solitude a disciplina gêmea do silêncio. Participamos da vida
do Espírito através de tudo que ouvimos ou dizemos, e também do que resolvemos não
ouvir nem dizer. Porque o nosso ouvir em silêncio pode manifestar o Espírito em e
entre nós, tão seguramente como nossas palavras de salvação e nossos atos de cura.
O silêncio, com certeza, pode ser temível. Muitas pessoas são silenciadas e
intimidadas pelo medo. O silêncio pode ser paralisante e opressivo. Nada novo pode
provir deste silêncio. E palavras não nascidas de um ouvir silencioso podem afligir ou
ferir. Muitas pessoas são "faladeiras” e usam o falar para oprimir e manipular. O falar
torna-se oportunista. Essas palavras não curam nem auxiliam a comunhão. Elas não encorajam o
rico silêncio da comunhão, mas enchem a nossa vida de barulheira.
Liberação nesse contexto significa restaurar a relação de intimidade entre o silêncio e a palavra, e assim
ambos podem produzir fruto. Encontramos o tempo apropriado para falar, para estender a mão, para inspirar com
nossas palavras. Mas também aprendemos quando nosso silêncio ministra mais profundamente. Isso acontece
quando Deus envia Seu Espírito. Afinal, experimentamos Deus tanto através do silêncio como das palavras.
Jesus, aprendemos dos Evangelhos, "foi para um lugar deserto, e ali orava" (Marcos 1,35). E ainda falou as
palavras dadas a ele (João 14,10). Ambos, o silêncio e o falar, tiveram seu lugar, mas no silêncio ele aprendeu
a palavra apropriada.

 QUANDO A SOLITUDE ENCONTRA A SOLITUDE


E aqui podemos obter pistas sobre o que significa viver numa comunidade como uma pessoa de fé e
compaixão, aquela que pode ajudar genuinamente o ferido e trazer amor ao sofrimento de outros.
Comunidade é mais do que gente vivendo junto; é também solitude indo ao encontro da solitude. Encontros
de cura e comunhão profunda com outros provêm de pessoas que têm experimentado, pelo menos, um gostinho
do amor oferecendo amor ao outro, sem manipulação ou sutilezas.
Isolamento indo de encontro a isolamento, necessidade chocando-se contra necessidade, é claro que é
diferente. Esses encontros enredam pessoas em situações complexas e difíceis. Não é de admirar que
tenhamos dificuldades de "andar" junto com outros seres humanos! Quando vou cuidar de alguém, tenho a
impressão de que um lado profundo meu anseia dizer: "Por favor, me ame! Sem você não posso viver!"
E, quando menos espero, não vim para receber amor, mas me agarrar na intensidade da minha carência.
Nós tornamo-nos violentos precisamente porque esperamos uns dos outros mais do que nós mesmos
temos para dar. Quando buscamos soluções divinas em outras pessoas, fazemos delas deuses e de nós demônios.
As nossas mãos já não acariciam, mas agarram. Nossos lábios já não beijam nem expressam palavras amáveis,
mas mordem. Nossos olhos já não olham esperançosamente, mas espreitam. Nossos ouvidos só ouvem às
escondidas. Toda vez que pensamos que outra pessoa ou grupo de conhecidos vai chegar e levar para longe
nosso medo e nossa ansiedade, nós nos sentiremos tão frustrados que, em vez de gentileza, expressaremos
agressividade.
A comunidade, então, não pode originar-se do isolamento, mas começa quando a pessoa reconhece que
é amada e vai ao encontro do outro, fazendo-o amado também. O Deus que vive em mim encontra-se com o
mesmo Deus que reside em você. Quando as pessoas não mais precisam ser tudo em nossa vida, podemos
aceitar o fato de que elas até podem ter alguma dádiva para nós. São reflexos parciais do grande amor de Deus;
apenas reflexos. Só vemos a dádiva quando desistimos de fazer com que a pessoa seja tudo, seja Deus.
Passamos a vê-la como uma expressão limitada de um amor ilimitado.
Viver, servir e adorar com outros nos leva, desse modo, a um lugar onde chegamos todos
juntos e lembramos que somos interdependentes, que não somos Deus, que não podemos satisfazer as
nossas próprias necessidades e nem podemos suprir completamente as necessidades uns dos outros. Há
alguma coisa maravilhosamente simples e libertadora em tudo isso. Encontramos um lugar onde as
pessoas dão graça umas às outras. O fato de não sermos Deus não quer dizer que não possamos
intermediar (ainda que de forma limitada) o ilimitado amor de Deus. Comunidade é lugar de alegria e
celebração, onde estamos desejosos de dizer: "Sim, estamos começando a triunfar em Cristo."
Esta é a vitória da Cruz. O amor é mais forte que a morte, e a comunidade é o lugar onde deixamos
que o mundo perceba que há alguma coisa com que se regozijar nessa nova vida de companheirismo, alguma
coisa extasiante, isto é, deixar o lugar estático da morte e declarar que os seres humanos não têm o que temer.
Gratidão resulta de um discernimento, de um reconhecimento de que algo bom provém de outra pessoa e é
dado a mim voluntariamente, como um favor. A partir do momento em que esse reconhecimento se
manifesta a mim, a gratidão brota espontaneamente do meu coração. E nunca mais precisarei dominar nem
pedir aprovação para a minha "causa".

