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Nº 150 - Agosto 2018 - R$ 6,00 - www.suplementopernambuco.com.

br

OS INDÍGENAS E
A NARRATIVA DA
CONSTITUIÇÃO
Nos 30 anos da Carta Magna,
especial mostra a participação da
retórica indígena na sua criação

HANA LUZIA E MARIA JÚLIA MOREIRA

ARIEL, DE SYLVIA PLATH | CAIO FERNANDO ABREU | O QUE É ENCARCERAMENTO EM MASSA?


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PERNAMBUCO, AGOSTO 2018

C A RTA DOS E DI TOR E S E X PE DI E N T E


GOVERNO DO ESTADO DE PERNAMBUCO

B
Governador
Paulo Henrique Saraiva Câmara
rasil, o que faço com a minha cara de índia?, Dois textos abordam questões envolvendo racismo,
pergunta um poema de Eliane Potiguara. morte e controle: Allan da Rosa pensa a ideia de Vice-governador
Raul Henry
A partir dessa questão é que se constrói necropolítica, cunhada pelo filósofo Achille Mbembe, a
a capa desta edição – a de número 150 partir de três ficções de autoria negra; e, na entrevista, Secretário da Casa Civil
André Wilson de Queiroz Campos
do Pernambuco –, que pensa os 30 Juliana Borges explica a necessidade de discutir
anos da Constituição pela participação as lógicas de encarceramento para pensarmos os COMPANHIA EDITORA DE PERNAMBUCO – CEPE
dos indígenas em sua criação. Pedro Mandagará racismos – são corpos cuja vida é subjugada ao poder Presidente
nos mostra que ela foi de suma importância: sem a da morte, o que dialoga com as ideias de Mbembe. Ricardo Leitão
retórica dos indígenas, os direitos dessas populações Destacamos a resenha feita por Adelaide Ivánova Diretor de Produção e Edição
jamais seriam respeitados. Brigaram por espaço sobre Ariel, de Sylvia Plath, republicado no país. Ricardo Melo
dentro da narrativa que normatiza o funcionamento Ivánova pensa o lugar de Plath no cânone literário Diretor Administrativo e Financeiro
do país. Além disso, um breve artigo de Daniel ao enxergá-la como dona de uma dicção que fora Bráulio Meneses
Munduruku introduz os leitores na construção alçada ao cânone por escrever a partir de (e para)
histórica do imaginário sobre essas populações ainda autores consagrados. Com a ascensão dos feminismos
tão oprimidas. contemporâneos, o lugar de certas autoras torna-se
Caio Fernando Abreu faria 70 anos em 2018 e uma instável. Concorde-se ou não com as ideias, trata-se
Uma publicação da Cepe Editora
reunião de todos os seus contos foi lançada. Ramon de debate necessário. Rua Coelho Leite, 530 – Santo Amaro – Recife
Ramos pensa como o volume permite ver nuances E mais: José Castelo fala de opressão e literatura Pernambuco – CEP: 50100-140
da escrita do autor. Há 40 anos, o poeta português a partir de Clarice, de Roger Melo; e Everardo Norões Redação: (81) 3183.2787 | redacao@suplementope.com.br
Ruy Belo falecia. Vários livros seus foram publicados lembra de como a arte nos leva às encruzilhadas da
SUPERINTENDENTE DE PRODUÇÃO EDITORIAL
no Brasil, mas ele continua desconhecido. Isabela memória e do afeto. Luiz Arrais
Benassi nos apresenta nuances de sua poética a partir
EDITOR
das aparições do idioma, do corpo e da morte. Boa leitura a todas e todos! Schneider Carpeggiani
EDITOR ASSISTENTE
Igor Gomes

COL A BOR A M N E STA E DIÇ ÃO DIAGRAMAÇÃO E ARTE


Hana Luzia, Janio Santos e Maria Júlia Moreira
Adelaide Ivánova, Daniel Munduruku, Pedro Mandagará, TRATAMENTO DE IMAGEM
poeta, tradutora e escritor, doutor em professor e Agelson Soares e Nélio Chiapetta
fotógrafa, autora de Educação (USP), pesquisador da REVISÃO
O martelo e Polaroides pós-doutor em Universidade de Dudley Barbosa e Maria Helena Pôrto
linguística (UFSCar), Brasília (UnB) COLUNISTAS
autor de Kabá Darebu Everardo Norões, José Castello e Wellington de Melo
PRODUÇÃO GRÁFICA
Júlio Gonçalves, Eliseu Souza, Márcio Roberto, Joselma Firmino
Allan da Rosa, historiador, angoleiro e arte-educador popular, autor de Pedagoginga, autonomia e mocambagem; Isabela e Sóstenes Fernandes
Benassi, escritora e mestranda em Literatura Portuguesa (USP); Leonardo Nascimento, jornalista e mestrando em MARKETING E VENDAS
Antropologia (UFRJ); Marcelo Lotufo, editor, tradutor e doutor em Literatura Comparada (Brown University); Priscilla Campos, Daniela Brayner, Rafael Chagas e Rosana Galvão
jornalista e mestra em Teoria Literária (UFPE); Ramon Ramos, escritor e mestre em Literatura (PUC-RJ). E-mail: marketing@cepe.com.br
Telefone: (81) 3183.2756
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PERNAMBUCO, AGOSTO 2018

BASTIDORES

Formas de se
HANA LUZIA

aproximar
dessa poesia
Sobre traduzir Adrienne
Rich – poeta e ativista do
feminismo – não apenas
como esforço criativo, mas
como possibilidade de tornar
as diferenças produtivas
Estes poemas, talvez pelo encontro delicado entre
Marcelo Lotufo subjetividade e política, estão entre os mais fortes
da poeta; testam os limites da própria literatura e
A poeta e tradutora Rosmarie Waldrop, em uma nos convidam a mergulhar a fundo na nossa própria
entrevista para o pequeno jornal literário Fact-Simile, subjetividade, por mais complexas que elas sejam.
propõe pensarmos a tradução como uma atividade São poemas transformadores.
colaborativa, ao menos para quem traduz, se não Pensar a tradução como colaboração, como su-
também para quem escreve o texto original. Tra- gere Waldrop, também depende da nossa abertura
duzir, ela diz, é uma oportunidade de tornar-se à diferença. Traduzir é aproximar-se de um texto,
(co)autor de algo que você não poderia ter escrito e de uma experiência, de forma intensa e aberta. A
sozinho. “Esta é a verdadeira razão para traduzir- capacidade de um tradutor, por isso, está fortemente
mos: você encontra um texto que admira – que você ligada à sua capacidade de experimentar a alteri-
deseja ter escrito, mas que não poderia de maneira dade da leitura, à sua capacidade de se aproximar
alguma tê-lo feito sozinho – então você o ‘escreve’ do outro mesmo sendo diferente; isto é, de querer
ao traduzi-lo.” Em 2018, depois de anos lendo sua escrever um texto que você não poderia ter escrito
poesia, resolvi finalmente traduzir uma pequena sozinho. Rich também acreditava na alteridade da
seleção de poemas da norte-americana Adrienne literatura. Além de poeta, foi professora de leitura e
Rich (1929-2012), para a coleção de pequenos livros escrita para comunidades carentes na cidade de Nova
de poesia contemporânea em tradução das Edições York, tentando preparar seus alunos para ingressa-
Jabuticaba. O livro será lançado no mês que vem. rem na universidade. As suas aulas eram centradas
A poesia de Rich já deveria estar nas livrarias na leitura de textos literários, ponto de partida para
brasileiras há muito tempo, ainda assim o momento discussões e exercícios feitos com os alunos. Parte
parece particularmente propício para publicarmos desta escolha se dava pela crença da poeta de que
no país uma seleção dos seus poemas. Rich fala para literatura é um espaço onde se pode arriscar, mas
o nosso tempo; para tempos de violência e retroces- também um espaço com potencial para ampliar
sos. Colocar hoje em circulação uma escritora que mundos e sentidos. Um lugar onde diferenças podem
escolheu participar de forma ativa – como ativista ser negociadas, vivenciadas, ampliadas e discu-
e poeta – das lutas por direitos civis dos negros nos tidas: “pessoas ingressam na liberdade da língua
anos 1960 e 1970, do movimento pacifista contrário através da leitura, antes mesmo de escreverem; as
à guerra do Vietnã e da segunda onda feminista é diferenças de tom, ritmo, vocabulário, intenção que
uma maneira de historicizar desafios que continuam encontramos durante nossos anos de leitura são,
incompletos e prementes, como ficou ainda mais entre outras coisas, sugestivas de muitas maneiras
claro após o golpe de 2016. Não é preciso dar dados, diferentes de se existir”.
basta abrir os jornais. Estes poemas, mais do que A tradução, não como atividade burocrática, mas
nunca, pertencem às nossas bibliotecas; são poemas como entrega, é uma atividade transformadora. O
que eu gostaria de ver compartilhados entre amigos resultado para o leitor, claro, depende também de
e leitores de poesia e, por isso, eu escolhi traduzi-los. outras habilidades do tradutor: o seu domínio da
Os versos de Rich exploram também outro aspecto língua, conhecimento da tradição, acerto do tom
da vida da poeta: a sua sexualidade. Ela é autora de etc. Mas um bom tradutor que não se entregar ao
poemas emblemáticos sobre o amor lésbico. Em al- que traduz dificilmente fará um bom trabalho; ou
guns deles, incluídos no nosso volume, escreve tanto melhor, fará só um trabalho. E literatura nunca de-
sobre suas companheiras quanto sobre o percurso veria ser só um trabalho. Espero que esta entrega,
até assumir sua sexualidade de forma pública. Fala que minha vontade de me aproximar de Adrienne
do tempo que perdeu fingindo ser amizade o que Rich, de me abrir às suas lutas e experiências trans-
era, de fato, amor profundo e entrega. Estes poemas, pareça na minha tradução; e que o leitor, seja ele
poemas líricos e de amor, também são poemas po- quem for, também seja convidado a se aproximar
líticos que desafiam os retrocessos do nosso tempo desta poeta magnífica.
e reforçam o que deveria ser óbvio: a diversidade é
bem-vinda. Importante pensadora feminista, Rich 1. Rich, Adrienne. “Teaching Language in Open Ad-
batalhou para ampliar o que entendíamos por mu- missions”, in On lies, secrets and silence: selected prose
lher. A experiência do feminino não se resumia a 1966-1978. Nova York: W. W. Norton, 1995. E-book.
uma experiência branca, heterossexual e de classe
média, como a retórica das primeiras feministas
parecia indicar, mas era composta de uma grande O LIVRO
gama de experiências de mundo: mulheres negras, Que tempos são estes?
mulheres latinas, mulheres pobres, homossexuais Editora Jabuticaba
e bissexuais. Explorar de forma pública a sua pró- Páginas 92
pria sexualidade, neste contexto, também se revela Preço R$ 30
uma tentativa de combater um sistema patriarcal e
injusto que opera em diferentes níveis, moldando
inclusive a percepção que temos de nós mesmos.
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RESENHA

A intimidade Somos seres que sangramos tinta


na folha de papel em branco
Silviano Santiago

é um diálogo
A despeito de certo aspecto biográfico, a visce-
ralidade com que Caio Fernando Abreu elaborava
suas narrativas curtas — periódicas ou organizadas
em livros de contos — denota um consciente uso

entre solidões
da fragilidade como procedimento de força e de
intensidade literária. A presença constante de per-
sonagens expondo suas feridas e seus desajustes
internos é contraposta à urgência de um mundo por
vezes demasiado hostil — o que amplifica a sensa-
Sobre os contos de Caio ção de não-pertencimento e, por consequência, a
busca por estratégias compensatórias.

Fernando Abreu, agora Organizados de forma completa pela Compa-


nhia das Letras, os contos de Caio F. agora revelam

editados em volume único


uma unidade que possibilita à obra não apenas uma
inteireza física, mas temática e procedimental. A
compilação feita sequencialmente na cronologia
das publicações permite observar os mecanismos
Ramon Ramos de evolução da escrita de Caio, bem como os modos
de utilizar as questões de seu tempo e o impacto das
influências absorvidas de acordo com a época — o que
é importante para analisarmos sua literatura. A nova
reunião apresenta, inclusive, três contos inéditos que
reforçam a leveza angustiada presente em sua obra.
Essas narrativas de prazeres e tremores trazem
personagens que não recusam o sorrir, mas se
permitem também à solitária imersão melancólica.
No posfácio destes Contos completos, Ítalo Moriconi
(UERJ) diz que o diálogo em Caio é quase sempre a busca
ou a nostalgia de uma intimidade comum entre duas solidões.
A intimidade como troca de solidões.
É o que vemos em Ovelhas negras (1995): a pul-
são da proximidade que convida ao íntimo — dos
desejos, das fantasias, dos medos e das neuras.
Angústias reveladas por meio de textos até então
inéditos, de relatos de sonho, de fragmentos de
diários e cartas que, publicados em meio à ficção,
sugerem a diluição das fronteiras entre o inventado
e o biográfico.
Se o título insinua se tratarem de textos preteridos
ou renegados, é da incompletude ou do que não
presta que a voltagem dessas narrativas é tensionada
pelo autor. Antes de cada conto, encontramos co- Caio é corpo, mesmo quando doente, perdido
mentários de Caio F. acerca do material a ser lido ou caótico, mesmo sem perspectivas à frente da
em espécie de autoanálise acerca de seus próprios mancha na ponta do nariz. Girassol caidinho que
mecanismos de escrita. Não à toa a epígrafe do ainda gira o tronco buscando a luz. Sua fragilidade
livro cita Clarice Lispector dizer: Além do mais, o que é arredia, reforça o corpo mesmo quando só está
obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto do em suas mãos o desfecho narrativo. Caos é forma
modo carinhoso do inacabado, daquilo que desajeitadamente se Deus pifar.
tenta um pequeno voo e cai sem graça no chão. Caio naturaliza o erótico sem banalizar os amores.
A escrita de Caio costuma trazer essas solidões As palavras não se tocam tácitas; ao contrário, os
desajeitadas em tentativas constantes e frustradas toques nesta literatura roçam às claras, em pacto
de dar certo, de se encaixar. Narradas pelo olhar lícito entre pele e página. A intenção parece ser
de quem se joga ou de quem recusa a entrega, seus produzir uma mistura de intensidades por fora e
convites à sensibilidade sempre se dão em meio a por dentro, jogo entre sensações e sentimentos
estranhas carícias tortas. nesta violência açucarada dos afetos.
São narrativas que expõem a reclusão da vida A leveza dos encontros casuais aparece, por
moderna e urbana em retratos solitários de se- exemplo, em O dia que Júpiter encontrou Saturno, de
res que transitam à margem — hippies, drogados, Morangos mofados (1982). O conto narra simetrica-
prostitutas, andarilhos, homossexuais —, clausura mente o breve encontrar-se (durante uma festa) de
intensificada pelo contexto político repressivo um homem e uma mulher (discretamente infelizes) que
pós-golpe de 1964. Daí o gosto de mofo na boca. se esbarram e conversam — em meio à confusão
Daí os strawberry fields que tentam o doce, mas ter- de pessoas no apartamento, a copos de plásticos,
minam escorrendo o vermelho nas latas de lixo. A aos altos decibéis de rock n’roll — acerca dos astros,
tentativa do doce como sugestão real do amargo, dos planos para o futuro, dos gostos em comum.
como futura edificação da tristeza. São imagens Ali Caio narra o momento do apaixonar-se — feito de
do vulnerável que flertam com ideias de morte, trocas profundas em tempo escasso (não há pers-
mas cujas hastes — feito um girassol — sustentam o pectiva de permanência). Ambos se questionam:
constante movimento de busca pela luminosidade. isso foi um encontro ou uma despedida?
Essa fusão de referências à cultura de massa em Lemos: — Você tem um cigarro? / — Estou tentando parar
meio à dita alta literatura — passando por astrologia, de fumar. / — Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos
macrobiótica e sustentabilidade — pode ser vista agora. / — Você tem uma coisa nas mãos agora. / — Eu? / — Eu.
como herança de 1968. É o que explica o professor Se o excesso de intensidade nos primeiros conta-
Nonato Gurgel (UFRRJ) ao dizer que trata-se de um tos aponta para uma perspectiva inocente ou juvenil
imaginário que elege o desejo como algo produtivo e que contém na maneira de encarar o amor, o icônico Pela noite
elementos técnicos e maquínicos; suas formas construídas (Triângulo das águas, de 1983) desenvolve de modo
pelo cinema, pela TV e pela música popular, por exemplo, mais maduro a consciência do self ante o erótico
dialogam diretamente com a tradição literária. dos protagonistas Pérsio e Santiago.
É como poeta do corpo que Caio Fernando faz Um texto que fala de cu em meio a citações de
vigorar as suas cartografias do sentir. Tinge no Beethoven e Barthes, Gal e Gullar. Um texto que
que é físico as marcas do mundo hostil, no corpo abertamente expõe o amor entre dois homens e
solitário as manchas e os hematomas das relações seus impasses mais íntimos. Lemos: E se tudo isso que
amorosas. Caio é poeta de um corpo só. Pelo corpo você acha nojento for exatamente o que chamam de amor?
suas qualidades do sentir tomam forma, fazendo Quando você chega no mais íntimo. No tão íntimo, mas tão
da ferida, do gozo, do sangue mecanismos de in- íntimo que de repente a palavra nojo não tem mais sentido?
terpretação e de absorção das secreções do mundo. (...) Será que amor não começa quando nojo, higiene ou
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PERNAMBUCO, AGOSTO 2018

DIVULGAÇÃO

qualquer outra dessas palavrinhas burguesas e cristãs não


tiver mais nenhum sentido?
É preciso perder o pudor. É preciso aceitar
Contos náufrago nos ombros de dois amigos) sugere a fatalidade
do diagnóstico. Eis que, então, a possibilidade de
uma relação amorosa se apresenta e desnorteia
a própria fragilidade e escrever nos limites da
epiderme que nos dá forma, da má calcificação completos dá este homem em sua situação de maior fragilidade
e, em seu pensamento, impossibilidade. Por que me

inteireza à obra de
estrutural que nos sustenta. É preciso ser o sangue, descobriste no abandono? — questiona.
demais o sangue!, mesmo vertente dos nossos Entre o quase-amor e o medo-puro, a cons-
lugares mais constrangedores. tatação do vírus, que no início do conto dissolve

Caio F. e mostra
Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a a luminosidade do personagem, é ressignificada
forma, não importa a “função social”, nem nada, não importa em seu final pela descoberta da doença do outro.
que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Isso reacende a possibilidade antes reprimida para
Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está
com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão
assustadora — diz Caio F.
a evolução de sua que ambas vulnerabilidades possam se frequentar.
Lemos: O outro convidou: — Senta aqui do meu lado./ Ele
sentou. O outro perguntou: — Nosso amigo te contou. / — O
Sentir é a palavra de ordem. É agora, nesta
contramão (Ana C).
À véspera do lançamento de Os dragões não co-
escrita cheia de quê?/ — Que eu também./ Ele não entendia./ — Que eu tam-
bém - o outro repetiu. (...)/ — Você também – disse, branco./
— Sim – o outro disse sim.
nhecem o paraíso (25 de março de 1988), Caio diz
em crônica que os dragões são como escritores,
músicos, pintores, filósofos, ou todas essas pessoas
leveza e angústia A capa desta edição dos Contos completos apresenta
Caio em tons de roxo. Isso nos remete aos dragões
que, quando felizes, deixam no ar uma leve colo-
que — loucas — querem sentir num mundo em que é ridículo entre as voracidades geralmente pressupõe o es- ração púrpura. Púrpura: mesma cor das manchas
sentir. Os dragões, ao contrário dos que veem na tancar da fome: a violência de um se oferecendo espalhadas pelo corpo deste homem que retorna à
glória e no poder o paraíso, querem voar. Na nota de à violência do outro numa sucessão de noites de- casa da mãe (em Linda, uma história terrível).
autor que abre o livro, Caio avisa se tratar de histórias liciosamente mal dormidas. Ao final de Depois de agosto, lemos que, perto ou
independentes, girando sempre em torno de um mesmo tema: Porém, dragões são apenas a anunciação de si próprios. longe, ambos sabem quando é lua cheia e sabem
amor. Amor e sexo, amor e morte, amor e abandono, amor As cortinas não chegam a se abrir para que entrem em cena. que, quando míngua e some é porque se renova e
e alegria, amor e memória, amor e medo, amor e loucura. Eles se esboçam e se esfumam no ar, não se definem. Sempre cresce para se tornar cheia outra vez, nesse misto
Se o amor era um exílio (Samuel Beckett), quei- permanece a sensação de que não foi suficiente, de melancolia e alegria que marca e continua-
mar era um prazer (Ray Bradbury). não permitem que o outro se sinta plenamente rá marcando o olhar para Caio Fernando Abreu.
Caio tinha sol em Virgem, mas entendia bem satisfeito com o gasto de sua voracidade afetiva. Parodiando as últimas palavras do conto: porque
dos seres de fogo. Não à toa, nestes Contos completos, Em ensaio sobre afinidades eletivas, a profes- é assim que é e sempre foi e será, se Deus quiser
são quase cem ocorrências dos vocábulos “fogo” sora Ana Chiara (UERJ) diz que os textos de Caio e os anjos, mais que disserem amém, cantarem:
e “queima/queimar” — signos que indicam, por estão contaminados de bacilos, de vírus, de secreções, estão We only wanted to see you laughing in the purple rain.
exemplo, o caráter explosivo destes seres mitoló- molhados das lágrimas e dos terrores dos doentes, solitários, Purple rain! Purple rain!
gicos. Apesar da inevitável distância imposta pelos fechados em seus quartos à noite, encarando, metafórica
dragões, há neles essa impulsividade afoita que ou literalmente, o rosto (benfazejo?) horrendo da morte, em
aproxima, gruda, funde e carrega gosto catártico cuja cara podem — medusados — cuspir também e podem rir O LIVRO
dos momentos raros daquele clima de eternidade fluida, também, comandando a teatralização da dor. Contos completos
possíveis apenas pela intensidade vulcânica de É o que vemos no último conto publicado em Editora Companhia das Letras
beijos e abraços abrasivos. vida por Caio, Depois de agosto (escrito em 1995 e Páginas 760
Por isso são amados: porque nos momentos de presente em Ovelhas negras), cujo protagonista encara Preço R$ 79,90
entrega se dão por inteiro. E ter corpo e alma per- a possibilidade terminal de sua condição soropo-
corridos com tal vigor gera essa necessidade quase sitiva. A expressão “tarde demais” que insistente-
violenta de contínua repetição do prato. O acordo mente se repete após a saída de hospital (apoiado
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ARTIGO

