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O CINEMA ETNOGRÁFICO DE JEAN ROUCH

O CINEMA ETNOGRÁFICO DE JEAN ROUCH

Ismael Pordeus Jr.


Universidade Federal do Ceará

O discurso fílmico serviu, desde os primórdios do cinema, para aguçar nossa capacidade de ver e analisar, de maneira
crítica, as narrações visuais em etno-antropologia. A problemática da "objetividade" da imagem, da construção
narrativa, e dos efeitos de identificação ou distanciamento produzidos através do "olho" da câmara são questões
fundamentais. Amplo é o debate em torno do grau de "etnograficidade" das narrações cinematográficas, pondo em
evidência o engajamento científico, estético e moral subjacente à produção de imagens nas ciências humanas. A
questão a se colocar, dentre outras, é do papel político do olho mecânico no contexto contemporâneo.

A revista Cinemagazine de 11/1922 traz comentário sobre Nonouk, l' esquimou 1, o articulista diz: "uma das maiores
missões de cinema é levar frente aos nossos olhos sedentários e múltiplos visões desse vasto mundo".

Em 1979, com uma bolsa do MEC Arte, consegui produzir um curta, um dos primeiros, de um ritual de iniciação no
Candomblé, com objetivos acadêmicos. Lembraria que em um dos primeiros filmes de Glauber Rocha, Barra Vento,
realizado em 1962, aparecem trechos desse mesmo ritual, na mesma perspectiva da ideologia do Partidão - ser a
religião Afro-Brasileira alienante e, ainda, perseguida pela Igreja e o Estado - expresso por Jorge Amado no romance
Jubiabá (1935). O ritual de iniciação havia sido apresentado na maior revista semanal em circulação, como uma
reportagem sensacionalista da revista O Cruzeiro, em 1952, com fotos de José Medeiros.

O meu filme é um super-8 com duração de 22', rodado em Fortaleza, no terreiro da Mãe de Santo Iraci Ana de
Santana, durante o ritual sacrificial sem preocupação com a montagem que foi realizada por Ana Maria Roland e
Eymard Porto, com o som de Yvelyne Vastel. Foi apresentado como um dos meus trabalhos de conclusão do DEA de
Sociologie de la Connaissence, na Université Rabelais, de Tours - França. Dei-lhe o título de Yaô que significa
iniciado. Depois ele foi apresentado no Colóquio L'Imaginaire organizado por Jean Duvignaud na Université de Paris
VII, 1982. Posteriormente esse filme foi levado para os Estados Unidos e transcrito para VHS.

Falar de cinema etnográfico é falar de Jean Rouch, um clássico dessa filmografia. Cheguei a assistir seus seminários,
onde eram projetados seus próprios filmes, além de registros de seus alunos e de outros cineastas, a partir dos quais se
geravam discussões técnicas sobre a cinematografia etnográfica.

Vindos do interior(brusse) para as cidades da África Negra, os jovens deparam-se com a civilização mecânica. Dessa
maneira, nascem os conflitos e as novas religiões. Em 1927, forma-se a seita Haouka (mestres do vento, mestres da
loucura) que utiliza a técnica da possessão tradicional para que os deuses desçam em seus fiéis e falem com os
homens. O filme Lês maître fous2 foi rodado a pedido dos próprios pastores do culto, na cidade de Accra, Gana, em
1954 e chegou a ser proibido pelas autoridades britânicas na Nigéria, pois foi considerado um insulto a sua majestade,
a sereníssima Rainha Elizabeth II.

http://www.ucb.br/comsocial/imagemn/imagemn3/artigos/Ismael%20Pordeus.htm[04/10/2010 00:15:31]
O CINEMA ETNOGRÁFICO DE JEAN ROUCH

Os Haoukas reuniam-se, todos os domingos, nos subúrbios de Accra para os rituais de possessão durante os quais os
participantes entravam em transe e eram possuídos gênios e deuses, não os da floresta ou das águas, do fogo ou da
chuva, mas pelos mitos da potência colonial, a partir da experiência dessa população com seus dominadores: o
governador, o médico, a mulher do médico, o chofer da locomotiva, o guarda de plantão. Todos essas personagens são
inspirados diretamente pelas forças militares e pelos membros da administração colonial francesa e britânica. O filme,
posteriormente, veio a ser premiado em Cannes, em 1957.

