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1~ 9 6 . Ç , J . g

DEDALUS-AceNo-FE

IIIIUIDIIII .Ir

C HR ISTIAN

C(,b

LAVAL

A Escola não é uma empresa

o neo -liberalismo em ataque ao - ensino público

64655

editora

PLANTA

INTRODUÇÃO

A esco l a v i ve um a c ri se c r ô ni ca, d a q u a l um a a bund a nt e li terat ur a a pr ese nta re g ul a rm e nt e o qu a dr o c líni co. Tr a t a - se d e um a crise d e l eg itimidade , se m dúvid a . D es d e as c r í ti cas soc i o l óg i cas e

po l ít i cas qu e m os tr a r a m a f a c e esco ndid a d a esco l a - se l eção so ci a l, sub mi ssão dos es pírit os à ord e m es t a b e l ec id a - a t é as c ríti cas lib e r a i s que a a t a c a r a m por s ua f a lt a d e e fi cá ci a f r e nt e ao d ese mpr ego e à i novação , a es cola não é m a i s s u s t e nt a d a pe l o g r a nd e di s cur so prog r ess i s ta d a e s cola r e public a n a, h o j e e m di a s u s p e it a d e se r um

m i to inútil .

co nh ec im e nto, v e lha her a nç a d as Lu zes, passa co m o um a id é i a obso l e t a . Ligada a um a mut a ç ão qu e ultr a p assa d e l o n ge a p e n as o qua dr o in s t i tuciona l , e ssa cri se tom a múltipl as f o rm as. O s pr o f esso re s e xe r ce m um ofíc i o que perdeu muito d e se u s b e n e fí c i os s imb ó lic os e de suas va nt ag en s m a t e ri a i s r e l ativ a s. A massif i caçã o e s c o l a r não de s e mbocou na g ran de mest i çagem s oci a l, no r e in o d a m e ritocraci a h a rm o ni osa. A s dificuld a de s d e muit os esta b e l ec im e nt os c o m f o rte r e c rut a m e nt o p o pul a r fo ram ag r avadas po r p o líti cas lib e r a i s que a c e n t u a r am a m a r g in a li zação de fr a çõe s importantes d a popu l ação e a umento das des i g u a ld ades q u e a fet a m d e mu i ta s forma s o

funci o n a m e nto da e s cola .

Na cultur a

d e m e r ca d o,

a e m a n c ip a ç ão pel o

I X

A ESCO L A NÃO É UMA EM P RESA

Qu a n to ao as p e ct o educativo em si m es m o, e le se torno u mais

difí c il d ev id o às t r a n s form a çõ es sociai s e c ul t u ra i s maio r es: com a ext in ção p r ogressiva d a r e pr o dução diret a dos ofícios e dos luga r es

n as fa míli as até o peso , ca d a v e z mais decisiv o , da indúst r ia da míd i a n a soc i a li zação inf a ntil e a dolescente , p assando pe l a in ce rt eza c r esce nt e qua nt o à va lidad e dos prin c ípi os no r mativos h e rd a d os , ass i ste-se a um pro fund o qu es ti o n a mento d as r e l ações de t r a n s mi ssão e ntr e ge r ações .

O di scurso m a i s c o rr e nte sustent a q u e o con jun to dessas

te nd ê n c i as e desses s int o m as re c lama um a "r e f o rm a" n ecessár i a da

es c o l a , p a n acéia, ao m es mo tempo qu e f ó rm u l a mág i ca , q u e faz ge r a lm e nt e pap e l d e r e fl e xão . Mas, uma "ref o rm a" p a r a co n st r u i r q u e tip o d e esco l a e u m a es col a d e stinada a qu e tip o de soc i e d ade? As pr opos t as at u ais m a i s es t e r e otipadas so br e a " r e f or m a" n ão co n st itu e m m ais um a e t a p a no caminh o d a t ra n s f o rm ação soc i a l , m as um e l eme n to imp os t o a pen as p e l a pr eo cup ação gest i o n á ri a de co lm a t age m imed i a t a o u a inda objet o d e um est r a nh o cu l to d a " in ovação " po r e l a m es m a , s e parada de toda a p osta po líti ca c l ara. N o e n tanto , é prec i so se es forçar para ultr a p assar as c rít icas d a bri co l age m inova d o r a e d a reforma incessant e e se co l oca r a segu i nte q u estão: n a sér i e de m e did as e contramedid as qu e a f etam a o r de m esco l a r , n os r e l ató ri os o fici a is que estab e lec e m os diag n óst i cos d a c ri se, n a o pini ão d os a dministradore s e d os go v er n a n tes, n ão h ave ri a um a ce rta id é i a d a e s c o la, um mod e lo n ovo d e e du cação q u e, co n sc i e nt e m e nt e o u nã o , o s atuais promotore s d a r efo rm a t e nd e m a t r a du z ir n os f a t os , f az endo aparecer uma c e rt a id eo l og i a p a ra a f a t a lid a d e e f aze nd o d e um a certa concepçã o um a r ea lid a d e qu e e l es

qu e ri a m que f osse "incontornável"? Nós mantemos

pr i ncipa i s transfor m açõe s que afetaram o ca m po educat i vo nesses ú lti mos d ecênios - m as se e ncontrari a t a mb é m essa mut ação em o u tros ca m pos socia i s - é a monopolização pr og r ess i v a p e l a i deo l og i a n eo lib e r a l d o di s cur so e d a dinâmica reformador a.