“Aqui, neste Achille Mbembe é um filósofo camaronês que le-


cionou em cátedras do hemisfério norte antes de
situar-se em Johannesburgo, na África do Sul, onde

lugar, nós
atualmente dá aulas e bola um livro sobre o cos-
mopolitismo negro. Quem ponga desavisado num
capítulo qualquer de suas obras pode contemplar
análises profundas da água e sua invencibilidade,
seus estilos de deslizes e sua tonelada represada,

somos carne”
seus tratos essenciais aos outros elementos, para
num tomo seguinte mergulhar nas fragilidades e
numa coleção de derrotas da mesma água, por seus
vapores fétidos e a desgraça das securas, antes de
Mbembe abrir um tópico sobre a matéria do fogo e
Sobre o Necropolítica, de seus prêmios, até que mais à frente se centre nas
fraquezas da chama e seus voleios, nas frestas entre

Achille Mbembe, a partir de os desenhos da fumaça, na queimadura na pele e


o sussurro da brasa; até nos recordar das cinzas e,

ficções de autoria negra


como num enlace para amplos panoramas esqua-
drinhados, nos convidar a pensar os pontilhados do
álcool, que é caldo e é essência de labareda.
Ou seja, quem lê Mbembe se põe a conhecer a
Allan da Rosa casa toda de uma ideia pra sentir o prumo de sua
arquitetura, saber onde o teto prenuncia desabar
e qual é a sala respingada com água de cheiro,
porque ele é de expor o horizonte de uma varanda
para logo depois pensar num mofo de cantinho,
seu avesso, mirando até a fundura os conceitos e
seus raios de ação.
Em tempos de maniqueísmo berrante e certezas
raivosas, quando se insiste explicitamente no uso
de óculos de uma lente só, Mbembe traça rastros
pulsantes no nó das bifurcações. Seja em África in-
submissa, livro em que dichava religião e sociedade
no continente por seus símbolos, discursos e san-
grias políticas, ou no já notório Crítica da razão negra,
enfim publicado no Brasil pela n-1 edições, em que
Mbembe destrincha o imaginário e a construção de
um ser negro pelo ocidente escravista e as assimila-
ções, respostas e revides que essa podreira obteve de
vozes insurgentes irradiadas pelo pan-africanismo,
pelo nacionalismo negro ou no movimento Negritude.
Este livro, aliás, lhe rendeu aqui uma relativa fama de referências. Aqui no Brasil já voga como termo
que coloca seu nome em chamadas estratégicas de muito citado diante do genocídio cotidiano do povo
capa de revistas de ciência e de arte, mesmo que ao preto, trazendo comparações sobre o que há de
folhear lhe encontremos apenas em coluninhas de específico no jeito de rechearmos nossas valas
oito linhas parecidas com ligeiras seções de classi- e cemitérios, baseado em ódios e estruturas de
ficados, como testemunhei meses atrás numa pu- cinco séculos, e o que se entrosa às tecnologias
blicação “cultural” de instituição banqueira, dessas globais contemporâneas. O que é nosso racismo
que em nosso tempo tentam balancear a rejeição sistêmico que se garante num projeto às vezes
de suas marcas e variar seus investimentos entre disfarçado e noutros momentos escancarado, e o
latifúndios e circuitos financeiros, operando o capi- que se diferencia do arreio balizado mundo afora.
tal simbólico enquanto sediam encontros e abrem Isto se engancha na necessidade de criar perguntas,
exposições, palcos e editais a quem ali caiba num condições e veredas que barrem os processos atuais
eventual carimbo de estética “insurgente, comuni- devastadores do planeta e do convívio das gentes,
tária ou tradicional”. Mbembe inclusive é um dos recriando ideias e presenças de luta por justiça,
que já teorizou sobre tal face do neoliberalismo, que harmonia e felicidade.
engloba discursos e capas étnicas ao mesmo tempo
que morde, escanteia ou estrangula quem esteja à ***
margem das grandes instâncias decisórias e assim Aqui neste lugar, nós somos carne; carne que chora, ri;
passa a ter direito aos atestados estéticos e às moedas carne que dança descalça na relva. Amem isso. Amem forte. Lá
que são migalhas do grande banquete trilionário das fora não amam sua carne. Não amam seus olhos; são capazes
corporações, multiplicadas a cada ano, a cada golpe, de arrancar fora os seus olhos. Como também não amam a
a cada rapa da mão grande. Ao tocar e destrinchar o pele de suas costas. Lá eles descem o chicote nela. E, ah, meu
neoliberalismo e seus abates globais, o filósofo chega povo, eles não amam as suas mãos. Essas que eles só usam,
a pôr no tabuleiro se já-já chegaremos à época em amarram, prendem, cortam fora e deixam vazias. Amem suas
que “todos serão negros”, diante de tantas condições mãos! Amem. Levantem e beijem suas mãos. Toquem outros
degradantes atribuídas aos descartáveis do sistema. com elas, toquem uma na outra, esfreguem no rosto, porque
Pegada essa que merece detidas reflexões, para não eles não amam isso também. Vocês têm de amar, vocês! E não,
perdermos de vista o que ainda são rodos cavalares eles não amam sua boca. Lá, lá fora, eles vão cuidar de quebrar
e genocídios baseados mesmo em algo muito maior sua boca e quebrar de novo. O que sai de sua boca eles não
do que uma definição restrita de classe ou em dis- vão ouvir. O que vocês gritam com ela eles não ouvem. O que
criminações por cultura e etnia, e sim, tristemente, vocês põem na boca para nutrir seu corpo eles vão arrancar
fincados em fenótipos e corpos fadados ao desprezo de vocês e dar no lugar os restos deles. Não, eles não amam
colonialista, ainda tão maciça lâmina quente desde o sua boca. Vocês têm de amar. É da carne que estou falando
princípio do que podemos chamar de “modernida- aqui. Carne que precisa ser amada.
de” - ou de era das catástrofes para povos africanos Essa é uma fala de Baby Suggs, personagem de
e indígenas das Américas. Amada, romance de Toni Morrison, um entreme-
O que se chamou de pós-racial é um embuste, ado de histórias fascinantes, doces e asquerosas
um desejo, uma luta ou um quadro com molduras numa trama fantasmagórica que aflige uma mulher
sólidas amparando tintas em decomposição? É um que matou sua filhinha para não vê-la tomada
belo desafio, nas atuais reconfigurações mundiais por escravistas. Mbembe marca em Necropolítica
do capital com seus abalos estruturais, acompa- a engenhosidade do sistema da plantation,1 ainda
nhar as proposições de Mbembe que oscilam en- alastrado nas Américas após as abolições oficiais
tre considerar raça ora como eixo central de suas da escravatura. O filósofo retoma uma das clássicas
problemáticas, ora como questão que flutua entre noções sociológicas que aponta a política como algo
papel secundário ou superável. que se faz para não se entrar em guerra, pautan-
Mortandade e racionalidade trançadas são o mote do compromissos, direitos e fronteiras nacionais.
do seu ensaio Necropolítica, um livro mais sintético Mas a partir daí pensa como a propalada noção de
que vem sem a vastidão minuciosa e a enxurrada democracia, colorida por pincéis colonialistas, pro-
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PERNAMBUCO, AGOSTO 2018

ARTE SOBRE IMAGEM DE DIVULGAÇÃO

Para Mbembe, as
formas atuais que
subjugam a vida
ao poder da morte
(necropolítica)
reconfiguram
relações entre
resistência,
sacrifício e terror

jetou práticas de soberania que instrumentalizam


e destroem os corpos considerados inimigos ou
entraves, apontando-os como seres considerados
No romance Alá Como atual estágio da necropolítica, Mbembe assi-
nala guerras e ocupações contemporâneas, por suas
táticas de gestão territorial e sua tecnologia bélica
“incivilizados” ou “nocivos às seu domínio”. Mas
Mbembe ainda mergulha em Bataille, que considera
o suicídio como comédia humana, para descortinar
e as crianças- avançada testada regularmente arrasando Kosovo,
Palestina e outras paragens. Centra-se na África e as
tretas suadas por exércitos mercenários que já não se
como kamikazes e mártires se diferenciam do que
costumamos chamar de heróis, pelos atos de definir -soldado, de restringem a fronteiras nacionais, concebendo como
soberania “a capacidade de ditar quem pode viver

Ahmadou Kouroma,
a própria hora da morte, empenhados em razões e quem decide morrer”, refletindo também como a
e metas dos grupos que integram. Por aí, as ideias memória da morte se faz, seja a pessoal, a do bairro,
de Mbembe são atravessadas por novas questões, a da cidade ou da nação. As milícias retratadas por

há milícias que
como o movimento da personagem Sethe, protago- Mbembe foram bem descritas em Alá e as crianças-
nista de Amada, e de outras mulheres que inflamam -soldado, romance satírico de Ahmadou Kourouma.
e subvertem sentidos de maternidade e de amor Eis a voz de uma criança viciada em explicar tudo que
ao matarem suas nenês (por vezes gerados em
recorrentes estupros) confundindo pelo menos no
plano miúdo a autonomia diante da morte em plena
remetem o leitor à vê enquanto roda e integra gangues mancomunadas a
multinacionais, sacerdotes e legisladores platinados:
A Cia Americana de Borracha era a maior plantação da
escravidão que lhes retira seus direitos políticos,
arrebata seus corpos e pesa seus coágulos ao lhe
impedir de se autodeterminar e de ter lugar, no
necropolítica África. Ela cobria um enorme terreno de quase cem quilôme-
tros quadrados. Na verdade, todo o nordeste do país pertencia
à companhia. Ele pagava um monte de royalties divididos
coração do horror que formou as nações moder- domínio. Estes modos de desconsiderar lugares em entre duas antigas facções – o bando de Taylor e o bando de
nas. Me recordo do capoeira Mestre Armandinho que a lei pode ou não valer espelha o que acontece Samuel Doe. [...] Djogo-djogo Johnson tinha obtido um acordo
no Ceará conversando sobre as regras maleáveis hoje em quebradas, aldeias e muitas beiradas brasis? secreto. [...] a Libéria inteira, de Monróvia até o último recanto
de uma roda, questionando origens: “Ética? Que Abaixo, um trecho do conto: do país, sabia que Johnson tinha assinado um acordo secreto
ética você pode pensar ou querer ditar pra uma Ayaju voltou de uma viagem em que fora trocar mercado- com o presidente da plantação. As outras facções não deixaram
pessoa escravizada?” rias com mais uma história: as mulheres em Onicha estavam por menos. Os chefes logo se apresentaram na plantação e
Mbembe repassa ainda as categorizações do ra- reclamando dos homens brancos. Elas tinham ficado felizes pediram para ser recebidos pelo presidente. Eles apresentaram
cismo baseado no conceito de biopoder que busca quando eles construíram um posto de troca, mas agora os ultimatos. O presidente para se safar, decidiu repartir a vigilância
em Foucault. Traça as relações entre razão e terror brancos estavam querendo ensiná-las como fazer negócio e, das cercanias da plantação em 3 ou 4 partes, cada uma delas
na Revolução Francesa e considera as práticas de quando os anciãos de Agueke, um clã de Onicha, se recusaram sendo atribuída a uma facção [...] Na impossibilidade de um
primazia da força encontradas num certo comunis- a colocar os polegares num pedaço de papel, os homens brancos acordo para todas as propostas razoáveis vindas de sua parte,
mo que perseguiu a superação das noções de sujeito vieram à noite com os homens normais que os ajudaram e o presidente declarou às facções que tratassem de se entender
e objeto também pela militarização. Demonstra o arrasaram a aldeia. Não tinha sobrado nada. Nwamgba não sozinhas. O que equivale a jogar um osso só para 3 canzarrões
cerne da racionalização na categorização racial que entendeu. Que tipo de arma esses brancos tinham? Ayaju riu turbulentos de impaciência.
instituiu o sistema do apartheid e suas lógicas casadas e disse que as armas deles eram bem diferentes daquela coisa Como as milícias brasileiras, entranhadas cada
de espaço, de trabalho e suas relações com os estados enferrujada que seu marido tinha. [...] E então, a chegada de vez mais em governos, dominando negócios e fu-
de exceção e de sítio. missionários que pareciam indefesos e eram da cor de albinos, nerais entre ladeiras e becos ou regendo o ritmo dos
A historiadora obstinada é um dos contos de No seu frágeis e delgados que falavam igbo, fizeram a mãe pensar em necrotérios nas disputas entre fazendas e estradas,
pescoço, de Chimamanda Ngozi Adichie. Na história, depois de muita relutância entregar seu filho a educação cristã. se relacionam com a ficção de Kourouma? E como
a autora apresenta tabus, pelejas familiares, relações [...] Nwamgba foi a primeira a fazer uma pergunta: eles por podemos perceber em nosso chão os pilares da
espinhosas entre crenças e uma mulher propagada acaso haviam trazido suas armas, aquelas que tinham usado necropolítica anunciada por Mbembe?
como maldita por parentes interesseiros que ambi- para destruir o povo de Agueke, e ela podia ver uma? O homem
cionam suas terras enquanto chegam missionários disse que infelizmente eram os soldados do governo britânico e 1. Nota da edição: trata-se de monocultura de exportação
ingleses na Nigéria. Surge o que Mbembe qualificou os mercadores da Royal Niger Company que destruíam aldeias; baseada em latifúndios e mão de obra escravizada, am-
como uma chave colonial: terras onde a jus pública já eles traziam boas novas. [...] Semanas depois, Ayaju voltou plamente usada na colonização da América, Ásia e África
europeia pode ser deixada de lado, onde a lei pode com outra história: os homens brancos tinham construído um (os ciclos da cana-de-açúcar e café são exemplos). Ainda
ser desprezada e a terra ser arrasada em função tribunal em Onicha, onde julgavam disputas locais. Tinham é usado em vários países – com a diferença de que, em
de projetos maiores de fixação e consolidação de vindo, de fato, para ficar. tese, atualmente se prescinde da mão de obra escravizada.
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PERNAMBUCO, AGOSTO 2018

ENTREVISTA
Juliana Borges

Discutir as prisões
é fundamental para
pensar os racismos
Em livro, pesquisadora explica o encarceramento no Brasil
de forma introdutória para estimular debates sobre o
sistema criminal e a manutenção das desigualdades raciais
FOTO: DIVULGAÇÃO

Entrevista a Leonardo Nascimento

Juliana Borges é pesquisadora em antropologia


na Fundação Escola de Sociologia e Política de
São Paulo, onde cursa Sociologia e Política. É
uma das vozes mais destacadas no atual debate
feminista de perspectiva interseccional – ou
seja, que pensa a sobreposição de identidades
sociais e sistemas relacionados de opressão,
dominação ou discriminação. Juliana é colu-
nista do Justificando, do site da Fundação Perseu
Abramo, da Revista Fórum e do Blog da Boitempo, foi
articuladora política da Iniciativa Negra por uma
Nova Política sobre Drogas (INNPD) e assessora
da Secretaria de Governo Municipal de Políticas
para as Mulheres da Prefeitura de São Paulo.
Em seu livro, O que é encarceramento em massa? (da
série Feminismos Plurais, da Editora Letramento),
a autora se propõe a introduzir e estimular ho-
mens e mulheres a pensarem sobre uma pauta
que considera crucial para a luta antirracista: as
relações entre o sistema de justiça criminal e a
manutenção das desigualdades baseadas na
hierarquização racial. Passando por ideias de
Sueli Carneiro, Thula Pires, Angela Davis, Mi- que submeter o outro a uma penitência? Esta de Angela Davis de que “só seremos livres
chelle Alexander, Achille Mbembe, Vilma Reis, punição, em países com passados coloniais e em um mundo sem prisões”. O aumento no
Ana Flauzina e uma série de outros intelectuais, escravocratas, necessariamente será aplicada número de publicações de autoras negras
a autora analisa como este momento de grave a determinados grupos, dada as hierarquias tem impactado a literatura criminológica
crise sistêmica – um momento de acirramento raciais fundamentais para a manutenção e o debate sobre o punitivismo no país?
nas relações sociais e de cada vez maior con- de um sistema de desigualdades. Neste O campo da criminologia crítica tem realizado
centração de renda, controle e extermínio – tem sentido, temos um sistema de justiça criminal produções e questionamentos das estratégicas
operado para que se reordenem as hierarquias que surge como espaço central para a focadas na punição e no encarceramento no
de opressão em diferentes fórmulas. manutenção de privilégios e interesses de um país há cerca de 20 anos – isso se quisermos
grupo em relação aos outros, com a defesa da focar em uma considerável análise numérica
Você defende que o sistema de propriedade sendo o grande foco mobilizador de produções. Mas há, obviamente,
justiça criminal não só é perpassado deste sistema. A meu ver, não há sentido em formulações anteriores no país sobre isso.
pelo racismo como ele próprio é falarmos de liberdade em sociedades que A intelectualidade e os movimentos negros
operador da hierarquização racial. dependem de mecanismos punitivos e que historicamente questionaram a violência
É possível afirmarmos que a luta criminalizam vulnerabilidades produzidas como motor de operação das opressões contra
antirracista passa necessariamente por esta mesma sociedade. Portanto, se o a população negra do país. O questionamento
pela superação do cárcere como meio foco deste sistema de justiça criminal é a da criminalização e dos sistemas punitivos
de resolução dos conflitos sociais? manutenção da pirâmide racial no país, está presente no percurso histórico da
Sem dúvidas. Há uma enorme contradição coletivos antirracistas precisam, mais do produção negra. Seja pela denúncia do
quando falamos em liberdade e seguimos que nunca, estudar e questionar estas genocídio realizada por Abdias do Nascimento
defendendo o cárcere como estratégia engrenagens desse sistema de desigualdades. (1914-2011), com enfoque epistemológico,
principal para sanção de conflitos. É preciso seja na atualização desta denúncia realizada
cada vez mais nos questionarmos sobre a No livro, você apresenta algumas saídas mais recentemente pelo movimento e por
necessidade da punição. Por que punir? Por que considera “radicais”, como a afirmação intelectuais negros e negras, apontando o
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PERNAMBUCO, AGOSTO 2018

Ser abolicionista Há contos de


penal é pensar Machado de Assis
que não podemos que rendem boa
aceitar políticas de análise crítica sobre
morte em que certos punições. Literatura
corpos são tidos é instrumento para
como descartáveis debater racismo
genocídio da população negra Qual a importância de uma Pela minha primeira formação, a enxergar a literatura como corpos são considerados
através da letalidade à qual este perspectiva que intersecciona fica sempre muito difícil deixar este campo de exploração. Claro descartáveis. Isso significa
grupo sociorracial é submetido. cada uma dessas categorias de lado o olhar literário sobre que sempre vi crítica social repensarmos nosso sistema
O interessante é perceber a forte para analisar o capitalismo de o mundo. A poeta portuguesa nas produções literárias, mas, educacional, que segue como
presença de mulheres negras barbárie que você aponta? Matilde Campilho afirma que a antes, interessava-me mais aparato ideológico de controle.
nestas produções mais recentes Interseccionalidade é um poesia pode não salvar o mundo, em outros aspectos no texto. Significa pensarmos políticas
e também no ativismo, seja conceito político e também mas, sem dúvidas, salva o que não reproduzam o absurdo
pela mobilização, infelizmente, metodológico, uma ferramenta minuto. A literatura, por ser um Muitas pessoas desdenham de acharmos razoável a prisão
a partir de vivências dessa que permite reflexão e produção direito e ter em si a efabulação, do abolicionismo penal como de pessoas por uma operação
violência, seja pela necessidade de saídas complexas para característica humana, como apenas mais uma moda puramente comercial, quando
intelectual de reflexão, posto questões complexas. Não há nos ensinou o professor Antonio acadêmica. Você já teve retorno a criminalização do tráfico nada
que, como aponta Vilma como continuarmos em um Candido, tem em si a força de do impacto do seu livro fora mais é que a manutenção de
Reis, mulheres negras são sonho realizado por etapas, já que fazer conhecer outros mundos, dos círculos especializados? interesses e lucros de grandes
historicamente discriminadas: o sistema está todo imbricado e criar, recriar e, portanto, instigar É muito comum dizerem que corporações. Quem lucra com
pela hipersexualização violenta articulado, e as opressões atuam o leitor. Escrever é um processo o abolicionismo penal é uma a ilegalidade? Certamente, não
contra seus corpos, pela de modo consubstanciado. Este doloroso, como diz Conceição utopia e que deveríamos focar no são as comunidades que hoje
exploração doméstica, ou por momento de aprofundamento Evaristo, uma vez que buscar que é possível. Tenho dito para estão militarizadas e enfrentando
serem as mães que geram estes do capitalismo, da implantação este impacto no outro é algo colegas socialistas que, então, a violência como única política
homens que serão brutalizados, e ação profunda da necropolítica árduo e sempre impacta primeiro deveriam abandonar a ideia de do Estado em seus territórios.
aprisionados e assassinados. (conceito criado por Achille quem escreve. Por isso, concordo socialismo, porque também é Queremos um Estado e relações
É como se, numa sociedade Mbembe para analisar formas nesse ponto sobre a literatura utópico, já que não vivemos sociais pautados pela solução de
com forte marca cristã e de contemporâneas que subjugam e outras linguagens artísticas numa conjuntura política que conflitos, pela restauração, pelo
necessidade de penitência, estas a vida ao poder da morte), de como instrumentos de debate possibilitaria sua implantação. diálogo e por reparações ou um
mulheres levassem a culpa por políticas de descarte racionalizado e reflexão sobre o racismo no O abolicionismo penal é uma sistema que produz uma violência
trazerem ao mundo as figuras de uma gama cada vez maior Brasil. Veja: já em 1859 tínhamos perspectiva a ser perseguida. que será reproduzida pelos
que a sociedade necessariamente de corpos demanda olhares e publicado, por uma mulher Significa dizer que devemos indivíduos? Considero fracos os
enxerga como figuras criminosas. métodos de pensar, visualizar negra, o primeiro romance tê-lo como perspectiva utópica. argumentos que usam homicídios
O aumento de produções que e agir sobre o mundo que abolicionista do país: Úrsula, de É a partir desta perspectiva e atentados contra a vida como
têm questionado e refletido que acompanhem este complexo Maria Firmina Reis. Temos as que construiremos políticas contraposição ao abolicionismo
não é possível construir crítica sistema. Até agora, a perspectiva obras de Machado de Assis (com cotidianamente. Então, para que penal, porque não levam em
ao campo criminológico sem que intersecciona essas categorias contos que poderiam render uma focar na formulação de leis e conta que o grande causador do
discutir racismo – opressão que tem sido a ferramenta que análise crítica sobre punições), políticas públicas que reforçarão superencarceramento no país
estrutura a sociedade brasileira vejo como mais potente para Lima Barreto, Solano Trindade o punitivismo e ampliarão o não são esses crimes. A máquina
– tem proporcionado um ganho enfrentarmos as questões e uma infinidade de autores e cárcere, que alimentarão tortura e estatal se mobiliza para reprimir
imenso tanto nas formulações da contemporaneidade. autoras negros que irão ver na violência? Ser abolicionista penal ações contra o patrimônio ou de
discursivas como nas práticas arte literária este espaço amplo, significa buscar alternativas cunho econômico, mas não há
e na produção de políticas Você é graduada em Letras pela possibilidade do imagético, que desconstruam a ideia de mobilização da máquina para
públicas. Assim, temos visto que (USP). Na epígrafe do de efabular e produzir tensões punição como necessária, que os atentados contra a vida. E por
o tema da segurança pública tem livro há uma citação de e reflexões. Racionais MC’s defendam e, quando possível, quê? Porque isso envolve tempo,
tomado uma centralidade como Conceição Evaristo. Concorda são herdeiros de um percurso implementem medidas pelo inteligência, outros mecanismos
nunca tomou nas discussões que a literatura e outras histórico, no qual negros e negras desencarceramento, que bem mais complexos. O
do campo progressista, que em manifestações artísticas veem nas artes um terreno de busquem a restauração e a abolicionismo penal não é
geral é falho com essa pauta. de autoria negra são parte imensas possibilidades para uma mediação de conflitos, em vez uma perspectiva ingênua.
essencial no debate sobre produção que é também sócio- de incentivar práticas violentas. Ingenuidade é pensarmos que
Ao analisar historicamente o ideologia racista e sistema -político-filosófica sobre nosso É pensar que não podemos mais aplicando o mesmo remédio
poder punitivo, você chama de justiça criminal no Brasil? país e o mundo. O engraçado criminalizar vulnerabilidades, punitivo que vem ampliando
atenção para as engrenagens Lembro de um texto seu sobre é que eu precisei ir para uma que não podemos aceitar violência e extermínio
racistas, machistas e classistas a atuação dos Racionais MC’s outra área, a Antropologia, as a execução de políticas de conseguiremos dar conta dos
que movem esse sistema. nesse debate. Ciências Sociais, para começar morte, em que determinados conflitos e tensões sociais.
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PERNAMBUCO, AGOSTO 2018