 O QUE ESTÁ ALÉM DA MANIPULAÇÃO


Viver com outros pode, também, ampliar nossos estreitos pontos de vista. Quando relacionamos a
vida (e os outros) como se fossem propriedade a ser possuída, controlada ou conquistada, não podemos ver
corretamente. Arranque uma flor, e ela não mais exibirá sua beleza a você: irá murchar. Se você pressiona
uma pessoa a dominar uma fraqueza, ela não se tornará sua amiga. Relacione-se com as pessoas como um
conquistador, e elas esconderão de você a sua verdadeira natureza. A violência é o irmão e a falta de
confiança é a irmã dessa maneira de viver. Aquilo que você usa como manipulação não se revelará a você.
Vai fechar-se em si mesmo, vai esconder sua real natureza, vai tornar-se opaco.
Conforme nos relacionamos uns com os outros desse modo, as pessoas não poderão ser mais do
que personagens a serem definidos, rotulados, categorizados, manipulados. Mas a oração nos ajudará
nisso. Quando oramos, vemos toda a vida como uma dádiva, então as pessoas tornam-se a maior dádiva. Já
não são como peças de xadrez para serem movidas, nem aliadas em nossos esquemas e ambições, mas pessoas
com as quais podemos formar comunidades, com as quais podemos aprender. Em oração, descobrimos que
as pessoas são mais do que o seu caráter e, quando nos tornamos pessoas uns para os outros, "soamos através"
de uma paz maior que aquela que por nós mesmos podemos produzir e de um amor mais profundo e mais
amplo que aquele que podemos abranger.
Quando nos tornamos pessoas, tornamo-nos transparentes uns para com os outros, e a luz pode brilhar
através de nós, e Deus pode falar através de nós. Quando nos tornamos pessoas que transcendem as limitações
de nosso caráter individual, o Deus que é amor pode revelar-se em nosso meio e unir-nos em uma comunidade.
Tornamo-nos transparentes. Outros perderão a sua opacidade e nos revelarão a face amorosa de nosso Senhor.
A nossa sociedade dificulta ver as pessoas como transparentes porque relaciona, muito frequentemente,
os outros como se fossem personagens de uma peça, personagens diferentes, interessantes, que podemos usar
em propósitos distintos. "Ele é bom nisso", dizemos. "Ela é ótima nesse assunto." Gostamos de usar as pessoas.
Às vezes, precisamos associá-las a seus papéis apropriados. Esperamos professores para ensinar, telefonistas
para nos ajudar a encontrar números. Mas ainda lembramos que uma pessoa é mais do que o papel que
desempenha. Se você consegue ver em mim mais do que a minha função ou a minha ocupação, então,
lentamente, posso comunicar-me com você em um nível mais profundo. Posso tornar-me uma pessoa para
você.
E, nesse encontro verdadeiro com o outro, entramos em contato com uma grande beleza e um senso de
muita admiração. Frequentemente, estamos irradiando, uns através dos outros, as realidades que não podemos ver
por nós mesmos, que não podemos compreender completamente. Uma vida de oração, então, é aquela que
resgata das trevas o mundo, que resgata as pessoas de seus meros papéis para tornarem-se pessoas de verdade.

