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REVISÃO REVIEW 1459

Atividade física e alimentação saudável em


escolares brasileiros: revisão de programas
de intervenção

Physical activity and healthy eating in Brazilian


students: a review of intervention programs

Evanice Avelino de Souza 1


Valter Cordeiro Barbosa Filho 2
Júlia Aparecida Devidé Nogueira 1
Mario Renato de Azevedo Júnior 3

Abstract Introdução

1 Faculdade de Educação This article provides a systematic literature re- A infância e a adolescência são períodos extre-
Física, Universidade de
Brasília, Brasília, Brasil.
view on physical activity and/or healthy eating mamente importantes para o desenvolvimento
2 Programa de Pós-graduação interventions among Brazilian students. Com- de um estilo de vida saudável, uma vez que os
em Educação Física plete articles published from 2004 to 2009 were comportamentos adquiridos nesta fase tendem
Universidade Federal do
Paraná, Curitiba, Brasil. searched in the SciELO, MEDLINE, and CAPES a ser perpetuados por toda a vida 1. Durante a
3 Escola Superior electronic databases, in the articles’ references, adolescência também ocorrem o aumento da in-
de Educação Física,
and through contacts with authors. Six studies dependência e ganho de autonomia na tomada
Universidade Federal de
Pelotas, Pelotas, Brasil. covered nutritional interventions, another six de decisões sobre práticas e comportamentos de
analyzed nutrition and physical activity, and one vida 2. Essa situação pode ser preocupante pelo
Correspondência
discussed changes in body composition. Interven- fato de que os adolescentes passam a ficar mais
E. A. Souza
Faculdade de Educação Física, tions produced different results according to their expostos a comportamentos de risco como eti-
Universidade de Brasília. objectives: increase in weekly physical activity; lismo, tabagismo, sedentarismo e alimentação
Campus Universitário Darcy
Ribeiro, Asa Norte, Brasília,
improvement in eating habits and knowledge on inadequada.
DF 70000-000, Brasil. nutrition; and decrease in overweight and obesity. Estudos nacionais e internacionais sobre fa-
profeas@gmail.com School health promotion programs are essential tores de risco e de proteção comportamentais re-
for raising awareness on the relevance of health lacionados à saúde em adolescentes, como o Glo-
promotion and the adoption of healthy habits. bal School-based Student Health Survey, o Youth
However, further longitudinal studies are needed Health Risk Beahaviour Surveillance System, o
to produce evidence on sustainability of programs Health Behaviour in School-aged Children Study 2
and healthy habits. e a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar 3, mos-
tram que o estilo de vida adotado por crianças
Motor Activity; Public Health Nutrition; Students e adolescentes não é saudável, incluindo baixo
consumo de frutas, inatividade física, inabilidade
de manter um peso corporal saudável e consumo
de bebidas alcoólicas e tabaco. Esses compor-
tamentos de risco à saúde estão cada vez mais
presentes na sociedade contemporânea e estão
associados ao desenvolvimento das doenças crô-
nicas não transmissíveis (DCNT). As DCNT estão
aumentando no público jovem, lideram as cau-

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sas de morbi-mortalidade no Brasil e no mundo, escolares (< 6 anos) ou adultos (> 18 anos); (iii)
e acarretam graves impactos pessoais, sociais e intervenção realizada totalmente fora do am-
financeiros 4,5. biente escolar (clubes, comunidades, clínicas);
A atividade física e a alimentação são dois (iv) intervenção realizada unicamente com pro-
comportamentos considerados prioritários pa- fessores; e (v) artigos com descrição exclusiva
ra a promoção da saúde e prevenção de DCNT do delineamento metodológico de programas
em populações contemporâneas 4. A promoção de intervenção. As características da amostra e
de hábitos saudáveis em crianças e adolescen- das intervenções realizadas pelos estudos sele-
tes possui relevância estratégica e deve ser en- cionados, bem como seus principais resultados,
carada como prioridade por todos os setores foram tabulados e analisados criticamente. Os
sociais. Por congregar a maioria das crianças estudos foram apresentados nas tabelas em or-
e adolescentes de um país, a escola representa dem crescente do ano de publicação e, quando
um espaço privilegiado para o desenvolvimento do mesmo ano, em ordem alfabética conside-
dessas ações 6,7,8,9. rando o primeiro autor.
No Brasil, existem algumas intervenções
destinadas à promoção de atividade física e ali-
mentação saudável em escolares 4,10. Entretan- Resultados
to, pouco se conhece sobre a metodologia dos
estudos, os tipos de intervenção, as evidências Dezessete estudos foram inicialmente encon-
dos efeitos e os resultados na saúde dos alunos. trados e, destes, 13 atenderam aos critérios de
Nesse contexto, o objetivo do presente estudo foi inclusão desta revisão. Três estudos foram ex-
revisar sistematicamente a literatura sobre inter- cluídos por terem sido realizados com crianças
venções de promoção da prática de atividade fí- e adolescentes obesos e um foi excluído por não
sica e/ou alimentação saudável, realizadas entre estar disponível na íntegra no banco de dados
escolares brasileiros, e sumarizar seus principais pesquisado e, mesmo buscando contato com o
resultados. autor, não obtivemos resposta.
Dos 13 estudos revisados, foram encontra-
dos sete artigos 11,12,13,14,15,16,17, três dissertações
Métodos 18,19,20, duas teses 21,22 e um relatório 23. As carac-

