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JUDITH KRANTZ

New York New York

Título original: Take Manhattan

Tradução: Luzia Machado da Costa

Projeto gráfico: Neslé Soulé

© 1986 by Falk Publishing Co:

Para Steve, que sabe por que continuo a lhe dedicar livros. Com todo o meu amor, sempre.

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ISBN: 85-01-15633-7 Depósito Legal: B. 33.229-97 Impresso em Espanha - Printed in Spain

Impressão e encadernação:

Cayfosa, S.A.

Maxi Amberville, com uma impaciência característica e um desrespeito eterno pelos


regulamentos, levantou-se de sua poltrona no Concorde que estava rolando, prestes a parar, e
correu para a saída da frente pelo corredor estreito. Seus companheiros de viagem estavam
sentados, com a tranqüilidade superior daqueles que pagaram o dobro de uma passagem de
primeira classe para viajar de Paris a Nova York e não têm mais pressa. À passagem rápida de
Maxi, algumas sobrancelhas se ergueram diante de uma garota tão imperdoavelmente bonita
numa corrida sem modos.

— Por que está demorando tanto? — perguntou ela à comissária.

— Ainda não chegamos, madame. — Não chegamos? Claro que chegamos. Uma droga esses
aviões... passam mais tempo no solo do que no ar. — Maxi estava trêmula de indignação e
cada centímetro de seu corpo, cheio de uma energia nervosa e intensidade de propósitos,
exprimia sua reprovação pelos serviços da Air France.

— Madame, poderia fazer o favor de voltar à poltrona? — Volto porra nenhuma. Estou com
pressa. Maxi ficou firme, os pés plantados nas botas sem salto que sempre usava para viajar.
Os cabelos escuros e curtos estavam eriçados em sete direções diferentes, aqui para cima, ali
cobrindo parte da testa com uma franja grossa que lhe caía sobre o rosto indignado. Ela
chamaria a atenção numa sala cheia de mulheres bonitas, pois fazia a simples beleza parecer
não apenas sem importância, como também desinteressante. A luz fraca da cabine ela estava
acesa, em expectativa, como se prestes a entrar num salão de baile. Maxi usava um paletó
velho, de camurça cor de conhaque, com um cinto apertado e jeans bem surrada enfiada nas
botas, uma bolsa a tiracolo, indo de um ombro

ao quadril oposto. Ao afastar a franja, impaciente, mostrou a mecha grossa de cabelos brancos
com que nascera, que saía da raiz dos cabelos sobre o olho direito.

O Concorde parou, afinal, e a comissária de bordo, com um desdém distinto, ficou olhando
para Maxi, que passou pela porta antes que ela se abrisse de todo, um passaporte americano
na mão livre.

Maxi parou no primeiro balcão da Imigração e apresentou seu passaporte ao inspetor. Ele o
abriu na foto dela, olhou com displicência e depois mais atentamente.

— Maxime Emma Amberville? — perguntou. — Certo. Não é uma foto horrorosa? Olhe, estou
com pressa. Pode carimbar logo esse negócio e me deixar sair daqui?

O inspetor olhou para ela, examinando-a calmamente, e tocou numas teclas de seu
computador.

— Quem é — perguntou ele, afinal — Maxime Emma Amberville Cipriani Brady Kirkgordon?

— Já sei, já sei. Um nome desajeitado, no mínimo. Mas não é contra a lei.

— O que eu queria dizer, senhorita, é por que não tem o seu nome completo neste
passaporte?

— O meu passaporte velho expirou no verão e tirei um novo em Paris, na embaixada... pode
ver que é novo.

— Mudou seu nome legalmente? — Legalmente? — disse Maxi, ofendida. — Todos os meus
divórcios foram perfeitamente legais. Prefiro o meu nome de solteira, portanto voltei a usá-lo.
Quer ouvir toda a história da minha vida? Todos no desgraçado daquele avião vão passar na
minha frente. Agora vou ter de esperar na alfândega!

— A bagagem ainda não saiu do avião — disse ele, num tom razoável.

— É isso mesmo! Não tenho bagagem nenhuma. Se não estivéssemos discutindo o meu
passado escabroso, eu já estaria num táxi. Ah, droga, pombas! — reclamou ela, furiosa.

O inspetor continuou a examinar o passaporte. A foto não conseguia transmitir aquela


qualidade de vitalidade elétrica da moça e, embora estivesse bem acostumado com fotos
ruins, por um momento ele não se convencera de que o retrato era legítimo. Mostrava
sobretudo uma franja e uma boca sorrindo, neutra, mas a mulher furiosa ali à sua frente, os
cabelos parecendo penas de algum pássaro indignado, tinha uma audácia, um arrojo que o
obrigariam a reparar nela, como se tivessem acendido um facho luminoso à sua frente. Depois,
ela não parecia ter idade para ter tido mais de um marido, quanto mais três, a despeito da
data de seu nascimento, 29 anos antes.

Com relutância, o inspetor carimbou o passaporte com a data do dia, 15 de agosto de 1984, e
o devolveu, tendo antes feito uma anotação ilegível no verso da declaração para a alfândega.

Movendo-se com a agilidade de girino do nova-iorquino nato, Maxi jogou a bolsa a tiracolo
num balcão da alfândega e procurou um inspetor, impaciente. Aquela hora matinal, eles ainda
estavam reunidos a um canto do salão grande, acabando o cafezinho da manhã, sem pressa de
começar o trabalho do dia. Vários dos funcionários da alfândega avistaram Maxi ao mesmo
tempo, cada qual largando sua caneca de café abruptamente. Um deles, jovem e ruivo, se
separou dos outros e se dirigiu para Maxi.

— Qual é a pressa, O’Casey? — perguntou outro inspetor, pegando-o pelo braço.

— Quem é que está com pressa? — perguntou ele, livrando-se do outro. — Acontece que esta
gata é minha — declarou, dirigindo-se rápido para Maxi e, na sua determinação, deixando para
trás os seus colegas mais próximos. — Bem-vinda a Nova York — disse ele — Condessa de
Kirkgordon, se não me engano.

— Ora, corta essa de condessa, O’Casey. Você sabe que já larguei o coitado do Laddie há
tempos. — Maxi o fitou com certa inquietação, as mãos nos quadris. Falta de sorte, cair nas
mãos de Joseph O’Casey, topetudo, sardento e bem bonitão, que se achava uma reversão
qualquer a Sherlock Holmes. Devia haver uma lei que impedisse que funcionários públicos
como ele molestassem os cidadãos decentes.

— Como eu poderia me esquecer? — perguntou ele, com espanto. — A senhora se divorciou


pouco antes de chegar aqui com um guarda-roupa inteiramente novo, de Saint-Laurent...
Nunca foi grande costureira, Sra. Amberville... aquelas etiquetas da Saks que pregou não
estavam nada profissionais. Será que nunca vai aprender que estudamos a moda européia
assim que ela é fotografada?
— Parabéns, O’Casey. — Maxi fez um gesto de aprovação, solene. — Vou me lembrar.
Enquanto isso, pode me fazer um favor e examinar a minha bolsa? Hoje estou com uma pressa
tremenda.

— Da última vez que estava com pressa, foi uma questão de vinte vidros de Shalimar, do
tamanho de duzentos dólares. E antes disso foi um novo Patek Polo, o que estava usando bem
à vista, no seu pulso, pensando no caso da carta roubada, sem dúvida. Era de ouro puro e valia
oito mil dólares, apenas. E depois, vejamos, não foi há tanto tempo que tivemos aquele
probleminha do visou Fendi, a tintura de rosa, que me disse ser uma brincadeira, procedente
de uma feira, valendo menos de trezentos dólares. Custou 1.500 paus em Milão, se me lembro
bem. — Ele sorriu, satisfeito consigo mesmo. Nada como boa memória para os detalhes.

— O Shalimar foi um presente — retrucou Maxi — para uma amiga. Nem uso perfume. —
Deve incluir os presentes, a declaração deixa isso bem claro aqui — disse O’Casey, sem
expressão.

Maxi olhou para ele. Não havia demência naqueles olhos irlandeses. Estavam sorrindo, sim,
mas não sem maldade.

- O’Casey — reconheceu ela — você tem toda a razão. Sou contrabandista contumaz. Sempre
fui contrabandista, e provavelmente sempre serei. Não sei por que faço isso, e gostaria de
poder parar. É uma neurose. Estou doente. Preciso de ajuda. Vou arranjar quem me ajude,
quando puder. Mas juro que desta vez... só desta vez... não trouxe nada comigo. Estou aqui a
negócios e tenho de chegar logo à cidade. Já devia estar lá, pelo amor de Deus. Examine minha
bolsa e me deixe passar. — Ela falou, implorando: — Por favor.

O’Casey a examinou atentamente. Ela era tão bonita, essa dona que se arriscava tanto, que ele
sentia seus dedos dos pés se enroscando nas solas dos sapatos só de olhar para o rosto dela.
Quanto ao resto — pois, como todos os inspetores da alfândega, era treinado no significado da
linguagem corporal — nada era visível no momento. Só Deus sabia o que ela estaria trazendo,
para conseguir ficar ali tão inocente.

— Não pode ser, Sra. Amberville — disse ele, sacudindo a cabeça, com pesar. — A Imigração
conhece o seu passado, anotou-o bem na sua declaração, e não há jeito de deixa-la passar
assim. Vamos ter de revistá-la.

— Pelo menos olhe a minha bolsa, droga! — disse Maxi, não mais suplicando.

— Evidentemente, não deve estar aí. Tem de estar em sua pessoa, seja o que for — respondeu
O’Casey. — Vai ter de esperar até que uma inspetora compareça ao serviço. Deve chegar uma
daqui a uma ou duas horas, e vou fazer com que ela a atenda primeiro.

— Uma revista pessoal? Está brincando! — exclamou Maxi, com um espanto sincero. Tendo
passado 29 anos conseguindo fazer quase tudo a seu jeito, ela estava convencida de que os
regulamentos normais não se aplicavam à sua vida. E certamente ninguém fazia nada com
Maxi Amberville sem sua permissão. Nunca. Nunca!

— Estou falando sério — disse O’Casey com calma, uma sugestão de sorriso nos lábios.
Maxi o fitou, sem acreditar. Estava falando sério mesmo, aquele sacana enlouquecido pelo
poder. Mas todo homem tem seu preço, até mesmo Joe O’Casey.

— Joe — disse ela, com um suspiro profundo — nós nos conhecemos há anos, certo? E nunca
fui má cidadã, não é? O Tesouro dos Estados Unidos está muito mais rico com as minhas
multas do que estaria se eu tivesse simplesmente pago os direitos.

— É o que sempre lhe disse, toda vez que a pilhava, mas não quis me dar ouvidos.

— Eu nunca trouxe entorpecentes, ou queijo não-pasteurizado, ou um salame com aftosa...


Joe... podemos fazer um trato? — A voz dela passou da adulação para um tom delicado mas
inconfundivelmente obsceno.

— Não aceito propinas — disse ele, com rispidez. — Já sei — disse ela, suspirando — sei muito
bem. Mas isso é problema seu, Joe. Você é de uma honestidade neurótica. Não, quero fazer
uma troca.

— Que tipo de bobagem está querendo fazer, Sra. Amberville? — Pode me chamar de Maxi.
Estou sugerindo a entrega direta e honesta de um corpo em troca de uma busca pessoal
desnecessária.

— Um corpo? — repetiu ele, sem expressão, se bem tivesse uma idéia bem clara das intenções
dela, e a simples possibilidade de uma fortuna dessas fosse suficiente para fazê-lo se esquecer
da farda que usava.

— Um corpo, o meu mesmo, isento de direitos, acolhedor, quente e todo ele, cada centímetro,
para você, Joe O’Casey — disse Maxi, passando a ponta do dedo entre dois do inspetor, sem
desgrudar os olhos de cima dele. Maxi lhe lançou um olhar que Cleópatra tinha inventado, mas
ela aperfeiçoara.

O homem cedeu. Ela percebeu, porque ele corou tanto que as sardas quase desapareceram.

— Hoje, às oito da noite, no P.J. Clarke’s? — perguntou ela, quase casualmente.

Ele concordou, sem palavras. Com um ar sonhador, marcou a bolsa de Maxi com giz e
dispensou-a.

— Sou sempre pontual — disse Maxi, por cima do ombro, se afastando. — Portanto, não me
faça esperar.

Dois minutos depois, ela começou a se descontrair, sentada no banco de trás da limusine azul
comprida que estava à sua espera, dirigida por seu chofer, Elie Franc, conhecido como o mais
hábil e veloz da cidade. Não adiantava dizer a ele que se apressasse, pois nada com rodas
podia ultrapassar Elie, a não ser um guarda de trânsito; e Elie era sabido demais para cair nas
armadilhas deles.

Olhando rapidamente para o relógio, Maxi viu que, a despeito da lerdeza incrível com que
funcionavam as companhias aéreas e as normas de desembarque, ela conseguiria chegar a
tempo ao seu destino. Na véspera, pela manhã, estava na Bretanha, em Quiberon,
submetendo-se ao regime de banhos de espuma da água do mar quente, indicado depois de
um verão desusadamente movimentado, quando recebera um telefonema do irmão, Toby,
dizendo que voltasse às pressas para Nova York, para uma inesperada reunião do conselho das
Edições Amberville.

O pai deles, Zachary Amberville, fundador das Edições Ambervilie, morrera de súbito, num
acidente, há pouco mais de um ano. A firma que deixou era um dos gigantes do ramo de
revistas americano, sendo as reuniões de conselho em geral planejadas com bastante
antecedência.

— Alguma coisa nessa pressa está me deixando nervoso, Cachinhos Dourados — dissera Toby.
— Estou pressentindo problemas. Soube disso por acaso. Por que não fomos avisados? Você
pode vir, assim de repente?

— Claro. Assim que tirar esse sal no chuveiro, posso pegar o avião de Lorient para Paris, passar
a noite e pegar o Concorde enquanto vocês ainda estão dormindo em Nova York. Não há
problema — respondera ela.

E, de fato, a não ser o breve empecilho causado por O’Casey, ela teria chegado cedo, em vez
de bem em cima da hora.

Então, pela primeira vez desde que o Concorde pousara, Maxi notou que, embora o dia
estivesse fresco para fins de agosto, esquentava cada vez mais. Ela tirou o paletó e notou
alguma coisa roçando em sua cintura, sob o cinto da jeans. Com uma expressão perplexa,
enfiou a mão e puxou uma corrente de platina fina, que prendera ali não mais de seis horas
antes, em sua suíte favorita do Ritz de Paris. Uma imensa pérola negra pendia da corrente,
coroada por duas plumas de brilhantes, de Cartier. Bizarra, pensou Maxi, pendurando a jóia no
pescoço. Era brilhantemente barroca, prodigamente opulenta e saliente. Como ela poderia ter-
se esquecido dela tão completamente? No entanto, economizar é ganhar, pensou ela,
deleitando-se com o prazer de alguém que ganha roubando no jogo de Monopólio. 10

Elie parou o carro diante do novo Edifício Amberville, na esquina da Rua 54 e Madison. Maxi
não esperou que ele desse a volta para abrir a porta. Tornando a consultar o relógio, saltou da
limusine e passou correndo pelo átrio de vidro, com um pé-direito de quatro andares, sem
reparar nas dúzias de árvores, cada qual tendo custado o preço de um carro pequeno, e sem
nem olhar para as centenas de vasos de orquídeas e samambaias pendurados. A botânica não
estava em seus pensamentos quando tomou o elevador direto para o andar dos executivos e o
seu objetivo: a sala do conselho do império que seu pai fundara em 1947, com uma pequena
revista comercial. Ela abriu as portas pesadas e se postou, imóvel, olhando para todos ali
reunidos, as mãos nos quadris, as pernas separadas, de botas, posição que assumia muitas
vezes desde que aprendera a se pôr de pé. Muitas vezes o mundo apresentava situações que
não agradavam plenamente a Maxi, o que justificava um ceticismo básico.

— Qual é exatamente o motivo de estarmos aqui? — perguntou ela a um grupo de redatores,


editores e gerentes comerciais antigos, no momento de silêncio que precedeu suas
exclamações de surpresa e cumprimentos. Mas eles sabiam tanto quanto ela, e muitos tinham
voltado às pressas para a cidade, interrompendo suas férias de verão para comparecerem à
reunião. A diferença é que eles foram chamados oficialmente, enquanto Maxi descobrira por
acaso. Maxi já faltara a muitas reuniões do conselho, às quais era convidada como coisa
rotineira, mas achava inconcebível que não fosse informada.

Um homem de cabelos brancos, miúdo e requintado, se separou dos outros e se dirigiu a ela.

— Pavka! — exclamou Maxi com prazer, abraçando Pavka Mayer, diretor de arte de todas as
dez revistas Amberville. — O que é que está havendo? Onde estão minha mãe e Toby?

— Gostaria de saber. Não aprecio viagens apressadas de Santa

Fé, sem falar em perder a ópera de ontem. Sua mãe ainda não chegou — respondeu Pavka.

Ele conhecia e amava Maxi desde que ela nascera, e compreendia que sua vida complicada se
dedicava a conseguir obter o máximo de prazer que ainda se pudesse encontrar no planeta
Terra. Ele a observara crescendo, e ela lhe lembrava um garimpeiro bateando ouro, passando
febrilmente de um garimpo a outro, encontrando aqui alguns gramas de minério, ali apenas
pedrinhas sem valor e passando logo adiante, mas sempre procurando aquele veio de ouro
puro — prazer puro — aquela descoberta vital que, ao que ele soubesse, continuava a lhe
escapar. Mas ela acreditava que existia e Pavka tinha certeza de que se alguém a encontrasse a
pessoa seria Maxi.

— Acho tudo isso meio esquisito — murmurou Maxi. — Eu também. Mas, me diga, o que
andou fazendo durante o verão, menina? — perguntou ele.

— Ah, as coisas de sempre... despedaçando corações, fazendo bagunça, dando o golpe nos
playboys, não obedecendo às regras do jogo, me pondo em forma, ficando em dia com os
gatos. Você sabe disso, Pavka querido... minhas brincadeiras normais de verão, às vezes
ganhando no ataque e perdendo no contra-ataque, um toque de sedução aqui e ali... nada de
sério.

Pavka a examinou com um olhar experiente de diretor de arte. Embora a conhecesse tão bem,
sempre ficava um tanto assombrado — como se tivesse levado um choque elétrico — diante
da presença física de Maxi, pois, por algum motivo, ela era mais real do que as outras pessoas,
mais ali. Se bem que tivesse apenas altura mediana, cerca de 1,67m, e não ocupasse muito
espaço, com seu corpo elegante e cinturinha fina como a de uma rainha da belle époque,
assim mesmo criava ao seu redor um espaço vibrante pela simples energia hipnótica. Para
quem sabia ver o corpo através das roupas, ela possuía seios fortes e belos e maravilhosos
quadris e coxas, sem ser opressivamente voluptuosa, e a arrogância masculina de pirata de
suas roupas só a tornava mais feminina. Seus olhos incomparavelmente verdes, do tom exato
do jade imperial — fresco, brilhante e puro — não eram turvados por qualquer problema.

Pavka sabia que fotografia nenhuma jamais captaria a essência de Maxi, pois lhe faltava a
estrutura óssea perfeita que a mulher precisa para a fotografia, mas nunca se cansava de olhar
para aquelas sobrancelhas escuras e retas, sempre erguidas numa leve expressão de surpresa
acima de seu olhar maldosamente direto. O nariz, delicadamente moldado, seria clássico se
não fosse levemente arrebitado na ponta, dando-lhe um ar de esperteza espirituosa, e a
mecha de cabelos brancos só fazia parecer mais escuro o cabelo curto e grosso, eternamente
despenteado. No entanto, para Pavka, a boca era sua feição mais interessante. O lábio inferior
fazia uma curva terna numa sugestão de sorriso, e o lábio superior era positivamente
arqueado, com uma pintinha à esquerda de seu centro bem cavado. Uma boca de feiticeira,
disse ele consigo, com o critério merecido de um homem que durante mais de cinqüenta anos
amara as mulheres com pleno êxito.

Pavka ainda estava admirando Maxi quando as portas da sala se abriram de novo e Toby
Amberville entrou. Maxi correu para junto dele.

— Toby — disse ela, baixinho, pouco antes de chegar junto dele. Ele parou logo e lhe abriu os
braços, puxando-a para si. Ela ficou assim abraçada a ele por um momento de sossego,
levantando o rosto para a cabeça curvada do irmão a fim de esfregarem as pontas dos narizes.
— O que é que está acontecendo, Toby? — cochichou Maxi.

— Não sei. Há dias que não consigo falar com mamãe. É um mistério, mas parece que já vamos
descobrir. Você está ótima, guria — acrescentou, largando-a.

— Quem foi que disse? — sussurrou Maxi. — Eu que digo. Sinto o cheiro nos seus cabelos. Seu
rosto está parecendo queimado de sol, sol da montanha, e não de Southampton. E você
engordou uns trezentos gramas mais ou menos, bem no bumbum. Muito gostoso.

Toby a empurrou de leve e ela ficou observando da entrada, enquanto ele entrava no salão,
seu irmão dois anos mais velho que ela, um irmão que sabia mais a respeito dela só de tocar
em suas palmas ou escutar três palavras de sua boca do que qualquer outra pessoa no mundo.

Toby Amberville era um homem alto, aparentemente incansável, com um jeito absorto,
introspectivo, que o fazia parecer mais velho do que seus 31 anos. À primeira vista, não tinha
qualquer feição física em comum com Maxi, mas havia uma semelhança no modo como ambos
ocupavam plenamente o espaço em que se encontravam. A boca de Toby, terna e cheia,
parecia contradizer a força do queixo, a determinação obstinada que intimidava tanta gente, a
despeito de sua risada pronta e sua beleza vigorosa e sadia. Tinha olhos castanhos ambarinos,
em volta dos quais começavam a surgir rugas. Ao observador desatento pareceriam sinais de
um homem que apertava os olhos, que talvez fosse míope e se recusava a usar óculos por
vaidade.

Maxi ficou para trás a fim de examiná-lo enquanto ele seguia na frente, com facilidade e
confiança, sentando-se na cadeira que fora deixada vazia para ele por ordem do pai desde os
seus 21 anos, uma cadeira que esperava por ele a cada reunião editorial, uma cadeira que
Toby ocupava cada vez mais raramente, à medida que o progresso de sua doença, retinite
pigmentar, tornava sua visão cada vez mais limitada. Maxi se perguntou se sua visão de túnel
ainda estaria relativamente estável. Nunca era fácil saber o que Toby via ou deixava de ver, já
que uma das características da doença era que sua visão variava de dia para dia, dependendo
da série de condições em que ele se encontrava, a distância e ângulo de onde olhava para
alguma coisa, o brilho da luz e uma dezena de outros elementos variáveis que tinham uma
inconstância enlouquecedora, de modo que em certos momentos ele tinha uma visão precisa,
o que só tornava muito mais difícil de suportar a volta ao seu estado de quase cegueira. Mas
ele suportara e se conformara com o seu estado, tanto quanto alguém poderia se conformar,
pensou Maxi, enquanto o escutava cumprimentar as várias pessoas na sala, reconhecendo-as
imediatamente e se virando para elas ao som de suas vozes. Por um instante, Maxi se
esqueceu do motivo por que estava ali naquele salão, perdendo-se na contemplação carinhosa
do irmão.

— Maxime. Seu nome foi pronunciado com uma voz que tinha um leve sotaque britânico, uma
voz de prata cuja beleza fazia Maxi estremecer. A voz da mãe era a única no mundo que
conseguia fazer com que ela saltasse e, no entanto, parecia que nunca fora erguida para dar
uma ordem ou pedir um favor, quanto mais exprimir raiva. Era uma voz de um tom tão seguro
e afável, de um encanto tão calmo e macio, que tinha conseguido tudo — ou quase tudo —
quanto sua possuidora já quisera. Maxi virou-se para falar com a mãe, preparando-se.

— Quando é que você chegou, Maxime? — perguntou Lily Amberville, denotando certa
surpresa. — Pensei que ainda estivesse esquiando no Peru. Ou era no Chile?

Ela afastou a franja de Maxi para o lado, gesto conhecido, meigo, que indicava uma
desaprovação permanente do modo como Maxi usava os cabelos. Maxi sentiu uma raiva inútil,
que deixara de exprimir anos antes. Por que, pensou, só a minha mãe consegue fazer com que
eu me sinta feia?

Lily Amberville, que passara os três últimos decênios de sua vida na aura de homenagem que
cerca muito poucas das grandes beldades ricas e poderosas do mundo, abraçou a filha com
uma pose de vice-rainha, carinho a que Maxi se submeteu como sempre se submetera, com
um misto de ressentimento e anseio.

— Olá, mãe, está linda — disse ela, com sinceridade. — Eu queria que nos tivesse avisado que
vinha — respondeu Lily, sem retribuir nem reconhecer o elogio. Ela parecia quase nervosa,
pensou Maxi, se bem que essa palavra nunca lhe tivesse ocorrido com relação a Lily. Nervosa e
meio tensa.

— Parece que houve alguma confusão, mãe. Ninguém me informou sobre a reunião de hoje.
Eu não saberia de nada se Toby não me tivesse telefonado...

— Evidentemente, houve algum problema nas comunicações... mas não seria melhor nos
sentarmos? — disse Lily Amberville vagamente e se afastou, deixando Maxi de pé no vão da
porta. Pavka Mayer se aproximou dela.

— Sente-se ao meu lado, sua diabinha. Quantas vezes tenho esta oportunidade?

— Diabinha? Há dois meses que não me vê — protestou Maxi, rindo. — Ao que você saiba,
posso ter-me regenerado.

— Diabinha — insistiu Pavka, enquanto ela o acompanhava para dentro do salão. De que outro
modo ele poderia descrever a quinta essência do que ela destilava, uma capacidade de
provocar problemas, ágil, inquisidora, bem alerta, problemas fascinantes que ele não poderia
modificar, e nem faria nada por isso? — Regenerada? A minha Maxi? — implicou ele. — Posso
supor que os sete anões lhe deram essa assombrosa pérola negra porque você é tão inocente,
tão intocável, tão pura, tão parecida com Branca de Neve!
— Foi só um na verdade, e de uma estatura perfeitamente normal — disse Maxi, sem corar,
enfiando depressa a pérola novamente esquecida para dentro da blusa, pois certamente não
era jóia para usar de dia.

Antes que ela se sentasse na cadeira ao lado de Pavka, alguém a segurou com firmeza
exagerada pelo braço. Ela virou-se, enrijecendo-se, contrariada. Cutter Dale Amberville, seu
tio, irmão mais moço do pai, abaixou-se e a beijou na testa.

- Cutter — disse Maxi, com frieza — o que está fazendo aqui? — Lily me pediu que viesse.
Aliás, estou espantado por ver você. Estava crente que nos tivesse abandonado por locais mais
interessantes. Fico tão contente por vê-la de volta, Maxime. — A voz dele era simpática e
acolhedora.

— Onde é que pensava que eu estivesse, Cutter? — Somente um esforço de controle é que
conseguiu eliminar a aversão da voz dela.

— Todos pensavam que você estivesse esquiando no Peru ou no Chile, algum lugar bem
inacessível. Algo a ver com helicópteros e geleiras.

— Foi por isso que não me informaram dessa reunião de hoje? — Claro, meu bem. Parecia que
era inútil tentar. Não tínhamos nenhum número de telefone. Mas fico feliz em ver que me
enganei.

— Nunca se deve dar ouvidos a boatos, Cutter. Toby sabia onde eu estava, se você pensasse
em fazer as perguntas mais óbvias. Mas, aparentemente, nem ele foi informado. Acho isso
muito estranho mesmo. E mais: mesmo que eu esteja subindo o Amazonas, insisto em que me
mantenham informada — disse ela, com aspereza.

— Prometo que não tornarei a esquecer. — Cutter Amberville sorriu, um sorriso que chegava
às profundezas de seus olhos azuis e juvenis, um sorriso que impedia que suas feições fossem
incrivelmente notáveis, um sorriso tão vasto que revelava um dente torto e transformava sua
cabeça elegante como a de um embaixador numa de estivador. Ele devia sua fortuna ao poder
inegável de seu sorriso e havia muito se esquecera dos dias de escola preparatória, quando
costumava se exercitar diante de um espelho, obrigando o calor, e portanto a sinceridade, a
passar de seus lábios aos olhos por alterações sutis dos músculos faciais.

Cutter Amberville passara os últimos três anos em Manhattan, tendo voltado em 1981, após
uma ausência de mais de 25 anos, pontilhados por apenas algumas visitas breves. Ele mudara
muito pouco durante todo esse tempo, e nunca perdera a excelente forma física do atleta
magnífico que era. Os cabelos, ainda louros, eram cortados curtos, o olhar era um lampejo
azul, suas maneiras nunca deixavam de desarmar as pessoas. Era um homem muito atraente
que havia encantado muitas mulheres, entretanto havia a sombra de um propósito íntimo em
seu ar, uma sugestão de algo oculto. Ele parecia ter pouca necessidade de humor ou das
pessoas que não considerasse úteis. Durante toda sua vida, Zachary Amberville amara o irmão
profundamente.

Cutter continuava a lançar sobre Maxi a arma invencível de seu sorriso. Continuava a segurar-
lhe o braço de um modo firme, até protetor. Ela se livrou dele abruptamente, sem se importar
se estava parecendo grosseira, e sentou-se ao lado de Pavka. Cutter, sem se dar por achado,
tocou nos cabelos da sobrinha com um gesto ligeiro, mas claramente íntimo, que fez Maxi
torcer o nariz, enojada. O que teria feito Cutter comparecer àquela reunião?, pensou ela. Ele
nunca comparecera a uma reunião na vida.

Ela ficou olhando enquanto a mãe, com aquele andar flutuante especial, a distinção orgulhosa
e inabalável da bailarina que fora um dia, ia para a cabeceira da mesa. Lily sentou-se ao lado
da cadeira que permanecera vazia desde a morte de Zachary Amberville, uma cadeira
diferente das outras na sala, um cadeira velha e surrada que estava sempre lembrando a todos
o homem risonho, ávido, corajoso e simples que se fora tão de repente.

Ela não podia deixar que as lágrimas rolassem, pensou Maxi, irritada. Cada vez que via a
cadeira do pai, tinha tamanha consciência dele que, por mais que se controlasse, as lágrimas
lhe enchiam os olhos. Só Deus sabia como ela chorara o pai adorado nesse último ano, mas
sempre procurava manter esses repentes para si. As pessoas sempre se sentiam constrangidas
com a expressão exterior do sofrimento de outra e essa emoção não tinha lugar numa sala de
reuniões.

Prendendo a respiração e concentrando-se violentamente, Maxi se forçou a conservar a pose.


Seus olhos estavam brilhantes, mas as lágrimas não caíram. Já garantida contra uma
demonstração pública de sua dor profunda, ela ficou olhando Cutter acompanhar Lily. Onde
ele estaria pretendendo sentar-se?, perguntou-se Maxi. Não parecia haver outra cadeira para
ele. Ela ficou olhando, sem acreditar, e viu a mãe fazer um gesto tão preciso. quanto
espantoso, indicando com a mão esguia que Cutter tomasse a cadeira que nunca fora ocupada
por alguém que não o seu marido. Como é que ela podia fazer isso! Como ousava deixar que
Cutter se sentasse ali?, exclamou Maxi para si, o coração disparado. Ao seu lado ela ouviu uma
exclamação abafada de incredulidade escapar dos lábios de Pavka, e em volta da mesa houve
ruídos chocados, rapidamente contidos. A atmosfera na sala estava estremecida com o
impacto desse ato inesperado de Lily e as pessoas trocaram olhares perplexos,
disfarçadamente. No entanto, Cutter não parecia tomar conhecimento deles. Sentou-se sem
qualquer mudança na sua expressão.

Zachary Amberville dirigira sua empresa privada auxiliado por todas as pessoas presentes ali
naquela sala. Depois de sua morte, a viúva começara a comparecer às reuniões de conselho,
coisa que nunca fizera durante a vida do marido. Ela era agora a acionista majoritária da
companhia. Lily herdara 70 por cento das ações ordinárias da empresa; os outros 30 por cento
tinham sido divididos entre Maxi, Toby e o irmão mais moço deles, Justin.

Maxi e Toby, de vez em quando, tentavam ir às reuniões do conselho, quando estavam na


cidade. No entanto, Maxi nunca ouvira a mãe dar alguma opinião ou participar de alguma
decisão, nem ela o fizera. Os redatores de cada revista, os editores e gerentes comerciais,
comandados por Pavka Mayer, continuaram a dirigir a empresa imensa tal como no tempo de
Zachary, com dedicação, competência, grande habilidade e um zelo em nada diminuído.

Houve um momento de silêncio. Como ninguém conhecesse a agenda da reunião, esperaram


que Lily Amberville a comunicasse. Lily, porém, continuava calada, os olhos abaixados para a
mesa. Maxi ficou olhando, boquiaberta, abismada demais para respirar, enquanto Cutter
empurrou a cadeira do pai alguns centímetros para longe da mesa, recostou-se
confortavelmente, perfeitamente à vontade, e passou a conduzir a reunião.

— A Sra. Amberville me pediu que lhes falasse hoje — ele começou, com calma. — Em
primeiro lugar, ela lamenta ter sido obrigada a trazer alguns de vocês à cidade assim tão de
repente, mas o fato é que tem uma comunicação a fazer e acha deve ser do conhecimento de
vocês o mais rápido possível.

— Que diabo...? — disse Pavka, em voz baixa, virando-se para Maxi.

Ela sacudiu a cabeça, apertou os lábios e olhou para Cutter, furiosa. O que levara a mãe a pedir
a ele para se dirigir ao conselho? Por que Lily não estava falando por si, em vez de dar a
palavra a esse banqueiro de investimentos, esse estranho ao grupo, que não tinha o direito de
participar do funcionamento das Edições Amberville?

Cutter continuava sentado ali calmamente, falando em um tom comedido e autoritário.

— Como todos sabem, a Sra. Amberville não fez qualquer modificação na estrutura das
Edições Amberville nesse último ano, desde a morte inesperada e trágica do meu irmão. No
entanto, fez um estudo sério do futuro desta companhia, de suas dez revistas e seus imóveis.
Ora, creio que é chegado o momento de encarar o fato de que, se bem que seis delas sejam
sem dúvida líderes em seus setores, quatro estão em dificuldades. — Ele parou para beber um
gole d’água e o coração de Maxi disparou mais ainda. Seu tio fingido estava assumindo uma
aura de general. ”Creio”, ele dissera, e junto da mesa comprida as pessoas estavam sentadas
em silêncio, aguardando a comunicação que ele prometera e ainda não fizera.

”Nós todos sabemos — continuou Cutter, com vagar — que meu irmão tinha mais prazer em
criar uma revista do que em desfrutar do sucesso dela; mais interesse em solucionar os
problemas de uma revista doente do que explorar ao máximo o potencial de uma revista sã.
Essa era sua grande força, mas agora que ele se foi, tornou-se uma fraqueza. Somente outro
Zachary Amberville poderia ter a obstinação e disposição necessárias para suportar anos de
prejuízos e, especialmente, a fé na sua própria criatividade, necessária para continuar a
despejar os lucros de nossas seis revistas lucrativas nas bocas famintas das fracas.

Nossas, pensou Maxi, indignada. Desde quando, Cutter, você fez parte das Edições Amberville?
Desde quando tem o direito de dizer nossas? Mas ela continuou ali sentada em silêncio
antagônico e apreensivo, esperando, o estômago revirado diante da atitude dele,
sinistramente dominadora.

— Três de nossas revistas mais novas, Wavelength, Garden e Vacation, vêm perdendo dinheiro
num ritmo simplesmente inaceitável. Buttons and Bows tem um valor que, há anos, é
puramente sentimental...

— Um momento, Sr. Amberville — disse Pavka Mayer, afinal, a voz cortando o tom suave de
Cutter. — Estou ouvindo falar um homem de negócios, não um homem de revistas. Conheço
todos os detalhes dos planos futuros de Zachary para Wavelength, Garden e Vacation, e posso
lhe garantir que ele não esperava que já estivessem dando lucro. No entanto, é apenas uma
questão de tempo até começarem a dar lucro. E quanto a Buttons and Bows, creio que...
— Sim, e o que há com Buttons and Bows, Cutter? Maxi interrompeu com violência,
levantando-se de repente. — Você provavelmente não sabe, pois é inocente nesse negócio,
mas papai sempre chamava essa revista de sua predileta. Ora, baseou todo o raio da
companhia sobre ela!

— Um luxo, meu bem — respondeu Cutter, sem dar atenção a Pavka Mayer, como se ele nem
tivesse falado. — Foi um luxo manter uma revista em funcionamento só porque lhe deu sorte
há muito tempo, um luxo que o seu pai podia ter.

— Então, o que foi que mudou, afinal? — exclamou Maxi. — Se ele podia se dar a esse luxo,
por que nós não podemos? Quem é você para nos dizer o que podemos e não podemos fazer?
— Ela estava tremendo de raiva, pura e descontrolada.

— Minha cara Maxi, falo por sua mãe, não por mim. Ela é que controla a companhia... você
parece ter-se esquecido disso. Naturalmente, é um choque para você ter de enfrentar os fatos
brutais dos negócios expressos por uma pessoa que está de fora.

Ele olhou para ela sem expressão, no entanto virou-se um pouco em sua direção, focalizando
suas palavras.

— Quando o seu pai era vivo, essa companhia era um negócio individualista, como até mesmo
você, minha querida e impetuosa Maxi, teria de reconhecer. Mas hoje Zachary Amberville não
está aqui para tomar as decisões difíceis. Somente a sua mãe tem esse direito, somente sua
mãe tem esse poder. Ela acha que é seu dever adotar sólidas normas comerciais, já que não
temos mais o gênio do seu pai para nos orientar. É dever dela considerar o balanço de perdas
e ganhos, olhar a linha do saldo.

— Eu olho o balanço, Cutter. E Toby e Justin também. No ano passado nossos lucros passaram
bem de cem milhões de dólares. Você não vai negar isso, vai? — perguntou Maxi, num tom de
desafio.

— Por certo que não. Mas você não está levando em conta a concorrência feroz que
enfrentamos todos os meses por nossa fatia do mercado de revistas. É um pouco frívolo
ignorar o fato de que, com uma decisão difícil e dolorosa... uma decisão necessária, Maxi, que
a sua mãe resolveu tomar, os lucros das Edições Amberville podem ser vastamente
aumentados.

— Frívolo! Espere aí, Cutter, eu me recuso a permitir esse tipo de...

— Maxi, a palavra foi mal empregada. Peço desculpas. Mas você sabe, não sabe, que sua mãe
não tem de prestar contas a ninguém, ninguém mesmo?

— Sei disso, mas estou-lhe dizendo que a Amberville não está em dificuldades financeiras —
insistiu Maxi, teimando, obstinadamente resolvida a não deixar que nada mudasse no mundo
que o pai deixara.

Pavka Mayer, ao lado dela, tomara uma resolução igualmente feroz. Ao ouvir as palavras de
Cutter, ele fora dominado por lembranças de Zachary dirigindo o grupo editorial com uma
coragem e imaginação inquebrantáveis, em tantos períodos difíceis do negócio de revistas.
Zachary, seu amigo, que nunca tentara esconder seus verdadeiros motivos ou emoções, como
fazia o irmão, mais sutil, e que se lançava a cada reunião com uma animação que fazia todos se
sentirem seus iguais, seus companheiros nos desafios editoriais. Pavka sabia muito melhor do
que Maxi que as Edições Amberville não estavam em dificuldades mas, ao contrário dela, não
possuía a autoridade que dava a propriedade de ações. Ficou olhando com amargura ao ver
Cutter ignorar os protestos de Maxi, como se ela se tivesse tornado invisível, e olhar em volta
da mesa, olhando nos olhos de cada um dos membros do grupo, brevemente.

— A Amberville — disse ele — está numa situação em que é intolerável permitirmos que
continuem alguns prejuízos certos e claramente previsíveis. A decisão da Sra. Amberville é de
cessar a publicação, o mais rápido possível, das quatro revistas que vêm perdendo dinheiro.
Ela lamenta a necessidade dessa decisão, mas isso não está em pauta.

Ele se recostou, à vontade, armado e impassível, sabendo que a reação às suas palavras ia
irromper na sala, a despeito de tudo o que ele dissera, por parte daqueles homens e mulheres,
muitos dos quais acabavam de ver arrasadas suas vidas de trabalho. Vozes assustadas e
incrédulas se levantaram por todos os lados. Maxi fora para junto de Toby, e estava
cochichando com ele, violentamente. De repente, a sala ficou em silêncio, quando Lily
Amberville, espantada diante da oposição vinda de todos os lados, e vendo-se na defensiva,
numa das raras, quase inimagináveis ocasiões de sua vida, levantou as mãos lindas, as palmas
para diante.

— Por favor! Por favor. Há uma coisa que vejo que devo dizer, afinal. Vejo agora que prestei
um desserviço ao Sr. Amberville pedindo que lhes desse essa notícia difícil. Não previa... não
entendi até que ponto seria perturbadora... uma decisão puramente de negócios... mas eu
devia ter tentado falar com cada um de vocês separadamente. No entanto, acho que isso
estava inteiramente além de minhas forças. Por favor, não culpem o Sr. Amberville pela minha
decisão e não pensem que ele não tinha o direito de comunicar isso a esse grupo. Nem a meus
filhos pude ainda contar o motivo por que pedi a ele que falasse por mim, até este momento...
Eu...

Lily virou-se para Cutter com um ar de súplica e calou-se. Ele segurou a mão dela e tornou a
olhar em volta da mesa, com um autocontrole absoluto, como um domador de feras numa
jaula, estabelecendo sua supremacia.

Maxi olhava para eles, num estado de insurreição incoerente. Que

desculpa Cutter poderia ter para falar pela mãe dela? Ela se lembrou, a contragosto, mas sem
poder impedir que o pensamento aflorasse, de uma noite, quando tinha quinze anos. Cutter
fazia uma de suas raras visitas a Nova York, alojado num dos quartos de hóspedes da casa dos
pais dela. Ela estava na cama, estudando para um exame, e ele entrara no quarto, de roupão,
procurando alguma coisa para ler. Cutter perguntara o que ela estava estudando e se
aproximara da cama, para olhar o livro. De repente, ela sentira a mão dele se enfiando sob a
blusa de seu pijama, agarrando seu seio nu, segurando o bico do seio. Ela recuara
violentamente, a boca aberta com o choque, pronta para gritar. Ele recuara com uma desculpa
sorridente, suave, plausível. Mas Maxi vira o que ele queria naquele instante, e ele sabia que
ela sabia. A tentativa não se repetiu, mas ela nunca podia ficar na mesma sala que ele sem
recordar aquela fração de segundo de um contato maléfico. Por que é que Cutter estava
segurando a mão da mãe?

— Ontem — declarou ele, olhando de frente para Maxi, o triunfo tão certo, tão absoluto, que
parecia sem emoção — a Sra. Amberville e eu nos casamos.

Zachary Anderson Amberville nunca parecera em nada um Anderson, era o que se ouvia Sarah
Cutter Anderson, de Andover, Massachusetts, reclamar. O menino, evidentemente, era um
retrocesso atávico a um dos Ambervilles huguenotes franceses que tinham ido lutar pela
independência americana com Lafayette, no regimento do Marquês de Biron, e resolveram se
estabelecer na Nova Inglaterra. Mais ou menos em cada geração, nascia um menino ou
menina Amberville de cabelos escuros, olhos escuros, que só atingia uma estatura mediana e
teria uma tendência lamentável para ser meio roliço na meia-idade. E seu filho mais velho era
um desses, queixava-se ela, encobrindo o orgulho que tinha dele, que não ficaria bem
externar.

Os seus antepassados Andersons eram suecos severos e os Cutters eram... bem, os Cutters
eram Andover. Não tinham mais dinheiro, claro, em nenhum dos dois ramos da família dela,
mas os Ambervilles também não se deram muito bem, tendo em vista as vantagens iniciais que
obtiveram em relação ao resto do país. Todos poderiam ter sido considerados um tanto
retrógrados, resolutamente provincianos, só que Zack possuía tanto dinamismo, tanta
ambição, tanta atividade quanto se poderia esperar encontrar em toda uma grande família de
imigrantes novos.

Ele nasceu em 1923, vários anos depois do casamento de Sarah Anderson com Henry Dale
Amberville, jovem redator de um pequeno jornal de interior, perto de Andover. Aos sete anos,
Zack já trabalhava como entregador de jornais, distribuindo o jornal do pai todos os dias, ao
amanhecer. Tentou valentemente ampliar suas vendas para incluir o Saturday Evening Post,
mas não teve sorte, pois a Depressão acabara de se abater sobre os Estados Unidos e as
pessoas começavam a cortar todas as despesas supérfluas.

O segundo filho dos Ambervilles foi uma menina, chamada Emily, que passou a ser conhecida
como Minnie Mouse e depois apenas Minnie. Quando nasceu o último filho, Cutter, em 1934,
a crise econômica tinha quase acabado com a pequena renda do jornal de Henry Amberville.
Zack foi para a escola pública local, em vez de Andover, freqüentada por gerações de
Ambervilles, e depois das aulas sempre conseguia arranjar um serviço para ganhar dinheiro:
servindo refrigerantes, entregando compras, rachando lenha, servindo de mensageiro para os
donos das lojas locais. Fazia qualquer negócio, contanto que pudesse contribuir para os fundos
da família. Passava o verão trabalhando no jornal para o pai, aprendendo o negócio, tentando
vender anúncios e assumindo muitas das tarefas que o pai agora tinha de fazer sozinho, já que
Henry Amberville dispensara seus poucos empregados quando a crise piorou.

Zachary era um aluno brilhante, que tinha saltado a quinta e oitava séries e o segundo ano do
ginásio. Na primavera do seu último ano no ginásio, tendo apenas completado quinze anos, ele
se candidatou a bolsas para várias faculdades. Seu sonho era ir para Harvard, mas em
Cambridge poderia estar perto da família. O seu senso de responsabilidade para com os pais,
para com Minnie e especialmente para com Cutter, o irmão de quatro anos, era tão profundo
que ele se propôs a ir trabalhar, depois do ginásio, deixando de lado a universidade, mas isso
os Ambervilles não permitiram.

— Nós damos um jeito, Zachary, contanto que não tenhamos de pagar os seus estudos. Mas se
pensa que vou ver um filho meu ficar sem instrução universitária... — A voz do pai sumiu
diante do horror de tal idéia.

A única universidade que ofereceu a Zachary Amberville uma bolsa total, inclusive livros, casa
e comida, foi Columbia, em Morningside Heights. Claro que os Ambervilles, Cutters, Andersons
e Dales tinham visitado Manhattan no correr dos séculos, mas nenhum deles jamais passara
mais que uma noite na cidade que, por unanimidade, todos achavam barulhenta demais,
populosa demais, cara demais, cheia de estrangeiros demais, comercial demais. Aliás, um
deles exprimiu, para satisfação de todos: ”Não é nada americana.”

Aos quinze anos, Zachary Amberville, corpulento mas ainda crescendo, tinha menos 5cm do
que sua altura final de 1,77m e era três anos mais moço do que a maior parte de seus colegas,
mas possuía o espírito de um rapaz não só maior, como também mais velho. Já era
independente há tantos anos, tão movido pela necessidade de tomar conta da família, que
tinha um senso de autoridade íntimo raramente visto em calouros de universidade. Inspirava
respeito à primeira vista, se bem que, por natureza, estivesse sempre meio amarfanhado, os
cabelos pretos despenteados devido ao seu costume de passar a mão por eles e puxar a
mecha branca sempre que ficava intrigado com alguma coisa. Vestia-se com displicência e,
evidentemente, nem sabia nem se

importava com sua aparência. Era volátil, pronto para qualquer aventura, falador,
intensamente curioso sobre todos e tudo de novo, e tinha uma gargalhada que se ouvia de um
extremo a outro do dormitório. Nunca bebera nada na vida, nunca dizia palavrões e jamais
passara uma noite fora de casa, mas havia naquele adolescente uma ousadia e uma
liberalidade que não tinham nada a ver com as normas pelas quais os universitários em geral
se julgam. Zachary Amberville tinha uma boca bem-feita, larga, um nariz grande e rombudo e
olhos verdes animados, muito vivos e facilmente divertidos sob sobrancelhas espessas e
chanfradas. Esse Amberville moreno não era bonito, mas possuía algo que fazia as pessoas
gostarem dele de imediato e o acompanharem em seus muitos entusiasmos.

Zachary Amberville se apaixonou por Nova York à primeira vista. ”Conquistarei Manhattan, o
Bronx e Staten Island também”, cantarolou sozinho, estudando nas pilhas de livros da
biblioteca as palavras da canção imortal escrita por Rodgers e Hart em 1925, que nunca ficava
longe de seus lábios. Conquistarei Manhattan, ah, sim, conquistarei e manterei!, jurava para si
ao pegar um metrô para o centro, sempre que tinha algumas horas livres. Conhecia a cidade a
pé da Battery ao Harlem, de rio a rio, conhecia as pontes e parques, as avenidas e transversais
e, a não ser os museus, conhecia tudo, só do lado de fora, pelo preço de uma viagem de metrô
e, de vez em quando, comia o melhor cachorro-quente do mundo, comprado de uma
carrocinha em Delancey Street. O dinheiro para o metrô, os cachorros-quentes e todas as suas
outras pequenas necessidades vinha de seu emprego em horário parcial servindo no Lion’s
Den, a casa de sanduíches no campus. Todo o dinheirinho a mais que ganhava ele mandava
para casa, resolvendo que não se podia dar ao luxo de abandonar o emprego no Lion’s Den
para tentar a sorte no Spectator, jornal de Columbia. Na verdade, não havia uma escolha
relutante no que ele fazia. Assumir a responsabilidade pela família era uma função natural de
sua personalidade.

Zachary Amberville planejara o seu futuro. Quando se diplomasse em Columbia, ia arranjar um


emprego no New York Times, como mensageiro da redação. Certamente, pensava ele,
passando os verões publicando um jornal quase que sozinho, pois a saúde do pai vinha
piorando sempre, ele conseguiria convencê-los a lhe darem um emprego — ele conhecia todas
as facetas do negócio, da impressão à entrega. A Escola de Jornalismo de Columbia, pensou,
seria perda de um tempo precioso e, de qualquer forma, ele não podia pagar por isso.

Ele fizera a visita oferecida pelo New York Times, conseguindo

se juntar a grupos de colegiais que eram recebidos nas instalações do edifício do Times e viam
as grandes impressoras funcionando. De mensageiro a repórter, de repórter a... aí sua
imaginação parava, aturdida pela riqueza e variedade de oportunidades oferecidas pelo
melhor jornal jamais publicado.

O mundo tinha outros planos para os alunos da turma de 1941 de Columbia. Um dia depois de
declarada a guerra, Zachary Amberville, de dezoito anos e diplomando, entrou para o Corpo de
Fuzileiros Navais. Ele poderia ter esperado para ser convocado e provavelmente, quase
certamente, lhe permitiriam diplomar-se, mas estava por demais impaciente para acabar com
a guerra e voltar ao New York Times.

”Diga qual a rua que se compara com a Mott em julho”, cantava ele, bem alto, acima do ruído
dos motores do seu caça Marine P-47, voando em inúmeras missões no Pacífico; um herói,
major aos 21 anos, tenente-coronel no dia da vitória contra o Japão e, seis meses depois, no
Havaí, coronel, violentamente furioso.

— Que merda é essa? Ainda não posso ir para casa? Já devia estar longe daqui há meses, pelo
mérito. Desculpe, senhor.

— Coronel, sinto muito, mas o general precisa do senhor. — Que droga, senhor, e esse negócio
de ”os primeiros a entrar são os primeiros a sair”? O general tem dezenas de outros oficiais.
Para que precisa de mim, pombas?

— Parece que o senhor tem uma capacidade de organização fora do comum, coronel.

— Sou um piloto de caça, senhor, e não um burocrata. Desculpe, senhor.

— Sei o que está sentindo, coronel. Vou tornar a falar ao general sobre o seu caso, mas não
prometo nada. Ele disse: ”Diga a Amberville que se ele queria tanto sair daqui, deveria ter
entrado para a Força Aérea do Exército.”

— Isso é uma porra de um insulto, senhor! — Eu sei, coronel, eu sei.

A Segunda Guerra Mundial já terminara fazia dez meses quando o Coronel Zachary Amberville
por fim voltou a Nova York. O pai morrera em 1942, mas Sarah Amberville estava morando na
casa da família, perto de Andover. O seguro de vida do marido fora parco, mas o soldo de vôo
do filho, enviado para casa regularmente e poupado com cautela, ainda estava ajudando a
criar os filhos mais moços.

A loja de J. Press foi a primeira parada do novo civil. Não podia se apresentar no Times com
sua farda e condecorações. Pareceria ridículo. Mensageiros se vestem como tais, raciocinou
ele, ao dar o nó na gravata que escolhera pessoalmente, a primeira depois de cinco anos: era
vermelha, com pingos brancos, e exprimia a alegria de sua alma. Ele não queria parecer muito
universitário, se bem que o único terno

em J. Press que ele poderia pagar era um tweed duro e peludo, que ficaria muito bem em
Harvard, se lhe coubesse e fosse vinte anos mais velho. A única coisa que parecia boa e nova
em folha, refletiu Zachary Amberville, examinando sua pessoa quase irreconhecível num
espelho grande, era uma escova de dentes. — Não compreendo — disse ele à recepcionista. —
Não compreendo mesmo. — Temos todos os mensageiros de redação que podemos usar e há
uma lista de espera — repetiu ela, com paciência.

— Mas tenho anos de experiência em jornal. Já dirigi um jornal. Só estou pedindo um emprego
de entrada... não pedi para ser editor da cidade. — Olhe, Sr. Amberville, o Times prometeu a
todos os seus mensageiros, quando foram servir nas forças armadas, que seus empregos
estariam esperando por eles, quando voltassem. Deus sabe que nem todos voltaram, mas os
que regressaram tiveram preferência. Depois, havia os veteranos de guerra diplomados em
escolas de jornalismo. Aliás, temos mensageiros que até ensinaram em escolas de jornalismo.
É uma pena que o senhor não se tenha diplomado na universidade. Aí, claro, os outros ex-
oficiais...

— Algum coronel dos Fuzileiros Navais? — Temos um ex-general, Sr. Amberville, só um, mas
era general.

— Força Aérea? — Como sabia? — Imaginei. Aqueles putos... Desculpe, senhorita! — Terei
prazer em colocá-lo na lista de espera — sugeriu ela, reprimindo uma risada.

— Não tenho tempo para esperar, mas obrigado, assim mesmo. Ao sair do edifício do Times,
Zachary Amberville passou por um grupo interessado de colegiais, que iam começar a visita.
Ele virou-se para o lado e, pela primeira vez na vida, comprou um exemplar do Daily News e o
abriu nos classificados.

A Five Star Button Company tinha prosperado muito numa guerra em que o metal, os tecidos e
o couro estavam racionados, porém os botões podiam ser fabricados de quase qualquer
material não-essencial. ”Mude Seus Botões, Mude Seu Aspecto”, fora o lema deles, e
venderam vários milhões de botões feitos de penas, e pompons e lantejoulas. Fabricavam um
botão superior, explicou o Sr. Nathan Landauer a Zachary, um botão no qual se podia confiar,
um botão que se podia usar com orgulho.

— Por certo, senhor — respondeu Zachary, olhando para as paredes do escritório onde
estavam pendurados cartões apresentando modelos de centenas de botões diferentes.
— É só que o trabalho não parece... bem, exatamente o que eu imaginava que o senhor estaria
procurando — continuou Landauer, admirando a farda de coronel da Força Aérea dos
Fuzileiros Navais, as quatro filas de condecorações, o corte de cabelo marcial.

— Tem um jornal, não tem, senhor? — Tem... se se pode chamar de ”jornal” uma publicação
interna para uma firma de botões. Francamente, nunca pensei nela assim... só mais um serviço
para os nossos fregueses, coronel, e um meio de fazer os nossos empregados se sentirem
parte de uma grande família.

— Mas o senhor o publica todos os meses, usa uma tipografia regular sindicalizada, em Nova
Jersey, há um escritório e uma secretária em horário parcial, e o ordenado é de 65 dólares por
semana?

— Certo. — Gostaria de ficar com o emprego, senhor. Muito. — É seu, coronel. — Pode me
chamar de Zack. Volto daqui a uma hora. Vou trocar de roupa, pôr uma mais confortável.
Mudar os meus botões, mudar de sorte.

Nathan Landauer ficou olhando para ele, melancólico. Aqueles eram os botões mais bonitos
que ele via há muito, muito tempo. Nathan Junior, de quem ele se orgulhava, aliás, passara
três anos na Marinha, como simples marinheiro, e se tivera algum botão decente na farda,
nunca o mostrara ao pai.

— Nat — disse Zachary Amberville a Nathan Landauer, Jr., entre dois

bocados de carne defumada com pão preto: — Você não quer fazer da

sua vida algo mais do que fabricar botões, mesmo que isso seja mais do que um meio de vida?
Mais do que um meio de vida muito bom?

— O que mais posso fazer? É um negócio de família e o pai espera que eu tome o lugar dele,
quando se aposentar, daqui a cinco anos. Sou filho único e ele construiu esse negócio sozinho,
do zero. É o maior negócio de botões na Sétima Avenida. Estou preso, Zack. Não posso dar-lhe
um desgosto. É um cara bom.

— É um cara muito bom. Mas você não está preso. Pode dirigir o negócio com uma das mãos
amarrada, e com a outra

— com a outra? — Pode se tornar sócio de uma revista. — índio diz: ”Nunca investir negócio
espetáculo.”

— O que é que isso tem a ver com o caso? — Não viu Bonita e Valente? Ethel Merman
pergunta ao Chefe Touro Sentado como é que ele ficou tão rico e ele diz: ”índio nunca

investir negócio espetáculo”... e revistas são espetáculos, pelo que me

consta. Não sei merda nenhuma sobre elas.

— E entende de cintos? De laços? De galões? De colchetes e flores artificiais, debruns e


atavios...
— Não se pode andar pela Rua 46 sem ter uma idéia das miudezas, Zack, tudo faz parte da
Sétima Avenida... uma roupa tem de ter alguma coisa além de botões, mesmo que o pai nunca
reconheça isso. É claro, sei um pouco, mas e daí? — Trimming Trades Monthly (Revista Mensal
de Aviamentos).

Uma nova revista. — Não me impressiona. Você não é nenhum Condé Nast, meu

amigo.

— Poderia atender a certas necessidades. Existem milhares de fabricantes de roupas neste


país fazendo milhares de tipos diferentes de roupas, e nenhum sabe o que há de novo, o que
está acontecendo, o que existe no ramo dos aviamentos. — Parece que eles vão indo bem,
sem estarem atualizados, não

reparou? — Claro, nem ninguém precisou da roda, até alguém pensar nela. — Trimming
Trades Monthly... teria fotos coloridas de garotas

bonitas, vestidas só de peruquinhas de tricô para as xoxotas?

— Não, Nathan Junior, com sua cabeça imunda de marujo, nada disso. Teria informações,
anúncios, histórias sobre o que está acontecendo na Sétima Avenida, como vão os setores de
atavios, o que os modelistas estão usando este mês, talvez até no mês que vem, o que está
acontecendo em Paris, como vão indo as várias companhias, quem está mudando de emprego,
quem está sendo promovido, anúncios e mais anúncios. Em branco e preto, papel de
qualidade média, para os tipos não largarem tinta nas mãos da gente, mas nada de muito
chique, e uma foto bonita e grande de seu pai na primeira capa.

— E, enquanto o sol se põe sobre o belo centro de roupas da cidade, começo a ver quais os
seus desígnios, Sr. Coronel. E eu que sempre pensei que me amava como um fascinante
companheiro de almoço.

— Você possuiria a metade. — Quanto custaria? — Precisaríamos de pelo menos 1.500


dólares, até começarmos a ganhar dinheiro, segundo os meus cálculos. Creio que só depois de
uns... hã, seis meses é que conseguiríamos assinantes suficientes para começar a ter lucro e,
claro, eu teria de largar o meu emprego na Five fitar para dedicar meu tempo a conseguir
anúncios e a escrever a revista, de modo que incluí o meu ordenado nisso. —- Quanto você
investiria desses 1.500 dólares?

— A idéia e o meu ordenado. Eu só receberia quando tivéssemos lucro.

— E de que • iria viver? — No seu apartamento há bastante lugar, dois comem pelo mesmo
preço de um, as garotas estão dispostas a rachar as despesas, e vou a pé para o trabalho.

— Eu daria todo o dinheiro? — Quem mais? — Você seria o redator? — Quem mais? — Puxa,
sei que sou uma presa fácil... mas o que é que eu vou ganhar com isso? Além dos lucros
inexistentes?
— Você seria o editor. Toda revista tem um, só Deus sabe por quê. E teria a metade da revista,
seria mais do que um fabricante de botões. Quando conhecesse uma garota e ela lhe
perguntasse em que trabalhava, você poderia dizer: ”Sou editor, meu bem.”

— E se ela perguntasse o nome da revista? — Isso é lá com você... poderia mentir, dizer
qualquer coisa... e quando afinal conhecer uma garota que o ame de verdade, pode contar a
ela. Mas não posso mudar o nome, Nat, é preciso que saibam do que trata a revista, senão
ninguém compra.

— Playboy. Vou dizer que se chama Playboy — disse Nathan Junior, com ar sonhador.

— Isso é uma droga de nome para uma revista, Nat. Mas, como queira. Vamos até o seu
banco, antes que ele feche.

Trimming Trades Monthly se pagou em quatro meses e em breve Zack Amberville pôde se
pagar um ordenado de cem dólares por semana. Como continuava a morar em casa de Nathan
Junior, mandava a maior parte para a mãe.

Minnie estava na primeira série do Dana Hall Junior College e Cutter, com dezesseis anos, ia
para Andover. Sarah Amberville arranjara um emprego numa loja de presentes e, juntando seu
salário modesto e os ganhos de Zachary, conseguiram mandar os menores para as melhores
escolas, pois nenhum dos dois ganhara bolsas de estudo. Aliás, Minnie ainda teve sorte de
conseguir entrar para Dana Hall, que não era propriamente um centro de atividade intelectual,
mas ela era tão bonitinha, engraçada e feliz que ninguém se importava com o fato de que
jamais conseguia tirar médias melhores do que C, por mais que tentasse. Já Cutter tinha uma
capacidade boa, embora preguiçosa, mas preferia não estudar demais, por uma decisão fria,
pois os rapazes que eram inteligentes demais sempre estavam ameaçados de não serem
queridos, e ele queria ser querido, acima de tudo.

Cutter Dale Amberville, ainda no berço, mostrara que ia puxar aos Andersons. Tinha crescido
com rapidez e se tornara um rapaz alto, excepcionalmente louro, com os olhos azuis dos
antepassados suecos, um belo rapaz com um verme feio e vivo vivendo e crescendo em seu
coração. Ele sentira desprezo por se ter criado à beira da pobreza. Desde quando podia se
lembrar, soubera que era um dos Cutters, Andersons, Dales e Ambervilles pobres, numa
comunidade pequena em que as quatro famílias eram todas aparentadas, em algum grau, e
em que essas distinções de fortuna eram bem calculadas e nunca mencionadas.

Cutter desprezava a escolha da carreira que o pai fizera. Para que se dedicar de corpo e alma a
um jornal que, evidentemente, nunca daria dinheiro? Que tipo de homem faria uma escolha
dessas? Mas o desdém que tinha pelo pai não era nada comparado ao repúdio total que sentia
pelo irmão, sempre que era forçado a ver que era sustentado por Zachary. No entanto, ele se
considerava por demais diferente do comum das pessoas para sair e arranjar um emprego. Era
aparentado com todas as melhores famílias da cidade; era inconcebível que ele fosse entregar
as compras deles ou ficasse atrás de um balcão, servindo-lhes sorvetes. Nem a mãe jamais
sugerira tal coisa, pois não queria que Cutter conhecesse a luta que Zachary enfrentara.
Sarah Amberville nunca desconfiou dos sentimentos de Cutter para com o irmão, nunca soube
que Zachary sempre parecera doentiamente, aterradoramente todo-poderoso para o filho
caçula. Cutter pensava nele com desprezo, misturado com um medo infundado. Zachary era
um vento violento, insuportável, potencialmente perigoso, que varria a casa sossegada sempre
que arranjava tempo e a enchia com sua presença barulhenta, risonha e grosseira, tornando-se
imediatamente o centro da atenção total da mãe e do pai. A Cutter parecia que o orgulho
deles por aquele quase estranho, aquele irmão ruidoso, ousado, que não morava em casa
desde que ele, Cutter, tinha cinco anos, não deixava espaço para os pais se lembrarem de que
ele estava vivo, quanto mais se interessarem por ele.

Ele retornava, vezes e mais vezes, e com amargura, a dezenas de recordações de sua infância,
repetindo-as para si como um rosário. Aquela ocasião, quando ele tinha oito anos e
representara o papel principal na peça da escola, mas os pais só conseguiam pensar no fato de
que o irmão partira para a guerra. Durante os quatro anos seguintes, por mais requestado que
ele fosse na escola, mesmo quando foi campeão júnior de tênis de Massachusetts, os pais
estavam constantemente esperando, a cada minuto do dia, notícias do outro filho, o herói de
guerra, o piloto de caça. E quando a guerra por fim terminou, ele afinal recebeu atenção? Não.
Nunca. Nem uma vez. O que é que um adolescente podia levar para casa para mostrar que se
comparasse com uma carta de Zachary, contando sobre a nova revista que ele estava
fundando em Nova York? Com um exemplar da própria revista?

Cutter Amberville sempre tivera tanta certeza de que Zachary tomara para si tudo o que valia a
pena possuir, que se tornou reservado e emburrado, não dando aos pais a oportunidade de se
interessarem pela vida dele. Cutter sabia que a sombra pesada e onipotente do irmão o tinha
privado do amor e atenção que normalmente teriam sido seus. Ele fora posto de lado, à
margem da vida dos pais, e interpretava a generosidade do irmão como ossos atirados a um
cão. Quanto mais Zachary lhe dava, mais ele lhe devia, e quanto mais Cutter devia ao irmão,
mais o odiava, com um ódio apaixonado e permanente, mais profundo do que qualquer amor
que ele jamais conheceria, o ódio que só pode inspirar a inveja precoce e indizível que um
irmão sente pelo outro.

Em Andover, Cutter contava o mínimo possível sobre sua família. Certamente nunca pretendia
admitir que seus estudos eram custeados pela mãe, que trabalhava, e pelo irmão, que era
redator de uma revista cujo título o envergonhava. Ele se concentrou em desenvolver sua
popularidade pessoal dentro do colégio, usando a lisonja como arma preferida. Cultivou a arte
de fazer as perguntas sutis que deixavam os outros rapazes na melhor situação possível e,
numa idade em que o egocentrismo e as fanfarronices são a norma, aprendeu o poder da
pessoa que sabia escutar e admirar. O verme em seu coração era seu mestre. Era excelente
nos esportes, mas suas notas eram propositadamente na média. Tornou-se logo um cortesão
emérito, que só se dava ao trabalho de cultivar os rapazes que tivessem pais ricos e poderosos.
Seu belo aspecto era bem acabado, com uma distinção

o forte e natural e uma força inata. Os cabelos bem cortados cobriam um crânio comprido, de
formato elegante; os olhos azuis sabiam prender os dos outros com uma expressão firme e
sincera e ele se forçara a não usar demais aquele sorriso treinado que parecia tão
encantadoramente natural.
Zachary se orgulhava daquele adolescente sério e interessante, se bem que, curiosamente,
tivesse pouco assunto com ele nas raras ocasiões em que se encontravam, pois agora as férias
e os fins de semana do irmão eram sempre passados na casa de algum colega onde o jovem
Cutter Amberville era considerado um hóspede muito bem-vindo.

Numa segunda-feira do outono de 1948, Nathan Landauer Jr. entrou no escritório que Zachary
alugara, com uma combinação de uma alegria temerosa e um constrangimento profundo no
rosto agradável.

— Zack, conheci uma garota — murmurou. — Numa partida de futebol, no sábado. Ela estava
com um camarada que conhece a sua

família em Andover, e não era alguém por quem ela se interessasse, de modo que o convenci a
dar o fora.

— Há um milhão de garotas em Nova York, e você conhece a metade... O que é que ela tem de
tão especial? — perguntou Zachary, pondo os pés sobre a mesa.

— Tudo. Ela é perfeita. Cheguei até a contar a ela o nome da revista, quero dizer, o nome
verdadeiro.

— E ela não morreu de rir, não o humilhou? — Não, não propriamente. Achou muito
interessante. E não só interessante como estranho, levando em conta que sou o editor de
Trimming Trades e você é o redator, e ela e eu não nos conhecíamos. Ela disse que você devia
estar nos mantendo separados de propósito. Estava, Zack? Por que nunca nos apresentou?

— Apresentei? — A Minnie. — Minnie? Qual Minnie? — Minnie, sua irmã. A mais linda, mais
adorável, a... como é que você nunca me falou dela? Pensei que eu fosse seu melhor amigo.

— Isso nunca me passou pela cabeça. Ela é uma guria... dezoito anos... e você é um ex-
marinheiro de maus pensamentos, que nunca pensa em nada senão trepar.

— Era um ex-marinheiro de maus pensamentos. Já me regenerei. Escute, Zack, compre a


minha metade de Trimming Trades. Posso quase dá-la a você.

— Está maluco? Por que você quer vender? Está ganhando um bocado de dinheiro com os
anúncios, as novas assinaturas e o baixo custo de produção.

— Eu sei, mas não acredito em fazer negócios com a família... é a maneira clássica de perder
um amigo.

— Família? Espere aí. Não está contando muita vantagem? Minnie não tem nada a dizer sobre
isso?

— Depois do jogo, fomos beber alguma coisa. Depois fomos jantar. No jantar, resolvemos nos
casar. Daqui a duas semanas, você será meu cunhado.

Nathan Junior estava mesmo parecendo ter os seus 25 anos, ao

entrar na idade madura.


— Meu Deus, mas você está falando sério, Marinheiro Landauer! — Há coisas que a gente sabe
de cara. Soube logo sobre a Minnie, e ela soube de mim. E essa a vantagem de toda a minha
experiência. - Vocês dois foram feitos um para o outro. Minnie nunca precisou de experiência.
— Zachary se levantou e abraçou com força o exsócio. — Quanto quer pela sua metade?

32

— Pague o que achar justo. Eu lhe empresto o dinheiro para comprá-la.

— O amor nos torna todos uns babacas mesmo — gritou Zack, valsando com Nat pelo
escritório. — Parabéns, babaca!

O fato de possuir uma revista, de se tornar o proprietário único, desencadeou em Zachary


Amberville todas as ambições que ele antes não chegara a ousar ter. Ele ficara mais marcado
do que pensava pela crise econômica, e uma certa cautela natural sempre cerceara um desejo
devorador de criar, arriscar, governar.

Pouco depois do casamento de Minnie, ele lançou sua segunda revista, Style. Por tudo quanto
ele aprendera sobre a indústria de roupas e revistas de modas, sabia que havia mercado para
uma revista que agradasse às mulheres que não podiam comprar as roupas mostradas em
Vogue e Harper’s Bazaar, que eram evidentemente muito velhas para Mademoiselle, mas
muito sofisticadas para Glamour, com seus modelos de garotas recém-saídas das
universidades.

Ele procurou os bancos a fim de pedir dinheiro para fundar Style, e eles lhe emprestaram,
diante do balanço de Trimming Trades Monthly. O fim da década de 1940 e o princípio da de
1950 foram prósperos para as editoras, pois o país entrou num surto econômico de pós-guerra
e os americanos, sequiosos pelas coisas materiais da vida, compravam revistas com a mesma
ganância com que compravam carros novos.

Style se mostrou lucrativa quase desde o seu primeiro número. Zachary Amberville tinha um
jeito precioso para descobrir e promover talentos novos, e Style deveu grande parte de seu
sucesso imediato ao talento de um ilustrador desconhecido, Pavka Mayer, que Zack contratara
primeiro para fazer esboços em preto e branco para Trimming Trades.

Pavka chegara aos Estados Unidos em 1936, aos dezoito anos, berlinense cuja família tivera o
bom senso de sair da Alemanha. Ele passou a guerra no exército, desembarcando na Praia
Utah no Dia D, oficialmente tradutor e não-oficialmente, enquanto o exército abria caminho
para Paris, fornecedor de leite, sidra e carne fresca em troca de mantas, sabonete e açúcar.
Até mesmo um jipe inteiro, diziam, tinha desaparecido na rota do serviço de trocas de Pavka.

— Vá em frente, Pavka — dissera Zachary Amberville ao homenzinho esperto que era apenas
três anos mais velho do que ele. — Use os fotógrafos que quiser, os modelos, o papel, o
impressor. Temos concorrência demais. Não podemos poupar, temos de dar ao leitor mais do
que todos os outros.
Pavka trabalhou em colaboração com a redatora de modas, outra desconhecida chamada
Zelda Powers. Zachary a vira trabalhando numa sala dos fundos de Norman Norell — pois nem
mesmo o grande Norell podia desenhar sem botões — e ele ficara impressionado ime-

33 diatamente com o estilo dela, excêntrico, brilhante, puramente pessoal. Ela era de Chicago,
estudante apaixonada da moda, disposta a trabalhar em tudo que a mantivesse junto do
mundo em que se criam as roupas.

— Escute, Zelda, você não sabe nada sobre ser redatora de uma revista de modas — disse-lhe
Zachary. — É por isso que quero você. Dê-me o tipo de revista que ninguém jamais publicou. O
tipo que você mesma gostaria. Nada de imitações... rigorosamente original. Faça qualquer
coisa, qualquer coisa que quiser, contanto que satisfaça aos anunciantes e mostre as roupas
deles o mínimo de vezes possível. Lembre-se de quem é o seu público... e lhe dê sonhos que
possam pagar, mas do seu modo.

Pavka e Powers, segundo as pessoas que observaram o progresso das revistas de modas,
foram os únicos responsáveis pelo surgimento inesperado de Style como uma força e uma
presença. Mas as pessoas que conheciam Zachary Amberville sabiam que não.

Em 1951, Zachary tinha ganho o seu quinto milhão de dólares. O primeiro se deveu a Trimming
Trades e Style, os outros a Style e especialmente Seven Days. Ele fundou o semanário em
1950, com o tamanho grande e formato de foto de Life e Look. Mas com uma diferença. Ele
fizera seus estudos dos hábitos de leitura da mulher americana e se convencera de que não
havia mulher alguma tão intelectual que não lesse uma dúzia de revistas de cinema em
particular, se tivesse certeza de que ninguém a visse fazendo-o. Ele compreendia o interesse
profundo das colunas sociais e o poder de homens como Walter Winchell, que pareciam pegar
o público nos bastidores. Sabia que sempre haveria uma coluna social em todo jornal, por mais
que certas pessoas o lamentassem.

A média das pessoas, que eram quase todo mundo, queria saber a respeito de pessoas fora da
média, queria saber de tudo sobre elas, disse Zachary consigo, andando pelas ruas de
Manhattan. Ele visualizou uma revista semanal grande e lustrosa, com uma porção de fotos
em cores; não pesada, com textos, cartas e editoriais, nem tratando de fazendeiros, de futebol
ou da classe média, nem aflita pelo resto do mundo e suas desgraças, nem ligeiramente
direitista como Life ou ligeiramente esquerdista como Look, mas completamente apolítica e
resolutamente não-séria. Uma revista que contasse o que se passara nos últimos sete dias nas
vidas das pessoas glamourosas, empolgantes e famosas, e contasse para o público americano,
o que nunca fora contado, de um modo irreverente, que não guardava segredo algum se os
advogados especialistas em difamação não mandassem guardar, que não considerasse
sagrados nenhum homem e nenhuma mulher, e no entanto se desse conta de que os astros de
cinema e a realeza são mais

34

Interessantes do que as outras pessoas, muito embora os Estados Unidos sejam uma
democracia. Especialmente por serem uma democracia.
Zachary contratou o maior número possível dos melhores escritores do país para escreverem
os artigos breves que acompanhavam as muitas fotos.

— Não me venham com literatura — disse-lhes. — Dêem-me uma leitura de primeira classe,
empolgante, e com coragem... não somos uma nação de intelectuais, como já podem ter
observado. É uma pena, mas os fatos são estes. Quero que seja fascinante, quente. E quero
Isso para ontem.

Pavka Mayer assumiu a direção de Seven Days, tornando-a tão superficialmente elegante que
ninguém que a lesse notava que a revista não chegava propriamente a agradar a seus
melhores instintos. Os melhores fotógrafos do mundo ficavam encantados em partirem para
todos os cantos do mundo, por honorários maiores do que os pagos por Life ou sua rival
européia, Paris Match. Seven Days foi um sucesso alucinante, disparado, clássico, que se
tornou uma coqueluche nacional quase da noite para o dia.

Em fins de 1951, Zachary resolveu ir a Londres. Estava trabalhando demais e quando cada um
de seus escritórios europeus abriu, ele tinha perdido a emoção de contratar os chefes de
escritório e vê-los iniciando as operações. Londres era o seu escritório estrangeiro mais
importante, com exceção do escritório de Style, em Paris, de modo que ele planejou parar
primeiro lá. Sua secretária executiva sugeriu que poderia até ser uma boa idéia, já que ele
estaria na Inglaterra, que cortasse o cabelo e mandasse fazer uns ternos.

— Isso nem chega a ser uma sugestão, benzinho. — Nem era para ser, Sr. Amberville. Não fica
bem um homem na sua posição andar como o senhor anda. Ainda nem tem trinta anos e
poderia ser um homem muito bonito, se se desse ao trabalho — disse a Srta. Briny, decidida.

— Sou asseado, não sou? E a minha camisa é limpa. Até meus sapatos são engraxados. Qual o
problema?

— Uma secretária tem a classe do homem para o qual trabalha. O senhor está minando a
minha situação no Clube de Almoço das Secretárias Executivas, Sr. Amberville. Todos os outros
patrões mandam fazer os ternos sob medida em Saville Row. Cortam o cabelo no St. Regis pelo
menos de dez em dez dias, os sapatos são feitos por Lobb, mas o senhor... nem sequer vai ao
Barney’s — reclamou ela, azeda. — O senhor não é sócio de clubes fechados, come um
sanduíche no escritório em vez de ir aos melhores restaurantes, nunca é fotografado nas
boates com mulheres lindas... eu nem sei como explicar o senhor.

— Já contou a elas quanto ganha?

35 — Pagar demais à secretária não é o que torna o homem chique — disse a Srta. Briny, com
desdém.

— Benzinho, os seus critérios estão embaralhados. Mas vou pensar sobre aquele corte de
cabelo.

Zachary se recusava a justificar a sua vida privada para a secretária. Não era da conta dela. As
atividades de um solteirão conhecido na cidade eram o que ele considerava falta de assunto.
Ele não tinha tempo nem vontade de fazer essas coisas. Conhecia uma porção de mulheres, e
muito atraentes, mas, por algum motivo, nunca se apaixonara. Seria egoísmo? Preocupação
com as revistas? Cinismo? Não, para que tentar se iludir? O problema é que ele era romântico
demais. Em algum lugar no fundo de sua mente havia uma garota dos seus sonhos, e se isso
não fosse piegas, o que seria? Ela seria suave, pura, idealista, não propriamente o tipo que
florescesse em Manhattan. Era tão irreal quanto bela, e um dia ele ia se livrar dessa idéia e se
conformar com uma dona maravilhosa e sensata, com algum senso de humor. Estava
precisando de uma esposa, nem que fosse para protegê-lo de sua secretária.

36

Ninguém na sua nobre família podia ter a pretensão de entender a Honorável Lily Davina
Adamsfield, mas se orgulhavam tanto dela quanto se fosse um retrato raro de Leonardo da
Vinci, passado com veneração de uma geração a outra, o tesouro da família. Era filha única do
19? Baronete e Segundo Visconde Evelyn Gilbert Basil Adamsfield e da Viscondessa Maxime
Emma Adamsfield, nascida Honorável Maxime Emma Hazel. Seus muitos primos, homens e
mulheres, eram perfeitamente íntegros, saudáveis e convencionais, fazendo o que se esperava
deles. Tomavam conta das propriedades da família, caçavam, pescavam, faziam coleções,
jardinagem, se interessavam pelas obras de caridade e se casavam com os jovens membros de
seu mundo que fossem obviamente corretos, com quem tinham filhos bem satisfatórios e
corretos.

Ah, mas Lily! Como tantas de suas amigas, começou a freqüentar as aulas de dança aos quatro
anos. A escola da Srta. Vacani era e é a instituição certa à qual as meninas aristocratas e os
membros mais moços da Família Real são mandados para aprenderem a valsar e dançar a
polca. Quase todas passam pela escola da Srta. Vacani tão rotineiramente quanto como
aprendem a montar a cavalo. Mas Lily se revelou uma das muito poucas, as raras, imprevisíveis
mas constantes, que são completamente dominadas pelo balé desde o primeiro momento.
Não há nada que qualquer pai ou mãe possa fazer para abafar esta paixão, como acabam
aprendendo, muitas vezes para seu pesar.

Aos oito anos Lily já fora admitida à Escola do Royal Ballet, que freqüentava depois do colégio,
três vezes por semana. Ela se agarrou ao balé como se fosse uma vocação, como se tivesse
tido uma visão.

— Se fôssemos católicos — dissera a mãe dela ao pai — essa menina estaria contando os dias
até poder ser admitida num convento.

— Ela não é mesmo de conversa — resmungara o pai. — Parece até que já pertence a uma
dessas ordens onde fazem voto de silêncio.

37 — Ora, querido, isso não é muito justo. É só que Lily tem um problema para se expressar...
nunca falou com facilidade. Talvez seja por isso que a dança é tão importante para ela —
respondera Lady Maxime, tranqüilizando-o.

Aos onze anos, Lily pôde se apresentar e ser aceita pela Escola Superior do Royal Ballet, onde
podia combinar seus estudos acadêmicos e de balé. Sua vida estava totalmente dedicada ao
trabalho e, correndo de uma aula para outra com as colegas, nunca se importou por ter de
renunciar a todas as atividades tradicionais das outras meninas de seu meio. Os únicos
contatos humanos em sua vida, além dos pais, eram com seus mestres e colegas, e mesmo
esses eram limitados a um mínino necessário. Lily não estava no Royal para fazer amizade com
suas rivais, pois aos oito anos já tinha uma compreensão quase adulta da natureza da
concorrência feroz no mundo do balé, uma concorrência da vida toda, só interrompida quando
uma bailarina afinal se aposenta.

Durante anos, o seu maior temor era ficar alta demais para a prática da dança. Se chegasse a
1,70m, ou que Deus a livrasse, a 1,72m, teria crescido demais para realizar o seu futuro. Suas
conversas com as outras dançarinas se limitavam ao tema temível da altura e ao seu segundo
grande receio: que ela pudesse ”se machucar”, possibilidade terrível, sempre presente, que
todas partilhavam igualmente.

Depois que completou a Escola Superior, as professoras de Lily acharam que ela era tão
promissora que deveria estudar por mais um ano na escola dirigida por Sir Charles Forsythe,
grande bailarino e mestre formado por Anthony Tudor e Frederick Aston. Esse ano a mais de
treinamento daria a ela o polimento final que lhe permitiria candidatar-se com êxito a uma das
grandes companhias de balé do mundo.

Lily Adamsfield se tornara uma moça de beleza excepcional, com olhos azuis-acinzentados,
mutáveis como opalas; olhos lunares que ela nunca parava para admirar ao espelho. Estavam
ali só para serem aumentados pela maquilagem preta estilizada que usava no palco. As mãos
lindas, os dedos longos, existiam apenas para estender aqueles gestos de languidez e
fragilidade que necessitam da força de um estivador para parecerem naturais. Os seios eram
pequenos, os ombros largos e bem definidos, braços e pernas quase longos demais em
comparação com o tronco, mas perfeitos para as exigências do balé; nenhum peso ou carne a
mais em algum lugar, costas retas e um pescoço de uma graça excepcional; um corpo que não
tinha outra função senão dançar. Seus pés descalços, sem as sapatilhas de ponta, pareciam ter
mil anos de idade...

Nunca ocorreu a Lily que ela estava perdendo os prazeres de ser admirada pelos rapazes, pois
os únicos homens em quem pensava eram

38

seus colegas de turma; o único critério pelo qual os julgava eram suas elevações, o número de
seus saltos, a segurança com que lhe agarravam a cintura quando a levantavam. De vez em
quando tinha contato com os rapazes de seu mundo social e sentia dificuldade para conversar
com eles. Fora do claustro do mundo da dança, ela possuía uma voz que, apesar de sua
suavidade cristalina, era trêmula, até mesmo um tanto tímida.

Quando Lily não estava vestida com suas roupas de ensaio, as malhas queridas e bem
surradas, as meias, collants e suéteres que a transformavam num maço de trapos móveis, não
sabia o que usar. Cabia à Viscondessa Adamsfield, mulher de bom gosto, escolher todas as
roupas para ela. Lily não possuía habilidade em conversas, nem em brincadeiras, não tinha
opinião sobre esportes, filmes, carros novos ou cavalos. Qualquer rapaz da idade dela, atraído
por sua beleza de lua nova, logo desistia de tentar fazê-la reagir, ou pelo menos lhe dar alguma
atenção, e se afastava em busca de uma garota mais animada.

No entanto, os pais de Lily e seus muitos primos não se preocupavam com aquele estranho
cisne que tinham criado. Ela era maravilhosamente diferente, e o que importava se ela não
tivesse um sucesso mundano rápido como adolescente? Ela seria apresentada à Corte,
naturalmente. Seria estranho demais ela não fazer aquela reverência necessária, não ser
retratada por Lenare, não entrar no mundo dos adultos, mas Lily se recusou a ter um début,
uma festa, uma temporada. Não tinha tempo para esses rituais, pois estava destinada à glória.
Aliás, todo o seu mundo sabia que a mais moça dos Adamsfield seria uma nova Margot
Fonteyn. A família dedicada estava tão convencida do futuro de Lily quanto ela.

Ela não queria o crédito pelo corpo com que nascera, mas sabia que sem a sua escravidão cega
e voluntária ao trabalho quase insuportavelmente duro do balé, sem sua resolução inabalável,
o simples fato de possuir um corpo de bailarina não significaria nada. Seus músculos e
tendões, as articulações de suas juntas e o comprimento de seus membros eram um acidente
fortuito do nascimento. Mas a carreira de uma prima ballerina não se faz só por um corpo,
depende de outra coisa, algo mais ainda do que o talento, algo no espírito; e, fosse o que
fosse, ela estava convencida de que o possuía.

Observando a moça encabulada que não usava maquilagem, usava os cabelos louros
compridos, caídos displicentemente em volta do rosto, que hesitava ao entrar na sala, que
evitava as conversas, que andava com uma graça natural, feliz, mas mantinha os olhos fixos ao
longe, ninguém poderia adivinhar a ambição sequiosa que nunca estava longe de seus
pensamentos. Lily era dona de um orgulho violento, malévolo, e carregava essa forte planta de
orgulho dentro de si tão bem escondida quanto se fosse um filho recém-concebido.

39 — Ela é uma dançarina excepcionalmente hábil — disse a voz conhecida. — Não há dúvida
de que a aceitarão no Royal.

Lily, que ia saindo do prédio da escola, e já atrasada para o jantar, vacilou no corredor. Sir
Charles estava falando com alguém, por trás de sua porta semicerrada. Quem mais, ela se
perguntou, angustiada, qual a outra garota entre suas colegas, sua concorrente, que teria
tanta facilidade em entrar para o Royal Ballet? Tinham lhe dado a parte do leão nos principais
papéis no ano passado, mas, evidentemente, ela devia ter uma rival. Jane Broadhurst? Anita
Hamilton? Seriam bastante boas para Covent Garden? Ambas boas bailarinas, mas tão boas
assim? Ela ficou ali imóvel, esperando ouvir mais.

— Ela também poderia tentar outras companhias... até mesmo o New York City Center. — Lily
cerrou os punhos. A segunda voz era de sua mestra de balé, Alma Grey. — Ou talvez
Copenhague... estão precisando de bailarinas lá, depois que Laura e as duas outras foram
atraídas para Nova York.

O Balé Real da Dinamarca?, repetiu Lily para si, sem poder acreditar. Não era possível. Só a ela
devia caber tal privilégio.

— Sim, Alma, meu bem — ela ouviu Sir Charles dizer, com um ar conclusivo — não há mesmo
uma companhia de primeira classe no mundo que não exultasse em ter a Lily. Há quinze anos,
dez mesmo, eu acharia que ela poderia ser alta demais, com 1,70m, mas agora isso não é um
problema grave, se ela parou de crescer. Meu pesar é que ela seja boa como é...

— Ah — suspirou a mestra de balé — é de dilacerar o coração... chegar tão perto, tão perto
mesmo. Este ano ela quase... sim, Charles, sim... ela quase atravessou aquela barreira. Eu lhe
garanto que houve momentos em que rezei por ela, olhando, e depois... não, eu disse comigo,
não vai acontecer. Ela tem tanta beleza, e tecnicamente não falta nada. No entanto, de algum
modo... aquela outra coisa, a que não podemos dar um nome, aquela coisa que o público
reconhece imediatamente, que o arranca das poltronas, não existe.

— Muitas vezes pensei que isso era uma questão de personalidade — disse Sir Charles,
meditando.

— Quanto a mim, nem tento dissecar o assunto. Prefiro chamar de magia — respondeu Alma
Grey.

— Ela pode dançar todos os segundos papéis em qualquer companhia internacional de


primeira classe — disse Charles Forsythe, criteriosamente — e papéis principais em
companhias menores.

— Prima ballerina? Discordo. Lily nunca será uma prima ballerina. Meu caro Charles, você deve
reconhecer que não existem quase prime ballerine — disse Alma Grey, com rispidez.

— Existem prime ballerine indiscutíveis e há maiores prime ballerine que recebem o título de
”Absoluta” para consolá-las, quando en40velhecem, mas acho que isso era sonhar... Não
existem ”quase” prime ballerine... com isso devo concordar, com relutância.

— Um métier estranho, Charles, pensando bem, uma coisa nada natural, e


desesperadoramente injusta, penso muitas vezes. Por mais que ensinemos, por mais que se
esforcem, ninguém pode ter toda a certeza, até depois que já tenham dedicado sua
juventude... ah, claro, há as exceções, aquelas que a gente vê logo, mas Lily nunca foi dessas.

— E quantas você já viu na sua vida, meu bem? — Só quatro, Charles, como você sabe muito
bem. Estou esperando a quinta. Sempre haverá uma outra, um dia desses.

— Talvez no ano que vem? Ou no outro? — Pode-se ter esperanças.

Invejosos, pensou Lily, correndo para a rua tão às cegas que quase foi atropelada por um táxi.
Velhos, nojentos de velhos, vis, lamentáveis, ignorantes e, acima de tudo, invejosos. Tudo pura
inveja de sua juventude, seu talento, um talento que nenhum dos dois jamais tivera, aqueles
dois velhos falando sobre uma coisa que confessavam não encontrar palavras para explicar,
fingindo lágrimas de crocodilo, se gabando, ousando julgá-la, empolgados ao dizerem que ela
não era bastante boa, ao mesmo tempo em que reconheciam, eram quase obrigados a
reconhecer, que qualquer companhia de balé no mundo havia de querê-la.

Inveja. Ela conhecera a inveja desde que começara a dançar, Lily pensou furiosa, voltando a pé
para casa o mais depressa possível. Conhecia bem a inveja das colegas cada vez que ela era
destacada, elogiada, quando lhe davam o papel principal. A inveja significava que ela era a
melhor, era o sinal infalível, a única emoção que ninguém conseguia esconder, o único tributo
que a tranqüilizava completamente. A inveja era sua aliada. Mas ela ficava doente ao ver que
nem mesmo Sir Charles e Alma Grey eram imunes. Deviam ser mestres, orientando e se
interessando, e não concorrendo; além da inveja, mas, evidentemente, isso seria esperar
demais da natureza humana. Eles iriam ao túmulo ainda invejando-a, mirrados, gastos,
encolhidos de inveja, pois o que mais poderia ser? Eles a enojavam, ela quase podia sentir
pena deles, se não fossem inteiramente repugnantes. Ela andou mais depressa, quase
correndo, tentando tirar da cabeça as palavras que ouvira. Por que havia de perder mais um
minuto pensando em alguma coisa que não poderia ser verdade? Ela andou de cabeça erguida,
os ombros para trás, com a portée de uma primeira bailarina, o modo mais altivo de se mover
um ser humano.

— Lily, está tão atrasada. Está tudo bem? — disse Lady Maxime, da sala de visitas.

— Claro que sim, mãe. Desculpe o atraso... não demoro.

41

Maldita Srta. Briny, pensou Zachary Amberville. Deveria tê-la levado com ele ou ignorado seus
comentários sobre alfaiates. Lá estava ele, sem paletó, diante de uma pesada mesa de madeira
sobre a qual estavam amontoadas, em pilhas que escorregavam a todo momento, peças e
mais peças das melhores sedas e de algodão do mundo, lisas, quadriculadas, listradas, uma
confusão de tecidos para camisa. O Departamento de Encomendas de Turnbull and Asser não
era lugar para um homem que detestava fazer compras e nem tinha idéia clara do que estava
procurando. O vendedor, jovem e educado, afinal o deixara sozinho para meditar sobre uma
escolha, após passar uma hora dando sugestões inúteis e pondo vários tecidos sobre o ombro
de Zachary. Ele tinha levado amostras menores em livrinhos, dúzias delas, mas quanto maior a
variedade, maior a dificuldade de escolher alguma coisa.

Azul claro? Parecia ser a única idéia sensata e segura, mas Zachary se recusava a ser reduzido a
encomendar camisas sob medida na mesma cor lisa que vinha usando havia anos. Tampouco
poderia se retirar discretamente, depois de ter tomado tanto tempo do vendedor. Decidido,
começou a eliminar os tecidos que não se imaginava usando, e pondo essas peças de lado.
Uma coisa ele aprendera sobre os britânicos naquela manhã de sábado: as camisas berrantes
eram tidas em alta conta. Ele nunca vira tantos contrastes escandalosos em listras, xadrez e
escocês tão agressivos que só um gângster poderia pensar em usá-los.

Absorto, resolvido, ele afinal escolheu quatro tecidos possíveis e, como o vendedor lhe
mostrara, soltou-os da peça, em pedaços compridos, e se embrulhou neles. Examinou-se ao
espelho e sacudiu a cabeça, desanimado. Quase não havia luz na salinha, nem elétrica nem
natural; e todas as listras discretas que ele escolhera pareciam quase idênticas. Ele parecia
estar vestido com uma barraca de beduíno.

— Desculpe, mas poderia me dar uma opinião? — disse ele, na direção de um vulto feminino
que notara vagamente, sentado havia algum tempo num sofá, enquanto um homem mais
velho, com quem ela entrara na loja, conferenciava atentamente com seu vendedor.

— Como? — disse ela, num sobressalto, como se despertada de um sonho.


— Conselhos. Preciso da opinião de uma mulher. Poderia se levantar e dar uma olhada? Diga o
que pensa dessas listras. Não seja educada... se não gostar, diga. Eu iria até aí, mas se for,
essas peças vão se desdobrar pelo chão todo. Estou preso a esta mesa e perdi a atenção do
meu vendedor.

— Vou buscá-lo para o senhor. — Não se incomode, ele já desistiu de mim. Preciso de uma
opinião nova.

42

Com relutância, Lily Adamsfield se aproximou dele. Maneiras esquisitas, mas o que se podia
esperar de um americano?

Diabos, mas ela é muito mocinha. Bom, isso não vai importar, pensou Zachary, num lampejo
de uma certeza absoluta, que não deixava lugar para dúvidas. Foi só olhar para Lily e ele se
apaixonou, por seu rosto oval cercado de cabelos louros, lisos e espessos, por seus olhos, as
profundezas cinzentas contendo raios do arco-íris, por sua boca, de uma forma vívida e doce,
com um traço de uma tristeza deliciosa, feita para ser apagada com beijos. Ele se apaixonou
para sempre. Era a sua garota. E tão vulnerável. Se ele soubesse que a mulher de seus sonhos
realmente existia, já teria ido buscá-la antes. Zachary deixou as fazendas caírem de seus
ombros e pegou a mão de Lily. — Agora vamos almoçar — disse ele.

A Honorável Lily Davina Adamsfield, tendo completado dezoito anos, rainha das ninfas no seu
vestido de renda preciosa de Normam Hartnell, e Zachary Anderson Amberville casaram-se um
mês depois, em janeiro de 1952, com as bênçãos perplexas do Visconde e Viscondessa,
Adamsfield, na capela de St. Margaret, Westminster, diante de 450 pessoas, inclusive a Rainha
Elizabeth, recém-coroada, e o Príncipe Philip, a Srta. Briny, Pavka Mayer, toda a família
Landauer e Sarah Amberville. Só faltou Cutter, que estava em exames. Lily pusera Sir Charles,
Alma Grey e todos os seus colegas do balé na segunda fila, logo atrás da rainha e seus pais.

Eles que olhassem bem, bem mesmo, pensou ela, ao arrumar os lugares deles com cuidado, e
vissem como ela estava feliz, no momento em que sacrificava sua carreira, o seu futuro como
prima ballerina, nunca posto em dúvida. Ela sempre dançaria. A dança era essencial, mas ela
não daria espetáculos. A vida difícil, dedicada, de propósito único, exigida de uma prima
ballerina, não poderia ser incluída na vida triunfante que se estendia tão radiosa e segura
diante dela como mulher daquele americano assombrosamente forte, um homem que a
adorava e acreditava nela implicitamente.

Conforme ela disse à mãe espantada, se tivesse de aparecer em espetáculos todas as noites,
não seria justo para com Zachary. Entrar para o New York City Center Ballet agora estava fora
de cogitações.

— Vou ficar com o melhor de tudo... só estou desistindo de um título, de duas palavrinhas:
”prima ballerina”. E se eu tivesse desperdiçado a minha vida para ser essas duas palavrinhas,
mãe? Não posso me casar com Zachary e levar a vida que pensava querer. Tenho de crescer, e
a opção é parte do crescimento. Sim, é um sacrifício, você não está errada, mas é um sacrifício
que quero fazer. Um sacrifício que tenho de fazer. Não é um desperdício, eu lhe garanto.
Todos esses
43 anos não foram perdidos... é só que ultrapassei esse tipo de vida. Acredite em mim, mãe,
sei o que estou fazendo.

Ele lhe ensinara a beijar, pensou Zachary, no estado de euforia em que parecia ter entrado
permanentemente, desde o primeiro dia em que vira Lily. Ela não sabia beijar, nunca fora
beijada, ele apostava tudo o que possuía que, se ele não tivesse ido à Inglaterra, poderia ter
passado o resto da vida nos Estados Unidos sem encontrar uma garota parecida com Lily e que
nunca tivesse sido beijada.

E agora ele tinha de lhe ensinar a fazer amor. Ah, puxa, se ao menos já fosse um ano depois, e
eles estivessem instalados na casa grande que ela escolheria para eles em qualquer rua de
Nova York do seu agrado, se estivessem indo para a cama num quarto conhecido, cheio de
todas as coisas lindas que ela ia comprar, para uma cama que não tivesse aqueles lençóis com
o acabamento frio e imaculado dos lençóis da suíte nupcial do Claridge’s... Lençóis simpáticos,
diabos, podiam ajudar. Ou mesmo um hotel francês. O Claridge’s era por demais
majestosamente britânico. No dia seguinte estariam em Paris, mas o dia seguinte não era hoje.

Se ele ao menos fosse um dos Ambervilles de séculos atrás, diante de uma noite de núpcias
tradicional da Nova Inglaterra, com uma noiva virgem, algo que teria sido a única situação
possível e natural, ele tivesse sido criado para esperar... Ele estava precisando era de tradição.
Valores comuns, tradicionais, antiquados. Talvez, no ano seguinte, votasse pelos republicanos.

De repente, ele se lembrou de sua primeira experiência pessoal, com uma das estudantes de
enfermagem do St. Luke’s Hospital, cuja janela ficava diante das janelas de seu dormitório no
Hamilton Hall, em Columbia. Ele era um calouro de quinze anos e ela também era jovem, mas
não tanto quanto ele. Não importara a idade, ela sabia exatamente onde e quando, e
especialmente como. Know-how... era só isso. Todas as garotas com quem ele dormira desde
aquela noite memorável tinham certo grau de know-how, e nenhuma fora virgem.

Mas ele nunca se apaixonara. Portanto, era também meio virgem, virgem emocional de 29
anos, um piloto de caça dos fuzileiros navais virgem, proprietário de três revistas virgem,
multimilionário virgem, virgem que tivera dezenas de mulheres, já perdera a conta de quantas.

— Pare de pensar — disse Zachary, em voz alta para si mesmo, no quarto de vestir. — Não
está ajudando nada.

Por um momento, ele se tranqüilizou ao ver Lily diante do fogo de lenha na lareira no imenso
quarto forrado de lambris. Ele não sabia, ao tomá-la nos braços e sentir o frio de sua pele, que
a pose suprema de Lily, ali imóvel no seu robe de cetim branco e rendas, se devia

44

a centenas de ensaios de Giselle, à memória muscular de Coppelia, às noites em que dançara


de Odette no Lago dos Cisnes. A pose criada para os bailarinos durante 150 anos de balé
clássico pode sustentar qualquer deles em qualquer situação para a hora de levantar a cortina.
Mas depois que Zachary e Lily se deitaram juntos na cama larga, depois que ela largou o robe
numa cadeira, ficando só de camisola de cetim com alças, ele viu que, apesar do calor no
quarto, ela estava tremendo.
— Ora, vamos, guria. Isso é tudo uma bobagem — declarou ele, agarrando-a no colo, com as
cobertas e tudo, e carregando-a para se sentar em seu colo numa poltrona diante da lareira. —
Parece que devíamos convidar os garçons da copa e as camareiras para espiarem... é como
aquelas noites de núpcias reais de antigamente, já li sobre isso, em que todo mundo ficava por
ali vendo o noivo e a noiva irem para a cama e, sem dúvida, dizendo piadas obscenas.

— Conte uma piada obscena — disse Lily, tentando sorrir. — Você provavelmente não
entenderia as que conheço. Em todo caso, jamais consigo me lembrar das anedotas. É um de
meus fracassos na vida, mas isso me faz um ouvinte ótimo, pois cada piada é nova para mim.

— Quais são os seus outros fracassos? — Não sei jogar golfe, sempre perco dinheiro nas
corridas de cavalos, mas assim mesmo adoro apostar, não consigo me lembrar dos bons anos
dos vinhos, nem mesmo a diferença entre um Bordeaux ou um Borgonha, nunca consegui
aquele emprego de mensageiro no New York Times...

— Estou falando em fracassos de verdade, importantes, do tipo que a gente nunca se refaz —
disse ela, sem sorrir.

— Creio que nunca tive disso. Nem pretendo ter. Jamais. — Foi o que pensei de você no dia
em que nos conhecemos... você não é um homem que fracasse em alguma coisa na vida.

— Querida, você parece tão feroz. — Ele olhou espantado para Lily, sua noiva misteriosa,
tímida, inexperiente, cujos gestos pareciam ao mesmo tempo uma carícia e uma busca de
alimento; no entanto, sua expressão de repente ficou atenta, como ele nunca a vira.

— Você não me conhece bem, Zachary. Sou feroz — disse ela, numa voz tão naturalmente
angelical que ele se limitou a rir e beijar os lábios dela. Ela reagiu com a disposição ainda
desajeitada que ele achava tão tocante nela. Ele abraçou Lily, sob as camadas das cobertas. Ela
agora estava mais quente, mais descontraída, e o tremor parara. Ele passou os dedos pela
coluna do pescoço dela, tocando, com assombro, a curva espantosa onde o pescoço se
encontrava com o ombro. A mão dele seguiu para a clavícula e sentiu a força, o poder dos
músculos daqueles ombros esguios. Ele podia encerrar o braço dela com

45 uma de suas mãos grandes. Havia ali um retesamento delicado que o fez notar alarmado a
diferença da matéria de que os dois eram feitos. Ela era como o aço coberto pela seda, ele
apenas carne, carne comum.

A excitação correu em suas veias, como um incêndio numa floresta, ateado em dezenas de
lugares ao mesmo tempo, mas ele se manteve sob um controle absoluto. Só havia uma coisa
que ele sabia sobre como ensinar a Lily a fazer amor: era levar as coisas na calma, ir tão
devagar e ternamente quanto fosse humanamente possível, ou, se não fosse possível para um
humano, ter um controle inumano. Passaram-se os minutos enquanto Lily, os olhos bem
fechados, sentiu as pontas dos dedos de Zachary deslizarem com a pressão mais leve do
ombro ao seu cotovelo. A alça de sua camisola era um cordãozinho de cetim, e escorregou do
ombro, expondo um de seus seios pequenos como um pires, com um bico pequenino, chato,
de um rosa tão pálido que quase não fazia contraste com a alvura de sua pele. Zachary viu o
seio à luz do fogo, prendeu a respiração, apertou as coxas sem dó, e manteve a mão afastada
daquele montinho encantador. Ela ainda não estava preparada para ser tocada, disse ele
consigo, roçando os lábios de leve pelo pescoço dela, sob seus cabelos. Lily não fez qualquer
ruído e ficou ali sentada imóvel quase sem pensar, no colo dele. Mas ele sentia que ela estava
se controlando, mal respirando.

