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Não

tendes
muitos
pais
Mark Hanby
e
Craig Lindsay Ervin
DEDICATÓRIA
(parei napágina 20)

A Stanley R. Hanby, meu querido pai natural e mentor espiritual que me ensinou a ver
Deus com os olhos da natureza e da vida simples.

Lembro-me de quando me deu minha primeira Bíblia. Ele me disse: "qualquer pessoa
pode ler o que está escrito aqui e repetir... Contudo, se você se tornar verdadeiramente um
estudioso deste Livro, todos irão querer repetir o que você disser".

Mas, ainda assim, em todos estes anos, sempre quis dizer o que meu pai disse.

AGRADECIMENTO

Tenho certeza que percebeu o nome de Craig Lindsay Ervin na capa do livro. Ele é
meu filho no ministério. Apesar de muitas outras pessoas terem contribuído com seu
aprendizado, Deus, em sua graça, honrou-me com o privilégio de marcar seu coração.
Craig carrega de verdade meu espírito. Não há dúvidas quanto à sua revelação e à sua
inspiração, tão precisas na poesia de sua escrita. Ele também - e isso é quase um defeito -
herdou minha obstinação e minha missão.

É difícil para eu distinguir quais partes foram minhas e quais foram dele à medida que
lia e relia os originais deste livro. Honestamente, a maioria das palavras que você vai ler
são dele. Craig se ofereceu para compilar muitas informações de minhas fitas e
manuscritos quando comecei este trabalho. Ele também acrescentou novas idéias e temas
de nossos estudos de pastores e de conversas pessoais. Por fim, ele propôs um esquema
e uma ordem para o material coletado, incluindo referências das Escrituras, as quais
categorizou segundo os temas. A única tarefa restante foi condensar e arrumar o material,
um trabalho que também ele fez. À medida que cada capítulo ficava pronto, tomei
consciência do dom incomum e da habilidade diferenciada deste homem de Deus. Não
deixou para mim muito mais do que ler, sugerir e ficar extremamente agradado.

Portanto, na próxima oportunidade que ouvir ou ver o nome 'Craig Lindsay Ervin' na
capa de um livro, compre-o sabendo que investe em sua vida e em seu ministério.
SUMÁRIO

Dedicatória
Agradecimento
Apresentação de T. D. Jakes
Quem é meu pai?
Prólogo
Introdução
1 O dilema do Pai
2 A ordem do Pai
3 A herança do Pai
4 O coração do Pai
5 A aliança do Pai
6 A voz do Pai
7 O amadurecimento do Pai
8 As vestes do Pai
9 A unção do Pai
10 O relacionamento do Pai
11 A honra do Pai
APRESENTAÇÃO DE T. D. ]AKES

Nosso Deus é organizado, ele não é caótico. Portanto, se quisermos ter prosperidade,
tanto espiritual quanto natural, deveremos nos esmerar para conhecer e funcionar dentro
desta ordem divina.

Sempre sou lembrado desta verdade quando leio sobre a criação de nosso mundo no
Livro de Gênesis. Lá Deus revela, em sua sabedoria eterna, sussurrando ao ouvido de
seus servos, a arquitetura da criação do universo. Quando lemos, tomamos contato com a
origem da história e a sucessão de eventos que marcaram o alvorecer do mundo como o
conhecemos. É no Livro de Gênesis que Deus começa a organização de uma estrutura,
para dela toda verdade emanar e florescer. Por exemplo, ele faz do barro informe de um
planeta desabitado as ervas, plantas e toda a vegetação. Criou plantas cujas sementes
reproduzem e crescem por milhares de anos à brandura da brisa de verão.

"E disse: Produza a terra relva, ervas que dêem semente e árvores frutíferas que dêem fruto
segundo a sua espécie, cuja semente esteja nele, sobre a terra. E assim se fez' (Gênesis
1:11)."

Ele criou de uma só vez a vegetação com a qual cobriria seus campos. Seu plano foi
tão visionário que cada semente encerra uma planta em potência. A semente tem a chave
da reprodução e por isto elimina as possibilidades de extinção da espécie.

Cada espécie de planta teve em sua origem um destino. Seu futuro é perpetuado na
integridade da semente. Enquanto houver sementes germinando, a espécie estará
representada em sua linhagem e assim seu destino não pode ser interrompido.

É este o princípio que governa toda a criação de Deus e, da mesma forma, este
princípio mantém a ordem no universo - cada ser produz uma semente. Sejam plantas,
aves ou peixes, essas formas de vida sobreviveram por causa de sua capacidade de
produzir sementes.

Eu acredito que esta verdade pode ser aplicada a algumas questões espirituais com
as quais nos deparamos no reino espiritual. Penso que a ordem natural apenas reflete para
nós, através da simplicidade metafórica, questões maiores das verdades espirituais.

"Mas não é primeiro o espiritual, e sim o natural; depois, o espiritual." (1 Coríntios 15:46).

A forma de nosso ministério é determinada por conceitos similares. Ela depende do


princípio - e até mesmo é construída com base nele - do laço entre pai e filho. Devemos
entender a significância deste relacionamento e como ele afeta o Reino de Deus, se
pretendemos produzir algum efeito duradouro. Este é um ponto no qual o inimigo gostaria
de atacar fortemente, pois ele sabe que o princípio orientador de toda a criação (que Deus
usou para construir nações, realizar obras poderosas e mesmo para a redenção), está
baseado no relacionamento entre um pai e seu filho! Qual seria o efeito duradouro
produzido por Deus através de nós se nos fizéssemos perpetuar na aliança forte de pai e
filho? Responderei a você falando sobre grande preocupação que assola as mentes de
muitos vasos por toda a nação.

Não é o bastante construir prédios altos. Tampouco seremos efetivos construindo


grandes denominações. A nação por trás da denominação nada significa se não for
construída no relacionamento de seus membros. Todas as obras duradouras sobreviverão
apenas se cultivarmos o poder de um pai para seu filho.

Assim, Deus designou um de seus melhores vasos para nos guiar até o cerne de uma
questão negligenciada há tempo demais. O Dr. Hanby traz à luz as grandes
potencialidades espirituais até então escondidas. Nosso crescimento tem sido prejudicado
pela falta de esclarecimento neste ponto problemático. Acredito que dons surgirão e
limitações serão superadas à proporção que passarmos a vislumbrar como alcançar os
filhos espirituais de quem anda no verdadeiro ministério. Não há como um líder espiritual
atingir estas verdades poderosas sem impactar sua geração. Uma libertação poderosa do
ministério vem do entendimento de seu relacionamento produtivo transmitido de uma
geração à seguinte.

QUEM É MEU PAI?

Esta é a pergunta que vem inquietando os corações de muitas pessoas, a quem Deus
irá trazer o alívio nesta hora.

A constituição do laço verdadeiro entre pai e filho é uma questão complicada de se


entender. Muitos homens caminharam com dificuldade por esta terra, sangrando em
silêncio, lutando para descobrir e conhecer a aliança forte que deveria existir entre os pais
espirituais e seus filhos. Com ternura amorosa e mão firme, estes pais deveriam conduzir
os filhos que o destino a eles reservou, até os filhos alcançarem seu potencial profético.
Por sua vez, alguns filhos chegaram até a seguir homens aos quais faltava o coração para
serem pais, sofrendo com o abandono e a traição. Pergunto ainda, como poderemos ser
uma Igreja funcional sem a cura?

Apesar de ser verdade o fato de muitos homens terem contribuído para nossa
educação e enriquecimento espirituais, poucos deles foram dotados com o poder de nos
levar a herança que Deus nos prometeu. Como Benjamim, que recebeu seu nome profético
do pai, esperamos com paciência. Finalmente, Deus enviou uma palavra para lançar
claridade sobre uma questão complexa que reside na fundação de nossa identidade. É o
nome que proclama a identidade. No entanto, seria possível que muitos funcionem sem um
sentido verdadeiro de identidade?
Raquel, no fim da vida, deu um nome inapropriado a Benjamim. Ela o chamou Benoni,
"filho de meu lamento", mas o pai chamou Benjamim,"filho de minha destra", ou "filho de
minha força". Da fala profética do pai de Benjamim veio a linhagem do Rei Saul, o primeiro
a reinar em Israel. De forma semelhante, é uma tragédia para os filhos seguir pessoas que
não lhes podem falar sobre seu destino. A muitos de nós foram dados nomes equivocados
pelas mãos de um sistema social moribundo como Raquel, que o fez baseado em sua
própria calamidade. É a estes filhos que sangram, cuja identidade esfacelada e os sonhos
destruídos impediram seu crescimento, que estendo o seguinte convite: façamos uma
jornada pela longa estrada rumo à verdade que nos leva ao reconhecimento de nossos
pais, pois é nos braços paternos que recebemos os nomes reveladores de nosso destino.
Lembrem-se, os ministérios de alguns de nós já estão maculados pela ilegitimidade e o
inimigo trabalha incessantemente para nos extraviar por completo da estrada da verdade.
Portanto, da mesma forma que uma planta dá a semente para que sua sucessora
perpetue, nós devemos reconhecer e valorizar a paternidade. Há algo que os pais podem
nos dar que permite evitarmos as disfunções que lastimaram muitos ministérios por todo o
globo. E importante que estes homens não passem toda a vida com suas sementes
encerradas em um ministério inutilizado que não se perpetua na geração seguinte. Há
sementes para serem semeadas cujos frutos serão poderosos.

Aos pais eu digo: "transmitam o que têm à geração seguinte. Passem o estandarte à
geração seguinte de homens fiéis". Seus ministérios serão perpetuados nas vidas de
homens que sentiram a mão calorosa de seus conselhos e a semente valorosa de seus
ministérios.

Gostaria também de alertar a todos os jovens cujos pés começaram a trilhar o


caminho designado por Deus para tomar cuidado com sua ânsia por se tornarem pais, para
não se perderem do caminho que os leva à necessidade importante de por enquanto serem
filhos e de também possuírem pais. Se for possível, satanás nos deixará a todos sem nome
e perturbados. Talvez ele já até tenha tentado deixá-lo isolado e sozinho. Por esta razão,
os filhos devem perceber que é a mão do pai que lhes confere a bênção. Além disto, nós,
enquanto filhos, temos de reconhecer que foi conferido a nossos pais o poder de transmitir
as bênçãos de que necessitamos. Como Israel, que reuniu suas forças e sentou-se sobre o
leito (ver Gênesis 48:2), Deus reuniu forças na palavra enviada para possibilitar ao filho
perdido receber a bênção estabilizadora do pai, pois com ela passará a descobrir o
propósito pelo qual os reinos são construídos.

Por muito tempo, a igreja vem tentando reproduzir com documentos frios e infecundos
uma relação paternal representada no papel, mas que não encontra exemplo na realidade.
Ser filho realmente não é decorrência da união entre homens pelos laços frios de uma
decisão legal ou por meio de um documento. Devido a esta razão, muitos homens se
perdem, pois de outra forma, precisa da mão de um pai para abençoá-los. Carecem
daquele cuidado que traz a sabedoria, e esta, por sua vez, se acumula através das eras.
Contudo, é triste saber que muitos homens trazem um sentimento de vazio e uma falta do
laço verdadeiramente produtivo entre pais e filhos.
Não resta dúvida que nos serão dadas na vida incontáveis oportunidades para
sermos inspirados, para voltarmos nossa atenção à eloqüência de vozes e à magnitude de
discursos. Mas ainda assim, ao final de todas estas falas admiráveis surgirá um vazio a
doer no coração solitário. Esta é a dor do coração partido em uma geração de homens
divinamente escolhidos, mas que perceberam possuir muitos preceptores, todavia não
muitos pais.

Minha oração é para você receber a clareza e a verdade ao escutar a conversa


transcrita neste livro entre o Espírito Santo e seu servo. Dr. Hanby escreve a partir do
acúmulo de sabedoria que Deus depositou abundantemente em seu coração. Um homem
que se tornou pai para muitos outros homens, ele próprio é um modelo de excelência e um
mentor para aqueles de nós exauridos de ouvir tantas vozes e pregações diferentes.

Não quero desrespeitar ninguém, mas preciso dizer que muitas pessoas bebem da
água da verdade em fontes frias, cujas torneiras foram enferrujadas e estão contaminadas
com os costumes do mundo. São numerosos os locais onde podemos ir e receber de
muitos preceptores informações desconexas e inúteis, estatísticas frias e citações pom-
posas, mas, a bem da verdade, o Dr. Hanby juntamente com apóstolo Paulo afirmam
corretamente ao dizer que não temos muitos pais.

PRÓLOGO

O objetivo destas palavras prévias é advertir os leitores sobre o fato de que a verdade
contida nestas páginas seguintes pode ser considerada altamente polêmica e, com isto,
provocar alguma reação inflamada no impetuoso e no descomedido, pois se sabe que na
Igreja de hoje, sempre quando se fala nos conceitos de ordem, governo adequado da
igreja, autoridade no relacionamento e reconhecimento honrado, soam os alarmes e tocam
as sirenes com toda a pressa que requer a emergência iminente.

Muita gente tem sido ferida por pessoas que usam a Palavra de Deus como espada
para amputar e decepar. Mas agora, como sempre, hesitam em face da aproximação do
poder que emana da revelação verdadeira. Malco, o servo do sumo sacerdote, teve a
orelha cortada pela espada de Simão Pedro quando foram ao jardim prender Jesus. Assim
como no caso de Malco, muitas pessoas sangram como conseqüência de antigos
ferimentos apostólicos, ainda assim não são capazes de escutar a verdade. Se esta
situação descreve você, peço-lhe encarecidamente que não permita às antigas concepções
errôneas anuviarem a revelação do presente. Não carregue a dor latejante de aflições
passadas como substituição ao pulsar do coração do Espírito. Oro para que as palavras
deste livro sejam fonte de cura no caminho da liderança, da mesma forma como a mão de
Cristo restabeleceu a orelha cortada de Malco.
Apesar de por muitos anos ter ensinado a ordem entre pais e filhos, sempre me
incomodava ser chamado de pai no ministério por causa das seguintes palavras de Jesus:
"A ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque só um é vosso Pai, aquele que está
nos céus" (Mateus 23:9). Esta Escritura constantemente percuta em meu coração quando
alguém me pedia para ser seu pai espiritual. Com o desejo perene de obedecer à Palavra,
recusava determinado minha paternidade.

Porém, esta Escritura só se revelou para mim quando a compreendi com a ajuda da
luz de outras passagens bíblicas. As profecias de Malaquias que Deus "converterá o
coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais" (Malaquias 4:6). João
Batista foi enviado para "converter o coração dos pais aos filhos" (Lucas 1:17). Paulo se
refere a si mesmo como pai aos coríntios (ver 1 Coríntios 4:15) e, de forma indireta, declara
sua paternidade sempre que chama Timóteo, ou Tito, de filho na Palavra (ver 2 Timóteo
1:2; 2:1; Tito 1:4). O apóstolo João se refere a três tipos de pessoas: filhos, adolescentes e
pais (ver 1 João 2:12-14). Com isto, se Jesus disse para não chamarmos homem nenhum
de pai, mas tanto Paulo quanto João chamaram pessoas na terra de 'pai' - e todos estes
casos estão na mesma Bíblia -, então talvez, tenhamos compreendido maI o significado
original das palavras de Cristo. Deste modo, examinemo-las mais de perto. O texto integral
está assim em Mateus: "Vós, porém, não sereis chamados mestres, porque um só é vosso
Mestre, e vós todos sais irmãos. A ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque só um
é vosso Pai, aquele que está nos céus. Nem sereis chamados guias, porque um só é vosso
Guia, o Cristo" (Mateus 23:8-10).

Esta Escritura não é contrária a nós nos referirmos a alguém como pai espiritual mais
do que é um mandamento contra chamar nosso progenitor de 'pai'. Ela foi, com efeito, um
recado aos fariseus e às pessoas ligadas à religião do tempo de Jesus, que colocavam as
palavras de sábios rabinos e declarações teológicas em pé de igualdade com a Escritura.
Os fariseus se referiam aos rabinos do passado como 'os pais'. Assim, encontramos a
referência aos 'pais' no sermão de Estevão em Atos (7:44,51-52) e outra em Hebreus (1:1).
Portanto, em Mateus 23:9, Jesus chama de 'Pai' a autoridade máxima de Deus em nossas
vidas e em nosso ministério. É necessário que nos desobriguemos de qualquer linha de
pensamento (incluindo as doutrinas dos homens) que exalte a si mesma contra a
paternidade de Deus. Este é o motivo pelo qual a proibição de se chamar um homem de
pai é igual à outra que proíbe chamá-lo de preceptor ou de mestre. Em verdade, um pai
espiritual jamais tomará a autoridade da Escritura. Então, a paternidade na terra é apenas
uma confirmação do "Pai nosso que está no céu".

Obviamente, não pretendo que sigamos os passos da Igreja Católica Apostólica


Romana e por tal medida chamemos a todos os pastores consagrados de 'padres' (pais)
como um título do ofício. Todavia, em nossa divergência com Roma, talvez tenhamos
ignorado nesta questão alguma verdade fundamental.

Além disto, nossa discussão sobre pais e filhos não exclui de forma alguma, as
mulheres no ministério. É fundamental destacar que o conceito de 'pais e filhos' não está
relacionado com o gênero, mas com os herdeiros espirituais da promessa, tanto os homens
quando as mulheres. Verdadeiramente, acredito não haver "nem homem nem mulher" (ver
Gálatas 3:28). Os requisitos de uma mulher no ministério são os mesmos dos homens:
deve haver ligação com a casa de um pai. A Bíblia ensina que na ausência de um herdeiro
homem, as filhas recebem a herança do pai (ver Números 27:7-9). A única exigência para a
mulher receber sua herança é se casar com alguém da mesma tribo de seu pai (ver
Números 36:8). Enquanto estivermos" deste lado da cruz", é necessário que as senhoras
no ministério estejam alinhadas com os maridos para que recebam a proteção espiritual
(ver 1 Coríntios 11:45). É claro que este princípio também opera para homens que são
chamados a ser "marido de uma só mulher" (1 Timóteo 3:12). Por isto, o uso dos termos
'pais' e 'filhos' nesta obra não intenciona, em momento algum, denegrir ou negar as
funções importantes desempenhadas por mães e filhas no Reino. Os princípios do
ministério se conservam verdadeiros, independentemente do gênero. São tanto "vossos
filhos e vossas filhas" (Joel 2:28) que devem profetizar.

Quando apresentei parte do material deste livro a meu editor e a amigos para que o
lessem, fui bastante alerta do com respeito às semelhanças entre este e o que eles
chamam de "o movimento de pastoreio". Disseram-me que o tipo de idéias aqui contidas
despertam em muitas pessoas algum receio de que um dia elas já tenham sido controladas
pela mensagem de ministros cuja força da "autoridade patriarcal" deixava-as praticamente
agrilhoadas. Por exemplo, a algumas foi dito para não fazerem compras de valor alto (como
comprar carros) ou reformar a casa, sem antes terem o aval e as instruções de outras pes-
soas superiores a elas no Senhor. Este controle levou a interferências trágicas e
destrutivas em relações de famílias, nas quais chegou-se a ponto de alguns homens
reclamarem direitos conjugais sobre as esposas de outros homens.

Este não é, de forma alguma, o relacionamento pai—filho. Esta corrente de liderança


molestadora, que alijou os limites estabelecidos por Deus, não tem como base a Escritura.
O abuso devastador de autoridade criado para controlar e manipular de forma pecaminosa
é doentio e, por isto, condenável.

A questão da autoridade paterna não somente causa temor em muita gente, mas,
igualmente, os termos 'filho' e 'filiação' são alarmantes. Houve em certa época uma
doutrina chamada "filhos manifestos". Esta velha mensagem, que de tempos em tempos
costuma emergir, firmou raiz nos EUA dos anos de 1940 e 1950. Ela afirmava claramente
que os filhos manifestos de Deus se consideravam uma elite de homens que eram, através
de sua perfeição em se tomarem como Cristo, a verdadeira encarnação de Deus no
mundo. Novamente reitero, não é sobre nada disto que trata este livro. Aquelas pessoas
não entenderam que nos tomarmos como Cristo não significa nos tomarmos divindades.

Muito da verdade se perdeu por ter sido coberta pelo erro. Pode haver uma flor
exuberante no jardim, mas se os raios do sol não a alcançarem e ela ficar sempre à
sombra de alguma árvore, a beleza de suas pétalas não pode ser vista. De maneira trágica,
a verdade com respeito a pais e filhos foi ocultada e perdida nos últimos anos, quando os
esforços de Deus para levar sua verdade até a luz se viu encoberta pelas concepções
errôneas e pelo egoísmo dos homens. Os pais presumiram que tinham o direito de
controlar os filhos; estes últimos pensaram ser, literalmente, a manifestação de Cristo na
terra.

As conseqüências foram deformações horrorosas da verdade bíblica, desfilando pelo


caminho da história da Igreja. No entanto, a presença de pais molestadores e de filhos
rebelados não significa que nos resta abandonar a fundação justíssima da família e os
relacionamentos entre as gerações no Reino. A presença de feitiços e fraudes deve se
prestar somente como forma de intensificar nossa ânsia pelo que é real e genuíno. Apesar
de o rio estar poluído, não se deve abandonar os regatos cristalinos e as fontes d'água
pura que o alimentam.

Este livro pretende levar-nos a todos para um relacionamento terno entre pais e filhos,
pois é este o coração do Reino. Oro para que as páginas desta obra se mostrem úteis no
realinhamento da estrutura do Corpo de Cristo e na cura aos ferimentos infelizes do
molestamento espiritual, mostrando a função adequada da autoridade paterna e a honra
filial.

INTRODUÇÃO

Quando penso em como tudo começou, percebo que este livro ganhou vida há muitos
anos, durante meus estudos bíblicos para pastores do Livro dos Hebreus. Estava eu
trabalhando no quinto capítulo incessantemente. Enfatizava a importância e o poder do
sacerdócio de Cristo. O objetivo do curso era preparar os crentes para o ministério,
observando sempre a vida de Jesus. Os versículos de 12 a 14 deste capítulo se tornaram,
com efeito, a base da qual demonstrava a necessidade importante pela maturidade dos
crentes e a exigência de seguirem precisamente o exemplo:

"Pois, com efeito, quando devíeis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido, tendes,
novamente, necessidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os princípios
elementares dos oráculos de Deus; assim, vos tornastes como necessitados de leite e não de
alimento sólido. Ora, todo aquele que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça,
porque é criança. Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que, pela prática, têm
as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal"
(Hebreus 5:12-14).

Minha apresentação se inflamava quando eu comunicava esta verdade. Para


alcançarmos o sacerdócio real de acordo com a epístola de Pedro (ver 1 Pedro 2:9 , temos
de encontrar o padrão adequado para a entrada no ministério. Foi neste momento quando
me tomei consciente de uma verdade que até então havia completamente negligenciado.
Apesar da informação sobre Melquisedeque, as orações e súplicas de Jesus, a obediência
de um filho e sua autoridade sobre a salvação eterna, eu não havia, ainda assim, notado
um fato simples e poderoso: Jesus não tinha o direito a obrar em seu ministério até o Pai
lhe dizer "Então, foi ouvida uma voz dos céus: Tu és o meu Filho amado em ti me
comprazo" (Marcos 1:11). Em outras palavras, o nascimento, os dons, o talento, as
habilidades, a destreza, a preparação, etc., nada significam sem a voz de aprovação do
pai.

Ninguém, pois, toma esta honra para si mesmo, senão quando chamado por Deus, como
aconteceu com Arão (Hebreus 5:4-5).

Ao vagar por esta questão aparentemente sem resposta, decidi testá-la junto aos
corações dos companheiros de um ministério e amigos em vários estudos e seminários.
Para minha surpresa, a resposta não foi apenas decepcionante, mas muito confusa para
mim. Muitos homens e mulheres bastante emocionados me cercavam após eu terminar
minhas pregações com a exclamação de Eliseu: "Meu Pai, Meu Pai!' e me pediam: "Dr.
Hanby, o senhor poderia ser nossa proteção no ministério? Nós, de fato, não temos um
pai".

Igualmente inquietante era o número de outras pessoas que vinham até eu dizer o
quanto se alegravam por terem pais na Palavra. Explicavam-me sobre o minuto e a hora
exatos de sua conversão, juntamente com o nome do irmão que os havia trazido para o
Senhor. Mas, acredito eu, este pensamento não está relacionado com o que eu dissera. A
questão não é sermos levados até o Reino e sim termos um pai no ministério. Outra reação
que me desanimava enormemente era ouvir os nomes de seminários, escolas bíblicas, e
material de estudo de uma enormidade de preceptores famosos como resposta à
necessidade de relacionamentos pai—filho.

A chegada de cartas e mais cartas pedindo algum tipo de conexão paterna,


geralmente vindas de pessoas as quais sequer conhecia (ou pelo menos delas não me
lembrava) não ajudava a solucionar minhas preocupações. Estas pessoas tinham ouvido
alguma fita gravada em minhas pregações ou participado de alguns cursos que continham
informações sobre a necessidade de uma ligação espiritual entre pais e filhos. O conteúdo
das correspondências era basicamente o mesmo: "o senhor gostaria de ser meu pai?"

Acabei por me acostumar a responder de forma padronizada, com muita sinceridade


e convicção: "não gostaria de ser o pai de ninguém, mas o irmão mais velho e o melhor
amigo". Seguia dizendo o quanto me daria muito gosto compartilhar informações e material
de estudo que pudessem abençoá-los e a seus ministérios.

Dava-me, também, grande satisfação ser incluído em vários conselhos de presbíteros


e de companheiros evangélicos - principalmente por minha mensagem seminal há vários
anos ser a "multiplicidade de ministérios". Esta mensagem propõe e traz à luz um ministério
composto e multifacetado, no qual se manifesta a multiplicidade de uma expressão mais
completa de Cristo. Ao arrolar termos como 'pastor', 'padre', 'bispo', 'presbítero', etc., sob
uma categoria mais abrangente de 'protetores', preferi aceitar com mais agrado, portanto, o
nome mais abrangente em detrimento da idéia pessoal de paternidade.
Nas minhas últimas férias, antes de escrever este livro, comecei um trabalho
espiritual. Sentado no alpendre de minha casa, errava entre a pura confusão e a
inspiração, meditando na bênção maior de se estar em casa. Minha única distração parecia
ser algum verso de poesia antiga, ou alguma passagem literária guardada na memória que
exprimia meus sentimentos mais profundos. Então sentia dor, uma agulhada certeira no
fundo de meu espírito.

Por fim, havia trilhado todo o caminho dos pensamentos angustiantes. Estes não
traziam sentimentos que normalmente acompanham novas idéias espirituais, a iluminação
ou a revelação, ao contrário, constituíam-se de um sentimento de temor e respeito que
sempre surge antes da repreensão. Sentia-me preso em um deserto árido e desolado,
onde se encontram as carcaças dos inumeráveis ministérios despropositados que, por
conseqüência, falharam. Aquele lugar arruinado estava posto entre as fontes do começar
esperançoso e as águas estagnadas da intransigência. Os poucos que conseguiram
sobreviver naquele lugar amparavam-se em verdades já ditas e em chavões que, de
alguma forma, faziam-nos se sentir seguros ao transmitir o conhecimento roubado de
outras fontes.

Foi em meio à vastidão desta visão angustiante que o Senhor começou a me falar. A
princípio, lutei com o que parecia um grupo desconexo de escrituras que prescindiam do
contexto, mas, insisti na tentativa de colocá-las juntas e assim o significado foi ficando cada
vez mais nítido. Uma das passagens foi Atos 17:30:

"Ora, não levou Deus em conta os tempos da ignorância; agora, porém, notifica aos homens
que todos, em toda parte, se arrependam”.

A necessidade de arrependimento soou fundo em meu espírito e, ao mesmo tempo


em que buscava o entendimento, tornou-se óbvio para mim que qualquer situação
extraordinária requereria atenção e uma mudança radical. Então, Malaquias 4:5-6 me
ocorreu, percebi, pois, que estava com problemas:

"Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível Dia do SENHOR;
ele converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais, para que eu
não venha e fira a terra com maldição".

Eis que lá estava, "corações dos pais". Este trecho acabou com minha paz e me
encheu de remorso de forma que mal conseguiria relatar. O meu coração enquanto pai se
recusara a mudar. Soube que a passagem não significava que todas as pessoas a me pe-
dir a paternidade pertencer-me-iam automaticamente. Contudo, me confrontava a verdade
dura que algumas mulheres e homens machucados na obra da palavra haviam sido
rejeitados por mim, ficando órfãos, ou ainda pior, tomados por filhos bastardos. Além disto,
qualquer herança concedida tanto por dom quanto por unção estava sendo retida,
infligindo-lhes um tempo difícil, tornado-os errantes espirituais. Longe da unção, o fluir de
um ministério centrado foi interrompido. Eles se viam limitados a tomar a vida de seus
próprios vasos, usando água emprestada ou roubada para repor seus estoques. O
resultado só poderia ser o desapontamento e a frustração vazia.

Algumas das pessoas que lerem as palavras neste livro irão se identificar
imediatamente com os filhos solitários, enquanto outros experimentarão juntamente comigo
a dor da irresponsabilidade paternal.

Se esta introdução já se apresenta a você como aguda e direta, então, talvez seja
possível que se ofenda com os capítulos seguintes, pois são o resultado real de meu mais
profundo arrependimento e de minha busca pela verdade absoluta. Aqui você verá meu
coração desnudado e minha alma desvelada. Caso decida continuar a leitura, poderá
também, comigo e com Malaquias, decidir-se por lançar fora o anátema e com alegria
promulgar a vida de Elias.

Dr. Mark Hanby.

"Embora possam ter dez mil


tutores em Cristo,
vocês não têm muitos pais,
pois em Cristo Jesus eu mesmo
os gerei por meio do evangelho."
(1 Coríntios 4.15)

o DILEMA DO PAI

Depois de uma longa viagem pelo oceano, o jovem missionário ainda lutava contra a
sensação de enjôo quando desceu do barco no cais de uma terra muito longe de casa. Os
anos de preparação, o estudo do idioma e as orações o haviam finalmente levado às praias
com que sonhara. Cheio de paixão por aqueles que haviam se perdido e morrido em sua
terra, o missionário ansiava por compartilhar o amor de Jesus com aqueles que
desconheciam seu nome. O que aquele jovem missionário não sabia era que a religião
ocidental havia alcançado aquele povo antes da chegada da Palavra do Reino.

Os ministros que precederam sua chegada serviram como plataforma para o avanço
de um sistema denominacional e de doutrinas, e não como promulgadores do Cristo de
Deus. Ao caminhar por aquela terra, casa por casa, o jovem ministro percebeu que cada
representante da pequena comunidade cristã se agrupava a outros sob alguma
denominação: Anglicana, Assembléia de Deus, Batista, Presbiteriana, Metodista, Igreja de
Deus, Igreja de Jesus Cristo, Apostólica... Ele cogitou se aqueles nomes serviriam como
rótulo de identidade ou simplesmente marcavam um patamar no qual cada um destes
grupos havia interrompido a progressão da revelação de Deus.

"É esta obra de Deus? É assim que Cristo constrói a sua igreja? Será que nos
perdemos do propósito e do desígnio e nos tomamos mais mundanos do que o próprio
mundo, o qual desejamos trazer para Jesus? Onde erramos e o que poderíamos fazer para
retornar à simplicidade em Cristo?"

Estes e outros pensamentos passavam pela cabeça do missionário, mas, devido à


quantidade de trabalho que tinha de fazer para Deus, ele deixou de lado aquelas
indagações. Tais questões desviam as pessoas dos programas, dos encontros, da
contabilidade, da forma e das funções. Mesmo assim, tarde naquela noite, depois de se
recolher para o repouso, o jovem ansiava no coração pela realidade em Deus.

Em raras oportunidades uma igreja recebeu mais de Deus do que recebera o povo da
antiga Corinto. Primeiramente introduzidos na verdade básica pelo apóstolo Paulo, o povo
de Corinto foi depois banhado pelo fluir eloqüente da revelação divina de Apolo.
Posteriormente, seriam ainda mais enriquecidos pela testemunha ocular maior do
ministério de Jesus naqueles dias, o apóstolo Pedro. Corinto foi, com efeito, querida pelo
Senhor. A igreja era repleta da Palavra; a abundância dos dons espirituais em Corinto
parece ímpar, até mesmo para os padrões do Novo Testamento. Considerando-se a
grande riqueza da revelação, a visão e a expressão carismática que foram depositadas
nesta comunidade cristã primeira, parecer-nos-ia correto considerar este cenário um
modelo de tudo aquilo que a igreja deveria se tornar. Porém, até mesmo uma leitura
descompromissada de nossa Bíblia da carta aos coríntios não revela o modelo, e sim a
desordem.