Jean Rouch morreu, acidentalmente, em fevereiro de 2004, nessa África que tanto estudou e filmou. Poderia se dizer
que, para os franceses, ele inventou a profissão de etno-cineasta: seus filmes sobre as populações africanas são tão
preciosos quanto determinantes na história desse gênero de cinema. Godard e Rivette reconheciam o aprendizado
cinematográfico deles na audácia dos Lês Maîtres fous ou de Moi, un noir.

Jean Rouch falou, em uma entrevista na Rádio França, que o primeiro filme que viu foi Nonouk, o esquimol de Robert
Flaherty (1922) que realizou, dentre outros, o Moana.

Em 1941, dá-se sua descoberta da África - o Senegal, ligando-se ao Instituto Francês da África Negra. '” Foi um
primeiro contato direto com os africanos e tive a oportunidade de assistir a um ritual de possessão, N'döp.Tive a
oportunidade de ver um documentário3 e participar a desse culto, durante o ritual público, em uma praia nos subúrbios
de Dakar durante minha estadia no Senegal em 1982 4.

"Foi ai que me apaixonei pela etnografia e comecei a realizar minhas pesquisas, fazer fotos e escrever artigos que
foram publicados na revista do Instituto". Rouch fala que a administração colonial não apreciava com bons olhos essa
sua atividade, tornando sua vida detestável (lembrando que a França era governada pelo Marechal Pétain, o nazi-
fascista que foi o chefe do regime de Vichi como é designado.

Rouch retorna à França onde passa a freqüentar o Museu do Homem. O jazz explode em Paris no pós-guerra nas caves
da avenida Sant-Germain, no Quartier Latin, como é mostrado no filme de Jacques Becker, Rende-vous de juillet.

Parte, com outros pesquisadores, outra vez, para a África, para descer o Niger. Comprou, antes da viagem, uma câmara
16mm no mercado das pulgas. Jackes Becker segue com ele e é quem vai iniciá-lo no cinema, ensiná-lo a mexer com
a câmara. Becker, por sua vez, havia aprendido a arte com Jean Renoir. "Becker me mostrou como carregar uma
câmara, como fazer um plano. Eu rodei meus primeiros filmes durante essa viagem, mas eu não tinha nenhuma
reação. Sem nenhuma preocupação com a montagem a seguir”.

Ele diz que veio se dar conta dessa falta de roteiro vendo outros filmes na Cinemateca. Foi dessa maneira que realizou
Au pays de mages noirs (1946) e Les magiciens de Wanzerbé (1947). Em 1948, fez um novo filme e obteve o Grand
Prix do Festival dos Filmes Malditos em Biaritz: Iniciation à la danse des possédés.

Ele diz que fazia os filmes à maneira com que Armstrong tocava o trompete, buscando, com o máximo esforço,
encontrar a espontaneidade do jazzman: “Entre minha paixão pela etnografia africana, talvez exista uma ligação, a

http://www.ucb.br/comsocial/imagemn/imagemn3/artigos/Ismael%20Pordeus.htm[04/10/2010 00:15:31]
O CINEMA ETNOGRÁFICO DE JEAN ROUCH

música de jazz".

A beleza dos filmes de Rouch são as imagens fundidas, vaporosas, sem nitidez, os desenquadramentos, falsas
continuidades, raccord, sons não sincrônicos, os efeitos dirty dos jazzmen.

"Deixar se tomar pela imaginação. Ai é necessário se instaurar um clima de confiança durante a filmagem.As
relações com os atores do filme “Moi, un noir” foram extraordinárias. O que permitiu que Oumaru Ganda, que tinha
o papel principal, contasse como havia lutado pela França na Indochina (Vietnan). Havia uma série de planos, mas
não tínhamos os meios de registrar o som. Na projeção de pré-montagem, Oumaru imaginou o texto. Isso deu uma
seqüência incrível, falsas seqüências, nenhuma sincronia. Uma imagem posta em cena, uma imagem falsa, com um
som correto, uma narração, uma memória de guerra. Encontrava-me frente a alguma coisa bastante singular".
Concluindo a montagem, Rouch conta que Pierre Braunberger quis mostrá-lo a Truffaut que, ao ver o filme, teve a
idéia de juntar imagens e utilizou a mesma técnica no final de seu 400 coups. Segundo Truffaut: "um longo travelling"
(movimento de câmara colocada sobre um carro que desliza sobre trilhos) e um corte seco.