 O FIM DOS INIMIGOS


A mensagem do Evangelho transborda de compaixão, com um amor que voluntariamente "sofre
com", até mesmo, aqueles de quem não gostamos muito. Jesus revela-nos, através de suas palavras e ações, e,
mais ainda, através de sua vida e sua morte, que Deus é amor, mesmo para os desagradáveis, os não amáveis.
Jesus chama-nos a fazer desse amor divino o fundamento de nossa vida: "O meu mandamento é este: Amem-
se uns aos outros como eu os amei" (João 15,12).
As amplas implicações desse chamado a amar são difíceis de compreender. A espécie de amor a que
Jesus nos chama inclui o inimigo, e não só o vizinho amável. Esse amor pode, de muitas maneiras, estar em
oposição aos nossos desejos, nossas necessidades ou nossas expectativas. A nossa compreensão do amor é tão
fortemente influenciada pelas ideias que provêm de nossos relacionamentos humanos — atração pessoal,
compatibilidade mútua, desejos sexuais, compreensão cultural da sensibilidade — que temos a maior dificuldade
em perceber que o amor de Deus em muito transcende a tudo isso.
Durante o Curso de História Cristã, esse tema do amor aos inimigos era sempre visto como o
cerne da santidade. Staretz Silouan, um monge grego ortodoxo do século vinte, escreveu: "Se você ora
por seus inimigos, a paz será sobre você. E quando você ama seus inimigos, fique certo de que a grande
graça divina repousará sobre você."(3)
O teste do amor é o nosso perdão para com os nossos inimigos; assim como Jesus perdoou (Lucas
23,34), assim devemos fazê-lo. Assim como Estêvão, o primeiro mártir cristão, i mitou o seu Senhor
quando estava sendo apedrejado, e orou: "Senhor, não lhes imputes este pecado" (Atos 7,60).
Isso não é fácil, principalmente por causa da maneira como continuamos a suplicar atenção, afeto,
influência, poder, mesmo depois de ouvir as palavras curativas de Deus, dizendo que somos seus
amados. Essas necessidades nascem de nossas feridas e parecem nunca ser supridas. Quando tentamos
achar uma explicação para elas, descobrimos quanto foram impostas a nós por pessoas também
extremamente necessitadas. Parece que uma corrente de ferimentos e necessidades atravessa gerações. E
quando nós mesmos tentamos evitar os ferimentos impostos, descobrimos que, mesmo com nossa
melhor intenção, não podemos evitar encontrar pessoas que se sentem rejeitadas, incompreendidas ou
feridas por nós.
Deste modo, parece haver uma extensa cadeia de feridas e necessidades entrelaçadas que se estende
desde um passado distante c que avançará até o nosso futuro. Esse quadro leva-nos a transformar o amor
em uma espécie de barganha mecânica: "Amarei você, se você me amar; darei a você, se você me der;
emprestarei a você, se você me devolver a mesma quantia." Se continuarmos a buscar saber quem somos entre
as outras pessoas, terminaremos por dividir o mundo em pessoas que são a nosso favor e pessoas que são contra
nós; pessoas que nos aceitam e pessoas que nos rejeitam; amigos e inimigos.
O Evangelho liberta-nos da cadeia de ferimentos e necessidades, revelando-nos uma compaixão que
pode mais do que apenas nos estimular a reagir fora das necessidades que brotam de nossos ferimentos: ele
leva-nos a uma aceitação que antecede a qualquer aceitação ou rejeição humana. E esse amor original a tudo
abrange; detém o poder de amar os inimigos tanto quanto os amigos, o poder de permitir-nos amar desse
modo. Esse é o amor que nos faz ser filhos e filhas do "Altíssimo, porque ele é bondoso para com os ingratos e
maus" (Lucas 6,35). "...ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos"
(Mateus 5,45).
Quando o nosso amor emana do amor de Deus, deixamos de dividir as pessoas em aquelas que
merecem e aquelas que não merecem. É esse amor que nos permite enxergar o inimigo como alguém
amado com o mesmo amor com que somos amados. Não mais precisamos posicionar-nos em oposição ao
outro. Amar como Cristo amou significa participar do amor divino, que não conhece distinção entre
amigo e inimigo. Martin Luther King Jr. escreveu: "Um amor transbordante que não pede nada em troca,
amor agape, é o amor de Deus operando no coração humano. Nesse patamar, não amamos as pessoas
porque gostamos delas, nem porque possuem algum tipo de centelha divina; amamos a todos os seres
humanos porque Deus os amou."(4)
Lembramo-nos de que, em certo sentido, inimigos são inimigos só por causa da nossa insistência em
excluí-los do nosso coração, tentando afasta-los do amor de Deus. "Sejam misericordiosos, assim como
o Pai de vocês também é misericordioso”, Jesus nos diz. "Não julguem, e vocês não serão
julgados; não condenem, e não serão condenados; perdoem, e serão perdoados" (Lucas 6,36-
37).
E aqui aprendemos ainda outra lição: como o amor de Deus nos compele à
humildade, uma espécie de pobreza interior! "Bem-aventurados os pobres”, Jesus disse no
Sermão do Monte. Note que ele não disse: "Bem-aventurados aqueles que se importam
com os pobres" (porém, recomendou, em outra passagem, que se ajudasse os "menores" e os
necessitados). Em certo sentido, todo mundo é pobre no corpo de Cristo. Mas quando nos
juntamos em mútua pobreza, cm vulnerabilidade compartilhada, oferecemos e recebemos
uns dos outros.
Em nossa pobreza esconde-se uma grande bênção, porque Deus decidiu revelar a
sua glória em vulnerabilidade e humilhação, não em presença imponente ou autoridade
manipuladora. Isso é o que a cruz nos ensina mais uma vez. Quando João, autor do
Evangelho, contemplou o Cristo desfigurado pela crucificação, viu sangue e água saindo
de seu lado (João 19,34). E percebemos uma dádiva que trouxe vida, fluindo do corpo
moído. Uma dádiva que dará nova vida às nossas comunidades e aos nossos
relacionamentos. Vamos sofrer, e sofrer uns com os outros, mas é fazendo assim que
iremos revelar nada menos que a presença de um Deus cuja consolação nos mantém no
caminho.
A dor sofrida quando estamos sós é muito diferente da dor sofrida ao lado de
alguém. Mesmo quando a dor persiste, sabemos como é diferente quando alguém se
aproxima, quando alguém partilha conosco. Essa espécie de con forto mostra-se mais
completa e poderosamente visível na Encarnação, em que Deus veio ao nosso meio — em
nossa vida — para lembrar-nos: "Estou com você em todo o tem po, em todos os lugares."
Em Cristo, Deus aproximou-se de nós diante dos nossos sofrimentos: a dor das crianças e
dos adolescentes, os ferimentos dos jovens adultos e dos idosos, as aflições dos
desempregados e daqueles que, repentinamente, ficaram solteiros. Não há sofrimento humano
que não faça, de algum modo, parte da experiência de Deus. Esse é o grande e
maravilhoso mistério de Deus tornando-se carne para viver entre nós. Deus torna-se parte
de nosso pranto e convida-nos a aprender a dançar, não sós, mas com outros,
compartilhando da própria compaixão de Deus, tanto dando como recebendo.

5. DA MORTE TEMÍVEL PARA A VIDA DE GOZO

Por duas vezes, estive bem perto da morte. No meu primeiro raspão com ela, um furgão atropelou-me,
enquanto caminhava ao lado de uma estrada suburbana muito movimentada. Na colisão, perdi a consciência e
acordei num hospital, cercado de enfermeiras e médicos preocupados comigo.
Não muitos anos depois, fui internado outra vez, em face de uma grave infecção. Esgotado por uma
implacável programação de trabalho, fiquei numa posição delicada para lutar contra a enfermidade. Poderia
até mesmo ter morrido.
Nessas ocasiões, a morte não mais rondava pelos arredores de minha consciência. Quando me
recobrei desses encontros com a morte, pude perceber quão poucas pessoas estão preparadas para morrer.
Quase todas que conheço não se preparariam, a não ser que alguma circunstância as impelisse. Quão raramente
olhamos a morte, mesmo quando estamos perto dela! Rotineiramente nos esquecemos de como Deus fez de
nossa vida uma parte de uma vida maior que se estende muito além dos horizontes do nascimento e da morte.
Um amigo está morrendo. Como eu gostaria de vê-lo cura do! Mas sei também
que a cura definitiva para ele, bem como para todos nós, significa algo mais que a
libertação de doenças físicas ou de um corpo que deteriora. Nossa vida, dure trinta ou
noventa anos, dá-nos oportunidades de dizer "sim" a uma dádi va de Deus escondida, a
uma realidade que, conquanto difícil, fornece lugar para o encontro divino e o
crescimento profundo. Encontrar cura é pertencer a Deus completamente, é nascer para a
vida e para o amor duradouro. Tem a ver muito mais com buscar, inicialmente, o
Reino de Deus e encontrar a satisfação dos desejos mais profundos de nosso coração,
do que com a condição do nosso corpo.
Enfrentar a morte, concebida dessa forma, não precisa advir como um
exercício de sentimentalismo exacerbado. Em vez disso, comprova ser um meio de
celebrar a nossa vida como filhas e filhos amados de Deus, e assim vivermos
nossos últimos dias, sejam eles poucos ou muitos, como dias de constante abertura
para o que está por vir. O Deus que nos fez e que nos chamou de "amados", antes
mesmo de havermos nascido, vive conosco e em nós. Nada pode nos separar desse
amor de Deus em Cristo, mesmo diante da realidade da morte, que grande parte de
nós prefere ignorar ou evitar. Viver em alegria através da vida e da morte requer que
aprendamos a discernir a voz do amor divino em cada possível ocorrência. Como é
raro andarmos na nossa existência diária com essa perspectiva divina! Mas essas
descobertas têm muito a ver não só com o final de nossa vida, mas com o nosso dia-
a-dia.