terísticas gerais dos trabalhos como autoria, lo-


Esta revisão sistemática buscou identificar arti- cal e ano de execução, faixa etária da população,
gos publicados entre janeiro de 2004 e dezembro número amostral e tipo da escola estudada estão
de 2009, considerando as bases de dados SciELO descritas na Tabela 1.
(http://www.scielo.org) e MEDLINE (http://www. Seis estudos foram realizados na Região Su-
ncbi.nlm.nih.gov/pubmed). Além dessas bases deste 11,12,14,18,20,22 (dois em Niterói, Rio de Janei-
de dados foi realizada busca de dissertações e te- ro; dois em Ribeirão Preto e dois em São Paulo,
ses no portal da Coordenação de Aperfeiçoamen- São Paulo), quatro na Região Sul 13,17,21,23 (três em
to de Pessoal de Nível Superior – CAPES (http:// Florianópolis, Santa Catarina; e um em Pelotas,
capesdw.capes.gov.br/capesdw/). Os seguintes Rio Grande do Sul), um na Região Norte 16 (Porto
descritores e suas combinações em português e Velho, Rondônia), um na Região Centro-oeste 19
inglês foram utilizados para a busca: programas (Distrito Federal) e um estudo realizado simulta-
de saúde, promoção de saúde, escolares, crian- neamente nas regiões Sul e Nordeste 15 (Florianó-
ças, adolescentes, intervenção, atividade física, polis e Recife, respectivamente).
nutrição, hábitos alimentares e obesidade. Além Todos os estudos trabalharam com meni-
disso, as referências bibliográficas dos estudos nos e meninas simultaneamente; a faixa etária
encontrados também foram pesquisadas a fim pesquisada esteve entre 6 e 24 anos de idade; o
de localizar mais estudos sobre o tema. número amostral dos estudos variou entre 34 e
Foram selecionados os estudos que atende- 2.209 escolares, com a maioria 11,12,15,19,20,21,22,23
ram aos seguintes critérios de inclusão: (i) os das intervenções realizada em escolas públicas.
publicados em periódicos, dissertações e teses Apenas três 14,16,23 intervenções reportaram o
disponíveis nas bases de dados pesquisadas; nível socioeconômico dos participantes, onde
(ii) amostra que incluíssem crianças e adoles- um estudo 14 foi realizado com escolares de bai-
centes; e (iii) intervenções realizadas em esco- xo nível socioeconômico e os demais tiveram a
las públicas e/ou privadas. Não foram incluídos participação de estudantes de diversos níveis so-
estudos com: (i) amostra exclusiva de crianças cioeconômicos, de A-C 16 e de A-E 23. Quanto ao
e/ou adolescentes em condições específicas de tipo da amostra, cinco (30,8%) estudos tiveram
saúde (obesos, hipertensos, diabéticos etc.); (ii) seleção aleatória ou das escolas 11,15,23 ou das tur-
faixa etária que incluísse apenas crianças pré- mas de ensino 14,21 que realizaram intervenção.

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PROGRAMAS DE ATIVIDADE FÍSICA E ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL EM ESCOLARES 1461

Tabela 1

Características dos estudos de intervenção realizados em escolas brasileiras (2004-2009).

Referência Cidade (Estado) Ano da intervenção Escolas Ensino Faixa etária (anos) Amostra

Barros 21 Florianópolis 2003 3 públicas (GI); Ensino Médio 15-19 GI = 452


(Santa Catarina) 3 públicas (GC) (53,1% meninas);
GC = 300
(53,7% meninas)
Gaglianone et al. 11 São Paulo 2000 3 públicas (GI); 1a e 2a séries do 7-10 GI =294 (NI);
(São Paulo) 5 públicas (GC) Ensino Fundamental GC = 343 (NI)

Menezes et al. 23 Pelotas 2004 16 públicas (GI); 7a e 8a séries do 13-15 GI = 955


(Rio Grande do Sul) 16 públicas (GC) Ensino Fundamental (55,6% meninas);
GC = 1.146
(55,7% meninas)
Deminice et al. 12 Ribeirão Preto 2005 1 pública Pré-escola a 6-16 GI = 951
(São Paulo) 8a série do Ensino
Fundamental
Gabriel et al. 13 Florianópolis 2004 1 pública e 3a e 4a séries do 9-11 GI = 162
(Santa Catarina) 1 privada Ensino Fundamental (54,9% meninas)
Sichieri et al. 14 Niterói 2005 22 turmas (GI); 4a série do Ensino 9-12 GI = 434
(Rio de Janeiro) 24 turmas (GC), de Fundamental (46,9% meninas);
22 escolas públicas GC = 608
(47,4% meninas)
Vargas 18 Niterói 2005 1 pública (GI); 5a e 6a séries do 11-17 GC = 99
(Rio de Janeiro) 1 pública (GC) Ensino Fundamental (52,1% meninas);
GI = 162
(53,5% meninas)
Zancul 22 Ribeirão Preto 2006/2007 1 pública 6a série do Ensino 11-14 GI = 36
(São Paulo) Fundamental (47,2% meninas)
Barros et al. 15 Florianópolis 2006 10 públicas (GI); Ensino Médio 15-24 GI = 474 (NI);
(Santa Catarina); 10 públicas (GC) noturno GC = 515 (NI)
Recife (Pernambuco)
Cavalcanti 19 Distrito Federal 2008 1 pública (GI); Ensino Fundamental 7-11 GI = 229 (NI);
1 pública (GC) GC = 232 (NI)
Farias et al. 16 Porto Velho 2006 1 privada (GI); Ensino Fundamental 10-15 GI = 186
(Rondônia) 1 privada (GC) (48,4% meninas);
GC = 197
(45,2% meninas)
Fernandes et al. 17 Florianópolis 2009 1 pública e 2a série do Ensino 8,2 (média) GI = 55
(Santa Catarina) 1 privada Fundamental (61,8% meninas);
GC = 80
(46,2% meninas)
Ribeiro 20 São Paulo 2008 1 pública (GI1); 7a série do Ensino 12-14 GI1 = 25
(São Paulo) 1 pública (GI2); Fundamental. (48,0% meninas);
1 pública (GC) GI2 = 23
(52,2% meninas);
GC = 21
(42,9% meninas)

GC: grupo controle; GI: grupo intervenção. GI1: intervenção sem prática de atividade física; GI2: intervenção com atividade física; NI: não indicado.