ARTE SOBRE IMAGENS DE REPRODUÇÃO

Everardo
NORÕES
esnoroes@uol.com.br

Os sonidos
O pub está cheio. do velho carvalho, deve achar simpático o jeito de
Entre os músicos, um rapaz toca banjo. uma estrangeira solfejar aquele som. Mesmo se, a
Desde os tempos da jazz band da minha cidade de essa altura dos acontecimentos, para ele qualquer
interior, a Hildegardo e seu conjunto, nunca mais ouvi música deva parecer a mesma da véspera.

do interior do
alguém tirar aquele som meio ranzinza, evocando Quando ele diz “estocar na cabeça” dou-me
cheiro de curral misturado a barulho de chocalho. conta do quanto seu idioma é versátil e, ao mesmo
Mas é ele, este sonido, que faz a diferença, junto tempo simples e complicado. Tanto faz “estocar”
ao do violino e o da gaita de fole. Não a gaita con- música ou pensamento como garrafas de uísque

O’Donoghue’s
vencional, ar puxado à força dos pulmões. Aqui é num armário. A exemplo daquelas do Jameson na
o braço que movimenta o fole, atado a ele por um prateleira envidraçada, iguais às que durante anos
cinto pequeno, de couro. O mesmo gênero de fole a fio animaram a rapaziada ouvindo o The Dubliners.
da forja do ferreiro que temperou o aço dessa gente Porque aqui é o O’Donoghue’s, da Merrion Row, Du-
irlandesa, forçada a brigar contra a prepotência blin. Então, calculo que o homenzinho, pela idade
colonial e o agreste do lugar. A que engrossou as que tem, certamente “estocou” no juízo Whiskey
filas das migrações e rendeu tanto presidente de in the jar, a música amalucada do grupo que conta

De como a música nos república quanto mafiosos retratados em filmes


como Era uma vez na América.
a história do sujeito que assalta o capitão e leva a
grana para a mulher. Ela finda por trai-lo e ele,

leva às encruzilhadas
No intervalo da música, flutuando feito persona- desiludido, acaba se vingando no pote de uísque.
gem de quadro de Chagall, o homem ruivo, baixi-
nho e gordo, acerca-se sorrindo. Aponta a própria Fim do intervalo.
da memória e do afeto cabeça e exclama: Stocked in the head! É que a moça ao
lado cantarola o que havia escutado minutos antes.
A moça gordinha volta a cantar, ao mesmo
tempo que acaricia o violino. Tem voz de soprano
E ele, tomado pelo espírito do malte rendido aos pés e estilo camponês desse lugar frio e de manhãs
REPRODUÇÃO

DIVERSIDADE
Wellington O mercado editorial e as diferenças identitárias
de Melo
Editar é controlar o discurso. Xukuru do Ororubá: A luta não vai
Se a distribuição de editoras parar, lançado no Festival de
ao longo do país diz muito Inverno de Garanhuns. Mas
sobre a concentração desse o projeto, aparentemente,
discurso, é, por outro foi interrompido após a
lado, sintomático que não expulsão da colaboradora
se tenha notícia de uma branca que ensinava técnicas
editora totalmente indígena de encadernação artesanal.
no Brasil. Em 2016, houve É compreensível: anos de

MERCADO uma tentativa de criar uma


editora alternativa entre os
opressão e violência marcaram
a comunidade de uma

EDITORIAL índios Xucurus de Pesqueira,


Pernambuco. O escritor Bibi
forma que, mesmo as trocas
que talvez gerassem frutos
Xukuru (foto) publicou o livro benéficos são rechaçadas.
A Cepe - Companhia Editora de Pernambuco informa:

CRITÉRIOS PARA
RECEBIMENTO E APRECIAÇÃO
DE ORIGINAIS PELO
CONSELHO EDITORIAL
velhos querem mesmo é compartilhar o que restou
daqueles ventos pouco ortodoxos que inflaram as I Os originais de livros submetidos à Companhia
velas dos anos 1970. Editora de Pernambuco -Cepe, exceto aqueles que a
As músicas às vezes dão a sensação de ladainhas Diretoria considera projetos da própria Editora, são
de um catolicismo associado à rebeldia. Sentimento analisados pelo Conselho Editorial, que delibera a
de quando se é levado a algum descampado onde partir dos seguintes critérios:
o silêncio pede um aboio ou o gemido de sanfona
quando São João está perto. Só que, em vez do calor
sertanejo, aqui o vento trisca gelado e a língua tem 1. Contribuição relevante à cultura.
algo da rispidez desse banjo cujo dono foi embora
mais cedo, pois amanhã é segunda. 2. Sintonia com a linha editorial da Cepe,
Nos festivais é tradição as pessoas se juntarem que privilegia:
numa roda. Quem sabe tocar, traz o instrumento e
arrisca uns acordes. Pode ser o que for: concertina
– uma harmônica pequena de formato hexagonal –, a) A edição de obras inéditas, escritas ou
violino, tambor ou gaita. Tudo acontece como chama- traduzidas em português, com relevância
mento para uma confraternização sem motivo certo. cultural nos vários campos do
De repente, avisto um instrumento esquisito, famí- conhecimento, suscetíveis de serem
lia das cordas, formato diferente dos que frequentam apreciadas pelo leitor e que preencham os
as bandas do lugar. Faz figura de intruso.
seguintes requisitos: originalidade,
– E essa espécie de guitarra com jeito de alaúde
árabe? pergunto a Hans. adequação da linguagem, coerência
– Uma adaptação do bouzouki, utilizado na música e criatividade;
grega, explica.
Porque, mesmo por ser festa típica, ninguém b) A reedição de obras de qualquer gênero da
se incomoda com novidades estrangeiras. Quiçá
criação artística ou área do conhecimento
porque nada assusta essa gente de terras cercadas
de mar, onde o forasteiro é visto como alguém capaz científico, consideradas fundamentais para o
de trazer o inusitado ou alguma dose de alegria. patrimônio cultural;
Afinal, são as trocas dos povos das ilhas, as que
pariram mitos e criaram seus homeros, e onde a 3. O Conselho não acolhe teses ou dissertações
música é passaporte rompedor de fronteiras. É sem as modificações necessárias à edição e que
quando penso que em qualquer lugar do mundo
contemplem a ampliação do universo de leitores,
sempre há alguma coisa parecida com a aldeia
de onde saímos. Lembro de alguém ter chamado visando à democratização do conhecimento.
a atenção sobre a sobrevivência celta em alguns
brumosas. De noite, costuma se apresentar no pub. traços da cultura sertaneja. Trazidos, sabe-se lá, por II Atendidos tais critérios, o Conselho emitirá parecer
De dia, é guia na caserna que foi transformada em portugueses ou africanos ou mouros ou celtas ou... sobre o projeto analisado, que será comunicado ao
museu para lembrar o massacre dos irlandeses em Enquanto “estoco” essas coisas na cabeça, os
proponente, cabendo à diretoria da Cepe decidir
1916, ocorrido após a famosa Insurreição da Páscoa. músicos apressam o ritmo que mexe com nosso
No edifício foram confinados os revoltosos, homens desconcerto, a levantar o astral. Timbres com a sobre a publicação.
e mulheres, alguns do quais findaram no pelotão mesma espécie de vibração de outros mundos.
de fuzilamento. As paredes fazem a reportagem, Como as orquestras africanas de timbila, sem par- III Os textos devem ser entregues em duas vias, em
recheadas de fotos e informações sobre o episódio. titura, regidas por um apito. Dezenas de músicos papel A4, conforme a nova ortografia, em fonte
Os antigos aposentos militares reconstituídos ex- a percutirem marimbas de tamanhos variados, Times New Roman, tamanho 12, com espaço de
põem como era a rotina do quartel. E as amostras feitas de madeira e cascas de frutos, amarrados
uma linha e meia, sem rasuras e contendo, quando
de fichas policiais, anotadas e datilografadas, com com cordas de cipós, como se qualquer peça de
as devidas rubricas oficiais, comprovam o quanto metal pudesse ferir aqueles presentes da Natureza. for o caso, índices e bibliografias apresentados
a organização da morte, em tempos de opressão, é Saio do pub a dizer a mim mesmo o quanto pare- conforme as normas técnicas em vigor.
sempre mais bem feita do que a ordenação da vida. ce despropositado alguém pretender uma cultura
A exemplo dos arquivos do DOPS de São Paulo. “pura”, presa “às origens”, desprezando os afagos IV Serão rejeitados originais que atentem contra a
Agora, a moça está em plena função no bar. E das diferenças. Capaz de amaldiçoar o blues, porque
Declaração dos Direitos Humanos e fomentem a
Hans, o amigo suíço, festeja o regresso ao lugar nos chegou dos Estados Unidos. Esse mesmo blues
onde, anos antes, veio escutar sua banda favorita: que, um dia, também foi, por sua vez, contagiado violência e as diversas formas de preconceito.
The Dubliners. Sentados em bancos de madeira, nin- pelo sonido dessas terras de Joyce.
guém se importa com o desconforto. Nem mesmo E tão parecido com o blues que eu escutava na jazz V Os originais devem ser encaminhados à
quando a mulher de fala fanhosa bate com a bolsa band de minha cidade de interior, tão longe do mar, Presidência da Cepe, para o endereço indicado a
em nossas costas cada vez que se vira para o balcão tão perto dessa viagem ao interior do O’Donoghue’s, seguir, sob registro de correio ou protocolo,
ao lado pedindo outra dose. Porque aqui jovens e da Merrion Row.
acompanhados de correspondência do autor, na
qual informará seu currículo resumido e endereço
para contato.

VI Os originais apresentados para análise não


serão devolvidos.

PONTO DE VISTA CAMINHOS


Companhia Editora de Pernambuco
Sobre a invisibilidade "O mercado precisa deixar de ser só mercado" Presidência (originais para análise)
Rua Coelho Leite, 530 Santo Amaro
O argumento anterior revela A miragem estimulada no humana sobre a Terra, o CEP 50100-140
certa arrogância branca: o campo literário — e movida futuro da vida literária reside Recife - Pernambuco
fato de não termos notícia em grande parte pela vaidade na busca pelos microespaços,
de Bibi Xukuru não significa — é que a legitimação da a volta do encontro. Para
que ele não siga produzindo obra e do escritor se mede existir, o mercado precisa
nem publicando. Talvez Bibi pela presença nas gôndolas deixar de ser só mercado, ou
enfrente o mesmo problema das grandes livrarias, pela pelo menos fingir que não
de outros escritores e escritoras quantidade de resenhas, pelas é. Fiquei curioso por saber
que se autopublicam: a premiações, pela participação sobre Bibi Xukuru. Procurei
invisibilidade. Mas a medida em feiras, festas e afins. Sem a página dele no Facebook. Foi
da invisibilidade talvez só faça ingenuidade: isso ajuda a feita depois do lançamento SECRETARIA
DA CASA CIVIL
sentido pela régua do mercado pagar as contas e é bom que de seu livro e atualizada
literário tradicional, esse exista. Mas se a literatura recentemente. E lá estava:
senhor senil. aprofunda a experiência Bibi Xukuru, escritor.
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PERNAMBUCO, AGOSTO 2018

CAPA

Brasil, é assim que os


indígenas usam a voz
De como a retórica indígena A CONSTITUINTE E OS POVOS INDÍGENAS
Em outubro, a Constituição Federal do Brasil faz trinta
terras originárias demarcadas. E menos de 20 anos
depois, em novembro de 2015, seu território foi

atuou na criação da
anos. É um dos textos que mais duram em nossa afetado pela maior catástrofe ambiental da história
história. As Constituições mais perenes foram as brasileira: a destruição do rio Doce pela lama vinda
primeiras: a do Império, de 1824, que foi substituída de uma barragem da mineradora Samarco.
Constituição, há 30 anos pela primeira da República, em 1891. Esta durou até
1934, fechando 43 anos. As três décadas da brasileira
No meio da catástrofe contínua que afetava seu
povo, Ailton Krenak agiu como um dos principais
são pouco perto da que rege os Estados Unidos, em nomes das organizações de direitos indígenas surgi-
Pedro Mandagará vigor desde 1789, ou da longa história do constitu- das nos anos 1980, como a União das Nações Indí-
cionalismo inglês, que remonta à Magna Carta (1215), genas. Durante a Assembleia Nacional Constituinte,
mas ainda assim representam um período precioso duas emendas populares referentes aos direitos indí-
em nossa história. genas foram protocoladas. A emenda 39, defendida
A duração da Constituição de 1988, no entanto, pela Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e outras
não necessariamente representa sua estabilidade. instituições, definia o Brasil como uma “República
Há um constante ataque, intensificado nos últimos Federativa e plurinacional” (Emendas populares, p. 36),
anos, contra as diversas garantias de direitos nela o que, mesmo sendo a verdade dos fatos, revelou-se
estabelecidas. Sobre a gratuidade do ensino, por inaceitável para muitos constituintes nacionalistas.
exemplo, costuma cair parte da culpa pelas crises O resultado mais imediato foi uma campanha difa-
fiscais do Governo Federal, ao menos na leitura de matória contra o Cimi levada a cabo pela imprensa,
economistas ortodoxos. Outros princípios, como a notadamente pelo jornal O Estado de S. Paulo (Brand,
função social da propriedade, sofrem ataques de 2008; Ricardo et alii, 1991, p. 48-50). Embora rapi-
setores sociais ligados ao agronegócio e de filósofos damente se tenha demonstrado que os documen-
neoconservadores, como Denis Rosenfield. Como tos contra o Cimi eram forjados, houve o risco de
forma de ataque indireto, a diminuição brutal de retrocesso a uma visão integracionista dos povos
financiamento torna praticamente letra morta os indígenas. Foi nesse contexto que Ailton Krenak
direitos à cultura e ao desporto. discursou na Constituinte a favor de outra proposta, a
Parte dessa instabilidade parece vir do processo emenda 40, defendida pela Associação Brasileira de
político de construção do texto constitucional, nego- Antropologia (ABA), pela Coordenação Nacional dos
ciado sob forte pressão social. Foi somente o acúmulo Geólogos (Conage) e pela Sociedade Brasileira para
de anos de pressão política dos povos indígenas e seus o Progresso da Ciência (SBPC). A emenda 40 definia
colaboradores que permitiram que os artigos 231 e a sociedade brasileira como pluriétnica (Emendas,
232 da Constituição fossem dos mais avançados, até p. 37), o que não chegou ao texto constitucional, e
hoje, no que diz respeito aos direitos dessa população. defendia o direito à organização social e à ocupação
Naquele momento, os povos indígenas vinham de tradicional de terras, o que efetivamente entrou na
duas décadas de ataques incessantes, que pareciam Constituição. Naquele momento a emenda 40 e os
acelerar o processo genocida que acompanhou toda a direitos propostos para os povos indígenas estavam
formação do Brasil. Os projetos de desenvolvimento sob ataque midiático e político, e o discurso de Ailton
dos governos militares para a Amazônia atingiram Krenak interveio nessa discussão de forma contun-
diversos povos de recente contato ou ainda isolados, dente (Ricardo et alii, 1991, p. 23).
completamente despreparados para a introdução de
novas doenças, para o mundo do dinheiro e da mer- AILTON KRENAK E A RETÓRICA
cadoria, ou para o confronto com armas de fogo.1 O Os antigos gregos e latinos definiam quatro partes da
caso dos yanomami, visados por conta dos minérios retórica, isto é, da arte de argumentar e convencer.2
presentes em suas terras, foi bastante emblemático. A primeira parte era a invenção, a atividade de des-
A irresponsabilidade governamental entre o final dos cobrir argumentos para a defesa ou acusação num
anos 1970 e o início dos 1990 gerou uma corrida do processo judicial (gênero judiciário), para a defesa de
ouro no que é hoje a Terra Indígena Yanomami, com a determinada decisão política (gênero deliberativo) ou
presença de dezenas de milhares de garimpeiros que para o elogio ou censura de alguém ou de algo (gênero
levaram doenças e armas à região, causando a morte epidítico). Com esses fins em mente – defender ou
de cerca de 20% da população yanomami (segundo acusar, aconselhar, elogiar ou censurar – o orador
dados da ONG Survival International). podia escolher argumentos dentro de uma técnica
No processo de luta e resistência a partir dos anos bastante elaborada. Seria necessário utilizar argumen-
1970 forjou-se o atual movimento indígena brasileiro. tos dentro de três tipos, definidos já por Aristóteles em
Um dos seus maiores líderes é Ailton Krenak. Nascido sua retórica: ethos, ou o caráter que o orador assume,
em 1953, Ailton vem de uma história de violência pathos, ou os sentimentos que se quer ter como res-
secular contra os “botocudos”, como eram chamados posta da plateia, e logos, ou os argumentos que tentam
os povos indígenas da região do Rio Doce e proximi- provar ou refutar determinadas teses.
dades, em Minas Gerais, Espírito Santo e sul da Bahia. A disposição, segunda parte da retórica, trata da
Os botocudos do leste acabaram por se denominar ordenação do discurso. Há diversas versões dessa
Krenak, nome de um de seus líderes no início do ordem. A mais clássica, segundo Reboul (2004, p. 55)
século XX, a partir da autodenominação krén, gente tem quatro segmentos: o exórdio ou o proêmio, que
(Paraíso, 2018). O povo sofreu um processo contínuo inicia o discurso e deve captar a atenção e benevolên-
de ataques e deslocamentos ao longo do século XX, cia da audiência; a narração, que conta uma versão
incluindo deslocamentos forçados e a internação de dos fatos de que se está tratando; a confirmação, que
membros da etnia no Reformatório Krenak e na Fa- traz provas, argumentos e contra-argumentos; e a
zenda Guarani, instituições prisionais para indígenas peroração, que encerra o discurso.
na ditadura militar que funcionavam como campos A elocução, terceira parte da retórica, trata do
de concentração e trabalhos forçados. Somente em estilo que se utiliza – é aí que se dá o estudo das
1997 os Krenak tiveram uma parte mínima de suas figuras de linguagem, a que às vezes se reduz toda
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HANA LUZIA E MARIA JÚLIA MOREIRA


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PERNAMBUCO, AGOSTO 2018

CAPA

HANA LUZIA E MARIA JÚLIA MOREIRA

a retórica. Por fim, a ação trata da performance do


discurso, do corpo e da voz do orador como parte
do processo argumentativo.
A partir desse breve resumo de alguns elemen-
tos da arte milenar da retórica, mostro agora como
Ailton Krenak mobiliza essa arte em seu discurso.
Proferido em 4 de setembro de 1987, o discurso res-
ponde de maneira mais imediata ao substitutivo do
relator Bernardo Cabral (PMDB-AM) ao anteprojeto
de Constituição, que, ao sistematizar as propostas
de oito diferentes comissões temáticas, modificou
e desfigurou as propostas relativas aos direitos in-
dígenas (Ricardo et alii, p. 18-19). Enquanto orador,
Ailton Krenak encarna a postura de um defensor.
Mesmo que o discurso fosse do gênero deliberativo,
pois se tratava de uma discussão política, pode-se ver
elementos do gênero judiciário, pois Ailton defendia
os povos indígenas e seus aliados de ataques e acu-
sações. O exórdio do discurso é exemplar. Reproduzo:

Sr. presidente, srs. constituintes, eu, com a res-


ponsabilidade de, nesta ocasião, fazer a defesa
de uma proposta das populações indígenas à As-
sembleia Nacional Constituinte, havia decidido,
inicialmente, não fazer uso da palavra, mas de
utilizar parte do tempo que me é garantido para
defesa de nossa proposta numa manifestação de
cultura com o significado de indignação – e que
pode expressar também luto – pelas insistentes
agressões que o povo indígena tem indiretamente
sofrido pela falsa polêmica que se estabeleceu em
torno dos direitos fundamentais do povo indígena
e que, embora não estejam sendo colocados di-
retamente contra o povo indígena, visam atingir
gravemente os direitos fundamentais de nosso
povo. (Krenak, p. 32)3

Nesta primeira frase do discurso, vemos ethos ou


caráter e pathos ou sentimento sendo definidos de
maneira muito clara e efetiva pelo orador. O caráter
do orador se define como representante legítimo
dos povos indígenas. Se o orador é um “eu” que
tem certa responsabilidade, também é parte de um
“nosso povo”, com que se encerra o parágrafo – e a
passagem de um a outro, de começar com um eu e
terminar com um nós, constrói a confiabilidade do
orador enquanto representante. O caráter do orador
também se define pelo sentimento, por estar indig-
nado ou em luto. É este o pathos – a indignação – que
se pretende transmitir à audiência.
Em seguida ao exórdio, o orador narra a participação
indígena nos debates da Subcomissão dos Negros,
Populações Indígenas, Pessoas Deficientes e Minorias
da Assembleia Nacional Constituinte. Ele elogia a
“reciprocidade de muitos dos srs. constituintes” à
seriedade com que indígenas e aliados trabalharam,
permitindo “a construção, a elaboração de um texto
que provavelmente tenha sido o mais avançado que
este país já produziu com relação aos direitos do povo
indígena” (p. 33). E elenca, e discute, os direitos es-
senciais garantidos pelo texto – os direitos originários
às terras e o reconhecimento da cultura e da tradição.
Ao discutir os direitos essenciais, traz argumen-
tos pela justiça de sua inclusão no texto constitu-
cional (confirmação):

Assegurar para as populações indígenas o re-


conhecimento aos seus direitos originários às
terras em que habitam – e atentem bem para o
que digo: não estamos reivindicando nem re-
clamando qualquer parte de nada que não nos
cabe legitimamente e de que não esteja sob os
pés do povo indígena, sob o habitat, nas áreas
de ocupação cultural, histórica e tradicional do
povo indígena. Assegurar isto, reconhecer às po-
pulações indígenas as suas formas de manifestar
a sua cultura, a sua tradição, se colocam como
condições fundamentais para que o povo indígena
estabeleça relações harmoniosas com a sociedade
nacional, para que haja realmente uma perspectiva
de futuro de vida para o povo indígena, e não de
uma ameaça permanente e incessante. (p. 33)

Ambos os elementos, território e cultura, haviam


sido desfigurados e restritos pelo substitutivo de Ber-
nardo Cabral. Na proposta deste, só haveria direito
originário às “terras de posse imemorial onde [os
indígenas] se acham permanentemente localizados”
(Ricardo et alii, p. 18, Primeiro substitutivo, p. 47, acrés-
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Na Constituinte, lata, a tinta pastosa que passa em todo o rosto, sem


deixar sequer uma gota cair em seu terno branco e
sem nunca interromper o discurso. A manifestação

Ailton Krenak de indignação e luto, anunciada no início, acontece


ao mesmo tempo da fala – apesar da preterição, nada
foi preterido e ambas ocorrem, potencializando-se

transformou mutuamente. Além da função emotiva evidente, de


catalisar ethos (caráter) e pathos (sentimento) numa

pensamento em
única ação ritual, a pintura serve uma função argu-
mentativa, demonstrando, pelo exemplo, o tipo de
relação com a sociedade nacional que as culturas

ação ao pintar
indígenas podem trazer.
O processo de pintura termina junto com o discurso.
Numa das últimas frases, há uma figura de linguagem,

o rosto durante uma metáfora, que amplifica o alcance da argumen-


tação anterior e da manifestação concomitante:

seu discurso Hoje somos alvo de uma agressão que pretende


atingir, na essência, a nossa fé, a nossa confiança.
Ainda existe dignidade, ainda é possível construir
cimo meu), o que restringe o alcance da definição e uma sociedade que saiba respeitar os mais fracos,
desconsidera o histórico de deslocamentos forçados que saiba respeitar aqueles que não têm dinheiro,
de diversos povos. Contra esta definição, Krenak mas mesmo assim, mantêm uma campanha inces-
defende a complexidade do pertencimento ao terri- sante de difamação. Um povo que sempre viveu à
tório, que depende de elementos de cultura, história revelia de todas as riquezas, um povo que habita
e tradição, e defende que o direito não é só relativo casas cobertas de palha, que dorme em esteiras
ao tradicional ou “imemorial”, mas ao efetivamente no chão, não deve ser de forma nenhuma contra
habitado por conta de circunstâncias históricas. os interesses do Brasil ou que coloca em risco
Também o reconhecimento da cultura indígena qualquer desenvolvimento. O povo indígena tem
havia sido desfigurado no substitutivo de Cabral, que regado com sangue cada hectare dos oito milhões
definia “níveis de aculturação” e a limitação de direitos de quilômetros quadrados do Brasil. V. Exas. são
para indígenas supostamente aculturados.4 Contra isso, testemunhas disso (p. 35).
Krenak diz que há formas, no plural, de se manifestar
as culturas indígenas e que estas devem ser reconhe- Neste trecho final da peroração, o orador constrói
cidas. As “relações harmoniosas com a sociedade uma imagem do povo indígena: são os mais fracos,
nacional” são atingidas não com a assimilação ou são pobres, vivem em condições precárias, e por
“aculturação”, mas com o respeito às diversas culturas. isso mesmo não representam perigo aos interesses
No que diz respeito à elocução, o discurso de Ailton nacionais e ao desenvolvimento. Pelo contrário, foi
Krenak utiliza diversas figuras de linguagem e de sobre este povo que se construiu a Nação. O sangue
pensamento. Mais do que enumerá-las, proponho dos povos indígenas acompanhou cada momento
seguir duas dessas figuras, que amarram o texto – do incessante processo de expansão territorial que
uma no exórdio, outra ao fim da peroração – e que forjou o Brasil. O sangue, o que quer dizer, o sangue
dão sentido a sua performance, sua ação. que se derramou, a morte dos indígenas, ainda fo-
No início do texto, o orador utiliza uma figura de menta – tem regado – a expansão territorial e eco-
pensamento que a tradição retórica chama de preterição nômica - “regar” e “hectare” são termos utilizados
(Reboul, p. 134). Esta figura consiste em dizer que não na agricultura. A metáfora, “regar com sangue”,
se vai falar de algo, de que imediatamente já se fala. sintetiza a indignação e o luto propostos como pathos
Assim, Ailton Krenak diz que havia decidido não usar para o discurso.
seu tempo com a fala, mas com uma manifestação
cultural de indignação e luto – apesar disso, mesmo CORPO E ORATÓRIA
assim, fala. Seu argumento posterior em prol da diver- O corpo fazia parte da retórica antiga. A parte da
sidade de manifestações culturais indígenas e do valor ação sempre estava presente e era, afinal, essencial
dessa diversidade para a “sociedade nacional” faz ver para o sucesso dos discursos, especialmente dos
que o efeito desta preterição não se encerra no exórdio judiciários e deliberativos.
e que sua temática continua ao longo do discurso. No entanto, foram justamente esses gêneros que
A parte verdadeiramente genial, que tornou o perderam importância depois de certo momen-
discurso de Ailton Krenak um dos momentos mais to. Com a passagem da República para o Império
memoráveis da Constituinte, é quando a figura de Romano, o discurso deliberativo foi perdendo aos
pensamento se torna ação. Para refletir sobre este poucos a importância, pois, cada vez mais, a de-
momento vou fazer referência à gravação em vídeo liberação era centralizada em torno do Imperador.
de parte do discurso.5 Com a queda do Império Romano do Ocidente (476
O vídeo mostra Ailton Krenak discursando de pé, d. C.), foi a vez do discurso judiciário se extinguir,
com uma voz pausada e firme, sem ler de qualquer pois não havia mais o sistema jurídico romano. A
papel visível. A complexidade do discurso afasta a retórica sobreviveu no gênero epidítico (de elogio,
probabilidade de improviso, o que nos deixa diante principalmente dos governantes) e em exercícios
do uso de uma excelente memória, faculdade pri- escolares. Neste processo, a retórica se tornou cada
mordial da ação segundo os antigos retóricos. Ailton vez mais texto e menos performance. A parte da ação
tem cabelos um tanto compridos e usa um terno foi perdendo espaço nos manuais e a retórica per-
impecavelmente branco: deu corpo. Em certo momento, acabou se tornando
mais um instrumento analítico, de identificação de
Os srs. sabem, V. Exas. sabem que o povo indí- argumentos e figuras, do que uma arte.
gena está muito distante de poder influenciar a Em outros povos fora da Europa, no entanto, as
maneira que estão sugerindo os destinos do Brasil. artes do falar continuavam, e continuam, sendo
Pelo contrário. Somos talvez a parcela mais frágil artes corporais. O antropólogo Pierre Clastres, em
nesse processo de luta de interesse que se tem texto clássico publicado no seu A sociedade contra o
manifestado extremamente brutal, extremamente Estado, define assim o papel da oratória na chefia
desrespeitosa, extremamente aética. indígena: “[…] o talento oratório é uma condição e
Espero não agredir, com a minha manifestação, o também um meio do poder político. Numerosas são
protocolo desta Casa. Mas acredito que os srs. não as tribos onde o chefe deve todos os dias, na aurora
poderão ficar omissos. Os srs. não terão como ficar ou no crepúsculo, recompensar com um discurso
alheios a mais esta agressão movida pelo poder edificante as pessoas do seu grupo […]” (2003, p.
econômico, pela ganância, pela ignorância do 49). Para os grandes homens yanomami, geralmente
que significa ser um povo indígena. (O sr. Krenak os sogros de uma unidade familiar, são os discur-
inicia processo de caracterização – pintura facial.) sos hereamuu que têm esta função. Proferidos antes
(Krenak, p. 34) do amanhecer ou no início da noite, são “longos
discursos” em que se incentiva a gente a “caçar e
Enquanto continua o discurso, no mesmo tom fir- trabalhar em suas roças” e se evocam “o primeiro
me e pausado, Ailton Krenak passa a pintar seu rosto tempo dos ancestrais tornados animais” (Kopenawa
de preto, retirando, com os dedos, de uma pequena e Albert, 2015: p. 376).
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CAPA

Como na
Constituinte, hoje
os corpos indígenas
ainda combatem os
avanços etnocidas
e criam retóricas
de resistência
A competência em um discurso hereamuu é definida
pelo xamã yanomami Davi Kopenawa em termos
corporais. É a imagem do gavião kãokãoma que se ins-
tala no peito dos oradores e indica à garganta destes
como falar bem. Faz, ainda, sua língua ficar firme.
(p. 381) A boa oratória, dentro do discurso hereamuu,
é falar bem, função da garganta, e ter a língua firme.
São funções corporais, que fazem a voz voltar ao seu
momento, físico, de execução.
Para Pierre Clastres, a lei nas sociedades amerín-
dias se inscreve no corpo e não no papel (2003, p.
203-204). Os diálogos hereamuu dos yanomami, voz
que vem do corpo transformado por um espírito, são
uma parte da lei da comunidade. Eles dependem de
se ter a língua firme e uma boa garganta, e de se ter
um espírito por dentro.

HERMENÊUTICA E RETÓRICA
Se a Idade Média não teve retórica digna de nome,
ela nos legou a hermenêutica, a partir da prática de
interpretar o texto bíblico. A técnica hermenêuti-
ca medieval buscava ampliar o texto bíblico para
além de sua literalidade, englobando o movimento
histórico como prefigurado pelo plano do criador.
A interpretação alegórica ou alegoria dos teólogos
(Hansen, 2006) se tornou uma forma de expandir o
texto bíblico para novos domínios. No Renascimento
e em séculos posteriores a técnica interpretativa se
uniu às antigas técnicas da retórica. Um momento
particularmente exemplar dessa união é a obra do
padre Antonio Vieira, que, ao fazer oratória epidítica
(ou proselitista), interpretava o mundo a partir de
trechos da Bíblia e interpretava a Bíblia a partir do que
acontecia no mundo. trazem votos escritos previamente, que usualmente de aldeias, inclusive mediante o recrutamento de
Mesmo ao utilizar as técnicas da retórica, a her- não são modificados pela atuação oratória de advo- índios de outras regiões do Brasil, quando não de
menêutica ou interpretação depende de um ponto gados e promotores, e que são lidos ou resumidos em outros países vizinhos, sob o único propósito de
fixo, muito mais fixo que a oratória viva, corporal, é plenário. Nesta lógica, a oratória perde sua função artificializar a expansão dos lindes da demarcação;
capaz de dar. A interpretação depende de um texto, de convencimento – todos já têm sua convicção b) a violência da expulsão de índios para descarac-
que servirá de referência ao jogo de analogias e as- pronta e escrita – e se torna parte acessória do rito. terizar a tradicionalidade da posse das suas terras,
sociações próprias da hermenêutica. É nas lacunas É a atividade hermenêutica, a interpretação dos à data da vigente Constituição. Numa palavra, o
e sobras do texto, nas elipses, ambiguidades e so- autos e da Constituição, que ocupa o lugar central. entrar em vigor da nova Lei Fundamental Brasi-
breposições que a interpretação encontra sua maior Tenho como tese que isso cobra seu preço, algu- leira é a chapa radiográfica da questão indígena nesse
potencialidade. É também aí que a interpretação se mas vezes caro. Creio ser o caso no julgamento da delicado tema da ocupação das terras a demarcar
encontra com a política ou com o que se costuma demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, pela União para a posse permanente e usufruto
chamar de ideologia. em Roraima, que teve parecer favorável do relator, exclusivo dessa ou daquela etnia aborígene. (Ayres
O lugar maior da hermenêutica, nas culturas na- ministro Carlos Ayres Britto, em 2008. Neste voto, Britto, p. 55-56)
cionais contemporâneas, é ocupado pelas cortes Ayres Britto introduziu a seguinte interpretação dos
constitucionais dos sistemas judiciários. No momen- dispositivos constitucionais sobre as terras indígenas. Nesse argumento, Ayres Britto trabalha a partir
to em que escrevo, em julho de 2018, o mundo inteiro Reproduzo parcialmente o texto: das lacunas do texto constitucional. Não há, de
aguarda em suspenso a indicação pelo presidente fato, referências temporais no texto constitucional,
Donald Trump, dos Estados Unidos, do novo juiz da I – o marco temporal da ocupação. Aqui, é preciso ver exceto o prazo de cinco anos para a demarcação
Suprema Corte norte-americana, que, possivelmen- que a nossa Lei Maior trabalhou com data certa: a das terras indígenas, constante das Disposições
te, selará um novo entendimento conservador sobre data da promulgação dela própria (5 de outubro Transitórias, e que não foi cumprido. Todo o ar-
a Constituição norte-americana, com a possibilidade de 1988) como insubstituível referencial para o gumento de Ayres Britto se sustenta no tempo
de durar décadas. A rigor, este futuro juiz e seus reconhecimento, aos índios, “dos direitos sobre as verbal utilizado no artigo 231 da Constituição:
oito pares decidirão sobre a interpretação de um terras que tradicionalmente ocupam”. Terras que são reconhecidos “os direitos originários sobre as
documento de sete artigos e vinte e sete emendas – tradicionalmente ocupam, atente-se, e não aquelas terras que tradicionalmente ocupam”. Deste uso do
pouquíssimas páginas. No entanto, a interpretação, que venham a ocupar. Tampouco as terras já ocu- presente, o ministro conclui que os direitos valem
o que quer dizer, a atividade de preencher as lacunas padas em outras épocas, mas sem continuidade para o presente da assinatura do documento, em 5
desse documento, decide grande parte da política suficiente para alcançar o marco objetivo do dia de outubro de 1988. A partir da utilização do verbo,
dos Estados Unidos e do mundo. 5 de outubro de 1988. Marco objetivo que reflete o ministro conclui que há um “decidido propósito
Embora a Constituição de 1988 seja muito mais o decidido propósito constitucional de colocar constitucional” de encerrar as discussões sobre
analítica e mais longa que a norte-americana, ainda uma pá de cal nas intermináveis discussões sobre a referência temporal para a ocupação de terra
assim há muito o que ser decidido em nosso Supremo qualquer outra referência temporal de ocupação de indígena. Sem ser jurista – mas entendendo um
Tribunal Federal, como podemos ver todos os dias área indígena. Mesmo que essa referência estivesse pouquinho de linguagem e um pouquinho de ide-
em tempos de protagonismo judiciário. Muito longe grafada em Constituição anterior. É exprimir: a data ologia – me parece que, se esse fosse o “decidido
da atividade corporal e vocálica da retórica antiga e de verificação do fato em si da ocupação fundiária é o dia 5 de propósito” dos constituintes de uma Constituição
da oratória indígena, as decisões da suprema corte outubro de 1988, e nenhum outro. Com o que se evita, a tão detalhada, ele estaria expresso por mais que
brasileira se dão em julgamentos em que os ministros um só tempo: a) a fraude da subitânea proliferação um tempo verbal.
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HANA LUZIA E MARIA JÚLIA MOREIRA

Mesmo se aceitando o tempo verbal, porém, o resistência que fazem frente ao avanço constante Ricardo, Carlos A. (coord. e ed.) et alii. Povos indígenas
argumento do ministro é frágil. Nos parágrafos do de forças anti-indígenas. no Brasil 1987 / 88 / 89 / 90. São Paulo: Centro Ecumênico
artigo 231 fala-se em “terras tradicionalmente ocu- de Divulgação e Informação, 1991. Disponível em https://
padas”, o que fragiliza enormemente ao menos parte Referências pib.socioambiental.org/pt/Downloads
de sua tese – de que terras ocupadas anteriormente Ayres Britto, Carlos. Relatório (voto sobre a demarcação Survival International. Os Yanomami. Disponível em
por indígenas, mas não ocupadas quando da “chapa da TI Raposa Serra do Sol). 2008. Disponível em http:// https://www.survivalbrasil.org/povos/yanomami/invasores
radiográfica” de 5 de outubro de 1988, não seriam www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/pe-
cobertas pela Constituição. t3388CB.pdf Notas
Além disso, a menção ao mito da “fraude da su- Brand, Antônio. Os direitos indígenas 20 anos após a 1. O livro Os fuzis e as flechas: História de sangue e resis-
bitânea proliferação de aldeias” soa como crueldade Constituição de 1988. In: Seminário Constituição 20 Anos: tência indígenas na ditadura, de Rubens Valente (2017),
para qualquer pessoa familiarizada com o assunto. Estado, democracia e participação popular, 27 e 28 nov. narra esse processo incluindo as histórias de vários povos
Recomendo, como vacina, estudar um pouco a situ- 2008, Brasília. Caderno de textos. Brasília, DF: Câmara dos de todo o país.
ação dos Guarani-Kaiowá, que estão desde o século Deputados, Comissão de Legislação Participativa. 2008. 2. Há diversas boas apresentações da retórica clássica.
XIX sendo expulsos de terra após terra.6 Clastres, Pierre. A sociedade contra o Estado. São Paulo: Aqui utilizo a Introdução à retórica, de Olivier Reboul
Este argumento frágil, mas plausível porque an- Cosac & Naify, 2003. (2004), bastante acessível. Dos textos originais, a Retórica,
corado na gramática, teve efeitos deletérios nos dez Emendas populares. Assembleia Nacional Constituinte, de Aristóteles, foi o primeiro a sistematizar o campo. As
anos subsequentes. Uma parte dos ministros passou v. 258. Centro Gráfico do Senado Federal, 1988. Disponível Instituições Oratórias, do latino Quintiliano, são particu-
a ancorar suas decisões na tese do “marco temporal”, em http://www.camara.gov.br/internet/constituicao20anos/ larmente importantes por apresentarem a versão mais
o que resultou na anulação de algumas demarcações DocumentosAvulsos/vol-258.pdf detalhada que conheço da retórica antiga.
– o que quer dizer, na continuidade da opressão das Hansen, João Adolfo. Alegoria: construção e interpre- 3. As citações do discurso de Ailton Krenak são do volume
populações que vivem nestes territórios. Resultou, tação da metáfora. Hedra, 2006. Encontros Ailton Krenak (2015). O discurso também pode
ainda, em uma série de decisões anti-indígenas Kopenawa, David, e Albert, Bruce. A queda do céu: ser acessado online, no fac-símile do Diário da Assem-
em outras instâncias do Judiciário. E continua em Palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia bleia Nacional Constituinte: http://www2.camara.leg.br/
discussão, projetando sua sombra sobre todas as das Letras, 2015. atividade-legislativa/legislacao/Constituicoes_Brasileiras/
terras indígenas que os interessados econômicos Krenak, Ailton; Cohn, Sergio (org). Encontros Ailton constituicao-cidada/o-processo-constituinte/comissao-de-
não querem que sejam demarcadas. Krenak. Rio de Janeiro: Azougue, 2015. -sistematizacao/COMSist23ext27011988.pdf (p. 572-573).
Como na Constituinte, são os corpos que se inter- Paraiso, Maria Hilda Baqueiro. Krenak (verbete). En- Há, ainda, gravações em vídeo disponíveis no YouTube.
põem à realização dos desejos etnocidas. Os corpos ciclopédia Povos Indígenas no Brasil, Instituto Socioam- 4. “Art. 305 - Os direitos previstos neste capítulo não se
de milhares de indígenas que se reúnem todo ano biental. Disponível em https://pib.socioambiental.org/ aplicam aos índios com elevado estágio de aculturação,
no Acampamento Terra Livre em Brasília, que blo- pt/Povo:Krenak que mantenham uma convivência constante com a so-
queiam estradas em protesto, que retomam terras Primeiro substitutivo do relator (Projeto de Constituição). ciedade nacional e que não habitem terras indígenas.”
das quais haviam sido expulsos, que ocupam es- Centro Gráfico do Senado Federal, 1987. Disponível em (Primeiro substitutivo, p. 47) O Segundo substitutivo do
paços na universidade mesmo sem financiamento http://www.camara.gov.br/internet/constituicao20anos/ relator manteve este artigo.
adequado, que produzem arte, que fazem literatura, DocumentosAvulsos/vol-235.pdf 5. Disponível em https://youtu.be/TYICwl6HAKQ
que projetam suas vozes via redes sociais. Como na Reboul, Olivier. Introdução à retórica. São Paulo: Mar- 6. O documentário Martírio, de Vincent Carelli (2016), é
Constituinte, esses corpos organizam retóricas de tins Fontes, 2004. particularmente interessante para essa discussão.
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PERNAMBUCO, AGOSTO 2018