 NA ARMADILHA DE NOSSA HUMANIDADE


N e s t a v i d a d i á r i a , p o r é m , r e c o r d a m o s c o n s t a n t e m e n t e a n os s a ru ín a
i nt e r io r e o nos s o s of ri m en t o ex te r io r. Br ig as de família, pressões no trabalho,
conflitos entre amigos fa zem-nos sentir pequenos e insignificantes. Doenças ou dores
crônicas fazem-nos constatar nossa vulnerabilidade física. Frequentemente,
sentimos culpa ou vergonha por escolhas erradas que fizemos ou por havermos
machucado alguém. Algumas vezes, caímos na armadilha de nossa própria
humanidade. Experimentamos, de forma aguda como as cois as ficam aquém de
nossas expectativas.
Tentamos, de várias maneiras, libertar-nos de nossa armadi lha. Pensamos que mais
dinheiro nos resgataria, talvez, ou outro emprego, outro cônjuge, uma casa melhor, um
novo regime ou programa de exercícios físicos, ou um autoconhecimento mais
aperfeiçoado. Todas essas abordagens lutam por mudança de baixo para cima. Como a
ovelha presa num arbusto espinhento, quanto mais nos esforçamos por sair, mais
enredados ficamos.
É verdade que às vezes temos que trabalhar para mudar nossas circunstâncias; é
possível que estejamos, com razão, ocasionalmente agitados. Aliás, nosso coração
não se satisfa z co m um p ed ac i nh o de v id a, o u u ma p eq ue na a m os tr a de amor.
Desejamos tudo da vida e do amor porque Deus é quem fez o nosso coração e a ele
deu um toque de Seu ilimitado coração. Queremos ser mais do que somos.
Mas as mudanças que propomos, nossas resoluções, no vos programas e
esquemas de autoajuda não irão, em última análise, libertar-nos, porque continuaremos
a nos mover dentro das fronteiras da mortalidade. Todos um dia morreremos. Não
podemos escapar de nossas limitações terrenas. Precisamos viver sabendo que em algum dia vamos
morrer.
Esse fato pode desencorajar-nos, isso é certo. Pode levar alguns ao desespero. Mas também
podemos discernir entre os muitos desapontamentos que a vida nos oferece, oportunidades de refletir cheios
de esperança em nossa mortalidade. Nascer, ir à escola, frequentar a universidade, casar-se, ter o primeiro
emprego e aposentar-se, tudo isso nos proporciona oportunidades de "deixar ir” o que nos parece familiar.
Essas coisas introduzem em nossa vida "pequenas mortes", lembrando-nos de que o amor e o medo
nascem ao mesmo tempo; nenhum deles está completamente separado em nossa existência. À medida que
entramos, porém, em contato com essas pequenas mortes, ficamos conhecendo a vida. Elas permitem-nos
aprender a "deixar ir" e preparam-nos para descobrir uma vida diferente daquela que já conhecíamos.
A vida é uma escola onde somos treinados para partir. Isso é o que realmente significa mortificação:
treinamento para morrer, cortar as cadeias que nos escravizam ao passado. E, assim, o que chamamos de morte não
será mais uma surpresa, mas, sim, o último de muitos portões que conduzirão ao ser humano completo.