aqui qu e um a d a s

x

Introdução

A vertente neoliher a l da escola

O p ri me ir o ob j et i vo dessa obra consis t e em trazer à l uz a nova or d e m escolar q ue te nd e a se im por tanto p e l as reformas sucessivas q u a nt o p e l o s dis c ursos d o min a n tes; te nd e a f aze r a p a r e c e r a l óg i ca q u e s ub e nt e nde a s mudança s pr of und as d o e n s in o . S e m dúvid a j á são co nh e cidos alguns dos e l e m e n t o s desse n ovo m o delo e p e rce be-se m e lh o r, graça s a trab a lh os ca d a vez m a i s num e r os o s , a s t e nd ê n cias soc iai s , culturais, polític as e eco n ô mi cas qu e dobrar a m o s i ste m a esco l a rl . Mas, não se v ê se mpr e mui to b e m o q u a dr o n a s u a tota lid a d e, c o m s u as coe r ê n cias e suas in coerê n c i as. É o q u e n ós tenta m os f az er a qu i , jun ta nd o as peças de u m q u e b ra-cabeças. Pa r a s e a t e r a a l g um as f i g ur as d o d i scu r so do m i n a n te , n ós deve m os nos perg un ta r q u a i s r e l ações t ê m u mas co m as o u t r as as im age n s d a cria n ça- r e i , d a e m presa d i v ini zada, do ge r e n c i a m e nt o e du ca ti vo, d o e sta b e l ec i me nt o desce n t r a li zado, do pe d agogo n ão dir et i vo, d o a va li a d o r c i e ntífi co, d a fa míli a co n s umid o r a. E ssas re l ações são po u co v i síve i s à pr im e ir a v i s t a. A co n st ru ção dessas f i g ur as , s u as lóg i cas e se u s a r gu m e nt os são di ve r sos. R e l ac i o n a nd o , e ntr e t a nt o , algu m as d as prin cipa i s e v o lu ções d esses úl t im os v int e a n os, qu e r se trate d a l óg i c a g er e n c ial, d o co n su mi s m o esco l ar o u d as p e d agog i as de i n s pir ação individu a li sta, r e l ac i o n a nd o - as t a nt o às transfor m ações eco n ô mi cas qua n to às m u tações c ultur a i s qu e a fetara m as so ci e d a d es de m ercado, é p ossív e l pe r ce b e r p o r qu e e como a in s tituiçã o esco l a r se ada pt a se m pre mais ao co n ce i to d e esco l a ne o liberal, cuj a c o nfi g ur ação ge r a l n ós q u e r emos aq ui tr aça r . A es cola ne o lib e r a l d es i g n a um ce r to mo d e l o esco l a r qu e cons id e ra a educação com o um b e m esse n c i a lm e nt e priv a d o e c uj o va l o r é , antes de tudo, ec o n ô mi co. N ão é a soc i e d a d e qu e ga r a nt e a

1 . Cf . em particular os trabalhos pioneiros de Nico H1R1TT com Gerard de SÉLYS, Tableau noir, Résister à Ia

privatisation de l'enseignement, Er O, 8ruxelles, 1 99 8. Les Nouveaux Maftres de l'école, ErO VO éditions,

8ruxelles, 2000 ; e L:École prosnruée, Éditions Labor, 8ruxelles, 200 1 . C f . 19unlmeme as obras de Yves CAREIL, De l'école publique à l'école liberale, sociologie d'un changemem, Presses universitaires de Rennes, 1998 e École libérale, école inégale, Nouveaux Regards/Sylle1JSe,Paris, 2002.

Xl

A E SCOLA

N ÃO É UMA

EM PRE S A

m e m bros um dir e it o à c u l t ur a , são os indiv ídu os q u e

fu t ur o se r á

ga r a ntid o pe l a soc i e d a d e. Essa pri va tização é u m fenô m e n o q u e afeta

t a nt o o sentid o d o sab e r , as in s titui ções

d os co nh ec i me nt os qu a n to as pr ó prias r e l ações soc i a i s. À a f irmação

da a ut o n o mi a

se m a m a rras , exc e t o

aq u e l as

in s titui ções q u e n ão pa r ece m

q u e r e m

m a i s t e r ou tra r azão d e se r qu e o

to d os os s eus

d e v e m cap i ta li za r r ec ur sos pri va d os c uj o r e ndime nt o

tra n s misso r as d os va l o r es e

p l e n a e int e ir a d e indiví d u os

e l es p r óp ri os

que

reco nh ece r ,

cor r es po n d e m

se r v iç o dos in te r esses partíc ul a r es-. E ssa co n ce p ção in s trum e n tal

lib e r a l , ac r ed i ta-se, está li gada a um a tra n s f o rmação muit o mai s ge r a l

d as s o c i eda d es e da s eco n o mi as ca pit a l i stas. M a i s pr ec i sa m e nte, du a s

t e ndên c i as se mistur a m pa r a f aze r d a esco l a um trun fo (ap osta ,

e

lntroduçdo

o s i ste m a f i sca l favoráv e l à s

empre s a s, a fraqueza do d ir e it o soc i a l e d os s i nd i catos e o preço das

mat é rias -primas, se tornou um "f a tor d e atratividade" dos capita i s

cuja impo r tân c i a c r esce n as es tr a t ég i as "g l oba i s" d a s e m p r esas e nas

a lib e rdade de cir c ul ação f in ance i r a,

p

o lít i cas de a d a pt ação d o s gove r no s. A e s se títul o , e l a se t o rn a e ntre