— Sossegue, minha querida, não vou fazer nada que você não queira, não há pressa, temos
todo o tempo do mundo — ele sussurrou, mas ela não deu mostras de estar ouvindo. Os
dedos dele largaram o cotovelo e desceram, acariciando o antebraço; chegaram ao pulso e
depois se estenderam, cobrindo a mão dela. Num gesto rápido que o surpreendeu, ela virou a
palma da mão para a palma dele, agarrou-lhe a mão e a levantou, de modo que ela
abruptamente cobriu seu seio. — Não, amor, não é preciso, está tudo bem — disse ele, em voz
baixa, e afastou a mão de novo. Ela só estava fazendo o que imaginava ser esperado dela,
pensou ele. Sem uma palavra, ela beijou-lhe a boca, comprimindo seus lábios frescos nos dele,
mais parecendo uma criança buscando segurança do que uma mulher. Ele cerrou os dentes,
para se impedir de enfiar a língua entre os lábios dela. Naquele mês ele lhe ensinara a beijar
sem apertar os lábios, mas ela tanto aceitava como recuava de sua língua, e ele não estava
querendo iniciar nada que Lily pudesse não gostar, especialmente nessa noite.

Lily, num gesto rápido do outro ombro, fez a outra alça deslizar. As mantas ainda lhe cobrindo
as pernas, ela se sentou desafiadoramente reta no colo de Zachary, nua até a cintura, os olhos
ainda fechados, mas o tronco inteiramente revelado, um tronco em que a combinação da
meninice de seus seios imaturos e a largura quase de menino dos ombros criava um
contraponto violentamente erótico. Dos seios à cintura ela parecia modelada em marfim,
pensou Zachary. Ele podia con-

46

tar suas costelas, ver seu coração batendo, e as veias de seu peito formavam um desenho
eternamente memorável sob a pele clara. Com o maior cuidado, ele seguiu a maior das veias
acima dos seios com o indicador, cuidando para não passar entre os seios, não arriscar alguma
audácia cedo demais. Teve de cruzar uma das pernas sobre a outra para impedir que o pênis
ereto se forçasse para fora de suas coxas, pois por mais que lutasse para mantê-las juntas, a
ponta grossa tinha vida In Orla e nada podia impedi-la de se erguer.

Lily pareceu estremecer. Ainda estaria com frio, ou por fim ficara impaciente?, pensou ele,
permitindo-se tocar na ponta do bico do seio com um dedo, de leve, apenas roçando, vendo se
Lily tinha algum reação. Ela nem recuou nem se encolheu, mas pareceu a Zachary que o bico se
empinara, que estava positivamente saliente do seio, e ’inundo tocou no outro bico viu, com
prazer, que também ele reagia A caricia.

— Sim, sim, isso mesmo, é gostoso, gostoso — murmurou ele, entre dentes, obrigando-se a
não assustá-la, agora que ela começava a ter prazer. Ele ficou agradando os bicos dos seios por
mais um pouco, traçando pequenos círculos em volta deles, voltando às pontas, que agora
estavam positivamente firmes; por fim baixou a cabeça e pôs um dos botões duros na boca,
circulando-o por um momento com a lingua antes de ousar chupá-lo. Lily pareceu retesar-se
quando ele começou a chupar. Ele parou, pensando com emoção quase reverente que era a
primeira vez que uma boca de homem tocava aquele corpo, suas partes íntimas. Mas então,
com outro movimento repentino e resoluto, ela puxou a cabeça dele para o seu peito com
uma das mãos, enquanto a outra erguia o seio e o oferecia a ele, pondo-o em sua boca e
murmurando:

— Não pare. Logo os dois mamilos estavam molhados, salientes e puxados em pequenas ilhas
de tecido engurgitado. E quando Zachary viu como tinham crescido, pegou Lily no colo, a
camisola dela deslizando pelo corpo enquanto ele atravessava o quarto. Ele a colocou na cama
com cuidado e se deitou ao lado dela, conservando uma distância entre os dois para que ela
não sentisse o pênis rígido, que estava levantado reto sobre seu estômago, contraindo-se
numa impaciência violenta. Ele se apoiou num cotovelo e experimentou alisar a cinturinha
fina, os quadris elegantemente estreitos, as coxas flexíveis, supinamente desenvolvidas,
aprendendo a forma do tipo de corpo que ele nunca vira em qualquer outra mulher. Despida,
Lily parecia uma deusa, pensou ele, como a estátua de uma deusa de alguma outra civilização
mais requintada. Sua veneração aumentou, misturada com o desejo mais alucinado que ele
jamais tivera, ao ver os pêlos púbicos de Lily, louros e meio crespos, e bem mais espessos do
que ele esperava, sobre o seu monte

47 de Vênus, os pêlos púbicos de uma mulher, não de uma mocinha. Ela estremeceu de leve
sob a mão dele, virando a cabeça de um lado para outro, os olhos ainda fechados, mas nem o
empurrou nem estendeu as mãos para tocá-lo. Parecia que ela estava dormindo, pensou ele,
quase como se quisesse que ele a possuísse num sonho.

Depois que Zachary tocou tanto quanto pôde no corpo oferecido de Lily, pelo tempo que
agüentou, de agrados e mais agrados, sem se aproximar mais, ele a puxou para junto de si e
pôs um braço sob a cabeça dela. Depois, colocou um dos dedos da sua mão livre na boca e o
molhou bem. Com esse dedo delicado ele separou com cuidado os pêlos púbicos e encontrou
a entrada oculta para a vagina. Devagar, uma fração de centímetro de cada vez, ele foi
enfiando o dedo na passagem, procurando ansioso algum sinal de dor no rosto dela. A
expressão dela não mudou, embora os lábios estivessem de novo apertados, o queixo firme.

Zachary molhou o dedo de novo e de novo, cada vez voltando com cuidado para o túnel
quente, não encontrando resistência mesmo quando enfiou o dedo o máximo que pôde. Não
sabia se ela estava molhada por si, ou por toda a umidade que ele levara lá, mas sabia que
chegara o momento de penetrá-la. Pôs-se de joelhos por cima de Lily, apoiando-se nos
cotovelos, e abaixou-se com cuidado, de modo que apenas a ponta arredondada e
intumescida do pênis tocasse na entrada da abertura delicada. Depois foi penetrando-a,
primeiro menos de dois centímetros, depois mais um. Devagar, ah, tão devagar, ele se movia,
o suor lhe enchendo a testa, sempre observando o rosto dela para o momento em que teria de
se retrair, quando ele a machucaria demais. Mas Lily estava sem expressão, se bem que sua
respiração estivesse acelerada. Ela não se mexeu, ficou ali deitada debaixo dele, deixando que
ele a enchesse. Por fim, depois de uns momentos prolongados, ela já recebera todo o pênis
dele, ele latejava dentro dela em toda a sua extensão. Zachary se abaixou, de modo que suas
pernas ficassem estendidas no colchão, enquanto os cotovelos o impediam de esmagá-la. Ele
sentia o pênis crescendo, ficando cada vez maior, se bem que não movesse um músculo. O
interior dela, macio, quente e apertado, foi demais para ele. Gozou sem uma única arremetida,
os espasmos tão violentos, tão fortes, tão impossíveis de controlar depois da frustração
daquela última hora, que ele despejou o seu esperma dentro dela num ímpeto, um jato tão
rápido que foi um alívio puramente animal.

Por um instante, perdido no bater de seu coração, Zachary se esqueceu de Lily, mas assim que
se refez rolou para o lado e a tomou nos braços, cobrindo-lhe o rosto com beijos de uma
gratidão louca, uma chuva de beijos misturados com lágrimas que não pôde deixar de verter.
Ele não esperava que ela ficasse excitada. Nos próximos dias, aos poucos e com um cuidado
infinito, ele lhe ensinaria a apreciar o

48

sexo, mas no momento estava assombrado com a coragem dela, infinitamente comovido por
Lily ter-se recusado a deixar que seu pudor natural o fizesse se sentir como um bruto, seu
coração tocado por ela ter permitido que ele a penetrasse sem qualquer outra demonstração
do esforço que ela estava fazendo a não ser os olhos fechados.

— Eu a machuquei, querida? — perguntou ele, por fim. — Não, claro que não. Ela abriu os
olhos e sorriu para ele. Como ele poderia saber que o seu corpo fora treinado para aceitar a
dor, a recebê-la bem, a abraçála? Como ele poderia compreender que a nova série de
emoções que ela acabara de encontrar não eram nada comparadas com a acomodação a um
par de sapatilhas de ponta? Durante muitas horas por dia, desde os oito anos, ela convivera
com uma dor constante, dor que ela fora treinada a suportar com um sorriso, dor que uma
bailarina, como qualquer outro atleta, considera uma parte inevitável da vida.

Lily esperava algo diferente na sua noite de núpcias, algo rude, empolgante e desconhecido,
algo muito mais louco do que as sensações que tinha quando um par forte a levantava mais
alto do que jamais fora levantada. Esperava um duelo de dois corpos que deixasse a ambos
doloridos, suando e exaustos, como depois de um grande desempenho. Não aqueles agrados
prolongados, não a exploração furtiva de um corpo que ela havia muito deixara de considerar
como outra coisa senão um instrumento, um corpo do qual não tinha a menor consciência. Ah,
mas como ela quisera e precisara ser possuída, usada, vencida, lançada implacavelmente de
supetão num mundo que nunca conhecera, um mundo sobre o qual ela às vezes ouvia os
outros estudantes falarem, às risadas, um mundo que a fascinara, enquanto ela o rejeitava.

Ela não podia fazer mais do que fizera, pensou Lily, não sabia Os gestos certos, as posições
certas a tomar, mas sua imobilidade devia ter indicado claramente que ela lhe permitiria tudo?
Ela não suportava sentir-se desajeitada, pouco à vontade com seus músculos, e no entanto
não havia ninguém para lhe ensinar a não ser Zachary. Era ele quem tinha experiência, pensou
ela, caindo no sono. Era ele quem devia tornar aquilo importante para ela. Ela fizera o possível.
Agora cabia a ele tornar aquilo maravilhoso, sim, maravilhoso, mais maravilhoso ainda do que
o aplauso.

Os Ambervilles voltaram para Manhattan depois de uma lua-de-mel de dez dias em Paris.
Zachary nunca se afastara de seus escritórios por tanto tempo, quase seis semanas desde o dia
em que partira para Londres. E, além de visitas rápidas aos escritórios de Londres e Paris, ele
não fizera a viagem de inspeção que planejara. Mas estava feliz demais para se importar com
isso.
49 Durante dez noites, ele fizera amor com Lily, e cada noite ele passara horas, horas abafadas,
serenas, horas que, para ele, eram como a exploração lenta, de centímetro em centímetro, de
um terreno novo, enluarado. Ela era como uma melodia, pensou ele, uma melodia rara num
tom menor que ninguém mais podia ouvir.

Lily nunca lhe recusou nada, a não ser uma noite, quando ele pela primeira vez roçou a boca
por suas coxas. Ela quisera pôr a mão sobre os pêlos, e logo as tirara. Ele entendeu que ela não
estava preparada para aquela intimidade final, e não voltara a tentar. Tinha certeza de que um
dia, em breve, graças à sua paciência e ternura, encontraria o meio de fazê-la ter prazer
também. Não que ela tivesse alguma aversão pelo sexo, dizia para si, apenas ainda não
aprendera a se soltar. Era uma questão de tempo e ele nunca se esqueceu do que devia ser
para uma moça de dezoito anos — pouco mais que uma criança — de repente se ver casada
com um homem de 29 anos. Sabendo que Lily sempre se abria para ele, todas as noites, podia
moderar qualquer rudeza, qualquer pressa, qualquer gesto que pudesse, achava ele, parecer
animalesco, bruto demais, assustador para uma moça com a sensibilidade dela.

Depois daquela primeira noite, viu que sempre tinha de possuí-la uma segunda vez; a própria
imobilidade dela o excitava como se fosse o afrodisíaco mais possante, e depois de ter
conseguido aquela primeira satisfação, conseguia ficar dentro dela por muito mais tempo,
deitado imóvel, ouvindo-a respirar, beijando-a delicadamente enquanto seu pênis ficava cada
vez mais duro, sem atrito, apenas com um leve balançar da sua pelve contra a dela no orgasmo
dele, para não machucar aquela criatura infinitamente delicada, que o aceitava em silêncio e
que era sua esposa.

50

Cutter Amberville resolveu cursar a universidade na Califórnia, em vez de passar quatro anos
numa escola do Leste. Queria ficar o mais longe possível do irmão, deixar para trás aquela
parte do mundo em que o nome Amberville levava as pessoas imediatamente a lhe
perguntarem se era parente de Zachary. Em Stanford — ou ”a Fazenda”, como se referiam,
zombando, os estudantes de Berkeley, de seu posto tradicionalmente intelectual perto de San
Francisco, à sua rival de elite, nada igualitária — ele encontrou companhia que não era
diferente da que tivera em Andover: rapazes ricos, que tinham algo que ele queria.

Em Stanford, Cutter teve de estudar mais do que estudara em Andover, mas logo aprendeu a
arte de fazer apenas o mínimo necessário, ficando com todo o tempo possível para continuar a
primar nos setores que escolhera: tênis, squash, vela, pólo e esqui. Eram, sem dúvida, esportes
de um cavalheiro, esportes de rico; exigiam anos de prática para serem executados com
perfeição; inspiravam admiração e confiança quando um rapaz conseguia dominá-los todos.
Exigiam habilidade, coordenação, resistência e, no caso do pólo e do esqui, uma disposição de
se arriscar no que se referia à coragem física. Não havia risco — risco razoável — que Cutter
não quisesse correr num cavalo ou nos esquis, já que a coragem física, concluiu ele, com a
frieza calculista que escondia com tanto cuidado, em geral era aceita como coragem pura e
simples. Seu irmão, seu inimigo, nunca aprendera a praticar esporte algum com perfeição.
Cutter não se descuidava de dedicar sua habilidade ao tênis e ao squash. Enquanto os outros
esportes que ele escolhera exigiam que competisse contra um animal ou os elementos, os
esportes de raquete eram uma competição homem a homem. Vencer era um esforço, mas não
era nada comparado com a perícia e a técnica com que Cutter aprendeu a perder algumas
partidas importantes, partidas lutadas com bri-

51 lhantismo com alguns pais de seus amigos, escolhidos a dedo; homens que jogavam
excepcionalmente bem para sua idade; homens que estavam no negócio dos bancos de
investimento, homens que um dia, no futuro, estariam em posição de lhe dar um emprego
num negócio em que os contatos muitas vezes significavam comissões. Perder no tênis, perder
de bom humor, de modo convincente, sem despertar suspeitas de que não estivesse se
esforçando muito, tornou-se um dos predicados especiais de Cutter Amberville, tão
importante quanto suas boas maneiras e sua beleza, mais importante ainda do que a sua
coragem indubitável.

— Ontem fui fazer compras com a primeira Sra. Amberville — disse Zelda Powers a Pavka
Mayer, com azedume, enquanto tomavam um drinque juntos, antes do almoço.

— Ah, é? Você parece tão maldosa quanto está a sua fisionomia, meu anjo. Afinal de contas,
Zelda, você tem de se lembrar que ela é muito jovem e muito britânica, e sempre foi
protegida, quase desde o dia em que nasceu, ou pelo menos foi o que entendi o Zachary dizer,
pela sua absorção total no balé. Se ela não sabe se vestir, a não ser num tutu, isso não deve ser
surpresa para você.

— Mas o caso é que a Honorável Lily sabe se vestir, sim... agora — disse Zelda, com um olhar
de esguelha, rancoroso, para Pavka.

— Mau gosto? Ou apenas um gosto sem graça, provinciano? Os britânicos não são famosos em
matéria de se enfeitarem.

— Fomos à Bergdorf, fomos à Saks, fomos à Bonwit, fomos a todas as boas lojas de Nova York,
porque Zachary não permitiu que eu a levasse aos atacadistas. E ela olhou para todos os
nossos melhores vestidos de estilistas com tanto interesse quanto se eu a tivesse levado para
ver uma exposição de minhocas — disse Zelda, irritada. — Não havia nada que ela quisesse se
dar ao trabalho de experimentar, nada mesmo. E ela estava mesmo precisando de roupa,
Pavka, porque a mãe não soube do casamento a tempo de poder lhe comprar um enxoval
completo, nem nenhuma das duas tinha alguma idéia sobre o que usam as jovens casadas em
Nova York. Ela estava toda vestida num tweed pastel que parecia um cruzamento entre Alice
no País das Maravilhas e uma Cabeça Coroada numa Visita de Estado a algum lugar hostil.

— Mas tão, tão linda — disse Pavka, sério. — Não nego que ela seja linda... Eu só queria
ajudar... você sabe que faço qualquer negócio pelo Zachary. Em todo caso, como último
recurso, eu a levei a Mainbocher e aí ela se interessou, deu algumas mostras de animação e
quando saímos de lá, tinha encomendado 37 conjuntos diferentes, quase toda a coleção. As
primeiras provas são daqui a uma semana.

— Então, o que é que há com isso? Resolve o seu problema, não?


52

— Isso me faz mal. Mainbocher na idade dela! Feito sob medida, as roupas mais caras em todo
o país... roupas muito discretas, Pavka, muito classudas, roupas absolutamente perfeitas, que
poderiam ser usadas pelo avesso, se você quisesse. As senhoras que compram lá são as mais
ricas de Nova York, fazem parte de uma elite especialmente exclusiva. As pessoas lutam para
chegar a Mainbocher, raios! E aposto que nenhuma delas jamais encomendou tanta coisa só
numa visita. Aquela, aquela adolescente... nem perguntou quanto custavam... isso nunca lhe
ocorreu.

— E daí? Zachary pode pagar. — Não é o dinheiro, foi a atitude dela que não suportei. Ele já
lhe contou da casa que está comprando? A única casa em toda a cidade que ela se dignou a
gostar?

— Ele falou alguma coisa, mas não prestei muita atenção. — Ela me levou para vê-la. Pavka,
você sabe que tipo de cara é o Zachary. Simples, terra-a-terra, não dá a mínima para a
ostentação. Como é que você acha que ele vai viver, num palácio de mármore cinza claro,
ocupando metade de um quarteirão, espalhado em três andares, com um salão de baile, meu
bem, e um jardim imenso nos fundos? Para duas pessoas apenas? É a metade do tamanho da
Frick; não é uma casa, é uma mansão, positivamente.

— Ele vai adorar, se ela ficar feliz — disse Pavka, gostando de bancar o advogado do diabo.

— Mas por que é que uma garota daquelas vai precisar de um palácio para ser feliz, pelo amor
de Deus? Quem é que vive assim, hoje em dia? Pense só nas reformas, a decoração, o pessoal
para manter aquilo, alguém para dizer ao pessoal o que fazer, pois ela não vai saber, ou não
vai querer se incomodar. Pense nos jardineiros. Jardineiros em Nova York! Você não tem a
menor idéia do que vai custar, tem?

— Não. Mas nós dois sabemos que Zachary pode pagar, e cem vezes mais. Não acredito em
resolver como as outras pessoas devem gastar o dinheiro delas, Zelda, e acho que você
também não... pelo menos, até agora. — Ele suavizou suas palavras com um beliscão
carinhoso e bem colocado.

— Está querendo dizer que estou com ciúmes, não está, Pavka, meu anjo?

— E então?

— Claro que estou. Devia me envergonhar, mas não me envergonho.

— Até mesmo Zelda Powers se permite uma reação feminina perfeitamente normal. Cuidado,
você pode perder o seu toque original e faro. Isso pode ser má notícia para o departamento de
circulação de Style.

— Não vá apostar nisso.

53 — Não o farei. E você tem de tomar outro drinque. Insisto. Vou até pagar.

Nos tempos em que eram jovens solteiros, logo depois do fim da guerra, Nat Landauer e
Zachary Amberville passavam muitas tardes nas corridas de cavalos com Barney Shore, rapaz
simpático, de cabelos ruivos, com seus vinte e poucos anos, que fora companheiro de quarto
de Nat em Syracuse. Assim como Nat estava destinado a dirigir a Five Star Button Company,
Barney era o herdeiro do negócio de família, coisa a que ele se referia, displicentemente, como
”as bancas”.

— Bancas de roupas? — perguntou Zack, um dia. — Não, de revistas. — Você as fabrica? —


Não, nós as enchemos — disse Barney, encerrando o assunto, não querendo interromper o
seu estudo do Racing Form, prática dedicada que nunca lhe trouxe benefício algum, como não
trazia a Zachary. Somente depois que começou a publicar Style é que Zachary entendeu a
importância de uma instituição chamada Crescent, fundada por Joe Shore, pai de Barney, que,
junto com Curtis, Warner, Select e NICD, era uma das grandes distribuidoras nacionais de
revistas.

Sem essas poderosas distribuidoras, o negócio de publicação de revistas não poderia existir.
Enquanto Zachary só possuía Trimming Trades Monthly, vendia seus exemplares por
assinaturas, mas quando criou Style, assinou um contrato de três anos para a distribuição
nacional com Joe Shore, que estabeleceu uma norma para o futuro. No primeiro ano de
existência de Style, ele pagou à Crescent dez por cento do preço de capa de cada exemplar
vendido; no segundo e terceiro anos, seis por cento. Em troca, a Crescent servia de banqueiro
para Style, pagando-lhe pelo número de exemplares impressos.

Joe Shore, com seu jeito enganadoramente suave, podia fazer ou arrasar uma revista,
resolvendo quantos exemplares mandaria para as várias capatazias locais, que então as
entregavam aos varejistas, que depois — e não muito depois, torcia o editor da revista — as
colocariam nas bancas em posições de destaque.

Zachary Amberville agradara de imediato a Joe Shore, duro e sossegado, cuja aprovação era
difícil obter, mas que, uma vez obtida, nunca era perdida por nada, a não ser o
descumprimento de um trato. O assassinato, incêndio premeditado, vadiagem com intenção
de desordem — nenhum desses delitos mudaria a opinião de Joe Shore sobre um homem de
quem ele gostasse e que cumprisse a palavra.

— Joe — disse-lhe Zachary um dia, em 1953, quando almoçavam juntos — quero que conheça
a Lily. Será que você e a Sra. Shore, e Bar-

54

nry e aquela garota nova dele querem jantar conosco, de terça-feira a uma semana?

— Gostaríamos muito, Zack. Espere aí, você falou terça? — Certo. Não esta agora, daqui a uma
semana. — Qualquer outra noite, Zack, com prazer, mas terça-feira titio, nenhuma terça-feira.
Minha mulher me mataria.

— Um anjo como ela? Pensei que o seu fosse o casamento ideal. — Zack, não brinque com um
brincalhão. — Diga logo, o que é que há na terça-feira? — Milton Berle. Terça-feira, às oito da
noite. — E daí? — Quantos artigos já publicou sobre Milton Berle em Seven Days? — Não sei
bem... Fico vendo os raios de coisas e pensando por que, mas o meu redator de televisão disse
para confiar nele. Desde que dobrei-lhe o ordenado para conseguir que saísse de Life, tentei
não dar palpites ao cara. Pessoalmente, nunca tive tempo de ver televisão e Lily não se
interessa de todo. Talvez seja o problema da língua, para ela

acrescentou ele, rindo. — Impossível. Você nem sabe o que está perdendo. — Joe Shore
%acudiu a cabeça, assombrado. — Aposto que nem tem um aparelho ainda.

— Um dia assisti à do Barney e só vi um bando de anões. Vão ier de melhorar isso. Prefiro mil
vezes um filme ou uma peça da Broadway. Quer café?

imagine, pensou Zachary caminhando pelas ruas movimentadas, Inc Shore, um homem com
tanto poder material quanto nenhum ouo o que ele já conhecera, não podia aceitar um
convite para jantar em qualquer noite de terça-feira por causa de Milton Berle! Será que
Eisenhower e Mamie assistiam? O Senador Joseph McCarthy assistiria? E Misrtess Kefauver?
Ele, pessoalmente, era inquieto demais para ficar sentado muito tempo, a não ser para uma
partida de beisebol, de vez em quando. Para ele, a importância da televisão era como
concorrente para o dólar do anunciante, e isso não o preocupava tanto quanto as outi as
revistas. Ele parou de repente, na esquina da Quinta Avenida com Rua 52. Será que o país
inteiro parava na terça-feira às oito da noite? Era provável que sim, e era provável que parasse
para Lucille Bali e Sid Caesar e ”The Honeymooners”, e quem sabia lá que outros .%hows? Ele,
Zachary Amberville, era um burro, ignorante e cego, que quase cometera o engano fatal de
pensar que podia julgar o público americano segundo os seus gostos pessoais. Mas não tão
burro assim para não reconhecer o erro e fazer algo a respeito. Television Week? Muito
comercial. This Week on Television? Muito comprido. Television Weekly? Algo claramente
intelectual nisso, parecia do Harper’s ou do The Atlantic. Your TV. Week? Ainda era muito
comprido. TV

55 Week. Servia. Ele atravessou a rua, imaginando claramente o primeiro número. Um livro
quadrado, oito por oito, em papel de boa qualidade, cheio de fotos coloridas e passatempos,
horários de televisão, claro, com uma grande foto colorida de Milton Berle na capa.
Apressando o passo, Zachary Amberville voltou para o escritório, e, embora não o soubesse
ainda, valendo dezenas de milhões de dólares mais do que quando saíra para o almoço.

Meses antes de se completarem os planos para a reforma da grande casa de mármore cinza na
Rua 70 Leste, Lily descobriu que estava grávida. Sua reação imediata foi o medo: o que isso
faria ao seu corpo? Depois, sorriu sozinha. Essa era uma reação típica de bailarina, e ela
desistira de sua carreira para levar uma vida normal. Esse bebê seria a prova, se esta fosse
necessária, de que ela era livre, dona de si, uma rejeição dupla daquele mundozinho hermético
que ela deixara de lado. Ela sempre fazia seus exercícios na barra durante uma hora todas as
manhãs, na grande suíte do Waldorf Towers, onde os Ambervilles se instalaram
provisoriamente, mas nem sequer fora ainda ao balé, desde que chegara a Manhattan. A barra
era um hábito, um meio de se conservar em forma, nada mais.

Suas maravilhosas roupas novas! Ela levou as mãos à boca, em desalento. Dentro de algumas
semanas não lhe serviriam mais. Bem, não havia nada a fazer. Naquela tarde iria a Mainbocher
e pediria para lhe desenharem um guarda-roupa de gravidez completo. Deveria escrever logo à
mãe, ou mesmo telefonar? Já não era sem tempo de pedir à mãe para começar a procurar a
ama certa para vir da Inglaterra, para tomar conta. O Dr. Wolfe recomendara que controlasse
o peso... um bom médico, pensou ela, mas um comentário tolo. Quando, em toda a sua vida,
ela não controlara o peso? Lily estava começando a sentir prazer com aquilo. Inevitavelmente,
seus seios de bailarina, miúdos, se tornariam voluptuosos. Ela ficaria muito bem de vestido
decotado. Diria a Mainbocher que queria decotes marcados para a noite; vestidos
maravilhosos, de saias largas, presos sob os seios, à moda Império. Mais valia ela aproveitar
ter busto, enquanto durasse, pois claro que não ia amamentar o filho. Todas as suas primas
tinham amamentado os filhos e aquilo lhe parecera ser a mais terrível perda de tempo; horas e
horas sentada ali, paciente, noite e dia, esperando enquanto uma coisinha usava a gente como
uma vaca humana, um bebê que nunca poderia se lembrar se fora ou não amamentado e
certamente não seria agradecido, quer fosse ou não.

Ela fez um lembrete mental para dizer aos decoradores onde devia ficar o quarto do bebê.
Deveria ser tão longe de seu quarto que de modo algum ela fosse incomodada pelo barulho do
bebê, de dia ou de noite. O choro de bebê era, sem dúvida, o ruído isolado mais irri-

56

tant e de toda a natureza, e ela não pretendia suportá-lo, como não suportaria uma tortura
chinesa.

Mãe, com a idade dela? Bem, mais valia acabar logo com a funga() enquanto era moça, como
fazia a família real, especialmente já que ela não tinha escolha. Mas era uma pena aquilo
acontecer quando acabava de chegar a Manhattan, dando-se conta do que significava ter tudo
o que quisesse, quando quisesse, ao menor sinal de um desejo. No entanto, um bebê não
significava adiar qualquer satisfação por mais de algumas horas. Ela já sabia, em Londres, que
Zachary era imensamente rico, mas Lily agora compreendia que ele era muito, muito mais rico
do que poderia imaginar, e muito, muito mais generoso do que qualquer homem que
conhecera. O pai fora meio mesquinho, pensando bem, e acreditava que os filhos deviam ser
criados com férrea disciplina quanto a mesadas. Ela nunca precisara de mesadas, já que não
tinha interesses em que gastar esse dinheiro, mas, desde que abandonara o balé, parecia
haver uma infinidade de coisas que ela gostava de comprar. As lojas de Manhattan eram uma
tentação irresistível e era bem... confortável... saber que não havia nada em nenhuma delas
que ela não pudesse comprar, nada que Zachary não lhe quisesse dar.

”Abastado” — palavra horrorosa. Rico. O único meio de definilo era rápido e rasteiro. Rico.
Muito, muito rico. Talvez, quando o bebê estivesse apresentável, ela deixasse que Style
mandasse fotografá-lo para suas páginas. A Honorável Sra. Zachary Amberville e seu filho. Nilo,
Style não. Não se destinava aos muito ricos. Talvez por isso vendesse tanto. Então, Vogue, ou,
melhor ainda, Town & Country. Havi► certa distinção, pensando bem, em aparecer pela
primeira vez nas revistas de sociedade, que todos em Nova York liam todos os meses, como
jovem mãe do que como apenas mais uma recém-casada.

Claro, a sociedade de Nova York era uma grande piada. Em Londres, ou a pessoa estava na
sociedade ou não estava. Se fosse filha de visconde, sempre seria filha de visconde, casasse
com quem casasse. A pessoa tinha seus parentes, seus antepassados, seu lugar na constelação.
A moça podia se casar com um título ou com um membro da sociedade rural — ou mesmo
com um americano — mas todos sempre se lembrariam de quem ela era antes do casamento.
Gerações se passariam até que isso não tivesse mais importância, ou talvez sempre tivesse
Importância, talvez as pessoas dissessem, dentro de centenas de anos: ”Ah, sim, Lady
Melinda... a tataravó dela era filha de um banqueiro antes de se casar com o conde de tal.”
Esnobismo, um esnobismo medonho, podia ser. Não obstante, assim que eram as coisas.

Mas Nova York! Tantas das ”grandes damas” eram netas — ou no máximo bisnetas —
daqueles magnatas desonestos do século XIX. I? eles não passavam de ladrões bem-sucedidos.
Claro, tinham seus descendentes do Mayflower e aquela sociedade de Cincinnati, descen-
dentes dos oficiais de Washington. Em outras palavras, meditou Lily, eram descendentes de
colonos que se tinham revoltado contra um rei até bonzinho, não fazia nem duzentos anos.
Parece que era considerado muito importante ser membro dessa sociedade, se bem que
Zachary, que poderia ter entrado para ela, nunca tivesse se dado ao trabalho. Como lhe dissera
sua mãe, nas poucas semanas antes do casamento, embora cinqüenta famílias se
considerassem historicamente ”Antiga Nova York”, havia apenas um punhado que poderia
citar antepassados realmente bons, do Velho Mundo. Os Van Rensselaers, cujo brasão vinha
do Príncipe de Orange, não tinham mais terras. Os Livingstons, porém, estavam vivos e
prósperos e remontavam à nobre casa escocesa dos Callenders; os Pells também tinham sido
aristocratas na Inglaterra, e os Duers e Rutherfords possuíam linhagens que satisfaziam a
qualquer um. A veneração pelos antepassados tinha sua razão de ser, pensou Lily com ironia,
mas os antepassados não deviam ter um pouco mais de pátina nos túmulos? Alguns anos
antes da Revolução Americana, Luís XIV da França tinha vendido títulos por 6.600 livres, fosse
isso o que fosse no dinheiro atual, deixando um espaço em branco em que o novo nobre
francês poderia escrever seu nome. Havia realmente tão pouca coisa que resistia ao exame de
mais do que alguns séculos. Até mesmo os Adamsfields eram simples proprietários rurais até
os anos 1300. Não, ser esnobe em matéria de títulos era bem feio e indigno dela.

Todavia. Todavia, ela ia morar em Manhattan e o simples amorpróprio exigia que ela
recebesse a devida consideração. Uma vez que o bebê tivesse nascido, ela iria conhecer as
poucas pessoas realmente bem. Inevitavelmente, seria convidada a entrar para muitos
comitês de caridade, ou como quer que chamassem às obras de caridade ali — parecia ser
uma mania de Nova York — e escolheria vários, com cuidado. Era imprudente fazer amizades
depressa demais num lugar novo, sua mãe sempre dissera. A pessoa passava os dez anos
seguintes se livrando delas.

Lily se espreguiçou, satisfeita. A casa, as antiguidades magníficas que ela estava comprando
para enchê-la, infindáveis roupas novas, o domínio sobre Manhattan, que estava às suas
ordens, os empregados, as viagens que eles fariam quando Nova York ficasse quente ou fria
demais, as jóias que ela estava começando a contemplar e a comparar nos grandes joalheiros
de Manhattan... tudo isso parecia se fundir num círculo confortável e movimentado de prazer.
Ela devia estar bem louca, por ter passado a maior parte da vida presa a uma disciplina que
não propiciava prazer algum, a não ser o prazer passageiro de um desempenho excepcional.
Dançarinas de balé, especialmente prime ballerine, eram verdadeiras escravas, pensou ela,
sacudindo a cabeça. Escravas de suas próprias normas impossíveis, escravas dos mes-

58
tres, escravas de seus corpos, escravas, acima de tudo, do público que, por possuir uma
entrada, exigia uma perfeição cujo preço nenhum deles jamais poderia compreender. As
dançarinas eram como animais domesticados, exibidos para fazerem suas proezas, mas, ao
contrário dos animais, tornavam-se escravas por opção. Que sorte a dela, ter escapado a
tempo. Pois depois que ela fosse uma prima ballerina, como teria acontecido, sem dúvida,
poderia ter sido bem mais difícil abandonar aquela vida obcecante.

O telefone tocou e Lily se mexeu, seu devaneio interrompido. — Ah, sim, querido, dormi muito
bem — disse ela a Zachary. — Nilo, nada de novo, em especial, só mais um dia de conversa
com estoadores e decoradores... Deixe de ser bobo, meu bem, estou me divertindo, sim.

Ela pensou que poderia ter ligado para ele assim que soubera do bebê, mas não se lembrara.
Bem, de noite ela contaria. Claro, ele havia de compreender que em breve teriam de parar de
dormir juntos. Breve, muito breve. Ela largou o fone e depois o pegou de novo. Ia telefonar
para a Srta. Varney, sua vendedora de Mainbocher, marcando uma hora para o dia seguinte.
Não... para aquela tarde. Por que esperar?

— Não amamentar o meu filho? Não, querido, não posso ter dito uma coisa dessas.

— Lily, querida, vamos, não se lembra? Ouvi perfeitamente quando você disse a Minnie que
toda essa história de anticorpos no leite materno era uma mania americana e que o ar puro e
uma boa ama eram o que importava.

— Talvez. Com certeza tem razão. Mas o que é que isso importa, se mudei de idéia? Onde está
essa enfermeira com o meu bebê? Já devia estar aqui. Zachary, podia fazer o favor de ir
procurá-la? Fico apavorada pensando que o pessoal do hospital lhe dê uma mamadeira, por
comodidade deles... detestam as mães que amamentam. Isso lhes dá Mais trabalho.

Enquanto Zachary corria os corredores do Doctors’ Hospital, procurando uma enfermeira,


qualquer enfermeira, Lily se afligia na cama. Tobias nascera três dias antes, um parto fácil, e
assim que ela o viu, com seu chuca-chuca louro, as faces gorduchas e corpinho perfeito, ela se
deu conta de que nunca amara na vida. Nem os pais, nem o balé, nem Zachary, nem ela
mesma. A última coisa que ela esperara era ser tomada de surpresa por uma onda de emoção
materna, mas passara o dia todo depois do parto chorando porque o filho não citava a seu
lado, e sim no berçário. Ele era ela, era parte de seu corpo. Como podiam levá-lo embora como
se não lhe pertencesse? Era tarde para providenciar que o bebê ficasse no quarto dela num
berci-

59

nho, explicou o seu médico particular. Parecia que quase todas as mães internadas tinham
preferido ficar com os bebês no quarto, e não havia equipamento necessário nem para a
metade. Se ao menos ela tivesse pedido isso alguns meses antes, dissera ele, como se, alguns
meses antes, ela pudesse saber que seu bebê ia ser Tobias.

Claro que o bebê era menino. Toda essa bobagem que as pessoas falavam sobre o sexo da
criança, que não importava contanto que fosse saudável! Todo mundo sabia, no íntimo, que o
primeiro filho devia ser um menino. Os homens das cavernas já sabiam, e toda a raça humana,
desde então.

— Cá está ele! — disse Zachary, abrindo a porta para a enfermeira. — E parece estar com
fome. Descobri onde estava pelo barulho.

— Ele precisa chorar, faz bem aos pulmões — disse Lily, parecendo perita como sua mãe tinha
sido, estendendo os braços com avidez.

— Quer que deixe a senhora e o pai sozinhos com o bebê? — perguntou a enfermeira.

— Não preciso de você agora, obrigada, enfermeira. Zachary, querido, você se importa? Sou
meio novata nisso... acho que prefiro ficar sozinha. Volte daqui a... hã... uma hora, mais ou
menos. Ele gosta de demorar.

— Tem certeza? — Zachary procurou não demonstrar a decepção que sentia. — Não vai
precisar de nada? — Ele olhou para ela com amor, a sua mulher, ali recostada em uma dúzia
de travesseiros, as fronhas de seda com aplicações de belas rendas antigas, bem como os
lençóis e colcha que ela levara de casa. Lily nunca parecera tão angelical quanto naquele
momento, os cabelos soltos pelos ombros. Nas orelhas estavam as imensas safiras em uma
cravação de brilhantes, que ele acabara de lhe dar, de Van Cleef e Arpeis: safiras, por um
menino. A caixa contendo o colar e pulseiras que completavam o conjunto estava aberta na
mesinha ao lado dela e as próprias jóias empilhadas junto do abajur, sonhos cativos de uma
noite de verão.

— Se precisar, meu bem, há uma boa campainha na mesinha-decabeceira. Eu toco, prometo.


Agora vão embora, vocês dois, antes que o meu filho acorde a cidade inteira.

Enquanto a discussão sobre as influências hereditárias e do meio perdura eternamente,


ninguém poderia negar que Tobias Adamsfield Amberville estava destinado a se tornar um
monstro. Era inimaginável que um filho de um pai tão carinhoso e uma mãe que o considerava
uma extensão dela mesma, um ser a quem ela não negava coisa alguma, pudesse deixar de ser
mimado.

60

— Deve ser o sangue Anderson — comentou a avó, Sarah Amberville. — A ética do trabalho
protestante, sabe.

Lily, no sexto mês de gravidez de seu segundo filho, riu-se, aleIre.

— Por enquanto ele trabalha bem pouco, Sarah. — Olhe só como ele está cavando no jardim,
tão sério e metódico. Parece até que vão lhe pagar por pazada. Não chorou nenhuma vez,
desde que cheguei. Vai para a cama direitinho quando deve e, segundo a ama, não lhe dá
trabalho algum. Come todos os legumes, e nem Zachary fazia isso. Espero que o seu outro
bebê seja assim tão fácil.
— O próximo bebê é para ser companheiro de brinquedos de Tobias. É mau para a criança ser
filho único, é por isso que estou me dando ao trabalho de ter outro tão depressa. Se não fosse
isso, eu ficaria bem contente só de ver o meu filho crescendo.

Sarah Amberville não disse nada. Ainda não se acostumara com a nora, nem nunca se
acostumaria. Na verdade, tinha certo medo dela, pois sabia que se a desagradasse não
conseguiria mais ver o neto, nem mesmo Zachary com freqüência, aliás. Minnie fora banida
durante meses por ter ousado comentar que como nos Estados Unidos se fabricava roupas
perfeitamente boas para crianças, parecia um pouco rebuscado mandar buscá-las em Londres,
especialmente, já que Toby crescia tão depressa que as perdia logo.

— Olha, ele está voltando. Deve estar querendo almoçar — disse ela a Lily.

— Espere só até o jardineiro aparecer amanhã — disse Lily, dando risada.

— Vai ficar surpreendido?

- Tobias acabou de desenterrar todas as tulipas, todinhas. Deviam florescer na semana que
vem. O jardineiro plantou quatrocentas batatas, no outono do ano passado.

— Minha nossa — murmurou Sarah Amberville. Ela não se dera conta de que Lily sabia desde o
princípio que Toby colhia as tulipas que estavam brotando. Ela passara as duas últimas horas
sentada em cima das mãos, mordendo o lábio e rezando para ter a coragem de ficar calada.
Bem, talvez fosse fácil encontrar bons jardineiros em Manhattan. Em Andover, o problema não
existia. Por algum motivo, ser avó não era tão divertido quanto ela achara que seria. Mas o
que é que era assim?

Maxime Emma Amberville era um bebê tão feioso quanto Lily podia Imaginar: parecia um
pinto pelado, sem cabelo nenhum, pernas tortas, e brotoejas de calor que apareceram no
primeiro dia. Tinha cóli-

61 cas, gritava quando tinha fome e gritava quando não tinha. Parecia a criança mais difícil do
berçário, conforme lhe confiou a supervisora.

— Espero que tenha dito a essa supervisora para ir se foder — explodiu Zachary, quando Lily
lhe contou sobre o comentário.

— Zachary! Claro que não. A pobre mulher estava desesperada. Só lhe garanti que o bebê iria
para casa amanhã. O que me preocupa mesmo é a babá. E se ela for embora? Está tão
acostumada com Tobias.

— A babá trabalha pouco e ganha bem demais. — Liguei para a agência de empregos e
contratei uma segunda babá. Tem uma mulher muito recomendada, uma tal Srta. Hemmings,
especialista em casos difíceis. Estará aqui quando sairmos do hospital, e vai tomar conta
imediatamente. Felizmente, o quarto de Maxime não é bem ao lado do de Tobias, de modo
que ela não vai acordá-lo.

— Puxa, Lily, o bebê tem uma cólica comum, não é leproso. Acontece que acho que a guria
tem um bocado de ânimo e gosto da cara dela. Parece comigo, puxa.
— Querido, você é muito bobo. Sabe que você é extremamente atraente.

— Você nunca viu minhas fotos de bebê — disse ele, rindo. — Vagamente — murmurou Lily.
— Imagino que ela melhore... com o tempo. Não pode piorar.

As cólicas e as brotoejas de Maxime desapareceram ao mesmo tempo. Dentro de seis meses


engordara o suficiente para as perninhas magrelas ficarem roliças e retas; os cabelos, depois
que começaram a crescer, eram lisos e espessos e, para o prazer e triunfo de Zachary, havia
uma mecha pura e branca exatamente no mesmo lugar que a dele. Quanto ao ânimo dela,
dentro de 22 meses conseguiu arrasar o da ama que se especializara em casos difíceis.

— Madame — disse a Srta. Hemmings, quase aos prantos — já tive bebês doentes, bebês tão
quietos que a gente sabia que devia haver alguma coisa errada; já tive bebês superativos, que
se metiam em tudo, inclusive nos esgotos; já tive bebês que sabiam trepar nas árvores antes
de completarem um ano de idade; tive bebês que não aprenderam a ir ao banheiro até os
quatro anos de idade, tive todos os tipos de bebês que imaginava possíveis, mas Maxi... tenho
de tirar umas férias, madame, se não vou ter um esgotamento nervoso.

— Ah, não! Não faça isso, Srta. Hemmings. Por favor, por favor, não vá! — suplicou Lily.

— Tenho de ir, madame. Gosto demais da Maxi. Ela é tão adorável e tão levada. Não consigo
castigá-la, e isso é mau para a menina.

— Pensei que soubesse lidar com esse tipo de problema — disse Lily, friamente. Era evidente
que a mulher estava resolvida a ir embora

62

I II Receio que Maxi esteja estragada demais. Ela quer o que quer i quer... certamente devia ter
conseguido fazer alguma coisa a respeito.

Já tentei, madame, mas... - Mas fracassou; é isso mesmo, não é? — Se quiser considerar assim,
é. O tom da Srta. Hemmings era o de quem se recusa a se explicar, o que deixou Lily
intensamente irritada.

Eu a considero inteiramente responsável pelo problema de Maxi, Srta. Hemmings, e acho que
não posso lhe dar uma carta de recomendação.

Isso é com a senhora, madame. Mas duvido que os problemas de Maxi possam ser resolvidos
apenas se a senhora encontrar outra ama.

— Isso é o que vamos ver! Tenho certeza de que outra pessoa há de se sair muito bem — disse
Lily, furiosa.

Não gosto de culpar os pais — disse a Srta. Hemmings, o seu orgulho profissional ferido — mas
uma ama só pode ir até certo ponto, Agora, se me dá licença...

Um momento. Exatamente o que quer dizer com culpar os pais, Hemmings? Maxi está mimada
porque o pai lhe dá tudo o que quer, e a senhora passa todo o tempo livre com Toby. Ela está
tentando por todos os meios chamar a atenção da mãe e, já que pediu para eu ser franca, está
usando o pai como substituto.

Antes que Lily pudesse começar a responder, a Srta. Hemmings saiu da sala e subiu para
arrumar as malas. Numa carreira longa e sólida, ela nunca dissera o que pensava tão
claramente e, por mais que sofresse por deixar Maxi, estava satisfeita consigo mesma.

A Sta. Browne, ama inglesa de Toby, era feita de material mais duro do que a Srta. Hemmings.
Assumiu os cuidados com Maxi, referindo-se a ela como ”a nossa menina de dois anos”, de um
modo que explicava tudo. Lily, involuntariamente ferida pelas palavras da Srta. Hemmings,
passou a fazer questão de ler para a menina quase todas as noi-

Tes antes do jantar dela, e deixar que Maxi brincasse com suas jóias durante meia hora, nas
manhãs de domingo, empoleirada, sem sapato no meio da cama de Lily, que parecia um bolo
de noivas com rendas antigas. Ninguém jamais poderá me acusar de ser mãe negligente,
pensou ela, cheia de um tédio ressentido, enquanto lia em voz alta.

Logo depois do quarto aniversário de Tobias que ele começou a cair da cama. Durante dois
anos, ele de vez em quando acordava no meio do quarto e ia ao banheiro quando precisava,
pisando com cuidado pelo lado conhecido, para não incomodar ninguém.

63 — Posso ter uma luz no quarto de noite, mãe? — ele pediu a Lily, um dia.

— Ah, meu querido, desde que você era pequenino que não tinha mais luz de noite. Teve um
pesadelo? Foi isso?

— Não, é só que quando eu acordo, não consigo ver nada. Não sei dizer em que lugar da cama
eu estou, e se não ponho a mão em volta, e se estou perto da beirada, eu caio. E não consigo
encontrar a lâmpada da cabeceira, no escuro. Já aconteceu umas vezes e dói quando caio.

— Talvez o seu quarto seja mesmo muito escuro. — Nunca foi. Antes tinha bastante luz da rua
para eu ver... mas, não sei, parece que não vejo mais no escuro.

— Bom, com certeza não há de ser nada de sério — disse Lily, o coração batendo
desordenadamente — mas vou levá-lo para que o Dr. Stevenson o examine. Provavelmente
tem de comer mais cenouras, amor.

O pediatra fez um exame detalhado em Toby. — É um belo menino, Sra. Amberville. Quanto a
cair da cama, com certeza não é nada de grave, mas, para estar seguro, acho que devia
mandar examinar os olhos dele.

— Mas o senhor acabou de olhar os olhos dele — exclamou Lily. — Por um especialista. Só
para estarmos garantidos. — Garantidos? — Não se preocupe, por favor. As crianças têm todo
tipo de sintomas passageiros, especialmente quando estão crescendo tão depressa quanto
esse rapazinho; mas é sempre conveniente verificá-los, mesmo que se revele desnecessário.

O Dr. David Ribin, o famoso oftalmologista, a quem o Dr. Stevenson mandou Toby, fez um
exame completo dele. Lily ficou sentada na sala de espera, tentando ler uma revista, enquanto
o tempo ia passando. De repente, ela levantou os olhos e viu Zachary ao lado de sua cadeira.
— Não! — gritou ela. No instante em que viu o marido, percebeu que o médico mandara
chamá-lo.

— Lily, Lily. — Zachary a tomou nos braços. — Seja o que for, a medicina pode curá-lo. Fazem
qualquer negócio com os olhos, é o campo mais adiantado que existe. Lily, vou tratar disso,
não se preocupe. Vamos, o doutor está esperando para falar conosco. Uma enfermeira está
distraindo o Toby, eu os vi quando saí.

— Sinto imensamente ter de lhes dizer isso — disse o Dr. Ribin, quando se sentaram diante
dele. — Mas o Toby tem retinite pigmentar. Não conhecemos a causa desta moléstia. A
cegueira noturna muitas vezes é o primeiro sintoma.

64

— Moléstia... que tipo de moléstia? — perguntou Zachary, seguindo a mão de Lily.

Antes de tudo, Sr. Amberville, devo explicar que a retina é a membrana fina do globo ocular.
Contém bastonetes e cones, que são as estruturas sensíveis à luz. Os bastonetes são os
receptores usados na luz fraca, e é por isso que uma alteração nas suas funções, como no caso
de Toby, causa a cegueira noturna antes de tudo.

— Dr. Ribin, qual o tratamento usado para isso? — perguntou Lily, nervosa com a longa
dissertação do médico.

— Não temos tratamento algum, Sra. Amberville. As células nervosas da retina não podem ser
substituídas, se forem lesadas.

— Não há tratamento? Quer dizer, não tem remédio? — Sinto dizer que não. — Cirurgia,
então? Ele terá de ser operado? — perguntou Lily. — Não temos técnicas cirúrgicas para
retinite pigmentar — disse o Dr. Ribin, muito sério.

— Não é possível! Não posso acreditar! Todo mundo pode se tratar! Ele só tem quatro anos, é
um menino, um menininho — disse Lily, com violência, a repulsa ainda mais forte do que o
sofrimento.

— O que vai acontecer com o Toby? — perguntou Zachary, apertando tanto a mão de Lily que
chegou a doer.

— Essa é uma doença progressiva, Sr. Amberville. No princípio, os lados da retina em geral são
afetados, e se bem que a visão central de Toby possa permanecer estável por muitos anos, à
medida que ele for crescendo’ haverá um estreitamento progressivo de seu campo de visão.
Com o tempo, não sabemos exatamente quando, só lhe restará um pontinho de visão. Mas
isso pode levar anos para acontecer. Espero que ele tenha muito tempo até lá, mas não posso
dizer quanto tempo.

— Perdão, doutor, mas não é possível que seja alguma outra coisa? Zachary se viu forçado a
fazer a pergunta, se bem que, pela expressão do médico, já soubesse a resposta.

— Desejaria que fosse. Para a sua própria certeza, aconselho a ouvirem outro diagnóstico. Mas
infelizmente essa doença, embora rara, é inconfundível e o diagnóstico rápido. Há blocos de
pigmento espalhados pela retina, e os vasos da retina ficam estreitados, Detesto ter tanta
certeza. Desejaria pensar que estava enganado, Sr. Amberville.

— Mas como é que ele contraiu isso? — perguntou Lily, em sua angústia. — Diga, como é que
aconteceu?

— Quando as crianças têm retinite pigmentar, ao contrário do que ocorre quando ela aparece
na degeneração senil, só pode ser hereditária , Sra. Amberville.

65

Cutter Amberville quase ficou tentado a permanecer na Califórnia, depois de diplomado. Fizera
muitos amigos influentes em Stanford, e estava concordando com a superstição local de que
Harvard não era tão boa quanto Stanford. Sarah Amberville visitava o filho caçula várias vezes
por ano, mas Cutter sempre passava as férias de verão e os feriados na Costa Oeste.
Freqüentou a Stanford Business School e, depois de se formar, trabalhou durante alguns anos
com Booker, Smity and Jameston, a firma de investimentos bancários de San Francisco, cujo
presidente era o pai de seu companheiro de quarto, Jumbo Booker, que era um homem
baixinho, esguio e em boa forma, tenista apaixonado, que ficara feliz em ganhar uma série de
partidas do jovem Amberville.

No entanto, nos primeiros meses de 1958, quando estava com 24 anos, Cutter resolveu
mudar-se para Manhattan. Tinha descoberto que, mesmo na Califórnia, não havia ninguém
que ele pudesse conhecer que não lhe perguntasse pelo irmão. Talvez, pensou Cutter, se ele se
mudasse para a China, pudesse fugir dessa pergunta inevitável. Mas, de outro modo, não havia
como escapar daquela ligação. Já que existia mesmo, mais valia ele se aproveitar dela, pois o
centro de todos os investimentos bancários era a cidade de Nova York, e o fato de ser um
Amberville não podia prejudicar sua carreira. Ele pretendia ganhar muito dinheiro. Zachary não
podia ser o único Amberville rico.

Cutter estava imbuído das tradições de Stanford-San Francisco nas maneiras e cultura, além de
uma atitude aristocrática que se estendia ao mundo dos negócios. Teve dificuldade em se
adaptar ao frenesi coletivo de Manhattan. Quem eram todas aquelas pessoas? Por que
corriam em vez de andar? Por que não sabiam conversar num nível de decibéis civilizado? Será
que de fato não havia o suficiente para todos, ou eles apenas agiam como se fosse assim?

66

Dentro de uma semana, ele resolveu que ia simplesmente esquecer a maior parte da cidade, e
nem começar a tentar entendê-la em todas .assuas manifestações desagradáveis. Descobrira
que, afinal, havia certas ruas em que morava o seu tipo de gente, e amigos de Andover,
Stanford e San Francisco lhe haviam fornecido ingresso imediato nas casas das únicas pessoas
de Manhattan com quem ele poderia se sentir à vontade.

De fato, Cutter Amberville era mais do que bem-vindo onde quer que fosse. Era alto, com
1,88m, e tinha um corpo moldado pelos esportes que produziam músculos compridos e
elegantes, para alegria dos alfaiates. As feições bonitas que o tinham destacado como menino
amadureceram quando ele ficou adulto, e Cutter era então um homem de uma beleza fora do
comum. Era muito bronzeado, os cabelos descorados pelo sol dos verões californianos. O nariz
era grande e de uma forma perfeita entre os olhos azuis como o mar da Sicília, frios como a
água de um fiorde, e tinha uma boca austera e bem definida, que mulher nenhuma poderia
ignorar. Não era musculoso, mas possuía energia, e havia uma forte sugestão do que Byron
chamava de ”Matador Ágil” quando Cutter entrava num aposento. Apesar de tão louro, tinha o
rigor e o propósito sombrio de um toureiro e se movia com uma segurança e um amor-próprio
tão arraigados que ninguém jamais poderia supor que ele se exercitara para assumi-los em sua
pose, com tanta força de vontade quanto ele treinara para dar calor e sinceridade ao seu
sorriso.

O seu inegável encanto agora estava completo, era parte de seu âmago, de sua essência;
aquele encanto agradável, adulador, necessário, de um homem invejoso cuja vida fora
dedicada a conquistar a atenção e o afeto que, acreditava, lhe foram negados tão
injustamente em criança.

Os onze anos que separavam Cutter de Zachary tinham passado a lhe parecer mais uma
geração. Se bem que jamais pudesse acontecer alguma coisa que o fizesse desistir do ódio
profundo e torturante que sentia pelo irmão por ter prejudicado sua juventude; se bem que
nenhum sucesso pessoal em seu mundo pudesse algum dia compensar a perda eterna daquilo
que sabia lhe fora devido, o seu ódio já se tornara uma coisa tão corriqueira que, de vez em
quando, ele quase conseguia deixar de lado a sua ladainha de injustiças e quase permitia que o
verme em seu coração adormecesse.

No entanto, mesmo se ele pudesse esquecer temporariamente Zachary e seu enorme êxito,
sucessos se seguindo a sucessos como que para atormentá-lo, não havia meio possível de
aceitar isso como natural, de aceitar ser o irmão mais moço de Zachary Amberville. Cutter
nunca conseguia achar, em seu íntimo, que o êxito de Zachary não subtraísse alguma coisa
essencial de sua própria vida. Ele se sentia dimi-

67 nuído para sempre, diminuído injustamente, e tinha de ser por culpa de Zachary. Cutter,
apesar de sua atração singular, um bom aspecto que era quase beleza, era um homem que
usava uma amargura invisível de um modo tão permanente como se tivesse sido tatuada em
sua testa. Ele nutria e prezava esse ódio; se desaparecesse, ele teria de reestruturar o seu
mundo, explicá-lo de algum outro modo. Mas não havia hipótese disso, pois as Edições
Amberville apareciam semanalmente e mensalmente nas bancas de jornais, com suas capas
novas e brilhantes, atraindo, tornando-se cada mês mais grossas devido aos anúncios, e a TV
Week era uma compra automática feita por milhões de americanos toda semana, exposta
junto de todos os aparelhos de televisão em todas as bibliotecas onde Cutter entrasse.

Quando Cutter chegou a Nova York, já fazia um ano que a doença de Tobias fora
diagnosticada, mas, a não ser pela cegueira noturna, ele parecia continuar a ver normalmente,
ao que Lily soubesse. Ela e Zachary não tinham contado a ninguém, nem mesmo à babá, a
respeito de sua consulta ao Dr. Ribin. Consultaram outro especialista, que confirmara o
diagnóstico, mas como não havia nada que alguém pudesse fazer, eles se calaram. Não
suportavam falar sobre o futuro de Tobias, nem mesmo entre si. Especialmente entre si.
— É hereditário. Os dois médicos tinham concordado. Não havia cegueira na história da família
Amberville, nem entre os Andersons, Dales ou Cutters. Mas houvera um marquês cego que
fora avô materno de Lily, e um tio cego, também do lado materno da família dela. Não, eles
não podiam falar sobre Toby, pois as únicas palavras em que qualquer dos dois podiam pensar
eram palavras que nunca diriam. Os genes dela, pensava Zachary. Minha culpa, pensava Lily.
Injusto, completamente injusto. Ambos sabiam que as palavras eram injustas, mas não podiam
deixar de pensar nelas.

O silêncio enorme, o vazio criado por esse silêncio penetrou no coração de sua vida em
comum e eles tinham consciência das palavras não pronunciadas como se fossem palpáveis,
uma geleira que se aproximava inexoravelmente de sua intimidade sempre frágil.

Aos 24 anos, Lily era considerada a mulher mais admirável a surgir em várias gerações da
sociedade de Nova York. Mulheres trinta anos mais velhas do que ela, mulheres de fortuna,
cultura e alta posição social, faziam tudo para conhecê-la, pois não só era filha dos Visconde e
Viscondessa de Adamsfield, como era ainda a Sra. Zachary Amberville, mulher do homem que
acabara de doar um milhão de dólares para a coleção de pintura americana do Metropolitan
Museum e con-

68

tribufta com dois milhões de dólares para os fundos de bolsas da Universidade de Columbia,
doações feitas em nome de Lily.

Lily recebia de modo tão discreto, mas com tanta prodigalidade, com montes de dinheiro
gastos de modo requintado, que não aparecia nos jornais. No entanto, quando partia de Nova
York para uma viagem a Londres ou à França, isso era sentido como uma perda, uma
diminuição do brilho de Manhattan. Quando voltava, todos os floristas da moda tinham uma
dúzia de encomendas para lhe mandar cestas de flores, dando as boas-vindas, a homenagem
que lhe era devida. E o ritmo da vida social da cidade assumia uma rapidez que fazia o seu
grande círculo de amigos sentir que as coisas estavam de novo em seus lugares, que começara
uma temporada de gala.

Lily era a patronesse generosa de todas as companhias de balé, e nunca deixava de cumprir a
sua hora matinal na barra. Era líder de todos os eventos culturais consagrados de Nova York
que reuniam os nova-iorquinos de certa classe. Entretanto, raramente fazia parte de algum
comitê; bastava que comparecesse a uma festa de caridade ou uma estréia, delicadamente
dominante como uma lua crescente, sempre vestida por Mainbocher, os cabelos escovados
para trás, num chignon pesado, para marcar a noite como sendo importante.

Os nova-iorquinos agitados, de fala rápida, prontos a calcular os pesos e medidas sociais,


apreciavam a qualidade da timidez inicial de 1 ily e compreenderam, com sua percepção
esperta e nativa, que isso representava o tipo de superioridade que estavam dispostos a
reconhecer, e de bom grado. A superioridade dela só frisava a deles. O simples fato de ter
resolvido nunca usar o seu título de ”Honorável” lhes dava o prazer de contar aos que não
estavam sabendo que ela era filha de um visconde, filha de um 19? baronete. Em breve não
contar se tornou uma questão de orgulho para aqueles que a conheciam — ou pensavam
conhecê-la — melhor.

Muito antes de Toby ter qualquer sinal de doença, Lily já desistira da idéia de que existisse
algum prazer físico apaixonado que ela finalmente sentiria. Ela acreditava ter sido feita pela
natureza de modo a não ter necessidade do tipo de sexo para o qual algumas mulheres
pareciam viver. Afinal, havia gradações em tudo. Certas mulheres viviam para comer
chocolates, outras para beber martinis. Lily não se revoltava contra sua ausência de desejo, já
que a vida continha tantas coisas deliciosas e consumíveis, pelas quais tinha um apetite
insaciável, que nunca lhe faltava, por mais que ela consumisse.

Quanto a Zachary, aos poucos chegara à conclusão de que a frieza de Lily era incurável. Nunca
perdeu sua paciência delicada, mas não havia nada que pudesse despertar a sensualidade
nela. Ela nunca o repelira, mas a paixão dele por ela diminuiu quando percebeu que não podia
ser retribuída. O seu amor só se tornou mais profundo, pois ne-

69 le havia um quê de pena por sua garota maravilhosa, que nunca se queixava.

— Este aqui — disse Maxi, apontando para uma palavra no Racing Form. Os quatro homens,
sentados com ela num camarote em Belmont Park, olharam para a menina, com um ar
indagador.

— Então, a guria sabe ler, Zack? — perguntou Barney Shore, achando graça, espantado.

— Você sabe ler, Maxi? — perguntou o pai. Tudo era possível, com uma garota de três anos.
Ela podia ter aprendido sozinha.

— Este aqui — repetiu ela. — Maxi, por que este aí? — perguntou Nat Landauer. — Gosto
desse, Tio Nat — respondeu Maxi. — E por que gosta desse aí, mocinha? — perguntou Joe
Shore, com calma.

Os quatro homens se calaram, esperando. — Eu gosto, só isso, Tio Joe — disse Maxi, sem se
perturbar. — Esse aí.

— Como se chama, Maxi... sabe dizer o nome ao Tio Joe? — ele insistiu.

— Não, mas gosto dele. — A mocinha não sabe ler — declarou Joe Shore, com autoridade.

— Mas talvez ela saiba escolher um cavalo... talvez seja uma... bem, uma sábia idiota, como os
camaradas que sabem dizer quando vai ser quinta-feira daqui a mil anos — disse Barney
Shore, entusiasmado.

— Por favor, um pouco de respeito pela mocinha — disse o pai dele. — Que expressão é essa,
para usar diante de uma criança?

— Desculpe, pai. Maxi, gosta de um dos outros? — Não, Tio Barney, só deste. — Para ganhar,
dupla ou placê? — insistiu Barney. — Para ganhar — ela respondeu logo. Não sabia que havia
jogos em que só se podia escolher o vencedor.

— Vamos, Barney, você não está levando isso a sério, está? — protestou Zachary, meio mole.
— Não pode fazer mal algum escutar a Maxi. Nós quatro juntos não conseguimos dar um
handicap a um camundongo. Talvez consigamos um ponto de vista novo. Intuição feminina,
Zack. Você sempre acreditou nisso.

— E quanto é que podia custar? — acrescentou Nat Landauer. — Dois dólares cada, não é
perder muito... ano passado acho que perdi dez mil.

70

- Dois dólares no vencedor para cada um de nós, eu pago — proôs Zachary. Afinal, Maxi era
sua responsabilidade.

— Vou comprar as pules — ofereceu-se Barney. , — Posso comer um cachorro-quente, papai?


— perguntou Maxi. t Zachary olhou para ela, empoleirada direitinho em seu lugar, parecendo
um pouco uma boneca japonesa, com a franja preta e lisa e Os cabelos grossos aparados num
círculo na nuca. Ela estava com um ,

’vestido amarelo com uma gola branca, franzido na pala e nos punhos

das mangas curtas, meias curtas brancas e sapatinhos de verniz preto, das

alça. Aquele rostinho picante e engraçado, delicioso, o espantava [’sempre, por mais que
olhasse para ela.

— Papai? Por favor, um cachorro-quente? A babá o mataria se descobrisse. — Não, meu bem.
Sinto muito, mas cachorro-quente não faz bem ,às meninas.

— Têm um cheiro tão bom. Ela sorriu para ele, experimentando. — O gosto não é tão bom
quanto o cheiro. — Tantas outras crianças estão comendo. O sorriso de Maxi ficou mais
tentador, e depois um pouco patético, o sorriso de alguém que compreende por que não pode
beber um copo d’água quando está morrendo de sede, o sorriso de alguém que perdoa a
pessoa que o nega.

— Maxi, não é seguro comer cachorro-quente nas corridas — disse Zachary, num tom de
súplica.

Maxi pegou-lhe a mão e se aninhou junto dele. — Está bem, papai. Eu queria... queria... — O
que, amor? — Queria ter almoçado mais — disse ela, com uma tristeza paciente.

— Está com fome? — Estou, mas não faz mal, papai, eu não me importo. — Ela olhou para
Zachary, uma lagrimazinha brilhando em cada olho. — Verdade, não me importo nada.

— Não suporto isso — declarou Nat Landauer. — Não agüento, seu filho da puta desumano,
de coração duro, pouco patriota. O Tio Nat vai lhe dar um cachorro-quente, Maxi.

— Não, obrigada, Tio Nat. O papai disse que não devo comer. Fez-se um silêncio. Joe Shore
estava com um ar magoado e suspirou. Zachary olhou furioso para o cunhado. Nat Landauer
retribuiu o olhar. Maxi olhava de um para outro, prendendo a respiração. Uma lágrima rolou
pelas suas faces.
— Está bem, está bem! Mas sem mostarda! — gritou Zachary.

71 — A mostarda é o melhor de tudo, seu schmuck. — Nat cerrou os dentes, com raiva.

— Mocinha, gosta de mostarda? — perguntou Joe Shore, o sor-/ riso voltando ao seu rosto.

— Gosto de ketchup em cachorro-quente. — Ketchup está ótimo — disse Zachary, depressa.


As crianças viviam de ketchup, até a babá gostava.

Ele pôs Maxi no colo, para ela ver a corrida. Ela comeu o seu cachorro-quente educadamente,
enquanto o seu cavalo ganhava.

Barney Shore foi receber as apostas. Voltou todo sorridente e tirou do bolso uma quantidade
enorme de dinheiro.

— Apostei cem para vencedor, para cada um de nós, e mais cem pela Maxi. Vocês, caras, são
uns miseráveis. Alguém podia dizer ”obrigado, Barney”.

— Obrigada, Tio Barney — disse Maxi. Ela gostava mesmo daquela brincadeira. Resolveu dar
um beijo no tio Barney, para recompensá-lo por ser tão bonzinho.

— E, claro, não preciso apresentar vocês dois — disse Pepper Delafield, afastando-se de Lily e
Cutter para cumprimentar um novo grupo de convidados.

— Pareceria estranho, se eu apertasse sua. mão — disse Cutter, segurando a mão de Lily,
demoradamente. — Eu devia beijar sua face, mas isso seria ainda mais estranho, de um
estranho a outro.

— O mais estranho de tudo é ainda não nos termos conhecido. Cada vez que Zachary e eu
íamos a San Francisco, você estava fora. E nunca veio a Nova York...

A voz de Lily sumiu e ela puxou a mão. Ela não tinha idéia de que, cada vez que Cutter via suas
fotos na Vogue ou Town & Country, virava a página depressa, irritado, pensando nela com
desdém, como um rostinho inglês tipicamente afável, com quem o irmão se casara
provavelmente pelo título, como alguém que compra um bolinho especial por ter uma cereja
em cima. Ele tinha estado com Zachary, claro, pois o irmão é que pagara todas as suas contas
até ele começar a ganhar a vida, mas ele se recusava a bancar o cunhado mais moço diante da
Honorável Lily.

— Pois agora estou aqui — disse ele — de vez. Em volta deles, a grande festa estava
apresentando aquele ruído que tranqüiliza qualquer anfitriã, por mais experiente que seja, o
som de conversas animadas, com risadas descontraídas, contínuas e constantes como o
fervilhar de um grande cozido no fogo no ponto certo, um som que encobriu a pausa
desajeitada que se fez entre Lily e Cutter. Ela o deixou bestificado, essa mulher que ele não
podia ignorar, como não podia ignorar a lei da gravidade. Até aquele momento, ele

72

só conhecera moças americanas, debutantes ou pós-debutantes das instituições das costas


Leste e Oeste, garotas, conforme ele percebeu logo, que se tinham moldado, conscientemente
ou não, conforme um ideal, um ideal que era Lily. Como era maravilhosa! Tinha uma qualidade
de raridade consumada: cada detalhe de seu rosto era acentuado, como se ele estivesse
olhando para uma foto ampliada, e no entanto o todo era simplificado, como só a beleza mais
pura é simples.

Necessária. Aquela mulher incandescente era necessária a ele, aquela mulher que, de todas as
mulheres do mundo, era mulher do irmão. Ela não podia amar Zachary. Ele soube desse fato
instantaneamente, sem qualquer sombra de dúvida, pois se ela amasse o irmão dele, não
estaria, não poderia estar olhando para ele como olhava, com uma curiosidade louca, com
temor, um temor que o fez ouvir um imenso tantã de triunfo, um temor que via claramente
tremendo nos lábios dela, abafando o seu sorriso social, obrigando-a a baixar os olhos,
enrijecendo sua pose para ela não tremer. Só podia haver um motivo para isso, um motivo que
Cutter entendia perfeitamente, pois ele também estava sentindo aquilo. Era o temor de
alguém cuja vida, no espaço de um minuto, mudou para todo o sempre.

Cutter! Por Deus, Cutter! Estava procurando você por toda parte. Pepper me disse que você
estava aqui. Diabos, Cutter, que bom ver você!

Zachary o abraçou, um abraço rápido e constrangido, que ele não pôde reprimir. Havia muito
tempo que ficara magoado com a atitude dura, fria e distante do irmão para com ele, mas
parecia não poder mudar aquilo, por mais que tentasse. Sempre houvera alguma coisa forçada
no relacionamento deles, que ele nunca conseguira entender. Por fim, em desalento, ele
resolvera atribuí-lo aos onze anos que os separavam, ao chavão da diferença entre as
gerações. Mas estava feliz por ver o rapaz. Não, ele se corrigiu, o homem, pois Cutter agora
sem dúvida era um homem, com 24 anos e, em tudo menos a idade, a presença mais
dominante da sala.

— Também fico contente por ver você, Zack — disse Cutter, sorrindo maquinalmente. Como
ele ousara, como é que tivera a presunção monstruosa de se casar com essa moça? Não tinha
esse direito, será que não sabia disso? Ele poderia cobri-la de brilhantes e safiras e chamá-la
do que quisesse, mas ela nunca lhe pertencera. Ele olhou para Zachary, mais baixo do que ele,
notando os quilos em excesso na cintura do irmão, mais aparentes porque ele não tivera
tempo de mandar fazer um smoking novo anos atrás, vendo os fios grisalhos que tinham
começado a invadir os cabelos escuros. Havia rugas no rosto de Zachary que Cutter não
conhecia, rugas que tinham aparecido no último ano, durante as longas noites passadas junto
à porta do quarto de Toby, onde agora havia sempre uma lâmpada acesa.

73 — Você está ótimo, Cutter! Ele não está formidável, querida? Escute, já arranjou
apartamento? Se ainda não arranjou, pode ficar lá em casa enquanto procura.

— Aluguei um hoje, Zack, na Rua 67 Leste, a alguns quarteirões da sua casa. É uma sublocação
mobiliada, provisória apenas, até eu encontrar um lugar em que me queira instalar, mas serve
perfeitamente bem.

— Ótimo, então você tem de ir nos ver... Lily, que tal amanhã... vamos jantar em casa amanhã?
— Vamos. — Está bem para você, Cutter? — Gostaria muito. — Venha cedo, para poder ver as
crianças. Jantamos às oito, mas se você puder chegar lá em casa às seis e meia, pode ver os
dois antes que a babá suma com eles.

— Ótimo. Combinado. — Não é para ficarem aí conversando em família — disse Pepper


Delafield, aproximando-se dos três e espalhando-os estrategicamente entre seus outros
convidados, como só ela sabia fazer.

Lily não dormiu nada naquela noite. Por fim, às cinco horas, levantou-se e perambulou pela
enorme casa, tocando na madeira encerada, pegando caixas de prata pesadas e largando-as de
novo, amassando almofadas de veludo. Quando se pilhou destruindo metodicamente um
buquê de flores, arrancando as pétalas das rosas, uma por uma, enrolando-as nas mãos até
ficarem murchas e molhadas antes de largálas numa mesa, irritada, resolveu ir para o salão de
baile, que ela transformara em seu estúdio de dança, e trabalhar na barra. Era um remédio
infalível para todo tipo de pensamento, um ritmo corporal e espiritual incutido nela, que
nunca lhe falhara. No entanto, ao nascer da aurora, sua disciplina de bailarina fracassou e pela
primeira vez na vida ela não terminou os exercícios da barra, e nem se importou. Estava
esperando, escutando na casa sossegada, que acontecesse alguma coisa, algo que não podia
precisar, e viu que não estava em estado de enfrentar os compromissos daquele dia. Ia
cancelá-los e ficar em casa.

Ela passou a manhã folheando uma pilha de revistas novas na sua saleta, olhando sem ver.
Fazia dois anos ela e Zachary tinham apartamentos separados, e os empregados se habituaram
a vê-la, de vez em quando, tirar um dia de folga de seu programa exaustivo e, como nesse dia,
pedir o almoço numa bandeja. Lily ficou ali sentada, olhando para a bandeja intocada,
contando as horas até às seis e meia. Vez por outra se levantava para se olhar num espelho e a
cada vez só via olhos

74

que pareciam estranhamente apavorados e faces ardentes. Tentou dar alguns telefonemas,
mas parou ao discar, pois não tinha idéia do que falaria com qualquer de suas amigas.

Nada parecia importante, nada tinha mais significado algum. Era como se ela não tivesse um
passado nem um futuro. Ela levou a mão à garganta e sentiu sua pulsação disparada. Deu
voltas e mais voltas na saleta, repetindo as poucas palavras que havia trocado com Cutter,
palavras tão banais, o único consolo sendo o fato dele ter dito que viera para Nova York de
vez. Ela já vira fotos dele, claro, fotos de família que a sogra lhe mostrara, mas nada, nos
retratos de um garoto louro com feições severas e regulares, a levara a esperar que ele fosse
um homem magnífico, que a abalara com anseios mudos e primitivos, deixando-a
desamparada, trêmula e alucinada de agitação, perplexa com uma sensação de horizontes
desconhecidos se abrindo diante dela para céus loucos e inevitáveis. Vezes e mais vezes ela
olhou para o relógio. Mais cinco horas e meia.

Bateram à porta e o empregado entrou. — O Sr. Amberville, madame — anunciou ele,


cruzando a sala para tirar a bandeja do almoço. Cutter ficou ali parado, junto da porta. Ela só
ousou olhar para o rosto do cunhado uma vez, mas não conseguiu se forçar a encontrar o
olhar dele, ou se levantar do sofá em que estava sentada. Ambos ficaram imóveis, até o
empregado sair, fechando a porta. Aí Cutter foi até o sofá e a fez levantar, com facilidade, até
ela ficar encostada nele, tremendo, sem fala, mas sem surpresa, espantosamente sem
surpresa. Ele colocou uma das mãos em cada lado de suas faces quentes e, com o maior
propósito e seriedade, beijoua na boca, beijou-a vezes e mais vezes até ambos caírem de
joelhos porque não tinham forças para ficar de pé. Eles não disseram uma palavra, mas logo
estavam ambos nus, as roupas tiradas em silêncio, deitados no tapete, ofegantes, apressados.
Ele estava duro e só tinha um objetivo. Ela estava séria. Tinha o mesmo objetivo. Carne com
carne, suspirando, ofegantes, eles se tornaram um só. Não tinham trocado saudações, nem
promessas, mas tinham trocado suas solidões separadas, seus seres irrealizados, suas almas
solitárias e ansiosas. Depois, quase imediatamente, ele a possuiu de novo e dessa vez, agora
que o mundo se reformulara para ela, Lily descobriu o segredo da paixão humana que nunca
conhecera, descobriu o seu próprio ritmo, um ritmo que esperara, escondido em seu corpo até
esse momento no tempo. E se, ah, e se ele não tivesse existido? Como ela suportara a vida por
tanto tempo sem ele?

— Não sei o que fazer — disse ela, por fim, sem se importar, mal conseguindo formar as
palavras.

— Tenho de deixá-la agora, amor. Está ficando tarde, e alguém certamente virá procurá-la.
Quer apresentar minhas desculpas para hoje

75 à noite? Eu não poderia suportar ver você com ele... entende isso, não? Volto amanhã, a
mesma hora, se você quiser. Você me ama, Lily? Ama?

— Ah, Deus, sim! Cutter enfiou os dedos fundo na carne dela. Ela estava pronta para ele, de
novo; não se fechara, tensa, como algumas mulheres faziam quando se fartavam. — Amanhã
— repetiu ele e saiu.

Depois da saída de Cutter, houve horas naquela tarde que Lily nunca soube explicar. Ela
achava que provavelmente tinha tomado um banho, lido para os filhos e visto o jantar deles,
que ela mesma teria jantado e explicado por que Cutter não estava presente. Mas, durante o
resto de sua vida, houve segundos daquele primeiro dia que ela sempre recordaria; o cheiro de
suas mãos depois que ele se fora; as roupas rasgadas que ela escondera nos fundos do
armário; que tivera de deixar abertas as janelas da saleta, para que o cheiro deles não pairasse
no ar; o creme que ela passara nas faces, devagar, sonhadora, onde a barba dele a arranhara
de leve; a sensação do tapete sob suas pernas abertas; a hora que ela passara no banheiro,
sem poder parar de soluçar, as lágrimas de um prazer terrível escorrendo de seus olhos; ruídos
como de um recém-nascido escapando de seus lábios.

Depois do jantar, sabendo que não conseguiria funcionar normalmente sem a presença dos
filhos ou dos empregados, ela disse a Zachary que estava precisando de uma boa caminhada.
Ele meneou a cabeça, absorto em seus pensamentos, e ela o deixou trabalhando na biblioteca,
nos papéis que tinha levado para casa, do escritório. Ela deu a volta ao quarteirão duas, três
vezes, pensando se conseguiria passar a noite sem bater à porta de Cutter. Por fim, se deu
conta de que não adiantava, e quase correu os três quarteirões até o apartamento dele. Tocou
a campainha. Se ele não estivesse, o que poderia fazer? Ela prendeu a respiração até a porta se
abrir e, aos tropeções, subiu os dois andares até o apartamento dele, sem saber o que ia dizer.
Ele estava ali no vão da porta, só de roupão de banho.

— Desejei que você viesse. Não pensei em mais nada senão em você, desde que a deixei —
disse ele.

Ela entrou na sala sem nem notar que estava mobiliada com os móveis alugados mais
insignificantes, couro gasto e cadeiras cor de mostarda. Ele a fez parar antes que desse mais de
três passos.

— Você já fez isso? Com alguém neste mundo? — perguntou, com ar severo.

— Claro que não — respondeu ela, assombrada, o rosto corado do vento, de sua audácia.

- Foi o que pensei, foi o que sabia que ia dizer — disse ele, desabotoando o casaco dela e
levando-a para o quarto pequeno, onde a

76

cama aberta a esperava. Ele levantou a saia dela até a cintura e puxou as calcinhas para baixo.
Ela estava de meias e cinta-liga, e seu triângulo púbico ficou enquadrado entre o alto das
calcinhas e a parte de baixo da cinta. Ele se abaixou e a lambeu devagar entre aqueles lábios
delicadamente fechados. Ela gritou.

— Cale-se, querida — cochichou ele e tornou a lambê-la, dessa vez mais fundo. Os lábios se,
abriram e sua língua encontrou a umidade. Implacável, a língua passava para diante e para
trás, percorrendo o clitóris cada vez que passava. Ela abriu as pernas o mais que permitiam as
calcinhas em volta dos joelhos, arqueou as costas, abriu a boca, a respiração acelerada,
inteiramente concentrada sobre o percurso da língua dele, sabendo, num delírio de paixão,
que nada no mundo poderia fazê-lo parar. Ela ergueu os quadris para fora da cama, a fim de se
oferecer a ele com mais facilidade, empurrando o seu monte de Vênus no rosto dele e
esfregando-o em círculo, mas ele não quis isso. Era ele quem estava mandando, ele era o
chefe. Segurou-a imóvel entre os cotovelos, tirando a língua até ela gemer, até ela pedir e
suplicar em voz alta. Aí ele enfiou a língua nela o mais fundo que conseguiu, até o fundo, para
dentro e para fora, tocando no clitóris a cada vez, e continuou enquanto ela gritava e gritava,
até afinal se aquietar.

— Você me pertence? — perguntou ele. — Eu te pertenço. — Tem de pertencer, não é,


sempre? Nada pode mudar isso, po-

de?

— Nunca. Nada. Ninguém. — Toque em mim — mandou ele. Ela pôs a mão no pênis dele.
Continuava duro como estava quando ele a despira na sua saleta, naquela tarde.

— Ontem à noite, quando a vi pela primeira vez — sussurrou ele, asperamente — fiquei de
pau duro, de saída. Fiquei de pau duro o tempo todo em que conversamos, tão
educadamente, na festa. Ontem à noite, sonhando, gozei dormindo, e hoje de manhã, quando
acordei pensando em você, tive de gozar de novo, na minha mão, pois estava tão duro que
chegava a doer. Agora quero gozar na sua boca. — Sim — disse ela. — Sim. Ah, sim.

Eles corriam riscos que só loucos correm. Uma vez ficaram, vestidos, numa cabina telefônica
no L’Aiglon, a mão dele mantendo a porta fechada, enquanto Zachary e o par de Cutter
tomavam mais um aperitivo, e ele a roçou no seu pênis, duro sob as calças, até ela gozar,
mordendo os lábios para não gritar. Ela foi ao escritório dele, depois que ele começou a
trabalhar em Wall Street, e enquanto a secretária dele estava almoçando, ele se ajoelhou no
tapete e ela se sentou no sofá, a cabeça jogada para trás e os olhos fechados; e devagar, só
com os

77 dedos molhados com os humores dela, ele a levou a um orgasmo estremecido, observando
o rosto dela em todos os segundos.

Muitas vezes, quando não estavam no apartamento dele, Cutter não a deixava tocá-lo, por
mais que ela implorasse. Ele sentia um prazer violento em prender o seu próprio prazer, em
criar situações em que ela pudesse gozar, mas ele não. Lily deixou de usar calcinhas. Ela nunca
sabia de antemão quando ele a deixaria ter o seu pênis, e ele nunca lhe dizia.

Numa festa cheia de gente, ele às vezes a segurava pelo cotovelo, com naturalidade, e a levava
para um banheiro. Com uma falta de pressa propositada, trancava a porta e mandava que ela
se deitasse no tapete do banheiro. Todo vestido, ele levantava as saias rodadas de Lily até a
cintura e a chupava com persistência até ela gozar, e aí a deixava imediatamente. Na noite
seguinte, em outra festa, ele a afastava dos demais convidados e, uma vez no banheiro, abria a
braguilha, puxava o pênis nu e o enfiava nela com total absorção em si, gozando depressa e
retirando-o, propositadamente, não esperando até ela ter um orgasmo. Saía do banheiro
primeiro e ficava observando-a o resto da noite, movendo-se pela sala, molhada com o
esperma dele sob o vestido, molhada com o seu próprio desejo, mas conseguindo manter a
serenidade, evitando o olhar dele.

Durante os intervalos dos musicais da Broadway, enquanto Zachary esperava na fila para
comprar a limonada, eles ficavam num canto, sem se olharem.

— Quero chupar você — cochichou ele, lambendo o polegar e enfiando-o na palma dela. —
Quero te chupar devagar, por uma hora, tão devagar, tão devagar, e não deixar que você goze.

Ele punha a mão sob a aba do mantô de noite dela, puxava o seio pelo decote fundo do
vestido e o segurava na mão, o polegar molhado esfregando o mamilo. Ela gozava, ali de pé,
em espasmos rápidos e superficiais, que deixavam seus olhos mais brilhantes do que antes, só
gozava pela metade, como ele sabia que aconteceria, de modo que ela passava todo o
segundo ato louca por mais, sem poder tocá-lo.

Lily parou de usar batom, dizendo que ficara alérgica a batom; levava sempre na bolsa uma
escovinha de cabelo, um vidrinho de perfume e lenços de papel bem dobrados. Na mesma
bolsa, levava uma escovinha de dentes de viagem e um tubinho de creme dental, e os dois os
usavam quando podiam, mas se não estivessem perto de um banheiro, bebiam um conhaque
assim que se juntavam a um grupo de pessoas. Ambos estavam loucos de lascívia, mas não
tanto que não percebessem que deviam cheirar a sexo.
Lily ficou viciada nas satisfações adiadas; adorava não saber o que ele ia lhe fazer. Ela se
recusava a se satisfazer sozinha por mais que ele a deixasse frustrada, de modo que estava
sempre se derretendo e tre-

78

mendo de desejo a todas as horas, especialmente ao se vestir para ir a uma das muitas
reuniões a que eram todos convidados, pois Cutter logo se tornara parte do grupo
freqüentado pelos Ambervilles quase todas as noites daquela temporada em Nova York.
Sempre que ela cruzava as pernas, tinha um espasmo rápido, orgásmico.

Lily largou quase todo o seu trabalho nos comitês, com desculpas vagas, e passou a recusar
todos os compromissos para almoços, a fim de estar sempre livre para se encontrar com
Cutter no apartamento dele, se ele ligasse. Ele podia tomar o metrô, vindo e indo para Wall
Street, e ainda ter tempo para passar uma boa meia hora com ela no meio do dia; e era essa a
única hora em que se deitavam inteiramente nus, juntos. Mas ele racionava esse prazer de
modo desnecessário, dizendo que tinha de ir a almoços de negócios, pois preferia os riscos que
corriam nos lugares públicos à proteção de sua cama; preferia o domínio que tinha sobre ela,
só de segurar seu cotovelo, afastando-a de um grupo, especialmente quando Zachary fazia
parte desse grupo. Por vezes Cutter se postava ao lado de Lily, majestosa, vestida de sedas, Lily
com suas jóias maravilhosas, as madeixas de cabelos caídas nas costas, pois não os usava de
outro modo agora, e ficava conversando com Zachary durante três quartos de hora, sobre
negócios, sabendo que ela estava esperando que ele lhe fizesse um sinal. Então, ele se
afastava, mal se desculpando, e ia falar com outra pessoa. Essas eram as noites melhores de
todas, as noites em que ele privava a ambos, em que ele apenas roçava a face dela com os
lábios no fim da festa, sabendo que a qualquer momento, nas horas anteriores, ele podia ter
tido a mulher do Irmão ajoelhada a seus pés, os lábios abertos para ele.

79 7

Desde que Maxi nascera, os Ambervilles tinham adquirido uma casa de veraneio, uma grande
mansão com telhado de tabuinhas dando para o Atlântico, de seu poleiro acima das dunas de
Southampton. Lily gostava desses verões preguiçosos. Havia algo quase inglês naquele lazer
total, os chás, a coleta das rosas, os jogos de croqué, as idas diárias ao Maidstone Club para
jogar tênis num ambiente protegido, de vozes suaves, bem-educado, bem distante da
aglomeração de Nova York. No verão tinha mais tempo para os filhos, e nas noites de semana,
pois Zachary raramente podia ir jantar em casa, ela muitas vezes preferia não ver ninguém e
comer sozinha. Depois do jantar, muitas vezes ia andar a pé sozinha na praia, sentindo a areia
ainda morna sob os pés descalços, não pensando em nada e se sentindo quase feliz.

Agora, ao encarar o verão de 1958, um julho e agosto que a separariam de Cutter, a não ser
nos fins de semana, Lily tentou freneticamente arranjar um pretexto para ficar na cidade. Mas
não havia nenhum: ela não podia simplesmente mandar Toby, Maxi e os empregados para a
praia sozinhos, enquanto ficava acampada na casa da cidade, com um pessoal reduzido, a
pretexto de não querer deixar Zachary sozinho... todos achariam isso muito estranho e
desnecessário, sobretudo o próprio Zachary.
Ainda estavam em meados de junho, mas ela pensava em pouco mais que o verão impossível
que tinha pela frente. Levava sua vida sem deixar aparecer essa preocupação, como um dia já
dançara com os pés sangrando e um sorriso fixo e brilhante, até que, no meio de uma noite de
primavera, acordou alarmada de um pesadelo que não conseguiu recordar nem na fração de
segundo depois de abrir os olhos. Seu coração estava batendo tão descompassadamente que
ela pôs as mãos no peito, comprimindo o susto, sem poder analisar seus pensamentos. Seu
coração começou a se normalizar quando ela tentou se lembrar do sonho. O que poderia tê-la
apavorado tanto? Ficou deitada parada, pro-

80

curando, as mãos ainda em concha em volta dos seios, confortando-a, respirando fundo,
quando de repente uma mensagem foi transmitida de carne a carne e seu coração tornou a
disparar. Só duas vezes na vida seus seios tinham estado assim: sensíveis, mais quentes do que
de costume, com uma sugestão da plenitude futura.

Não havia dúvidas quanto à paternidade do bebê. Ela só permitira que Zachary fizesse amor
com ela um mínimo de vezes nesses últimos meses, apenas o suficiente para evitar qualquer
possibilidade de uma explicação, e todas as vezes ela tomara todas as precauções para não
engravidar. Com Cutter, ela se esquecera do significado da cautela, como se esquecera de tudo
o mais na sua imprudência.

A alegria, uma alegria que não aceitava qualquer dos problemas da realidade, a invadiu. O
medo com que acordara desapareceu por completo enquanto Lily, feliz como nunca pensara
em ser, dizia e repetia sozinha:

— O bebê de Cutter, o nosso bebê. Ela estava por demais excitada para ficar na cama, embora
ainda nem tivesse amanhecido. Foi para a janela e olhou para uma cidade que, por alguns
minutos, estava quase tão sossegada, quase escura quanto podia estar em qualquer das 24
horas, não mais uma cidadela estranha e solitária de torres duras e luminosas, mas uma cidade
que agora estava impregnada com o colorido de seu único amor, seu amor de toda a vida. Ali
ela conhecera Cutter, ali ela concebera o filho dele, ali ela se tornara mulher.

Cutter se sentou na beira da cama e passou o braço com cuidado, com um ar protetor, em
volta de seus ombros nus. Lily parecia uma bomba não detonada que poderia explodir a
qualquer minuto, levando a vida dele pelos ares. Desde o instante em que Lily lhe dissera que
estava grávida, ele fora acometido por um tal pânico que mal pudera reagir. Não encontrando
palavras, ele deixou que ela continuasse borbulhando na sua alegria louca, enquanto tentava
considerar o significado da notícia dela.

As primeiras palavras, ele se retraíra profundamente, compreendendo de repente, mas


positivamente, que ela e ele estavam pensando e sentindo em dois planos que nunca se
poderiam encontrar. Cutter amava Lily tanto quanto jamais poderia amar uma mulher. Ela
possuía todas as qualidades que ele admirava, e o senso nato de Lily, de uma aristocracia
superior, lisonjeava sua natureza carente. Ela parecia ter sido feita de propósito para o seu
prazer particular. Era uma maravilhosa aventura sensual, e o desejo dele por ela não residia
apenas no fato de que Lily era um meio de ele ter uma vingança secreta tripudiante sobre
Zachary. Mas, publicamente, ela era tabu. Lily era sua cunhada, uma mulher casada com dois
filhos, e o fato de estar agora

81 grávida dele bastava para fazer desaparecer de sua memória a luxúria fascinada dos últimos
meses. A única emoção que ele sentiu foi um medo total e o propósito de sair daquela
situação, custasse o que custasse.

— Querida, o que pretende fazer? — perguntou ele, com calma. — Pretendo... não tenho
intenção alguma. Pensei que você... que juntos nós...

— Nos casaríamos e viveríamos felizes para sempre? — As palavras dele eram brandas, mas as
mãos estavam cerradas.

— É, acho que foi mais ou menos isso que pensei. Ah, Cutter, não posso pensar... estou feliz
demais para pensar. Eu te amo demais para pensar.

— Meu bem, olhe, um de nós tem de ser sensato. Quero um filho com você, Lily, quero muitos
filhos com você... mas o Toby e Maxi? Já pensou neles?

— Toby e Maxime? Bem, naturalmente ficam comigo. Ficamos todos juntos. Eles não vão
sofrer, Zachary nunca lhes deixará faltar nada, e com o tempo as coisas se arrumam, como
parecem se arrumar nesta terra.

Cutter olhou para ela, o seu medo aumentando. Aquela louca infantil, alucinadamente
romântica, poderia arruiná-lo se ele não pudesse controlá-la. No entanto, ele controlou sua
voz.

— O Zachary que você conhece é um marido dedicado e indulgente, mais de dez anos mais
velho do que você, que lhe dá tudo o que deseja, minha querida. Não obstante, não há como
prever como ele vai agir quando descobrir o que se está passando. Se eu estivesse no lugar
dele, acho que tentaria matá-la. Certamente tentaria lhe tirar as crianças. Pensa que ele
chegou onde está porque deixa que as pessoas tirem as coisas dele? Pensa que ele deixa que
alguém o faça passar por bobo? Você não conhece bem o seu marido, amor, mas eu conheço...
Conheço esse sacana ganancioso desde o dia em que nasci. Com o tempo, ele poderia te dar o
divórcio, pois veria que não havia meio de conservá-la, mas isso levaria muito tempo e seria
difícil.

Lily sacudiu a cabeça, violentamente. Nada do que Cutter estava dizendo era certo. Ninguém
poderia impedi-la de ter o que quisesse. Cutter não compreendia Zachary como ela... não sabia
que Zachary nunca conseguira fazê-la amá-lo. Era tudo culpa de Zachary... todos aqueles anos
e anos sem amor, todas aquelas noites vãs, áridas, sem paixão. Ela fora tão paciente, tão
inocente. Já dera bastante de si a Zachary, pensou ela com amargura, e agora estava acabado.

— Lily, escute. Só há dois meios de podermos arrumar as coisas para nós. Ou você espera para
pedir o divórcio até depois do bebê nascer, ou tem de fazer um aborto agora... não, pare com
isso, Lily, pare e escute! Você pode ir a uma clínica boa, inteiramente legal em Porto

82
Rico ou na Suécia, ou a uma dúzia de médicos de Park Avenue, os mesmos que suas amigas
freqüentam. Deus sabe, amor, não posso suportar a idéia de você fazer um aborto, mas não há
outra alternativa.

— Não vou fazer um aborto — declarou Lily, o rosto fixo numa expressão de um desdém e
desafio totais.

— Entendo por que sente isso, mas... — Não entende, não. Se entendesse, não poderia sugeri-
lo. Está inteiramente fora de cogitação. Ninguém pode me obrigar. Vou ter o nosso filho.

De repente, Cutter se levantou e foi olhar o relógio de pulso sobre a cômoda. Se ele a ouvisse
falar mais um minuto, ditando regras, tão confiante na sua burrice infantil, egoísta e
imprevidente, poderia bater nela. Não se podia prever do que ela seria capaz, que escândalo
poderia provocar, mas de uma coisa tinha certeza agora: ela era plenamente capaz de destruir
a carreira dele, sem sequer perceber o que estava fazendo. Ele estaria no olho da rua em cinco
minutos se a firma dele soubesse disso, condenado em todos os cantos do seu mundo, e todos
os homens que ele jamais conhecera se ririam dele, preso à responsabilidade de uma mulher
casada e ao moleque dela aos 24 anos, quando sua vida estava apenas começando, porque
aquela maldita idiota não tivera o bom senso de usar um diafragma.

— Querida — disse ele — já estou atrasado para o trabalho. Tenho de correr. Vá para casa e
descanse e deixe isso comigo. Vou arranjar um meio de estarmos juntos. É tão importante
para mim quanto para você. Agora vista-se... Tenho cinco minutos para me barbear e tomar
uma chuveirada.

— Quando é que o vejo? — Hoje tenho esse jantar de negócios do qual lhe falei, e amanhã é a
reunião de minha turma no University Club. Diabos... não podia ser num momento pior, mas
tenho de fazer um discurso. Olhe, vou sair do jantar assim que puder e te encontro aqui.
Zachary ainda deve estar em Chicago, de modo que podemos passar toda a noite juntos. Entre
com sua chave e me espere.

Sorrindo, Lily se levantou da cama. Não se importava com aquela separação forçada. Seria
ótimo ter um pouco de tempo sozinha para aproveitar sua felicidade. Os homens se
preocupavam tanto com os detalhes.

Uma carta a esperava sobre a colcha de Cutter, quando ela chegou na noite seguinte.

Minha querida,

Se eu não te amasse tanto, seria capaz de destruir sua vida só para ficarmos juntos, mas não
posso lhe fazer isso. Vo-

83 cê foi tão protegida, como nem pode imaginar. Foi direto da casa de seu pai para a do seu
marido sem jamais decepcionar alguém ou se decepcionar. Levou uma vida em que a vergonha
e o escândalo, e especialmente a desonra não existiam, e não posso pô-la nessa situação
devido ao seu amor por mim.

Eu poderia até me orgulhar da desonra de ter-me apaixonado pela mulher do meu irmão,
porque conheço a verdade profunda sobre o nosso sentimento mútuo. Mas aos olhos do
mundo, aos olhos de todos os seus amigos em Nova York, seria você a culpada. Teria aceitado
tudo o que o seu marido lhe poderia dar e depois se teria virado e o teria traído. Os seus pais,
especialmente, ficariam desesperados. São sempre as mulheres que levam a culpa nesse tipo
de coisa, a não ser que o homem seja um canalha conhecido — não é justo, mas você sabe que
é verdade. Os homens são considerados patifes sortudos e a dama é uma prostituta. Não
posso permitir que seja atingida pelas calúnias e em seu caso seriam muito pior que
mexericos, seriam manchetes nos jornais, aqui e na Inglaterra também.

Desde que a deixei, só fiz pensar em você. Toby sempre há de precisar do tipo de educação
mais cara e especial, que só Zachary lhe poderá dar. Você sabe como Toby é apegado ao pai.
Como posso lhe pedir para tirar um menino que está ficando cego de sua vida de família, de
sua casa, do próprio pai? Maxi se adaptaria a quase tudo, mas Toby é um caso especial, e não
me posso permitir prejudicá-lo por causa do nosso amor.

Sei que você não se importaria de viver com o que ganho, sei que não se importa de não ter as
casas e empregados e todas as outras coisas que Zachary lhe dá, mas eu me importaria,
imensamente, em vê-la se privar das coisas, cuidando de três filhos, tendo de ajudar nas
tarefas domésticas, preocupada com o dinheiro. Nunca falamos sobre minha situação
econômica, mas na verdade estou apenas começando minha carreira. Um dia, e sei que será
breve, estarei ganhando o suficiente para poder sustentá-la, mas no momento seria
impossível, com três filhos, á não ser que dependêssemos de Zachary financeiramente, o que
significaria um tipo de dependência doentia, que nos separaria.

Minha adorada Lily, você é a única mulher que jamais amarei, mas já lhe ocorreu que só tenho
24 anos?

Deus, eu daria tudo para ser mais velho, estabelecido, capaz de afastar você dele e lhe dar
tudo, pouco ligando para o que as pessoas dissessem. Mas temos de esperar. Se você ti-

ver a coragem de esperar, podemos ter uma vida juntos. Você terá de tomar a decisão quanto
ao bebê. Faça o que fizer, será o certo, a única coisa a fazer.

Vou voltar para San Francisco. Quando ler esta carta, estarei no avião. Sou covarde demais
para lhe dizer tudo isso pessoalmente, tenho vergonha de não poder acertar as coisas, não
conseguir arranjar um meio de ficarmos juntos. Por favor, querida, não me odeie. Eu já me
odeio bastante por nós dois. Eu sempre a amarei e um dia estaremos juntos, se você puder ser
paciente, forte, valente, e me perdoar. E esperar, esperar.

Cutter

Lily leu a carta uma vez. Dobrou-a, guardou-a na bolsa e saiu do quarto vazio, com ar altivo.
Como Cutter devia amá-la, pensou, por se preocupar em como o bebê mudaria a vida dela. Se
Cutter ao menos estivesse ali, para ela lhe dizer que não havia motivo para ele ter vergonha...
Odiá-lo? Como poderia odiá-lo? Cada palavra daquela carta lhe dizia o quanto ela significava
para ele. Ele não via que o filho deles faria com que eles ficassem ligados para sempre? Ah, e
como ela sabia esperar.
Todas as quartas-feiras à tarde havia uma reunião das pessoas em quem Zachary Amberville
confiava para dirigir suas revistas. O grupo não tinha uma denominação oficial, já que, como
em muitas firmas particulares, sem acionistas, não havia um conselho diretor, mas Zachary
pensava muito nos convites que fazia. Estava entendido que quando alguém comparecia a
uma das reuniões, passaria a comparecer a todas dali em diante. No negócio das revistas, onde
os redatores-chefes são muitas vezes cortejados pelos concorrentes, e os números planejados
com cinco meses de antecedência, o segredo sobre planos futuros é algo vital. Zachary
esperava muito, antes de convidar algum empregado para ir a uma sessão de planejamento
das quartas-feiras.

Zelda Powers, editora-chefe de Style, tinha cerca de oitenta funcionários sob seu comando,
dos quais um punhado possuía suas áreas de responsabilidades definidas: moda, beleza,
acessórios, sapatos — sapatos importantes, cujos fabricantes anunciavam muito — e
reportagens. Estas incluíam todos os principais artigos em Style e um encarte na frente da
revista para tudo o que era novidade no mundo do cinema, artes, televisão, música e livros,
chamado ”Já Ouviu Falar?” Ter um emprego na seção ”Já Ouviu Falar?” de Style, que pagava
menos do que o de qualquer balconista de Macy’s, era o equivalente da homenagem
concedida a Jean Lannes, Duque de Montebello, o único

85 dos doze Maréchals de Napoleão que tinha licença de se dirigir ao imperador com o
tratamento íntimo de ”tu”.

Nenhuma garota pobre podia trabalhar para ”Já Ouviu Falar?”, e nem uma garota rica que não
fosse muito esperta teria qualquer possibilidade de fazê-lo. Devia ter meios de se sustentar
com uma renda de fora, e tinha de ser imensamente sabida, pois a concorrência para esses
três empregos de redator-assistente começava cedo, nos campi das Sete Irmãs, a elite das
universidades femininas. Os redatores jovens eram contratados pelo chefe de reportagem,
John Hemingsway, que gozava todos os segundos do poder que possuía, pois cabia a ele
decidir quais as personalidades que teriam seus perfis escritos para as principais seções da
revista: qual o homem ou mulher americano que estava maduro para ser explorado em fotos
coloridas e três mil palavras; era ele quem decretava que um ser humano merecia apenas mil
palavras e uma foto em preto e branco, ou resolvia se algum assunto determinado de repente
se tornara digno de ser notado por Style e devia constituir um artigo.

Para suas três assistentes do ”Já Ouviu Falar?”, Hemingsway só contratava moças solteiras; só
as que se vestiam bem; só as que eram mais baixas do que ele; só as de menos de trinta anos
— pois se tivessem mais de trinta anos e ainda fossem solteiras, deviam ser neuróticas demais
para trabalhar tanto quanto ele esperava que trabalhassem; e só as que estivessem dispostas a
trabalhar de noite, pois se tivessem muitos namorados, ele sabia que elas estariam mais
interessadas em casamento do que em ”Já Ouviu Falar?” Por mais que elas trabalhassem, ele
só contratava moças que não fossem ambiciosas a ponto de cobiçarem o emprego dele, pois
não confiava nada nas mulheres.

Dezenas e dezenas de moças não conseguiam se qualificar para esses três empregos em Style.
Duas que ocupavam o cargo correspondiam aos moldes de Hemingsway e a terceira, que tinha
ambições secretas e portanto era a mais esperta de todas, conseguia trabalhar até tarde e
ainda assim manter meia dúzia de namorados presos em sua teia. Felizmente, Nina Stern
necessitava de muito pouco sono e trabalhava depressa.

Nina Stern tinha 25 anos e de todas as moças judias bonitas, ricas, solteiras de que se ouvira
falar em 1958, era a mais velha, de longe. As pessoas até já tinham deixado de indagar sobre
esse problema com a mãe dela. Era um fato estabelecido entre os muitos amigos da família
Stern que havia algo de invisível mas indubitavelmente errado com Nina. Até a mais leve
sugestão seria cruel e, o que era pior, não adiantaria nada. A pobre coitada não tinha sequer
um noivado rompido na sua vida. Para que se meterem, se não havia nada a fazer? Era mais
produtivo se meterem onde ainda havia alguma esperança.