 O F I N A L F O R A D E V I S TA
Por que não nos preparamos para a morte, se vivemos tão perto dela? Observo muito o constante
esquivar-se da morte em nossa cultura. Tentamos tapa-la com cosméticos e trivialidades. Não conseguimos
nem imaginar que o bem possa proceder de dificuldade ou mortalidade. Quando alguém sofre, queremos
ficar longe; quando alguém morre, não queremos lidar em cheio com aquela morte. Dizemos: “Ele partiu"
ou "Ela nos deixou." Embora haja a certeza de que cada pessoa vai morrer, continuamos a negar a morte, como
se fosse a coisa mais irreal. A maneira como enterramos as pessoas em nossa sociedade me impressiona como um
modo sofisticado de negar a realidade da morre. Nós a tiramos de vista. Quando as pessoas que amamos morrem,
nós a envolvemos em flores e choramos por elas em recintos decorados para nos tranquilizar. Não vemos mortos
com frequência, mas, se vemos, queremos tirar as crianças de perto.
Um amigo tinha um pequeno pássaro na gaiola e encontrou-o morto uma manhã. Ele teve tanto
medo de que seu filho visse o pássaro sem vida que correu a uma loja para comprar outro e pôr na gaiola antes
que seu filho descobrisse o que havia acontecido. Não quis precisar dizer ao filho que não vamos viver para
sempre. Não se importou que o pássaro que correra para obter em substituição ao outro não fosse o mesmo, e
nem poderia ser. Ele revelou uma convicção nascida do medo: temos que evitar a morte a qualquer preço,
mesmo que para isso tenhamos que desvalorizar a singularidade de cada vida.
Em nosso relacionamento com o outro, às vezes agimos como se preferíssemos a ilusão de que
somos imortais. Esquecemos que teremos a presença do outro durante um tempo relativamente breve. Você e eu
podemos já não estar aqui amanhã, ou na próxima semana, ou no próximo ano. E é assim que evitamos a
morte, em vez de valorizarmos a vida por sua preciosidade.
Os que não evitam a morte podem romantizá-la. Nossa cultura de negação da morte anda junto com
urna irônica companheira: a fascinação pela morte. Vemos esse apelo no mundo do entretenimento, com suas
imagens sombrias de violência, com letras de canções que exaltam o macabro. Vemos essa fascinação pela
morte no palco do mundo, onde bilhões de dólares são investidos cm orçamentos militares e artefatos
de guerra, e o povo glorifica o combate. Substituímos o legítimo pesar da morte e do mortal por
uma visão irrealista e, até, sentimentalizada.
Jesus chama-nos, em vez disso, para um olhar simples e direto para a morte. Considere
como Jesus ressuscitou Lázaro da morte, no Evangelho de João. Talvez, como alguns dos
espectadores na história, esperamos apenas pelo milagre de alguém ressuscitado. Vemos a
promessa da cura, mas não conseguimos ver com a mesma facilidade o cuidado, a participação
no sofrimento, o compartilhar da dor. O que não queremos ver são as lágrimas e a tristeza
profunda que impeliu Jesus a orar ao seu Pai.
Jesus, porém, não quer que evitemos esse confronto. Foi mera casualidade que ele
chegasse à cena do pranto e do desespero algum tempo depois da morte de Lázaro? Ele ouvira
dias antes que Lázaro adoecera. Ainda assim, esperou. Será que ele queria que ninguém
duvidasse da morte de Lázaro? Quando Jesus ordenou que se abrisse o sepulcro, Marta, a
irmã do morto, protestou: "Senhor, já cheira mal, porque já é de quatro dias”. (João 11,39.)
Mas o chamado de Jesus para que Lázaro voltasse à vida proveio de suas lágrimas e do suspiro
emanado das profundezas de seu coração.
Nossa morte pode tornar-se sinal de glória. Jesus mostrou quão preciosa nossa vida é: ele
chorou; ele comoveu-se. E, a partir de seu pranto, nasceu nova vida. É através da morte que
tocamos profundamente na vida. Quando ainda menino, eu queria ser uma exceção. Eu
queria não ter que morrer e sofrer. Mas agora percebo que Deus quer que eu participe na
experiência da morte. E, ao fazer isso, ele fortalecerá a minha esperança.