o

u t r os u m " indicado r d e c ornp e titi ví d a d e " d e um s i s t e m a eco n ôm i co

e

soc i aP. As re f o rmas li be r a i s d a e du cação são , p o r ta n to, dupl amente

g

ui a d as p e l o p a p e l c r escente do sa b e r n a a tivid a d e eco n ô mi ca e p e l a s

restrições impostas pe l a co mp e ti ção s i s te m át i ca das eco n om i a s . As

reform as que, em esca l a mun d i a l , p r es s ionam pa r a a

desc e ntra l ização, p a ra a pa dr o ni z a ção dos m étodo s e dos co nt eúdos,

c

a pital) m a i or d e c i vili zação e um lu ga r d e muit o f o r tes tensõ e s.

para o novo "gerenc i ame n to" d as esco l as, pa r a a "prof i ss i o n a li za ç ão"

Ini c i a l me nt e , a ac u m u l ação d e cap ita l r e p o u sa cada vez m a i s

dos pr o fessores, s ã o funda m e n t a lm ente

" competitivity-cen tr ed"4 . A

n

as capacidades d e in ovação e d e f o rmação d e m ão-de - o b ra,

escola que an t ig a m e n te

e n co n trava

se u centro de grav id a d e

não

p

o rt a n to em est rutur as

d e e l a bor ação,

de ca n a lização e d e difu são

d

os sab ere s a i nda a m p l a m e n te

a ca r go d e ca d a E s t a d o n acio n a l . Se a

e

fic ác i a econôm ic a

s u põe um d o mín i o c i e ntíf i c o c r esce n te e um a

e

l e v ação do nív e l c ul t ur a l d a m ão- d e - o br a ,

ao m e s m o t empo,

pe l o

p

ró pri o

fato d a e xpa n são

da l óg i ca

da ac umul ação,

o c u sto

co n se n t i do p e l os o r ça m e n tos p úbli cos deve se r min imi za d o po r um a

d e e n ca r gos p a r a as

famíli as. So br et ud o, a d espesa e du ca tiva deve se r "re n táv e l " p a r a as

e mpr esas u t ili zado r as d o "ca p i t a l h um a n o".

A g l o b a l iz a ç ão d as eco n om i as r e f o r ça e infl e t e essa pr i m e i r a

te nd ê n c i a . A ed u cação, da m esm a f o rma que a estab ilid a d e po lítica,

r eo r ga ni zação i nt e rn a o u po r um a t r a n sfe r ê n c i a

2. A concepção eU,mi,ulI1te da educação tetn uma dupla eUmensão: é ao mesmo tempo ",duarista segunda a idé",

de que ela ckl saber, e l.beral no modo de ()rgan.~ação da escola. Se a escola é um msrnnnento de bem-estar

econômico é porque o conhecimenw é visro como wna ferramenta CJue serve um interesse mdividual ou uma soma

de interesses úu1ividuais. A instituição escolar lXlTece s6 existir para [omecer às empresas o caPital humano que

essas necessitam.

conhecimento é IJrimeiramellle, mesmo essencialmente, um recurso privado que engendra Tendas

e proporciona [)osições sociais vantajosas, deduz-se facilmente que a relação educatwa deve ser regida por Ulna

relação do Cl/ )() mercantil ou deve ao menos I mH ar o modelo do mercado.

Mas é, de modo complementar, l.beral pelo lugar que ckl ao merenda educarivo. Se °

mais importantes

XII

soment e no va l or p r of i ss i o n a l m as també m no va l or soc i a l , cu l tura l

de r e s to, de m ane i ra

muito diferente s e g un do as co r rentes

or i enta da, p e l a s r efo rm as em c ur so, para ob j et i vos de

está

e político do saber, va l or q u e e r a in terp r e t ado,

po l í ti cas e i deo l óg i cas,

comp e titividade q u e p r eva l ece m n a eco n o mi a g l oba li za d a . Deve-se

medir bem a r u pt u ra q u e s e ope r a. A esco l a, n a co n cepção

as t e nd ências

repub lica n a,

di s p e r s i vas e anô mi cas de soc i edade s oc id e n ta i s ca d a vez m a i s

de

intere ss es pa rti cu l a r es . E l a e r a pri n c i pa l me n te vo l t a da à fo rm ação do

cidadão, m a i s d o qu e à s at i s f ação d o u s u ár i o, do c li e n te, do

co n s umid o r. O qu e aco nt ece, inv e r sa m e nt e,

cada vez m a i s qu es t i o n a d a p e l as dif e r e nte s f o rm as de p ri va ti zação e

ass im q u e essa esco l a é

mar c adas pe l a espec i a li zação p r of i s s i o n a l e a dive r gê n c i a

era o lu ga r qu e dev i a co ntr aba l a n ça r

u e e l a se r e d u z a pr o duz ir u m " ca p i t a l hu m a n o "

q

co mp e tit i v i dade d as econo mi a s re g i ona i s e nac i o nai s ?

p a r a m a n te r

a

3. Cf. Annie V1NOKUR,

"Monaialisation du capital er reconfiguration des systêmes éd"catifs des espaces

dominés" I Informariam er commenraires, nº 118, janejro~nUlrço 2002.

4. Marr", CARNOY, Mondwlisation e. réforme de I'éducatlon : ce que les planificare"" eU"vent saoorr. Unesco,

/ 999 .