O casamento, na opinião de Nina Stern, era o fim da linha. Ela

86

provavelmente flertara com o médico que fizera o parto de sua mãe, e certamente com todos
os seres vivos que encontrara depois daquele minuto. A única forma de comunicação que Nina
conhecia era um tipo ou outro de namoro; mas se a acusassem de ser namoradeira, ela
sinceramente não saberia do que a pessoa estaria falando. Ela flertava com crianças,
adolescentes, todos os adultos de ambos os sexos, homossexuais de qualquer tipo e qualquer
animal que encontrasse. Nunca flertara com uma pedra, mas já namorara muitas árvores e
flores. O seu flerte não era específico, nem sexual nem romântico, mas apenas uma atitude
instintiva para qualquer situação em que se encontrasse, uma tendência geral, permanente,
imutável para o namoro. Sua mania de namorar não era ”correta”, no sentido francês,
significando direito; era grandiosa, nobre até. Também era essencialmente inofensiva e
explicava por que, como negócios que resistem à depressão, Nina Stern, em qualquer idade,
nunca sentiria falta de homens. Assim como sabia que se chamava Nina, ela sabia que sempre
haveria homens para ela, e ela adorava tanto a variedade que nem pensava em se fixar em um
só.

Ela gostava de almoçar com as ex-colegas de universidade e admirar as fotos das famílias que
cresciam rapidamente; só sentia uma admiração sincera quando as irmãs muito mais moças
dessas amigas mostravam seus anéis de noivado, mas toalhas com monogramas lhe
lembravam camisas-de-força, e lençóis novos lembravam mortalhas. A única loja em Nova York
que ela não suportava era o segundo andar de Tiffany’s, onde muitas vezes era obrigada a
comprar mais um presente para bebê. Lá, certos decoradores tinham carta branca com o vasto
estoque da loja e competiam uns com os outros em arrumarem a louça, cristais e pratas de
maneiras inteiramente novas, nas mesas. Quando Nina via as mesas reluzentes e fantásticas,
ao sair do elevador forrado de veludo cinza, só o que lhe vinha à cabeça eram imagens de
mulheres em fila para terem a atenção pessoal do açougueiro, em Gristede’s, cozinhas
desarrumadas e louça suja. Quanto ao resto, não tinha tempo para fantasias horripilantes, a
não ser para alguma reportagem sobre o último filme de terror para Style.

À primeira vista, ela era a personificação da média, se bem que nela nada fosse médio. Os
cabelos, pelos ombros, eram castanhos claros, mas do tom irresistível e indescritível chamado
marron glacé, a cor de castanhas cristalizadas. A altura era de 1,64m, misteriosamente a altura
exata para qualquer atividade que não o basquete profissional. O rosto não era propriamente
redondo, nem oval nem em forma de coração, mas seu formato agradava a todos. Era a forma
certa, as feições eram feições certas, o corpo era o corpo certo e a voz era a voz certa, no
sentido de que a menor alteração neles teria sido errada. No Oxford English Dictionary, há sete
páginas dedicadas a definições da

palavra "certo", mas bastava olhar bem para Nina para se definir certo num instante.

Essa grande namoradeira, com sua integridade que desafiava as definições, por vezes
precisava trabalhar aos sábados se tivesse tido uma semana especialmente cheia, livrando-se
de todos os homens que queriam se casar com ela, sem mandá-los embora de vez. Num
determinado sábado de junho de 1958, em que a única atividade possível para um nova-
iorquino que se prezasse seria abrir a casa de praia ou pintar as venezianas em Fairfield
County, um dia em que nenhum nativo de Manhattan deveria ser pilhado em Manhattan, Nina
Stern foi obrigada a ir ao escritório para terminar uma última coluna para "Já Ouviu Falar?" Ela
tomou o elevador, recém-automatizado, para o 15? andar. Em algum ponto entre o 10? e 11?
andares, o elevador parou, com um ruído especialmente rangedor e final.

— E agora? — perguntou Nina a um homem desconhecido, o único outro passageiro.

— Há um telefone... vou pedir socorro — disse Zachary Amberville.

Quem deveria estar do outro lado do fio devia ter saído para o almoço. O único som que se
ouvia era de música ambiental, enquanto Zachary tentava obter alguma resposta.

— Eu não me importaria tanto — disse Nina, olhando para ele — se não fosse esse barulho.
Morte por música ambiental. Na segundafeira de manhã vão nos encontrar aqui, malucos,
cantando para o resto da vida.

— Gosta de pão preto? — perguntou Zachary. — Preto de milho ou de centeio com sementes
de cariz? — De centeio. Parei no Reuben's e comprei um sanduíche antes de vir para o
escritório.

Ele desembrulhou o imenso sanduíche oval, cortado em três na diagonal, cheio de camadas
grossas de salame, queijo suíço, carne enlatada, repolho cru e a mostarda do Reuben's.

— Tem até picles — disse Nina, assombrada. — Estimula o cérebro — disse Zachary, com
autoridade. — É melhor do que peixe. Vamos nos sentar?

— Se houvesse um meio de desligar a música... — E há. Você tem de subir nos meus ombros e
apertar aquele botãozinho em cima da porta, à esquerda.

Nina olhou para o estranho. Não podia ser um estuprador louco, pois já a teria estuprado, a
essa altura. Evidentemente, tinha bom coração, pois estava disposto a dividir seu sanduíche
perfeito, quando poderiam ter de passar ali mais um dia e meio, até serem liberados. A
despeito do condicionamento de infância, ela não receou que ele estivesse envolvido no
tráfico de escravas brancas. A mãe nunca a deixa-

88
ra ir ao cinema no sábado de tarde, a não ser ao Trans-Lux, na Rua 85, onde uma zeladora
patrulhava as fileiras com uma lanterna, pois era fato sabido que uma garota direita, sozinha
num cinema de Nova York, levaria uma injeção de algum homem que se sentasse ao seu lado,
desmaiaria e urna semana depois acordaria escrava branca em Tânger. Se chegasse a isso,
Nina achava que a tratariam bem em Tânger e, em todo caso, aquele homem não parecia
desse tipo. Estava com um paletó de tweed caro, embora não lhe assentasse bem. Tinha
cabelos pretos muito limpos, se bem que estivessem precisando de um corte. A boca flexível
possuía um jeito bondoso, os olhos escuros brilhavam de humor e os sapatos eram feitos à
mão.

Ela concordou e Zachary se abaixou, como um zagueiro. Ela tirou os sapatos e subiu nos
ombros dele.

— Levante-se bem devagar, nunca fiz isso na vida — mandou ela. Zachary se levantou, de
centímetro em centímetro, enquanto Nina se agarrava aos cabelos dele. Ela eliminou a música
com um gesto rápido e ele a pôs no chão do elevador, com cuidado. Os dois se sentaram. O
elevador era limpo, e era o que tinham.

— Isso me deu fome — disse Nina. — Pode ficar com o pedaço do meio — ofereceu Zachary,
generoso, abrindo o papel de alumínio. A parte do meio dos sanduíches do Reuben's era
sempre a mais suculenta.

— Obrigada — disse Nina. A vida toda, os homens vinham lhe dando a melhor parte, sempre
lhe ofereciam o peito de cada galinha, o pedaço mais frito do bacon e a lagosta fêmea de carne
mais saborosa. Mas embora sempre se sentisse grata, não se espantava mais do que se
espantaria Morgan Le Fay. Ela sorriu para Zachary. De todas as coisas supinamente certas em
Nina Stern, o sorriso era a mais certa. De todas as coisas encantadoras de Nina Stern, o seu
sorriso era o mais encantador. Que garota simpática, pensou Zachary.

— Onde trabalha? — perguntou. — Em Style, na seção "Já Ouviu Falar?" E você? — Vendas —
disse ele, dando de ombros. — Sem graça? Horrivelmente cacete? Monótono? — perguntou
ela, com pena.

— Necessário — disse Zachary, com estoicismo. — Mas nada que lhe agradasse saber. Acabei
de passar três dias em Chicago, numa convenção de vendas. E já basta.

— Ora, deixe disso, pode me chatear. Conte sobre as vendas desoladoras, as vendas insípidas,
tudo sobre as vendas aborrecidas, monótonas, mas infelizmente necessárias. Pare quando eu
entrar em coma.

— Nunca aborreço uma dama de propósito — disse ele, rindo. — Conte sobre "Já Ouviu
Falar?"

89

87 — Se não quer me aborrecer, eu me recuso a aborrecê-lo... é tudo muita conversa,


basicamente sem importância. Em todo caso, não prefere comer, em vez de conversar?
O trabalho de Nina era por demais vital para ela, para ser debatido com os muitos homens de
sua vida, e ela se dera conta de que aquele estranho sem dúvida ia ser um homem em sua
vida. Em geral, ela não levava mais que uma fração de segundo para chegar a uma decisão
dessas, mas até aquele dia, sempre tivera pavor de ficar presa em elevadores, e seus reflexos
estavam mais lentos do que de costume.

— Podíamos fazer as duas coisas — disse Zachary — ao mesmo tempo.

— Devemos tentar fazer isso durar o mais possível, para o caso de não nos salvarem, ou
devemos só...? — perguntou Nina.

— Mordidas grandes. Não se pode apreciar um sanduíche e guardá-lo, ao mesmo tempo.

— Vou me lembrar disso... você é tão sabido. Uma garota esperta mesmo, pensou Zachary.
Excepcionalmente esperta. Acho que vou convidá-la para a próxima reunião de quartafeira.
Precisamos do tipo de cabeça dela. E há alguma coisa simpática nela, não sei bem o quê.

O elevador começou a andar quando eles estavam acabando o sanduíche. Nina saltou no
andar dela. Ela estendeu a mão e tornou a sorrir para ele.

— Nina Stern — disse ela. — Zachary Amberville. — Isso não é justo! — Ela riu quando a porta
do elevador se fechou. Ainda estava rindo ao abrir a porta do escritório. Nina, disse para si,
você acaba de perder a oportunidade de sua vida. Para uma moça esperta, às vezes era uma
bobona.

”Esta cidade grande é um brinquedo maravilhoso”, cantou Zachary bem alto, ao caminhar para
casa bem depois, tendo concluído o trabalho. ”Feita para uma garota e um rapaz.” Como
sempre, desafinou na palavra ”rapaz”. Atravessou Madison descuidadamente, chegando às
últimas estrofes da canção. ”Vamos fazer de Manhattan uma ilha de alegria.”

Havia muito tempo que ele não se sentia assim, pensou. Fazia meses, anos, que não cantava
sua canção. Como é que se sentia, exatamente?, perguntou-se, diminuindo o ritmo do andar.
Seria a noite fria e ventosa de primavera, com a promessa de alguma coisa empolgante no ar,
que só os nova-iorquinos sentem, quando os dias se alongam? Seria o bom trabalho daquela
tarde, formando uma nova revista de que ninguém ainda sabia nada? Seria apenas Nova York,
centro inebriante da galáxia, onde suas ambições tinham nascido e se realizado?

90

Rim. Ele se sentia bem. Por que diabo ele não se sentiria bem? Qual o homem que não se
sentiria bem, valendo tantos milhões que nem os uontara, recentemente? Qual o homem que
não se sentiria bem com o poder que ele tinha, que se divertia... ”vendas”, ele se lembrou e riu
alto. Vendas, divinas vendas!

Como é que seria uma garota como Nina Stern? Merda, mas ele se sentia jovem! Estava com
36 anos e se sentia como quando tinha 16 anos, em Columbia, servindo as mesas para o
dinheiro do metrô e do cachorro-quente... não estava tão distante, houvera uma guerra, um
casamento, mas assim mesmo tinha sido apenas há vinte anos. E apenas sete dos vinte anos
ele passara casado. Ele franziu a testa, seu estado de espírito de repente mudado. Se ele se
sentia tão jovem, como é que não fizera amor com Lily nas últimas semanas? Como é que
faziam amor tão raramente, pensando bem? Conforme diria Nat, seu cunhado, quem está
contando?

Ele é que estava contando. Lily nunca fora apaixonada, e ele aceitara isso nela... ela era assim...
mas sempre se mostrara tão disposta. Suave, delicada e dócil. Ele tivera de se conformar com
isso, se bem que muitas e muitas noites ansiasse por uma mulher que tivesse os anseios dele.
Mas, nesses sete anos, ele nunca enganara a mulher. Engraçado, tantos homens faziam isso,
mesmo quando amavam as esposas, mesmo quando as mulheres eram, ele imaginava,
disponíveis de um modo que Lily não parecia mais ser, exceto a intervalos cada vez maiores.
Ocorreu-lhe que mentalmente, se não fisicamente, ela começara a lhe dar as costas quando
ele entrava no quarto, indicando, de modo sutil, delicado e sem palavras, que na verdade não
estava disposta, não naquela noite, não naquele momento. Haveria algum drama íntimo,
insuspeito, na vida dela?

Disposta. Havia tantas mulheres dispostas nessa cidade. Mas nem todas. Uma garota como
Nina Stern, por exemplo. Ela não estaria disposta. Provavelmente era casada, noiva, ou tinha
uma lista enorme de pretendentes. Garotas como Nina, simpáticas e espertas, estavam
comprometidas, era lógico. E o que era mais, tinha um bom apetite, o que era sempre
interessante numa mulher.

”Vamos a Coney”, cantou ele, ”e comer salsichão no pão, passear no Central Park, da-da-dum.”

Alguém se virou para olhar para ele, que se deu conta de que estava novamente cantando em
voz alta. Diria a Hemingway para levá-la à próxima reunião da quarta-feira. Faria bem à moça
ver como as revistas eram dirigidas de outro ponto de vista que não o de ”Já Ouviu Falar?”
Melhor ainda, ele lhe mandaria um memorando especial, um convite. Motivado, claro, pelo
seu grande interesse pelas vendas. ”Isso não é justo”, ela dissera, e não era mesmo. Ele devia
compensar a coisa. Sorrindo, abriu a porta da frente e entrou na casa de mármore

cinzento quando o mordomo acabava de atravessar o hall. Teve um lampejo de dúvida... Essa
seria mesmo sua casa, pertencia a ele? Estava se sentindo tão jovem, tanto como se sentira
quando se aventurava para o centro da cidade, quando estava em Columbia, andando por
todas as ruas da cidade, nem sequer pensando no que haveria do outro lado de portas como
essa, esplêndidas além dos limites de sua imaginação. Ele passou pelo mordomo com um
cumprimento jovial e subiu a escada para sua biblioteca particular, onde preferia trabalhar, em
vez da grande biblioteca do andar de baixo.

— Lily? — disse ele, espantado. Ela estava de pé junto à janela, olhando para o jardim, e se
virou, impaciente, quando ele entrou.

— Estava esperando que você chegasse, meu bem. Queria que você não tivesse de trabalhar
aos sábados, especialmente depois de ter passado a maior parte da semana fora — disse ela
com sua voz cristalina, mais carinhosa.

— Era uma coisa em que eu tinha de pensar, e penso melhor no escritório. Depois, a minha
mesa estava empilhada de coisas para as quais não vou ter tempo na segunda-feira. Mas
adorei ver você aqui. O que é isso? Champanha? Esqueci de alguma coisa? Não é o nosso
aniversário de casamento, nem aniversário. O que estamos comemorando?

Ele abriu a garrafa e habilmente encheu as duas taças em forma de tulipa na bandeja de prata
que ela colocara na mesa dele.

— Um brinde, querido — disse ela, quando encostaram as bordas das taças. — A melhor
notícia possível... outro bebê.

— Outro bebê! Eu sabia que alguma coisa maravilhosa ia acontecer! — ele gritou de alegria e a
agarrou nos braços, esquecendo-se de todos os outros pensamentos.

Lily submeteu-se ao abraço dele, os olhos cheios de lágrimas. Coragem, dissera Cutter,
valentia. Ela faria tudo por ele. A parte mais difícil estava feita. Agora começava a espera.

92

Somente o vazio de um choque profundo e o verniz de uma educação básica e automática


sustentaram Maxi e Toby nos momentos em que tiveram de dar os parabéns a Lily e Cutter
pelo seu casamento. Palavras foram pronunciadas, cumprimentos trocados, mas nenhum dos
dois sequer tentou um sorriso. Parecia, pensou Maxi, que os quatro estavam empenhados em
tentar dar um enterro decente a uma vítima de um acidente de rua, uma vítima cujo corpo era
o de Zachary Amberville.

A consternação e o espanto que ainda estavam enchendo a sala do conselho foram até bem-
vindos, pois permitiram que os irmãos se retirassem depressa, de mãos dadas, e entrassem
depressa no elevador expresso, enquanto Lily e Cutter continuavam conversando com os
membros do grupo editorial Amberville que não tinham sido afetados pela morte de quatro
revistas, e que puderam exprimir seus votos de felicidade com uma naturalidade que nem
Maxi nem Toby conseguiram apresentar. Elie levou os dois de volta à casa de Toby, numa
transversal sossegada da Rua 70 Leste. Sem uma palavra, Toby foi ao bar ao lado da piscina
que ele construíra ocupando todo o primeiro andar e jardim da casa de arenito pardo, e serviu
um bom drinque para cada um.

— O que é? — perguntou Maxi. — Conhaque. Nunca bebo isso, mas se já houve alguma hora...
— Não posso acreditar... não posso compreender... — Maxi começou a dizer, mas Toby a
interrompeu.

— Cale a boca, beba e dê um mergulho. Ainda não podemos falar sobre isso.

Ele se despiu e mergulhou na piscina com aquele mergulho rápido e plano que o ajudara a ser
várias vezes campeão de natação. Maxi se juntou a ele, usando apenas a pérola negra, e
nadaram até ela começar a sentir que se esvaziava parte do balão de emoções que enchia o

93 seu ser, passando a sentir apenas cansaço. Ela parou de nadar e sentou-se à beira da
piscina, até que Toby afinal subiu à tona e se içou com facilidade, sentando-se ao lado dela. Ele
possuía músculos e ombros esplêndidos, no entanto era quase frágil na cintura, como muitos
outros grandes nadadores.

— Melhorou? — perguntou ele, num grunhido. — Tanto quanto possível. O que não é dizer
muito. Parece que fui atingida por uma granada de mão... em pedaços.

— Eu me pergunto se nós dois não deixamos de perceber muita coisa entre aqueles dois, se
não somos ingênuos de ficarmos tão espantados.

— Você quer dizer que, evidentemente, mamãe se sentia só desde... ah, Deus, desde a morte
do papai... aí se voltou para Cutter e, evidentemente, os dois têm mais ou menos a mesma
idade e por menos que eu goste ou confie nele, objetivamente ele é um homem incrivelmente
bonito e, afinal, a vida e o sexo não param nos quarenta e tantos anos? E que é natural que ela
se sentisse/constrangida por se casar com o próprio cunhado e o fizesse escondido, sem nos
avisar? Afinal, Toby, não foi por acaso que ela nos contou isso em público... A única coisa que
não posso imaginar é que tenham resolvido casar às escondidas de uma hora para outra. Não
são Romeu e Julieta.

— Sim para tudo isso — disse Toby. — Mas há outra coisa que notei e a que não dei bastante
atenção... há uma cumplicidade entre eles... sempre houve, num grau ou outro, desde que
Cutter voltou da Inglaterra. E quando o papai se foi, tão de repente, no ano passado, isso
aumentou constantemente.

— Cumplicidade? O que é que isso quer dizer, exatamente... que são parceiros no crime?

— Não, uma espécie de envolvimento profundo, um interesse intenso pelas necessidades e


desejos um do outro, um acordo que vai além do acordo, criando assim um laço mais forte e
mais durável do que o fato de que ele é boa-pinta e ela precisa de um homem na vida dela, ou
qualquer dessas coisas evidentes.

— Como é que você é tão perito? — perguntou Maxi, rebelde. — Eu escuto. Você sabe que
ouço coisas nas vozes das pessoas que você não percebe. Ouço no modo como se movem
quando estão juntos. Quando se é cego, Cachinhos Dourados, a gente aprende a ouvir as
pessoas se movendo de centenas de modos diferentes, e cada qual significa algo diferente.
Eles têm uma cumplicidade muito profunda. Eu ouço e, por Deus, cheiro isso... sob todo o
perfume e sabonete e loção após a barba no mundo, sinto o cheiro disso nos dois.

Maxi se remexeu, numa resistência primitiva às palavras dele. — Por que insiste em me
chamar de Cachinhos Dourados? — perguntou ela, querendo mudar de assunto.

94

— Porque gosto do nome. Se o seu cabelo fosse todo branco, eu só veria pedacinhos dele, de
vez em quando, de modo que a chamo como eu quiser. É só não ficar careca. Agora, voltando
à mamãe e a Cutter. Ele faz dela o que quer. É a primeira vez que a vejo assim, tão dominada,
tão dependente. Quando o papai era vivo, eu sentia uma série de coisas quando ela estava
com ele, uma coisa inteiramente diferente. Eles eram bondosos um com o outro... acho que
tinham chegado a um acordo. Eram amigos, ou pelo menos não eram inimigos, mas não havia
cumplicidade.

— Você é revoltante. Ele riu e deu um tapa na coxa nua da irmã. — Boa, fresquinha — disse
ele, apreciando. — Deve durar ainda uns dez, talvez quinze anos, até começar a perder essa
elasticidade especial dos músculos.

— Tire as mãos de cima de mim, seu degenerado. — Você me ama, Cachinhos Dourados? —
Eu te amo, Morcego. Era o ritual deles. A recordação mais antiga de Tobias era de tocar nas
faces da bebê Maxi, e a primeira recordação dela era da mão dele apanhando-a quando ela
escorregou numa rua coberta de gelo.

— Ah, se você pudesse ter visto alguns daqueles pobres-diabos na reunião, Toby. Alguns
pareciam ter sido sentenciados por um juiz.

— Eu os ouvi. E bastou. — Mas como podemos aceitar o modo dele dizer que estava falando
em nome dela? Você sabe que a mamãe não podia ter tomado essa decisão por si... ela nunca
se meteu com a direção da companhia. Ela não pensa em lucros, pelo amor de Deus! É tudo
obra do Cutter, só Deus sabe a razão. Mas não se pode permitir que ele acabe com quatro
revistas de uma vez! Não podemos deixar que ele o faça! Nosso pai nunca teria pensado numa
coisa dessas, por motivo algum, a não ser que estivesse inteiramente falido. Toby, Toby!
Lembre-se do papai! Não é eutanásia, é assassinato puro e simples! — A voz de Maxi foi
ficando cada vez mais forte.

— Mas o que podemos fazer a respeito, amor? Mamãe tem o poder, claramente, de fazer
prevalecer a ”decisão” dela, seja quem for que a tenha influenciado. Ela tem o direito legal e
absoluto de fazer tudo o que bem entender com a empresa.

— Persuasão moral — disse Maxi, devagar, com uma voz entre a indagação e o nascimento de
uma idéia.

— Persuasão moral? Evidentemente, você passou tempo demais longe do seu torrão natal.
Isso aqui é a Cidade de Nova York, neném, e persuasão moral só é encontrada nos editoriais
antigos do Times.

— Um tipo especial de persuasão moral, Toby. Estilo Manhat-

95 tan. Se você me der almoço, vou ter forças para fazer uma visita ao nosso tio, no escritório
dele.

— Raios me partam se sei o que está tramando. — Raios me partam também... por enquanto.
Mas temos de cavar... — ela deu uma risada

— Por uma Nova York melhor — acrescentou ele, completando a frase que ambos usavam
para explicar todos os inconvenientes na cidade que, para eles, era o centro do universo.

— Isso seria muito imprudente, Maxi, e não a levaria a lugar algum — disse Cutter, sentado à
sua mesa no escritório de Wall Street. — Seja o que for que você e Toby achem, e, pode crer,
eu realmente compreendo os seus sentimentos e tenho pena...
— Pode deixar de lado as comiserações — retrucou Maxi, com rispidez. — Vamos direto à
linha de fundo, já que esse parece ser o seu lugar favorito para agir.

Ela ainda não tinha ido em casa trocar de roupa desde que chegara a Nova York, mas o banho
de piscina com Toby e o almoço excelente que ele preparara para ela refizeram o seu espírito
indomável e, no caminho para o centro, ela concebera uma idéia clara do que fazer, como
atacar.

— Não importa se a Amberville é uma companhia de propriedade privada ou não, Cutter,


ainda está sujeita à opinião pública. Quando Toby e eu formos aos jornais, como pretendemos
fazer, com nosso relatório de acionistas minoritários, vamos dizer que estamos convencidos de
que você evidentemente exerceu uma influência indevida sobre a nossa mãe, sua esposa
espantosamente recente, e liquidou com quatro revistas sem consulta prévia a Toby, a Justin
ou a mim, todos nós acionistas e partes altamente interessadas.

Maxi esticou as pernas calçadas com botas, em desafio, e se recostou na poltrona, com todas
as mostras de uma descontração confiante.

— Talvez o seu couro seja tão grosso que possa ignorar a opinião pública, mas já pensou em
seus clientes? — continuou ela. — E os seus sócios, tão preocupados com a discrição? Já
pensou em todos no negócio de revistas, os Newhouses, os Hearsts, os Annenbergs e todos os
outros? Que atitude tomarão, o que dirão sobre você, Cutter? Todos sabem que você não é
um editor, nunca foi, nunca será. Vai ser uma história suculenta para os meios de
comunicação... quatro revistas eliminadas de uma vez, centenas e centenas de pessoas
desempregadas, tudo isso baseado no critério de uma pessoa que nunca passou nem cinco
minutos em redações, alguém cujo único poleirinho no negócio lhe foi dado pela mulher.

Cutter virou uma faca de papel, ajeitou um tinteiro, acertou o re-

96

lógio em cima da mesa. Houve um breve silêncio antes que Maxi continuasse, já que ele
evidentemente não pretendia dizer coisa alguma.

— Eu não queria estar em seu lugar quando fizermos a nossa entrevista coletiva, Cutter. Tenho
certeza de que Pavka se unirá a nós. Sei que ele não possui ações da companhia, mas os meios
de comunicação o adoram, consideram-no um gênio, e ele é mesmo, e um velho formidável.
Lembra-se das filas em volta do quarteirão para a retrospectiva dele no Museu de Artes
Gráficas? Ele é uma instituição, e o meu pai lhe deu a sua primeira chance, sem falar no fato de
que Wavelength foi idéia do próprio Pavka. Zachary Amberville fazia fé no futuro dessas
revistas e as pessoas tinham fé nele... é disso que você parece se esquecer. O meu pai era uma
fábula... e ainda é.

— Você está querendo me chantagear, Maxi, e não dá certo. Essas revistas estão canceladas, a
partir desta manhã. A decisão cabia à sua mãe e ela a tomou.

— Você — disse Maxi, devagar — é um mentiroso imundo e indecente. Mamãe não resolveu
nada, foi você. Ainda não sei bem o motivo, mas foi tudo obra sua, Cutter.
— Como ousa me falar assim? Maxi nunca vira Cutter zangado de verdade. Ela sorriu bem nos
olhos dele, que estavam gelados e alucinados de raiva. Se tivesse sido decisão da mãe dela, ele
nunca teria deixado escapar aquelas palavras, logo Cutter, sempre tão lindamente controlado,
sempre educado.

— E nego a acusação de chantagem — disse Maxi, o sorriso se ampliando, insolente como um


gato no seu território. — Será que nem reconhece a persuasão moral, quando a ouve?

— Persuasão moral... partindo de você, nem é engraçado, é absurdo. Muito bem, o que é que
você quer, Maxi?

— Uma revista. Quero uma das quatro revistas, e quero um ano em que você me deixe
completamente livre para fazer o que eu quiser com ela. Nada de freios, nem de controles,
nem cortes de orçamento. Especialmente nenhum corte de orçamento.

— Parece que pensa que herdou o jeito do seu pai. Então, vai salvar toda uma revista, sozinha?
Ora, você nunca teve uma semana consecutiva de trabalho honesto na sua vida, e a única vez
em que trabalhou foi num verão em que ainda era adolescente. Mas vamos parar de brigar —
disse ele, recuperando o bom humor — não é produtivo. Se eu conseguir convencer Lily de lhe
dar uma revista, pois é ela quem teria de concordar, você e seus irmãos teriam de concordar
em garantir que não meteriam a imprensa num assunto da família.

— Aí estaríamos lhe dando liberdade com as três outras — disse Maxi, deprimida de repente.

— Não estou precisando que me dêem liberdade. Não aprovo ceder diante de chantagem, seja
como for que a chame, e não creio que

97 uma entrevista coletiva de uma conhecida moça de sociedade e um homem que, devido a
uma deficiência infeliz, não pode nem ver o layout de uma revista, seja levada muito a sério.
Mas, para conservar a harmonia na família, e porque você inegavelmente tem uma certa
capacidade de aborrecer, se Lily aprovar, qual a revista que escolheria para a sua assombrosa
tentativa de ressurreição?

- Buttons and Bows — respondeu Maxi prontamente. Ela não tinha a menor dúvida de que, se
o pai estivesse vivo, a sua primeira publicação, seu talismã, seria a revista que ele preferiria
acima de todas.

— Vou fazer o que puder com a sua mãe, Maxi, mas não posso prometer nada até falar com
ela.

— Merda. — Maxi se levantou depressa e foi para a porta. — A partir deste momento, eu me
considero redatora-chefe de Buttons and Bows — disse ela, saindo do escritório. — Não, não
precisa me acompanhar ao elevador.

Cansada, mas com uma sensação de triunfo correndo em suas veias, Maxi chegou em casa, no
seu apartamento no 63? andar da Trump Tower. Ela não tivera certeza alguma de poder
dobrar Cutter, cuja reputação como banqueiro de investimentos era sólida — se bem que ele
não fosse especialmente bem-sucedido — e poderia resistir a um ataque ao seu critério nos
negócios. Muitas revistas tinham acabado na última década; foram lamentadas brevemente e
depois esquecidas. Girando a chave na fechadura, Maxi pensou que se Cutter algum dia tivesse
feito parte do conselho editorial das Edições Amberville, ela nunca poderia ter vencido com
suas ameaças de uma entrevista coletiva. Como é exatamente, pensou ela, que se ”arranja”
uma entrevista coletiva da imprensa?

— Uuui! Maxi caiu ao chão sob o peso de uma criatura desengonçada, descalça, aos gritos,
carregando uma mochila e três raquetes de tênis, uma criatura que uivou e a abraçou até ela
pedir demência.

— Mãe, minha mãezinha, minha mãezinha pequenina — a criatura cantava de alegria — você
chegou! Acabei de chegar e olhei na geladeira. Não há nada mesmo que se coma nesta casa,
mas sei que você não vai deixar eu morrer de fome, ah, mãezinha de todas as Rússias.

— Angelica, benzinho, por favor, saia de cima de mim — suplicou Maxi. A filha de onze anos
devia ter crescido um metro no acampamento de tênis. — O que é que está fazendo aqui? Não
era para você voltar antes da semana que vem.

— Saí do acampamento quando fui eliminada nas oitavas-de-final.

98

É tão sem jeito ser eliminada nas oitavas... tudo bem se você não chega até lá, e tudo bem se é
eliminada nas semifinais, mas as oitavas, de modo nenhum, José.

— Angelica, como é que você voltou de Ojhi? Não... ah, meu Deus, você não veio de carona,
veio? — perguntou Maxi, horrorizada.

— Liguei para o papai pedindo dinheiro. Vim de avião, claro, e ele foi me esperar no aeroporto.
Mas não houve tempo de me dar de comer... isto é, não me deu bastante de comer, só uns
hamburgers e uns dois milk-shakes... está vendo como eu cresci? Não é formidável? Não vou
ser uma pessoa boba, do tamanho normal, como você. Talvez possa ser modelo. Você acha
que preciso operar o nariz? Todo mundo no acampamento está operando o nariz, onde vamos
jantar, o papai te ligou para a Europa, dizendo que eu ia voltar? Tenho um apelido. De hoje em
diante você tem de me chamar de Chip e eu vou te chamar de Maxi, é mais maduro.

— Pode me chamar do que quiser — gemeu Maxi, enquanto Angelica se debruçava sobre ela,
com carinho — mas não pense que vou te chamar de Chip. Alguém tem de dar um basta, em
algum ponto.

Maxi pôs as mãos nos ombros da filha, empurrou-a um pouco e a examinou atentamente. Que
combinação de genes especial, pensou, se juntara para criar aquela estonteante promessa
clássica de uma beleza excepcional? Os Ambervilles, os Adamsfields, os Andersons, os Dales,
os Cutters tinham contribuído para a mistura assombrosamente poética, romântica, que era
Angelica Ambervilie Cipriani, e no entanto os traços dominantes no rosto da menina eram os
do pai, Rocco Cipriani; Rocco, o magnífico Rocco renascentista, Rocco, fascinante, pensativo,
sombriamente luminoso, cujos antepassados partiram de Veneza — provavelmente os únicos
venezianos que um dia partiram de Veneza voluntariamente — rumo aos Estados Unidos,
menos de cem anos antes.
— Você também está planejando um apelido para o seu pai? — perguntou ela, fazendo
questão, como sempre, de ser educada quanto ao seu primeiro ex-marido, com quem
partilhava a custódia de Angelica.

— Ora, Maxi, você me envergonha, verdade. A gente não chama o pai por um apelido. Às
vezes você me deixa encucada.

— Estou vendo que as duas medidas ainda valem — murmurou Maxi, resignada. — E não
venha me perguntar o que isso quer dizer, pois vai descobrir bem cedo.

— Então, o jantar... — disse Angelica, espalhando o conteúdo da mochila pela sala. — Pensei
que talvez comida tailandesa, ou sushi. A comida do acampamento de tênis era estritamente
para gente de fora, e você sabe o que é isso... pão branco esfarelado e horroroso, quei-

99 jo plástico amarelo-laranja cortado, salsichão rosa claro... Há dois meses que não como
direito.

— Angelica, já voltamos ao seu estômago num instante, mas que tal me perguntar como é que
eu vou?

— Como vai, mãe? — disse Angelica, amável, tentando encontrar um par de meias limpas.

— Sou a nova redatora-chefe de Buttons and Bows. — Ora... como vai? Conheceu algum ser
humano maravilhoso? Há tempos que não tenho um padrasto.

— Você nunca, jamais, terá outro padrasto, Angelica. Já te disse isso mil vezes. Estou falando
sério de Buttons and Bows. Vou assumir a revista.

— Trimming Trades Monthly? — Angelica parou a sua busca inútil, espantada com as palavras
da mãe. — O que é que você quer com a coitada de Trimming Trades Monthly?

— De que está falando? — Bottons and Bows. O vovô sempre me contou que o nome correto
era Trimming Trades Monthly... diz isso bem na capa, em letrinhas miúdas. Buttons and Bows
é só o nome que algum redator desesperado deu, para tentar modernizar a coisa. Não
adiantou nada. Ele dizia que só continuava a publicar a revista por pena do pessoal que
trabalhava lá há tanto tempo... ele achava que não iam conseguir outros empregos, e vários
deles trabalhavam ali a vida toda. Mas ele já tinha perdido o interesse pela revista há muito
tempo. Sério, mãe, quando foi a última vez que você viu um exemplar? Acho que são quase
coisa de coleção. Deve ter uma circulação de pelo menos 210 exemplares. Chato.

— Angelica, como é que você sabe de tudo isso? — O vovô e eu conversávamos sobre o
negócio... ele dizia que eu era a única da família com cabeça para o ramo editorial. Tem umas
soquetes que eu possa usar, Maxi? Ei, mãe, está se sentindo bem? Está meio engraçada. Não
pode ser fadiga do jato, ou você veio de avião comum? Talvez esteja faminta, como eu. Olha,
mãe, quando é que vamos para Veneza?

— Veneza? — repetiu Maxi, sem entender. — Mãe, vamos passar duas semanas em Venezia...
sabe, a da Itália... antes de começar minhas aulas — explicou Angelica, com paciência e
devagar, como se estivesse falando com uma pessoa muito idosa. —- Não diga, ”Veneza?”
como se não tivesse as passagens e reservas, pois foi tudo planejado há meses.

— Não podemos ir. — Mas você disse. — Nada de Veneza. Sinto muito. Eu compenso para
você. Tenho de ir trabalhar. Na Trimming Trades Monthly.

100

— Puxa! Está falando sério. Perdemos todo o nosso dinheiro? — Eu fiz papel de boba. — E isso
é melhor ou pior? — Pior, muito, muito pior, infinitamente pior. Ah, foda-se! — Ah, mãe, não
fica assim. — Angelica lhe deu um abraço de esmagar os ossos. — Podemos jantar no Parioli
Romanissimo... e daí, se eu não vou ter a terra de meus antepassádos, um restaurante é quase
a mesma coisa que Veneza, sem os canais... os pombos... a Piazza San Marco... o Gritti... — a
voz dela sumiu, numa melancolia de dar pena.

— Nem sequer posso jantar com você hoje, Angelica. Vou ligar para o Toby e ele te leva onde
você quiser — disse Maxi, se detestando.

— Você ”tem um compromisso? — Angelica se animou. — Uma promessa. E uma promessa


que não posso deixar de cumprir. Digamos que é uma dívida de honra. Tenho de estar no P. J.
Clarke às oito em ponto.

Maxi se jogou numa poltrona e se encolheu numa bolinha triste. — Angelica, você por acaso
gosta de pérolas negras? Se gosta, eu te trouxe uma da Europa.

— Ah, corta essa, Maxi... deixa a culpa pra lá. Não faz nada o seu gênero — disse Angelica, com
simpatia.

Um inspetor de alfândega conhece mesmo o corpo feminino, pensou Maxi, animada, tentando
acordar na manhã seguinte. Haveria um homem no mundo que pudesse fazer amor como um
irlandês de verdade, em plena forma física? E O’Casey estava no auge da forma. O segundo
marido de Maxi tinha sido australiano, mas os antepassados dele eram irlandeses, o doce Bad
Dennis Brady, rapaz encantador, como diriam na Velha Terra, mas com um hábito infeliz de
combinar tequila gelada e vodca Buffalo Grass em doses iguais e tomar vários copos generosos
antes de tentar, sem o auxilio do comandante, atracar o barco na baía de Monte Carlo. Talvez
o casamento desse certo se ele não fosse tão preguiçoso quanto ao resto, ou se o barco não
fosse um iate oceânico de 80m, com seu próprio heliporto. Talvez se o helicóptero estivesse
bem preso, a queda — ou seria o naufrágio? — não teria sido tão constrangedora. Maxi largara
aquele determinado barco depois de seis meses, ela se lembrou, sonolenta, mais triste, mas
não muito mais sábia.

SÁBIA! A palavra ressoou em sua mente e a fez se levantar da cama, em pânico. Mais sábia?
Quem estava mais sábia? Que horas eram? Ela tinha de ir já para o trabalho. O pessoal de
Buttons and Bows já devia saber da reunião da véspera e sem dúvida estava lá, choroso e na
dúvida, esperando a decisão oficial. Ela teria de ir para

101 lá, fosse onde fosse, tranqüilizá-los, assumir e fazer... e fazer... o que fosse necessário. Sim,
fazer, agir, tomar decisões, tomar conhecimento, assumir, fazer alguma coisa, fazer qualquer
coisa. Ela andou pelo quarto, tentando abrir as cortinas para encontrar um relógio, mas estava
desorientada, sem saber como funcionavam as cortinas pesadas ou onde ficavam os
interruptores da luz.

Maxi não tinha dormido no seu apartamento novo, antes de partir para a Europa, dois meses
antes. Nessa ocasião, como muitos dos apartamentos de Trump Tower, ele ainda não estava
pronto, se bem que Maxi o tivesse comprado na planta vários anos antes, de seu amigo,
Donald Trump, quando o apartamento não era mais do que a visão dele do que fazer com um
pedaço valiosíssimo do espaço aéreo de Nova York. Por fim ela encontrou os puxadores certos
e abriu as cortinas pesadas, forradas de seda damasco.

Maxi ficou parada diante das janelas, imobilizada de espanto. Isso seria Manhattan, a cidade
conhecida, amada e odiada, ou, enquanto ela dormia, o seu novo apartamento teria sido
levado suavemente para outro planeta? O sol que estava nascendo a leste, atrás dela, lançava
seus raios por sobre o Central Park, que continuava parcialmente à sombra, e iluminava os
picos e torres da cidade até onde a vista alcançava: ao norte, para o Harlem; a oeste, através
do Rio Hudson, para Nova Jersey; ao sul, além do Trade Center, para o Atlântico aberto. Deus
do céu, pensou ela, é Manhattan, e eu comprei a cidade toda! Ela se encheu de alegria, do tipo
conhecido como imoral. Manhattan lhe pertencia! Ela devia ser a única pessoa acordada tão
cedo, a única pessoa com aquela vista, esculpida no céu. Talvez houvesse táxis, ônibus e carros
de bombeiros lá embaixo, mas Maxi não os ouvia, no 63? andar. Ela estava flutuando, mas não
à deriva, ancorada num ninho que lhe custara mais de quatro milhões de dólares, um ninho
quase tão alto quanto as nuvens brancas e esfiapadas, ao estilo de Fragonard, que estavam
ficando rosadas sobre o parque. Vendo o sol subir mais no céu, brilhando sobre as vidraças
que, uma por uma, mandavam mensagens diretamente a ela, mensagens de um novo dia,
prenúncios de uma nova manhã, Maxi se deu conta de como tinha sorte de possuir uma vista
que alterava o espírito.

”Conquistarei Manhattan”, cantarolou, ”o Bronx and Staten Island também.” E dançou e


dançou sozinha, ao tom da canção que o pai lhe ensinara.

— Angelica, não tenho roupa estilo editora para usar — disse Maxi ao café da manhã.

— Pensei que era a redatora-chefe, mãe. Já foi promovida? — No meio da noite acordei e de
repente me dei conta de que Buttons and Bows já deve ter um redator-chefe, e não seria
simpático co-

102

meçar entrando lá e calmamente tirar o emprego de alguém, de modo que me fiz editora.
Desde que o vovô morreu, as publicações não têm um editor.

— E como é que um editor deve se vestir? — perguntou Angelica, comendo quatro ovos com
muita manteiga, direto da frigideira, como ela gostava mais.

— Como uma figura de autoridade, um líder, que inspire as tropas, alguém com um critério
indubitável, impecável, irrefutável.
— Então, isso te elimina. Angelica polvilhou os ovos com uma camada bem grossa de Tabasco.

— Certo. Mas eles não sabem disso, e se eu me vestir de um modo dinâmico, eles vão reagir à
imagem, ou é o que me têm dito. No entanto, o meu guarda-roupa parece só começar na hora
do almoço, um almoço competitivamente chique no Le Cirque, um almoço no Côte Basque, e
não numa manhã séria, comercial, de uma editora. Depois eu tenho roupa demais... para
coquetéis, jantares, bailes, iates, chalés e praias. Mais as botas e calças com que viajo.

— Parece um tipo de teste de personalidade. Se olhar no meu armário, verá quem sou —
comentou a filha — ou ”Dize-me o que usas e dir-te-ei quem és”.

— Eu gostaria que você não fosse tão sincera, Angelica. Não pode ter um pouco mais de tato?

— Foi você quem começou. Em todo caso, que tal aquele terninho preto Saint Laurent que
você comprou no ano passado e nunca usou porque ficava tão mal em você?

— Ele não mudou nada — disse Maxi, com um ar sombrio. — Fazia eu parecer um homem
baixinho e gordinho travestido. Nem se vê que tenho uma cintura e elimina minhas pernas.
Você tem de reconhecer que tenho as melhores pernas de Nova York.

— Nós todos sabemos disso, mãe. No Saint Laurent, com saltos bem altos, você podia parecer
um homem de altura média travestido. E os ombros intimidam mesmo.

— Talvez com uma blusa sensacional — disse Maxi, animando-se.

— Uma blusa severa e uma echarpe masculina jogada displicentemente sobre um ombro. Viva
Zapata.

— Detesto esse tipo, e a echarpe sempre cai. — Você não tem escolha — disse Angelica,
pensativa. — Escute, mãe, você já amou de verdade?

— Não respondo a perguntas desse tipo de manhã cedo. — Se eu o conhecesse, acha que
Woody Allen seria muito velho para mim? — Nem tanto. Mas acho que ele não ia querer se
comprometer.

103

— Ninguém quer — disse Angelica, com pesar. — É o malaise da época. Seja lá o que for isso
— explicou Maxi. — Seja o que for — concordou Angelica. Ela quase sabia o que era. — Então,
vai mesmo ao escritório hoje? Tremendo. Bom, boa sorte, Maxi.

— Obrigada, amor. O que vai fazer hoje, compras? — É, volta à escola. Primeiro vou checar
Armani, Krizia, Rykiel, Versace, Kamali, e talvez acabe comprando Guess.

— Quem me dera ser alta como você — suspirou Maxi. — Acho você engraçadinha assim
mesmo. Gosto de uma mãe de altura média. Faz eu me sentir crescida.

— Não sabia que não se sentia assim — resmungou Maxi.

104
9

Os escritórios de Trimming Trades Manthly ainda se situavam na Rua 46, entre a Sexta e
Sétima Avenidas, onde Zachary tinha alugado o seu primeiro escritório. Quando a revista fora
fundada, o prédio estava meio decadente, mas não mais do que o resto da vizinhança, e ficava
no centro da indústria de acabamentos. Nada mudara, só que a decadência passara ao
abandono. Maxi não notou nada disso ao localizar os escritórios e se fazer anunciar à
recepcionista.

— Sou a Srta. Amberville. Pode dizer ao redator-chefe que estou aqui?

— Ele a está esperando? — Diga só que é Maxime Amberville. Segundos depois, Robert
Frederick Fink chegou à pequena sala de recepção. Era rotundo e rosado, idade entre 65 e 70
anos, vestido com capricho e positivamente encantado com a visita.

— Maxi! — exclamou. — Dê um beijo ao seu Tio Bob! Aposto que nunca se esqueceu do dia
em que ganhamos doze mil paus no Exacta? Venha para o meu escritório e me conte de você...
faz tantos anos.

— Uns vinte — palpitou Maxi, sufocada pelo abraço dele. Ela não se lembrava do Tio Bob, mas
se lembrava da corrida.

— Parece ontem. Olhe essa porta, não abre muito. Maxi se encolheu para entrar no gabinete
do redator e parou de repente. O aposento, de tamanho médio, continha oito mesas e sobre
cada uma havia pilhas enormes de papéis de todo tipo, arrumadas com cuidado para se
equilibrarem sem qualquer apoio. Entre as altas paredes de papel havia espaço apenas
suficiente para se andar em fila indiana até chegar à nona mesa, a de Bob Fink, onde os papéis
só tinham chegado a uma altura de uns 20cm. Ele a fez sentar-se, com cuidado, na única
cadeira de visitante na sala, e depois se esgueirou em volta de sua mesa e se sentou
comodamente.

— Não acredito em arquivos, Maxi, nunca acreditei. A gente guar-

105 da alguma coisa num arquivo, se esquece que está lá e nunca mais a vê. Mais vale queimar
a coisa. Pode me pedir um documento, qualquer documento.

Hã? — Maxi enrolou-se na sua echarpe de escocês, como se fosse um poncho mexicano, e
cruzou os braços. Se espirrasse, pensou, levariam uma semana para tirá-la de baixo da
papelada.

— Peça para eu encontrar alguma coisa para você... como uma conta, ou um recibo, ou uma
nota de despesas, qualquer coisa.

— Um número de Buttons and Bows de, digamos, 1954. — Não, muito fácil. — Um recibo de
pagamento de... papel... de junho de 1961. Bob Fink se levantou, examinou seus domínios
severamente, por dois minutos, foi com cuidado até uma das secretárias e, com a maior
delicadeza, tirou vários papéis de um dos minaretes.
— Cá está. Olhe só! O papel era um bocado mais barato, em 61. — Incrível — disse Maxi,
sorrindo para ele. — Acha que posso ver um número de Buttons and Bows, o mais recente?

A fisionomia de Bob Fink ficou desanimada. — Está bem aqui, más não me orgulho dele. Nada
é igual, desde que ”Blouson Noir” anda às soltas.

— Quem? — John Fairchild. Os estilistas franceses o chamam de ”Blouson Noir”, ou seja, um


bandido de turma de motoqueiros com casaco de couro preto... porque ele foi muito duro
com eles. Mas o que ele fez para a circulação de Women’s Wear! Um foguete, amor. E quando
os nossos anunciantes viram isso, naturalmente resolveram pôr todo o dinheiro deles em
WWD e, como se não bastasse, Fairchild publica Footwear News todas as semanas, o que
limpou os nossos anunciantes de fivelas e tiras. Assim, com uma coisa e outra... bem, temos
algumas assinaturas que ainda valem por uns anos, alguns pequenos anunciantes que gostam
de ver suas fotos nas capas, mas Maxi, convenhamos, Buttons and Bows está... bem, dizer que
está em apuros seria bondoso. Quando a gente está em apuros, ainda está vivo. Buttons and
Bows está no tratamento intensivo, mas o hospital acabou de fechar.

— Posso ver, assim mesmo? — perguntou Maxi, nada desanimada.

Ele lhe entregou a revista fininha, com uma esplêndida capa vermelha. Na capa havia uma foto
de John Robinson, da Robinson Braid Company, e a maior parte do texto era sobre a carreira
do Sr. Robinson. Havia algumas páginas de notícias do mundo dos galões e debruns, um artigo
sobre o uso de botões nos ternos Adolfo, ilustrado com um desenho de um punho com três
botões, e alguns pequenos anúncios. Os dois maiores eram da Robinson Braid Company e da
firma que vendia os botões para os Adolfo.

106

— Tio Bob, ouviu falar alguma coisa sobre a reunião de ontem? — perguntou Maxi, dobrando
o exemplar da coisa patética que era a revista e pondo-o na bolsa, com um ar de posse.

— Ouvi boatos, claro. Bem, talvez uma dúzia de telefonemas. Bom, umas duas dúzias. Acho
muito simpático de sua parte vir aqui em pessoa, me dar a notícia. Seu pai, que descanse em
paz, teria feito a mesma coisa. Eu sabia que aconteceria.

— Mas não vai acontecer, Bob! Sou a nova editora de Buttons and Bows, e juntos vamos fazer
dessa revista uma vencedora outra vez, como meu pai teria feito!

Maxi quase derrubou uma tonelada de papel em sua cabeça, ao se levantar, na sua animação.

— Se esse é o segundo prêmio, benzinho, eu não queria ganhar o primeiro. Sente-se, pelo
amor de Deus!

— Não estou brincando. Estou falando sério! Diabos, Bob, o céu é o limite, podemos fazer
qualquer coisa que o Fairchild faz. Vamos revirar isto aqui... não o seu escritório, claro, mas...

— Maxi — interrompeu Bob Fink, delicadamente — a indústria de roupas não precisa de mais
de uma grande publicação, o que precisa é de um jornal, WWD, e não uma revista mensal. Não
está pretendendo publicar mais um diário, está?
— Bem, na verdade, não. Mas e W? Podíamos fazer uma coisa como W, só que melhor.

— O problema é que W usa material que já foi fotografado e escrito para WWD... às vezes
fazem o número um pouco mais longo e usam cores, mas não lhes custa nada pôr as mãos
naquilo... dinheiro em caixa para Fairchild e só dez mil assinantes. A maior parte de W é de
anúncios, e todos aqueles retratos grandes e lindos — ele suspirou. — Devo estar ficando
velho... não estou preparado para ver aquelas garotas maravilhosas usando cuecas. O que é
que aconteceu com as calcinhas?

Maxi se remexeu na sua sunga. Essas peças íntimas tinham dado uma nova dimensão à sua
vida sexual. Ela seria pervertida, só conhecia pervertidos, ou o Bob Fink seria antiquado?

— Como é que W pode só ter dez mil assinantes? Todo mundo que eu conheço lê W —
protestou ela.

— É essa a questão... cada número é lido por dezenas de pessoas e a maior parte tem renda
alta. Acho que isso explica os anúncios. Maxi, você não pode concorrer com Fairchild. Eles
fundaram aquela companhia em 1881 e se especializaram em publicações comerciais antes de
seu pai nascer, quase antes de meu pai nascer. E por que diabo havia de querer isso? Você é
uma Amberville.

- Bob, estou ouvindo o que você está dizendo, mas estou con-

107 vencida de que posso fazer Buttons and Bows dar a volta por cima. Com a sua ajuda, claro.

Como é que ela poderia se livrar de um velhinho tão bonzinho?, pensou Maxi. Se ao menos ele
não fosse tão pessimista.

— Minha ajuda? Maxi, há muito tempo que estou louco para me aposentar. Só fiquei por aqui
porque achava que devia isso à memória de seu pai, mas, felizmente, investi em imóveis na
hora certa. A maior parte dos ex-presidentes dos Estados Unidos construiu suas casas em
terrenos que lhes vendi em Palm Springs. O único terreno grande lá que eu quis, mas jamais
consegui, é Annenberg’s, com campo de golfe e tudo. Perdi esse, mas não se pode ganhar
sempre.

— Aposentar? Quer se aposentar? — E ir para o Oeste. E ver minhas palmeiras crescerem.


Talvez aprender a montar a cavalo.

— Mas... e todas essas suas mesas? — Maxi fez um gesto cauteloso.

— Toque fogo. Vai custar uma fortuna tirar toda essa tralha daqui, mas eu positivamente o
faria e queimaria tudo, se fosse você.

— E o resto do pessoal? — perguntou Maxi, aflita. — Toda aquela gente que meu pai não
queria despedir?

— Vamos ver... tem o Joe, que arranja as idéias e escreve os artigos, e Linda, que compra todo
o trabalho de arte, faz os layouts e trata da produção; e eu sou o meu gerente de publicidade.
Não tenho departamento de circulação, claro. A recepcionista também é telefonista e
datilógrafa. Pus Joe e Linda nos imóveis comigo... e a recepcionista pode arranjar um emprego
em qualquer lugar. É uma moça muito prendada, tenho de pagar demais para conservá-la
aqui.

— Três pessoas? Só três? Como pode ser possível? — Sentia a cabeça meio aérea, mas sabia
que não devia desmaiar.

— Bem, também tem um camarada que contratamos, do prédio, para esvaziar as cestas de
papel e limpar o escritório de vez em quando, tem uma copiadora lá embaixo para o que
quisermos mandar copiar e a tipografia manda alguém de vez em quando para nos vender
papel; mas quanto ao resto, vamos ver, é, três pessoas. E ainda estamos perdendo dinheiro.
Aluguel, ordenados, material, tudo custa dinheiro. Claro, tem o almoço; todo mundo tem de
almoçar.

— A firma paga o almoço? — perguntou Maxi, sem poder acreditar.

— Foi o seu pai quem começou isso, nos bons tempos. Insistiu. Claro, nessa época o Lindy’s
estava funcionando. O almoço não é mais o mesmo, desde que fechou.

— Quando é — perguntou Maxi, a voz fraca — que estava pensando em partir? Não quero que
pensem que estou com pressa, mas...

— Hoje é o quê? Quarta-feira. Podemos todos sair até sexta-feira.

108

Mas não gosto de deixar você com essa barafunda. Vou providenciar para o camarada do lixo
vir buscar tudo, não se preocupe. E Hank, o servente do prédio, não se importa de trabalhar
extra, de modo que o local pode estar limpo, mais ou menos, segunda ou terça-feira.

— Tem certeza de que não quer ficar? — Só lhe restava a boa educação, pensou Maxi.

— Meu bem, já estou naquele avião. E escute, se você não se importa que um velho admirador
dê o seu palpite, essa roupa que você está usando não é... talvez uma coisa mais... hã, menos
ameaçadora? Eu teria medo de encontrá-la num beco escuro, Maxi. Olhe, se quiser, eu a levo a
um atacadista... talvez Beene, ou Ralph Lauren. Não há nada errado com você que uma
mudança de imagem não corrija.

— E tem a audácia de chamar esse pedaço de papa esfarinhada de maçã-deliciosa Golden? —


rugiu Toby. — Dê uma dentada, seu sacana, e me diga há quantos meses foi colhida e posta
num frigorífico. — Com uma das mãos ele agarrou o vendedor pelas costas da camisa e com a
outra apresentou-lhe a maçã. — Ande, morda!

— Fui roubado, moço — protestou o homem. — Acabei de comprar vinte caixas do interior e
me juraram que as maçãs tinham sido colhidas esta semana.

Toby largou o sujeito, com nojo. — Claro que sim. Bom, bem feito, para eu não experimentar
um fornecedor novo. Não vê que sei dizer tudo sobre essa fruta? Bastou tocar na casca para
saber que era da safra passada, não tem o cheiro de uma maçã fresca. E, se eu a provasse, ia
vomitar. Vá tentar vender isso para o D’Agostino.
Ele deu as costas e falou com Maxi. — A maior parte dos camaradas aqui me conhecem e não
tentam me passar uma dessas; nunca comprei dele, pensei em experimentar.

— É a última vez que ele vai tentar roubar um cego — disse Maxi. — Pelo menos um de nós
não foi roubado hoje.

— Quer tirar o rabo de entre as pernas e parar de se queixar? — ordenou Tobias, descendo
pelo corredor dos atacadistas de frutas. Como fazia sempre no Hunt’s Point Market,
perigosamente entulhado, Toby estava usando sua bengala de laser. Os três raios de luz
infravermelha invisível faziam um pino vibrar, que dava um contato no seu dedo indicador,
dizendo se havia objetos bem à sua frente, acima de sua cabeça ou desníveis abaixo. Ele a
balançava com facilidade, num arco, usando as habilidades com bengalas que adquirira anos
antes. Sistematicamente, Toby começou a escolher maçãs de várias caixas, mentindo,
cheirando, virando-as peritamente nos dedos longos, como se cada uma estivesse sendo
escolhida para uma natureza morta, e no entanto agindo com rapidez espantosa.

109 — Não estou me queixando — disse Maxi, amarga. — Estou é com uma raiva danada de
mim mesma. Joana d’Arc salvando a pele do homem que é dono do Rancho Mirage... sem falar
em trinta anos de almoço grátis. Se ao menos eu pensasse que o Cutter podia morrer de tanto
rir...

— Olhe, você ainda tem uma revista, um escritório, e um ano para fazer o que quiser. É só o
seu orgulho que está ferido, Cachinhos Dourados.

— Não é uma revista, é pura ilusão. O escritório... bom, até mesmo você teria de ver para crer.
A sua bengala explodiria. Quantas maçãs vai comprar, pelo amor de Deus?

— Está no tempo da Tarte Tatin, amor, e isso quer dizer milha-

res.

— rur que e que eu nao tive peio menos o bom senso de falar com Pavka ou Nina Stern antes
de escolher a revista que queria? Po-

Mil Lei cscommo qualquer uma a elas! Por que tive de desembestar assim?

— Ah, o mistério da personalidade humana. Se você fosse um pouco cuidadosa não seria Maxi,
e se não fosse Maxi o mundo inteiro seria um lugar mais triste.

— Porém mais sábio. — Talvez. Mas a sabedoria não é tudo isso que dizem. A sabedoria é
como o celibato... adiar o mais que puder.

Toby encomendou suas maçãs e foi saindo do complexo imenso e feio, que fornecia pelo
menos a metade dos alimentos de Manhattan. Ele não fazia mais as compras diárias
pessoalmente, tinha assistentes para isso, mas de vez em quando ia a Hunt’s Point para
verificar as novidades para os seus três restaurantes locais. Possuía mais dois em Chicago e
quatro na Costa Oeste, todos igualmente bem-sucedidos_
- - Tobias descobrira a cozinha ’POUCO antes de fazer oito anos. Era terre-

no proibido para ele, se bem que sua visão diurna ainda estivesse relativamente boa. Lily tinha
um medo irracional de que ele se aproximasse de qualquer tipo de fogo, o que só lhe deu mais
vontade de invadir o cômodo misterioso.

Uma noite ele esperou até que toda a casa estivesse dormindo e depois desceu de mansinho,
por todos os caminhos conhecidos, e entrou naquele espaço grande e tentador. Acendendo a
luz, começou a explorar, de centímetro em centímetro, começando pelo armário e gavetas de
baixo, submetendo cada objeto a seus cinco sentidos. Sua visão já estava bastante
deteriorada, de modo que ele usou todos os sentidos para investigar os objetos estranhos.
Cada utensílio de cozinha, cada panela e pote vazios, as tábuas de picar e facas e garfos e
colheres de cozinha foram levados ao nariz e às pontas dos dedos. Ele cheirou

110

as facas, tocando nelas com a ponta da língua, lambeu o lado não cortante, passou os gumes
de leve pela mão, encostou-as nas faces. Sacudiu todos os objetos e escutou o ruído que
faziam, sentindo seus pesos e comparando-os; depois de se familiarizar com cada um, o
repunha no lugar. Na noite seguinte, ele se aventurou mais, foi à geladeira, e ali, na calada da
noite, o menino superprotegido se apaixonou. Um ovo era um mundo para Tobias, uma
alcachofra uma galáxia, uma gatinha um universo.

Noite após noite, ele passava, horas na cozinha, até que cada canto se tornou inteiramente
conhecido, até não haver uma salsa murcha que ele não tivesse provado, se bem que,
obedecendo à proibição da mãe, nunca acendesse o fogão. Mas o explorou todo, por dentro e
por fora, até ele ficar impresso na sua memória sensitiva.

Uma noite, ele não conseguiu resistir e quebrou um ovo numa tigela, com cuidado. Se o
exterior do ovo era fascinante, o interior devia ser inteiramente irresistível. Outro ovo
acompanhou o primeiro, até que uns doze ovos estavam nadando na grande tigela marrom, as
cascas arrumadas umas dentro das outras, no lado da mesa da cozinha. Evidentemente,
deveriam ser mexidos com um garfo, disse Toby para si. Ele estava quase acabando,
misturando com capricho, metódica e vigorosamente, quando a porta da cozinha se abriu e ele
foi pilhado pela cozinheira. Sua primeira tentativa culinária só provou que Ifto era possível
misturar ovos num silêncio total.

Zachary insistiu para que Tobias aprendesse a cozinhar, e um chef da Escola Cordon Bleu foi
contratado para trabalhar com ele todas as tardes, depois do colégio.

Em breve Tobias sabia dizer se o azeite era servido no ritmo certo na maionese que estava
batendo pelo simples barulho das gotas caindo. Sabia ouvir o segundo exato em que uma
omelete estava pronta para ser tirada da frigideira, sentia o cheiro do momento exato em que
uma cebola estava bem dourada, não precisava de relógio para cozinhar os ovos, e apenas
uma faca afiada para cortar as fatias mais finas de qualquer fruta ou verdura.
Entretanto, ao entrar na adolescência, Toby teve agravados os seus problemas de visão. A
despeito de sua graça natural, parecia desajeitado, constantemente esbarrando em pessoas e
objetos que deveria ver

clareza. Lily, que continuava se recusando a aceitar o fato de que Toby um dia seria quase
cego, se não inteiramente, conseguia obrigar-se a Ignorar esses incidentes; mas Zachary, que
muitas vezes levava os filhos ao cinema, aos sábados à tarde, viu que num cinema escuro Toby
ficava indefeso, perdido até se acenderem as luzes da platéia. Em breve tornou-se evidente
que ele não podia praticar esportes de equipe, com sua fraca visão lateral. Não conseguia
acompanhar o percurso de

111 uma bola de vôlei ou um disco de hóquei e, a despeito da resolução de Lily, de não alertar
Toby quanto ao que o futuro lhe reservava — para que ele devia saber, até se tornar
realmente necessário?, dizia ela — Zachary decidiu que o filho tinha de estar preparado.

Nos anos sessenta não se sabia quase nada sobre a retinite pigmentar. O Dr. Eliot Berson, da
Faculdade de Medicina de Harvard, a quem Zachary levou Toby para fazer um exame de
ergografia a fim de medir a força dos sinais emitidos pelas células nervosas da retina, não
soube lhe dizer qual era o prognóstico, a não ser que, com sorte, Toby ainda teria alguma visão
funcional depois dos vinte e tantos anos.

Nem mesmo Zachary conseguiu dizer essas palavras a Toby, mas fez o possível para explicar
por que ele devia se concentrar em esportes individuais, como natação e ginástica, preferindo
falar de esportes em vez de sobre a vida, referindo-se aos bastonetes e retina em vez de visão
de túnel.

— Vou ficar cego, papai? — perguntou Toby, após os minutos de silêncio que se seguiram à
exposição confusa de Zachary.

— Não! Não, Toby! Não completamente, nunca completamente, não por muitos anos.

O coração de Zachary se angustiava enquanto ele falava essas palavras do modo menos
emotivo possível.

— Mas é melhor eu aprender Braille, não é? — perguntou Toby, depois de mais um silêncio.
Zachary não conseguiu responder, nem dizer que não. — Então, Braille e datilografia pelo tato
— disse Toby, levantando-se e indo para o quarto. O que ele sofreu ali ninguém jamais saberia,
mas ele saiu com sua alma jovem e íntegra, resolvido a aproveitar sua vida ao máximo, mesmo
que não conseguisse dominar o seu destino.

O método Braille, de que ele ainda não precisava, era aprendido melhor quanto mais jovem o
aluno, e em breve ele passou a freqüentar as aulas de Braille com regularidade. Nadava com
um instrutor particular na piscina coberta, construída para ele no jardim da casa de cidade dos
Ambervilles, com a mesma energia com que continuava suas lições de culinária. Toby vivia
como se tivesse duas vidas, uma com visão, a outra nas trevas, e durante uns doze anos a
doença não pareceu piorar, como acontecia muitas vezes. Quando Toby se diplomou na Escola
de Hotelaria em Cornell, já passara oito verões estagiando com grandes chefs na França, Itália
e Hong Kong, e estava pronto para abrir o seu primeiro restaurante.
Durante anos, como um cavaleiro afiando as armas e lubrificando a armadura em preparação
para alguma batalha distante, ele investigara os milhares de artigos de cozinha para os
deficientes de visão, e sempre que encontrara um que lhe agradasse, como a Faca Maravilhosa
Magna, o adotava, embora ainda não precisasse dele. A cozinha

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do seu primeiro restaurante era única, na sua organização impecável. Nenhuma dona-de-casa
obcecada pela arrumação jamais conseguiria a rigidez absoluta com que Toby, usando o seu
bom senso, arrumou seus instrumentos. Seu cavalo de batalha de confiança era um par de
balanças de padaria, da Acme Scal e Company, uma delas com um dispositivo de detecção
eletrônico que pesava especiarias desde zero a quatrocentos gramas, a outra podendo pesar
até quarenta quilos de outros ingredientes, ambas com indicadores de pesos marcados em
Braille a intervalos de 1,5cm.

Suas manoplas eram um par de luvas de forno com 43cm de comprimento e que o protegiam
do calor nas costas das mãos, além das palmas e dedos; suas espadas eram colheres de pau,
suas espátulas duplas, suas medidas cuidadosamente guardadas uma dentro da outra, que
podiam ser governadas por seus dedos, eliminando a necessidade do vidro graduado. Sua
lança de justa era um indicador de nível de líquidos, e seus elmos eram as tigelas de Dansk e
Copco, todas com círculos de borracha na base, para maior estabilidade.

Aos vinte e tantos anos, já com dois restaurantes funcionando com sucesso, Toby se deu conta
de que os espaços em branco na sua visão do mundo estavam-se tornando maiores; as
pessoas e objetos nadavam para dentro e para fora deles, estranhamente, de um modo vago,
fragmentado e cada vez mais sem colorido. Ele se educara para tornar os seus problemas o
menos visíveis possível, mas aí se deu conta de que estava precisando de ajuda altamente
profissional.

Durante um período de quatro meses, Toby se internou no St. Paul’s Rahabilitation Center, em
Newtown, Massachusetts, para treinamento. Ali, todos os alunos, fosse qual fosse o grau de
visão que tivessem, eram vendados para instrução, que variava de coisas mundanas como
comer à mesa e contar dinheiro, até técnicas mais complicadas. Ele tomou aulas de esgrima,
para ajudar a localizar os ruídos; o ”videação”, ou aprender a orientação e mobilidade por
meios extravisuais, como julgar a velocidade do vento, o sol no seu rosto, a textura do que
estivesse embaixo dele e todas as outras percepções possíveis dos ruídos da natureza, do
homem e dos automóveis. Quando Toby Saiu de St. Paul’s, sentia-se tão apto quanto possível
para enfrentar O futuro.

Ele voltou a Nova York e continuou a experimentar com a imensa variedade de sistemas
criados para os cegos que trabalham em cozinha. Cada vez que abria um restaurante, instalava
uma cozinha que era uma réplica exata das outras. O seu corpo de chefs, todos com vido, era
treinado para cozinhar à moda dele, utilizando seus instrumentos, e em breve, se necessário,
todos podiam cozinhar no escuro.

Toby ainda cozinhava de vez em quando em seu primeiro restau-


rante, inventando novos pratos, mas os outros eram dirigidos por seus chefs. Ele os visitava de
surpresa, em viagens a Chicago ou Los Angeles. Com vinte minutos de inspeção, ele sabia se o
mais insignificante pote de compota tinha sido mal colocado. Ai do sous-chef que
economizasse os cogumelos silvestres; ai de quem calculasse errado o ponto de um Brie; ai do
cozinheiro dos assados cuja galinha não estivesse úmida até à ponta da asa; ai do saucier que
usasse um oitavo de uma pitada a mais de sal. Ai, ai dos gerentes dos restaurantes se as
toalhas de mesa não tivessem um certo acabamento engomado, se os cristais não parecessem
cetim ao tato, se as velas estivessem um centímetro curtas ou as flores com uma hora a mais
do devido. ”Tobias, o Terrível”, era como o chamavam após uma de suas incursões, mas depois
disso suas equipes ainda o adoravam mais do que antes.

Toby cutucou Maxi, que estava pensativa. — Eu ia me divertir mais se levasse Angelica para
fazer compras — disse ele. — Olhe, você se estrepou, mas isso não é o fim do mundo. Aprume-
se e esqueça. Evidentemente, não vai conseguir salvar Trimming Trades, como não pode trazer
de volta sapatos de abotoar. E não adianta perder tempo só para lutar contra Cutter. Ele
venceu, e mais vale você aceitar a coisa. Deixe isso pra lá, tire essa placa de ”pode me chutar”
das costas e comece a ser a Maxi de novo.

— Para um morcego, você parece um banana — respondeu Maxi, zangada.

— Sou um homem de negócios brilhante, o que quer dizer que enfrento a realidade todos os
dias; gostaria de um pouco de respeito de sua parte, já que sou provavelmente solteiro e o
melhor partido de Nova York, porém difícil de conseguir pegar porque não ligo a mínima para
o físico de uma garota, e ainda não encontrei alguém com cuja alma eu queira passar o resto
da vida.

— Um banana vaidoso, sem tato e mesquinho, que nem sequer tem a consideração de me
oferecer um drinque quando mais estou precisando — disse Maxi, com pesar.

— Está mais na hora de um café da manhã de domingo, benzinho, ou não tinha notado?

— O seu problema, Tobias, é que leva tudo ao pé da letra, como a sua mãe nunca lhe diria —
disse Maxi, zangada.

— O café da manhã pede um drinque, não acha? — Já que você falou nisso, por que não?

India West se contemplou com maldade ao espelho na penteadeira de seu quarto em Beverly
Hills. Fez uns acertos minúsculos, mentais, e seus olhos, que eram daquele azul brilhante e
raro de turquesas persas, pareciam escurecer ou clarear, segundo suas ordens. Músculos
supremamente delicados se moviam sob sua pele e ali aconteciam coisas que

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dariam para encher páginas de Les Cahiers du Cinema. Ela se apaixonava profundamente,
suportava uma depressão, era atormentada por um pavor secreto, ficava alegre, mudava de
devassa a freira e era iluminada por uma suave previsão de êxtase. Todos os sistemas, notou
ela, lúgubre, continuavam a funcionar bem, a despeito de sua ressaca catastrófica.
Olhando para sua imagem, em nada impressionada com ela, nem comovida com aquela
composição de feições extraordinárias cuja perfeição não aborrecia ninguém, salvo a própria
India, ela concluiu que havia alguma coisa fundamental e profundamente burra em ser
chamada de a atriz de cinema mais bonita do mundo. Que tipo de trabalho era esse, para uma
pessoa adulta? Alguém tinha alguma idéia do que era aquilo? Ela se lembrava mais que tudo
de um filme de Greta Garbo, com aquele rosto divino mal registrando uma mudança de
expressão, e a reação condicionada do público lendo nele vastas emoções. Será que Garbo
algum dia se sentiu assim como ela se sentia sobre sua própria pessoa? India desconfiava que
sim, e que a outra tinha largado tudo antes que alguém descobrisse isso.

— Você não é nenhuma Meryl Streep, sua vaca burra — disse ela em voz alta para sua imagem
maravilhosa — mas sabe fazer isso que chamam de representar.

Ela amarrou as ondas trêmulas dos cabelos louros, cor de âmbar, e olhou com nojo para o
bloody mary na mesa. India West quase nunca bebia, mas a noite da véspera fora uma exceção
horrível, para a qual só havia um remédio que levaria o seu fígado a considerar a possibilidade
de voltar a trabalhar. Ela engoliu a bebida, uma deusa resignada ao seu minuto de
mortalidade, estremeceu e voltou para a cama.

Todas as suas forças tinham ido para abrir o suco de tomate e encontrar o Tabasco, pois aos
domingos ficava sozinha. Não havia empregadas, nem secretárias, nem cozinheira na mansão,
todos os telefones ficavam mudos enquanto os grandes da Indústria dormiam ou pensavam
vagamente no café-almoço, enquanto viam pessoas condenadas a morar em outros lugares
jogando futebol na televisão. Contudo, refletiu India, se não fosse domingo, ela teria de ir fazer
seus exercícios regulares com o professor de ginástica, o árbitro de sua vida, Mike Abrums. Se
esse homem sequer desconfiasse que estava de ressaca, e só Deus sabia que não se podia
esconder nada dele, ele a faria se arrepender muito. Podia até cancelar seus compromissos.

A despeito de um boato bem fundado que ele possuía — em algum lugar — um coração de
ouro, Mike Abrums dirigia suas alunas com a disciplina implacável que ele aperfeiçoara
durante seus anos nos Fuzileiros Navais, ensinando aos homens como matar outros homens
com as próprias mãos. Ele agora mantinha certos corpos de Hollywood, selecionados
meticulosamente e de uma obediência cega, num estado

115 113 de perfeição, e tinha uma lista de espera de centenas de candidatos. Mike a proibira
de comer carne malpassada, açúcar, sal, gorduras e álcool em qualquer quantidade ou forma
que fosse. Na noite da véspera, num rompante de rebeldia, India ingerira copiosamente todos
os artigos da sua lista de alimentos proibidos.

— Se eu não fosse tão bonita, poderia comer um hamburger todos os dias — disse ela, num
tom patético, falando para o teto. — Se eu não fosse uma grande estrela, não teria de ser
perfeita. Se eu não fosse rica, não podia me dar ao luxo de ir àquele sacana seis vezes por
semana. Se eu não fosse famosa, ninguém se importava a mínima. Estou com um caso grave
do tipo de problemas de que as pessoas sempre escarnecem e dizem que também queriam
ter, mas só porque todo mundo gostaria dos meus problemas isso não quer dizer que tenho de
gostar deles. Não são um bem transferível. Um pensamento banal, reconheço, mas, no meu
estado, não posso fazer mais.
A voz de India, mesmo falando apenas com o teto, parecia vinho, com suas modulações e
registros infinitos, desde um Borgonha forte e escuro ao champanha gelado e brilhante; do
Bordeaux quente e maduro à doçura celestial do Sauternes. Depois de seis anos de estrelato
em Hollywood, India não achava mais estranho estar falando sozinha. Um dos problemas
menos reconhecidos de se ser um astro é que há muito poucas pessoas no mundo com quem
se pode falar francamente. A vontade de ter a glória de ser sua confidente era quase
irresistível, e se ela confiasse em alguém mais do que os poucos em quem confiava, era
provável que no dia seguinte encontrasse tudo nas colunas sociais.

— Se ao menos o meu teto fosse mais interessante — comentou ela. Uma ressaca limitava
seriamente as suas opções. Ela não podia suportar o ruído da música, não tinha forças para
focalizar a vista para ler, e, pior que tudo, não havia ninguém com quem quisesse falar ao
telefone. Diante dessa idéia, ela sentiu as lágrimas se formando. Ela se levantou com
dificuldade, se enrolou num robe e se dirigiu para a piscina, devagar. Qualquer coisa seria
melhor do que ficar deitada, sentindo pena de si.

India foi andando pelo caminho do jardim dos fundos. O plano era que tivesse um aspecto
tropical, e depois de gastar duzentos mil dólares, o paisagista dela conseguira uma paisagem
irreal, estilo Rousseau, de plantas monumentalmente exóticas que pareciam, no estado de
espírito em que se encontrava India, ameaçadoras e grotescas. Inquieta, ela vagou no meio de
tigres, ciganos adormecidos e cobras. De repente, a rede de esguichos subterrânea começou a
funcionar, com uma série de pancadas sinistras. Eles só deviam funcionar durante a noite.
Enquanto ela ficava ali parada, atingida por uma dúzia de esguichos diferentes, três imensos
pastores-alemães, latindo furiosamente,

116

saltaram de dentro das samambaias gigantes, quase derrubando-a.

— Quietos! Quietos, seus nojentos! — berrou ela, tentando uma voz autoritária. Eles a
agradavam, babando, ambiguamente. BonnieLou! Sally-Ann! Debbie-Jane! Quietos, já disse!

Eram todos machos, mas ajudava um pouco fingir que eram meninas. Aqueles animais
imensos a apavoravam, mas uma consulta com a polícia de Beverly Hills convencera o seu
gerente de negócios e seu agente que ela precisava deles. Parece que as cercas e os portões
controlados eletricamente e a câmara de televisão no fim da entrada mais todos os alarmas e
células fotoelétricas da Westinghouse instalados na casa toda não valiam o preço de um
pastor-alemão como proteção real.

Os músculos tremendo, India continuou no seu caminho para a piscina, os cabelos


encharcados, o robe molhado, os cães nojentamente molhados pisando em seus pés e
lambendo suas mãos com o que ela esperava fosse carinho. Ah, Deus. Será que tinham
comido? Ela estava cada vez menos segura do futuro, nesse determinado domingo.

Por fim, conseguiu sair da floresta tropical e parou com uma exclamação de descrença e
indignação. Da noite para o dia, a água da piscina passara a um horrível tom de verde-musgo.
Cães assassinos, esguichos assassinos, e agora algas assassinas. Era demais. Ela fugiu para a
casa e puxou as cobertas por cima da cabeça, maldizendo o tratador da piscina, que tinha
faltado uma visita.

— Os seres humanos não foram feitos para morar em Beverly Hills gemeu India nos lençóis
agora úmidos. — O lugar é um deserto, só floresceu devido à água roubada de lavradores
decentes e trabalhadores pelos malditos próceres de Los Angeles. Uma abominação aos olhos
do Senhor. Arrependei-vos, pecadores.

Ela tirou a cabeça de dentro das cobertas e pensou na possibilidade de mais um bloody mary.
Não. De jeito nenhum. Um era claramente medicinal, mas dois? Em vez disso, ia contar as suas
bênçãos, como a mãe lhe ensinara. Primeiro, como sempre, a saúde. A única bênção que
realmente importava. As ressacas não contavam como doença, pois eram só temporárias.
Segundo, seus lençóis, o algodão puro mais suave possível, de Pratasi, as beiradas bordadas
com festões pequeninos, por seiscentos dólares o par. Ela possuía um armário cheio deles, e
eram seu orgulho e alegria — era possível ser viciada em lençóis? Mas devia ser um prazer
inocente, pois não podiam ser comidos nem bebidos. Ou os lençóis seriam um caso de
transferência?

No ano passado ela se curara de sua transferência passando-a para a analista, Dra. Florence
Florsheim, psicanalista dos astros, e agora parecia ter transferido seu afeto para o armário de
roupa branca. Isso poderia ser considerado um progresso? Teria de verificar com a Dra.
lorsheim, mas duvidava que fosse. Quais as outras bênçãos? Bonita, i leu, famosa e talentosa.
Até John Simon concordava quanto ao seu

117 talento, opinião que ela permitia que a convencesse quando começava a ter dúvidas sobre
si. Mas ela já passara tudo isso em revista e não achava consolo. Mas, assim mesmo, eram seis
bênçãos. Amantes? Não tinha nenhum no momento, e o último que tivera fora, sem a menor
atenuante, um erro de gosto tão grande que ela chegava a corar ao se recordar. A ausência de
amantes talvez fosse uma bênção disfarçada. Contaria como meia-bênção, fazendo um total
de seis e meia, não era mau para quem estava com uma ressaca que lhe ameaçava a vida.
Juventude? Tinha apenas 27 anos. Sim, juventude, se ela não se lembrasse que os 30 estavam
a apenas três anos de distância. Três anos eram séculos. Mais de mil dias. Mil dias não eram
nada! Ela não ia pensar nisso. Puxa, mas não era fácil ser a atriz de cinema mais bonita do
mundo, era tensão numa escala maior, até a Dra. Florsheim tinha de concordar.

India pensou num comentário de Nijinsky, quando um admirador do grande bailarino


perguntou se não era difícil ficar pendurado no ar, como ele parecia ficar. Ele respondera que
não era difícil, basta ”subir lá e ficar em cima um pouco”. Uma boa descrição da carreira
cinematográfica, pensou India, e o coitado do Nijinsky morreu louco. Mas para que mais ela
servia? Desejara sua carreira, trabalhara muito por isso, e agora tinha de ficar lá em cima,
desafiando a lei da gravidade. India West recomeçou a ficar cheia de autopiedade. O telefone
tocou no momento em que ia se levantando da cama para se consolar com umas fronhas.

— Srta. West? Aqui fala Jane Smith, de ”Sessenta Minutos”. Resolvemos investigar a Síndrome
India West e vou para aí na semana que vem, para acompanhá-la durante um mês mais ou
menos. Meu interesse especial está no problema do estrelato, começando, claro, com a pipoca
na sua bunda...
— MAXI! Anjo, caído do céu... como pôde ir embora por tanto tempo... de onde está
falando?... Vem mesmo para cá? Estou sozinha e muito solitária.

— Não, estou em Nova York e não vou a lugar algum, provavelmente o resto da vida. Estou
com uma tal ressaca que acho que não vou sobreviver. Telefonei para dizer adeus para
sempre.

— Você também? Estou curando a minha com um bloody mary. Vá preparar um... eu espero.

— Que idéia enjoativa... eu vomitaria. — Olha, quimicamente, o suco de tomate é metade sal e
metade potássio. Substitui os seus eletrólitos mais depressa do que uma transfusão, e você
nem sente o cheiro da vodca se puser bastante Tabasco. Foi o melhor clínico de Beverly Hills
que me mandou fazer isso, verdade.

— Está bem... mas não desligue. Vou me apressar.

118

Esperando junto do telefone, India se sentiu reviver. Com Maxi de volta, no mesmo
continente, até mesmo um sinistro domingo em Beverly Hills parecia cheio de promessas.
Maxi nunca entrava numa sala sem criar uma fresta.

Ao som do barulho de cubos de gelo, Maxi voltou ao telefone. — Sei por que eu me
embriaguei, mas você, por que foi? — Foi a festa ontem à noite. Fui sozinha e não havia
ninguém com quem eu quisesse conversar. Aí entrou um cara fascinante e me animei, até que
ele chegou perto e eu li o que estava escrito na camiseta dele.

— India, já te avisei para nunca ler as camisetas. Não passam de uma agressão. O que dizia? —
perguntou Maxi, com uma curiosidade ansiosa.

— A Vida É Merda e Depois Você Morre. — Mas você tem de sair daí! Quando as camisetas
começam a fazer você beber...

— E a comer — disse India, num tom melancólico. — Tudo que aparecia.

— Pense assim — aconselhou Maxi. — Comer uma noite não vai aparecer nas suas coxas, e se
você não tiver a compulsão de confessar a Mike Abrums, ele não vai poder ler seus
pensamentos. E você pode revelar todas as coisas horríveis que fez quando consultar a Dra.
Florsheim, pois ela nunca julga nada.

— Ah, Maxi, tem razão! Quando você não está aqui, não há ninguém para me pôr em
perspectiva, a não ser eu mesma. E eu ainda não sou boa nisso.

— É preciso duas para uma perspectiva. — Talvez esse seja um bom título para o meu
romance — disse India, animada.

— Está escrevendo um romance? — Vou começar, assim que tiver um bom título. Tenho a
impressão de que é isso que eu devia estar fazendo. Sempre quis escrever, e metade das
pessoas nesta cidade vem tendo trabalhos publicados, portanto... por que não eu?
— Em vez de ser a estrela mais linda do mundo? — Exatamente. O que acha de ”Se o Inferno
São os Outros, Então o Paraíso É Peixe Defumado”?

— India! — exclamou Maxi. — Não quando estou bebendo. — Então, gostou? — É divino, mas
um pouco esotérico demais. Alguma coisa mais para o mercado das massas?

— Que tal um romance de ficção científica. Gosto de ”Chateau Margaux 2001”.

— Não, India, não.

119 — Bem, então, ”Os Homens Casados Não Têm Sonhos Eróticos”. — Difícil de provar. —
Que tal ”Hamlet Foi Filho Único”? — O que quer dizer? — Acho que fala por si — disse India,
com dignidade. — Olha, India, estou preocupada com você... sério. Ir a festas sozinha, tomar
um porre, pensar em títulos para romances, daqui a pouco vai começar a contar os seus
lençóis de novo. E você sabe o que isso quer dizer. Não é saudável ficar sozinha nesse monstro
de casa. O que é que aconteceu com aquela governanta divina que fazia o tarô nas cartas com
você?

— A Dra. Florsheim disse que eu tinha de parar de confiar nas amizades pagas, de modo que
não tenho empregados que morem na casa.

— Tem certeza de que está bastante neurótica para sofrer essa privação? — perguntou Maxi,
aflita.

— Se eu não estava no princípio, hoje estou. — Acho que devia dizer à Dra. Florsheim que está
precisando de uma licença para tratamento de saúde e vir me visitar. Estou precisando muito
de você.

— Eu iria num instante, mas estou no meio de um filme. — Era o que eu temia — disse Maxi,
em tom do maior desespero. — É um homem? — Dez vezes pior do que o pior homem que
jamais conheci, ou com quem me casei, até. Pior do que Laddie Kirkgordon.

— Nada pode ser tão ruim assim... não está doente, está? — perguntou India.

— Não, a não ser que você considere a estupidez um mal incurável. E a arrogância, falta de
critério, falta de informação, agir como uma idiota, e saltar na parte funda de uma piscina
vazia.

— Mas isso parece exatamente você quando se apaixona. Eu sabia que era um homem —
insistiu India, sua ressaca curada ao ouvir a voz de Maxi e o prazer conhecido de saber dos
problemas improváveis dela.

— Se você esperar enquanto eu me preparo outro bloody mary — disse Maxi, resignada — eu
te conto toda a história horrorosa.

— Ótimo! — exclamou India, e se preparou para escutar, deliciada.

120

10
Avolta de Cutter Ambervillepara San Francisco, depois de uma estada relativamente tão breve
em Nova York, causou pouca surpresa. Os amigos dele, todos nascidos e criados em San
Francisco, sentiram uma justificação gratificante de seus próprios valores. Antes da partida
dele, tinham previsto que em parte alguma no Leste Cutter encontraria a vida agradável que
eles levavam, e quando ele rejeitou Manhattan, teve a prova de que eles estavam certos.
Embora algumas pessoas insistissem em chamar San Francisco de Wall Street do Oeste, e
outras a chamassem de Paris dos Estados Unidos, no que lhes dizia respeito era uma cidade
tão singular que não precisava ser comparada com qualquer outra no mundo. O simples
orgulho cívico faria San Francisco se destacar, pois aquela sossegada colônia espanhola se
transformara numa cidade de progresso internacional quando foi descoberto ouro em Sutter’s
Mill, em 1848. Desde essa data, sucessivas ondas de fortuna tinham depositado milhões,
bilhões até, nos bolsos dos homens afortunados que dirigiam a cidade, homens cujo dinheiro
novo amadureceu elegantemente em menos de um século.

Nenhum dos amigos de Cutter — os Bohlings, os ChatfieldTaylors, os Thieriots, os de Guignés e


os Blyths — jamais soube que ele tinha fugido de Nova York por causa de Lily. Ele foi bem
recebido como o unicórnio, aquele animal lendário cujo chifre diziam possuir propriedades
mágicas — pois um rapaz solteiro, bom partido e sem compromisso não era quase tão raro
quanto um unicórnio?

Os meses que Cutter passara em Manhattan só o tinham tornado mais interessante,


fisicamente; o contraste entre o seu tipo louro e suas maneiras sombriamente altivas e
deliberadas se acentuara. Parecia ter mais do que seus 24 anos, e mais perigoso; um perigo
misterioso, tornado mais sedutor por suas maneiras perfeitas e o sorriso inesperadamente
caloroso e raro, que transformava totalmente sua expressão, que

121 humanizava esse homem reservado. Ele era bem nascido, estava começando a ser muito
respeitado pelos homens mais velhos no mundo de banqueiros, mas, como diziam entre si as
mulheres da Cidade da Baía, não parecia estar pensando em casamento. Cutter Amberville
permanecia resolutamente, inexplicavelmente difícil, de coração livre, de um modo fascinante,
irritante e provocante. Nenhuma das mulheres que mexericavam sobre ele desconfiavam que
o seu motivo para evitar um envolvimento com uma das moças elegantes e solteiras de San
Francisco era uma questão de política lúcida: que encrencas Lily poderia causar se soubesse de
algum novo romance?

Cutter estava inteiramente armado até contra a garota mais deliciosa — se ela representasse
um possível comprometimento. Mas, a despeito de um controle emocional que a maioria dos
homens, em qualquer idade, nunca poderia conseguir, ele era inteiramente incapaz de
dominar a sua necessidade ávida e brutal de sexo. Tinha de possuir mulheres e
freqüentemente; e agora, depois de Lily, tinha de possuí-las numa condição de risco. Não era
para ele a conquista fácil e relativamente segura das mulheres que trabalhavam no escritório,
ou que ele pudesse pegar nos bares. Logicamente, ele reconheceu que havia mulheres dentro
da Sociedade, mulheres que viviam no seu mundo, que eram tão agitadas quanto ele, que
ardiam com um desejo insatisfeito tanto quanto ele, mulheres que ele poderia possuir à
vontade. Mas, para atraí-lo, elas tinham de ser mulheres que tivessem muito a perder para se
tornarem uma ameaça para a vida pública dele. Ele nunca perseguiu uma mulher que pudesse
ter algum poder sobre ele, nunca andou atrás de uma mulher que pudesse prejudicá-lo, e se
sentia numa mulher um sinal daquela visão da vida irresponsável, louca, como era a de Lily, ele
nunca a procurava.

Mas havia tantas outras! Para um homem com olhos para ver, um homem rodeado por casais,
havia possíveis conquistas por toda parte. Conquistas rápidas e secretas, feitas sem qualquer
ritual de corte, conquistas que eram uma forma de um reconhecimento mútuo de um desejo
sem complicações. Cutter era o mais esperto dos amantes. Sabia como fazer o perigo
funcionar para ele, como aproveitar as oportunidades mais inesperadas, como descobrir a
mulher que era tão alucinada e ardente quanto ele, sob todas as cobertas decentes do mundo
dele. Com um olhar ele distinguia entre um simples flerte e uma mulher lasciva, e agia de uma
maneira que não atraía atenção alguma.

A cada ano que se passava, aumentava a reputação de Cutter como o solteiro mais esquivo da
cidade. Ele saía quase todas as noites: no Ernie’s, os irmãos Gatti sabiam que ele gostava de
começar o jantar com o caranguejo da casa, servido o mais simplesmente possível; no Kan’s,
Johnny Kan em pessoa atendia o telefone quando Cutter ligava para fazer uma reserva; no
Trader’s Vic, sua mesa ficava sem-

122

pre na cabine do Comandante; mas em geral ele era convidado para casas particulares, não
para restaurantes.

Cutter compreendera que o meio mais rápido para uma aceitação social total em San
Francisco era através da música. Nunca deixava de assistir a cerca de 20 das 26 óperas
programadas, e ia aos concertos sinfônicos tanto nas noites ”da moda” como nas noites ”de
escutar”. Depois de alguns anos, convidaram-no para entrar para o Bohemian Club, instituição
fundada em 1872 para promover as artes. Em 1900, já se tornara um centro de poder
masculino; um clube ao qual os homens mais importantes do país eram convidados para os
acampamentos no Russian River.

Em breve Cutter ficou conhecido de homens como Richard P. Cooley, presidente do Wells
Fargo Bank; George Christopher, presidente do conselho do Commonwealth National Bank, e
Rudolph A. Peterson, presidente do Bank of America. Ele teve o cuidado de também conservar
os seus contatos bancários em Nova York. Seus meses em Manhattan lhe tinham dado o tipo
de pátina comparável a um ano passado numa escola de aperfeiçoamento na Suíça para uma
debutante de uma cidade americana de porte médio. Ele não aprendera nada a que se
pudesse atribuir um valor monetário específico, mas mergulhara fundo nas correntes do
oceano das grandes finanças americanas.

Ao regressar, Cutter voltou para sua firma antiga, Booker, Smity and Jameston, mas logo
passou para outra, maior. Aos trinta anos, já estava bastante experiente para se tornar sócio
mais novo da firma Alexander and Alexander, uma das mais influentes da cidade.

O chefe da nova firma de Cutter, James Alexander III, era um nativo de quinta geração de San
Francisco. Nascera com toda a realeza com que pode nascer um cidadão de uma república, e
aprovava Cutter integralmente. Convidava-o para jogar golfe no Hillborough Country Club;
convidava-o para se juntar ao Woodside Hunt, para velejar em Sausalito Harbor, no seu iate de
48m, e o propôs para sócio do seu próprio clube na cidade, o Union League, em Nob Hill, pois
James Alexander, como o Sr. Bennett, no romance Orgulho e Preconceito, era um homem com
duas filhas casadouras. Não cinco, como ele muitas vezes agradecia a Deus, só duas; e embora
lhe doesse reconhecer, Candice, sua primogênita, estava longe de ser uma beldade.

Junto com sua vista da baía, seu encanto, sua cultura e restaurantes, San Francisco tem um
orgulho justificado de suas mulheres. Moças como Patsy McGinnis, Penny Bunn, Mielle Vietor,
Frances Bowes, Mariana Keean e Patricia Walcott, embora cada qual fosse linda, não eram
exceções no princípio dos anos sessenta, e sim regra. Comparada com a média das beldades
locais, Candice Alexander era, mesmo aos olhos do pai que a adorava, apenas... média. Não
terrivelmente feia, vejam bem, mas ele tinha de reconhecer, por mais que a amas-

123 se, que não era nem bonitinha. Ninguém jamais sonhara em chamá-la de Candy. Ele e a
mulher, Sally, também da quinta geração em San Francisco, eram apenas médios, mas ambos
achavam que a filha mais velha, da sexta geração, deveria ter nascido linda, desafiando todas
as leis de genética. Afinal, a filha mais moça, Nanette, mostrava sinais positivos de beleza, e só
tinha quatorze anos.

Candice tinha dentes perfeitos, afinal, depois de anos de ortodontia, e cabelos lustrosos.
Possuía os músculos dos braços e das pernas bem desenvolvidos, por ter praticado todos os
esportes certos, mas infelizmente tinha um corpo de menino; diplomara-se da escola da Srta.
Hamlin e Finch, suas pérolas eram as melhores que Gump podia apresentar — mas faltava-lhe
inteiramente aquela certa qualidade possuída até por moças daquele lugar de segunda classe
chamado Los Angeles, aquela pitada infelizmente necessária de algo sexual que atraía os
homens.

James Alexander III era imensamente rico e ia ficando cada vez mais rico. Embora Sally
Alexander não mandasse lavar as roupas a seco em Paris, de avião, como fazia a Sra. W. W.
Crocker, nem tivesse uma cozinheira chinesa de 37 anos de casa, como a Sra. Cameron, eles
moravam, quando não estavam viajando ou de férias, em Ramble, uma mansão de 35
cômodos no aristocrático Hillsborough, a uns 30km ao sul da cidade. Ramble, herdada dos pais
de Sally Alexander, tinha terraços e jardins convencionais quase tão imponentes quanto os da
Sra. Charles Blyth em Strawberry Hill, mas infelizmente, infelizmente para Candice,
Hillsborough estava cheia de casas igualmente vastas, habitadas por pais igualmente ricos e
muitas outras moças — menos feias, tão infinitamente e incontestavelmente menos feias do
que Candice, moças que tinham todas de se casar a fim de produzir a sétima geração de San
Francisco.

Se James Alexander III algum dia reconheceu um mercado comprador, foi naquelas muitas
noites em que ele e Sally jantaram com Candice, de 25 anos, e esperaram, com tanta
ansiedade quanto ela, que o telefone tocasse. Quando tocava, como estava começando a
acontecer, cada vez mais freqüentemente, era sempre para Nanette.

Cutter estava com 31 anos. Nunca mais sentira as emoções que experimentara por Lily, e
olhava para aquele período de sua vida como uma forma definida de loucura. Mas ele fizera
uma promessa a Lily. Ele lhe escrevera o único tipo de carta que, tinha certeza, garantiria o
silêncio dela. Desde então ele lhe escrevera outras cartas, cuidadosamente não-
comprometedoras, não tantas que provocassem comentários em Nova York, muito, muito
menos do que as que ela lhe escrevia, mas escritas astuciosamente, para impedir que ela
fizesse alguma coisa imprudente, pois Lily estava mais resolvida do que nunca de que

124

um dia ficariam juntos. Ela ainda não completara 31 anos e tinha toda a vida pela frente.
Zachary arranjara uma amante, escreveu ela — todo mundo sabia, uma moça que trabalhava
em Style, chamada Nina Stern — de modo que não havia possibilidade de ele ficar com os
filhos. Lily se tornava impaciente. Detestava as cartas ambíguas de Cutter e achava que ele
estava sendo absurdamente cauteloso. Cutter sentia que ela se zangava mais a cada vez que
lhe escrevia, perguntando o que ele estava esperando para ir buscá-la.

Cutter não tinha qualquer intenção de se casar com Lily, morar com ela e os filhos e subir
passo a passo como qualquer homem comum. Conhecia todo o seu valor e pretendia
capitalizá-lo. Tinha resolvido casar com a moça que o ajudasse mais. Mais precisamente,
pretendia casar-se com Candice Alexander, filha do seu patrão. Queria as comissões gordas e
fáceis que lhe caberiam como marido dela.

Ela era bem sem graça, de fato, mas não tão declaradamente feia que as pessoas pudessem
dizer, sem pensar duas vezes, que ele só se casara com ela pelo dinheiro. Ela parecia ter um
bom gênio, montava a cavalo e esquiava, jogava tênis e bridge, tudo com igual competência, e
daria uma excelente esposa. Candice seria sempre inteiramente agradecida a ele. O casamento
seria apenas mais um exemplo de um homem bonitão se juntando a uma mulher menos
atraente, um arranjo aceito durante séculos. Afinal, Candice tinha um belo sorriso e, a julgar
pela mãe, ele achava que ela não iria engordar.

O seu único problema era Lily. O que ela não seria capaz de dizer se ouvisse falar de um
noivado dele com Candice Alexander, um acontecimento de sociedade que não poderia ser
guardado em segredo? Verdade, seu caso com Lily agora já era coisa do passado, por mais
desagradável que tivesse sido, e não dava a ela poder sobre ele. Mas aquele menino? Justin.
Seu filho. Até mesmo James Alexander III pensaria duas vezes se Lily,, com raiva, resolvesse lhe
contar sobre Justin. Desde que Cutter soubera do nascimento do menino, tentara não pensar
nele. Nunca pusera os olhos na criança que Lily, a idiota, resolvera ter, por arrogância, vaidade
e egoísmo. A existência de Justin era responsabilidade exclusiva dela, por mais que Lily
imaginasse que o menino fosse uma arma contra Cutter.

Discretamente, Cutter começou a cortejar Candice Alexander; tão discretamente que poucas
vezes a via sem a presença dos amigos e da família dela, mas ele lhe demonstrava uma
simpatia especial que era justo o suficiente para ser notada, mas não a ponto de se tornar
notícia. Ele sabia que Candice o amava, com um amor tímido e humilde, que a deixava
inteiramente à sua mercê. Sua única chance, calculou, era apresentar a Lily um fait accompli,
fugir com Candice para Vegas, num fim de semana, e depois deixar acontecer o que
acontecesse. A essa altura ele seria genro de James Alexander e herdeiro legitimário,
125 e ninguém poderia impedi-lo. A única arma sólida de Lily era aquela carta. Mesmo que ela
fosse louca e a usasse, aquelas eram as palavras de um rapaz que não era mais ele... Não
existia nenhuma outra prova real.

Os Alexanders esquiavam em Squaw Valley e em Klosters, na Suíça, mas recentemente tinham


comprado uma casinha em Aspen. Eram todos bastante peritos para percorrerem as campinas
íngremes e abertas e as trilhas das florestas sem dificuldade. James e Sally Alexander
preferiam só esquiar de tarde, com o sol, mas Cutter e Candice eram sempre os primeiros a
subir a montanha, sem fazer caso do ar gelado e da possibilidade de se queimarem com o frio
nas grandes altitudes, para serem os primeiros a descer a montanha. Candice, de roupa de
esqui e óculos, era tão bonita quanto qualquer outra, pensou Cutter, e esquiava melhor do
que muitas. Ela o seguia aonde quer que ele fosse, e Cutter nunca tinha de se preocupar com a
capacidade dela diminuir a velocidade nas trilhas estreitas que cortavam as florestas cerradas
aqui e ali na montanha.

O amor ao esqui era, talvez, a emoção mais profunda de Cutter — depois do ódio pelo irmão.
Era o único esporte que o fazia sentir-se inteiramente livre, sem peias, durante alguns minutos
de descida morro abaixo, de tudo o que as pessoas pensassem dele, de seu passado, de seu
futuro; dele mesmo, especialmente dele mesmo, vivendo inteiramente no• presente limpo e
límpido.

Um dia, de manhã cedo, esquiando pela crosta gelada de neve recém-caída, se comprazendo
com a superfície intocada diante de si, de repente ele se deu conta de que não estava ouvindo
os esquis de Candice vindo atrás, como de costume. Ele parou e se virou. Ela não estava à
vista. Com um palavrão, Cutter começou a subir pela trilha, tão estreita que ele mal tinha
espaço para subir de lado pela montanha. Ele chamou-a pelo nome, mas não teve resposta.
Não apareceram outros esquiadores. Depois de alguns minutos, avistou o corpo do lado da
trilha, pendurado, imóvel, dos galhos de dois pinheiros juntos, um pé levantado do chão, como
se tivesse sido jogada de cima. Ela devia ter batido numa borda e feito uma roda, pensou ele,
usando toda a sua habilidade para subir pela floresta cerrada. Bateu numa borda e rodopiou.
Ele estremeceu com aquela idéia. Qualquer coisa podia se fraturar, num vôo louco em
rodopio. Por fim, ele a alcançou. Cutter já vira muitos acidentes em seus vários anos nas
encostas e adivinhou, pela posição pouco natural, que havia uma possibilidade de Candice ter
quebrado a espinha. Ele tirou uma das luvas dela para sentir o pulso. Ela vivia, e era só disso
que ele tinha certeza, pois estava desmaiada e ele não devia tentar movê-la. Cutter a deixou
ali, de rosto para baixo na cama de galhos cheios de gelo, enquanto corria trilha abaixo para
alertar a patrulha de esqui.

126

Não era culpa dele, claro. Ninguém poderia culpá-lo. As pessoas estavam sempre se
machucando nos esquis. Todo mundo sabia que Candice esquiava bem. Uma manhã fria, uma
trilha estreita e íngreme. Não, ninguém, nem mesmo os pais dela, poderiam culpá-lo,
razoavelmente. No entanto, ele poderia querer assumir a culpa. Podia dizer que se culpava,
que a culpa era dele, que devia saber que a neve estava gelada demais, que era arriscado
demais. Ele podia tê-la impedido, devia têla impedido. É, ele podia assumir a culpa. E podia se
casar com ela, se ela vivesse. Poderia ter tudo o que Candice Alexander lhe daria e nem
mesmo Lily poderia reprová-lo, se ele se casasse com uma moça aleijada, aleijada por culpa
dele.

Nina Stern levara mais tempo do que imaginaria possível para seduzir Zachary. Depois do parto
difícil de Justin, o terceiro e último filho dos Ambervilles, Lily passara meses muito doente.
Maxi, vendo que era o membro da família que recebia menos atenções, passara a se esmerar
em travessuras. Nem mesmo Mary Poppins teria dado jeito nela, era o que Zachary dizia
consigo, gemendo, o seu coração se derretendo diante das lágrimas sinceramente
arrependidas da menina, quando ela era pilhada e devia ser castigada. Graças a Deus que
tinham inventado a televisão. Privá-la de seus programas favoritos era o único castigo que ele
podia lhe dar. Ele nunca teria tido coragem de bater em Maxi, ou trancá-la no quarto. Como é
que as pessoas aplicavam disciplina aos filhos antes da televisão?