 LIÇÕES NA PERDA
Não é só a morte que nos deixa perturbados. É também o processo de morrer. A lenta
deterioração do corpo e da mente, a dor de um câncer que se espalha, a possibilidade de
amigos nos serem um peso, a incapacidade de controlar os próprios movimentos, uma
tendência de esquecer eventos recentes ou nomes de familiares, a suspeita de que os nossos
queridos nos dizem apenas meia verdade para "nos proteger" — tudo isso nos assusta, e com
razão. Não é de admirar quando às vezes dizemos: "Eu espero que não dure muito. Eu gostaria
de morrer de repente de ataque do coração, e não de uma doença prolongada." Gostaríamos
de orquestrar e controlar até o nosso último momento!
Mas, não importa quando ou como morramos, nós, inevitavelmente, desistiremos de
controlar os pormenores. Que é a morte? Eu não sei e você também não sabe. Somos forçados a
admitir que a morte chega de maneira absolutamente singular e personalizada. Quem pode
prever? Uma coisa parece certa: na morte damos um salto. Nós soltamo-nos, rendemos,
desistimos do lugar seguro que julgamos confortável, prontamente ou não. A morte, às vezes
golpeia-nos tão seca como o deserto do Sinai, ou tão solitária como a cruz. Considere alguns de
nossos antepassados na fé: Moisés não poderia ter conhecido cada curva do caminho por onde
conduziu o povo para fora do Egito. Jesus mergulhou em incrível escuridão bradando da cruz:
"Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?" (Mateus 27,46). Ainda assim, Ele não se
lançou da cruz; ainda assim, Ele cumpriu a vontade de Seu Pai para redimir o mundo.
Não sabemos o que está além da nossa vida. Não podemos fazer nenhuma previsão certa
sobre o futuro; qualquer tentativa de nossa fantasia para preencher o vazio com o concreto de desejos
por cumprir é mais um sinal de fé débil do que de forte esperança. Fé pede-nos que saltemos, que nos
rendamos e creiamos em que em algum lugar, de algum modo, Deus nos agarrará e nos levara ao lar.
Por causa dessas convicções é que podemos enfrentar a morte sem pavor ou rejeição. Podemos
aprender, ainda mais, a viver bem porque não insistimos em ignorar o que não podemos predizer.
Aprender a morrer é aprender a viver cada dia em plena consciência de que somos filhos de Deus, cujo
amor é muito mais forte do que a morte. E, à medida que aprendemos a agir assim, somos, de forma
modesta a principio, levados a não apegar-nos àquilo que temos, a não entrar em pânico tentando reservar o
lugar seguro onde possamos nos agarrar fortemente no aqui e agora. Admitimos que não sabemos o que
o dia seguinte trará, o que nossos queridos dirão ou farão em seguida, como Deus agirá no próximo ano.
Mas nada disso nos deprime porque também lembramos que nunca o descobriremos, se não
expusermos nossas escolhas ao risco.
Sempre que somos capazes de nos deleitar com o presente e, ainda assim, saber que o amanhã
aportará pelo menos alguns momentos difíceis, algumas incertezas, algumas lembranças de nossa mortalidade,
podemos aprender a estender os nossos braços ao Deus em quem confiamos, ao grande Deus. Deixamos o
território seguro e começamos a explorar um novo campo. Transpomos as paredes do nosso
conservadorismo inato, escondido em nossa necessidade de nos apegar ao que temos, ao que sabemos, ao que
açambarcamos. E, então, experimentamos uma libertação através da rendição; aprendemos a fazer da nossa
ansiedade uma esperança; da nossa morte um êxodo.
Lembre-se do que Jesus falou com Moisés e Elias no momento de sua glorificação na
Transfiguração:
Ali ele [Jesus] foi transfigurado diante deles. Suas roupas torna ram-se brancas, de
um branco resplandecente, como nenhuma lavandeira seria capaz de branqueá-las. E
apareceram diante deles Elias e Moisés, os quais conversavam com Jesus. Então disse a
Jesus: "Mestre, é bom estarmos aqui. Façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e
uma para Elias." Ele não sabia o que dizer, pois estavam apavorados. A seguir, apareceu
uma nuvem e os envolveu, e dela saiu uma voz, que disse: "Este é o meu filho amado.
Ouçam-no!" Repentinamente, quando olharam ao re dor, não viram mais ninguém, a não
ser Jesus. Enquanto desciam do monte, Jesus lhes ordenou que não contassem a ninguém
o que tinham visto, até que o Filho do homem tivesse ressuscitado dos mortos. Eles
guardaram o assunto apenas entre si, discutindo o que significaria "ressuscitar dos
mortos". E lhe perguntaram: "Por que os mestres da lei dizem que é necessário que Elias
venha primeiro?" Jesus respondeu: De fato, Elias vem primeiro e res taura todas as coisas.
Então, por que está escrito que é necessário que o Filho do homem sofra muito e seja
rejeitado com desprezo? (Marcos 9,2-12.)
Ali, mesmo nesse momento único, de êxtase resplande cente, Jesus fala de seu
sofrimento e de sua morte. Jesus falou com o líder do Êxodo do Egito para a terra prometida
sobre Seu novo e derradeiro êxodo através da morte para a ressur reição, um êxodo para todos
os que o seguissem. Seria preciso uma viagem através das trevas para a luz, através do
sofrimento para a redenção, através da dor para a cura, mas Deus o carregaria e extrairia de sua
morte a vida.
Se a morte não se tornar parte de nosso presente, nunca será o nosso êxodo para o futuro. Quando
superamos nossa necessidade de apegar-nos ao que temos, ao que sabemos, ao que possuímos, podemos ser
libertos através de uma confiante rendição a Deus. Então, a nossa ansiedade não nos incapacitará, mas nos
direcionará em alegria adiante de nós, e nos apontará até para o que não podemos predizer ou ver claramente,
como a nossa própria morte. Na verdade, o Novo Testamento pinta um retrato de uma vida eterna que começa
agora: "Vejam como é grande o amor que o Pai nos concedeu: sermos chamados filhos de Deus, o que de
fato somos! Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser, mas
sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é" (1João 3,1-2).
 A PROMESSA INABALÁVEL
A certeza dessas realidades não insinua que nossas crescentes convicções não serão postas à prova. Na
presença da morte, muitas vezes nos sentimos desamparados. O Novo Testamento chama a morte de "o último
inimigo" por uma razão (1Coríntios 15,26): o encontro de Jesus com a morte na cruz lhe custou um alto
preço. Ele mesmo usou as palavras angustiantes do Salmo 22 para expressar o abandono que a morte pode às
vezes significar "Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?" (Salmo 22,1).
O brado de Jesus na hora de sua morte lembra-nos como podemos orar esse Salmo, em toda a sua
pungência, crendo que Deus cumprirá suas promessas e que estará conosco mesmo durante nossa angústia.
Observe que o salmista, apesar de seu sentimento de total abandono, clama por Deus. Ausência e presença
se entrelaçam ali. Em sua imensa dor e total abandono, surge uma oração: "Deus meu, Deus meu!" O Deus
a quem o salmista teme haver deixado de contemplar ainda é o Deus a quem ele pode buscar, e a quem
vai buscar. Aquele que parece longe de nosso clamor é aquele a quem ainda podemos recorrer.
De fato, o salmista sente a mão de Deus enquanto se retrai ante as presas ameaçadoras dos cães. Ele
espera pela palavra de Deus, estando na boca do leão, e chega a conhecer o terno cuidado de Deus inclinando-
se sobre ele através dos chifres de um boi. Enquanto cercado de enfermidades e sofrendo injustiça, sente a mão
do Todo-Poderoso. Ouve o convite para estar com Deus, enquanto cercado por agressores "Em ti os nossos
antepassados puseram a sua confiança", ele lembra, ''confiaram, e os livraste" (Salmo 22,4).
Pense não só nesse salmista, não só em Jesus na cruz, orando por aqueles que o estavam matando, mas
também pense nos judeus orando por seus torturadores nos campos de concentração. Pense naqueles que, em
angústias e opressões extremas no Sudão ou na América do Sul, lembram-se de clamar por Deus. A jornada de
Jesus não terminou na cruz. No caminho de Emaús, vemos o quadro mudar do desespero para a esperança. Todas as
vezes em que Jesus apareceu a seus discípulos, vitorioso sobre a morte, vemos a figura de outro caminho: uma
certeza que nos permite não mais desesperar. É uma certeza que nos leva a confiar em que a jornada da vida
para a morte há de nos conduzir, finalmente, da morte para a vida.

