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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA LETRAS E


CIÊNCIAS HUMANAS

Filosofia Antiga III

Tema​: “​Enquanto dançava ao redor da fogueira, Rumpelstilskin regozijava-se


intensamente ao imaginar-se em breve na posse do filho da rainha. No entanto, sua
crença que a rainha haveria de lhe dar o filho era falsa. Seu prazer foi frustrado – e
sinal disso é o fato de sua decepção ser diretamente proporcional às expectativas da
noite anterior. Como avaliar seu prazer ao dançar em volta da fogueira: sua crença
revelou-se falsa, mas se poderia dizer que seu prazer foi por isso falso, já que o objeto
de prazer (receber da rainha o filho) não se realizou? Quantos episódios há aqui: um
episódio de prazer seguido de um de decepção, ou um único, cujo início prazeroso se
desfaz posteriormente em decepção?”

Nome​: Daniel Sposito Coelho


NºUSP​: 9339859
Turno​: Tarde
Professor​: Marco Zingano
​Reflexão sobre os “prazeres antecipatórios”.

Rumpelstiltskin experimentou um intenso prazer na expectativa de tomar para si o


filho da rainha. Contudo, sua expectativa foi frustrada, pois o objeto de sua crença (que a
rainha haveria de lhe dar o filho) não se concretizou. Não seria razoável que da falsidade do
objeto de uma crença seja inferido também a irrealidade do próprio fenômeno de crer, pois é
sempre possível que verdadeiramente creiamos em algo que, todavia, é completamente falso,
como no caso de uma teoria científica que angariou por muito tempo a crença e o
assentimento de muitos, mas posteriormente se revela incompatível com os fatos, ou seja,
falsa. O fenômeno psíquico da crença não é ontologicamente ligado à falsidade ou verdade de
seu objeto, de modo que a crença de ​Rumpelstiltskin foi real, no momento em que foi
experimentada junto a expectativa de satisfação de seu objeto. Mas, será o mesmo raciocínio
válido para o prazer que estava atrelado àquela crença? E além disso, poderia-se dizer que seu
prazer foi falso, já que a expectativa que o nutria não se realizou (revelou-se falsa)? As
respostas possíveis a tais questões não são tão óbvias quanto podem parecer.

Primeiramente, o prazer do duende dos irmãos Grimm parece não poder ser facilmente
reduzido ao antigo paradigma da fisiologia do prazer, segundo o qual a sensação de prazer é
sustentada por certo preenchimento, uma repleção (​anakainosis​) que vem suprir um
esvaziamento (​kenosis​). Nesse paradigma prazer e sofrimento estão intimamente ligados. O
prazer mesmo, como um processo que vai do vazio ao farto, ou de uma desarmonia para um
estado “natural”, substitui uma falta, ou vazio, com um preenchimento momentâneo, fadado a
sucumbir posteriormente devido a usura do tempo. No caso em mãos, parece difícil localizar
uma falta a partir da qual uma repleção tomaria lugar. Será necessário mais elementos para
abordar a questão.

Poderíamos pensar nas linhas de um discípulo de Sócrates, Aristipo (aprox. 435 – 350
a.c), tal como chegam a nós através das posições de seus discípulos, os cirenaicos, relatadas
por Diógenes Laércio, para os quais o prazer é o próprio bem. O hedonismo cirenaico não
aceita uma diferença valorativa ou substantiva entre os prazeres, considera-os ainda
essencialmente dinâmicos e temporalmente confinados a dimensão do presente. Com isso
excluem-se não só a possibilidade de uma métrica dos prazeres, mas também de se pensar
qualquer tipo de prazer vindo da ausência ou falta de dor, e ainda de prazeres vindos da
lembrança ou da expectativa, pois o prazer mesmo é sempre presente. Poder-se-ia pensar, a
partir disso, que por um lado, o prazer isolado que o duende sentiu ao dançar em volta da
fogueira, foi real no momento em que foi experimentado e manifesto na dança macabra,
independente da posterior frustração da crença que o sustentava. A sensação prazerosa, que
em si mesma realiza-se somente no presente, de fato esteve presente nele. Entretanto, quando
excluímos a possibilidade de “que o prazer possa decorrer da recordação ou da expectativa de
bens” (DL II §89), não estaríamos também negando que a sensação que animava
Rumpelstiltskin e colocava-o a dançar constituía realmente um caso de prazer? Ao que
parece, não possuímos, ao menos nos relatos de Diógenes, base textual suficiente para
decidirmos.