Zachary tinha estado preocupado demais para dar atenção a Nina Stern nas reuniões do
pessoal das quartas-feiras, preso como estava com os problemas do escritório e os de casa,
pois foi um período em que todas as suas revistas tiveram de se armar ou então sair de cena.
Mas, com o tempo, como ela sempre soubera que aconteceria, o momento clássico se
apresentou: o convite inesperado para jantar, feito com naturalidade quando só restam duas
pessoas num escritório, depois de um dia difícil, comprido mas satisfatório. Nina não passara a
vida praticando para aquele momento para deixar passar a oportunidade, e na manhã
seguinte, quando Zachary acordou na cama dela, afinal ele viu por que os outros homens
enganavam as mulheres, viu com detalhes arrasadoramente precisos e novos, e soube que
nada poderia impedi-lo de estar com ela.

Durante os primeiros meses do seu caso, ele estava por demais obcecado com Nina para
sentir-se culpado quanto a Lily e os filhos. Mas, um belo dia, ele se deu conta de que nunca
poderia pedir o divórcio a Lily, não podia mesmo fazer isso com aquela moça preciosa, valente
e talentosa que ele dominara quando ela ainda era adolescente, a garota que abandonou seu
futuro certo e maravilhoso de prima ballerina por ele, que não conhecia outra vida senão a
que ele a levara a viver,

127 que lhe dera seus filhos; Lily, que era uma mãe tão maravilhosa para Toby e o pequenino
Justin, e até tinha paciência com Maxi. Lily Amberville se tornara uma rainha em Nova York e
ele não podia tirar-lhe essa posição. Uma das conseqüências da doença de Lily fora que eles
quase nunca faziam amor, não porque ela temesse engravidar de novo, mas porque o
nascimento de Justin parecia ter provocado nela uma profunda modificação psíquica. Mais um
motivo por que ele nunca poderia abandoná-la.

Com pesar, ele explicou tudo isso a Nina, sabendo que ela não poderia querer continuar com
um homem que não lhe poderia oferecer futuro algum.

— Então, quer dizer que a sua idéia do que eu penso como futuro é você se divorciar e se casar
comigo? — perguntou ela, depois de ouvi-lo lutar para explicar sua posição.

— Bem, ah, sim. Sei o que quer dizer, eu acho. Quero dizer, não sei o que quer dizer! Não era
isso mais ou menos o que uma moça como você havia de esperar... quero dizer, não é?
Pombas, Nina, você não quer... não quereria... você é uma moça ”direita”... seus pais...
qualquer outra garota... droga, acho que presumi demais. Pensei, bem, senti, ora, merda.

— Não é que eu não te ame — disse ela, esforçando-se para não rir, mas não conseguindo.

— Se você me ama — disse ele, agarrando-a, assombrado diante da imensidão de seu alívio —
por que não quer se casar comigo?

— Sou um caso esquisito. Não gosto do casamento, é óbvio demais, todo mundo faz e depois
se torna uma coisa que você tem de fazer todos os dias, como escovar os dentes. Gosto é do
que nós fazemos: fazemos amor e nos vemos em reuniões no escritório, sabemos que estamos
pensando um no outro e fugindo e saindo para os fins de semana, fazendo mais amor quando
todo mundo pensa que estamos em outro lugar, e todo esse negócio maravilhoso e
sentimental da clandestinidade. Gosto de conversar com você, mas não necessariamente
todas as noites.

— Você tem certeza de que é judia? — Você está parecendo minha mãe. Acho bom me amar
de novo, depressa, para me fazer esquecer desse comentário — disse ela, ameaçadora,
chorando de rir diante do choque dele.

Nina Stern gostava de sua liberdade tanto quanto gostava de seu poder cada vez maior em
Style, um poder que, ela sabia, todos tinham de reconhecer que conseguira por seu mérito, e
não por estar dormindo com o patrão. Ela adorava trabalhar muito num serviço que fazia com
brilhantismo, gostava de poder trabalhar até tarde sem se preocupar com uma família e era
firme quando se tratava de não ter de agradar a ninguém a não ser ela mesma. Cada dia ela
recebia mais convites

128

do que três pessoas poderiam aceitar; ela era uma das seis mulheres solteiras em Nova York
que haviam conseguido ser tão desejáveis numa festa quanto um solteiro extremamente
atraente. Homens de todas as idades a disputavam quando ela esteve na casa dos vinte, e
agora, na casa dos trinta, ela era ainda mais misteriosamente e definitivamente desejável do
que fora quando mais jovem, e igualmente namoradeira. Sua fidelidade para com Zachary só
tornava sua maneira atraente mais interessante ainda, já que não levava a nada e criava um
desafio a que poucos homens resistiam; o que a cercava com uma aura de uma mulher amada,
bem-sucedida, profundamente feliz, com uma vida privada positivamente privada. Quando a
mãe reclamava sobre sua falta de marido e filhos, Nina se limitava a responder que levava uma
vida mais interessante do que qualquer outra mulher que conhecesse, palavras que a Sra.
Stern considerava frívolas e inteiramente fora de propósito, mas que satisfaziam Nina
completamente.

Cutter e Candice Alexander se casaram logo que foi possível, depois da certeza que ela estava
fora de perigo. O grau de sua recuperação ainda era uma dúvida, mas depois de dois anos de
uma intensa fisioterapia, ela estava quase recuperada do acidente. As costas sempre seriam
um problema e as dores freqüentes, mas não estavam fraturadas. Ela nunca mais poderia
participar de esportes movimentados, mas andava normalmente.
Nesses dois anos, Cutter não só conquistara o dom da gratidão quase incrédula dos sogros,
como o amor de Candice por ele se tornara quase uma idolatria. Era uma emoção tão
constrangedoramente forte, ela estava tão inteiramente sob o domínio dele, que ela
procurava esconder seus sentimentos, para não a acharem ridícula. Com o correr dos anos,
esse amor por Cutter passou a ser uma obsessão que assumiu a forma tirânica e febril do
ciúme, pois nunca, em seu íntimo, ela pôde se convencer de que Cutter a amasse de verdade.
Seria uma prova de amor, o fato de ele se ter casado com ela, quando ela poderia estar
aleijada para o resto da vida? Ou seria apenas um sentimento de culpa? Ele jurara que sim,
que ele se culpava pelo acidente dela, mas a culpa só, por maior que fosse, nunca o teria
levado a se casar com ela sem amor. Ele jurara isso dúzias de vezes, até que um dia ela viu que
devia aparentar que deixara de duvidar dele, pois a paciência de Cutter estava se esgotando.

Ela se dominou, com uma força que ninguém suspeitava nela, e para os outros, até para
Cutter, parecia igual a muitas outras jovens casadas que eram suas amigas, mulheres que
agiam como se confiassem nos maridos. Mas nem por meia hora de um único dia Candice se
viu livre de uma insegurança de toda a vida, baseada sobre aqueles

129

muitos anos em que os homens não faziam caso dela. O ciúme que ela expulsou severamente
passou a possuir seu espírito com maior ferocidade ainda, por estar reprimido. Cutter passou a
ser o único sentido da vida de Candice, e quando participavam da vida social de San Francisco,
em que ela estava presa por seu nascimento e situação, os seus olhos estavam sempre,
secretamente, procurando por ele, verificando se Cutter conversava com alguma mulher
bonita. As palavras de ciúmes que ela não se permitia proferir viraram um vidro enrugado,
como um filtro amarelo sujo, manchado com uma sujeira indizível, através do qual ela via o
seu mundo privilegiado como um lugar em que só existia o sofrimento.

Candice Amberville passou a começar a beber cada vez mais cedo do dia, para que, quando
chegasse a hora de ter de se vestir para uma festa, ou para a ópera, se sentisse com forças de
se olhar no espelho sem se comparar com todas as outras mulheres da cidade. Mas isso não a
ajudou. Gastava uma fortuna em roupas e passou a ser uma das mulheres mais elegantes da
cidade. Mas não adiantou. Ia ao cabeleireiro dia sim, dia não, para seus cabelos bons estarem
sempre impecáveis. Também não adiantou. Pagava à cozinheira o dobro do que os outros
pagavam, e dava os jantares melhores e mais bem organizados do grupo deles. Mas sem
resultado. Ela estava doente, de um modo que nada poderia curar. Quando Cutter se deitava
entre suas pernas, mesmo quando ele latejava dentro dela, pensava nele fazendo o mesmo
com outra mulher, de modo que, quando chegava ao seu orgasmo difícil, nem mesmo esse
alívio momentâneo adiantava. O ciúme estava matando Candice Amberville, e mesmo que
Cutter lhe fosse fiel, isso não teria adiantado.

Ela estava tão contaminada pelo ciúme que se sentia como se tivesse alguma horrível doença
de pele, exsudando de todos os poros — para si mesma, Candice era impura, maculada, cheia
de chagas e escaras, cada qual dilacerada vezes e mais vezes até que o sangue e o pus
jorravam, invisíveis, nojentos.
Num esforço frenético para encher a vida com algo mais que seus pensamentos, ela comprou
um casal de cães de caça de pêlo dourado. Eles lhe deram certo alívio, uma folga breve, pois
nos ouvidos dos cães ela podia despejar as suas suspeitas, suas palavras de ódio pelas
companheiras que se sentavam ao lado de Cutter ao jantar e riam com ele, que o convidavam
para ser seu par nas duplas mistas ou passar o dia ajudando no barco delas numa das muitas
regatas do iate clube. Sem manifestar qualquer sinal de seu tormento, ela o animava a ir, a
praticar todos os esportes de que não podia participar. Fingia que gostava das férias para
esquiar, dizendo que, quanto a ela, apreciava a mudança, gostava de caminhar na neve e de
ter tempo para ler enquanto ele esquiava.

Se dependesse dela, Cutter só jogaria pólo, pois ali, nas arquibancadas, ela podia ter certeza de
que, durante horas a fio, ele não pertencia a mais ninguém. Mas sempre que ele não estava
jogando pólo, a imaginação dela ficava inventando cenas: Cutter, ainda pingando com o suor
limpo de uma partida de tênis, arranjando um quarto vazio no clube, tirando as roupas e
avançando, já ereto, na sua parceira mais do que pronta; Cutter na cabine de um iole a vela,
numa calmaria, deitado nu num beliche, o pênis comprido e grosso já meio intumescido, uma
mulher de joelhos diante dele, seguindo suas instruções breves e precisas; Cutter voltando
mais cedo da montanha e indo, sem ser observado, para o quarto de qualquer das mulheres
que esquiavam com ele, vendo-a despir-se enquanto ele explicava exatamente o que ela devia
fazer com ele, exatamente o que pretendia fazer com ela.

Candice aumentou os seus canis, comprou mais cães de caça de pêlo dourado campeões e
começou uma criação. Ela agora estava bebendo mais, e tinha garrafas nos canis, de modo que
tinha um lugar onde ir, um lugar privado onde podia beber sem ser observada e contar aos
cães todas as coisas que nunca poderia contar às outras pessoas, porque iam pensar que
estava maluca. Para Candice, não podia haver uma aceitação de sua situação, nem uma
resignação, nenhuma trégua. O seu sentido de valor árido e torturado residia inteiramente em
aparentar não saber, em viver como se tudo estivesse bem em seu casamento, em se
apresentar uma pessoa perfeitamente bem arrumada, magnificamente bem vestida, sorrindo
confiante ao mundo em que, ela estava convencida, todos sabiam que o seu marido era infiel.

Na verdade, Candice Amberville estava enganada. As muitas aventuras de Cutter, embora


suspeitadas por alguns, não eram do conhecimento geral. Ele escolhera bem as suas parceiras:
eram exiladas, como ele, todas querendo, por interesse próprio, não deixar sinais que
pudessem ser interpretados pelos maridos: mulheres que faziam parte de um submundo que
existe em todas as cidades.

O pai de Candice, que aumentava as responsabilidades de Cutter todos os anos, nunca teria
acreditado que a mulher de um dos outros sócios de Alexander and Alexander se encontrava
com Cutter duas vezes por semana num quarto de hotel. A mãe de Candice teria desmentido
qualquer pessoa que contasse que o genro dela tinha outras mulheres, dezenas de mulheres.
Só um membro da família Alexander conhecia a verdade sobre Cutter: Nanette, que tinha
quinze anos quando Cutter e Candice se casaram e agora estava com 24. Nanette, rosada, com
beicinho, que se criara sem escrúpulos, amoral e pronta para tudo; Nanette, que usava outras
mulheres e cocaína com a mesma sensação de curiosidade desafiadora. Por que não, já que
aquilo existia? A vida era tão maçante, San Francisco tão provinciana, e o casamento
— pois ela era casada — tão cacete e previsível que valia a pena fazer uma boa tentativa para
qualquer coisa.

Todos os submundos, mesmo os mais clandestinos, têm seus meios de comunicação secreta, e
o da promiscuidade não é exceção. Com o tempo, Nanette escutou tantas insinuações a
respeito das atividades de Cutter que passou a ter uma nova concepção daquele homem
louro, tão invencivelmente frio e tão sombriamente atento, aquele homem que sempre agira
com ela como se não passasse da irmãzinha de Candice.

Como é que ele conseguira convencê-la de que não tinha percebido a sua sexualidade, tão
visível como se ela tivesse uma marca na testa, para o tipo de homem que ela agora sabia ser
ele? Ele não a achava atraente?, perguntou-se ela, muito ressentida. E o que seria verdade, de
tudo o que ela ouvira falar dele? Um homem que não precisava de se excitar, um homem que
estava sempre preparado, um homem que deixava todas as mulheres satisfeitas, mas com
uma satisfação que ansiava por mais — um pirata sexual. Cutter poderia ser tudo isso? Será
que a peste da irmã, tão calma e controlada, tão superior, esnobe e reprovadora, tão ocupada
com os cães campeões e seus famosos jantares — será que Candice era tão condescendente
porque se satisfazia com um homem assim?, perguntou-se Nanette, com uma irritação
impaciente.

Cutter resistiu a Nanette o quanto pôde. Ela estava perto de casa demais, disse ele consigo,
recusando-se a admitir que isso fazia parte da atração dela. Havia anos que ele a desejava,
desde o momento em que ela se transformou de mais uma adolescente bonitinha numa
mulher voluptuosa, que recendia a sensualidade, cujo animalismo era tão lascivo que sempre
que a via nas reuniões de família se excitava, contra sua vontade e seu critério, não querendo
mais nada no mundo senão possuí-la imediatamente, possuí-la sem um sorriso e sem uma
palavra, possuí-la como ele sabia que ela queria ser possuída, com brutalidade e violência.
Quantas noites, na casa de esqui em Aspen, ele penetrara o corpo da mulher, nada tentador,
que cedia e o procurava, enquanto pensava na suculenta Nanette, sombria, viva, cujo quarto
ficava a apenas duas portas do seu?

Eles se perseguiam como criaturas numa selva, cada qual o caçador, cada qual a presa, até que
chegou o dia em que a única pergunta que restava era quando? Depressa, tinha de ser
depressa. E depois que se tinham espojado um no outro, a única pergunta era, quando de
novo? Nanette era incansável, com a perícia de uma cortesã que ele nunca conhecera em
mulher alguma. Era voraz como uma loba e duas vezes mais perversa. Astuciosamente, ela o
apresentou à única experiência que Cutter ainda não tinha tido: o êxtase atroador de possuir
duas mulheres ao mesmo tempo; Nanette, a sábia, que entendera que era esse o único meio
de prender Cutter enquanto ela quisesse; Nanette

que não se importava de partilhá-lo com uma mulher que ela já possuíra; Nanette, que sentia
uma emoção especial e poderosa em mostrar a ele exatamente o que era uma mulher possuir
outra enquanto ele olhava, olhava e esperava até ela permitir que ele a possuísse, possuísse a
outra, possuísse ambas. Não importava.
Mas um segredo de três pessoas só está seguro quando duas estão mortas. E esse segredo era
bom demais para se limitar aos meios secretos, esse segredo era suculento demais para não
ser saboreado e apreciado por pessoas para quem a devassidão não era mais que uma palavra,
uma fantasia que elas nunca ousariam praticar. Tornou-se uma suspeita, tornou-se quase —
mas não propriamente — sabido, e então, como as palavras escritas em tinta invisível se
tornam legíveis com a aplicação do fogo, chegou, como tinha de chegar, inevitavelmente, aos
ouvidos de Candice.

Quase desde o princípio de seu casamento, ela suportara as cenas de Cutter com outra
mulher, mas a mulher nunca tinha uma cara. Durante anos, todas as suas forças e energia
emocional tinham-se dirigido para não tomar conhecimento; seu único alívio era o álcool, os
seus cães e seu orgulho. Agora o seu orgulho não podia mais sustentá-la, pois agora aquela
mulher sem cara tinha uma cara, a de Nanette. A própria Nanette lhe contara, sem demonstrar
o quanto estava gostando da pseudoconfissão. O aspecto superficial de Candice se tornara tão
perfeito que Nanette não pôde resistir — nem tentou resistir — a chocar Candice para fazê-la
sair daquele contentamento. Venenosamente, ela deixou para trás uma foto dela e Cutter, o
rosto dele distorcido pelo orgasmo.

Ela não agüentava mais, Candice percebeu. Não podia viver com aquilo. Não havia nenhum
futuro medonho possível para uma vida que continha aquela certeza. Ela nunca havia de
deixar de ver aquela foto. Aquilo nunca se tornaria uma recordação. Viveria diante de seus
olhos, a mais pura agonia. O inferno entrara no quarto e eliminara qualquer dúvida, e sem a
dúvida não havia esperança.

Candice se vestiu com um costume lindo, penteou os cabelos lustrosos, fez a maquilagem, foi a
um hotel do outro lado da Union Square, tomou um quarto no 16? andar, bebeu meia garrafa
de uísque e saltou da janela para o beco vazio atrás do hotel.

Teria sido considerado um caso de loucura temporária, de depressão suicida, tão bem
disfarçada que nem a mãe dela suspeitara de sua existência. Mas enquanto ela estava
tomando o álcool que precisava para ser mais fácil abrir a janela, Candice pensou nos seus cães
e rabiscou uma carta, dando instruções para os cuidados com eles, uma carta desvairada, em
que o desejo de castigar a irmã venceu o seu desejo de manter até ao fim que não sabia que
tipo de marido era Cutter, uma carta em que acusava Nanette.

133

O detetive que encontrou a carta entregou-a a James Alexander III. Ele não teve opção senão
acreditar que Candice se enganara quanto a Nanette, pois era a única filha que lhe restava.
Toda a sua vingança voltou-se contra Cutter, agora já vice-presidente antigo de sua firma. A
fim de evitar um futuro escândalo daquilo que ainda podia ser tratado como uma tragédia, a
única coisa que James Alexander III pôde fazer foi expulsar Cutter da firma e jurar que ele
nunca mais seria contratado por qualquer outra das casas bancárias de San Francisco, sobre as
quais tinha grande influência.

James Alexander III nunca soube, mas essa vingança foi tão eficaz quanto qualquer outra que
tivesse consumado, a não ser com uma arma, pois ele tirou de Cutter aquela futura
presidência certa da Alexander and Alexander, para a qual ele vinha avançando
propositadamente de tantas maneiras, desde o dia em que conhecera Candice.

Jumbo Booker nunca desistira da glória refletida que desfrutava por ser o melhor amigo de
Cutter. Encerrado como Jumbo estava nas teias de um casamento cômodo, a vida pecaminosa
e empolgante que ele imaginava que Cutter levava —- pois Cutter nunca se gabava — lhe dava
a ilusão de participar, sem os problemas que a participação real teria apresentado. Agora,
estando Cutter tão abruptamente e inexplicavelmente desempregado, Jumbo se esforçou para
arranjar alguma coisa para o amigo, gozando esse sinal de que a sua própria posição, embora
menos glamourosa, ainda era superior.

Jumbo tinha ligações em matéria de angariar fundos na administração Nixon e conseguiu para
Cutter uma nomeação na Bélgica, dentro da complicada burocracia da Agência para o
Desenvolvimento Internacional. Bruxelas, hospitaleira se bem que singularmente tristonha na
sua névoa quase perpétua, se coadunou com o estado de espírito de Cutter, e ele em breve
estava metido na complicada vida diplomática da capital movimentada e bem alimentada.
Depois, Jumbo lhe conseguiu a oportunidade de trabalhar para um banco de investimento em
Londres, e ali, depois de alguns anos, o fiel Jumbo conseguiu uma oportunidade dele voltar
para Nova York, a fim de trabalhar nos escritórios de Booker, Smity and Jameston. Era o ano de
1981 e Cutter achou que já estava na hora de voltar para casa. Nem a boa recepção por parte
das esposas da OTAN nem a simpatia dos ingleses chegavam a compensar as vantagens que
ele ainda esperava como um Amberville em sua terra natal.

Em 1969, 12 anos antes de Cutter voltar para Manhattan, Nina Stern tinha completado 35
anos. Seu caso com Zachary tinha sido tão discreto que se tornou parte do mosaico da vida em
Manhattan, considerado natural pelos que sabiam e sequer suspeitado por todos os ou-

134

tros. Quaisquer que fossem as ondas de mexericos que certamente deviam ter existido dez
anos antes, tinham-se tornado ondinhas, enquanto Lily e Zachary continuavam casados, sem
qualquer drama. Nina e Zachary eram como uma instituiçãozinha pouco conhecida, alguma
obscura sociedade histórica localizada numa rua secundária que não tinha funções de angariar
fundos, nem estudiosos curiosos. Só os dois conheciam os tesouros ocultos por trás da fachada
que tinham construído e, no que dizia respeito a Zachary, ele não queria maior felicidade.

No entanto, Nina Stern, aos 35 anos, não era mais o mesmo espírito livre que fora Nina Stern
aos 25. Era igualmente amada, cada dia mais bem-sucedida, era certo que fosse a sucessora de
Zelda como redatora-chefe de Style, mas o seu horror por tudo que era doméstico não
resistira aos ataques de sua herança hormonal. Ela chegara à idade em que a mulher solteira
enfrenta aquela percepção clássica e inevitável: agora ou nunca. Na véspera do seu 35?
aniversário, Nina fizera um inventário, perguntando-se onde estaria dentro de dez anos, e a
resposta não lhe agradara: exatamente onde estava agora, ainda fazendo sucesso, ainda com
Zachary, mas com 45 anos de idade. Os cinqüenta se aproximando rapidamente. Vozes
atávicas soaram em sua mente. Agora ou nunca. Ela se reconciliaria com o nunca? Teria de
mudar de idéia sobre o que achava que queria só porque o tempo continuava a correr? Nina
Stern se examinou detidamente e com honestidade. Sem ilusões, ela se deu conta de que,
infelizmente, também era igualzinha às outras mulheres. Queria o agora — não podia se
agarrar ao nunca. Mesmo que o casamento e filhos afinal não a fizessem feliz, ela teria de
descobrir por si. Ficou decepcionada com essa prova de seu caráter humano comum, mas ao
mesmo tempo um pouco aliviada... talvez, quem sabe, seria uma experiência interessante.

Ela rompeu com Zachary depressa, com o tato e delicadeza que conseguiu demonstrar, e em
breve se casou com o mais aceitável dos muitos homens que continuavam a persegui-la
através dos anos.

Só mesmo sua filha Nina, disse a Sra. Stern aos amigos, triunfante, poderia ter tido gêmeos e
conservado o emprego no primeiro ano do casamento. Só mesmo Nina, pensou Zachary,
poderia ter rompido com tanta decência e sinceridade que ele conseguiu ir ao casamento e —
quase — se sentir feliz por ela. Só Nina, pensou Nina, podia continuar a gostar tanto de
Zachary e no entanto dar ao novo marido o amor exclusivo — quase exclusivo — que ele
merecia. Afinal, era possível aproveitar tudo na vida... era tudo uma questão do senso de
oportunidade.

Lily Amberville viu uma oportunidade e não deixou de aproveitá-la. O convite para o
casamento lhe teria dito que Zachary ficara sem a amante, mesmo se ela não tivesse visto a
solidão pungente nos olhos

135

dele. Desde o casamento de Cutter, ela vinha vivendo num vazio dourado, enfeitado e
extravagante. Agora Zachary estava tão só quanto ela, e aos poucos os dois se juntaram e
fizeram as pazes, uma paz tácita — já que nunca houvera um rompimento formal para reparar
— uma paz que foi se tornando sólida de ano em ano, uma paz de um contentamento seco,
resignado mas de certo modo compensador. Cada qual tivera o seu grande romance Agora
tinham um ao outro e aos filhos, e era melhor, muito melhor, do que estar só.

11

Num dia de primavera, Zachary Amberville e Nina Stern Heller almoçaram juntos,
encontrando-se sem constrangimento num dos restaurantes que freqüentavam durante os
anos de seu caso de amor, um lugar pouco elegante, onde não era provável que fossem vistos
por alguém conhecido. Nos anos em que passaram juntos, tinham descoberto dezenas desses
lugares em Manhattan, lugares nos bairros, confortáveis e simpáticos, com uma cozinha bem
razoável. Agora não havia mais motivo para evitar chamar a atenção, nem para abandonar os
restaurantes de que ambos gostavam. Se aparecia um elemento de saudades, alguns
momentos de um sofrimento recordado, ou de alegrias lembradas, nesses almoços da
redatora-chefe de Style e o proprietário das Edições Amberville... isso só acrescentava um
sabor especial, agridoce, à ocasião.

— Você há de concordar — disse Nina, escolhendo as palavras com cuidado — que Maxi tem
possibilidade.
— Bonnie e Clyde também tinham. — Ora, Zachary, não seja tão duro com ela. Acho que ela
precisa ser motivada, focalizada em alguma coisa para utilizar tudo o que tem. Afinal, quando
ela se interessa por uma matéria na escola, tira sempre A...

— E quando não se interessa, não se dá ao trabalho de estudar, o que resulta numa média D-
mais. Que tipo de universidade vai aceita-la com essa ficha? — disse Zachary, com pesar.

Nina pensou em Maxi e suspirou. Uma mente muito curiosa, difícil, profunda e
fundamentalmente adorável, e no entanto sempre metida em alguma encrenca, conseguindo,
mesmo nessa sociedade permissiva, ser expulsa de uma série de escolas e acampamentos de
verão; não por tomar drogas, furto ou cola, mas por organizar grupos de colegas para atos de
malandragem inspirada e eficiente.

136

— Ela é sempre eleita presidente da turma — lembrou Nina, animada.

— Em geral, pouco antes de ser expulsa. O único futuro que prevejo para ela é ser eleita Miss
Simpatia, mas ela não é do tipo que permitem participar do concurso para Miss América.

— Se ao menos... — arriscou Nina, mas parou. - É. Ambos sabiam que não queriam falar mais
uma vez sobre as dificuldades existentes entre Maxi e Lily, que deixavam Zachary com a
responsabilidade quase total pela filha.

Desde o dia em que Lily soube da doença de olhos incurável de Toby, pareceu abandonar a
filha, de uma saúde inabalável, pelo menino que precisava dela. Maxi mal tinha feito três anos
quando isso aconteceu e, com o passar dos meses e anos, ela nunca deixou de ansiar de todo o
coração pelo afeto inacessível da mãe. Lily dedicava a Toby um amor possessivo, vigilante,
aflito, alerta enquanto ele estava desperto.

Depois do nascimento de Justin, o filho mais moço também se tornou objeto de uma paixão
excessiva. Consumida pelos dois filhos, que, como amantes, mudavam o colorido do mundo e
exigiam a infidelidade, Lily nem tentava mais arranjar tempo para ler para a menina intrusa, ou
deixar que ela brincasse com suas jóias.

Maxi tinha o pai só para ela, pensava Lily, se justificando, quando Maxi tentava chamar sua
atenção. Se ela ainda tivesse de lidar com Maxi, seria demais para sua sanidade mental. A
menina era indestrutível, ela se garantia, ao dar instruções breves, firmes e inúteis para uma
das inúmeras amas que contratava para a filha, e logo se voltava para os problemas de
aprendizagem de Toby e a saúde de Justin, pois ele fora prematuro e assustadoramente débil
por muito tempo depois do nascimento.

No entanto, nunca, durante sua infância, Maxi deixou de ansiar pelo amor de Lily e de precisar
dele. Ela lutava para ser notada pela mãe de todos os meios travessos que imaginava, mas só
conseguia ser castigada pelo pai, que não queria fazê-lo, como ela bem sabia.

Ela nunca tentou ser uma menina ”boazinha”, pois compreendia que quanto melhor ela fosse,
menor a probabilidade de ser notada. Mas desde que nascera, Maxi era dirigida pelas regras
da justiça. Uma coisa intangível chamada ”justiça” lhe era completa e indelevelmente preciosa,
e, quando ficou mais velha, procurou se convencer de que era ”justo” que Toby e Justin
preocupassem tanto a mãe. Ela se esforçou muito para acreditar nisso, mas jamais conseguiu
totalmente e, bem cedo na vida, deixou de esperar pelo amor de Lily. Nunca desistiu
inteiramente, mas suas esperanças foram diminuindo de ano em ano até ficarem enterradas
tão fundo que quase deixaram de doer.

138

Nina parou de comer o seu osso buco e virou-se para Zachary. — Há uma coisa que você nunca
tentou. Todos os anos manda Maxi para um lugar novo... acampamento de tênis, de teatro, de
sobrevivência na floresta, de equitação... e todos os anos ela lhe é devolvida via aérea. Por que
não lhe dá um desafio de verdade? Aposto que ela reagiria à altura.

— O que eu adoro em você, entre um bilhão de outras coisas, é o seu otimismo. — Zachary
sorriu para ela. Uma mulher linda, calorosa, maravilhosa. Que o marido dela se danasse.

— Um emprego, um emprego de verão — continuou Nina, entusiasmada. — Gastaria toda


aquela energia louca que tem numa coisa em que ela pudesse cravar os dentes, uma coisa que
lhe daria uma sensação de realização.

— E quem é que havia de contratá-la? — perguntou Zachary. Não podia imaginar que alguém
deliberadamente usasse Maxi em algum empreendimento comercial.

— Você, Zachary, você mesmo. — Ah, não! Eu não! A Maxi, não! — Você sabe perfeitamente
que sempre há empregos de verão para os garotos com pistolão, filhos dos grandes
anunciantes. É uma coisa aceita. Só no meu pessoal, tenho meia dúzia destinados para este
verão, a Srta. Vestidos Melhores, a Srta. Meia-Calça e mais quatro, e nenhuma tão esperta
quanto a Maxi.

— Pistolão é uma coisa, nepotismo é outra. — Isso é pretexto. Vou falar com o Pavka, e nós
dois arranjamos um lugar para ela. Pelo menos tente... você não tem nada a perder.

— Nada a perder? — perguntou Zachary, achando graça na loucura de bandeirante dela.

— O que é o pior que pode acontecer? — perguntou Nina. — Ela vai se enterrar — disse ele. —
Mas vale a pena tentar, não vale? — insistiu Nina, olhando para ele com um tipo de amor
especial nos olhos, que o marido nunca vira e nunca veria.

— Está me pedindo ou me dizendo? — Dizendo. — Então, vale a pena tentar.

As Edições Amberville agora incluíam mais três revistas de sucesso. Savoir Vivre, revista
dedicada à arte de viver bem pelo cultivo de papilas gustativas cada vez mais sofisticadas;
Sports Week, que logo se tornou indispensável a todo homem, mulher e criança do país que
um dia tinham usado um tênis, e Indoors, magnífica revista mensal para os masoquistas
abastados, que levava os seus compradores, por mais ricos que fossem, a achar que viviam
como porcos, e atraía um grande

139
número de fãs que olhavam para as fotos de cada número com lentes de aumento, para não
perderem os mínimos detalhes mortificantes das casas dos outros.

Pavka Mayer, que estava no cabeçalho de todas as publicações como diretor de arte, estava
sentado no seu gabinete, contemplando Nina com prazer. Nem mesmo sua idéia mais recente
o espantara. Achava que Nina era capaz de tudo.

— Trata-se de saber onde é que Maxi pode prejudicar menos — disse ele, pensativo.

— Style está eliminada, porque Style é moda e moda leva a fotógrafos e fotógrafos levam ao
sexo — disse Nina, meditando.

— Não podemos escondê-la na TV Week... aqueles bandidos lá não vão suportá-la. E podem
mandá-la entrevistar Warren Beatty, só de piada — acrescentou Pavka.

— Em Seven Days ela vai encontrar garotas demais. Não queremos encorajar as tendências de
líder da nossa queridinha, e todos os redatores de Sports Week são atletas, ex-atletas ou
pretensos atletas, e não acho que seja boa idéia expor Maxi a tantos homens mais velhos,
assim de repente.

— Você não vai me dizer que acha que ela ainda é virgem? — perguntou Pavka, escandalizado.

— Não sei. Fiz questão de nunca perguntar. Não é da minha conta, Pavka. Nada é impossível,
por mais improvável que seja — respondeu Nina.

— Então, resta apenas Savoir Vivre e Indoors — disse Pavka. — Resolva você.

— Não, resolva você. Não quero ser inteiramente responsável. — Nem eu — disse Pavka,
teimando. Apertou um botão e falou com a secretária. — Srta. Williams, preferia trabalhar em
Savoir Vivre ou em Indoors?

Houve uma pausa demorada e afinal a secretária explodiu: — Fiz alguma coisa errada, Sr.
Mayer? — Não, apenas responda à minha pergunta. Por favor, tenha a gentileza.

— Isso quer dizer que estou despedida? — perguntou ela, trêmula.

— Ah, meu Deus. Não, é só uma aposta. — O senhor ganhou ou perdeu? — Srta. Williams, eu
lhe imploro. Tire cara-ou-coroa, se não tiver opinião formada.

— Preferia trabalhar em Savoir Vivre, porque prefiro ver fotos de porco assado do que da sala
de jantar de outra pessoa.

— Obrigado, Srta. Williams. Bem respondido. — Ah, às ordens Sr. Mayer, sempre às ordens.

140

Pavka sorriu para Nina. — É minha culpa se as mulheres me adoram?

Maxi estava num paraíso. Durante todos os verões de sua vida ela fora obrigada a se exilar no
campo. Praias, lagos, árvores, ar puro e esportes em grupo, tudo isso era considerado essencial
para o seu bem estar. Se dependesse dela, um passeio rápido ao Central Park era mais do que
suficiente como contato com a natureza.

Nas raras ocasiões em que estivera em Nova York no verão, durante algumas horas ela vira
uma outra Manhattan, que era uma quente ilha tropical, em que tudo se movia num ritmo
diferente, uma cidade cuja cadência estava alterada, de algum modo e, na sua transformação,
se tornara lânguida, misteriosa, mais empolgante do que nunca. Embora os prédios comerciais
parecessem ter o mesmo número de pessoas entrando e saindo apressadamente, havia algo
diferente nas pessoas em si. Os trajes eram diferentes, e elas sorriam mais. Uma sensação de
férias, de uma festa prestes a acontecer, reinava no centro comercial, enquanto nos bairros
residenciais havia um vazio preguiçoso, pois as donas-de-casa bem vestidas, as crianças e
babás bem vestidas desapareciam tão completamente quanto se alguma peste rondasse as
ruas.

Agora essa Manhattan cativante, pulsante em sua metamorfose do verão, ia ser dela, a não ser
em alguns fins de semana quando ela e o pai se juntariam à família em Southampton. Ela ia
para o trabalho com pai e então — numa conspiração deliciosa — se afastava do lado dele sem
nem se despedir e tomava outro elevador para os escritórios de Savoir Vivre, onde era
conhecida como Maxi Adams. Tanto Pavka como Nina tinham insistido na necessidade de
esconder a identidade dela de todos, menos Carl Koch, o redator-chefe da revista. Se seus
colegas soubessem que ela era filha de Zachary Amberville, no mínimo iam pensar que ela era
uma garota rica mimada que estava brincando de trabalhar no negócio de revistas, e no
máximo iam desconfiar que ela era espiã, posta ali pela administração para ver o que eles
estavam fazendo e contar ao pai. Como Savoir Vivre era uma revista que só começara a ser
publicada há pouco mais de dois anos, ninguém que trabalhava lá conhecia Maxi. Resolveram
colocá-la no departamento de arte, onde poderia trabalhar em layouts.

— Ela deve fazer maravilhas com cola de borracha, fita gomada e uma régua — Nina garantira
a Pavka.

— Maxi e um pote de cola? Não vai durar dois dias — murmurou Pavka. — Mas é melhor do
que as cozinhas experimentais ou, que Deus nos livre, a seção de vinhos. Cola a gente pode
limpar. Cola a gente pode recolar.

141

Naquela primeira manhã de segunda-feira de julho, Maxi acordou cedo e começou a se


preparar para seu ingresso no mundo da importante responsabilidade corporativa. Estava
encantada com a idéia de um trabalho, um trabalho de gente grande. Tinha resolvido
acrescentar dois anos necessários à idade de Maxi Adam e dizer a todos que tinha dezenove
anos.

Percorreu o seu maior armário, procurando os jeans mais velhos, os mais manchados de tinta,
entre todos os jeans que possuía, os que mais denotavam um trabalho de verdade. Ela os
usara quando estava pintando cenários na penúltima escola e lhe parecia que tinham uma
aura artística, pois ela não ia trabalhar num departamento de arte? Vestiu também uma
camisa limpa, azul claro, mas igualmente surrada, de zuarte, que parecia dizer que ela nunca
passara um minuto improdutivo na vida, uma camisa que ela considerava sensata, prática e
adulta, acima de tudo adulta. Ela queria demais causar uma boa impressão. Maxi colocou um
cinto grosso, com prata e turquesas, dos índios do Arizona do século XVIII, em volta de sua
cintura. Afinal de contas, qualquer departamento de arte havia de esperar que até mesmo o
seu funcionário mais humilde tivesse um sentido de decoração. Sapatos? Não. Calçou um de
seus muitos pares de preciosas botas do Oeste, de saltos altos, 450 dólares a encomenda por
mala postal, de Tony Lama, botas que, ela estava convencida, a faziam parecer 7cm mais alta.

Satisfeita com o corpo, atacou o rosto e os cabelos. Nenhuma garota ou mulher, em 1972,
jamais achava que tinha bastante cabelo. Maxi tinha deixado o dela crescer até bem abaixo
dos ombros e gostava de sacudi-lo, muitas vezes acrescentando-lhe uma das muitas perucas
que vinha acumulando nos últimos anos. Mas aquele dia exigia seriedade e dignidade. Ela
escovou os cabelos bem para trás, de modo que sua mecha branca ficou aparecendo.
Maquilagem? Maxi tinha tanta experiência com maquilagem quanto qualquer demonstradora
no primeiro andar de Bloomingdale’s. Nesse dia, ela queria parecer velha. Quanto menos
maquilagem usasse, mais jovem parecia, de modo que começou a aplicar habilmente a base,
pó-de-arroz, blush, rímel, delineador, batom e sombra de olhos, com a mão firme, devido a
longas horas de prática solitária. Colocou uns brincos que eram pepitas volumosas de turquesa
e examinou ,o produto acabado. Usou um lápis de sobrancelhas para acentuar o sinal acima do
arco do lábio superior.

Não, ainda não estava bastante velha, resolveu, e mergulhou no armário, voltando com um
par de óculos de ãros de chifre que sempre usava quando jogava pôquer. As lentes eram de
vidro simples, mas ajudava ter algum tipo de máscara, por transparente que fosse, quando ela
blefava. Ainda estava faltando alguma coisa, pensou ela, olhando-se num espelho de três
faces. Era todo aquele cabelo, claro. De que adiantava ter cabelo branco na frente, se todo o
resto estava

142

pendurado atrás? Ela o arrumou num coque caprichado e o prendeu bem. Perfeito, pensou. O
retrato da artista como mulher de meia-idade.

Zachary a recebeu à mesa do café da manhã o mais impassivelmente possível. Talvez, pensou
ele, pesaroso, ela não estivesse diferente das outras garotas da idade dela — ele não andava
olhando para elas, de modo que não tinha certeza. Mas não havia alguma coisa quase...
depravada? No jeito do jeans e da camisa se grudarem no seu corpo? Será que Maxi não sabia
que ficava mais sexy naqueles malditos jeans do que se andasse se pavoneando de calcinhas
de renda preta? Uma garota com uma cinturinha tão miúda e um... par de peitos tão bem
desenvolvidos, faltando uma expressão menos paternal, podia usar uma camisa de zuarte
murcha que delineava todos os seus centímetros exuberantes? E aqueles óculos? Desde
quando precisava usar óculos? Só tornavam o rosto dela mais... fosse o que fosse que o
deixava perturbado. E o que é que fizera com o rosto? E os cabelos? Nada que ele pudesse
precisar, mas havia alguma coisa diferente na filha, nesse dia. Ele estaria ficando louco, ou ela
estava parecendo quase... amadurecida? Não, Maxi não. Não amadurecida, não podia ser.
Madura. Por Deus, madura!
— Maxi, você parece madura, diabos. — Obrigada, papai — disse ela, com modéstia. — Não
acha que talvez devesse usar um vestido? — Papai, ninguém mais usa vestidos hoje em dia —
disse ela, com uma reprovação delicada.

Maxi tinha razão, pensou Zachary. Nina usava calças, sua secretária usava calças, todas as suas
redatoras usavam calças. A última mulher que ele tinha visto de vestido fora Lily, e os dela
eram todos daquele novo comprimento pelo meio da canela. Ele suspirou, esperando que os
vestidos voltassem logo à moda, e concentrou-se nos ovos à mesa.

— Esta é Maxi Adams, sua estagiária de verão — disse Carl Koch, redator-chefe de Savoir Vivre,
à sua inteligente e competente diretora de arte, Linda Lafferty. — Faça o que quiser com ela.

Ele desapareceu depressa e bastante aliviado, deixando Linda, que tinha quase 1,82m e assim
mesmo conseguia parecer atarracada, resolver o problema.

Carl Koch tinha instintos apurados e vira logo que Maxi era um problema. Só não tinha certeza
era da magnitude do problema. Essas garotas de verão eram sempre um espeto. Mas Pavka
lhe dera ordens enérgicas, que não podiam ser discutidas, e Savoir Vivre tinha de agüentá-la
durante aquele verão. Mas agora ela era problema de Linda Lafferty.

143

Linda examinou Maxi, cada vez mais assombrada. Aquela jovem lhe parecia uma intelectual
incipiente que sem saber como se tornara uma piranha em Santa Fé, ou talvez uma Simone de
Beauvoir aprendiz que entrara por engano numa festa só para homens.

— Olá, colega — disse ela, por fim. — Olá, Srta. Lafferty. — De onde você... vem? — Do Leste
— respondeu Maxi, evitando essa pergunta reveladora.

— Leste? — insistiu Linda. — O Extremo Oriente ou o Oriente Médio?

— Rua 70 Leste — confessou ela. — Ah. Tem treinamento em arte? — Só a escola e


acampamento. — Acampamento? — Acampamento de verão — murmurou Maxi, de repente
não conseguindo arranjar um substituto que soasse mais importante. Por que eu?, pensou
Linda Lafferty. Por que eu?

Depois de uma semana de trabalho, Maxi concluiu que nada que ela já fizera na vida se
comparava com o escritório, em matéria de divertimento puro. O potencial para fazer
brincadeiras no departamento de arte de Savoir Vivre ficava além de tudo o que ela já
imaginara. Como é que ela nunca adivinhara que as pessoas iam trabalhar para ficar à toa e
contar piadas obscenas muito melhores do que as que ela ouvira na escola — boas mesmo —
e fazer o diabo, e se darem umas com as outras, e dizer bobagem e fumar maconha no
banheiro, e falar sobre sexo que nem alucinadas? Todos pareciam estar fazendo uns com os
outros. Fazer aquilo o dia todo e ainda ser pago para isso — era esse o segredo que a gente
grande nunca contava quando falava tão séria sobre uma coisa chamada ”negócios”. Os
negócios eram o divertimento em grande escala.

Todos os seus novos amigos trabalhavam em layouts, o que afazia lembrar do jardim de
infância, colando fotos em cartolina. Ela adorava ajudá-los, debruçada sobre os ombros deles,
endireitando as bordas, entregando-lhes os Magic Markers, apontando seus lápis e fazendo-os
rir se se aborreciam muito com alguma foto que não cabia direito numa página. Ela lhes
mostrava coisas em que nunca tinham pensado — por exemplo, uma história sobre fole gras,
com fotos de dezessete fatias diferentes de fole gras, cada qual de um restaurante francês
diferente — e ninguém conseguia saber qual a parte de cada fatia era a de cima e qual a de
baixo, quando ela acabou de rearrumá-las.

A melhor hora do dia para Maxi era quando chegava o carrinho de sonhos e bagels. Todo
mundo parava de fingir que estava ocupado

144

e se aglomerava em volta do carrinho como nômades se preparando para atravessar o


deserto. Ela chegava a voltar mais cedo do almoço para pegar a pausa para o carrinho de
sonhos às três da tarde. Ninguém precisava dela até então, mesmo. O almoço era uma
invenção tão legal! Três horas para fazer compras. Ela estava de dieta, de modo que não se
dava ao trabalho de comer. Em vez disso, pesquisava as lojas sistematicamente, tanto as
butiques como as lojas de departamentos.

Há anos que Maxi escolhia as próprias roupas, mas antes ela sempre tinha de esperar até
setembro para fazer as compras. Mas agora a cidade estava cheia dos primeiros artigos do
outono, e não havia nada que Maxi não experimentasse. Quando ela afinal acabava a sua hora
diária de pilhagens e saques, tudo na conta de Lily, levava as pilhas de embrulhos alegres para
o seu cubículo bem iluminado, tirava todas as compras das caixas e as modelava para as
colegas, que tinham um gosto incrível para cores e formas, e lhe estavam ensinando muita
coisa sobre o que usar. Ela deixara de usar os óculos e de fazer tolices com os cabelos, depois
de se estabelecer firmemente como tendo dezenove anos e como parte da turma.

A idéia de começar o último ano do ginásio em setembro era tão revoltante que ela nem
queria pensar a respeito. Maxi resolvera estudar arte, em vez disso. Todos tinham conselhos a
dar sobre qual a escola a escolher e se mostraram bem simpáticos, indo ao gabinete dela e
contando dos seus dias na escola e as diabruras que fizeram lá. Ela detestava o final do dia,
quando via-se obrigada a recusar todos os convites para ir aos bares que rodeavam o escritório
e se apressava de volta a casa, se bem que em geral conseguisse convencer o pai a levá-la para
jantar fora com ele.

Linda Lafferty estava fervilhando de raiva. A produtividade no seu departamento de arte — o


seu departamento! — caíra vertiginosamente desde o advento de Maxi. Todos os seus
funcionários, que para começar não eram tão competentes quanto ela desejaria, tinham-se
transformado em bodes excitados que passavam a maior parte do tempo inventando
pretextos para ter mais conversas demoradas com aquela... aquela... ela nem podia pensar na
palavra justa. Maxi escapava à sua experiência prévia, e nenhuma das palavras que conhecia
era capaz de classificar satisfatoriamente aquela criatura sexy, engraçada, completamente sem
critérios, perturbadora e no entanto, a despeito de tudo — confesse, Linda, você também
gosta de conversar com ela, disse para si mesma, aborrecida. A garota era uma bacanal diária.
Ela devia ser a Miss Seagram’s, a Miss General Foods, ou Miss Coca-Cola, para ter uma tal
variedade de capacidade de abor-
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recer, pois Carl Koch simplesmente se recusava a escutar suas reclamações sobre a nova
estagiária.

No entanto, Linda Lafferty tinha de dirigir um departamento, um departamento que sempre


fora o setor isoladamente mais sobrecarregado da revista. Grande parte do corpo da revista
era destinado a fotos, sendo o restante enxertado de anúncios de artigos de luxo. Os leitores
de Savoir Vivre eram gente rica, e a revista, impressa em papel grosso, lustroso, deveria
despejar riquezas visuais que fizessem seus leitores ricos se sentirem ainda mais ricos. Toda a
responsabilidade pela qualidade e originalidade dessa cornucópia mensal cabia estritamente
ao departamento de arte. O texto quase não importava, se bem que os artigos sobre comidas
e vinhos fossem todos escritos por vultos literários que recebiam quantias enormes, a julgar
pelos padrões de revistas.

Ela necessitava de um novo assistente de diretor de arte, decidiu Linda Lafferty em desespero
de causa, alguém que fosse’ligeiro e competente, e bastante duro para acelerar as coisas.
Alguns pontapés nos traseiros poderia operar milagres em matéria de coibir a atração de todos
por Maxi, pensou ela, mas, por ser tão alta, ela achava quase impossível chutar os traseiros
com eficiência. Ela não sabia bem se era o seu desejo de ser querida, ou o receio de matar
alguém, mas pelo menos era esperta para saber quando estava precisando de auxílio.

Quando ela fez seu pedido a Carl Koch, ficou espantada ao ver como ele concordou depressa
em permitir que ela contratasse um novo assistente graduado. Embora Savoir Vivre fosse
claramente uma máquina de fazer dinheiro, Koch, como a maioria dos editores, não gostava
de contratar mais pessoal, se possível. No seu último emprego, Linda trabalhara com um rapaz
que era tão obcecado pelo trabalho quanto brilhante. Havia ocasiões em que ela queria
contratá-lo, e agora Maxi Adams, rainha da cola de borracha, a Lorelei das colagens, feiticeira
da régua, ia lhe proporcionar a oportunidade de oferecer a Rocco Cipriani um ordenado
irrecusável, pois ele sempre dissera que só por muito dinheiro sairia da Condé Nast. Maxi
Adams serviria para alguma coisa, faria uma contribuição, inconscientemente.

Linda Lafferty olhou para Rocco Cipriani com um ar severo.

— Vou sair de férias. Não tive um minuto de folga desde que vim para Savoir Vivre. Não vou
estar presente quando você começar, amanhã. Não quero saber de gente me procurando para
reclamar. Você vai assumir toda a responsabilidade. Todos vão receber memorandos nesse
sentido.

— Quer uma vassoura nova, misturada com o Capitão Queeg e alguns açoites?

146

— Exatamente. Não há nenhum dos meus vagabundos que esteja trabalhando direito. Estou
com um grave problema de disciplina. Conto com você integralmente para surrá-los e obrigá-
los a entrar em forma enquanto estou fora, tendo aquele esgotamento nervoso de trinta dias
que Carl disse que me é devido, e quando eu voltar, quero estar mais que em dia, senão...
Ela resolvera não apontar Maxi como a fonte do problema. Ele que descobrisse por si.
Treinamento no local de trabalho.

— Você fica tão engraçadinha quando ameaça, Linda. — Foi por isso que te contratei, por isso
que passamos todo o fim de semana revendo todo esse trabalho atrasado. Você vai salvar a
minha pele porque não é nada engraçadinho.

— E eu que pensei que você gostasse de mim. — Para garoto, você não é mau — disse ela,
empertigada, maldizendo a sua eterna sexualidade irlandesa, que não tinha o bom senso de
parar de atuar ao ver aquele jovem, Rocco Cipriani, completamente intocável. Ela olhou bem
para ele, tentando pensar como é que um homem tão absurdamente maravilhoso ainda
conseguia obter o respeito que ele inspirava. Ele tinha um emaranhado indecente de cachos
pretos, olhos escuros com pálpebras pesadas, olhos ao mesmo tempo sonhadores e brilhantes
em sua intensidade, bem como o nariz de um príncipe Medici. Nas suas feições fortes, a
despeito de toda a sua sagacidade, ela não conseguiu encontrar nenhum defeito. Ela nem
ousava olhar para a boca dele. O seu controle só ia até certo ponto. Tudo em Rocco agia em
conjunto, implacavelmente, poderosamente, insistentemente. Era difícil dar as costas a ele. Ela
concluiu que ele parecia o modelo para a obra-prima de um grande pintor renascentista, uma
visão de um altivo São Sebastião. Só faltavam as flechas lhe perfurando o corpo naqueles
pontos interessantemente vulneráveis. Rocco Cipriani explicava tanto sobre o período áureo
da arte italiana quanto uma visita ao Metropolitan.

No entanto, mal tendo completado 23 anos, ele estava indo tão bem em Condé Nast que era
apenas uma questão de um pouco mais de experiência, um pouco mais de maturidade até ele
ser diretor de arte de sua própria revista. Ela sabia perfeitamente que ele nunca havia de
permanecer na Amberville. Aquela era apenas uma dessas manobras espertas, estratégicas,
ambíguas, que alguns dos melhores e mais ambiciosos diretores de arte fazem a fim de
progredirem mais depressa do que progrediriam se permanecessem em uma companhia
durante toda a sua carreira — ela mesma já fizera isso. Tornava a pessoa mais considerada do
que uma fidelidade total faria, e só era arriscado se a pessoa não fosse muito, muito boa.
Rocco não tinha com que se preocupar.

147

Em Manhattan havia tantos tipos de diretores de arte quanto havia publicações e agências de
publicidade. Rocco pertencia a um tipo muito especial, que nunca queria trabalhar em nada a
não ser nas revistas. Não tinha o desejo de trabalhar em publicidade, a despeito das fortunas
que ganhavam aqueles pobres coitados que se intitulavam ”diretores de criação”. Eles se viam
presos pelas exigências de clientes e ele não queria estar preso por nada, a não ser pelos
limites de sua própria imaginação. Para Rocco, a alegria máxima na vida eram páginas e
páginas de uma revista vazia, um espaço em branco puro e maravilhoso, espaço sem fim,
espaço renovado cada mês pela magia do departamento de publicidade, aguardando que ele o
enchesse com layouts nunca sonhados antes, combinações de tipos nunca reunidos desde que
foi inventada a tipografia, gráficos que fariam história, fotos até então inimaginadas,
recortadas de maneiras nunca vistas, desenhos por artistas em quem nunca ninguém pensara,
a não ser em termos de paredes de galerias e museus. Cada página de espaço editorial para ele
era como uma tela em branco para um pintor: uma nova oportunidade para impor a sua visão
do que poderia ser e, como o pintor, ele nunca ficava totalmente satisfeito.

Rocco era o Alexandre o Grande ainda não saciado do mundo das revistas, ainda em
campanha, não com exércitos, mas com torrentes de talento. Ele trabalhava pelo menos dez
horas por dia e depois voltava para casa a fim de esvaziar a caixa de correio, em que estavam
metidas revistas do mundo inteiro, que ele devorava uma por uma, praguejando terrivelmente
quando via uma idéia nova que ainda não lhe ocorrera, arrancando as páginas que queria
estudar, e que pregava nas paredes de seu grande sótão do Soho, até irem do chão ao nível
dos olhos, e aos poucos sendo cobertas por outras páginas, de modo que estar naquele
aposento era como viver dentro de uma colagem do melhor desenho gráfico internacional.

Só havia dois homens no mundo que Rocco Cipriani invejava: Alexander Liberman, o gênio que
era diretor de arte de Conde Nast, e Pavka Mayer. Um dia, ele tinha certeza, estava destinado
a substituir um ou outro, mas sabia também que ainda havia muito a aprender, de modo que o
convite de Linda Lafferty possuía mais uma atração: pela primeira vez ele estaria trabalhando
subordinado a Pavka, indiretamente, é verdade, mas assim mesmo havia sempre a
oportunidade em potencial de pilhar o cérebro do grande homem.

Rocco começou em Savoir Vivre numa segunda-feira, em meados de julho. Na sexta-feira,


Linda não agüentou mais e cedeu à tentação de telefonar para ele a fim de saber como iam as
coisas.

— Já liquidamos todo o trabalho atrasado e na segunda-feira vou atacar o número de


novembro — disse ele.

148

— Já? Tem certeza? — Bem, ninguém ficou muito encantado com a idéia de trabalhar todo dia
até meia-noite, mas trabalharam.

— E o problema Maxi? — ”Problema Maxi?” Quer dizer, a minha estagiária? — É, se é assim


que prefere descrevê-la. — Puxa, Linda, ela não é problema algum. Nem posso acreditar em
como essa garota me ajuda. Nem sequer sai para almoçar, come um ovo cozido de um saco de
papel e volta logo a varrer e limpar os restos de borrachas e verificar que todos tenham seu
material em ordem quando voltam do almoço. Ela parece muito adulta, para dezenove anos.
Chega na hora todas as manhãs, é a última a sair de tarde, não brinca na hora do carrinho de
sonhos, aparece com o café pouco antes de todo mundo começar a ficar louco por uma xícara,
mantém os meus Magic Markers arrumados direitinho... aliás, nunca tive uma mesa tão
organizada em lugar algum. Não fuma, usa esses vestidinhos sérios, não fica de conversa fiada,
e parece que nem perde tempo indo ao banheiro. Quem sabe ela é mórmon? Está sempre ali,
quando preciso dela, mas nunca aborrece. Boa moça, essa. E nem é feia, pensando bem...
aliás... nada feia...

— Ah, MERDA. — O que foi isso? — Esquece. Esquece. Vá em frente, Rocco. Vou voltar para a
praia e entrar pelo mar até me afogar.
— Se está pretendendo trabalhar todo o fim de semana, Rocco, quem sabe eu posso ajudar?
— sugeriu Maxi com displicência, prendendo a respiração. Ela estava disposta a morrer por
ele; não só pisaria em brasas por ele, ela se cobriria com elas e se deitaria quieta até estar tudo
acabado. Não havia nada no catálogo do comportamento humano que ela não fizesse por
Rocco Cipriani, a começar por sair de casa e atravessar continentes a pé e passar fome nos
desertos. Era só ele pedir.

— Não quero atrapalhar os seus programas para o fim de semana — disse ele.

— Não tenho nada programado, mesmo. E eu podia aprender muita coisa, arrumando o seu
material. Sabe como os seus layouts somem uns debaixo dos outros, quando você trabalha
muito. E... eu podia ir comprar uma pizza — acrescentou ela, sugestão nascida de todo pingo
de sabedoria que ela absorvera na vida.

— Boa idéia. Eu em geral me esqueço de comer. E tem essa pizzaria bem ao lado, que leva
tanto tempo para mandar que o queijo fica sempre frio. Está bem, então venha no sábado, por
volta das nove da manhã. Eu lhe dou o endereço.

149

Ela pegou o papel e o pôs na bolsa, para guardar para sempre. Já sabia onde ele morava, sabia
o número do telefone dele, sabia tudo sobre sua grande família em Hartford, sua bolsa para a
escola de arte, seus prêmios, suas promoções. O advento de Rocco provocara uma onda de
conjeturas no departamento de arte de Savoir Vivre, e Maxi ouvira com atenção, não dizendo
nada mas registrando tudo, desmatando tudo o que era redundante ou não parecia se
coadunar, e acabando com uma boa noção da verdade. Ela sabia que ele tivera diversas
namoradas, mas nenhuma durara muito, conhecia seus inimigos e amigos, sabia tanta coisa
sobre aquele estranho que ela conhecera cinco dias antes quanto era possível saber e
adivinhar. A intuição que Maxi tinha de Rocco era muito mais do que o ato de contemplação
ou o reconhecimento ou consideração mentais. Ia mais fundo do que aquela definição
filosófica que exige para a intuição uma percepção espiritual e conhecimento imediato,
atribuível a seres angelicais ou espirituais. A dela ia além e era bem mais breve. Era a definição
de Hawthorne: ”Uma intuição milagrosa do que deve ser feito justo no momento da ação. ”

O primeiro fim de semana que Maxi passou no sótão de Rocco foi atarefado. Quando notava
que Rocco estava perdido em seus pensamentos, diante da prancheta, andava pelo aposento,
tão quieta que ele nem percebia seus movimentos, e descobria onde ele guardava o material
doméstico. Ela arrumou a cama dele com lençóis limpos e juntou toda a roupa, suja para ir
àquela lavanderia que, pela primeira vez na vida, tinha a certeza de encontrar e saber usar.
Pela primeira vez na vida, lavou a louça e a guardou; passou em revista a despensa dele e fez
listas dos artigos básicos que faltavam; mas não teve tempo de mexer nas gavetas e armários.
Enquanto fazia essas tarefas divinas, estava sempre com um olho nele. E sempre que Rocco
levantava os olhos, precisando de alguma coisa, ela a tinha pronta para ele, com uma perícia
semelhante a de uma instrumentadora de sala de operação. Ele engoliu a pizza e sanduíches
que ela foi buscar, partilhando com ela, claro, mas calado, pensando nos problemas de
desenho que tinha pela frente. Agora que o trabalho estava em dia, Rocco queria imprimir o
seu estilo próprio à Savoir Vivre, antes que Linda Lafferty voltasse das férias.
Ele se preocupou logo com os problemas criados por uma revista dedicada a comidas e vinhos.
Já trabalhara com modelos e roupas por tanto tempo que a apresentação de objetos cuja
principal relação com os leitores era levá-los a ficarem com água na boca lhe apresentou um
desafio que o fez esquecer todo o resto.

— Um grão, apenas um grão — murmurou ele, quando Maxi estava partindo outra pizza, na
noite de domingo.

150

— Não está com fome? — perguntou ela, preocupada. — Um único grão de caviar dourado,
numa página dupla sem margem. O recurso óbvio seria mandar que Penn o fotografasse, mas
Penn significa Condé Nast e, em todo caso, não faço o que é óbvio. Fotografia a laser?
Fotomicrografia? Não se pode desenhar o caviar... ou pode? Talvez, é, talvez... isso é
pimentão?

— Pedi para botarem de tudo. — Bom. Ele se calou de novo e logo depois, vendo que ele já ia
parar de trabalhar, Maxi foi embora, tão discretamente que ele nem notou que ela se fora.

Na semana seguinte, quem entrasse no departamento de-arte de Savoir Vivre poderia pensar
que estava na sala de manuscritos de um mosteiro medieval, vendo os funcionários
debruçados sobre seus trabalhos com uma diligência concentrada, experimentando todas as
idéias que Rocco lhes lançava em sua busca de páginas sempre mais novas e mais
empolgantes.

Zachary ficou entusiasmado quando Maxi lhe contou sobre o seu papel modesto mas
necessário naquele trabalho, e ficou ainda mais encantado quando ela lhe fez perguntas que
mostravam como tinha observado atentamente todo o processo de montar uma revista. No
entanto, ficou um pouco preocupado com a intensidade do interesse dela... se ela estava tão
empenhada, tudo não poderia acabar tão depressa quanto começara? Ele não confiava no
entusiasmo de Maxi. Ficou aliviado quando ela afinal foi passar um fim de semana com a
colega, India West, em Connecticut, e disse que tornaria a ir lá no sábado seguinte.

No domingo à noite, Rocco largou seus apetrechos, bocejou e se espreguiçou.

— É isso aí! Deve ser isso aí — disse ele a Maxi, num tom vitorioso. Ela acabara de colocar as
meias dele, lavadas, secas e dobradas, em ordem militar, numa gaveta em que ele não poderia
deixar de vê-las. O sótão estava tão imaculado quanto ela conseguiu deixá-lo, sem tirar do
lugar nenhuma das revistas, livros ou pastas.

— Está na hora da pizza? — perguntou ela. — Não de novo. Não agüento nem mais uma. Ele
sorriu para ela. A melhor assistente que ele já tivera, pensou. E ele podia jurar que ela fizera
alguma coisa, ele não sabia o que, que tornava mais fácil ele se vestir de manhã.

— Eu podia fazer um bife, preparar uma salada e pôr uma batata para assar no forno —
ofereceu-se Maxi.

— E onde é que vai arranjar tudo isso no domingo à noite?


51

— Aqui mesmo — disse Maxi, abrindo a geladeira, que ela enchera na véspera. O
acampamento de sobrevivência nas selvas incluíra lições básicas de culinária.

— ótimo. Estou estourado. Acho que vou tirar um cochilo enquanto a batata assa. Acorde-me
na hora do jantar, certo?

— Certo. Rocco caiu num sono profundo, quase imediatamente. Já era tão tarde que o sol
poente mostrava o pó no ar do sótão, mas a luz do meio do verão ainda enchia o aposento.
Maxi se aproximou da cama de Rocco e se ajoelhou ao lado, com cuidado. Teve de cerrar os
punhos, a fim de se impedir de estender a mão para tocar nos cabelos dele. E se ele acordasse
de repente, como adormecera? Ela nunca pudera olhar bem para ele por mais do que alguns
segundos, a não ser quando ele estava falando com alguém no escritório; e mesmo assim ela
sabia que, se ele levantasse os olhos e a visse olhando, ela havia de corar, de um modo
humilhante. Durante os seus dois sábados e domingos no sótão, ela se mostrara
especialmente séria, sabendo que se o distraísse de algum modo, ele a expulsaria.

Maxi estava tão apaixonada e tinha tanto respeito por Rocco que a sua reação normal ficara
congelada. Ela se deu conta de que não estava no seu normal desde que pusera os olhos nele e
não sabia como agir normalmente com aquele homem, que certamente não fora afetado por
ela do mesmo modo como eram afetados os outros homens ou rapazes que ela já conhecera.
O amor produzira em Maxi um estado em que cada ato comum de Rocco era investido de um
encanto absoluto. Se ele coçava a cabeça ela ficava encantada. Se ele mordesse os nós dos
dedos, pensando, ela ficava encantada. Quando ele cantarolava para si, ela vislumbrava o
paraíso. Os olhos de Maxi traçavam as linhas perfeitas dos lábios dele com um misto de
veneração e uma ânsia desesperada. O seu coração a impelia para ele, mas ela ficou imóvel,
com desejos alucinantes, com uma violência que ela sabia que nunca sentiria por qualquer
outro homem, enquanto vivesse. Ela estava cheia de toda a confusão indizível e da paixão
concentrada do primeiro amor. Se ela pudesse ao menos pegar um dos macios cachos pretos
da testa dele e tocar, apenas tocar na pele embaixo! Se ao menos pudesse roçar as costas da
mão na face dele! Mas ela não ousava. O risco era grande demais.

Ajoelhada ali, paralisada em seu desejo, de repente as palavras de Rocco a atingiram em cheio.

— Bem, deve ser isso aí — ele dissera e parara de trabalhar. Ela o conhecia o suficiente para
saber que ele acabara o número de novembro. Claro que o número de dezembro seria atacado
na semana seguinte, mas sem a mesma necessidade de inventar um novo estilo gráfico que o
tinha impelido a trabalhar os sete dias da semana. Ela ainda

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não tinha pensado nesse momento. Sem saber como, ela se permitira pensar que esses fins de
semana no sótão continuariam... mas o seu emprego de verão só duraria mais cinco semanas.
Maxi entrou em pânico. No dia seguinte ela voltaria ao trabalho, apenas mais um corpo
naquele departamento de arte tão apinhado, buscando, carregando e levando o café, e aquele
minuto certo que ela nunca pudera imaginar claramente jamais se apresentaria — aquele
momento absolutamente necessário em que Rocco, afinal, a visse.
Em pânico, Maxi tornou a ser Maxi. O encantamento que a tornara ineficaz, inerte,
desapareceu, o feitiço foi quebrado. O seu lema, descoberto na aula de francês, eram as
palavras de Danton: ”Audácia, audácia de novo e sempre audácia.” Por um minuto ela ficou
andando pelo sótão, calada, e depois, sussurrando ”Audácia”, tirou a camiseta e os jeans e a
roupa de baixo, em gestos silenciosos mas decidido. Desatou as sandálias e ficou ali nua,
rosada e voluptuosa como um Boucher, com os seios desenvolvidos e bem separados, tão
jovens que a despeito do peso apontavam para cima, em seu tórax estreito. Abaixo da
cinturinha firme, onde a carne branca estava marcada pelo cinto que ela acabara de deixar cair
no chão, os quadris se destacàvam deliciosamente, numa curva excelente mas imoderada.

A nudez era tão natural para Maxi quanto para Eva. Tinha proporções tão perfeitas que sem
roupas parecia mais alta do que vestida. Ela passou os dedos pelos cabelos compridos,
sacudindo a cabeça de leve, sem conseguir se mover, por um segundo. Audácia, pensou,
audácia! Nas pontas dos pés, foi para junto da cama e se debruçou sobre Rocco,
tranqüilizando-se ao ver que ele estava no sono mais profundo. Com cuidado, leve como uma
flor, ela se deitou ao lado dele, o corpo delicado mas exuberante arranjando um lugar onde se
aninhar. Ela se ergueu e ficou dependurada sobre o rosto dele. Audácia, rezou ela, começando
a beijá-lo de leve, para acordá-lo, tão delicada e docemente que ele levou alguns minutos para
começar a se mexer e resmungar. Ela desabotoou os botões da camisa dele e beijou-lhe o
peito e o pescoço, até que ele voltou à consciência. E quando o viu abrir os olhos, afinal o
beijou na boca, beijou-o uma vez e continuou a beijarlhe os lábios, subindo um pouco de modo
que seus seios pousassem sobre o peito nu dele, prendendo de leve os ombros de Rocco na
cama até ele acordar inteiramente e tentar sentar-se.

Maxi? Maxi? — disse ele, assombrado. Ela rolou e se deitou de costas, olhando para ele por
entre os cabelos emaranhados, bem dentro daqueles olhos espantados. Aí ela soltou a sua
gargalhada, plena, profunda, livre e alegre, que ele nunca tinha ouvido.

— Espero que não esteja aguardando outra pessoa — respondeu Maxi, quando ele se
debruçou para ela e a puxou para si, ávido.

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Como costumavam dizer na RAF — comentou India West, pensativa — você espatifou seu
avião, Maxi.

— E o que é que isso quer dizer, exatamente? — perguntou Maxi, aflita.

India West nunca, nunca se enganava. Só tinha quinze anos, era dois anos mais moça do que
Maxi, mas desde o momento em que as duas se conheceram no colégio, quando estavam,
como sempre, fugindo da aula de ginástica, ficaram amigas, unidas por uma admiração
instantânea e mútua, o que incluía uma preferência acentuada por versões melhoradas da
verdade. As pessoas às vezes achavam que elas eram mentirosas, como Maxi explicou a India
um dia, mas elas só estavam rearrumando a vida para torná-la mais interessante para todos,
como se fosse um serviço público.

— Meteu-se numa fria — disse India, distraída, contemplando-se no espelho. — Acho que
estou ficando meio... bem, linda. O que é que você acha?

— Você sabe que é linda. Quando é que não foi divinamente linda? Pare de querer mudar de
assunto. Estávamos falando de mim.

India tinha acabado de voltar de Saratoga, onde passara o verão com a família. Lily Amberville,
os meninos e empregados deviam voltar de Southampton em fins de agosto. Por fim Maxi
tinha alguém com quem conversar sobre Rocco. Rocco estava estonteado, apaixonado,
fascinado, cativo dela. Eles tinham passado juntos todos os minutos do verão, no trabalho,
depois do trabalho, desde a primeira noite em julho. Ele a amava, de verdade, seriamente. Ele
lhe dissera isso e Rocco, ao contrário de Maxi, só dizia a verdade. Maxi, em seu êxtase, não
podia entender por que é que India, em geral tão despreocupada, via um problema no seu
amor sem mácula.

— Dezessete anos não são dezenove. Uma Amberville não é uma Adams — disse India.

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— Faço anos amanhã, vou fazer dezoito anos, e sou exatamente a mesma pessoa que ele ama.

— Na verdade, não. — Quer dizer que ele não vai me amar, quando descobrir? India! Isso é
ridículo.

— Não, quero dizer outra coisa, e você sabe perfeitamente o que quero dizer. Só porque
estudamos numa escola que é educadamente chamada de ”forma de instrução alternativa”
não quer dizer que nenhuma de nós seja idiota — disse India, com ar severo.

— Então, muito bem. Meu pai é um homem rico... — Ah-ah! — Está bem, um dos homens
mais ricos do país. E, afinal, não estudo em Vassar. Ainda estou no ginásio. Será que uns
míseros dois anos e um pai com rios de dinheiro fazem de mim uma leprosa?

— Você mentiu para ele. — Minto para todo mundo. — E eu também... mas você falou que o
Rocco sempre diz a verdade. Isso quer dizer que ele não vai mais confiar em você. Como é que
um rapaz de respeito, trabalhador, de uma boa família italiana conservadora, com um forte
sentido de seus próprios valores, pode ter um caso apaixonado com a Srta. Amberville, filha
adolescente do patrão dele? Como é que ele fica nisso? Supõe-se que você seja ”estagiária”
dele. O que é que isso vai fazer com a carreira dele? Parece que o cara gosta muito do
trabalho. Como é que vai poder tornar a confiar em você? Você o enganou redondamente, o
pobre otário, e se tivesse começado há um ano, vocês podiam ser presos. E só Deus sabe quais
serão as conseqüências quando papai e mamãe Amberville descobrirem.

India usava sua voz tão eficientemente quanto um mestre-sineiro, tocando mudanças em tons
de modo que ninguém, de qualquer idade, podia deixar de prestar atenção quando ela falava.
Até mesmo Maxi se sentiu eficazmente refreada, embora bem acostumada com o fenômeno
India.
— Eu queria que você não me falasse assim — disse Maxi, pegando a mecha de cabelos
brancos e torcendo-a entre o polegar e indicador, puxando até doer. A despeito de sua
bravata, ela sabia que já tinha se metido em buracos, mas esse buraco parecia não ter fundo.
— India, estou precisando de você — disse ela, nervosa. — Estou com um terrível problema de
natureza material. Minha família deve voltar daqui a uma semana, e minha liberdade vai se
acabar. Andei dizendo ao Rocco que eles ainda estão na Europa. Se eu disser que voltaram, ele
há de querer conhecê-los... ele é antiquado, sobre coisas como conhecer os pais.

— Ah, é? — disse India, impassível.

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— A escola só começa daqui a três semanas — continuou Maxi. — Posso dizer a Rocco que
eles ainda estão fora, se você me der cobertura. Digo a eles que estou com você quando
estiver com Rocco, e nas noites em que eu tiver de dar as caras no jantar em casa, digo ao
Rocco que estou com você. Faz sentido?

— Já que ele é tão antiquado, não havia de querer que você o apresente à sua melhor amiga?

— Vou dizer que você... tem uma fobia. Tem medo de sair de casa. Agorafobia, é o nome.

— E por que ele não havia de ir me visitar? Você disse que ele é muito compassivo.

— Você tem medo de conhecer estranhos. É outra de suas fobias. Ele pode te falar pelo
telefone. De um modo tranqüilizador.

— Isso resolve o problema dele. E o papai e mamãe? Como será, já que somos praticamente
inseparáveis?

— Digo a eles que estou te ajudando nos estudos, para você poder passar para a minha turma.

— Você me ajudando a estudar? — Claro. Eles sabem que posso, quando quero. Seria uma boa
ação. E se eles ligarem para sua casa, a fim de falar comigo, você atende e inventa alguma
coisa, explicando por que não estou lá.

India era uma mentirosa muito mais inventiva e verossímil do que Maxi jamais poderia esperar
ser.

— O que significa que vou ter de passar as três próximas semanas grudada no meu telefone —
resmungou India. — E o que vai acontecer quando o colégio começar de verdade e você tiver
deveres de casa de verdade? Não vai poder sair de casa tão facilmente.

— Me dá só essas três semanas com ele... a essa altura, vou dar um jeito de inventar alguma
coisa.

— Pode sempre dizer a verdade. — India, por favor — pediu Maxi, horrorizada. — Você parece
que não entendeu. Essa é a coisa mais importante que já me aconteceu na vida. Nada disso
jamais tornará a me acontecer... Tenho de fazer com que dê certo. A verdade... por favor, nem
pense nessa palavra. É muito tarde para a... você sabe o quê.

— O maior acordo que podemos fazer com o nosso semelhante é ”Que haja verdade entre nós
dois, para sempre” — entoou India.

— Por que está me torturando? — É Emerson, Ralph Waldo. Estou lendo as obras dele. É
minha culpa se tenho uma memória prodigiosa?

— Pode fazer o favor de tentar se lembrar das coisas quando estiver sozinha?

— Ele também disse: ”Mantenha a calma; tudo será igual, daqui a cem anos.”

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— Você é um consolo para mim, India, de verdade. Para que é que fui escolher uma pirralha
precoce para ser minha melhor amiga?

— ”Patinando em gelo fino, a velocidade é nossa segurança.” — Emerson de novo? — Ele está
te enchendo? — Não, está me deixando nervosa. Os olhos verde-jade de Maxi, aumentados
pela ansiedade, pareciam absorver toda a luz no quarto em suas profundezas brilhantes.

— Escuta, Maxi, é mesmo assim tão divertido dormir por aí? — perguntou India, de repente
tímida.

— Dormir por aí — disse Maxi — é o máximo de divertimento. — Droga, eu estava pensando


que você ia dizer isso mesmo.

Foi só em princípios de outubro que a verdade pilhou Maxi. Ela gastara tanta energia mental,
saltando e pulando entre as mentiras que ela e India estavam contando a um número de
pessoas cada vez maior, que se esquecera de um dos cuidados normais que a maior parte das
mulheres tomam quando estão fazendo amor tanto quanto é humanamente possível. Ela já
estava com um bebê dentro de si, como India exprimiu, delicadamente, quando, juntas,
contaram as semanas desde a última menstruação de Maxi. Elas se olharam num silêncio
solene, assombrado, apavorado, por algum tempo. Pela primeira vez desde que se conheciam,
nenhuma estava querendo interromper a outra. De repente, a sugestão de sorriso que sempre
delineava o lábio inferior de Maxi se transformou num vasto sorriso e seu rosto delicado,
malicioso e espirituoso irradiou um prazer sem complicações.

— Divertido — sussurrou ela — que coisa mais divinamente, fabulosamente divertida. Incrível.
Ah, QUE DIVERTIDO!

Ela se levantou de um salto, pegou India, que já era 2cm mais alta do que ela, no colo e a fez
girar pela sala, em pura alegria.

— Divertido? — India ganiu, indignada. — Me larga no chão, sua idiota total! Divertido?

— Um bebê. Um bebezinho lindo. Um menino com a cara do Rocco. Um bambino, todo rosa e
branco e gorduchinho, de cachos pretos. Ah, nem posso esperar! Vou aprender a fazer tricô,
tomar aulas de parto natural. Quem me dera que já nascesse amanhã... eu não te disse que
alguma coisa ia acontecer e tudo daria certo? E ainda por cima ter todo esse prazer... nem
posso acreditar que tenho tanta sorte!

— Deus misericordioso! — India caiu na cadeira, sem poder acreditar no que estava ouvindo.

— E só essa a sua reação? O que é que há com você? — perguntou Maxi. — Pensei que você
sabia se divertir. — Talvez a minha idéia de divertimento não seja a mesma que

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a sua — disse India, a voz fraca. — E, Dona Scarlett, num sei nada di fazê os bebê nascê.

— A culpa é minha — disse Nina. — Fui eu que achei que ela devia trabalhar.

— A culpa é minha — insistiu Zachary. — Fui eu que concordei. — A culpa é minha — insistiu
Pavka. — Fui eu que a mandei para o departamento de arte. E Linda Lafferty diz que a culpa é
toda dela.

— Na verdade, Pavka — disse Nina — a culpa é de sua secretária, aquela que o adora. Foi ela
quem escolheu Savoir Vivre.

— Olha, vocês dois, a culpa não é de ninguém, só de Maxi. Deus sabe que o Rocco não tem
culpa... o pobre coitado nunca teve uma chance, depois que Maxi se resolveu — disse Zachary.

— O que é que a Lily acha? — perguntou Pavka a Zachary. — Ela está ocupada demais com os
preparativos para o casamento para ter tempo de pensar. No que lhe diz respeito, dezoito
anos é uma boa idade para se casar, se a pessoa não estiver fazendo nada com a vida. Ela não
era muito mais velha quando nos casamos. Mas ela insiste num casamento pomposo, com
tudo que não é essencial: damas de honra, meninas espalhando pétalas de rosas, pajens de
calças de veludo, a casa toda revirada para a recepção. O único problema é o tempo... eles
devem se casar o mais breve possível. Já estariam casados, se não fossem os planos de Lily.
Mas Maxi não se importa... está se ”divertindo” demais para se preocupar se o bebê vai ser
prematuro... estou começando a ter visões dela entrando na igreja carregando o bebê em vez
de um buquê.

— E o Rocco? — perguntou Pavka, curioso. — O que é que tem ele? Linda Lafferty disse que
vocês dois acham que ele está trabalhando bem — disse Zachary, meio na defensiva.

— Não me refiro ao trabalho dele... e a família dele? — Eles acham que tudo o que ele faz é
perfeito — respondeu Zachary. — Afinal conseguimos nos reunir todos para um jantar, e tudo
correu tão bem quanto qualquer primeiro encontro de futuros sogros, talvez melhor. Joe
Cipriani esteve na Força Aérea na Coréia, de modo que contamos velhos casos de guerra. E
Anna, a mãe de Rocco, e Lily conversaram sobre padrões de pratas e de louças e vestidos de
noiva. E Maxi sentada ali, como se tivesse realizado um milagre e ganho o Prêmio Nobel pela
reprodução. Rocco não dizia uma palavra. Ele parecia ter levado uma pancada na cabeça ou
sido atropelado por um trem, ou as duas coisas.
— Então — perguntou Nina — por que cargas-d’água estamos nós três aqui preocupados com
uma coisa que todos os outros acham ótima?

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— Porque nós todos conhecemos Maxi — respondeu Zachary, sério.

Angelica Amberville Cipriani entrou no grande mundo em abril de 1973, pouco mais de seis
meses depois do casamento de Maxi e Rocco, um grau de prematuridade perfeitamente
respeitável em qualquer sociedade, alta ou baixa, desde que o mundo começou a contar nos
dedos. Rocco saíra de seu estado catatônico depois que o casamento se realizou de fato, e
Maxi, encantada, largou o último ano do ginásio a fim de preparar o sótão de Rocco paras a
chegada do bebê.

Tanto Lily como Zachary tinham insistido para que o bebê voltasse do hospital para um
apartamento confortável, onde Maxi tivesse uma babá para ajudá-la, alguém para cozinhar e
mais uma pessoa para limpar. Eles achavam natural comprar e mobiliar o apartamento e
subsidiar os ordenados do pessoal, mas Rocco se recusara firmemente a aceitar qualquer coisa
deles, a não ser o tradicional presente de um aparelho de prata. Ele ganhava 35 mil dólares
por ano, e o hábito de uma plena independência financeira estava profundamente arraigado
nele. Os pais dele não tinham contribuído com nada para seu sustento desde o dia em que ele
ganhara a primeira bolsa para a escola de arte, e não estava preocupado com a questão de
ganhar o suficiente para sustentar mulher e filho. Maxi agora estava com dezoito anos e
muitas outras moças, no mundo em que ela fora criada, já eram mães competentes com essa
idade, e cuidavam bem de seus lares modestos.

Maxi abordou o futuro com uma energia feliz. Fez três cursos de culinária diferentes, para
poder oferecer a Rocco a escolha de comida francesa, italiana ou chinesa; tomou aulas de dois
métodos distintos de parto, caso ela mudasse de idéia no meio do processo; fez compras na
Saks e na Bloomingdale’s e até se arriscou a ir ao Macy’s, a fim de comprar um enxoval
completo em todos os detalhes para o bebê. Usando bom senso, mandou guardar as dúzias de
baús de presentes de casamento num guarda-móveis, a não ser as panelas, um aparelho de
cerâmica, talheres de aço inoxidável e copos de vidro barato.

Felizmente, o sótão de Rocco era bastante espaçoso, de modo que, com o auxílio de dois
marceneiros da vizinhança, puderam dividi-lo em três setores diferentes: o cantinho do bebê,
uma cozinha e despensa, e um terceiro espaço em que eles iam viver, comer, dormir e em que
Rocco podia ter a sua prancheta. Rocco sugerira que esse terceiro quarto fosse ainda dividido
para lhe dar um escritório separado, mas, como disse Maxi, ela pretendia continuar a ajudá-lo
quando ele precisasse dela, de modo que isso não fazia sentido. Seria a harmonia perfeita do
verão anterior, pensou ela, com mais a alegria do bambino dormindo confortavelmente no seu
canto.

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Maxi estava sentada num banco duro num jardinzinho das vizinhanças, com duas árvores
mirradas, balançando o carrinho do bebê, inglês, que se destacava pelo tamanho, o brilhante
acabamento azul, as rodas elegantes e a franja na capota de lona que tapava o sol, protegendo
os olhos de Angelica. Era o mês de agosto, quente e úmido como só pode ser o mês de agosto
em Manhattan; a cidade estava encerrada numa bolha monstruosa de um negócio abafado,
malcheiroso, amarelo-acinzentado que poderia ser ar, mas que mataria a maioria dos índios da
Amazônia. Maxi estava de shorts, uma frente única e sandálias baixas. Se bem que tivesse
prendido os cabelos no alto da cabeça, para tirá-lo da nuca, mechas molhadas de suor ficavam
caindo. Ela se abanava em vão com um número de Rolling Stone, lutando contra a vontade de
espumar na boca, uivar como um cão e pedir uma recontagem.

Vou me concentrar nas coisas divertidas, pensou ela, severa. Rocco é divertido quando não
está trabalhando naquele número duplo de Natal. Angelica é divertida quando não está
berrando e não nos deixando dormir. Ser casada é divertido, quando Angelica está dormindo e
Rocco não está trabalhando. Cozinhar é divertido quando... não, cozinhar não era
propriamente o que se pode chamar de divertido. Sobretudo quando se tem de fazer a limpeza
depois. Isso dá mais ou menos uma hora divertida em cada 48 horas. Pelo menos uma hora
que poderia ser divertida se não estivesse tão quente e úmido. NADA é divertido em Nova
York em agosto, pensou ela, com violência, a não ser que a porra do ar-condicionado funcione.

Os dois aparelhos, de janela, tinham ambos dado o prego de velhice, quando começara a onda
de calor, três semanas antes, e arranjar novos no meio do verão mais quente em muitos anos
estava se revelando impossível. Dia após dia Maxi esperava a entrega prometida, e dia após
dia era obrigada a reconhecer que não iam ser entregues.

Todos os dias o pai lhe telefonava para implorar que ela fosse para Southampton com o bebê,
todas as noites Rocco lhe garantia que ela era maluca em ficar na cidade, que ele se arranjaria
perfeitamente bem sozinho durante a semana, prometendo ir vê-la todos os fins de semana,
porém Maxi, mais teimosa do que nunca, numa vida dedicada a ter as coisas do seu jeito, se
recusava a sair de lá.

O primeiro verão, disse ela consigo, era um momento de prova, o exame em que, ela sabia,
todos esperavam que fosse reprovada. Mas ela ia agüentar ficar na cidade; não sairia correndo
para a casa dos pais, como criancinha, e largar o marido quando ele andava trabalhando tanto,
deixando-o sem mulher e filha e um cuidado carinhoso. Ela não pretendia que ele fosse um
marido de fim de semana, que não pudesse ver a filha crescendo durante esses meses
preciosos. Entregar os pontos e fugir para as brisas frescas e o mar, com empregados levando

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copos gelados de sucos de frutas espremidas na hora... Não! Ela pegou um lenço de papel
molhado e enxugou os riachos de suor que escorriam por seu pescoço.

Por que ela não conseguia parar de pensar em branco? Linho branco, areia branca, tufinhos de
nuvens brancas num céu azul sobre um mar azul, fraldas descartáveis brancas e virginais, tênis
brancos, empregadas com aventais brancos, casas de madeira grandes e brancas, mesas de
vime branco arrumadas com toalhas de renda engomada branca e porcelana Limoges branca.
O branco parecia ser a última coisa que Manhattan tinha a oferecer naquele determinado mês
de agosto, a não ser o lixo imundo de papéis antes brancos que esvoaçava a seus pés.
Angelica acordou aos berros. Maxi a pegou no colo e a abanou freneticamente. A despeito de
banhos frios e contínuas lavações com esponja molhada, o bebê estava com brotoeja ou
erupções do calor ou alguma outra irritação na metade das dobras de seu corpinho
rechonchudo de quatro meses. Era um bebê bonito, a não ser quando o rosto estava
contorcido, sofrendo, como estivera a maior parte do verão.

— Pobrezinha — entoou Maxi, sentindo as lágrimas encherem, seus olhos. — Pobre do meu
bebê, tenho tanta pena de você, é verdade — disse ela, soluçando no pescoço de Angelica. —
Ah, pobre bebê infeliz e valente, que menina boazinha você é. E ninguém te dá crédito por
isso, ninguém dá, não! — Angelica parou de chorar e abriu os olhos. Puxou uma mecha dos
cabelos de Maxi e sorriu para ela. — Ah — disse Ma.xi, chorando mais do que nunca, ao ver o
sorriso — pobrezinha!

Ela se levantou do banco de um salto e, correndo, levou o carrinho para fora do jardim. Um
táxi pequeno parou, ao ver o sinal frenético que ela fez. Maxi simplesmente abandonou aquele
objeto importado, que custara quinhentos dólares, na esquina e, sem nem pensar duas vezes,
pegou Angelica e entrou no táxi.

— O Hotel Saint Regis — disse ela ao chofer. — Depressa, é uma emergência.

As Edições Amberville tinham uma suíte no St. Regis para clientes em visita, e todos na
recepção conheciam Maxi de vista. Ela foi levada para a suíte de cinco peças com tanto
cuidado e carinho como se tivesse sido salva das ondas num barco salva-vidas. Maxi caiu numa
das camas, agarrada ao bebê, e por uns minutos nada importava a não ser o ar fresco. Assim
que sentiu suas energias se refazendo, ela encheu uma banheira com água morna, tirou toda a
roupa que ela e Angelica estavam usando, soltou os cabelos e entrou na água, com cuidado, o
bebê no colo. Deitou-se na banheira grande e fez Angelica boiar em cima de seus seios,
apoiando-a sob os braços e encostando o nariz

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no narizinho da filha. Fez barulhinhos de ninar e balançou Angelica de um lado para outro:
uma sereia e sua cria.

Dali a pouco, tendo recuperado plenamente a sua eficiência, Maxi se enrolou a si e ao bebê em
toalhas grandes e atacou o telefone. Primeiro ligou para a Saks, pedindo camisas e camisolas
de bebê, um berço, outro carrinho, roupa de cama de bebê e uma cadeira de balanço. Depois
ligou para a Bonwit’s, encomendando uma coleção de robes, pijamas de seda curtos e camisas
e shorts de algodão para si. A seguir ligou para o florista do hotel e pediu que lhe mandassem
uma dúzia de jarras brancas cheias de flores, também brancas. O farmacêutico teve ordem de
mandar óleo de bebê, talco de bebê, fraldas e xampu. Depois ligou para F.A.O. Schwartz e
pediu um móbile para pendurar sobre o berço, além de cópias de todos os bichinhos de
pelúcia de Angelica que ela preferia. Ligou para a recepção e mandou mensageiros em todas
as direções para buscarem suas encomendas imediatamente. Depois ligou para a copa e pediu
o almoço. Sim, podiam fazer purê de cenouras e peito de galinha, eles garantiram. Por fim,
Maxi ligou para Rocco, no escritório.
— Querido — disse ela, entusiasmada — descobri o lugar mais maravilhoso para passarmos o
verão, e fica só a alguns quarteirões do seu escritório.

As ondas de calor em agosto são normais em Nova York, mas, como qualquer nativo sabe,
podem ser quase tão graves em setembro. Autumn in New York é uma canção que devia
especificar claramente o mês de outubro, assim como April in Paris é uma canção que devia
mencionar a necessidade de levar guarda-chuvas, capas de chuva com forros quentes e botas
impermeáveis. Maxi, Rocco e Angelica passaram mais cinco semanas abrigados dentro dos
muros amigos do St. Regis. Se bem que Rocco não pudesse deixar de perceber que só as
contas da copa superavam seu ordenado semanal, ele se forçou a não protestar. Fosse o que
fosse que ele sentia, raciocinou, não podia insistir para que o bebê fosse exposto ao calor do
sótão. Podiam voltar para casa quando o calor amainasse.

— Acho que devíamos voltar para casa hoje à noite — disse-lhe Maxi certa manhã, quando ele
ia saindo para o trabalho.

— Pensei que você ia querer ficar até a primeira nevada — disse Rocco, sorrindo para o rosto
dela, corado e feliz, e mordiscando o narizinho de ponta insolente.

— Estou farta do serviço de copa — murmurou ela, lambendo o peito dele o mais alto que
conseguia, entre dois botões da camisa, por baixo da gravata, manobra em que ela se tornara
perita, enquanto segurava o bebê no colo.

— Vou procurar voltar o mais cedo possível para te ajudar a arrumar tudo.

— Não se incomode, amor, tenho o dia todo e o pessoal do hotel prometeu me ajudar... é só
vir nos pegar às duas.

Naquela tarde, quando ele chegou ao hotel, encontrou Maxi e Angelica esperando por ele no
saguão.

— Está tudo pronto — disse ela, em triunfo. Eles tomaram um táxi. O porteiro deu um
endereço ao chofer e lhes acenou um adeus.

— Por que ele está indo para os arrabaldes? — perguntou Rocco.

— Eu quis primeiro passar para ver minha família — disse Maxi, alegre.

— Então, por que é que já passou pela casa de seus pais? — disse Rocco com paciência,
percebendo que Maxi planejara uma das surpresas de que tanto gostava: por exemplo,
aprender a fazer tortellini, enquadrar um grupo dos esboços dele com suas próprias mãos
inexperientes, achar um vestido velho para Angelica, numa loja de segunda mão e mostrar o
bebê numa cascata de rendas vitorianas.

— Porque estão visitando o Toby — disse ela, vagamente. — E Toby está visitando um amigo?
— Certo. Você é tão esperto. Sabia que eu me casei com você por causa de sua inteligência, e
não pela sua beleza séria ,e impossível?

— Eu pensava que me casei com você porque te engravidei. Essa é mais ou menos a opinião
geral — disse Rocco, encantado com a malícia nos olhos dela. Ele se rendera a ela como faria
com uma garota num sonho muito improvável e feliz. As vezes, como nessa noite, sua jovem
esposa era a personificação de uma brincadeira deliciosa.

— Não na frente do bebê! — cochichou Maxi. O táxi afinal parou diante de um belo prédio de
apartamentos na Rua 76, entre a Quinta Avenida e Madison. Eles tomaram o elevador para o
quinto andar e seguiram por um corredor largo até que Maxi tocou uma campainha. Uma
empregada uniformizada abriu a porta, com um sorriso.

— Não há ninguém em casa? — perguntou Rocco, olhando em volta da sala grande,


encantadora, de paredes brancas, toda com tons de marrom, terracota e umbra, mobiliada de
um modo que lhe agradou logo, embora ele não soubesse bem a causa.

— Devem estar em algum lugar — disse Maxi, afastando-se dele para um corredor. — Há
alguém em casa? — disse ela.

— Você não acha que devemos esperar na sala? — Vamos, amor, devem estar por aí —
respondeu Maxi do corredor, e Rocco a acompanhou enquanto ela passava por aposentos
bonitos, mas sem ninguém: um quarto de bebê, um quarto de dormir imen-

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so, com uma cama de quatro colunas coberta por uma colcha antiga, pespontada, e uma
cozinha reluzente, onde a empregada estava ocupada cozinhando. Na salinha de jantar de
paredes vermelhas, onde a mesa redonda, francesa provinciana, estava posta para dois, ele
afinal a agarrou e tentou fazê-la parar.

— Sente-se e espere. Não pode ir andando pela casa dos outros assim, nem mesmo você. Ou
será que isso é alguma festa-surpresa?

Ela fugiu dele, ainda com Angelica no colo. — Espere, ainda tem mais um quarto. Talvez
estejam lá, escondidos.

Ela abriu outra porta e Rocco se viu num aposento bem iluminado, vazio, a não ser pela sua
prancheta, sua cadeira e todo o seu equipamento de trabalho, tudo arrumado com perfeição,
sem faltar um elemento conhecido.

Maxi olhou para ele, completamente feliz consigo mesma. — Não vá pensar que isso
aconteceu da noite para o dia — disse ela, com orgulho.

— Isto...? — É a nossa casa. ”Festa-surpresa!” Você não é tão sabido quanto eu pensava —
disse ela, implicando.

— Você sabe o que eu disse sobre não aceitar nada de sua família... Como pôde fazer isso,
Maxi? — perguntou Rocco, com calma.

— Respeito plenamente tudo o que você disse. Isso não tem nada a ver com aquilo —
respondeu ela, toda satisfeita.
— Então, de onde veio? — De mim. De mim para você, de mim para mim, de mim para
Angelica.

— O que quer dizer, de ”mim”? — O meu fundo em custódia. O que papai fez quando eu nasci.
Passei a ter direito a ele no meu último aniversário. Há outro que vou receber quando fizer 21
anos e outro quando fizer 25... Justin e Toby também têm, claro. É uma maneira de dar alguma
coisa aos filhos enquanto você ainda é vivo, para que o governo não fique com tudo quando
você morrer — explicou Maxi, sem muita certeza quanto aos detalhes exatos.

— O seu pai, conhecendo você, lhe deu uma quantia enorme de dinheiro? — disse Rocco, sua
voz mostrando que ele não estava acreditando.

— Ah, depois que estava feito, ele não podia fazer nada para mudar. Se não, acho que ele não
me teria confiado uma soma tão grande. Mas, está vendo, ele estaria errado, não? Não fiz
nada de loucamente extravagante, pensando bem.

— Pensando em quê? — Que recebi cinco milhões de dólares.

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— Cinco milhões de dólares. — Francamente, Rocco, incluindo o que paguei pelo


apartamento, o que gastei não chegou nem a três quartas partes de um milhão.

— Três quartas partes de um milhão. — Bom, o apartamento não é grande... o suficiente para
nós três — explicou Maxi com paciência. Rocco não parecia estar muito brilhante nessa noite.
— Podemos nos mudar quando tivermos outro filho.

— Está esperando outro bebê? — perguntou Rocco, a voz tensa e neutra. — É outra surpresa
para essa noite?

— Ainda não, pelo amor de Deus! — Vamos embora. — Para onde? — Voltar para o Soho. Se
não quero receber nada dos seus pais, como é que você podia imaginar que eu receberia
esse... esse lugar... de você? — perguntou ele, pálido, numa fúria indignada, insultado até a
medula dos ossos.

— Mas isso não tem nada a ver com os meus pais. É inteiramente diferente._ comprei e
mobiliei esse apartamento com o meu próprio dinheiro. Eu certamente tenho o direito de
gastar o meu dinheiro, não é, Rocco? Afinal, é para nós, para partilharmos.

— Não posso fazer isso. Sinto muito, Maxi, mas não há jeito de eu poder fazer isso. Vai contra
tudo em que acredito.

— Você está sendo teimoso, antiquado e italiano. E tipicamente machista — disse ela, a
paciência se esgotando.

— Estou sendo eu mesmo. Você devia ter-me conhecido melhor quando nos casamos. Eu não
mudei.

— Nem eu — retrucou Maxi, indignada. — E aí — disse Rocco — é que está todo o problema.
Um de nós dois vai ter de mudar.
As mãos dele estavam cerradas, em punhos. Ele já devia saber. Tinha tido tantos avisos, mas
não ligara, idiota mole que era, não querendo crer que ela era tão profundamente mimada,
tão caprichosa e insensata.

— Não me olhe assim, Rocco Cipriani — gritou Maxi. — Adeus, Maxi — disse ele,
laconicamente, com medo de que mais palavras fossem irremediavelmente cruéis, mais cruéis
ainda do que o fim do casamento deles. Ele temera esse minuto desde o início, mas procurara
não pensar na sua intuição aflita do verdadeiro caráter de Maxi. — Mando buscar as minhas
coisas.

Boquiaberta, Maxi ficou olhando para a sala vazia. Ouviu a porta da frente se fechar, devagar,
esperou durante uns minutos que a campainha tocasse, e depois carregou Angelica para a
sala, mobiliada com tanto carinho, e se sentou num dos grandes sofás de veludo castanho.

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— Ele há de voltar, Angelica — disse ela ao bebê. — Ele só precisa entender que não pode
mandar em mim assim. Quem é que ele pensa que é, afinal? Ninguém fala comigo assim, está
ouvindo, ninguém! — E ela rompeu em prantos, num sofrimento terrível, pois já sabia que
nenhum dos dois ia mudar, nenhum era capaz de mudar. Ele não podia nem tentar, devido ao
seu orgulho absurdo e desnecessário, aquele sacana obstinado, e ela não ia ceder, de jeito
nenhum! Ela era Maxi Amberville, afinal. Então, por que haveria de mudar?

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Maxi não chegou a passar uma única noite no apartamento que decorara com um prazer tão
desastroso. Providenciou para que a prancheta e o material de Rocco lhe fossem enviados no
dia seguinte e deu instruções a seu corretor de imóveis para vender tudo, inclusive até a
última panela de cobre, o mais depressa possível, pelo primeiro preço que fosse oferecido.

O divórcio foi realizado com uma presteza discreta e sem publicidade pelo corpo de
especialistas jurídicos da Amberville. Depois que Rocco conseguiu a custódia conjunta de
Angelica, concordou que o bebê morasse sempre com Maxi. Ele voltara a trabalhar para a
Condé Nast, e sua única alternativa possível era contratar uma ama para cuidar de Angelica
quando ele estava trabalhando no escritório, o que não fazia sentido, já que o bebê tinha uma
mãe perfeitamente capaz. No entanto, sempre que podia, ele exercia o seu direito de ficar
com Angelica no fim de semana, juntando-se à legião de pais divorciados no jardim vizinho,
tendo a honra dúbia de ter a filha mais nova do grupo.

Maxi procurou passar pelo período de seu divórcio concentrando-se ferozmente em cada
detalhe da criação da filha. Tornou-se perita em abnegação: não pensar, não recordar, não se
fazer perguntas, não conjeturar ”e se”, enquanto conferenciava com seis merceeiros
diferentes mas pacientes de Madison Avenue sobre a qualidade de seus sucos de laranja e a
origem de seus peitos de galinha. Não obstante, uma dor tremenda e fustigante, localizada
bem no centro de seu ser, vibrava como um diapasão, a não ser quando ela estava de fato se
comunicando com Angelica, mas esse bebê saudável passou tempo demais de seu primeiro
ano dormindo. Maxi suportou aquele tormento cruel em silêncio, pois sabia que não havia
alternativa. Enquanto isso, ela banhava e alimentava Angelica, e a levava para baixo, para
visitar Lily e Zachary. Ela voltara para casa na noite em que Rocco saíra do apartamento novo,
procurando o refúgio mais certo que conhecia.

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Esse período de luto durou todo o outono de 1973 e inverno de 1974. Foi só no fim da
primavera, já com dezenove anos, que afinal chegou um dia em que Maxi se deu conta de que
ela enfim ousava examinar a situação. Ela se preparou para esse processo amontoando vários
travesseiros na cama e se recostando neles, depois de ter colocado o corpinho adormecido e
cheiroso de Angelica no peito, como um cataplasma de mostarda. A menina já estava com
mais de um ano e bastante grande para dar certa proteção para um adulto que tivesse a
infelicidade de ter de examinar o seu próprio estado mental.

Qual era a sua posição na vida, exatamente?, pensou Maxi. Como ela devia se definir? Tinha
uma filha, estava divorciada e dentro de alguns meses estaria com vinte anos. Não era mais
adolescente, nunca seria uma debutante, não era universitária, nem mãe solteira. Por outro
lado, não era uma mulher de trabalho, com uma carreira. Parecia que só lhe restava uma
categoria: a da jovem divorciada interessante, não, digamos, fascinante. Se é que as pessoas
ainda usavam essa palavra.

Então, quais eram as opções para essa jovem divorciada, que possuía milhões da primeira
prestação do seu fundo? Em princípio, o mundo devia estar cheio de opções para alguém com
tanto dinheiro e tanto tempo livre. Evidentemente, ela poderia continuar a morar naquela
grande casa cinzenta, segura e cuidada, e no entanto livre para ir e vir à vontade, já que agora
tinha o status de adulta e não de colegial. Usando a casa dos pais como base ela podia
aventurar-se para... para... fazer o quê?

Em primeiro lugar ela podia — e provavelmente deveria — estudar numa universidade em


Manhattan, ruminou Maxi, mas, droga, primeiro teria de acabar o ginásio. Anos passados
rondando os arredores e desvios do sistema educacional lhe ensinaram que sempre haveria
um ginásio que poderia ser levado a aceitá-la para fazer o último ano, que ela perdera.
Portanto, a universidade era uma possibilidade concreta. Mas será que ela estava com vontade
de assumir o encargo de mais estudos? Não seria um tanto tarde, e no entanto cedo demais,
para voltar aos estudos? Riscou a universidade.

Claro, havia as viagens. Ela podia pegar Angelica, contratar uma ama e passar seis meses na
Inglaterra, onde os avós a apresentariam ao mundo. Os olhos de Maxi quase se fecharam ao se
imaginar conquistando Londres. Compraria os vestidos mais loucos que Zandra Rhodes já
desenhara, alugaria um grande apartamento em Eaton Square, teria um Rolls — não, um
Bentley — não, um Daimler, o tipo de carro que a rainha sempre usava e que era largo demais
para as estradas americanas, e mergulharia em todos os prazeres da sociedade de Londres que
não tinham atraído a mãe, com o auxílio dos bons ofícios do 19? barão e 2? visconde
Adamsfield. Ah, se ao menos os anos sessenta não
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tivessem passado. No entanto, ainda deviam estar à espreita em algum lugar, mesmo que o
movimento tivesse parado. Sim... Londres... Maxi sorriu para o escuro do dossel de chintz
acima da cama até que, de repente, seus olhos se arregalaram numa irritação surpreendida, ao
voltar à realidade. Rocco, aquele papai italiano, impossível e dedicado, nunca permitiria que
ela levasse Angelica para longe dele durante seis meses. Nunca. Portanto, a viagem não era
uma opção, a não ser por duas semanas, no máximo. Riscou as viagens.

Um emprego? A disposição de executar os serviços mais modestos no departamento de arte a


levara aonde estava agora. Talvez o mundo do trabalho não fosse feito para ela. Em todo caso,
tinha uma filha para cuidar. Riscou o trabalho.

Parecia que estava presa ali mesmo, deitada na cama em casa. E isso não podia ser. Não podia!
Ela sentia que estava errado, por mais que os pais evidentemente quisessem que ela ficasse.