Conforme os escritos de Paulo, os coríntios constituíam uma sociedade formada por


grupos antagônicos e fornicadores. Eram uma congregação de carismáticos carnais cujas
reuniões se resumiam a exibições egoístas de seus dons espirituais. Um diagnóstico do
Corpo de Cristo em Corinto faria uso de termos como desunião, disfunção e desordem.
Seu uso ignorante dos dons era um sintoma de alguma confusão com respeito à identidade
deles. Os coríntios não baseavam sua identidade em quem eram em Cristo, ao contrário,
buscavam estabelecer a identidade se agrupando sob o nome de algum pregador famoso.
Diziam: "Eu sou de Paulo; e eu de Apolo; e eu de Cefas; e eu de Cristo". Ao juntarem um
nome famoso ao seu, ganhavam marca de identidade e aumentavam sua percepção de
uma importância que não era de Deus.

Os coríntios também buscavam identidade mediante qualquer dom do Espírito que


lhes fosse demonstrado em suas vidas. Assim como elevavam um pregador favorito acima
dos outros pregadores, muitos membros da igreja de Corinto elevavam seus dons pessoais
à condição de fonte de suas identidades. Evidentemente, vários dos coríntios que eram
cristãos profetizavam, falavam em línguas e sentiam que seus dons eram não apenas
maiores do que os dons das outras pessoas, como também eram pessoas de maior
excelência por causa de seus dons! Usavam de carisma como sinal da identidade, em vez
de obrarem no ministério para o Corpo, provocavam a confusão e a indecência, tão
presentes nas reuniões de sua congregação. Foi sob este quadro que Paulo escreveu:

('Não vos escrevo estas coisas para vos envergonhar; pelo contrário, para vos admoestar
como a filhos meus amados. Porque, ainda que tivésseis milhares de preceptores em Cristo,
não teríeis, contudo, muitos pais; pois eu, pelo evangelho, vos gerei em Cristo Jesus.
Admoesto-vos, portanto, a que sejais meus imitadores. Por esta causa, vos mandei Timóteo,
que é meu filho amado e fiel no Senhor, o qual vos lembrará os meus caminhos em Cristo
Jesus, como, por toda parte, ensino em cada igreja" (1 Coríntios 4:4-17).

Nestas poucas frases, o apóstolo mostra o caminho para a igreja de Corinto sair do
dilema. Paulo os alerta que devem segui-lo, pois é seu pai no evangelho. Fala a eles como
seus filhos e envia seu filho no Senhor, Timóteo, para lembrá-los da verdade apostólica. O
apóstolo Paulo não embarcou em uma viagem rumo ao estrelato espiritual ao pedir a um
grupo de cristãos para serem seus imitadores. Paulo teve plena consciência de sua própria
identidade, dizendo, mais tarde, na mesma epístola:

«Porque eu sou o menor dos apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado apóstolo,
pois persegui a igreja de Deus. Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que
me foi concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos eles; todavia,
não eu, mas a graça de Deus comigo" (1 Coríntios 15:9-10).

Paulo sabia quem era e também o motivo de a ele ser concedido o seu lugar em
Deus. Foi a igreja de Corinto que não aceitou a paternidade de Paulo e portanto não teve
um verdadeiro pai para seguir. Na medida que uma congregação ou um ministério fique
fora da ordem de Deus, as pessoas padecem de distúrbios e falta de identidade. Se
estivermos sem pai, estamos nós, igualmente, sem identidade, sem herança, sem tradição,
e sem irmãos verdadeiros.

A ordem de Deus em seu Reino é a ordem de pai e filho. Paulo escreve para uma
cultura caótica e carismática no trato de um pai com seus filhos e por isto apresenta
Timóteo como um modelo de quem é realmente um filho no ministério. O apóstolo então diz
que estas são formas de Paulo ser em Cristo, ensinando em todos os lugares e em todas
as igrejas. Se nossa meta é encontrar uma saída da confusão, faz-se necessário
encontrarmos nosso caminho no Reino.

Devemos retornar ao princípio divino de pai e filho. Esta verdade se perdeu na Igreja
devido ao fato de termos aplicado os modelos das práticas modernas e gestão e negócios
a nossos relacionamentos em lugar de seguirmos o padrão bíblico. Contratamos pastores e
líderes para exercerem determinadas funções dentro de uma estrutura organizacional que
se assemelha a qualquer franquia de hambúrgueres muito mais do que segue a verdade
espiritual.
Atualmente, uma pequena igreja se associa a um grande ministério ou à
denominação que lhe serve de "quartel general", como se fosse a franquia de alguma linha
de produtos famosa. Com isto, a pequena igreja recebe da outra o nome, a logomarca, a
segurança organizacional, na medida que adere a seu nome o de uma "rede" nacional. Os
pastores se tornam gerentes executivos nestas filiais, que por sua vez contratam
assistentes da gerência para atuarem em áreas determinadas: visitas, música, mocidade,
administração, etc. O pastor, juntamente com seus assistentes, ajuda no recrutamento e
treinamento do grupo de voluntários para que exerçam tarefas programadas. O resultado
deste trabalho são mais negócios e o recrutamento de novos clientes que financiam mais
prédios em melhores localizações. Damos a este movimento o nome de crescimento da
igreja. Damos a este movimento o nome de sucesso. Todavia, qual o nome que Deus dá a
isto?

Praticamos atos os quais Deus nunca nos disse para praticarmos. Deus nunca disse
para nos constituirmos exatamente como as nações do mundo. Nunca disse que
desenvolvêssemos sistemas para dividir a verdade em áreas separadas mediante a
nomeação e numeração das pessoas. Fomos nós quem fizemos nossas denominações
para parecermos com qualquer outra nação.

Em verdade, as organizações do Reino de Deus deveriam ter como modelo a


Palavra, e não os princípios deste mundo. A Igreja não pode ser uma franquia na esquina;
ela é mais que um sindicato de pregadores. A Igreja deve ser a representação da verdade
do Reino na terra.

Nossos relacionamentos no ministério são baseados no processo de votação -


conseguintemente, a decisão é da maioria - em vez de nos basearmos no governo de
Deus. A autoridade emana dos "quartéis generais", que não passam de uma parte alienada
da liderança, substituindo a ordem familiar pela política e autoridade organizacional. A
cobertura do ministério se tornou uma fachada legal, e não a verdadeira veste de um
pastor. Os homens desejam respeitabilidade e desejam promover seu próprio nome. Boas
mulheres e bons homens de Deus são colocados nos postos de pastores e líderes, mas
depois são retirados pelas mesmas regras dos sistemas de liderança carnais. A vontade de
Deus se torna adjacente às regras dos homens.

Aqueles que sabem que as denominações não são a resposta, formam


"comunidades" e chamam a si mesmos de "não-denominacionais" ou "independentes". Ao
se chamarem assim, sentem-se cobertos o suficiente para se engajarem nas mesmas
práticas, vez por outra com até mesmo maior corrupção do que os antigos sistemas aos
quais haviam abandonado. Shakespeare disse que uma rosa, ainda que chamada por
outro nome, ainda conserva o aroma. Deste modo, um sistema a seguir os princípios
mundanos de poder e relacionamento conserva-se no mundo, seja qual for sua posição
oficial ou seu rótulo.
Devido ao fato de a Igreja não seguir o caminho de seu Redentor, relacionamentos
que não são bíblicos produziram uma geração também não bíblica. Deus não nos chama
somente de seus "embaixadores" ou de seus "ministros". Chama-nos igualmente de Filhos,
Igreja, Noiva e Corpo! Construímos relacionamentos ministeriais baseados no reino deste
mundo, diversamente do Reino de nosso Deus e de seu Cristo! Esta é a razão pela qual
somos tão bons em construir igrejas, mas não em participar na verdadeira experiência do
Reino. Nosso enorme crescimento numérico é severamente diminuído pelo poder dos
cento e vinte homens e mulheres no alto-gabinete. O propósito da Igreja é ser um posto
avançado do Reino, contrariamente à máquina feita pela mão do homem, sem sangue,
com parâmetros humanos e institucional, produtoras de programas e números, mas não
de filhas e filhos.

Quando o povo de Deus se recusa a seguir-lhe a ordem, a sentença que recebem é a


falta de qualquer ordem e a perda de verdade e revelação. Quando a excelência da
Palavra de Deus não é aplicada à Igreja, então é dela retirada. O profeta Isaías escreveu:

''Porque eis que o Senhor, o SENHOR dos Exércitos, tira de Jerusalém e de Judd o sustento
e o apoio, todo sustento de pão e todo sustento de água; o valente, o guerreiro e o juiz; o
profeta, o adivinho e o ancião; o capitão de cinqüenta, o respeitável, o conselheiro, o hábil
entre os artífices e o encantador perito" (Isaías 3:1-3).

Esta profecia reflete a situação vivida em 606 a.C., quando Nabucodonosor tomou à
Judéia todo o tesouro e as melhores pessoas para a Babilônia. Por exemplo, o profeta
Daniel e seus três amigos eram alguns dos príncipes e homens de poder que foram
levados ao cativeiro na qualidade de líderes de Israel daquela época (ver 2 Reis 24:13-16).
Como conseqüência do pecado de Israel, Deus retirou a excelência do aporte dado pela
liderança como julgamento ao restante do povo, para que este não incursasse em
transgressões ainda maiores e, desta forma, sofressem sentenças ainda mais pesadas.
Deus sempre retirará os melhores para que o restante se alinhe a seu propósito.

Diante deste quadro, perguntamos: onde está o poder de Deus na Igreja de hoje em
dia? Onde estão os homens de poder, apóstolos e profetas que outrora falavam e as
nações tremiam? Deus nos retirou a excelência a fim de que retornássemos a seu
caminho. O desejo de Deus é restabelecer a Igreja do Reino por completo. "Eis aqui estou
para fazer, ó Deus, a tua vontade. Remove o primeiro para estabelecer o segundo"
(Hebreus 10:9). Deus extirpa a liderança madura; o resultado é a falta de excelência na
liderança.

''Dar-lhes-ei meninos por príncipes, e crianças governarão sobre eles. Entre o povo, oprimem
uns aos outros, cada um, ao seu próximo,' o menino se atreverá contra o ancião, e o vil,
contra o nobre" (Isaías 3:4-5).
Quando o povo de Deus recusa a maturidade em Cristo, são sentenciados a perder a
maturidade e a conseqüência é haver indivíduos imaturos em posição e liderança - os pai?
são substituídos por filhos.

Ao ter dito aos coríntios "Porque, ainda que tivésseis milhares de preceptores em
Cristo, não teríeis, contudo, muitos pais" (1 Coríntios 4:15), Paulo se referiu à raiz do
problema: a falta de uma liderança paterna madura. No lugar de terem muitos pais,
possuíam dez mil preceptores. A palavra grega para preceptor é 'paidagogos', em
português 'pedagogo', cuja etimologia diz 'aquele que conduz a criança'. O termo se referia
ao servo cuja tarefa era levar as crianças à escola. Com isto, os pais foram substituídos por
servos que não estavam relacionados à herança espiritual.

Hoje, milhares de ministros são pessoas educadas nas melhores escolas. Muitos
tiveram a educação formal complementada com muitos recursos da tecnologia, bem como
livros e revistas especializados. Apesar de nunca ter havido de fato uma grande quantidade
de material bíblico disponível, há alguns pontos preciosos da manifestação do poder
bíblico. Por isto, conseguimos alcançar milhões de pessoas com nossas informações. Mas,
sem o relacionamento espiritual, a verdade a ser compartilhada não pode ser dada e
tampouco recebida.

A razão de não vermos alguma manifestação de poder nas proporções bíblicas é não
estarmos compartilhando—dando e recebendo—consoantemente com o padrão bíblico.
Temos dez mil preceptores que nos conduzem até a escola, todavia, não temos muitos
pais.

Uma das conseqüências de estarmos em uma igreja sem paternidade é a opressão.


Isaías disse: "Entre o povo, oprimem uns aos outros, cada um, ao seu próximo; o menino
se atreverá contra o ancião, e o vil, contra o nobre" (Isaías 3:5).

A família sem pai padece espiritualmente tanto quanto sofre de forma financeira,
social e psicológica. A pressão sobre as mães nesta condição e sobre as crianças sem o
pai é demasiada. Quando o pai não está presente para ensinar aos filhos as questões
relacionadas a Deus, os corações destes últimos se avultam em ira e, por isto, desonram a
autoridade (ver Efésios 6.1-4). Ocorre que a opressão surge quando pessoas imaturas
tomam conta das congregações, liderando o povo sem haver nenhuma visão verdadeira.
"Não havendo profecia, o povo se corrompe" (Provérbios 29:18).

Outro traço da igreja sem paternidade é o desejo por alguma identidade. Isaías
escreveu:

"Quando alguém se chegar a seu irmão e lhe disser, na casa de seu pai: Tu tens roupa, sê
nosso príncipe e toma sob teu governo esta ruína; naquele dia, levantará este a sua voz,
dizendo: Não sou médico, não há pão em minha casa, nem veste alguma; não me ponhais
por príncipe do povo (...). Sete mulheres, naquele dia, lançarão mão de um homem, dizendo:
Nós mesmas do nosso próprio pão nos sustentaremos e do que é nosso nos vestiremos; tão-
somente queremos ser chamadas pelo teu nome; tira o nosso opróbrio" (Isaías 3:6-7; 4:1).

Os israelitas se apegavam a qualquer um que lhes aparentasse bom o suficiente para


servir de líder. As únicas qualificações necessárias para se ocupar a posição de liderança
seriam as roupas apropriadas e a aparência. Se alguém se vestisse para lograr, pois,
lograria. Devido ao número diminuto de pais, bastava a alguém ser do gênero masculino
para possuir qualidade suficiente a fim de que se tornasse o cabeça da casa.

Com a falta de pais, caminha a falta de identidade. Temos uma necessidade


desesperada de estarmos incluídos, e termos parâmetros, de reconhecermos quem somos
em Deus. Um órfão pode buscar por muitos anos qualquer informação a respeito de sua
linhagem, pois sem esta nunca irá se reconhecer completamente. Pode até ter muitos
irmãos e irmãs, todavia, sem o reconhecimento do pai não pode ser capaz de identificar os
laços de parentesco com os outros membros da família. Talvez a ele seja destinada uma
grande herança, mas sem a prova de que é integrante de determinada linhagem, não
estará jamais apto a recebê-la.

Muitos líderes cristãos podem atualmente, quando questionados, arrolar os homens


que lhes influenciaram a vida, porém, estes mesmos líderes não conseguem apontar seu
pai no ministério. Assim, igualmente à igreja de Corinto, foi-nos dada uma instrução ampla,
bem como dons abundantes, todavia, não temos muitos pais. A conseqüência é nos
agruparmos sob algum estandarte de algum preceptor em particular, ou sob uma
instituição, com o fim de adquirirmos nossa identidade. Por outras vezes, utilizamos nosso
dom como fonte de individuação no Reino, fato que perverte exatamente o propósito pelo
qual os dons foram dados aos homens por Deus. O produto final deste distúrbio é uma
igreja doente e infantilizada, incapaz de andar no Espírito, ela cambaleia e se desequilibra,
saciando suas volúpias.

O que a igreja deve promover é um reavivamento, não apenas do Espírito Santo


como também dos padrões de relacionamento no ministério. Temos de redescobrir a
verdade exuberante de se compartilhar relacionamentos sob a ordem do pai para o filho.
Quando encontrarmos a ordem de Deus, reconheceremos nossa identidade e
completaremos nosso propósito no Reino de Deus.

A ORDEM DO PAI

- Ordem no tribunal! - o juiz exigiu compostura na casa onde sua autoridade é


absoluta. Procurou manter intactos os pilares da justiça com a destreza de um cirurgião
para que, daquela forma, a atuação da justiça se conservasse inabalável.
Um delinqüente juvenil estava em frente ao juiz. Pouco poderia ser dito no caso; o
jovem era incontestavelmente culpado. Por isto não apresentou nenhum argumento. Pediu
apenas que o júri demonstrasse misericórdia.

O pai do rapaz estava presente no recinto. Fora até lá com o único intuito de,
novamente, afiançar o filho para mantê-lo longe dos problemas. Nutria a esperança de que
um talão de cheques e uma caneta pudessem pagar pelo erro do filho. Mas ao juiz não
interessava seu dinheiro, contrariamente, pediu que o pai relatasse onde havia estado
durante a infância do filho.

O pai, então, narrou uma história breve de sua própria infância. Quando nascera, seu
velho pai já havia abandonado a família, razão pela qual fora obrigado a abrir mão da
infância e ser o "homem da casa". Ganhando pouco e trabalhando muito, maldizia o pai
que nunca conhecera por metê-lo em um mundo de pobreza que conhecera bem demais;
sendo assim jurou que seu filho jamais experimentaria a pobreza.

Diante do juiz, admitiu que em seus esforços para prover a família com uma vida
melhor, raramente teve tempo para cultivar a paternidade. Todavia, ressaltou o fato de
poder pagar todo tipo de conforto e luxo para seu filho. Mas, ao olhar de sua tribuna, tudo
que o juiz viu foi um menino pobre com muito dinheiro cujo crime foi roubar: infringia a lei
para roubar a atenção do pai. Diante destes fatos, como tal caso deveria ser julgado? a juiz
compadeceu, mas não poderia negligenciar os fatos, pois não deveria somar mais uma
atitude que mantivesse aquele círculo vicioso. Então, concluiu que a melhor solução seria
apertar as rédeas, porque, apesar de tal medida causar desconforto, conduziria aquele
jovem à maturidade.

O réu foi considerado culpado e seu pai foi responsabilizado. A sentença do filho foi
quarenta horas de prestação de serviços à comunidade para que aprendesse os valores da
honra e do respeito. Ao pai, foi exigido que desse uma grande quantidade de atenção ao
filho para aprender o valor do relacionamento.

O juiz bateu o martelo com precisão. O tribunal havia decidido em nome do futuro,
condenando o passado disfuncional. A justiça foi feita e os relacionamentos foram
assegurados por um juiz que levou ordem à casa do pai e do filho.

No início, a ordem do universo foi a perfeição, desde a minúscula flor até a maior das
aves era tudo harmonia - incluindo os relacionamentos. Mas quando o pecado entrou no
mundo, a ordem natural de perfeição tomou-se um caos. Em lugar de a perfeição
reproduzir a perfeição, muitos espinhos cresceram e a sufocaram.

Ervas daninhas e doenças se espalharam, enquanto animais passaram a predar


outros animais, agrilhoados à chamada cadeia alimentar. O caos reproduziu o caos. A
perfeição que outrora havia sido natural, agora lutava para se manter. De maneira
semelhante, nossos relacionamentos merecem que a eles dediquemos trabalho. Assim
como arrancamos ervas daninhas, devemos desarraigar a amargura e aprender a não
sufocarmos uns aos outros.

Há que se começar novamente aprendendo a semear nas vidas das outras pessoas
para fazermos a colheita de relacionamentos corretos. E devemos começar com a ordem
de pai e filho.

Foi mediante esta ordem que Deus interveio e prometeu um Salvador através da
semente justa de Sete, "Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o
seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar" (Gênesis 3:15). Pois,
em nove gerações de Adão é possível ver o coração de Deus se voltando contra seus
filhos por causa da maldade destes. "Viu o SENHOR que a maldade do homem se havia
multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração; então, se
arrependeu o SENHOR de ter feito o homem na terra, e isso lhe pesou no coração"
(Gênesis 6:5-6). Este teria sido o fim dos filhos de Adão, exceto porque "Porém Noé achou
graça diante do SENHOR" (Gênesis 6:8). Deus encontrou um filho que poderia tornar-se
pai. O Senhor salvou Noé, sua esposa, os filhos e esposas. Todos foram salvos por
pertencerem à casa de seu pai, Noé, que se tomou um pai para toda a raça humana e um
pai no ministério quando ofereceu um sacrifício pela ocasião de seu desembarque da arca.
Deus mais tarde iria abençoar um homem de nome Abraão, filho de Tera, filho de Naor,
descendentes de Noé. Deus levou Abraão a ser o pai de uma nação, "Por que eu o escolhi
para que ordene a seus filhos e a sua casa depois dele, a fim de que guardem o caminho
do SENHOR" (Gênesis 18:19),

De Abraão vieram Isaque, Jacó e seus doze filhos: doze tribos, uma nação. Abraão,
Isaque e Jacó foram pais no ministério e pais de uma nação. Cada um dos filhos de Jacó
foram pais de uma tribo. A bênção de Deus passou de pai para filho.

Setenta e cinco pessoas foram para o Egito e milhões de lá voltaram. Quando Israel
esteve sob o jugo de Faraó, o coração de Deus se voltou para seus filhos. Deus viu a
nação inteira como seu filho. Assim, todos os primogênitos egípcios morreram e Israel se
libertou, porque "Assim diz o SENHOR: Israel é meu filho meu primogênito" Êxodo 4:22.
Esta nação seria libertada por Deus mediante um pai no ministério ao qual chamaram
Moisés.

Apesar de Deus escolher dar a promessa a todos os filhos de Abraão, apenas uma
das tribos serviria em sua casa. O tabernáculo deveria ser administrado e seus serviços
executados por uma tribo, a de Levi. Da tribo dos levitas, uma família - a família de Arão -
foi escolhida para o sacerdócio no Santo dos Santos. Arão foi destacado por Moisés como
pai do sacerdócio, que também funcionava sob a ordem de pai e filho.

''Faze também vir para junto de ti Arão, teu irmão, e seus filhos com ele, dentre os
filhos de Israel, para me oficiarem como sacerdotes, a saber, Arão e seus filhos
Nadabe, Abiú, Eleazar e ltamar" (Êxodo 28:1).
''Farás também chegar Arão e seus filhos à porta da tenda da congregação e os
lavarás com água. Vestirás Arão das vestes sagradas, e o ungirás, e o consagrarás
para que me oficie como sacerdote. Também farás chegar seus filhos, e lhes vestirás
as túnicas, e os ungirás como ungiste seu pai, para que me oficiem como sacerdotes;
sua unção lhes será por sacerdócio perpétuo durante as suas gerações" (Êxodo
40:12-15).

Arão e seus quatro filhos refletiam os cinco dons do ministério da Igreja: "E ele
mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e
outros para pastores e mestres" (Efésios 4.11). Apesar de todos os israelitas serem
adoradores de Jeová, apenas Arão e suas gerações futuras poderiam servir no ministério
com o ofício de sacerdotes. Talento, inteligência, educação, dedicação e devoção ao
Senhor são atributos maravilhosos na família de Deus, mas não são jamais a qualificação
para o ministério. O único sacerdócio realmente duradouro acontece através das gerações.
Para ser sacerdote, seu pai há de ter sido também sacerdote.

Não eram apenas os sumo sacerdotes os únicos a seguir a ordem de pai e filho, mas
o diaconato do antigo testamento - os levitas - também foram escolhidos sob a mesma
ordem: "Também farás chegar contigo a teus irmãos, a tribo de Levi, a tribo de teu pai, para
que se ajuntem a ti e te sirvam, quando tu e teus filhos contigo estiverdes perante a tenda
do Testemunho" (Número 18:2).

Os filhos de Levi serviram aos filhos de Arão. Desde tocarem música a carregarem
mobílias, os levitas serviram como ajudantes e assistentes aos sacerdotes.
Independentemente do quanto o trabalho parecesse subalterno, era considerado ministério
verdadeiro. Por isto os levitas eram ministros - porque a qualificação para seu ministério
era serem filhos de Levi. Assim como era necessário ser filho de Arão para alguém ser
sacerdote, não se poderia sequer limpar as cinzas do altar se não se tivesse Levi como pai.

Toda a humanidade pecou e caiu da glória do Senhor por causa de seu pai Adão. A
salvação do dilúvio ocorreu mediante um pai, Noé. Todo o povo de Israel foi escolhido por
um pai, Abraão. Todos os sacerdotes tinham um pai, Arão. Todos os levitas eram de um
pai, Levi. Tudo o que vem de Deus é de pai para filho. Qualquer desvio na ordem de Deus,
é um desvio de Deus.

Esta ordem foi pervertida na época de Eli, o sumo sacerdote. A luz do sacerdócio
esmaeceu quando os filhos de Eli, Hofni e Finéias (chamados por Deus de os filhos de
Belial), roubaram das oferendas e usaram seu ofício para manter relações sexuais ilícitas.
Mais tarde, estes falsos sacerdotes enfrentaram uma batalha contra os filisteus.
Imaginaram que se com a Arca da Aliança desfilassem perante os exércitos seriam,
seguramente, os vitoriosos, mas, simplesmente desfilar com uma aliança a qual não se
cumpriu não é o segredo para a vitória. E ao mesmo tempo, da linhagem de Eli nasceu o
filho de Finéias, Icabode, ou "A glória se foi". A conseqüência foi o fim da linhagem de Eli.
Contudo, Deus concebeu outra forma de se preservar a ordem de pai e filho, Deus
respondeu às orações de uma mulher chamada Ana, que entregou seu primogênito ao
serviço na casa de Deus. Ele chamou Samuel para ser o novo pai de Israel; ser: "um
sacerdote fiel, que procederá segundo o que tenho no coração e na mente edificar-lhe-ei
uma casa estável, e andará ele diante do meu ungido para sempre" (1 Samuel 2:35),
Samuel foi um homem de transição no desenvolvimento do povo de Deus rumo a seu
propósito definitivo de trazer-nos o Messias. Samuel foi, deste modo, a ponte entre a
rejeição da linhagem de um pai e o profeta que estabeleceu a linhagem do Messias.

Os filhos de Samuel deveriam seguir-lhe o ministério, no entanto...

"Tendo Samuel envelhecido, constituiu seus filhos por juízes sobre Israel (...),Porém seus
filhos não andaram pelos caminhos dele; antes, se inclinaram à avareza, e aceitaram
subornos, e perverteram o direito. Então, os anciãos todos de Israel se congregaram, e
vieram a Samuel, a Ramá, e lhe disseram: Vê, já estás velho, e teus filhos não andam pelos
teus caminhos; constitui-nos, pois, agora, um rei sobre nós, para que nos governe, como o
têm todas as nações. Porém esta palavra não agradou a Samuel, quando disseram: Dá-nos
um rei, para que nos governe. Então, Samuel orou ao SENHOR" (1 Samuel 8:1,3-6).

Os filhos de Samuel "não andaram pelos caminhos dele; antes, se inclinaram à


avareza, e aceitaram subornos, e perverteram o direito" (1 Samuel 8:3). Seus corações se
voltaram para a carne, e não para seu pai. Desta vez, os líderes israelitas não tiveram a
disposição para confiar em Deus para que consertasse a situação corrompida como fizera
no caso de Eli. Em vez de orarem por um reavivamento dentro da ordem de Deus, o povo
trocou-a pela ordem do homem. O desejo de ser como as outras nações foi maior que a
confiança em Deus. As feridas do passado os motivaram a não mais confiar na ordem de
Deus,

Os filhos de Samuel eram completamente corrompidos. Não eram aptos para


governar o povo de Deus. De qualquer forma, uma liderança corrompida não implica em
abandonarmos a ordem de pai e filho, pois abandonar a ordem de Deus é cometer injustiça
igual àquela dos líderes inaptos. O fato de não haver disposição para se submeter à ordem
de Deus significa não haver disposição para se submeter a Deus. A oração em época difícil
levou Samuel à liderança do povo de Deus. Se, se mantivessem na oração, Deus teria,
então, enviado uma nova ordem de pai e filho no ministério.

Quando o povo desejou ser como as outras nações e seguir um rei no lugar de seguir
Deus, perdeu o fluir da bênção entre as gerações, transmitido de pai para filho. Ao alterar a
forma de sua submissão, o povo não só rejeitou a ordem de Deus, como também
interrompeu a bênção contida na ordem a qual rejeitava.

"Então, os anciãos todos de Israel se congregaram, e vieram a Samuel, a Ramá, e lhe


disseram: Vê, já estás velho, e teus filhos não andam pelos teus caminhos; constitui-nos,
pois, agora, um rei sobre nós, para que nos governe, como o têm todas as nações" (1 Samuel
8:4-5).

O estabelecimento do reino dos homens foi baseado na rejeição da ordem de pais e


filhos. Foi esta a própria rejeição de Deus.

''Disse o SENHOR a Samuel: Atende à voz do povo em tudo quanto te diz, pois não te
rejeitou a ti, mas a mim, para eu não reinar sobre ele. Segundo todas as obras que fez desde
o dia em que o tirei do Egito até hoje, pois a mim me deixou, e a outros deuses serviu, assim
também o faz a ti. Agora, pois, atende à sua voz, porém adverte-o solenemente e explica-lhe
qual será o direito do rei que houver de reinar sobre ele" (1 Samuel 8:7-9).

Samuel descreveu o que aconteceria se fossem como as outras nações. Relatou o


que os sistemas humanos fazem com o povo de Deus.

"Referiu Samuel todas as palavras do SENHOR ao povo, que lhe pedia um rei, e
disse: Este será o direito do rei que houver de reinar sobre vós: ele tomará os vossos
filhos e os empregará no serviço dos seus carros e como seus cavaleiros, para que
corram adiante deles; e os porá uns por capitães de mil e capitães de cinqüenta;
outros para lavrarem os seus campos e ceifarem as suas messes; e outros para
fabricarem suas armas de guerra e o aparelhamento de seus carros. Tomará as
vossas filhas para perfumistas, cozinheiras e padeiras. Tomará o melhor das vossas
lavouras, e das vossas vinhas, e dos vossos olivais e o dará aos seus servidores. As
vossas sementeiras e as vossas vinhas dizimará, para dar aos seus oficiais e aos
seus servidores. Também tomará os vossos servos, e as vossas servas, e os vossos
melhores jovens, e os vossos jumentos e os empregará no seu trabalho. Dizimará o
vosso rebanho, e vós lhe sereis por servos. Então, naquele dia, clamareis por causa
do vosso rei que houverdes escolhido; mas o SENHOR não vos ouvirá naquele dia” (1
Samuel 8:10-18).

Mas o povo rejeitou a admoestação de Samuel; rejeitou a ordem de Deus em


benefício do sistema humano. "Porém o povo não atendeu à voz de Samuel e disse: Não!
Mas teremos um rei sobre nós. Para que sejamos também como todas as nações; o nosso
rei poderá governar-nos, sair adiante de nós e fazer as nossas guerras" (1 Samuel 8:19-
20). O fato de o povo de Deus querer um rei como as outras nações fez Samuel ungir Saul
para que este se tornasse o primeiro rei de Israel. Samuel também foi o pai de Saul no
ministério (ver 1 Samuel 10:12): Apesar disto, o coração de Saul não permaneceu com seu
pai no ministério. Ele desobedeceu a Deus em duas oportunidades. Em ambos os casos, a
transgressão foi baseada em suas tentativas de seguir as exigências dos homens quando,
em verdade, havia sido ungido para seguir o Senhor.

"Então, veio a palavra do SENHOR a Samuel, dizendo: Arrependo-me de haver


constituído Saul rei, porquanto deixou de me seguir e não executou as minhas palavras.
Então, Samuel se contristou e toda a noite clamou ao SENHOR" (1 Samuel 15:10-11). O
coração de Saul não seguiu Deus, por isto o coração de Deus se afastou da instituição de
Saul como rei. Para substituí-lo Deus examinou seis irmãos, todos portando o espírito da
realeza, para entre eles encontrar um coração moldado no seu. Um pastorzinho seria o rei.

Davi foi ungido como rei. Ele lutou com valentia, governou com graça, mas pecou com
exagero. Entretanto, quando caiu, Davi procurou o reavivamento do coração e do espírito,
disponível para todos aqueles que se voltam ao pai.

Foi de Davi o desejo de construir uma casa para Deus. No entanto, Deus falou que
jamais lhe expressara, ou a qualquer outra pessoa, algum desejo que a construíssem. Ao
contrário, foi Deus quem construiu uma casa para Davi - uma casa edificada para sempre.
Quando as pedras do templo tornarem pó, a casa de Davi ainda verterá exuberância! Esta
casa é edificada na ordem de pai e filho; o filho de Davi estará sentado no trono para
sempre. Deus adotou Davi como seu primogênito e a casa de Davi como sua própria.