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Entretanto, os demais apresentaram seleção dos foram desenvolvidas nos seis programas de in-
participantes por conveniência. tervenção 11,12,13,14,17,22 e, juntamente com ou-
Na Tabela 2 foram descritos os objetivos ge- tras ações de intervenção, buscaram promover
rais, os principais resultados e características o conhecimento e/ou atitudes positivas relacio-
dos estudos inseridos nesta revisão. Verificou- nadas à alimentação, abordando temas como a
se que a duração das intervenções nos estu- importância dos alimentos em diversas funções
dos variou entre dois 13 a 11 16 meses. Quanto do organismo 11,12,13,14,17, valor nutricional dos
aos objetivos das intervenções, seis trabalhos alimentos 12,13,14,17,22 e a montagem de refeições
11,12,13,14,17,22 intervieram focando a mudança e lanches conforme recomendações alimentares
no conhecimento nutricional, práticas alimen- para crianças e adolescentes, como as propostas
tares e/ou classificação do estado nutricional; pelo Guia da Pirâmide Alimentar 13,17,22.
outros seis 15,18,19,20,21,23 focaram tanto as mu- Um importante programa de intervenção
danças na alimentação quanto na prática de que desenvolveu essas ações foi realizado com
atividade física, enquanto um estudo 16 realizou 434 escolares (608 no grupo controle – GC) da
intervenção visando a modificações no estado rede pública de ensino de Niterói 14. Esse pro-
nutricional (sobrepeso/obesidade) e na compo- grama de intervenção teve a duração de sete
sição corporal. Quanto às variáveis analisadas, a meses e focou, com base na realização de jogos,
maioria dos estudos 13,14,17,18,19,20,22,23 utilizou o quizzes, competições com músicas e desenhos, e
índice de massa corporal (IMC) como indicador distribuição de material personalizado, mensa-
de sobrepeso e/ou obesidade, enquanto apenas gens relacionadas sobre a importância da água
um 21 avaliou o impacto e as ações desenvolvi- para a saúde e a substituição de bebidas gasei-
das na intervenção. ficadas pelo consumo de água. A partir dessas
Alguns resultados devem ser destacados nos ações de intervenção, foi verificada redução sig-
trabalhos que focaram mudanças no conheci- nificativa do consumo de bebidas gaseificadas
mento/prática de atividade física e nutrição, a entre os escolares do grupo intervenção (GI) em
saber: aumento na quantidade (minutos/dia) comparação ao controle (média da diferença =
de prática semanal de atividade física 20; maior -56mL; IC95%: -119; -7mL). Entretanto, o IMC e
animação para a prática de atividade física 18; e os demais componentes da alimentação anali-
redução do consumo de alimentos com alto va- sados (consumo de frutas, adição de açúcar em
lor calórico (doces, biscoitos, salgados) 18,19. Nos bebidas, entre outros) não tiveram alterações
estudos que tiveram somente os componentes significativas 14.
alimentares e/ou classificação do estado nutri- A mudança nos hábitos alimentares dos es-
cional como foco da intervenção, os principais colares foi um dos resultados mais reportados
resultados foram a redução do consumo e da pelos programas de intervenção, principalmente
preferência por alimentos de alto valor calórico com a redução do consumo de alimentos de alto
11,13,14,17, melhoria no conhecimento sobre ali- valor calórico (refrigerantes, bolachas recheadas
mentação 12 e nas práticas alimentares saudá- e suco artificial) 11,13,14,17 e o aumento do consu-
veis (consumo diário de desjejum e a ingestão de mo de alimentos saudáveis (por exemplo, frutas
verduras no almoço e jantar) 22. O programa de e verduras) 11,13,22. Um programa de intervenção
intervenção 16 que focou nos indicadores antro- que caracteriza essas evidências foi realizado por
pométricos e na composição corporal verificou a Fernandes et al. 17, com 55 escolares (80 no GC)
redução da prevalência de sobrepeso e obesida- da cidade de Florianópolis. Após os quatro meses
de, como seu principal resultado. de intervenção, foi observada a redução de 4,81%
(p = 0,01) da proporção de crianças que conso-
Programas de intervenção focados na mem frequentemente (2 ou 3 dias na semana)
alimentação saudável e no estado nutricional suco artificial na escola, produto com venda
proibida por lei nos colégios do Estado de Santa
Dentre os seis programas de intervenção 11,12, Catarina. Outros alimentos proibidos, como sal-
13,14,17,22 realizados com enfoque na promoção gadinho industrializado e refrigerante, tiveram
da alimentação saudável e do estado nutricional aumento no consumo semanal entre os escolares
dos escolares brasileiros, podem ser destacadas do GC, o que não ocorreu no GI 17.
três ações de intervenção como as mais utili- A continuidade dos hábitos alimentares sau-
zadas na discussão da importância da alimen- dáveis após o programa de intervenção foi ava-
tação para a saúde na infância e adolescência: liada somente em um estudo 22. Nesse programa,
jogos e histórias sobre nutrição, apresentação foi verificado o aumento de 30,9% (p = 0,02) e
de vídeos e palestras com os escolares, e a dis- 21,5% (p = 0,02) na proporção de escolares que
tribuição e/ou confecção de material educativo referiram consumir verduras cruas no almoço e
acerca da alimentação saudável. Essas atividades no jantar, respectivamente, após seis meses de

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PROGRAMAS DE ATIVIDADE FÍSICA E ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL EM ESCOLARES 1463

Tabela 2

Descrição dos estudos de intervenção em escolas brasileiras (2004-2009) de acordo com o objetivo, características da intervenção, variáveis e principais
resultados.