Rouch conta que todas as vozes, no filme, foram improvisadas. Os diálogos não eram escritos e foram registrados no
estúdio de uma rádio em Abdijam. Todos os diálogos e comentários foram registrados dessa maneira: "os dois autores
principais, não profissionais, interpretaram as cenas diretamente, improvisando como uma música de jazz". Rouch
inventou um cinema que poderia ser designado de "cinema de tradição oral", uma relação da "palavra espontânea",
algumas notas, um tema, sobre o qual improvisava. Era na montagem que encontrava o ritmo, uma pulsação.

Sempre filmou com a câmara nos ombros, jamais colocando a câmara sobre um tripé. "A câmara no ombro permite
que se fique atento ao menor evento, e reagir imediatamente".

Para Jean Rouch "o cinema é como uma espécie de criação poética imediata, e é necessário o contato físico com o
mundo, como com a câmara, trata-se de ser o mais atento possível para aquilo que se passa em torno de nós, ao
acaso, ao imprevisto". Gostaria de dizer que em seus filmes percebe-se a cultura da África Negra muito bem, onde o
profano e o sagrado juntam-se numa fronteira fluida, indissociável. Como no jazz, uma fronteira, constantemente
alimentada de spirituals e de blues.

1 Nanouk, l’Esquimau tinha em sua distribuição em 1922 menos de 1h, posteriormente passou a 65’ Uma versão sonora foi posta em circulação em
1939.
2 O filme foi transposto para 35mm a partir de sugestão de Jules Dassin. E a montagem final contou com a colaboração de Suzane Barron que
montou entre outros Vacances de M. Hulot e Mon Oncle de Jacque Tati.
3 N'Doep autor: Collomb H, Zempléni A, réalisadores: Meignant M, filme colorido 16mm e vidéo-cassete VHS SECAM, 40mn,1967,
4 O Ndöp é um culto de aliança e fundação com os espíritos ancestrais, os rab. Contem uma dimensão ritual
de iniciação e de possessão que pode ser comparado ao Candomblé brasileiro, ao Vodu do Haiti e do Benin, ao Bori Haoussa, ao Zar dos etíopes.
O CINEMA ETNOGRÁFICO DE JEAN ROUCH

Ismael Pordeus Jr.

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Universidade Federal do Ceará

O discurso fílmico serviu, desde os primórdios do cinema, para aguçar nossa capacidade de ver e analisar, de maneira
crítica, as narrações visuais em etno-antropologia. A problemática da "objetividade" da imagem, da construção
narrativa, e dos efeitos de identificação ou distanciamento produzidos através do "olho" da câmara são questões
fundamentais. Amplo é o debate em torno do grau de "etnograficidade" das narrações cinematográficas, pondo em
evidência o engajamento científico, estético e moral subjacente à produção de imagens nas ciências humanas. A
questão a se colocar, dentre outras, é do papel político do olho mecânico no contexto contemporâneo.

A revista Cinemagazine de 11/1922 traz comentário sobre Nonouk, l' esquimou 1, o articulista diz: "uma das maiores
missões de cinema é levar frente aos nossos olhos sedentários e múltiplos visões desse vasto mundo".

Em 1979, com uma bolsa do MEC Arte, consegui produzir um curta, um dos primeiros, de um ritual de iniciação no
Candomblé, com objetivos acadêmicos. Lembraria que em um dos primeiros filmes de Glauber Rocha, Barra Vento,
realizado em 1962, aparecem trechos desse mesmo ritual, na mesma perspectiva da ideologia do Partidão - ser a
religião Afro-Brasileira alienante e, ainda, perseguida pela Igreja e o Estado - expresso por Jorge Amado no romance
Jubiabá (1935). O ritual de iniciação havia sido apresentado na maior revista semanal em circulação, como uma
reportagem sensacionalista da revista O Cruzeiro, em 1952, com fotos de José Medeiros.

O meu filme é um super-8 com duração de 22', rodado em Fortaleza, no terreiro da Mãe de Santo Iraci Ana de
Santana, durante o ritual sacrificial sem preocupação com a montagem que foi realizada por Ana Maria Roland e
Eymard Porto, com o som de Yvelyne Vastel. Foi apresentado como um dos meus trabalhos de conclusão do DEA de
Sociologie de la Connaissence, na Université Rabelais, de Tours - França. Dei-lhe o título de Yaô que significa
iniciado. Depois ele foi apresentado no Colóquio L'Imaginaire organizado por Jean Duvignaud na Université de Paris
VII, 1982. Posteriormente esse filme foi levado para os Estados Unidos e transcrito para VHS.