CAPA

Somos aqueles Qual a ideia que passa em nossa cabeça quando


ouvimos a palavra “índio”1 ser pronunciada? Será
que ela nos remete a seres que vivem na selva, an-

por quem
dam nus, descalços, pintados, enfeitados, portando
arcos e flechas, sentados ao redor de uma fogueira
assando um bom naco de carne, olhares atentos aos
perigos da floresta e com rostos deformados, mas que
vivem em harmonia, seja com a natureza, seja com

esperamos
as outras pessoas de sua “tribo”, não sofrem com a
poluição ou com o stress ocasionado pela correria
insana da vida urbana?
Se essas ideias perpassam sua cabeça quando a
palavra é dita não precisa se preocupar porque você
Breve e didático apanhado faz parte de uma grande parcela da população bra-
sileira que foi (des)educada pelo sistema de ensino

histórico sobre questões que lhe incutiu uma ideia romantizada dos indígenas
brasileiros. Romantizada? Como assim? Já explico.

que envolvem os indígenas


Historicamente, os brasileiros aprendem que os
“índios” são seres que estavam presentes nessa terra
quando os colonizadores chegaram e os encontra-
ram aqui. Os consideraram inferiores e trataram de
Daniel Munduruku impor para eles uma nova forma de vida baseada
no trabalho, na servidão religiosa e na submissão
política. Para serem gente de verdade teriam que
ser colonizados. Eles não eram muito afeitos ao
trabalho e por isso foram logo substituídos pelos
negros escravizados na África e trazidos para cá
para substituir os selvagens.
Nosso aprendizado quase sempre para por aí. Os
“índios” praticamente deixam de existir na narrativa
histórica que os deixa presos ao passado brasileiro.
Essas narrativas foram sendo engrossadas pela lite-
ratura, fazendo vir à tona o “bom selvagem” – uma
ideia corroborada pela filosofia que foi alimentando
nosso modo de ver essas populações. José de Alencar
foi o principal representante da disseminação da
imagem de um nativo nobre, honesto, ético, pom-
poso, orgulhoso de suas origens e capaz de atitudes
corajosas. Eram, em última análise, quase um civili-
zado, quase um europeu. Nessa descrição não entrava
nada da humanidade real dos povos retratados, nos
restando aceitar que eles eram exatamente aquilo que
a literatura nos apresentava. Assim nasceu para nós
um “índio” sem história, genérico, sem humanidade,
um simulacro, um estereótipo que ficou preso aos
livros didáticos e que nos foi sendo apresentados
como algo da história do passado brasileiro. Infe-
lizmente ainda hoje é assim. Estas representações
continuam sendo revividas nas salas de aula sempre
que é comemorado o dia 19 de abril, o dia do “índio”.
A pergunta que não quer calar é a mesma: que “ín-
dio” é esse que se comemora? Aquele que está no
nosso imaginário: subalterno, selvagem e patético.
Nem tudo, porém, acaba por aí. Há outra visão
ainda mais preocupante que esta do bom selvagem,
romântica. Se fosse só essa tudo seria resolvido por
uma boa escola. Há outra visão dissonante que paira DIREITO PARA CHAMAR DE MEU
sobre nós e que reforça o desprezo que aprendemos Foi assim durante quase 500 anos. A estratégia do
a ter desses povos. Quem nunca ouviu afirmações Estado brasileiro era desqualificar a existência dos
do tipo: “índio” é preguiçoso, selvagem, atrasado, povos indígenas. Suas políticas para eles eram quase
viciado, encrenqueiro, atrapalha o progresso e o sempre de extermínio, perseguição, escravização ou
desenvolvimento? Quem nunca ouviu alguém dizer integração à sociedade nacional. Essas políticas con-
que o “índio” tem muita terra e não sabe o que fazer seguiram reduzir drasticamente a população nativa
com ela porque é incompetente? E que a terra tem que era, em 1500, quase 2 milhões de pessoas, para
que ser dada para quem dela tira riquezas? Que a um pouco menos de 100 mil pessoas na década de
terra que não for cultivada coloca o Brasil em des- 1970, período em que estudiosos vaticinavam que
compasso com o resto do mundo? os indígenas não chegariam ao século XXI. Acon-
Sei que já ouviram dizer essas coisas. Alguns dizem teceu, no entanto, uma reviravolta que colocou essa
abertamente e outros de forma velada, mas o fato é visão niilista em cheque: os indígenas começaram
que essas duas ideias – a romantizada e a ideologi- a se organizar.
zada – estão presentes em nosso imaginário. Como Até os anos de 1970, as populações indígenas eram
dito antes, uma é trazida pela escola e a outra pela invisíveis para a sociedade brasileira. Viviam dentro
mídia. Uma nos ensina a olhar para o passado e a de suas reservas, caso não tivessem muito contato
deixar lá a existência desses povos e a outra nos diz com os “brancos”, ou estavam sendo obrigados a
que o presente não comporta gente que não entenda frequentar a escola para aprender as “coisas dos
de economia ambiental. Essas duas visões moram brancos” e se tornarem “civilizados”. O caminho
dentro da gente. Quase nunca nos damos conta disso. estava dado e nada poderia interferir nessa lógica
A não ser, claro, quando olhamos para a realidade que culminaria no desaparecimento total dos in-
e nos deparamos com indígenas frequentando a dígenas e os deixariam presentes apenas nos livros
universidade, escrevendo livros, ganhando prêmios escolares. Acontece que houve um movimento da
culturais na música, teatro ou cinema. Quando nota- Igreja Católica no sentido de reunir lideranças para
mos que os “bons selvagens” já ocupam um espaço grandes assembleias. Chefes tradicionais que não
na sociedade brasileira. Nessa hora deixamos mais se conheciam passaram a perceber que seus pro-
uma vez a ideologia tomar conta da gente. Sabe o blemas eram semelhantes e que a solução poderia
que dizemos? Se o cara já está na universidade ou ser a mesma caso fizessem pressão sobre o governo
participando da sociedade como um todo ele não brasileiro. Esse foi o embrião para o surgimento do
pode mais ser “índio de verdade”, já está civilizado, que viria a ser o movimento indígena brasileiro,
é um de nós. Por que “índio de verdade” é aquele entidade que se efetivou nos fins dos anos 1970
que mora no nosso imaginário. Entendeu? e cresceu durante os anos de 1980 e que teve sua
19
PERNAMBUCO, AGOSTO 2018

HANA LUZIA E MARIA JÚLIA MOREIRA

expressão máxima com a aprovação dos capítulos


231 e 232 da Constituição brasileira.
Se até a Constituição de 1988 os indígenas estavam
“Os direitos o Estado não se mobilizou para efetivar o direito, parte
por conta dos interesses transnacionais nas riquezas
que estas terras guardam. Este é um capítulo à parte
fadados ao desaparecimento, a partir daí ganharam
uma sobrevida em forma de Direitos Constitucionais.
Foi assim que o movimento indígena mostrou ao
indígenas foram que ainda deverá ser escrito na história brasileira.
Devo dizer que ainda há muito a se descobrir sobre
os povos indígenas. No entanto, os próprios indígenas
Brasil que os povos que representava não estavam
de passagem por esta terra e que já eram plenamente uma conquista, e estão dispostos a contribuir para que isso aconteça. Não
à toa já se fazem presentes na sociedade participan-

não um benefício
brasileiros, ainda que diferenciados por força de suas do, interagindo, contribuindo, planejando, atuando,
ricas culturas; que tinham direitos originários que ensinando. Já são mais de 5 mil estudantes indígenas
precisavam ser respeitados; que podiam ser brasi- nas universidades; mais de 20 doutores e outros 50

a nós oferecido.
leiros sem deixar de serem indígenas; que podiam, mestres, além de mestrandos em diversas áreas do
deviam e queriam participar da sociedade brasileira, conhecimento. Pouco, é verdade. Mas não se pen-
mas que os povos que ainda estivessem em situação sarmos que isso tem apenas pouco mais de 20 anos.
de pouco ou nenhum contato deveriam ser respei-
tados em sua integridade física, material e imaterial.
É isso que está escrito na Constituição. Pela pri-
Temos que lutar Há também muitos problemas a serem resolvidos
e que passam pela participação mais efetiva dos in-
dígenas e pelo interesse do Estado brasileiro que não
meira vez na História nacional o Estado brasileiro
admitiu que os indígenas estão nessa terra para ficar
e que têm direito a ter direitos, portanto, são brasi-
mais por eles” podem ficar à mercê das bancadas de apoio. Essas
bancadas quase sempre são compostas por inimigos
dos povos indígenas e que não querem que nossos
leiros plenos em suas diferenças. Caberia, portan- dos anos 1990 os indígenas passaram a se organizar direitos sejam efetivados. Ao Estado cabe proteger
to, ao Estado oferecer todas as condições para que de maneira mais livre, sem as amarras institucionais esses direitos e à sociedade civil organizada obrigá-lo
consigam praticar sua brasilidade – que passaria que a Funai impunha. Surgiram organizações não a isso. Os direitos indígenas foram uma conquista, e
pela demarcação de todas as terras indígenas, aten- governamentais autônomas; projetos e programas de não um benefício a nós oferecido. Temos o direito.
dimento de saúde diferenciado, educação que levasse atendimento à saúde e educação com a obrigatorie- Temos que lutar ainda mais por ele.
em conta seus processos pedagógicos próprios, seus dade de que técnicos de saúde e professores fossem Como diziam os primeiros mentores do movi-
sistemas de cura, seus ciclos de produção, suas redes indígenas; cresceu a presença indígena nas universi- mento indígena: Não esperamos ninguém. Somos
de interação com o ambiente, seus conhecimentos dades; houve maior visibilidade das práticas sociais e aqueles por quem esperamos.
e sabedorias próprios. políticas; aumento substantivo da população indígena;
Será que tudo isso este mesmo acontecendo? Sei a cultura indígena está mais presente na sociedade 1. Utilizo os termos “tribo” e “índio” sempre entre aspas
que alguém há de perguntar. Eu responderia dizendo brasileira. Muitas outras coisas não aconteceram, lembrando que estas são palavras que caíram em desuso
que muita coisa aconteceu e está acontecendo porque como a esperada demarcação das terras indígenas. e que seus significados já não são mais compatíveis
é um processo que não tem hora pra acabar. A partir Nisso houve um retrocesso muito grande, parte porque com nomenclaturas mais recentes.
20
PERNAMBUCO, AGOSTO 2018

ARTIGO

Sobre os versos A minha aproximação com alguns poetas costuma


acontecer por motivos semelhantes, indo de en-
contro àqueles que despertam algum tipo de des-

que são uma


conforto poético e que conseguem, sobretudo, se
mostrar atentos ao seu tempo. Também me coloco
ao lado dos dispostos a tratar sobre a dor – porque
é muitas vezes ao poema que recorremos quando
todo o resto já não basta. E por isso, também me

sombra ao sol
ponho ao lado dos que aceitam falar da morte – da
morte do corpo –, assim como Ruy Belo.
Nascido em 1933, na pequena freguesia de São
João da Ribeira, cidade tipicamente portuguesa
de formação cristã e população majoritariamente
Idioma, corpo e memória feminina, Ruy Belo foi o verdadeiro poeta obscuro.
Certamente, não nasceu em um período fácil, já

na obra de Ruy Belo, poeta que 1933 também foi o ano da Constituição Portu-
guesa que instaurou a ditadura de Salazar, assim

português morto há 40 anos


como o ano em que os nazistas fizeram a grande
queima de livros na Alemanha. Como disse o pró-
prio poeta em Vat 68, um de seus ensaios dedicados
à morte de Manuel Bandeira, “Todos os anos são
Isabela Benassi anos de morte”. Agora, em 2018, faz 40 anos que
Ruy Belo morreu, e por isso temos a oportunida-
de de fazer deste não só um ano de morte, mas
também de poesia. Esta, então, é uma espécie de
obituário – um texto em sua memória.
Ruy Belo levou uma vida completamente dedi-
cada ao texto e aos estudos, publicando nove livros
de poemas e um grande apanhado de ensaios e
críticas. Mas o que vale aprofundar aqui são certos
aspectos da sua poética, como sua aproximação
com o cultivo da terra e dos saberes metafísicos; nos
mostrando um crescente fértil – campos poéticos
férteis, como em Aquele grande rio Eufrates, de 1961, seu
livro de estreia: Somos verdadeiramente pessoas seguras
de si/ Longe de nós — que fará ele aqui? — o pensamento/ de
um dia deixarmos atrás de nós um corpo/ lembranças nossas
em alguém vazios os lugares onde estivemos.
Estes versos inauguram a obra, compondo um
poema longo e de profunda negatividade. Há uma
aguda visão da negatividade enquanto um estado
de profusão mortífera, mas é preciso ressaltar
que aqui o negativo é principalmente um espaço
vazio. Trata-se de pensar a obra poemática de Ruy
Belo distante de uma concepção producente de
preenchimento, de criação de respostas. O que se
percebe em sua poética é, na verdade, uma com-
pleta dedicação ao hermetismo, à obscuridade
– ao esvaziamento. E lembremos também que
no início era o caos, o vazio antecessor da criação.
Em grego, “vazio” se diz por kenós e sua variação
kenwsis é o esvaziamento pelo qual Jesus passou,
na carta aos Filipenses, para assemelhar-se aos
homens, fazer-se humano como nós; esvaziar-se
de si mesmo para receber o outro, porque, afinal,
somos verdadeiramente pessoas seguras de si. amar a morte”. Se estamos atados à vida, é por-
Esvaziar-se pode também ser uma forma de es- que nos atamos também à morte. É dessa forma
quecer e por isso não surpreende que Ruy Belo não que passamos a habitar casas sobrepostas, numa
tenha recebido nenhum prêmio em vida. Adília espécie de revezamento entre preencher e esva-
Lopes, poetisa portuguesa recém-editada no Brasil, ziar os lugares, um jogo entre positivo e negativo.
disse em uma de suas últimas entrevistas que ele é Entretanto, logo notamos que a dicotomia vida &
subvalorizado “porque as pessoas têm relutância a morte não se sustenta por muito tempo na poé-
certas referências religiosas e por isso não o conside- tica de Ruy Belo, porque nela o abismo da morte
ram muito”. É difícil acreditar na sua baixa recepção coexiste também com o da vida – a morte está no
a partir dessa chave, considerando que Portugal corpo. E por isso é importante lembrarmos do
possui uma origem tão católica (sem falar do Brasil). corpo, porque falar da morte é falar do término
Apesar disso, existem algumas informações que da matéria e, a rigor, nada mais que isso.
precisamos considerar, como seu envolvimento Nos primeiros poemas desse mesmo livro, Quasi
com a Opus Dei; sua sensação de despertencimento flos e Imaginatio locorum, acrescenta-se ainda o proble-
com seu país, percebida em pronunciamentos do ma de que esse corpo disputa espaços com outros
tipo: “é realmente uma desgraça ter nascido em corpos, como se construísse algo em cima de lugares
Portugal. Parte para a vida em desvantagem”; ou ter já construídos. Arquitetamos a vida numa multi-
lançado seu primeiro livro justo na mesma semana plicação de ruínas, empilhando um a um os dias da
que Herberto Helder lançou A colher na boca. mesma forma que empilhamos os corpos – a maior
Antes de tudo, aceitemos que cabe ao poeta dificuldade encontra-se em habitar a si mesmo –,
falhar, principalmente porque cair é importante enquanto a alegria é uma casa recém construída/e uma casa
para o poema – e às vezes carregar alguns versos é a coisa mais séria da vida. Assim buscamos o topo das
consigo é exatamente o motivo da queda – mas habitações na procura de um horizonte, um espaço
para além disso, a sua tardia entrada no espaço que ainda possa estar vazio para nos reedificarmos,
literário também se mostra um mosaico de difi- afinal a alegria é uma casa demolida.
culdades humanas: A morte é a verdade e a verdade é a Após a ruína, resta-nos a memória, e por isso
morte/ Ao homem não foi dado nenhum outro dia/ e a vida realizar esse obituário poderia se tornar um peso,
é qualquer coisa como nunca mais chegar. Resiste-se à se todo esse percurso não nos trouxesse também
sua obra, como resiste-se ao enfrentamento dos a lembrança dos poemas (e qualquer oportuni-
obstáculos – e a morte sempre foi o maior deles. dade para ler Ruy Belo é sempre bem-vinda).
Assim como Fernando Amaral fala-nos em seu Mas o peso ainda é inevitável. Em um de seus
prefácio da edição portuguesa do livro de Ruy Belo, ensaios, o filósofo francês Lyotard nos pergunta
publicado em 1962, O problema da habitação: alguns “por que afinal filosofamos?”, respondendo logo
aspectos, “o acto de amar a vida implica também em seguida que “filosofamos porque perdemos a
21
PERNAMBUCO, AGOSTO 2018

DIVULGAÇÃO

unidade. A origem da filosofia é a perda do uno,


a morte do sentido”. Toda a poesia de Ruy Belo
procura restaurar a unidade entre os homens a
Poucos lembram, vida, Uma voz canta,/ alguém além mais longe chora/ O adro
a árvore a casa se está, onde se entra e mora/ Aqui o homem
é... ou era mesmo agora. Sua poesia permanece conosco
partir do compartilhamento da morte, e é por isso
que estamos aqui, mesmo com o peso – porque
morrer é universal, é o que nos une. Assim como
mas nove livros porque se transforma em um elemento primor-
dial e coletivo: nenhum poema (como a memória)
exclusivamente nos pertence, pois nada que nos
a morte sedimenta o homem à terra, mostrando
sua finitude material, Ruy Belo sustenta sua poesia de Ruy Belo foram atravessa é único (ou até mesmo real), fazendo com
que o compartilhamento poético ocorra por meio

publicados no Brasil
por uma espécie de mediação entre os dois planos, das imagens que reunimos e reconstruímos, juntos,
como se extraísse a morte das coisas para mantê- no poema: Nada na minha poesia é meu/ juro por Deus dizer
-las vivas. “Creio que nem por pintar porventura toda a verdade/ Ponho a mão na cabeça o dia é escuro e vago

pela 7Letras e com


a realidade melhor do que ela é a deixo de pintar e eu respiro/ Espero pela manhã como quem nasce.1 E não
como é”, assim definia sua própria obra. Pois por esquecemos dos poemas de Ruy Belo porque, na
pintar a realidade da melhor forma é que se tornou, verdade, eles nunca deixaram de estar por toda a
por meio da morte, um poeta das coisas vivas, e por
mais controverso que pareça, sua obra manifesta,
sim, uma certa alegria – um deslumbre divino – em
prefácios de vários parte – coube ao poeta apenas nos lembrar.
Por fim, poucos também se lembram, mas seus
nove livros de poesia foram publicados aqui pela
estar diante de todas essas coisas vivas.
Em Boca bilíngue, de 1966, uma dessas coisas vivas
é o próprio idioma, onde o poeta nos aproxima da
poetas brasileiros editora 7Letras, entre os anos de 2013 e 2014, num
trabalho de agrupamento poético que recepcionou
não só sua obra, mas também prefácios de diver-
língua materna (a que temos em comum) e da lin- da poesia somos iniciados também a um tipo de sos poetas brasileiros. Antes disso, havia apenas
guagem metafísica (cosmogônica). Porém, o que se linguagem da terra, da natureza: de todas as coisas um único número da antiga revista Inimigo Rumor
nota desde o começo do livro são alguns espectros ao nosso redor. dedicado ao poeta, publicado em 2003. Quanto a
já conhecidos pela literatura portuguesa, como Embora a poesia não seja o meio mais apropriado sua obra crítica, só há uma única edição publicada
uma espécie de dificuldade de origem, que aparece para alguém se fazer entender, Ruy Belo mostra em Portugal pela Assírio & Alvim – mas Ruy Belo
na série de poemas intitulados Portugal sacro-profano, como ela é certamente uma ferramenta de acesso, se está por toda a parte, nas minúcias, sendo revi-
especialmente no verso: Nenhum cordão nos prende utilizando da memória como elemento de fixação, sitado constantemente pelos poetas. Por isso, me
por instantes a nenhum umbigo; e também na epígrafe de contato, confluindo com o que Silvina Rodrigues parece necessário dizer que conheci sua obra pela
do livro de Manoel Gomes da Silveira: porque loucos diz em seu livro Literatura, defesa do atrito: “é na poesia, de Eugênio de Andrade, em um poema dedicado à
não os há, senão em língua portuguesa. Percebe-se que e a partir da poesia, que o pensamento encontra a morte do amigo: Agrada-me que tudo assim fosse, e agora/
a proposta é que o poeta nos ensine sua língua; memória”, esse grande exercício de recordação, de que começaste a fazer corpo com a terra/ a única evidência é
embora ela não seja propriamente a língua portu- reconstrução narrativa, de imaginação. Logo, é assim crescer para o sol – enquanto nós ficamos à sombra.
guesa, mas sobretudo a linguagem dos poemas, pois que a poética de Ruy Belo nos acessa: ao dar voz
“bilíngue é toda a poesia”; e a partir da linguagem às coisas ao nosso redor, uma voz que nos canta a 1. Em cima de meus dias, de Boca bilíngue, 1966.
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da Geração 65, é lembrado como um Cazarré retorna à época da escravidão enxergar o ritmo, a voz e seu gestual
“vulcão”, tal é a efervescência e o calor que no Brasil para contá-la através de um performático: dizCrição, Quase crônico,Tu
emanam de sua obra. Os poemas deste menino, feito prisioneiro na África para tás aonde?, Onde estará Norma?, Pra
livro ganham figuras e formas através do ser vendido a homens brancos no país. não dizer que não falei de flúor, Poemas
pano de fundo do regime militar do Brasil, Mas Kandimba torna-se protegido da para sentir tesão ou não, Quebra a direita,
provando que a alcunha atribuída ao poeta poderosa Dona Joana, uma rica mestiça segue a esquerda e vai em frente, Flagrante
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ilustrações de Pedro Zenival. Os fatos Literatura, apresenta um escritor que se
históricos são narrados pelo líder da envolve na narrativa, mesclando ficção e Um mergulho na obra de Chico Buarque,
Revolução Pernambucana, Domingos realidade. Com elementos fantásticos e tido como o grande intérprete da alma
Martins, e sua esposa, a portuguesa Maria muita autoironia, o autor brinca com os feminina e uma das maiores expressões da
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Miscelânea composta de crônicas, reflexões Vencedor do Prêmio Cepe Nacional de
literárias, pequenas narrativas, relatos Perfil do ator, diretor, escritor, poeta, professor Literatura em 2016, o romance de Luís
históricos e memórias de José Almino. e jornalista José Pimentel, memória viva Sérgio Krausz inicia com uma viagem a
Como uma variação do brilho de sua obra do teatro pernambucano desde os anos Nova York, numa narrativa vertiginosa
poética, as crônicas parecem transitar 1950, quando novas concepções cênicas rumo ao desconhecido. O livro é construído
entre poesia e prosa, sem que haja risco conquistaram o respeito do Brasil. Após através de palavras inacreditavelmente
na mudança de gênero, com refinada integrar a Paixão de Cristo de Nova conscientes, torpes, profundas e friamente
sensibilidade aos tipos populares ou Jerusalém por mais de 20 anos, encenou críticas ao homem, que buscam levar seu
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vida e obra de Ademir Araújo, imposta aos militantes de oposição
o Maestro Formiga, compositor, pela ditadura brasileira, quando seis
instrumentista, arranjador, regente componentes da Vanguarda Popular
e pesquisador que, com espírito Revolucionária foram encontrados com
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23
PERNAMBUCO, AGOSTO 2018