XIII

A ESCO LA NÃ O É UM A EMPRE SA

A c o nc e pção de educação que in s pir a h o j e e m di a as

ref o rm as es t á l o n g e de ser somente france sa , e a ind a se tem muit a

tend ê n c ia, qu a nd o é questão de educação, a só c o n s id e r a r os d e b a t es

h

e x ag onais . N ão se m ter integrado certos t r aços pr o pri a m e nt e

n

a ci o n a i s , e l a sa iu e m grande parte da grande o nd a ne o liber a l qu e

p

e n e tr o u

pr o fund a mente, de s de os anos 19 8 0 , as r ep r ese nt a çõ es e as

p

o lí t i cas n os p a í ses o cidentais. A "literatur a ci n za" co mp os t a por

múltipl os r e l a t ó ri os o fici a i s e artigos de e xp e rt s n a Fr a nç a , d eve s er

r e l ac i o n a d a à a bund a nte produção das or ga ni za ç ões int e rn ac i o n a i s ,

" g u a rdi ãs d a o r to d o xia" , se se quer perceb e r co m o a "r e f o rm a d a

es c o l a" n a Fr ança p a rti c ipa da nova ord e m e duc a ti va mundi a l . E ssa

mut a ç ão d a esco l a n ão é o produto de uma e sp é ci e d e co mplô , m as

d e um a co n st ri ção a ind a m a is e ficaz uma vez que n ão h á n e m m esmo

div e r sas i nstânc i as r es p o nsáveis que s e p o d e ri a m f a cilm e n te

id e ntifi ca r ; que o pr ocesso é muito difu so e qu e te m m ú l t ipl as

a

lt e rn â nci as nacio n a i s e int e rnacionais , cuj as r e l ações n ão se vêem

à

prim e ir a vista; q u e e l e s e g ue v ias muita s vezes t éc ni cas e qu e e l e se

c

o b re ge r a l mente d as m e lh o re s intenç õ e s "é tic as". A s o r gan i zações

int e rn ac i o n a i s ( O M C , OCDE, Banco Mundi a l, FMI, Com i ssão

E u r opé i a ) contr ibu e m para essa constri ção tr ans f o rm a nd o as

"constatações", as "avaliações", as "c o mp a r ações" e m m u i tas

ocas i ões d e fab ri ca r um discurso global qu e tir a s u a f o r ça cada vez

m a i s d e s u a ex t e n sã o

planetária . Nesse pl a n o , as o r ga ni zações

int e rn ac i o n a i s, a l é m d e se u poderio financ e ir o, te nd e m a te r , cada

vez m a i s , um pap e l d e centra l i z ação

s imb ó lic a c o n s id e r á v e l . Se as trocas entre sistem as esco l a r es n ão são

n ovas, nun ca h a vi a s id o t ão c laro que um mod e l o h o m ogê n eo p o di a

se to rn a r o h o ri zo nt e comum dos sistemas educ a tiv os n ac ion a i s e que

se u p o d e r d e impo s ição viria justamente

m u n d íalíaado>.

A esco l a neo lib e r a l permanece aind a um a te nd ê n c i a e não

um a r ea li dade aca b a d a. Mesmo s e tr a t a n do ai nd a de uma

a nt ec ip a ç ão , e ssa hipóte s e é necessária à análise d a s tran s f o rm a çõ e s

e m c ur so. El a p e rmit e a tua l i z ar e relacionar a s a v a li aç õ es e p o líti cas

resgatar o se ntid o de pr á ti cas e d e po lí t i cas a p rio ri

co n c r etas,

políti ca e d e n o rm a li zação

de

se u ca r á ter

XIV

Introduç do

di s p a r atadas. "A h i pó t ese a nt ec i pa . E l a p r o l onga a t e nd ê n c i a

fund a m e n tal do prese nt e?", di z i a Hen ri Lefebv r e . De lin ear o n ovo

m o d e l o de escola não s i g nifi ca, n o e n ta nt o, q u e na esco l a de h o j e, e

e spe c i a l mente na Fra nç a , a d o utri na lib e r a l seja, desde j á, tr iunf a nt e.

Esse mod e lo, ao menos quando é expos t o e xplici t a me nt e, continu a

s er recusado por numerosa s p essoa s r e fr a t á ri as à n o va ide o l og i a ,

t a nt o na França como no mund o i nte i ro. Sob outro ponto de v i s t a , se ri a muito s imp l es pen sa r qu e

a

todas as dificuldades da escol a at u a l se j a m devida s à ap li cação d essas

r e f o rm as d e in s piração lib e r a l . P a ra re ssa lt a r a pen as a l g un s

f e n ô m enos m a i s imp o rt a nt es: o a um e n to dos e f et i vos d o co l ég i o , d o

li ce u e da uni v er s id a d e é um a t e nd ê n c i a a n t i ga de nossas soc i e d a de s.