 DIZENDO ADEUS
"É para o bem de vocês que cu vou", disse Jesus a seus temerosos e ainda confusos
discípulos, quando cogitaram de Sua iminente morte (João 16,7). O assunto do
ensinamento daquele dia era a partida. Ele precisava falar sobre o deixar para trás, o ir
embora, o dizer adeus, o desejar felicidades! Ao ouvir essas palavras, vamos primeiro sentir
tristeza. Se você já esteve em lugares onde barcos, aviões, trens, ônibus condu zem a
destinos longínquos, deve haver visto muitas lágrimas quando relacionamentos intimos
foram interrompidos e as pessoas tiveram que se separar.
Mas o adeus de Jesus tem outra conotação. Ele anuncia sua dolorosa partida como uma
promessa: "é para o bem de vocês que eu vou", disse ele, "Se eu não for, o Conselheiro não
virá para vocês, mas se eu for, eu o enviarei" (João 16,7). Diante dessas palavras, a partida
perdeu seu senso de fatalidade. Eles não mais veriam Jesus, mas experimentariam a presença
mais constante do Espírito Santo, a quem Jesus iria enviar. Dor e alegria, ansiedade e
liberdade, perder um amigo e ganhar um amiga não estão mais em conflito entre si, mas
caminham juntos nessa emoção mais profunda da esperança que sobrepuja com frequência
qualquer articulação. E isso porque, mesmo na perda daquilo que nos é mais caro, Deus
caminha ao nosso lado e torna-se o nosso companheiro mais próximo.
Temos que enfrentar não só a nossa própria morte, mas de bom grado levar em conta a
morte daqueles a quem conhecemos e amamos, daqueles com quem convivemos. Partir torna-
se uma condição de vida, uma condição para o crescimento do cristão. O adeus de Jesus
traz um suave convite para compreender nossa vida como uma constante partida: daquilo
que nos é familiar, para o que é eterno; daquilo que desfrutamos de forma temporária para
aquilo que um dia desfrutaremos para sempre. E iremos experimentar a partida de
outros, os quais também têm parte nessas transições inevitáveis de nosso mundo.
Somos ajudados nesse deixar ir daqueles que nos são que ridos, lembrando-nos
deles e lembrando-nos de nós mesmos. Quando deixamos o corpo seguro de nossa mãe,
estamos prontos para respirar por nós mesmos e iniciar a estrada para a in dividualidade.
Quando deixamos o lugar de refúgio da família, onde fomos o centro das atenções, e
vamos para a escola, temos a oportunidade de testar nossas potencialidades e
desenvolver novos relacionamentos. Quando deixamos nosso lar para ir à universidade,
recebemos a liberdade de reavaliar tudo o que nos foi dado e integrar aquilo que
consideramos significativo. Quando deixamos nossos pais para nos casar ou para entrar
numa vida religiosa, podemos experimentar o desafio de edificar o nosso próprio lar e
dar vida a outros. E, quando nos aposentamos, podemos ter a remota possibilidade de
chegar a um acordo com as dimensões básicas da vida.
Se a vida, porém, é uma constante partida, um constante esvair-se do passado, para
alcançar mais independência, mais liberdade e mais verdade; se nossa partida final nos dá a
independência final, a liberdade e a verdade para o que temos buscado às apalpadelas
por toda a nossa vida, por que tudo isso leio pode ser para aqueles aos quais amamos?
Se isso é verdade, a morte não é mais o cruel destino do homem que destroça
todos os esforços, que torna em ridículo todas as tentativas de viver e que tritura toda
criatividade transformando-a em migalhas inexpressivas; é um sinal de conhecimento
profundo. E, à luz da partida de Cristo, poderemos amar, não apesar da morte, mas por causa
dela. Tenho uma história para contar.
Era uma vez um jovem que morava numa grande cidade. Todas as noites ele ia ao mesmo restaurante
e sentava-se à mesma mesa. Sentia-se muito só. Um dia, encontrou uma linda rosa em sua mesa, e um
sentimento de ternura subiu-lhe ao coração. Voltou ali dia após dia e olhou para aquela rosa durante suas
refeições. Às vezes, estava triste; às vezes, estava feliz; às vezes, indiferente ou zangado. E embora o seu
humor fosse diferente a cada vez percebeu que a rosa permanecia igual. Ele não podia entender. E então,
muito suavemente, tocou a rosa, o que não ousara fazer antes. Quando sentiu as rijas bordas das folhas,
percebeu, de repente, que a linda rosa não era vivia. Era artificial. E o jovem levantou-se irado,
arrancou-a daquele vaso seco e esmagou-a entre seus dedos. Então, chorou e sentiu-se mais só do que nunca.
Não somos feitos para amar coisas imortais. Só o que é insubstituível, único e mortal pode tocar
nossa mais profunda sensibilidade humana e ser uma fonte de esperança e consolação. Deus só se tornou passível
de ser amado quando se tornou mortal. Tornou-se nosso Salvador porque a sua mortalidade não foi fatal, mas,
sim, o caminho da esperança.
Temos visto muitos partirem do nosso meio. Milhares se vão: grandes lideres, amigos queridos e
muitos outros desconhecidos, mas que são parte de nossa vida. Nós os amamos porque não podem ser
substituídos, pois eram humanos. Talvez precisemos começar a ver, através do adeus de Cristo, que mesmo os
nossos dias podem ser dias de esperança, abrindo caminho para o Espírito Santo vir, abrindo as portas
fechadas de nossos medos e conduzindo-nos à plena liberdade e à plena verdade. E à gratidão.
O principal personagem e narrador da novela My Name is Asher Lev descobriu alguma coisa sobre
isso. Ele desejava muito, desde a meninice, desenhar e pintar como um artista.
E eu desenhei, também, o caminho onde uma vez meu pai olhou para um passarinho
estirado de lado contra o meio-fio, perto de nossa casa. Era Sabbath (sábado) e vínhamos
voltando da sinagoga:
Ele está morto, papai? (Eu tinha seis anos e nem conseguia olhar a cena.)
Sim — ouvi-o dizer, de maneira triste e distante.
— Por que ele morreu?
Porque tudo o que vive deve morrer.
—Tudo?
—Sim.
— Você também, papai? E a mamãe?
— Sim.
— E eu?
— Sim — respondeu, acrescentando: — Mas pode ser que seja depois de você viver
uma longa e boa vida, meu querido Asher.
Não pude entender. Fiz esforço para olhar para o pássaro. Tudo o que vive ficará
como este pássaro?
P o r q u ê ? — p e rg u n t e i .
Foi assim que o Ribbono Shel Olom fez seu mundo, Asher.
Por quê?
Porque assim a vida seria preciosa, Asher. Alguma coisa que é sua para sempre nunca
será preciosa.(1)