Falar de cinema etnográfico é falar de Jean Rouch, um clássico dessa filmografia. Cheguei a assistir seus seminários,
onde eram projetados seus próprios filmes, além de registros de seus alunos e de outros cineastas, a partir dos quais se
geravam discussões técnicas sobre a cinematografia etnográfica.

Vindos do interior(brusse) para as cidades da África Negra, os jovens deparam-se com a civilização mecânica. Dessa
maneira, nascem os conflitos e as novas religiões. Em 1927, forma-se a seita Haouka (mestres do vento, mestres da
loucura) que utiliza a técnica da possessão tradicional para que os deuses desçam em seus fiéis e falem com os
homens. O filme Lês maître fous2 foi rodado a pedido dos próprios pastores do culto, na cidade de Accra, Gana, em
1954 e chegou a ser proibido pelas autoridades britânicas na Nigéria, pois foi considerado um insulto a sua majestade,
a sereníssima Rainha Elizabeth II.

Os Haoukas reuniam-se, todos os domingos, nos subúrbios de Accra para os rituais de possessão durante os quais os
participantes entravam em transe e eram possuídos gênios e deuses, não os da floresta ou das águas, do fogo ou da
chuva, mas pelos mitos da potência colonial, a partir da experiência dessa população com seus dominadores: o
governador, o médico, a mulher do médico, o chofer da locomotiva, o guarda de plantão. Todos essas personagens são

http://www.ucb.br/comsocial/imagemn/imagemn3/artigos/Ismael%20Pordeus.htm[04/10/2010 00:15:31]
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inspirados diretamente pelas forças militares e pelos membros da administração colonial francesa e britânica. O filme,
posteriormente, veio a ser premiado em Cannes, em 1957.

Jean Rouch morreu, acidentalmente, em fevereiro de 2004, nessa África que tanto estudou e filmou. Poderia se dizer
que, para os franceses, ele inventou a profissão de etno-cineasta: seus filmes sobre as populações africanas são tão
preciosos quanto determinantes na história desse gênero de cinema. Godard e Rivette reconheciam o aprendizado
cinematográfico deles na audácia dos Lês Maîtres fous ou de Moi, un noir.

Jean Rouch falou, em uma entrevista na Rádio França, que o primeiro filme que viu foi Nonouk, o esquimol de Robert
Flaherty (1922) que realizou, dentre outros, o Moana.

Em 1941, dá-se sua descoberta da África - o Senegal, ligando-se ao Instituto Francês da África Negra. '” Foi um
primeiro contato direto com os africanos e tive a oportunidade de assistir a um ritual de possessão, N'döp.Tive a
oportunidade de ver um documentário3 e participar a desse culto, durante o ritual público, em uma praia nos subúrbios
de Dakar durante minha estadia no Senegal em 1982 4.

"Foi ai que me apaixonei pela etnografia e comecei a realizar minhas pesquisas, fazer fotos e escrever artigos que
foram publicados na revista do Instituto". Rouch fala que a administração colonial não apreciava com bons olhos essa
sua atividade, tornando sua vida detestável (lembrando que a França era governada pelo Marechal Pétain, o nazi-
fascista que foi o chefe do regime de Vichi como é designado.

Rouch retorna à França onde passa a freqüentar o Museu do Homem. O jazz explode em Paris no pós-guerra nas caves
da avenida Sant-Germain, no Quartier Latin, como é mostrado no filme de Jacques Becker, Rende-vous de juillet.

Parte, com outros pesquisadores, outra vez, para a África, para descer o Niger. Comprou, antes da viagem, uma câmara
16mm no mercado das pulgas. Jackes Becker segue com ele e é quem vai iniciá-lo no cinema, ensiná-lo a mexer com
a câmara. Becker, por sua vez, havia aprendido a arte com Jean Renoir. "Becker me mostrou como carregar uma
câmara, como fazer um plano. Eu rodei meus primeiros filmes durante essa viagem, mas eu não tinha nenhuma
reação. Sem nenhuma preocupação com a montagem a seguir”.