S e é p ossíve l p e n sar qu e e l a d ese m boca h o j e e m um a m ass ifica çã o

m a l p e n sa d a, m a l p re p a r a d a , muit o po u co fin a n c i a d a , n ão é e f e ito d e

um a d outri n a t o d a v olt a d a p a r a r es ul ta d os pr og r a m a d os. A f a lt a de

m e i os, a pe núri a d os pr o f esso r es, a so br eca r ga d as c l asses, s e

t es t e mu nha m sem dú v id a um a l óg i ca d e e mp o br ec im e nt o d os

se r v iç os púb li cos, r e l ac ion a m -se i g u a lm e nt e a um a a nti ga tr a di ção

d as e lit es eco n ôm i cas e polític as q u e, se paga nd o p a l av r as ge n e r osas ,

c o nc e d em mesq uinh a ment e os m e i os f in a n ce ir os qu a nd o se tr ata da

in s titui ção de c r ia nças d as c l asses po pul a r es. M a rc Bl oc h , tir a nd o

li ções das d er r o t as de 1940, o r essa l tava a nti ga m e nt e " . Qu a nto à

c e ntr a l ização bur oc r á ti ca qu e ca r acte ri za a a dmini s tr a ç ão d o es tad o,

el a e n gend r a h á muit o t e mp o um es píri to de cas t a , m a nt é m o

d es pr ezo das esfe r as s up e ri o r es co m r e l ação a u m a b ase jul ga d a

in ca p az o u im óve l , um a ut o rit a ri s m o de c h e f e e um f e ti c hi s m o do

r eg ul ame n to e, n o t o d o, um a ini c i ação ge r a l d os a dmini s tr a d os e do s

fun c i o n á ri os que pode t o rn a r p o r vezes sed ut o r as ce r tas so luçõ es

liber a is extremas. Enfim, e ta l vez so br e tud o , a es c o l a é a tr aves s a da

por um a contradição maior , l o n ga m e nt e e xp os t a p o r num e r o sos

5. Cf. Chrisrian LAVAL e Louis WEBER (eoord.), Le nouvel ordre édueatif mondial, OMC, Banque mondiale, OCOE, Comission européenne, Nouveaux Regards/Syllepse, Paris, 2002.

6.

Henn LEFEBVRE, LQ Révolurion urbaine, Gallimard, Paris, 1970, p. 11.

7.

Mare BLOCH, L'Érrcnge Oéfaite, Gallimard, Paris, 1990, p. 256-257

XV

A ESCOLA NÃO É U MA EMPRESA

a u to re s , e n t r e as as piraçõe s igualitárias de a c o rd o co m o im ag in ár i o

d

e n ossas soc i e d a d es e a divi s ão social e m c l asses, co ntr a di ção q u e

n

ão se d á se m ace lerar a imposição da c o nc e p ção lib e r a l da esco l a

qu e pr e t e nd e so brepujá-Ia e que na realid a d e a ag r ava. A f orça d o

n ovo m od e l o e a r a zão p e la qual e le pouc o a p o uc o s e imp õ e,

r e f e r e m- se pr ec i sa mente à forma como o ne o lib era li s m o s e a pre s ent a

à esco l a e ao r es to d a s o c iedade, como a so luç ão id ea l e univ e r sa l a

t o d as as co ntr a diç õ e s e di s funções, en q u a nt o n a v e rd a d e e sse

r e m é di o a lim e nt a o mal que ele s upo s t a m e nt e cur a. Com a

imp os i ção d esse m o d e l o liberal, a qu es t ão esco l a r n ão é m a i s

so m e nt e o q u e se d e n o mina "problema s oci a l " , e l a t e nd e a se to rn a r

um a que s t ão d e civiliz a ção. Em uma so ci e d a d e co m p o d e r es de

pr o duç ão n o t áve is, o a cesso universal à cul t u ra esc rit a, l e tr a d a,

ci e ntífi ca e t éc ni c a p e l a e ducação públi ca e in s ti t ui ções cultur a i s, se

torn a um a u to pi a irr e aliz á v e l . No entant o , o qu e é p oss í ve l n ão po d e

se r r ea li za d o po r p e l o m e n os dua s ra zõ e s assoc i a d as . A prim e ir a

r e f e r e-se à p r ee min ê nci a d a acumulaçã o d e c a pit a l so br e q u a lqu e r

o utr o fim co n sc i e nt e da so ciedade. Reali za r esse d ir e it o uni ve r sa l à

c ultur a s u po ri a, co m e f e ito, um financi a m e nt o públic o a m p li a d o -

so b a f o rm a de i mp os t o o u de cotizações s oc i a i s - q u e co n t r ad i r i a as

po líti cas li berais d e b a ix a das contribuiçõe s o bri ga t ó ri a , b a i xa q u e

v i sa a a u mentar a d es p e s a privada e a e s t e nd e r a es f e r a m erca n t il e m

d et rim e n to da es f e r a pública. Nesse cont e xto, o dir e i to à ed u cação

n ão p o d e se d eg r a d a r e m uma demand a soc i a l so lví ve l q u e se

d es tin a r á se mpr e m a i s , e de modo muito de s i g u a l, a um a e du ca ç ão

pri va d a. O o utr o

m e r ca nti s e d e di ve rtimentos audiovi s u a i s qu e a pri s i o n a m o d ese j o

s ubj e tiv o n a ga i o l a e s treita do interes s e priv a d o e d o co n s um o. O

livre uso d a merc a doria se torna a forma social domin a nte do praz e r

d os se ntidos e d o espírito. Salvo quando se di s p õe d e um a cé lul a

fam ili a r muito pro t e t o r a , os jovens são f ac ilm e nt e dese n caminhados

p e l a " socí alízaç ã o - a t o mi za ção ' ' merc a ntil d as a l egr i as int e l ectuais e,

em d eco r rê n cia , e ntr a m com mais dificuldad e n a c ultur a tr a n s mi t id a

p e l a esco l a. N a so cied a de de mercado, o con s um o ultr a p assa a t r a n s mi ssão.

limite r e laciona-se à pre ssão d as so li c it ações

XV

I

Introduçclo

Mu t ação ou destruição d a e scola ?