Referência Objetivo Características da intervenção Variáveis Principais resultados

Barros 21 Avaliar a implementação de Duração: ± 3 meses. Instrumento: questionário Aumento: 33,1% das meninas
uma intervenção que visa a Descrição: atividades desenvolvido para o estudo. estavam mais informadas
promover atividade física e educacionais, organizacionais Variáveis analisadas: impacto e sobre hábitos alimentares após
padrões saudáveis entre os e ambientais baseadas no ações da intervenção, prática a intervenção. Redução: 11,8%
estudantes modelo lógico das Escolas de atividade física e hábitos na proporção de meninos que
Promotoras de Saúde. Foco alimentares consideravam a textura/sabor
na modificação ambiental como barreira para consumo
e normativa, educação e de alimentos
treinamento e engajamento de
pessoal
Gaglianone et al. 11 Analisar o impacto do Duração: 14 semanas. Instrumento: questionário Aumento: 13,8% na proporção
programa de educação Descrição: treinamento de desenvolvido para o estudo. de escolares do GI que
nutricional nos conhecimentos professores para orientar os Variáveis analisadas: nível de consumiam frequentemente
e atitudes sobre hábitos escolares sobre alimentação conhecimento em alimentação todos os grupos alimentares
alimentares saudáveis saudável. Dinâmicas e nutrição e hábitos recomendados na Pirâmide
psicossociais com os escolares alimentares Alimentar. Redução: 24,3%
com base na utilização de na preferência dos escolares
materiais e jogos educacionais por alimentos com alto valor
calórico (alimentos ricos em
gordura e açucares simples)
Menezes et al. 23 Avaliar o efeito do programa Duração: 6 meses. Descrição: Instrumentos: questionário O NAF, IMC e hábitos
de intervenção educacional treinamento de professores desenvolvido para o estudo alimentares não apresentaram
sobre o tabagismo, hábitos com distribuição de fôlderes, e avaliação antropométrica. mudança significativa após
alimentares, atividade física e cartazes e vídeos que Variáveis analisadas: intervenção. Aumento: 12,6%
IMC dos escolares deveriam ser repassados para IMC, conhecimento e no percentual de adolescentes
os escolares comportamento sobre que consideram perigoso o
tabagismo, NAF e hábitos fumo passivo
alimentares
Deminice et al.12 Avaliar os efeitos de um Duração: 6 meses. Descrição: Instrumento: questionário Aumento: pontuação média
programa de educação foram utilizados painéis desenvolvido para o para o nível de conhecimento
alimentar sobre alimentação, coloridos, brincadeiras, estudo, IPAQ e avaliação em alimentação e práticas
práticas alimentares e o estado transparências, fantoches, antropométrica. Variáveis alimentares (valores não
nutricional dos escolares vídeos e figuras de alimentos analisadas: nível de apresentados). Média do IMC
com os escolares conhecimento em alimentação após intervenção (0,97kg/m2
e hábitos alimentares nos meninos e 1,03kg/m2 nas
(subamostra de 14,9% do meninas)
total), bem como o NAF
(subamostra de 12,6% do total)
Gabriel et al. 13 Avaliar os resultados de um Duração: 2 meses. Descrição: Instrumento: questionário Redução: 12,6% na proporção
programa de intervenção palestras e atividades desenvolvido para o estudo de meninos que trazem de
nutricional em escolares do educativas sobre o Guia da e avaliação antropométrica. casa bolachas recheadas na
Ensino Fundamental Pirâmide Alimentar, montagem Variáveis analisadas: IMC e escola particular. Aumento:
de cardápio e reciclagem do hábitos alimentares 21,6% e 10,5% na proporção
lixo de meninos e meninas que
preferem consumir frutas;
15,0% na proporção de
escolares que consomem
merenda escolar na escola
pública

(continua)

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1464 Souza EA et al.

Tabela 2 (continuação)

Referência Objetivo Características da intervenção Variáveis Principais resultados

Sichieri et al. 14 Determinar se um programa Duração: 7 meses. Descrição: Instrumento: recordatório Redução: ingestão média de
educacional focado na redução atividades educacionais, alimentar de 24h e avaliação refrigerantes em cada turma
do consumo de bebidas produção de material antropométrica. Variáveis escolar (-69 ml/dia) após
com adição de açúcar pode educativo e estímulo ao analisadas: IMC e a ingestão intervenção; ingestão diária de
prevenir o ganho de peso consumo de água entre os alimentar bebidas gaseificadas (-63mL/
excessivo em escolares escolares dia) após intervenção
Vargas 18 Investigar o efeito de um Duração: 4 meses. Descrição: Instrumentos: questionário 83,8% dos participantes
programa para prevenção educação nutricional (palestras, desenvolvido para o estudo relataram uma maior animação
da obesidade baseado vídeos, dinâmicas e oficinas) e e avaliação antropométrica. para prática de atividade física
em educação nutricional e incentivo à prática de atividade Variáveis analisadas: após intervenção. Aumento:
incentivo à prática de atividade física (cartazes e olimpíadas maturação, IMC e hábitos 13,9% na proporção de
física escolares) alimentares escolares que não compram
lanches vendidos por
ambulantes
Zancul 22 Analisar os reflexos de um Duração: 6 meses. Descrição: Instrumento: questionário Aumento: 33,3% na proporção
programa de educação Apresentação de filmes, desenvolvido para o estudo de escolares que referiram
nutricional nas condutas elaboração de cartazes, e avaliação antropométrica. consumir desjejum todos
alimentares de escolares dramatização, leitura de textos, Variáveis analisadas: IMC, os dias; 30,9 e 21,5% na
aplicação de jogos e dinâmicas hábitos alimentares e proporção de adolescentes
conhecimento nutricional que referiram consumir
verduras cruas no almoço e
jantar, respectivamente
Barros et al. 15 Avaliar a eficácia de um Duração: 9 meses. Descrição: Instrumentos: questionário Redução: 3,6% na prevalência
programa de intervenção em divulgação de pôsteres e desenvolvido para o estudo. de inatividade física após
estudantes do Ensino Médio cartilhas para discussões em Variáveis analisadas: prática de intervenção. Aumento:
do Projeto Saúde na Boa sala de aula. Oportunidades atividade física número de dias que o GI
ambientais organizadas segue a recomendação de
(passeios de bicicleta, dia da 60 minutos/dia de atividade
fruta etc.), kits (US$ 500) para física moderada a vigorosa, em
adquirir equipamentos de comparação com o GC, após
educação física para as escolas intervenção
Cavalcanti 19 Verificar os efeitos de uma Duração: NI. Descrição: Instrumentos: questionário Aumento: fator de proteção
intervenção para a promoção programa educativo (palestras, desenvolvido para o estudo (razão de chance = 0,47) nas
de hábitos alimentares oficinas, jogos, orientação e avaliação antropométrica. crianças do GI para apresentar
saudáveis entre os escolares nutricional aos familiares) Variáveis analisadas: IMC, hábitos alimentares saudáveis,
focando atividade física e percentual de gordura corporal em comparação ao GC
hábitos alimentares e hábitos alimentares
Farias et al. 16 Avaliar o efeito da atividade Duração: 11 meses. Descrição: Instrumentos: avaliação Redução: 4,3% na proporção
física programada na duas aulas semanais (60 antropométrica. Variáveis de escolares obesos do
composição corporal dos minutos) com atividade analisadas: IMC, dobras GI; Dobra cutânea tricipital
escolares física durante as aulas de cutâneas, circunferências, (-1,6mm e -1,8mm) e
educação física escolar, percentual de gordura corporal percentual de gordura (1,5% e
baseando-se em atividades e massa corporal gorda e 1,7%) nos meninos e meninas
aeróbias (caminhadas, corridas magra do GI. Aumento: massa
alternadas), jogos esportivos e corporal magra (2,8kg nos
alongamento meninos e 2,4kg nas meninas)
após a intervenção
(continua)