"Também O SENHOR te faz saber que ele, o SENHOR, te fará casa. Quando teus
dias se cumprirem e descansares com teus pais, então, farei levantar depois de ti o
teu descendente, que procederá de ti, e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma
casa ao meu nome, e eu estabelecerei para sempre o trono do seu reino. Eu lhe serei
por pai, e ele me será por filho; se vier a transgredir, castigá-lo-ei com varas de
homens e com açoites de filhos de homens. Mas a minha misericórdia se não
apartará dele, como a retirei de Saul, a quem tirei de diante de ti" (2 Samuel 7:11-15).

Deus jamais almejou que seu povo vivesse sob qualquer coroa humana, mas no
Reino de Deus. Os homens foram postos como reis por haverem antes rejeitado o caminho
de Deus. A ordem de pai e filho não é somente mais um tema dentre tantos nas Escrituras;
é, de fato, o princípio básico para todo o entendimento espiritual no Reino.

Quando foi do desejo de Deus se manifestar por inteiro, valeu-se da ordem de pai e
filho: "Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos
profetas nestes últimos dias nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as
coisas, pelo qual também fez o universo" (Hebreus 1:1-2). Quanto a Jesus, ele não operou
nada fora da completude perfeita da ordem de pai e filho. Por isto, é possível dizer que o
filho de Deus andou na ordem de pai e filho quando esteve na terra. Apesar de ser a
divindade encarnada, Jesus não realizou seus poderes divinos antes do comando do Pai.
Aquele que acalmou os mares, expulsou os demônios e foi erguido dos mortos disse: "o
Filho nada pode fazer de si mesmo, senão somente aquilo que vir fazer o Pai" (João 5:19).
Jesus veio ao mundo enviado por seu Pai, foi crucificado em sinal de obediência à vontade
do Pai e se ergueu novamente, ascendendo ao Pai! Além disto, Jesus não atuou em
qualquer ministério até que tivesse completo o padrão de pai e filho, realizado no rio
Jordão.

O Senhor Jesus, em quem Deus se manifestou em carne, não deu início a seu
ministério até ser declarado o Filho do Pai: "Ninguém, pois, toma esta honra para si
mesmo, senão quando chamado por Deus, como aconteceu com Arão. Assim, também
Cristo a si mesmo não se glorificou para se tornar sumo sacerdote, mas o glorificou aquele
que lhe disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei" (Hebreus 5:4-5).

Todos nós já tivemos muitos instrutores e preceptores. Talvez tenhamos tido muito
mais de uma dúzia de professores no seminário, todavia, não temos muitos pais. O próprio
Jesus, exemplo máximo de todo ministério cristão, não operou qualquer ato ministerial em
exceção à ordem de pai e filho. Com isto, cabe concluir que se Jesus não obrou no
ministério fora da ordem de pai e filho, então, a nós não se reserva o direito de trabalhar no
ministério se não seguirmos a mesma ordem.

O ministério sempre flui de pai para filho. Quando Elias foi arrebatado na carruagem
de fogo, Eliseu não gritou "meu profeta" ou "meu mestre". Ele gritou "meu pai, meu pai" (2
Reis 2:12). Quando o apóstolo Paulo escreveu a Timóteo ou a Tito, não se dirigiu a eles
como "meu assistente” ou “meu aluno", mas como "amado filho da fé" (1 Timóteo 1:2),
porque sem o relacionamento espiritual entre pai e filho, não há como acontecer a
transmissão das bênçãos e da autoridade verdadeira, tanto em espírito quanto em
identidade.

A ordem de pai e filho é a base de todo o ministério no Velho Testamento e no Novo


Testamento. Paulo, ao escrever a Timóteo, diz: "a Timóteo, verdadeiro filho na fé" (1
Timóteo 1:2) e "Tu, pois, filho meu, fortifica-te na graça que está em Cristo Jesus" (2
Timóteo 2:1). O povo de Deus forma uma só família no mundo espiritual, da mesma forma,
tampouco é física a ligação entre pai e filho no ministério.

Timóteo, por exemplo, não foi filho biológico de Paulo. A ordem do ministério de
acordo com a Palavra de Deus é sempre de pai para filho, mas é uma ordem do Espírito,
portanto não necessita de gerações biológicas. Examinemos os seguintes exemplos:

• O legado de Moisés, o homem de Deus, a Josué (Números 27:15-20;


Deuteronômio 34:9).
• A unção de Saul pelo profeta Samuel (1 Samuel 10:12).
• A unção de Davi pelo profeta Samuel (1 Samuel 16:13).
• A passagem dos dons proféticos de Elias a Eliseu (2 Reis 2:12).
• O relacionamento entre Paulo e Tito (Tito 1:4).

A ligação de um pai e um filho no ministério é sempre do Espírito. A chave para esta


ordem é a transmissão da bênção e do legado de uma geração à outra, de para filho. É na
ordem de pai e filho que a partilha espiritual acontece. Foram as mãos de Paulo que
abençoaram Timóteo, seu filho: "Por esta razão, pois, te admoesto que reavives o dom de
Deus que há em ti pela imposição das minhas mãos" (2 Timóteo 1:6).

Esta é a ordem especial a se compartilhar no ministério: de pai para filho. Quando um


pai deposita a mão sobre o filho, não o faz ela mera transferência pensamentos e idéias, é
um legado do espírito. Quando ocorre esta partilha, um homem derrama o seu "código
genético espiritual", sua visão de mundo e sua missão no coração do filho.

A ordem de Deus não mudou em toda a história de relacionamentos dos homens,


pois Deus estabeleceu a ordem para que a vida natural fluísse de pai para filho, ele baseou
toda a herança espiritual sob a ordem entre pais e filhos no ministério. Adão, como pai de
todos os homens, transmitiu sua condição pecadora a todos nós. Noé se tornou o novo pai
da humanidade após o dilúvio. Abraão foi o pai e o cabeça de uma dinastia física e também
espiritual. Ele nos brindou com todos os outros pais no ministério: Moisés, Arão, Levi,
Josué, Samuel, Saul, Davi, e Jesus, o Filho de Davi.

Tudo que temos em Deus nos é legado por um relacionamento "pai—para—filho".


Cintilantes como as estrelas das noites de inverno, as palavras bíblicas são abundantes
como "tribo de seu pai", "bênção de seu pai", "casa de seu pai", "iniqüidade de seus pais" e
"Deus de seus pais". Até mesmo quando um homem morre, ele "dorme com seus pais".

Nós somos, com isto, o resultado da ordem de Deus de pai para filho, pois esta é a
ordem de nossa salvação; é a ordem do ministério; é o Reino de Deus.

Samuel mostrou ao povo de Deus o que acontece quando o caminho de Deus é


rejeitado e substituído pelos caminhos dos homens:

''Ponde-vos também, agora, aqui e vede esta grande coisa que o SENHOR fará diante dos
vossos olhos. Não é, agora, o tempo da sega do trigo? Clamarei, pois, ao SENHOR, e dará
trovões e chuva; e sabereis e vereis que é grande a vossa maldade, que tendes praticado
perante o SENHOR, pedindo para vós outros um rei" (1 Samuel 12:16-17).

A plantação foi destruída porque o reino dos homens foi suplantado pelo Reino de
Deus. Quando a Igreja rejeita a revelação de Deus e estabelece seu próprio reino, o
resultado é o arrasamento da plantação.

O povo deste mundo clama pelo Deus que o criou, mas a única forma de um dia se
conhecer o Pai é por intermédio do Filho. E a forma pela qual o mundo verá Jesus será
através da ordem de pai e filho que se manifesta na Igreja. Toda a criação geme e arqueja
na dor até hoje, esperando pela manifestação dos filhos de Deus (ver Romanos 8:19,22).

Se tanto pais como filhos não se voltarem uns para os outros, Deus cobrirá a terra
com um anátema, como profetizou Malaquias.

"Ele os trará para a terra dos


seus antepassados, e vocês
tomarão posse dela. Ele (o SENHOR) fará com que
vocês sejam mais prósperos e mais numerosos do
que os seus antepassados."
(Deuteronômio 30.5)

A HERANÇA DO PAI

Sentado a uma bela mesa de vidro muito bem polida, o pastor estudava para a
pregação da manhã de domingo. Apesar de seus sábados serem sempre dias de muito
trabalho, deveria de toda forma, preparar-se. Teria de estar pronto, pois muitas coisas
dependiam de sua liderança.

Ao correr os olhos por seu escritório tão bem montado era difícil não notar os tantos
diplomas e certificados protegidos por molduras muito bem talhadas. Aqueles papéis, nos
quais se viam assinaturas importantes, denotavam as realizações do pastor no campo da
teologia, bem como certificavam seu mérito com ordem honorífica. As comendas conferidas
pelos sacerdotes da cidade estavam entre suas favoritas. Com o olhar perdido e o espírito
inquieto contemplava as atividades daquela semana.

Na segunda-feira, houve uma reunião com o pessoal da igreja, pois algo teria de ser
feito com relação à má-orientação sobre os chamamentos e, sem qualquer dúvida, seria
inevitável alguma mudança a respeito da falta de iniciativa e de comprometimento. Na
terça-feira, o pastor passou o dia todo em reunião de aconselhamento e em visitas. Seus
filhos estavam tristes por ele ter faltado à sua peça na escola, mas o caso é que "Deus está
em primeiro lugar". Tentou ajudá-los a entender. Obviamente, a quarta-feira foi quase toda
dedicada à preparação para o estudo bíblico da noite, interrompida apenas pelos
numerosos telefonemas. Quinta-feira foi o dia das correspondências que, a propósito, ele
se esquecera da carta de recomendação para o pessoal do ministério da penitenciária.
Buscando uma pilha de papel, fez algumas anotações, quando se lembrou do fiasco de
sexta-feira à noite: sua esposa simplesmente não lhe entendeu.

Ele teria de ficar em casa trabalhando na mensagem que iria pregar, mas a esposa
insistiu que saíssem para jantar. Naquela noite, estava irritada, acusando-o de desatento e
calado demais. Ainda por cima, as explicações sobre seus afazeres para o fim-de-semana
e os problemas da igreja não ajudaram em quase nada para acalmá-la. Ela só queria
passar um tempo junto com ele e por isto fez o comentário ácido: "preferiria estar só".
Apesar de as palavras não terem, por prudência, deixado sua boca, ele protestou
mentalmente: "se fosse você quem tivesse de pregar no domingo, não agiria desse jeito".
Foram para a cama sem trocar outra palavra.

Já eram 14 horas e se lembrou que o filho implorara para que fosse ao seu jogo no
campeonato mirim às 17 horas. "Só tenho três horas... Devo me apressar!"
Como um general que antecipa a próxima batalha, o pastor traçou sua estratégia.
Devido ao escasso crescimento numérico, a pregação deveria ser evangelizadora. Todavia,
a constante inquietação e as críticas da congregação o fizeram cogitar falar sobre união e
comportamento cordial. Seria muito bom se a mensagem fosse acolhida como um
conselho... Precisava de alguma coisa fora do comum, algo bastante poderoso. Correndo
pela prateleira lotada de livros, buscou com os olhos autores como Spurgeon, Tozer,
Wiersbe, Wesley, Finney e obras do tipo de como estruturar um sermão com simplicidade
de Ford, Ajuda no púlpito... Às vezes o velho pode se apresentar como novo. Com seu
poder em apresentar os temas, poderia alcançar os resultados.

Mas, espere um momento. Qual era mesmo aquela nova mensagem sobre as trevas
e os espíritos... Espíritos... Quem sabe sobre os anjos. Ó Deus, Oxalá pudesse ter com um
deles agora!

Revirando a pilha de revistas sobre o ministério já tão lidas e relidas, anotou no papel:
"nada de novo aqui". Colocou uma fita no aparelho de som. Escutou com atenção a parte
introdutória daquela conferência. Um colega havia ficado impressionado com aquela
mensagem e recomendara que a ouvisse. "Muito boa! Como é poderosa esta mensagem!
Quem é este pregador?"

Lápis na mão. Anotou o tema, os tópicos e tomou emprestadas frases que ouvia. Está
pronto o esqueleto da pregação. "Agora, onde estão as chaves do carro?"

Acometido por uma segurança falsa e pela hipocrisia justificada, o pastor disse
consigo mesmo que todo mundo consegue seu material de trabalho em algum lugar. Então
confortou-se com a idéia de que "ninguém tem direitos sobre Deus", ou "não existe patente
registrada sobre a inspiração".

No dia seguinte, era chegada a hora. Subindo ao púlpito, sorria com simpatia à
congregação e começara a falar no conhecido tom profético: "Ontem, estava em meu
escritório mergulhado em orações e Deus falou comigo...

Uma das premissas básicas deste livro é que a bênção das gerações foi perdida pela
Igreja da atualidade. Na Bíblia, a geração atual deveria receber as promessas das
gerações anteriores através de seus pais, pois a revelação de Deus cresce através das
gerações: O "Deus de Abraão" se tornou o "Deus de Abraão e Deus de Isaque". Então ele
se tomou o "Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó".

A Bíblia é um livro escrito para as gerações. "Ficará isto registrado para a geração
futura, e um povo, que há de ser criado, louvará ao SENHOR" (Salmo 102:18). "Uma
geração louvará a outra geração as tuas obras e anunciará os teus poderosos feitos"
(Salmo 145:4). O propósito exato da Bíblia ter sido escrita é para recebermos Deus. Esta
verdade não está apenas em uma revelação, mas permeia todo o registro escrito do legado
rico que é o relacionamento entre as gerações. Hoje em dia tendemos a nos esquivar
propositadamente desta profusão de árvores genealógicas na Escritura. Todos estes
detalhes das gerações de Adão, Noé, Sem, Tera, Jacó, e as doze tribos de Israel,
recebemo-los como se não fossem essenciais. Apesar de estas árvores nos parecerem
irrelevantes, é imperativo que precisamente a presença delas, repetidas tantas vezes em
nossa Bíblia, indique um interesse enorme no coração de Deus pelas gerações.

O Novo Testamento é aberto pelo Evangelho de Mateus com a genealogia de Jesus.


Este fato demonstra que o alicerce da revelação na Nova Aliança está nas gerações que
precederam o Cristo. No Evangelho de Lucas, a genealogia de Jesus não é colocada por
ocasião de seu nascimento, mas no início de seu ministério. Desta forma, Mateus mostra
que a vida de Jesus é baseada nas gerações anteriores, ao passo que Lucas demonstra
que a genealogia de Jesus se relaciona diretamente com seu ministério. Assim como Jesus
não poderia ter nascido sem uma família, tampouco não deveria atuar no ministério sem
um registro de seus ancestrais (ver Esdras 2:62).

O recebimento de nosso lugar depende do fluxo de partilha e de bênção de geração à


geração na família de Deus. Abraão foi escolhido como pai da fé porque Deus pôde dizer
"porque eu o escolhi para que ordene a seus filhos e a sua casa depois dele, a fim de que
guardem o caminho do SENHOR e pratiquem a justiça e o juízo" (Gênesis 18:19) sobre
ele. Abraão era rico para os padrões de seus dias e vivia plenamente, mesmo assim, a ele
foi prometida uma terra da qual a parte que lhe cabia era reduzidíssima, mas que seria
herdada por sua posteridade (ver Atos 7:5).

Também o filho Isaque teve dois filhos. Aqui, o nascimento de gêmeos é significante
como sinal de porção dobrada no processo de geração espiritual. É o aumento das
gerações em Deus. O próximo aumento das gerações aconteceu na vida de Jacó. Teve
dois filhos de Raquel e outros dez mais de Lia e de duas concubinas. De um para dois e
depois para doze, o aumento de Deus pôde se ampliar de geração a geração (ver
Deuteronômio 32:30).

Depois de Jacó, os doze filhos se tornaram doze tribos. Uma nação de milhões tornou
a Canaã com poder e força. Se o crescimento numérico foi grande, a bênção foi ainda
maior. A semente de Abraão foi riquíssima, e em lugar de alguns palmos de terra, a nação
de Israel recebeu a terra em toda sua extensão. Os filhos dos homens que viveram em
cabanas agora poderiam usufruir de cidades que não construíram, plantações que não
cultivaram, vinhas que não plantaram, de gado que não criaram e de poços que não
cavaram, pois tudo isto receberam por terem um pai. Seu crescimento não foi apenas
físico, financeiro e social, mas também espiritual. Abraão, seu pai, esperou por muitas
noites escuras de vigília para ouvir a voz de Deus, afinal, sua semente encerrava, por
exemplo, a lei escrita de Moisés. Abraão sacrificou seus cordeiros, mas seus filhos
ganharam um sacerdócio firmemente estabelecido. O pai adorava sob as estrelas, sem
saber exatamente onde poderia encontrar Deus. Seus filhos já puderam fazê-lo na casa de
Deus: "Ali, virei aos olhos de Israel, para que, por minha glória, sejam santificados” (Êxodo
29:43).
Abraão conheceu Deus como "EI Shaddai" (o Todo-Poderoso), porém, seus filhos já o
chamavam de "Yahweh" (o Senhor). "Apareci a Abraão, a Isaque e a Jacó como Deus
Todo-Poderoso; mas pelo meu nome, O SENHOR, não lhes fui conhecido" (Êxodo 6:3).
Esta é a progressão espiritual das gerações que começa com uma única nascente, mas
que flui para um oceano vasto de poder. Esta é a magnitude da bênção de Deus, passada
de pai para filho através da herança espiritual.

Contudo, o perigo reside no fato de estarmos a apenas uma geração de perdermos


tudo o que temos em Deus: "Foi também congregada a seus pais toda aquela geração; e
outra geração após eles se levantou, que não conhecia o SENHOR, nem tampouco as
obras que fizera a Israel" (Juízes 2:10). Esta é a razão pela qual necessitamos de pais e
filhos no ministério - para uma geração herdar o legado da outra. A cada geração cabe
aprender diligentemente tanto com o sucesso quanto com o fracasso de homens e
mulheres de Deus que precederam. Também se espera de nós que adoremos o Deus de
nossos pais e antepassados. Nossa experiência deveria ser uma camada gloriosa de
riquezas espirituais depositada sobre outra, aumentando-a cada vez mais ao ser legada de
pai para filho.

A intenção de Deus sempre foi o engrandecimento da revelação através do legado


espiritual dos pais, quanto é passada aos filhos. "O SENHOR, teu Deus, te introduzirá na
terra que teus pais possuíram, e a possuirás; e te fará bem e te multiplicará mais do que a
teus pais" (Deuteronômio 30:5). Podemos ser multiplicados em relação a nossos pais.
Cada geração deve estabelecer uma relação mais profunda com Deus do que o fizeram
seus pais, pois é justamente a falta de compreensão e preocupação com a ligação entre as
gerações que nos torna incapazes de receber a herança da geração anterior. Este
problema provoca a diminuição o engrandecimento e a perda do legado nos filhos de Deus.
Quando não entendemos nossa necessidade de um relacionamento entre as gerações, o
que fazemos é barrar o fluxo das bênçãos entre elas. Assim, nosso olhar míope e fora de
foco nos impede de ver a grande necessidade de transmitirmos o legado à geração
próxima. Nossa falha ao prepararmos um futuro (com o qual nunca nos preocupamos
quando há de vir) faz nos perder nossos filhos e netos para o mundo de forma expressiva.
Por fim, os filhos que servem a Deus são forçados a procurá-lo sem o acalentamento de
terem a bênção de um pai, desta forma, cada nova onda de entendimento deve partir da
própria geração em lugar de contribuir acrescentando uma nova camada ao depósito das
gerações anteriores.

"E vós, pais, não provoqueis vossos filhos à ira, mas criai-os na disciplina e na
admoestação do Senhor" (Efésios 6:4). Nós provocamos nossos filhos à ira porque lhes
retiramos a esperança do coração das novas gerações! Por que deveriam elas, então,
honrar seus pais e suas mães? Por que a geração atual deve buscar aprender com o
passado para poder ser um dia a bênção de seu futuro? Ela não vê futuro. Impusemos
muito vigorosamente o "aqui e agora" em seu espírito e apagamos qualquer paixão pelo
cultivo do relacionamento entre as gerações em Deus.
De todo o coração, acredito na volta física de Cristo à terra. Anseio com ardor por vê-
lo chegar nas nuvens de glória, mas o problema é nosso foco ser unicamente o retorno
definitivo de Cristo. Este pensamento nos distraiu das inúmeras vezes que Cristo vem à
nossa vida cotidiana - a verdadeira manifestação de sua presença a qual desejamos. Por
reduzirmos assim nosso foco, bloqueamos indefinidamente a progressão espiritual via as
gerações.

Tanto o fluir da progressão quanto o da regressão se dá entre as gerações. A seguir


apresento uma lista de eventos legados por este fluir:

Iniqüidade (Êxodo 20:5; 34:7; Deuteronômio 5:9).


Fidelidade (Deuteronômio 7:9).
Ilegitimidade (Deuteronômio 23:2).
Herança impura (Deuteronômio 23:3).
Revelação do Senhor (Deuteronômio 29:29).
Comunhão com Deus (Deuteronômio 29:42).
Oração (como "incenso": Salmo141:2; Êxodo 30:8).
Expiação (Êxodo 30:10).
Descanso (Êxodo 31:16).
Unção (Êxodo 30:31; 40:15).
Oferta (Levítico 6:18).
Estatuto para o serviço (Levítico 10:9).
Desqualificação para o serviço (Levítico 21:17; 22:3).
Liberdade financeira (Levítico 25:30).
Vestes (Êxodo 28:42-43; Números 15:38).
Serviço (Números 18:23).

Todos estes itens e muitos outros fluem de geração a geração, mas nossa falha em
reconhecer ou participar nesta ordem de Deus nos desligou da verdade espiritual da
partilha no ministério. Quanto deveremos ter perdido em conseqüência de nossa falha em
honrar nossos pais? Qual seria o tesouro espiritual a habitar nossas vidas se tivéssemos a
condição adequada para recebê-lo? Quais os tropeços desnecessários experimentará a
geração futura do ministério se a ordem e o fluxo não forem restabelecidos no presente?

A primeira geração da Igreja foi incrivelmente poderosa. Os apóstolos curaram os


doentes e os ladrões de dízimos e ofertas morriam durante os cultos. Os edifícios
literalmente tremiam com o poder de Deus quando os crentes oravam e Deus lhes
respondia. Os deficientes físicos passavam a correr e mulheres mortas voltavam à vida. Os
diáconos formavam cruzadas com a população total de uma cidade, curavam enfermos e
expulsavam espíritos imundos. Os gentios falavam em línguas antes mesmo de terminar o
primeiro sermão do qual participavam. As cidades se rebelavam, os demônios fugiam e os
portões dos cárceres se abriam. As vozes proféticas previam fome, os problemas para o
futuro e as tempestades no mar. Os apóstolos falavam e os feiticeiros se tomavam cegos.
Os apóstolos pregavam e milhares de milhares de pessoas se arrependiam e eram
batizados em um só dia. O mundo ficou de pernas para o ar no espaço de tempo de uma
única geração.

Esta primeira geração da Igreja que passou o legado dos santos à geração seguinte
de crentes nos deu as bênçãos que usufruímos até hoje. A perda atual de poder e a unção
apostólica diluída se devem à destruição e à negligência para com a ligação entre as
gerações. Jesus esperava que as gerações o seguissem, não apenas à sua obra, mas que
também multiplicassem o legado espiritual entre as gerações. "Em verdade, em verdade
vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e outras maiores
fará, porque eu vou para junto do Pai" (João 14:12). Isaías profetizou: "para que se
aumente o seu governo, (...) para o estabelecer e o firmar mediante o juízo e a justiça,
desde agora e para sempre" (Isaías 9:7). As primeiras gerações de crentes de fato
mudaram o mundo. O problema é que, entre elas e nós, o fluir das bênçãos espirituais foi
rompido. Por séculos, cada nova geração da Igreja se viu obrigada a produzir nova gênese
em vez de aumentar o fluxo de crescimento das gerações anteriores.

A única forma de recebermos o legado de Deus é através da ligação entre pai e filho.
Precisamos da redenção porque, na condição de filhos de Adão, herdamos sua inclinação
ao pecado. A necessidade de renascermos para entrarmos no Reino tem base no fato
espiritual de que apenas os membros da família recebem a herança. Através de nossa
ligação espiritual com o Filho de Deus, nos tomamos filhos e herdeiros: "Ora, se somos
filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo" (Romanos
8:17). Tudo o que vem de Deus a um crente é, pois, um legado.

O nosso legado em Deus deve ser tratado com honra e respeito. Não devemos
vendê-lo a preço nenhum, como o fez Esaú, desprezando o direito à primogenitura
(Gênesis 25:29-34). O direito de primogenitura de Esaú lhe dava também o direito às duas
partes da casa de seu pai. Apesar de muitas pessoas julgarem Jacó como traiçoeiro, esta
não é uma história de traição, mas por outro lado, é a história de um negociador brilhante e
de um costume mundano. Esaú não foi enganado para abrir mão de seu direito à primo-
genitura; ele o vendeu, e não apenas o legado natural, mas também o espiritual pois queria
saciar sua carne. A Deus não apraz quem despreza a primogenitura. Por isto disse o
Senhor: "Amei a Jacó, porém aborreci a Esaú" (Malaquias 1:2-3). Esaú vendeu sua posição
na promessa por um prato de comida, tornando-se um tipo terrível de crente freqüente no
Novo Testamento, que se importa mais com o estômago do que com a alma, e se serve
mais de bens materiais do que de espirituais. "Nem haja algum impuro ou profano, como foi
Esaú, o qual, por um repasto, vendeu o seu direito de primogenitura. Pois sabeis também
que, posteriormente, querendo herdar a bênção, foi rejeitado, pois não achou lugar de
arrependimento, embora, com lágrimas, o tivesse buscado" (Hebreus 12:16-17).

Não havia lugar para o arrependimento no coração de Esaú. Não havia um


"direcionamento para o pai". Com sua atitude, Esaú abriu mão naquele dia de todos os
outros dias no porvir, fechando a porta à promessa de sua posição, ferindo o fluxo de
bênção de pai para filho. Poderia ter sido dele a linhagem ancestral do Messias, mas Esaú
a vendeu e dele nunca surgiu um Cristo, que veio então da linhagem de Jacó.

A venda do legado de pai e filho foi também a questão entre Nabote e Acabe:

"Disse Acabe a Nabote: Dá-me a tua vinha, para que me sirva de horta, pois está perto, ao
lado da minha casa. Darte-ei por ela outra, melhor; ou, se for do teu agrado, dar-te-ei em
dinheiro o que ela vale. Porém Nabote disse a Acabe: Guarde-me o SENHOR de que eu dê a
herança de meus pais." (1 Reis 21:2-3).

Nabote se recusou a vender a vinha qual fosse o preço, mesmo se isto significasse
servir-se da máquina política do Rei Acabe. Ele poderia conseguir terras melhores, ou
talvez viver com segurança financeira para o resto da vida, mas aquela não se tratava de
uma terra qualquer. Era a que seu pai lhe legara; era a ligação espiritual com as bênçãos
de Abraão. Deus proibiu que ele vendesse seu legado em Deus independentemente de
preço ou motivo. Nabote não se vendeu, por isto foi morto. Jezabel, esposa de Acabe,
arquitetou o assassinato para que seu marido pudesse gozar da vinha de Nabote. De todos
os atos deploráveis de Acabe, este mereceu destaque da parte de Deus. A ira de Deus foi
acendida quando Acabe cruzou a linha das bênçãos entre as gerações e roubou o legado
de Nabote no Senhor. Elias foi enviado a Acabe: "No lugar em que os cães lamberam o
sangue de Nabote, cães lamberão o teu sangue, o teu mesmo" (1 Reis 21:19). Elias
profetizou a morte de Acabe e o local onde aconteceria; seria no lugar onde cometeu a
ofensa contra o legado de Deus. Mesmo assim, o julgamento de Deus só foi completo com
a morte de toda semente da casa de Acabe. Assim, a sentença para quem destrói um
legado é ter o próprio legado destruído e a sentença espiritual é sempre promulgada contra
aqueles que infringem o legado espiritual (ver Deuteronômio 19:14; 27:17).

Muita gente no ministério de hoje não vê problema em quebrar os limites e interferir


no legado espiritual. O mundo do ministério está repleto de usurpadores espirituais, como o
pastor na história do início deste capítulo. Estes são homens que ultrapassam os limites e
alimentam sua congregação com sermões roubados à inspiração de outrem e com
mensagens malformadas, obtidas por meio do trabalho de outra pessoa, as quais, apesar
disto, alegam ser suas. Ações como esta violam o legado espiritual! Ainda assim, muita
gente não sente que isto está errado. A Bíblia diz: "Portanto, eis que eu sou contra esses
profetas, diz o SENHOR, que furtam as minhas palavras, cada um ao seu companheiro"
(Jeremias 23:30). Um filho pode utilizar tudo o que estiver na casa de seu pai, mas quando
um companheiro toma algo sem permissão, dá-se a isto o nome de roubo.

Um pai espiritual passa anos em oração e décadas cavando um poço em sua vida,
daí minam as águas doces da revelação aos rios do relacionamento espiritual. Qualquer
filho verdadeiro é bem-vindo a mergulhar nestas águas quando sentir necessário, porque é
seu direito de herança. Entretanto, sem estabelecerem o relacionamento ou possuírem o
direito, muitos ladrões de ministério irão roubar as águas para abastecer o poço de seu
próprio espírito. Pois acreditam que desta maneira ninguém irá saber que eles não têm
uma fonte de água viva dentro de si.

É verdade, ninguém possui a patente sobre a Escritura, mas a revelação nascida


através do trabalho árduo da oração e da busca não deve ser tomada por alguém que a
reclama como se fosse sua. As notas de um piano pertencem a todos os pianistas, mas a
disposição delas em uma melodia pertence ao compositor. Roubá-lo é definitivamente um
crime. No ministério, roubar a composição de uma melodia de verdade bíblica é um
pecado; não deve ser tomada e usada fora dos limites do relacionamento e do legado.

A história de Elias e Eliseu é forte representante do legado espiritual entre pai e filho
no ministério. Fugindo de Jezabel, Elias se vê abatido e lamenta:

"Basta; toma agora, ó SENHOR, a minha alma, pois não sou melhor do que meus
pais" (1 Reis 19:4). O Senhor respondeu ao dilema de Elias dando-lhe a instrução que
ungisse Eliseu como "profeta em teu lugar" (1 Reis 19:16). Eliseu serviu ao homem de
Deus por vários anos, "deitando água nas mãos de Elias" e seguindo-lhe o ministério (ver 2
Reis 3:11).

Pela ocasião de quando ambos sabiam estar próxima a separação pelo fogo,

"Havendo eles passado, Elias disse a Eliseu: Pede-me o que queres que eu te faça, antes
que seja tomado de ti. Disse Eliseu: Peço-te que me toque por herança porção dobrada do
teu espírito. Tornou-lhe Elias: Dura coisa pediste. Todavia, se me vires quando for tomado de
ti, assim se te fará; porém, se não me vires, não se fará" (2 Reis 2:9-10).

Eliseu pediu o legado espiritual de um primogênito. Dentre os filhos de um pai, o


primogênito deve receber uma porção dobrada. "Mas ao filho da aborrecida reconhecerá
por primogênito, dando-lhe dobrada porção de tudo quanto possuir, porquanto aquele é o
primogênito do seu vigor; o direito da primogenitura é dele." (Deuteronômio 21:17). Isto
significa que a herança era dividida pelo número de irmãos em uma família. Então, de
acordo com a medida de cada porção, o primogênito receberia o dobro, tornando-se o líder
da família e recebendo o dobro de honra (2 Crônicas 21:3).

Outros homens além de Eliseu também foram chamados de "filhos dos profetas".
Eliseu não se comparava a seu pai na obra, mas estava sempre atento ao que pudesse
receber de Deus. Foi seguidor fiel de Elias no serviço, jamais o perdendo de vista, sabendo
que deveria estar em posição adequada para receber dobrada porção. Eliseu entendeu que
a única forma de se tomar o pai da casa era sendo o primogênito. A marca do primeiro filho
é "ver o pai onde quer que vá". Uma tradução literal do termo apresentado em 2 Reis
2:10 seria "quando me vires olho no olho". Assim, deve haver uma visão em comum, uma
força no relacionamento, fé em Deus e em ambos, pai e filho, para que a herança seja
legada. Pessoas como Esaú não servem para esta posição, pois nem dez mil lágrimas não
qualificam um filho sob o olhar de Deus, mas é apenas o movimento do coração que
permite o alinhamento correto com a visão de um pai. Com o clamor de "meu pai, meu pai"
a ligação espiritual entre as gerações se faz completa.

Eliseu realizou seu ministério com poder de porção dobrada. A Igreja atual deve
recobrar a ligação entre as gerações e o legado espiritual. A Igreja deve retornar à ordem
de Deus no ministério: a ordem de pai e filho.

["Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível Dia do
SENHOR; ele converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais,
para que eu não venha e fira a terra com maldição" Malaquias 4:5-6].

O CORAÇÃO DO PAI

A névoa da manhã pairava como um mar de algodão sobre as montanhas em volta da


fazenda. De pé, em frente à garagem da casa, respirei profundamente e pensei: "não me
admira chamarem este lugar de Sopé da Bruma". O vapor subia tranqüilamente da fonte e
uma das trutas (meus animais de estimação) saltou sobre uma libélula na flor d'água.
Andando em volta de minha caminhonete, verifiquei as cordas que prendiam uma lona azul
estendida sobre a carroceria. Embaixo daquela cobertura estavam todos os pertences
terrenos de meu filho caçula. Nesse dia ele faria uma longa viagem para longe. Iria estudar
na faculdade. Agradeci em silêncio a Deus por este filho ter me obedecido e passado os
últimos dois anos estudando em nossa cidade, acatando meu pedido de que ficasse para
amadurecer um pouco mais.

Mas era a hora de cumprir minha palavra. Ele poderia estudar este terceiro ano onde
quisesse. Mais de mil pensamentos correram por minha cabeça: será que ele estava
preparado? Será que eu o ensinara o suficiente para o mundo real e sinistro que o
aguardava? Será que ele se lembrava de nossas conversas, dos avisos, dos princípios da
vida que havíamos discutido e rediscutido nos últimos tempos que passamos juntos? Será
que ele fingia me escutar, ou aqueles sinais de aprovação com a cabeça, tão presentes em
minha memória, eram o retrato da razão e da verdade em sua mente?

Os pneus novos pareciam bons. Durariam os próximos dois anos, pois ele moraria no
campus e não usaria muito o carro; "espero que volte pelo menos para o Natal", eu
ansiava.

Eu havia aceitado sua decisão de se formar em administração. Apesar de cada pai


que é pregador ter o desejo secreto de que um de seus filhos entre para o ministério, eu
procurava me consolar com a idéia de que o Reino faz coisas além do que alcança nossa
visão.
"Pai, você não acha que estamos errados ao pensar que o ministério tem sido
resumido a quase somente pregações? Parece-me que, se somos realmente o povo do
Reino, então, tudo o que fizermos na vida deveria ser considerado nosso ministério. Quero
levar o Jesus verdadeiro ao mundo dos negócios, porque ele tem o direito de estar lá
também. O que você acha?"

À fala dele eu disse 'sim' e não argumentei com mais outra pregação.

Foi então que a porta se abriu e saiu de lá a fonte de todas as minhas preocupações,
vestido de calça jeans, tênis e uma camiseta da faculdade. Antes mesmo de eu abrir a
boca para dizer alguma coisa, ele já estava pendurado em meu pescoço - meu bebê, meu
filho, meu homem. "Pai, vou me lembrar de tudo. Eu o amo, pai. Por favor, não se
preocupe". Eu o vi partir e chorei copiosamente; o sol da manhã riscando o arco-íris em
minhas lágrimas. As palavras do apóstolo João foram ao encontro de minhas emoções
visivelmente manifestadas: "Não tenho maior alegria do que esta, a de ouvir que meus
filhos andam na verdade" (3 João 1:4).

Voltando à casa com vagar, lembrei-me de um dos vizinhos da fazenda dizer que seu
filho se formara na universidade. Aquele homem simples me dissera que seu filho era um
homem de negócios bem sucedido. Ele nos deixa muito orgulhosos e nunca se esquece da
mãe e nem de mim". Aqui está o verdadeiro coração do pai: seu filho deve fazer melhor,
saber mais, ir mais longe. Freqüentemente nossos desejos e amor possessivo fazem com
que os filhos fiquem onde estamos, ou os impelem a realizar os nossos sonhos. É com
egoísmo que os tornamos servos de nossos planos pessoais. Ainda assim, cada pai de
verdade sabe que chegará o dia em que seus sonhos irão ceder.

"Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível Dia do SENHOR;
ele converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais, para que eu
não venha e fira a terra com maldição"(Malaquias 4:5-6).

Estes dois versículos da Escritura são os últimos do Velho Testamento. Estas


palavras são o ponto principal de uma era inteira de revelação. O ponto mais alto dos
quarenta livros, mais da metade de nossa Bíblia, são bruscamente interrompidos por estes
versículos. Dois mil anos de relacionamento entre Deus e os homens terminam com estas
frases. Toda a era dos reis e profetas culmina nestas palavras.

Estes dois versículos contêm uma profecia, uma promessa de bênção e a ameaça de
uma maldição ao mesmo tempo. A profecia é que Elias voltaria antes do dia do Senhor. A
promessa de bênção é que o relacionamento entre 'pais' e 'filhos' seria restabelecido. A
maldição é que se não houvesse uma "mudança nos corações", a terra seria ferida com
uma maldição.
Esta profecia sempre foi tomada seriamente pelo povo judaico. A celebração da
Páscoa ainda é mantida por milhões de descendentes do Êxodo, pois esta época serve
para lembrarem de bênçãos passadas, bem como para esperarem os acontecimentos
futuros de Deus. Todos os anos na celebração da Páscoa, um jogo de louças e talheres é
posto à mesa para a chegada do profeta Elias. Um prato extra e um copo de vinho são
colocados; ninguém deve deles usar, pois os filhos de Abraão aprenderam que devem
esperar a vinda de Elias.

Será que a Igreja terá um lugar reservado para Elias? Na condição de cristãos (que
são os seguidores da revelação completa de Deus), teríamos nós um jogo de louças e
talheres na vida do Corpo para Elias voltar e ser bem-vindo? Ambas as vezes que Elias e o
espírito de Elias vieram, os líderes do povo de Deus encontraram um lugar para ele. A
Igreja o receberá agora? Seríamos nós melhores que nossos pais?

A menção de "ambas as vezes" não é um erro de impressão. Elias veio pela primeira
vez nos dias do rei Acabe, e no mesmo espírito de Elias veio João Batista. A última
profecia do Velho Testamento viajou como uma lança arremessada pela mão de Deus atra-
vés de quatrocentos anos de silêncio e ousou aos pés e Zacarias. Quando ofertava incenso
ao altar, um anjo veio ao pai de João com mensagem sobre uma criança que chegaria à
sua casa: "E irá adiante do Senhor no espírito e poder de Elias, para converter o coração
dos pais aos filhos, converter os desobedientes à prudência dos justos e habilitar para o
Senhor um povo preparado" (Lucas 1:17). Devido ao fato de não ter recebido a palavra do
Senhor, Zacarias foi silenciado como os quatrocentos anos antes de si. Igualmente, a Igreja
não terá uma voz verdadeira até os pais receberem a 'palavra do Senhor e se converterem
a seus filhos. Então, como Zacarias, dirão "cheios do Espírito Santo" (ver Lucas 1:67).

O envio de Elias foi uma preparação para o retorno de Cristo à terra. Deus poderia ter
enviado outro Moisés para libertar seu povo. Poderia ter enviado um Jeremias ou um Isaías
se quisesse um profeta. Enviaria Enoque se seu desejo fosse por alguém que pudesse
retirar da terra sem ver a morte. Poderia ser um José ou um Salomão se sua intenção
fosse novamente sabedoria na terra. Ou Deus poderia ter mandado um Davi se quisesse
louvor e adoração para preparar sua vinda. Contudo, a questão fundamental é: por que
Deus enviou o "no espírito e poder de Elias" para preparar sua vinda? Por que não outra
pessoa? Por que Elias - ou alguém "no espírito e poder de Elias" - deveria voltar antes do
Senhor?

A resposta é simples: Elias foi a única pessoa na Bíblia a passar uma porção dobrada
de seu espírito Rara um filho no ministério. Se considerarmos nosso estudo dos capítulos
anteriores, o termo 'pais' se refere a pais no ministério do Reino e Deus. O termo filhos' se
refere aos filhos e filhas que seguem um pai no ministério. Esta é a razão pela qual o
Senhor enviou "o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível Dia do Senhor". O
Senhor quer sua igreja no serviço do ministério com o poder da porção dobrada. Deus quer
seu povo passando o legado no ministério à geração seguinte para esta poder crescer e
expandir, de pai para filho o Reino. Consideremos o aumento dos milagres entre Elias e
Eliseu. Elias experimentou cerca de quatorze atos miraculosos em seu ministério:

1. Três anos de seca (1 Reis 17:1).


2. Alimentação por corvos (1 Reis 17:1).
3. Multiplicação da comida e do azeite (1 Reis 17:8-16).
4. Ressurreição da criança (1 Reis 17:17-24).
5. Fogo dos céus (1 Reis 18:30-40).
6. Atendimento das orações por chuva (1 Reis 18:41-45).
7. Correu quilômetros à frente de um carro (1 Reis 18:46).
8. Vivendo quarenta dias e noites do sustento divino (1 Reis 19:8).
9. Profecia da morte de Acabe e de Jezabel (1 Reis 21:17-24).
10. Profecia da morte de Jeorão (2 Crônicas 21:12-15).
11. Profecia da morte de Acazias (2 Reis 1:2-8).
12. Novamente fogo dos céus (2 Reis 1:10-12).
13. Divisão das águas do Jordão (2 Reis 2:7-8).
14. A subida em um redemoinho para o céu (2 Reis 2:11).

Eliseu experimentou pelo menos vinte e oito eventos miraculosos em seu ministério:

1. Divisão das águas do Jordão (2 Reis 2:13-15).


2. Cura das águas (2 Reis 2:19-22).
3. As ursas matam os rapazinhos zombadores (2 Reis 2:23-25).
4. Enchimento das covas com água (2 Reis 3:16-20).
5. Profecia da derrota dos moabitas (2 Reis 3:18-20; 24-27).
6. Aumento do azeite da viúva (2 Reis 4:1-7).
7. Mulher estéril dá à luz (2 Reis 4:12-17).
8. Ressurreição de uma criança (2 Reis 4:32-37).
9. O cozinhado transformado em saudável (2 Reis 4:38-41).
10. Multiplicação de pães (2 Reis 4:42-44).
11. Cura de lepra (2 Reis 5:1-14).
12. Descoberta das ações de Geazi (2 Reis 5:25-26).
13. Lepra de Geazi (2 Reis 5:27).
14. O machado flutua (2 Reis 6:1-7).
15. Revelação dos segredos de guerra (2 Reis 6:8-12).
16. O servo vê o exército celeste (2 Reis 6:13-17).
17. O exército dos siros fica cego (2 Reis 6:18).
18. A cura do exército dos siros (2 Reis 6:20-23).
19. Conhecimento das ações do rei (2 Reis 6:32-33).
20. O fim da profecia de fome (2 Reis 7:1).
21. Profecia da morte do soldado (2 Reis 7:2).
22. Confusão dos siros (2 Reis 7:6-8).
23. Sete anos de fome (2 Reis 8:1-2).
24. Profecia de cura e morte (2 Reis 8:7-11).
25. Profecia de assassinato e do novo rei da Síria (2 Reis 8:12-13).
26. Unção e profecia de Jeú (2 Reis 9:1-10).
27. Profecia de vitória (2 Reis 13:14-19).
28. Ressurreição de um homem (2 Reis 13:21).

Eliseu experimentou duas vezes mais milagres do que Elias. Deus desejou que o
Reino fosse manifestado na vida de seu povo na plenitude da porção dobrada do
ministério. Mas isto só pode acontecer se como no caso de Elias, os pais no ministério
converterem seus corações aos filhos. O coração do pai deve se voltar primeiramente para
os filhos; aí então, os filhos podem se converter aos pais e assim não acontecer, Deus irá
ferir a terra com um anátema. Todavia, primeiramente o ministério deve desenvolver o
coração de um pai.

Quando observamos as vidas de pais no ministério apresentados na Bíblia,


entendemos a definição de 'coração de um pai no ministério' e como deve ser engendrado.
O coração de um pai é formado pela experiência árida da vida e do ministério. Elias viveu
sozinho no deserto. João Batista, que veio no espírito e no poder de Elias, seguiu o mesmo
caminho, ficando sozinho com Deus, "o menino crescia e se fortalecia em espírito. E viveu
nos desertos até ao dia em que havia de manifestar-se a Israel" (Lucas 1:80).

Vejamos como as palavras no versículo seguinte são colocadas lado a lado: "sendo
sumos sacerdotes Anás e Caifás, veio a palavra de Deus a João, filho de Zacarias, no
deserto" (Lucas 3:2). A instituição religiosa estava corrompida, em situação perversa. Não
pode haver dois sumos sacerdotes quando o certo é existir apenas um! Nenhum destes
homens conhecia Deus. Eles serviam no templo todos os dias, mas ainda assim a palavra
do Senhor não havia sido acolhida por eles. Desta forma, a palavra foi até João no deserto.

Moisés estava no deserto antes de aparecer na corte de Faraó com a palavra de


Deus em sua boca. O Êxodo do povo de Deus só aconteceu porque um pai no ministério
saiu do deserto. Geralmente a experiência no deserto é uma época árida de transição, pois
tira a pessoa do conforto, mas também a livra da mediocridade. Esta época extirpa tudo o
que se pensa ter e converte o coração ao que realmente importa, afinal, revela o ambiente
estéril que Deus precisa para realizar o transplante de coração. Por isto, não maldiga seu
deserto, tampouco espere que a comunidade cristã acolha completamente sua mudança
espiritual; esta operação cardíaca não pode ser realizada em clínicas religiosas estéreis ou
em bancos de conforto teológicos da Igreja moderna. Os verdadeiros pais e filhos andarão
e vagarão por caminhos solitários nos desertos para alcançarem propósito, ritmo e
conhecimento.

Estar perdido no deserto é a única forma de os pais se encontrarem. E através da dor


e do sacrifício de se seguir o Senhor, através de circunstâncias difíceis de chamados
únicos, que os pais podem acender uma luz com a finalidade de serem seguidos. Será que
se deve esperar os filhos cruzarem os rios revoltosos de sua experiência presente sem
uma ponte construída pela vida de um pai? Onde está o exemplo em nossas vidas de
submissão, compromisso e honra? Deveriam os pais esperar ordem absoluta de quem os
segue, quando suas próprias vidas são cheias de normas falhas e de preceitos arruinados?
Será que estamos pedindo algo que recusamos a dar?

Deus prepara o coração de um pai ao chamá-lo para receber uma família que não
tem pai. Quando a torrente de Querite secou, Deus enviou Elias para a família: "Dispõe-te,
e vai a Sarepta, que pertence a Sidom, e demora-te ali, onde ordenei a uma mulher viúva
que te dê comida" (1 Reis 17:9). Quem não tinha pai era fraco nos dias da Bíblia. Parte do
coração de um pai deveria se voltar para aqueles que eram sem pai no ministério.

Elias realizou um grande milagre ao suprir a casa da viúva e do filho. Ele também,
através e intercessão, trouxe de volta à vida o filho morto.

"Então, clamou ao SENHOR e disse: Ó SENHOR, meu Deus, também até a esta viúva, com
quem me hospedo, afligiste, matando-lhe o filho? E, estendendo-se três vezes sobre o
menino, clamou ao SENHOR e disse: Ó SENHOR, meu Deus, rogo-te que faças a alma deste
menino tornar a entrar nele. O SENHOR atendeu à voz de Elias; e a alma do menino tornou a
entrar nele, e reviveu. Elias tomou o menino, e o trouxe do quarto à casa, e o deu a sua mãe,
e lhe disse: Vê, teu filho vive. Então, a mulher disse a Elias: Nisto conheço agora que tu és
homem de Deus e que a palavra do SENHOR na tua boca é verdade" (1 Reis 17:24).

Elias apareceu primeiramente a esta mulher no portão da cidade, e a obediência dela


ao alimentá-lo produziu uma ajuda milagrosa para sua casa. Entretanto, apesar de o
milagre ter sido grande, ela ainda não se sentia segura quanto ao Deus que ele servia, ou
quem era aquele homem de Deus... Até Elias erguer o filho dela dos mortos. Então ela
disse: "Nisto conheço agora que tu és homem de Deus e que a palavra do SENHOR na tua
boca é verdade". A viúva não tomou Elias como um homem de Deus até que, através do
amor e da preocupação de um coração paterno, ele orou pelo filho da mulher e Deus o
ergueu dos mortos. Com sua última refeição e com o milagre, ela serviu Elias. Com o
retomo do filho, o ministério de Elias a serviu. O coração de um pai ora para que os filhos
vivam. O coração de Deus foi revelado através a intercessão altruísta de Elias. A viúva
soube então que Deus se importava com ela. O coração do pai foi revelado e o coração
dela foi levado ao Pai.

Mais tarde, Elias voltou-se para um menino camponês de nome Eliseu, que foi
chamado para auxiliar no serviço. Eliseu se valeu da porção dobrada do legado de Elias.
Tudo o que Eliseu foi no ministério estava embasado no coração e seu pai, que obedeceu
o Senhor e ungiu um profeta em seu lugar (ver 1 Reis 19:16).

João Batista foi a ponte sobre a qual as bênçãos e promessas dos pais no Velho
Testamento foram transmitidas aos filhos do Reino de Deus iniciadas no ministério de
Jesus. João preparou o caminho para todas as gerações subseqüentes com o propósito de
que conhecessem a Deus em um relacionamento que todas as gerações anteriores só
puderam saber em sonho. Foi por isto que Jesus disse a João:
"Em verdade vos digo: entre os nascidos de mulher, ninguém apareceu maior do que João
Batista; mas o menor no reino dos céus é maior do que ele. Desde os dias de João Batista
até agora, o reino dos céus é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele.
Porque todos os Profetas e a Lei profetizaram até João. E, se o quereis reconhecer, ele
mesmo é Elias, que estava para vir. Quem tem ouvidos [para ouvir], ouça”' (Mateus 11:11-15).

João foi O maior dos homens, mas o menor no Reino. João tinha o coração de um
pai, porque um pai deseja a geração seguinte seja maior do que ele pode imaginar. Os
discípulos de João Batista estavam preocupados que seu ministério fosse apagado por
aquele a quem batizava:

"E foram ter com João e lhe disseram: Mestre, aquele que estava contigo além do Jordão, do
qual tens dado testemunho, está batizando, e todos lhe saem ao encontro. Respondeu João: O
homem não pode receber coisa alguma se do céu não lhe for dada. Vós mesmos sois testemunhas
de que vos disse: eu não sou o Cristo, mas fui enviado como seu precursor. O que tem a noiva é o
noivo; o amigo do noivo que está presente e o ouve muito se regozija por causa da voz do noivo.
Pois esta alegria já se cumpriu em mim. Convém que ele cresça e que eu diminua” (João 3:26-30).

Eis aqui a conversão do coração dos pais aos filhos. Este é o espírito de Elias que
deve ser enviado de Deus antes do grande e terrível dia do Senhor. O ministério não pode
descansar até a geração seguinte ser abençoada com unção. Os pais não podem mais
servir apenas em seus ministérios; devem ansiar para seus filhos no ministério
ultrapassarem todos os limites de seu tempo. Os pais devem diminuir e os filhos crescer...
Ou Deus irá ferir a terra com uma maldição.

O maior ministério de Elias não representa seus milagres, mas seu filho.

Eliseu curou leprosos, separou a água da terra seca, multiplicou o pão e alimentou
centenas de homens. Esteve tão pleno de poder que exércitos inteiros não conseguiram
derrotá-lo. Porém, ele teria morrido tocando um arado se Elias não tivesse legado tudo o
que tinha a seu primogênito no ministério.

João Batista viveu em um deserto, comia do que havia por lá e usava vestes
estranhas. Ele pregava debaixo do sol ao lado do rio Jordão. João não realizou nenhum
milagre porque estava preparando o caminho para o maior gerador de Milagres de todos os
tempos. O apóstolo João descreve o coração de um pai: "Não tenho maior alegria do que
esta, a de ouvir que meus filhos andam na verdade (3 João 1:4). O coração do pai deseja
seu filho não apenas apreenda as bênçãos de sua vida, como também que as ultrapasse.
Este é o coração de Elias e de todos os que vêm em seu espírito.

Qualquer ministério que viva para si próprio e constrói apenas para si irá, igualmente,
morrer sozinho. O pai no ministério não é ameaçado pelo crescimento do ministério do filho
sobre o seu, ao contrário, ele regozija por ter feito parte de algo maior que jamais sonhara
ser possível. Várias gerações judaicas prepararam um lugar à mesa da Páscoa para o
retorno de Elias. Por vários séculos os pratos estiveram vazios a esperar (esta é uma boa
imagem para a fome de ministério - aquela que traz o coração paterno). Seu desejo foi
saciado com a vinda de João Batista, que anunciou o Messias. Atualmente, o desejo de
Deus é para que a Igreja viva na porção dobrada o Espírito. O coração dos pais deve se
converter aos filhos. Devemos enxergar o aumento do poder de Deus encher a terra!

["Com efeito, será circuncidado o nascido em tua casa e o comprado por teu dinheiro;
a minha aliança estará na vossa carne e será aliança perpétua" Gênesis 17:13].

A ALIANÇA DO PAI

Ele disse para ir dormir quando queria ficar acordado e brincar.


Ele o obrigou a comer verduras, a lavar o carro uma vez por semana e limpar o
quintal todos os dias.
A tarefa de casa vinha sempre antes da televisão.
Ele o fez ir à igreja quando todos os seus amigos ainda dormiam.
Nas férias, levava você à casa dos avós, tios, tias, primos... Quando na verdade você
queria ir à praia.
As exigências Dele pareciam nunca ter fim! Era um guarda entre você e a liberdade
total.
Mas onde você está hoje... Vestido de beca, com um novo caminho se abrindo rumo a
seu próprio mundo.
De repente, o velho lar não parece ter sido tão ruim.
Os afazeres, as obrigações e as regras parecem ter sido até leves.
Pois agora sente a total responsabilidade da vida adulta.
Agora entende o porquê de os ombros de seu pai serem
um pouco vergados.
É um fardo pesado, mas você consegue carregá-lo.
Você fica em posição ereta
porque tem um pai que lhe fez alcançar mais alto.
Ele lhe deu embasamento para entender do descanso e do trabalho árduo; herança e
fé.
Em equilíbrio entre disciplina e amor.
Você é o fruto da determinação de um homem
que almeja vê-lo vencer.
E com os últimos dezoito anos da vida devotados a você, ele recebe seu sucesso
como único pagamento realmente importante.
É irônico ser aqui, em uma encruzilhada de sua vida, onde finalmente se encontre
com seu pai.
É o lugar onde chegou para vê-Ia olho no olho.
Assim como Deus faz a terra volver em torno do sol,
ele fez o filho volver em torno do pai.
É a rotação do calor e da luz que
continua de geração a geração.
Até chegarmos à encruzilhada de um pai e um filho.

A revelação de Deus ao povo de sua aliança sempre se deu na ordem de pai e filho.
É assim que acolhemos nossa condição de filhos de Deus e a forma pela qual recebemos a
salvação e estabelecemos o relacionamento com Deus. Este é nosso legado: "herdeiros de
Deus e co-herdeiros com Cristo" (Romanos 8:17). Nosso relacionamento com Deus é o
reflexo da ordem de pai e filho.

Devemos entender também que os relacionamentos ministeriais devem refletir a


ordem de pai e filho. Contudo, devido ao fato de a Igreja não ter ainda percebido a
essência do relacionamento pai-filho no ministério, nós não recebemos nosso legado. Nós
adaptamos à igreja outros modelos que a fizeram romper a ligação com a herança
espiritual.

Apesar de Deus nos ter dado todas as coisas em Cristo, a Igreja não recebeu a
totalidade do legado porque seu ministério se manifesta mediante relacionamentos pai-
filho. Este é o motivo de Deus nos enviar o espírito de Elias. Deus irá restabelecer o
alinhamento entre pais e filhos no ministério. O relacionamento entre um pai e um filho no
ministério é multo mais que, por exemplo, a relação entre empregado e patrão. E mais do
que uma estrutura o mundo dos negócios, como presidente e vice-presidente, ou gerente e
assistente de gerência. A Igreja é um posto avançado do Reino de Deus - um Deus que
sempre lida com as situações em termos de parentesco. As ações e expressões de Deus
são a revelação de, sua pessoa e essência e, por este motivo, ele se nos revelou através
de um relacionamento de parentesco: Pai, Filho e Espírito. Ele nos criou e redimiu e nós
somos seus filhos. Deus necessita de que a aliança feita conosco por meio de seu Filho
seja igualmente um modelo para todos os relacionamentos no Reino. A palavra 'aliança'
aqui tem a acepção de "cortar". O sinal de um relacionamento de aliança entre Deus e a
semente de Abraão é o corte da circuncisão.

Após séculos de aprisionamento amargoso, Deus chamou Moisés e o enviou como o


homem destinado a liderar o povo de Deus rumo à liberdade do propósito divino. Moisés foi
retirado de um cesto no Nilo para se tomar" educado em toda a ciência dos egípcios" (Atos
7:22). Ao alcançar seu lugar no plano de Deus, "considerou o opróbrio de Cristo por
maiores riquezas do que os tesouros do Egito" (Hebreus 11:26), Moisés viveu quarenta
anos no deserto de Midiã e teve dois filhos. O anjo do Senhor apareceu a Moisés em uma
sarça ardente, revelou-lhe o nome de Deus e deu àquele pastor o poder de subjugar o
orgulho de Faraó. Mesmo depois de Moisés tomar-se o que se tomou, acatar o seu
chamamento e ir para o Egito, Deus foi até ele para matá-lo.

"Estando Moisés no caminho, numa estalagem, encontrou-o o SENHOR e o quis matar.


Então, Zípora tomou uma pedra aguda, cortou o prepúcio de seu filho, lançou-o aos pés de
Moisés e lhe disse: Sem dúvida, tu és para mim esposo sanguinário. Assim, o SENHOR o
deixou. Ela disse: Esposo sanguinário, por causa da circuncisão" (Êxodo 4:24-26).

O homem Moisés, cujas mãos receberam de Deus a Lei, escritor da Torá, profeta em
Cristo, não cumpriu seu dever como para com seu filho quando não o circuncidou. Deus
investiu oitenta anos em um homem, desenvolvendo-o para libertar seu povo.
Acompanhou-o desde bebê, através de sua maturação e todo o processo de engatinhar e
tropeçar até aprender a andar perante Deus. Ainda assim, se o homem de Deus não
alinhar sua vida à ordem de Deus, ele virá matá-lo, pois não permite o alijamento de sua
ordem, mesmo que isto signifique não cumprir sua vontade na terra. Desta maneira, eis a
pergunta: Deus nos ama mais do que amou a Moisés? O que nos faz pensar que podemos
conduzir a Igreja da forma como nos convier e mesmo assim Deus nos poupará de sua ira?

Respondo que devemos converter nossos corações. Devemos voltar à ordem de pai e
filho no ministério. Deus não teria poupado Moisés se não tivesse sido um pai apropriado
para a nação que liderou à libertação. Devemos ter pais que sejam pais para os filhos.
Algumas pessoas podem não enxergar a importância do rito da circuncisão hoje em dia.
Sei que qualquer estudante do Novo Testamento e dos escritos de Paulo irá dizer que o rito
da circuncisão é totalmente desnecessário para nossa salvação. Obviamente isto está
correto. O apóstolo Paulo se opôs com veemência a qualquer tentativa dos mestres
religiosos de seus dias postularem outro requisito à salvação fora da fé em Cristo, razão
pela qual o apóstolo Paulo escreveu contra a circuncisão em várias oportunidades em suas
epístolas (ver Romanos 2:25-29, 1 Coríntios 7:18-19; Gálatas 5:11-12; Filipenses 3.2-3;
Colossenses 2:10-11; Tito 1:10-11). Paulo se opôs tanto aos ensinamentos da circuncisão
que chamou de "mutiladores" a quem os praticava.

Paulo quis dizer que eles deveriam se mutilar a si próprios com o sentido que
deveriam se castrar (ver Gálatas 5:12). Este pensamento é extremamente pesado, mesmo
para o apóstolo Paulo, que nunca se furtou de dizer a verdade. Dizer que ele foi resoluto
contra o rito da circuncisão é afirmação falaciosa, razão pela qual a seguinte passagem do
Livro de Atos parece tão estranha:

"Chegou também a Derbe e a Listra. Havia ali um discípulo chamado Timóteo, filho de uma
judia crente, mas de pai grego; dele davam bom testemunho os irmãos em Listra e Icônio.
Quis Paulo que ele fosse em sua companhia e, por isso, circuncidou-o por causa dos judeus
daqueles lugares; pois todos sabiam que seu pai era grego" (Atos 16:3).

Em um primeiro momento, poder-se-ia julgar Paulo um hipócrita. O apóstolo disse


muitas coisas contra a circuncisão em várias epístolas. No entanto, vemos que ele
circuncidou um crente adulto. Suas palavras e suas ações parecem ir de encontro; mas só
até entendermos que a circuncisão de Timóteo não foi um problema de salvação, pois já
era crente. A circuncisão foi o ato de um pai no ministério para um filho no evangelho.
Paulo viajava pelas cidades gêmeas de Derbe e Listra quando encontrou o jovem a
quem consideraria seu "amado filho" (2 Timóteo 1:2). Timóteo foi bastante citado na
Escritura e constituiu a base de várias gerações em Cristo. Tanto sua mãe quanto sua avó
são mencionadas por ensinarem a Timóteo sobre Deus. "Pela recordação que guardo de tua
fé sem fingimento, a mesma que, primeiramente, habitou em tua avó Lóide e em tua mãe Eunice, e
estou certo de que também, em ti" (2 Timóteo 1:5). "E que, desde a infância, sabes as sagradas
letras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus" (2 Timóteo 3:15).

Timóteo é apresentado como discípulo, um crente verdadeiro em Jesus. Ele foi


altamente recomendado por seus irmãos e por outros companheiros, bem como por sua
própria atitude. Ele estava claramente envolvido em um ministério de sua cidade mas que
ia além até de outros lugares. Com efeito, Timóteo era candidato muitíssimo qualificado
para servir junto a Paulo. Havia apenas um problema, mencionado duas vezes nos três
primeiros versículos de Atos 16: seu pai era grego.

Timóteo era crente quando encontrou Paulo. É natural supor que tenha sido criado
como crente desde seu nascimento, ou que se converteu bastante jovem. Assim, Paulo
não o circuncidou para sua salvação, mas sim para o ministério, por que o pai de Timóteo
era grego e não há menção na Escritura de sua crença. Ainda assim, mesmo que
houvesse, Timóteo não possuía paternidade adequada para servir no ministério. Paulo não
o circuncidou para aceitar a Deus, mas para ser aceito pelos homens, fazendo-o em um ato
de pai para filho na preparação ao ministério.

Cabe ressaltar, contudo, que isto não significa que as pessoas no ministério devem
possuir algum requisito físico como qualificação para o serviço. A circuncisão foi sempre
mais do que uma marca física. Foi um sinal de aliança das gerações de Abraão. Foi um
sinal de sua obediência a Deus, marca passada de cada filho de Abraão à geração
seguinte, indicando a herança em Deus: o sinal da circuncisão do coração, implicando em
total devoção a Deus.

"Tão-somente o SENHOR se afeiçoou a teus pais para os amar; a vós outros, descendentes
deles, escolheu de todos os povos, como hoje se vê. Circuncidai, pois, o vosso coração e não
mais endureçais a vossa cerviz" (Deuteronômio 10:15-16).

"Circuncidai-vos para o SENHOR, circuncidai o vosso coração, ó homens de Judá e


moradores de Jerusalém, para que o meu furor não saia como fogo e arda, e não haja quem
o apague, por causa da malícia das vossas obras" (Jeremias 4:4).

Quando a circuncisão do coração é mencionada na Bíblia, sabemos que não significa


abrirmos o peito e operá-lo. Deus não realiza, literalmente, uma cirurgia em seu povo, mas
em espírito. A circuncisão sempre foi o sinal externo de uma singularidade interna da
devoção a Yahweh. O corte da carne é o corte simbólico de algo carnal no coração do
relacionamento entre Deus e seu povo. Deus jamais cogitou que a remoção de um pedaço
de pele tivesse valor sem haver um relacionamento verdadeiro como sinal de salvação.
Portanto, a circuncisão foi mais do que um sinal da aliança. Era um procedimento cirúrgico
espiritual, necessário para haver a ordem adequada no ministério. Se a circuncisão do
coração não acontecer, então a capacidade de se ouvir a voz de Deus é abafada, como se
as orelhas estivessem tapadas pela carne. Sobre esta questão, disse o profeta Jeremias:
"A quem falarei e testemunharei, para que ouçam? Eis que os seus ouvidos estão
incircuncisos e não podem ouvir; eis que a palavra do SENHOR é para eles coisa
vergonhosa; não gostam dela" (Jeremias 6:10). O primeiro mártir da igreja, diácono
Estevão, sentiu-se da mesma forma sobre o problema do coração o qual afetava a
capacidade de se ouvirem as palavras do Senhor: "Homens de dura cerviz e incircuncisos
de coração e de ouvidos, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim como fizeram
vossos pais, também vós o fazeis" (Atos 7:51). É o coração incircunciso dos líderes
religiosos "circuncidados" que se tomam surdos para a voz do Espírito.