RESENHA

REPRODUÇÃO

“Sou teu
referencial: Dylan Thomas, Yeats, Auden e Blake.
Adelaide Ivánova Ah, e Shakespeare, claro.
Mas falta de mulheres no cânone poético que pos-
“Desde que morreu, [minha mãe] tem sido disse- sam informar outras poetas mulheres não é culpa,

tesouro, bebê
cada, analisada, reinterpretada, reinventada, fic- nem um problema criado por Plath: é um problema
cionalizada e, em alguns casos, completamente nosso. A teórica australiana e ativista Lynne Segal,
fabricada”, escreveu Frieda Hughes, filha de Sylvia no seu livro Making trouble: Life and politics, diz: “[até fim
Plath, no prefácio de Ariel – edição restaurada e bilíngue dos anos 1960,] seja na política ou na cultura, ainda

de puro ouro”
com os manuscritos originais, relançado agora no Brasil éramos forçadas a nos identificar com os boys. Não
pela Verus Editora, em tradução de Rodrigo Garcia havia mulheres referência [...] Eu lia D. H. Lawrence,
Lopes e Maria Cristina Lenz de Macedo. Jack Kerouac, Norman Mailer, J. D. Salinger [etc.]
O que Frieda Hughes diz não é mentira. O suicídio e me incomodava, ainda que eu não conseguisse
de Plath (em 1963), mais do que sua obra, colocou-a articular isso, o fato de que em todos eles havia uma
no repertório dos debates feministas. O fato de ter sido clara hostilidade contra as mulheres. Onde estavam

Um olhar crítico sobre o Ariel o manuscrito que estava sobre a mesa quando
de sua morte ajuda a criar um misticismo com ares
as mulheres [da literatura]?”. No livro, Segal fala da
importância do acesso a role models para a criação de

lugar de Sylvia Plath no de recado, tipo vejam o que fizeram comigo. Não acho
que seja à toa, portanto, que a biografia dela cause
uma cultura polifônica e diversa, onde todos e todas
sintam-se encorajados a falar.

cânone literário a partir da


mais fascínio do que seus livros que, no Brasil, são Com os dizeres de Segal em mente, me pergunto
pouco publicados (o mesmo acontece com Anne quais estruturas possibilitaram que Plath fosse al-
Sexton, outra poeta confessional estadounidense, que çada ao cânone (e não Gwendolyn Brooks ou Lucille
reimpressão de Ariel, livro se suicidou em 1974). Mas e a poesia dela, onde fica?
Minha relação com o texto de Plath é essa: li no
Clifton, pra citar só duas autoras contemporâneas e
conterrâneas de Plath que eram muito, muito mais

de poemas que a consagrou fim da adolescência porque todo mundo dizia “tem
que ler!”, e achava que precisava gostar, porque
ousadas e inovadoras, tanto nos temas, quanto na
forma). Me pergunto, com tristeza, se o acesso da

junto a críticos e leitores


todo mundo dizia “tem que gostar!”. Em 2001, Plath poesia de Plath ao posto de “clássico da literatura”
preencheu um lugar importante no meu repertório se deu pelo fato de que, sendo o cânone inventado
e lá ficou (no meu livro O martelo ela está em dois e “administrado” por homens brancos, a poesia
poemas) menos pela identificação com sua escrita, dela seja palatável para eles – já que sua obra se
e mais pela quase completa ausência de mulheres situa (estética e tematicamente) em universos que
no cânone poético, que eu pudesse ler. Ainda que os homens brancos donos do cânone conseguem
me atraíssem o blues suicida e as passações de recibo visualizar: o contexto pode até ser meio assustador,
pra Ted Hughes, seu marido abusador, as imagens mas eles sabem o que é ter uma mulher ciumenta e
que ela cria pareciam piegas (como pode alguém ter com daddy issues em casa (#contémsarcasmo).
a audácia de escrever um verso tão ruim como Pura e Precisamos questionar o cânone, inventar um que
limpa como um choro de bebê?). Não conseguia ver, ainda contemple os desejos temáticos e estéticos de mais
que entendesse o furor que isso causou nos anos gente, e não somente desses boys. Esse é, talvez, o
1960, onde estava a potência. Ok, os temas eram motivo mais importante da reimpressão de Ariel por
polêmicos (tem um poema que se chama Talidomi- aqui. Mas aí vêm os problemas da reimpressão em si.
da, que foda!), mas o método era antiquado: traçar Sem atualização e revisão, o Ariel da Verus tem
paralelismos entre as imagens do mundo exterior prefácio de Frieda Hughes, escrito em 2004, e texto
(bucólicas) e as do mundo interior (infernais). Eu, de apresentação de Rodrigo Garcia Lopes, um dos
fruto do amoníaco e de não sei que, brincadeira, tradutores. O texto da filha de Plath e Hughes tenta,
eu, fruto do grunge dos anos 1990 e informada pelo inúmeras vezes, defender a reputação de seu pai
feminismo socialista dos anos 1970 (tudo pós-Pla- (coisa que, aliás, ela tem todo direito de fazer), o
th, eu sei), tinha dificuldade em aceitar, enquanto que faz com que o texto seja relativamente inútil do
protofeminista de 19 anos, por que o mero fato de ponto de vista histórico. Além disso, o texto de Garcia
falar sobre “coisas de mulher” faria do texto algo Lopes, escrito em 2007, soa empoeirado porque não
automaticamente feminista. Eu precisava de mais se aproxima do Brasil atual. A reedição da Verus perde
que isso. E imaginava, como ainda imagino, o que o a oportunidade de pensar o lugar de Ariel no Brasil
boom do feminismo nos anos 1970, a criação de um pós-Golpe, pós-primavera feminista, pós-Um útero
início de genealogia de autoras mulheres e a ideia é do tamanho de um punho , o incrível livro de Angélica
de sororidade teriam feito com Plath e sua escrita. Freitas. E isso não somente é uma decepção, como
Ainda hoje não aceito o argumento de que Pla- um descuido um tanto imperdoável, porque imagino
th escrevia sobre coisas “novas” (dar de mamar, que a decisão de reimprimir o livro se dá também
aborto, os pratos para lavar, o marido escroto). por causa desses acontecimentos.
“Novas” para quem? Só se for pros boys que a al- A parte boa: como na edição de 2007, a reimpres-
çaram ao cânone, porque né, escrevemos sobre isso são de 2018 é a versão original deixada por Plath
há um tempão. Não foi Plath nem quem abordou antes de morrer, e não a que foi mutilada por Ted
a temática pela primeira vez – alô, Gwendolyn Hughes e que circulou no mundo entre 1965 e 2004.
Brooks! – nem que revolucionou esteticamente Os manuscritos originais em inglês, que também
a abordagem. Com sua linguagem solene, Pla- estão no livro, possibilitam que nos aproximemos não
th escrevia como (e para, ouso dizer) os boys do somente do que Plath quis que Ariel fosse, mas tam-
cânone, que vieram antes dela e informavam seu bém do processo de sua escrita, o que é maravilhoso.
24
PERNAMBUCO, AGOSTO 2018

INÉDITOS
David Harvey
Tradução de Artur Renzo

Ao longo da vida, Marx fez um esforço prodigioso Stuart Mill, Jeremy Bentham e uma série de outros
para compreender como funciona o capital. Sua ob- pensadores e pesquisadores) respondia a esse tipo de
sessão era tentar descobrir como aquilo que chamou pergunta, a leitura que faremos de suas descobertas
de “as leis de movimento do capital” afetavam o também requererá certo conhecimento de quem
cotidiano das pessoas comuns. Ele expôs de maneira ele critica. O mesmo vale para a dependência de
implacável as condições de desigualdade e explora- Marx em relação à filosofia clássica alemã no que
ção enterradas no atoleiro das teorias autocongra- diz respeito a seu método crítico, na qual domina a
tulatórias apresentadas pelas classes dominantes. imponente figura de Hegel, amparado por Spinoza,
Estava particularmente interessado em descobrir Kant e uma série de pensadores que remonta aos
por que o capitalismo parecia ser tão propenso a gregos (a tese de doutorado de Marx é sobre os fi-
crises. Será que essas crises, como as que ele tes- lósofos gregos Demócrito e Epicuro). Acrescente à
temunhou em 1848 e 1857, se deviam a choques mistura os pensadores socialistas franceses, como
externos, como guerras, colheitas ruins e escassez Saint-Simon, Fourier, Proudhon e Cabet, e a ampla
natural, ou havia algo no modo de funcionamento tela sobre a qual Marx buscou construir sua obra se
do próprio capital que tornava inevitáveis tais abalos torna de uma clareza intimidante.
destrutivos? Até hoje essa questão atormenta as in- Além disso, Marx era um analista incansável, mais
vestigações econômicas. Dado o estado lamentável do que um pensador estático. Quanto mais aprendia
e a trajetória confusa do capitalismo global desde a com suas volumosas leituras (não apenas dos eco-
crise de 2007-2008 – e seus impactos deletérios na nomistas políticos, antropólogos e filósofos mas da
vida de milhões de pessoas –, parece que este é um imprensa comercial e financeira, de debates parla-
bom momento para rever o que Marx descobriu. mentares e relatórios oficiais), mais evoluíam suas
SOBRE O TEXTO Talvez encontremos insights úteis para nos ajudar a visões (ou, diriam alguns, mais ele mudava de ideia).
esclarecer a natureza dos problemas com os quais Foi um leitor voraz de literatura clássica – Shakes-
O trecho ao lado pertence nos deparamos agora. peare, Cervantes, Goethe, Balzac, Dante, Shelley e
ao livro A loucura da razão Infelizmente, não é tarefa fácil resumir as des- outros. Não apenas temperou seus escritos (sobretudo
econômica: Marx e o capital cobertas de Marx e acompanhar seus intricados o Livro I de O capital, uma obra-prima literária) com
no século XXI, de David argumentos e suas detalhadas reconstruções. Em referências ao pensamento desses escritores mas
Harvey. A obra será lançada parte porque ele deixou sua obra incompleta. Apenas valorizou suas ideias sobre o funcionamento do
neste mês pela Boitempo uma pequena fração dela veio à luz em uma forma mundo e inspirou-se em seus métodos e estilos de
e se propõe a atualizar a que Marx considerou adequada para publicação. O exposição. E, como se não bastasse, há a volumosa
obra de Karl Marx à luz das resto é uma massa intrigante e volumosa de notas correspondência com companheiros de viagem em
novas transformações da e rascunhos, comentários de autoesclarecimento, diversas línguas, além de conferências e discursos a
globalização capitalista experiências mentais do tipo “e se funcionasse as- sindicalistas ingleses ou comunicações para e sobre
no século XXI. O excerto sim” e uma série de refutações a objeções e críticas a Associação Internacional dos Trabalhadores, criada
é do prólogo da obra e as reais e imaginadas. Na medida em que o próprio em 1864 com suas aspirações pan-europeias para a
perguntas no seu final Marx se apoiou em grande parte em uma interroga- classe trabalhadora. Marx foi um ativista e polemista,
são as que motivaram ção crítica sobre a forma como a economia política além de teórico, acadêmico e pensador de primeira
a escrita do livro. clássica (dominada por figuras como Adam Smith, linha. O mais próximo que chegou de uma renda es-
David Ricardo, Thomas Malthus, James Steuart, John tável foi como correspondente do New York Tribune, um
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PERNAMBUCO, AGOSTO 2018

HANA LUZIA

dos jornais de maior circulação nos Estados Unidos


na época. As colunas que escrevia tanto afirmavam
suas visões particulares como traziam análises de
De que forma te úteis, mas eles não esgotam o terreno daquilo que
precisa ser conhecido. E certamente não ajudam a
resolver os problemas de alienação ou deterioração
eventos contemporâneos.
Em tempos recentes, houve uma enxurrada de
estudos abrangentes sobre Marx em seu contexto
compreender o das relações sociais.
Os comentários prescientes de Marx sobre as leis
de movimento do capital e suas contradições in-
pessoal, político, intelectual e econômico. As desta-
cadas obras de Jonathan Sperber e Gareth Stedman conceito de capital ternas, suas irracionalidades fundamentais e sub-
jacentes, são muito mais incisivos e penetrantes do

e suas supostas leis


Jones são valiosas, ao menos em alguns aspectos.1 que as teorias macroeconômicas unidimensionais
Infelizmente, também parecem querer enterrar o da ciência econômica contemporânea, que se pro-
pensamento e a obra monumental de Marx com seu varam insuficientes quando foram confrontadas

de movimento nos
corpo no Cemitério de Highgate, como um produto com a crise de 2007-2009 e seu longo rescaldo. As
datado e falho do pensamento do século XIX. Para análises de Marx, aliadas ao seu método distintivo
eles, Marx foi uma figura histórica interessante, mas de investigação e à sua forma de teorizar, têm um
seu aparato conceitual tem pouca relevância teórica
hoje, se é que a teve algum dia. Ambos esquecem
que o objeto do estudo de Marx em O capital era o
ajuda a lidar com valor inestimável para os nossos esforços intelectuais
de compreender o capitalismo de agora. Seus insights
merecem ser reconhecidos e estudados criticamente,
próprio capital, não a vida oitocentista (sobre a qual
ele certamente tinha muitas opiniões). E o capital
continua conosco, vivo e bem em alguns aspectos,
os impasses atuais? com a devida seriedade.
Como, então, devemos compreender o conceito
marxiano de capital e suas supostas leis de movi-
mas evidentemente doente em outros, para não supostamente científico, altamente matematizado mento? De que forma isso nos ajudará a compreender
dizer em uma espiral de descontrole2, inebriado e movido a dados, chamado “ciência econômica”, nossos impasses atuais?
pelos próprios sucessos e excessos. Marx conside- atingiu um estatuto de ortodoxia, um corpo fechado
rava o conceito de capital basilar para a economia de conhecimento supostamente racional – uma 1. Jonathan Sperber, Karl Marx: A nineteenth century life
moderna, assim como para a compreensão crítica da verdadeira ciência – ao qual ninguém tem acesso, (Nova York, Liveright, 2013) [ed. bras.: Karl Marx: Uma
sociedade burguesa. Entretanto, é possível chegar ao exceto em negócios empresariais ou estatais. Esse vida do século XIX, trad. Lúcia Helena de Seixas, Barue-
fim da leitura dos livros de Stedman Jones e Sperber campo é alimentado por uma crença cada vez maior ri, Amarilys, 2014]; Gareth Stedman Jones, Karl Marx:
sem a mais remota ideia do que seja o conceito de nos poderes da capacidade computacional (que dobra Greatness and illusion (Cambridge, Belknap, 2016) [ed.
capital de Marx e de como ele poderia ser aplicado a cada dois anos) de construir, dissecar e analisar bras.: Karl Marx: Grandeza e ilusão, trad. Berilo Vargas,
nos dias de hoje. Na minha avaliação, as análises enormes conjuntos de dados sobre quase tudo. Para São Paulo, Companhia das Letras, 2017].
de Marx, embora evidentemente datadas em alguns alguns analistas influentes, patrocinados por grandes 2. Harvey usa aqui a expressão de língua inglesa “spi-
aspectos, são mais relevantes hoje do que na épo- corporações, isso supostamente abre caminho para ralling out of control ”, que pode ser traduzida, ao pé da
ca em que foram escritas. Aquilo que, nos tempos uma tecnoutopia de gestão racional (por exemplo, letra, por “espiralando fora de controle”. A escolha da
de Marx, era um sistema econômico dominante cidades inteligentes) governada pela inteligência expressão para descrever o caráter descontrolado do
em apenas uma pequena parcela do mundo, hoje, artificial. Essa fantasia se baseia na suposição de capital é relevante, pois ecoa o movimento espiralado
recobre a superfície terrestre com implicações e re- que, se algo não pode ser mensurado e condensado do processo de acumulação exponencial infindável do
sultados espantosos. Na época de Marx, a economia em planilhas de dados, esse algo é irrelevante ou capital, o qual constitui um dos argumentos que atra-
política era um terreno de debate muito mais aberto simplesmente inexistente. Não há dúvida de que vessam o livro e que hoje se encontra em um patamar
do que é agora. Desde então, um campo de estudos grandes conjuntos de dados podem ser extremamen- historicamente sem precedentes. (Nota do tradutor.)
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MARIA JÚLIA MOREIRA