Nossa proposta pre t ende refutar a fa l ac i osa oposição ent r e

imobilistas e reno v a d ores . Pretende, igua l mente, evitar as teses

a l arm i stas e catastróficas, às v ezes n ecessá rias , mas q u e d e sm o bili za m

q u a n do p a recem signific a r q u e a b oa v e lh a es c o l a r e pu b li ca n a

estan d o morta , "tudo es t á pe rdid o" . A e s c o la colo ca qu es t ões

comp l exas que n ã o se sa b e r ia r e du z ir a i te n s simpli s t as o u a

di ag n ós ticos muito r á p idos , so br e tud o q u a nd o e l e s c on c lu e m um

po u co r a pidamente, p e l a morte c línic a . Se e l a e n ga j a o se ntid o d a

vida indivi du a l e co l et i va, se li ga passado e f u t ur o e mi st ur a ge r ações,

a educação públi ca é ta mb é m u m campo d e fo r ças, u m afro nt a m e nt o

de grupos e d e int e r esses, um a l uta co ntín ua de r epresentações e d e

lógicas . As r e l ações d e f o r ça n ão são nem essênc i as n e m f ata lid a d es.

A questão q u e n ós gos t a r ía m os de co l ocar n essa o br a é so br e o

co n teúdo e a din â mic a d o m o d e l o esco l a r q u e se i m põe h o j e e m d i a

nas socieda de s de m e r cado. Tr ata-se de adapta r m e lh o r a esco l a à

economia ca pit a li s t a e à soc i e d ade li be r a l , a d aptação q u e co l oca ri a

cada vez ma i s e m p e ri go a auto n o m ia da I nst i t u ição esco l a r m as que

não a destru iri a, o u b e m a um a di scussão sob r e u m cam inh o m a i s

firme em dire ção à de s trui ção da esco l a como ta l ?

Essa últim a t ese f o i pr oposta por G ill es D e l e u ze e m um a

fórmula no t áve l : " T enta - se n os fazer cre r em uma refor m a da esco l a ,

como uma liquid ação . " 8 Seg u ndo D e l e u ze, nós deixaríamos as

p o r

so ciedades de apri sio n a m e n to e d e "recomeço" a n a li sadas

Mic h e l Foucault, nas qu a i s o indi v ídu o passa , s u cessiva m e n te, p o r

uma sé rie de institui ções d esco n t ínu as ( famí li a - esco l a -indú s tri a -

hosp ital) para entrar n a s s o c iedad es d e c o ntr o l e t ota l e p e rm a n e nt e

nas quais "não se acaba nunc a com nad a " e so br e tud o n ão c o m um

co ntrole co ntí nuo que assegu r a uma f l ex i bi l idade e um a

8. Gil/es DELEUZE, enrrevisUl com Toni Negri, Futur Antérieur, n. /, primovera de /990, retomado em

Pourpor/ers, Éditions de Minuit, Poris, /990, p. 237.

X

V II

A ES C O LA NÃO É U MA EMP RESA

di s p o nibilid a d e

mut a ç ões esco l a r es f o rnece, ve r- s e- a, argume n tos

desescolasiraçõo,

ge n e r a li za d a d as r e l a ções sociais. Não se e stá n o "a pr e ndi za d o

lon go d e t o d a a vida", fórmula doravante ofici a lme n te a dmitida que

ao

ilimit a d a dos dominados .

c uj a t e ndência

é

A a n áli se d as recen tes

só lid os à tese d a

um a pedagogização

para

di z b e m da dil a t açã o d a r e lação pedagógica ? O d ese n vo lvim e nt o d a s

co m o s

t e cn o l og i as d a informação e a individuali zação d a r e l ação

sa

b e r es, n ão são t anto s s inais de um inev itáve l d ec l í n í o d a f o rma

es

c o l a r ? O uni ve r s o do s conhecimentos e o do s b e n s e s erviço s

p a r e c e m se co nfundir,

a qu e l es qu e n ão vêe m mais a razão de ser d a auto n o mia

de sa ber n e m a s i g nifica ção

sep a r a ç ão

universali zação

ch ega d a a é p o c a de um enfraquecimento d a s f o rmas in s titu c i o n a i s

qu e a c o mp a nh a r a m a co n s trução do s espaç os públicos e d os Es t a d os-

d os ca mp os

a ponto de serem ca d a v e z m a i s num e r osos

tanto inte lectu a l

qu a nt o

p o l í tica

d a

escolar

e o d as e mpresas.

d o s indiví du os ,

Co m

a

pa r ece

e ntr e

o mundo

d a c o nexão mercantil

n

ações.