Quando Paulo circuncidou Timóteo, não fez somente um sinal físico e visível. A
circuncisão sempre deixou uma cicatriz espiritual marca permanente de uma aliança
eterna. Esta foi uma operação espiritual para cortar fora a carne do coração de um filho no
ministério, ação que deve ser realizada por um pai no ministério para o filho poder
continuar com os ouvidos para ouvir e o coração aberto.

Um filho no ministério deve colocar sua vida nas mãos de um pai espiritual. Para
Timóteo ministrar o evangelho com eficácia total, teve de entregar a vida a Paulo. Desta
forma, esta vulnerabilidade é uma a abertura à mudança e ao compartilhar; é qualidade da
confiança de uma criança em seu pai; é o relacionamento próximo a família, na qual os
problemas, os erros e as imperfeições, bem como as esperanças, sonhos e desejos se
fazem conhecidos sob o manto de segurança do comprometimento. O filho deve confiar
integralmente em seu pai para realizar a cirurgia dolorosa da forma certa. Deve se tomar
Isaque, permitindo ao pai amarrá-lo e brandir uma lâmina afiada.

Antes de Moisés libertar o povo, teve de circuncidar o filho. Apesar de um pai no


ministério ser o instrumento, Deus é a fonte da circuncisão. "O SENHOR, teu Deus,
circuncidará o teu coração e o coração de tua descendência, para amares o SENHOR, teu
Deus, de todo o coração e de toda a tua alma, para que vivas" (Deuteronômio 30:6). Deus
opera todos os homens de sua casa. Ele não permite a nenhum escapar da retirada da
carne.

Um filho no ministério deve entender que aquilo que à primeira vista parece uma
agressão à carne é, na verdade, a retirada da agressão de sua vida. Alguns destes filhos
não suportarão sequer a primeira dor e irão correndo. Ainda sangrando se sentirão feridos
em lugar de honrá-los por serem filhos. Sentem-se agredidos pela tentativa de remoção de
sua carne. Outros abandonarão a casa do pai e o acusarão de um abuso que jamais
ocorreu. Guiados pela dor de seu ferimento em vez de guiados pelo Espírito, demonstram
com sua partida caluniosa a necessidade da circuncisão. A parte que sangra e requer
cuidados é exatamente aquela cuja remoção é imperativa. O fato triste é que este tipo de
filho irá da casa de um pai à outra, de igreja em igreja, deixando atrás de si um rastro de
sangue. O filho chorará por seus ferimentos até encontrar alguém para ouvi-lo, mas
recusando-se a operá-lo enquanto filho, pois, na tentativa de escapar da dor, escapa
também do propósito e da identidade em Deus. A recusa de ter a carne cortada fora, "corta
fora" também seu potencial para o serviço no Reino.

A resposta adequada é seguir o exemplo da geração de Josué: "Tendo sido


circuncidada toda a nação, ficaram no seu lugar no arraial, até que sararam" (Josué 5:8).
Quando um filho é cortado por um pai no ministério, deve permanecer onde está até curar
o ferimento, antes de dar seqüência ao ministério. De outra forma, a fonte da direção no
ministério ode estar cuidando da dor em vez do Espírito cuidar dela. Os filhos devem ser
cuidados pelo Espírito, não pela carne. "Porque, se viverdes segundo a carne, caminhais
para a morte; mas, se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente, vivereis.
Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus" (Romanos 8:13-
14).

Um pai no ministério circuncida o filho quando lida com uma região da carne que deve
ser retirada da vida do filho. Ele não pode cortar demais, ou irá destruir a possibilidade do
filho de um dia ser pai. Apesar disto, o pai deve cortar o filho, ou este jamais encontrará a
plenitude de seu propósito. A operação espiritual é delicada e seu procedimento deve ser
conduzido pelo coração do pai, pois se seu desejo for apenas provocar o desconforto do
filho, talvez vá além de seu próprio ministério.

Alguns homens chamados para serem pais resistem em aderir ao relacionamento de


aliança com o filho no ministério devido à dor inerente ao processo de tal compromisso. Por
isto, modelos de relacionamento como gerente/empregado, time/técnico têm preferência à
intimidade de pai e filho de muitos líderes da igreja. Mas o fato e que os empregados são
pagos para fazer alguma coisa, já os filhos são criados para ser alguma coisa. A ordem de
pai e filho é tão intrínseca à natureza do Reino de Deus que o fato de se permitir outro
modelo de relacionamento na Igreja significa interromper o reflexo do Reino o qual
proclamamos.

Os pais que não circuncidam os filhos, tomam-nos bastardos. Crescerão incircuncisos


e por fim as gerações de ministérios ilegítimos perdurarão. "Nenhum bastardo entrará na
assembléia do SENHOR; nem ainda a sua décima geração entrará nela" (Deuteronômio
23:2). A não observância da ordem de pai e filho nos trouxe pais com mãos limpas, mas de
corações impuros que não desejam erguer ninguém a não ser eles próprios como cabeça
da casa. Eles não irão operar nenhum filho porque não querem se responsabilizar pelo
cuidado dos ferimentos, afinal, preferem dar ordens a empregados à criar um filho.

Qualquer homem pode querer ter um filho. Qualquer um de saúde perfeita pode
manter relação sexual com uma mulher e conceber. Porém, isto não é ser pai, é apenas
produzir um filho. Um pai faz mais do que ter filhos: cria-os para se tornarem adultos
maduros. Este processo é um relacionamento doloroso, custa muito caro, consome o
tempo, esgota a vida, acaba com inúmeras noites de sono e não é sempre uma experiência
prazerosa para o pai nem para o filho. O preço é tudo o que o pai traz dentro de si, o
resultado será o filho honrar seu pai.

A ausência do cuidado paterno na vida do filho implica em abuso e negligência.


Quando não se realiza a circuncisão, tem-se a marca dolorosa do descuido do pai. Além do
mais, há ainda outros tipos de abuso na família de Deus.

"Então, os filhos de Jacó, por causa de lhes haver Siquém violado a irmã, Diná, responderam
com dolo a Siquém e a seu pai Hamor e lhes disseram: Não podemos fazer isso, dar nossa
irmã a um homem incircunciso; porque isso nos seria ignomínia. Sob uma única condição
permitiremos: que vos torneis como nós, circuncidando-se todo macho entre vós" (Gênesis
34:13-15).

Simeão e Levi não foram pais verdadeiros, mas filhos rebeldes que não tinham o
coração de seu pai, Jacó. Eles mataram todos os homens de Siquém, levando vantagem
sobre seus ferimentos. Capturaram a cidade e confiscaram toda a comida, os animais, as
mulheres e crianças. O sinal da aliança foi usado para retaliar.

Há alguns homens na Igreja que castram os filhos abaixo de si para serem a única
fonte de produção da casa. Um homem inseguro quanto às suas habilidades paternais se
torna o destruidor de todos aqueles com poder para um dia se tornarem pais; faz de todos
os que trabalham com ele servos e não filhos. Estes filhos são eunucos e não pais em
potencial. Este não é o relacionamento de aliança, mas a gerência de empregados sem
motivação. Aí não está o coração de um pai. Tal homem é um pai abusador. Ele só fere
para tomar algo, jamais para dar algo ao filho. A triste constatação é que muitos destes
pais abusadores existem atualmente na Igreja.

Deus não honra este tipo e um verdadeiro pai no ministério o rejeita. Jacó disse a
Simeão e a Levi: "Vós me afligistes e me fizestes odioso entre os moradores desta terra,
entre os cananeus e os ferezeus; sendo nós pouca gente; reunir-se-ão contra mim, e serei
destruído, eu e minha casa" (Gênesis 34:30). Em seu leito de morte, Jacó não lhes dá a
bênção, mas os amaldiçoa:

''Simeão e Levi são irmãos; as suas espadas são instrumentos de violência. No seu conselho,
não entre minha alma; com o seu agrupamento, minha glória não se ajunte; porque no seu
furor mataram homens, e na sua vontade perversa jarretaram touros. Maldito seja o seu furor,
pois era forte, e a sua ira, pois era dura; dividi-los-ei em Jacó e os espalharei em Israel"
(Gênesis 49:5-7).

Falsos pais castram os filhos cortando-lhes as possibilidades de estabelecerem sua


própria casa. São “instrumentos de violência". Não andam no amor, mas na ira. "E vós,
pais, não provoqueis vossos filhos à ira, mas criai-os na disciplina e na admoestação do
Senhor" (Efésios 6:4).
"Quando atingiu Abrão a idade de noventa e nove anos, apareceu-lhe o SENHOR e disse-lhe:
Eu sou o Deus Todo-Poderoso; anda na minha presença e sê perfeito. Farei uma aliança
entre mim e ti e te multiplicarei extraordinariamente (...) Abrão já não será o teu nome, e sim
Abraão; porque por pai de numerosas nações te constituí (...) Disse mais Deus a Abraão:
Guardarás a minha aliança, tu e a tua descendência no decurso das suas gerações. Esta é a
minha aliança, que guardareis entre mim e vós e a tua descendência: todo macho entre vós
será circuncidado. Circuncidareis a carne do vosso prepúcio; será isso por sinal de aliança
entre mim e vós. O que tem oito dias será circuncidado entre vós, todo macho nas vossas
gerações, tanto o escravo nascido em casa como o comprado a qualquer estrangeiro, que
não for da tua estirpe. Com efeito, será circuncidado o nascido em tua casa e o comprado por
teu dinheiro; a minha aliança estará na vossa carne e será aliança perpétua. O incircunciso,
que não for circuncidado na carne do prepúcio, essa vida será eliminada do seu povo;
quebrou a minha aliança" (Gênesis 17:1-2, 5, 9-14).

Abraão circuncidou todos os homens de sua casa, fosse escravo ou nascido na casa
como escravo. Fosse ou não da semente de Abraão, o ato da ordem de pai e filho deveria
ser seguido. Todos os que levassem a semente na casa de Abraão deveriam ser
circuncidados. O pai é o cabeça da casa, e carrega a responsabilidade de que cada pessoa
em sua casa siga o Senhor e o adore adequadamente. Este é o motivo pelo qual Abraão
teve de circuncidar não apenas seus filhos naturais, mas todos em sua casa.

Cada igreja é a casa de um pai. O pai do ministério na igreja é aquele que dá a


resposta definitiva acerca do ensino à congregação e à adoração do Senhor. Paulo falou à
congregação dos coríntios com o entendimento de que, na condição de seu pai no minis-
tério, era o pai de sua casa e o mais qualificado para falar a verdade às suas vidas:
"Porque, ainda que tivésseis milhares de preceptores em Cristo, não teríeis, contudo,
muitos pais; pois eu, pelo evangelho, vos gerei em Cristo Jesus" (1 Coríntios 4:15).

O ministério de um pai na igreja é ensinar a todos em sua responsabilidade a segui-lo


na medida que ele segue Cristo. Ele é quem carrega a lâmina da paternidade e circuncida
os filhos para o ministério. O pai de uma casa deve vigiar para circuncidar todos aqueles
que nasçam em sua casa, para todos os filhos na linhagem familiar receberem o mesmo
sinal, todos carregando a mesma imagem do pai.

O pai também deve observar para que todos os convidados do ministério ou os


funcionários pagos presentes na casa também falem com o coração circuncidado, "será
circuncidado entre vós, todo macho nas vossas gerações, tanto o escravo nascido em casa
como o comprado a qualquer estrangeiro, que não for da tua estirpe. Com efeito, será
circuncidado o nascido em tua casa e o comprado por teu dinheiro" (Gênesis 17:13).

O Senhor deu a Abraão a ordem para circuncidar ao mesmo tempo em que mudou-
lhe o nome, "Abrão já não será o teu nome, e sim Abraão; porque por pai de numerosas
nações te constituí" (Gênesis 17:5). 'Abrão' significa "antepassado famoso" e 'Abraão' quer
dizer "pai de uma multidão". Abraão ganhou um novo nome quando recebeu a revelação
com respeito à circuncisão. Com isto, sua identidade foi estabelecida em seu
relacionamento de aliança com Deus juntamente com a circuncisão ter sido estabelecida
com a marca de identificação da aliança. Assim, a circuncisão é quando um menino recebe
seu nome e sua identidade.

Abraão recebeu instruções para circuncidar sua semente no oitavo dia de nascida ver
(Atos 7:8; Filipenses 3:5). O oitavo dia é significante na ordem de pai e filho porque é o
mesmo número de dias necessários para a consagração dos filhos de Arão no ofício de
seu pai. Iremos discutir melhor este tema no oitavo capítulo, mas cabe dizer aqui que os
filhos de Arão não eram ungidos com óleo. Apenas Arão recebeu a unção como o cabeça
do sacerdócio. Seus filhos recebiam a unção ao usarem as vestes do pai por sete dias. No
oitavo dia, terminava seu período de consagração ver Levítico 8:6-13, 8:30-9:1). Após oito
dias, irrompiam da casa de Deus com seu pai Arão e os filhos no ministério. Neste dia os
filhos de Arão recebiam sua identidade. De forma semelhante, Jesus e João Batista
receberam seus nomes no oitavo dia de sua circuncisão.

"Sucedeu que, no oitavo dia, foram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome de seu
pai, Zacarias. De modo nenhum! Respondeu sua mãe. Pelo contrário, ele deve ser chamado
João. Disseram-lhe: Ninguém há na tua parentela que tenha este nome. E perguntaram, por
acenos, ao pai do menino que nome queria que lhe dessem. Então, pedindo ele uma ta-
buinha, escreveu: João é o seu nome. E todos se admiraram. Imediatamente, a boca se lhe
abriu, e, desimpedida a língua, falava louvando a Deus" (Lucas 1:59-64).

Dar-lhe o nome de 'João' foi significativo por não haver este nome na ordem natural
de seu pai. Os familiares presentes na hora da circuncisão pensaram que a criança se
chamaria como pai, Zacarias, até que Isabel interveio, pois aquele filho não deveria seguir
o caminho de seu pai natural.

Deus chama uma geração de líderes a interromperem os velhos padrões do ministério


tão bem conhecidos de nosso passado. Deus chama os pais para converterem seus
corações aos filhos, e os filhos aos pais. Esta precisa ser a nova base para a identidade no
ministério. A princípio, pode parecer estranha a muitos que não a entenderão e
apresentarão o argumento: "Ninguém há na tua parentela que tenha este nome". A volta do
relacionamento do Reino ao ministério deve resistir a toda sorte de rótulos e categorias.

Zacarias foi o pai de João no sentido físico, mas não necessariamente no espiritual.
João não estava destinado a seguir o sacerdócio de Arão, pois não seguiria um sistema
sem voz. Em vez disto, se tornaria a “Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do
Senhor, endireitai as suas veredas" (Lucas 3:4). Zacarias serviu no templo; João seria visto
no deserto. Ele não foi nomeado como o pai, pois 'João' seria o nome daquele que
converteria os corações dos pais aos filhos. Apesar de a identidade de João ter sido dada
pelo pai no ato da circuncisão, foram o espírito e o poder de Elias os formadores de seu
ministério.
José e Maria também deram a seu filho o nome de acordo com instruções angelicais
no dia de sua circuncisão. "Completados oito dias para ser circuncidado o menino, deram-
lhe o nome de JESUS, como lhe chamara o anjo, antes de ser concebido" (Lucas 2:21). O
sangue de Jesus é sempre associado com o poder de seu nome. Quando dizemos "em
nome de Jesus", invocamos tudo o que há em sua pessoa e identidade. O nome foi
colocado no filho na hora da circuncisão porque era um rito que aliava a identidade no
Reino à identidade física.

Se os filhos têm pais apropriados no ministério, poderão ser capazes de um dia ter
seus próprios filhos. A maldição de um ministério ilegítimo, então, é transformada em
bênção incomensurável e o pai é honrado pelos filhos que lhe seguem o caminho. Os filhos
aumentam a cada geração, aumentando as camadas de bênçãos aos filhos que os
seguirem.

Quanto a nós, vivemos em uma geração de Timóteos. A Igreja está repleta de


homens que foram bem cuidados no seio da Igreja, mas nunca tiveram um pai no ministério
apostólico. Muitos líderes da Igreja se comprometeram do ato de concepção espiritual;
pouquíssimos assumiram a responsabilidade de serem pais.

A Igreja atual é inundada com ministérios de pregações produtoras de alguma


excitação momentânea, que por sua vez propaga uma "explosão reveladora". Entretanto, o
que Deus deseja são pais que trabalhem com ardor até Cristo estar formado pela realidade
de nosso relacionamento de aliança.

[Então, foi ouvida uma voz dos céus: Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo.
Marcos 1:11]

6
A VOZ DO PAI

Conheci um homem de nome David em meus primeiros dias do ministério em


Foortmem de nome David em meus primeiros dias do ministrt Worth. Ele, nos foi
apresentado por uma enfermeira chamada Pat, que era membro da congregação. Ela
trabalhava em uma clínica onde David morava. Ele havia sido um engenheiro cujo trabalho
consistia em conceber, projetar e testar equipamentos de segurança para aviões a jato.
Certa feita, David testava um equipamento de ejeção e havia preparado o maquinário
simulando uma situação real para ter certeza de que funcionaria à maneira adequada,
apesar de simulações da realidade nunca serem feitas naquele módulo da testagem.
Porém, um trabalhador descuidado puxou uma alavanca e arremessou David a mais de
quinze metros de altura nas vigas de aço do galpão. Quando , David foi retirado da
estrutura do teto, ainda respirava, mas seu corpo já estava paralisado.
David sofria com a paralisia há vários anos quando Pat informou na igreja que os
médicos haviam pedido voluntários para ajudarem com a terapia de David. Segundo a
teoria dos médicos se algumas pessoas repetissem com ele os movimentos de engatinhar
e nadar, as conexões neuronais poderiam retornar à condição anterior, afinal, o problema
não foi fratura dos ossos e nem ferimentos dos membros, mas sim rompimento total da
ligação entre o cérebro e o corpo de David. Devido ao fato de ele não conseguir realizar
nenhum tipo de movimento, os médicos não poderiam afirmar se David tinha consciência e
lucidez. Não conseguia sequer piscar os olhos, ele ficava deitado olhando diretamente para
a luz, que acabou por queimar-lhe as retinas, deixando-o cego. David não conseguia
umedecer os lábios com a língua, por isto viviam rachados e sangrando. Ele não
mastigava, então era alimentado com um tubo ligado ao estômago que, juntamente com o
restante do aparelho digestivo, era massageado para funcionar de maneira adequada.

Quando lá chegávamos para as sessões, nós o colocávamos sobre uma prancha e


alguém pegava seus membros inertes e começávamos a fazer com ele os movimentos de
natação, os quais consistiam o tratamento: braço esquerdo, perna direita; perna esquerda,
braço direito, repetidos incessantemente. Os voluntários de nossa igreja faziam isto uma
hora por dia, três ou quatro vezes por semana, revezando-se em equipes. Apesar de David
não ter feito parte da família de nossa igreja, sua enfermeira Pat era tão próxima a nós e
tão preocupada com ele que decidimos ajudá-lo.

Em uma das vezes, eu encontrei o médico de David à porta do quarto. Estava


encostado contra a parede com a expressão visivelmente perturbada. Não pude deixar de
perceber-lhe o olhar torturado, por isto perguntei o que o aborrecia. A resposta me
estarreceu. Ele disse:

- Se eu tivesse uma arma, atiraria em David para matar.

O médico explicou que alguns especialistas vieram da cidade de Chicago na semana


anterior e testaram algum tipo de equipamento da neurocirurgia. Colocaram eletrodos na
cabeça de David para verificar se havia alguma atividade cerebral (pelo fato de David não
responder piscando os olhos ou com pequenos apertos de mão, os médicos o haviam
tomado como incapaz de ouvir ou mesmo de pensar; era considerado apenas um vegetal).
Assim, os especialistas introduziram os eletrodos na cabeça de David e monitoraram por
alguns dias com o objetivo de precisar o nível de sua capacidade cerebral. O médico com o
qual eu conversava lia o equipamento em uma sala próxima ao quarto de David, fazendo
anotações em uma planilha quando, de repente, uma área vermelha se acendeu no
monitor e os equipamentos começaram a se movimentar. Aquilo era estranho, então o
médico foi até a janela do quarto de David. Sua esposa havia chegado e dito:

- Oi, David. Como está passando hoje?

Os dois filhos entraram correndo no quarto:


- Oi, pai, Oi, pai.

Depois foram para uma mesa próxima e começaram a fazer a tarefa de casa.

Quando o médico chegou ao quarto, a esposa conversava com um funcionário da


clínica:

- Este homem não sabe quem sou. Estou solitária e é como se meu marido estivesse
morto. Sei que sou sua esposa e a ele quero me manter fiel, mas meu marido está morto
há seis anos, deitado nessa cama. Não consigo nutrir nenhum sentimento por esta pessoa
em minha frente. Vou entrar com o pedido de divórcio e buscar alguém para me ajudar a
criar as crianças.

O médico disse que a luz vermelha e a atividade na máquina duraram muitas horas
antes de voltarem ao normal. Agora sabiam com absoluta certeza - pela primeira vez
naqueles seis anos - que não havia nada de errado com a mente de David. Sua lucidez e
as faculdades mentais intactas o faziam compreender sua situação, porém, o corpo não
recebia os comandos da mente.

Não há nada de errado com a mente de Cristo. A mente do Pai trabalha com
perfeição. Este Deus pôde, com pequeno movimento dos lábios, criar a escuridão do céu
com seus bilhões e bilhões de estrelas e galáxias sem fim. Deus respira e os ventos
sopram e as ondas se avolumam. Não há nada de errado na mente de um Deus que fala e
a manhã nasce; que deita o sol ardente sob o céu da tarde. Este Deus criou tudo desde a
vastidão do oceano até a mais alta montanha, ao mais profundo vale. Criou desertos escal-
dantes e a exuberância da floresta amazônica; criou as falésias e as planícies férteis. Não
há nada de errado na mente de um Deus, cujos poderes se estendem, aos bilhões de
sistemas estelares. Mesmo no limiar do espaço conhecido, a voz criadora de Deus emana
vida no nada. Não há nada de errado com a mente de Deus. O problema parece ser ele
não conseguir nenhuma resposta de seu Corpo, que não ouve os comandos da Cabeça.
Há aí alguma conexão rompida.

Depois de ler os capítulos anteriores e alcançar a verdade sobre a necessidade


absoluta pelo relacionamento entre pai e filho, podemos sentir uma ânsia desesperada por
um pai. Com vontade e sem orientação, muita gente "vai às compras" procurando um pai
espiritual, seguindo, portanto, a paternidade inadequada. Há pessoas que vão até o líder
do ministério onde primeiramente serviram quando se converteram, esperando que seja
seu pai no evangelho. Outros seguem alguma orientação não-autorizada pelo Espírito,
correndo o risco de se ligarem a alguma estrutura organizacional ou a algum "quartel-
general" de uma denominação, em lugar de se cobrirem da proteção paternal. Outros ainda
vagueiam pelos corredores de supermercados carismáticos, empurrando seus carrinhos de
compras vazios e com o talão de cheques em mãos, buscando as melhores marcas e as
embalagens mais coloridas.
A verdade é que os pais não estão nas prateleiras ou são escolhidos em um catálogo
de compras. Um pai espiritual não é encontrado quando investigamos nossa gênese
espiritual até chegarmos à pessoa que nos trouxe para Cristo. Um pai não é escolhido
entre nossos preceptores favoritos ou entre os pregadores que em algum dia foram de
grande valor em nossas vidas. A capacidade do falar eloqüentemente ou do compartilhar
informações não pode ser o alicerce do relacionamento pai—filho. A vida filial não é
predicada pelo capricho dos homens, mas pela voz de Deus.

O pai espiritual é aquele cuja vida e o ministério nos retiraram da simples imaturidade
e nos colocaram no crescimento adequado e na ordem. As palavras de um pai espiritual
perfuram além da casca de bênção até o coração e a medula de nossa existência,
provocando o realinhamento integral de nosso espírito. O pai espiritual não é
necessariamente aquele que lhe deu à vida no Reino, mas é quem o resgatou os umbrais
do abandono, recebendo-o em seu lar, dando-lhe um nome e fazendo-o filho.

Muitas mulheres e homens de Deus nasceram no Reino sem possuírem um pai


espiritual e por isto vivem como órfãos. Muitas denominações e ministérios de comunhão
se tornaram organizações monumentais para tomarem conta destes pobres-coitados
espirituais. Dão a estes órfãos roupas, comida, abrigo e educação nos sistemas humanos,
e não sob a criação dos pais. Estes órfãos do ministério não têm um nome, tampouco
levam herança espiritual. Muitos carregam a vergonha da ilegitimidade, sem jamais terem a
certeza de sua origem. Ignoram sua identidade e falta-lhes um propósito claro porque é
impossível saber qual o caminho a seguir sem antes saber de onde vieram. Portanto, a
ausência de um eixo espiritual verdadeiro lança estes órfãos em um mundo onde são
enjeitados. Este problema se deve ao fato de não termos muitos pais. Por este motivo, é
muito importante percebermos o papel da voz do pai neste processo.

Jesus não iniciou o ministério até a voz do Pai ser dita na terra: "E eis uma voz dos
céus, que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo" (Mateus 3:17). Esta é
a maneira como um pai revela seu relacionamento com um filho no ministério. A voz do pai
declara o estado filial, portanto deve ser falada, ouvida e acolhida para estabelecer o
relacionamento pai—filho.

O Espírito de Deus nos envia sua voz em clamor. É a transmissão espiritual da voz
que declara: "ele converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus
pais, para que eu não venha e fira a terra com maldição" (Malaquias 4:6). Este é um clamor
do Espírito advindo do Pai.

O rádio recebe variados tipos de sinal, desde Bach até Bom Jovi, passando por
esportes, notícias, até a proclamação do evangelho - podendo todos ser ouvidos do mesmo
aparelho receptor. De maneira igual a um rádio que pode pegar várias estações, nós
podemos receber vários tipos de mensagem do mesmo Espírito de Deus. Pelo Espírito nós
não somos somente trazidos ao Reino de Deus, mas recebemos também orientação diária,
"Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus" (Romanos 8:14).
Através do Espírito, o relacionamento pai—filho é reconhecido: "O próprio Espírito testifica
com o nosso espírito que somos filhos de Deus" (Romanos 8:16). Nosso espírito recebe a
mensagem e o Espírito do Filho em nosso coração declara que foi adotado por um pai:
"Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes, outra vez, atemorizados,
mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai" (Romanos
8:15).

Esta mesma voz do Espírito que nos une a nosso Pai celestial nos leva ao
relacionamento com nosso pai no ministério.

Se procurarmos colocar nossa ligação para o ministério no Espírito, encontraremos o


caminho com o direcionamento do clamor do Espírito. O Espírito Santo, que procede do Pai
leva o testemunho aos filhos da identidade e seus pais no ministério (ver João 15:26;
Romanos 8:16). Assim, devemos ouvir a voz do Espírito de Deus se desejarmos nos ligar
ao nosso pai ministerial. Entretanto, como sabermos quando e onde dizer em voz alta "meu
pai", ou receber as pessoas como "meus filhos" no ministério? O conhecimento espiritual é
mais do que um sentimento ou um laço emocional forte. É uma declaração precisa do
desejo de Deus. Por isto, temos de estar seguros ao ouvirmos a voz do Pai que está no
Céu antes de reconhecermos a paternidade do ministério na terra.

Qualquer afirmativa de ligação na ordem de pai e filho deve ser julgada no tribunal de
nossos espíritos. O próprio Deus declarou do banco das testemunhas sobre pais, filhos e
herdeiros legais. Para validar as afirmações de qualquer testemunha no tribunal, ela deve
fazer um juramento. Antes de Deus ir ao banco das testemunhas e declarar sua palavra na
terra, fez um juramento:

"Pois, quando Deus fez a promessa a Abraão, visto que não tinha ninguém superior por quem
jurar, jurou por si mesmo, dizendo: Certamente, te abençoarei e te multiplicarei. E assim,
depois de esperar com paciência, obteve Abraão a promessa. Pois os homens juram pelo que
lhes é superior, e o juramento, servindo de garantia, para eles, é o fim de toda contenda. Por
isso, Deus, quando quis mostrar mais firmemente aos herdeiros da promessa a imutabilidade
do seu propósito, se interpôs com juramento, para que, mediante duas coisas imutáveis, nas
quais é impossível que Deus minta, forte alento tenhamos nós que já corremos para o refúgio,
a fim de lançar mão da esperança proposta" (Hebreus 6:13-18).

A veracidade deste testemunho do Espírito tem por base a força do juramento. Em


um tribunal, fazemos o juramento em nome da Bíblia, que representa nossa submissão a
algo maior que nós próprios. Como não é possível Deus jurar em nome de algo maior, ele
fala de uma promessa e faz um juramento em seu próprio nome. Ele o fez primeiramente
no mundo espiritual e em seguida à pessoa na terra que recebeu a promessa. Este é o
sentido das coisas imutáveis: uma promessa dita àqueles na terra e um juramento feito a si
próprio no Céu.
Deus fala uma vez no Céu e uma vez na terra. Sempre quando Deus fala uma palavra
soberana na terra não o faz uma, mas duas vezes. Quando a voz de Deus necessita de ser
ouvida em tempos de grande transição, nosso Pai celestial chama o homem na terra não
uma, mas duas vezes. Este é o motivo (quando Deus realiza uma conversão de poder e
glória dos Céus para a terra) de ele falar de uma forma a qual chamo de "Enunciação
Duplicada da Divindade".

Quando Deus quis mudar o rumo da obediência de Abraão e resgatar a promessa,


não disse apenas ‘Abraão’ uma vez, mas duas vezes: "Abraão, Abraão" (Gênesis 22:11).
Quando Deus quis um libertador para resgatar seu povo escravizado disse: "Moisés,
Moisés" (Êxodo 3:4). Quando Deus desejou elevar uma voz profética pura em meio à
corrupção no sacerdócio disse "Samuel, Samuel" (1 Samuel 3:10). Quando o templo foi
reconstruído depois dos anos de cativeiro, Deus deu a instrução a Zorobabel para colocar a
pedra e repetiu a graça "em meio a aclamações: haja graça e graça para ela!" (Zacarias
4:7).

Quando o Verbo se fez carne, apresentou a palavra do Pai e não disse "em verdade"
uma vez, mas em vinte e cinco oportunidades no evangelho de João, Jesus disse: "em
verdade, em verdade". Quando o Salvador orou por um apóstolo cuja fé estava para
desfalecer, disse "Simão, Simão" (Lucas 22:31). Quando Jesus apareceu a um fariseu que
enlouquecera disse "Saulo, Saulo" (Atos 9:4). Quando Deus promulga alguém como filho
do Reino, envia seu Espírito àquele coração para aclamá-lo no nome duplicado" Aba, Pai".

No Céu e na terra, o testemunho de Deus é dado por sua voz. Esta enunciação
duplicada da Divindade ocorre quase sempre em situações nas quais não há resposta
natural ou quando o fluir é interrompido. Assim, há épocas em que Deus toma soberana-
mente ambas as posições em uma ligação. Os céus e a terra são unidos por uma voz.
Deus falou no Céu e na terra "Abraão, Abraão" porque a situação estava fora de controle.
Não havia como Abraão entender o motivo de Deus desejar um sacrifício humano e depois
não o querer mais. A semente desta promessa morreria se um alinhamento com o Pai no
Céu não fosse feito por Deus, de forma soberana, com Abraão.

Não havia forma de Saulo de Tarso ser salvo sem alguém apresentar Jesus a ele.
Sem um sermão, sem a Bíblia, exemplos, preâmbulos, três cânticos e um poema, um
fariseu assassino não se prostraria à enunciação de "Saulo, Saulo". Deus fez por si a
ligação; uma vez no mundo celeste, uma vez na terra.