INÉDITOS César Braga-Pinto

Uma história da honra


Relativo a contextos pré-modernos e europeus, o direito (ou seja, o mérito) que alguém se atribui
o conceito de honra tem sido definido entre os de se dizer honrado. [...]
historiadores como essencialmente hierárquico, Na Europa, com a ascendência dos valores re-
ou seja, como um ideal ou sentimento exclusivo publicanos, a virtude, a cidadania, a igualdade e
de indivíduos pertencentes a um grupo específico o patriotismo passam a ocupar o lugar de antigas
e privilegiado. Norman Hampson explica sucin- concepções de honra. Distinções sociais começam a
tamente como, segundo Montesquieu, durante o ser entendidas como o resultado do mérito pessoal,
Ancien Régime o “sentido de honra sobre o qual se da dignidade, da coragem, da probidade ou dos
apoiavam as monarquias era um sentimento natural princípios – em vez de estirpe, status, privilégio ou
de indivíduos das classes altas, confirmado pela convenção. No entanto, alguns códigos de honra e
educação, que os impelia a procurar status para si precedência social antigos seriam apropriados e,
mesmos e suas famílias, ou a reafirmar o status de com frequência, confundidos com valores burgue-
que já desfrutavam dentro de uma sociedade hie- ses modernos. Assim, a noção de honra individual
rárquica”. Fundada menos em qualquer sentido de não deixará de ter também um caráter moderno e
responsabilidade, cidadania, altruísmo ou patriotis- competitivo, em que as rivalidades contam tanto
mo (entendido como subordinação ao Estado-nação quanto as alianças. Ou seja, essa noção deriva do
ou à vontade geral), a honra se caracterizava por poder de um homem sobre outros homens em sua
autonomia, interesse pessoal e serviço voluntário qualidade de homem de honra. Ao mesmo tempo,
ao rei. Assim, explica Hampson,“homens de honra não deixa de ser algo que se sente e se demons-
formavam parte de uma sociedade internacional, tra, mas que também precisa ser confirmado pela
tão vasta como o mundo civilizado, e que viviam opinião pública, que participa da construção ou da
SOBRE O TEXTO sob as mesmas regras” (Hampson, 1973, p. 203, destruição de reputações. [...]
tradução nossa). No caso de uma sociedade de herança colonial
O excerto pertence ao livro Ainda no século XIX, a honra continuaria a repre- e altamente estratificada, como era a brasileira
A violência das letras: sentar uma forma valorativa e hierarquizante que até o último quartel do século XIX, o fundamento
Amizade e inimizade classificava os indivíduos socialmente – segundo para as distinções reivindicadas pela elite políti-
na literatura brasileira a sua conduta e em relação a um tipo ideal – entre, ca e econômica (em especial, a classe senhorial)
(EdUERJ), que será lançado de um lado, aqueles que são dotados e, de outro, era, pelo menos aos olhos desta, autoevidentes.
neste mês. O trecho pertence aqueles que são desprovidos de honra (Peristiany, A desigualdade baseada na raça era naturalizada,
à seção “Literatura francesa 1966). Ao mesmo tempo, segundo a definição do enquanto outras reivindicações de distinção social
e a Rua do Ouvidor”, antropólogo Julian Pitt-Rivers, a honra se define (propriedade, parentesco, linhagem, títulos, educa-
do primeiro capítulo do conforme “o valor de uma pessoa aos próprios ção, abstinência do trabalho manual etc.) excluíam
livro. Interessou-nos o olhos, mas também aos olhos de sua sociedade” boa parte da sociedade, considerada desprovida
apanhado histórico feito (Peristiany, 1966, p. 21, tradução nossa). Assim, a de honra. Mas, a partir da década de 1870, a na-
por Braga-Pinto por tocar honra é sempre uma condição instável e, mesmo ção independente se confrontou com transforma-
em uma nuance importante quando herdada ou determinada pela posição so- ções profundas – que incluíram secularização da
para compreensão das cial, deve ser reafirmada e conquistada segundo imprensa, profissionalização das forças armadas,
masculinidades no Ocidente: o poder regulador da opinião pública. Portanto, imigração majoritariamente europeia, crescimento
a honra. O título que consta pode-se dizer que a honra tem aspecto perfor- significativo da classe média urbana, assim como
foi atribuído pelos editores mativo, em que os ideais de um grupo devem ser emergência dos movimentos abolicionistas e do
do Pernambuco. reatualizados e reproduzidos em atos ou condutas republicanismo. Enquanto em outras regiões da
individuais, de modo que se valide ou se reconheça América Latina pós-independência parece ter ha-
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Os três
mosqueteiros,
publicado no país
em 1885, foi o
maior responsável
por restabelecer o
prestígio do duelo
de vários outros acontecimentos: uma população
crescente de ex-escravos na capital da nação e
suas reivindicações de cidadania, a popularização
dos ideais liberais e republicanos, a crescente de-
mocratização da imprensa, a relevância da assim
chamada opinião pública e a relativa independência
dos partidos políticos. A imprensa e, logo, a opinião
pública ocuparam um espaço novo, que estava
para além do controle do governo monárquico e
da aristocracia rural; foi aí que os intelectuais e os
jornalistas em particular encenaram suas aspirações
e ansiedades, construindo novas identidades que
os distinguissem tanto da velha aristocracia como
das pessoas comuns. Foi nesse espaço de disputas
que os jornalistas cariocas começaram a se imaginar
como os novos cavalheiros e a fazer da honra um
sinal de distinção.
No momento de sua introdução no Brasil, o duelo
foi recebido, de forma geral, como nada mais do
que uma importação europeia, frequentemente
comparada à estima excessiva da elite brasileira
pela cultura francesa. Já no início da década de 1840,
os jornais brasileiros noticiavam duelos na Europa
e nos Estados Unidos. E, na segunda metade do
século XIX, antes de qualquer matéria noticiar os
desafios locais, a imprensa dava extensa cobertura
aos duelos europeus. Em 1877, noticiava-se um
duelo que acontecera em Portugal entre Gonçalves
Crespo e um jornalista espanhol d’A Nação. Houve
também notícias de duelos na América Hispânica,
vido relativa dissociação entre honra e as antigas cracia e o reinventou, a fim de convertê-lo em seu particularmente na Argentina; a maioria envolvia
marcas de hierarquia social, no Brasil foi apenas próprio instrumento de distinção social (Guillet, membros das forças militares, embora políticos e
com o gradual declínio da escravidão e o enfraque- p. 208). Tais ritos de sociabilidade masculina, que jornalistas também fossem mencionados. Nenhum
cimento do apoio ao regime monárquico que noções caracterizam a nova classe dominante, expressam desses casos, no entanto, recebeu tanta atenção da
modernas de honra se tornaram preocupação entre o desejo de prestígio por parte de seus membros imprensa quanto os espetaculares duelos que se
as camadas médias da sociedade. Desde então, e, logo, a preocupação com a própria reputação. deram na França, tal como a altamente discutida
pelo menos em tese, reivindicações de precedência Em resumo, o duelo se transforma em um ins- batalha entre o ministro da guerra Charles T. Floquet
social se tornaram cada vez mais dissociadas de trumento de civilização que serve para distinguir (1828-96) e o general Georges Boulanger (1837-91),
propriedade e estirpe (mas não necessariamente aqueles que reivindicam uma educação refinada, em 13 de julho de 1888. O interesse da elite brasi-
de raça), e a classe emergente começou a competir do populacho, caracterizado pela força bruta, pelo leira pelos duelos foi alimentado, em parte, pelo
entre si por novas formas de distinção social. combate desregrado ou pela falta de maneiras, consumo de romances e peças de teatro franceses.1
Da mesma forma, as ocasionais ocorrências, assim tanto na linguagem como nas ações: “Recorrer Na década de 1880, muitas novelas francesas
como os debates em torno do duelo no Brasil, ainda às mãos nuas evocava um estado animalesco do em que figuravam desafios à honra, incluindo Les
partilhavam de muitas das características do modelo qual o homem das massas nunca está distante, Amours de Province (1884), de Xavier de Montepin
original francês, mesmo não havendo uma verdadeira exatamente como o inimigo inglês”(Guillet, p. 218, (1823-1902), e L’Immortel (1888), de Alphonse Daudet
tradição desses rituais. Historiadores têm notado que, tradução nossa). [...] (1840-97), foram rapidamente traduzidas e publi-
depois de 1870, os franceses testemunharam o renas- Trazido relativamente tarde para o Brasil, o due- cadas no Brasil em forma de folhetins. As peças
cimento do duelo, mas agora de uma forma menos lo nunca conseguiu atingir o mesmo patamar de populares e amplamente divulgadas de Alexandre
violenta e mais ritualizada que sua versão aristocrá- prestígio e moda que teve na Europa e nos Estados Dumas (filho), como Le Demi-Monde (1855) e Denise
tica. Em seu trabalho mais recente, François Guillet Unidos, ou mesmo em certas regiões da Améri- (1885), que foram encenadas no Rio de Janeiro em
(2008) explica como o duelo, no final do século XIX ca Hispânica. Entretanto, alcançou características setembro de 1884 e maio de 1885, respectivamen-
francês, atraiu a maioria dos jornalistas e políticos que distintas, específicas ao contexto brasileiro, e mo- te, também representavam conflitos envolvendo
estavam ocupados com o restabelecimento do que o bilizou a atenção da imprensa e, sobretudo, dos cenas de duelo. Mas a altamente popular obra de
autor chama de “capital d’honneur”, ou seja, um valor legisladores. Foi somente no final da década de 1880 Alexandre Dumas (pai) Les Trois Mousquetaires, origi-
sempre suscetível aos efeitos da opinião pública e, que os jornais e a elite intelectual que circulavam nalmente publicada em 1844 e serializada na Gazeta
especificamente, da difamação (Guillet, 2008, p. 18). pela Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, começaram de Notícias a partir de novembro de 1885, fez mais
Amplamente associado à crescente democrati- a debater o problema de reparação da honra; mas, do que qualquer outro romance para estabelecer o
zação da imprensa, na maioria das vezes o duelo na virada do século, o duelo estava já um tanto fora prestígio do duelo no Brasil.
era visto como um mecanismo de restauração da de moda, pelo menos ao que consta nas páginas dos
honra de ambos os combatentes e, além disso, jornais. Entretanto, tal como na França e em outras Referências
como um meio de evitar a escalada de proporção nações, o duelo no Brasil desempenhou importante GUILLET, François. La mort en face: Histoire du duel
do conflito verbal ou físico. Tinha, portanto, uma papel, já que sublinhava a diferença entre as leis de la révolution à nos jours. Paris: Aubier, 2008.
função civilizatória que não apenas demonstrava, modernas, impessoais, e os modos mais tradicio- HAMPSON, Norman. “The French Revolution and
como também exercitava o “sangue-frio” (sang froid) nais de resolução de conflitos, característicos tanto the Nationalization of Honour”. In FOOT, M. R. D. War
e a “etiqueta” (savoir vivre) dos combatentes. De fato, das classes desprivilegiadas como da aristocracia and society: Historical essays in honour and memory
o conhecimento das regras do duelo se tornara um rural. Além disso, ele entrou no crescente debate of J.R. Western 1928-1971. S.l.: Barnes and Noble Books:
sinal de reconhecimento e refinamento social, e era relacionado à identidade nacional e ao futuro da 1973, pp. 199-212.
mais importante desafiar o oponente para um duelo nação brasileira. PERISTIANY, Jean G. (org.). Honour and shame: The
do que propriamente combater no campo de honra. A abolição da escravatura (1888) e a proclamação values of mediterranean society. Chicago: University of
Ao se tornar cada vez mais ritualizado, e à medida da República (1889) geraram inúmeras mudanças Chicago Press, 1966.
que o risco de morte ia ficando cada vez menor, e tensões na vida social, política e cultural, com
o duelo começou a operar como uma espécie de implicações significativas para a elite letrada no Notas
rito de civilidade, em um processo envolvendo processo de definição do papel que esta se atribuía. 1. Guillet (2008, p. 57) destaca que, enquanto, até o
o que Guillet (2008) chama de “eufemização da Embora preocupada em erigir uma nação moderna século XIX, os duelos foram frequentemente tema de
violência” (p. 81). Assim, uma parte da burguesia (ou civilizada), esses homens letrados se esforçavam obras literárias, mais tarde é a literatura que serve de
se apropriou de um ritual que pertencia à aristo- para encontrar seu espaço em meio à evolução inspiração a eles.
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RESENHAS
ARTE SOBRE REPRODUÇÃO

a psicanálise, é o mais
íntimo gozo do sujeito,
algo bastante precioso e,
ao mesmo tempo, com
alta carga de sofrimento.
No momento em que
o sintoma é, de alguma
maneira, elaborado
e arramado, como
acontece na escrita, ele se
transforma em sinthoma.
A temática da linguagem
e do silêncio está
justaposta à psicanálise
nos textos de o nome na
ponta da língua. O autor
faz referência direta a
Sigmund Freud quando
afirma que “toda fala é
sempre incompleta”,
uma premissa da falta
que explode no não-dito.
Entre a proximidade
com pensamentos
de Wittgenstein e os
comentários psicanalíticos,
a escrita de Quignard
lembra as propostas feitas
por Héctor Libertella (1945
– 2006), escritor argentino
que se manteve, como o
francês, nos limiares da
tríade literatura, filosofia

Lançar segredos Na última proposição de


seu Tratado Lógico Filosófico,
Ludwig Wittgenstein
é mantido por meio de
lacunas, espaços cuja
identificação é movediça,
músicos, como as crianças,
como os escritores, são
habitantes dessa falha.
e psicanálise. Libertella
procurou explorar, em
sua obra, a estrutura

para atravessar o
afirma: “Acerca daquilo fincado entre gêneros – As crianças, durante pelo do fragmento, um tipo
que não se pode falar, tem como o ensaio, o conto e menos sete anos, habitam de texto no qual certa
que se ficar em silêncio”. o fragmento – e um tipo essa falha, que a própria característica errante faz

que não é dito


Para Wittgenstein, na de narrativa poética- palavra infância indica. com que essas reflexões
primeira parte de seus filosófica, como no trecho: Os músicos procuram interdisciplinares, livres
estudos, presentes no “A mão que escreve libertar-se dela pelo canto. de um jogo argumentativo
Tratado, a linguagem está é antes uma mão que Os escritores aí se fixam contínuo (como acontece

Em livro, Pascal Quignard usa


ligada às figurações do vasculha a linguagem que para sempre no espanto.” no ensaio, por exemplo),
mundo e, dessa maneira, falta, que tateia em direção Assim, no silêncio está sejam organizadas.

textos de gêneros diversos para junto ao pensamento,


faz parte de nossas vidas
à linguagem sobrevivente,
que se crispa, que se
o lugar do temor e, ao
mesmo tempo, o lugar
Na última parte do livro,
nos comentários sobre os
discutir linguagem e silêncio íntimas. Assim, o silêncio
aparece como um tipo de
exaspera e que a ponta dos
dedos por ela mendiga.”
que empurra ou fixa o
sujeito no espaço. Para
versos de Donne – Quando
um homem morre um capítulo/
restaurador da linguagem: No início, Quignard Quignard, a escrita é o não é arrancado do livro mas/
Priscilla Campos depois que passamos anuncia a escrita de lugar onde foi possível traduzido numa linguagem
dele, podemos, então, um conto, com título estabelecer a quebra “outra” – Quignard adota
restabelecer a língua. homônimo ao livro, que dessa mudez, ultrapassar uma espécie de texto
Existe um tipo de respeito remonta às narrativas o silêncio – como fragmentário, já vista em
e alerta ao que falta, na lendárias: a bordadeira afirmou Wittgenstein – e outras etapas do livro,
linguagem, em toda sua Coulbourne apaixona- permanecer no espanto. e intitula os trechos de
obra. A palavra que não -se pelo jovem alfaiate Após o conto, vem “Metamorfose”. Assim,
engasga, o silêncio que Jeûne e, para casar-se o subtópico pequeno o nome na ponta da língua
acaba por denunciá- com ele, faz um pacto tratado de medusa, uma termina com enxertos
la. Essa relação entre o com o Senhor Heidebic espécie de diário sobre nascimento,
silêncio e a linguagem de Hel. Em troca de uma autobiográfico, narrativa maternidade, língua,
aparece como uma das preciosa cinta, utilizada de acontecimentos ligados morte e a afirmação da
chaves de leitura na como objeto de conquista à infância do escritor, no arte – sonho, pensamento,
obra do francês Pascal do amor de Jeûne, ela qual ele fala, em primeira meditação, literatura
Quignard, em especial, precisa lembrar, em um pessoa, por exemplo, dos – como mensagens
o nome na ponta da língua, ano, o nome do Senhor. períodos em que esteve enigmáticas que nos tocam
lançado, recentemente, Caso não consiga, será calado durante a sua e nos direcionam a cruzar,
pela editora Chão da Feira. levada para o seu castelo vida: “Perdi duas vezes a destemidos, o silêncio.
Quignard, autor de e separada, para sempre, linguagem. Aos dezoito
ensaios, romances e do homem que ama. meses me calei. Comia
poesias, estudou Filosofia Coulbourne esquece do no escuro, sobre uma
na Universidade de nome, e sua vida vira uma mesa azul de treliça, de
Nanterre. Ao longo do eterna busca dolorosa pela que me lembro melhor do
livro, dividido em duas palavra. Quando definha que de mim mesmo. Ela
partes – o nome na ponta da nesse esquecimento, a se dobrava. Era a minha
língua e o enigma seguido de personagem teme, em mesa de silêncio”. E, mais
comentário sobre três versos de certo grau, pela morte: à frente: “Fui novamente
Donne – percebe-se, como tanto do amor quanto sua, obrigado a me calar aos
temática, aproximações como sujeito desejante. O dezesseis anos. Calo o
entre literatura, questões erro da linguagem, nesse porquê. Esse conto que
filosóficas e psicanalíticas. aspecto, pode levar ao fim chamo o nome na ponta da
O escritor busca limiares fatal que se catalisa pelo língua é o meu segredo”.
não só em termos de defeito da memória. Dessa forma, Quignard
desenvolvimento dos Escreve o francês: expõe na escrita o seu MISCELÂNEA
temas, mas também no “Resumi um conto em que sintoma, transformando-o,
resultado de seus escritos, a falha da linguagem estava enfim, em sinthoma – como o nome da ponta da língua
na estrutura e no trabalho na origem da ação. Esse definiu Jacques Lacan, Autor - Pascal Quignard
com a linguagem. Desse tema parecia-me, mais do em seus escritos sobre Editora - Chão da Feira
modo, o próprio texto de que qualquer outra lenda, James Joyce, no Seminário, Páginas - 128
o nome na ponta da língua destinado à música. Os livro 23. O sintoma, para Preço - R$ 40
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Para pensar projetos democráticos PRATELEIRA


Djamila Ribeiro é uma exceção do último texto, “Quando a mulher negra histórico de nossos ÚRSULA
intelectual que, de forma escrito em conjunto com se movimenta, toda a posicionamentos pessoais Considerado o primeiro romance de autoria
instigante, vem abrindo a arquiteta e escritora estrutura da sociedade diante dessas situações e negra e feminina no Brasil, Úrsula (1859) é
e ocupando os espaços Stephanie Ribeiro, e do se movimenta com ela”, de outras parecidas. protagonizado por um casal de pessoas brancas.
na produção e difusão primeiro, um ensaio uma fala que alude ao Ao ocupar com O que importa é a forma como Maria Firmina
de conhecimento sobre autobiográfico em que fato de a sociedade ter consistência lugares dos Reis (1825-1917) criou as personagens
o feminismo negro. Seus resgata várias opressões se constituído a partir da tradicionalmente negras: são críticas, encarnam as tristezas,
textos são dotados de que sofreu ao longo da subalternização desse ocupados por gente branca opressões e esperanças dos povos escravizados.
firmeza, consistência vida e as revoluções Outro que agora deseja – como a grande mídia É uma das obras mais importantes da
e aplicabilidade no que ocorreram para e age para sair desse e as grandes editoras literatura brasileira. A presente edição vem
cotidiano, e isso os ela quando entrou em lugar. Por isso, o livro (no caso, a Companhia com três ensaios críticos sobre o livro.
torna particularmente contato com a produção é instigante – nos faz das Letras) –, Djamila
potentes ante a miríade de ficcionistas e repensar nossas posturas Ribeiro consegue difundir
de informação com a pensadoras negras. e ideias diante desse ideias importantes e não
qual nos deparamos hoje. Partindo da sujeito que não deseja ser se permite ser apenas
Ela se coloca ao lado de perspectiva de que a mais um objeto. um “produto” para as
outras intelectuais negras mulher negra é o Outro Os artigos abordam instâncias de poder
brasileiras que inseriram da nossa sociedade os mais diversos temas: citadas. (Igor Gomes) Autora: Maria Firmina dos Reis
ou vêm inserindo ideias e – por ser o oposto do críticas infundadas Editora: Zouk
ações práticas relevantes hegemônico homem a Serena Williams, o Páginas: 288
para repensarmos o branco em termos humor nocivo contra os Preço: R$ 35
projeto civilizatório do de gênero e pele –, oprimidos, a fetichização
Brasil. As produções delas Djamila cartografa o da pobreza, o infeliz caso QUARTETO MÁGICO
ecoam umas nas outras: lugar de quem sempre em que Eduardo Paes, Organizado pelo crítico Miguel Conde, o livro
Petronilha Gonçalves e foi oprimido ao ex-prefeito do Rio de reúne quatro autores ditos “estranhos”: J. J. Veiga
Silva, Jurema Werneck, dividir conosco suas Janeiro, se sentiu livre (1915-1999), Campos de Carvalho (1916-1998),
Núbia Moreira, Sueli histórias. Partindo para humilhar uma Victor Giudice (1934-1997) e Murilo Rubião
Carneiro, Lélia Gonzalez da materialidade da mulher negra. Se os casos (1917-1991). A distância do realismo faz com que
(1935-1994), Juliana própria pele, nos mostra hoje estão esquecidos muitos leiam suas obras como “surrealistas” –
Borges e Giovana Xavier didaticamente como ou soam antigos, o que é um equívoco, pois nestas linhas
são alguns desses nomes pensar o feminismo seus motivadores são próximas do absurdo, do bizarro e do disparate,
– isso para ficar nas que negro é pensar projetos estruturas sociais, são os quatro revelam muito do humano e também
produzem obras de democráticos. Pensar o racismo e a misoginia do social de seu tempo.
não-ficção. o ser mulher negra presentes no nosso ARTIGOS
Quem tem medo do e as questões nisso dia a dia. Por isso, os
feminismo negro?, livro implicadas é repensar textos não perderam Quem tem medo do feminismo negro?
mais recente de Djamila, o marco civilizatório sua atualidade. Pelo Autora - Djamila Ribeiro
é uma compilação de da nossa sociedade. contrário: ao relê-los, Editora - Companhia das Letras
artigos já publicados na Isso ecoa a famosa somos convidados a Páginas - 152
revista Carta Capital, à frase de Angela Davis: fazer um resgate Preço - R$ 29,90 Autor: Miguel Conde (org.)
Editora: Autêntica
Páginas: 176
Preço: R$ 44,90

Das repúblicas Papel e pólvora UM BURACO COM MEU NOME


O primeiro livro de poesias da escritora e
cordelista Jarid Arraes (autora de Heroínas negras
Ler o livro mais recente incômoda logo no Segure a arma, o e de sua história: desde brasileiras em 15 cordéis) se detém naqueles que não
da historiadora Heloísa início do livro, ao nos bacamarte é esta arte / o manuseio da pólvora encontram um lugar afetivo para si. Dividido
Starling (UFMG), Ser depararmos com as De saber fazer um tiro / e os tipos de armas até em quatro partes, é um livro com tom político,
republicano no Brasil Colônia, inquietações do Frei De ilusão e tradição, o reconhecimento pelo que parte das memórias da autora no Sertão do
é experimentar uma Vicente do Salvador diz a música de Luiz Exército Brasileiro de Cariri – onde travou desde cedo contato com o
sensação de desconforto que, há 400 anos, se Gonzaga, e a volta ao seu uso como elemento machismo e com a intolerância, mas também
em relação à nação. perguntava como pôr mercado de Bacamarte, do folclore. O livro traz com as potências e belezas do cordel.
“República” é um termo em prática a ideia de pólvora, povo, de Olimpio um texto de 1997, de
que sofreu diversas zelo pelo bem comum. Bonald Neto, nos Roberto Benjamin, no
mudanças de sentido ao Nada mais atual. Ao permite conhecer qual advoga a importância
longo da nossa história, fim do livro, sente-se mais dessa tradição dos bacamarteiros em
sempre sob influência o peso da estrutura brincante. O bacamarte meio às discussões
das oscilações em torno colonial no presente e é uma arma de origem sobre o porte de armas
das movimentações de como é urgente que francesa largamente de fogo – o que ajudou Autora: Jarid Arraes
ocorridas na Europa. nos reapropriemos da usada na Guerra do a criar uma ressalva na Editora: Ferina
Os sentidos vão de um nossa História para que Paraguai (1864-1870). legislação para garantir Páginas: 160
conjunto de funções possamos mudá-la. (I.G.) Popularizou-se no a brincadeira. (I.G.) Preço: R$ 39
camarárias no século XVI imaginário nordestino
até o ideal de liberdade a partir disso e hoje O CORTIÇO
dos séculos XVIII e XIX é uma das marcas Um clássico da literatura brasileira agora
pautado por movimentos registradas da cultura publicado em atraente capa feita por Marcelo
como as conjurações da região. Não se trata D’Salete (criador da HQ Angola Janga) com
baiana e mineira, de um tiro verdadeiro, posfácio de Regina Dalcastagnè (UnB), uma das
além da Revolução mas um estouro (ou pesquisadoras de literatura mais relevantes do
Pernambucana de 1817. pipoco, como se diz país. Para ela, o livro pode ser lido como um
O cabedal de sentidos aqui em Pernambuco) gesto de empatia pelo outro e de insubmissão
lançado por esses de pólvora e papel de classe. A obra é centrada em várias histórias
movimentos se perdeu – não é, portanto, a surgidas a partir de um cortiço, nas quais
no século XIX com as arma em si, mas uma saltam as dinâmicas sociais da época.
crises do Império – representação dela. O
por isso o subtítulo “a texto de Bonald Neto,
História de uma tradição fruto de uma pesquisa
esquecida”. Mas pode- HISTÓRIA desenvolvida nos anos HISTÓRIA
-se lê-lo sob outra ótica: 1960 na Fundação
o esquecimento que Ser republicano no Brasil Colônia Joaquim Nabuco, é tido Bacamarte, pólvora, povo
experimentamos hoje, no Autora- Heloísa M. Starling como referencial para Autor - Olimpio Bonald Neto Autor: Aluísio Azevedo
presente. Não se trata de Editora - Companhia das Letras o entendimento dessa Editora - Cepe Editora: Todavia
novidade, ele chega a nós Páginas - 376 tradição por explicar Páginas - 146 Páginas: 304
de forma particularmente Preço - R$ 69,90 nuances da brincadeira Preço - R$ 15 Preço: R$ 39,90
30
PERNAMBUCO, AGOSTO 2018

RESENHAS
HANA LUZIA

fornecer elementos para


entendermos a estrutura
do capitalismo, nos deu
a chance palpável de
enxergar a possibilidade
de termos uma sociedade
diferente desta.
A edição de A acusação
carece de um texto que
situe minimamente os
usos das ideias de Marx
pela ditadura nortecoreana.
Em um Brasil no qual o
pluralismo ideológico
é visto como nocivo e
grupos de estudos sobre o
filósofo são denunciados
ao Ministério Público
(como ocorrido na UFMG
em 2017), chega a ser
irresponsável a ausência
dessa contextualização
para (aparentemente) se
valer da atenção dada às
recentes aproximações
entre Estados Unidos
e Coreia do Norte.