Int ro du ção

r

tra n sformar em uma "o r gan i zação f l exíve l ".

es ul tados e de inovações. A in stituição

é cons i derada

capaz de se

Desvalorização? M es m o se a ed u cação é ma i s do q u e n u nca

reconh ec id a

pro g r es so, só se pode con sta t a r

fin a lidade s de uma in s tituiçã o a t é l á v o lt a d a à tr a n s mi ssão d a c ul t u ra

e à r e pr o dução dos quadr os soci a i s e s imb ó li cos d a socied a de n o se u

conjunto . Os objetivos que se p o d e m di z er " c lássico s " d e

e mancipação

p ara a in s tituição es c o l a r, são s ub s tituíd os pe l os im pera ti vos

prior itários de eficácia pro duti va e de i n serção pr ofissio n a l . Ass i s t e -

se, n o plano d a esco l a, à transmutação p r ogress i va de to d os os

v a l ores em um ún i co v a l o r eco n ôm i co.

de

no s d iscursos

o fi c i a i s como um fato r esse n c i a l

a erosão d os fun d a m e nt os

e das

política e de exp a n são p essoa l que estavam fi xa d os

Desintegração? A in t r o du ção d e meca ni s m os d e me r ca d o n o

d as

un c i onamento

f

da esco l a , at r avés da pro m oção

da "es c o lh a

a mílias", quer di zer, de um a co n ce p ção co n su mid o r a da a ut o n o mi a

f

in

d i vi d ual, pressio n a a d es int egração

d a i n st i t ui ção

esco l a r . A s

 

A d espe i to

d esses s inais mais imp o rta nt es ,

de v e - se, n o

dife r e n tes fo rmas d e co n s um o e du cat i vo r ea li za m , d e m o d o

e

nt a n to,

in terroga r

os limites dessa evolu ç ã o

e m fun ção

de s u as

d

esce nt ralizado e " l eve", um a r epro du ção das d es i g u a l da d es soc i a i s

a

t ese d o d eclí ni o i rr e versív e l da instituição

co i sa d e ilu sór i a e e spec ífica na

e c o n o mi a ca p ita li s t a e das e xigências de ord e m soc i a l ? Se n ós a ind a

n ão est a m os n a liquid a ç ã o brutal da form a esco l a r co m o t a l , n ós

ass i s tim os seg ur a mente a uma mutação da instituição es cola r qu e se

pr óp ri as co n seq ü ê nci a s .

S e e la responde b e m a c er tas t e nd ê n c i as,

esco l a r n ão tem a l guma

visão do s imp e r ativ os fun c i ona i s da

seg un do novas l ógicas que n ão t ê m g r a nd e co i sa a ver co m a "esco l a

úni ca". O novo mo d e l o d e esco l a f un c i o n a co m a " di ve r s id a d e" ,

"di ferenciação" em f unç ão d os pú bli cos e d as " de m a nd as".

qu e co ndu ze m a u m n ovo m o d e l o esco l a r

n ão são l evadas a termo e n e m to d as as co ntr a diç ões

ence r ram eclo dira m . Se m m es m o f a l ar da res i stê n c i a d os pr o f esso r es

a

Essas ten dê n c i as

q u e e l as

p

o d e assoc i a r a tr ês tendências: uma de s in s titu c i o n a lização,

um a

e

dos us u ár i os a esco l a, ao m e n os pa r a o pe rí o d o p r ese n te, é m a r ca da

d

esval o ri zação, e um a d e sintegração . Essa s são in sepa r áve i s d as qu e

p

or sua hi brid aç ã o, mi s tur a

c uri osa d e ce r tos aspectos p r ó pri os

ao

t e nd e m a um a r eco mposição de um novo mod e l o d e esco l a .

Desinstitucionalização?

A adaptabilidad e

às d e m a nd as

e a

fluid ez n a s r esp ostas qu e s e espera dessa escola, conc e bid a d o r a v a nt e

se

fin a n c i a mento privado) e c e rt os m o d os d e co m a nd o e d e pr es cri çã o

c a r acte rís ticos de sistem as buro c r á tic os m a i s r es triti vos. P o r um l a do ,

t o r m e r ca ntil

(" s er v iç o

à c li ent e l a " ,

es pí r i to "e m pree nd e d o r " ,

como p r o d utora de serviç o s, levam a um a liquefação pr og r essi va da

essa escola híbrid a é, pr ogress i vame n te, s uj e i ta à l ógica econô mi ca

"

in st i t ui ção" como f o rm a soci a l caracteriz ada p o r sua es t ab ili dade e

da competitividade,

te n do ação d i reta sobre o s i stema de co n t r o l e

s

u a a u to n o mi a r e l a tiv a. Essa tendência está dire t a m e nte

liga d a ao

SOci a l v i sa ndo a e lev a r o nív e l d e pr o dutivid a d e

d as p o pul a çõ es

m

prin cíp i os do n ovo ge r e n c iamento

o d e l o

d e e s c o l a c omo "empresa

XVIII

aprendiz ",

ge rid a seg und o

e s ubmetid a

à o brigação

os

d e

a tivas. P o r esse lado, a esc o l a qu e se d e lin e i a p a r ece c a d a vez m a i s

co m uma empr esa "a se r v i ço d e int e r esses m ui to dive r sos e de um a

XIX

A E SCOLA NA o É UMA E M PRESA

a mpl a c li e n te l a" par a retomar uma fórmul a d a OC DE, o q u e a

co ndu z iu a se di ve r s ifi c ar segundo os merc a d os l oca i s e as "d e m a nd as

soc i a is" . P o r o utr o l a do, e l a aparece como um a m ega m á quin a soc i a l

c o m a nd a d a d e cim a por um "centro org a niz a d o r " p o d eroso e

e

int e r go vern a m e nt a is definindo de man e ir a mui to unif o rme os

" c rit é ri os d e c o mpar a ç ão ", as "boa s pr á ti cas" ge r e nciai s e

p e d agóg ic as, os " b o n s c ont e údos" correspond e nt es às co mp e t ê nci as

r e qu e rid as p e l o mundo e conômico. A e s col a fr a n cesa é , so b e ss e

p o nt o d e v i s t a, um bom e xemplo dess e híbrid o d e m e rc a d o e d e

bur oc r a ci a qu e a l g un s t o mam por uma ev o lu ção "m o d e rn a" d a in st ituiç ão.