 A CURA FINAL?
Tenho um amigo que me disse em seu leito de morte: "A cura final será quando eu puder ouvir a
voz do amor, experimentar liberdade verdadeira e ter satisfeitos os desejos mais profundos de meu coração." Se
segurarmos mais levemente nossa vida e nos entregarmos a Deus, viveremos mais perto dele, seremos mais
agradecidos, mas provavelmente não mais populares ou bem-sucedidos. Morrer é como se dar, confiando-
se a Deus. O que recebemos tem mais do intangível do que da prosperidade terrena. Pode, realmente, parecer
simples.
Eu estava me preparando para celebrar a Comunhão durante um dos cultos na capela da
Comunidade L’Arche. Uma mulher, com muita dificuldade para falar por causa de sua deficiência, veio a mim
e perguntou-me:
Você pode me dar uma bênção?
Claro! — respondi e preparei-me para fazer uma oração formal, erguendo meus braços cobertos por
uma toga.
Não — interrompeu ela. — Quero uma bênção de verdade.
Ela queria um abraço! Ela queria que eu pusesse todo o meu ser ali. Claro que eu a abracei e ainda
lhe disse: Você é a amada de Deus. E você é única. Ela saiu feliz.
Logo a seguir, um outro membro de nossa comunidade disse: "Eu também quero." E vieram outros.
Um homem de 25 anos, um assistente que viera para morar e servir em nossa comunidade depois de haver
feito o curso universitário, chegou também naquele momento. "Evan", falei, "estou muito feliz por você
estar aqui." Abracei-o e continuei a dizer: "O meu abraço é o abraço de Deus em você e Ele está dizendo:
`Você é o filho amado”. Confie nisso e viva sua vida firmado nisso." Então, seu corpo tenso relaxou.
Foi como se nunca alguém houvesse dito isso a ele. Mas, naquele momento, ele estava
pronto para ouvir.
Foram os pobres, os deficientes entre nós, os primeiros a nos ensinar a pedir por
uma bênção. Os que mais sofriam abri ram caminho e nos deram uma profunda lição,
vinda de sua própria necessidade. Aqueles que podem morrer mais cedo que muitos de
nós, por causa de suas deficiências, descobriram o profundo anseio do coração de cada
ser. Encontraram uma esperança inextinguível.
Nenhum de nós se esquiva da realidade da morte, apesar de nossa rejeição;
nenhum de nós pode anular muitos dos pressupostos que herdamos ao nascer. Alguém, e
não alguma coisa nova, precisa nos resgatar. Alguém das alturas. Jesus nos diria: Eu
quero dar-lhe o meu amor, meu coração, meu fôlego, o Espírito. Eu quero atrair você
ao meu próprio círculo de amor; não depois que você morrer, mas agora, nesta vida. Só
assim você se sentirá perdoado, amado, livre.
Ainda nos doemos muito quando a morte visita aqueles a quem amamos ou nos
esquivamos quando ela se aproxima de nós. Iremos sofrer de muitas maneiras. Mas as
nossas dores cruciantes serão mais como dores de parto, que trazem nova vida ao nosso
mundo. Enfrentar a morte nos permite experimentar esta vida de uma forma que nossa
rejeição nunca permitiria. Convidar Deus para entrar em nosso sofrimento é ter a certeza
de que nunca estaremos sós. Confrontar a nossa morte nos permite, afi nal, viver muito
melhor. E melhor ainda é dançar com a alegria de Deus nas noites de pesares e manhãs
cheias de esperança.

NOTAS

CAPÍTULO 2
1. C.S. Lewis, Os quatro amores. (São Paulo: Mundo Cristão, 1995), 91.
2. Simone WeiL, Waiting for God (New York: G.P Putnam's, 1951), 111-112.

CAPÍTULO 3
1. Albert Nolan, Jesus Before Christianity (Maryknoll, N.Y.: Orbis, 1976,1978), 32.
2. Simone Weil, Waiting for God,109-111.
3. Thomas MerTon, the Literary EsSays of thomas Merton, ed. BroTher Patrick Hart, (New York:
New Direcrions, 1981).

CAPÍTULO 4
1. Arno Gruen, The Betrayal of the Self (New York: Grove, 1988), 281.
2. Thomas Merton, Contemplation in a Word of Action (New York: Doubleday, 1973), 178-179.
3. Sergius Bolshakoff, Russian Mystic, (Kalamazoo, Mich.: Cistercian, 1977), 253.
4. Martin Luther King Jr., Strength to Love (Philadelphia: Fortress, 1981) ,47-55.

CAPITULO 5
1. Chaim Potok, My Name Is Asher Lev (New York: Knopf, 1972), 156.