O Siló é um sistema sacerdotal do qual Deus está esgotado, pois procria apenas a
iniqüidade e a imundície nos "filhos de Belial". Quando um Eli produz um Hofni e um
Finéias - usurpadores de glória - Deus intervém. Não é, com efeito, compreensível para
nós, mas Deus permitiu que um filho dormisse nos fundos de sua casa, um filho entregue
pela própria mãe em uma condição de orações e jejum na qual ela fez a promessa. Ele se
encontrava lá para receber a voz de Deus.
Antes de a luz se apagar na casa de Deus, a Palavra do Senhor chegou ao menino e
conclamou "Samuel". Em três oportunidades a voz clamou o nome: "Samuel". Eli
finalmente reconheceu a voz e instruiu o jovem a receber a revelação. Quando a voz de
Deus finalmente permitiu que fosse reconhecida, Samuel disse ao Senhor que falasse,
percebemos aqui que Deus disse: "Samuel, Samuel" (ver 1 Samuel 3:1-10).

Na terra, Samuel não pôde reconhecer a voz celeste. Foi por isto que respondeu a Eli
e não ao Senhor. Isto é o que acontece com freqüência quando os homens ouvem a voz de
Deus. Voltam-se ao sistema humano e perguntam: "Será que esta é a voz de Deus?"
Voltam-se para sacerdócios falidos: "O que devo fazer?" Mas foi apenas quando a voz rara
do Pai disse soberana: "Samuel, Samuel" que foi ouvida.

Uma vez no Céu, uma vez na terra; uma vez na transmissão, uma vez na recepção: a
voz do Pai retumba em nosso espírito e por isto sabemo-la como uma ligação de Deus.
Este é um conhecimento espiritual e não é baseado em nossa sabedoria ou em nossa
posição; não é constituído pelo nome que tem, pelo quão grande é ou pelo tanto que é
compreendido, afinal, é a voz do Pai que toma ambas as margens do divino e constrói uma
ponte ligando o vazio entediante da capacidade humana ao propósito e ao poder de Deus.

A Bíblia nomeia estas de "coisas imutáveis", pois quando ouvimos essa voz, sabemos
que não ouviremos mentiras, pois Deus não mente (ver Tito 1:2). Se testemunharmos ouvi-
Ia apenas uma vez, talvez seja verdade, mas se ouvirmos tudo duas vezes, está
estabelecido (ver Mateus 18:16). Este fato explica a razão de Jesus falar as coisas que
falou:

''Se eu testifico a respeito de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro. Outro é o que
testifica a meu respeito, e sei que é verdadeiro o testemunho que ele dá de mim. O Pai, que
me enviou, esse mesmo é que tem dado testemunho de mim (...). Jamais tendes ouvido a sua
voz, nem visto a sua forma. Também não tendes a sua palavra permanente em vós, porque
não credes naquele a quem ele enviou" (João 5:31-32; 37-38).

Em outro local, aconteceu a seguinte conversa:

“Então, lhe objetaram os fariseus: Tu dás testemunho de ti mesmo; logo, o teu testemunho
não é verdadeiro. Respondeu Jesus e disse-lhes: Posto que eu testifico de mim mesmo, o
meu testemunho é verdadeiro, porque sei donde vim e para onde vou; mas vós não sabeis
donde venho, nem para onde vou. Vós julgais segundo a carne, eu a ninguém julgo. Se eu
julgo, o meu juízo é verdadeiro, porque não sou eu só, porém eu e aquele que me enviou.
Também na vossa lei está escrito que o testemunho de duas pessoas é verdadeiro. Eu
testifico de mim mesmo, e o Pai, que me enviou, também testifica de mim. Então, eles lhe
perguntaram: Onde está teu Pai? Respondeu Jesus: Não me conheceis a mim nem a meu
Pai; se conhecêsseis a mim, também conheceríeis a meu Pai" (João 8:13-19).
A cultura religiosa da época de Jesus não lhe entendia a identidade porque não ouvia
a voz do Pai. As pessoas não haviam ouvido sua voz e tampouco visto suas formas. Não
eram capazes de enxergar o verbo feito em carne por não ouvirem a palavra do Céu.
Recusavam as palavras do Rei e a ligação com seu Reino por falharem em receber a
palavra proveniente do Pai. Apesar de Jesus realizar grandes milagres bem em frente a
seus olhos, não conseguiam recebê-lo como Deus pelo fato de a palavra não habitar dentro
deles. Nem mesmo dois testemunhos são suficientes se há recusa em ouvir. Por este
motivo, Jesus disse em quinze oportunidades nos Evangelhos e no Apocalipse: "quem tem
ouvidos para ouvir, ouça".

As fundações da autoridade para o ministério de Jesus foram a voz do Pai, pois Jesus
não recebeu o aval dos homens como a base de sua autoridade.

Jesus sequer se apoiou no próprio testemunho, puro e único. O pai falou do Céu a
Palavra e confirmou que Jesus foi o Verbo feito em carne, manifestado na terra. A voz do
Pai é a autoridade da ligação entre Deus e o homem. Esta ligação só acontece quando a
voz do Céu é falada e escutada na terra. O testemunho de duas vezes é a base de todos
os acontecimentos e relacionamentos do Reino.

O ministério de Jesus não começa com a anunciação de anjos ou com os pastores se


prostrando diante dele. Tampouco, teve início com os sábios rabinos perdendo a fala ao
ouvirem o menino de doze anos no templo. A plenitude de seu propósito não se deu com
as aclamações de familiares e amigos que reconheciam os grandes dons e o poder que
trazia no peito. Diversamente, o catalisador para a introdução de Jesus no ministério foi a
voz de seu Pai:

"E aconteceu que, ao ser todo o povo batizado, também o foi Jesus; e, estando ele a orar, o
céu se abriu, e o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corpórea como pomba; e ouviu-se
uma voz do céu: Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo" (Lucas 3:21-22).

Esta palavra impulsionou Jesus para seu ministério, que também recebeu a palavra
enquanto fazia orações (ver João 12:28). A base da oração no Reino é "assim na terra
como no céu". A palavra procedente de Deus foi ouvida no Céu e na terra.

Jesus fundou seu ministério sobre o testemunho do Pai. Sem a voz do Pai, Jesus
teria permanecido na carpintaria serrando madeiros em vez de morrer em um deles.

Quanto a nós, reconhecemos a voz de um pai no ministério porque ele dirá uma
palavra procedente de Deus. Um pai encerra tal palavra nos lábios porque mantém um
relacionamento que procede de Deus. Isto é, esta palavra deve seguir uma ordem de
progressão tal que não se perca em algum ponto do processo de amadurecimento de um
filho, ou o mantenha alheio a seu potencial. Esta é a voz da verdadeira ordenação
espiritual. Esta é a palavra que procede de Deus para nossa maturidade como filhos para
um dia nos tomarmos pais para outrem; esta palavra vem sempre do coração de Deus.
"Mas o que sai da boca vem do coração" (Mateus 15:18).

Este tipo de palavra é imutável e não pode ser condenado ou negado.

''Então, responderam Labão e Betuel: Isto procede do SENHOR, nada temos a dizer fora da
sua verdade" (Gênesis 24:50).

Uma palavra que procede de Deus nos faz perceber como as coisas terrenas nunca
satisfarão, mas apenas "de tudo o que procede da boca do SENHOR" (Deuteronômio 8:3).

Além disto, ela destrói o ataque satânico.

“Jesus, porém, respondeu: Está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra
que procede da boca de Deus" (Mateus 4:4).

A palavra ordenada é como a das duas testemunhas do Apocalipse:

"Se alguém pretende causar-lhes dano, sai fogo da sua boca e devora os inimigos; sim, se
alguém pretender causar-lhes dano, certamente, deve morrer" (Apocalipse 11:5).

Como o trono de Deus:

"Do trono saem relâmpagos, vozes" (Apocalipse 4:5).

O trono de Deus é a fonte de onde flui a bênção:

"Então, me mostrou o rio da água da vida, brilhante como cristal que sai do trono de Deus e
do Cordeiro" (Apocalipse 22:1).

A palavra procedente de Deus estabelece os filhos no Reino.

"Quando teus dias se cumprirem e descansares com teus pais, então, farei levantar depois de
ti o teu descendente, que procederá de ti, e estabelecerei o seu reino" (2 Samuel 7:12).

É a espada do Senhor que corta através de nossa alma:

"Os restantes foram mortos com a espada que sala da boca daquele" (Apocalipse 19:21).

"Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois
gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para
discernir os pensamentos e propósitos do coração" (Hebreus 4:12).

Em grego, 'palavra' se diz 'rhema'. Não se refere apenas ao volume das Escrituras
inspiradas, mas, ao mesmo tempo, a uma palavra específica cortante que vem de Deus e
provoca a mudança estrutural e dinâmica na vida das pessoas. Esta palavra procedente de
Deus distingue as ligações da alma e do espírito, fazendo-nos ligados nas juntas e medulas
de nosso realinhamento e relacionamento espirituais.

A experiência de Jacó nos mostra um quadro do poder da palavra que procede de


Deus. Jacó estava só no vau de Jaboque (que significa 'fluir' ou 'proceder'). Quando um
homem surgiu e pelejaram toda noite, Jacó não fazia idéia de quem poderia ser aquele
homem. Não era peludo o suficiente para ser Esaú, e também não tentava matá-lo. Mas
Jacó era um guerreiro e não se entregou "tocou-lhe na articulação da coxa; deslocou-se a
junta da coxa de Jacó, na luta com o homem" (Gênesis 32:25). Foi quando Jacó percebeu
que lutava com Deus e, assim, pediu sua bênção.

Um pai espiritual traz o rhema procedente de Deus em sua boca, realiza a cirurgia
espiritual e nos desloca para o caminho com Deus, a fim de nos colocar na ordem correta.
A palavra de ‘Jaboque’ de sua boca transforma nossa caminhada, nosso nome e nossa
vida. Então, os filhos espirituais que progredirão de nosso ministério encerrarão o nome e o
legado desta mesma palavra. "Por isso, os filhos de Israel não comem, até hoje, o nervo do
quadril, na articulação da coxa, porque o homem tocou a articulação da coxa de Jacó no
nervo o quadril” (Gênesis 32:32). Saber ouvir a voz do Pai e saber falar a palavra que dele
procede na terra se constitui como a pedra angular da igreja.

"Respondendo Simão Pedro, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Então, Jesus lhe
afirmou: Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to
revelaram, mas meu Pai, que está nos céus. Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre
esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela"
(Mateus 16:16-18).

O nome de Simão foi convertido para "pedra", mas, é importante destacar que Pedro
não é a base da Igreja. Seu nome foi modificado porque, assim como no caso de Jacó,
Pedro recebeu a palavra (rhema) procedente do Pai. Como conseqüência, Pedro não foi
mais conhecido pelo nome de seu pai terreno, Barjonas, mas pela qualidade de seu
relacionamento com o Pai celestial. E o "Pai que está no céu" a fonte da qual Jesus afirma
emanar esta revelação. Simão recebeu a palavra que procede de Deus, e não dos homens.

As condições em torno desta palavra determinam a mudança no nome da pessoa.


Abrão foi renomeado "Abraão" porque progrediu de pai no Espírito para ser "pai de uma
multidão". Jacó passou de traiçoeiro àquele que "luta com Deus". Simão que significa
'ouvinte' é chamado de Pedro porque, além de ouvir a voz do Pai, também seria capaz de
falar na terra. A palavra imutável do Pai constitui montanhas de homens. As portas do
inferno não prevalecem contra a palavra que progride ordenada de Deus.

Esta é a chave para o Reino: "Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares na
terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra terá sido desligado nos céus"
(Mateus 16:19). Uma tradução literal de parte da passagem para " o que ligares" seria "o
que tiveres já ligado". Esta ligação entre o Céu e a terra constituem nossa capacidade de
ouvir a voz de nosso Pai no Céu e a proclamação do que ele diz na terra. Por isto, oramos
"assim na terra como no céu".

Quanto a nós, enquanto não recebermos a palavra do Céu em nosso mundo, jamais
reconheceremos nosso pai no ministério. Os filhos não encontrarão o pai espiritual em
alianças organizacionais ou tendo como base a história pessoal. Um pai ministro é
reconhecido palavra procedente de Deus em sua boca.

Na experiência do profeta Ezequiel no vale de ossos secos, é possível percebermos o


poder da voz de Deus ligando os relacionamentos para o ministério. Ezequiel foi instruído
por Deus para profetizar: "Então, profetizei segundo me fora ordenado; enquanto eu
profetizava, houve um ruído, um barulho de ossos que batiam contra ossos e se ajuntavam,
cada osso ao seu osso" (Ezequiel 37:7). Os ossos estavam apenas amontoados até a
palavra de Deus sair da boca do profeta e os estruturar. A Igreja é o Corpo, a estrutura
óssea, de Cristo. Enquanto não ouvirmos a palavra do Céu, permaneceremos um monte
grotesco de partes do corpo desconectadas.

Atualmente, em meio ao som alto de igrejas lotadas e conferências repletas de gente,


deve haver um tremor para que se ajuntem "cada osso ao seu osso". O motivo de termos
ministérios e espiritualidade tão deformados é por não estarmos ligados de maneira
adequada à nossa Cabeça e uns aos outros. Devemos nos ligar "cada osso ao seu osso",
especificamente através da voz do Espírito, em relacionamentos funcionais, uns aos
outros.

Paulo escreveu que falar a verdade no amor de uns pelos outros faz o relacionamento
"osso ao seu osso" - determinador da posição, do alinhamento e da energia no Corpo de
Cristo - surgir e nos faz progredir em conjunto.

''Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de
quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxilio de toda junta, segundo a justa
cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em
amor" (Efésios 4:15-16).

O crescimento do corpo ocorre em relacionamentos que estabelecem suas ligações


quando falamos uns aos outros; quando encontramos nossos ossos pela voz do Espírito.

Além da ocasião do batismo de Jesus, a voz do Pai foi ouvida pela segunda vez no
ministério. No quarto evangelho, André e Filipe encontraram um grupo de viajantes,
identificados como "gregos", eles desejavam ver Jesus. Não resta dúvida de que já tinham
ouvido falar sobre seu ministério miraculoso e sobre seus ensinamentos poderosos. Sem
saber se poderiam estar próximos dele, os gregos expressaram a vontade de vê-lo. Jesus
não deu uma resposta direta àquele pedido; diversamente, proclamou a verdade:
"Respondeu-lhes Jesus: É chegada a hora de ser glorificado o Filho do Homem. Em verdade,
em verdade vos digo: se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas,se
morrer, produz muito fruto. Quem ama a sua vida perde-a; mas aquele que odeia a sua vida
neste mundo preservá-la-á para a vida eterna. Se alguém me serve, siga-me, e, onde eu
estou, ali estará também o meu servo. E, se alguém me servir, o Pai o honrará. Agora, está
angustiada a minha alma, e que direi eu? Pai, salva-me desta hora? Mas precisamente com
este propósito vim para esta hora. Pai, glorifica o teu nome. Então, veio uma voz do céu: Eu já
o glorifiquei e ainda o glorificarei. A multidão, pois, que ali estava, tendo ouvido a voz, dizia ter
havido um trovão. Outros diziam: Foi um anjo que lhe falou. Então, explicou Jesus: Não foi
por mim que veio esta voz, e sim por vossa causa. Chegou o momento de ser julgado este
mundo, e agora o seu príncipe será expulso. E eu, quando for levantado da terra, atrairei
todos a mim mesmo" (João 12:23-32).

Jesus não deu, de fato, muita atenção aos gregos, pois mergulhou em oração (como
no Getsêmani), em referência aos dias tempestuosos no porvir que já encrespavam as
águas em sua alma. Jesus orou quando estava no Jordão junto com João, e o Pai falou em
seu batismo de água (ver Lucas 3:21-22). Depois, sofrendo o batismo de morte, o
sepultamento e a ressurreição, Jesus orou novamente. Enfrentando a cruz, tendo de
suportar os pecados do mundo, Jesus invocou o Pai para lhe glorificar o nome. Foi então
quando uma voz do Céu clamou que Deus havia glorificado no Céu e iria glorificar seu
nome também na terra. Deus falou a mesma palavra duas vezes: a enunciação duplicada
da Divindade.

É importante percebermos como se recebeu esta transmissão espiritual. A multidão


de testemunhas se dividiu quanto à forma de ouvir a voz do Pai. Alguns alegam ter sido
apenas um fenômeno natural – que foi somente um trovão. No entanto, outros reconhecem
ter sido uma voz do Céu – talvez de um anjo. Deus sempre envia sua voz ao mundo, pois o
julgamento do mundo advém da forma pela qual sua voz é recebida na terra. Alguns dirão
que trovejou; outros que foi a voz de um anjo.

Jesus, ao ser erguido, atraiu para si todos os homens, mas nem todos o seguiram.
Alguns disseram que era apenas um homem, enquanto outros o tomaram como a
encarnação de Deus. Quando se ouve uma voz do Céu, alguns não a conceberão como se
proviesse de Deus e assim serão julgados pela forma como receberam a Palavra de Deus.

O ministério legítimo é baseado no testemunho dos pais e no processo de se conferir


identidade aos filhos. Para alguns, esta verdade soa apenas como trovão, soa como se
"pais e filhos" fosse outro rótulo de submissão cega ou para o exercício autoritário do
egoísmo. Outros ignoram a voz do Espírito e perpetuam viva dentro de si a lei: ministérios
ilegítimos dão à luz ministérios ilegítimos. Alguns ministros sem pai podem não ouvir devido
a ofensas ou abusos sofridos no passado, por isto, permanecerão sob a segurança máxima
que puderem conseguir no orfanato das denominações ou no "independentismo". Por outro
lado, haverá também aqueles que reconhecem a transmissão vinda do Espírito, cujos
corações são convertidos para o que Deus fala. Estas pessoas reconhecerão uma voz
divina quando a ouvirem e levarão o testemunho junto de seus espíritos. Com isto, os
ministérios destas pessoas se ligarão, promovendo conexões "osso do seu osso" e
descobrindo quem realmente são e o lugar que ocupam nos relacionamentos do Reino. Os
pais se converterão aos filhos e os filhos aos pais quando o som da voz de Deus for
ouvido.

A voz de Deus é audível dentro dos corações de quem procura ouvi-Lo. Tanto pais
quanto filhos se reconhecerão uns aos outros através do clamor de uns pelos outros,
mediante a conversão de seus corações. O lamento provocado pela ausência de bênção
dentro do coração dos filhos irá clamar pelo fluir da herança espiritual no coração os pais e
verdade, que procuram um coração filial ara recebê-lo. Este é o "fragor das tuas
catadupas” que ao ser recebido faz "todas as tuas ondas e vagas passaram sobre mim"
(Salmo 42:7). A voz de Deus flui pelos canais auditivos espirituais e recobra o
entendimento estéril de ministérios órfãos com a inundação da revelação do Reino. É
através do encontro entre o jato poderoso do fluir espiritual e os canteiros ressequidos de
almas que pais e filhos se reconhecem.

"Virão com choro, e com súplicas os levarei; guiá-los-ei aos ribeiros de águas, por caminho
reto em que não tropeçarão; porque sou pai para Israel, e Efraim é meu primogênito"
(Jeremias 31:9).

O relacionamento entre pai e filho não é de escolha humana, pois é falado por Deus.
Eliseu arava um campo e jamais perceberia seu potencial em Deus, mas de repente,
apareceu o profeta Elias e mudou para sempre o rumo da vida daquele lavrador. Uma nova
direção em outro plano se manifestou quando Elias cobriu os ombros de Eliseu com seu
manto: "Então, deixou este os bois, correu após Elias e disse: Deixa-me beijar a meu pai e a minha
mãe e, então, te seguirei. Elias respondeu-lhe: Vai e volta; pois já sabes o que fiz contigo" (1 Reis
19:20).

Elias falou a Eliseu que estava livre para se despedir dos pais terrenos e seguir seu
novo pai espiritual, acrescentando "pois já sabes o que fiz contigo". Elias percebeu que o
movimento de ter se colocado como – pai espiritual de Eliseu não era sua obra. Elias não
escolheu Eliseu, foi de Deus a escolha. Elias apenas obedeceu a voz celeste que disse
sobre Eliseu: "ungirás profeta em teu lugar" (1 Reis 19:16).

A voz de Deus que levou Eliseu ao ministério foi recebida quando Elias subiu à
montanha e se colocou perante Deus.

"Disse-lhe Deus: Sai e põe-te neste monte perante o SENHOR. Eis que passava o SENHOR;
e um grande e forte vento fendia os montes e despedaçava as penhas diante do SENHOR,
porém o SENHOR não estava no vento; depois do vento, um terremoto, mas o SENHOR não
estava no terremoto; depois do terremoto, um fogo, mas o SENHOR não estava no fogo; e,
depois do fogo, um cicio tranqüilo e suave" (1 Reis 19:11-12).

Deus queria se comunicar com Elias, então enviou primeiramente as forças dos
elementos que obedeceram seu comando. O vento, o terremoto e o fogo não foram
enviados para informar ou instruir. Deus enviou o vento forte para remover do caminho de
Elias qualquer coisa que o impedisse de ouvir a voz de Deus. Da mesma forma, o tremor
de terra serviu para retirar qualquer obstáculo no caminho do profeta. O fogo foi enviado,
mas não para falar com Elias, e sim para queimar qualquer entrave deixado pelo vento ou
pelo terremoto. Todos estes fenômenos aconteceram com Elias, tendo por objetivo
prepará-lo para ouvir a voz calma e o rumor tranqüilo de Deus. O Senhor raramente fala
em voz alta ou grita. Se sua voz tem de ser ouvida deve haver, pois, a paciência paternal
para recebê-la. Seguir o processo de se ouvir a palavra que procede de Deus é essência
para sermos pais no ministério.

Elias não foi o agente sobre a vida de Eliseu, porque foi a voz de Deus que fez o
chamamento. Elias foi apenas a manifestação da liderança espiritual à qual Eliseu se
submeteu para servir como filho. O relacionamento espiritual entre pai e filho no ministério
é obra e escolha de Deus.

Há muitos pais espirituais ávidos por ouvirem a voz de Deus, aguardando o momento
de poderem jogar seu manto sobre os ombros de alguém. Há, igualmente, filhos ansiosos
por adquirir pais. Contudo, este relacionamento tem por alicerce a obra humana, afinal,
meu pai espiritual não é quem me trouxe para Jesus ou aquele que me instruiu; não é
quem me organizou a atuação, tampouco é aquele que me colocou na maior das
plataformas políticas. O meu pai não é quem me concedeu o mais afável dos
relacionamentos, nem é a pessoa com a qual desejo passar a maior parte do tempo. Ora,
meu pai é aquele que fala a palavra e me lança à maturidade, permitindo a plenitude de
meu potencial em Deus.

Portanto, posso ter tido dez mil preceptores em Cristo, os quais me ergueram até
certo ponto, ainda assim deve haver uma voz, uma bênção que me colocou no caminho de
meu propósito: é assim que sei de fato quem é meu pai. É o chamamento mais profundo
em nossas vidas.

A ligação entre pais e filhos no ministério começa na voz do Pai. Esta voz que
procede de Deus é partilhada pelo Espírito; é o raio de luz queimando o filme da câmara
fotográfica: registra uma impressão permanente, a forma exata de uma fotografia. Através
da voz de um pai na terra que transmite a palavra procedente de Deus - fala a voz de Deus
a mim - revela-me quem sou. Esta partilha me mostra a fotografia de quem é meu pai e do
que poderei me tomar em Deus.

Esta palavra também nos une no processo com alguém. Jesus disse: "Se alguém me
serve, siga-me, e, onde eu estou, ali estará também o meu servo. E, se alguém me servir, o
Pai o honrará" (João 12:26). Ou, em outras palavras, "se quer me ver, deve ir através de
meu processo. Irei marcá-lo com esta imagem assim como ela está em mim. Onde estou,
estará você, em honras do Pai". Sempre quando nos ligamos em um relacionamento
espiritual, há benefícios e conhecimentos compartilhados pelas partes do laço de aliança.
Independentemente do processo ou dos problemas que as pessoas podem verter ao
relacionamento, eles devem ser enfrentados por ambas as pessoas. Pais e filhos no
ministério estão ligados em uma maré de vida e morte. Esta é a ligação" osso ao seu
osso". Se houver saúde ou doença em qualquer um são, pois, compartilhadas por ambos.
Quando algum é ferido no osso, todos os outros ossos sentem a mesma dor. Portanto, a
recusa da ligação em um relacionamento ordenado por Deus significa sermos amputados
do propósito do Reino.

Deus estabeleceu a ordem de pai e filho. Determinou que os pais fossem a


confirmação terrena e o testemunho da voz celestial de Deus Pai. Eliseu nunca mais foi um
lavrador depois de Elias cobrir-lhe com o manto. Saul iria buscar para sempre as jumentas
de seu pai se Samuel não o tivesse ungido e, por isto, o transformado em outro homem.
Davi iria pastorear e cantar toda a vida se Samuel não lhe houvesse coberto a cabeça de
azeite, tornando-o preparado para usar a coroa. João Batista teria seguido os passos de
Zacarias na condição de filho de Arão, sacrificaria cordeiros e encheria de azeite os lumes,
se uma voz angelical não o tivesse comandado a preparar o caminho para o Senhor!
Desde o Pai celestial, passando pelos pais terrenos até os filhos, a voz e Deus será ouvida.

A voz procedente do Pai a Maria foi a ligação formadora do ministério de João Batista.

“E, entrando o anjo aonde ela estava, disse: Alegra-te, muito favorecida! O Senhor é contigo.
Ela, porém, ao ouvir esta palavra, perturbou-se muito e pôs-se a pensar no que significaria
esta saudação" (Lucas 1:28-29).

Maria foi surpreendida pelas palavras do anjo. Cogitou o significado de tal saudação.
O anjo então lhe disse que teria um filho para se sentar no trono de Davi.

"Então, disse Maria ao anjo: Como será isto, pois não tenho relação com homem algum?
Respondeu-lhe o anjo: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá
com a sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de
Deus" (Lucas 1:34-35).

Quando Maria respondeu ao anjo que acontecesse de acordo com a palavra do


Senhor, o filho foi concebido em seu útero pelo Espírito Santo; ela havia recebido a palavra
do Pai. Mas Maria não recebeu apenas a voz do Senhor para si própria, mas o poder de
Deus viajou por sua voz quando saudou sua prima Isabel.

"Naqueles dias, dispondo-se Maria, foi apressadamente à região montanhosa, a uma cidade
de Judá, entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel. Ouvindo esta a saudação de Maria, a
criança lhe estremeceu no ventre,' então, Isabel ficou possuída do Espírito Santo. E exclamou
em alta voz: Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto do teu ventre! E de onde me
provém que me venha visitar a mãe do meu Senhor? Pois, logo que me chegou aos ouvidos a
voz da tua saudação, a criança estremeceu de alegria dentro de mim. Bem-aventurada a que
creu, porque serão cumpridas as palavras que lhe foram ditas da parte do Senhor" (Lucas
1:39-45).
Maria saudou Isabel da mesma maneira como o anjo a saudara. O poder de tal
saudação foi a palavra que procedeu de Deus e fluiu sobre Maria. Desde o anjo, a palavra
foi à Maria, até seu útero e então à Isabel e ao útero desta. Tal palavra fez o menino no
ventre de Isabel estremecer. Foi a palavra na saudação de Maria que desencadeou todo o
fluxo de poder divino e atingiu João Batista ainda dentro da carne de sua mãe.

Isabel disse: "Bem-aventurada a que creu, porque serão cumpridas as palavras que
lhe foram ditas da parte do Senhor" (Lucas 1:45). Ela havia compreendido que sua
esterilidade acabara e uma vida agora estremecia dentro de seu ventre, unicamente por
Maria ter recebido a palavra procedente de Deus.

Caso Maria não tivesse recebido a voz do Pai, não haveria Jesus no mundo. Se não
houvesse o Messias, não seria necessário nascer alguém que o precedesse. A ligação
espiritual entre João Batista e Jesus jamais aconteceria se Maria não recebesse a visita do
anjo e a palavra procedente do Pai. De mesmo modo, na enunciação das palavras de
saudação de Maria, o poder do Espírito Santo fluiu conjuntamente: de Deus ao anjo, à
Maria, à Isabel. O bebê estremeceu, e Isabel testemunhou a veracidade da promessa de
Deus na terra.

Isabel e Zacarias não podiam ter filhos, e além disto ela havia passado da idade fértil,
mas, devido ao fato de Maria ter, de boa vontade, recebido Jesus em seu ventre, Deus
sorriu a Isabel: "Em verdade vos digo: entre os nascidos de mulher, ninguém apareceu
maior do que João Batista" (Mateus 11:11).

Talvez Isabel se mantivesse perpetuamente nas sombras de um útero vazio se Maria


não recebesse as palavras que procederam de Deus. Maria acreditava, por isto Isabel foi
abençoada e as palavras de Deus agiram nela.

Há muitos filhos ansiosos por ser concebidos no ministério atual. Seu desejo pela
realidade do Reino abriu o útero das possibilidades espirituais. Estes filhos estão prontos
para ser formados em vasos ungidos para conclamar o Cristo. Porém, a vida de Deus e a
unção do Espírito não descenderam nesses filhos em sua totalidade porque alguém sobre
eles no Senhor ainda não respondeu à voz de Deus.

Se os pais não responderem à voz de Deus Pai, a condição dos filhos não se
manifestará na terra. Sem a voz dos pais terrenos, o ministério jaz inerte no ventre a
possibilidade. Um filho pode ser perfeito na forma e reter conhecimento total de seu
propósito, mesmo assim, viver na completa paralisia por causa da falta da voz de um pai
para trazer-lhe a vida e a unção.

O clamor dentro dos corações dos filhos é para a ligação com seus pais. A voz dos
pais é a voz do Espírito e seu testemunho que faz o dom de Deus nos filhos estremecer,
tornando-os vivos. A voz o Pai é a palavra procedente que liga o poder ao propósito e a
unção a habilidade na vida de um filho no ministério. Quando recebem a voz do pai os
filhos espirituais constituem a ligação divina para a sucessão das gerações em Deus.

"Lembrem-se de como o SENHOR,


o seu Deus, os conduziu por
todo o caminho no deserto,
durante estes quarenta anos, para humilhá-los
e pô-los à prova, a fim de conhecer suas intenções,
se iriam obedecer aos seus mandamentos ou não."

o AMADURECIMENTO DO PAI

Rumo a um deserto hostil, o piloto de caça mantém a posição na fronteira do território


inimigo e espera as ordens para prosseguir. Foi enviado a uma missão à qual poucos
sobreviveriam. Apesar de todo o treinamento exaustivo e de sua capacidade reconhecida,
as chances contra ele seriam enormes sem a orientação de um plano perfeito, executado
na hora exata. Em uma missão como esta, os segundos parecem horas. Ele não conseguia
ouvir nada. O rádio estava mudo e o silêncio se fez tão negro como a noite à sua volta. Foi
quando o medo começou a tomar conta e a tentação invadiu sem se deixar perceber.

"O que faz aqui? Por que esperar ordens que podem mandá-lo para a morte? Por
qual motivo? Certamente não é pelo dinheiro, pois uma companhia aérea regular pagar-
lhe-ia muito mais, além de oferecer mais segurança. Não pode ser nem por fama e nem por
reconhecimento, pois a batalha é segredo de Estado. Se falhar ou vencer, toma-se mártir
ou herói, mas ninguém jamais saberá. Então, qual a razão de estar aqui ainda? Por que
não se salvar?"

Tais perguntas provocaram uma enorme rebelião de emoções naquela cabine.


Cercado por equipamentos tão poderosos, nunca se sentiu tão fraco. Com apenas um
movimento nos comandos, abandonaria a posição e viajaria a qualquer parte do mundo.
Mesmo assim, o jovem piloto manteve a posição; naquele panorama celestial esperou
pelas ordens.

Eis que a voz de seu comandante confirmou a operação e o enviou à guerra. De


posse das coordenadas do local de destino, revelou-se à sua frente o caminho da missão:
destruir a base de seus inimigos e libertar os prisioneiros.

No entanto, essa foi uma missão que não poderia ser executada por uma pessoa
sozinha, mas apenas na condição de integrante da força aérea pôde realizar o plano
completo, muito maior do que o piloto e seu jato.
O evangelho de Marcos registra a seguinte passagem: "Então, foi ouvida uma voz dos
céus: Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo. E logo o Espírito o impeliu para o
deserto" (Marcos 1:11-12).

Em sua maior parte, Israel é uma terra fértil, abundante em agricultura. Possui clima
temperado e belíssimas montanhas. Pelo interior de suas terras coleia o Jordão, onde o
ministério de João e o de Jesus se encontraram no batismo. A água estava ainda fresca no
rosto de Jesus quando descendeu o Espírito Santo. Na aparência, Jesus era como a mãe,
mas quando a voz de Deus falou dos céus, ele era, indiscutivelmente, o Filho de Deus.