***
No 6° conto, a liberdade –
valor que atravessa o livro
– é formalmente nomeada
como o ideal contra o
combate das opressões
advindas da igualdade

Há um vaga-lume São narrativas que gritam


como se estivessem
engasgadas com um coágulo
entendimento. Sempre
partem da dicotomia “povo
x ditadura”, a compaixão
são oprimidos, acossados
a fins dramáticos e sempre
alcançam a consciência
(nomeada assim no último
texto). São valores jamais
colocados em prática seja

brilhando diante
de sangue que compõem em contraste com a da podridão do regime. As pelos regimes dos EUA
os “saberes vaga-lumes”. ojeriza. Apesar de, no fim mulheres e os filhos – os ou pelas ditaduras na
São narrativas que, diante do livro, Bandi escrever rechaçados por excelência Rússia, China e Coreia do

dos nossos olhos


da glória ostentada por um poema em que fala em uma ditadura de Norte. Parece caber aqui
regimes ditatoriais em suas como suas palavras são caráter masculino – a provocação feita por
demonstrações grandiosas secas como um deserto, a várias vezes surgem Octavio Paz (em Uma outra
de poder, brilham e narrativa, permeada por como vetores dessa voz). Diz o mexicano que
Sobre A acusação, reunião apagam com fragilidade
– mas estão vivos, falam
frases longas, muitas
vezes detidas em conflitos
descoberta, mensageiros
da lucidez. É “o cair da
as liberdades individuais
se chocam e procuram se
de contos que denunciam a das opressões às quais são afetivos internos, passa ficha” que nos permite anular; e a igualdade é um
submetidos e conseguem longe da praticidade doída ver os contos como valor ético a se aspirar,
ditadura da Coreia do Norte se fazer ouvir para o resto e árida de textos como um narrativas de esperança. que só pode conciliar as
do mundo, ainda que isso Vidas secas, por exemplo. diferenças naturais entre os
Igor Gomes possa demorar anos. São O regime de exceção *** humanos por meio da ação
os precários pirilampos é caracterizado por um Chama a atenção, no da fraternidade/solidariedade.
contra os holofotes da discurso solene, sisudo, poema do início e nos É este elemento que
glória que conseguem cínico e controlador que se contos, o repúdio a Karl nos aproxima do vaga-
manter “o desejo como choca contra personagens Marx e a suas ideias. No -lume diante dos nossos
o indestrutível por que fazem relatos ao 2° conto, ele é associado olhos e serve como
excelência”, segundo rés do chão – por isso, a um monstro do folclore atrativo para um texto
Georges Didi-Huberman.1 apesar da presença de um coreano e a um fantasma de estética simples, que,
É o primeiro olhar que me narrador onisciente em 3ª aterrorizante. No último, dadas suas condições de
chega ao ler A acusação, pessoa, há cartas, diários, é colocado como fonte de produção, cumpre bem
coletânea de contos que sonhos, improvisos todo sofrimento humano. seu objetivo político.
denunciam as incoerências teatrais no palco. Autor e Em momento algum se
e abusos da ditadura criação se confundem por contemporiza o fato de que 1. As ideias estão presentes no
que governa a Coreia do conseguirem elaborar sua as ideias implementadas livro Sobrevivência dos vaga-
Norte há décadas. Seu própria visão de mundo na Coreia do Norte não -lumes, de Didi-Huberman
autor é desconhecido, diante dos dias semelhantes, são de Marx, mas sim (Editora UFMG).
mas escolheu um dias frequentes demais em uma uma leitura que dele é
pseudônimo sugestivo: vida que, no fim das contas não feita pelos governantes. É
“Bandi”, que em coreano podia ser chamada de longa (p. compreensível a ojeriza,
significa “vaga-lume”. 97). O povo é construído já que o alemão e os
Os sete contos do livro como comum, cheio ditadores são colocados
foram escritos entre 1989 de dignidade (valor que pelo Estado como
e 1995 (as datas constam várias culturas orientais símbolos da pátria (o
ao fim de cada um), que levam ao extremo), ao qual segundo conto do livro
abarcam criticamente o foram negadas comida, deixa isso evidente).
regime de Kim Il-sung, conforto, o convívio com Ainda que hoje muitas
avô do atual ditador do a família e oportunidades de suas ideias sejam
país, Kim Jong-un. Foram de ascensão profissional. problemáticas (a noção
contrabandeados para a Por servir a fins do comunismo como o
Coreia do Sul (o trajeto políticos de urgência em fim da História, para citar
é inusitado e contado uma nação que vigia um exemplo elementar),
em dois posfácios), obsessivamente seus Marx mapeou a estrutura
por lá publicados para cidadãos, as narrativas do capitalismo de uma CONTOS
depois serem traduzidos de Bandi (que ainda forma que ainda hoje
para 17 países. mora no país) trabalham suscita debates. Seu nome A acusação
As narrativas primam a previsibilidade como inquieta os reacionários Autor - Bandi
pelo realismo em elemento importante. É e os neoliberais, prova Editora - Biblioteca Azul
linguagem acessível, preciso se fazer entender simples e efetiva de Páginas - 232
com metáforas de fácil às claras. Os personagens sua atualidade. Ao nos Preço - R$ 39,90
31
PERNAMBUCO, AGOSTO 2018

Perdidos numa Barcelona selvagem PRATELEIRA


Não a Barcelona reluzente, irreal, quase para turistas, nativos. Uma Barcelona escritores, críticos, etc) O FOGO E O RELATO
orgulhosa de si, nem como o gazpacho e o incomodada com a pecha por peripécias absurdas. Reunião de dez ensaios do filósofo italiano
muito menos a Barcelona Gaudí da Barcelona dos de cosmopolita, mas já é Mas Villalobos é um Giorgio Agamben, na qual ele discorre sobre
do gazpacho perfeito, folders. Sobre a mudança tarde demais para retirá-la, narrador tão exímio que o “elemento passível de ser desenvolvido” e
do Gaudí ou do Paseo de geográfica, o autor chegou uma cidade que se perde sabe usar o fantasma de da “zona impessoal de indiferença” a partir
Gracia e suas vitrines de a comentar em artigo para pelas ruelas invisíveis ao Bolaño sem ser petrificado de autores clássicos da literatura ocidental.
luxo. Não a cidade que os o Pernambuco: “O México lado de suas luminosas por ele (o que acontece Nesta obra se veem os conceitos que deram
turistas compram caro para não era mais aquele país ramblas, de habitações com muitos dos seus notoriedade aos trabalhos de Agamben —
ver, e que talvez nem mais onde eu morava, aquela minúsculas, sem eira nem contemporâneos). Ninguém inoperosidade, uso, potência-de-não e
exista, já que tudo o que pátria que eu conhecia. beira. Uma Barcelona que precisa acreditar em mim é um forma-de-vida – no texto elencados em uma
passa a ser vendido por Dentro de mim, o México pedia para ser escrita. dos bons lançamentos inquietação que assola muitos intelectuais: qual
uma agência de turismo, e estava deixando de ser um Na escrita, o autor de língua espanhola a seria o “mistério da literatura”?
seus folders coloridos, deixa espaço real de interação reacende não apenas chegar ao Brasil este
um pouco de respirar. Vira para virar um cantinho seu talento em construir ano. Um romance
uma múmia amaldiçoada de lembranças. Um lugar, tramas à beira do selvagem, mas com uma
pelo excesso de marketing e até, imaginário. Cada nonsense com passagens selvageria toda própria.
de flashes fotográficos. Não vez que eu colocava a violentas (nas cenas e na (Schneider Carpeggiani)
é, definitivamente, essa a bunda na cadeira para linguagem). Também se
Barcelona que o escritor escrever, sentia que consagra como artesão Autor: Giorgio Agamben
mexicano Juan Pablo o cenário do enredo de histórias engraçadas, Editora: Boitempo
Villalobos escolheu para escorregava entre minhas algo entre o riso solto e Páginas: 168
abrigar seu novo romance, mãos. Eu pressentia o a desfaçatez da ironia. Preço: R$ 41
Ninguém precisa acreditar em perigo iminente de tornar Após ser comprometido
mim, vencedor do Prêmio folclórico, exótico, aquele num negócio esdrúxulo TERRA ESTRANHA
Herralde (o mesmo que que tinha sido meu lar” pelo primo, o Villalobos- Importante obra da literatura norte-americana
consagrou Roberto Bolaño Ninguém precisa acreditar -personagem acaba que volta ao mercado brasileiro em tradução
e seu Os detetives selvagens). em mim é um romance tendo sua pós-graduação de Rogerio Galindo. A partir do envolvimento
Após uma série de livros policial, com cobertura comandada por um grupo de Rufus, um baterista negro, com Leona,
que pode ser considerada de autoficção – o criminoso envolto em mulher branca do sul dos EUA, James Baldwin
sua trilogia mexicana protagonista se chama mistérios. O que mesmo (1924-1987) aborda temas relevantes, como
(Festa no covil, Se vivêssemos Juan Pablo Villalobos e, eles teriam a ganhar com raça, nacionalismo, depressão e também
em um lugar normal e Te vendo assim como o autor um esse aluno de Letras? O a bissexualidade – um tabu para a época
um cachorro), Villalobos dia, foi para a capital catalã romance parece prestar (1962). Os personagens tentam reverter
decidiu voltar o olhar para fazer uma pós-graduação homenagem a Bolaño, ROMANCE as barreiras do racismo e das convenções
a cidade onde hoje habita, em literatura –, que flagra que já foi um latino- burguesas em busca de si mesmos.
onde formou família, uma cidade barata, suja, americano perdido Ninguém precisa acreditar em mim
onde constituiu uma ideia veloz, ímã potente para pelas ramblas catalãs e Autor - Juan Pablo Villalobos
qualquer de normalidade imigrantes da América que tanto gostava de Editora - Companhia das Letras
e cotidiano. Seu México Latina, boludos que recebem meter seus intelectuais Páginas - 264
natal ficou distante, quase olhar de desdém dos (estudantes, professores, Preço - 54,90

Autor: James Baldwin


Editora: Companhia das Letras

As circunstâncias Os autocratas Páginas: 568


Preço: R$ 69,90

BARATAS
Um testemunho da o exíguo espaço de Os Romanov acessível que nos situa Romance que investiga a desumanização
agressividade contra a um catálogo de arte, governaram a na complexa rede de ocorrida no genocídio do povo tutsi ocorrido
arte é o que vemos em O carece de ideias sobre Rússia por 300 anos, ocorridos que sempre em Ruanda nos anos 1990, no qual morreram
texto e suas circunstâncias, do o reacionarismo (por foram depostos pela envolveram os monarcas 800 mil pessoas. Como um pai de família ou
curador Rodrigo Moura. exemplo, pensar como o Revolução de 1917 e há russos. Montefiore revira um colega de escola é subitamente levado a
Ele parte da censura sistema educacional brasileiro um tempo despertam a história de um casal empunhar armas e assassinar uma população?
que tentaram impor à não educa para a arte) – que interesse dentro lendário sem deixar A narrativa compõe o ciclo testemunhal da
exposição Faça você mesmo abrem questionamentos e fora de seu país o mito infértil. Pelo obra de Mukasonga, composto também por
a sua capela Sistina, de Pedro às produções ditas natal (o último czar contrário, ao fim do A mulher de pés descalços e Nossa Senhora do Nilo –
Moraleida (1977-1999), artísticas. Vale por manter e sua família foram livro entende-se a força todos destinados a pensar o genocídio tutsi.
realizada em BH no em pauta uma discussão canonizados em 2000, dos dois em conjunto
ano passado. A mostra, urgente por meio de gesto que demonstra sem se desmerecer
que recria o imaginário uma respeitada voz do perigoso revisionismo a competência de
católico de forma crítica, campo das artes visuais. histórico, a meu ver). Catarina – uma das
foi hostilizada por O texto pode ser lido no Em Catarina, a Grande maiores monarcas que a
religiosos. Segundo Moura, link bit.ly/2uBusXo (I.G.) & Potemkin, vemos Europa conheceu (I.G.)
é pela incompreensão movimentos anteriores Autora: Scholastique Mukasonga
das dinâmicas de a esse processo, do Editora: Nós
representatividade na arte século XVIII, quando Páginas: 192
que religiosos fanáticos a Rússia autocrática Preço: R$ 40
são levados a entender estava no auge. Estava
que as imagens “são no auge porque ARDIS DA IMAGEM
pinturas e aqueles seres Catarina e Potemkin Livro com análises de manifestações do
não existem a não ser eram amantes que “racismo à brasileira”. É fruto de pesquisa
naquelas pinturas, se completavam de campo e de uma profunda reflexão teórica.
estando portanto isentos intelectualmente, Os textos expõem as graves consequências dos
de antemão de quaisquer dois estadistas discursos de exclusão e, em paralelo, cobram da
julgamentos que possam sempre tratados pela sociedade brasileira posicionamento de respeito
caber a nós mortais”. crônica da época e de defesa dos direitos humanos.
O texto interessa tanto como “geniais”. É na
por mostrar como uma curiosidade sobre a
parte visível do discurso fronteira inexistente
religioso instila um ódio ARTIGO entre os indivíduos e BIOGRAFIA
burrificante quanto por o Estado que surge a
colocar o trabalho de Um texto e suas circunstâncias força do livro. O que Catarina, a Grande & Potemkin Autores: Edimilson de A. Pereira
Moraleida como resposta Autor - Rodrigo Moura se vê é uma avalanche Autora - Simon S. Montefiore e Núbia Pereira M. Gomes
ao reacionarismo que Editora - Chão da Feira consistente de dados Editora - Companhia das Letras Editora: Mazza
assola o país. A narrativa, Páginas - 4 bem sistematizados, Páginas - 816 Páginas: 296
por ter sido feita para Preço - Gratuito numa escrita clara e Preço - R$ 89,90 Preço: R$ 60
32
PERNAMBUCO, AGOSTO 2018

José
CASTELLO www.facebook.com/JoseCastello.escritor
ARTE SOBRE IMAGEM DE REPRODUÇÃO

De cabeça para baixo


Aos saudosistas do autoritarismo, que hoje Fogem, sobretudo e sem que ela possa desesperadas de emprestar um sentido, ou
se multiplicam, desesperançados e ferozes, entender por que, da polícia de E.L.E.S. Há de oferecer uma solução, ao incompreen-
pelo país, sugiro a leitura não de um panfleto alguma coisa errada, há uma guerra que sível. Os adultos mudam as coisas de lugar,
político, não de um tratado de Sociologia ou não se deixa ver, alguma tensão que sempre escondem e disfarçam objetos, escapam.
de um ensaio de história contemporânea, escapa e que, no entanto, está, o tempo todo, Fazem coisas incompreensíveis, mas que
mas de uma inspirada narrativa infantoju- ali mesmo. Nesse território de indefinição, Clarice respeita mesmo sem compreender.
venil: Clarice, de Roger Mello (Global Editora, o próprio nome da menina, Clarice, passa a Ideias incômodas lhe vêm à mente: “Vai ver
com lindas ilustrações de Felipe Cavalcante). soar estranho. “Clarice clarice clarice, meu fabricam um explosivo”. Mas o que é explo-
No inesquecível livro de Roger, que já surge nome assim repetido vai ficando longe de sivo mesmo é aquele estado de turvação e
como um clássico, uma menina, chamada mim. Quanto mais repetido, mais estranho de negação em que ela é obrigada a viver.
apenas de Clarice a– uma homenagem de- parece o meu próprio nome.” Nesse ponto, Tarso é mais esperto do que
clarada à escritora – relata sua difícil vida O primo chega para visitá-la e a tia – que ela: “O Tarso ouvia conversas que os outros
sob um regime político de trevas e exceção. agora cuida da menina – pede que Clarice tentavam esconder. Um especialista, ele. Eu
É um mundo revirado, um mundo que, a nada fale com o garoto sobre livros e pedras. não me atrevia a ouvir os silêncios”. Silêncio,
cada pequeno passo, pede não só compre- Livros amarrados em pedras que são traga- pausas, palavras engolidas a seco, códigos,
ensão, mas, sobretudo, decifração. “Esse é dos pela boca imensa do lago: o que podem gestos escondidos: todo um mundo não só
um mundo em que tudo está de cabeça pra significar? Como conseguir ler um livro que a decifrar, mas a suportar. Como as lacunas
baixo”, descreve a menina. Amparada pela foge? Uma vizinha a leva, na companhia são profundas, Clarice as preenche com a
presença de seu pequeno companheiro Tar- de Tarso, a uma sessão de cinema no Cine imaginação, e assim chega a explicações
so, jogada aqui e ali para as mãos de adultos Brasília. Sim: é de Brasília que se trata. Lá ainda mais desconexas e incompreensíveis.
diferentes, Clarice enxerga um mundo pela está o grande lago Paranoá, lá estão os livros “Uma outra conversa foi interrompida pela
metade – exatamente como acontece quando, guarás assustados e perdidos entre os car- metade.” Tudo fica pela metade, nada se
durante a noite, sem a ajuda de uma lanterna ros, lá está o nome, Brasília, que se repete conclui, ou se fecha; partido ao meio, é um
ou vela, atravessamos um quarto escuro. O em várias partes. Lá estão os Aero Willys mundo manco e vacilante que lhes resta.
que se vê é muito pouco, mas o bastante para Itamarati, os carros da época – “palácio A realidade se torna, cada vez mais, inde-
despertar estupefação e as piores fantasias. sobre rodas”, se dizia – a carregar figuras cifrável. Quem fala o que? Frases misturadas,
Pessoas que desaparecem, livros de capa obscuras e ameaçadoras. vozes também, palavras que se derretem e
vermelha que são lançados, durante a noite O pai de Clarice também sumiu. Traba- se confundem. Trevas: a palavra é mesmo
escura, em um grande lago, homens duros e lhava para E.L.E.S, com a missão de cortar essa. Para se salvar de tanta confusão, Cla-
anônimos, vestidos de uniformes, que Cla- cenas de filmes consideradas perigosas. rice se põe a conversar consigo mesma. “Eu
rice define apenas como E.L.E.S. Escuridão, Quando falam do pai, usam a palavra “sub- pergunto e eu respondo. Eu concordo, eu não
estranhamento, e, mais ainda, medo. versivo”. “Não sabíamos o que era essa pa- concordo, eu fico dias sem falar comigo.”
“Que sentido faz alguém que tem tantos lavra, ‘subversivo’. Mas ouvíamos muito, Assim, tem, pelo menos, algum controle
livros atirar livros pela ponte?” Não há sen- então repetíamos sem saber mesmo: sub- sobre a realidade.
tido algum, mesmo para quem consegue ver versivo, subversivo subversivo. Era bom de Até que Tarso vai embora. Clarice o leva ao
a paisagem por inteiro, ainda mais para uma repetir.” Sim: talvez a repetição interminá- aeroporto. Ele diz que vai para a Coreia, conta
menina, de quem quase tudo se esconde, ou vel da palavra misteriosa fosse uma maneira muitas histórias da Coreia, mas ela sabe
se tenta esconder, e que, em consequência, vê de controlar – ou de imaginar controlar – o que, na verdade, ele vai para o Chile. Assim,
sempre um mundo partido ao meio. “No mais, próprio medo. Nesse mundo adverso, nada escapa daquele mundo raso e uniformizado.
as coisas ficam assim sem muita explicação se completa, nada se conclui, tudo se eva- E.L.E.S. têm um mundo só deles, em que
no mundo dos livros afundados.” Um mundo pora – então restam palavras vazias a que tudo se repete e se fecha. “E.L.E.S. têm seu
que foge – todos parecem estar assustados e se agarrar em busca de uma explicação. De próprio aeroporto, o seu próprio mercado,
em fuga. Um mundo marcado pelo rombo de uma respiração. E.L.E.S. têm um planeta só deles.” Para se
uma mãe desaparecida, de quem a menina não “Nossa conversa ficou pela metade tam- salvar, Clarice se apega a lembranças do
teve, sequer, tempo para se despedir. “Se não bém. Como um filme cortado.” Mesmo em futuro. Só no futuro pode haver uma saída.
faz sentido, procuro entender um movimento um mundo tão adverso, a tia de Clarice e Sim, porque, em um mundo que se fechou,
sem sentido.” A razão, mesmo quando tudo mãe de Tarso continuam a lutar, e a meni- já não há saída alguma. Não se pode sequer
conspira contra ela, nunca perde a esperança. na é arrastada por aquelas tentativas meio respirar. É preciso não esquecer.