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PROGRAMAS DE ATIVIDADE FÍSICA E ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL EM ESCOLARES 1465

Tabela 2 (continuação)

Referência Objetivo Características da intervenção Variáveis Principais resultados

Fernandes et al. 17 Avaliar o efeito de um Duração: 4 meses. Descrição: Instrumento: registro Redução: 4,81% na proporção
programa de educação atividades lúdico-educativas, alimentar de três dias e de adolescentes que referiram
nutricional na prevalência jogos, teatros de fantoches, avaliação antropométrica. consumir suco artificial na
de sobrepeso/obesidade e cartazes, brincadeiras, músicas Variáveis analisadas: IMC e escola em 2 ou 3 dias
nos hábitos alimentares de e histórias infantis hábitos alimentares durante a
escolares permanência na escola
Ribeiro 20 Verificar o efeito de dois Duração: 4 meses. Descrição: Instrumentos: questionário Aumento: tempo de prática
programas de intervenção no GI1 – um encontro semanal desenvolvido para o estudo de esportes/exercícios físicos
NAF em adolescentes da rede com debates, discussões, e avaliação antropométrica. após a intervenção do GI1
pública de ensino dinâmicas, vivências práticas Variáveis analisadas: IMC, (359,4 minutos/semana) e do
para promover atividade prática de atividade física e GI2 (606,4 minutos/semana);
física no cotidiano; GI2 – duas comportamento sedentário tempo de prática de atividade
sessões semanais de atividade física total após a intervenção
física programada compostas do GI1 (380,2 minutos/semana)
por exercícios aeróbios, de e do GI2 (605,8 minutos/
força e flexibilidade semana)

IMC: índice de massa corporal; IPAQ: Questionário Internacional de Atividade Física; GC: grupo controle; GI: grupo intervenção; GI1: intervenção sem prática
de atividade física; GI2: intervenção com atividade física; NAF: nível de atividade física; NI: não indicado.

intervenção. Esses resultados continuaram ele- confecção de material educativo foram as ações
vados oito meses após o final do programa. Dian- desenvolvidas em grande parte dos programas
te disso, os autores destacam a importância de de intervenção 15,18,19,20,21,23. Vale destacar que,
um trabalho contínuo de educação alimentar e em alguns programas, essas ações de interven-
nutricional dentro das escolas, visando à perma- ção também foram realizadas com professores
nência de hábitos alimentares mais saudáveis e ou funcionários das escolas 15,21,23.
à promoção de conhecimento sobre saúde entre Embora grande parte dos programas aborda-
os escolares 22. dos neste tópico 15,18,19,20,21,23 tenha focado suas
Outros programas evidenciaram a importân- ações de intervenção tanto na promoção de ati-
cia das ações de intervenção para o desenvolvi- vidade física (passeios de bicicleta, olimpíadas
mento do conhecimento alimentar e de atitudes escolares e jogos esportivos) quanto na alimen-
mais saudáveis entre os escolares, como parte de tação saudável (dinâmicas e jogos educacionais),
um processo cognitivo: o aumento significativo três estudos apresentaram resultados relaciona-
(p < 0,05) do nível de conhecimento dos estudan- dos a somente um destes comportamentos; dois
tes acerca de hábitos alimentares saudáveis (as apresentaram apenas os resultados relacionados
pontuações obtidas com o preenchimento dos à atividade física 15,20, enquanto outro estudo fo-
questionários não foram apresentadas no estu- cou seus resultados nos hábitos alimentares e no
do) 12 e o aumento da porcentagem de escolares estado nutricional 19.
que consomem mais frutas no cotidiano após a Um dos programas de intervenção 15 que
intervenção (21,6% e 10,5% entre meninos e me- analisaram sua efetividade em fatores da ativida-
ninas, respectivamente) 13. de física foi realizado em duas cidades brasileiras
(Florianópolis e Recife), e teve a participação de
Programas de intervenção focados na prática 474 escolares (515 no GC), de turmas de ensino
de atividade física, alimentação saudável médio do período noturno (considerado grupo
e/ou estado nutricional de risco para hábitos inadequados). Para tanto, o
programa teve a duração de nove meses e desen-
Os programas de intervenção que focaram a pro- volveu ações de intervenção como a divulgação
moção da prática de atividade física, alimentação de pôsteres temáticos, cartilhas para discussões
saudável e/ou estado nutricional utilizaram, de em sala de aula e oportunidades ambientais or-
maneira geral, ações de intervenção semelhan- ganizadas como passeios de bicicleta, dia da fru-
tes às dos estudos apresentados no tópico ante- ta e kits de educação física para as escolas (US$
rior; jogos e dinâmicas, apresentação de vídeos e 500 para cada colégio adquirir materiais e equi-
palestras com os escolares, e a distribuição e/ou pamentos selecionados pelos estudantes e o pro-