Depois de ter iniciado o ministério eterno, Deus enviou seu filho ao deserto, onde a
única coisa mais forte que o calor é a tentação. Porém, não há tentação superior à
grandeza de Deus. Por isto seguimos sem medo no "processo do deserto".

É o processo do deserto que destaca nosso desejo por crescimento e intensifica


nosso desejo de completude. É o sopro do vento na solidão que nos faz ávidos pela
presença de Deus. E também onde satanás nos tenta com miragens. Ele tenta nos fazer
desviar do curso, rumo à "estrada das boas intenções", que é um caminho seco, poeirento
e sem saída, conduzindo-nos para fora do processo e para longe da maturidade em Deus.

O primeiro lugar aonde o Espírito conduziu Jesus em seu ministério foi o deserto.
Deus enviou seu filho ao processo do deserto para testá-la; já o maligno, este o encontrou
para enganá-lo. O Pai envia seus filhos a provas para testá-las e demonstrar-lhes como
têm excelências, o inimigo vê o teste como oportunidade de provocar o fracasso dos filhos.

O essencial da experiência no deserto é testar nosso relacionamento com Deus. E


nesse lugar para onde devemos andar, mas nunca seremos poderosos o suficiente para
completar os propósitos do Reino, ou resistir ao ataque satânico sem a submissão total a
Deus. Este tipo de submissão é o primeiro passo dado por um filho no processo de
amadurecimento para engendrar um coração paterno.

Se satanás conseguir interromper o processo de amadurecimento dentro de um filho


no ministério, então prescindirá de lidar com um pai no ministério dentro de alguns anos. A
tática do inimigo é abortar a criança antes de ela alcançar a maturidade. Por exemplo,
Faraó matou todos os meninos para evitar ter de lidar com Moisés. De forma semelhante,
Herodes matou todos os meninos em Belém para não ter de se haver com o novo Rei. O
inimigo ainda busca matar os filhos em seu processo de desenvolvimento antes de
alcançarem seu potencial máximo.

A tentação vivida por Jesus no deserto foi direcionada para a forma como ele
exerceria o poder de seu ofício. A maior estocada do ataque atingiu a maneira como Jesus
usaria a unção recebida de seu Pai. Assim como o piloto na história do início do capítulo, a
tentação tende a nos fazer usar determinados poderes sem a autoridade correta. Depois de
seu relacionamento filial estar estabelecido e ter recebido a unção, será que Jesus usaria a
condição de Filho para além da vontade do Pai?

Quando Jesus esteve no deserto, satanás se aproximou dele: "Então, o tentador,


aproximando-se, lhe disse: Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem
em pães. Jesus, porém, respondeu: Está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas de
toda palavra que procede da boca de Deus" (Mateus 4:3-4). Jesus foi tentado a usar seu
poder para saciar a fome da carne sem a permissão da palavra do Pai. Jesus foi testado
em seguida para se jogar do pináculo do templo:

"Então, o diabo o levou à Cidade Santa, colocou-o sobre o pináculo do templo e lhe disse: Se
és Filho de Deus, atira-te abaixo, porque está escrito: Aos seus anjos ordenará a teu respeito
que te guardem; e: Eles te susterão nas suas mãos, para não tropeçares nalguma pedra'
(Mateus 4:5-6).

Esta não foi uma tentação para levá-lo a cometer suicídio. Tanto Jesus quanto
satanás sabiam que os anjos obedecem a todas as ordens do Senhor (ver Mateus 26:53).
A questão aqui era se Jesus usaria unção para arrebanhar grande número de seguidores e
adquirir plena aceitação social e da comunidade religiosa mais proeminente. Contudo, tal
ato implicaria em anular a operação realizada no Reino e a transferir para o mundo natural,
onde homens aceitam homens. Mas assim, Jesus teria ganhado as pessoas para si, não
para o Pai.

A terceira tentação dizia respeito à capacidade de governar o mundo e ter saciados


quaisquer desejos para o resto da vida. Se assim acontecesse, o processo da crucificação
teria sido colocado de lado por um ato pequeno e insignificante de insubordinação à
autoridade do Pai. "Levou-o ainda o diabo a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os
reinos do mundo e a glória deles e lhe disse: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares"
(Mateus 4:8-9).

Jesus sempre ouviu a voz do Pai. Dinheiro, aceitação social por parte da comunidade
religiosa, poder e riqueza foram oferecidos a Jesus em troca do relacionamento pai—filho.
No deserto, Jesus usou a voz do Pai para rebater a oposição satânica. Quando o inimigo
tentava enganar e confundir, Jesus simplesmente citava a palavra procedente de seu Pai:
"Está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de
Deus (...) Também está escrito: Não tentarás o Senhor, teu Deus (...) Retira-te, Satanás,
porque está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto" (Mateus
4:4,7,10).

Estas são palavras do deserto. Todas as citações utilizadas são de Deuteronômio.


Jesus, no deserto, citou a Palavra de seu Pai que estava escrita, testada e aprovada no
deserto de Moisés. Jesus levou consigo a voz do Pai ao deserto.
Esta é sempre a tática de defesa usada pelos filhos de um pai na guerra do deserto.
Este foi um conselho dado por Paulo a seu filho Timóteo no ministério: "a Timóteo,
verdadeiro filho na fé (...) Este é o dever de que te encarrego, ó filho Timóteo, segundo as
profecias de que antecipadamente foste objeto: combate, firmado nelas, o bom combate" (1
Timóteo 1:2,18). É a recordação das palavras de nosso pai durante a batalha que nos dão
a força e a autoridade para voltarmos vitoriosos.

Há certas coisas impossíveis de se aprender no processo de educação formal e


inalcançáveis pelas bênçãos das gerações. Pode-se ir a qualquer escola, ou orar o restante
da vida, mas não há como aprender a experiência proporcionada pelo deserto. O espírito
recebe uma bênção com a voz do Pai, entretanto, o coração deve estar em posição de
obediência para o poder de Deus ser derramado consoantemente com o propósito do
Reino.

Jesus foi colocado na posição correta pelo deserto: "embora sendo Filho, aprendeu a
obediência pelas coisas que sofreu e, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da
salvação eterna para todos os que lhe obedecem" (Hebreus 5:8-9). Mesmo antes de Jesus
congregar os discípulos ou operar milagres, teve de ir ao deserto; antes de conduzir as
pessoas ao Reino, teve de suportar a região desolada. A experiência no deserto serviu
para, ele realizar o potencial do ministério. Conquanto fosse Filho, teve de passar processo
de desenvolvimento espiritual.

Jesus permaneceu quarenta dias no deserto. Quarenta é um número recorrente na


Bíblia, e é a quantidade necessária de dias para a plenitude da qualificação ao ministério.
O mundo não foi completamente inundado até se passarem quarenta dias de chuva. O
embalsamamento de Jacó e o insulto de Golias duraram quarenta dias (ver Gênesis 50:3; 1
Samuel 17:16). Tanto Moisés quanto Elias jejuaram por quarenta dias. Israel, na busca
pela conquista vitoriosa, enviou doze espias a Canaã por quarenta dias. Israel não cumpriu
seu período no deserto até quarenta anos se passarem; um ano para cada dia que
buscaram na terra. Jesus também teve de passar quarenta dias no deserto para cumprir o
padrão espiritual com sua obediência - o que muitos não conseguiram fazer por se
recusarem a ouvir a voz do Pai.

Este processo não se revela uma simples passagem de tempo, por outro lado, é um
período de crescimento em todas as características de um filho. O deserto de José no Egito
o preparou para governar com sabedoria: "Adiante deles enviou um homem, José, vendido
como escravo; cujos pés apertaram com grilhões e a quem puseram em ferros, até
cumprir-se a profecia a respeito dele, e tê-la provado a palavra do SENHOR" (Salmo
105:17-19). A palavra procedente do Senhor estabeleceu a determinação para o coração
de José obedecer ao Senhor com mais força do que o ferro a lhe prender: A palavra será
sempre posta à prova: sempre estará para nos testar a sermos tudo o que o Pai disse que
somos.
José passou dezessete anos como escravo ou aprisionado antes da concretização
das visões de sua juventude. Jacó ficou vinte anos prestando serviços a Labão antes de
voltar à terra a qual comprara o direito à primogenitura. Davi matara um leão e um urso
antes mesmo de enfrentar Golias, depois serviu como escudeiro antes de se tornar filho de
Saul - Davi carregou armas antes de usar a coroa.

Este período de crescimento do filho é necessário para se desenvolver e estar apto a


receber a herança: "Digo, pois, que, durante o tempo em que o herdeiro é menor, em nada
difere de escravo, posto que é ele senhor de tudo. Mas está sob tutores e curadores até ao
tempo predeterminado pelo pai." (Gálatas 4:1-2). A ordem de pai e filho inclui um período
no qual o filho ministra como servo, pois é a única forma de ele desenvolver o co.ração
servente de um pai.

O papel proeminente do serviço no processo da condição de filho é visto com mais


clareza no relacionamento entre Elias e Eliseu. Imediatamente ao receber o toque do
manto de Elias, Eliseu celebrou sua partida: "Voltou Eliseu de seguir a Elias, tomou a junta
de bois, e os imolou, e, com os aparelhos dos bois, cozeu as carnes, e as deu ao povo, e
comeram. Então, se dispôs, e seguiu a Elias, e o servia" (1 Reis 19:21).

O relacionamento ministerial é testado com freqüência. Eliseu se deparou com este


fato quando serviu Elias, sendo posto à prova por três vezes com a tentação de parar de
seguir o pai no ministério: Perguntou, porém, Josafá: Não há, aqui, algum profeta do
SENHOR, para que consultemos o SENHOR por ele? Respondeu um dos servos do rei de
Israel: Aqui está Eliseu, filho de Safate, que deitava água sobre as mãos de Elias. Disse
Josafá: Está com ele a palavra do SENHOR" (2 Reis 3:11-12).

Eliseu recebeu a maior unção de sua vida, maior do que a de qualquer outro homem;
fez milagres poderosos, ressuscitou mortos e se aproximou mais do ministério de Jesus do
que qualquer outro homem de Deus no Velho Testamento. Apesar disso, Eliseu não é
reconhecido como grande profeta ou excelente pregador, mas como servo exemplar "o
maior dentre vós, será vosso servo" (Mateus 23:11).

A memória de Eliseu está sempre associada a grandes milagres mas, de forma mais
destacada, com o serviço leal prestado por um filho a um pai.

Antes de Jesus ouvir a voz do Pai e ser lançado ao deserto para dar início a seu
ministério, pregou, aos doze anos, no templo. Rabinos em túnicas e barbas longas e
filactérios no pescoço quedaram boquiabertos com a sabedoria daquele menino. Durante
três dias e três noites ele ensinou aos saduceus e aos fariseus até entrarem em total
estado de choque.

Ele próprio cuidava de suas necessidades físicas enquanto lá ficou: comida, abrigo,
roupas, dinheiro, entre outros; era capaz de viver por conta própria. Este é o maior dom de
ensinamento que existiu! Jesus tinha completa consciência de quem seu Pai era e,
propósito de sua vida. "Por que me procuráveis? Não sabíeis que me cumpria estar na
casa de meu Pai?"

O menino Jesus já era perfeitamente capaz de ministrar. Ainda assim voltou para
Maria e José, "e desceu com eles para Nazaré; e era-lhes submisso. Sua mãe, porém,
guardava todas estas coisas no coração. E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça,
diante de Deus e dos homens" (Lucas 2:51-52). Passariam mais dezoito anos antes de o
rio de palavras fluir de seus lábios no templo mais uma vez. Foram estes dezoito anos de
silêncio ministerial que prepararam Jesus. A submissão a Maria e José foi necessária para
Jesus ouvir a voz de seu Pai. Sem este processo, não teria si o promovido à condição de
filho.

Alguns experimentam apenas o processo de crescimento, ao passo que outros


vivenciam o processo de servir. Ainda outros simplesmente esperam até a hora chegar.
Uma parte das pessoas passa, de fato, por um processo do deserto. A questão não é,
todavia a carência pelo sofrimento, pois todos sofrem aqui ou acolá. O período de tempo de
sofrimento entre "a cruz e o trono" serve para a maturidade se instalar no coração do filho.

Moisés viveu quarenta anos no deserto antes de se tomar o libertador de seu povo,
pois o Egito pôde lhe mostrar como liderar homens, mas somente o deserto o ensinou a ser
homem de Deus. O local da preparação de João Batista não foi o chão de mármore do
templo de Herodes, tampouco seu reflexo foi visto no bronze polido dos altares. Para se
encontrar com João, era necessário ir a outro lugar diverso do pináculo de sucesso
religioso. "O menino crescia e se fortalecia em espírito. E viveu nos desertos até ao dia em
que havia de manifestar-se a Israel" (Lucas 1:80); "sendo sumos sacerdotes Anás e Caifás,
veio a palavra de Deus a João, filho de Zacarias, no deserto" (Lucas 3:2).

Quando Deus decidiu romper o silêncio de quatrocentos anos com voz profética, não
o fez por meio dos canais religiosos normais e aceitos. Um sumo sacerdote corrupto, que
negociava itens sagrados em benefício próprio, não poderia ser quem falaria por Deus.
Quando Deus anunciou a vinda do Messias, não escolheu as belas vozes dos corais.
Escolheu a "voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor" (Lucas 3:4).
João Batista veio do deserto. Foi tanto tempo conduzido pela voz do Senhor que, ao ser
questionado sobre sua identidade, descreveu a si mesmo apenas como a voz de Deus.
"Disseram-lhe, pois: Declara-nos quem és, para que demos resposta àqueles que nos
enviaram; que dizes a respeito de ti mesmo? Então, ele respondeu: Eu sou a voz do que
clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor, como disse o profeta Isaías" (João 1:22-
23).

O ministério de João Batista foi "para converter o coração dos pais aos filhos,
converter os desobedientes à prudência dos justos e habilitar para o Senhor um povo
preparado" (Lucas 1:17). O processo de amadurecimento é imprescindível para os filhos no
evangelho, por que é a única forma de se tomarem pais. O Senhor não vê o deserto da
mesma forma como nós o vemos. Jeremias nos disse que o Senhor compara o deserto à
lua-de-mel com sua Noiva:

''A mim me veio a palavra do SENHOR, dizendo: vai e clama aos ouvidos de Jerusalém:
Assim diz o SENHOR: Lembro-me de ti, da tua afeição quando eras jovem, e do teu amor
quando noiva, e de como me seguias no deserto, numa terra em que se não semeia" (ar 2:1-
2).

Deus entende o período que passamos no deserto como um começo. Foi no deserto
que o povo de Israel recebeu o "pão de cada dia", do qual seus pais não provaram.
Nenhuma outra geração viu uma coluna de nuvens durante o dia e outra de fogo durante a
noite. A água corria das pedras quando tinham sede. Suas roupas e calçados não foram
puídos. No deserto o povo de Deus estabeleceu um sacerdócio, um tabernáculo e ouviram
a voz de Deus. Foi no deserto onde Moisés cobriu o rosto porque a glória de Deus era tão
forte que por vezes o seu rosto fulgurava na presença do Senhor. O deserto foi um local de
abastecimento divino e de aparições poderosas. Porém, foi o local onde uma geração
inteira foi levada à morte - a lua-de-mel acabou quando desobedeceram a voz de Deus.

A tentação para não se acolher a voz do Pai é o núcleo do relacionamento de


provação no deserto. Jesus foi atacado pelo inimigo exatamente após a palavra do Pai:
"este é o meu Filho amado, em quem me comprazo" (Mateus 3:17). A primeira coisa que o
inimigo disse ao se aproximar foi: "se és Filho de Deus...". O ataque de satanás segue de
perto a revelação porque ele se toma nervoso sobremaneira quando se manifesta a voz do
Pai na terra, afinal, conhece o poder da voz do Pai. A igreja do Novo Testamento deve
pelejar com determinados espíritos malignos que alvejam em específico a maturidade dos
filhos no ministério. "Ai deles! Porque prosseguiram pelo caminho (, de Caim, e, movidos
de ganância, se precipitaram no erro de Balaão, e pereceram na revolta de Coré" (Judas
11).

Observemos com atenção como estes fracassos na promessa foram agrupados:


Caim, Balaão e Coré. Estes são nomes de homens no Velho Testamento que fracassaram
no processo de amadurecimento adequado de suas vidas. São menciona os mais uma vez
no Novo Testamento por serem mais do que simples homens. Cada um dos três
representa na Igreja um espírito importante que tenta lançar o coração do filho longe de
seu pai. Estes espíritos levam os mesmos nomes dos homens da Bíblia que tinham dons,
mas usaram suas habilidades por motivos egoístas em lugar do propósito divino. Além
disto, procuram eliminar a maturidade dos filhos no evangelho, pois assim jamais serão
pais de outrem; fazem a missão do filho abortar antes de seu lançamento no ministério. Os
espíritos de Caim, Balaão e Coré tem por alvo os filhos no ministério para destruir seu
potencial no Reino. Todo filho verdadeiro no ministério deve resistir a cada um destes três
ataques no caminho rumo à paternidade no ministério. Caim tentará matar seu irmão:
"Porque a mensagem que ouvistes desde o princípio é esta: que nos amemos uns aos
outros; não segundo Caim, que era do Maligno e assassinou a seu irmão; e por que o
assassinou? Porque as suas obras eram más, e as de seu irmão, justas" (1 João 3:11-12).
Caim pensa que deve ser o primeiro e nada é mais importante para ele do que a própria
prevalência. O espírito de Caim em uma pessoa a faz queimar de ódio e a leva a
assassinar a personalidade de quem seja mais aceito do que ela. O espírito de Caim em
um membro da família de Deus não o faz deixar que outra pessoa tenha mais do Espírito
do que ele tem.

Este processo caracteriza a falsa maturidade. Sempre quando este espírito está em
uma pessoa, fará com que ela odeie outra mais justa ou mais abençoada. O espírito de
Caim não permite mudanças baseadas em exemplos edificantes. Ao contrário, faz de tudo
ao seu alcance para acabar com quem seja maior até não existir outro superior a ele,
brigando sempre pela primazia. Em resumo, o que faz é se comparar aos demais e eliminar
os competidores, afinal, Caim não aceitou um irmão de maiores dons e maior capacidade.
Ele mata o irmão e destrói o próprio potencial em um mesmo ato.

Balaão realizou algumas das profecias mais poderosas na Bíblia, mas também
vendeu seu chamamento e usou os dons para aumentar a fortuna pessoal e converter os
corações de Israel ao pecado. Balaão foi desviado do caminho da maturidade por causa
potencial em seus dons. Ele poderia ter se juntado aos israelitas em sua jornada. Apesar
de ter visto as belezas de Israel, julgou que conseguiria obter mais riqueza se buscasse em
outra fonte estranha ao Senhor. O mundo então usou seus dons em benefício próprio.
Balaão procurou abraçar dois mundos e perdeu a ambos.

“Assim como, no meio do povo, surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós
falsos mestres, os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras, até ao ponto
de renegarem o Soberano Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina
destruição (...) abandonando o reto caminho, se extraviaram, seguindo pelo caminho de
Balaão, filho de Beor, que amou o prêmio da injustiça recebeu, porém, castigo da sua
transgressão, a saber, um mudo animal de carga, falando com voz humana, refreou a
insensatez do profeta" (2 Pedro 2:1,15-16).

Este espírito também esteve na igreja em Pérgamos: "Tenho, todavia, contra ti


algumas coisas, pois que tens aí os que sustentam a doutrina de Balaão, o qual ensinava a
Balaque a armar ciladas diante dos filhos de Israel para comerem coisas sacrificadas aos
ídolos e praticarem a prostituição" (Apocalipse 2:14). Pérgamos representa um dos sete
tipos de igrejas atualmente. O espírito de Balaão está vivo e pode ser visível quando vende
revelações para lucrar e seduzir os corações das pessoas para longe do Pai. Porém, "é
porque o Senhor sabe livrar da provação os piedosos e reservar, sob castigo, os injustos
para o Dia de Juízo" (2 Pedro 2:9).

Coré irá perecer por causa da revolta. A palavra para 'revolta' utilizada no texto grego
é antilogia, composta pelo prefixo 'anti-', que significa 'contrário', como em ' anticristo' e
'logos' que quer dizer 'palavra' e é utilizado na Escritura para se referir a Jesus, como em "e
o Verbo (logos) se fez carne" (João 1:14). Assim, a revolta (antilogia) significa "palavras
contra a palavra revelada", isto é, a utilização de palavras de revolta contra Jesus.
Quem perece à maneira de Coré utiliza palavras malignas contra a palavra da
revelação. Estas pessoas são descritas no Livro de Judas: "Ora, estes, da mesma sorte,
quais sonhadores alucinados, não só contaminam a carne, como também rejeitam governo
e difamam autoridades superiores (...) Os tais são murmuradores,são descontentes,
andando segundo as suas paixões. A sua boca vive propalando grandes arrogâncias; são
aduladores dos outros, por motivos interesseiros" (Judas 8,16). Os filhos de Coré serão
engolidos pela revolta por terem procurado usar seus dons para elevar a própria condição.

"Coré, filho de Isar, filho de Coate, filho de Levi, tomou consigo a Datã e a Abirão, filhos de
Eliabe, e a Om, filho de Pelete, filhos de Rúben. Levantaram-se perante Moisés com duzentos
e cinqüenta homens dos filhos de Israel, príncipes da congregação, eleitos por ela, varões de
renome, e se ajuntaram contra Moisés e contra Arão e lhes disseram: Basta! Pois que toda a
congregação é santa, cada um deles é santo, e o SENHOR está no meio deles; por que, pois,
vos exaltais sobre a congregação do SENHOR? Tendo ouvido isto, Moisés caiu sobre o seu
rosto" (Números 16:1-4).

Uma revolta foi deflagrada na congregação de Israel e contra Moisés e Arão por meio
dos filhos de Coré, que não achavam adequados o sacerdote decano, Moisés, e seu irmão,
o sacerdote Arão, manterem a posição de liderança sobre homens tão importantes como
eles. Por isto queriam voltar para o Egito - acreditavam ser preferível servir a um sistema
maligno do que a uma pessoa considerada em mesmo grau de autoridade, pois tomavam
Moisés como irmão, e não como pai. Baseavam este julgamento no fato de serem tão
agraciados por dons quanto o eram Moisés e Arão e consideravam os dons uma fonte de
liderança: confundiam um dom de poder com o manto da autoridade.

Deus oferece dons poderosos a seu Corpo, mas estes “dons de poder" não devem
ser usados pelo servo do Senhor como forma de estabelecer autoridade. Os dons são
concedidos para a edificação, exortação e para conforto, isto é, para construir o corpo,
jamais são medida para a liderança. As pessoas são colocadas em posição de liderança,
como pais no ministério, porque recebem o coração e a capacidade para desempenhar
tal função do Senhor. O coração do pai é a medida para a liderança, independentemente
da presença de dons poderosos.

Muitos pastores e líderes podem possuir dons menores em determinada área do que
as pessoas às quais lideram. A capacidade ou os dons para ensinar, profetizar ou
manifestar poder não fazem de alguém um líder do povo de Deus, razão pela qual Paulo
escreveu o versículo usado como tema deste livro: "Não vos escrevo estas coisas para vos
envergonhar; pelo contrário, para vos admoestar como a filhos meus amados. Porque,
ainda que tivésseis milhares de preceptores em Cristo, não teríeis, contudo, muitos pais:
pois eu, pelo evangelho, vos gerei em Cristo Jesus" (1 Coríntios 4:14-15). Seu alerta
apontava para não substituirmos os dons pelos pais no ministério.

Esta é a maior provação para os filhos em potencial no ministério e também a


armadilha na qual muitas igrejas são aprisionadas, especialmente quando o principal
ministério nelas estabelecido incentiva o desenvolvimento das pessoas para se tornarem
tudo o que for possível ser em Deus. É bom ressaltar que pastor com o coração paterno
procura levar os filhos ao maior crescimento possível, recusando-se a sufocá-los, porém,
faz tudo isto protegendo-os sob seu ministério. Ele os coloca dentro de certos limites para
que seus rebentos possam crescer protegidos à sombra da árvore paterna. O crescimento
dos filhos é a alegria do pai no ministério, mas também pode se tomar a fonte de grandes
ferimentos e uma nascente de lágrimas a cortar o rosto paterno, trazendo a noite para junto
de sua alma.

Estes limites, se não estiverem no amor pelos seus filhos espirituais, podem se tomar
o combustível da revolta. Então, a situação que um pai encontra é que seu coração para o
Reino cria o monstro que arrebatará metade da congregação e a usará para fundar uma
igreja em cada esquina. Da mesma forma como no caso de Coré com Moisés, a razão
geralmente apresentada pelo filho revoltado é o dom em seu coração ser "demasiado
grande" para as limitações impostas por um pai que os fez crescer protegidos de tudo. Este
tipo de filho não pode se submeter à liderança paterna e permanece na imaturidade.

A receita do filho revoltado é fazer pedras se tornarem pão e dá-lo como alimento ao
egoísmo. O motivo mais comum para abandonarem a igreja é: "Deus me conduz a outro
lugar", mas, na verdade querem dizer: "Não era isto que eu queria, portanto, não pode ser
de Deus". Esta gente foi subjugada pelo ódio de Caim, encontrou Balaão bloqueando-lhes
o caminho, e foi engolida pela revolta de Coré.

Mas, poderiam ter tido ministérios maravilhosos! Poderiam ter se coberto com mantos
magníficos! Tantas bênçãos com eles se perderam! Perfazem uma lista de delinqüentes
ecoando pelas eras, desde o Velho Testamento, passando pelo Novo Testamento, até
mais além. A semente de Canaã não traz honra a seu pai. Os clamores de Esaú não
ouvidos por Isaque; a primogenitura vendida, a bênção acabada. Depois de roubar ouro e
vestes, Geazi trocou o legado pela lepra. Judas vendeu o apostolado e encomendou a
própria morte. Demas amou este mundo e perdeu a alma. Rúben era primogênito e perdeu
a dobrada porção porque dormiu com a serva e seu pai Jacó. As últimas palavras ditas a
ele por Jacó em seu leito de morte foram: Rúben, tu és meu primogênito, minha força e as
primícias o meu vigor, o mais excelente em altivez e o mais excelente em poder. Impetuoso
como a água, não serás o mais excelente, por que subiste ao leito de teu pai e o
profanaste; subiste à minha cama" (Gênesis 49:3-4). Assim, ambos os filhos de José
seriam líderes de alguma tribo e Judá traria à vida o Cristo, mas a tribo de Rúben
desapareceria.

Absalão tomou o trono do pai: "quando alguém se chegava para inclinar-se diante
dele, ele estendia a mão, pegava-o e o beijava. Desta maneira fazia Absalão a todo o Israel
que vinha ao rei para juízo e, assim, ele furtava o coração dos homens de Israel" (2 Samuel
15:5-6) e assim morreu aprisionado pelo orgulho e pela revolta. Este é o fim de quem
seduz as pessoas para longe do pai no ministério.
Em Deuteronômio 8, nos é dito que Deus enviou os israelitas ao deserto e permitiu
que passassem fome para poder alimentá-los. Desta forma, a razão de muitos ministérios
atualmente vivenciarem o deserto e a infertilidade não é Deus desejar que passem fome,
mas pelo fato de o Senhor desejar provê-los com o pão do Céu. Este não é um pão
encontrado na fartura: "Ele te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná,
que tu não conhecias, nem teus pais o conheciam, para te dar a entender que não só de
pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca do SENHOR viverá o homem"
(Deuteronômio 8:3).

Portanto, não devemos amaldiçoar nosso deserto, pois é onde os filhos se tornam
pais.

[As vestes santas de Arão passarão a seus filhos depois dele, para serem ungidos nelas e
consagrados nelas. Sete dias as vestirá o filho que for sacerdote em seu lugar quando entrar
na tenda da congregação para ministrar no santuário Êxodo 29:29-30]

AS VESTES DO PAI

Na fronteira do Egito, esperando por setenta pessoas aparecerem no horizonte, José


acariciava a túnica de linho decorada com muitas jóias e ao pescoço trazia um colar de
ouro. Então se lembrou de outras vestes de muito tempo atrás... Seu pai, Israel, dera-lhe
uma túnica talar de mangas compridas, para assim vestir o amor do pai por José e sentir-
lhe proteger a pele... José trocaria a túnica mais fina de todo o Egito por aquela, se
pudesse usá-la mais uma vez.

Seus irmãos também tocaram aquela túnica talar de mangas compridas, quando a
rasgaram no corpo de José que foi levado em seguida como escravo ao Egito; as vestes
caíram estraçalhadas ao chão. Os irmãos cobriram a mancha de seu pecado com sangue
de bode, vestindo-se com a vergonha.

José usou outras vestes, mas jamais perdeu o amor por seu pai ou a devoção a seu
Deus. Como escravo hebreu, tomou-se o mordomo da casa de Potifar e, mais uma vez
teve as vestes rasgadas. Novamente suas roupas haviam sido arrancadas de seu corpo e
usadas contra ele como uma capa de falsidade; sua honra lhe foi roubada para cobrir a
desonrada.

Vestindo o uniforme de prisioneiro, a bênção do Deus de Jacó mantinha-se imaculada


na vida de seu filho. Por meio dos sonhos do padeiro e do copeiro, os sonhos de José
provariam ser verdadeiros.
Portando as melhores vestes do Egito e com a autoridade de um Faraó, José olhava
novamente para o horizonte, ansioso por realizar seu último desejo. Em breve olharia
novamente o rosto de seu pai. José iria abraçar o homem que lhe dera tudo. Então... Vê
surgirem vultos ao longe no deserto. É uma caravana vinda de Canaã, e aquele que vem
na frente está mancando!

Jacó deu a seu filho um manto de autoridade e graça feito com o tecido do amor, do
esforço e do tempo. José o cerziu com honra e fidelidade. Foi assim costurado o
relacionamento entre pai e filho. Muitas pessoas buscam o poder da unção sem as vestes
de um pai. Assim, são incapazes de atuar com a verdadeira autoridade espiritual por não
estarem vestidos adequadamente. As vestes na Escritura são elementos que nos apontam
a herança espiritual de um pai a um filho. A ordem de pai e filho na linhagem de Arão
demonstra claramente a necessidade por vestes espirituais.

"Então, farás que Arão e seus filhos se cheguem à porta da tenda da congregação e os
lavarás com água; depois, tomarás as vestes, e vestirás Arão da túnica, da sobrepeliz, da
estola sacerdotal e do peitoral, e o cingirás com o cinto de obra esmerada da estola
sacerdotal; por-lhe-ás a mitra na cabeça e sobre a mitra, a coroa sagrada. Então, tomarás o
óleo da unção e lho derramarás sobre a cabeça; assim o ungirás. Farás, depois, que se
cheguem os filhos de Arão, e os vestirás de túnicas, e os cingirás com o cinto, Arão e seus
filhos, e lhes atarás as tiaras, para que tenham o sacerdócio por estatuto perpétuo, e
consagrarás Arão e seus filhos" (Êxodo 29:4-9).

É importante perceber que ao passo que Arão é ungido, seus filhos não o são. A eles,
não são entregues as vestes. Os filhos de Arão não foram ungidos na instauração do
ministério. Apenas sobre a cabeça de Arão derramou-se o óleo. A única unção que os
filhos receberam foi por intermédio daquela contida nas vestes de seu pai. A parte mais
importante desta passagem está na necessidade absoluta de se estabelecer a ligação
entre as gerações para haver a perpetuação do ministério.

"Disse o SENHOR a Moisés e a Arão no monte Hor, nos confins da terra de Edom: Arão será
recolhido a seu povo, porque não entrará na terra que dei aos filhos de Israel, pois fostes
rebeldes à minha palavra, nas águas de Meribá. Toma Arão e Eleazar, seu filho, e faze-os
subir ao monte Hor; depois, despe Arão das suas vestes e veste com elas a Eleazar, seu
filho; porque Arão será recolhido a seu povo e aí morrerá. Fez Moisés como o SENHOR lhe
ordenara; subiram ao monte Hor, perante os olhos de toda a congregação. Moisés, pois,
despiu a Arão de suas vestes e vestiu com elas a Eleazar, seu filho; morreu Arão ali sobre o
cimo do monte; e Moisés e Eleazar" (Números 20:23-28).