Parece correto afirmar que se tratava de um prazer antecipatório, que só era prazer
porque estava indexado no tempo e sustentado na expectativa de um futuro prazeroso. Pensar
com Aristipo ajuda-nos, ao menos, a dar alguns passos na direção de estender o nosso
raciocínio inicial, no qual a falsidade de um objeto de crença não implica na irrealidade do
próprio fenômeno de crer, ao caso dos prazeres, no sentido de que da falsidade do objeto de
prazer também não se segue a irrealidade da própria experiência prazerosa presente, embora
aparentemente não nos permita, ainda, estabelecer firmemente tal posição.

Talvez Platão, em um de seus últimos diálogos, o difícil e curioso “​Filebo​”,


forneça-nos elementos conceituais mais apropriados para tratar do caso de prazeres advindos
da expectativa. De fato, sua discussão sobre a natureza dos prazeres falsos (36c-41b),
enceta-se justamente pelos caminhos em que viemos tateando. Assim como chegamos à
conclusão de que da falsidade de uma crença não se segue a irrealidade do próprio crer,
1
Sócrates, na mesma linha, também afirma (37b e 40d5) , de modo mais firme do que nos foi
possível pensando com Aristipo, que é possível que se tenha um prazer falso, ou incorreto,

1
Estamos utilizando para o Diálogo “Filebo” a tradução de língua inglesa feita por J.C.B Gosling. Sua
tradução dos trechos referenciados figuram em notas de rodapé.
isto é, em outros termos, um prazer com coisas que não são, nem foram e nem jamais serão,
sem, contudo, que esse prazer mesmo deixe de ser sempre real.

Nesse diálogo Sócrates pretende convencer Protarco de que é possível atribuir verdade
2
(V) ou falsidade (F) aos prazeres e dores tanto quanto se faz às opiniões ou crenças (​doxa​) .
Para tanto ele estabelece uma série de analogias, a fim de revelar uma íntima relação entre
esses elementos. Diante da resistência de Protarco em admitir que V e F possam ser
qualidades atribuídas ao prazer, Sócrates ressalta que não é possível afirmar que “prazer e dor
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são o que são, e não admitem certas qualidades” (37c 5), pois ambos já haviam entrado em
acordo quanto a isso (27e 5). Esse parece ser um ponto importante, pois afirmar que os
prazeres não podem ser qualificados, que não variam qualitativamente, pode funcionar como
razão suficiente para negar a possibilidade de serem ditos V ou F. É possível perceber uma
semelhança nessa posição com a de Aristipo, já que a impossibilidade de uma métrica dos
prazeres, tanto de suas intensidades quanto de suas qualidades, parece ser um resultado
inevitável dessa postura.

Excluída essa saída fácil para o problema, Sócrates tenta avançar mais uma analogia a
fim de convencer seu interlocutor de que tanto doxa quanto hedone comungam com a verdade
e a falsidade(37e). Muniz esquematiza esse trecho:

“​O que torna prazer e dóxa verdadeiros ou falsos, nessa acepção, é o


fato de atingirem ou não o objeto intencionalmente visado. Quando a dóxa não
atinge o alvo - (hamartánein), ou seja, quando não coincide com aquilo sobre o
qual é dóxa, devemos dizer que ela não é correta. Seguindo ainda a analogia,
poderíamos então dizer que o prazer pode não acertar o alvo, isto é, não atingir
o objeto intencionalmente visado​.” (MUNIZ 2009, p.5)