Ele diz que veio se dar conta dessa falta de roteiro vendo outros filmes na Cinemateca. Foi dessa maneira que realizou
Au pays de mages noirs (1946) e Les magiciens de Wanzerbé (1947). Em 1948, fez um novo filme e obteve o Grand
Prix do Festival dos Filmes Malditos em Biaritz: Iniciation à la danse des possédés.

Ele diz que fazia os filmes à maneira com que Armstrong tocava o trompete, buscando, com o máximo esforço,
encontrar a espontaneidade do jazzman: “Entre minha paixão pela etnografia africana, talvez exista uma ligação, a
música de jazz".

A beleza dos filmes de Rouch são as imagens fundidas, vaporosas, sem nitidez, os desenquadramentos, falsas
continuidades, raccord, sons não sincrônicos, os efeitos dirty dos jazzmen.

http://www.ucb.br/comsocial/imagemn/imagemn3/artigos/Ismael%20Pordeus.htm[04/10/2010 00:15:31]
O CINEMA ETNOGRÁFICO DE JEAN ROUCH

"Deixar se tomar pela imaginação. Ai é necessário se instaurar um clima de confiança durante a filmagem.As
relações com os atores do filme “Moi, un noir” foram extraordinárias. O que permitiu que Oumaru Ganda, que tinha
o papel principal, contasse como havia lutado pela França na Indochina (Vietnan). Havia uma série de planos, mas
não tínhamos os meios de registrar o som. Na projeção de pré-montagem, Oumaru imaginou o texto. Isso deu uma
seqüência incrível, falsas seqüências, nenhuma sincronia. Uma imagem posta em cena, uma imagem falsa, com um
som correto, uma narração, uma memória de guerra. Encontrava-me frente a alguma coisa bastante singular".
Concluindo a montagem, Rouch conta que Pierre Braunberger quis mostrá-lo a Truffaut que, ao ver o filme, teve a
idéia de juntar imagens e utilizou a mesma técnica no final de seu 400 coups. Segundo Truffaut: "um longo travelling"
(movimento de câmara colocada sobre um carro que desliza sobre trilhos) e um corte seco.

Rouch conta que todas as vozes, no filme, foram improvisadas. Os diálogos não eram escritos e foram registrados no
estúdio de uma rádio em Abdijam. Todos os diálogos e comentários foram registrados dessa maneira: "os dois autores
principais, não profissionais, interpretaram as cenas diretamente, improvisando como uma música de jazz". Rouch
inventou um cinema que poderia ser designado de "cinema de tradição oral", uma relação da "palavra espontânea",
algumas notas, um tema, sobre o qual improvisava. Era na montagem que encontrava o ritmo, uma pulsação.

Sempre filmou com a câmara nos ombros, jamais colocando a câmara sobre um tripé. "A câmara no ombro permite
que se fique atento ao menor evento, e reagir imediatamente".

Para Jean Rouch "o cinema é como uma espécie de criação poética imediata, e é necessário o contato físico com o
mundo, como com a câmara, trata-se de ser o mais atento possível para aquilo que se passa em torno de nós, ao
acaso, ao imprevisto". Gostaria de dizer que em seus filmes percebe-se a cultura da África Negra muito bem, onde o
profano e o sagrado juntam-se numa fronteira fluida, indissociável. Como no jazz, uma fronteira, constantemente
alimentada de spirituals e de blues.

1 Nanouk, l’Esquimau tinha em sua distribuição em 1922 menos de 1h, posteriormente passou a 65’ Uma versão sonora foi posta em circulação em
1939.
2 O filme foi transposto para 35mm a partir de sugestão de Jules Dassin. E a montagem final contou com a colaboração de Suzane Barron que
montou entre outros Vacances de M. Hulot e Mon Oncle de Jacque Tati.
3 N'Doep autor: Collomb H, Zempléni A, réalisadores: Meignant M, filme colorido 16mm e vidéo-cassete VHS SECAM, 40mn,1967,
4 O Ndöp é um culto de aliança e fundação com os espíritos ancestrais, os rab. Contem uma dimensão ritual
de iniciação e de possessão que pode ser comparado ao Candomblé brasileiro, ao Vodu do Haiti e do Benin, ao Bori Haoussa, ao Zar dos etíopes.

http://www.ucb.br/comsocial/imagemn/imagemn3/artigos/Ismael%20Pordeus.htm[04/10/2010 00:15:31]