Maxi soprou os cabelos de Angelica, com cuidado, e mordiscou um cacho escuro. Os pais não
confiavam nela para viver sozinha. Ela via isso nos olhos deles, se bem que eles tivessem o
cuidado de não dizer nada que indicasse que a situação atual fosse mais do que provisória.
Mas ela lia seus pensamentos aflitos. Eles gostariam que ela ficasse até que aparecesse outro
homem, um mais adequado, para atraíla de volta a uma domesticidade que Maxi não tinha a
menor intenção de tentar de novo.

O processo de eliminação só a deixara com uma opção. Precisava ter sua casa em Manhattan.
Tinha de sair dali! Se ela não se mexesse, cairia no papel confortável, conhecido mas
positivamente fora de época, de filha da casa. Maxi sentiu uma pontada breve de apreensão.
Nunca havia morado sozinha. Fora direto da casa do pai para a casa do marido e depois direto
para a casa do pai.

Mais motivo ainda, pensou Maxi, os lábios apertados, num desafio, para ir em frente. Ia
começar a procurar casa no dia seguinte mesmo. Queria uma casa na cidade, já que não podia
ter Londres, uma linda casinha de pedra em que poderia receber os amigos. Que amigos?
Desde aquele dia — ah, dia diabólico — em que entrara no departamento de arte de Savoir
Vivre, dois anos antes, estivera tão embrenhada no drama de sua própria vida que perdera
contato com todo mundo que conhecia, de sua idade, a não ser India, que, tão egoisticamente,
fora para a universidade. Mas ela devia conhecer alguém. Uma famosa anfitriã não dissera um
dia que para atrair convidados bastava abrir uma lata de sardinhas e proclamar o fato? Ela
compraria um abridor de latas, pensou Maxi, e uma lata de sardinhas. Se a vida lhe ensinara
algo, era que uma coisa leva a outra. Se houvera outras lições pelo caminho, ela não as
aprendera.

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Depois que resolveu deixar a proteção dos pais, Maxi logo arranjou a casinha perfeita, e
descobriu uma equipe de decoradores, Ludwig e Bizet, para transformá-la num ambiente que
não tinha nada a ver com a cronologia. Não era a casa de uma garota impulsiva, e sim de uma
herdeira serena, com uma tendência para interiores ecléticos que peritamente degelavam o
estilo Luís XV com toques venezianos de muita fantasia, a combinação suavizada com chintz
inglês.

Depois da primeira incursão de Maxi na introspecção, ela meditava longa e freqüentemente


sobre o seu futuro. Descartara a categoria de jovem divorciada quase tão depressa quanto
pensara nela. Havia tantas outras mulheres divorciadas em Manhattan, formando um clube
vasto e não-registrado, que ela preferia não se juntar a elas. Com muito mais arte e disciplina
do que empregara ao se preparar para seu primeiro dia no trabalho, ela começou
cuidadosamente a criar uma nova Maxime Emma Amberville Cipriani, que seria
imediatamente reconhecida como viúva. A viuvez — prematura, cruel, acidental e misteriosa
— era um estado tão mais desejável do que qualquer outro que lhe fosse acessível. Era um
estado que combinava certo status tristemente elegante com uma distinção e uma aura de —
poesia? — sim, poesia, se ela agisse certo, pensou, os lábios tremendo com um sorriso
reprimido.

Maxi se treinou para a viuvez por meio do abrandamento melancólico de seu sorriso; por uma
dignidade sintonizada, valente, em que se envolveu. Ela amenizou o campo de energia em que
costumava se mover e o virou para dentro, de modo que ficou evidente — mas nunca
imediatamente ou dolorosamente óbvio — que estava sofrendo de um pesar mudo, com o
qual não queria incomodar os outros. Ela agora só se vestia de preto, em todas as ocasiões: um
preto sério, caro, maldosamente atraente. A única jóia que usava era o presente de casamento
dos pais, um maravilhoso colar de pérolas birmanesas de duas voltas, graduadas de 12mm a
19mm, cada globo perfeitamente redondo irradiando um brilho sem igual, e, claro, o
ornamento necessário à viúva, uma aliança de ouro modesta e simples, que tinha vontade de
atirar no lixo. Assim que ficava em casa sozinha, Maxi trocava de roupa e punha seus jeans
velhos e camisetas usadas, mas nunca saía de casa sem estar vestida de preto da cabeça aos
pés, mesmo se fosse para o campo, de calças pretas e blusa de seda preta. Maxi usava suas
habilidades de maquilagem para conseguir uma palidez deliciosa, jogou fora sua coleção de
blushes e batons e concentrou-se em escurecer modestamente a pele em volta dos olhos com
cinzas e castanhos enfumaçados. Se ao menos índia estivesse ali para apreciar os seus
esforços, pensou ela, com saudade, ensaiando seus efeitos.

Assim como reprimira sua gargalhada gostosa, Maxi fazia questão de nunca falar de si. Em vez
disso, adquiriu a habilidade de fazer as pessoas dissertarem sobre seu tema sempre favorito:
elas próprias.

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Aprendeu a evitar habilmente todas as perguntas acerca de sua vida privada e maquinalmente
recusava dois em cada três dos seus muitos convites — pois as sardinhas tinham tido um
efeito maravilhoso — para ficar em casa com Angelica. Se bem que tivesse uma tentação
profunda e constante, nunca chegou a dizer a alguém que Rocco Cipriani havia morrido — bem
morto — mas nunca se referia a um ex-marido, ou um casamento anterior.

Como o tempo em que as pessoas se dão ao trabalho de se lembrar dos detalhes das vidas
particulares dos outros em Manhattan é determinado pela quantidade de lenha jogada ao
fogo, Maxi conseguiu estabelecer a sua viuvez dentro de um ano, quando fez 21 anos.
Não era uma viuvez sem distrações. Com a maior discrição, ela teve uma dúzia de amantes,
não numa sucessão muito rápida; todos impecáveis, bons partidos, loucos para casar com ela e
isentos de problemas apresentados por uma aliança com um homem que poderia não
compreender que o dinheiro dela era dela, para gastar conforme ela quisesse. No entanto,
nenhum deles lhe parecera suficientemente necessário para ser conservado mais do que
alguns meses. Maxi se convenceu de que nunca mais se apaixonaria, e essa idéia, embora
melancólica, era compensada pela liberdade que lhe dava. Ela se gabava de ter-se tornado
uma heroína modernizada de Henry James, uma mulher com um passado apenas vagamente
conhecido; cujo presente era provocadoramente privado, e no entanto iluminado pelo clarão
de sua independência, sua família, sua fortuna e — por que não ser clara — seu rosto; uma
mulher cujo futuro encerrava uma promessa infinita.

Num fragrante mês de agosto, em 1978, Maxi estava andando para a entrada do cassino em
Monte Carlo. Ia sozinha, descansada, sabendo que o principado possuía um policial para cada
cinco visitantes e todas as mulheres podiam usar com segurança todas as suas jóias em
público, mesmo na ruazinha mais escura da cidade. Sentia em seu íntimo que havia um lugar
de sorte reservado para ela na mesa do chemin de fer, mas não estava com pressa de entrar
em ação.

Era a primeira noite que Maxi passava em Monte Carlo e, literalmente, a primeira vez em sua
vida que tinha uma liberdade total de ir e vir à vontade, sozinha, sem que ninguém lhe
perguntasse nada e sem ter de prestar contas a ninguém. Os pais estavam em Southampton.
Rocco, por fim, conseguira arrumar as coisas na revista de modo a ter folga no mês de agosto e
levara Angelica para visitar os pais dele no campo, perto de Hartford.

Maxi recusara vários convites para passar tempos em casa de amigos ou para viajar com eles, e
discretamente, reservou uma suíte para si no Hotel de Paris em Monte Carlo, uma suíte de
esquina, de proporções majestosas, com uma grande sacada semicircular dando para

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a saleta, de onde ela contemplava o pôr-do-sol. Ao longe, abaixo dela, via-se o porto
movimentado de Monte Carlo; mais além, num promontório rochoso e saliente, erguia-se o
palácio, e além do palácio estava o céu notável, encontrando-se com o mar notável, no qual
dezenas de barcos de recreio estavam entrando no porto. Aquela vista da suíte de Maxi não
revelava qualquer sugestão de que, todas as semanas, mais uma das villas eduardianas que
por tanto tempo tinham feito o encanto da cidade, era demolida para dar lugar a mais um
prédio de apartamentos alto, moderno, ao estilo de Miami; nenhuma sugestão de que todos
os centímetros cúbicos do território dos Grimaldi estavam sendo explorados com um método
nada sentimental, que era muito mais suíço do que mediterrâneo.

O mês de agosto, por mais quente que seja, é a temporada certa para Monte Carlo, o mês dos
bailes e fogos de artifício, do balé e uma reunião de uma variedade especial — e muitas vezes
esquisita — de ricos do mundo inteiro que nunca perdem essa visita anual a Mônaco. Agosto é
aquele período de bonificação de 31 dias em que aqueles exilados fiscais de 99 países, cujos
advogados e contadores ordenam que residam em Mônaco, podem alugar suas moradias
caras e ganhar o suficiente para poder custear a sua manutenção durante os outros onze
meses: o único mês em que os atracadouros de iates na baía valem ouro, o único mês em que
o mito de Monte Carlo renasce, anualmente.

Maxi também estava se sentindo inebriantemente renascida. Preparando-se para sua viagem,
ela adquirira um guarda-roupa novo que enchia sete valises, um guarda-roupa de onde todo o
preto tinha sido banido; armara-se com uma enorme carta de crédito para um banco local e
naquela tarde mesmo tinha trocado tantos dólares em francos que sua bolsa de noite estava
estourando.

Certo jogo de pôquer com apostas altas, em Beekman Place, realizado todas as noites em Nova
York, vez por outra animara sua viuvez suntuosa, nos primeiros tempos, mas Maxi sempre
tivera vontade de visitar um cassino de verdade, que não se parecesse em nada com Las
Vegas. O jogo, pensava ela, parecia um pouco com as compras... não se podia fazer direito
como parte de um casal. Fosse o que fosse — uma questão de habilidade, de sorte, ou mesmo
de escolher números — todo jogo se resumia numa opção, e a opção não é uma atividade de
colaboração ou cooperativa, a que se chegue com alguém olhando e dando sugestões. Faria
bem a ela, pensou Maxi, virtuosamente, tentar a sorte. A viuvez era tão restritiva. Ela merecia
se regalar e, evidentemente, todos que se dirigiam para a entrada do cassino se sentiam
igualmente festivos.

As primeiras salas grandes do edifício enfeitado foram decepcionantes, cheias de turistas mal
vestidos jogando nos caça-níqueis, e os

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tetos altos e pintados parecendo contemplar com pesar aquelas atividades. Mas depois de
passar pelos homens severos que guardavam a entrada para as salas particulares, Maxi
descobriu que a lenda do Cassino de Monte Carlo ainda existia, tão autêntica e rígida, tão fixa
na história como se fosse um navio a vela de quatro mastros que tivesse velejado do passado,
sem se saber como. Um glamour eduardiano, voluptuoso e desavergonhado, se derramava
num esplendor dourado; um ritmo de valsa abafava os compassos loucos de jazz das primeiras
salas, um brilho rosado substituía as luzes intermitentes dos caça-níqueis. Pessoas bem
vestidas, falando baixo, com um ar deliberado, se moviam aqui e ali no ar carregado com uma
empolgação quase insuportável, a emoção que só pode existir num espaço dedicado ao jogo,
apostas, paradas, seja o que for. Ninguém era imune a esse feitiço, muito menos Maxi
Amberville.

Controlando o seu andar rápido de nova-iorquina, Maxi entrou no cassino com uma pose
apropriada, com a confiança em si, que nunca pode ser assumida, de uma mulher bonita que
está perfeitamente à vontade sem um acompanhante. Ela estava com um vestido comprido de
chiffon, sem alças, um tom mais claro do que seus olhos, e tão diáfano que chegava a ser cruel.
Os cabelos pretos, que em Nova York ela usava puxados severamente para trás, estavam
soltos sobre os ombros. Ela transformara o colar de pérolas de duas voltas em uma volta
comprida, pendurada pelas costas brancas e nuas, e pusera um ramo de pequenas orquídeas
brancas entre os seios. Nada nela sugeria a viuvez... nem a virgindade. Sua aparência era tão
meticulosamente perversa quanto ela se estava sentindo: uma bela felina solta na cidade.
Ainda era muito cedo para jogar bacará ou chemin de fer, ela decidiu. Ia tentar a roleta só para
aquecer e se orientar. Ela nunca jogara aquilo, mas parecia um jogo tolo, fácil, de criança, que
não exigia qualquer habilidade.

Maxi foi ao caixa e comprou fichas no valor de dez mil dólares, recebendo cem fichas pretas
grandes, cada qual valendo quinhentos francos. Ela não poderia ter muito prejuízo com esse
pouquinho, pensou Maxi, sentando-se numa cadeira na mesa de roleta mais próxima.
Resolveu jogar na sua idade e pediu ao crupiê para colocar dez fichas no 23, preto. A roda
girou, parou, e Maxi ficou mil dólares mais pobre. Talvez o seu próximo aniversário? O 24
preto não deu nada. Não obstante, pensou, se tivesse dado, ela teria ganho 35 mil dólares, já
que todos os números pagavam 35 por um. Onde estava a sorte de principiante a que tinha
direito? Por outro lado, a roleta normalmente não era considerada um investimento, ela se
obrigou a lembrar, ao pensar na sua próxima escolha. O homem a seu lado falou com o crupiê.

— Dez no zero — disse ele, com um sotaque que Maxi não conseguiu identificar.

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Ela olhou para ele com curiosidade. Ele estava apoiado num cotovelo, como se só aquele osso
o estivesse sustentando, e estava com o smoking mais miserável e surrado que ela já vira na
vida. Os cabelos escuros estavam necessitando de um corte, as faces cavadas deviam ser
barbeadas e os olhos precisavam se abrir, pois as pálpebras estavam tão abaixadas e as
pestanas pretas eram tão compridas, que parecia impossível que ele conseguisse ver. Ele
parecia um espantalho, um espantalho caceteado mas estranhamente elegante, que fora
deixado nos campos até que os pássaros o tinham quase despedaçado. Ela recuou
ligeiramente. Obviamente esse era o tipo de gentalha para quem uma aventura imprudente na
roleta era o episódio final numa sórdida história de devassidão. Será que havia algo de
decadente naquele perfil bem-feito? No entanto, ele tinha as mãos mais lindas que ela já vira,
com unhas impecáveis. Um jogador de cartas profissional, um trapaceiro? Provavelmente não,
pois qual o profissional que se prezasse sonharia em aparecer assim tão mal-ajambrado, tão
pateticamente maltrapilho?

Maxi perdeu mais setenta fichas, distraída, continuando a fazer o inventário do homem que só
olhara para ela de relance. Devia ter seus trinta e poucos anos, pensou ela, e provavelmente
era irlandês, pois quem, a não ser os irlandeses, possuía essa combinação de pele tão alva e
cabelos pretos? Se os olhos dele fossem azuis, essa seria a prova final, mas continuavam
tapados. Ele perdeu suas dez fichas de quinhentos francos e languidamente pôs o equivalente
a mais mil dólares no zero, outra vez. A expressão dele não mudou e ele não pareceu se
interessar pela dança louca da bola quando a roda girou, primeiro depressa, depois parando
aos poucos. Maxi perdeu de novo e notou, fascinada, que o homem usava sapatos de tênis
velhos e meias brancas deformadas, e que o smoking estava por cima de uma camiseta branca
sobre a qual ele pusera a gravata obrigatória com tanta displicência como se fosse um
barbante. E provavelmente era mesmo um barbante; e um barbante esfarrapado, ainda por
cima.
Maxi se deu conta que só lhe restavam dez fichas. Ela fez sinal para o funcionário que atendia
à mesa e lhe deu dinheiro para comprar mais cinqüenta fichas. O seu vizinho ergueu os olhos
ao ouvir a voz dela.

— Dez para mim, por favor — disse ele, com naturalidade, sem apresentar o dinheiro.
Evidentemente, ele estava esperando crédito do cassino, pensou Maxi.

— Sinto muito, senhor — disse o funcionário, recusando o pedido.

— Nada mais? — Receio que não, senhor.

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— Não é a minha noite. — Ele fez o comentário com uma falta de expressão infinita.

— Não, senhor — concordou o funcionário, indo buscar as fichas de Maxi.

Então, ele era irlandês, pensou ela. Não havia como disfarçar o azul profundo e clássico dos
olhos dele durante aquele breve interlúdio. Um rato irlandês, provavelmente da tripulação de
um dos iates na baía, que fora ao cassino com um smoking emprestado e perdera o seu último
franco ou cent ou vintém, ou o que quer que tivesse quando entrara. No entanto, a voz dele
não tinha o cantar irlandês, mas um outro sotaque — inglês mas não britânico, fosse isso o que
fosse, pensou ela, confusa.

Ele procurou nas meias e puxou cinco fichas pretas de dentro de cada uma com um olhar
supinamente indiferente. Maxi achou que ele devia estar guardando aquele tesouro para um
momento assim. Ela viu que estava com pena da criatura irresponsável. Havia alguma coisa
galante e comovente no fato dele se recusar a demonstrar o seu desespero absoluto.
Evidentemente, estava no fim da linha. Quem sabia lá que destino o esperava após perder suas
últimas fichas? Ele provavelmente pedira emprestado o dinheiro com que estava jogando. Ou
até roubara. No entanto, ele colocou as dez fichas no zero de novo, não guardando uma
sequer para ter a possibilidade de jogar mais uma vez. Ela prendeu a respiração quando a roda
foi perdendo a velocidade e a bolinha parando. No zero. Maxi bateu palmas, encantada. Eram
35 mil dólares. Isso devia impedi-lo de se matar. Ela sorriu para ele, felicitando-o, e viu, sem
acreditar, que ele nem levantara as pálpebras. Ela deveria cutucá-lo? Ele não tinha visto?

Houve um movimento interessado quando o crupiê aceitou as apostas seguintes, mas o


homem junto a Maxi nem se mexeu. Por fim, o crupiê disse:

— Ainda no zero, senhor? - É. Ele ia deixar o dinheiro correr, pensou Maxi, horrorizada. As
possibilidades de que o zero desse duas vezes seguidas eram ínfimas. Ele estaria louco,
bêbado, dopado, ou não entendia o jogo?

Maxi se esqueceu de apostar, lutando para não dizer alguma coisa, e quando o crupiê disse
”Rien ne va plus”, ela se deu conta de que era tarde para dar conselhos. Ela suspirou e esperou
o inevitável enquanto a roda girava, a bola saltava e pulava, a roda diminuía e a bola caía. No
zero. Ouviu-se uma exclamação em coro do pessoal em volta da mesa. O espantalho tinha
ganho 35 vezes cinco mil francos. Até mesmo a tabuada enferrujada de Maxi lhe dizia que era
mais de um milhão de dólares americanos. Bem mais. Isso devia fazer com que ele abrisse os
olhos, parecesse um pouco menos desesperançado, pensou

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ela, virando-se para ele e encontrando o olhar dele pela segunda vez. Seria um sorriso nos
lábios dele? Estaria levantando as pálpebras? Haveria um pouco de colorido em suas faces?
Não, positivamente não. Ele continuava apoiado num cotovelo, não pegara as fichas, não
parecia menos reservado ou isolado do que quando o funcionário lhe recusara crédito.
Evidentemente, era um doente mental.

— Tire essas fichas de cima da mesa — mandou ela, baixinho. — Por quê? — perguntou ele,
com calma. — Porque se não vai perder tudo, seu idiota. Não discuta. É a oportunidade de
uma vida toda — disse Maxi, silvando furiosamente.

— E jogar seguro? — perguntou ele, parecendo achar certa graça.

O movimento da mesa parara, enquanto o crupiê aguardava que um funcionário do cassino lhe
autorizasse a aceitar a aposta. O funcionário chegou, olhou para o espantalho com uma
expressão indefinível e, com relutância, fez sinal para o crupiê prosseguir. Enquanto uma
porção de gente rodeava a mesa, numa algazarra, Maxi, em sua agitação, se esqueceu de
apostar. O homem, evidentemente, estava louco. Criminosamente louco. A lei das
probabilidades não fora suspensa por ele e não havia jeito de a bola voltar ao zero pela
terceira vez. O cassino sabia disso tão bem quanto ela, ou nunca teria permitido que o jogo
continuasse. Quantos homens tiveram a oportunidade de realmente quebrar a banca em
Monte Carlo? O crupiê se ocupou com os outros jogadores e só depois que todos tinham feito
suas apostas é que ele tornou a olhar para o espantalho.

— Vai ficar no zero, senhor? — Por que não? — perguntou ele, quase bocejando. Maxi ficou
olhando, indignada, quando o crupiê começou a fazer a roda girar. Não se ouvia um pio. Os
lábios do crupiê se abriram para dizer as palavras ”Rien ne va plus”, e nessa fração de segundo
Maxi se lançou loucamente na pilha de fichas do zero. Ela as varreu todas de cima da mesa,
espalhando-as em volta do homem ao seu lado antes que a aposta pudesse ser completada e
as fichas perdidas para sempre.

Um rugido escandalizado e de incredulidade ergueu-se dos presentes. A quebra da etiqueta do


cassino era tão inimaginável que a atenção geral passou da roda para Maxi. Indignada, ela
olhou para todos, furiosa. Bárbaros, pensou ela, com raiva. Todos esperando ver alguém ser
lançado às feras. Pois esse prazer vocês não vão ter, seus sacanas, mesmo que eu pareça uma
idiota. Ela fitou o grupo que tagarelava, com uma certeza virtuosa, até perceber que o
espantalho permanecia olhando para a roda, não tendo tocado em nenhuma das fichas que
ela lhe salvara. Um suor frio percorreu seu corpo, como um relâmpago. Ela acabara de se
lembrar de outra coisa sobre a lei das probabilidades. Cada giro da roda era um novo começo,
como se ela nunca ti-

176
vesse girado antes. Ah, não, rezou ela, não, por favor. Naquele silêncio total e repentino do
cassino, só se ouvia a roda. Maxi fechou os olhos. Uma exclamação alucinada e incrédula
partiu dos presentes. Zero. De novo. Maxi ficou sentada ali, gelada, esperando a morte. Ela a
merecia. O assassinato era bom demais para ela. A mão se estendeu e se fechou no seu braço.
Ele ia quebrá-lo. Osso por osso, cada osso em seu corpo. Tinha todo o direito. Ela nem se
defenderia.

— Ninguém pode dizer que você seja uma companhia barata — comentou o espantalho,
levantando-se de seu lugar, erguendo-a com ele, deixando as fichas que Maxi varrera da mesa
para serem apanhadas por um empregado.

Maxi abriu os olhos e caiu em prantos. Ela ia viver. Ele era ainda mais louco do que ela
imaginara, mas não criminosamente louco.

— Não gosto de ver uma mulher chorar — comentou ele, com bondade.

Maxi parou imediatamente. Não ousava não parar. Ele lhe deu um lenço espantosamente
limpo e ajudou-a a assoar o nariz e enxugar os olhos.

— É só dinheiro — disse ele, sorrindo pela primeira vez. — Só dinheiro! Mais de quarenta
milhões de dólares? Ele deu de ombros. — Eu o teria perdido de volta, inevitavelmente, um
outro dia. Não pensa que me teriam deixado apostar se não tivessem certeza disso, pensa?
Você não está trabalhando para a casa, por acaso? Não, creio que não. Mas eles lhe devem
uma bebida de graça. Venha, vamos nos sentar aqui e eu peço. Champanha?

— Alguma coisa muito mais forte — pediu Maxi. — Muito bem. Tequila, então, tequila Buffalo
Grass. — Ele fez sinal para um garçom. — O de sempre, Jean-Jacques, e um para a senhora.
Duplo.

— Pouca sorte, Monsieur Brady — disse o garçom, com pena. O espantalho olhou bem para
Maxi. — Não necessariamente, Jean-Jacques, não necessariamente. — Ele se virou para Maxi.
— Beba e eu a levo em casa.

— Ah, não, não precisa fazer isso — ela protestou. — Acho que devo. Afinal, agora sou dono
de você. No valor de quarenta milhões, pelo menos.

— Oh! — Você concorda? — perguntou ele, educadamente. — Sim, claro. É mais do que...
justo. E Maxi pensou: pode haver destinos piores. Bem, bem piores. Mas ela positivamente
teria de fazer alguma coisa sobre as roupas dele.

Dennis Brady foi o primeiro emigrante vivendo de mesadas de ca-

177

sa que a Austrália mandara de volta para a terra de origem. Um século antes, o antepassado
dele, Black Dan Brady, emigrara de Dublin para a Austrália e fizera uma fortuna ao descobrir
enorme jazida de prata em Wasted Valley, no sertão de Nova Gales do Sul. Nas décadas que se
seguiram, a Wasted Valley Proprietary Company descobriu quantidades imensas de minério de
ferro, carvão e manganês. Em 1927, além da operação das minas, o seu ativo incluía grandes
usinas siderúrgicas e empresas petrolíferas que representavam três por cento do produto
interno bruto da Austrália, e um fluxo monetário de quase um bilhão de dólares por ano. O seu
principal passivo era o rebelde acionista principal, o órfão e único herdeiro da fortuna Brady,
Bad Dennis Brady, que estava enfadado, caceteado, aborrecido, com Melburne; aborrecido,
caceteado, enfadado por ser o homem mais rico da Austrália; caceteado, enfadado, aborrecido
com as conversas de perfurar petróleo no litoral da China, encontrar cobre no Chile ou minerar
ouro na África do Sul. Dennis Brady não tinha o menor interesse em extrair mais um grama ou
pingo de fosse o que fosse deste planeta. Por outro lado, adorava uma aposta. Mas o jogo não
é permitido na Austrália e o cassino mais próximo, na Tasmânia, já perdera tanto dinheiro para
ele que o tinham barrado do jogo para sempre.

Não podiam chamá-lo de ovelha negra, disse ele na reunião do conselho diretor de Wasted
Valley que convocara, porque uma ovelha negra não paga as dívidas; nem podiam chamá-lo de
esbanjador, porque ele muitas vezes acabava ganhando; e, no final das contas, acabava quase
em casa, se bem que ele soubesse perfeitamente que as probabilidades sempre estariam a
favor da banca. Mas ninguém podia chamá-lo de um elemento de valor para a companhia,
tampouco. E não havia necessidade de se votar sobre isso, senhores, muito obrigado. Ele
tentara, Deus sabia que ele tentara durante 29 anos tristes, ser motivo de orgulho para a
dinastia Brady, mas a coisa não ia dar certo. Aborrecido demais, danado de aborrecido demais.
Não seria melhor para todos se ele desse o fora, voltasse para onde quer que fosse de onde os
Bradys tinham vindo, e os deixasse cuidar do negócio da família? Todos a favor digam sim —
não, não precisa de formalidades — ele acabara de se lembrar que possuía mais do que ações
suficientes para dar o voto de Minerva. Poderia oferecer um drinque de despedida a alguém?

— E aí, o que aconteceu? — perguntou Maxi, fascinada com a história dele.

— Disseram que ainda era meio cedo para um drinque, mas que achavam que eu talvez tivesse
tido uma boa idéia e todos se apertaram as mãos. Boa gente. Sem dúvida continuam
perfurando, fundindo, forjando e procurando novas companhias para comprarem. São
trabalhadores como um bando de ajudantes gigantes de Papai Noel... moti-

178

vados, comerciais, patriotas, bons para as mães... úteis, mas todos são terrivelmente cacetes.

— Você voltou para a Irlanda? — Deus do céu, não. Nunca fui apreciador de corridas de cavalo
nem de criar os bichos... sou alérgico a cavalos e não suporto chuva. Vim direto para cá,
comprei esse iate lindo e estou aqui desde então. Não é o maior do porto, mas não é nada de
que me envergonhe. E é o barco mais feliz da baía.

— Mas o que é que você faz, Dennis? — O que faço? Bem... eu... vivo, sabe? Um pouco aqui,
um pouco ali. Faço esqui aquático, bebo um pouco, bebo muito, escuto música, velejo, vôo no
meu helicóptero... às vezes até levamos o barco para fora, por um ou dois dias. É uma vida
cheia. De vez em quando fico tão ocupado que nem chego ao cassino antes da meia-noite. Lá
eu me coloquei num limite de crédito rigoroso... se não, podia ficar monótono.

— Você nunca mais fica chateado.? — Digamos que não estou agora. Nunca possuí uma garota
de quarenta milhões de dólares. O que será que vou fazer com você primeiro?
— Talvez se pensasse em mim como apenas uma garota... — murmurou Maxi, tentando ver o
rosto dele na escuridão do convés. A maioria dos outros iates no porto já haviam apagado
todas as luzes, menos as de navegação, enquanto eles conversavam, e Bad Dennis Brady tinha
quase desaparecido na noite sem lua. Ela percebeu que estava sentindo mais do que pensava
não poder ver o rosto dele, meio trágico, meio fantástico.

— Mas se você fosse ”apenas” uma garota eu nunca teria contado tudo isso — protestou ele.

— De que é que você fala com as garotas que não possui? — Não falo muito — disse ele,
melancólico. — Você é tímido — diagnosticou ela. — Não basicamente. Só sou australiano. Os
homens australianos preferem agir a falar, quando se trata de mulheres. Pelo menos, é a idéia
geral.

— Mas, segundo você, ninguém jamais foi menos tipicamente australiano.

— Bom, não posso ser, posso? Tenho má coordenação motora, sabe. Nunca fui bom em jogos,
especialmente futebol. Quando meus pais morreram, meus tutores me mandaram passar
muito tempo na Inglaterra, de modo que nem falo direito. Meio australiano e um desajustado
total, eu acho.

Ele deu um suspiro patético no escuro e pegou a mão de Maxi. No minuto em que tocou nela,
ela viu que havia pelo menos um espor-

179

te em que Dennis Brady tivera boas notas. Displicente, excêntrico, confessadamente só


prestava para vadiar, mas não, ah, positivamente não era inofensivo. Todos os sinais de alarma
em seu organismo soaram.

— Ah, pobre Bad Dennis, é uma história triste, sem dúvida — entoou ela. — Mas por mais que
me incomode ter de lhe avisar... o taxímetro está correndo. — O taxímetro? Ah, claro... Eu
quase tinha esquecido. Quanto

foi?

— Um milhão de dólares. — Por semana? — perguntou ele, esperançoso. — Não, Dennis —


disse ela, com paciência. — Por dia? — Ele tentou parecer que não acreditava. — Por hora... e
você passou duas delas falando. — Deus do céu! Acho que isso é um pouco alto. Por outro
lado, é menos do que a roleta. Ou devia ser, se feito direito. Bem, tem certeza?

— Tenho — respondeu Maxi, animada. — Nesse caso, quem sabe você gostaria de... ir lá para
baixo? — disse ele, levantando-se de um salto.

— Recebo ordens — respondeu Maxi. — Gosto desse jogo — declarou Dennis Brady, feliz. —
Mesmo que não se possa apostar nele.

— Você pensaria em se casar com uma pessoa como eu, Maxi? — perguntou Dennis Brady,
com humildade.
Num sobressalto, Maxi se virou para ele, deitado ali no beliche do camarote principal do iate,
comprido, magro e inesperadamente forte. Sem aquelas roupas deploráveis, ele era um
homem muito bem-feito e toda a energia que ele não quisera dedicar aos direitos minerais
parecia ter sido guardada só para ela, a julgar pelo último dia e meio.

— Uma pessoa ”como” você?... Não existe ninguém como você, Dennis, se não o mundo seria
um lugar diferente... nem agressão, nem ambição, só sexo e cassinos... talvez o paraíso seja
assim.

Ela estava deliciosamente dolorida em todos os músculos, importantes ou não, e sua cabeça se
achava tão feliz e atrapalhada que era quase impossível falar, quanto mais pensar.

— Bom, para dizer a verdade, eu quis dizer eu, especialmente. É, eu mesmo, Maxi.

— Se eu consideraria? Casar com você? — É essa a idéia, é. — Que horas são, Dennis? —
murmurou Maxi, lembrando-se. — São dez da manhã. — Há quanto tempo estamos a bordo?
— perguntou ela, com um grande bocejo.

180

— Há exatamente 34 horas. Ah, Maxi, querida, vamos, responda.

Maxi fez um esforço para pensar. Isso parecia importante. — Vamos ver... 34 horas, mais as
duas horas que você passou falando são 36, isso deixa mais quatro horas... portanto... se você
conseguir arrumar as coisas antes de acabar o prazo, o que posso fazer?

— Eu tinha esperanças de que você pensasse assim — disse Dennis Brady, alegre,
embrulhando uma toalha na cintura e pegando o fone ao lado da cama. — Comandante,
quanto tempo leva para se chegar nas águas internacionais? O quê? Não, não quero saber do
capitão do porto. Quantos da tripulação foram em terra? Bom, dê um jeito, homem, dê um
jeito. Aliás, você é um comandante de verdade, não é? Sei, claro, já vi a sua certidão. Já
realizou algum casamento? Só um enterro no mar? Bem, se pode fazer um, pode fazer o outro.
Pegue a sua Bíblia, comandante, e vamos em frente.

— Não tenho roupa — disse Maxi, maquinalmente, morrendo de rir. Sra. Bad Dennis Brady. O
que iam dizer? O que importava? Que amor que ele era. Como iam se divertir! Ela não era
responsável, mesmo. Todo. mundo sabe que é preciso pagar uma dívida de honra, senão a
gente perde a reputação.

181

14

Coitadinho do amor do Bad Dennis — disse Maxi, pensativa, sentada com India num almoço
frívolo no Bistro Garden, em Beverly Hills. — Continua a me mandar os postais mais tristes, e já
faz mais de um ano que o deixei. India parou ao levar aos lábios um pedaço da melhor lingüiça
da

cidade.
— Por que parece meio triste? Eu me lembro bem que você me disse que não agüentava a
vida em Monte Carlo nem mais um minuto. Eu me lembro até que você citou Emerson. ”Viver
sem deveres é obsceno.” Não foi isso?

— Foi. Ainda seria. Lamento profundamente mais um divórcio, mas nunca hei de me esquecer
que o queridinho não se aborrecera um minuto durante os poucos meses que passamos
casados, e que eu estava ficando alucinada. Ah, India, era tão chato, tão chato viver com um
homem que não fazia nada em especial, que só ficava ali, sendo um vagabundo inteiramente
irresponsável e alegre, sem sentir a menor culpa por isso. Acho que ficava comparando-o com
o meu pai, o que não era justo, claro, porque Dennis já me avisara sobre o que ele era. Você
sabe o que o meu pai realiza todo dia, como é entusiasta do trabalho dele, como comunica
aquela energia e como eu o admiro? Acho que ele me estragou para um homem que pelo
menos não esteja tentando fazer alguma coisa, não importa o quê. O que é mais: fazer a
coitadinha da Angelica e da Babá Grey viajarem todo mês de Monte Carlo a Manhattan era
quase impossível, mas aquele sacana do Rocco de jeito nenhum admitiu que ela passasse mais
da metade do tempo comigo. Ele arranjou um apartamento muito maior, com bastante lugar
para Angelica e a babá, e como ele tem a custódia conjunta o que é que eu podia fazer? É
verdade que Angelica podia estar recebendo atenções demais, com uma tripulação de vinte
homens, todos mimando a menina.

182

— E o sexo, também ficou chato? — Não — disse Maxi, suspirando. — Seria melhor se tivesse
ficado. Mas a gente não pode basear todo o futuro sobre a atração sexual.

— Você não pode? — indagou India, desconfiada. — Não além de um certo limite. E eu não
queria chegar a esse dia, de modo que parti antes que acontecesse.

— Tem certeza de que ainda não está meio apaixonada por ele? — disse India, na dúvida.

— Na verdade, acho que nunca estive ”apaixonada” por ele... Eu o amava, só isso... ele era tão
carente, perdido e... ávido. Adorei o australiano nele. Se ao menos ele não estivesse tão
resolvido a ser vagabundo... — Maxi suspirou. — Eu gostava dele, sim, India, mas não o
suficiente, nada o suficiente. — Ela olhou severamente para o seu salmão frio e desejou que
também fosse lingüiça.

Maxi tinha ido de avião a Los Angeles para visitar India, que ganhara um fim de semana livre,
entre filmes. India entrara no estrelato do cinema com a facilidade irritante com que passara
pela escola com as notas máximas, e Maxi sentia ciúmes daquela indústria tão exigente, que
prendia a amiga tão longe de Nova York, ou a mandava filmar em lugares impossíveis; ciúmes
do metabolismo perfeito que conservava India esguia, comesse o que comesse; é, ciúmes até
por ter certeza de que India estava se divertindo, a despeito de suas queixas de que ser atriz
de cinema era um trabalho penoso, na melhor das hipóteses comparável a ser internada com
privilégios numa prisão com um mínimo de segurança.

— Bom, esqueça-se de Dennis Brady — aconselhou India, atacando um monte de cebolas


douradas.
— Já esqueci, há muito tempo. Foi você quem tocou no assunto. — Só perguntei se havia
homens novos na sua vida e você disse que não havia nenhum que se comparasse a Bad
Dennis.

— India, como é que você está indo ao analista e continua me dando conselhos? — perguntou
Maxi, com aspereza.

— Por que é que o fato de ser neurótica me impede de ajudar os outros? — perguntou India,
ofendida. As pessoas não entendiam nada da psicanálise, nem mesmo Maxi.

— Não sei por que é que você passou a se considerar neurótica — respondeu Maxi. — Não
está nada diferente do que era, ao que eu saiba: precoce, frágil, bonita demais e meio bizarra.
Mas agora é famosa.

— Sou uma neurótica do tipo que não deixa um homem se aproximar dela emocionalmente, a
não ser que ele seja um neurótico com um espanador de penas de um metro preso na cabeça
— disse India, pensativa. — E a fama só piora as coisas.

183

— O que é que essa Dra. Florence Florsheim vai fazer com você?

— Fazer? Não é para ela fazer nada... eu é que tenho de mudar. O melhor nela é que ela
confirma.

— Quero dizer... ela te apóia, acredita em você? — perguntou Maxi, empolgada.

— Não, Maxi, ela confirma o meu cartão de estacionamento no local junto ao consultório dela
— explicou India, com paciência. — Você me apóia, acredita em mim, porque é minha amiga e
não sabe das coisas. Ela é minha analista, não minha amiguinha. Ela escuta e não julga, e a
cada quinze dias, mais ou menos, às vezes pergunta alguma coisa. Depois, não liga a mínima
para o meu aspecto, o que é um alívio maravilhoso. Não adianta esconder-lhe a verdade, pois
ela lê meus pensamentos; se eu mentir vai me custar tempo e dinheiro, pois vou acabar tendo
de contar a verdade, senão não estou sendo correta e não vou ter ajuda. Posso contar a ela
tudo o que quiser, sabendo que ela nunca vai se escandalizar porque não há nada que ela já
não tenha ouvido. Se eu disser alguma coisa importante, ela certamente se lembrará.

— Tem certeza absoluta disso? — Não, é um dogma de fé. Você precisa ter fé na sua analista,
Maxi, e se começar a duvidar dela, vai ter de começar a contar tudo a ela, o que leva mais um
ano. O principal, eu acho, é que ela é minha aliada. Reconheço que pago por isso, mas assim
mesmo, tenho de ter uma aliada forte, do dia-a-dia, especialmente nesta cidade.

— Ela disse que estava do seu lado? Como sabe que ela é sua aliada?

— Sinto isso... e pare de pedir garantias, porque ela não as dá. Agora, podemos parar de tentar
explicar o inexplicável e falar sobre o que você pretende fazer agora com a vida que esbanjou
completamente, a não ser por ter produzido a pequenina Angelica? — perguntou India, com
simpatia.
— Vou para Londres na semana que vem. Há anos que tenho vontade de passar uns tempos lá
e Angelica vai passar todo o mês de julho com o Rocco, este ano.

— Onde é que vai ficar? — Com meus avós, claro. Eles ficariam muito ofendidos se eu não
ficasse com eles. Já estão com seus sessenta e tantos anos e mais alarmantemente vigorosos
do que nunca. Planejaram mil coisas para mim, inclusive festas divertidas e conhecer meus
primos em segundo, terceiro e quarto graus... não conheço nenhum.

— Parece... interessante — disse India. — Acho que parece um horror. — Isso também, isso
também — concordou India, animada.

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— Não adianta tentar fazer nada a respeito — disse a Viscondessa Adamsfield ao marido, num
tom melancólico, contradizendo a sua fraca tentativa de filosofar.

— Mas de todos os homens que poderia escolher, de todos os escoceses possíveis, e Deus
sabe que gosto dos escoceses quase mais do que de qualquer outro povo no mundo, a sua
neta teve de escolher um Kirkgordon! Laddie Kirkgordon, logo quem, depois de conhecê-lo há
menos de dois meses. A família dele perdeu quase tudo em Flodden Field há bem mais de
quatrocentos anos, e desde então só fizeram piorar — resmungou o marido.

— Ela também é sua neta e, afinal, ele é Oswald Charles Walter Angus, Conde de Kirkgordon,
arruinado ou não.

- Oswald! Não admira que o chamem de Laddie — vociferou Evelyn Gilbert Basil Adamsfield.
Tinha tido a sorte de conseguir ser chamado de ”Bertie”, depois de dúzias de brigas na escola.

— Oswald foi Rei da Nortúmbria de 635 a 642. Parece que o nome é tradição de família —
disse Lady Adamsfield, com pesar. — Infelizmente, Oswald só foi rei por sete anos, mas deve
ter sido um homem muito santo, que mandou todos os missionários para converter os pagãos,
sabia?

— Não sabia, não. E nem me interessa. Por que o Oswald não foi tratar da vida dele? Imagino
que a Maxi a andou instruindo. Aquela garota está querendo ser santa, dessa vez?

— Ela está amando, Bertie. Ela mesma lhe contou isso. Acho que você está sendo desprezível
nessa questão.

— Não vou fingir que estou gostando, Maxime, e pronto. Eu já havia escolhido um marido
ótimo para ela, como você bem sabe.

— Maxi disse que ele era um palerma. — Nenhum marquês é um palerma, especialmente
quando é quase duque. O pai não vai durar nem mais um ano. Talvez ele seja um pouco
apagado, mas não é um palerma. O que é mais, a família dele sempre foi leal à coroa, e
aqueles malucos daqueles Kirkgordons continuam fiéis à Casa dos Stuart. Acham que um
descendente de Mary, Rainha da Escócia, é que devia estar no trono. Não admira que estejam
nessa situação deplorável; idealistas, reconhecidamente excêntricos, toda aquela corja doida e
obstinada. E esse Laddie é o pior de todos.
— Acho que é disso que a Maxi gosta nele. Ela disse que ele tinha um forte sentido do destino,
alguma coisa pela qual viver e lutar, um significado profundo em tudo o que faz, um anseio
apaixonado, um...

— Pode me poupar, Maxime, minha querida. Eu também fui ao casamento, e o que a Maxi vê
nele é óbvio.

— Você tem de reconhecer que ele é maravilhoso — disse Lady Adamsfield, com ar sonhador.
— Aliás, há muito, muito tempo não

185

vejo uma criatura tão bonita... aquela cabeça nobre, aqueles olhos azuis, azuis, aquele colorido
maravilhosamente fresco e rosado, aqueles cabelos ruivos, quase dourados, pensando bem,
aquela altura, aqueles ombros...

— Aquele castelo caindo aos pedaços, aquelas terras áridas... — Aquelas muralhas históricas,
de quatro metros de largura, aquela vista deslumbrante...

— Ele não tem um vintém e ela podia ter sido uma duquesa... — Ela tem bastante dinheiro,
meu anjo. Ela é condessa e ele a adora...

— Maxime — disse o Visconde Adamsfield — você é uma romântica incurável. Eu pensava que
era uma mulher sensata.

— Bom, só espero que desta vez ela tenha assentado a cabeça de vez.

— Maxi? Assentar a cabeça com um Kirkgordon? Duvido muito, meu bem. Assentar a cabeça,
francamente!

— O que é isso, pelo amor de Deus? — perguntou Milton Bizet, recuando.

— O que é que parece? — disse seu sócio, Leon Ludwig, com um ar condescendente.

— Um telegrama do tamanho de uma lista telefônica. Deve ser da Maxi. Passe para cá.

— Se sabia, Milton, por que me perguntou o que era? — Para mostrar o meu espanto,
curiosidade e prazer febril. Eu já estava pensando por que não tínhamos notícias dela, a não
ser a comunicação do casamento com aquele Kirkgordon tão maravilhoso. A nossa Maxi e o
seu conde indecentemente viril a essa altura já devem ter comprado uma casa maravilhosa em
Londres, eu disse comigo, e ela não pode ser infiel e deixar que aqueles decoradores ingleses
ponham suas mãos imundas na casa. Onde será? Em Mayfair, claro, mas onde em Mayfair?
Agora, me dê esse telegrama.

— É um castelo — declarou Ludwig, entregando as folhas. — Maxi sabe. Nós .a ensinamos a


pensar em grandezas. — Na Escócia — disse Ludwig, num tom sinistro. — Ah, não. — Ah, sim.
Em algum lugar entre Kelso e Ettrick Forest, é o que ela diz, como se soubéssemos onde fica
isso. Nenhum aquecimento, a não ser algumas lareiras tão grandes que se poderia assar um
carneiro inteiro. Nada de galerias de menestréis, nem bizarrices, nem lambris maravilhosos,
nem preciosos objetos herdados, nem tapeçarias, nem retratos, quase sem banheiros,
janelinhas pequeninas, para que pudesse ser defendido contra as tropas monarquistas
invasoras, seja o que for isso, sabe Deus há quanto tempo. E todo o desgraçado do

186

negócio vem caindo aos pedaços há pelo menos mil anos e nem mesmo nos seus tempos de
glória tinha algum conforto... não é uma mansão, nobre Milton, ah, não, é um raio de uma
fortaleza. Ela o chama de ”Castelo do Pavor”. Maxi quer que a gente vá para lá assim que for
possível, de preferência amanhã, para podermos começar a torná-lo aconchegante. Parece
que encontrou um problema horrendo de caruncho, e você sabe aonde isso pode levar. Diz ela
que a decoração consiste em uma centena de cabeças de veado e montes de horríveis peixes
empalhados pendurados nas paredes, e nem tem pratas de família decentes, a não ser algum
tipo de cálice sagrado, ou coisa assim. Coitada da Maxi. — Ludwig calou-se, com um
suspirinho.

— Por que ”coitada da Maxi”, quando o dinheiro não é problema? — indagou Milton Bizet. —
Lembro-me do dia em que tivemos de ir de avião a Mônaco, para. redecorar o iate do Feliz
Dennis... ele nem se importava com o que gastássemos. Adorei aquele serviço. Aliás, gostei
muito do Dennis, e você? Parecidíssimo com Peter O’Toole em Lawrence da Arábio.

— Só que não tão bem vestido — comentou Leon Ludwig, com um sorrisinho nostálgico.

— E você poderia se esquecer do que fizemos com a segunda casa de cidade de Maxi, depois
que a convencemos a se livrar daquela primeira pequenina? — continuou Bizet. — Ela se
esbaldou mesmo com aquela casa. Imagino que ela conserve o apartamento novo que
comprou em Trump Tower como um pied à terre quando se cansar de caçar veados, ou seja o
que for que pretenda fazer na Escócia, você não acha?

— Eu só sei é que dinheiro não é problema. Nunca é, com Maxi. Somos nós... vamos ter de
passar meses e meses na Escócia. O que é que a Escócia lhe diz, Milton? Além de caçar
veados?

— Suéteres de cashmere, fazendas escocesas, uísque, ah... suéteres de Shetland, xadrez


escocês, Drambuie, ah... miúdos de carneiro, gaitas de foles, truta... e saiotes plissados! Leon,
isso é um programa de testes?

— Chuva, frio, nevoeiro, vento, desconforto, charnecas solitárias, o cão dos Baskervilles... se o
Castelo do Pavor não tem aquecimento central nem banheiros decentes, quem há de ter, nas
redondezas?

— Leon, você não tem visão. Entra em pânico à toa. Há de ter um hotel por lá. E se não
houver, acampamos no Claridge e damos um pulo na Escócia quando for absolutamente
necessário. Mas eu gostaria que o Claridge tivesse uma iluminação melhor nos banheiros.
Nunca consigo enxergar direito para fazer uma barba decente. Mas qual o outro lugar para se
ficar?

— Não há — disse Leon Ludwig, suspirando. — Se mudássemos,

187
as pessoas podiam pensar que estávamos nos favelando, e isso não é mais chique em Londres,
uma pena.

— Vou dizer à minha secretária para fazer as reservas imediatamente. Maxi parece
desesperada. Diz que precisa do aquecimento central instalado até a próxima semana e, por
algum motivo, parece que não consegue levar o empreiteiro local a entender isso. É uma crise,
Leon. Ela está precisando de nós.

— Milton, quando é que Maxi não precisou de nós? Somos indispensáveis para ela.

— Bom, só espero que dessa vez ela tenha assentado a cabeça. — Quem, Maxi? Milton, você
perdeu o juízo. Assentado a cabeça, francamente!

Angelica comeu o hamburger, parecendo mais pensativa do que deveria parecer uma menina
de sete anos, pensou Rocco.

— Aconteceu alguma coisa, amor? — perguntou ele. — Ah, não, papai, eu só estava pensando
se gostava tanto do Lad. die quanto gostava do Dennis, só isso.

— Ah. — O Dennis era tão engraçado, mas o Laddie sabe tocar guitarra de doze cordas e
cantar canções antigas; Dennis me ensinou a nadar, mas o Laddie vai me dar um pônei
Shetland e me ensinar a montar; Dennis tinha um barco grande, maravilhoso, mas Laddie tem
um castelo imenso; Dennis me ensinou a brincar de pescar e sempre deixava eu ganhar, mas
Laddie me deu uma varinha de pescar vermelha e quando chegar a temporada da truta ele vai
me ensinar a...

— Parece que os dois são uns camaradas perfeitos, formidáveis — interrompeu Rocco. — Quer
outro hamburger, Angelica?

— Ah, quero sim, papai, por favor. É a única coisa que eles não sabem fazer direito nem em
Monte Carlo nem na Escócia. Sinto falta dos hamburgers.

— É mesmo. — É, e sinto falta de sanduíche de atum e peru com molho de amora — disse
Angelica, triste.

— É só disso que você sente falta, Angelica? — Bom, acho que ainda sinto um pouco de falta
do Dennis. Ainda não conheço o Laddie tão bem que possa parar de sentir saudades do
Dennis, mesmo que Laddie seja tão alto e tão bonito.

— Sei. — Tudo bem, papai — Angelica o tranqüilizou, séria. — Talvez

as pessoas sempre sintam saudades das pessoas de que gostam, mesmo quando conhecem
outras pessoas de quem gostem.

— Talvez. — Por favor, passe o ketchup, papai. Lembra quando a mamãe

188

estava casada com o Dennis? Lembra que todos os meses a babá e eu tomávamos o
helicóptero de Monte Carlo a Nice, e depois o jatinho de Nice a Paris, e depois o Concorde de
Paris a Nova York para estar com você? Mas aí eu ainda era garotinha e não tinha de aprender
coisas. Agora estou no segundo ano e não posso estar trocando de escola todos os meses.

— Eu sei, amor. — De modo que, quando eu for para a escola na Escócia, não vou poder vir
visitar você até a gente ter umas férias compridas para eu poder voltar a Nova York — explicou
Angelica, com uma expressão preocupada.

— Entendo, amor. A sua mãe e eu conversamos muito sobre isso e tive de concordar com ela
que eu não podia atrapalhar os seus estudos.

— Mas fico preocupada com você, papai. — Por que, Angelica? — Porque você vai sentir falta
de mim. — Um bocado, diabos! Um bocado mesmo. Mas você vai ter a sua mãe e Laddie sei-
lá-o-quê, um pônei e um castelo e provavelmente dúzias de saiotes bonitinhos para usar no
colégio, de modo que vai estar muito ocupada para sentir saudades de mim, queridinha.

— Sinto saudades de você sempre que não estou com você, papai — disse ela, num tom de
reprovação.

— Mais do que do Dennis? — Deixa de ser bobo! Não é nada a mesma coisa. Eu gostava do
Dennis. Eu te amo.

— Eu só estava brincando. — Mas não achei graça. Nenhuma. Retire o que disse de eu não ter
tempo de ter saudades de você — disse Angelica, severa.

— Retiro — murmurou Rocco. — Está bem. Posso pedir um sundae de chocolate, por favor? —
Claro. Pode pedir o que quiser. — Bom, espero que a mamãe fique assentada com o Laddie,
desta vez. Não quero ter de ter saudades dele também.

— Assentada? A sua mãe? Ah! — O que quer dizer com ”ah”, papai? — Eu só estava tossindo,
Angelica. Tossindo.

— Zachary, escute só esta carta da minha mãe — disse Lily, num tom alarmado, largando a
torrada com manteiga.

— O que é que ela tem? — Zachary continuou a comer o ovo, paciente.

— É a Maxi.

189

— Sei que é a Maxi. Evidentemente, sua mãe é sensata demais para se perturbar com alguma
coisa sem importância. O que é que a Maxi fez agora? Imagino que as pessoas já se refizeram
do choque de ela ter instalado a piscina interna na masmorra e de ter insistido em um
banheiro para cada quarto, embora o castelo seja um monumento histórico.

— Nada de tão insignificante. Minha mãe diz que Maxi está virando notícia em Londres, e isso
não é fácil, quando se mora no Border Country. Parece que está dando festas em casa que
duram semanas.
— E por que diabo não? Zachary parou de comer, rápido na defesa da filha. — Ela levou pelo
menos um ano para modernizar o velho quartel, e decorá-lo, e certamente custou milhões a
ela. Naturalmente, ela há de querer amortizar isso, e que maneira melhor do que se cercando
de amigos?

— Pode ser que tenha razão, Zachary, mas parece que as festas dela são positivamente
famosas. Dizem que Maxi tem uma imensa plantação de maconha na estufa e que enche o
Cálice Kirkgordon, que o Arcebispo de Glasgow deu à família no século XV com uma
quantidade infindável de baseados feitos em casa... meu Deus, nem sabia que a mamãe
conhecia essa palavra... e que Maxi tem um jogo de pôquer de paradas altas todos os dias,
inclusive aos domingos, na sala dos troféus do último conde... pelo amor de Deus, meu bem,
largue a sua faca... e que ela acende grandes fogueiras no alto da torre do castelo para
comemorar o Dia de São Patrício, o Dia de Colombo, o Dia de Kosciusko, o Dia Sou Americana e
todos os outros feriados americanos, e o corpo de bombeiros não consegue impedi-la. Ela
insiste em dirigir a Ferrari pelo lado errado da rua, e Zachary, pior que tudo, quando foi
convidada para visitar os vizinhos, o Duque e a Duquesa de Buccleuch, em Bowhill House, disse
que não estava muito convencida de que o Leonardo deles fosse autêntico! Isso é
imperdoável, Zachary, e, claro, não é verdade. Ela devia saber disso. — Lily largou a carta,
desesperada.

— Ela está infeliz, Lily. O casamento não está dando certo. É o que tudo isso quer dizer, e não
me surpreendo. Sempre achei que aquele brutamontes do Kirkgordon era bonito demais, não
confio em homens com aquela cara. E agora ele a deixou infeliz. Reconheço que Maxi às vezes
é um pouco mimada, mas nunca foi autodestruidora — disse Zachary, tirando os óculos,
distraído, e sacudindo a cabeça, preocupado. — A única parte dessa carta que me preocupa
mesmo é ela dirigir na contramão. Vou ligar para ela e descobrir o que está acontecendo. Eu
tinha esperanças, vagas, mas tinha, de que Maxi afinal assentara a cabeça, dessa vez.

— Sei que você é um pai dedicado, mas devia haver algum limite

190

para as suas ilusões. ”Assentar a cabeça?” Sua filha? Maxi? Francamente, Zachary!

— O que exatamente aconteceu dessa vez, Maxi? — perguntou India, ansiosa. — Conta tudo,
desde o princípio.

— Se você tivesse podido ir me visitar, não precisaria perguntar — disse Maxi, num tom de
acusação. — Mas estava sempre tão ocupada que nem podia ir passar um fim de semana.
Então, aqui estou na Costa Oeste, só para ver você.

— Isso é conversa fiada. Eu não tinha tempo para me refazer da viagem a jato nas duas
direções, e você sabe muito bem disso. Não é como se estivesse morando em San Francisco.
Anda, pára de embromar.

— No fundo, foi o dreich. — Claro que foi — disse India, acalmando-a. — E como é que é essa
pessoa, dreich?
— É uma palavra escocesa, India, e quer dizer muito, muito úmido, muito, muito escuro, e
muito, muito frio. O tempo, India, o tempo estava uma porra de dreich.

Maxi estendeu a mão e tirou um bocado das cebolas do prato de India. Ela agora estava tão
magra que podia arriscar qualquer coisa.

— Então, você se divorciou pela terceira vez por causa do tempo? Interessante. É a primeira
vez que ouço isso. Claro, se a gente vê muitos filmes de Bergman, pode começar a entender
que um tempo feio pode criar uma morbidez e melancolia, mas em menos de dois anos? Maxi,
larga o meu prato! Não quer pedir uma lingüiça para você? E todas aquelas toneladas de
aquecimento central que você mandou instalar?

— India, quer ser generosa e me dar um pouco da sua lingüiça? E se eu lhe dissesse que o meu
gosto em matéria de homens é provavelmente o pior do mundo e que não me deviam deixar
sair à rua, sozinha, sem uma governanta?

— Eu seria obrigada a discordar. Rocco, se me lembro bem, foi um dos homens mais bonitos
que já vi, Bad Dennis Brady, ao jeito dele, era uma delícia e, segundo suas cartas, Laddie
Kirkgordon era celestial. Vou citar: ”Ele tem todas as qualidades do Rei Artur, Tarzan e Warren
Beatty.” Será que nem o fato de ele ser conde valeu alguma coisa?

— Tente acordar no meio da noite e dizer para si mesma que é condessa, e vai ver se faz
alguma diferença — retrucou Maxi.

— E por que é que você estava acordada no meio da noite, falando sozinha?

— Muito bem, India, muito bem. Desisto. Estou vendo que você

191

andou tomando aulas com a Dra. Florence Florsheim, indo à raiz das coisas, não é mesmo?

— Mais ou menos — disse India, num tom inexpressivo. — O Laddie é um maluco que devia
ser internado — disse Maxi e se calou.

— É isso? É só isso? A maioria dos homens é de loucos, Maxi. Loucos, doidos varridos. Mas a
gente não se divorcia deles por isso, a gente aprende a conviver com eles. Provavelmente é
por isso que nunca me casei. Sei de coisas demais, de antemão. Só que o Laddie não era o seu
tipo de louco.

— E não era mesmo. Acho que ele foi uma reação exagerada, depois do coitado do Dennis,
mas a princípio fiquei mesmo entusiasmada com aquilo tudo: aquela tradição maravilhosa,
passada de geração em geração; o propósito na vida; o significado de ser escocês; a veneração
pelos antepassados, a Casa dos Stuart, o patriotismo. Adorei. Mas quando saímos da cama o
suficiente para que eu o ouvisse falar claramente, e isso levou um ano, descobri que eu era
muito mais americana do que pensava. Laddie começou a parecer bem obcecado, e por fim
cheguei a concluir que ele era positivamente louco, doido, vivendo em outro século. Ele se
recusava a ter alguma coisa a ver com o mundo de verdade, com a única exceção de vencer a
Selkirk Silver Arrow... é a única coisa que interessa a ele.
— Hem? — É um troféu de arco e flecha, o mais antigo que existe, e de sete em sete anos há
um torneio da Escolta de Arqueiros da Rainha para vencer a Flecha de Prata. Laddie passava
pelo menos seis horas por dia se exercitando com o arco dele e não me venha dizer que era
apenas um passatempo; para ele era a vida, se bem que a rainha por quem ele fazia isso não
fosse Elizabeth II. Se o tempo estivesse melhor, ele passaria mais tempo nisso, mas com o
dreich e tudo...

— E por que você não deu o fora antes? Com a umidade e a prática de arco e flecha, não
entendo- por que aturou tanto tempo.

— É que eu estava envergonhada demais para reconhecer que tinha errado de novo. Nunca
conheci nenhum de meus três maridos mais de um ou dois meses antes de me casar com
eles... e coitado do bonzinho do Bad Dennis eu só conhecia há umas trinta e poucas horas...
horas muito estranhas, India. O que é que isso lhe informa sobre mim? Não se dê ao trabalho
de responder. Não diga uma palavra, não foi uma pergunta.

— O que Angelica achou? — Ah, ela estava se divertindo muito para notar que o rapaz era um
pouquinho especial. Ela adorou a piscina interna, adorava a escola local e aprendeu a usar o
arco e flecha bem direitinho. Laddie lhe deu lições, isso ele fez. Felizmente, eu a tirei de lá a
tempo, antes que

192

começasse a pensar que um príncipe ia aparecer cavalgando no meio do nevoeiro, num cavalo
branco, e carregá-la dali. Acho que Angelica se daria bem até debaixo d’água. Eu é que não sou
adaptável.

— Você só é impulsiva — disse India, com carinho. — Você acha que devo consultar a Dra.
Florence Florsheim? — perguntou Maxi, num tom de desespero.

— Acontece que esse é um conselho que não posso te dar. As pessoas que fazem análise não
devem andar por aí dizendo aos amigos que eles também devem se analisar. Em todo caso, a
Dra. Florsheim não te aceitaria, porque você já ouviu falar muito dela e ela já sabe de muita
coisa sobre você. E ainda mais com a gente sendo tão amiga. Não seria nada bom.

— Você fala sobre mim com ela? — perguntou Maxi, encantada. — Eu não sabia! O que é que
você diz?

— Quando estou tentando evitar falar sobre alguma coisa de que não quero falar, tenho uma
tendência para falar de você, sim. Mas como você não é um de meus problemas, isso é apenas
mais uma perda de tempo, e a essa altura sei que quando sequer menciono o seu nome, é
porque estou evitando alguma coisa horrorosa mesmo.

— Ah. — Não tente entender. — Não vou tentar, India, prometo não tentar. — O que
pretende fazer agora, Maxi? — Antes de tudo vou fazer um voto solene e certo, India. Vou
jurar, tendo você por testemunha, que nunca, nunca mais vou me casar com outro homem.
Nenhum outro homem jamais, India, está ouvindo?
— Estou ouvindo, mas não acredito. Só porque você não pretende tornar a se casar não quer
dizer que não vai se casar. Você é muito jovem para fazer um juramento desses. Eu te
aconselho a não o fazer.

— Deixa que eu resolvo isso! India, se eu me casar com outro homem, eu... faço um anúncio,
um anúncio de página inteira, dizendo que não sou responsável pelas minhas ações, que não
tenho bom senso quando se trata de homens, que faço isso contra o meu bom senso, que
estou agindo precipitadamente e me arrependerei com o tempo, que tenho certeza de que
será um erro e que você, India West, é minha testemunha, a única no mundo que sabe que fiz
um voto para mim mesma, um juramento, de nunca, nunca me casar com outro homem.

— Onde vai publicar o anúncio? — perguntou India, no meio de uma crise de riso.

— No New York Times, no... Women’s Wear Daily, no New York Post, no London Times, no Le
Figaro... isso deve cobrir todos os que eu conheço, não acha?

193

— Weekly Variety também — sugeriu India. — Você conhece algumas pessoas no negócio.

— Feito. Estou falando muito sério, India. — Sei que está. Ah, Maxi, eu que esperava que dessa
vez você tivesse assentado a cabeça de vez.

— Eu, India? Você já devia saber que não!

15

A despeito do desânimo em que passara o fim de semana e no

telefone com India, na segunda-feira Maxi se dirigiu para os escritórios de Buttons and Bows
com um entusiasmo irreprimível. Após a longa conversa terapêutica com a melhor amiga, ela
se convencera de que o antigo redator, Bob Fink, estava simplesmente muito obsoleto para
entender que era possível fazer alguma coisa com a revista, por mais baixo que ela tivesse
caído. Ele não acreditava mais nela, se é que acreditara um dia, ele não tinha mais espírito de
luta, nem visão, tinha ganho muito dinheiro nos imóveis para procurar melhorias, a não ser na
hora do seu almoço grátis, disse Maxi consigo, ao abrir a porta para as salas, porta que ela
resolveu mandar pintar o mais breve possível.

Ela parou lá dentro e ficou olhando para a sala pouco interessante. Nas paredes da recepção
havia capas enquadradas de ’Trimming Trades, quando ainda era a revista próspera sobre a
qual Zachary Amberville construíra seu império. As capas antiquadas dos anos quarenta e
cinqüenta só reforçaram sua convicção de que ressuscitar a revista era uma questão de usar a
imaginação. O último número ralo de Buttons and Bows, que ela pusera na bolsa e levara para
casa, tinha uma capa que era basicamente semelhante àquelas nas paredes. Certamente uma
coisa importante como uma capa poderia ter sido totalmente modificada no decorrer de
quarenta anos?
— Srta. Amberville, seja bem-vinda à dureza. Maxi virou-se. Era a recepcionista que anunciara
a sua chegada na semana anterior.

— Você ainda está aqui? Bob Fink disse que todos mal podiam esperar para partir.

— O meu ordenado está pago até o final da semana, e ainda não estou em idade de me
aposentar. — Como se chama?

195

— Julie Jacobson. — Pode me chamar de Maxi — disse ela, sentando-se diante da mesa
surrada. — Quanto a suas roupas, Julie, vamos pôr as cartas na mesa?

— Acho que seria aconselhável — respondeu Julie, com cuidado.

Elas estavam usando roupas absolutamente idênticas: minissaias de um vermelho berrante,


com blusas brancas e gravatas pretas, de homem, exageradamente compridas no pescoço.
Ambas estavam de meias pretas e sapatos pretos de entrada baixa, de saltos altos. Um
sobretudo de lã combinando com a saia estava atrás da mesa da recepcionista. Maxi estava
usando a sua réplica. O conjunto era o mais novo, mais recente e mais alegre de Stephen
Sprouse, exatamente o que uma maníaca da moda com pernas lindas escolheria para usar
naquele determinado dia e mês desse ano. Como as duas tinham mais ou menos a mesma
altura, estavam inteiramente iguais, do queixo para baixo.

— Acho que devíamos parar de nos encontrar assim — disse Maxi — ou então fazer questão
disso.

Bob Fink dissera que a recepcionista ganhava demais, mas aquele costume e blusa tinham
custado mais de mil dólares, sem contar os sapatos. Até que ponto ela era paga demais?

Julie era da altura de Maxi, mas tinha seios pequenos e quadris estreitos, de modo que sempre
pareceria mais alta com as mesmas roupas. Os cabelos curtos estavam tingidos de uma cor do
outro mundo, entre o grená e laranja, que era quase punk. Eram escovados para trás,
revelando um rosto de cachorro impertinente: olhos imensos e desafiadores, muito pintados
com delineador e sombra preta, um nariz fino com narinas tão sensíveis que pareciam estar
sempre prestes a se franzir; lábios delicados, pintados de um carmim vivo, um queixo
suficientemente pequeno para dar a impressão de que ela partilhava a timidez de algum
animal selvagem, e no entanto bastante firme para o mundo saber que Julie Jacobson não
permitia que ninguém abusasse dela.

— Mais tarde falamos do guarda-roupa — continuou Maxi. — Vou dar uma olhada no
escritório. Depois quem sabe você poderia me mostrar o resto do estabelecimento?

Julie levantou-se de um salto e postou-se barrando a porta que dava para o antigo escritório
de Bob Fink.

— Não creio que vá querer entrar lá — disse ela. — Não vou querer? — Pode não ser a melhor
maneira de começar o dia. — Não vá me dizer que ele não se livrou de todo aquele material —
explodiu Maxi. — Ele prometeu, droga.
— Não, já levaram tudo.

196

— Então, qual é o problema? — perguntou Maxi, entrando com displicência. Ela estacou,
chocada.

A sala estava inteiramente vazia, a não ser por uma velha poltrona de couro, o assento
vergado. Todo o tapete estava coberto por camadas e camadas, de vários centímetros, de
pedacinhos de papel meio decompostos, uma sujeira muito pior do que a Broadway depois de
um desfile com papel picado. Teias de aranha, pensou ela, aturdida, teias de aranha de
verdade estavam penduradas dos cantos da sala. Será que em Nova York havia aranhas? As
paredes, não mais escondidas pelas nove mesas empilhadas do Tio Bob, estavam mofadas e
imundas. Durante os anos, houvera goteiras e a tinta descascara pela parede em faixas
compridas, em ziguezague, caindo em pedaços sobre os outros detritos. As janelas estavam
tão sujas que quase não entrava sol para iluminar a cena, e a pouca luz que penetrava através
da fuligem era desolada.

— Pelo menos em Grandes Esperanças a Sra. Havisham tinha móveis para suas teias de aranha
— disse Maxi, quando conseguiu recuperar a voz.

— A última mesa, aquela em que ele estava trabalhando, desmoronou quando tentaram
movê-la — explicou Julie.

— Não há uma vassoura, não há um aspirador elétrico, não há nenhum instrumento conhecido
do homem que poderia limpar isso... nem sei como chamar — disse Maxi, a voz fraca.

— Sempre existe a motivação. Julie falou como se tivesse meditado sobre o problema. —
Motivação? — Maxi ficou horrorizada. — Não quer dizer eu! — Com as nossas roupas? Eu
estava pensando em Hank, do prédio. Já se demonstrou bem motivado pela palma da mão.
Você tem cinqüenta paus?

— Em dinheiro... não creio. Ele não aceita cartão de crédito? — Eu lhe empresto. Pode me
pagar amanhã. — Deus te abençoe, Julie! Vamos sair daqui. É mórbido. — Você é quem
manda. — Certo? Certo. Então, onde é que a chefe pode se sentar para falar sobre o futuro de
Buttons and Bows com o pessoal?

— Maxi, você não tem pessoal. — E você? — De jeito nenhum. Não me importo de lhe
emprestar dinheiro, mas só vou até aí. Sou meramente provisória, não pessoal. Deus me livre,
neste lugar.

— Você não poderia fingir que é? Até o fim da semana. Podia pôr no seu currículo, quando for
para o seu próximo emprego.

— Estou pretendendo deixar Buttons and Bows de fora do meu currículo, completamente.
Mas, se você se sentir melhor, pode me cha-

197
mar de consultora e posso lhe oferecer um café, para nos animar a nós duas. Nem procure a
máquina de fazer café, está quebrada.

— O café mais próximo? — Feito. — Julie — disse Maxi, interessada, debruçada sobre a mesa
— já parou para pensar nas possibilidades? Todos os conjuntos de rock no mundo são doidos
por galões, toneladas de galões dourados, fardas, tudo o que usam é debruado demais. As
medalhas voltaram em tudo. Enchimentos de ombros nunca foram mais importantes. Claude
Montana. Pense só nos enchimentos de Claude Montana! A mania das camisetas. O que é
punk senão o uso inspirado dos debruns? E veja os vestidos de noite este ano... se não
brilham, deixa de lado. As coisas de Sonia Rykiel... tudo debruns. Ora, podíamos fazer um
número inteiro sobre o modo de enfeitar as roupas de Dinastia, um número inteiro sobre...
sobre a LUVA de Michael Jackson!

— Hummm. — O que quer dizer isso? — Só estou aqui há duas semanas porque o emprego de
assistente de redator que eu ia ter em Mademoiselle gorou à última hora, mas sei quem é que
continua a assinar Buttons and Bows. Basicamente, é o seu Sr. Lumet, que se preocupa em
vender cinco mil metros de passamanaria, e o seu Sr. Spielberg, cujo principal negócio na vida
são as franjas. Não creio que ficassem assim tão fascinados com a luva de Michael Jackson.
Mal notariam se o próprio Michael Jackson aparecesse nu em pêlo na capa da revista. Se é que
Buttons and Bows trata de alguma coisa, trata de alguns birutas do negócio da moda. Para a
moda, Spielberg e Lumet ficam com WWD. Michael Jackson é para os netos deles.

— Então, vamos ter de ampliar a nossa base de circulação, agradar a outros que não sejam
Lumet e Spielberg.

— Nós não, Maxi, você — insistiu Julie. — Você. — Em todo caso, isso é problema para
amanhã — disse Maxi, afastando o caso no ar. — Fale sobre você. Todas as estatísticas vitais
que queira contar.

— Tenho 22 anos. Diplomei-me da Smith no ano passado. Minha mãe sempre quis que eu
tivesse habilidades de secretária, se precisasse um dia. Há três gerações que as mulheres de
minha família têm essas habilidades de secretária e eu fui a primeira que um dia precisou
delas. Não gosto do trabalho. Daqui a duas semanas vou começar a trabalhar no Redbook,
como assistente da assistente da redatora de modas.

— Você é de Nova York? — perguntou Maxi, curiosa. Julie era das criaturas mais práticas que
ela já conhecera e muito confiante em si.

198

- Cleveland, Shaker Heights. O meu pai é neurocirurgião e minha mãe ensina literatura inglesa
na universidade. A especialidade dela é Virginia Woolf e o Grupo de Bloomsbury. Minha irmã
está estudando para um doutorado duplo, em francês e filosofia, para poder ensinar Pascal,
Montaigne e Voltaire, só Deus sabe para quem, e o meu irmão é urbanista e principal assessor
do prefeito de Cleveland. Sou o único fracasso de meus pais.

— Qual é o seu crime? Maxi a olhou de boca aberta. Devia ser a cor dos cabelos. Tudo o mais
nela era tão interessante.
— Sou louca pela moda. Ninguém na família Jacobson acha que a moda seja uma coisa direita,
em que se deva desperdiçar a única vida que se tem. É uma coisa frívola, mal paga e não
acrescenta nada ao conhecimento universal.

— É a quarta ou quinta maior indústria do país. — Eles também não acham a indústria grande
coisa. — Eles parecem um pouco... bostonianos. — Há outro ramo da família que mora em
Boston há séculos. Fazem os Jacobsons de Cleveland parecerem produtores de programas de
jogos na TV.

— Eu nem sequer me diplomei no ginásio — confessou Maxi. — Foi por isso que a mandaram
para Buttons and Bows... para lhe ensinar o que acontece com gente que não completa a
instrução?

— A idéia foi minha. E não vou desistir dela — disse Maxi, séria. — Não entendo por que, com
todas as outras publicações Amberville, você vá se importar com o que acontece com a coitada
de Buttons and Bows. Se eu fosse você, estaria em Style num instante.

— Vamos falar de roupas — sugeriu Maxi. Gostava de Julie, mas não estava disposta a exibir o
seu coração e a sua perda para satisfazer a curiosidade da outra. Os motivos eram emocionais
demais, ligados demais ao seu amor pelo pai para ela poder explicar.

— Roupas de Milão? Roupas de Bendel? Roupas de estilistas americanos? — Os olhos de Julie


se iluminaram, na expectativa.

— É você quem está oferecendo café, portanto pode escolher — disse Maxi, generosa.

Naquela tarde, Maxi passou várias horas sentada no que um dia fora o departamento de arte,
onde duas mesas de layout nuas, em forma de L, e várias cadeiras precárias tinham sido
abandonadas num chão de linóleo sujo e descascado. Na recepção, de vez em quando, ela
ouvia Julie atendendo o telefone e lidando com o homem da limpeza, motivado com
relutância.

Maxi se munira de um bloco amarelo e uma caixa de canetas esferográficas e resolveu que a
primeira coisa a fazer seria planejar o futuro de uma Buttons and Bows nova, revitalizada,
ampliada e explosiva.

199

Tinha a intenção de fazer listas e esboços e mais listas e esboços. Andou pela sala, olhou pela
janela, sentou-se, olhou para o seu bloco amarelo, levantou-se e andou mais pela sala. A
inspiração lhe escapava. Talvez fosse culpa da decoração, talvez fossem os horríveis
sanduíches de queijo e presunto que ela e Julie haviam comido numa lanchonete por falta do
seu favorito, salada de atum, talvez fossem as diabruras da lua cheia ou a influência diabólica
de Saturno, ou talvez não fosse mesmo seu dia. Talvez fossem Lumet e Spielberg. Ela desejava
que Julie não lhe tivesse falado deles. Nenhuma das idéias que lhe ocorriam pareciam boas, do
ponto de vista de Lumet-Spielberg, e eles eram, afinal, o núcleo fiel do que restava dos leitores
de Buttons and Bows. A revista, para se reerguer das cinzas, teria de agradar a muitos milhares
de Lumets e Spielbergs, onde quer que se encontrassem. Centenas de milhares. Milhões!
— Jesus Cristo Todo-Poderoso! — exclamou Maxi, em voz alta. — Você disse alguma coisa? —
perguntou Julie, no vão da porta. — Não existem milhões de Lumets e Spielbergs! — Um de
cada, creio. Pelo menos, nas suas listas de assinantes.

- Julie, vou dar uma volta. Penso melhor quando estou de pé. — Lá fora está bonito — disse
Julie, olhando para o bloco amarelo, ainda virgem. — O oxigênio estimula o cérebro. — E lá
fora está bonito. Até amanhã.

Elie estava esperando embaixo, com a limusine.

— O centro do universo, Elie — mandou ela. Ele foi para a esquina da Rua 57 com Quinta
Avenida, do seu modo rápido e ilegal, parou e abriu a porta para ela.

— A que horas vai precisar de mim hoje

à noite, Srta. Amberville?

— Não sei bem, Elie, mas me ligue por volta das seis. Ela foi andando depressa pela Quinta
Avenida, respirando fundo, apreciando o espírito vivo da cidade em setembro, aquele eterno
número de corda bamba urbano. Ela amava a tensão incomparável daquela metrópole insular
que parecia estar pousada no alto de um vulcão ativo.

”Conquistarei Manhattan, o Bronx e Staten Island também”, cantou Maxi, se bem que
soubesse, havia anos, que a estrofe que o pai lhe ensinara tinha sido distorcida para se adaptar
ao espírito dele, já que as primeiras palavras da letra na verdade eram ”Terei Manhattan”.

A Quinta Avenida nunca lhe parecera mais larga ou iluminada do que depois das horas
melancólicas que passara em seu novo escritório, e nunca o povo que passava, empurrando e
se ultrapassando com a versão agressiva, com brio do andar dos nova-iorquinos, lhe parecera

200

mais fascinante e variado do que depois daquela tarde inútil que ela passara com o seu bloco
amarelo. Todo mundo tinha um destino, uma meta, um motivo para estar ali, naquele lugar,
naquela rua, àquela hora.

O que é que eles todos queriam?, perguntou-se Maxi. Querer era a própria essência do nova-
iorquino. Ela sabia o que ela queria. Queria que Buttons and Bows tivesse um êxito
espetacular, e de repente confessou a si mesma que isso não poderia acontecer. Não com
Buttons and Bows. De jeito nenhum. Naquela cidade, onde havia um mercado para tudo, não
havia uma procura importante para uma revista dedicada a artigos, por mais bem escritos que
fossem, sobre o mistério dos vidrilhos bordados à mão nos vestidos de três mil dólares de
Julio, ou os franzidos nas mangas de Prince, ou a palavra definitiva sobre os paetês de Linda
Evans. Provavelmente havia mercado para uma revista sobre os usuários de lentes de contato,
ou uma revista para canhotos, talvez até uma revista para gente que colecionava barbantes,
mas sempre seriam revistas pequenas. Maxi não estava disposta a dedicar sua energia a uma
revista pequena.
Riscar os aviamentos, pensou ela. Tinha de encontrar uma nova idéia — um — um conceito.
Era só isso que ela precisava, um conceito, pensou Maxi, quase dançando pela Quinta Avenida,
com sua saia mini vermelha, um sorriso no arco perfeito da boca. Só um novo conceito, apenas
um conceito novo, fresquinho, que nunca tivesse sido feito. Só isso.

Quando Elie ligasse de tardinha, ela lhe diria que no dia seguinte ele deveria fazer a ronda de
todas as bancas de jornais da cidade, levando-lhe um exemplar de todas as revistas à venda.
Mais valia saber o que já existia antes de inventar uma nova revista.

— Mãe — disse Angelica, num tom de súplica — quando é que você vai parar de se torturar?
Não vou agüentar isso por muito tempo.

— Que merda, hem, garota? — Mãe, não é bonito falar assim com sua filhinha. — Não tenho
tempo para falar bonito. Se quiser uma pessoa que fale bonito, vá arranjar outra, eu estou
trabalhando.

— Mãe, por que está fazendo isso comigo? — Porque sim. E pare de reclamar... outras
meninas têm mães que trabalham e não se queixam.

— Mães que trabalham! — explodiu Angelica. — Você parece uma doida, um robô, um robô
maluco.

— Vai brincar, vai. — Há três dias que está trancada aí com essas revistas, não comeu quase
nada, fica lendo até cair de sono, range os dentes quando dorine...

— Como é que você sabe?

201

— Porque você adormeceu em cima daquela pilha de revistas ontem à noite e eu ouvi você
rangendo.

— É só um pouco de tensão, tensão normal, Angelica. — Mas você sempre evitou a tensão,
você detesta tensão, mãe. Pára com isso!

— Ficar tensa é humano, garota, não sabia? Talvez você seja criança demais, mas, pelo que li,
todas as mulheres deste país estão funcionando sob uma tensão insuportável. E está ficando
pior, enquanto estamos aqui, perdendo tempo falando. Agora vá embora e me deixe
trabalhar.

— Mãe, vou ligar para o Toby e mandar internar você num hospício.

— É preciso ter três médicos para internar alguém e todos os médicos deste país estão muito
ocupados escrevendo artigos sobre tensão para as revistas, de modo que você não vai
encontrar nenhum que tenha tempo, mas pode tentar.

Angelica dobrou seu corpo desengonçado em partes e sentou-se junto de Maxi, com um ar
protetor. Três dias antes, quando Elie chegara ao apartamento com a primeira leva de revistas,
a mãe parecia uma menina abrindo presentes de Natal. Ela se instalara na sua nova biblioteca,
com suas paredes de espelho cinza solar, as estantes cheias de livros e as grandes poltronas de
couro gelo. Abrira cada revista com uma grande expectativa, e passara a percorrê-la, página
por página, sem omitir nada, de capa a capa. Depois de ter esgotado a revista, Maxi a punha
com cuidado numa das pilhas de revistas de vários tipos que estavam começando a rodeá-la.
Elie continuava a voltar de suas expedições com os braços cheios. O estado de espírito de Maxi
passou da expectativa a algo mais moderado. À hora do almoço ela começou a parecer meio
desanimada, e no fim daquele primeiro dia estava aborrecida. Na tarde do segundo dia
passara à indignação, e esta aumentara desde então. As revistas continuavam a chegar e os
montes agora desmoronavam por todas as paredes, menos a das janelas.

Muitas tinham sido levadas embora, carregadas por Elie, já cansado: as revistas só para
homens; as revistas esportivas; as revistas sobre computadores; as revistas de proprietários de
automóveis; as revistas de audiomaníacos; as revistas dos apaixonados pelas motos; as
revistas de notícias semanais; as revistas de cinema; as revistas de fãs de novelas; as revistas
de homossexuais masculinos; as revistas de assuntos aeroespaciais; as revistas de negócios de
todos os tipos.

A essa altura Maxi já tinha aberto um lugar para si sobre o tapete vermelho e branco, feito à
mão, e estava sentada de pernas cruzadas, encurralada por dúzias e dúzias de publicações.

— Ainda não encontrei uma para as lésbicas — disse ela, num tom cansado e pensativo.

— Mãe! É isso que está planejando? — Pode ser que seja o único grande mercado virgem que
resta. — Será que as lésbicas iriam a uma banca de revistas para comprar uma revista
especial? — perguntou-se Angelica. Ela ouviu a porta da frente abrir. Devia ser Elie, com mais
revistas temíveis, pois os passos eram de homem.

— Num país com 59 milhões de solteiros e uma revista como Bride, que diz alcançar pouco
mais de três milhões, deve ser lógico que tem de haver um bom público de lésbicas em algum
lugar — respondeu Maxi, tentando adotar um tom razoável e simpático.

Um homem entrou na biblioteca atapetada onde elas estavam tão absortas nas revistas que
nem o ouviram. Ele ficou ali apoiado na soleira da porta, numa pose displicente. A atitude
zombeteira de sua cabeça, o queixo duro, o brilho de ceticismo nos olhos, o modo claramente
belicoso de seus cabelos curtos, louros claros e pontudos, se eriçarem, tudo isso indicava uma
pessoa que olhava o mundo com certo desdém. Estava com uma roupa de couro tão gasta que
parecia uma coleção de pedacinhos; tinha três câmaras Nikons penduradas ao pescoço e seu
sorriso era ao mesmo tempo sabido e profundamente carinhoso. Era evidente que ele achava
tanto Maxi como Angelica muito engraçadas, objetos de sua benevolência, e era igualmente
evidente que muitas poucas pessoas no mundo pertenciam a essa categoria.

— Estariam interessadas numa assinatura de Boy’s Life? — disse ele, bem calmo.

— Justin! — gritou Maxi, lançando-se pela sala para os braços dele, espalhando revistas para
todos os cantos. — Justin, sua peste, onde é que se meteu um ano inteiro, seu sacana de
merda, seu bosta! Justin, querido!

— Eu também quero — exclamou Angelica, agarrando-o com força e tentando subir por ele
como macaco, como fazia quando era menina, e nisso quase o derrubando. Por fim, ele
conseguiu se livrar daquelas duas criaturas empolgadas e tagarelas, separou-as e passou um
braço em volta de cada uma.

— Vamos ver vocês — disse Justin, e elas logo se calaram e se submeteram ao exame dele. —
Continuam a ser o máximo no reino — disse ele, depois de alguns segundos. Ele examinou
bem a irmã e a sobrinha, os olhos de um cinza escuro não perdendo nada, mas fossem quais
fossem seus pensamentos verdadeiros, ele os guardou para si, como sempre.

Logo depois que Zachary Amberville morrera tão de repente, de modo tão horroroso, Justin
fora embora, sem uma palavra para qualquer membro da família. Desde os quinze anos que
eles tinha a mania de

202

203

desaparecer durante meses a fio, e os Amberville se acostumaram com suas idas e vindas. Ele
nunca escrevia nem telefonava quando estava fora, mas de vez em quando apareciam, numa
porção de revistas diferentes, fotos com o crédito ”Justin”, fotos de ilhotas tão distantes que
nenhum agente de viagens conhecia, de topos de montanhas tão inexploradas que nem
tinham nome, de selvas que eram apenas espaços vazios na maior parte dos mapas; fotos de
surfistas na Austrália, travestis brasileiros no Bois de Boulogne, o interior do camarote real em
Ascot; fotos que não tinham nada que as relacionasse entre si a não ser o ponto de vista
inesperado do cérebro atrás da lente da câmara que captava imagens que não se podia deixar
de olhar mais atentamente, mesmo numa era em que parecia que todas as fotos mais
extraordinárias já deviam ter sido batidas.

Sua última ”viagem”, como a família chamava as andanças misteriosas de Justin, durara mais
do que qualquer outra e suas fotos tinham sido pouco freqüentes, mas ninguém se preocupou,
pois já era fato estabelecido a invulnerabilidade de Justin.

Na meninice ele parecera muito pouco à vontade, desajeitado, procurando sempre não
chamar a atenção. Depois, aos doze anos, começara a estudar artes marciais e autodefesa,
abraçando um programa de treinamento implacável que lembrara a Lily a idéia fixa do balé.
Aos poucos a postura de Justin, mesmo quando parado, passou a transmitir uma ameaça não
declarada. Tudo quanto antes parecera vago e alienado nele se condensara na força e rapidez
com que ele sabia se mover. Hoje ele era uma presença a se levar em consideração, todo
habilidade, todo uma graça musculosa; um homem de 24 anos, de altura média, mas cujo
corpo magro possuía mais densidade do que os de outros rapazes.

Justin parecia ao mesmo tempo valente e imprevisível, se bem que ele desprezasse a
aparência de dureza. Suas roupas de couro conhecidas não eram uma armadura corporal
tachonada, mas apenas roupas bem usadas e surradas com que poderia viajar a qualquer
lugar. Quando o convenciam a jogar uma partida de croque em Southampton, ele emanava o
mesmo potencial de intrepidez, de calças de linho branco e um suéter náutico em tom pastel;
essas qualidades estavam embutidas em seus músculos duros, na sua falta de descontração,
como se ele estivesse pronto para lutar a qualquer momento.
Maxi nunca vira Justin tocar em outra pessoa a não ser com brandura, e no entanto muitas
vezes pensava que sabia muito pouca coisa sobre o irmão mais novo, se bem que eles se
amassem sem reservas. Ele era o homem mais defendido que ela jamais conhecera e o que
quer que se passasse por trás de sua testa alta e arredondada, fosse qual fosse a necessidade
que o fazia sair de casa tantas vezes, para ela era um enigma. Nem mesmo Toby, com sua
acuidade de sentidos, com seu

204

jeito de ler os pensamentos não expressos, tinha indicações para o enigma das motivações de
Justin. Parecia aos dois que ele perseguia uma meta invisível que lhes escapava, um objetivo
que ele nunca explicara, nunca descrevera, no entanto era um objetivo que o instigava
inexoravelmente.

— O que é — perguntou Justin, rindo — que vocês duas estão fazendo? Quero uma explicação.
Toby disse que as encontraria aqui, mas não disse em que estado. Disse que vocês me
contariam.

— A mãe está procurando um novo conceito para uma revista — respondeu Angelica, dando
de ombros. — E eu estou tentando ver que ela não morra de fome, enquanto isso. A nova
cozinheira foi embora ontem.

— Maxi, por quê? — disse Justin, espantado. — Quem é que precisa de mais uma revista?

— Ainda não sei, é esse o problema. Mas o motivo real tem a ver com o Cutter, e não deixar
que ele me enrabe.

— Nesse caso, pode contar com toda a minha colaboração — disse Justin, com tanta
ferocidade declarada em sua voz quanto jamais mostrava.

Enquanto Maxi e Toby poderiam explicar com detalhes por que desconfiavam e não gostavam
do tio, Justin simplesmente sempre detestara Cutter, sem poder dizer por quê. Era um ódio
instintivo, fundo demais para ser expresso por palavras, uma questão de total antipatia mútua.
Justin tivera curiosidade, como todos eles, sobre o irmão do pai, que parecia nunca sair de San
Francisco. Quando Justin tinha quase onze anos, Cutter e Candice Amberville afinal passaram
por Nova York, a caminho da Europa, e passaram alguns dias lá. Na primeira vez em que Justin
viu Cutter, a sua curiosidade se transformou em aversão visceral, uma aversão que ele nem
procurou entender. Existia, sólida como uma rocha, não era uma coisa a questionar ou
ponderar, apenas existia, tão poderosa quanto seu amor por Zachary, tão evidente quanto seu
afeto por Toby e Maxi.

— Aceito o seu oferecimento — disse Maxi, encantada. Nos últimos três dias, Angelica fora a
sua única cobaia. Julie estava ocupada no escritório, concluindo o negócio de pôr Buttons and
Bows no limbo onde ainda flutuam todas as revistas mortas, artigos de uma nostalgia rara e
queixosa e testes sobre trivialidades. Maxi não apelara para nenhum dos profissionais das
Edições Amberville, que teriam tido prazer em ajudá-la. O orgulho a impedira, o orgulho e uma
necessidade irresistível de fazer aquilo sozinha, até o fim e então, se ela esgotasse seus
recursos depois de dedicar tudo o que tinha de melhor, reconhecer a derrota, se necessário.
Mas ela não queria depender da perícia, evidentemente disponível, de Pavka, Nina, Linda
Lafferty ou algum dos muitos outros do quadro editorial. Ela estava com 29 anos

205

e nunca realizara grande coisa na vida a não ser a educação de Angelica. Mas o auxílio de
Justin era diferente. Ele era família.

— Por onde começamos? — perguntou Justin, tirando várias camadas de couro macio e
abrindo um lugar para si no chão, com Maxi e Angelica.

— Não quer saber por que estou procurando um conceito? — perguntou Maxi.

— Não necessariamente, contanto que tenha a ver com ferrar o Cutter. Até onde chegou? Tem
uma pálida idéia?

— Sei o que não posso fazer. Já eliminei todas as revistas lustrosas: os Vogues e Architectural
Digest e House & Gardens. Não só são muito caras de se publicar, como a Amberville já tem
Style e Indoors, e não quero competir com a companhia. Depois, elas me deixam tão irritada!

— Desde quando? Pensei que você as adorasse. — E adorava mesmo, estava acostumada com
a minha dose mensal de papel lustroso, mas quanto mais eu olhava para elas, quanto mais eu
lia, mais furiosa ficava. Justin, você sabia que aquelas coisas lindas só faziam a gente se sentir
como um pedaço de ferro velho? Quase ninguém pode ter aquelas caras, usar aqueles raios de
roupas, aquela louca maquilagem nova, ter casas assim ou jardins assim... a gente pode
aspirar, pode passar o resto da vida tentando ser alguém fotografado naquele minuto perfeito,
que é a única coisa que eles jamais mostram, mas nunca vai conseguir de verdade. Não
vendem sonhos, vendem desilusões. Vendem o sofrimento, a insatisfação com o que você tem
e, acima de tudo, vendem a inveja.

- Ei, Maxi, vamos com calma. Vendem roupas, mobílias e cosméticos... as páginas editoriais são
apenas o veiculo para os anúncios. Eles fazem girar as rodas do comércio americano. Você
sabe disso tão bem quanto eu.

— Mas nem por isso vou gostar delas — disse Maxi, teimando. — Mas você é leitora delas,
logo você. Você sabe perfeitamente que pode comprar qualquer coisa que vir naquelas
revistas. Veja este apartamento... quatro milhões de dólares, ou foram cinco? Veja os seus
armários rebentando de coisas, veja sua caixa de jóias, e depois olhe bem no espelho. O que é
que você não tem, a não ser um quarto marido!

— Estou pensando nos meus leitores — disse Maxi, impaciente. — Ah, então, você tem
leitores, é? Eu sabia que havia alguma coisa diferente neste lugar, mas pensei que fosse a
vista.

— Pretendo tê-los, Justin, e não vou lhes dar mais uma dose de como vivem os ricos.

— Bravo! Que outros tipos de revista você resolveu não publi-

206
car? — perguntou Justin, sua curiosidade aguçada pela veemência de-

la.

— Todos aqueles malditos livros de serviços: Good House, Family Circle, Woman’s Day,
Redbook, McCall’s, e tudo o mais que espicace cada vez mais as culpas de toda mulher. Veja só
esse anúncio no Ladie’s Home Journal... entrevistaram 86 mil mulheres e 87 por cento
disseram que ”as mulheres podem fazer qualquer coisa”.

— E não podem? Você sempre agiu como se achasse que você po-

dia.

— Veja o que mais diz: ”Estamos aqui, enquanto ela se esforça pela excelência física.
Oferecendo uma dieta sensata, exercícios e planos de beleza... e estamos aqui enquanto ela se
esforça por se aperfeiçoar em outros sentidos também. Em casa. No trabalho. Na sua
comunidade... esforçando-se tanto pela excelência quanto os dezessete Milhões e meio de
mulheres que nos lêem todos os meses.” É um raio de uma merda de imensa conspiração,
uma tirania, Justin, nenhuma pobre fodida pode fazer outra coisa senão ser excelente em
todas as ocasiões e situações. Esforce-se, esforce-se, e se cair morta de tanto se esforçar pela
excelência, pelo menos não terá deixado caducar a sua assinatura!

— Angelica, vá buscar um tranqüilizante para a sua mãe. — Tudo bem, Justin, acabei de dar
um. Não adiantou. A gente pode morrer de tanto espumar pela boca?

— Duvido, amor, a sua mãe está só sofrendo de tensão.

- Justin — gritou Angelica — por favor, não use essa palavra. — Ora, pombas — resmungou
Maxi, largando um exemplar de Family Circle. — Ainda estamos em setembro e eles já estão
com capas com ”101 Presentes de Natal que Você Pode Fazer” e ”Receitas Tradicionais de
Biscoitos” e o livro do Dr. Art Ulene sobre Como Impedir os Problemas de Família Antes de
Começarem... E se você não souber fazer biscoitos, e se comprar os seus presentes e não
quiser saber mais sobre os seus problemas de família no Natal do que já sabe? Até que ponto
essa capa vai fazer você se sentir culpada? E é a revista feminina mais vendida no mundo,
segundo a manchete. E olhe essa revista, olhe só. Chama-se Lady’s Circle e é mesmo uma
revista alegre: um artigo sobre suturas no estômago que não funcionaram, um artigo sobre um
adolescente com uma doença de fígado rara e fatal, outro artigo sobre a tensão que contém
quais as suas probabilidades de ter um ataque cardíaco; e depois, como divertimento, como
fazer uma toalha de mesa de festas, de crochê. Será que o crochê é um antídoto para a
tensão? Ou um acréscimo à tensão?

— Maxi, por que é que você se dá ao trabalho de ler obras sobre serviços? — perguntou Justin.
— Não são propriamente a sua especialidade. Nunca vi você fazer nada mais complicado do
que uma batida

207

de vodca, e me lembro que ficou furiosa porque o limão tinha sementes.


— Tenho de saber o que as pessoas estão comprando, o que as mulheres estão lendo, do
contrário não vou saber lhes dar o que elas já não possuam — explicou Maxi, parecendo achar
que ele de repente virara um cogumelo venenoso. — É óbvio.

— Mas você não pode estar pretendendo concorrer com uma Good House. Onde estão as suas
cozinhas, Maxi, cadê a sua garantia de devolução do dinheiro, cadê .a confiança conquistada
aos seus leitores? Cadê a sua reputação de excelência e sua posição como amiga de confiança,
e não uma revista?

- Justin, como é que você sabe tanta coisa? — indagou Maxi, desconfiada.

— Um dia almocei com uma pessoa do Hearst — disse ele, vagamente.

— Eu gosto de fazer biscoitos — declarou Angelica. — Pode me dar esse número do Women’s
Day, mãe?

— Com a minha bênção — disse Maxi, sorrindo pela primeira vez naquela manhã. Ela se virou
para Justin e ergueu as sobrancelhas. Fazer biscoitos?

— O que é que há nessa pilha aí? — perguntou ele, apontando para o monte de revistas mais
perto dela.

— Eu chamo de revistas tipo ”então, o que mais há de errado com você?”. A premissa deles é
simplesmente que as coisas estão indo tão mal que você está louco por um auxílio. Temos aqui
Woman, New Woman e Complete Woman com chamadas de capa típicas: ”Por Que Você
Deixa Que Ele Abuse de Você?” ”Vença Essa Depressão da Menstruação”; ”Como Vencer a Sua
Timidez”; ”Se o Sexo a Faz Perguntarse ’O Que Há de Errado Comigo?’ Então, o Sexo Não lhe
Interessa...”; ”Vença o Tédio, Vença Mágoas, Lute Contra a Insegurança”; ”Vença a Solidão”;
”Como se Salvar de Você Mesma”. Eu poderia continuar...

— Não! Por favor, se não eu grito — disse Justin, sem conseguir reprimir uma risada.

— A mãe está reagindo demaiá — cochichou Angelica. —- Estou o cacete — retrucou Maxi. —
Só estou vendo o que está sendo vendido nas bancas e tendo reações normais.

— Assim como ranger os dentes quando dorme? — perguntou Angelica.

— Isso mesmo! Que tal esse aqui sobre ”O Antídoto Número Um para a Tensão”, por Michael
Korda? Adivinhem o que é.

— Descontração? — perguntou Justin. — Respiração profunda e bolo de chocolate? —


arriscou Angelica.

— Não, não, meus filhos... ”Fazer Mais... ou Como Ser um

208

Super-Realizador Confirmado, Feliz, Sem Pretextos.” Isso FEDE! — Maxi jogou-se no chão e
gemeu. — ”Fazer Mais”, diz o cara. Mais.
— Deixe que eu esfregue suas costas, Maxi, com certeza estão doendo muito — disse Justin,
arregaçando as mangas e flexionando os dedos fortes.

— Que tal um tablete, mãe? Dizem que o chocolate deixa a gente feliz, libera um tipo de
hormônio ou coisa assim — sugeriu Angelica, aflita.

— Não, não procurem me ajudar. — Maxi se levantou de um salto, pegou as revistas em volta
dela e as jogou violentamente contra as revistas empilhadas contra as paredes. — Basta de
culpas. Basta dessa mania de culpa por tudo, desde uns quilos a mais até o ter transformado
seu amante num tirano; basta de culpa por saber pateticamente pouco sobre lidar com
dinheiro, ou combinar os acessórios de suas roupas, ou conservar o armário arrumado, ou não
tomar bastante cálcio, ou não ser promovido no trabalho, ou não conseguir trabalhar e cuidar
da família ao mesmo tempo, ou precisar de salvar o seu casamento; basta de seus erros de
nutrição e como lidar com o fracasso; basta de falar como a sua vida sexual é enfadonha e
provavelmente a culpa é sua; basta de se culpar porque toda a sua vida é deprimente e os
homens não se querem comprometer; basta de dizer como se estrepa nas entrevistas para os
empregos... Chega de complexos de culpa!

— Nós concordamos, não é, Justin? — disse Angelica, rápido, enquanto Maxi começava a girar
cada vez mais depressa, porém Maxi não a ouviu e ficou falando cada vez mais alto, os pés
descalços batendo no tapete grosso como cascos raivosos.

— Elas só servem para minar a autoconfiança da gente enquanto nos dizem como ser, parecer
e nos sentir mais confiantes; fazem a gente sentir que é impossível que o nosso corpo algum
dia seja bastante bonito, e que devemos estar sempre fazendo mais, mais, mais, na cozinha,
no quarto, na sala de reuniões... O quê? Quer dizer que ainda não foi promovida? Como é que
não é uma executiva, e se é, que coisas horríveis a sua mobília do escritório revela sobre o seu
caráter? E quando é que você vai aprender a manipular o seu patrão e se aproveitar da política
do escritório? E, se você não trabalha, como é que não está em casa fazendo um novo tipo de
recheio para o peru? Como é que pode ser uma criatura tão patética, que sem o auxilio dessa
revista nem conseguiria ir além desta noite? Ah, agradeça a eles... agradeça aos bons
redatores por fazerem-na sentir-se melhor quanto ao canalha com quem se casou, à dúzia de
homens que a deixaram, às dezessete coisas diferentes que você faz errado na cama, ao único
homem... naturalmente, um merda... que você não consegue esquecer; e tudo isso é sua
culpa, sua malvada. MALVADA! Culpa, culpa, culpa! ALGUM HOMEM COMPRARIA UMA
REVISTA QUE LHE DISSESSE TO-

209

DOS OS MESES QUE PALERMA ELE É? Não, meus filhos, não compraria. Se eu ler mais um
artigo sobre a bulimia, vomito. Diabos dos infernos, será que não há uma única revista que
uma mulher possa comprar que lhe diga que gosta dela como ela é? O que é que acabei de
dizer?

— Que ia vomitar — exclamou Angelica, histérica. — Não, depois. — Nenhuma revista gosta
das mulheres? — arriscou Justin. Maxi começou a pular. — É ISSO! É isso mesmo! A revista
simpática à leitora, a revista que gosta de você e não tenta mudá-la, a revista que só quer
diverti-la, que existe para o seu prazer e só o seu prazer. DIVERTIMENTO. A revista que não liga
a mínima se você come demais ou não consegue arranjar um namorado, ou devia saber ou
precisa de ajuda. Divertimento, é o que eu digo! Já há mais auxílio nas bancas do que qualquer
pessoa poderia usar. DIVERTIMENTO! Estão me ouvindo? DIVERTIMENTO! — Ela abriu bem os
braços e recomeçou a pular, atirando longe a última revista, levantando as pernas tão alto
quanto qualquer baliza do Texas, se exibindo.

— Nós já ouvimos, mãe. Todo mundo em Trump Tower já ouviu.

— Como vai se chamar esse livro do divertimento? — disse Justin, com uma expressão de
prazer ao ver a irmã adorada de volta ao normal.

— Já tem um nome, Justin. Escolhi Buttons and Bows quando tive a oportunidade. Mas as
coisas mudaram —,disse Maxi, alegre — e o nome também. Estou abreviando para B and B.

— B and B? Que tipo de nome é esse? — perguntou Angelica. — E eu sei? E isso importa? Bolo
e Biscoito, Bustos e Bundas, Benedictine e Brandy, o que agradar à sua fantasia. Chama-se B
and B e significa DIVERTIMENTO!

210

16

A— prova de cortes! Foda-se aprova de cortes! — disse

Rocco, irritado, jogando no chão o número de Adweek, que estava lendo. Olhou pela janela do
escritório, no 43? andar do Dag Hammerskjold Plaza, e notou, aborrecido, o anúncio em neon
da fábrica de engarrafamento da Pepsi do outro lado do rio. A Coca-Cola era sua cliente e
Pepsi o inimigo odiado, até o dia, quase certo, em que Pepsi seria o cliente e Coca o inimigo. —
Em todo caso — acrescentou — esta história é inteiramente doentia. Imagine ter de ser à
prova de cortes rodando oito horas e meia de filme e cortando para trinta segundos na
televisão. Por melhor que possa sair, eu digo que é um sintoma de algo basicamente errado.

— Não temos nada a ver com esse anúncio, Rocco — disse Rap Kelly, acalmando-o. — É para o
sabonete desodorante de alguém. Você devia parar de ler as publicações comerciais.