Mais uma vez, o argumento falha em convencer Protarco. Esse é capaz de aceitar que
muitas vezes prazeres parecem acompanhar falsas opiniões, mas não admite que seja possível

2
Tratamos os dois termos “opinião” e “crença” intercambiavelmente, tendo em mente sua referência
comum ao termo ​“doxa​” em grego. O trecho que nos enseja tal escolha é 32a 2-3, traduzido por
Gosling para “​We are agreed that there is such a thing as judging​?”; Nunes traduz por “Não há que se
chama Formar opinião?. Muniz formaliza essa passagem do seguinte modo: “​There is such a thing as
believing (doxazein​)” (MUNIZ, 2014, p.5).
3
GOSLING, J.C.B “(...)​ that pleasure and distress just are what they are, and do not allow of qualities​”
p.33
dizer, em um caso como o prazer antecipatório de Rumpelstiltskin, que surgiu acompanhado
de uma falsa opinião acerca de acontecimentos futuros, que o prazer mesmo seja falso (38a).
Não que seja verdadeiro invés disso, mas a própria noção de que sejam V ou F não parece
fazer sentido para ele. É então que Sócrates demarca um ponto de viragem na discussão, ao
conquistar o assentimento de seu interlocutor acerca da patente diferença que há entre os
prazeres que acompanham opiniões verdadeiras (​doxa-V​) e aqueles baseados nas falsas
opiniões (​doxa-F​) e na ignorância (38a 5). O exame dessa diferença é a investigação do
complexo processo de formação da doxa, na qual se desenrola a metáfora da alma como um
livro ilustrado (38c -39b10).

De modo esquemático, tal parece ser o processo psicológico descrito: a memória, a


sensação e as afecções relacionadas a determinada coisa experimentada escrevem discursos
(​logos​) na alma (​psyche​). Quando esses são V, adquire-se ​doxa-V​, quando são F, adquire-se
doxa-F​. Junto desse complexo escrivão, há também um pintor, que produz imagens dessas
opiniões na alma. Desse modo, quando se produz uma imagem de uma doxa-v temos uma
imagem verdadeira na alma, quando uma ​doxa-F é o caso, temos uma imagem falsa. Em
nossa interpretação, parece possível afirmar que essas imagens pintadas na alma são o
expediente psicológico ao qual nos inclinamos quando afastamos os objetos das ​dóxai de toda
sensação, de modo que podemos ver “nos olhos da mente o que foi opinado ou dito” sobre
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eles (39b 10) .

Após esse desenvolvimento, Sócrates quer investigar se esse mecanismo está


vinculado somente ao passado e ao presente, ou se ele entra em ação também relacionado ao
futuro. Finalmente, podemos redirecionar nossa reflexão à questão do prazer antecipatório. A
essa altura do diálogo, Sócrates e Protarco concordam que “todos os homens são atribulados
5
por inumeráveis expectativas” (40a), e que de fato expectativas são um ​discurso escrito
6
internamente , e especialmente nas imagens pintadas (​phantásmata esdografémena​) na alma.
Desse modo, um prazer que ocorre na expectativa de algo prazeroso é um prazer baseado em

4
GOSLING, J.C.B: “Soc: I am thinking of when a person isolates what he previously judged or said
from sight or any other form of perception…”p.35
5
idem “​As we just said now, all men are in turmoil with countless hopes​?” p.36
6
id. “​What we call hopes are in fact statements made internally, aren't they? (...) And especially the
painted images”.
certo discurso e imagem acerca desse almejado futuro. Se estamos certos em acompanhar
Muniz, quando afirma que “assim como as ​dóxai podem dizer respeito ao que não é, ao que
não foi e ao que não será, as imagens podem antecipar coisas que não existiriam no
futuro”(MUNIZ, 2009, p.7), então podemos cogitar que um prazer vinculado a uma imagem
falsa do que possa vir a ser é um prazer falso, pois é um “prazer pintado” (40b 5) cujo objeto
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é uma mera ​doxa ​falsa infundada .