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1466 Souza EA et al.

fessor de educação física). Após a intervenção, Apenas dois programas de intervenção pro-
os escolares do GC acumulavam 60 minutos ou moveram a prática regular de exercícios físicos
mais de atividades físicas moderadas/vigorosas como ações de intervenção 16,20. Um desses pro-
em menos dias da semana, quando comparados gramas 20 foi realizado em São Paulo e teve o pro-
aos do GI (2,6 vs. 3,3 dias/semana; p < 0,01). A pósito de verificar o efeito de dois tipos de inter-
proporção de estudantes que atingiam a reco- venção no nível de atividade física de 69 adoles-
mendação de atividades físicas (≥ 5 dias por se- centes (21 no GC). A intervenção teve a duração de
mana com 60 minutos ou mais de atividade física quatro meses, sendo constituída por dois grupos
moderada/vigorosa) diminuiu nos dois grupos, de intervenção: (1) grupo educação em atividade
no entanto, a intervenção foi efetiva em minimi- física e saúde: realizou encontros semanais com
zar estas reduções no GI (GI: 41,1 para 33,1%; GC: duração de 60 minutos cada, para discutir sobre
37,7 para 23,7%; p < 0,01). Contudo, a efetividade atividades físicas e estilo de vida; (2) grupo exer-
dessa intervenção em comportamentos e fatores cício físico: participou de duas sessões semanais
relacionados à alimentação saudável e ao estado de exercícios físicos estruturados, com duração
nutricional não foi abordada neste estudo 15. de 60 minutos e consistiu de exercícios aeróbios,
Vale destacar o programa de intervenção rea- de força e de flexibilidade. Após a intervenção,
lizado com 995 escolares (1.146 no GC) da Cida- houve aumento significativo no tempo semanal
de de Pelotas 23, que analisou sua efetividade em despendido em esportes/exercícios físicos (302,6
quatro importantes fatores da saúde: atividade para 662,0 minutos/semana; 463,2 para 1.069,6
física, alimentação saudável, estado nutricional minutos/semana) e na prática de atividade física
e consumo de cigarros. A intervenção foi base- total (430,0 para 810,2 minutos/semana; 581,2
ada no treinamento dos professores (palestras, para 1.187,0 minutos/semana) entre os escolares
discussões e vídeos ilustrativos), com enfoque do grupo educação em atividade física e saúde, e
principalmente no tabagismo, e distribuição de do grupo exercício físico, respectivamente. Já os
material didático para as escolas do GI a ser utili- escolares do GC mantiveram sua prática habitual
zado pelos professores nos seis meses seguintes. de atividade física 20.
É relevante o fato de que, mesmo após essa in-
tervenção, não foram observadas melhorias sig-
nificativas nos conhecimentos e atitudes sobre Discussão
alimentação, no IMC e no nível de atividade física
dos adolescentes, sendo verificados resultados Esta revisão sistemática verificou que existem
significativos somente com os professores (au- poucos estudos científicos publicados nos últi-
mento do conhecimento acerca do tabagismo e mos cinco anos sobre programas de intervenção
redução do fumo e do consumo de gordura). A em promoção da saúde relacionados à atividade
falta de efetividade dessa intervenção na prática física e/ou hábitos alimentares em escolas bra-
de atividade física e na alimentação dos escolares sileiras. Apesar de países norte-americanos e
pode ser parcialmente explicada pela ênfase das europeus produzirem diversos estudos 8,24,25,26,
ações de intervenção nos comportamentos rela- principalmente Estados Unidos, Inglaterra e
cionados ao tabagismo 23. França, revisões sistemáticas recentes 8,27 tam-
Em contrapartida, outro programa de inter- bém ressaltaram a pequena quantidade de traba-
venção 18 que focou sua efetividade no conheci- lhos publicados sobre esse tema, mediante a sua
mento e atitudes relacionadas à atividade física e relevância para a saúde pública 4,28.
alimentação, bem como na melhoria do estado Nesta revisão, também se observou que, em-
nutricional, verificou que 82,4% dos escolares re- bora os estudos possuam objetivos similares, ou
lataram maior interesse para a adoção de uma seja, buscam avaliar o efeito de programas de
alimentação mais saudável, e 83,8% disseram intervenção sobre aspectos relacionados à saú-
estar mais animados para a prática de ativida- de de escolares, há grande diversidade acerca da
de física, após os quatro meses de intervenção. população investigada (localização geográfica,
Também foram identificadas mudanças signi- faixa etária, tipo de escola, número amostral), da
ficativas nos hábitos alimentares dos escolares metodologia de intervenção utilizada e das variá-
do GI: aumento da proporção de estudantes que veis analisadas, o que dificulta a comparação dos
relataram não consumir lanches vendidos por resultados encontrados e suscitam questões rele-
ambulantes (36,7% vs. 50,6%; p = 0,02) e que não vantes acerca da promoção de atividade física e
substituíam o almoço (44,5% vs. 65,2%; p < 0,01) alimentação saudável nas escolas brasileiras.
e o jantar (38,4% vs. 54,3%; p < 0,01) por lanches. Quanto à localização geográfica, a maioria
Contudo, esse programa de intervenção também dos estudos (84,6%) foi realizada nas regiões Sul
não foi efetivo para ocasionar mudanças positi- e Sudeste do país. Esse fato pode ser reflexo das
vas no estado nutricional ou no IMC 18. diferenças no desenvolvimento socioeconômico