— Não comece a bancar o filósofo, Rocco — acrescentou Man Ray Lefkowitz, o terceiro sócio
da firma Cipriani, Lefkowitz e Kelly, a melhor agência de publicidade de Nova York. — Quando
você dá ao público as unidades de controle remoto para seus aparelhos de TV, é razoável que
eles mudem de canal na hora dos comerciais.

— Se tivéssemos sido nós, eu teria matado quem dirigiu aquele comercial de sabonete com
minhas próprias mãos — disse Rocco, taciturno. — Não foi nenhum Hitchcock.

Manny e Rap se entreolharam. Será que Rocco estava entrando em uma das fases que eles
chamavam, em particular, de crises de saudades das lides editoriais? Quando os dois o haviam
atraído da Condé Nast, três anos antes, tinha sido a campanha mais difícil empreendida por
qualquer dos dois, inclusive a luta para conseguir a conta da Chevrolet. Rocco não queria
reconhecer que as revistas eram uma besteira, no que se referia a captar a atenção das massas
para as artes gráfi-

211

cas. Rocco quisera ficar enterrado nas publicações para sempre, até que, juntos, eles o tinham
arrancado de sua fixação.

Manny Lefkowitz, esse brilhante redator de propaganda, ainda se recordava de seu argumento
vitorioso.

— Rocco — dissera ele — leva mais tempo, energia e decisão virar a página de um anúncio,
especialmente quando você já pagou por uma revista, do que matar um comercial, já que é
seu direito, como americano, ver um comercial lhe aparecendo de graça cada vez que liga a
televisão? Qual o maior desafio para um diretor de arte? O consumidor voluntário, o
verdadeiro público cativo de uma revista, que quer amortizar o seu investimento, ou o público
completamente farto de comerciais que vê televisão e que só está interessado no reinicio do
programa? Não precisa responder... é óbvio. Portanto, se você é o melhor diretor de arte no
mundo, como Rap e eu achamos, então a publicidade em televisão é o único meio digno de
você. É o seu próximo passo, Rocco, você não pode deixar de reconhecer isso.

— Reconheço... mas não sei... onde está o espaço em branco, Man Ray, cadê o layout?

— Naquela tela em branco, Rocco, e você sabe disso. Quer dizer que você vai agarrar as
pessoas mais depressa, e agarrar milhões... milhões e milhões a mais. E você tem de lhes
vender alguma coisa, não apenas distraí-los. A principal diferença, Rocco, é que os layouts das
revistas são, essencialmente, o equivalente gráfico de masturbação... você não faz mais do que
produzir páginas bonitas onde os anunciantes espalham os anúncios deles... é pura satisfação
de seus desejos. Com os comerciais, você vive ou morre naquela fração de segundo antes que
quarenta por cento do público resolva desligá-lo. Portanto, você tem de ser melhor do que nas
publicações. Não apenas bom, mas ótimo.

— Masturbação? — disse Rocco, ofendido. — Com o devido perdão do negócio de revistas, ele
está com um atraso de um século. Uma página não se move nem lhe fala, e nada vai fazê-la
fazer isso. Sai dessa, Rocco, não seja que nem aquele cara que disse que ninguém jamais iria
ao cinema falado.

— É, Rocco, não seja um burro total — concordou Rap Kelly. Ele era o mais cavador dos três, o
que arranjava os negócios, que se especializava em ser indecentemente mais sabido do que
parecia, conseguindo muitas contas que outro mais bem-falante tinha perdido.

Rocco olhara para os dois, Manny, o chefe dos redatores de propaganda e vice-presidente de
BBD&O, com um talento monstruoso, e Rap, que era o maior em Young and Rubicam e se deu
conta de que a aventura de fundar uma nova agência de publicidade com esses dois gênios da
propaganda era irresistível. Nunca antes, em Madison Avenue, um diretor de arte tivera a
oferta do mais alto cargo criativo nu-

212
ma agência que eles lhe estavam propondo. Tradicionalmente, esse cargo cabia sempre a
alguém que viesse por meio do departamento de redação.

Ele estava com 33 anos nessa ocasião e, a não ser a sua breve experiência nas Edições
Amberville, sempre trabalhara para a Condé Nast. Mas seu ídolo, Alexander Liberman, estava
forte como nunca, não aparentava qualquer sintoma de velhice, e Rocco de repente sentiu que
talvez tivesse chegado o momento de se afastar da página impressa, pelo menos por algum
tempo; talvez Manny e Rap tivessem razão quanto ao desafio. Sem falar no dinheiro. Ninguém
no mundo das revistas tinha a oportunidade de ganhar o dinheiro que ele sabia que poderia
ganhar numa agência de publicidade e já estava na hora de pensar em dinheiro de modo
realista.

Desde que Rocco e Maxi tinham-se divorciado, pouco mais de nove anos antes, ele preferira
não pensar em dinheiro, sabendo que não era típico de um americano, não era natural e, de
certo modo, era ridículo não pensar em dinheiro, como se ele tivesse feito algum voto. Era
mais difícil trabalhar em Nova York sem pensar em dinheiro do que deixar de pensar em sexo
ou comida, mas para uma pessoa cuja vida fora atrapalhada pelo dinheiro — o dinheiro de
Maxi — como fora a dele, o assunto era repugnante.

E ele tinha razão, quanto ao dinheiro que ganharia. CL&K, como era conhecida a sua nova
agência, foi uma mina de ouro desde o dia em que abriu as portas. Eles agarravam clientes que
supostamente pertenciam aos venerandos gigantes da Madison Avenue com a maior
facilidade; volúveis diretores de arte das 500 empresas mais da revista Fortune bateram às
suas portas antes de acabarem de assaltar as outras agências da cidade em busca de grande
parte de seus melhores talentos, pois Cipriani, Lefkowitz e Kelly tinham a seu favor algo mais,
que nenhuma outra agência possuía: os três eram solteiros, sem compromissos. E grande
parte do melhor talento de Madison Avenue era do sexo feminino. Man Ray Lefkowitz era um
alegre gigante ruivo, com olhos violentamente azuis que, insistia em dizer, eram sinal de que
pertencia a uma tribo especial que descendia diretamente da rainha de Sabá; e Kelly era um
irlandês ruivo com olhos violentamente azuis que fora zagueiro da UCLA e tinha uma voz
comovente de tenor de bordel quando queria cantar; e nenhum dos três jamais se metera em
encrencas, fora grosseiro com uma senhora, ou deixara de comemorar o Dia dos Namorados.
No ano anterior a conta deles de flores de Robert Homma no Dia dos Namorados tinha sido de
mais de oitenta mil dólares. Eles tinham enviado os vasos japoneses antigos dele com ramos
compridos e graciosos de marmeleiro em flor e isso lhes fora devolvido, como disse Kelly, com
respeito, ”um milhão de vezes”.

— Vamos tomar um porre — disse Rocco de repente, quando o

213

anúncio da Pepsi piscou.

— Não acabamos de conseguir a conta de Cutty Sark?

— Na semana passada... — respondeu Rap Kelly. — Não foi fácil despregá-los daquela velharia.
Pensei que você detestasse uísque escocês, Rocco.
— Não quando se trata de um cliente. Vou passar a gostar. Vamos, rapazes, está naquela hora
do dia.

Ele pôs o paletó e a gravata e foi indo na frente, enquanto atrás dele Lefkowitz e Kelly se
entreolhavam, preocupados. Era raro Rocco beber.

— Só um toque de uma deliciosa vulgaridade de Nova York... um pouco aquém do grosseiro,


apenas uma sugestão de um chique rude — disse Leon Ludwig, um dos decoradores de Maxi.

— Não concordo. Estamos falando do centro do país; tudo feminino e casa de campo inglesa,
toneladas de chintz estampado e sofás um pouco surrados — respondeu Milton Bizet, a outra
parte de Ludwig e Bizet, a equipe de decoradores que Maxi usara para as suas duas casas na
cidade e a reforma no castelo do Conde de Kirkgordon, na Escócia.

Não obstante, eles não tinham conseguido impor-se realmente sobre o apartamento de Trump
Tower. O local rejeitava a geometria do prédio, pois continha as peças favoritas que Maxi
comprara em suas andanças, os despojos de uma nômade displicente e rica com os instintos
de dona de mercado oriental. Eles tinham derrubado as paredes dos dois apartamentos
contíguos que ela comprara e feito o que podiam, mas o trabalho os deixara com a sensação
de que sua cliente não fora satisfatoriamente domada nem dominada.

— Rapazes — interrompeu Maxi — vamos com calma. Estamos falando de móveis para
escritório, estamos falando de cadeiras para taquígrafas, não estamos tentando fazer um
tratado de decoração.

Os três estavam se aproximando da zona em que se localizava o escritório de Buttons and


Bows, e quando Elie parou a limusine defronte do prédio junto da Sétima Avenida, Ludwig e
Bizet ficaram postados na calçada, sem poder acreditar.

— Aqui? — perguntou Leon Ludwig, recuando. — Aqui. O contrato ainda vale por três anos,
todo o espaço no resto do andar está livre, o aluguel é muito inferior ao de qualquer prédio
novo e o bairro tem recordações para mim — disse Maxi, cum energia.

— Nem chega a ser Art Deco — exclamou Milton Bizet, assombrado. Ele nunca estivera
naquela parte de Nova York, nem mesmo a caminho do teatro.

214

— Não é arte coisa nenhuma — retrucou Maxi — a não ser que seja Depressão Repugnante. É
uma droga e inteiramente ineficiente... é isso que quero que vocês dois endireitem. Preciso
disso para ontem. Não posso usar um pessoal com eficiência até ter um local decente onde
possam trabalhar.

— Talvez uma dessas firmas especialistas em escritórios... esses Itkins, ou seja qual for o nome
deles... serviria mais aos seus propósitos do que... — arriscou Leon Ludwig, não querendo
confiar sua pessoa elegante ao interior do prédio.

— Rapazes, não tenho relações com os Itkins, e suponho que queiram continuar as suas
comigo, certo?
— Naturalmente, Maxi, minha delícia, mas... — Então, mexam-se, vão lá para cima e parem de
choramingar — disse ela, com o seu sorriso mais alarmante. — Vai ser divertido para vocês,
fazer tudo funcionar dentro de um orçamento — acrescentou ela, pensativa.

— E de quanto é esse orçamento? — perguntou Milton, erguendo as sobrancelhas. Não era


nada do feitio de Maxi falar em orçamento, a não ser como uma coisa perecível, que eles
desprezariam sem qualquer sentimento de culpa, à medida que fossem descobrindo coisas
felizes, sem as quais ela não poderia viver. Ele sabia que ia haver encrenca, desde que Trump
Tower entrara na vida dela.

— A metade do mínimo absoluto que vocês puderem arranjar — respondeu ela.

— Engraçadinha — disse Leon, ronronando. — Estou com uma sensação doentia de que ela
não está brincando — disse Milton, com indisfarçado horror, observando a expressão
estranhamente séria no rosto de sua cliente favorita, embora marginalmente difícil.

— E não estou mesmo. Esta revista vai custar um bocado de dinheiro para ser produzida e não
o quero ver desperdiçado nas paredes de um escritório. Por outro lado, as vacas dão mais leite
em um ambiente feliz, assim como as pessoas, de modo que é essencial que todo o escritório
seja alegre, animado, e que seja divertido trabalhar nele. Quero janelas que funcionem, nada
de luz fluorescente a não ser onde seja positivamente necessário, uma recepção espetacular...
façam isso com espelhos, espelhos baratos, Leon, nada de biselados...

— Maxi, nunca ouviu dizer que é preciso gastar dinheiro para poder ganhar dinheiro? — disse
Leon, assumindo o último baluarte na defesa contra as agonias muito previsíveis de um
orçamento rigoroso.

— Muitas vezes. O dinheiro irá para os ordenados. De que outro modo posso tirar as melhores
pessoas de seus empregos atuais, para trabalharem numa revista nova? Bom, cá estamos.

Maxi abriu a porta do escritório. A salinha da recepção estava va-

215

zia e ela logo desapareceu em busca de Julie. Não gostava de ver homens adultos chorando.

— Seja bem-vinda — disse Julie, aliviada. — Estou com as suas chaves bem aqui, o negócio
antigo está todo terminado, todas as dívidas pagas, minha mesa está limpa, o telefone ainda
está funcionando, e a única coisa que ainda está por aí é um bloco amarelo e os lápis que você
deixou aqui na semana passada.

— E o meu suéter? — indagou Maxi, olhando para ela de um modo estranho.

— Que suéter? Você não deixou nenhum suéter aqui. — Eu sei. Os olhos apertados, como
duas fendas, Maxi examinou o novo conjunto de saia e suéter de Julie, que era de Perry Ellis, a
roupa que ia estabelecer a moda da aventura para a confecção americana daquele ano, duas
maneiras extraordinárias de usar o cashmere: uma túnica deslumbrante, uma tapeçaria de
vermelhos, azuis e amarelos, inspirada pela obra cubista de Sophie Delauny; a outra uma saia
preta meio longa, de estilo envelope, combinando perfeitamente com os sapatos pretos de
salto baixo e meias magenta de Julie. O suéter, e Maxi também comprara um no sábado,
custava oitocentos dólares e era espalhafatoso demais, marcante demais do outono de 1984
para poder ser usado durante mais de uma temporada. Num escritório, não seria possível usá-
lo mais do que de quinze em quinze dias. A saia, por trezentos dólares, poderia se tornar uma
roupa clássica, mas o suéter era um gesto de bravura, próprio ou de uma pessoa tão rica que
podia pagá-la sem sequer pensar no preço, ou de alguém tão louca por roupas que poderia
comprá-la, usá-la algumas vezes com esplendor, e depois guardá-la para sempre, para seu
prazer íntimo.

Julie Jacobson não podia ser assim tão rica, pensou Maxi, ou não teria sido obrigada a aceitar
um emprego de secretária enquanto esperava a sua nomeação de assistente secundária em
Redbook. Ela assumira os encargos monótonos de agente funerária de Buttons and Bows com
tato, expediente, energia e um bom humor notável, estabelecendo o seu posto de comando
no que fora o antigo departamento de arte. Maxi, ao fugir para não presenciar os chiliques de
Leon e Milton, notara que os escritórios agora estavam o mais limpos possível, dado o seu
estado de decrepitude. Julie valia duas garotas e meia.

— Tenho uma proposta a lhe fazer — disse Maxi, sentando-se ao lado de Julie.

— Não — respondeu Julie, estremecendo. — Sinceramente, não. Maxi não fez caso dela. —
Quanto você vai ganhar no Redbook? — Vou ganhar 175 por semana, mas o caso não é esse.

216

— O caso é que você vai estar no departamento de modas, como assistente da assistente da
redatora de modas.

— Exatamente — respondeu Julie, os olhos brilhando com a visão dela própria num futuro
distante e nebuloso, sentada na primeira fila nos desfiles de moda de Nova York, o lápis
pousado para tomar nota do que julgasse valer a pena.

— Você já jogou Monopólio? — perguntou Maxi. Julie fez que sim, ainda no seu devaneio. —
Lembra-se de quando você tem de passar ”Siga” e corre pela mesa e pega duzentos dólares do
banco? Não era gostoso?

Julie voltou à realidade. — Maxi, que vigarice está querendo fazer comigo? Não trabalho mais
para você, graças a Deus. Desde sexta-feira, não estou mais nem na folha de pagamento daqui.
O que é mais: nem existe mais uma folha de pagamento.

— Mas existe uma folha de pagamento, uma folha de pagamento nova, e vou pagá-la todas as
semanas.

— Quantas pessoas vai empregar? — perguntou Julie, desconfiada.

— Até agora, nenhuma. Com o tempo, dúzias e dúzias. Centenas.

— Fazendo o quê? — Produzindo uma nova revista. — Mas isso era exatamente o que você
pretendia fazer na semana passada! Ah, Maxi!
— Isso não tem nada a ver com a semana passada. Você tinha toda a razão quanto a Buttons
and Bows. Foi uma loucura da juventude. Desde então, adquiri mil anos de sabedoria e
experiência.

— É verdade? — Confie em mim. — Jamais confio em pessoas que dizem ”confie em mim”. —
Isso foi um teste — disse Maxi, satisfeita. — E você foi aprovada. Portanto, estou oficialmente
lhe oferecendo o cargo de editora de modas de B and B, combinado com o cargo de minha
principal assistente pessoal, encarregada de todos os outros detalhes, enquanto encontro
alguém que possa tirá-los de suas mãos e deixá-la inteiramente livre para planejar as páginas
de moda.

— Todos os outros detalhes? Por que isso está me cheirando mal? O que é B and B? Uma nova
versão de Buttons and Bows? Quantas páginas de modas haveria? E quanta autoridade eu
teria de fato? E o ordenado? E se a revista não der certo e eu perder o emprego ern Redbook?

— São trezentos por semana para começar, você compra suas roupas por atacado, autoridade
total dentro da filosofia básica de B and

217

B, que .é simplesmente que as mulheres são formidáveis do jeito que são... você não pode
dizer não a isso, pode? E... ah, você está aí! Este é Justin, o seu consultor fotográfico. Justin,
esta é Julie Jacobson, a nova editora de moda de B and B. Vocês dois vão trabalhar juntos.

Julie virou-se e ficou olhando boquiaberta para Justin, que se materializara sem fazer barulho e
estava no vão da porta, encostado no umbral com uma energia tão compacta e contida que
parecia estar sustentando o prédio com o ombro. Ele se dirigiu a Julie, que estava hipnotizada
pelo monte de câmaras Nikon que ele usava com a mesma naturalidade como se fosse uma
echarpe no pescoço, e apertou a mão dela.

— Justin, o Justin, também vai trabalhar para essa revista? — exclamou Julie.

— O Justin. Eu disse para confiar em mim. Isso não queria dizer que não pudesse confiar —
disse Maxi, rindo. — E aqui... ”olá, caras”... como dizia Mary Tyler Moore... aqui estão Milton
Bizet e Leon Ludwig, que vão decorar os nossos escritórios. Entrem, rapazes, para falar com
Julie Jacobson, a minha editora de moda. Ela é quem vai ver as suas contas, de modo que
sejam simpáticos com ela. Julie, você não tem de ser nada simpática com eles. Aliás, aconselho
a maior cautela. Leon, que cor de escritório você imagina para Julie, presumindo que ela não
mude o tom dos cabelos?

— Um ambiente de floresta, muito estampado, esteira nas paredes, evidentemente um tapete


persa no chão, palmeiras em leque...

— Leon, eu me referia à cor da tinta. Não temos paredes de tecido em B and B, não temos
tecidos em lugar algum. Tecido é muito caro e suja logo. O escritório sem tecidos vai fazer
história na decoração de interiores, não vai, Justin? Zen e a arte da manutenção do escritório.
Pode lhes valer um artigo no Architectural Digest e pode também dar a vocês a capa de
Plastics Weekly... tudo depende da sua imaginação e talento. Se tiverem bastante, posso fazer
de vocês meus editores de decoração, mas primeiro vão ter de provar.

— Um escritório todo branco — sugeriu Milton, muito ofendido — com uma grande caixa de
Ajax e uma grosa de esponjas.

— Posso trazer só uma rosa branca num vaso branco para a minha escrivaninha? — pediu
Julie, corando de entusiasmo. Por atacado! Justin!

— Forneço a rosa — declarou Justin. — Eu lhe empresto um vaso de ônix — declarou Leon. —
Vaso branco, pois sim.

— Hummm — resmungou Maxi. — Pensei que eu gostaria de ter um escritório todo branco,
para combinar com a minha mecha. Não podemos ter dois.

218

— Vai ser da Julie — decretou Leon, sentindo-se muito melhor. — É a única a quem temos de
agradar, agora.

— Pavka, que bom que me convidou para almoçar. Faz tempo demais que não o vejo. — Maxi
tinha corrido para os braços dele, num rodopio efervescente de pregas de escocês e uma curva
de seus membros bem-feitos que provava para sempre que o joelho, em certas circunstâncias,
está longe, longe de ser uma articulação feia.

— Estava com saudades de você, mas sabia que andava ocupada — disse Pavka, tomando
cuidado para não parecer que a estava reprovando. Sabia perfeitamente que ela o tinha
evitado. As Edições Amberville fervilhavam de boatos sobre o plano de Maxi, mas ninguém
tinha um detalhe sólido para contribuir.

— Estivemos pintando o escritório — disse Maxi, com modéstia. — Bem... é um começo. —


Acho que sim. Maxi examinou o menu do Four Seasons Grill Room, que se tornara quase que
um clube dos altos executivos e agentes editoriais, gente tão importante que seus privilégios
incluíam as limusines que enchiam a Rua 52 junto à Park Avenue como se houvesse um
enterro de um gângster se realizando lá dentro. E podia bem ser o caso, em certos sentidos
sutis da palavra.

— E depois que os escritórios estiverem pintados — continuou Pavka com paciência, após
fazerem os pedidos — você vai pendurar cortinas, colocar móveis, tapetes?

— É provável que cheguemos a fazer algo assim, ou pelo menos nesse sentido geral —
concordou Maxi, séria, dando a maior atenção à pergunta.

— E, se entendi bem, com o tempo, você vai publicar uma revista? — atacou Pavka, mas ela
nem piscou.

— Ah, isso. Imagino que sim, com o tempo. Claro, com o tempo não quer dizer amanhã, mas
imagino que mais cedo ou mais tarde a gente dê um jeito de arranjar uma... uma revistinha
boazinha.
— Que, por acaso, ainda não tem um nome? — Um nome de verdade, não. Não, acho que não
poderia dizer que ela tenha um nome.

Os olhos de jade imperial de Maxi se tornaram de repente de um verde tão simples quanto de
uma amostra de cores. Estava resolvida a não revelar qualquer detalhe a Pavka. Ela se sentia
como uma mamãe passarinho perturbada no ninho ao chocar o primeiro ovo.

— Mas, minha querida, por certo você pretende que tenha um nome?

— Com o tempo, com o tempo.

219

Ela assumiu um ar de preguiça pecaminosa, feliz. O tempo seria ignorado, ela parecia dizer,
sem palavras...

— Mas, Maxi, você compreende a importância de um nome?

- Good Housekeeping, Reader’s Digest, National Geographic, Playboy... Claro que sim.

— Suponho que esteja procurando um nome que diga ao leitor de que trata a revista, hem?

— É mais ou menos isso, sim. Pavka, sabia que Russell Baker diz que só existem seis assuntos...
sexo, Deus, casamento, filhos, política e beisebol?

— Então, posso deduzir que a sua revista é a respeito de sexo? — insistiu ele.

— Eu nunca o ignoraria completamente. O casamento também é bom. O divórcio também.

— Maxi! Por que não quer me contar nada? Está implicando comigo, parece alguém numa
peça off-Broadway medíocre. Não sabe que precisa de ter um título informativo, para as
pessoas sequer olharem para o primeiro número, o que será apenas um de seus problemas,
aliás, só a primeira das dúzias de problemas que envolvem o lançamento de uma revista nova.
Você vai ter de conseguir que eles a abram, Maxi, sem falar em comprar.

- Pavka, meu anjo, tenho um favor enorme a lhe pedir. Maxi lhe lançou um olhar de uma
beleza cósmica. O coração dele derreteu-se. Ela não precisava se incomodar mesmo, sempre
tivera toda a dedicação dele.

— Tudo o que você quiser. Você sabe que eu ajudo, seja o que for... quer conversar
detalhadamente sobre seus planos? Ou posso ajudá-la com a boneca? Nada é incômodo, para
a minha Maxi.

— Eu só quero é que você não me fale de minhas dúzias de problemas — respondeu Maxi,
com a voz mais doce. — Sei que você pode me dar conselhos maravilhosos, Pavka, mas você
sabe demais, já viu muitas revistas fracassarem. Você falaria com um bebê que vai dar o
primeiro passo sobre os perigos de esquiar morro abaixo? Sobre planadores? Bailado no gelo?

— Seja como você quiser, meu bem, mas uma coisa você não me pode impedir de dizer... você
tem de contratar uma pessoa experiente para tratar do controle de tráfico, que em geral se
chama redator executivo, alguém que não impõe sua opinião sobre o que entra na revista, mas
que orienta as idéias através das muitas fases aborrecidas desde a concepção à realização, e
depois leva o texto e fotos e anúncios à gráfica, a tempo. Deve ser um pessimista, que nunca
ache que as coisas vão dar certo, a não ser que ele mesmo as faça. Uma besta de carga, se
quiser, mas uma besta a quem você possa confiar a sua vida. Se não, a sua revista será um
barco sem um leme.

220

— Éu sou o leme. — Não, Maxi, você é o barco... e o oceano, e certamente o vento que enche
as velas, mas o seu temperamento não é o do leme.

— Humm. — Maxi não sabia se devia ficar irritada ou calma, mas gostou de se imaginar como
um barco, um iate de corridas elegante, de 48m e três mastros. — Imagino que você tenha
alguém em mente.

— Há um homem que posso chamar. Ele era editor executivo de Wavelength antes do
massacre de Cutter, e tirou férias quando foi despedido, de modo que ainda está livre... um
homem chamado Allenby Montgomery. Allenby Winston Montgomery.

— Tenho de chamá-lo de General? — Eevidemment... a essa altura ele não atende por outro
nome. Mas não precisa fazer continência, se não quiser.

— Ele parece um cara complacente — disse Maxi, num tom resignado. Ela sabia que Pavka
estava com a razão. Ela precisava de alguém completamente árido junto dela, para poder fazer
todas as coisas que não fossem áridas.

— Espero que tenha pensado num diretor de arte — continuou Pavka, com cuidado.

Se Maxi tivesse alguma idéia clara do que pretendia fazer, jamais deixaria de contar a ele,
mesmo que não quisesse seus conselhos. Estaria muito satisfeita consigo mesma. Será que
tinha pelo menos uma concepção? Se tinha, e ele duvidava disso, fosse o que fosse, só existia
em alguma prancheta mal acabada no fundo de sua cabecinha deliciosa e enlouquecedora, em
algum lugar sob aquele penteado de cacatua, espetado para todos os lados, inclusive para
cima e a fazia parecer que estava na cama com alguns amigos muito íntimos e enérgicos.

— Um diretor de arte? — murmurou Maxi, com um ar vago. — Claro que pensei... mas só fui
até aí. Ainda estamos esperando que a tinta seque... ainda não estou precisando de um diretor
de arte.

— Um dia perguntei a um grande editor qual era a pior coisa isolada que seus inimigos no
setor editorial poderiam fazer para destruí-lo, e ele respondeu: ”Roubar o meu diretor de arte”
— disse Pavka, quase falando sozinho.

— Quem era o editor? — O seu pai. Eu era o diretor de arte. — Evidentemente. E touché. Mas
estou pensando em gente de outras revistas. É um processo’ de peneirar, de selecionar, de
encontrar a pérola no meio das ostras... estou pensando nisso, Pavka, mas ainda não tomei
decisões. Confie em mim.

— Como poderia não confiar? Então, me conte, como vai indo com a boneca?
— Estou brilhante, é... brilhante mesmo. Estou-me sentindo que

221

nem o cowboy que pulou para a moita de cactos. Quando lhe perguntaram por que ele tinha
feito aquilo, ele respondeu: ”Na hora, pareceu que era boa idéia.”

Rindo, Pavka conseguiu esconder essa confirmação de sua convicção de que Maxi estava
mentindo para ele. O verão que ela passara trabalhando em Savoir Vivre realmente conduzira
a fatos importantes, entre os quais o casamento e a maternidade; mas ele duvidava que ela
tivesse sequer chegado perto de uma boneca, muito menos ser capaz de fazer uma. Ele
suspirou, nada surpreendido.

— Lembre-se, minha querida, estou aqui se você precisar de qualquer tipo de auxílio — disse
ele, mantendo as aparências, já que era assim que ela queria. — E digo ao General para lhe
ligar assim que ele voltar.

— Obrigada, Pavka. Você é bom demais para mim. Os dois fugiram da austeridade de mármore
do Four Seasons e Maxi encontrou Elie bem diante da porta giratória, resistindo tenazmente
aos esforços do porteiro para ele estacionar a limusine mais adiante na rua. Voltando para o
escritório, ela se sentiu aliviada por não ter sido levada a contar alguma coisa a Pavka, embora
sofresse essa tentação. Considerando tudo, ele era um pouquinho antiquado, um pouco
pessimista. Poderia não ter entendido que agora que ela encontrara a sua concepção, todo o
resto estava ali, tudo à sua espera. Bastava apenas um pouco de definição. Nada mais. Só mais
um pouco de... pensamento... um toque de... ah, trabalho... é, era preciso encarar, trabalho.

Nessa noite, tendo recusado três convites para jantar, Maxi ficou em casa. Gostaria que os
homens que ela conhecia não a tivessem gozado quando ela disse que não podia sair porque
precisava trabalhar. Ela franziu a testa, ao se instalar no meio da cama enorme, apoiando-se
no menos fofo dos travesseiros, e puxando a colcha de vison branco no pé da cama, de modo
que seus joelhos formassem uma mesinha de peles.

Todo o material que ela julgava necessário para a confecção de uma boneca estava arrumado
ao seu lado. Ela comprara dez maços do papel mais grosso que encontrara, num arco-íris de
cores vivas, cinco tipos de fita gomada, duas caixas de lápis especiais número três, holandeses,
um apontador de lápis miniatura portátil, um vasto sortimento de esferográficas em todas as
cores existentes no mercado, um conjunto completo de caligrafia; e bem perto estavam os
últimos números de todas as revistas femininas publicadas nos Estados Unidos. Ela olhou para
as revistas com desdém. Nunca vira uma boneca completa, só páginas espalhadas de layouts,
mas, evidentemente, devia ser um objeto com forma de revista. Ela pretendia usar as outras
revistas para cortar anúncios e colar na sua boneca, para que o produ-

222

to final não fosse apenas texto e fotos. Aliás, pensou, segurando a tesoura suíça, comprida e
cara, por que não cortar logo uma boa porção dos melhores anúncios, para ter logo à mão? Aí
ela jogaria as revistas na cesta de papéis usados, onde era o lugar delas.
Dali a pouco, estava com um maço de anúncios, a maioria em cores. Depois de pensar um
pouco, Maxi acrescentou alguns em preto e branco. Bill Blass, Blackglama, Lancôme e
Germaine Montei!, só para o contraste. Ela empurrou as revistas para fora da cama com um
gesto de quem se via livre e, sentindo-se eficiente, juntou os anúncios em dois grupos com os
clipes para papel que não se esquecera de comprar.

Agora. Agora, à boneca. Talvez fosse bom ela ir ver se Angelica estava fazendo os deveres de
casa. Não, as aulas de Angelica só começavam na semana seguinte. Ela devia estar na
biblioteca, esperando, impaciente, que começasse o programa Hill Street Blues. Talvez ela
devesse ligar para India e contar o que estava fazendo. Não, aí elas iam passar horas
conversando e a noite acabaria desaparecendo. Resolvida, ela pegou uma das penas de ponta
de aço do estojo de caligrafia e experimentou desenhar um & numa folha de papel duro
vermelho. Era difícil de desenhar o símbolo, mas ela conseguiu uma coisa razoável, na quinta
tentativa. Depois, escreveu com ousadia, B&B. No final da página, fez um círculo pequeno e,
com cuidado, inscreveu aí a letra C, no meio do círculo. Agora, tinha o copyright no seu título;
era só isso. Extraordinário. Talvez tivesse algo a ver com a Biblioteca do Congresso? Depois de
publicado, pertenceria a ela. Depois de publicado. Ela nunca acreditara na pessoa que lhe
dissera que não se podia ter o copyright sobre títulos. Gostaria de ver a pessoa que pudesse
lhe tirar B&B.

Bem. Até aí, muito bem. Agora, o texto e as fotos. O texto primeiro. Era razoável, se não, como
é que ela ia saber de que fotos precisaria? Ou se deviam ser fotos ou ilustrações? É, o texto.
Não, o texto não! Afinal, não era ela quem ia escrever a revista. Era para isso que serviam os
escritores. Só precisava de manchetes. Títulos dos artigos. Que sorte ela saber o que não
queria, que tinha passado tanto tempo eliminando o tipo de coisa que deixava as mulheres se
sentindo com inveja, deprimidas ou com sentimento de culpa. Na verdade, ela já fizera a maior
parte do trabalho, pensando bem. Talvez ela fosse ter com Angelica na biblioteca, para ver o
que estavam fazendo no Hill, esta semana. Talvez a mãe de Mick morresse. Talvez Furillo se
apaixonasse por uma loura. Talvez Renko se dedicasse à musculação. Talvez Joyce arranjasse
um penteado novo. Maxi suspirou profundamente. Devia ter esperado até o dia seguinte para
começar aquela boneca. Qualquer dia servia para uma boneca, mas só na quinta-feira é que
tinha o Hill. Ela poderia muito bem assistir ao programa.

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Não. Ela ia ficar ali, tinha de ficar ali. Em todo caso, o programa provavelmente era uma
reprise. Ela estendeu a mão para pegar o bloco amarelo, ainda vazio, que estava
maldosamente meio escondido sob um travesseiro, pegou um lápis e escreveu devagar. ”Por
Que Os Homens Baixos e Gordos São Melhores na Cama, por Nancy Kissinger.” Nancy devia
ficar contente por ter a oportunidade de contar ao mundo, pensou Maxi, e respirou fundo pela
primeira vez, desde que se instalara na cama. Ela lambeu o lápis e refletiu muito. Puxou a
mecha branca três vezes e escreveu devagar: ”Eu Estava Enganado quanto à Inveja de Pênis:
Um Manuscrito Não-Publicado, por Sigmund Freud.” Um pouco comprido esse título, resolveu
Maxi, mas não havia dúvida que saltava aos olhos. Ela sentiu o estômago roncar. Nunca se
dera conta de que pensar dava fome. Resistindo à vontade de ir até a cozinha, rabiscou: ”Por
que Você Deve Ter Muito Chocolate na Sua Dieta Diária.” Quem era chefe do programa
espacial? Ela conseguiria que ele o escrevesse. Ou Jane Fonda. Qual era a maior autoridade?
Jane, claro.

Ela se levantou da cama e começou a andar em círculos diante da janela, sem sequer notar as
luzes de Manhattan espalhadas embaixo, como se fosse uma estrangeira numa nave espacial
prestes a pousar no Central Park. De repente, ela voltou para a cama e escreveu depressa: ”O
Máximo no Relacionamento Amor e Ódio: Você e o Seu Cabeleireiro, por Boy George.” Ela
saltou umas linhas, gemeu um pouco e depois tornou a agarrar o lápis. ”Homens de Verdade
Nunca Sonham com Mulheres Magras, por... por... Clint Eastwood... não, Mel Gibson... não,
Don Thomas.”

— Coluna mensal — disse Maxi, em voz alta. — Coluna mensal. — Ela remexeu nos cabelos,
coçou as orelhas, puxou os dedos dos pés e por fim escreveu: ”Vamos Falar de Sexo, por Tom
Selleck.m” Ela sorriu. O mesmo esforço para pensar num artigo único poderia fazer uma
coluna mensal. Era uma economia de esforço, pensou, e resolveu tentar de novo para ver se
dava certo. Ela fechou os olhos um pouco, procurando no cérebro como se ele fosse o saco
branco do Papai Noel. Depois de certo tempo, esfregou os olhos com força, abriu-os e
escreveu com cuidado: ”As 25 Primeiras Coisas que Adoro nas Mulheres de Mais de Trinta
Anos, por Warren Beatty.” Em outro número podia ser mulheres de mais de 40, 50 ou 25, com
autores diferentes, como Richard Gere ou Bill Murray, Sam Shepard ou Prince, ou algum
homem especialmente atraente. Mesmo que a leitora não tivesse mais da idade em pauta, ela
poderia antecipar e achar que era prematuramente adorável. ”O Meu Melhor Divórcio, por Liz
Taylor.” Esse não dava uma coluna, a não ser que se pusesse uma Gabor no outro mês e... não,
não tinha uma força estável. A maior parte das pessoas não se divorciam tão freqüentemente.
Algumas pessoas não se divorciam

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nem uma vez, como por exemplo a rainha da Inglaterra. Maxi escreveu depressa: ”Rainha: O
Pior Emprego do Mundo, por Anthony Hayden-Guest.” Ela parou, pensando se suas leitoras
saberiam quem era Hayden-Guest, e concluiu que provavelmente não saberiam. Riscou o
nome dele e escreveu, em seu lugar: ”Pelo Príncipe Philip.” Ela espirrou com força. Aquele
negócio era empoeirado. ”Onde Guardam a Caixa de Lenços de Papel?” ou ”Como Ficam os
Banheiros de Cinco Mulheres Famosas Quando Elas acabam de se Vestir, ensaio fotográfico
por Helmut Newton.” Assombrada, ela viu que chegara ao final da página. ”Sexo Num Veículo
em Movimento”, ela rabiscou na página seguinte. Por John De Lorean. Não. Por Paul Newman.

— Mãe! — A porta do quarto se abriu de repente. — O que é, Angelica? Não está vendo que
estou trabalhando? — Vem depressa. A Lucy está grávida. Ninguém sabe quem é o pai, nem o
que isso vai fazer com a carreira dela. Depressa, se não voa vai perder a cena!

— Agora não posso parar. Você me conta quando descobrir. E feche a porta quando sair.

— O que é que aconteceu com a sua compaixão? — Angelica parecia aturdida. Seria essa a
mesma mãe cujo único sonho era ser abandonada numa ilha deserta com todos os caras do
Hill?
— São só atores — respondeu Maxi e escreveu ”Vinte Bons Motivos Para Não Ter Filhos” no
alto da página.

Sozinha de novo, Maxi se espreguiçou, com cuidado. Ainda estava rodeada por todo o seu
equipamento. Ainda não fizera nem sequer uma mossa na boneca, mas estava com uma
sensação estranha, mas conhecida, no estômago. Isso era... fazer essas listas era... quase
exatamente, aliás, exatamente igual a... se... DIVERTIR!

Ela saltou da cama, empolgada com essa idéia, e foi ao espelho do banheiro para se olhar bem.
Estava precisando de uma coisa conhecida para se acalmar depois de descobrir que essa coisa
em que ela evitara até pensar, essa coisa que ela não confessara a Pavka que a apavorava, esse
ato de escrever idéias que se relacionavam com seu conceito de uma revista que gostava de
suas leitoras, no seu estado natural e imperfeito — afinal era possível. Ela estava pálida e
desarrumada, e toda a maquilagem sumira. O rímel estava borrado onde ela esfregara os olhos
e se ela não soubesse como era bonita, teria ficado preocupada.

— ”As Dez Melhores Modelos: Como São de Verdade” — disse ela, em voz alta. Justin
conseguiria essas fotos. Roubando... pois nenhuma modelo o deixaria tirar uma foto dessas de
propósito. Mas se ele as batesse depressa, antes que o pessoal da maquilagem e do penteado
começasse a trabalhar, as garotas nem notariam quando assinassem maquinalmente os
contratos. Isso seria um bom começo para

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as páginas sobre beleza do primeiro número e faria a felicidade de milhões de mulheres.


Páginas sobre beleza, meditou ela. Sim, haveria todas essas seções enchendo B&B, Beleza e
Decoração, Modas e até Saúde. Saúde parecia tão institucional... por que não chamar isso de
”Viver Bem: Comer, Beber e Ter Sexo” e começar com ”Os Dez Melhores Remédios para
Ressaca”? Um verdadeiro serviço público, é o que seria. Decoração? Ela encomendaria de
Milton e Leon um artigo sobre ”Pense duas Vezes Antes de Redecorar”, com páginas de
exemplos horrorosos ilustrando o tema. E quanto à moda, alguma coisa suavizante. A moda
sempre tendia a deixar todo mundo nervoso. ”As Dez Coisas Indispensáveis Que Toda Mulher
Já Possui”, por Yves SaintLaurent. Com fotos mostrando como usá-las. Maxi bateu nos dentes
com o lápis, pensando nas fotos.

— Mãe, a Lucy abortou — disse Angelica com pesar, enfiando a cabeça pela porta. — Ela deve
ter conhecido um cara ruim mesmo... continua sem querer dizer quem foi.

— ”O Maravilhoso Cara Ruim, Experiência de Divertimento Essencial na Vida de Cada Mulher”


— disse Maxi.

— Não entendi — disse Angelica. — Vai entender, depois que Eddie Murphy explicar a você —
garantiu Maxi.

226

17
Cortes de papel. Não há nada que melhore os cortes de papel. Não há ungüento ou
comprimido conhecido da medicina que alivie a presença mínima mas alucinadoramente
dolorosa de dúzias de cortes de papel em cada ponta dos dedos. Dor nas costas. Não há nada
que alivie a dor nas costas a não ser mudar de posição, exercício e massagem, de modo que se
o seu trabalho exige que você lide com muitos papéis em uma posição forçada para as costas,
você aprende a suportar a dor nas costas e os cortes de papel. Cansaço ocular. Quando as
coisas ficam turvas, você vai ao banheiro e põe uma toalhinha fria e molhada nas pálpebras,
pinga umas gotas de colírio e volta ao trabalho, pois a única coisa que alivia o cansaço ocular
seria parar de trabalhar, e isso não é possível. Só depois de pronta a boneca, pois sem a
boneca MB não seria uma coisa real.

— Imagino — disse uma exausta Maxi para Angelica, que estava ao seu lado, aflita — que isso
revigorou o meu caráter.

Ela empurrou a boneca para o lado, levantou-se e estirou-se no tapete do quarto.

— Você já era perfeita como era antes — retrucou Angelica. Ela estava tão habituada a se
sentir meio superior diante da maluca da mãe, que aquela nova versão séria, que
naturalmente não duraria mais do que qualquer outra das manias de Maxi, era um pouco
assustadora. Tudo começara quando ela cancelara aquela viagem a Veneza... desde então,
nada fora igual. Não podia durar nem mais uma semana, pensou ela. Verdade, Maxi agüentara
o Border Country da Escócia durante quase dois anos, como Condessa de Kirkgordon, mas
aquilo era diferente: aquilo fora um casamento, e isso aqui era apenas uma revista. Angelica
estremeceu, lembrando-se dos ventos cortantes das charnecas, as correntes de ar do Castelo
do Pavor, e depois sorriu, pensan-

227

do com simpatia no louco do seu segundo padrasto. Será que a mãe tinha entendido que ele
era biruta? Bonzinho mas biruta? — Quando é que vai ficar pronta, mãe?

— Como assim, ”quando”? Não está vendo que já está pronta agora? — perguntou Maxi,
indignada. — Por que pensa que parei de trabalhar? Quer fazer o favor de esfregar as minhas
costas? Por favor, por favor, esfregue minhas costas. Ande em cima delas, de pés descalços,
faça alguma coisa nas minhas costas, Angelica, se me ama.

— Você está deitada de costas. Vire-se. — Não posso. Não tenho forças. — Vamos, mãe, é só
rolar para o lado. — Já vou, num minuto. Angelica, não está linda? Não acha que minha
boneca está fabulosa?

Angelica deu uma olhada ao objeto que passara a detestar. Não parecia diferente do que
estava nas quatro primeiras tentativas da mãe no sentido de fazer uma boneca. Era
imensamente gorda e volumosa, desleixada e excepcionalmente pouco convidativa à vista. Só
de olhar, ela achava que o negócio ia desmoronar se ela o tocasse. De um modo obscuro,
lembrava o colégio a Angelica. Ela estava certa de ter feito uma coisa bem parecida com aquilo
na terceira série, só que menor e muito mais bonita.
— É tremenda, mãe, tremenda mesmo. Gosto da capa vermelha. É um vermelho muito bonito,
alegre. Positivamente, atrai a atenção.

Maxi rolou de novo, gemendo, e olhou bem para a filha. — O que é que há com ela? —
perguntou. — Não há nada errado com ela, verdade. Está boa, quero dizer, não sei como deve
ser uma boneca, em todo caso, de modo que não tenho base para uma comparação, mas a
capa é um vermelho bonito... um vermelho legal.

Maxi se levantou e foi para a mesa onde estava a boneca. — Parece uma merda — disse ela,
com calma. —- Um rolo de merda vermelha. E é o melhor que consigo fazer, porra.

— Mãe! — Desculpe, Angelica, mas não estou usando palavras que você não conheça... ou
use, de vez em quando.

— Não é o palavreado, mãe, é o que você disse. Trabalhou tanto. Tem de ser bom. Você não
podia estar errada... está é cansada. Não pode julgar direito.

— Não é preciso a gente ser bom para julgar uma merda. Quando a gente vê, sabe logo.
Preciso de ajuda. Especificamente, preciso de um diretor de arte. Quem é o melhor diretor de
arte no mundo, Angelica?

— Para que fazer perguntas bobas quando sabe a resposta tão bem quanto eu?

228

— Quem é que sempre consegue falar com o seu pai ao telefone, a qualquer hora do dia ou da
noite?

— Eu, mas você não vai querer que eu peça a ele para ajudar você! Você sempre disse que
nunca pediria a ele nem uma migalha de pão se estivesse morrendo de fome, nem um gole
d’água se estivesse morrendo de sede.

— Não quero pão nem água. Quero o melhor diretor de arte do mundo.

— Não serve o segundo melhor... por favor? — Angelica, isso não é digno de você. — Muito
bem, então, ligue pra ele e peça você mesma. Vocês dois sempre se falam no telefone. Qual é?

— Só falamos sobre você, Angelica, e quem vai pegar você, e onde e a que horas. Nunca
falamos sobre mais nada, nem mesmo o tempo.

— Isso é uma burrice sem igual. — Mas é assim que é. — Bom, eu não aprovo. E já estou
atrasada para a aula de violão. Adultos! — disse Angelica, com nojo, e desapareceu tão
depressa que quando Maxi saiu correndo atrás dela só viu as portas do elevador se fechando
rapidamente e sem ruído, no tapete marrom e bege do corredor.

Maxi voltou para o quarto, sem se dar ao trabalho de sequer olhar para alguma das muitas
salas do seu novo apartamento, cada qual decorada tão luxuosamente por Bizet e Ludwig,
cada qual cheia da coleção de móveis e quadros e esculturas que ela descobrira em todo o
mundo, centenas de objetos adquiridos às pressas, que lhe tinham parecido necessários desde
o minuto em que os possuíra. Ela não usara nenhum dos aposentos do apartamento, a não ser
o quarto, desde que começara a trabalhar na boneca, uma semana atrás. Tinha feito as
refeições de pé, na cozinha, comendo o que a nova cozinheira achara bom deixar para ela na
geladeira e voltando logo a trabalhar, acenando rapidamente para Angelica, se a filha estivesse
em casa.

Apertando os lábios — a ingratidão dos filhos! — ela discou o número de Cipriani, Lefkowitz e
Kelly. A secretária de Rocco lhe disse que o Sr. Cipriani estava em reunião com senhores da
General Foods e não podia ser incomodado de modo algum. E depois disso iria para o estúdio
de Avedon. Um comercial de Calvin Klein.

— Mas é uma emergência, Srta. Haft — explicou Maxi. A secretária fez a ligação
imediatamente.

— O que aconteceu com Angelica? — perguntou Rocco, alarmado.

— Está bem. Impossível, mas bem.

229

— Então... por que você telefonou? — perguntou ele, com frieza.

— Rocco, estou precisando de sua ajuda. — Então, aconteceu alguma coisa com Angelica!
Droga, Maxi... — Rocco, a sua filha está em perfeitas condições físicas e mentais. Mas eu é que
preciso de sua ajuda profissional para um assunto de negócios, e tem de ser depressa. Quando
é que você pode vir aqui? Não posso levar ao seu escritório. Você vai entender quando vir.

— Maxi, seja o que for que você ”precisa”, vá pedir a outro. — Não. — Estou numa reunião.
Adeus. — Rocco... se você não vier à minha casa, para me ajudar, eu... eu... começo a dar a
pílula a Angelica.

— Ela só tem onze anos, pelo amor de Deus! — Ah, mas breve terá doze, e é muito
amadurecida... você sabe como ela é precoce. Hoje em dia as meninas ficam preparadas para a
maternidade muito mais cedo, e com o seu violento sangue latino, bem, tudo pode acontecer.
Melhor prevenir do que remediar. Já leu as últimas estatísticas sobre a gravidez na
adolescência? Lembro-me de quando eu era da idade dela... — a voz de Maxi sumiu, cheia de
recordações improvisadas.

— Hoje às nove da noite. — Rocco desligou, sem mais uma palavra.

Cantarolando, feliz, Maxi ligou para a massagista e marcou hora. Hilda estaria lá dentro de
meia hora. Depois um bom banho — ia lavar a cabeça no chuveiro e tirar uma boa sesta. Por
que, pensou, os homens tornavam a vida tãb difícil para eles mesmos? Se eles ao menos
fossem sempre agradáveis, amáveis e prestativos. Mas não, o temperamento deles era de um
jeito que sempre obrigava as pessoas a usarem outros meios de persuasão. Era contra a sua
natureza não ser franca, mas, numa emergência, era preciso usar os métodos que se
apresentavam. Angelica nem gostava de garotos. Pelo menos durante uns seis anos, não
teriam nem de pensar na pílula. Ou talvez ela quisesse ser virgem até casar. A virgindade
estava voltando à moda. Maxi pegou seu bloco amarelo e escreveu, distraída: ”Experimente o
Celibato e Verá, por Michael Jackson.”
— É uma o quê? — disse Rocco, sem poder acreditar, olhando fixamente para o bolo
vermelho.

— Você ouviu o que eu disse. Quero que dê um jeito e faça disto a boneca mais maravilhosa
jamais feita na face da Terra — disse Maxi, num tom de negócios.

— Não faço mais bonecas, Maxi. Acho que você está ciente desse

230

fato — disse ele, tremendo de raiva. Essa vaca estava tão necessitada de uma surra que os
dentes dele chegavam a doer, só de pensar. Imaginar que ele um dia se casara com uma
criatura tão perversa, tão baixa, tão completamente vil. Tão egoísta, tão egocêntrica, tão...
sem mencionar o uso da chantagem pura e simples. Como é que Angelica conseguia ser tão
adorável, perfeita como era, nascendo de uma mãe assim, era um milagre da supremacia de
seus próprios genes. Não admira que ele nunca mais sequer tivesse tido a tentação de se casar
de novo... Essa... essa vergonha do sexo dela poria qualquer homem contra o casamento para
o resto da vida. — Por que eu haveria de fazer isso, porra? — perguntou ele. — Há dúzias de
camaradas que posso recomendar capazes de fazer uma boneca desse negócio aí. Não há
mistério. — Porque você fará o melhor trabalho — disse Maxi, inexorável. — Um pouco
melhor, talvez, mas que diferença faz? .O que conta é o que está dentro da revista, não só a
boneca. As pessoas não são iludidas por uma página bonita, elas querem é o conteúdo.

— O conteúdo está bom. Não lhe pedi para ajudar no conteúdo,

só na apresentação.

— Assim, é? Está bom? E tudo da sua cabecinha? Estaria interessada em saber que Time, Inc.
tem um grupo de desenvolvimento de revistas superpotente trabalhando nas novas idéias?
Têm dezoito pessoas das melhores, inclusive Stolley, que fundou People, e Fier, de Rolling
Stone, mais dezessete free-lancers e quinze fixos, todos trabalhando como loucos, com um
orçamento de mais de três milhões por ano? São cinqüenta pessoas, chefiadas por Marshall
Loeb, que fez um sucesso de Money, os melhores cérebros que a Time pôde comprar. Sabia
que já têm uma boneca concluída para uma coisa chamada Women’s Week e outra chamada
Investor’s Weekly, mais uma porção de outras com capas e cartonagem? O que me diz disso?

— Não me incomodo. Não acredito em comissões. Henry Luce provavelmente também não
acreditava em comissões, quando era vivo. Meu pai não acreditava em comissões. Você quer
passar a noite toda falando do ofício, Rocco, ou quer começar com a minha boneca? — disse
Maxi, com calma. Seus cabelos artisticamente despenteados tapavam bem sua cabeça, e
Rocco não podia ver o seu couro cabeludo arrepiado de pavor. E se um membro do fundo de
cérebros de Time, Inc. tivesse tido o seu conceito?

— Vou sair daqui assim que falar com Angelica sobre a pílula e o que lhe pode acontecer se ela
começar a tomá-la jovem demais.
— Não se incomode — disse Maxi, indignada. — Eu nunca a deixaria chegar nem perto, seu
bosta. Você nunca soube quando eu estava brincando, foi esse o seu problema. Um dos
muitos. Em todo caso,

231

esta é a noite em que Angelica tem licença de assistir MTV e ela não vai gostar de ser
interrompida.

Ela foi pegar a boneca e a meteu nas mãos de Rocco tão depressa que ele maquinalmente a
agarrou.

— Merda! — Sei disso, e é por isso que preciso de você. Sente-se e leia. — Vou lhe dar três
minutos, sua puta mentirosa. E só porque Angelica sabe que estou aqui e você ia meter o pau
em mim se eu não olhar para essa droga. Que porra é B&B? Uma porcaria de nome. É um
nome de uma bebida para depois do jantar feita por monges, não um nome de revista.

Rocco estava bufando, lutando com aquela massa disforme. Ele sentou-se à mesa de Maxi, pôs
a coisa em cima da mesa e começou a folheá-la depressa. Maxi prendeu a respiração,
observando-o atentamente, esperando algum sinal de uma reação. Fazia mais de quatro anos
que não via Rocco. Quando Angelica fez sete anos, já estava grande e podia ser apanhada e
entregue do apartamento de Maxi ou do de Rocco por um ou outro deles, ou por Elie, sem que
tivessem o menor contato. Puxa, pensou ela, quantos erros que uma garota pode cometer
porque um homem é incrivelmente bonito. Ele está quase exatamente igual ao que era
quando o vi pela primeira vez, e isso não importa mais nada... é como se ele fosse invisível.
Tem tão pouca atração quanto uma garrafa de gim para alguém que está há vinte anos nos
Alcoólicos Anônimos. Quando será que ele vai começar a perder os cabelos e engordar? É
inevitável, apenas uma questão de tempo. Em todo caso, deve haver alguma coisa
basicamente errada com ele, com todas as garotas com quem ele sai, essas de quem Angelica
fala, e ele ainda não conseguir se fixar. Mas já está com 36 anos. Breve será um solteirão triste
e solitário... é mau para Angelica, porque os solteiros morrem cedo. Por que ele não está
reagindo? Passou pelo artigo de Kissinger, com todas aquelas fotos arrogantes de Nancy sem
sequer piscar, o filho da puta. Não quer me dar essa satisfação. Bom, estou cagando para a
opinião dele... B&B é para mulheres, e não uma revista de sucesso para homens que se
rebaixaram a fazer comerciais. Fico contente que ele tenha êxito, por causa de Angelica, mas é
evidente que o sacana não pode estar gozando a vida, com essa expressão puxada e fixa no
rosto.

Rocco largou a boneca, chegou ao final e bateu a mão nela, fechando-a com firmeza e
empurrando-a.

— Por quanto vai vender isso? — Rocco! Quer dizer que tem uma chance? Ah, Rocco! Você
jamais teria perguntado se não achasse que era boa.

Maxi começou a pular, mais aliviada do que acharia possível. — Tem uma certa... qualidade.
Não estou dizendo que tenha

232
”classe”. Quero dizer... há certa atração nela... uma imagem da sua mente distorcida. Pode ser
que venda alguns exemplares.

— Quero vender por um dólar e meio. — Está maluca. Muito barato. — É o preço de People, e
tOdo mundo compra.

- Maxi, não gosto de lhe dar a notícia, mas você se refere a uma das revistas de maior
circulação no país, que fica nos balcões dos caixas dos supermercados onde as mulheres
maquinalmente a põem nos carrinhos de compras.

— É lá que B&B vai ficar — disse Maxi, com calma. — Destina-se ao mesmo público, mais o de
Cosmo e de Good House. Mulheres, Rocco, mulheres. Há uma porção de mulheres nesta terra
que vão comprar uma revista que gosta delas como elas são, uma revista com que possam se
divertir, uma revista que garanta prazer para elas.

— Onde foi que você roubou essa concepção? — perguntou Rocco.

— Ah, isso me ocorreu. Um dia. Sem mais nem menos. — Por um dólar e meio você vai
precisar de uma circulação enorme... pelo menos quatro... não, cinco milhões, para ganhar
dinheiro. E anúncios e mais anúncios. Você está sonhando. Aposto que nem tem um
distribuidor.

— Eu não quero ganhar o seu dinheiro — disse Maxi, com pose. — Sei bem que é um jogo de
dados, mas gosto de jogar. Não estou interessada em grupos especiais; isso não é Bon
Appétit... Vou atrás do mercado das massas e, se não der certo, bem, de volta à prancheta.

— Conversa, conversa. É o dinheiro de quem que você vai perder, da Lily?

— Não pretendo perder. Agora, vamos parar de discutir. Quero que você faça essa revista de
um dólar e meio parecer um milhão. Você pode fazer isso com gráficos, mesmo que o papel
não seja do padrão de Town & Country, mesmo que a encadernação seja grampeada em vez
de costurada. Pense nisso como uma oportunidade de tornar a fazer os seus truques com o
espaço em branco, fazer as coisas que fazia sem que a General Foods e General Motors se
metessem na sua vida. Liberdade, Rocco. Estou-lhe oferecendo a liberdade artística total! Você
pode ser sincero, de novo. Estou lhe prestando um favor, Rocco, se bem que você não pareça
entender isso. Aliás, você poderia se mostrar um pouco agradecido.

— Puta! — Mas não pode resistir a esse desafio, pode? — Facilmente. Eu lhe mando um free-
lancer de primeira categoria. Tenho de servir a quarenta clientes importantes. Que tipo de
megalomania é preciso ter para você pensar que tenho tempo de andar mexendo com a
boneca de uma revista nova? É um trabalho imenso.

233

— Não, quero você. — Você continua a pensar que pode ter tudo o que deseja, não é? É
realmente extraordinário, é quase admirável, estar tão fixada no passado, como a
sobrevivência de algum animal pré-histórico, ainda respirando, embora esteja afundado na
lama até às orelhas.
— Faça como quiser — suspirou Maxi. — Mas me mande alguém que seja bom mesmo. Ah,
Rocco, antes de ir, tenho uns folhetos para lhe mostrar.

— Folhetos? Sobre o quê? — Colégios internos na Suíça. Há uma meia dúzia que são bons. Está
na hora de mandar Angelica para o colégio interno. Não só pelo francês e o esqui. Nesta
cidade, ela está sujeita a todo tipo de más influências. Não preciso dizer que vendem maconha
e LSD e o resto no recreio. E as crianças que ela conhece são avançadas demais. Ela devia
mesmo estar na Suíça. Você poderá vê-la no verão... quando ela não estiver no
acampamento... ou até ir lá no Natal, se sentir falta dela.

— Sua... sua... — Ele não conseguia falar, de tanta raiva. Queria matar aquela puta.

— Ah, que bom que mudou de idéia — disse Maxi, suave. — Quando posso aguardar o
produto terminado? — No dia de São Nunca. — Exatamente o que isso quer dizer? Uma
semana? Duas? — Eu te mostro! — gritou Rocco e agarrou-a, virou-a de bruços na cama e
bateu nela com toda a força, no traseiro. — Um — gritou ele — e dois. — Ele tornou a bater.
— E três!

— Covarde — disse Maxi, ofegante, e tentou dar-lhe um soco nos testículos. Ele grunhiu e
tornou a dar nela, caindo na cama, atingido no joelho pelo soco. Maxi agarrou os cabelos dele,
puxando com força enquanto ele tentava se firmar no colchão para lhe dar uma sacudidela de
quebrar a espinha. Ela se esgueirou um instante antes que as mãos dele se firmassem em seus
ombros, dobrou-se ao meio e agarrou o pênis dele com firmeza com as duas mãos. Ele ficou
inteiramente imóvel. Só Deus sabia o que ela poderia fazer, a começar pela castração. Nenhum
dos dois moveu um músculo, esperando, num silêncio rompido apenas pela respiração deles,
pela jogada seguinte. O silêncio se prolongou e Rocco, muito contrariado, sentiu que seu pênis
se enrijecia nas mãos de Maxi, que não o largava. Cada vez mais duro. Não havia nada que ele
pudesse fazer para impedir que o desgraçado reagisse. Ele tentou se livrar, mas ela o estava
segurando com muita força. Depois de meio minuto, ficou um pouco menos importante soltar-
se das mãos dela, e assim que ela sentiu a mudança nele, usou uma das mãos para abrir o
zíper, enquanto, com a outra, passou a segurálo como mulher, em vez de como guarda de
prisão, abrindo e fechan-

234

do os dedos em volta dele num ritmo a que ele jamais conseguira resistir.

— Puta — grunhiu ele. — Cale-se — respondeu ela, começando a acariciar o pênis com afagos
leves, como plumas, enquanto acariciava o saco com a mão que abrira o zíper. Ele abriu a
fivela do cinto e arriou a calça e a cueca apertada até abaixo dos joelhos, a fim de lhe dar mais
espaço para se mexer, porém Maxi concentrou a atenção no pênis, sem se desviar para tocar
no resto do corpo. Não pretendia lhe dar um momento para pensar. Um pênis, como toda
mulher sabe, não tem cérebro. Já estava se movendo bem, ao aumentar, quase lhe escapando
enquanto ela o lambia com a língua, até ela ouvir que ele gemia de prazer, contra a sua
vontade. Ela passou a língua devagar pela base do pênis, parando de vez em quando, como se
não soubesse se continuava, pondo toda a boca aberta em volta daquela vara, o mais que
pôde, chupando bem por um instante e depois continuando para a linha cheia, pronunciada e
tenra na base da ponta. Ali ela parou e fez de sua língua uma flechinha quente que circundou a
cabeça inchada, mas não a pôs na boca. Ele teria de pedir por isso, pensou ela, tirando a
calcinha sem ele notar o seu movimento rápido por baixo da saia.

— Por favor — ela o ouviu pedir. — Por favor. Ouvindo essas palavras, ela se levantou um
pouco e baixou a boca para a cabeça enorme do pênis, primeiro apenas segurando-a e
explorando a forma quente e latejante com toda a parte de dentro dos seus lábios e a língua,
agora achatada. Ele ergueu os quadris do colchão, com movimentos fortes e exigentes e,
diante desse sinal bem lembrado, Maxi começou a chupar com toda a força, já alucinada pela
necessidade de possuir aquela carne, de puxá-la para dentro de si. De certa distância, ela ouvia
a respiração dele, cada vez mais rápida. Nisso, ela puxou a boca mas continuou a segurar o
pênis. Num movimento rápido, se esgueirou para cima da cama e colocou um joelho de cada
lado do corpo de Rocco. Abaixou-se depressa sobre ele, de modo a envolvê-lo inteiramente no
seu ninho, molhado, ansioso. Com uma atenção selvagem, ela montou nele, erguendo e
abaixando a pelve, fugindo das mãos dele, que tentavam fazê-la ir mais devagar. E mexia-se
cada vez mais depressa, dando para ele, dando bem, presa num ritmo implacável ao sentir o
próprio orgasmo crescendo a cada investida, a cada vez que mergulhava no corpo dele e seu
clitóris entrava em contato com a base do pênis, esfregando-se depressa e fundo antes de se
erguer de novo. Loucamente, eles se moviam juntos, até que suas costas se arquearam,
paradas por um instantinho, e depois, os corpos se recordando, se juntaram numa explosão
arquejante, alucinada, prolongada, de uma liberação magnífica.

Maxi desmoronou em cima de Rocco. Ele estava de olhos fecha-

235

dos e completamente frouxo. Ela reuniu forças para rolar de cima dele. Ambos ainda estavam
de sapatos, ela notou com parte de seu cérebro, bem como as roupas todas, com exceção de
suas calcinhas. Ele moveu os lábios, mas ela não ouviu o que ele disse. Ela se ergueu e ele
tornou a mover os lábios.

— Trepada de rancor — grunhiu ele. — Foda de misericórdia — disse ela, silvando,


empurrando-o com a pouca energia que lhe restava, fazendo-o quase cair da cama.
Cambaleando, ele conseguiu se levantar. Com dificuldade, enfiou a camisa para dentro das
calças, fechou o zíper e andou pelo quarto, desorientado.

— Você se esqueceu da boneca — murmurou Maxi. Ele a pegou sem uma palavra e foi para a
porta, aos tropeções. — Com quantas páginas de anúncios posso contar de sua firma? —
perguntou ela, enquanto ele procurava a maçaneta.

— Deus me ajude — murmurou ele e tentou bater com a porta, mas não conseguiu.

Maxi ficou deitada na cama, revirando os olhos para o teto. Todo homem tem seu ponto fraco,
pensou, e em todos era o mesmo. Se você entendesse esse fato simples, podia vencer todas as
vezes. O que era mais, ela descobrira a cura para os cortes de papel.

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18

— Corta! E... imprimir! O tom de despedida do diretor marcou o segundo final, a tomada final
do mais recente filme de India West.

Ela quase correu para o camarim, radiante com a liberdade e o fato sem precedentes de que
sua analista, Dra. Florence Florsheim, estava de férias ao mesmo tempo em que o filme se
concluía. Essa conjunção de fatos nunca ocorrera desde que ela se tornara uma estrela. Estava
livre para correr em ajuda de Maxi, cujo último telefonema parecera tão perturbador. Devia
haver alguma coisa grave. Fazia duas semanas que Maxi não lhe ligava e desde aquele
domingo, sempre que India tentava ligar para ela, só conseguia falar com Angelica, que tinha
adquirido uma faculdade interessante de mentir de modo convincente.

— A mãe está trabalhando e não pode ser incomodada, de jeito nenhum — dissera ela todas
as vezes, e se India não tivesse um conhecimento profundo do temperamento da amiga, teria
acreditado na menina. Bem, provavelmente essa capacidade de mentir era hereditária.
Angelica se tornara tão acreditável quanto a própria Maxi.

Mas, fosse qual fosse o mistério sinistro que havia ”lá no Leste”, como ela se pilhava falando,
do mesmo modo que os ingleses metidos para toda a vida em alguma cidade fortificada na
índia diziam ”lá em casa” referindo-se à Grã-Bretanha, India pretendia desvendá-lo em
primeira mão. No dia seguinte ia de avião para Nova York, suas malas estavam arrumadas, os
desgraçados dos cães estavam num canil que só cobrava um pouco menos do que o Beverly
Hills Hotel, e de noite saberia o que estava acontecendo com sua amiga mais antiga e a única
amiga íntima.

Maxi não podia estar falando sério sobre aquele plano absurdo de que tinha de publicar uma
revista sobre... zíper? A história dela fora difícil de seguir, interrompida como fora por lances
de remorso e explosões violentas contra o mísero tio. A não ser Lily, que era tão

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fotografada, era difícil visualizar a família de Maxi, pensou India. Ela vira Toby e Justin algumas
poucas vezes, tantos anos antes, quando ela e Maxi eram adolescentes fazendo os deveres
juntas. Depois do primeiro casamento de Maxi, seu contato com a família Amberville fora
mantido apenas pelo que a amiga lhe contava. Se Maxi não a tivesse visitado de vez em
quando durante esses últimos seis anos na Califórnia, elas mal se teriam visto desde o primeiro
divórcio de Maxi, quando India estava deixando Manhattan para o seu primeiro ano na
universidade. Ela conseguira se encontrar com Maxi e passar alguns dias a bordo do iate
quando a amiga resolvera se casar com o divino Bad Dennis Brady, em Monte Carlo, mas os
terríveis anos escoceses ela perdera inteiramente. Uma pena: a Condessa de Kirkgordon devia
ter sido um exemplo precioso, inesquecível, de um papel inadequado.

Agora Maxi era mesmo a sua família, refletiu India. Seus pais tinham morrido, mas Maxi
continuava o único ponto fixo em sua vida. Embora 99 por cento do contato delas fosse por
telefone, elas conseguiam alcançar as cabeças uma da outra pelos fones. Além do mais, ela era
madrinha de Angelica, e compensava sua falta de presença física mandando-lhe presentes
maravilhosos. Seria de esperar que uma menina boazinha não mentisse assim para a sua
querida madrinha que lhe mandava tantos presentes, não? Ela teria de ter uma longa conversa
com a menina sobre Emerson e a importância da verdade. Tendo Maxi como mãe, não havia
como saber que maus hábitos ela poderia ter adquirido, disse India consigo, sacudindo a
cabeça, desconfiada. Ela ia endireitar a guria. Ia lhe dar algumas das percepções da Dra.
Florsheim e comprar-lhe uns lençois decentes.

Maxi estava dando uma festa de inauguração improvisada. Todas as pessoas de seu caderno
de endereços tinham sido convidadas. Trabalhando uma manhã inteira com Julie, nenhuma
largando o telefone por um minuto, de pura joie de vivre diante da idéia de sua preciosa
boneca ser transformada por Rocco, ela organizara a festa do jeito que mais gostava.

— As festas devem surgir do nada, para a mesma noite — disse ela a Julie. — Se você der às
pessoas tempo para pensar no que vão vestir e ir ao cabeleireiro e pensar quem mais estará lá,
tira o frescor da rosa. E se têm outros programas, podem levar os amigos com eles. Parece um
maravilhoso pacote de surpresa.

Estava um jardim zoológico, um jardim zoológico muito escolhido, só com as melhores


espécies. Gazelas, pavões, veados com ramadas, panteras magníficas, focas elegantes, leões
presunçosos e aqui e ali um macaco delicado. Todos animais de Manhattan, o nível de decibéis
de suas vozes atingindo um tom que nenhum grupo em alguma cidade importante no mundo
atingiria, ou desejaria produzir.

238

A porta da frente foi deixada bem aberta porque lá dentro-não se podia ouvir a campainha.
India, acompanhada pelo cabineiro do elevador carregando sua bagagem, parou no limiar,
espantada. Já ia se virando e saindo, pois obviamente não era a ocasião própria para uma
visita de surpresa. Ela iria para a suíte que o estúdio tinha no Palace, e amanhã telefonaria. As
festas a deixavam ainda mais encabulada do que de costume.

— Madrinha! — Angelica, com todo o respeito, a levantou alguns centímetros do chão e olhou
para ela, espantada. — É você! Você mesma, em pessoa! Inteiramente assombroso! A mãe
tentou ligar, mas você não estava em casa. Como é que soube da festa?

— Você... é... Angelica? — Eu sei, eu cresci. Vou deixá-la no chão. Não a machuquei, não? —
Claro que não. Você só... me surpreendeu. Agora, escuta aqui, Angelica, você disse que sua
mãe não podia atender porque estava trabalhando, e eu encontro uma casa de loucos. O que é
que está havendo? — Ela estava trabalhando, madrinha, até ontem à noite. Chocante! Agora
está descansando.

— E por que é que você tem três furos em cada orelha, Angelica? E por que está usando
brincos com penas neles? Juntou-se a algum culto religioso? — India perguntou, o mais
severamente que pôde, diante da consternação causada pela beleza inesperada de Angelica.
Será que ela fazia alguma idéia do que seria?

— Gostei, madrinha — explicou Angelica. — Acha que foi um erro? Estou me sentindo como
uma aberração, para dizer a verdade. Mas gosta do meu zuarte? Legal, hem? Acho que foi
feito numa colônia de leprosos em algum lugar. Chocante!
— Consigo me ligar nele — disse India, com cuidado, procurando nos anos setenta por uma
resposta adequada. — Os furos de suas orelhas tapam se você tirar os brincos, e pode fazer o
favor de parar de me chamar de madrinha?

— Já que insiste — concordou Angelica, meio desconcertada. — Vou levar suas malas para o
quarto de hóspedes... India.

Angelica pegou-as com facilidade e começou a caminhar para dentro do apartamento.

— Não. Pare. Não posso ficar aqui. Está superlotado — disse India, pronta para fugir.

— O fato, India, é que vou esvaziar o quarto de hóspedes para você num minuto. Você é a
convidada de honra. Sacou essa?

— Você sempre fala assim, Angelica? — Vou tentando — disse Angelica, pegando a bagagem
de India e abrindo caminho para ela.

Essa menina está precisando de ajuda, pensou India, trocando de

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roupa depressa no quarto de hóspedes trancado. Foi uma sorte ter vindo. Talvez ainda não
fosse tarde. Evidentemente, Maxi se descuidara da educação dela. India saiu do quarto, com
um vestido de renda e chiffon branco de Judyth van Amringe que esvoaçava tão leve que
parecia estar preso só pelo seu broche, uma antiga moeda grega incrustada com safiras e
esmeraldas cabochon, que ela pregara logo acima de um dos quadris. A beleza dela era uma
criatura de estações, a que só faltava o inverno; um desfile mutável, infindavelmente
hipnotizante, quando ela passava da personificação da primavera enfeitiçadora para o pleno
verão e para o outono maduro, dependendo das exigências do diretor ou do argumento. Nesse
dia, tendo a liberdade de resolver, ela era a primavera em toda a sua promessa, todo o seu
frescor.

India, embora tímida, era realista. Não havia meios de arranjar uma roupa que a fizesse
desaparecer nas festas, de modo que mais valia ela parecer uma estrela. As pessoas
esperavam isso e, essencialmente, chamava menos atenção do que o aspecto amarfanhado e
surrado de Diane Keaton, tipo por-que-hei-de-me-vestir-para-vocês, que só tornam as pessoas
curiosas e hostis. E, num ano em que as roupas reluziam, ela não cedeu a essa moda, pois tudo
que rebrilhava a fazia sentir-se como uma apresentadora do Oscar e ela, afinal, era detentora
de um troféu da Academia.

India foi procurar Maxi, movendo-se com um deslizar propositado, uma técnica que ela criara
para as festas, destinada a mantê-la em movimento em todos os minutos. Se a faziam parar,
ela continuava a sugerir um movimento constante, no jeito de se afastar da pessoa que lhe
falava. Nunca tinha um copo na mão, de modo que, caso se visse presa numa conversa,
pudesse dizer: ”Ah, vou pegar um drinque, volto já”, e se livrar. Ou podia pedir ao homem com
quem estivesse conversando — as mulheres nunca pareciam querer lhe dizer nada — para ser
um anjo e lhe arranjar uma bebida, e depois fugir para outra direção. Se India realmente
quisesse um drinque, ia ao bar, pegava-o do garçom e o bebia todo, devolvendo logo o copo.
India sempre olhava as pessoas com ar superior, de modo que elas não pudessem encontrar o
seu olhar, fazia um leve ziguezague ao deslizar, de modo a apresentar um alvo móvel, e
mantinha uma expressão que sugeria logo que ela estava querendo se juntar a uma pessoa
que conhecia muito bem do outro lado da sala. Essa combinação lhe permitia freqüentar as
festas necessárias em Hollywood sem ter de chegar a falar com ninguém a não ser os agentes
de Creative Artists, que estavam por toda parte, não faziam caso da pose dela e tinham uma
tendência para abraçá-la muito. Como cliente ela não os intimidava, pois como podiam se
intimidar com qualquer mulher, mesmo que fosse uma beldade fabulosa, quando essa beleza
era deles para vender e a renda dela era automaticamente reduzida pela comissão deles?

240

Na verdade, pensou India, deslizando, esperando estar isolada pelo seu jeito, ela nunca se
sentia encabulada com os agentes ou os homens fisicamente envolvidos em fazer os filmes.
Eles sabiam que ela era apenas mais uma garota, depois que passavam da aprendizagem e
chegavam ao estágio de segundo-assistente do segundo-assistente de alguém. A Dra. Florence
Florsheim dissera que não havia diferença nenhuma em ser uma estrela de cinema esquiva e
ser uma moça feia, comum, que toma chá-de-cadeira, pensou India, lutando contra o princípio
de pânico.

”Qual a pior coisa que poderia acontecer se você se visse envolvida numa conversa?”, era o
que a Dra. Florsheim sempre queria saber. India não conseguia dar uma explicação
convincente. Sua mente virava um branco, diante da própria conversa. Era a pior coisa mesmo.
Alguma coisa no seu aspecto impedia as conversas, deixando a carga de intercâmbio humano
sobre seus ombros extremamente relutantes. A melhor coisa na Dra. Florsheim era que ela
nunca olhava para India, a não ser quando ela entrava e saía do consultório, e nunca permitia
conversa fiada.

Conservando o seu rumo aparentemente propositado, mas aumentando a velocidade, India foi
de aposento em aposento, o pânico aumentando ao ver que Maxi não aparecia. Logo ela teria
de começar a olhar para as pessoas, em vez de para cima delas, e isso significava o risco de
encontrar o olhar de alguém.

— Desculpe! — Ela havia esbarrado num homem, fazendo-o derramar na roupa os dois copos
que estava segurando. — Meu Deus, mas que desajeitada! Eu não estava olhando, deixe-me
ajudar a enxugar. Ah, que coisa — balbuciou ela, corando de constrangimento.

— É só vodca, não se preocupe, não foi nada — ele tranqüilizoua, e havia alguma coisa na
ressonância da voz dele, alguma coisa que ela captou nas primeiras palavras que dissolveu
inteiramente o seu pânico. Ele provavelmente estaria em controle da situação mesmo que
fosse ele quem tivesse derramado as bebidas em cima dela, pensou India, assombrada com a
capacidade dele de acalmá-la. Só alguns diretores de cinema tinham conseguido fazer isso com
tão poucas palavras, e esses eram os grandes. — Parece estar procurando alguém — disse ele.
— Posso ajudar?

— Não — India ouviu sua voz dizer. — Eu só estava vagando por aí. Maxi podia esperar,
resolveu, ousando olhar para o homem que acabara de molhar. Ele era quase uma cabeça
mais alto do que ela, provavelmente com seus trinta e poucos anos. Olhando para ele ali,
calmamente ignorando o paletó molhado, ela começou a pensar como seria ele fazendo amor.
Um garçom de passagem levou os dois copos que ele ainda tinha nas mãos. Ela agarrou um
punhado de guardanapos de papel. — Eu posso... está pingando no tapete — disse ela,

241

rindo, tentando enxugar alguma coisa. Ele tirou os guardanapos da mão dela e os segurou.

— A vodca se evapora e não deixa marca. Nesta sala há bastante calor corporal, vai
desaparecer num instante.

As palavras eram bem simples, mas havia uma expressão meditativa no rosto dele, como se
estivesse sonhando e o sonho fosse de galanteria. Tão fascinada ficou que se esqueceu o
temor habitual de qualquer desconhecido, e se descobriu olhando para ele do modo como
pessoas especialmente curiosas e sem tato às vezes olhavam para ela, como se pudessem
aprender alguma coisa só pelo modo como suas feições se ligavam umas com as outras. Há
uma cortesia nele, pensou India, alguma coisa a ver com ser bom, firme e confiante, alguma
coisa na boca dele, formada para... não, pela coragem. E, ao mesmo tempo, uma impaciência.
Havia uma espécie de impacto de... seria concentração? Ele parecia eletrocinético. Ela
esperava que ele não fosse embora para junto da pessoa para quem ia levando as bebidas.
Mas ele parecia não querer se mover. Eles ficaram ali juntos, no meio da sala movimentada,
uma ilha de duas pessoas altas e isoladas. Ela fitou-o nos olhos e lhe pareceu que ele olhava
para ela com urgência e intensidade, e no entanto sem qualquer sinal de reconhecimento, do
respeito ou deslumbramento que ela estava resignada a ver.

— Gosto da sua voz — disse ele. — Obrigada. Pela primeira vez na vida, ela não sentiu que
tinha de se desculpar por um elogio. A confiança dele parecia ser contagiante.

— Bom, sabe, sempre existe a possibilidade de ser apenas um truque — respondeu ela,
usando, num ímpeto repentino de seu antigo espírito de malícia, o sotaque que ela aprendera
para representar Blanche DuBois, terminando as frases com a voz subindo um pouco no final.

Ele sorriu, como se ela fosse infantilmente, deliciosamente tola, e India se sentiu ridiculamente
orgulhosa.

— Uma voz de fazenda — continuou ele. — Sempre gostei de moças com voz de fazenda, mas
ela não se adapta bem a você. Você é tímida demais para ser do Sul... é esse o encanto deles...
nunca deixam transparecer a timidez, para não despertá-la nos outros.

— E a minha transparece? — perguntou ela, desapontada. Ela sempre achara que não tinha
sido mesmo boa como Blanche, embora todos dissessem que sim.

— Imediatamente. Pelo menos para mim. Mas também gosto disso. Ser tímido é universal
para a raça humana, mas nesta cidade as pessoas se tornam agressivas só para que a sua
timidez natural, normal, inevitável, não seja revelada. O resultado — ele fez um gesto —

242
é o que você ouve. É cansativo de se ouvir e difícil de combater. Passo a metade do tempo
cochichando... é mais fácil ser ouvido sob o ruído do que acima dele.

— Uma vez tive um instrutor que me disse isso. — Um instrutor? — ele debruçou-se para ela e
a olhou ainda mais de perto.

— Um... instrutor de voz — disse ela, perplexa. — Você é cantora? — Já cantei — respondeu
India, inteiramente espantada. Fazia tantos anos que não encontrava alguém que não
soubesse quem ela era que não sabia bem como lidar com esse fato. Ela apertou os olhos,
numa desconfiança súbita. Ah, Deus, que ele não fosse um daqueles que fingiam não
reconhecê-la. Eram piores do que os que olhavam. Não, fosse o que fosse, ele simplesmente
não ia ao cinema, nem lia revistas. Na casa dele, ela evidentemente não era uma palavra
conhecida.

— O que mais você faz? — ele perguntou, sem lhe dar tempo de perguntar sobre ele. Ele tinha
o hábito do comando, ela viu, ao responder.

— Eu... trabalho... e, bem, sabe, vivo, como todo mundo. Dou comida aos meus cães, vou à
aula de ginástica, leio muito e nado e, bem, vou a umas festas, e é isso. Acho que isso não
parece uma vida muito cheia... ah, e vou à minha analista, claro, a Dra. Florence Florsheim...
pare de rir! Não vejo tanta graça nesse nome, é um nome como qualquer outro, ela não tem
culpa, se bem que... tendo Florence como nome talvez ela não devesse ter-se... casado com o
Sr. Florsheim. — India só fazia dar várias risadinhas. — Ela devia estar loucamente apaixonada,
ou talvez seja seu nome de solteira.

— Você nunca perguntou? — ele indagou. — É raro ela responder a perguntas. E muito
ortodoxa nisso. — O meu analista responde às perguntas. — Então, ele não é freudiano —
declarou ela, com um ar superior.

— Ele me disse que, como todos os outros analistas, dependia de Freud, mas que tinha jogado
fora as coisas em que não acreditava... se você disser que odeia sua mãe, ele supõe que sua
velha era uma criatura difícil, até prova em contrário, e não que você quisesse fazer amor com
ela aos três anos de idade.

— Gosto disso. Mas estou presa à Dra. Florsheim... ela sabe demais — disse a India, num tom
sinistro.

— Os analistas dos outros sempre parecem melhores do que os nossos. É a primeira regra da
análise. No entanto, concordo quanto à sua vida, não parece exatamente cheia. Marido e
filhos? — Não existem. E você?

243

— Nunca me casei, nem tenho filhos. — Não se interessa, ou não teve tempo? — indagou
India, com cuidado. Tinha de haver alguma coisa errada. Sempre havia.
— É só que não aconteceu ainda, mas acontecerá. Enquanto isso, estou disponível,
desavergonhadamente disponível, e gostaria de sair desse buraco dos infernos e levá-la para
jantar. Vamos?

— Ah, sim — respondeu India. — India! O que está fazendo aqui? — perguntou Maxi, tão
espantada que chegou a ganir.

— Olá, querida. Mais tarde eu conto. Agora tenho de sair para jantar — disse India, implacável,
tentando com um olhar transmitir amor, apoio e a necessidade absoluta de que Maxi a
deixasse fugir da festa com aquele homem, aquele homem divino, antes que se passasse outro
segundo e alguém — talvez a pessoa para quem ele estava buscando a bebida — aparecesse e
tentasse tirá-lo dela, porque ela não queria, não podia correr esse risco.

— Mas Toby, você não pode desaparecer assim com a India — gemeu Maxi, indignada. — Ela é
minha amiga, pombas, e não sua. E ninguém nem me contou que ela estava aqui.

— Toby? — sussurrou India, com uma voz de assombro que continha tanto um choque quanto
o princípio de uma opção.

— India? Aquela amiga? A que é a garota mais linda do mundo? Toby parou de chofre, um
conjunto complexo de emoções aparecendo em seu rosto, sendo a hesitação a primeira.

— Ora, cale-se! — disse India, não mais tímida. — Você disse que gostava de mim quatro
vezes. Portanto, não aja como um... palerma. Em todo caso, agora já é tarde, não é?

— Ai, ai — arrulhou Maxi — acho que vocês dois vão ter a sua primeira briga. Que bom! Posso
ouvir?

244

19

Cutter Ambervilleparecia querer refazer o seu caminho exato, como se estivesse pondo os pés
nas pegadas que tinha feito numa praia molhada e arenosa, andando de um lado para outro
no tapete diante da janela atrás de sua mesa. Estava com as mãos apertadas atrás do corpo, os
nós dos dedos cortando a circulação para as pontas dos dedos, de modo que elas estavam
muito mais vermelhas do que os dedos. Maxi o olhava, enquanto ele andava, empoleirada no
braço da cadeira que escolhera, tendo recusado a poltrona que ele lhe oferecera. Em vez disso,
com vagar, ela escolhera uma cadeira com braços razoavelmente largos e a puxara para o local
exato em que ela pretendia ficar, a uma distância muito longe da mesa para seu conforto.

Ela balançava as pernas, metidas em altas botas de montaria reluzentes, com culotes
amarrados do alto das botas aos joelhos. Ela afagou a gola franzida da blusa de renda vitoriana
que estava usando sob um paletó de veludo marrom, de gola tipo xale, apertado na cintura,
uma fantasia de Chantal Thomass que nunca fora feita para chegar perto da sela de um cavalo.

— Cutter — disse ela, interrompendo o silêncio furioso dele — o meu motorista está parado
na fila dupla lá embaixo. Quer fazer o favor de desembuchar o que queria me dizer com tanta
urgência, para ele não ser multado?
Cutter virou-se e por fim parou de andar, apoiando as mãos sobre a mesa imensa.

— Estou vendo que a subestimei, Maxi — disse. — Não podia me dizer isso pelo telefone? Sou
uma mulher ocupada e essa vinda ao centro atrapalhou a minha manhã. Tempo é dinheiro,
Cutter, tempo é dinheiro!

Já se haviam passado algumas semanas desde que Rocco completara a boneca milagrosa, a
folha de pagamentos de Maxi contava com dezenas de pessoas caras, o trabalho de completar
o primeiro número

245

e diagramar os seguintes estava prosseguindo a toda a velocidade, tudo impelido pelo fluxo de
energia de Maxi, que trabalhava os sete dias da semana.

Não só a porta de seu gabinete estava sempre aberta, como a sala, por instruções dela, nem
sequer tinha porta; e nem Maxi tinha uma mesa só sua. Havia uma mesa grande no meio do
escritório, cheia de caixas de refrigerantes gelados e bules de café, chá e Sanka, que estavam
sempre sendo completados pela mulher que Maxi contratara para isso; uma mulher que
mantinha travessas cheias de bolinhos e browfies e fazia montes de sanduíches grossos e
deliciosos, constantemente renovados. Uma porção de mesas redondas e altas rodeavam o
banquete, com banquinhos de bar colocados junto delas, de modo convidativo. Era fácil juntar
as mesas, quando o grupo em volta delas se tornava maior. O escritório de Maxi se parecia,
tanto quanto ela conseguiu fazer com que parecesse, com o tipo de café do século XVIII, onde
Samuel Johnson se sentiria à vontade, e o resultado foi o que ela planejara: todos os membros
de seu quadro de pessoal, que era brilhante, jovem e em crescimento constante, entravam ali
pelo menos uma ou duas vezes por dia, sabendo que seriam permanentemente bem acolhidos
e muito bem alimentados. Acostumaram-se a se demorar ali, falando sobre B&B, as pessoas de
todos os departamentos passando a se conhecer; e desse contato constante dos melhores
talentos no negócio de revistas, dessas entusiasmadas conversas tipo ”por que não?”, surgia
um fluxo constante de novas idéias para a revista, das quais não se perdia uma só, pois Maxi as
anotava todas, empoleirada discretamente num dos banquinhos. Quando ela estava ocupada
em algum outro lugar, ou no telefone, uma de suas três secretárias rotativas a substituía. O
único motivo pelo qual Maxi concordara em ir ao escritório de Cutter fora que não queria
deixar que ele visse o dela. Cutter o contaminaria.

— Eu nunca poderia acreditar que você fosse capaz — continuou Cutter. — Não, nem mesmo
você.

— Mas você nem viu os primeiros layouts — respondeu Maxi, aborrecida. Será que alguém lhe
entregara algumas páginas? Ele teria um espião no meio do seu pessoal?

— Não me refiro à sua revista, Maxi, seja o que for. Cutter olhou bem para ela e Maxi viu que
ele estava corado, quase vermelho de raiva contida. Ele empurrou um monte de papéis sobre
a mesa em direção a ela.

— É disso aqui que estou falando, disso aqui! Contas de milhões de dólares, contas que esses
idiotas de contadores vêm pagando maquinalmente, por estarem assinadas por uma
Amberville, pagando sem me consultar, sem duvidar delas, contas de papel, aluguel,
mobiliário, ordenados, fotos, artigos, despesas...

246

— Alimentação — interrompeu Maxi. — As despesas iniciais são sempre mais do que a gente
espera — acrescentou Maxi, com dignidade. — Depois que B&B for lançada, as despesas serão
menores e, claro, assim que começarmos a ganhar dinheiro, o quadro todo vai mudar.

— Não, não me venha com essa conversa, Maxi. Eu sei, e você sabe que eu sei, o que foi que
combinamos. Buttons and Bows! Era essa a revista que você queria e foi a que recebeu. Uma
revista de acessórios, quase sem orçamento algum. Essa coisa, essa B&B, seja o que for, não
tem absolutamente nada a ver com o trato que fizemos.

— Nada disso — disse Maxi, friamente. — É tanto Buttons and Bows quanto Buttons and Bows
era Trimming Trades Monthly. Até diz isso no cabeçalho. Você não disse que eu não poderia
modernizar a revista, Cutter. Não disse uma palavra para eu não fazer dela uma coisa mais
viável. Deu-me o prazo de um ano e estou dentro desse prazo, que aliás mal começou.

— Não lhe dei o direito de gastar milhões — disse Cutter, com violência, batendo na mesa com
os punhos.

— Espero que essa mesa não seja preciosa — comentou Maxi, com um bocejinho. — Parece
autêntica, mas hoje em dia fazem cópias tão boas.

— Milhões de dólares... eu nunca disse... — Ah, mas nunca disse que eu não podia, não foi,
Cutter? — Maxi sorriu para ele, com um ar lânguido e arrumou a renda na gola, aprumando-
se; depois espanou um grão de poeira da bota. Suas sobrancelhas se ergueram, numa
expressão de divertimento, até ficarem escondidas sob a franja. — Agora é tarde, sabe. Eu
mesma... pessoalmente... já vendi seis meses de anúncios, por preços muito especiais, de
apresentação, a dezenas de nossos maiores anunciantes. Eles também anunciam nas outras
publicações Amberville e, naturalmente, têm todo o direito de supor que quando uma
Amberville vai procurá-los com um magnífico conceito para uma nova revista e uma boneca
positivamente maravilhosa estão gastando seu dinheiro com segurança. A Amberville está
comprometida com B&B, Cutter, inteiramente comprometida, no que diz respeito à
comunidade de publicidade e negócios. Enquanto a revista for publicada, temos de publicar
esses anúncios, ou devolver o dinheiro e parecer, no mínimo, frívolos e nada comerciais.
Especialmente já que você se encarregou de acabar com três outras publicações. Todos sabem
que B&B tem a sua sanção especial, Cutter. Tratei de fazer com que entendessem isso. Você
não pode tocar na minha revista sem levar todos a desconfiarem de que toda a companhia
está prestes a falir.

— Você tem idéia do que o dinheiro que gastou vai fazer com a nossa folha de balanço? —
perguntou ele.

247
— Fazer um buracão nela, imagino. E Cutter — disse Maxi, levantando-se e indo para a porta
— quanto a essas contas, acho justo lhe avisar, pois a sua pressão arterial está me parecendo
perigosamente alta, são apenas o princípio. Eu não fiz economia alguma nesses seis primeiros
meses... é preciso gastar dinheiro para ganhá-lo, e não posso correr o risco de decepcionar
meus leitores. ”Primeiro, agarre-os, depois conserve-os”, como dizia o meu pai. — Maxi
chegou à porta e a manteve aberta enquanto Cutter ficava sentado à mesa, imobilizado de
raiva. — Outra coisa, fiz uma série de anúncios em todas as grandes revistas e jornais que são
lidos pelo pessoal de comunicação, contando sobre B&B e nossos planos para o futuro, como
se fosse uma apresentação à mais nova das publicações Amberville. Muito em breve você vai
receber as contas. Não precisa se levantar... saio sozinha... como sempre. — Ela passou pela
porta e quase a fechou. Depois virou-se, lançou um olhar a ele, sacudiu a cabeça e fez um
muxoxo de preocupação. — Meu Deus, Cutter, você parece aborrecido mesmo. — Ela fechou a
porta de mansinho, mas só depois de perguntar: — Será que eu disse alguma coisa?

— Lily, amor, venha sentar mais perto de mim — disse Cutter, pondo a mão no lugar a seu
lado no sofá.

Obediente, Lily se levantou e foi se sentar no lugar oferecido, seu corpo flexível e esguio se
curvando ao lado dele.

Ela suspirou, numa satisfação quase mais profunda do que o amor. Esses momentos que
passavam juntos, quando ele chegava do escritório, esses momentos tão esperados eram, ela
pensava muitas vezes, a recompensa de seus anos de paciência. Ainda mais recompensa do
que a paixão física, se bem que o seu grande orgulho fosse a permanência daquela ligação de
seus dois corpos, viva e inextinguível. Os anos de separação tinham deixado as brasas de um
fogo que só precisou de um sopro de vento, mais um fósforo, um pedacinho de papel e um
graveto para fazê-lo arder de novo. Mas só o fato de poderem sentar-se juntos no fim do dia,
conversando sossegadamente, coisa que ela nunca apreciara totalmente com Zachary... ah,
esse era o prazer ainda mais delicioso. Era em momentos assim, quando o conforto de sua
intimidade tão ansiada e tão retardada se combinava com a nova felicidade de estar casada
com Cutter, que ela via que tinha afinal o que sempre quisera, sempre merecera.

— Querida, hoje aconteceu uma coisa no escritório que de repente me fez pensar em você, no
futuro de nossa vida em comum — disse Cutter.

Alarmada com o tom sério da voz de Cutter, Lily levantou a cabeça do ombro dele, de repente.

248

— Não, não — disse ele, rindo. — Não é nada que a preocupe. Uma coisa com que sonhar,
uma coisa que eu nunca iniciaria por mim, mas ainda assim um negócio que não posso deixar
de te contar.

— Negócio. — perguntou Lily. — Você prometeu que não perderíamos o nosso tempo juntos
falando de negócios. Nunca entendi de negócios, e quando Zachary permanecia falando horas
e horas, eu sentia dor de cabeça só de ter de ficar ali sentada, ouvindo.
— É sobre negócios, e de certo modo não é. Não é um negócio aborrecido. Você tem de ouvir,
meu bem.

— Todos os negócios são aborrecidos — disse Lily, obstinada — mas sou do tipo paciente,
como você já deve saber.

— Hoje recebi um telefonema extraordinário de um homem da United Broadcasting Company,


um perfeito estranho para mim. Ele queria saber se havia alguma possibilidade de você se
encontrar com ele para falar sobre... sobre a possível venda das Edições Amberville.

— O quê? Mas ele está maluco! Quem ele pensa que é? Mas que audácia! O que o leva a
pensar que a companhia está à venda! Nem posso imaginar alguém tão mal-educado a ponto
de dar um telefonema desses, sem mais nem menos — disse Lily, muito indignada, como se
suas jóias tivessem sido roubadas enquanto ela assistia, sem poder fazer nada.

Cutter deu uma risada indulgente. — Esse homem da UBC não está querendo se aproveitar de
você, minha querida. Só está fazendo o trabalho dele. Não é nenhum ataque. Aliás, é um
elogio enorme. Basta eu ligar para ele amanhã e dizer que você não está interessada, e que a
Amberville não está à venda. E ele desiste, ou talvez não. Mas, em todo caso, você pode
esperar receber mais telefonemas semelhantes.

— Porque Zachary morreu? — Mesmo que Zachary fosse vivo, não faria diferença. Ele
receberia as mesmas propostas. É a tendência dos tempos. Diversos grupos, em especial
grupos grandes, estão procurando revistas para comprar.

— Pois não estou interessada. Por que estaria? Em todo caso, só possuo setenta por cento das
ações. Você sabe que meus filhos têm dez por cento cada.

— Eles só podem vender as ações para você, e você é a acionista majoritária. Pode fazer o que
quiser, Lily. Eles não podem impedi-la. Quando expliquei por que tínhamos de parar a
publicação daquelas revistas que estavam dando prejuízo, pensei que tivesse entendido.

— Entendi, sim. Você me convenceu de que era necessário. Mas vender... Nunca pensei em
vender. Zachary levou a vida toda construindo essas revistas... nunca vendeu nenhuma. Não
sei se um dia venderia, em qualquer circunstância, por qualquer quantia.

249

— Ah, Lily, você não pode deixar de ser fiel, não é? Já pensou como você foi sacrificada por
essas revistas? Você, Lily? Toda essa conversa de negócios que tanto a aborrecia, todas
aquelas viagens de negócios, quando ficava sozinha, todas as vezes em que tinha de tratar dos
filhos e dos problemas deles porque Zachary estava trabalhando, os fins de semana que ele
passava trancado no escritório, todo aquele negócio de receber gente de negócios e ser
simpática com pessoas que não lhe interessavam? Essas revistas foram construídas sobre a sua
vida, Lily. Anos e anos da única vida que você terá. E agora você continua pensando no que
Zachary faria com elas, se estivesse vivo. Pois não esta. Não há ninguém responsável em quem
você possa confiar, a não ser eu. Você entregaria suas ações ao Pavka? É um velho; brilhante,
sim, mas está velho. Breve vai se aposentar, imagino. E o resto do quadro editorial? Você
poderia confiar neles para conservar as revistas em circulação? Não passam de empregados,
empregados criativos, certo, mas não são executivos. Zachary era um executivo, mas nunca
construiu uma segunda fileira de executivos para substituí-lo.

— Eu não tinha pensado... — Sei que não, amor. Tratei de manter as coisas em funcionamento
para você não ter de se preocupar com nada. Larguei Booker, Smity and Jameston e abri meu
escritório só para manter os seus negócios em ordem. Não obstante, no íntimo, não estou
nada convencido de que o negócio de revistas seja necessariamente o negócio em que você
deva estar metida.

— Aconteceu alguma coisa, alguma coisa que eu não saiba? Algum motivo por que eu deva
vender? — Lily sentou-se muito empertigada, diante do tom meio sinistro da voz dele.

— Lily, as revistas estão todas indo bem... no momento... mas a realidade da economia
editorial de 1985 vai incluir grandes aumentos no preço do papel e muito maiores despesas de
distribuição. Isso não significa necessariamente que teremos de ganhar menos dinheiro no ano
que vem do que ganhamos este ano, mas torna tudo um bocado mais difícil. No momento, a
nossa folha de lucros e perdas, o nosso balanço, continua perfeitamente saudável. Nem posso
começar a imaginar quanto dinheiro você poderia obter amanhã pelas Edições Amberville...
seria muita coisa. No entanto, dentro de alguns anos... quem sabe? Não tenho uma bola de
cristal, e detesto vê-la presa a uma coisa que nem sequer lhe interessa, embora Maxi esteja
tão apaixonada a ponto de...

— Maxi? — perguntou Lily. — O que anda fazendo agora? — Nada que preocupe... um pouco
do seu entusiasmo exagerado. Dou um jeito na Maxi, querida, para ela não se queimar. Claro,
se você vendesse, todos os seus filhos poderiam realizar as suas heranças.

— Mas e você, Cutter? Está querendo dizer que você não quer ficar no negócio de revistas?
Que preferia não ter largado Booker?

— Se é disso que você precisa, meu amor, estarei mais que disposto a ficar até o fim. Eu nunca
quis trabalhar com Zachary, você sabe disso. Ele o sugeriu uma dúzia de vezes e sempre
recusei. No entanto, desde esse telefonema da UBC, hoje, assim sem mais nem menos, andei
me perguntando se não seria algum sinal, algum... ponto crítico... alguma coisa que mereça a
nossa atenção.

— Sinal? Sinal de quê? — Uma vida nova. Uma vida para nós, juntos, sem estarmos presos e
preocupados todos os meses com os aumentos do preço das páginas e o aumento dos planos
de aposentadoria e os mil e um detalhes das Edições Amberville. Você poderia vender,
querida, se quisesse. E aí ficaríamos livres, os dois. Não haveria nada no mundo que você não
pudesse fazer. Poderia ter a sua própria companhia de balé... não? Poderíamos passar os
melhores meses do ano na Inglaterra, poderíamos comprar a casa mais maravilhosa no Sul da
França, poderíamos começar a ser colecionadores sérios de tudo que você adora. Ah, Lily, a
vida tem de ser mais do que eu ficar sentado num escritório em Nova York e só poder estar
com você depois de um longo dia de trabalho. Mas as ações não são minhas, a empresa não é
minha, cabe a você resolver se está sequer interessada na possibilidade. É por isso que tive de
lhe falar sobre esse telefonema. Negócios, negócios cacetes, se quiser, mas eu não podia
guardar isso em segredo.

— Não podia, não — disse Lily, devagar. — Pense nisso, querida, ou não pense. Só cabe a você.
Você deu tanto do seu sangue e seu coração à companhia quanto alguém poderia dar e talvez
devesse continuar assim. Só quero ver você feliz.

— Vou pensar a respeito. Prometo. Não é uma coisa... que eu possa resolver logo... é? Não,
claro que não.

— É importante pensar com bastante calma, Lily. É um passo muito sério — respondeu Cutter
e se levantou para preparar outro gimtônica.

As Edições Amberville, pensou, aquela imensa criação do irmão odiado, em breve seria apenas
mais um item na folha de balanço de um gigantesco conglomerado; sua identidade perdida,
seus funcionários espalhados, seus imóveis vendidos e, o mais importante, o próprio Zachary
Amberville esquecido rapidamente, com o desaparecimento do nome dele. Em uma questão
de anos só provocaria um gesto de reconhecimento de pessoas de boa memória. Graças a
Deus ele ainda era bastante jovem para poder acabar com as Edições Amberville Pu blications,
jogá-la no lixo, livrar-se do poder dela, afinal livrar-se do irmão, destruir o que restava dele.
Quanto à UBC, ia ligar para o presidente no dia seguinte, marcar um almoço, verificar se
estavam mesmo no mercado. Lá havia dezenas de candidatos em potencial. Isso era verdade
mesmo. Ele tinha previsto esse dia quando fechara a publicação de todas as revistas que
estavam perdendo dinheiro. Todas menos uma.

— Sabe, Justin, não é fácil ser redatora de modas de uma revista que existe para dizer às
mulheres que elas estão muito bem como estão. A moda é o que nunca foi visto ainda,
pombas. As páginas de modas deviam deixar você louco para comprar.

Julie falava com rebeldia, mas sua voz parecia uma canção de amor ligeiramente eletrificada. A
atração que ela sentia por Justin chegara a um ponto em que ela poderia relacionar cada peça
separada e quase idêntica de roupa que ele usava, sabia até distinguir suas três Nikons. Sabia
quando ele cortava as unhas. Cada detalhe daquele homem estava sob o seu exame constante
mas imperceptível, e o fato de que suas emoções não pareciam ser retribuídas as tornava mais
profundas. Se Justin tivesse mostrado um interesse vivo por ela, teria havido uma progressão
no relacionamento deles, para melhor ou para pior. Ela estaria infeliz, ou em algum estágio de
felicidade. Mas durante as semanas em que haviam trabalhado juntos ele a tratara com um
misto de amizade e colaboração de trabalho agradável e alucinadamente não carregado, que
Julie Jacobson, de Shaker Heights, que desde a primeira série nunca deixara de conquistar um
homem, não considerava mais um desafio. Passara a ser um anseio doloroso por algum sinal
de que poderiam ter um futuro.

— Você desejaria estar numa revista convencional? — perguntou Justin casualmente. —


Lamenta não ter aceitado aquele cargo em Redbook?

— Nunca. Mas essa idéia... quero dizer, afinal, imagine um artigo inteiro dizendo por que você
não deve nunca jogar fora o seu maiô favorito! Como vou explicar isso a Cole, Gottex, O.M.O.
Kamali e todos os outros fabricantes de maiôs que anunciam conosco?
— Explique a teoria de Maxi... que se uma mulher se sente bem consigo mesma, depois de ler
um número de B&B, vai reagir de modo positivo aos anúncios deles, mesmo que a matéria
editorial não leve a leitora a achar que deva sair correndo e gastar dinheiro só para sobreviver
ao fim de semana.

— Você acredita nisso? Ou é só Maxi? — Para dizer a verdade, acredito sim. A natureza
humana básica e aquisitiva se encarrega do instinto de fazer compras e B&B deixará as
mulheres no estado de espírito certo para dar atenção aos anúncios.