Agora que colhemos ferramentas conceituais um pouco mais apropriadas para o caso
de Rumpelstiltskin, podemos avaliar melhor seu episódio de euforia. O duende, se possui uma
alma como a de que fala Platão em “Filebo”, fruía de um uma imagem bastante clara de si
mesmo em posse de seu objeto desejado, a criança da rainha, imagem essa que se constituiu,
contudo, de uma falsa opinião acerca de seu futuro próximo, pois sua expectativa foi
evidentemente frustrada. Em nossa interpretação, seu prazer não era propriamente
antecipatório, no sentido de que antecipou um regozijo que aconteceria de qualquer modo,
mas era um prazer ilusório, nesse sentido, falso, pois fundava-se, sem esperar por
confirmação da experiência, apenas numa imagem criada em sua alma a partir da mera
expectativa (falsa) de um prazeroso futuro. Portanto, trata-se de apenas um único episódio,
cujo início prazeroso era meramente um fascínio eufórico trazido por uma imagem falsa, pois
referida a uma doxa falsa, que posteriormente se desfez em decepção, pois não encontrou na
realidade seu objeto de prazer, que, todavia, existia muito claramente na maligna mente de
Rumpelstiltskin.

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Uma rápida leitura de comentadores acerca do tema do prazer falso no Filebo de Platão já é
suficiente para se ter noção do grande número de discussões, divergências e intrigas que circundam
o comentário contemporâneo do texto platônico. Segundo Muniz (MUNIZ 2014), dentre as diversas
interpretações, uma das mais notórias é a do “prazer proposicional”, que compreende que o elemento
da doxa é mais que central para o entendimento do fenômeno do prazer: ele quase se resume nisso.
Nessa interpretação o prazer é comprendido como uma atitude proposicional de ter “prazer em p”
fundado na crença “que p” (MUNIZ 2009 p.7). Na perspectiva de Muniz, essa interpretação não tem
base textual suficientemente firme, o que o estimulou a desenvolver uma leitura dessas passagens
valorizando mais o elemento da imagem no fenômeno do prazer. Para ele “Fica evidente pela leitura
do texto platônico que sem a dimensão figurativa o prazer jamais se efetiva” (id, p.8). Nessa reflexão,
jamais almejamos entrar nessa discussão, por isso tentamos desenvolver o texto platônico somente
na medida em que nos foi possível evitar os pontos mais disputados e angariar alguns elementos
conceituais para analisar o problema do prazer de expectativa, problema esse que, evidentemente,
permanece mesmo assim, sem resposta definitiva.
BIBLIOGRAFIA UTILIZADA:

LAÉRTIOS, Diógenes. ​Vida e doutrina dos filósofos ilústres​. Trad. Mário da Gama
Kury, 2ºEd. Brasília: Editora Universidade Federal de Brasília (UNB), 2008.

GOSLING, J.C.B. Plato - Philebus: translated with notes and commentary. ​Clarendon
Press, Oxford, 1975.

NUNES, Carlos Alberto.​ ​Tradução do diálogo platônico​ “Filebo”. ​Versão digital


disponível no sítio web: sumateologica.files.wordpress.com/2009/10/platao_filebo.pdf
Créditos da digitalização: Membros do grupo de discussão Acrópolis (Filosofia)

MUNIZ, F. Propositional Pleasures in Plato’s Philebus. ​In​. Journal of ancient


philosophy. (Engl. ed.), São Paulo, v.8, n.1. p. 49-75, 2014.
__________. ​Os prazeres falsos no Filebo de Platão​. In. Anais de filosofia clássica,
Revista do programa de pós-graduação em filosofia da UFRJ, vol. 3 nº 5, 2009