P a r a a n a li sa r a s mutações da escola fr a nc e s a e m s u a l óg i ca d e conjunto, n ós t ent a m os ultrapassar, t a nto qu a nt o p oss í v e l, as sep a r a ç ões d e abo rda ge n s , de métodos, de dis c iplin as: o c ur to t e rm o

dev e ser c o l ocado e m p e r s p e ctiva históric a, p o rqu e o q u e aco n tece à esc o l a t e m r aízes pr o fund as; a dimensão n a ci o n a l , q u e n ão p o d e se r e liminad a e m ma t é ri a de e n s ino, dev e se r r e l a ti v i za d a p o r

comp a r a ç ões n ecessá ri as; a função econ ô mic a d a es c o l a , ca d a vez m a i s esse n cia l no q u a dro do novo capitalism o, d eve se r r e l ac i o n a d a

co m as mu tações soc iais , políticas e cultur a i s ; as deter m inações econô mi cas e soc i a i s e xternas são relaci o n a d as c o m as evo lu ções

int ernas d a in st ituiçã o escolar de n a tur eza orga ni zac i o n a l , soc i o l óg i ca o u p e d agóg ica e a s restriçõe s id eo l óg ic as d e v e m se m pre

se r r e l ac i o n a d as co m as e xperiências dos indivídu os n as soc i e d a d es

d e m e r ca d o e m c o n s trução . Vale di z er que c a d a um de sses as p ec t os te ri a m e r ec i do um d ese nv o lvimento mai s l o n go, qu e um livr o ge r a l c o m o esse pr o íb e. Nós procuramos aqui, a rti c ul a r tr ês g r a nd es

t e nd ê n c i a s que correspondem às três part es d e s se livr o: o e nv o lvim e nt o d a escola no novo capitalismo , a intr o du ção d as

l ógicas de mercado n o c a mpo educativo, as n o v as for m as e poder ge r e n c i a l d entro da es c o l a. Para di z er de o u t r a m a n e ir a, n a nov a o r de m e du cativa q u e se d e linei a , o sistema e duc a tiv o es t á a se r v i ço

d a co mp e titivid a d e e conômica, está estruturado c o m o um m e rc a d o , d eve se r ge ri do ao m o d o d as e mpresa s.

dir e tiv o , e l e m es mo pilotado por estrutur as in te rn ac ionais

xx

Intr oduçdo

Enfim, posto que se é rapidamente acusado de

co n servadorismo se não se adere com todo o entusiasmo necessár i o

aos dogmas modernistas ou, ao contrário, de ser um li quidador da

es

c o l a r e public a na se s e p e n sa q u e certas tra n s f or m ações seria m

in

dispensáve i s para m e lhor d efe n der a v o cação e m a n c ip a d o r a d a

esco l a e t o r na r o a ce sso à cultur a m a i s i g u a l , é pr ec i so di ze r aq ui q u e

a c h a n tage m à m o d e rnid a de ou a r ecr imin ação d e tr a i ção n ão

no s d e b ates e aná l i se s so br e a es col a . S e nos

p a r e c e indi s p e nsá ve l mud a r mui to a esco l a e , e m ce rt os pont os de

maneira radica l , nos parece t ambém necessário d i s t i n g uir

cu i dadosamente duas l óg i cas de transformação. Há uma que b u sca

d everiam m a i s estar

negar o que está no pr in c í p i o da e du cação púb li ca, a apropr i ação p or

todos de formas sim b ó li cas e de con h ec i me n tos necessá r ios ao

jul gamento e ao racioc íni o e que promete, no se u lu gar, ap r e ndi za d os

dóce i s às empresas e vo l ta d os para a sa ti sfação d o in te r esse pri va d o.

Q u em mais é e m n o m e d a " i g u a ld ade d e c h a n ces", in sta ur a um a

l óg i ca mercanti l q u e co n so lid a e m esmo in te n s i f i ca as d es i g u a ld a d es

ex i stentes . É nessa ve r te n te q u e estamos h o j e a m p l a m e nt e

enredados . Há u m a o utr a t r ans f ormação, toda cont r á ri a, q u e v i sa ri a

a me l horar pa r a o m a i o r nú m e r o de pessoas as co n d i ções d e

assimilação e de aq uisiç ão dos con h ec im e n tos ind i spe n sáve i s a um a

vida prof i ssiona l , m as t a mb é m, mu i to ma i s a m p l ame n te a u m a v id a

intelectual, esté ti ca e soc i a l tão r i ca e variada quanto possíve l ,

segundo os ideais qu e a esq u e r da ca r regou mui to te m po antes de os

esquecer, de esc ol a e m a n ci p adora. I dea i s q u e são traídos se a esco l a

não é m a i s do que uma a nt ecâ m a r a d e um a v id a eco n ô mi ca e

p r ofiss i o nal muito de s igu a l . É essa vi são d e un i versa li zação d a

c ul tura qu e preside aqui a a n á li se d o m o d e l o n eo lib e r a l d a esco l a.

V a l e diz e r que essa crític a , s e é uma pr é vi a , n ão s ubstitui a

construção de u m a e d ucação u niversa l d i gna desse nome, o br a

n e ce s s a riamente colet i va .

XX I