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PROGRAMAS DE ATIVIDADE FÍSICA E ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL EM ESCOLARES 1467

entre as regiões do Brasil. Estudos e intervenções Quanto ao foco das intervenções, 46,2% dos
necessitam de investimentos e pesquisadores estudos intervieram somente em alimentação,
qualificados para serem executados. A produção 7,7% apenas em atividade física, e outros 46,2%
de instrumentos de avaliação e de intervenção intervieram em ambos os comportamentos; es-
(cartazes, cartilhas, fôlderes), a aquisição de ma- tas características dificultaram a análise mais
teriais para mensurações físicas e a capacitação complexa dos resultados destes estudos. Outros
de profissionais para atuação em campo aumen- fatores que dificultam a comparação entre os
tam o custo das intervenções, podendo limitar estudos e a generalização dos resultados encon-
a duração, o número amostral, o local e a qua- trados são: a falta de, ou a descrição insuficiente
lidade metodológica da intervenção 29. Alguns quanto ao processo de seleção e o número amos-
trabalhos citam ainda a importância de parcerias tral, a distribuição não aleatória entre os GI e GC
entre instituições de pesquisa e apoio de órgãos e, em alguns casos, a própria falta de GC e de pa-
governamentais para que as intervenções pos- reamento quanto a variáveis intervenientes.
sam abranger um maior número de participan- Além disso, outras variáveis relacionadas à
tes e estender suas ações aos professores, aos prática de atividade física e hábitos alimentares,
familiares e à comunidade 21,23,30. como comportamento sedentário, condições
A maior parte das intervenções foi realizada socioeconômicas e comportamento familiar,
em escolas públicas (76,9%), possivelmente de- foram analisados em poucos estudos ou não
vido à perspectiva de atenderem à população de foram avaliados. O IMC e o nível de atividade
baixo nível socioeconômico; a baixa educação e física (NAF) também não foram investigados em
renda familiar têm sido associadas com o desen- todos os estudos, sendo estas duas variáveis de
volvimento de padrões comportamentais espe- suma importância para análise dos impactos de
cíficos que aumentam os riscos de obesidade e programas de intervenção 28,36,37 em promoção
DCNT 31,32,33. Entretanto, apesar do tipo de es- da saúde. Essas variáveis foram analisadas si-
cola (privada ou pública) poder ser usado como multaneamente em apenas três estudos 12,20,23,
variável de aproximação para o nível socioeco- enquanto a maioria 12,13,14,16,17,18,19,22 analisou
nômico, é importante que estudos futuros inclu- somente o IMC.
am dados sobre a condição socioeconômica da O IMC é uma medida de fácil aplicação em
população estudada. Apenas três trabalhos desta estudos populacionais, mundialmente aceito
revisão reportaram a condição socioeconômica como indicador antropométrico de desnutrição
de seus participantes 14,16,23. e de sobrepeso/obesidade 38,39,40. Contudo, dos
Ao analisar o período de intervenção dos es- oito trabalhos que utilizaram o IMC como indi-
tudos desta revisão, observou-se que 50% das cador antropométrico, apenas um 16 apresentou
intervenções tiveram duração inferior a seis redução na proporção de obesidade como um
meses. Apesar do curto período de intervenção, resultado significativo das ações de intervenção.
alguns programas encontraram importantes re- O NAF é um indicador quantitativo da ativi-
sultados; como exemplo, Gabriel et al. 13 veri- dade física habitual e pode ser estimado usan-
ficaram na escola privada redução significativa do-se diversos métodos (questionários, moni-
dos porcentuais de bolachas recheadas trazidas toração da frequência cardíaca, acelerômetros
de casa pelos meninos e, na escola pública, o e pedômetros), de acordo com a viabilidade de
aumento significativo do consumo da merenda cada estudo. Iniciativas de promoção da saúde
escolar e da aceitação de frutas, após os dois me- deveriam objetivar o aumento do NAF de ma-
ses de intervenção. Por outro lado, programas de neira sustentável 41. Alguns programas interna-
maior duração (seis meses) 12,22,23 encontraram cionais de intervenção em escolas observaram
pouca efetividade das intervenções realizadas na melhoras significativas no NAF durante as au-
prática de atividade física e na adoção de hábi- las de educação física 42 ou na vida diária 25,27,43,
tos alimentares saudáveis. Dessa forma, é com- principalmente em subgrupos de maior risco ao
plexo afirmar, pelos resultados dos programas sedentarismo 44.
aqui apresentados, a influência do período da A mudança nos hábitos alimentares foi um
intervenção sobre os componentes relacionados dos resultados mais reportados pelos estudos
à saúde dos escolares, visto que a efetividade das com foco na alimentação saudável 11,12,13,14,17,22,
intervenções foi independente da duração dos pela diminuição do consumo de alimentos com
programas. No entanto, a literatura recomen- alto valor calórico e/ou aumento da ingestão de
da que programas de promoção com mudan- frutas e verduras. Uma revisão dos programas de
ças sustentáveis no estilo de vida de crianças e intervenção nutricional de diferentes países 45
adolescentes tenham duração prolongada, pro- também relatou importantes mudanças de hábi-
piciando aos participantes maiores benefícios tos alimentares utilizando-se programas de edu-
com o programa 34,35. cação nutricional.

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1468 Souza EA et al.