Justin olhou para seu estúdio, o primeiro que tinha, com uma consternação bem disfarçada.
Ele sempre fotografara nos locais, viajando com um mínimo de bagagem, só com umas
mochilas e estojos das câmeras, mas a fim de produzir o trabalho que Maxi lhe pedira para
B&B, ele alugara um estúdio com toda a variedade infinita de equipamento, e contratara os
auxiliares necessários para atender o telefone, trabalhar na sala escura e ajudá-lo com as luzes
e o material. Claro, era tudo pago por B&B, mas era a primeira vez na vida em que ele tinha a
impressão de estar ligado a um determinado local de trabalho. Aquilo o deixava inquieto e
agitado, mas já que ele tinha um interesse de proprietário por B&B, porque detestava Cutter,
não podia propriamente tornar a desaparecer até ter a certeza de que Maxi conseguira
deslanchar a revista e que esta estava indo bem. Ou até que se revelasse um fracasso. E
qualquer uma dessas possibilidades ainda estava muito viva, pensou ele. Acostumara-se com
os novos projetos de Maxi, já observara o ritmo frenético da vida dela, a busca incessante por
alguma coisa mais divertida do que a anterior, e não estava nada convencido de que ela
tivesse o poder de continuidade de fazer mais do que lançar uma revista. Provavelmente
enjoaria daquilo dentro de uns seis meses.

Ninguém a compreendia melhor do que ele, era o que pensava muitas vezes, pois ele era
parecido com ela. Tampouco ele jamais encontrara algo que pudesse tentá-lo a se instalar e
ficar parado. Também ele era uma pessoa não permanente, com poucas ligações duráveis. Ele
amara o pai profundamente e a morte dele fora uma tragédia para Justin. Sempre sentiria falta
de Zachary Amberville, e no entanto eles raramente tiveram conversas íntimas. Justin fugia
delas e Zachary, compreendendo, não as procurara, não as forçara. Houvera um entendimento
mútuo mas não expresso entre eles, no sentido de que devia ser respeitado o desejo de
privacidade de Justin.

Por outro lado, pensou com ironia, a mãe parecia ter perseguido a alma dele desde o dia em
que nascera. ”Justin, venha cá conversar comigo.” Todos os dias, ao voltar do colégio, ele
ouvira a voz dela, de um encanto irresistível, tão grave, tão pungente, chamando-o da saleta
dela. Não havia remédio senão ir lá e dar o beijo que ela esperava, o rosto erguido, deixar que
ela lhe alisasse os cabelos e procurar, sem aparentar constrangimento, dar respostas
satisfatórias a todas as perguntas que ela insistia em lhe fazer. ”Como foi a prova de
matemática, Justin? Não sentiu frio, com esse suéter? Por que não levou o casaco? Quem é o
seu melhor amigo este ano? E o segundo melhor? E aquele garoto novo que veio de Chicago?
Gosta dele? Quando tem de entregar o trabalho de inglês? Se precisar de ajuda, pode me
mostrar, você sabe disso, não sabe?”

Aquela voz branda, dedicada, poética, sempre sondando, querendo saber tudo o que ele fazia,
tudo o que pensava.
Ele nunca lhe contara que não tinha nenhum melhor amigo, nem um segundo melhor, nem
mesmo amigos por quem se interessasse mais, porque isso só teria levado a mais perguntas, a
preocupações, a tentar

fazer algo a respeito, quando só desejava ficar em paz para tentar enfrentar os seus receios de
crescer, e aprender que não havia ninguém com quem pudesse contar para resolver seus
problemas, só ele mesmo. No entanto, nunca se recusara a emprestar a sua presença, nunca
tivera a coragem de dar as costas à mãe porque sentia bem como ela era carente, e de certo
modo afligida como uma jovem viúva, a despeito de sua beleza, suas jóias e sua vida social
infindável. Na sua dedicação a ele Lily estava, como ele sabia, sem palavras, na verdade
pedindo que ele tomasse conta dela. E ele fizera o possível.

Só quando ele descobriu as artes marciais e começou a tomar lições é que conseguira passar
os fins de tarde livre da carga da emoção maternal que a mãe nunca demonstrara com a irmã;
um tipo de emoção que parecia tinta, manchada até, por um sentimento que ele não sabia
definir bem, mas que aprendera a detestar, a despeito do seu amor por ela. Quase uma
espécie de... idolatria. Era porque ele era o caçula, pensou, Maxi sempre tinha problemas com
a mãe, e Toby era tão independente, tão especial, a despeito da cegueira que se aproximava
lentamente, que talvez ele fosse o único em quem ela poderia acumular seus sentimentos...
mas assim mesmo ele, Justin, tivera de suportar a peso específico de ser um filho especial, o
favorito.

Assim que ele soubesse claramente que B&B era um fracasso ou um sucesso, ele partiria de
novo, para algum lugar onde nunca tivesse estado, retomando o único papel em que ele
aprendera a se sentir à vontade: o de observador discreto, parte de cada cena, o estranho
sossegado que, não obstante, e devido à sua câmera, estava em casa em toda parte. E em
parte alguma.

— Justin — exclamou Julie, mostrando um biquíni estampado que só poderia ter sido feito nos
fins dos anos cinqüenta — pode acreditar numa coisa dessas? E ainda está em tão bom estado
que provavelmente nunca nem entrou na água.

— Talvez a maior parte dos maiôs favoritos não entrem na água — disse ele, dando de
ombros.

— É isso que a Maxi diz. ”Se uma mulher encontra um maiô que realmente lhe fique bem, que
esconda o que ela quer esconder e realce o que ela quer mostrar, não vai molhá-lo a não ser
que seja obrigada, e mesmo que ela engorde demais e não possa usá-lo, vai guardá-lo em
algum lugar, achando que algum dia ele tornará a caber nela.” Se quer saber, eu acho que a
Maxi está apenas encorajando um raciocínio mágico — acrescentou Julie, em tom de
desaprovação.

— Pense o que pensar, meu amor, ainda temos de fotografar aquela dúzia de maiôs velhos.
Quantos modelos você contratou?

— Três garotas e duas dúzias de rapazes. — Está maluca. Por que tantos rapazes? — Isso
também foi idéia da Maxi. Cada garota vai ter um bando
de caras variados ao seu redor, lançando-lhe olhares de admiração — disse Julie, azeda. Fazia
uma semana que não tinha tempo de fazer compras no atacadista, devido à caçada de maiôs
antigos.

— O que é que os rapazes vão usar? — Tenho quatro dúzias de... objetos idênticos de Ralph
Lauren Bodywear, em mil cores diferentes. Idênticos mas não propriamente antiquados. Não
sei se são calções ou cuecas, mas não gastam muita fazenda, não é? — Julie mostrou uma
roupa suficiente apenas para cobrir a pelve de um homem e dando-lhe um lugar por onde
enfiar as pernas. — Cidade do Umbigo. Uma vergonha. Estamos encorajando as mulheres a
não comprarem maiôs novos e os homens podem andar por aí desfilando quase nus.

— Onde vamos pôr essa multidão? — As garotas ficam com o quarto de vestir... com os
cabeleireiros e o pessoal da maquilagem, precisam de todo esse espaço... e os rapazes vão ter
de usar o seu escritório, Justin. Esse estúdio não é bastante grande.

— Quantas vezes você contrata tantos modelos ao mesmo tempo? — perguntou ele, num tom
racional.

— Esta é a primeira, mas assim mesmo acho que você devia arranjar um lugar com outro
quarto de vestir.

— É provável que arranje — disse Justin, sabendo que não ia fazer nada disso. Ele escolhera o
estúdio exatamente porque exigia a improvisação. Esse espaço interior destinado só para o
seu trabalho o deixava nervoso. Quanto menor, melhor, menos provável que parecesse um
compromisso ou um comunicado de que ele viera para ficar. O local era alugado mensalmente,
se bem que Maxi lhe tivesse dado carta branca. O escritório dele continha pouco mais do que
uma mesa, uma cadeira, um telefone e um sofá onde ele podia se jogar e descansar ao cabo
de uma sessão.

As garotas chegaram todas ao mesmo tempo e Justin as examinou com um olho crítico. Julie as
escolhera pela neutralidade de seu bom aspecto. Eram bonitas, mas não demais. Os cabelos
eram modernos — nada de jubas à Farrah Fawcett — mas não tão curtos a ponto de serem
alarmantes, e os dois maquiladores tinham instruções para não tentar nada de muito diferente
com os rostos delas.

— Nada de pálpebras rosadas ou batons azuis — dissera Julie. — Não estamos tentando
vender nada dessas coisas novas e horrorosas em matéria de cosméticos. Estamos querendo
ver se a americana média sabe fazer a maquilagem básica.

As três garotas foram aprovadas pelo exame dele e quando os 24 modelos masculinos,
anonimamente bonitos, começaram a chegar, ele se ocupou com suas câmaras. Como muitos
fotógrafos, ele nunca deixava seu assistente sequer tocar nas câmaras antes de uma foto e só
lhe permitia recarregar o filme enquanto ele estava trabalhando. Logo a primeira modelo
estava pronta, e durante a meia hora seguinte Justin, Julie e todas as modelos trabalharam
continuamente, mas sem conseguir alcançar aquele ritmo certo que faria com que cada
garota, rodeada por uma dúzia de homens seminus, se sentisse perfeitamente à vontade.
— Molhe-as, Julie — disse Justin, por fim. — Por quê? — Elas ainda estão muito duras. Os
maiôs dentro de casa parecem pose e isso não é bom. Há uns baldes na sala escura. Rapazes,
alguns de vocês vão encher os baldes com água e vamos tentar assim.

— Nós vamos nos molhar? — perguntou uma das garotas, sem poder acreditar. — Ninguém na
agência falou em água. Vou ligar para o meu agente.

— Calma, só vou molhar os rapazes — disse Justin, bruscamente. Desejou estar de volta a
alguma rua desconhecida em alguma cidade desconhecida, livre para fotografar ou não, em
vez de estar ali com 27 dos corpos mais caros por hora dos Estados Unidos, cada qual se
recusando a agir com naturalidade, como as pessoas de verdade fazem em um ambiente de
verdade. O Ganges, era ali que ele deveria fotografá-los. Aliás, seria um prazer empurrá-los
todos para dentro d’água e prendê-los no fundo um pouco. Enquanto isso, ele teria de dar um
jeito.

A água fez o milagre. Descontraiu-os como nada poderia ter feito, tornando-os todos guris de
novo, jogando baldes de água uns nos outros e em si mesmos, para ver quem se molhava
mais, dando a ilusão de uma piscina ou uma praia que nenhum acessório poderia conseguir.

Jon, um modelo masculino com cabelos espessos, de um ruivo escuro e um sorriso cheio de
vitalidade animal, era o líder. Foi ele quem jogou o primeiro balde d’água numa das modelos.

— Não ouse! — gritou ela, e levou outro balde na cabeça. Depois disso foi um Deus nos acuda,
as duas dúzias de rapazes e as três garotas ensopadas, se esquecendo inteiramente da câmara,
os cabeleireiros ali do lado, sacudindo as cabeças mas não descontentes, já que ainda
receberiam seus 750 dólares por hora. Julie, a um gesto de Justin, pegava cada uma das
garotas pingando, depois que ele batia uma foto, e a levava para trocar de maiô, o que não era
fácil, num corpo molhado. Ela devia ter contratado uma dúzia de garotas, ou pelo menos devia
ter levado toalhas, pensou, mas quem previra uma batalha de água?

Por fim a sessão estava acabada, todos os maiôs molhados tinham sido apanhados, as garotas
foram enxugadas com toalhas de papel e enxutas pelo secador de mão e todos, inclusive os
assistentes, haviam

sido mandados para casa. Julie olhou em volta do estúdio, cansada, satisfeita com o que sabia
que seria uma coleção de fotos interessante.

— Não se preocupe. Amanhã mando dar uma limpeza. Vá para casa, Julie — disse Justin, com
brandura.

— Eu devia ficar, mas... — Deixe de ser boba, você está exausta. Fora, amor, fora. Finalmente
só, afastando folhas de papel molhado e sujo, Justin guardou as câmaras com cuidado. Abriu a
porta fechada do escritório, perguntando-se em que estado os rapazes o teriam deixado.

— Você demorou um bocado, Justin. Pensei que estivesse perdido.


Jon, os cabelos vermelhos ainda meio úmidos, sentava-se atrás da mesa, deixando surgir seu
sorriso de menino levado ao ver Justin entrar. Estava tão à vontade sentado à mesa como se
ela lhe pertencesse.

— Não encontrou suas roupas? — perguntou Justin, com calma, o tom controlado
desmentindo sua pose de um homem treinado e pronto para se defender.

— Estão exatamente onde eu as deixei quando entrei. — Você gosta de ficar sentado aí de
roupa molhada? — perguntou ele, com rispidez.

— Não estou. Tirei o calção. — Jon tornou a sorrir e se espreguiçou, preguiçoso como um gato
do mato.

— Você não pode estar confortável — disse Justin, a expressão tensa e vigilante. — E acontece
que essa cadeira aí é a minha.

— Eu ficaria mais confortável no sofá, para dizer a verdade — respondeu Jon, mas não se
mexeu para se levantar.

— Tenho certeza que sim — disse Justin, como que decifrando as palavras do outro com a
maior concentração. — Mas o que o leva a pensar que eu o quero lá?

— Justin — disse Jon, meio zombando dele, meio reprovando — pensa que não sei o que você
quer? Pensa que não sei como você me deseja? No sofá, no chão ou onde puder me possuir?
Pensa que não sei o que desejaria poder fazer comigo, o que eu preciso... e pretendo... fazer
com você? Pensa que sou burro?

— O que é que lhe deu essa idéia sobre mim? — perguntou Justin, a ameaça com que ele
sempre se mexia mais aparente do que nunca, sem que precisasse dar um passo em qualquer
direção.

— Nada do que você disse, nada no seu olhar, nem no andar nem no falar. Nada me ”deu”
essa idéia... sei disso. Tenho um instinto muito bom.

— Sabe mesmo? Tem certeza? Ou não está apenas tentando para ver o que dá? Alguma coisa
que você faz com qualquer fotógrafo, na esperança de ter razão? E que vai ganhar alguma
coisa com isso?

— Não quero nada, Justin, a não ser a mesma coisa que você está querendo tanto. Adoro isso,
como você, mas só que, ao contrário de você, não tenho medo de pedir. Fiquei louco para ter
você desde que entrei aqui... não foi fácil evitar aparecer, nesse calção. Estou de pau duro
agora, Justin, tão duro como já esteve antes, e você também. Estou vendo como você me
deseja, daqui desta mesa. Então, venha cá e deixe de frescura. Venha, Justin. Do jeito que
quiser. De qualquer jeito, qualquer coisa... agüento tudo.

Sem uma palavra, Justin se aproximou de Jon, sem palavras e de bom grado.

20
O— problema com você, Maxime, é ser impulsiva demais

— disse Lily, seus olhos de opala se apertando enquanto examinava a filha com seu ar
costumeiro de crítica velada.

— Mãe, sei que tenho um passado de irresponsabilidade, e não me orgulho disso, juro, mas
B&B é uma coisa inteiramente diferente. Não é justo você supor que isso é apenas mais um
brinquedo, até ver como pretendo fazer com que dê certo. Olhe, eu trouxe a boneca do
primeiro número, para você poder ver por si.

Maxime estendeu a boneca para Lily, ansiosa. — Não, Maxime, não sei julgar nada olhando
para isso. Nunca fui boa para julgar revistas, especialmente revistas novas. Até mesmo o seu
pai teve de aceitar isso, por mais que tentasse. Guarde na sua pasta, meu bem, para não
esquecê-la aqui quando sair.

— Por favor, mãe, olhe só um pouco. Pode fazer você rir — pediu Maxi.

Ela tinha de alcançar Lily, de algum modo. Desde que Maxi voltara da Europa mal se tinham
visto. Maxi andava ocupada demais para estar com a mãe nos eventuais almoços e matinês de
balé, que se tinham tornado o meio mais fácil e menos abrasivo de conservar o
relacionamento das duas. Nesse dia, no entanto, ela fora obrigada a arranjar uma hora para
aceitar o chamado inconfundível da mãe para ir tomar chá com ela, o único ritual
resolutamente britânico que Lily conservara desde que chegara a Manhattan, mais de trinta
anos antes.

— Prefiro não ver, meu bem. Claro que vou ler quando estiver impressa direito, mas até lá
prefiro esperar. Espero ter uma surpresa agradável. O motivo por que pedi que interrompesse
o seu trabalho hoje, Maxime, foi que andei pensando nas Edições Amberville ultimamente, e
estava curiosa para saber quanto dinheiro estava sendo gasto nesse seu capricho repentino...
essa idéia de ter virado editora, redatora ou seja o que for que pensa que é.

— Quer dizer que o Cutter não lhe contou? — perguntou Maxi, espantada. Já se haviam
passado vários dias desde sua entrevista com Cutter, no escritório dele, e ela supusera que ele
já devia ter contado toda a história à mãe.

— Não. Aliás, ele foi muito vago. Pareceu-me que estava evitando o assunto. Foi isso mesmo
que me fez pensar no que se estaria passando, se não havia alguma coisa no ar — alguma
coisa entre vocês... de que eu devia tomar conhecimento.

— ”No ar?” Quer dizer, se estou tendo problemas com Cutter? É isso que quer dizer?

— Exatamente — respondeu Lily, servindo mais uma xícara de chá a Maxi.

— Estamos tendo uma certa controvérsia, mãe. Ele acha que estou gastando muito dinheiro e
eu sei que não posso gastar nem um centavo menos e ainda ter esperança de êxito. Se eu
parar agora, todo o dinheiro da instalação será uma perda total. Ou faço a coisa direito, ou não
faço nada, e não consegui fazê-lo entender isso. Papai saberia exatamente o que estou
fazendo. É justo dizer que não agi com muito tato com Cutter... aliás, tato nenhum. Mas, mãe,
ele simplesmente não é uma pessoa de revistas, tem uma mentalidade de balanço de Wall
Street. É natural, levando-se em conta que sempre foi um banqueiro de investimentos, mas
isso torna impossível uma conversa razoável com ele. Se papai...

— Maxime. o seu pai morreu. O seu problema com Cutter surge do seu ressentimento pessoal
contra ele, uma resistência ilógica que me tem deixado muito triste, um problema que não
vem de qualquer falta de conhecimento ou interesse da parte dele.

— Mãe, não é nada disso... — Um momento, Maxime, deixe-me terminar. Já tentei entender o
seu profundo... antagonismo... para com Cutter. Sei que qualquer pessoa que se atrevesse a
entrar na minha vida depois da morte de seu pai teria provocado esses sentimentos primitivos
em você. Você sempre foi a favorita do papai e nunca vai deixar de ser.

Uma amargura antiga e conhecida surgira na voz de Lily, naquela voz que ela mantinha sob um
controle tão delicado; a voz que dizia a Maxi que a mãe tinha direito a tudo o que quisesse,
sem sequer pedir.

— Você não vê o que o Cutter significa para mim — continuou Lily. — Ou, se por milagre
entende, não se importa. Estou com cinqüenta anos, Maxi, e em janeiro faço cinqüenta e um.
Tenho certeza de que você pensa que estou muito velha para dar importância a minhas
emoções. Aos vinte e nove anos, o que deve pensar dos cinqüenta, você que tem a maior
parte da vida pela frente e cujo passado não

foi propriamente parado? Aos vinte e nove pode sequer adivinhar os

meus sentimentos?

— Pelo amor de Deus, mãe, cinqüenta anos não é ser velha! E não sou tão burra para pensar
que você não tem um corpo e uma alma. Pelo menos me dê algum crédito. Talvez cinqüenta
anos parecesse velho para você, quando tinha a minha idade, mas os tempos mudaram. Maxi
largou a xícara de chá com tanta força que Lily piscou quando a porcelana bateu na mesa.

— Os tempos mudaram, mas só no essencial. A natureza humana permanece a mesma —


continuou Lily, implacável. — E é parte da natureza humana classificar a sua mãe como uma
antigüidade sem ânimo. É inelutável, se bem que, com Angelica, você tenha tentado evitar
isso, e até agora vem conseguindo. Você é tão incrivelmente imprevisível que ela participa da
sua vida e você acha isso natural: ela é a cauda do seu cometa. Mas um dia ela também vai
classificar você, Maxime, escute o que eu digo.

— Como é que Angelica entrou nessa conversa? — disse Maxi, muito aborrecida. — Pensei
que quisesse me falar sobre o dinheiro que estou gastando com B&B.

— Um dia, Maxime, você vai ver o que é se sentir jovem para sempre na prisão de um corpo
que envelhece, por mais que você faça para conservá-lo — continuou Lily, como se Maxi nem
lhe tivesse respondido. — Olho para os modelos nas revistas de modas e penso, ah, sim,
agora... mas dentro de vinte anos essas fotos serão insuportáveis. Ter sido bonita é uma
condenação perpétua, não uma bênção. Ter sido alguma coisa maravilhosa que se tenha
perdido...
— Mãe, está ficando mórbida. Você é linda, foi linda, sempre será linda. O que é que isso tem
a ver com esse chá?

— Eu já devia saber que era inútil — disse Lily, suspirando e passando as mãos pelo coque liso
e pesado. — Eu estava querendo explicar alguma coisa sobre o Cutter e eu, mas sua
insensibilidade, como sempre, torna isso difícil. Então, Maxime, quanto é que está custando
todo esse negócio da revista?

— Ainda não posso dar a cifra total, pois custará uma coisa se der certo e outra coisa bem
diferente se não der.

— Então, me conte o que gastou até agora. — Cerca de cinco milhões de dólares estão
empatados, incluindo os próximos seis meses.

— Isso é um resultado normal que se gaste antes de saber do resultado do seu


empreendimento?

— Perfeitamente. Aliás, é mais para o mínimo. Veja Mort Zuckerman, por exemplo. Ele já
gastou oito milhões com a The Atlantic e só espera ver lucros daqui a mais de um ano, e depois
temos o imenso investimento de Gannet’s em USA Today, mesmo com aquele editor
tremendo que é Cathie Black, e a fortuna necessária para fazer Self dar certo...

— Pare, Maxime. Não agüento quando fala assim de números. Parece estar papagaiando o seu
pai, mas pelo menos ele sabia o que estava fazendo. Então, gastou cinco milhões de dólares
desde que voltou da Europa, cinco milhões do dinheiro das Edições Amberville.

— Gastei, sim, mãe. Cinco milhões. E não vou fingir que já acabei. Você não vai se arrepender,,
prometo.

Se Lily estivesse examinando o rosto de Maxi, teria reconhecido a expressão de Zachary, de


uma decisão ávida.

— Você promete. — Lily deu de ombros, num gesto quase indefinido demais para sugerir
ironia. — Bem, então não vou mais me preocupar. Quer mais uma xícara de chá?

— Não, obrigada, mãe. Tenho de voltar para o escritório. — Compreendo, meu bem. Dê um
beijo na Angelica. Se ela estiver livre na semana que vem, tenho entradas para o balé no
sábado à tarde.

— Tenho certeza de que ela vai adorar. Maxi se despediu de Lily com um beijo. Não adiantava.
Nunca adiantara. O problema com você, Maxime, é ser insensível, não apreciar o Cutter, ser a
favorita do papai. E ainda quer que eu me interesse pelo seu trabalho. O problema com você,
Maxime, é esperar demais da sua mãe.

Lily, tocando a campainha para que a empregada levasse a bandeja do chá, pensou como fora
acertado ela ter essa entrevista com Maxime. A filha estava confirmando tudo o que era.
Gastara cinco milhões e só tinha uma boneca para mostrar o que fora feito do dinheiro. Lily
podia não gostar de falar de dinheiro, mas sabia que se Maxime confessava que ainda não
acabara de gastar dinheiro, não havia como prever quanto se poderia perder. Um brinquedo
perigoso nas mãos de uma criança irresponsável e extravagante, que nunca tivera de ganhar
dinheiro na vida. Cinco milhões de dólares jogados pela janela numa questão de meses. Não
adiantava se aborrecer com isso, quando Cutter lhe garantia que a folha de balanço
continuava sadia. Era apenas uma confirmação, se é que ela precisava disso, que, estando
Zachary morto, a família Amberville deveria sair do negócio de revistas.

Não era só o prejuízo financeiro, pensou Lily, subindo para o seu quarto de vestir, era o
desgaste em Cutter. Ele fora tipicamente altruísta, não lhe contando os detalhes do
esbanjamento de Maxime. Ele devia ter ficado uma fúria, no entanto não quisera aborrecê-la
com o relato irritante das pretensões da filha. Ele era o máximo da consideração, até demais.
Devia ter-lhe contado. Maxi, fazendo loucuras como editora de uma revista, francamente! Ela
examinou seus armários com

um olho crítico. Como sentia falta do querido Mainbocher! E quem é que podia saber,
perguntou-se, o que é que Toby e Justin resolveriam fazer no futuro? Por mais que os amasse,
não sabia. Juntos, eles possuíam trinta por cento das ações de Amberville. Não, obrigada, não
queria os filhos como sócios. Ela podia não entender de negócios, pensou Lily, com o senso
prático aguçado e egoísta que sempre conseguira esconder de todos, inclusive dela mesma,
mas isso ela sabia.

— Cai fora daqui — disse o camelô do carrinho para Angelica, furioso. — Para que está
vendendo açoites de couro? — perguntou ela,

curiosa.

— Deixa isso pra lá, guria, dá o fora. — A parafernália sadomasoquista nunca teria saída, se
aqueles fedelhos ficassem por ali. Aquela garota alta, com todo aquele cabelo comprido, ia
espantar a freguesia. — Toma — disse ele, dando-lhe um dólar. — Vá comprar um cachorro-
quente.

— Obrigada. — Angelica foi para o homem dos produtos Sabrett bem defronte da entrada da
seção residencial de Trump Tower. Tinha de levar sua turma, o Bando de Trump Tower, para
visitar o carrinho no dia seguinte. Um cachorro-quente de graça para cada? Por que não?
Comendo seu cachorro-quente, ela olhou os vários carrinhos na Quinta Avenida. Carteiras,
cintos, echarpes, jóias, tudo feito do outro lado do mundo e exposto nas calçadas, antes
imaculadas, diante das melhores lojas varejistas do mundo. O Bando nunca vira a Quinta
Avenida nos seus dias de glória. A turma vadia, variando de onze a quinze membros, eram as
únicas crianças que moravam no prédio, e para elas os camelôs eram uma fonte constante de
diversão e interesse, parte de seu mundo, um contraponto natural para seus apartamentos de
milhões de dólares.

O Bando sabia de tudo sobre Trump Tower. Sabia como passar pela cabine de segurança
escondida, com um vigia 24 horas por dia, que dava do saguão pequeno, pomposo, luxuoso,
basicamente bege do prédio, para o átrio vasto, de mármore rosa e um pé direito de seis
andares da arcada de lojas do prédio, onde havia uma cascata realmente maravilhosa, que
funcionava por mágica. E sempre havia alguém de casaca tocando o piano de cauda na
entrada. Os novaiorquinos cansados entravam, felizes, para se sentar um pouco e ouvir
música, as canções conhecidas, e talvez comer um sanduíche, enquanto em uma das muitas
butiques de preços loucos eram vendidas camisolas de quatro mil dólares para mulheres de
muitas terras. Os garotos do Bando conheciam todas as lojas, sabiam do andar onde ficavam
os quartos das empregadas que moravam com os patrões, conheciam a linda e loura Sra.
Trump e a tinham convencido a deixá-los visitar

o jardim de seu tríplex, que cobria toda a parte superior da Tower e possuía árvores crescidas.

Angelica era a chefe da turma por ser americana e porque tinha o maior dos apartamentos,
um ”L” combinado com um ”H”. A maioria dos outros eram estrangeiros, seus apartamentos
sendo considerados meros pieds-à-terre pelos pais, que estavam sempre viajando de uma
capital para outra. Mas nesse dia Angelica não estava disposta a procurar nenhum de seus
amiguinhos. Andava preocupada com a mãe, e não sabia bem por quê.

Para começar, pensou, comprando outro cachorro-quente com seu próprio dinheiro, Maxi
estava ficando estranhamente organizada. Arranjara uma cozinheira — que, tudo indicava, ia
ficar no emprego, pois Maxi agora lhe deixava listas detalhadas de tudo o que devia ser feito
durante cada dia — uma faxineira para o serviço pesado. Maxi — que nunca planejara coisa
alguma — passara a planejar as refeições com uma semana de antecedência, para que as
compras fossem feitas eficientemente. Em conseqüência, Angelica tinha certeza de que
possuíam a única cozinheira de Trump Tower que não se limitava a telefonar para Gristede’s,
mas chegava a escolher ela mesma o produto na Lexington Avenue. O que fora feito dos
telefonemas de última hora para as casas de entregas?, pensou Angelica. Ela se lembrava dos
anos de festas esquisitas e étnicas, ou antigas refeições descuidadas e irresponsáveis, muitas
vezes comendo das caixas em que a comida era entregue. O seu tipo de comida.

E não era só o fato de que ela e a mãe se sentavam juntas para jantar, de noite. Maxi
começara até a supervisionar os deveres de casa de Angelica. Não que ela os compreendesse,
necessariamente, pois a matemática moderna estava além da capacidade da mãe, claro, assim
como a antiga, mas para ter a certeza de que tudo fosse feito a tempo. Além disso, ela passara
a se interessar pelas roupas de Angelica, em vez de deixar que ela usasse o que bem
entendesse, pondo na conta em qualquer loja da cidade, como estava acostumada a fazer
desde os dez anos.

— As roupas adequadas — dissera ela, ainda outro dia — não são necessariamente todas feias.

Ora, que tipo de declaração macabra era essa, para a mãe fazer? Depois, a vida amorosa dela.
A mãe parecia não ter nada e nem parecia estar ligando. Será que estava na menopausa?
Angelica pensou na idade de Maxi e concluiu que 29 anos provavelmente ainda era uma idade
jovem. Mas, ao que ela se lembrasse, sempre houvera um homem na vida da mãe, um depois
do outro, e às vezes, como Angelica suspeitava, dois ao mesmo tempo. Camaradas tesudos,
mesmo para homens mais velhos. Mas B&B não lhe deixava tempo para ninguém, tesudos ou
não. Quando Maxi não estava no escritório, ou com Angelica, passava todas as noites
trabalhando com Justin, Julie ou outra a pessoa do escritório, ou, espantosamente, muitas
vezes sozinha, sozinha mesmo, no quarto, debruçada sobre um bloco amarelo, de vez em
quando soltando vastas gargalhadas, diante do seu próprio espírito, supunha Angelica, já que a
televisão não estava ligada. Seria isso o que chamavam de obsessão? E uma obsessão não era
uma coisa má?

No entanto, ela não via qualquer sinal de que Maxi estivesse começando a se desintegrar,
pensou Angelica. Era o contrário: estava juntando tudo, indo em frente, séria, e isso era o pior
de tudo, pois uma mãe que estava sendo séria não era tão divertida quanto uma mãe
engraçadinha e maluca que tinha de ser vigiada. Uma mãe adulta, com uma porção de idéias
de gente grande sobre como fazer as coisas não era o que Angelica estava esperando. Maxi
estava mudando, isso era certo, e Angelica não estava gostando. Não. Nem um pouco. Pois, se
a mãe era a adulta na família, onde é que ela ficava?

Nenhum Cipriani jamais mordera o próprio lábio inferior, foi o que Rocco pensou de repente,
obrigando-se a aliviar a pressão dolorosa do maxilar superior.

— Obviamente, evitei o erro clássico — disse Maxi, atacando o seu bacalhau com quiabo com
seu molho incendiário como se fosse um inócuo purê de batatas.

— Qual erro clássico? — perguntou Rocco, pensando por que deixara Maxi convencê-lo a ir
jantar com ela. Achava que havia sido curiosidade. Depois de todo o trabalho que tivera com a
boneca, depois que lhe arranjara Brick Greenfield, jovem diretor de arte fantasticamente bom,
para continuar o que ele iniciara, sentira certo interesse relutante pelo futuro de B&B. Mas a
displicência de Maxi o estava deixando tão irritado quanto era picante a cozinha crioula de
Chez Leonie, cuja proprietária haitiana, toda sorridente, resolvera tomar conta dos dois e
fizera o pedido por eles.

Rocco já soubera, por fontes demais, que Maxi tinha ido pessoalmente procurar cada um dos
grandes anunciantes, usando a boneca dele — dele — como seu cartão de visitas, e os
convencera a anunciar na revista dela, usando todos os ardis que conhecia, toda gama de
astúcia e encanto, todas as suas credenciais Amberville. Até mesmo ele podia reconhecer que
o conceito básico de B&B podia parecer lógico quando apresentado por Maxi no máximo de
suas trapaças, se a pessoa não tivesse tido alguma experiência com ela. Se ela fosse uma
estranha, por exemplo, e o cara levado a crer que uma revista simpática às leitoras era
exatamente o que precisava para completar o tipo de compras de mídia inteiramente
equilibradas que uma agência grande como Cipriani, Lefkowitz e Kelly poderia fornecer com o
auxílio de uma equipe de pessoas altamente treinadas, cuja vida inteira era a compra de mídia.
Se por acaso o cara fosse um burro de um anunciante nacional, e alguma garota tonta que se
dizia editora e agia como sua própria gerente aparecesse, passasse por cima de sua agência de
publicidade e o persuadisse a assumir compromissos que nunca assumiria em seu juízo
perfeito.

— Rocco, por que está fazendo isso com os dentes? Está sangrando, ou será só esse molho
vermelho? — Maxi lhe ofereceu o guardanapo dela, preocupada.

— Deixa isso aí, tenho o meu guardanapo, porra! Acho que mordi uma pimenta enorme. Que
merda!

— Eu lhe avisei para ter cuidado. Maxi olhou em volta de Chez Leonie, um restaurante na
Primeira Avenida, onde só cabiam seis mesas, mas com um ambiente que ela adorava:
tocavam discos velhos de velhas melodias do Caribe, que ela adorava, numa vitrola velha nos
fundos; candelabros por toda parte, pingando cera como se fosse um filme de Cocteau; as
paredes mais suaves, quase amarelas, onde estavam pendurados os retratos de família de
Leonie, aqui e ali. Aquilo fazia Maxi sentir que estava de férias numa ilha. Evidentemente,
Rocco se tornara tão imbuído do espírito da Madison Avenue que nem entendia a poesia
daquele lugar. E isso de um homem que antes vivia de pimentas. Triste.

— Qual o erro clássico? — Rocco tornou a perguntar, tendo recuperado a pose.

— De não entender que tenho dois fregueses para cada número: o leitor e o anunciante. Não
se pode ter os anúncios sem os leitores e não se pode ter os leitores sem os anúncios, pois eles
desconfiam de uma revista fina. Foi por isso que quase dei de graça o espaço de anúncios para
os seis primeiros meses. Bem, não completamente, mas está muito, muito mais barato do que
deveria ser. Absurdamente barato. O primeiro número vai ser bom, pesado, tranqüilizante,
como uma galinha grande e gorda. O meu leitor vai poder segurar e saber que, por um dólar e
meio, está comprando uma pechincha. Rocco, deixe espaço para o prato principal.

— Não é este? — Espere — disse Maxi, com um sorriso especialmente provocador, o seu
sinalzinho sobre o arco perfeito do lábio superior se movendo de um modo que fez Rocco ter
vontade de lhe dar um bom tapa e ver o que aconteceria.

— Só há um problema que parece que você não calculou bem — disse ele. — É como distribuir
a sua revista. Você pode ter o livro mais lindo do mundo, em cada duas páginas um anúncio
em quatro cores, mas, ainda assim, vai ter de arranjar aqueles milhões de leitores que supõe
que terá. E se as pessoas não encontrarem B&B, como podem comprá-la?

— Rocco, já ouviu falar de um homem chamado Joe Shore? — Não. Maxi suspirou. — Era um
velho formidável, mas já morreu há uns quinze anos, acho. Eu ia às corridas com ele até o fim.
Ele me dava todos os cachorros-quentes que eu quisesse. Morreu como gostaria de morrer, no
seu lugar em Belmont Park, como um vencedor. Claro que ele só tinha apostado dois dólares,
mas ganhou.

— Maxi, do que é que está falando? — Do Tio Joe, pai do Tio Barney. Bom, claro que nunca
perdi contato com o Tio Barney. Ele ficou muito aborrecido quando me divorciei de Laddie
Kirkgordon... adorava que eu fosse condessa. Ele e a mulher foram nos visitar no Castelo do
Pavor e se divertiram muito.

— Tio Barney? J. Bernard Shore? Presidente da Crescent? — Rocco dispensou a travessa


enorme de costeleta de porco grelhada, galinha, arroz de açafrão e pato assado. — A
Crescente? —A voz dele rachou.

— Bem, claro, a Crescente. É preciso ter uma distribuidora nacional, Rocco — explicou Maxi,
com paciência.

— Sei muito bem disso, Maxi — disse Rocco, com cuidado. Ela estava mesmo querendo matá-
lo. Cozinha crioula e irritação, pimentas e maldade propositada. Ele pensou se já estaria com
úlcera ou estava adquirindo uma agora. A Crescente era a mais importante distribuidora
nacional nos Estados Unidos. Naturalmente, a Amberville era uma conta importante para eles,
mas quanto a B&B haviam de rir. Ou deveriam, se tivessem juízo.

— Em todo caso, fui procurar o Tio Barney e lhe contei os meus problemas. Ele sabe que eu
sempre soube escolher os vencedores, desde os três anos, de modo que assinei um contrato
com ele. Claro que eles recebem os três por cento do preço de capa, ele não pôde fazer nada
para diminuir isso, mas me colocou na Prateleira da Frente. Rocco! Leonie! Depressa, acho que
ele está engasgado. Meu Deus, Leonie, havia espinhas naquele bacalhau com quiabo? Rocco,
levante os braços acima da cabeça, não, Leonie, não bata nas costas dele, Rocco, quer o
Abraço da Vida? A manobra de Heimlich? Ora, resolva-se! Passe os dedos pela garganta, se
não conseguir respirar... ah, está bem... Puxa... você me assustou. Nunca mais trago você aqui,
juro. Leonie, quer me trazer um pouco do seu conhaque haitiano, por favor? Estou meio fraca.
— A Prateleira da Frente? — sussurrou Rocco, ofegante. — Tem

certeza de que foi isso que ele falou?

— Positivo. Ele disse que ia me dar esse espaço, nem que ele mesmo tivesse de construir
bancas maiores.

— Quanto?

— Bem, esse é outro problema. Tenho de pagar diretamente ao varejista por isso. Uns cinco
dólares, de três em três semanas. Por loja, quero dizer. Você não pensa que os supermercados
põem as revistas no balcão de saída por caridade, não é? É assim que People, National Inquirer
e Cosmo chegam na frente, onde a gente não pode deixar de vê-las. Afinal, negócio é negócio
— disse Maxi, com eficiência, refazendo-se do choque de ver o engasgo de Rocco, por ter
comido a porção de costela apimentada dela, além da dele.

— Você vai perder uma puta fortuna! — rugiu ele. — Rocco, quer fazer o favor de falar mais
baixo... ou pelo menos moderar sua linguagem? Talvez eu perca uma fortuna, mas estou de
olhos abertos, e aposto em mim. E o Tio Barney também... vai ser o meu banqueiro para as
Prateleiras da Frente por um ano. Um dia acertei nos cavalos para ele. A única vez que isso
aconteceu na vida dele... e eu só tinha três anos, nem sabia ler. Ah, Rocco, pelo amor de Deus,
tome um pouco do meu conhaque... estou preocupada com você. Já pensou em fazer um
check-up? Conheço um bom clínico especializado em gente de publicidade nervosa, como se
houvesse outro tipo.

Foi um grupo solene que desceu do avião no aeroporto de Lynchburg, na Virgínia, no dia em
que o primeiro número de B&B ia ao prelo, impresso no imenso parque gráfico da
Meredith/Burda, perto de Lynchburg. Ao chegarem, eles se separaram em dois grupos, pois
um carro alugado não era suficiente para conter todos os sete. Justin, que comparecera para
dar apoio moral a Maxi, dirigia o primeiro carro, com a irmã ao lado e Julie e Brick Greenfield
atrás. O segundo carro era dirigido por Allenby Winston Montgomery, o editor executivo
sugerido por Pavka. O rosto dele, comprido e melancólico, estava com sua expressão normal,
de alguém que, com resignação, dignidade e paciência, está subindo os degraus da guilhotina.
Mas sua personalidade mudara um pouco no dia em que Maxi resolvera que ”Monty” era um
apelido melhor para ele do que ”General”. Ele chegara a sorrir para ela uma vez, e embora não
sorrisse mais, parecia bem provável para os observadores que voltaria a sorrir antes do fim do
ano. Com ele estavam Angelica, que se recusara a deixar Maxi embarcar no avião sem ela,
tendo escola ou não, e Harper O’Malley, do Controle Editorial, que teria o encargo, todos os
meses, de ficar na gráfica durante todo o processo de impressão, inspecionando os números
que saíam das máquinas e verificando se estavam sendo impressos corretamente,
incumbindo-se de fazer as modificações imediatamente, caso fosse necessário.

Maxi estava agarrada ao precioso maço de primeiras provas em cores, em que ela, Brick
Greenfield e Monty fizeram suas correções

finais, depois que duas séries preliminares de heliográficas e segundas provas em cores haviam
sido revistas e devolvidas à Meredith/Burda. Os olhos de Maxi mal registravam os campos da
Virgínia, pois ela tentava se lembrar da última vez em que sentira a mesma série de emoções
que experimentava agora, e que não teria chamado de medo, se honestamente pudesse.

É, já sabia. Acontecera antes, uns três dias antes do nascimento de Angelica. Ela e Rocco
tinham ido ao cinema e de repente, durante o filme, ela fora dominada pela noção de que o
bebê que carregara tão alegremente durante quase nove meses só tinha uma saída do corpo
dela. Esse fato indizivelmente absoluto, que até então ela dera um jeito de ignorar, a atingira
com tal força que só teve uma idéia: como sair daquela. Devia haver, tinha de haver um meio
de não ter o bebê. Mas, olhando para o colo enorme, até mesmo Maxi curvou-se diante de
certa lógica incontroversa. Não havia como escapar do medo. Teria de ir até ao fim. O monte
de provas que estava agora em seu colo devia ir para a impressora, assim como Angelica tivera
de entrar no mundo. Ela se descontraiu um pouco e afagou as provas com carinho. Fosse qual
fosse o futuro delas, Maxi dera o melhor de si.

A não ser para Harper O’Malley e Brick Greenfield, que já tinham estado na gráfica quando
trabalhavam para outras revistas, só o tamanho da Meredith/Burda era suficiente para inspirar
assombro, se não pavor. Dentro da fábrica as gigantescas impressoras automáticas se
arrastavam pelo salão enorme da altura de cinco andares, onde alguns dos técnicos mais
importantes esperavam para recebê-los. O barulho, ensurdecedor, quase inimaginável,
tornava a conversa impossível, mas todos se apertaram as mãos e fizeram mímicas de
cumprimentos quando Maxi entregou as provas. Era como estar preso dentro dos Tempos
Modernos de Chaplin, pensou ela, com melhoramentos de Guerra nas Estrelas. Os
computadores piscavam aqui e ali, constantemente verificando os amarelos, vermelhos e azuis
das tintas, e o grupinho de B&B ficou esperando, agrupado, tenso e sem sorrir, que o primeiro
exemplar saísse da prensa. A despeito da automação e dos computadores, ainda havia
necessidade, sempre haveria necessidade, de um olho humano para examinar cada página e
verificar se estava como se pretendia que ficasse. Quando apareceu o primeiro exemplar,
todos se juntaram em volta dele e o folhearam.

A não ser Angelica e Justin, cada qual achava que sabia exatamente o que esperar, pois tinham
revisto cada palavra e ilustração centenas de vezes, mas era uma experiência totalmente
diferente ver a revista encadernada e acabada, encapada, do que fora vê-la em segmentos e
folhas duplas; quase tão diferente, pensou Maxi, quanto o moni-
tinho que ela vira em seu colo no cinema e o bebê que vira na sala de parto. Quase, mas não
igual.

Depois que ela, Monty, O’Malley e Greenfield tinham todos dado a sua aprovação final,
começou a sair do prelo a primeira série de B&B, arrumada pelas máquinas em grandes fardos
amarrados com tiras de plástico, e levada em esteiras transportadoras para o setor de
expedição, lá fora, onde uma grande frota de caminhões aguardava. Após quatro dias de
distribuição, haveria exemplares da nova revista em todas as importantes bancas de jornais e
em todos os grandes supermercados e cadeias de drugstores nos Estados Unidos.

Maxi, acompanhada pelos outros, foi para a plataforma de carga para assistir à partida dos
primeiros caminhões. Monty rompeu o silêncio repentino, dizendo, com sua voz que quase
rachava:

— Bem, lá vão elas. De repente ele sorriu, como se estivesse vendo um bando de passarinhos
voando pela primeira vez. Maxi suspirou e Angelica, ao lado dela, virou-se e a levantou do
chão alguns centímetros, dando-lhe um abraço esmagador e um beijo em cada face.

— Ei, mãe — disse ela — qual é? Está chorando!

21

Maxi estava rondando a banca de jornais Eastern do edifício da Pan Am. É uma das maiores e
mais bem sortidas de Manhattan, pois centenas de milhares de pessoas passam por ali de
manhã à noite, procurando o que ler. Fica localizada num dos principais cruzamentos de Nova
York, um prédio que deve ser atravessado ou penetrado para se chegar a cem lugares diversos,
inclusive o metrô e a Grand Central Station. Todos os editores, de Newhouse a Annenberg, de
Forbes a Hearst, têm seus representantes verificando a situação de vendas na banca Eastern
uma dúzia de vezes por dia, cada vez que sai um novo número de suas revistas. Peritos de
olhos observadores rodeiam a banca, pessoas capazes de calcular o número de exemplares
deixados numa pilha e, voltando dentro de uma hora, recontar e saber imediatamente se a
foto da capa e as legendas atraíram um grande público, se fracassaram, ou se foi o mesmo de
sempre.

Já se haviam passado quatro dias desde que B&B fora para a plataforma de carga na Virgínia e
Maxi se obrigara a aguardar até aquela tarde para ir à banca Eastern. Ela não permitiu que
alguém do escritório fosse com ela. Não era um esforço comum, como fora montar o primeiro
número. Era um assunto solitário. Jogar roleta era uma coisa que se fazia em grupo, mas
quando a pessoa se levantava para ir receber as fichas ou deixava o lugar, com displicência,
após ter perdido tudo, era melhor fazê-lo sem companhia nem fanfarra.

Lentamente, em círculos, ela foi-se aproximando, a princípio confundida com aquela profusão
de revistas e o tumulto dos fregueses junto da banca, mas aos poucos a cena foi-se
focalizando. O Tio Barney tinha dito a Meredith/Burda quantos exemplares mandar para cada
atacadista nas várias zonas dos Estados Unidos. Normalmente, os atacadistas resolviam
quanto mandar para cada banca, baseando-se em sua experiência anterior. No caso de B&B,
como a revista era nova em folha, Tio Barney indicara pessoalmente os números que achava
deviam

ser distribuídos. Uma banca de jornais não tem a mesma posição privilegiada da caixa de um
supermercado, mas inevitavelmente agrupa juntas as revistas de maior vendagem, de modo
que os fregueses não tenham de caçá-las. Para dar a B&B uma oportunidade de lutar, deveria
ficar colocada — só naquele mês, já que nem o Tio Barney, com todo o seu poder, podia fazer
mais que isso — ao lado de Cosmo. Cosmo vendia 92 por cento de seus exemplares como
compras individuais em bancas ou supermercados, e só o fato de estar a seu lado daria a B&B
uma oportunidade especial de ser notada pelas mulheres.

Maxi encontrou as pilhas de Cosmo, que tinha saído alguns dias antes, e viu que já estavam
pela metade, comparadas com as pilhas ainda altas da maioria das outras revistas femininas.
Ela se aproximou mais, olhando aflita para a direita e para a esquerda, mas não conseguiu ver
a capa vermelha berrante de B&B, que Rocco escolhera porque era exatamente da cor de um
sinal de tráfego vermelho, a única cor que todos tinham de parar e notar, a não ser os
daltônicos. E ela não era nada daltônica, pensou Maxi. Será que a revista ainda não fora
entregue? Parecia impossível. Quatro dias era o período dentro do qual todas as cidades e
paradas de ônibus do país deveriam ter seus `exemplares. A banca Eastern sem dúvida os
recebera ao mesmo tempo que as outras bancas, ou antes.

Seria possível, ela se perguntou, que o dono da banca tivesse deixado os fardos de B&B sem
abrir, de tão ocupado com seus produtos de venda certa que nem se dera ao trabalho de abrir
as novas remessas? Monty, com sua sabedoria infinita, lhe contara dezenas de histórias de
terror assim: quando acontecia, fosse por que motivo fosse, a pessoa estava morta. Liquidada.
De vez. Por mais cuidado que se tivesse ao planejar todos os detalhes do negócio editorial, no
final tudo dependia daquela pessoa desconhecida que abria o fardo de revistas, a caixa de
livros ou pacote de jornais e os punha à venda. Se essa pessoa ficasse gripada, ou tivesse sido
substituída por outra menos experiente, você estava frito. Ou se estivesse cansada ou tivesse
tido uma briga com a mulher e não se apressasse como de costume... liquidado. Maldito fator
humano, pensou Maxi, ficando mais agitada. Essas coisas deviam ser feitas por computadores
e robôs.

Não conseguindo se controlar, ela se postou bem diante da pilha de Cosmo. Ela olhou, soltou
uma exclamação e piscou. Uma pilha alta do New York Review of Books estava arrumada bem
ao lado de Cosmo, onde deveria estar B&B. Ela já devia saber! Traição! O porra do jornaleiro,
algum pretenso intelectual maluco, com idéias pseudoliberais inteiramente falsas, que
provavelmente tinha um filho que escrevia poesias ou até pretendia ser crítico de cravo —
esse sacana tinha usurpado o lugar dela! Conseguindo vantagens com a NYRB para o merda do
filho! Ela ia tratar disso! Maxi abriu caminho para o centro

272

sacrossanto da banca, cheia de jornaleiros atrapalhados em trocar dinheiro para os fregueses


impacientes.
— Onde está o chefe? — perguntou ela para ninguém. — Quero falar com o chefe, e já!

— A senhora não pode entrar aqui, dona. E sou eu o chefe. Quer ir lá para fora?

Um homem grandão fez um gesto de enxotá-la e quase ia se virando. Nova York devia estar
cheia de garotas lindas, malucas, de cabelos despenteados e furiosos olhos verdes.

— Uma ova que vou. — Maxi o fez virar-se. — Onde é que colocou B&B, pombas? Por que não
estão ali ao lado de Cosmo? E não me venha dizer que não recebeu porque tenho certeza de
que...

— Recebemos. É, recebemos, e, seja como for, estão esgotadas. Liguei para o representante
do varejista e ele vai me trazer mais umas duzentas. Portanto, não me culpe, moça, estou
guardando o lugar delas com aquele jornaleco metido a besta, e isso é fogo.

— Acabaram? — sussurrou Maxi. — As pessoas as compraram? — Não me olhe assim, moça.


Sei tanto quanto você sobre elas. Elas se evaporaram. Nunca vi nada assim na vida. Ei, moça,
pára com isso! Nem te conheço... pára de me beijar, moça... bom, tá bem, mas pára de chorar
na minha camisa... rímel, batom... claro, concordo, ainda bem que não sou um robô.

Uma pena ela ser maluca, com aquelas pernas: eram pernas de verdade, à moda antiga, como
se via em Marilyn ou Rita ou Cyd Charisse. Uma pena ele ser velho para ela... em todo caso, ela
estava atrapalhando o movimento.

Pavka Mayer e Barney Shore mal se conheciam. Se bem que a Crescent tivesse sido
distribuidora nacional das Edições Amberville durante quase 37 anos, o diretor de arte,
sofisticado, profundamente elegante, tivera pouco contato com o magnata turbulento cuja
principal leitura continuava a ser Racing Form, o programa das corridas de cavalos. No
entanto, três dias depois que Maxi esteve na banca de jornais do prédio da Pan Am, Pavka
Mayer foi convidado por Barney Shore para almoçar no Le Veau d’Or, o tipo de
restaurantezinho francês em que ambos se sentiam à vontade, um restaurante que
certamente funcionava há mais tempo do que qualquer dos dois, e tão classudo quanto Pavka
e tão simplório quanto Bamey, um restaurante excelente, nada fantasista, pouco conhecido
dos que não eram de Nova York.

— Eu tinha de comemorar com alguém que sentisse a mesma coisa que eu — disse Barney.

— Estou contente que me tenha chamado — concordou Pavka, sério. — Faz uma semana, e já
está esgotada em todas as grandes cidades do país. Ninguém jamais viu nada igual, desde o
primeiro número de Life. Os meus computadores estão ficando loucos. Na guerra entre Fort
Worth e Houston, as coisas não melhoraram nada quando as senhoras de Houston levaram
quase duas horas para chegar a Fort Worth e as senhoras de Fort Worth levaram quase duas
horas para chegar a Houston, todas supondo que o outro lugar teria exemplares. Não
conseguiram nem subornar as caixas da saída... elas não podiam vender o que já estava
esgotado. A mesma história se deu em Chicago, Los Angeles, San Diego, Boston, Milwaukee... a
mesma coisa em toda parte. Calculei mal, devia ter mandado imprimir cinco vezes mais... ou
dez. Convencemos a Meredith/Burda a voltar a imprimir... eles reclamaram à beça e pagamos
o dobro... portanto, é bom guardar o seu exemplar como primeira edição, artigo de
colecionador.

O sorriso de Barney Shore alargou-se. — Você por acaso não tem nenhuma sobrando em sua
casa? — perguntou Pavka.

— Sinto muito, mas a minha mulher, simpaticamente, distribuiu entre as amigas, todas elas,
sem nem me perguntar... minhas filhas só faltaram estrangulá-la — respondeu Barney, rindo,
feliz. Deus, como ele gostava de seguir um palpite, e Maxi sempre lhe dera sorte.

— Eu já receava que você dissesse isso. As amigas de minha mulher não fazem suas compras, e
quando afinal se decidiram a entrar num supermercado, já era tarde. As garotas do meu
escritório, blasés demais para se interessarem, e que passam a vida enterradas nas revistas,
estão se revezando para irem ao jornaleiro do prédio para estarem lá quando chegar a nova
remessa. Será que a Meredith/Burda teria a consideração de nos guardar um fardo especial?
— Os olhos felizes de Pavka e sua expressão de triunfo desmentiam as suas queixas.

— Minha secretária pensou em roubar uma da pasta do cabeleireiro, mas o dono do salão já a
tinha levado para casa e não vai levá-la de volta. Diz que suas clientes são cleptomaníacas
confirmadas e que, em todo caso, não vão apreciar a revista tanto quanto ele. Bom, Pavka, cá
estão os nossos drinques.

Os dois homens ergueram os copos e tocaram as bordas, de leve. Seus olhos se encontraram e
seus sorrisos se apagaram.

— A Zachary Amberville — disse Pavka. — A Zachary Amberville — repetiu Barney Shore.

Rocco tocou a campainha chamando a secretária.

— Onde estão Lefkowitz e Kelly? — perguntou. — No escritório do Sr. Lefkowitz. Quer que os
chame? — Pode deixar, Srta. Haft, vou até lá. Ele encontrou seus sócios ruivos e de olhos azuis
chegando do almoço, e nem tinham ainda tirado os casacos. Kelly, que dormia com um
número de Gentlemen’s Quarterly na mesinha-de-cabeceira, estava com um sobretudo tipo
Chesterfield cinza escuro, bem talhado, com lapelas de veludo, e um chapéu-melão, a aba
enroscada dos lados e abaixada na frente e atrás. Lefkowitz, que ficara muito impressionado,
nos seus vinte anos, com o filme Stavisky, de Belmondo, estava com um chapéu Borsalino,
que, conforme ele lembrava sempre a Kelly, era feito por Borsalino Giuseppe e Fratello, de
Alessandria, Itália, e não um desses fabricantes comuns de chapéus de feltro de abas largas.
Ele virava a aba para baixo de um lado só, para ser confundido com F. Scott Fitzgerald, e
também ainda estava com sua capa de chuva reversível de Cesarani.

— Vocês estão com frio, caras? — perguntou Rocco. — Ou estão querendo uma entrevista
para uma nova versão de Um Golpe de Mestre?

— Rocco, veja só isso! — disse Leflcowitz, entusiasmado. — Quase pisoteamos umas donas,
mas conseguimos uma — disse Kelly, triunfante. — Rocco, dê uma olhada. O que é que acha...
não valeu a pena ser quase morto?
Eles fizeram espaço para Rocco olhar enquanto viravam as páginas de B&B, com a percepção
bem sintonizada, só possível a hcmens cuja vida toda era definida pela necessidade de vender
às pessoas coisas que elas ainda não sabiam que precisavam.

— Bom — comentou Rocco. — Bom? — resmungou Rap Kelly. — Graças a Deus compramos
essas páginas pelo preço certo. ”Bom”, é só o que o Rocco acha para dizer. Será que estou
cheirando certa inveja, meus chapas?

— Corta essa, Rap. Por que você ia pensar uma besteira dessas? — perguntou Lefkowitz.

— Man Ray, vamos confessar, o aspecto dessa revista é muito, muito especial. Nunca vi nada
que chegue aos pés dela. Puxa, veja só o uso do espaço em branco, a tipologia, os gráficos, o
layout... talvez vocês achem que só sei arranjar negócios novos, mas não sou cego, caras.

— Já disse que era bom — repetiu Rocco, esquentado, olhando para as páginas que tinha
preparado para Maxi, páginas que ele agora nunca poderia admitir serem suas, se não
quisesse se confessar um idiota completo.

— Ele já disse que era bom, Rap, o que mais você quer? — falou Lefkowitz, depressa. — Olhe,
Rap, quando o Rocco estava trabalhando em revistas, era pelo menos tão bom quanto o cara
que fez o layout dessa aqui, fácil, qualquer um te diz isso.

— É — disse Kelly — se houver alguém que se lembre.

21

Justin, vestindo-se depressa, já atrasado há horas para a festa no escritório de Maxi, a fim de
comemorar o sucesso do lançamento, não ouviu a primeira batida à porta do seu apartamento
modesto, sem elevador. A segunda batida foi mais forte, mais impaciente.

— Abra, é a polícia. Que diabo, pensou Justin, e foi logo abrir a porta. Lá estavam dois homens,
à paisana.

— É Justin Amberville? — Sou, por quê? Eles lhe mostraram suas credenciais. — Polícia da
Cidade de Nova York. Temos uma ordem de revistar o seu apartamento.

— Ordem de revistar? Por quê? O que é que está havendo? — disse Justin, espantado,
movendo-se depressa para impedir que entrassem. Com habilidade, eles o afastaram com os
ombros. E quando Justin resistiu violentamente, com toda a sua força musculosa, os dois
detetives precisaram se juntar para prendê-lo contra a parede.

— Harry — disse um para o outro — dê uma olhada no local. O Justin aqui acha que é muito
forte e tem objeções, de modo que vamos dar mesmo uma busca que ele não vai esquecer.
Aqui está a ordem, Justin, meu filho. Fica frio.

O desprezo na voz dele ao pronunciar o nome de Justin era evidente, provocador, mas ao ver o
papel, Justin se deu conta de que não adiantava lutar com o camarada e, em todo caso, não
tinha nada a esconder.
Ele ficou olhando, calando-se por um momento, sem poder acreditar, no silêncio do sonhador,
enquanto o primeiro policial revistou a sala rapidamente, rasgando todas as almofadas do sofá
e poltronas, varrendo todos os livros das estantes, desmontando os alto-falantes de seu
aparelho estereofônico. Ainda imobilizado contra a parede, ele ficou escutando o outro arrasar
o seu quarto de dormir, ruidosa e exaustivamente. Harry saiu de lá.

— Não está lá, Danny, a não ser que esteja debaixo do chão. Vou tentar o outro quarto.

— É o meu quarto escuro. Há milhares de dólares de coisas valiosas... pelo amor de Deus,
tenha cuidado.

— Claro, Justin, é para isso que estamos aqui, para ter cuidado — zombou Harry. Ele abriu a
porta do quarto escuro, acendeu a luz e começou sua busca, violentamente jogando ao chão
tudo que não lhe interessava. Uma por uma, Justin viu suas Nikons baterem no chão, as lentes
espatifadas. Quando a terceira câmara foi atirada, ele escapou dos braços fortes de Danny com
um único movimento, fluido e rápido, e foi para cima de Harry, jogando-o ao chão com
facilidade. Harry grunhiu de dor, e por um instante não conseguiu se mexer.

— Seu puto! — disse Justin, virando-se depressa para enfrentar Danny, dando um pontapé
que esmagou o cotovelo do outro. A luta que se seguiu foi breve, feia e brutal. Sem os seus
porretes ilegais os detetives teriam ficado no chão, dobrados ao meio, sem poder respirar; em
vez disso, foi Justin quem afinal foi espancado até ficar quase inconsciente e algemado.

— Harry, você não revistou aquele armarinho — disse Danny, ofegante, segurando o cotovelo.
— O merdinha tem de estar com a muamba em algum lugar.

O segundo detetive, ofegante devido aos estragos provocados por Justin, derrubou uma pilha
de caixas do armário e revistou as fotos que estavam cuidadosamente arquivadas nelas.
Desafivelou as capas vazias das câmaras de Justin e as jogou para o lado, com nojo. Por fim
abriu o zíper da mochila que Justin tinha guardado depois de sua última viagem.

— Mina de ouro — grunhiu ele, levantando a mochila e pondo-a no chão para que o outro
detetive pudesse ver seu conteúdo. — Quanto é que te parece, Danny? O que é que diz, Justin,
hein, o que diz, seu merda? — Ele chutou Justin nas costelas, com força. — Parece-me uns três
quilos de pó pra mim, toda a porra do bolso do lado está cheio do troço. Milhões de dólares,
na rua. Ele devia estar pensando que tinha encontrado o esconderijo perfeito. Muito na cara
pra gente procurar, hem, Justin? Vamos, Danny, vou levar o cara, ler os direitos dele e autuá-
lo. Você desce, que volto pra te pegar. Deve estar com muita dor.

Com violência, puxou Justin para cima, pelas algemas. — Vamos, Sr. Amberville, temos um
encontro no centro. Depois que Justin foi autuado pela posse de cocaína, com suspeitas de
tráfico, depois que lhe tiraram as impressões digitais e fatos, permitiram que desse um
telefonema. Perplexo, aturdido, com muita dor, procurando instintivamente a única pessoa
que ousava chamar, ele discou o número de Maxi.
Quando o telefone tocou, ela acabara de pôr Angelica, sonolenta, na cama. Maxi estava
sentada à sua mesa, cansada até os ossos, mas tão eufórica, tão contente, que não queria ir
para a cama e acabar a comemoração que durara até bem depois do jantar.

— Justin! Por que não veio à festa? Todos ficamos esperando... O quê? Não, é impossível... não
entendo... claro, vou já pra aí. Puxa, Justin, quer que leve um médico também? Um advogado,
então? Tem certeza? Está bem. Prometo não dizer nada a ninguém. Vou o mais depressa
possível... sim, meu talão de cheques. Fique firme, já estou indo.

Já passava das onze da noite quando Maxi chegou à delegacia de Midtown North, mas apenas
quinze minutos depois de ter saído de seu

apartamento. Quinze minutos de pesadelo, conjeturas de pesadelo, ruas de pesadelo


vislumbradas da janela do táxi, quinze minutos em que as condições precisas de um pesadelo
se duplicavam; alguma coisa hedionda, não bem conhecida, e no entanto temida há muito,
tinha acontecido. Era mais do que o fato da prisão de Justin; era a sensação de que, por algum
motivo, ela esperava isso, por fatos que ela preferira não encarar. Havia um bafo repugnante
do conhecido, algo do meio compreendido, o meio suspeitado, o invisível oculto, fora das
vistas, por trás de portas fechadas durante anos, algo mais assustador do que tudo em que ela
jamais pensara, à luz do dia. Seus pensamentos não estavam claros e ela teve arrepios
incontroláveis a despeito de seu casaco de peles. O seu talão de cheques. Estava na bolsa, o
único ponto de referência sólido no universo.

Na delegacia apinhada e desordenada, Maxi afinal localizou o sargento responsável.

— Não, senhora, de modo nenhum pode pagar a fiança para libertá-lo. Ainda não foi
estabelecida a fiança. Ele não está aqui, senhora. Depois de autuado, foi levado para a One
Police Plaza, para esperar a citação diante do juiz. O cara devia ter chamado o advogado, não a
irmã. Qual a acusação? Posse de drogas, diz aqui, e suspeita de tráfico. Quanta droga?
Bastante, mais do que bastante. É só isso que posso lhe informar. Não, claro que não pode vê-
lo. Só depois da citação. E leve um advogado. O quê? Ele não quer? Bom, escuta aqui, moça,
ele precisa de um advogado, e com urgência.

Depois de mais meia hora de buscas inúteis na delegacia por alguém que pudesse lhe dizer
mais alguma coisa, Maxi foi abordada por um jovem estranho.

— Srta. Amberville? Soube que o seu irmão foi preso hoje à noite... — disse o rapaz, com um
ar simpático.

— Quem é você? — perguntou Maxi. — Talvez eu possa ajudar. Eu o vi quando chegou. Estava
precisando de cuidados médicos, e achei que a senhorita devia saber.

— Quem é você? — Parece que encontraram uma grande quantidade de cocaína no


apartamento dele. Ele disse que não era dele, que devia pertencer a outra pessoa. Tem alguma
idéia de quem poderia tê-la posto lá? Poderia ser alguém em quem ele confiasse, algum
conhecido, algum amigo, alguém...
— Vá embora — gritou Maxi. Ela desceu correndo a escada da delegacia, chamando um táxi
freneticamente. Um amigo? Um conhecido? Alguém que escondia cocaína naquele
apartamento, para onde nem ela sequer fora convidada, onde Justin defendia a sua
privacidade como se fosse um objeto frágil, infinitamente precioso. Ah, Justin, que tipo de
gente você chama

de amigos? Quem te conhece melhor do que eu? Pobre Justin, tão doce e perdido... Eu quis
tanto não adivinhar. Não era isso que você queria, mais que tudo no mundo, que nenhum de
nós adivinhasse?

Não havia nada a fazer, pensou Maxi, pegando o fone ao lado da cama a fim de ligar para Lily.
Os únicos advogados que ela mesma podia chamar se especializavam em divórcio. Justin,
evidentemente, estava precisando da firma de advogados mais poderosa que as Edições
Amberville pudessem convocar e, em todo caso, era preciso contar a coisa a Lily o mais
suavemente possível, antes que ela lesse sobre a prisão de Justin nos jornais da manhã.

— Alô, mãe. — Você sabe que horas são, Maxime? — disse a voz de Lily, sonolenta.

— Sei, já passa da meia-noite. Sinto muito acordá-la, mas... aconteceu uma coisa, uma coisa...
não, ninguém se machucou, é outra coisa, mãe, é que o Justin foi preso.

— Vou atender no outro telefone — cochichou Lily. Dentro de minutos ela atendeu em outra
extensão. — Não quis acordar o Cutter. Onde é que está o Justin?

— Na cadeia. Foi levado para a One Police Plaza. — Por que o prenderam, Maxime? Foi... foi
por tentar seduzir alguém? — perguntou Lily, a voz baixa e apavorada.

— Meu Deus, mãe!

- Há tanto tempo que venho temendo isso. Foi isso, Maxime? Conte — implorou Lily.

— Não, mãe, não foi isso. É algum engano horrível. Dizem que encontraram cocaína no
apartamento dele. Suspeitam que seja traficante. É tudo completamente impossível. A única
coisa que consegui descobrir foi que ele disse que alguém escondeu as drogas na casa dele.

— Se foi isso que ele disse, então foi o que aconteceu. — A voz de Lily estava mais aliviada,
mais calma. — Justin não é mentiroso. E claro que não é traficante de drogas. Vou ligar já para
o Charlie Salomon. Ele há de saber exatamente o que fazer, como lutar contra isso. Vamos tirá-
lo da cadeia de manhã, logo cedo.

— Mãe, mais que tudo, Justin não queria que alguém soubesse... que adivinhasse. Mas havia
um repórter lá e ele tirou uma foto minha... sabia o essencial, sobre as drogas.

— Temos de estar preparadas para isso. — Na voz grave e cristalina de Lily nunca houvera esse
tom de lamento, nem mesmo por ela própria.
— Ah, mãe, estou com tanta pena dele, o coitado do Justin, tão carinhoso e inofensivo. Por
que isso teve de acontecer com ele? — perguntou Maxi, e ao fazer a pergunta, sabia como
soava infantil.

— Maxime, alguma coisa... assim... estava para acontecer com

Justin, há muito tempo. Não é culpa dele, meu bem, mas estava para vir. Procure não se
preocupar. Charlie Salomon é o melhor advogado na cidade e graças a Deus o Cutter está aqui,
para todos nós. Boa noite, Maxime, e... obrigada, querida. Obrigada por ter ido ajudar.

Antes de ir acordar Cutter, Lily ligou para a casa de Charlie Salomon, o principal advogado das
Edições Amberville, e ainda o encontrou assistindo à televisão. Com precisão, quase não
demonstrando qualquer sentimento, ela lhe contou o que acontecera, até onde sabia dos
fatos, e marcou um encontro com ele de manhã na One Police Plaza.

Depois, embrulhando-se num roupão, passou devagar da sua saleta para o quarto onde
dormia com o marido. Ele tivera um dia especialmente cansativo e ela sabia que ele tinha de
se levantar cedo, para um compromisso ao café da manhã, mas não podia mais adiar o
momento de acordá-lo. Depois de tranqüilizar Maxi e conversar brevemente com o advogado,
ela sentira uma necessidade intensa de ficar nos braços de Cutter, que ele lhe dissesse que ia
dar tudo certo, que ele agora ia tomar conta de tudo, que ela não estava mais sozinha.

Ela olhou para o rosto dele, adormecido, tão interessante no sono quanto desperto, pois a
descontração dos músculos faciais deixava inalteradas as linhas nítidas, bonitas e aristocratas
de seus ossos e crânio. Só desaparecera de sua expressão aquela severidade sombria e
pensativa, aquela eterna vigilância de toureiro. Ela suspirou, com um prazer inconsciente.
Mesmo naquele momento de um pesar há muito temido ela sentia prazer só de olhar para ele.

Ela passou os dedos de leve pela testa de Cutter. Ele se virou para o lado, fugindo ao contato
com ela, mas ela continuou e ele acabou acordando, de um sono profundo.

— O quê? Lily? O que aconteceu? — murmurou, ainda não desperto de todo.

— Acorde, meu querido. Estou precisando de você. — Lily, está passando mal? — Ele sentou-
se na cama, alarmado. — Estou bem. É um de meus filhos, um deles está em apuros...

- Maxi. O que é que ela foi fazer agora? — Não, é o Justin. O nosso filho, Cutter. Ah, Cutter, me
abraça, me abraça muito, estava com tanto medo, tanto medo, há tanto tempo, e agora
aconteceu.

Lily se lançou nos braços de Cutter, tentando se enterrar num lugar seguro. Ele a abraçou,
beijou-lhe o alto da cabeça e consolou-a por um instante, mas depois a afastou o suficiente
para poder fitá-la no rosto.

— Conte, Lily. O que houve com o Justin? O que aconteceu, pelo amor de Deus!
— Ele foi preso. A polícia revistou o apartamento dele e encontrou drogas... cocaína. Levaram-
no para a cadeia. Ele ligou para Maxi, mas já era tarde para fazer alguma coisa hoje. Já falei
com o Charlie Salomon e ele vai tirá-lo amanhã cedo.

— Espere aí. Quanta cocaína encontraram? — Maxi não sabia, não quiseram dizer, só que era
”bastante”... o suficiente para autuá-lo como traficante.

— Meu Deus! — Cutter se levantou da cama de um salto e amarrou o cinto do roupão. — Deus
Todo-Poderoso, como se aquele garoto não tivesse bastante dinheiro! Como é que o merdinha
podia ser tão burro! Vou estrangulá-lo com minhas mãos... suspeito de tráfico de cocaína? Um
Amberville traficante de cocaína! Você tem idéia da vergonha? É tão vil quanto...

— Espere! Ele não é culpado, Cutter! Justin não poderia ser culpado disso. Não é mau, não é
um criminoso, como pode sequer pensar isso? — Lily estava ofegante, indignada. — Alguém
deixou a droga lá, escondeu-a no apartamento dele. Ele nem sabia que estava lá. Maxi soube
disso.

— Ora, Lily, será que esse garoto burro não podia inventar uma mentira um pouco mais
convincente?

— Você supõe que seja uma mentira? — A voz de Lily ergueu-se. — Justin é uma pessoa que
tem alguma coisa a esconder. Vi isso no minuto em que pus os olhos nele. Ele nunca foi sincero
comigo, com você, nem com mais ninguém na família. Desaparece durante meses, sem dizer
aonde vai, tem um apartamento que nem sequer vimos; tudo isso faz sentido, Lily. Sei que
você não quer reconhecer, mas faz sentido. E agora toda essa porcaria foi cair em cima de nós.
Justin é um vagabundo diletante rico cujos fundos e dividendos não bastam, por isso ele vende
cocaína por fora e é apanhado, o merdinha.

Lily olhou para Cutter, andando de um lado para outro no quarto, atirando suas palavras
implacavelmente aos pés dela, como pedras.

— Cutter, escute. — Ela se obrigou a falar com a maior calma que conseguiu. — Você não
conhece Justin, mas assim mesmo, por certo, deve compreender que ele nunca faria nada para
ferir alguém, a não ser ele mesmo. Infelizmente, ele conhece gente do tipo que esconderia
drogas no apartamento dele. Quando percebi que vocês não se davam bem, que você e Justin
nunca foram íntimos, quando você nunca fez um esforço para vir a conhecê-lo melhor... o seu
próprio filho, Cutter... pensei que o motivo fosse que você soubesse, que você sentia, bem...
porque, de algum modo, você instintivamente notava que ele era homossexual. E pensei que
talvez você se culpasse, de um modo louco, pensasse...

— Homossexual? Houve um momento de um silêncio mortal. A palavra parecia saltar de uma


parede a outra no quarto repleto da incredulidade aturdida

de Cutter, e a percepção incrédula de Lily de que ele não sabia, não tinha visto, talvez não
tivesse se dado ao trabalho de ser sensível ao filho, pensar no modo de vida esquivo de Justin
e se perguntar o motivo daquilo.
— Ele não pode ser homossexual, Lily, não é possível — disse Cutter por fim, numa negação
áspera.

— Você acreditou que ele fosse traficante de cocaína. Imediatamente, sem fazer uma
pergunta. Por que não pode crer que ele seja homossexual?

— Meu filho, bicha! Não, nunca. Se fosse o Toby... mas não o meu. Porra, Lily, eu nunca quis
que ele nascesse, mas você não, queria porque queria. Ele nunca devia ter nascido.

— Nunca ter nascido? Lily olhou bem para Cutter ao repetir as palavras dele, e ele viu um rosto
que nunca sonhara poder existir, contorcido, pronto para dar nele, o rosto de uma mulher
despida até os ossos numa emoção que ele nunca vira.

Ele foi rápido para junto dela e a forçou a se render a seus braços, se debatendo.

— Lily, Lily, minha adorada, desculpe, puxa, eu não queria dizer isso, nem uma palavra, nem
uma única palavra. Só fiquei maluco por um instante.„ tenho uma coisa sobre os...
homossexuais... uma fobia, eu acho. É um tipo de reação primitiva, não suportei quando você
disse que Justin... Lily, parece loucura, mas é meu problema e me envergonho disso. Não a
culpo por estar perturbada. Você sabe que as pessoas dizem coisas quando levam um choque,
coisas que não querem dizer de verdade. Lily, fico contente por termos um filho... realmente
contente. Tão contente, minha Lily. — Ele a sentiu descontrair-se em seus braços e começar a
chorar. — Está bem, agora, querida? Eu te amo tanto. Por favor, diz que me perdoa. Olhe, vou
buscar um drinque para nós dois e vamos conversar sobre isso, ver o que podemos fazer para
ajudar o pobre coitado, o que posso fazer pelo meu filho.

Descendo a escada para o bar, Cutter praguejou contra si mesmo, por ser o idiota mais
completo, um homem que fala sem pensar ao lidar com uma mulher. Nem toda a raiva era
desculpa para isso. Desde o primeiro minuto em que fizera amor com Lily, ele ensinara a ela a
ser controlada, a ser dominada, de modo que agora ele podia virá-la na direção que servisse a
seus propósitos. Se quisesse realizar o seu objetivo de desmantelar as Edições Amberville, teria
de continuar merecendo toda a confiança de Lily, total. Ele conseguira convencê-la a cancelar a
publicação de três revistas, mas ainda restavam sete, cujas identidades deviam ser arrasadas,
o mais possível. Ele quase estragara tudo. Isso não tornaria a acontecer, ele jurou, levando

28

os copos para o quarto. Nem mesmo se para isso tivesse de salvar a pele de Justin, aquele
bichinha doente e emburrado. Ele sempre o detestara e agora sabia o motivo.

22

Na hora do café da manhã sempre há um congestionamento de tráfego na esquina da Park


Avenue com a Rua 61, pois diante do Regency Hotel, o Departamento de Trânsito permite o
estacionamento de limusines em fila tripla, enquanto os táxis, menos privilegiados, são
forçados a uma fila única para passarem por esse hotel caro, mas basicamente nada notável.
Seu salão de jantar, por motivos obscuros, tornou-se o lugar mais procurado pelos homens
poderosos para fazerem seus negócios tomando café e torrada sem manteiga. O Plaza fica
muito no centro, o Carlyle muito para o norte, o Waldorf muito para leste, o novo Plaza
Athenée é novo demais, de modo que coube ao Regency reunir os Tisches, os Rohaytons, os
Newhouses e os Sulzbergers da cidade, que muitas vezes realizam mais negócios de verdade
durante um café da manhã de uma hora do que no resto do dia. Nunca dois homens se
encontram no Regency só para comer, a não ser que sejam dois raros turistas desprevenidos
que não queiram esperar o serviço no quarto.

Cutter Amberville, graças a gorjetas constantes e precisamente generosas — nunca tanto que
ele parecesse inseguro, mas nunca tão pouco que deixasse de impressionar — tinha
conseguido a segunda mesa de sofá à direita, defronte das janelas da Rua 61. Ele escolhera
essa mesa três anos atrás, quando voltara da Inglaterra, porque lhe permitia sentar-se de
costas para a parede. Não compreendia os homens que aceitavam sentar-se nas mesas de
centro, expostas a todos os olhos. Evidentemente, sabiam que seriam observados, pois o café
do Regency era uma declaração de solicitação, potencial ou adiada, mas por que, ele se
perguntava, querer atrair a atenção? Cutter fez questão de chegar vários minutos antes do seu
convidado, Leonard Wilder, da United Broadcasting Company, desse modo estabelecendo
direitos subliminares desde o início da conversa. Ele concentrou sua atenção no homem com
quem ia se encontrar, não querendo pensar em Lily, que já tinha saído de casa para ir tirar
Justin da cadeia.

Leonard Wilder era um homem conhecido por sua impaciência. Usava dois relógios e estava
sempre olhando para eles; normalmente, tinha dois compromissos para o café da manhã por
dia, um às oito e outro às nove, e nunca se dava ao trabalho de comer. O tempo era tão
importante que ele não se preocupava com os rituais de cortesia, o vaivém de minueto dos
negócios de empresas, e sua frase favorita era: ”Corta os floreios, o que é que há?”

Cutter se levantou quando Wilder foi levado à mesa pelo maftre. — Que prazer vê-lo, Sr.
Wilder — disse Cutter, apertando a mão do outro — e especialmente por ter arranjado tempo
para o café da manhã, assim tão em cima da hora. Minha mulher e eu assistimos a seu
”Ragtime Special” ontem à noite, e achamos uma diversão excelente.

— Não foi ruim, saíram-se bem — respondeu Wilder, com seu jeito rápido, e impaciente.

— Então, vamos pedir? — Cutter examinou o cardápio com olhar crítico, dando-lhe toda a sua
atenção. — Henry, vamos começar com os morangos frescos e o Sr. Wilder quer... não, nada
para começar? Depois disso, o mingau à moda inglesa com creme fresco. Vamos ver... ah, sim,
as panquecas com bacon canadense. Veja se o bacon está magro e bem seco e lembre ao chef
que as minhas panquecas devem ser feitas na hora. — Ele virou-se para Wilder. — Comeria a
mesma coisa, se fosse o senhor. Não? Eles fazem uma porção de manhã e depois as põem
numa mesa aquecida para conservá-las quentes... assim não prestam, de modo que o chef
sempre me faz novas. — Wilder grunhiu. — E um café quente, quente mesmo. Pode trazer o
café já. O que o senhor toma, Sr. Wilder? Só café? Devem ser os hábitos de ex-morador do
Oeste que adquiri, mas acho que depois de um café da manhã decente posso trabalhar o
dobro antes do almoço do que se só tomasse um café. Tem certeza? Está bem, Henry, só café
para o Sr. Wilder.

Leonard Wilder olhou para a cintura esbelta de Cutter, e este notou o olhar.
— Coma bem no café da manhã e jante mal. Sempre segui esse conselho. Mas a dieta só não
basta, a gente também tem de se manter em forma. Tanto minha mulher como eu somos
ardorosos atletas de fim de semana e temos um ginásio em casa, onde podemos nos exercitar
todos os dias. O que o senhor faz como exercício?

— Vou a pé para o escritório. — Ah, não há nada como caminhar de manhã — concordou
Cutter — mas acho que não exercita todo o corpo, a não ser que se corra.

E nesta cidade não se pode fazer isso, sob o risco de ser morto por um chofer de praça.

Ele se recostou e bebericou o café. — Garçom, isso não está bem quente. Pode fazer o favor
de trazer outro bule e outras xícaras? E leve o café do Sr. Wilder também, está morno.

Leonard Wilder rangeu os dentes e olhou para os relógios. Cutter se recostou, esperando o
café.

— Conheci o seu irmão — disse Leonard Wilder, de repente. Homem formidável.

Cutter suspirou. — Todos sentimos falta dele. Uma grande perda. — A alma do negócio. O
melhor da cidade. As coisas vão ma agora?

Cutter deu uma risada. — Bem, Sr. Wilder, isso pode acontecer numa companhia de
propriedade privada. Nós dois conhecemos muitos casos em que o fundador do negócio
morreu e o negócio se deteriorou. Mas, felizmente, a Amberville está numa situação diferente.
Henry, esses morangos não estão maduros. Leve-os embora, por favor, e me traga uma salada
de frutas. — Ele se voltou para Wilder. — É esse o problema com morangos fora da estação, a
gente nunca sabe. Em geral há uns bons da Argélia ou Israel, nessa época do ano, mas esses
aqui nem valiam a pena comer.

— Então, a Amberville vai bem? — Para dizer a verdade, nossos lucros este ano vão aumentar
consideravelmente. O meu irmão adorava brincar com as revistas. Há anos que já tinha
perdido o interesse pelo resultado do balanço. A paixão dele era criar revistas novas e lhes dar
todo o tempo necessário para elas se revelarem. O senhor sabe o quanto isso pode custar. E
como pode ser arriscado. Quando minha mulher... que é a acionista majoritária... me pediu
para tomar conta das coisas, resolvi cortar os prejuízos ao mínimo. Parece que tive de tomar
uma decisão malvista... ninguém gosta de perder o emprego... mas tudo saiu pelo melhor.
Henry, pode levar as frutas. Tem certeza que não quer um mingau, Sr. Wilder? É muito bom,
aqui. Não? Henry, traga outro pote de creme, este está pela metade. — Cutter atacou o seu
mingau com vontade, pondo uma quantidade razoável de manteiga e açúcar na tigela
fumegante.

— Os lucros subiram, você disse? — Positivo. Cada uma de nossas revistas está mostrando
aumentos nas receitas provindas de anúncios e, como sabe, é aí que está o dinheiro.

— ”Subiram” pode significar qualquer coisa, numa empresa privada — disse Wilcier,
reprimindo um desejo de verificar seus relógios.
— Não creio que seja indiscreto contar ao senhor, Sr. Wilder. Falo de quatorze ou quinze por
cento, talvez mais.

— Humm. Muito bem. — É, tem sido uma experiência muito satisfatória. Por outro lado, Lily,
minha mulher, é inglesa e sente saudades da Inglaterra. Tem estado muito presa em Nova
York, a não ser viagens rápidas à Europa, quando Zachary ia a negócios, há mais de trinta anos.
Ela ainda é uma mulher jovem e gostaria de passar mais tempo no exterior. Caçadas, teatro,
tudo isso... Lily diz que a vida tem de ser mais do que o negócio de revistas. O senhor é casado,
não é, Sr. Wilder?

— Pode me chamar de Leonard. Sou. Casado há vinte e cinco anos. Você disse que subiu
quatorze ou quinze por cento, Cutter?

— Certo. Ah, obrigado, Henry, parecem ótimas. Leonard Wilder se remexeu no sofá. Já estava
atrasado para o seu café da manhã das nove horas e Cutter Amberville ainda começava suas
panquecas.

— Não podemos falar de cifras redondas? — perguntou Wilder. — Cifras redondas? — Cutter
pôs um pouco de xarope de bordo nas panquecas. Não vejo por que não. Sabe-se que o senhor
nunca repete as coisas. Algo perto de cento e setenta milhões em lucros antes dos impostos.

— Perto? Para mais ou para menos? — Não quero exagerar, Leonard, mas acho que para cima.
Ainda há umas coisas a desbastar aqui e ali.

— O negócio está à venda, Cutter? Foi por isso que me chamou? — É, para dizer a verdade,
existe essa possibilidade. Como já disse, minha mulher está querendo mudar e ela merece
tudo o que quiser. Aconselhei-a a não tomar uma resolução precipitada, mas estamos na
primavera e ela sempre foi impulsiva.

— Então, o negócio está à venda. — Não seria justo fazer promessas... mas poderia estar.
Poderia bem estar. Por um preço certo.

— Naturalmente. — Ora, vejamos por exemplo Bill Ziff e a firma dele — disse Cutter,
comendo. — Fez um negócio interessante. Se me perdoa mencionar o concorrente, Leonard, a
CBS acabou de adquirir dele doze revistas por 362 milhões de dólares, coisas como Popular
Photography e Yachting. Depois, ele vendeu a Murdoch doze publicações comerciais, por
exemplo, Aerospace Daily e Hotel and Resort Guide, por mais 350 milhões. Foram 24 revistas
ao todo. Ora, é fato que só temos seis revistas para vender, mas cada qual é líder em seu
ramo, cada uma é uma clássica. Grandes revistas, Leonard. Podemos deixar B&B fora disso... é
uma experiência, no momento, ainda não comprovada. Mas as outras têm receitas bem acima
das de Ziff, muito, muito acima. As-

sim, você deve compreender que estamos falando de uma importância muito grande,
certamente perto de um bilhão. Henry, mais café, por favor.

— A UBC tem muito dinheiro em caixa, Cutter. Isso não é problema. Já falou com mais
alguém? — perguntou Wilder, seu outro compromisso para o café inteiramente esquecido.
— Não, ainda não. Lily só falou no assunto há algumas semanas e não achei que houvesse
pressa. Gosto de dar tempo para as novas idéias amadurecerem. Tudo a seu tempo, para não
haver remorsos.

— Cutter, não acredito em rodeios. Estou interessado. Há anos que ando procurando um
grande grupo de revistas. Sempre gostei da Amberville. Tenho uma comissão executiva de três
membros. Podem resolver pelo conselho. Só peço uma coisa: não fale com outra pessoa antes
de eu poder reunir o pessoal sobre isso.

— Parece justo, especialmente porque não estou com pressa. Aliás o nosso próximo balancete
só sai daqui a quase três meses e tenho tanta certeza de que vai mostrar um salto interessante
que prefiro esperar até lá. Se Lily ainda estiver com a mesma opinião, aí os seus contadores
podem pôr mãos à obra e julgar os valores por si.

— Três meses... tem certeza de que quer esperar? Podíamos começar muito antes.

— Tenho certeza, Leonard. Mas, enquanto isso, por que não jantamos juntos, com nossas
mulheres? Acho que lhe devo uma refeição decente. Você perdeu um café da manhã delicioso.

— Alguém mais sabe disso aqui? — perguntou Toby a India, desconfiado, passando os dedos
por sua barriga.

— Não podia ser mais específico? — perguntou ela, com preguiça, saindo do grande globo de
prazer imenso em que estava flutuando, sentindo a felicidade complicada que a enchia ao
ouvir a voz dele.

— Essa cicatrizinha aqui, debaixo do seu umbigo, à direita. — Apêndice, quando eu tinha oito
anos. Nem mesmo a Barbara Walters sabe disso. Por outro lado, nunca perguntou.

— Essa é a centésima décima sétima coisa que sei sobre você e que ninguém mais sabe. As
suas orelhas têm tamanhos bem diferentes; o seu nariz tem um desvio para a direita, só um
pouquinho, mas ninguém pode dizer que seja reto; suas pestanas do olho esquerdo são mais
finas do que as do olho direito e, correspondentemente, menos pêlos debaixo do braço
esquerdo do que do braço direito, por mais que raspe as axilas; há uma verruguinha sob os
pêlos do seu sexo no lábio esquerdo externo...

— Toby! — Imagino que não seja sua culpa não ser perfeita. Dizem que é perfeita, mas meu
Deus, as coisas que descobri dariam para encher

um livro, e ainda mal comecei a olhar. E quanto ao gosto, vou-lhe dizer, moça, não tem o
mesmo gosto dois dias seguidos. Os homens gostam de um pouco de coerência nas suas
mulheres.

— Sou sua mulher? — perguntou India, sabendo que não devia perguntar, mas não
conseguindo resistir.

— Minha mulher do momento. A única mulher do único momento. Mas você sabe o que
sinto... nunca...
— Poupe-me... nunca se comprometeu. Covarde! E um covarde revoltante, tímido. Eu daria
um níquel por todos os camaradas que andam por aí contando pêlos da gente e sem se
comprometer. Não tem vergonha?

— Não contei seus pêlos do sexo, contei os das axilas. — Dá no mesmo, e você sabe disso.
Como é que chegamos a falar de mulheres? Por que você tem o direito de fazer eu te amar e
depois se recusar a me amar?

— Eu te amo, sim — disse Toby, em voz baixa. — Você sabe que sim. Eu te amei assim que
você jogou aqueles drinques em cima de mim para me chamar a atenção; há meses. Mas um
comprometimento é outra coisa.

— Lá de onde eu venho, quando você ama alguém e esse alguém te ama, não há motivo para
não concordarem e esperar se amarem para sempre. Logicamente, isso leva a um
compromisso de alguma combinação permanente... chamada casamento — disse India, com a
mesma persistência obstinada que a fizera passar a voar de Los Angeles a Nova York quase
todos os fins de semana, desde que conhecera Toby. Aos poucos, ela fora levando a metade de
seu guarda-roupa para os armários dele, e agora até a cama dele, onde se achavam deitados,
estava coberta por seus lençóis Porthault, passados à mão.

— O casamento não é uma questão aberta, quando se declara, desde o princípio do mundo,
que os que estão dentro dessa instituição querem sair dela e os que estão de fora querem
entrar?

India sentou-se na cama, furiosa. — Você ousa citar Emerson a mim? Fui eu que inventei essa
de citar Emerson, seu bandido!

— ”Por necessidade, por propensão e por prazer, todos citamos” — declamou Toby, com uma
dignidade própria de Emerson.

— É a Maxi. Sei que tem de ser a Maxi. Ela te contou como eu a atormentava com Emerson,
não foi?

— Pode ter mencionado isso de passagem, como um exemplo de afeto juvenil.

— Então, vocês dois andaram falando de mim? — Natural. Não seria do temperamento de
Maxi manter um silêncio discreto quando o irmão dela está apaixonado pela sua melhor
amiga.

— E o que é que ela acha? — Ela acha que vou ter de me resolver por mim. — Que melhor
amiga... — disse India, com amargura. O telefone tocou, dando-lhe um sobressalto. — Não
atenda — disse ela. — Pode ser um de seus gerentes — disse Toby, suspirando. — O negócio
dos restaurantes não dorme nunca.

Ele pegou o fone ao lado da cama, escutou um momento e depois desligou abruptamente,
zangado.

— Não foi ele? — perguntou India, ansiosa. — Parece que não, meu bem. Foi o ”seu maior fã”,
de novo. E o meu número, que não figura na lista, foi trocado de novo no mês passado.
— Ah, Toby, sinto muito. Aquele cara maluco. Ele me escreve três vezes por semana e tenta
ligar interurbano. Minha secretária fica dizendo que não posso atender. Esqueça, é o preço da
fama.

Toby desligou o telefone da parede e se virou para India. — Agora escute, meu amor, você tem
mesmo a capacidade mais extraordinária e admirável de evitar os fatos — disse ele,
retomando a conversa interrompida. — Vamos ao caso. Sou cego, não podemos fingir que não
sou.

— Você não é cego de todo — disse India, teimando. — Pode ver alguma coisa, você me disse
que o seu campo de visão tem menos de cinco graus, mas isso ainda é alguma coisa.

— Menos de cinco graus de um campo normal de 140 em cada olho, e isso mesmo só quando
junto um pouquinho daqui e um pouquinho dali, onde ainda há alguns cones funcionando na
minha retina. É tudo fragmentado, um nada, nem mesmo preto, uma espécie de piscar, uma
realidade de vez em quando sem cor, nem limites nem estabilidade. E provavelmente vai
piorar, certamente não vai melhorar. E não há cura, nenhuma esperança.

— Mas as suas habilidades de cego, tudo o que você aprendeu em St. Paul’s! Você pode fazer
tanta coisa, Toby, aprendeu tanto quando ainda via... todos aqueles anos de ver, mais de vinte
e cinco anos bons. Você mesmo me disse que tem uma porção de pistas visuais, milhares de
recordações que o ajudam a concatenar as coisas, a formar um padrão reconhecível, não é
como se você já tivesse nascido cego. Em todo caso, o que interessa .a percentagem exata, se
você consegue funcionar? Trabalhar? O que isso tem a ver com nós dois? E daí, se você nunca
me viu? Quando eu ficar velha e enrugada e perder a minha beleza, você nem vai ligar. Você
não me ama só porque sou bonita. Não entende o que isso significa? Além de Maxi, você é a
única pessoa que conheço que não baseia alguns dos sentimentos por mim sobre o meu rosto
especial, é a única pessoa que posso ter certeza de

que gosta de mim pelo simples motivo de eu ser eu. Isso não interessa para você? Não estou
fazendo sentido?

— Sentido perfeito, até certo ponto. Não acho justo envolvê-la nos meus problemas.

— Justo? Justo é aproveitar a felicidade que sabe que existe para você agora, neste minuto,
sem fazer mal aos outros, a felicidade que existe se apenas estender a mão — disse India, a
voz trêmula.

— Você tem uma capacidade incrível para simplificar demais, India, amor, minha India
imperfeita. Não posso permitir que escolha um homem com a minha incapacidade especial,
pois sei que é uma incapacidade, diga o que disser, mesmo que esteja convencida, neste
determinado momento, que é isso que quer. Você nem tem idéia do que encerra o futuro,
nem sabe por quanto tempo poderei fazê-la feliz.

— Eu sei que você é o homem que quero — disse India, a voz dourada com a intensidade de
sua certeza — e sei que não vou mudar de idéia.
— E o que é que a Dra. Florence Florsheim tem a dizer sobre nós dois, se me permite a
pergunta? — indagou Toby.

— Não mude de assunto. — Ela deve ter dito alguma coisa, analista ou não. — Ela disse que
não era recomendável fazer grandes mudanças de vida durante o processo analítico. Não que
eu não podia, só que não era recomendável.

— Só isso? — Palavra por palavra. — Pois acho que ela tem razão. —- Ora, bolas! — uivou
India, batendo com os punhos no peito nu dele. — Já sabia que você ia dizer isso. Você passa o
tempo todo caçoando dela e de repente, quando lhe convém, resolve concordar com ela.

— Só porque ela é sua analista não quer dizer que esteja necessariamente errada. Ei, o que é
isso que encontrei? Ah, ah, India, coitadi nha, acho que está com um pé de galinha incipiente.
Provavelmente não vai aparecer nas telas durante anos ainda, talvez até uns cinco anos, se
você nunca mais sorrir. Deixe-me beijá-lo para curar.

— Você é um sádico de primeira linha, Toby. Sabe de uma coisa? Pela primeira vez estou
convencida de que você e Maxi são irmãos mesmo.

Na manhã seguinte, às sete horas, Charlie Salomon telefonou e disse a Lily para ir se encontrar
com ele no tribunal. Ele usara sua influência considerável para conseguir que a audiência de
Justin fosse realizada logo que o juiz chegasse.

— Vou com você, querida — disse Cutter — é só desmarcar o meu compromisso para o café
da manhã.

— Não, acho que não seria boa idéia — respondeu Lily. — Não que eu não o queira lá, mas
acho que seria mais fácil para Justin se tratássemos disso o mais... naturalmente... possível. Em
todo caso, prometi avisar Maxi assim que ele pudesse sair daquele lugar horroroso. Vou ligar
para ela e pedir que vá comigo.

— Maxi, como apoio moral? — Bom, você sabe como ela é agarrada a ele. — Está bem, Lily, se
tem certeza, mas... — Tenho toda a certeza. Eu lhe ligo assim que chegarmos de volta.

Lily apanhou Maxi no caminho para o tribunal. Lá se encontraram com Charlie Salomon e dois
jovens advogados do escritório dele, que ele levara. Quando Justin foi levado para a sala,
algemado, Lily apertou bem a mão de Maxi e abaixou os olhos, para que Justin não a visse
olhando para ele até as algemas serem retiradas. Como ele parecia desafiador e obstinado,
pensou Maxi. A pose dele parecia tão perigosa como sempre parecera, a cabeça inclinada em
seu ângulo caracteristicamente agressivo, mas ele estava mancando um pouco e nem toda a
sua dureza podia disfarçar os machucados em volta dos olhos, a testa e o queixo, onde os
detetives tinham batido nele com os cassetetes. Os seus cabelos louros e espetados estavam
emaranhados em vários lugares. Maxi lançou um olhar ao irmão e encontrou os olhos dele.
Num impulso, ela piscou para ele e sorriu, como se estivesse se lembrando de uma piada entre
eles, mas Justin desviou o olhar, sem nem mostrar que a reconhecia.

— O réu é um homem muito rico, meritíssimo — eles todos ouviram o promotor público dizer.
— Dois detetives encontraram quase três quilos de cocaína em poder dele e ele resistiu à
prisão. Se for julgado culpado de uma conspiração para a distribuição de cocaína, ele
certamente será condenado a anos de prisão. Nessas circunstâncias, há todos os motivos para
se esperar que ele deixe o país em vez de aguardar o julgamento. O estado pede uma fiança de
um milhão de dólares.

Traga o seu talão de cheques, pensou Maxi. Ah, Justin, como fomos ingênuos ontem à noite,
nós dois. O repórter que a abordara na véspera estava rabiscando na fila atrás deles.

— Essa é uma quantia irrazoável, meritíssimo — disse Charlie Salomon. — Meu cliente não
tem antecedentes criminais.

Depois de mais alguns momentos de discussão, o juiz tomou sua decisão.

— A fiança está estabelecida em 250 mil dólares. Justin foi algemado de novo e levado para
uma cela de espera no tribunal, até que a fiança pudesse ser paga. Lily telefonou para o
gerente de seu banco e providenciou um cheque administrativo, a ser entregue por um
mensageiro de moto. Após uma espera de uma hora e quinze, o cheque afinal chegou e foi
entregue. A papelada necessária para a soltura levou mais meia hora.

— Charlie, muito obrigada pela sua ajuda — disse Lily. — Acho que agora você e seus colegas
podem ir. Maxime e eu voltamos para a cidade com Justin.

— Acho que eu devia ficar aqui até ele sair. Tenho de falar com ele de qualquer forma, Lily.

— Amanhã, Charlie — ordenou Lily e os advogados se foram. — Aquele repórter de ontem


está aqui de novo, mãe, e trouxe um fotógrafo com ele — avisou Maxi.

— Justin não é culpado, Maxime. Se querem tirar fotos, não há nada que possamos fazer a
respeito.

— Vamos as duas sorrir para a câmara, mãe? — Por que não, Maxime?

— Só estou precisando é de um bom chuveiro quente e comer alguma coisa — insistiu Justin,
quando Lily sugeriu chamar o médico para examiná-lo, pois temia que houvesse alguma lesão
séria em seu crânio, devido às pancadas que levara dos policiais. Mas Justin não se deixou
convencer, de modo que os três Ambervilles voltaram para a grande casa de pedra cinzenta e
afinal se viram sentados, por insistência de Lily, à mesa de almoço, conversando como se nada
mais sério do que um simples resfriado tivesse acontecido. Até mesmo Maxi se sentiu
dominada pela força notável da pose mantida soberanamente por Lily, e no entanto, sem
olhar para a mãe ou o irmão, ela sentia a mágoa que enchia suas almas. Quando as costeletas
de carneiro se seguiram à sopa de creme de aspargos, a tensão na sala foi aumentando com
cada palavra disfarçada que cada um pronunciava, com o total aumentado das palavras
essenciais que não foram pronunciadas. Os empregados entravam e saíam.

— Mãe, podemos deixar a sobremesa e tomar o café, só nós três, na sua saleta? — pediu
Maxi.

— Claro, querida — respondeu Lily, como se aquele fosse o pedido mais natural do mundo.
Eles subiram, Justin movendo-se com a reserva muito controlada do homem que está
guardando todas as suas faculdades para a ação. Psiquicamente, parecia tão afastado da irmã
e da mãe como se fosse um toureiro sendo preparado com suas roupagens pouco antes da
corrida. Quase parecia que ele nem estava ali, pensou Maxi.

— Açúcar? — perguntou Lily. — Por favor — respondeu ele e pegou dois torrões, com a
atenção que um cirurgião demonstraria ao abrir um tórax.

293

— Amanhã — disse Lily, sem mudar de tom — vou pedir a Charlie Salomon que trate da
questão dos melhores advogados de defesa, os melhores que arranjar. O fato de você ser
inocente não é defesa suficiente.

— Obrigado, mãe — disse Justin, com a sombra do seu sorriso torto e displicente.

— Claro, você entende — disse Lily, nervosa, mexendo na alça do bule de café, as palavras se
atropelando de um modo que não lhe era habitual — que o tipo de vida que você escolher
nunca fará diferença para nós, que o amamos de todo jeito... muito... aconteça o que
acontecer.

— Tipo de vida? Quer dizer, mesmo se eu fosse vegetariano ou adotasse as fraudes de


computador? Que tal assassinato de aluguel?

desafiou Justin. — De que diabo vocês dois estão falando? — explodiu Maxi. — Não é hora de
perguntas e respostas, Justin. Nós sabemos que só existe um motivo pelo qual a cocaína foi
encontrada na sua casa.

— Maxime! — exclamou Lily, em tom de advertência. — Mãe, não podemos ficar com rodeios.
— Maxi se levantou e pegou a xícara de Justin, colocando-a numa mesinha. Ajoelhou-se no
chão ao lado dele, abraçou-o e lhe deu um beijo propositadamente estalado na face. — Olha,
garoto, deve haver um cara que tenha a chave de seu apartamento ou que esteve hospedado
com você, alguém que pôs aquele negócio lá sem lhe dizer, algum camarada com quem você
esteja envolvido. Não podemos falar claramente, Justin, para que mamãe e eu possamos parar
de tentar agir como se não soubéssemos que você é gay?

Justin se levantou de um salto, violentamente, e foi para a janela, sem dizer uma palavra,
dando as costas a elas. Maxi correu atrás dele e o agarrou pela cintura.

— Gay, Justin, ou a palavra que você preferir. Nós sabemos, já sabíamos há muito tempo, e
não ligamos a mínima! Venha sentar. Não é o fim do mundo. Ser bicha é uma coisa, ser burro é
outra, e em nenhum dos casos a cadeia é recomendável. Portanto, vire-se para podermos falar
disso racionalmente.

— Vocês não sabem de nada. Não podem saber de nada — disse Justin, sua voz abrasiva, ainda
de costas, agarrando o peitoril da janela. Estava ali como se sentisse desprezo por elas, em vez
de alguma emoção mais forte e pessoal.
— Mas sei, meu bem — disse Lily, ainda mais devagar. — Há anos que sei. Nunca vi motivo
para falar disso com alguém, jamais. Até agora, era sua vida particular.

— Eu não tinha idéia de que mamãe sabia de alguma coisa até ontem à noite, quando tive de
ligar para ela — disse Maxi, sem afrouxar os braços. — Ninguém sequer começaria a suspeitar,
a não ser as pessoas que te amam muito e te conhecem como nós, e Deus sabe que você fez
questão de que essas fossem bem poucas. Mas é difícil conversar sobre isso com as suas
espáduas. Por favor?

Ela deu uma série de beijos delicados na nuca dele, agarrando-se a ele com toda a força,
enquanto isso.

— Justin, quem você acha que colocou as drogas no seu armário? Essa é que é a questão, não
é? — Lily falou como se lhe perguntasse se devia despedir um mordomo que furtava.

Afinal, ele se virou. Só duas manchas vermelhas em seus maxilares pontudos e o músculo fino
e comprido se mexendo em sua garganta é que demonstravam alguma emoção.

— Não tenho a menor idéia. — O tom dele era irônico, quase cerimonioso.

— Mas há alguém, algum homem, que pode entrar no seu apartamento quando você não está
lá? — insistiu Maxi.

O rosto dele se contorceu num espasmo de vergonha tão misturado com o sofrimento que os
olhos de Lily se encheram de lágrimas.