Dos estudos que tiveram atividade física e ali- a educação física escolar é obrigatória 50. Na
mentação como foco da intervenção, um identi- mesma direção, a alimentação escolar é ofer-
ficou o aumento no tempo semanal de atividade ecida gratuitamente em grande parte das esco-
física 20, enquanto os demais estudos mostraram las públicas do país, o que poderia ser melhor
resultados bastante diferenciados, a saber: redu- aproveitado para a promoção de hábitos alimen-
ção da falta de vontade e falta de energia para prá- tares saudáveis 13,17. Entretanto, algumas bar-
tica de atividade física 18, redução da inatividade reiras (profissionais desmotivados e/ou despre-
física no grupo intervenção 15, não substituição parados, falta de recursos financeiros, físicos e
do almoço e jantar por lanches 18, e a melhoria materiais, e estrutura curricular desatualizada)
dos hábitos e informações sobre alimentação precisariam ser superadas para que as escolas
18,19,21. Um programa 46 que investigou os efei- ofereçam uma educação física e alimentação
tos de intervenções combinadas com atividade de qualidade e em sintonia com os objetivos da
física e alimentação em 522 escolares chilenos promoção de saúde 50. Nesse contexto, a esco-
verificou, após cinco meses de intervenção, ten- la pode surgir como um ambiente privilegiado
dência na diminuição da obesidade entre os pré- para o desenvolvimento e a aprendizagem de
escolares e uma melhora significativa da aptidão competências em saúde como um conceito es-
física por meio do teste de corrida (6 minutos). truturador, incluindo também o envolvimento
Gorely et al. 25 também focaram sua pesquisa na de diversos níveis de gestão, a formação de pro-
atividade física e na alimentação, e verificaram fessores, e adaptações curriculares, ajudando a
o aumento do NAF e do número de passos diá- definir uma política sustentável para a saúde na
rios após onze meses de intervenção. Mesmo não comunidade escolar.
tendo encontrado alteração no consumo de fru- Por fim, é também fundamental que as inter-
tas e vegetais, os autores consideraram benéficos venções realizadas sejam sistematizadas, acom-
os efeitos de programas que utilizam a atividade panhadas e avaliadas, e seus resultados dissemi-
física e a alimentação como estratégia para mu- nados. Apesar das dificuldades de natureza ope-
dança no estilo de vida e prevenção da obesidade racional envolvidas nesses processos (dificuldade
em crianças e adolescentes 25. para medir comportamentos e fatores da saúde,
A atividade física programada tem sido um selecionar uma população-controle semelhante
dos procedimentos mais empregados para o à população-alvo, acompanhar as mudanças
tratamento da obesidade. Vízcaíno et al. 47 ve- graduais e em longo prazo, dentre outros), a su-
rificaram redução na adiposidade (IMC e dobra peração possibilitará determinar quais as ações
cutânea tricipital) de 513 crianças após seis me- de intervenção podem ser mais efetivas no con-
ses em um programa de intervenção em ativida- texto brasileiro.
de física (três aulas de 90 minutos por semana).
Outro estudo 24 também verificou melhora na
composição corporal, principalmente entre as Conclusão
crianças que apresentavam obesidade. Não obs-
tante, trabalhos prévios que enfatizam a prática As elevadas taxas de obesidade, atividade física
de atividade física como ações de intervenção insuficiente e má alimentação em crianças e ado-
para crianças e adolescentes obesos, também lescentes brasileiros representam uma oportuni-
mostraram melhoria na composição corporal dade para a realização de intervenções que bus-
destes indivíduos 47,48,49. Contudo, deve-se sa- cam a modificação deste quadro e a promoção da
lientar que os mecanismos de ação e otimização saúde. Entretanto, essas ações, mesmo que este-
dos programas de atividade física necessitam jam sendo desenvolvidas, não são devidamente
de melhores esclarecimentos devido às diver- documentadas e avaliadas. Os poucos estudos
gências encontradas (intensidade e duração do publicados de intervenção em atividade física e
exercício, protocolos de avaliação antropométri- alimentação saudável em escolares, bem como
ca e composição corporal) entre os diversos estu- algumas deficiências metodológicas entre os pro-
dos 48. Nesta revisão, os trabalhos que promo- gramas de intervenção, dificultaram a avaliação
veram a prática regular de atividade física como da efetividade destas ações. Entretanto, todos os
ações de intervenção evidenciaram melhoras trabalhos nesta revisão reportaram alguma alte-
principalmente na composição corporal 16 e na ração positiva após as intervenções, mesmo que
prática semanal de atividade física 20 entre os não estatisticamente significativa, demonstran-
escolares. do a potencialidade destes programas para a pro-
Existem fortes evidências mostrando que a moção de uma vida mais saudável.
educação física escolar pode ser uma estratégia Espera-se que os resultados apresentados e
efetiva para aumentar a atividade física entre as críticas produzidas nesta revisão sirvam para
estudantes 20, principalmente no Brasil, onde estimular a sistematização e publicação de infor-

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PROGRAMAS DE ATIVIDADE FÍSICA E ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL EM ESCOLARES 1469

mações e a melhora da qualidade metodológica mais evidências científicas que auxiliem a ob-
de pesquisas sobre programas de intervenção em tenção de maior qualidade de vida e saúde na
saúde nas escolas, produzindo eventualmente população brasileira.

Resumo Colaboradores

Este artigo é uma revisão sistemática da literatura so- E. A. Souza elaborou a proposta do estudo, participou
bre intervenções em atividade física e/ou alimentação de todas as etapas das análises de dados, interpretação
saudável em escolares brasileiros. Estudos comple- e discussão dos resultados, foi responsável por toda a
tos publicados entre 2004 e 2009 foram buscados nas revisão bibliográfica e pela elaboração de todas as ver-
bases eletrônicas SciELO, MEDLINE e no portal da sões do manuscrito. V. C. Barbosa Filho participou da
CAPES, nas referências dos artigos encontrados e por elaboração da proposta do estudo, colaborou no geren-
contato com autores. Seis estudos focaram a interven- ciamento dos dados e em todas as etapas da análise dos
ção nos componentes alimentares, outros seis trataram dados, na discussão dos resultados e na revisão de todas
tanto da alimentação quanto da prática de atividade as versões do manuscrito. J. A. D. Nogueira revisou o
física, e um estudo focou modificações na composição trabalho desde a sua concepção até as fases de análise e
corporal. As intervenções tiveram resultados diversos redação. M. R. Azevedo Júnior colaborou na elaboração
de acordo com seus objetivos: aumento da quantida- na revisão crítica do conteúdo e na aprovação da versão
de semanal de atividade física; melhoria dos hábitos e final do artigo.
conhecimentos sobre alimentação; e redução da preva-
lência de sobrepeso e obesidade. Programas de promo-
ção da saúde nas escolas são fundamentais para au-
mentar a conscientização sobre a importância da pro-
moção da saúde e para a adoção de hábitos saudáveis.
Entretanto, há a necessidade de mais estudos longitu-
dinais que gerem evidências sobre a sustentabilidade
dos programas e dos hábitos saudáveis desenvolvidos.

Atividade Física; Nutrição em Saúde Pública; Estu-


dantes

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 27(8):1459-1471, ago, 2011


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