— Há. Aquela única palavra pronunciada tão de mansinho ficou pendurada no ar, como um
longo suspiro. Bruscamente, Maxi rompeu o silêncio que ameaçava envolvê-los.

— Você acha que ele agiu assim? — Não, não podia ser. Positivamente. Ele não é assim. É só
um cara que conheci numa sessão de fotos. Mas demos muitas... festas... as pessoas estão
sempre aparecendo... podia ser qualquer pessoa. A mochila estava lá vazia desde a última vez
que cheguei aqui. — A voz dele estava tão vazia que elas sentiram medo.

— Você sabe onde ele está agora? — perguntou Maxi. — Como se chama?

— Ele está fora — disse Justin. — Deve ter sido outra pessoa. E o nome dele não é da conta de
ninguém. Eu me recuso a começar a culpar alguém em quem confio só para provar que sou
inocente. Puxa, como odeio esta cidade!

Maxi e Lily ficaram ali sentadas caladas depois que Justin saiu correndo da sala.

— Obrigada, Maxime. Sem o seu tipo de sinceridade acho que eu não o teria convencido a
dizer coisa alguma. Mas deve ter parecido injusto, nós duas o encurralando assim — disse Lily.
— Não sei por que, mas sinto vergonha não por ele, mas por nós.

— Injusto! Sim, mas só se quiséssemos saber por algum outro motivo que não mantê-lo fora
da cadeia. Mas nessas circunstâncias, não, de jeito nenhum. Mãe, ele deve estar sentindo
certo alívio, agora que
está tudo às claras e ele sabe que nós o amamos como sempre e que não faz diferença. Ele
vem guardando esse segredo sozinho há tempo demais.

— Ah, mas Maxime, você viu a cara dele... parecia... ah, como se quisesse desaparecer, como
se não acreditasse em ninguém ou em nada no mundo, e nunca mais acreditaria. Ele foi
sempre tão só, tão isolado, sempre tão reservado. Passei a vida toda de Justin me
preocupando com ele, mas jamais pude alcançá-lo.

— A culpa não é sua, mãe. Nem minha. Nem do Justin. Apenas existe, e a gente tem de lidar
com o fato. É a realidade e nada a poderia ter mudado.

— Quem me dera poder acreditar — disse Lily, com tristeza. — Mãe, você imagina mesmo que
num determinado dia, quando Justin era menino, você poderia ter dito: ”Querido, quando
você crescer, as únicas pessoas em quem você vai querer tocar são as meninas”, assim como
lhe ensinou boas maneiras à mesa?

Lily sorriu devagar, com relutância, melancólica. — Isso teria sido bom demais, mas que idéia
maravilhosa. Você tem jeito para chegar ao fundo das coisas, Maxime.

— Obrigada, mãe — disse Maxi, quase com malícia. — Agora tenho de ir correndo para o
escritório, mas o que se faz agora? Como podemos ajudar o Justin?

— Vou ligar para o Charlie Salomon e dizer o que o Justin acabou de nos contar. Mas, por
outro lado, ele não contou muita coisa que ajude, ao que eu veja, e depois não seria melhor
não usar isso? Eu tinha tanta esperança de poder omitir essa parte da vida dele aos jornais... o
homem com a chave do apartamento dele, as festas. Se ao menos pudéssemos fazer isso...

— Todos os jornais do país vão publicar a história das drogas, mãe. Mais o Star e Inquirer e as
revistas de notícias. Não sei como podemos impedir que seja uma festa para a imprensa. É só
uma questão de tempo até que descubram o resto do que Justin acabou de nos contar. Não
podemos fazer nada para protegê-lo. Basta uma pista, uma pessoa falar com um repórter. Não
creio que haja muita esperança.

— Pensei... se ele ao menos pudesse conservar um pouco de dignidade. Ele se importa tanto
— disse Lily, séria.

— Não creio que devamos ser otimistas quanto a proteger a vida particular de Justin. O mais
importante é provar a inocência dele, no tráfico de drogas. Afinal, ele é um Amberville, e a
imprensa vai dar um baile, pisoteando a cabeça dele.

Lily suspirou quando Maxi se levantou para sair. As duas se abraçaram, meio sem jeito, porém
com mais carinho do que qualquer delas se lembrava de ter demonstrado em anos. Lily, com
seu gesto de sempre, afastou os cabelos de Maxi da testa da filha.

— Continua errado, hem, mãe? — perguntou Maxi, com ironia. — O seu problema, Maxime, é
que sempre tira conclusões apressadas. Eu só estava pensando como o seu penteado cai bem.
Não seria você de outro jeito, seria?

23
Enquanto Maxi e Lily se despediam, Cutter estava em seu escritório de Wall Street, recebendo
Lewis Oxford, vice-presidente de Assuntos Financeiros das Edições Amberville. Cutter poderia,
com maior facilidade, ter-se instalado numa suíte de escritórios no Edifício Amberville, no
centro, mas achava proveitoso obrigar todos os que trabalhavam nas revistas fazerem o
trajeto para vê-lo, perdendo tempo; e aquilo o mantinha a uma distância útil de alguém que
quisesse falar sobre assuntos secundários.

— Oxford, gostaria que você parasse de fazer isso — disse Cutter, bruscamente.

— Desculpe, Sr. Amberville. Isso me ajuda a refletir — respondeu Lewis Oxford, guardando
com pena o lápis com que estava batendo nos dentes.

— Não há nada para refletir. As ordens de minha mulher estão bem claras.

— Claras, perfeitamente claras. Eu só estava pensando se não seria melhor seguir as instruções
dela num período de seis meses, ou mesmo um ano. Três meses não é muito tempo, e vou ter
de fazer muita movimentação.

— Eu lhe dei três meses, Oxford, e se você não conseguir, vou arranjar quem consiga. Tenho
certeza de que você sabe que é mais misericordioso cortar a cauda de um cão de uma vez do
que aos poucos. Cada uma das revistas Amberville tem uma grossa faixa de gordura no meio e
quero que essa faixa seja cortada, a começar de já. O nosso próximo balancete deve refletir
essa modificação. Nos meus cálculos, pelo menos treze por cento de nossos custos
operacionais podem ser eliminados. Talvez mais. De preferência mais.

Lewis Oxford sacudiu a cabeça. — Continuo a pensar que pode ser um erro agir tão
rapidamente. — Só me interessam os resultados, Oxford. A Sra. Amberville quer

que a qualidade em todas as revistas baixe de nível. Não quero mais papel de 90g para Style...
não precisa parecer com Town & Country para vender bem. Tudo que está sendo impresso em
papel de 63g de agora em diante passa a ser impresso em papel menos encorpado, assim que
acabarem com o papel já em estoque. TV Week vai para papel de jornal mesmo.

— Sim, senhor, Sr. Amberville. — Quanto às vantagens de cada revista, os ordenados do


pessoal, honorários de escritores e de fotos, espero ver resultados significativos. A Sra.
Amberville quer que seja usado cada artigo e ensaio fotográfico existente em estoque. Acabe
com esse estoque, Oxford. Você tem centenas de milhares de dólares em material que está
ficando obsoleto. O que é mais, não serão mais aprovados os honorários de escritores caros.
Esse artigo do Norman Mailer sobre o seriado ”Miami Vice”... pode me dar um bom motivo
por que devemos pagar a Mailer em vez de algum autônomo desconhecido que podemos
obter por um preço menor?

— Tem classe, Sr. Amberville, e pode atrair leitores que normalmente não teríamos.

— Não precisamos de classe numa revista de televisão com sete milhões de leitores. É puro
ego editorial usar escritores de classe.
— Com sua licença, Sr. Amberville, isso não é muito justo. O redator de TV Week acha que
Mailer e outros nomes impressionarão a Madison Avenue. Já encomendou uma série de
anúncios em Adweek e Advertising Age...

— Cancele. Nos próximos três meses a Amberville não vai fazer publicidade. Já estamos aí há
quase quarenta anos e a comunidade publicitária já nos conhece bem. Quero a promoção e
publicidade reduzidas ao mínimo.

— Sim, senhor. — Essas faturas de fotógrafos são loucas, Oxford. Loucas. — É o que todos os
grandes fotógrafos estão ganhando, Sr. Amberville.

— Mande uma comunicação para o editor de cada revista dizendo para deixarem de usar os
fotógrafos que vêm usando há anos. Um dos problemas de nossos editores é que eles vêm
deixando que os fotógrafos façam o trabalho de imaginação que eles mesmos deviam estar
fazendo. Quero que usem fotógrafos novos, os menos caros que encontrem, em especial
mulheres, gente que ganhe muito menos e trabalhe mais. Mais, quero menos vinte por cento
de páginas duplas em cores, que sejam substituídas por preto e branco. Podem ter o mesmo
efeito que a cor, se usadas direito. Quanto aos pagamentos das modelos, estão nos matando.
Sempre que possível, quero que sejam usadas celebridades como modelos... não custam nada.

— Sr. Amberville, tenho de fazer uma objeção. Há um limite para quantas celebridades se
pode usar antes que todas as revistas passem a parecer com People. O Sr. Zachary Amberville
nunca...

— Não estou interessado em repetir o passado, Oxford. Os leitores querem ver celebridades e
vamos dar a eles o que eles querem. Estou muito decepcionado com os nossos lucros no
último trimestre. Tem de subir, Oxford.

— E subirá, Sr. Amberville. — Os anunciantes não darão artigos e ilustrações de graça, se os


produtos deles forem bem divulgados?

— Isso já aconteceu, mas não na Amberville. — Pois faça com que aconteça, Oxford. Eles que
paguem, para variar. E mais uma coisa, olhe só essas notas de despesas de viagens dos nossos
agentes de vendas e publicidade — continuou Cutter. — São um escândalo total. Que cada
representante saiba que estamos vigiando e diga que esperamos uma redução de 35 por cento
nas próximas notas.

— Que diabo, Sr. Amberville, os representantes vivem de suas contas de despesas de viagens...
todo mundo sabe disso.

— Eles estão vivendo bem demais, Oxford. Cada representante que não mudar de vida vai ser
substituído. Não deixe de colocar isso no memorando.

— Mas os agentes têm de manter as relações... — A voz de Lewis Oxford sumiu diante da raiva
que ele viu se formando na cara de Cutter.

— A Amberville não é a porra de um trem da alegria, Oxford! Estou vendo que esses cortes já
vêm com muito atraso. Eu o culpo por ter deixado as coisas chegarem a esse ponto. E, se
prezar o seu emprego, não me venha dizer que era o Sr. Zachary Amberville quem queria as
coisas desse jeito. O meu irmão era um grande editor, Oxford, mas estou vendo que ele não
estava dirigindo a coisa com rédea firme, conforme a Sra. Amberville e eu suspeitávamos. Tem
mais alguma sugestão, Oxford? Ou já cobri tudo?

— Há coisas pequenas, mesas que reservamos nos jantares da indústria das revistas, os
almoços que damos para os grandes anunciantes, coisas assim.

— Isso pode deixar. Não chegam a fazer diferença e quero manter a nossa presença nesse
determinado plano. Não se preocupe, Oxford, depois que os lucros subirem vamos fazer
anúncios e deixar que todos saibam a respeito. Daqui a três meses.

Cutter esperou alguns segundos e Lewis Oxford, achando que a conversa estivesse concluída,
começou a juntar seus papéis, preparando-se para partir.

300

— Mais uma coisa, Oxford. B&B. Quanto estamos perdendo com

ela, por mês?

— Eu precisaria de tempo para dar as cifras exatas, Sr. Amberville. Mas vou mandar todas as
suas diretrizes de redução de despesas para a Srta. Amberville.

— Não, não se incomode. Quanto tempo levará até que B&B se pague, supondo que todos os
números tenham o êxito do primeiro?

— Vários meses, eu acho. Como o senhor sabe, todos os inícios são uma hemorragia de
dinheiro. Mas isso é normal. Depois que estiverem no preto, os lucros devem ser enormes.

— Pare a publicação de B&B, Oxford. — O quê?! — Não compreende o que digo? Cancele,
elimine-a, acabe com ela! Acabou-se B&B, Oxford. Dê instruções à gráfica para não imprimir
mais números. Deixe que todos os credores saibam que serão pagos pelo que lhes é devido no
momento, mas que além disso a Amberville não vai pagar mais nenhuma conta que a Srta.
Amberville assinar. Avise a eles, Oxford. Nem um tostão. E demita todo o pessoal, exceto a
própria Srta. Amberville. Ela não ganha ordenado.

— Mas a revista é um sucesso, Sr. Amberville! A maior história de sucesso desde Cosmo,
P/ayboy ou Life.

— Foi uma experiência bem-sucedida, Oxford. Mas não podemos arcar com os custos no ano
que vem, nem mesmo nos próximos seis meses, se pretendemos elevar os nossos lucros ao
que deveriam ser. Até mesmo você há de concordar que tudo o que economizar em outras
partes será mais do que compensado pelas perdas de B&B.

— Bom, sim, aliás, supus que essas perdas fossem o motivo por que o senhor estivesse
fazendo cortes tão drásticos.

— Nunca suponha, Oxford — disse Cutter, com um sorriso amável, levantando-se para
acompanhar o homem até a porta. — Nunca suponha nada numa empresa privada.
Angelica estava na Quinta Avenida, entre as ruas 56 e 57, apoiando-se desconsolada numa
placa municipal alta, de metal. ”Nem PENSE em Estacionar Aqui”, dizia, acrescentando, para
maior ênfase: ”Zona Vermelha, Multa Mínima de Reboque de $100. Parada Proibida em Todas
as Horas.” Atrás da placa, sentados em volta do chafariz do Steuben Glass Building, estava a
coleção normal de vagabundos, ébrios e turistas, alguns comendo falafel, costeletas de vitela
ou pedaços de galinha empanada dos carrinhos que ficavam postados convenientemente por
ali, outros mergulhando os pés doloridos no chafariz e outros ainda examinando o conteúdo
das sacolas de compras que tinham acabado de encher andando pela avenida. Era uma versão
norte-americana próspera de Calcutá.

301

O local da rigorosa placa proibindo o estacionamento era o lugar favorito de Elie para ficar
sentado na limusine enquanto esperava por Maxi. Ele tinha chegado a um acordo tácito com
os guardas da rua, de ligar o motor e avançar uns centímetros simbólicos sempre que um deles
aparecia. Mas nessa tarde ele se atrasou levando Maxi para casa e Angelica olhava para o
tráfego que passava, com impaciência.

Por fim, a limusine azul e comprida parou e Maxi saltou. — Ah, não — gemeu ela, vendo
Angelica e o New York Post na mão dela, com a história da prisão de Justin. Como é que ela
não pensara na possibilidade de Angelica ver a história no jornal antes de lhe contarem a
respeito? O almoço com Justin e Lily, seguido de algumas horas agitadas no escritório para
compensar o trabalho que ela não fizera de manhã tinham tirado de sua cabeça a idéia da
filha.

— Mãe? — A voz de Angelica estava indistinta, de lágrimas. — Amorzinho, é tudo besteira.


Uma trama gigantesca. O Tio Justin não tem absolutamente nada a ver com o tráfico de
cocaína. Não se preocupe nem por um segundo. Ele está inteiramente inocente — disse Maxi,
depressa.

— Sei que ele está inocente, mãe, pelo amor de Deus, não precisa me dizer isso. Mas como é
que você e a vovó estão sorrindo nessa foto? É isso que quero saber. Como podem ser tão
frias? Parecem duas rainhas da beleza grotescas... A Miss Carolina do Norte e sua linda mãe.
Francamente.

— Como você acha que devíamos aparecer? Assustadas, sofridas, apavoradas?

— Um pouco de calma não faria mal. Quero dizer, afinal, não é pra gente ficar contente com
uma acusação injusta. Pelo menos o Tio Justin se comportou direito... está formidável, duro,
sério, indiferente, igual ao Sting, é, tal e qual o Sting.

— Angelica, acho que você devia pensar seriamente numa carreira nas relações públicas.
Anda, vamos pra casa.

— Posso comer um falafel primeiro? — Vai estragar o seu jantar. Mas coma, se consegue
pronunciar isso, consegue comer. Não estou ligando — disse Maxi, cansada demais para
discutir.
— Você está perdendo a garra — disse Angelica, aliviada — mas isso não me espanta. Hoje
descobri que Cyndi Lauper tem trinta anos. É mais velha do que você, Maxi.

— Um pouco de respeito, por favor. — Vou tentar, mas não vai ser fácil — disse Angelica,
engolindo a última lágrima, aliviada. Cyndi Lauper podia ser mais velha, mas a mãe era... uma
mãe.

302

Rocco abriu o Post, levantou a cabeça de repente e Angelo, o barbeiro do térreo do St. Regis,
que cortava o cabelo de alguns poucos eleitos por quarenta dólares, quase o cortou com a
tesoura, se bem que seus reflexos estivessem bem condicionados às reações extravagantes de
executivos sob tensão.

— Ei, Rocco, quer perder uma orelha? — Tenho de telefonar. Não precisa acabar — disse
Rocco, se levantando e começando a tirar o avental.

— Sente-se! Ainda estou no meio. Não pode sair daqui assim. — Não posso o cacete!
Espanando os cabelos cortados, Rocco subiu a escada correndo. As cabines telefônicas no
saguão estavam todas ocupadas. Ele saiu do hotel correndo e viu que, mesmo que conseguisse
pegar um táxi, não se moveria no trânsito do fim de tarde. Onde conseguiria arranjar um
telefone? Todos os telefones públicos da rua estavam permanentemente enguiçados,
depredados assim que eram consertados. O escritório era longe demais. Angelo! Ele voltou
correndo para o hotel, desceu a escada de três em três degraus e se apossou do telefone
particular de Angelo. O barbeiro, que tinha meios de conseguir para um presidente de
empresa uma reserva impossível no Hotel du Cab, em Antibes, durante a semana mais
movimentada do ano, limitou-se a erguer uma sobrancelha. Apesar dele ser doido, era um
prazer cortar o cabelo de Rocco. Cabelos do Velho Mundo, espessos, crespos, saudáveis,
cabelos de verdade, que deviam durar até ele não precisar mais deles.

— Maxi, acabei de saber sobre o Justin. O que posso fazer para

ajudar?

— Não sei. Mamãe está mobilizando os talentos jurídicos, mas Justin nem tem idéia de como a
cocaína chegou lá. Parece que ele andou recebendo muito... insiste que podia ser uma pessoa
entre uma dúzia. No entanto, disse que um camarada tinha chave para o apartamento dele,
mas insistiu que era uma pessoa que conheceu numa sessão fotográfica, e que não podia ser
ele de jeito nenhum.

— Por quê? — Parece que é uma pessoa perfeita demais — disse Maxi, secamente. — E Justin
se recusa terminantemente a nos dizer o nome desse santo. O que é mais, esse maravilhoso
ser humano está fora.

— Você pode verificar isso? — É exatamente o que eu estou me perguntando. Nas primeiras
fotos de maiô que Justin fez para mim usamos 24 modelos homens. O outro artigo de modas
foi o chamado ”Guarda-roupas de Celebridades ou os Efeitos Positivos da Desordem Criativa”,
e no mês seguinte tivemos Bill Blass mostrando trinta maneiras diferentes de usar os seus
suéteres velhos. Além das fotos de modas, Justin já fez uma porção de outras coisas para nós...
Estou olhando as fotos agora.

— Foram 24 modelos homens? Todos da mesma agência? — Não, Julie os contratou de


quatro agências diferentes, ou talvez até cinco.

— Escute, consiga essas notas. Devem estar aí no seu escritório. Depois me dê, que eu vou dar
uns telefonemas. Aviso se conseguir verificar alguma coisa.

— Vou pegar as notas agora. — Basta amanhã. Tenho de falar com as pessoas nos escritórios,
não é gente que eu possa telefonar para casa.

— Mando entregar bem cedinho. Rocco, olhe, é mesmo extraordinariamente simpático de sua
parte e estou profundamente agradecida - disse Maxi. — Nunca me esquecerei.

— Porra — disse Rocco, sem fazer caso da emoção dela — você sabe que sempre gostei do
Justin. Coitado do sacana. Como é que Angelica reagiu? — perguntou ele, a voz de repente
aflita.

— Do jeito dela. — O que quer dizer? — Se alguém sobreviver a isso, vai ser a minha filha —
disse Maxi, fungando.

— Você não a compreende — disse Rocco — a minha filha é uma menina excepcionalmente
sensível.

— Angelica tem sentimentos mais nobres, que eu não poderia compreender, imagino.

— Exatamente. Provavelmente ela está sofrendo um trauma que você nem sequer
reconheceria, quanto mais trataria.

— Rocco, tive uma idéia. Por que eu não peço ao Elie para levála ao seu apartamento? Você
poderia levá-la para jantar fora hoje e ajudá-la a tratar do choque.

— Ah. Bom. Para dizer a verdade, tenho um compromisso. Claro que Angelica poderia vir
também, eu acho, ou talvez não fosse muito boa idéia. Não, pensando bem, é provável que
não. Angelica vai passar o fim de semana comigo, aí nós conversamos.

— Faça isso. Em todo caso, obrigada, Rocco. Até logo. Maxi desligou de mansinho e procurou
alguma coisa para atirar contra a parede, alguma coisa que certamente se fragmentaria em mil
pedaços e faria um barulho danado. Mas nada de muito precioso. Aquele miserável não valia
isso.

— Sue, aqui fala Rocco Cipriani.

— Ah, olá, Sr. Cipriani. O que é que manda? — disse ela, gorjeando.

— Há uma perguntinha que quero lhe fazer acerca de quatro de seus rapazes — disse Rocco,
com naturalidade. Sue era a melhor contratadora de modelos de sua agência.
— Claro. Qual de nossos rapazes glamourosos lhe interessa? — Já lhe digo. É um assunto meio
delicado, Sue, mas tenho certeza de que você entende que às vezes preciso fazer uma
pergunta... bem, difícil.

— É pra isso que estou aqui — declarou ela, empertigada. Rocco lhe deu os nomes dos rapazes
da agência que tinham estado na sessão de fotos de maiô e acrescentou, como se estivesse
perguntando as medidas do tórax deles:

— Eu gostaria de saber se um ou mais deles usam cocaína. — É uma reclamação, Sr. Cipriani?
— perguntou Sue, depois de uma ligeira pausa.

— Não, Sue, nada disso. Nada para se alarmar. Mas imaginei que se outra pessoa tivesse tido
algum problema com um ou mais dos rapazes, se talvez tivesse havido alguma reclamação,
você haveria de saber antes de qualquer outra pessoa.

— Sr. Cipriani, o senhor sabe tão bem quanto eu que se um modelo toma drogas, não vai durar
muito. Se recebemos muitas queixas, nós o dispensamos. — A voz animada da moça
desaparecera completamente, sendo substituída pela energia que a tornara uma potência na
indústria.

— Claro que sim. Por outro lado, Sue, não é impossível se safar com algumas queixas aqui e ali
quando se é bom mesmo. Um modelo muito requestado pode fazer misérias, inclusive
algumas doses.

— Aqui não — insistiu ela. — Isto aqui não é Hollywood. — O seu pessoal é especial, Sue,
sempre soubemos disso. — A voz de Rocco enfeitou o elogio. — Também quero saber se
algum dos caras sobre os quais estou curioso anda vivendo acima de suas posses, gastando
mais do que ganha.

— Continuo sem entender o que quer saber — disse ela, conseguindo não se mostrar muito na
defensiva.

— Por que não falar assim? — disse Rocco, acalmando-a. — O meu instinto me diz que entre
os modelos masculinos desta cidade há alguns que usam cocaína, são traficantes, ou as duas
coisas. Seja como for, estou realmente necessitado dessa informação.

— Não um modelo desta agência, Sr. Cipriani, de jeito nenhum. — Pode ser que não. Tenho
quase certeza de que tem razão. Mas está havendo alguma coisa. Eu também gostaria de
sugerir que seria do interesse de toda a indústria de agências de modelos que ela se policie.
Considere isso uma ação pré-policial, Sue. Se, por algum motivo, eu não obtiver esses nomes
especiais, acho que a polícia vai sair em campo com toda a força, vasculhando todas as
agências da cidade — disse Rocco. — Aliás, pode contar com isso — acrescentou, com
delicadeza.

— Vou fazer todo o possível para ajudar — disse Sue, assumindo

um tom propositadamente eficiente. — Vou indagar por aí, sem dúvida.


— Certo, faça isso. A propósito, andei verificando os contratos da CL&K com sua agência no
ano passado. Foram quatro mil dólares, não? Não, na verdade, um pouco mais que isso.
Imagine só! Vocês sabem mesmo escolher bem. Até logo, Sue, e se por acaso souber de
alguma coisa que me ajude, deixe-me saber logo, sim?

— Claro, Sr. Cipriani. — Até as três e meia ou quatro da tarde, digamos, aliás, não depois do
horário do expediente hoje. E, Sue, estou mesmo procurando um traficante, não apenas o seu
viciado pequenino. Sei que você é muito esperta para não ter entendido isso, não é? Não
estou nada interessado nos viciados comuns... mas em todo caso, quero os nomes deles, por
via das dúvidas.

— Por via das dúvidas? — Só por via das dúvidas. Um traficante e a quem ele vende. É isso que
eu quero, Sue. E é isso que é bom eu conseguir. Estamos todos igualmente interessados, não
estamos? Você me dá uma notícia qualquer, não dá? — O sorriso na voz de Rocco se acentuou.

— Claro, positivo. Pode contar com isso. De um jeito ou de outro. Ah, e obrigada por me ligar,
Sr. Cipriani.

— É sempre um prazer falar com você — disse Rocco, amável. — Um traficante, Sue, e as
pessoas a quem ele vende.

Rocco passou a manhã dando telefonemas semelhantes às quatro outras agências que
forneceram modelos para a sessão de fotos. Todas faziam muitos negócios com CL&K. Ele
recebeu a mesma série de respostas resolutamente negativas, mas às cinco da tarde tinha uma
lista de nomes mais extensa do que previra, e por trás dos bastidores, em cinco agências,
diversos executivos muito preocupados estavam se consultando. Esse tipo de coisa não devia
estar acontecendo, a não ser em outras agências, eles se diziam. Eles podiam perder os
negócios com CL&K, se fosse preciso, mas nenhum podia se dar ao luxo de um escândalo no
ramo de modelos. Haviam fornecido a Rocco todos os nomes que puderam arrancar dos
modelos masculinos e seus contatos, bem como os nomes de cada modelo de quem eles
próprios desconfiassem vagamente. Mas exatamente o que Cipriani queria dizer com uma
”ação pré-policial”?, eles se perguntaram. E por que ele se mostrara tão amável, ao contrário
do habitual? Tão terrivelmente brando?

Dois dias depois, Rocco ligou para Maxi, no escritório dela.

- Justin está limpo, Maxi. Achei que você gostaria de saber. Retiraram todas as acusações.

— Rocco! Tem certeza? Tem toda a certeza?

— Acabei de receber um telefonema de Charlie Salomon. Ele confirmou tudo.

— O que é que você fez? Como fez? — Ela estava tão empolgada que quase deixou o fone cair.

— Ah, andei indagando por aí. — Rocco, não me deixe maluca. Ah, merda, você é tão
formidável...
— Corta essa, Maxi. Não foi grande coisa. Indaguei nomes, consegui nomes, imaginei quem era
o cara, da sua lista, e dei o nome ao Salomon, mais os nomes de algumas pessoas que
poderiam ter comprado do amigo de Justin, e com quem as agências insistiram... insistiram
muito, para que concordassem em testemunhar contra ele. Nada que um detetive amador não
pudesse fazer, se soubesse onde procurar.

— Você é tão incrível, é o mais maravilhoso... quem foi ele? — Alguma beldade chamada Jon,
traficante relativamente sem importância, que foi apanhado fazendo negócios com gente
muito mais graúda na Flórida. Ele tentou admitir uma culpa menor, pondo a culpa em Justin.
Tinha deixado sua mercadoria na casa de Justin, para azar do seu irmão. Jon não é um cara
muito legal, no fundo. Como diria Angelica, tem um problema maciço de atitude. Em todo
caso, os tiras conseguiram pegá-lo. Um assunto relativamente simples, depois que souberam
quem ele era, ou foi o que entendi.

— Por que será que tenho a impressão de que você não me está contando tudo?

— Você sempre teve uma natureza desconfiada. Uma pena que Justin não tenha. Em todo
caso, é isso aí. Fico contente que esteja resolvido. Adeus, Maxi.

— Rocco, espere! Por favor, não desligue, deixe-me agradecer — pediu Maxi. — Você não tem
a mais leve idéia do que isso significa para mim. Estou... não sei o que dizer... — As palavras
dela saíram se atropelando numa exclamação de graças. Ela parecia quase infantil na sua
imensa alegria e gratidão.

— Ei, deixa disso. Fiz isso pela Angelica e pelo Justin. E por sua mãe, claro. Salomon está
ligando para ela agora. Justin estará no escritório na segunda-feira, para trabalhar
normalmente. Ele pediu para te dizer.

— Quando é que você falou com ele? — perguntou Maxi, sem poder acreditar.

— Há alguns minutos. Achei que ele devia ser o primeiro a receber as boas notícias.

— O que foi que ele disse? — Não muita coisa. Ficou aliviado, claro, porém mais do que tudo,
não queria acreditar que Jon o incriminara. Ele tinha umas ilusões

muito sérias quanto àquele canalha. O seu irmão é um dos últimos grandes românticos.
Portanto, se eu fosse você, não me mostraria toda efervescente e empolgadinha quando ele
aparecer para trabalhar. Procure agir com naturalidade, como se não fosse o fim do mundo, ou
coisa que o valha. Facilite as coisas para o pobre filho da puta.

— Vou fazer o possível — disse Maxi, baixinho. — Procure não ser piegas demais, tá? — Certo,
Rocco. Farei isso. — Maxi procurou alguma coisa bem resistente para esmagar sob os saltos de
10cm de seus novos sapatos de Mario Valentine. — Muito bem, bem feito. A família aprecia os
seus esforços a nosso favor e você receberá um peru na sua cesta de Natal, meu bom rapaz.

Muito bem, pensou Maxi, muito bem, ela provavelmente falara como se ele fosse o Super-
Homem e ela Lois Lane amarrada aos trilhos do trem, talvez ela tivesse deixado que a sua
felicidade se descontrolasse, mas não era normal a pessoa ser grata? Como é que alguém,
mesmo uma pessoa tão dura e rabugenta como Rocco Cipriani, poderia querer que não lhe
agradecessem? Como é que um homem chegava a ser tão desprezível?, ela se perguntou
furiosa, sentada encolhida no meio da cama, o queixo pousado nas mãos dobradas, os
cotovelos sobre os joelhos, sem se mexer, mal-humorada, uma massa sólida de ressentimento.
Ele nunca perdia a oportunidade de fazê-la parecer uma débil mental, mesmo quando estava
praticando uma boa ação. Ele chegara a acusá-la de ser insensível, aconselhando como devia
tratar Justin, como se esperasse que ela fosse desajeitada e pateta. Ele sempre tivera esse jeito
arrogante, aquele veio rígido de pura vaidade de bosta, que o fazia pensar que o modo dele
era o único válido. O problema dele é que julgava ser o centro do universo. Nada lhe
acontecera de fato para fazê-lo entender que ele não passava de uma cara bonita de cabeça
oca que tinha jeito com o lápis. Humildade. Rocco estava precisando aprender a humildade.
Ela pronunciou a palavra em voz alta, saboreando-a, provando a sua doçura. Mas, ao contrário
dele, ela não era uma pessoa mesquinha, tacanha, descontente. Estava contente por ver que o
pai de sua filha se saía bem numa crise. Ele prestara um serviço gigantesco à família Amberville
e seria recompensado por isso, quisesse ou não. Recompensado regiamente, até enjoar!

Alegre de súbito, Maxi pegou o seu bloco amarelo, agora sempre presente, e começou a tomar
notas. Primeiro, um Alfa-Romeo Spider, conversível. O que interessava se ele não conseguisse
encontrar lugar para estacionar, e que um carro assim fosse um convite ao vandalismo? Ela
compraria a cor que houvesse no momento, se bem que preferisse o preto, porque mostrava
logo a poeira. Depois: aquele aparelho de cálices de cristal antigos delicadamente gravados
que ela vira

na James Robinson. Custavam três mil dólares e tinham de ser lavados à mão, de preferência
numa bacia forrada de borracha e enxutos com um cuidado infinito. Provavelmente ele
quebraria todos dentro de seis meses. O que mais? Por que não um conjunto completo de
bagagem de pele de antílope, de Loewe? Os fabricantes de artigos de couro espanhóis tinham
uma loja no andar térreo, e ela vinha cobiçando suas malas de um cinza pálido, de lados moles,
debruadas de bordô, mas, claro, eram muito frágeis para viagens de avião; ficariam estragadas
numa viagem. Só a frasqueira custava quase seiscentos dólares — talvez ele conseguisse
conservar essa com um ar decente, por algum tempo. Ah-ah, já sabia, aquele maravilhoso
serviço de café de prata Art Deco de Puiforcat. E daí, que custasse quarenta mil dólares? Tinha
de ser areado, para ficar bem, como qualquer outra peça de prata. Mas ninguém poderia dizer
que não era uma prova de consideração.

Uma série de cavalos de pólo? Não, resolveu Maxi, com pesar. Só custavam dez mil dólares
cada, mas até mesmo Rocco, sendo pouco sofisticado, veria que não eram adequados. Cavalos
de pólo precisavam de um tratador, cocheiras e rações regulares — ou ela teria de dar
também toda a manutenção ou não daria nada. Em todo caso, ele sabia que ela sabia que ele
não sabia montar. Seria uma delícia dar-lhe um pequeno Learjet 23, mas trezentos mil dólares
parecia um pouco demais para mostrar a sua gratidão eterna. Mas estava faltando alguma
coisa naquela lista. Estava sovina. Que tal duas passagens para um longo cruzeiro pelo Caribe?
Seria uma boa terapia para um maníaco do trabalho como Rocco. Talvez duas, não, três dúzias
daquelas toalhas de banho debruadas de rendas que ela vira em Barney’s da última vez que
fora fazer compras. Bege claro, ou, melhor ainda, branco simples. Não era uma cor
obviamente feminina. Ele devia ser capaz de encontrar uma boa lavanderia em algum lugar, se
procurasse bem. E para mostrar que em seu coração não havia nada senão uma generosidade
sincera, uma caixa de Glenfiddich, o uísque de malte favorito dele. Isso devia deixá-lo bem
confuso, pensou Maxi. O que ela realmente gostaria de dar a ele era um fólio de desenhos de
Leonardo da Vinci. Isso lhe mostraria as dimensões de seu pequeno talento, como nada mais
faria. Mas a rainha da Inglaterra tinha conseguido os melhores e a Biblioteca Morgan possuía
os restantes.

Bateram à porta e Angelica entrou.

— Por que você não está com o seu pai? — perguntou Maxi, espantada. Era o fim de semana
que Angelica devia passar com Rocco. — Não venha me dizer que ele cancelou.

— Não, Maxi, você sabe que ele nunca faria isso. Ele está com um resfriado horrível. Ligou
agora dizendo que tinha certeza de que

era contagioso, estava cheio de micróbios, e para eu perguntar se ele podia trocar o fim de
semana com você.

— Claro que pode — respondeu Maxi. Angelica estava com uma cara ainda mais triste do que
antes. — Você não quer?

— Bem, na verdade, O Bando tinha planejado uma coisa especial para hoje, porque uma
porção dos garotos estão em casa, nas férias da primavera, e eu não queria perder. Quero
dizer, aconteceu este fim de semana, não no próximo, e em todo caso eu queria um pouco de
tempo para mim, sabe, para sair e agitar por aí. Nada de mais, mãe, só curtir por aí com a
minha turma.

— Você faz isso parecer com estupro e saque — disse Maxi, os cabelos se arrepiando em sua
nuca. — Curtir por aí!

— Eu me refiro — disse Angelica, com dignidade — a uma tarde no circo acompanhada de


uma sessão de pizza, ou, como você diria, uma boa diversão com boas moças e rapazes,
inclusive lanche.

— À vontade — disse Maxi, aliviada. Tinha a maior fé no Bando e em suas atividades. Angelica
sumiu saltitante com um grito de alegria, livre dos pais cheios de sentimento de culpa que
dominavam demais sua vida privada para compensar pelo divórcio deles. Eles não sabiam que
todo mundo acaba se divorciando, mais cedo ou mais tarde?

Maxi começou a se vestir para suas compras de gratidão a Rocco. Talvez ele ainda estivesse em
casa doente quando elas fossem entregues. Um resfriado sério podia durar uma semana.
Férias de primavera? Angelica não acabara de falar alguma coisa sobre férias de primavera?
Ela olhou pela janela e viu que a primavera chegara ao Central Park sem aviso prévio, tão
espantosamente da noite para o dia como em Mary Poppins. Um resfriado e férias de
primavera. Por que ela não se dera conta antes? A maligna febre de feno Cipriani atacara e
Rocco, agarrando-se obstinadamente a suas tradições, se recusava a admiti-lo, insistindo,
como fazia todos os anos, que era impossível ele padecer de uma coisa tão efeminada, já que
nenhum Cipriani na história jamais a tivera. Como apanhar febre de feno em Veneza?,
perguntara Maxi um dia, muitos anos antes. Ela achava que a pergunta ainda era válida.

Morrendo de rir ali de pé com sua camisa de cetim lilás, prestes a enfiar uma perna num par
de meias pretas finíssimas bordadas aqui e ali com borboletas, Maxi teve um impulso muito
bondoso, caridoso e de coração aberto. Ela daria um pulo no apartamento de Rocco para
aliviá-lo em seu sofrimento, como uma versão mais categorizada de enfermeira visitadora. Na
verdade, um anjo de misericórdia.

Ela sabia onde Angelica guardava a chave da casa dele e conhecia bem o tratamento para a
febre dos Cipriani. Há coisas que a gente não esquece. A caminho do apartamento de Rocco,
ela pensou naquilo.

Ele morava a apenas três quarteirões de distância, num dúplex em Central Park South, mas ela
nunca se dignara pedir a Angelica para descrevê-lo. Ela se lembrava que Rocco desejava um
lugar monástico, austero e calmo, como se ele fosse um monge japonês. Talvez ele agora já
tivesse dominado a escola de decoração minimalista, subtraindo tudo que tornava uma casa
habitável e gastando todo o dinheiro em detalhes fanáticos, que ninguém jamais notaria. Ou
então ele teria adotado as cadeiras Mackintosh, hediondas e incômodas, e azulejos pretos e
brancos dos anos trinta, que já eram feios desde o início e não tinham melhorado nada com a
idade, a despeito de seu chique Andrée Putman, inexplicável e altamente louvado. Talvez ele
tivesse investido maciçamente em objetos industriais, pedaços de cano de aço e tubos de
neon, e dormisse numa esteira no chão. Por outro lado, tudo isso estava démodé. Talvez a
essa altura ele tivesse adotado a moda Santa Fé Calvin Klein — um pesadelo de Georgia
O’Keeffe, com três pedras significativas no consolo da lareira, cuja disposição mágica nunca
podia ser mudada, paredes de barro em que o reboco podia cair e um cacto perfeito,
morrendo aos poucos. Ou talvez ele apenas vivesse como a metade dos esnobes do desenho
que ela conhecia, com paredes todas brancas e móveis terrivelmente cacetes e caros de Mies
e Breuer, pontilhados pelos obrigatórios Frank Stellas e Roy Lichtensteins. Seria demais
esperar que ele tivesse adotado a madeira compensada e laminada, realmente atroz, dos anos
cinqüenta. Provavelmente, como no caso da maioria dos solteirões, a casa dele devia ser uma
bagunça.

Sem fazer barulho, Maxi usou a chave de Angelica para abrir a porta da frente. O hall de
entrada era uma peça de bom tamanho, que ela olhou com reprovação. Que estranho ele ter
usado um parquete bonito e antigo, encerado de um brilho dourado. Que lugar estranho para
colocar um torso de Vênus de Maillol em tamanho natural, uma presença poderosa e brilhante
que se destacava diante da magia, das ondas de arco-íris dos dois grandes Helen
Frankenthalers nas paredes dianteiras. Nenhum móvel, ela notou, a não ser uma magnífica
mesa estilo Regência encostada numa parede, só curvas e entalhes, e sem dúvida autêntica, a
seus olhos experientes. Bem, não é tão difícil comprar bons objetos de arte quando se tem
dinheiro, pensou ela, fechando a porta de mansinho. E desaprovava teoricamente a escola de
decoração das galerias de arte. Maxi prestou atenção para ver se escutava algum sinal de vida
no apartamento, mas não ouviu nada. Com cuidado, entrou na sala. Bem, Rocco certamente
tinha adquirido um gosto pelo luxo que estava inteiramente em desacordo com seus princípios
arrogantes, um luxo que parecia ser arrumado com uma incongruência divina num velho
estábulo no campo em vez de no Central Park South. O sol jorrava dentro da sala de pé-direito
de dois andares e fazia das paredes, cobertas de madeira, verdadeiras fontes sutis de

informações sobre a beleza que o tempo pode proporcionar à madeira. Sofás fundos, fofos, de
veludo cinza, separados por uma mesa Parsons laqueada de vermelho chinês, davam-se as
costas no centro da sala grande e ficavam de frente para lareiras gêmeas em cada uma das
paredes laterais. Um antigo tecido indiano em tons de marrom, vermelho e coral cobria as
poltronas Regência supremamente elegantes; aqui e ali sobre o piso de tijolos antigos
espalhavam-se tapetes de seda chineses em tons discretos e raros, que refletiam a luz do sol.

Maxi fungou, com o maior desdém possível. A peça mais valiosa na sala era evidentemente a
escultura egípcia que ela dera a Rocco no seu primeiro Natal juntos, uma peça do princípio do
período ptolomaico, uma estátua de ísis de quase 60cm de altura, de quartzito vermelho.
Viam-se todos os detalhes do corpo dela, pois a deusa egípcia usava roupas mais transparentes
do que qualquer criação de Bob Mackie, e a ísis tinha os seios e umbigo mais deliciosos, quase
tão bonitos quanto os dela, mas não possuía cabeça. E a Vênus de Maillol não tinha braços.
Parecia que Rocco não gostava bastante de mulheres para ter uma por ali a quem não faltasse
uma parte de sua anatomia.

Ela deu um salto, ao ouvir um espirro violento, e um sorriso de prazer antecipado curvou sua
boca, apertada no seu exame, transformando-a numa arma perigosa, aquele sorriso especial
que nem mesmo Maxi era suficientemente vaidosa para saber que deixava os homens
alucinados.

Ela subiu devagar para o local do espirro, ouvindo palavrões e alguém assoando o nariz. Ela
sabia que ele estaria todo feio e inchado, como uma caricatura de W.C. Fields.

A porta para o quarto de Rocco estava entreaberta. Ela viu que lá dentro estava quase escuro.
Ele devia ter puxado as cortinas e se enfiado debaixo de todas as cobertas e mantas que
possuía. Homem nenhum jamais ficava tão deprimido com um resfriado quanto Rocco Cipriani.
Bad Dennis Brady os tratava passando da tequila para grogues quentes; Laddie, o Conde de
Kirkgordon, simplesmente ignorava qualquer coisa menor que uma pneumonia. Era o tempo,
explicava. Seus antepassados sempre tinham resfriados, e o que era bom para o Príncipe
Carlos era bom para ele.

Maxi tossiu de leve, para se fazer notar. Não adiantava nada fazê-lo ter uma parada cardíaca
quando tinha ido ali para fazê-lo melhorar.

— Angelica, eu lhe disse para não chegar perto de mim. — Sou eu — disse Maxi,
tranqüilizando-o. — Angelica estava tão preocupada com você que insistiu que eu viesse aqui,
para ver se você não estava precisando de um médico.

— Vá dando o fora — disse ele, rosnando, espirrando propositadamente na direção dela.


Ela só via dele um monte lúgubre de grosseria dickensiana. — Ora, Rocco — disse Maxi,
acalmando-o — você só está se fazendo pior. Não precisa parecer que está às portas da morte
só porque está com um resfriadozinho.

— Pode tripudiar, mas dê o fora da minha casa. — Isso não é meio paranóico? Por que eu
havia de tripudiar sobre o sofrimento de um ser humano? Especialmente o pai de minha filha?
Só vim para tranqüilizar Angelica. No entanto — disse Maxi, animada, abrindo as cortinas — já
que estou aqui, vou fazer o possível para deixá-lo mais aliviado.

— Não quero me aliviar. Quero ficar sozinho! No escuro! — É típico, típico, todo mundo sabe
como os homens adoram sofrer. Aposto que nem tomou uma vitamina C — disse Maxi,
olhando para os ramos gigantescos de forsítias em flor num magnífico jarro Fiorentino sobre a
mesa perto da cama dele. Majólica do Renascimento, se ela não se enganava. Ali estava a
origem de seu resfriado, se bem que ele nunca acreditaria nisso.

— Vitamina C é uma besteira. Nunca foi comprovada — disse Rocco, chiando, enfiando-se
mais debaixo das cobertas e tentando pôr um travesseiro sobre a cabeça.

— Mas a gente não sabe ao certo, sabe? Em todo caso, até você sabe que precisa tomar
líquidos. Vou fazer uma jarra de suco de laranja fresco e deixar aí para você.

— Vá embora. Não tenho laranjas em casa. Fora. Fora! Maxi desapareceu, fechando a porta do
quarto, antes que ele se animasse a expulsá-la fisicamente. Ela levara de casa um saco de
laranjas, já prevendo esse deplorável estado de carência específica. Os homens, ela sabia por
experiência, nunca tinham laranjas à mão. Limões, sim, maçãs às vezes, mas laranjas nunca. Ela
desceu a escada nas pontas dos pés e encontrou a cozinha. Viu logo que era quatro vezes
maior do que a dela e muito mais alegre. Claro, não tinha vista para o World Trade Center,
disse ela consigo enquanto espremia as laranjas, mas possuía um fogão de oito bocas de ferro
forjado muito polido, um piso de mármore travertino, urna imensa mesa de madeira que
parecia Pennsylvania Dutch e uma geladeira de bronze polida cheia de champanha. Ela espiou
no congelador. Como desconfiara, muitas garrafas de vodca, todas geladas naquele estado
grosso e glacial que a faz descer pela garganta como um beijo atirado por um iceberg
simpático. Pensativa, ela acrescentou três quartas partes de uma garrafa A jarra de suco e
provou. Nem se podia dizer que estava ali, devido A doçura da fruta. Ela pôs a jarra na
geladeira para esfriar mais e foi procurar o armário de roupa de cama. Não havia nada que
fizesse um doente se sentir melhor do que lençóis limpos e engomados. Então! India não era a
única pessoa que ela conhecia que fosse tarada em matéria de lençóis. Rocco possuía tudo que
se pudesse comprar de Pratesi, tudo num branco liso com bordas geométricas severas em
marrom escuro, azul-marinho e roxo. Ele se tratava, hem? Pratesi podia ser até mais caro do
que Porthault, se bem que se a pessoa fosse a Milão comprar, a viagem se pagava por si. Ela
pegou milhares de dólares de puro algodão egípcio e voltou para a cozinha a fim de pegar o
suco e um copo grande e voltou para o andar de cima.

Sem fazer barulho, ela abriu a porta. Como ela pensara, ele estava dormindo profundamente.
Maxi enfiou a mão debaixo das cobertas e encontrou o dedão do pé de Rocco. Era a maneira
mais delicada de ser despertado. Ela puxou o dedão dele de leve até ele se mexer, e ficou
puxando até ele sair de baixo do travesseiro.
— Hora do suco — disse ela, gorjeando tão bem quanto Julie Andrews.

— Não posso acreditar — gemeu ele, espirrando ferozmente. Ela lhe deu um lenço de papel
novo e um copo cheio de suco de laranja, segurando-o com uma dignidade impessoal. Ele
bebeu bem e grunhiu alguma coisa que poderia ser tomada como um agradecimento. Ela
serviu outro copo cheio e o pôs na mão dele.

— Você está desidratado. Isso pode ser perigoso — avisou Maxi. — Mais tarde. Largue aí
mesmo. E vá embora. — Vou, mas só depois que você acabar — prometeu ela. Ele bebeu
depressa, para mostrar como estava aflito para ela ir embora, e depois se deitou e fechou os
olhos. Maxi esperou um pouco para a vodca ter seus efeitos calmantes sobre o sistema
nervoso dele.

— Rocco? — Hem? — Está melhor? — Talvez. Um pouco. — Nesse caso, sugiro que tome um
bom banho de chuveiro. Enquanto isso, eu arrumo sua cama.

— Chuveiro? Está maluca? Mudança de temperatura numa hora dessas pode me matar.
Matar.

— Não tome um chuveiro quente, tome na temperatura ambiente. Garanto que fará você se
sentir muito melhor, verdade.

— Tem certeza? — Claro. E lençóis limpos e fresquinhos, lindos... não acha bom? — Não pode
fazer mal. Já que você está aqui. Depois você vai embora? Promete?

— Claro. Mais suco de laranja? — Talvez... experimento mais um copo. Parece que ajuda. Ele
foi andando feliz para o banheiro, levando o copo. Maxi começou a agir. Uma coisa que ela
sabia fazer era arrumar bem uma cama. Ela o ouviu no chuveiro, não cantando, mas tampouco
espirrando. Ela levou a forsítia para o hall, com a pilha de roupa de cama que tirara, e puxou as
cortinas, quase fechando-as.

Dez minutos depois, Rocco apareceu e encontrou o quarto vazio, com luz apenas suficiente
para ele vislumbrar sua cama refeita, a colcha puxada bem para cima, como ele gostava. Com
um suspiro de alívio, ele se atirou entre os lençóis divinos e se espreguiçou, gemendo de
prazer.

— Aiiii! — Ele se levantou de um salto. Seu pé acabara de tocar numa coisa viva.

— Pelo amor de Deus, sou eu — sussurrou Maxi. — Pensei que estivesse vendo. Desculpe.

— O que está fazendo na minha cama? — Devo ter adormecido. É uma cama tão grande de se
arrumar, tão difícil dar a volta.

— Você está nua — disse ele. — Estou? — disse ela, sonolenta. — Hã-hã. — Hum... esquisito, é
mesmo. — Ela bocejou. — Devo ter pensado que estava em casa. Perdão.

—. Não torne a me assustar. Detesto que me assustem. — Claro que sim — murmurou Maxi,
com um ar maternal, puxando a cabeça dele para junto de seus seios maravilhosos, como
frutas aquecidas dos deuses. — Claro que sim, coitadinho, coitadinho do Rocco, é tão horrível
a gente estar resfriado.
— É contagioso — suspirou ele, começando a chupar um dos mamilos dela.

— Não, não se preocupe, eu nunca apanhei seus resfriados. Ela estava beijando o ombro dele,
num ponto especialmente sensível nas costas, onde ele gostava especialmente de ser beijado,
se a memória não lhe falhava.

A memória não falhara. Alegremente, docemente, e em breve irresistivelmente, a memória


servira, acalentada pela dádiva da Rússia ao mundo e auxiliada pelos hábeis lábios e membros
de Maxi, a memória foi gloriosamente celebrada.

Horas depois, ao cair da tarde, Rocco acordou de cabeça leve e uma profunda sensação de
ansiedade. Acontecera alguma coisa. Ele não sabia bem o quê. Não tinha certeza de quando ou
como, mas alguma coisa acontecera. Instintivamente, com um cuidado meticuloso, ele
explorou sua cama. Estava vazia. Alguma coisa continuava errada. Ele acendeu a luz na
mesinha-de-cabeceira e olhou em volta do quarto. Não havia ninguém. Ele se levantou da
cama e escutou os ruídos do apartamento. Viu logo que estava inteiramente só. Por que
estava tão preocupado? Voltou para a cama e olhou para o teto. A memória lhe

voltou. Ah, Deus. Ah, não. Aquela vaca. A memória se revelou mais, dando detalhes. Não uma
vez, nem duas, mas três vezes. Ele sabia. Ela queria matá-lo. Três vezes seguidas. Que idade ela
achava que ele tinha, pombas, quatorze anos? Ela o violara, era o que ela fizera, ou seria
molestação sexual? Seria possível alegar estupro três vezes na mesma tarde? Irritado, ele se
deu conta de que estava rindo como um imbecil. Rocco bateu no travesseiro e voaram plumas.
Típico de Maxi, se aproveitar de um homem doente. Uma vampira, isso que ela era. Ela sabia,
aquela criatura perversa, imperdoável, manipuladora, indizivelmente má, sabia perfeitamente
que, quando pegava um resfriado, ele sempre ficava excitado.

— Então, seu pateta — disse ele, em voz alta para si mesmo — como é que não está
espirrando?

24

— Maxi, pode vir ao meu escritório um instante? — pediu

Monty, agarrando-a pelo braço. — O seu escritório está uma loucura e temos de conversar.

Era de manhã cedo no dia 15 de abril e Maxi terminara a revisão final das provas do número
de setembro de B&B, que iria ao prelo dentro de uma semana. O artigo de Joan Rivers,
chamado ”Eu Gostaria Mesmo de Ser Gorda de Novo... Às Vezes” estava precisando de mais
ilustrações e o artigo de Dan Rather, ”Ninguém Sabe Como Sou Tímido” passara a ser uma
coluna regular, com celebridades concorrendo umas com as outras para expor os pavores de
adolescente que ainda sofriam. ”Essas Mentiras Necessárias: Por Que Você Não Deve Se Sentir
Culpada”, por Billy Graham, tinha provocado tantas cartas de leitores que foi preciso publicar
mais na página das cartas do que qualquer deles previra, e ”Quem me Dera Ser”, o artigo
mensal para setembro, em que Johnny Carson desejava ser Woody Allen e Elizabeth Taylor
desejava ser Brooke Shields estava truncado, de modo que agora dizia que Woody Allen
desejava ser Brooke Shields. Mais perturbador, alguma coisa no ”ritmo” do número que estava
exposto, pregado folha por folha nas paredes de seu escritório, aparecia um tanto irregular aos
olhos de Maxi.

— Não pode ficar para depois do almoço, Monty? — pediu ela. — Isso aqui é urgente.

— Agora, por favor. Quando Monty dizia alguma coisa naquele tom de voz enfaticamente não
alarmado, Maxi já sabia que não devia fazer mais perguntas. Ela foi indo para o gabinete dele,
localizado num canto distante do espaço adicional que ela alugara depois que o primeiro
número se esgotara. No caminho ela passou pelo escritório todo branco de Julie, onde sua
redatora de modas estava encolhida sobre um telefone. Desde que a história ligando Jon e
Justin aparecera nos jornais, Julie procurara evitá-la, mas Maxi percebera sua angústia
disfarçada com orgulho e logo adivinhara o motivo. Ela sentia muita pena de Julie, mas se a
exprimisse estaria demonstrando saber por que a amiga estava tão magoada. Maxi achou
melhor deixá-la em paz um pouco. O tempo acabaria sarando aquilo, pensou, andando pelo
corredor movimentado e respondendo aos cumprimentos. Era um velho chavão, pouco
consolados mesmo, mas acontece que era verdade. Se ela tivesse descoberto que Rocco era
gay quando trabalhava na Savoir Vivre quanto tempo teria levado para se conformar? Seis
meses? Não. Mais. Um ano? Provavelmente mais. O seu devaneio foi interrompido por Monty,
que a fez entrar em seu gabinete, fechou a porta com firmeza e ficou de costas para ela, para
não deixar ninguém entrar.

— Lewis Oxford acabou de me ligar. Deve ter ficado louco, mas parecia são. Disse que estava
nos avisando que a Amberville está liquidando B&B. Todos aqui estão despedidos, até o final
deste dia de trabalho. Ele já ligou para Meredith/Burda avisando que não vai autorizar o
pagamento para a impressão do número de setembro. Está avisando aos nossos fornecedores
que não nos dêem um centavo de crédito. Está agindo por ordens diretas de Cutter
Amberville, que está agindo por sua mãe.

— Ela não permitiria que ele fizesse isso. Ele está enganado, só isso.

Maxi falava com a frieza anestesiada do choque. — Quando é que falou com ela da última vez?
— Na semana passada, quando libertaram Justin. Estamos em termos melhores do que
estávamos há anos. Olhe, Monty, isso é alguma jogada do Cutter. Ele está tentando alguma
tática nova que eu não entendo, até falar com mamãe. Fique aí com esse absurdo até eu ir vê-
la... ela está sempre em casa de manhã. E fique de bico calado, ou coisa que o valha.

— Evidentemente. Mas estou preocupado com a gráfica. Se perdermos tempo nas


impressoras, se já nos substituíram para a semana que vem, não conseguiremos publicar a
revista mesmo que você endireite tudo com ela. Eles vendem o tempo deles com meses de
antecedência.

— Ligue para Mike Muller, o camarada comercial de Burda na gráfica, e diga que eu,
pessoalmente, garanto o pagamento. Eu, Maxime Amberville.

— Pois não — disse Monty, parecendo querer fazer mais perguntas. Maxi saiu depressa do
escritório dele e correu para baixo, onde Elie a esperava.

Ela entrou de supetão na casa de Lily, que estava conferenciando com o chef sobre um jantar.
— Mãe, temos de conversar já, já.

— Maxime, passei o fim de semana tentando falar com você. JeanPhilippe, depois acabo esse
cardápio. Onde estava, Maxime? Estava tão aflita para lhe falar.

— Fora — respondeu Maxime, maquinalmente. — Mãe, Lewis Oxford acabou de telefonar


dizendo que não temos mais crédito, que B&B estava cancelada.

— Ah, meu Deus, era isso mesmo que eu não queria que acontecesse! Aquele idiota do
Oxford! Avisei ao Cutter que antes eu queria ter uma reunião com você, Toby e Justin juntos,
mas evidentemente Oxford não me perguntou se já se tinha realizado.

—- Como assim, ”antes”? Por que quer conversar com nós três? O que tem a ver com B&B?

— Maxime, pare de gritar. Ah, eu queria tanto que isso se desse com ordem, e agora está
estragado.

Lily estava gemendo de aflição. — Mãe, você vai me levar à loucura. De que diabo está
falando? — Entendo que você fique perturbada, meu bem, sabendo da coisa assim. Eu queria
dizer a vocês todos ao mesmo tempo. — Ela parou uns instantes e depois continuou, resolvida:
— Decidi vender as Edições Amberville à United Broadcasting Corporation, e agora foi feito do
pior modo possível. — Lily torceu uma rosa num vaso de prata.

— Mãe! Não me importa a forma em que vem essa decisão! Como pode vender? Eu... não
estou entendendo nada do que está falando. Vender o nosso negócio? Vender o negócio do
papai? Vender a Amberville? É... é... você não pode fazer isso... é... inimaginável.

Maxi sentou-se diante da mãe, as pernas sem forças, o coração desalentado ao ver a
expressão obstinada no rosto de Lily, apenas agitado pelo modo pelo qual tivera de apresentar
a Maxi uma resolução que a filha notava claramente que ela já tomara.

— Ora, Maxime, me escute e pare de falar a primeira coisa que lhe vem à cabeça. Não é nada
inimaginável. Faz muito sentido. Desde que seu pai morreu a companhia ficou sem o fundador.
Continuou a funcionar por impulso, mas esse impulso não pode durar para sempre. A UBC está
interessada em comprar a companhia e Cutter acha que dentro de três meses, quando se
efetuar a venda, o preço chegará perto de... bem, mais ou menos um bilhão de dólares. Essa é
uma oportunidade que talvez nunca mais apareça, e é evidente que temos de aproveitá-la.
Maxime, você e Toby e Justin receberão cada um cem milhões de dólares. Não há meios de
qualquer um de vocês realizar os seus dez por cento a não ser que eu venda, mas não é só por
isso que estou fazendo.

— Mãe... — Não, espere, Maxime, não interrompa sem me ouvir até o fim. Eu não sei dirigir
uma companhia editorial. Cutter não quer a responsabilidade, e não o culpo. Toby,
evidentemente, tem a vida dele, bem como Justin, e se bem que você esteja se divertindo com
sua tentativa de criar uma revista, é claro que não foi feita para dirigir uma grande empresa. Se
a firma algum dia for vendida, a hora é agora, e não depois. Sei que B&B vem tendo um
sucesso bonitinho, mas não pode deixar de reconhecer que está custando uma fortuna à
companhia. Com relutância, Cutter me contou quanto dinheiro B&B perde todos os meses e
fiquei horrorizada. É um brinquedo caro demais até mesmo para você, Maxime, e a UBC vai
comprar a Amberville na base do que Cutter chamou de um balanço muito doente, se B&B
continuar a ser publicada.

— Então foi mesmo por ordem sua que o Oxford telefonou? — Foi, claro, mas eu pretendia
explicar tudo a você antes de algum de vocês saber através dele. Ninguém deve saber da
venda até ela se concretizar, a não ser a família. Estou muito penalizada que você tenha tido
esse choque. Se eu ao menos pudesse ter falado com você no fim de semana...

— Estive fora — repetiu Maxi. — Mãe, não entende que uma revista nova automaticamente
perde dinheiro, por maior que seja seu êxito, até começar a ter bastante receita dos
anunciantes? Eu praticamente dei os anúncios de graça para conseguir deslanchar a revista, e
o preço da impressão de cada número é maior do que o que posso cobrar nas bancas.

— Imagino que fosse esperto de sua parte, se bem que eu não saiba julgar... parece-me que
você assumiu um grande risco propositadamente. Mas isso não vem ao caso, Maxi, e já que a
decisão de vender cabe a mim, já a tomei. Estou sendo orientada por Cutter sobre como tratar
dos assuntos da Amberville até a venda se tornar oficial, e ele está muito inflexível quanto a
parar a publicação de B&B. Sinto muito a sua decepção, meu bem...

— Decepção. — A voz de Maxi estava sem expressão. A diferença entre sua reação e a da mãe
quanto à revista era tão grande que não havia palavras para transpô-la, e nenhuma ênfase de
tom faria alguma diferença. Nada que ela pudesse dizer jamais convenceria a mãe que B&B
não era apenas um brinquedo, e sim o único tributo que podia render a Zachary Amberville e o
grande amor que tivera por ele.

— Bom, sei que você se divertiu bastante e estou muito orgulhosa da vendagem, mas é claro
que você não teria conseguido isso sem usar o dinheiro da companhia, não é? — continuou
Lily.

— Não, para dizer a verdade, não poderia. De jeito nenhum — reconheceu Maxi.

— Então, você entende, não? Não é como uma revista de verdade, é, meu bem? É subsidiada,
não está pagando seus custos.

— Não, está enganada, mãe. É uma revista de verdade. Milhões

de mulheres pagam um dólar e meio por ela todos os meses. Tenho uma equipe fantástica
trabalhando que nem uns doidos. B&B existe, está crescendo loucamente, o número de
setembro tem 305 páginas, está cheio de anúncios, fotos e artigos, e recebemos milhares de
cartas dos leitores. É tão verdadeira quanto qualquer outra revista, apenas é jovem — disse
Maxi, com paixão.

Lily riu, indulgente. — Maxime, Maxime, fico contente em vê-la ficar firme com alguma coisa
por tanto tempo, e se seu pai estivesse vivo ficaria encantado, mas você deve aceitar a
realidade da venda da Amberville. É no interesse de nós todos.
— Mãe, escute. Se antes que a venda se concretize eu puder lhe mostrar que a Amberville não
está perdendo dinheiro por causa de B&B, se a companhia valer tanto quanto valeria sem B&B,
você reconsideraria a sua decisão de vender? — perguntou Maxi, com calma.

— Em primeiro lugar, você não sabe o que Justin e Toby vão achar. Já lhe disse o que eu e
Cutter achamos. Não, Maxime, não posso prometer reconsiderar.

— E se eu não pedir que me ”prometa” reconsiderar? E se, antes de expirados os três meses,
eu vier procurá-la e pedir para tornar a pensar a respeito... — pediu Maxi, implorando.

— Acho que a resposta ainda será não, querida, mas, claro, sempre pode vir pedir — disse Lily,
com brandura. Achava difícil recusar positivamente aquilo a Maxime, quando ela sentia tanto e
estava sendo tão razoável. Não havia mal em deixar que ela tornasse a ”pedir”, já que era
evidente que não poderia realizar o impossível e publicar sem dinheiro. E se ela não insistisse
para a filha aceitar sua decisão nesse momento, a entrevista perturbadora acabaria tão mais
depressa e agradavelmente. Ela teria tempo de acabar de planejar o cardápio antes do almoço.

— Para onde vai agora, Srta.? — perguntou Elie.

— Edifício Amberville — respondeu Maxi. Tinha de falar com Pavka. Era a única pessoa a quem
ela poderia pedir conselhos. Nos escritórios de B&B todos estariam procurando que ela os
orientasse, mas ela mesma estava precisando de auxílio, como nunca precisara na vida. Ela
torceu para ele estar no escritório, e não num daqueles almoços demorados, aos quais .o
mundo editorial era mais dado ainda do que Hollywood. Tinha de conversar com Pavka antes
de ir falar com seus contadores para que conseguissem o dinheiro que manteria B&B em
funcionamento.

— Ele está? — ela perguntou à secretária de Pavka, ansiosa, parando de correr diante da mesa
dela.

— Está no escritório do seu pai — respondeu a secretária e Maxi notou que ela estava
intrigada. — Está lá há meia hora e pediu para não ser interrompido. Mas claro que a recebe...
talvez, se eu bater...

Maxi se fora antes mesmo que ela conseguisse se levantar, dirigindo-se quase correndo pelo
corredor para a porta do escritório, que ninguém usara ou modificara desde a morte de
Zachary Amberville.

— Pavka? — falou ela, baixinho. Ele estava de costas para ela, de pé junto a uma das janelas, a
cabeça baixa, apoiado no peitoril com as duas mãos, numa pose em que ela nunca o vira, uma
pose de um desalento total. Ele se virou e Maxi viu que desaparecera a expressão alerta,
divertida, de dândi, que estava acostumada a ver na fisionomia dele. Em vez disso,
apresentava uma seriedade parecida com a dela e uma coisa que ela reconheceu como um
pesar profundo. No entanto, ele ainda não podia saber da proposta de venda. Lily dissera que,
por enquanto, só a família ia saber.

— Você também deve ter recebido um desses — disse Pavka, estendendo uma folha de papel,
sem sequer cumprimentá-la.
— Não, ninguém me mandou nada... não por escrito, em todo caso. Não vai me dar um beijo?

— Um beijo? — perguntou ele, distraído. — Não a beijei? Ele a beijou de leve, em nada
parecido com o beijo que costumava dar, tradicionalmente carinhoso; e pela primeira vez,
desde que fora ver Lily, Maxi sentiu um pavor de verdade.

— Leia isso — disse ele, entregando-lhe o memorando do escritório do vice-presidente para


Assuntos Financeiros. Continha a relação de todas as modificações e cortes que Cutter indicara
a Oxford. Tinham sido enviadas cópias a todos os editores e diretores de arte de todas as seis
publicações Amberville. Maxi leu calada. Não se falava nada da venda da companhia. —
Pretendo me demitir — disse ele, abruptamente. — Não tenho o poder de impedir essas
medidas, mas me recuso a ter o meu nome associado a elas; usar os escritores e fotógrafos
mais baratos que pudermos encontrar; reduzir o número das páginas coloridas; só usar
celebridades como modelos; conseguir páginas editoriais dos anunciantes por anúncios; usar
papel inferior e usar tudo em estoque, inclusive os muitos projetos que não satisfizeram aos
nossos padrões. Esse memorando é vil, Max, é vil! — Ele estava tremendo de raiva e
frustração.

— Pavka, por favor, sente-se e fale comigo — implorou Maxi, B&B esquecida diante da
enormidade do que ela acabava de ler. Os dois afundaram nas poltronas de couro gastas,
diante da mesa de Zachary Amberville e se calaram. A despeito de sua zanga e preocupação,
assim que pararam de falar, eles se deram conta de que ainda estava acontecendo alguma
coisa no escritório. Eles o sentiram logo. Alguma atividade continuava dentro da sala
independente de uma presença humana, uma coisa viva, poderosa e alegre, impressa nas
próprias paredes; uma recordação sensorial de Zachary Amberville pairava no ar, tão robusta e
entusiástica como ele fora da última vez em que o tinham visto. Pavka e Maxi respiraram
fundo e pela primeira vez sorriram. Continuaram sem falar nada, olhando ao redor da sala
grande de lambris, sempre em desordem, as paredes cobertas por originais de algumas das
capas e ilustrações famosas que ele publicara através dos anos e, aqui e ali, fotos assinadas de
presidentes dos Estados Unidos, de escritores, fotógrafos e ilustradores. Não havia nenhuma
foto do próprio Zachary Amberville, mas a memória de sua voz empolgada, divertida, vibrante
e viva parecia ressoar na sala, a sua avidez pela excelência, sua gargalhada, seu rugido de
aprovação quando um companheiro fazia uma boa sugestão, o despejar de sua energia, ardor
e fervor concentrados em cada número de cada revista que ele já publicara, nada disso
morrera.

— Pavka — disse Maxi — estou certa ao pensar que o preço pago por uma companhia se
baseia sobre o lucro que está tendo no momento da venda?

— Normalmente, sim. Por que pergunta? — Se —- continuou Maxi, sem responder à pergunta
dele — você se demitisse, mas as revistas continuassem a ser publicadas, incorporando todas
as modificações que Oxford mandou, quando é que as economias mostrariam um lucro?

— No próximo balanço, daqui a três meses. Mas, Maxi, isso não vem ao caso. As revistas
seriam mais baratas para a produção, mas nunca seriam as mesmas. Saberíamos logo,
trabalhando nos novos números, e com o tempo os nossos leitores veriam a diferença, por
mais astuciosamente que fosse feito. Poderiam não saber dizer exatamente o que estava
errado com Seven Days, Indoors ou as outras, mas não aguardariam um novo número com a
mesma ansiedade, não as leriam com a mesma satisfação e por fim, depois de um ano mais ou
menos, ou as aceitariam em seu estado diminuído e depreciado... como tanta coisa é mesmo
aceita pelos consumidores... ou deixariam simplesmente de comprá-las. Nunca nos
conformamos com menos do nosso mais alto grau de excelência, mas esse memorando pega a
idéia da excelência e cospe nela.

— Minha mãe pretende vender as Edições Amberville baseada nos lucros que aparecerem no
próximo balanço — disse Maxi, sem expressão. — Ah. — Havia um mundo de tristeza e
desilusão no suspiro dele. — Então, está explicado. Eu já devia ter adivinhado. Que idiota,

não ter pensado nisso. É a única explicação possível para destruir o que o seu pai
representava. No entanto, me admira que ela o faça desse modo. As revistas poderiam ser
vendidas como estão, intactas, altivas. Não haveria vergonha então em vender, se é o que ela
resolveu fazer.

— Mas menos dinheiro? — Ah, sim, menos, sem dúvida, menos, mas ainda o suficiente para
qualquer família até o final dos tempos — disse ele, com amargura. — Ela terá a minha
demissão dentro de uma hora. Prevejo que muitos outros também vão se demitir. Vim aqui
para fugir aos seus telefonemas indignados. Eles não se dão conta de que nem eu posso lutar
contra isso. Em breve os editores que conheceram o seu pai melhor e há mais tempo, as
pessoas-chaves, verão que não querem participar disso, se é que ainda não tomaram essa
decisão. Além disso, já conhecem bastante do negócio para saber que inevitavelmente estarão
despedidos logo depois da venda. Os novos donos hão de modificar as revistas para atender a
suas necessidades, colocar gente deles. Dentro de alguns anos você nem saberá que esse
grupo de revistas um dia foi das Edições Amberville, se bem que as revistas provavelmente
continuem a ter os mesmos nomes. É só isso que está sendo vendido: marcas.

— Como pode ter tanta certeza de que os novos donos não vão querer conservar as pessoas
que fizeram a fama das revistas?

— Ah, Maxi, talvez tentem, afinal. Talvez sejam sabidos. Mas bons editores têm de gastar
dinheiro, e esse memorando torna isso impossível. Quando uma companhia criada por um
homem é vendida, o coração sai dela, a alma, se quiser, o espírito do fundador, a visão
daquele único homem não pode ser conservada. Olha, bem aqui, com esse memorando, já
começou. Estou assombrado com a sua mãe, Maxi, assombrado. Enquanto a Amberville vivia,
o seu pai também vivia.

Ele sacudiu a cabeça com algo muito mais profundo do que o pesar, pensando nos corações
animados e grandes planos com que ele e Zachary Amberville tinham embarcado na sua
aventura editorial, quase quarenta anos antes.

Maxi se levantou devagar e foi até a mesa do pai, sentando-se na cadeira que ninguém jamais
usara a não ser ele. Revirou na cabeça tudo o que a mãe dissera. O futuro de B&B era apenas
uma parte pequena do quebra-cabeça. O que estava acontecendo era o desmembramento
propositado da realização de Zachary Amberville, uma realização que continuara após sua
morte, que vivera e prosperara por um ano e poderia perdurar indefinidamente, com o grupo
de pessoas fiéis que ele juntara ao seu redor, até um futuro distante. Seis revistas
imensamente prósperas e poderosas seriam aviltadas, degradadas e depois vendidas, sem um
propósito necessário. Uma vida toda estava sendo destruída, a vida do seu pai. Os dividendos
das Edições Amberville tinham

sustentado sua família com luxo até aquele momento, e o fariam enquanto as pessoas
soubessem ler.

Cutter. Só havia uma pessoa cujos interesses poderiam ser atendidos destruindo o
monumento à memória de seu pai, que era a Amberville. Cutter. Tudo que Maxi sabia ou
observara sobre Cutter, tudo que sentia, tudo que seus instintos lhe diziam, tudo que ela, Toby
e Justin tinham sentido quanto a esse irmão mais moço que se casara com a mãe deles, tudo
se juntou numa nuvem e a nuvem começou a tomar forma, a se solidificar sob a forma de um
grande ódio. Uma grande inveja. Uma inveja tão potente quanto o ódio. Primeiro ele tomara a
mulher do irmão. Depois estrangulara as novas criações de Zachary Amberville, aquelas três
revistas que ainda não tinham entrado em forma. E agora estava sugando as entranhas dos
gigantes fortes e vendendo-os o mais depressa que podia. Somente a inveja explicaria seus
atos, só a morte de Zachary lhe dera a oportunidade, primeiro de mutilar e depois trair a obra
de uma vida que ele nunca conseguiria igualar.

Ela não ia permitir que o fizesse. — Pavka, por favor, não se demita — disse Maxi. — Por favor,
por mim, não se demita. Vou lutar contra essa venda. Acho que consigo influenciar minha mãe
para não fazê-lo. Se você conseguir acalmar a todos e fazer com que trabalhem nos próximos
meses, fazendo essas mudanças infernais o mais lentamente, com a maior imaginação e
humanidade possíveis, aparando aqui e ali mas não o suficiente para comprometer
gravemente os números de outubro e novembro, arrastando os calcanhares em tudo mesmo,
obrigando Oxford a esmiuçar o mínimo detalhe, encomendando artigos e fotos das melhores
pessoas que conhece, como antes. Se conseguir fazer tudo isso, Pavka, vou lutar contra Cutter.

— Cutter? — Nada disso começou como idéia de minha mãe, Pavka. Foi Cutter quem a levou a
isso, eu lhe garanto. Nada teria acontecido sem a influência dele.

Pavka se aproximou da mesa e examinou Maxi, sério, sem o tom de flerte e encanto mútuo
que sempre dera colorido ao relacionamento deles. Lá estava ela sentada, onde ele nunca vira
ninguém a não ser Zachary Amberville, com uma descontração inconsciente, uma segurança,
um direito de posse. Ele não ousaria usar aquela cadeira, e no entanto Maxi se apossara dela
inconscientemente. E ela falava com uma firmeza, uma esperteza, um propósito frio, uma
concatenação de forças que ele nunca sonhara que ela tivesse em si. Aquela não era a menina
que ele observara por tanto tempo, correndo atrás do prazer, vivendo como se sua vida fosse
um saco gigantesco de pirulitos coloridos, cada um dos quais ela lambia antes de descartá-lo
por outro. Ele

vira Maxi raramente desde a volta dela, pensou, e nos meses decorridos desde aquela
chocante reunião de conselho, ela mudara profundamente. Ela não envelhecera, pensou ele,
não, não era essa a palavra. Ela ficara adulta. Maxi Amberville se tornara uma mulher.
— Por que vai lutar contra Cutter? Se deixar as coisas como estão, a única coisa que vai lhe
acontecer é que ficará mais rica — disse Pavka, e em seu tom havia uma advertência. Maxi,
mesmo adulta, ainda não era rival para Cutter, que tinha domínio sobre Lily. — Sei que você o
detesta, mas isso não é motivo para se empenhar numa luta de corporações.

— Não é uma vendeta pessoal, Pavka. Estou fazendo isso pelo meu pai — disse ela com
simplicidade. — Estou fazendo isso porque o amei mais do que qualquer pessoa no mundo, e
esse é o único meio de mostrar o que ele significava... o quanto ele significa... para mim.

— Nesse caso, meu bem, farei o que puder. Pelo meu amigo, o seu pai.

Maxi ligara para seus contadores do escritório de Pavka e marcara um encontro com Lester
Maypole, de Maypole e Maypole, que tinha sido seu contador pessoal nos tempos em que ela
começara a poder gastar o dinheiro de seu fundo pessoal. No percurso para o centro, Maxi
pensou em dinheiro. Não era um assunto em que ela normalmente perdesse muito tempo. Era
conhecido como um de seus sentidos, considerado natural como o tato ou olfato. A mãe falara
sobre cem milhões de dólares, mas Maxi não via por que, quando sempre tivera tudo o que
desejara, havia de se interessar por uma soma assim, impossível de entender. Só criaria
problemas. No momento, ela era rica, do mesmo modo que tinha dez dedos nas mãos e dez
nos pés. Ter cem milhões de dólares seria como ter duas cabeças.

Ela nascera rica, refletiu enquanto a limusine corria no meio do tráfego como uma serpente
comprida, azul, e se criara rica; e quando fora pobre, ou vivendo como se fosse pobre, durante
o período em que ela e Rocco estavam casados, não gostara nada, de modo que simplesmente
dera um jeito de deixar de ser pobre. Fora o mesmo que tirar um par de sapatos novos e
desconfortáveis, suportados durante uma caminhada necessária; ela saíra da pobreza e voltara
ao conforto e riqueza que estavam ali às suas ordens. Claro, a passagem por um casamento
precoce e a maternidade precoce a impediram de ficar presa no mundo da moça rica: a tolice
das debutantes e os caça-dotes; ou então a solução óbvia de um casamento sólido com
alguma pessoa adequada, acompanhada pela aquisição de casas de campo, cães e cavalos. Em
vez disso, ela imaginava ter caído na categoria que os filmes de fim de noite chamariam de
”herdeira doidivanas”. B&B lhe ensinara o que custava fazer o orçamento de uma revista, mas
não influíra em seus hábitos de gastos particulares. Inúmeras ’ pessoas dos escritórios de
Lester Maypole pagavam suas contas, e como não tivera queixas deles, só podia supor que
havia mais que suficiente para sustentar o seu tipo de vida: pagar a manutenção do
apartamento; as viagens, as empregadas que cozinhavam, lavavam, limpavam e dirigiam; a
garagem; os banqueteiros que serviam as festas; os floristas que mandavam flores duas vezes
por semana para todas as peças do apartamento; as roupas que ela usava na estação e que
estavam na moda e depois eram substituídas; bugigangas e jóias que não tivera tempo de
comprar desde que começara com B&B. E depois, havia Angelica. Rocco pagava a metade das
roupas e escola da filha porque insistia nisso, de modo que Angelica, na verdade, era das
coisas menos caras de sua vida, em algum lugar entre a alimentação e as flores, tão mais
necessária do que uma e tão mais bonita do que as outras. Claro, havia suas coleções,
lembrou-se Maxi. As antigüidades, as caixinhas preciosas, a prata antiga — eram tantas
coleções que tiveram de ser guardadas num depósito quando ela se mudou da antiga casa na
cidade, na Rua 60 Leste, para Trump Tower.
O que é que seus contadores faziam com todo o dinheiro que ela recebia e não gastava?,
perguntou-se Maxi. Eles o investiam em ações e títulos? Arriscavam no mercado de capitais ou
compravam os títulos mais seguros? Maxi não tinha cabeça para tal assunto e não precisava se
obrigar a se interessar por ele. Era para isso que pagava a Maypole. Mas era de supor que
tivesse rios de dinheiro. E quem tinha dinheiro sempre arranjava mais, todo mundo sabia
disso.

Lester Maypole olhou para Maxi como se ela fosse um cruzamento entre uma sereia e um
hipogrifo, uma criatura mitológica que se materializara em seu escritório com uma lista de
perguntas que seriam perfeitamente razoáveis se não fosse por um fato: Maxime Amberville
sempre vivera de suas rendas imensas, de seus fundos e de seus dividendos da Amberville.
Não além, mas exatamente dentro dos limites. E parecia não compreender esse fato, que
estava escrito em letras graúdas no final de todos os extratos mensais que eles lhe mandavam.

— Mas o senhor nunca me avisou, Sr. Maypole — protestou Maxi, sem poder acreditar,
começando a se zangar.

— Srta. Amberville, somos contadores, não guardiães. Apenas recebemos seu dinheiro e
pagamos suas contas. Nunca houve motivo para pensarmos que não soubesse que estava
gastando até os limites, contanto que não os excedesse. A senhorita nunca demonstrou
interesse pelos investimentos, do contrário lhe teríamos dito que não tinha nenhum. Os seus
objetos de arte, seu apartamento e suas jóias são todos bens do ativo, claro, mas quanto ao
resto... — Ele fez um gesto expressivo.

— Eu pus tudo fora. — Ora, não seja tão severa. Afinal, a senhorita gastou quase três milhões
para reformar o Castelo de Kirkgordon...

- Laddie Kirkgordon já tinha vendido quase tudo menos a cama dele para pagar os impostos de
transmissão... parecia o mínimo que eu poderia fazer... e não havia aquecimento central, nada
mesmo — explicou Maxi, relembrando aqueles anos frenéticos, de títulos de nobreza.

— E depois, em Monte Carlo, roubaram seu colar de pérolas... duas vezes. Eram duplos, e
valiam quase novecentos mil dólares e a senhorita não tinha seguro. Nas duas ocasiões a
senhorita substituiu as pérolas.

— Não foi propriamente em Monte Carlo. A polícia lá é muito eficiente. Foram os piratas em
alto-mar... ou pelo menos foi o que me pareceram. Não consegui fazer seguro, Sr. Maypole.
Qualquer esposa de Bad Dennis Brady, mesmo por curto prazo, era considerada um alto risco
para seguros e por bons motivos; mas as moças têm de ter seu colar de pérolas do casamento
— disse Maxi, indignada. Nem que fossem brilhantes!

— Além disso, a senhorita está na faixa mais alta de impostos, faz grandes contribuições de
caridade e já perdeu várias pequenas fortunas nos cassinos. — Ele tossiu, quase que em
reprovação.

— É tão divertido jogar, mas ninguém com juízo espera ganhar — explicou Maxi.

— Era mais ou menos isso que eu queria dizer — disse Lester Maypole com calma.
— Foi-se tudo? — Eu não diria isso. A senhorita é uma moça muito rica. Possui dez por cento
de uma grande firma. Por que não há de gastar seu dinheiro livremente?

— Joguei tudo fora — repetiu Maxi, furiosa. — A senhora poderia ter empregado alguém
especializado em administração de bens...

— Mas agora é tarde, não é? — Para o passado, receio que sim, mas na sua conta há o
suficiente para mantê-la até que os próximos dividendos sejam distribuídos em junho, a não
ser que tenha acabado de comprar alguma coisa de que eu não saiba.

— Quanto vão ser os dividendos? — perguntou ela, recuperando as esperanças de repente.

— Isso depende de sua mãe. A acionista majoritária de qualquer companhia declara os


dividendos como lhe aprouver.

— Gostaria de apostar sobre os dividendos deste ano, Sr. Maypole? Deixa pra lá. E os meus dez
por cento da Amberville? Queria tomar emprestado sobre eles, ao máximo.

— As ações só podem ser vendidas para a sua mãe — disse Lester Maypole. Certamente ela
devia saber disso, pelo menos.

— Continuam a ser ações — argumentou Maxi, furiosa. Parecia que Maypole a estava
torturando por prazer.

— Não pode tomar nada emprestado sobre isso, Srta. Amberville. Nem um centavo.

— Quer dizer que é como se nem existisse? Não conta? — Srta. Ambervilie, por favor, não
fique tão aborrecida. Existe, conta, pertence à senhorita. Só não pode tomar emprestado
sobre isso, porque não pode vender para uma pessoa de fora.

—- Está dizendo que não tenho dinheiro. — Poderia dizer isso, no momento. Sim, suponho que
não tenha, digamos, dinheiro em caixa.

— Obrigada, Sr. Maypole. Maxi desapareceu como um raio caindo perto demais, deixando
Lester Maypole suando, alarmado. Ela parecia não entender a diferença entre dinheiro e
dinheiro em caixa, e ele, uma vez na vida, parecia estar perdido também. Olhou na carteira.
Tinha 24 dólares. Tocou a campainha chamando a secretária.

— Linda — disse, o coração ridiculamente disparado — pegue a minha pasta de investimentos,


já. E depois leve um cheque ao banco. Não, só quero um pouco de dinheiro em notas de cinco.
E vá ligeiro.

Maxi abriu caminho no meio da multidão que ouvia um pianista e um violinista tocando Alice
Blue Gown no saguão da Trump Tower. Nem reparou na cascata de 24cm que estava
funcionando na maior das três velocidades, nem nas paredes e piso de mármore Breccia
Perniche cor de camarão e de manga, nem olhou para as palmeiras viçosas e os namorados se
beijando nas escadas rolantes. Pegou o primeiro elevador à direita e foi direto para a grande
suíte de escritórios de onde o prédio era administrado.
— Louise — perguntou ela à loura simpática que era vicepresidente da Trump — posso
penhorar o meu apartamento?

Louise Sunshine não pareceu se espantar. Depois de anos trabalhando com Donald Trump,
inquieto, imprevisível, tinha ficado imune a qualquer choque.

— O Conselho Residencial não gosta de hipotecas nos apartamentos, Maxi, O que é que há,
garota, quer comprar o Pentágono?

— Mais ou menos. Donald pode falar comigo? — Com você, sempre. Deixe ver se ele não está
no telefone. Maxi esperou, impaciente, mas seu coração se contraiu ao olhar

pela janela. Lá, mas a uma altura muito menor do que do seu 63? andar, estava a vista que ela
amava tão intensamente; a vista inventada para levar as pessoas a extremos de adoração ou
ódio, uma vista de uma cidade que todo mundo considerava pessoalmente, como uma
afronta, um desafio ou uma coisa para com a qual fosse uma virtude ser indiferente. Nova York
nunca era apenas uma cidade, era um lugar que pertencia à pessoa, ou tinha de ser expulsa de
seu consciente. E de nenhum outro lugar a cidade podia ser tão pungentemente bela, tão
verdadeiramente o sonho e não a realidade.

— Pode entrar — disse Louise Sunshine, causando-lhe um sobressalto.

Donald Trump, o brilhante e ambicioso corretor de imóveis que mesmo os inimigos


reconheciam ser simples a ponto de desarmar as pessoas, levantou-se para cumprimentar
Maxi.

— Oi, beleza, qual é o problema? — Preciso de dinheiro, e depressa. — Isso acontece nas
melhores famílias — disse ele, rindo. — Pode vender o meu apartamento, Donald? Esta
semana? — Espere aí, Maxi, tem certeza de que quer fazer isso? — De repente ele ficou muito
sério. — Tenho sempre uma lista de espera para o seu apartamento... depois do meu, é o
maior em toda a torre, mas depois que ele se for, foi-se para sempre. E nunca mais haverá
outro bom como ele. É um ”L” e um ”H” juntos... quase 370 metros quadrados.

Ele estava sinceramente interessado. Havia certa movimentação nos apartamentos do prédio,
mas em geral era dos que tinham sido comprados especificamente como investimento. Maxi,
que adorava o apartamento dela como Donald adorava o dele, como parte dela, uma extensão
de sua capacidade de viver, nunca venderia a não ser que estivesse com problemas graves e
não tivesse mais nada a sacrificar.

— Pode me prometer que recebo o dinheiro esta semana? — Maxi, de quanto dinheiro você
precisa, exatamente? Talvez haja outro meio...

— Não sei a quantia exata, um mínimo de seis milhões de dólares... provavelmente mais.

— Tudo isso? E já? — Ele pensou um instante e depois disse: — Não, não há outro jeito. Olhe,
vou levar um pouco de tempo para fazer o melhor negócio para você, mas se quiser me
entregar o apartamento, eu lhe dou um cheque de seis milhões. Depois, se conseguir vender
por mais, e espero poder, eu lhe dou o resto quando fechar o negócio.
— Onde é que eu assino? — perguntou Maxi. — Só espero que valha a pena, seja o que for —
disse ele, sacudindo a cabeça e pegando o talão de cheques da gaveta da mesa.

— Vale a pena tentar, Donald, mesmo que eu não vença. Me dá a sua caneta, porra. E me dá
um lenço de papel.

25

Um dia Maxi se encontrara, depois de duas horas de olhar intensamente, na extremidade do


grande segundo andar do Louvre, a galeria de quadros mais comprida do mundo. Ela sabia que
se visse mais uma obra-prima nunca mais havia de querer entrar em outro museu, e no
entanto 320 m a separavam da saída. Ela resolvera o problema percorrendo a galeria de volta
o mais depressa que lhe permitiram seus pés cansados, a cabeça abaixada de modo que só
pudesse ver o piso. Nem mesmo a borda de uma moldura penetrou em sua visão periférica e
ela conseguiu chegar à Vitória Alada e, pela escada de mármore, à saída, sem atropelos.

Foi desse modo que ela passou por seu apartamento, seu exapartamento, indo direto para o
telefone ao lado da cama, que continuava a ser sua cama, e providenciou para que um perito
de Sotheby fosse lá o mais depressa possível para fazer um inventário de todos os objetos de
valor que possuía, inclusive os que estavam no depósito, levando-os a leilão o mais depressa
possível. Agora, pensou, desligando, ela estava sentada na sua ex-cama, pois a lit à la Polonaise
entalhada e dourada, do século XVIII, com seu tufo de seda bordada original, em forma de
coroa, daria um bom preço. Estaria sentada no seu ex-colchão? Era provável, pensou, não
tendo certeza se já tinha visto em leilão um colchão com a cama a que pertencia. Era melhor
não saber.

— Maxi? Onde está você? — ela ouviu uma voz chamar. — Estou aqui no quarto — respondeu,
de repente não conseguindo dizer ”meu quarto”.

Angelica, corada com as aventuras do dia, apareceu à porta. — Já abraçou uma mãe hoje? —
perguntou Maxi, numa vozinha fina.

— Você não está com cara de quem precisa de um abraço — comentou Angelica,
aproximando-se dela com cuidado. — Parece que

está precisando de um tratamento intensivo. Talvez uma transfusão de sangue. Anda


trabalhando demais.

— Experimente um abraço — aconselhou Maxi. Angelica a envolveu no seu abraço forte e


atlético, levantou-a no ar, girou-a umas vezes e depois caiu na cama com a mãe ainda presa
nos braços.

— Isso ajudou? — perguntou ela a Maxi, aflita, olhando bem de perto com seus olhos sinceros,
sem defesas.

— Muito. Obrigada, querida. Tenho uma coisa não muito boa pra te contar.
— Você está doente mesmo! — disse Angelica, abalada, sentando-se reta abruptamente.

— Não, pombas. Não estou nada doente, estou muito bem. Mas tive de vender o
apartamento. Não podemos mais morar aqui.

— Jura que não está doente? — Juro por... pelo que tenho de jurar para você me acreditar? —
A minha cabeça. — Juro por sua cabeça que sou uma mãe completamente sadia. Está
satisfeita?

— Tô. Então, por que vendeu o apartamento? — perguntou Angelica, muito aliviada.

— É uma história comprida e muito complicada, mas o essencial é que estou precisando de
dinheiro.

O rosto de Angelica se enrugou numa tentativa de entender palavras que ela nunca ouvira a
mãe pronunciar em toda a sua vida.

— Para comprar alguma coisa? — perguntou ela, por fim. — Sim... e não. — Mãe — disse
Angelica, com paciência — acho mesmo que ajudaria se me contasse toda a história, mesmo
comprida. Já tenho idade para entender.

Quando Maxi acabou, fez-se um silêncio enquanto Angelica pensou na situação.

— O que eu acho — disse ela, por fim — é que você fez o que tinha de fazer. Isso é tal e qual a
vida real. Aliás... é a própria vida real. Isso é interessante. Não é propriamente divertido, mas
dá o que pensar. Agora o problema é: onde vamos morar? Eu escolheria Columbus Avenue
porque é o quente, mas sei que você não ia gostar nada. Em todo caso, a gente devia mesmo é
morar de graça, né? Então, por que a gente não se convida pra casa do Tio Toby? É de graça,
ele tem lugar sobrando e a comida vai ser ótima. Ele provavelmente vai gostar da companhia.
E outra coisa, todo dia depois da aula posso ir à B&B e trabalhar em alguma coisa que precise,
entregando embrulhos, pondo cartas no correio ou ajudando no departamento de arte.

— Não me chegue nem perto do departamento de arte!

— O que é que tem lá, cobras? Tá bem, não vou, mas não tem motivo para eu não dar uma
mãozinha, tem? — Nenhum.

Maxi procurou o lenço úmido de Donald Trump, pois ele não tinha uma coisa tão trivial quanto
um lenço de papel, e o levou aos olhos lacrimosos, o mais discretamente possível.

— E, em terceiro e último lugar, e não me importa que você não aprove o meu palavreado —
declarou Angelica — na minha opinião sincera, mãe, o Cutter come merda.

Maxi olhou em volta e se perguntou o que é que havia de conhecido no ambiente. Ela e
Angelica tinham sido muito bem recebidas em casa de Toby, mas precisaram se espremer nos
dois quartinhos do quarto andar da casa dele, comprida mas estreita. O térreo continha a
piscina e a cozinha; o segundo andar era todo um grande salão. O terceiro era o domínio de
Toby. Maxi imaginara que elas ficariam com o grande quarto de hóspedes ao lado do de Toby,
mas isso foi antes de descobrir que India e Toby estavam vivendo juntos, de quinze em quinze
dias, em fins de semana alternados. Os armários do quarto de hóspedes estavam cheios das
roupas de India e até alguns dos lençóis de India. Por nada no mundo Maxi havia de querer
ficar no mesmo andar que um casal envolvido nas delicadas operações de experiências em
construir um ninho. Aliás, se ela tivesse percebido que India estava passando tanto tempo em
Nova York, não teria nem falado com Toby; mas, depois que falara, ele insistira para que ela
fosse para lá com Angelica.

Ela se sentia tomando conta deles?, pensou. Não, nada de tão adulto. Acampamento de verão!
Era isso. Ela se sentia como se ela e Angelica estivessem juntas num acampamento de verão,
arrancadas de seu meio conhecido e encostadas em algum lugar estranho, só com alguns dos
bichinhos de pelúcia de Angelica, seus livros de colégio e algumas das fotos em porta-retratos
de Maxi para lhes dar uma impressão de casa. As roupas dela estavam penduradas nos
desajeitados cabides de metal que ela tivera de comprar, porque os armários não bastavam.
Sim, um cruzamento entre um acampamento de verão e uma vitrina de estilista pequena e
apinhada, resolveu ela.

Felizmente, já comprara todas as suas roupas de primavera e verão antes de cair o machado,
pensou Maxi, olhando para os cabides cheios. Eles ocupavam quase todo o espaço do quarto.
Ela precisava parecer luxuosa, peremptória e totalmente despreocupada nos almoços diários
em que cortejava os anunciantes em potencial, mas felizmente para as editoras de muitas
revistas o pessoal de relações públicas da maioria das casas de confecções fazem ”um favor
pessoal” e levam as roupas do estilista para o escritório da editora para ela escolher, por
atacado, claro. Mas nessa noite ela podia ficar descansada, pensou, vestindo as calças largas
cor de marfim de Zoran e o pulôver de cashmere e seda marfim, de decote canoa, cortado
curto e com nervuras, as duas peças caras demais e usadas, como era regra, num tamanho três
vezes maior do que o dela. O cashmere era tão reconfortante quanto o leite materno e muito
mais fácil de encontrar, refletiu Maxi, amarrando os sapatos. Não estava torcendo para que o
tempo chuvoso de abril passasse à primavera. Se pudesse, usaria seis camadas de cashmere de
uma vez, até vencer sua batalha com Cutter.

Ela desceu e parou na entrada da cozinha-sala de jantar em que Toby estava ocupado,
cozinhando. Ela ouviu Toby dizer:

— É um bolo de carne, e pode se considerar feliz de comer uma coisa tão complexa na mesa
do próprio chef.

Será que Toby estava falando sozinho, nessa idade? Eles iam jantar sozinhos, já que Angelica
estava com Rocco e India se encontrava em Hollywood. Curiosa, Maxi espiou na grande peça,
sala e cozinha. Um rastro de peças de couro espalhadas pela cozinha lhe informou logo da
presença de Justin.

Maxi avançou para ele com alegria, pois tinha andado tão ocupada com Monty, trabalhando
nos orçamentos dos números futuros de B&B, que ficara vários dias sem vê-lo.

— Eu queria te fazer uma surpresa — disse Toby, satisfeito com

o sucesso de seu convite.


— Está escondendo mais alguém por aí? — perguntou Maxi. — Não, somos só nós três. Acho
que desde crianças não jantamos sozinhos assim — respondeu Toby. — Depois que fui para a
universidade e você se casou, sempre havia outras pessoas, sobretudo um ou outro dos seus
maridos. Essa é uma noite pós-jardim de infância para adultos cultos, que gostam de bolo de
carne e têm um certo interesse comum especial.

— Tal como? — indagou Maxi. — O futuro das Edições Amberville — respondeu Justin. —
Você não está pensando que é a única preocupada com isso, está?

— Claro que não. — Você não nos procurou para ajudar, Cachinhos Dourados — disse Toby,
sério. — Não acha que devia ter feito isso, antes de vender o seu apartamento e pretender se
privar de tudo o que possui?

— Não acho, não — retrucou Maxi. — É uma luta em que me apresentei como voluntária. O
que é mais, não tenho certeza nenhuma de que, se eu vencer, vocês não ficarão desiludidos.
Talvez cada um de vocês preferisse ter o dinheiro que receberiam se a venda se concretizasse.
Era isso que eu realmente devia ter-lhes perguntado.

— Fosse o que fosse que devesse perguntar, o fato é que não perguntou. E estamos os dois
chateados, para amenizar a coisa. Esse jantar é uma conspiração, se é que você ainda não
desconfiou — disse Toby, amável, regando o bolo de carne com um molho de tomate e
manjericão fresco.

— Eu estava começando a suspeitar. Então, não se importam que mamãe venda a firma?
Querem que eu desista, largue a B&B e pare de fazer onda, e aja como se estivesse tudo bem
para mim?

— Toby, já notou que a Maxi tem uma tendência para reagir demais? — perguntou Justin.

— Na verdade, já que você falou nisso, eu diria que o problema com a Maxi é que ela tira
conclusões precipitadas — respondeu Toby.

— Ou então — acrescentou Justin — você poderia dizer que o problema com Maxi é que ela
salta no mar sem olhar para ver se há um salva-vidas a bordo.

— Não, não é bem isso. O problema com a Maxi é que ela se confunde com o General de
Gaulle. L’état c’est moi, sabe. Amberville c’est elle, uma coisa assim.

— Não foi de Gaulle quem disse isso, foi Luís XIV — corrigiu Justin. — Ele também tinha uma
tendência para a grandiosidade, mas isso foi tanto tempo antes da Revolução que pode ser
perdoado, mas Maxi não.

— Não acho vocês dois tão engraçados como pensam que são — disse ela, aborrecida.

— O problema com a Maxi é que ela não sabe quando as pessoas estão querendo lhe
emprestar dinheiro — disse Toby.

— Ah, então é isso. De jeito nenhum vou procurar vocês dois para pedir dinheiro. Vocês têm
suas vidas, têm os seus interesses diferentes, por que hei de esperar que me emprestem
dinheiro para uma coisa que é uma decisão inteiramente minha? Manter a minha revista à
tona até ela conseguir nadar sozinha é um problema pessoal, e o dinheiro tem de partir de
mim.

— Eu trabalho para B&B... isso não me dá direito a uma opinião? — perguntou Justin.

— Olha, Justin, sei que você detesta fazer fotografia de revista e que só está aí por minha
causa. Isso é toda a contribuição que espero de você e sei bem o que lhe custa estar preso
assim — disse Maxi, com severidade. — Portanto, não espere que eu vá lhe pedir dinheiro
emprestado, ainda por cima.

— E eu? Sou seu irmão mais velho, Cachinhos Dourados. Podia ter tentado — insistiu Toby.

— Ora, Morcego, você nunca teve o menor interesse pelas revistas — respondeu Maxi. — Não
pode me convencer de que tem. Não, Toby, isso é coisa minha. Não seria justo confiar em
nenhum de vocês. Tenho certeza de que vocês dois têm a sensibilidade de ver que, uma vez na
vida, quero conquistar alguma coisa por mim, sozinha.

A vida toda tive tudo de bandeja, e não fiz grande coisa. Dessa vez é diferente.

— Vejam só — disse Justin, com um olhar de esguelha, carinhoso, irônico e espantado.

— O verdadeiro problema com Maxi — continuou ela — é que está sempre faminta, sempre
precisando comer. Tão chata, essa garota. Fica furiosa quando está com fome, portanto dêem
o fora do meu negócio, caras! Fora, seus vagabundos. Quando é que fica pronto esse tal bolo
de carne, provavelmente cozido demais?

— Você devia ter aceitado o dinheiro deles — disse Monty, teimando, pela terceira vez, vendo
Maxi assinar cheques. — Ou pelo menos podia ter perguntado quanto tinham em mente.

Maxi sacudiu a cabeça. Não podia explicar a Monty que Lily estava pretendendo vender toda a
companhia. Isso significava que ela não podia contar a ele sobre a esperança que ela
depositava sobre a sobrevivência de B&B, a possibilidade de Lily mudar de idéia. Era uma
possibilidade remota, ela sabia, mas a única que tinha. Se ela se permitisse duvidar agora, tudo
estaria perdido, sem qualquer dúvida. Maxi mudou de assunto, para desviar a atenção de
Monty do desejo pelo dinheiro dos irmãos.

— Monty, nossos dados de circulação do mês passado estavam em torno dos quatro milhões
de exemplares. Se conseguirmos manter esse número, quando acabarem aqueles contratos de
publicidade de seis meses, vamos poder renová-los por um grande aumento por página, certo?

— É, se todos os seus anunciantes concordarem com o tamanho do aumento que você


pretende pedir, o que não é nada certo. E é melhor não contar com isso. Afinal, você ainda não
sabe precisamente quem são esses quatro milhões de donas, e quais suas rendas e idades.
Demografia, Maxi, demografia, Madison Avenue compra um público específico com
necessidades específicas. Mas supondo que os anunciantes renovem, você vai começar a se
aliviar com o sétimo número. No momento, cada exemplar que vendemos por um dólar e
meio nos está custando dois dólares e cinco centavos para produzir, sem falar no dinheiro que
Barney Shore está pondo para o espaço nas bancas. Você tem um sucesso tão extraordinário
que está perdendo 55 centavos por exemplar, quatro milhões de vezes por mês.

— Dois milhões, duzentos mil dólares por mês. — Maxi levantou tanto as sobrancelhas que
elas quase desapareceram sob a franja despenteada. — E ainda temos três números. Isso faz
mais de sete milhões de dólares... mas não é tão mau quanto o Departamento da Defesa.
Espero que o meu leilão saia bem.

— Não procure aumentar a sua circulação — advertiu Monty. — O sucesso mata.

— Não se preocupe. Compreendo isso. Será que esse é o único negócio do mundo em que o
produto custa mais ao fabricante do que custa ao comprador?

— Já ouviu falar do cinema? — perguntou Monty, com pesar. — Ou do teatro? Ou o balé,


ópera, concertos? Ou programas de televisão que não dão certo?

— Então, em essência, estamos no negócio dos espetáculos? — resumiu Maxi.

— Se estamos — disse Monty, melancólico. — Se você tivesse dinheiro, poria no negócio de


espetáculos? — Não — disse Monty, triste. — O negócio de espetáculos é palavrão.

— Se você não se animar, eu te dou uma banana. Ele lhe lançou uma careta fria que tentava
passar por um sorriso. — Vamos torcer para que o preço do papel, da gráfica ou da
distribuição não suba — disse Maxi, pensativa.

— E que o Barney Shore não caia morto de repente — acrescentou Monty, querendo ajudar.

— Espero que você corra mais que eu, seu sacana — exclamou Maxi, investindo contra ele, o
dedo médio já em posição. — Lá vou eu!

— Francamente, Maxi, acho que você está pirada, obcecada, doida varrida — disse India,
abrindo as nove malas que tinha levado para passar uma semana. — Se alguém quisesse
comprar o negócio de minha família e isso significasse que eu teria mais dinheiro do que
jamais ouvira falar na vida, eu aceitaria correndo. Você nem tem certeza que o seu pai não
venderia se a UBC tivesse feito uma proposta?

— Ele só tinha 61 anos quando morreu. Tenho certeza de que nunca teria vendido e se
aposentado. O que teria feito com o resto da vida? Ele vivia para as revistas. Eram a âncora
dele, e ele era a minha âncora