A unção foi transmitida através do óleo que restou nas vestes do pai, o sumo
sacerdote, recebidas pelo filho por ocasião da morte daquele e, desde então, o primogênito
dos filhos de Arão a receberia como herança. Esta é uma verdade fundamental.
Apesar de buscarmos - até mesmo com desespero – a unção, não estamos com as
vestes apropriadas para recebê-la e, conseqüentemente, não estamos preparados para
perpetuar a ligação entre as gerações e o legado.

O povo de Deus tem se ocupado tanto em uma busca irrisória pelas gerações que lhe
caberá apenas um legado irrisório, — pois a unção é derramada sobre aqueles que oram e
recebem. Além do mais, sem as vestes, a fragrância e a essência do óleo se dissipam com
facilidade e não há o que transmitir para a geração seguinte. Conseqüentemente, cada
nova geração no ministério deve recomeçar novo desenvolvimento do legado e ter
esperança de que este sucederá para alcançar a revelação. Este é o motivo pelo qual
carecemos de pais no ministério. Um pai deve vestir o filho no evangelho com seu amor,
encorajamento e apoio. Com isto, o dom do pai transcenderá seu próprio coração e, mais
importante, os filhos poderão também oficiar no ministério.

Caso os filhos estejam descobertos e sem unção, é porque não têm pais
verdadeiros. Os corações dos pais devem se converter. É nossa obrigação coser "vestes
de louvor" para nossos filhos e recusar a morte antes de transmitir nossa unção.

"Faze também vir para junto de ti Arão, teu irmão, e seus filhos com ele, dentre os filhos de
Israel, para me oficiarem como sacerdotes, a saber, Arão e seus filhos Nadabe, Abiú, Eleazar
e ltamar. Farás vestes sagradas para Arão, teu irmão, para glória e ornamento. Falarás
também a todos os homens hábeis a quem enchi do espírito de sabedoria, que façam vestes
para Arão para consagrá-lo, para que me ministre o ofício sacerdotal" (Êxodo 28:3).

Aqui vemos a instituição de um ministério de cinco partes: Arão e seus quatro filhos.
Entendemos que a base do ministério está em ser filho de Arão. A primeira coisa que Deus
exige de um sacerdote no ministério é a criação de vestes sagradas, mas qual será a razão
para isto? A única forma de “a unção lhes [ser] por sacerdócio perpetuo durante as suas
gerações” (Êxodo 40:15) é através da criação de uma veste para reter a unção do pai.

Sem a veste, a obra de uma geração de Deus não pode ser realizada e a unção se
torna uma exibição da carne, "este me será o óleo sagrado da unção nas vossas gerações.
Não se ungirá com ele o corpo do homem" (Êxodo 30:31-32). A unção não deve tocar a
carne do sacerdote, pois não há como ungir a carne do ministério. As vestes foram criadas
para abrigar o óleo derramado em Arão, pois assim seus filhos também poderiam recebê-
lo. Ao se passarem as vestes e pai para filho, o óleo entrava mais no tecido. A veste
recebia o óleo de cada sumo sacerdote com o passar das gerações, saturando-a uma vez
mais. A unção era aumentada e a fragrância enriquecida nas gerações.

Quanto a nós, poderíamos ter maior unção derramada em nossas vidas. Jesus disse
que faríamos "também as obras que eu faço e outras maiores fará" (João 14.12) mas, por
enquanto, vemos muito pouco daquilo em que a Igreja do primeiro século superabundava.

A nós, falta poder, pois também nos faltam vestes para reter a unção. Não temos
vestes porque não temos muitos pais; saímos da ordem de Deus e perdemos o padrão
para as vestes, eliminando, desta maneira, nossas gerações (ver Êxodo 30:33). Os
uniformes do sistema educacional e das denominações se desgastam. O lucro financeiro,
as pregações eloqüentes e a posição social são apenas vinhetas criadas pela mão humana
que rapidamente secam por não serem capazes de reter o óleo e passar à geração
seguinte o legado. O sacerdote deve usar as vestes de seu pai para haver a saturação
necessária às gerações, a fim de que recebam sua parte.

''As vestes santas de Arão passarão a seus filhos depois dele, para serem ungidos nelas e
consagrados nelas. Sete dias as vestirá o filho que for sacerdote em seu lugar, quando entrar
na tenda da congregação para ministrar no santuário" (Êxodo 29:29-30).

"Também da porta da tenda da congregação não saireis por sete dias, até ao dia em que se
cumprirem os dias da vossa consagração; porquanto por sete dias o SENHOR vos
consagrará" (Levítico 8:33).

Um filho recebe a unção de seu pai quando usa suas roupas, pois o óleo entra em
contato com seu corpo e o impregna. Com o número de dias certos sete - atinge-se o
estágio perfeito no processo necessário à consagração no serviço divino. Quando o jovem
sacerdote usa as roupas do sumo sacerdote, começa a sentir o peso do ofício de seu pai
no tabernáculo de Deus. Assim, torna-se íntimo da fragrância da obra de seu pai e da
unção sacerdotal; o filho experimentou o legado da bênção e a dor advinda com o
ministério; foi apresentado tanto ao calor quanto ao peso de seu chamado.

Ao se identificar com seu pai no ministério, um filho deve também se identificar com o
fardo de seu pai. Tanto as partes boas quanto as más da história paterna devem ser
colocadas sobre os ombros do filho. É a única forma de a identidade paterna repousar-lhe
no coração. Em algum ponto no processo, o filho do sumo sacerdote seguirá os mesmos
passos e usará as mesmas vestes de seu pai. Alguém irá fazer o seguinte comentário:

- Aquele é Arão, ou um de seus filhos? Não consigo distingui-las.

Os pais devem fornecer as vestes a seus filhos. Elas são criadas através do louvor
(ver Isaías 61.3) presente no serviço obediente do filho. Os pais criam as vestes quando
cobrem os filhos com honra e apoio. Permitem aos filhos seguir seus passos na liderança e
fazer as próprias escolhas enquanto for necessário para aperfeiçoar-lhes o ministério.

Os pais não apenas fornecem as vestes para os filhos, mas através da partilha do
relacionamento de aliança os filhos devem, em determinadas ocasiões, cobrir os pais. Noé
estava deitado bêbado e nu em sua tenda quando Caim o viu e foi contar aos irmãos. Sem
e Jafé, por outro lado, foram até o pai andando de costas para não verem sua nudez e o
cobriram com uma capa; "o amor cobre multidão de pecados" (1 Pedro 4:8), e as vestes
escondem nosso estado original. Noé, desnudo em sua tenda, recebeu as vestes dos filhos
para lhe cobrirem a vergonha. Sob as roupas estava a honra dada ao pai no ministério
pelos filhos (ver Gênesis 9:20-27).
As vestes das quais falamos foram mais do que pedaços de pano costurados com
linha e agulha. Foram a manifestação material das vidas de pais e filhos, cerzidas no
serviço ao Senhor. Na ordem de pai e filho está a partilha da vida e do ministério,
enormemente importante para a recuperação da bênção das gerações na Igreja. Os filhos
e os pais estão ligados pela mesma palavra procedente de Deus, o mesmo chamamento e
o mesmo propósito. Por meio das experiências divididas, foram cerzidos um ao outro e
estabeleceram um fluir mútuo de bênçãos trazendo a torrente de "espírito a espírito" e de
"osso ao seu osso". Assim, produz-se a crescente ligação da manifestação e do caráter do
Reino nas gerações.

Elias e Eliseu não eram pai e filho biológicos. Seu relacionamento tinha por base a
ligação espiritual entre pai e filho. A voz de Deus foi até o homem de Deus:

“Ouvindo-o Elias, envolveu o rosto no seu manto (...). Disse-lhe o SENHOR: (...) Eliseu, filho
de Safate, de Abel-Meolá, ungirás profeta em teu lugar. Partiu, pois, Elias dali e achou a
Eliseu, filho de Safate, que andava lavrando com doze juntas de bois adiante dele; ele estava
com a duodécima. Elias passou por ele e lançou o seu manto sobre ele" (1 Reis 19:13, 15-16,
19).

Eliseu não foi ungido com óleo. Assim como no caso dos filhos de Arão, as vestes de
seu pai no ministério foram colocadas sobre seus ombros. Foi o manto de um profeta que
tornou Eliseu também em profeta, sob seu pai – a ligação espiritual destinada a mudar para
sempre sua vida, pois deixou os pais biológicos e seus bois para seguir os passos do pai
espiritual. Elias, igualmente, se tornou mais do que um profeta ou um mestre, foi o pai de
Eliseu no ministério.

'Eliseu serviu a Elias com a fidelidade de um filho; e quando seu serviço filial estava
completo, "Elias disse a Eliseu: Pede-me o que queres que eu te faça, antes que seja
tomado de ti. Disse Eliseu: Peço-te que me toque por herança porção dobrada do teu
espírito" (2 Reis 2:9).

Eliseu recebeu a porção dobrada do espírito de seu pai quando este se foi,
arrebatado no carro de fogo. "O que vendo Eliseu, clamou: Meu pai, meu pai, carros de
Israel e seus cavaleiros! E nunca mais o viu; e, tomando as suas vestes, rasgou-as em
duas partes" (2 Reis 2:12). Ao rasgar as próprias roupas, Eliseu recebeu o legado de seu
pai. Então realizou as obras do pai e dividiu as águas do Jordão, ferindo-as com o manto
de porção dobrada (seu direito de primogênito) que herdara de Elias (ver 2 Reis 13-14).

Não é necessário orarmos pela unção. Já somos ungidos ver 1 João 2:20,27. Nossa
tarefa é reter a unção. Esta é a razão de as vestes não serem uma forma arbitrária da
herança no Espírito. Não podemos ministrar para um mundo agonizante em nossa carne.
Devemos ter a porção dobrada do ministério na Igreja. Temos de orar para os pais
coserem vestes para os filhos, pois esta é sua herança.
Quando nasceu Jesus, uma declaração angelical informou a maneira de se identificar
o Messias dentre o grupo de pastores: "E isto vos servirá de sinal: encontrareis uma
criança envolta em faixas e deitada em manjedoura" (Lucas 2:12). Desde as faixas da
infância às roupas luz entes da transfiguração e as peças de tecido inteiriças da maturidade
face à cruz, Jesus sempre pôde ser identificado por suas vestes.

Em Marcos (5:25-34) aprendemos que determinada mulher tinha um problema de


hemorragia há doze anos. Em função disto, esta filha de Sião foi de médico em médico,
gastando todo o dinheiro, mas sua doença sempre piorava. Ao falar com ela, Jesus a
chamou de filha.

Esta mulher representa um tipo freqüente na Igreja. Seus doze anos de deterioração
física reproduzem a falta do entendimento fundamental no Corpo de Cristo. Nós perdemos
a bênção das gerações de pai para filho e nossa vida se esvai de nós, nossa identidade e
os relacionamentos sofrem sem força. Vamos de conferência em conferência, buscado por
alguém que possa nos dar uma palavra ou um sinal, mas nada estanca nossa hemorragia,
impossibilitando-nos de nos relacionarmos no Reino e nos tomando completamente
incapazes de termos filhos no ministério.

Ainda assim, a mulher, apenas por ter tocado as vestes de Jesus, foi curada. A
menos que tenhamos vestes, a Igreja nunca reterá o poder do Espírito. O apóstolo Paulo
também transmitiu a unção em suas vestes. "E Deus, pelas mãos de Paulo, fazia milagres
extraordinários, a ponto de levarem aos enfermos lenços e aventais do seu uso pessoal,
diante dos quais as enfermidades fugiam das suas vítimas, e os espíritos malignos se
retiravam" (Atos 19:12). O pano que usava era um lenço. Este adereço, literalmente usado
para limpar o suor, foi instrumento de Paulo em sua obra.

Muitas pessoas no ministério, atualmente, agem como se a unção de Deus


começasse e terminasse nelas próprias. Mas a unção e o trabalho no serviço para Cristo
devem ser compartilhados, pois não são atributos ou sentimentos de uma pessoa, ou não
poderiam ser levados em uma peça de pano. A unção é do Espírito e flui de uma pessoa a
outra através das costuras do relacionamento.

Timóteo era tão próximo a Paulo, seu pai no ministério, que, na proporção que
trabalhavam juntos, embebia-se na unção. Então, quando Timóteo se viu sem o pai, era
enviado como um lenço na mão de Deus para curar os feridos e enxugar as lágrimas
daqueles que viviam mais longe.

Seria uma grande tragédia se pensássemos que a unção de Deus começa e termina
conosco. A perda se faria importante para a geração seguinte à nossa, formada por
profetas órfãos, vendo-nos arrebatados no fogo da glória e tendo de procurar por pais
perdidos em lugar de ministrarem com segurança para um mundo perdido.
Que sejamos nós pais para os filhos para tudo que recebemos em Cristo não morrer
com a nossa morte. Que transmitamos o legado - uma veste de relacionamento costurada
com todas as cores da graça!

[É como o óleo precioso sobre a cabeça, o qual desce para a barba, a barba de Arão, e desce
para a gola de suas vestes. É como o orvalho do Hermom, que desce sobre os montes de
Sião. Ali, ordena o SENHOR a sua bênção e a vida para sempre Salmo 133:2-3]

A UNÇÃO DO PAI

O ministro se sentara em silêncio em seu escritório, estava contemplativo diante da


tela do computador. Sua insegurança era evidente. Era como se aquela máquina fosse
uma besta de um só olho que emitia raios de luz e estivesse com o bote armado para
atacá-lo, transformando aquela pessoa plácida de Deus em uma outra, insana e fora da
razão.

Na semana anterior, havia escrito no computador toda a pregação de domingo,


usando um tamanho de letra grande o suficiente para que, uma vez colocada sobre o púlpi-
to, pudesse lê-Ia de qualquer lugar onde estivesse no palanque. Chegara já ao final do
trabalho doloroso, que incluiu re-aprender a digitar e lutar com o teclado, mesmo estando
perdido entre as teclas de maiúsculas e de pontuação. Era seu primeiro grande esforço no
computador desde quando o comprara. Sentia-se orgulhoso por, finalmente ter entrado na
era dos computadores e do chip.

Trazia naquele momento uma sensação de modernidade e sofisticação quando, de


repente, o monitor piscou... Piscou novamente... Então um barulho, como se fosse um
apito... Finalmente, nada mais além da tela vazia. "O que aconteceu? Onde estavam as
cópias de segurança? Ah, não! Não me lembrei de salvar? Ahhh!!!"

O ministro pensou que a inspiração extraída com dificuldade e o trabalho árduo não
seriam perdidos. Pensou que havia salvado o trabalho também em um disquete - mas não
o fizera. Estava perdido... Tudo perdido. Imaginou que o arquivo estava sendo salvo à
medida que digitava. Pensou que tudo era salvo até acontecer o problema. "Será isto o que
chamam de vírus? Ou de bug? Será que foi sobrecarga elétrica? Ou terá sido o diabo?
Seja lá o que for, o trabalho foi bem feito, pois tudo se perdeu para sempre."

As palavras de seus amigos corriam pela cabeça do ministro: "Como assim 'não tenho
computador?' Você deveria adquirir um. Será uma bênção em sua vida. Todo mundo tem
computador hoje em dia. Vai ser um grande auxílio, inclusive para seu ministério. Você
precisa de um computador". É verdade, seria de grande ajuda, mas, naquele momento não
pensava exatamente assim – a não ser na ajuda de um pedaço de pau, ou de uma arma,
ou de algum tipo de explosivo.

De qualquer forma, tudo isto aconteceu na semana anterior. O pastor, arrependido


mas com novo ânimo, voltou à mesa de seu escritório que havia sido ocupada por aquela...
aquela coisa. Os ícones se acendiam na tela. Soou o sinal de inicialização do computador.
A semente da frustração do pastor começou a ecoar das caixas de som ao lado do monitor.
Enquanto o computador era ligado, entre as luzinhas piscando e o barulho do ventuinha, o
ministro se lembrou da primeira vez quando vira um computador na vida.

Foi no ano de 1953, e sua turma da sétima série fazia uma excursão pelo prédio do
Banco Mutual. Lá havia um computador gigantesco. Ele e seus colegas de classe
descobriram que aquela máquina pesava cerca de trinta toneladas e ocupava quase quatro
andares do prédio. Naquela época, havia apenas uma centena de computadores em todo o
mundo e aquele era um dos modelos mais avançados. Seu apelido era "super-
computador".

O ministro fez a conta e teve alguma resistência em admitir que mais de cinqüenta
anos havia se passado. Os computadores definitivamente haviam evoluído bastante.
Desde as trinta toneladas, os quatro andares em um prédio, até os poucos quilos que
cabem em uma pasta. Seu número se multiplicou daquela centena às centenas de milhões
em toda parte — tudo no espaço de uma geração - cada vez menores, cada vez
melhores...

O ministro se referia com humor à sua máquina como " a besta", depois de ouvir
tantos sermões alegando que o anticristo estava no computador. A besta que dormia na
mesa do pastor tinha o processador mais rápido, os itens de multimídia mais avançados e
as placas de última geração. Era a configuração mais recente no mercado.

Ao fim das contas, ele não teve escolha, pois a indústria da informática se
desenvolvera muito rapidamente do 286, para o 386, para o 486, o Pentium e então não
encontrou mais limites. Em poucos anos, seu modelo já seria obsoleto e se tomaria
carcaça e serviria apenas como um monte de peças para reposição.

Ele gastou um bom dinheiro no melhor computador, com os programas mais novos, e
o havia colocado sobre a mesa somente para apanhar poeira até na semana anterior.
Ainda assim, com a velocidade no desenvolvimento dos processadores, teria em breve de
atualizá-lo.

Quando perdeu suas anotações no computador na semana anterior, quase perdeu


também sua sanidade e santificação. Havia até perguntado à esposa como era possível a
humanidade ter conseguido mandar alguém até a lua, mas não conseguir fazer um
computador funcionar corretamente. Mas ela respondeu que não foi um computador mais
evoluído do que aquele sobre a mesa do escritório que enviou o homem à lua, e nem foi o
computador que se esqueceu de fazer a cópia de segurança no disquete. Também lembrou
ao marido - a quem chamou de "futuro especialista em computadores" - que o amava e que
não deveria desistir.

Então ele voltou ao escritório. Posicionou o cursor sobre o ícone, clicou duas vezes e
lá foi ele. O pastor entrou no programa... oremos!

A tendência das coisas é avançar e crescer com o passar das gerações. A


humanidade se excedeu em todas as suas realizações: na medicina, na comunicação, na
tecnologia, no transporte, na indústria, na informática, nas viagens espaciais, etc. Tudo
melhorou cada vez mais – tudo, menos a Igreja.

A Igreja tem mais pessoas, mais dinheiro, maior quantidade de edificações, maior
influência, mais apoio político e mais visibilidade na televisão e no rádio do que em
qualquer outra época, mesmo assim, não igualamos o fluir poderoso do Espírito vivido pela
primeira geração da Igreja. A nós, foi prometida na Bíblia superabundância de Deus maior
do que esta experimentada hoje em dia, contudo, o que temos são as histórias de alguns
encontros especiais, onde o poder de Deus se manifestou e, ainda assim, não são tão
grandiosos como aqueles do relato bíblico. Certamente, o problema não é Deus.

O apostolo Paulo orou para que a Igreja aprendesse “qual a suprema grandeza do seu
poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder" (Efésios 1:19). Nosso
Deus é o Deus da suprema grandeza. Aqui, o termo ‘grandeza’ significa que determinado
nível foi atingido, ou que um objetivo específico foi alcançado. Chegar a este lugar define a
grandeza. Por exemplo, um jogador de futebol é grande se acertar inúmeras vezes a bola
dentro do gol. Se algo alcança determinado ponto, ou uma magnitude é reconhecida como
maior ou melhor do que antes se conhecia, então temos a grandeza.

Deus é grande e também é supremo em sua grandeza. Ele simplesmente não atinge
determinado nível: sempre vai além do que fez antes. Deus não chega a uma posição de
grandeza e pára, vai muito além de nossa capacidade de compreender sua grandeza.
Deus não abençoou a Igreja e disse: "Já basta. A Igreja recebeu todo o poder necessário.
Chegou o tempo de estabilizar e conservar a situação como agora se encontra", isto
porque Deus não atinge um nível de excelência e interrompe o movimento para além deste
nível. Deus ultrapassa toda a excelência já manifestada, transpassa os próprios limites,
quebra os próprios recordes e supera o que alcançou por último. Ele sempre excede a
posição na qual esteve anteriormente. Nosso Deus é o Deus da suprema grandeza (ver
Efésios 3:20).

Diante deste quadro, o problema concernente à unção no Corpo de Cristo atual não é
a falta de poder, pois Deus sempre dá seu Espírito. Moisés disse:"Tomara todo o povo do
SENHOR fosse profeta, que o SENHOR lhes desse o seu Espírito!" (Números 11:29). Deus
deseja que a unção seja derramada em todos os membros do Corpo, "vossos filhos e
vossas filhas profetizarão, vossos velhos sonharão, e vossos jovens terão visões; até sobre
os servos e sobre as servas derramarei o meu Espírito naqueles dias" (Joel 2:28-29).

Deus quer ultrapassar todas as suas realizações dos primeiros séculos da Igreja nos
dias de hoje: os últimos dias da Igreja. A razão pela qual não temos o poder da unção da
forma como poderíamos vivenciá-lo é não a recebermos adequadamente. Deus sempre a
derrama, mas não tomamos a posição adequada para sermos cobertos por inteiro com o
poder divino.

No Salmo 133, há três versículos compondo a chave para o entendimento do fluir


adequado da unção no Corpo de Cristo. Eles apresentam um quadro da direção, do
alinhamento e do aumento do poder no legado da unção:

"Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos! É como o óleo precioso sobre a
cabeça, o qual desce para a barba, a barba de Arão, e desce para a gola de suas vestes. É
como o orvalho do Hermom, que desce sobre os montes de Sião. Ali, ordena o SENHOR a
sua bênção e a vida para sempre".

O poder da unção está embasado na direção de seu fluir. O direcionamento tomado


pela unção corre sempre para baixo. Ela flui “sobre a cabeça” e depois “desce para a
barba, a barba de Arão” e por fim "para a gola de suas vestes", a gola das vestes do
sacerdote. A direção da unção é sempre para baixo por que esta é única forma de todo o
corpo ser coberto.

Se voltarmos ao capítulo anterior, lembrar-nos-emos que os filhos de Arão não


tiveram seu ministério ungido. Foi apenas Arão quem recebeu o óleo sobre a cabeça. A
unção era passada de pai para filho pelo óleo retido nas vestes do sumo sacerdote e pelos
filhos quando as recebiam de seu pai. A unção só poderia chegar aos filhos através do
relacionamento que mantido com o líder da família, Arão. O primogênito dos filhos e Arão
receberia as vestes como herança. Esta mesma ordem se viu completa no ministério de
Jesus, “o Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa confissão”, e na Igreja (Hebreus 3.1).

A Cabeça da Igreja é o Cristo. O termo 'Cristo' significa 'ungido'. Ele é a Cabeça do


Corpo: "Ele é a cabeça do corpo, da igreja (...). Porque aprouve a Deus que, nele, residisse
toda a plenitude" (Colossenses 1:18-19). Arão foi ungido na cabeça assim como a Igreja é
ungida apenas na Cabeça - que é Cristo -, o Ungido.

Arão não recebeu o óleo sobre outra parte senão a cabeça. No Salmo 133, vemos
que o óleo não foi derramado em seus braços, ou sobre o coração, ou primeiramente nas
pernas. Foi posto apenas sobre a cabeça, de onde a unção fluiu e o cobriu até a gola de
suas vestes.

Jesus prometeu aos discípulos a colocação do poder do Espírito sobre eles quando
lhes deixou a promessa do Pai: "Eis que envio sobre vós a promessa de meu Pai;
permanecei, pois, na cidade, até que do alto sejais revestidos de poder" (Lucas 24:49). A
palavra traduzida como 'revestidos' está em grego 'enduo', que significa, neste contexto,
algo como "embeber em pano". Desde a Cabeça, vem a unção sobre a Igreja através das
vestes providenciadas pelo Espírito do Pai: a Igreja recebe o poder ao ser vestida com o
poder do Pai.

Jesus é o Cristo - é aquele que foi ungido. Quanto a nós, na condição de membros de
seu Corpo, somos revestidos com seu Espírito. A Igreja é o “novo homem" e "um só corpo"
mediante o qual "temos acesso ao Pai em um Espírito" (Efésios 2:15-18). Não há unção fora
da ligação com Cristo. A única unção que recebemos foi derramada sobre a Cabeça e
correu para o Corpo – a Igreja. Jesus nos disse que nos revestiria com poder, mas não
disse que derramaria óleo sobre nossas cabeças.

O objetivo da unção é o investimento de poder para o serviço. Existe para glorificar a


Deus, jamais para exaltar a carne. Se estivermos com as vestes adequadas, se nos
vestirmos com o Senhor Jesus, então a unção o fará magnífico em nossas vidas. Se nos
ocultarmos em Cristo, então a unção será vista, não nós: "Temos, porém, este tesouro em
vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós" (2 Coríntios 4.7; ver
também Isaías 52:1; 61:10; Romanos 13:14; Gálatas 3:27; Colossenses 3:12).

O que a Igreja denomina "a busca pela unção" não passa do reavivamento do dom de
Deus em um crente pelo fato de o Espírito viver dentro dele. Assim deve sempre acontecer.
Paulo encorajou Timóteo a fazer exatamente deste modo: "Por esta razão, pois, te admoesto
que reavives o dom de Deus que há em ti pela imposição das minhas mãos. Porque Deus não nos
tem dado espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação" (2 Timóteo 1:6-7).

O verbo 'reavivar' usado acima refere-se ao ato de se reavivar o fogo quando a


fogueira está prestes a apagar - tem o sentido de se colocar mais lenha para que as
chamas continuem brilhando. Assim é a manutenção de um dom que já existe em nós, mas
não é a busca de nenhum poder a mais vindo dos Céus, afinal, este dom Deus já nos deu,
juntamente com o amor e a moderação. A unção não é algo que se busque, mas o
reavivamento do que já recebemos (ver Juízes 16:20; 1 João 2:20).

Timóteo foi aconselhado a reavivar o dom de Deus que estava nele para deixar as
mãos de seu pai no ministério se deitarem sobre ele. A forma de recebermos os dons para
o ministério é nos vestirmos de forma apropriada e nos posicionarmos adequadamente sob
o ministério de um pai espiritual. Desta forma receberemos um dom espiritual e também, de
forma constante, a unção, enquanto nesta posição nos mantivermos. A unção não flui para
cima, então, nos elevarmos não é a forma de receber a plenitude do poder de Deus. A
unção flui para baixo, por isto devemos acolher seu movimento natural para recebê-la.

O apóstolo Pedro disse: "Rogo igualmente aos jovens: sede submissos aos que são mais
velhos; outrossim, no trato de uns com os outros, cingi-vos todos de humildade, porque Deus
resiste aos soberbos, contudo, aos humildes concede a sua graça. Humilhai-vos, portanto, sob a
poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte" (1 Pedro 5:5-6). Esta
passagem não se refere à idade cronológica; um "velho no Senhor" é alguém que possui
maturidade no ministério. A forma de sermos exaltados por Deus é permanecermos sob a
mão do pai no ministério que o Senhor nos designou. Como dissemos, a direção do fluir do
Espírito é para baixo. Se subirmos, remaremos contra a corrente de Deus e iremos de
encontro à sua resistência: “Deus resiste aos soberbos, contudo, aos humildes concede a sua
graça" (1 Pedro 5:5). Se erguermos a nós próprios e a nossos dons pessoais acima do
propósito, da posição, ou da pessoa sob a qual Deus nos colocou, sairemos do fluir. Se
subirmos a montanha, talvez colheremos o orvalho que lá se deposita, contudo, jamais
vivenciaremos o fluir poderoso do rio; talvez recebêssemos a unção, contudo, não teríamos
as vestes para retê-la.

"É como o orvalho do Hermom, que desce sobre os montes de Sião. Ali, ordena o SENHOR a
sua bênção e a vida para sempre" (Salmo 133:3). A unção sempre flui descendo, assim, sua
porção mais poderosa não está sobre a cabeça de Arão, mas em suas vestes. É como o
fluxo d'água mais poderoso, que não está no orvalho do monte Hermom, mas na torrente
do rio Jordão que corre ao pé da montanha. O Hermom atinge cerca de três mil metros de
altitude, sendo assim a montanha mais alta na Palestina. Ele pode ser visto a quase
duzentos quilômetros de distância. Das neves eternas em seu topo corre a fonte de água
principal do rio Jordão. Este rio segue por mais de duzentos quilômetros, é o maior e mais
importante na Palestina. Ele nasce no sopé do Hermom e corre para o Mar Morto. Sua
nascente fica a mais de trezentos metros acima do nível do mar e sua desembocadura está
a quatrocentos metros abaixo do nível do mar. O lago da Galiléia é formado pelo rio Jordão
e mede vinte e um quilômetros de norte a sul, e a sua largura é de treze quilômetros. Seu
ponto de maior profundidade mede trezentos e noventa metros. Na sua margem sul
continua o Jordão por mais cento e doze quilômetros até o Mar Morto. O Jordão despeja
em média seis milhões de toneladas de água a cada vinte e quatro horas no Mar Morto,
quase toda esta água advém do orvalho que se deposita no topo do Hermom. Desta
maneira, o orvalho da montanha se toma o rio do vale, proporcionando a maior torrente em
sua extensão final, e não na cabeceira. O nome 'Jordão' significa 'aquele que desce. Para
receber as águas do Jordão em seu ponto mais vigoroso, é necessário se posicionar em
seu ponto mais baixo. A razão pela qual o orvalho no topo do Hermom pode se transformar
em um rio poderoso, gerador de vida, é correr para baixo.

A mulher com hemorragia citada no Evangelho não tocou a cabeça de Jesus,


tampouco tomou a mão de Jesus e pôs sobre a própria cabeça a fim de produzir uma
transferência de unção. Ela esticou a mão e tocou as vestes de Jesus que sentiu o poder
sair dele. Tanto o fluxo quanto a capacidade máxima do reservatório e unção podem ser
encontrados nas partes mais baixas das vestes de Cristo. O maior poder reside nas partes
mais baixas porque é na direção de cima para baixo que flui; a parte mais baixa é a que
mais recebe, portanto, a posição adequada é determinante para o aumento de poder.

A Igreja há muito tempo vem tentando buscar a unção, mas o faz fora da ordem
correta. A Bíblia nunca disse para orarmos pela unção, buscá-la ou louvá-la com o objetivo
de a recebermos. Pelo fato de Deus sempre dar seu Espírito, a posição correta para
recebê-lo é o ponto crucial. Por isto, as pessoas que se elevam acima de sua liderança,
recebem apenas o orvalho da unção e têm como resultante uma posição inadequada para
receber o fluir de enorme poder na gola das vestes. Esta é a razão pela qual muitos
possuem unção em suas vidas, mas nunca atingirão a profundidade, o poder ou o efeito da
Igreja descrita no Livro de Atos.

Nós estamos "em Cristo". Deus quer que sua Igreja tenha de tudo o que colocara em
Cristo. Deus dá constantemente seu Espírito. Jesus Cristo é a Cabeça ungida do Corpo e
dele a unção conserva-se fluindo para cobrir toda a Igreja. A posição adequada dos filhos e
pais no ministério é essencial para recuperarmos o fluir do Espírito. Há que se ter pais que
se preocupem em derramar seus dons nos filhos, e filhos sob a mão paterna para recebê-
los. A Igreja está desalinhada para receber o fluir na completude do Senhor porque não
segue a ordem de pai e filho. Por este motivo, o legado das gerações apenas goteja ao
passo que poderia ser a fluência impetuosa. Por fim, acabamos trabalhando para receber
apenas algumas gotas de orvalho do poder, quando poderíamos ter a corredeira abundante
de um rio de poder fluindo por todos os membros do Corpo.

A ordem de pai e filho não é uma tentativa de se instituir o elitismo dentro do Corpo.
Tampouco separa apenas determinadas pessoas para receber a unção do Espírito, pois
não almeja produzir uma amputação destrutiva do poder. Ao contrário, este livro foi escrito
porque a ordem de pai para filho é a maneira pela qual Deus faz todos os membros rece-
berem a unção; é o curso pelo qual a unção deve fluir. A operação dos dons espirituais
deve fluir livremente dentro do Corpo inteiro, de acordo com a vontade do Senhor.

"É como o óleo precioso sobre a cabeça, o qual desce para a barba, a barba de Arão, e
desce para a gola de suas vestes" (Salmo 133:2). A unção deve fluir descendo pelo Corpo
para desta forma cobrir completamente a Igreja, de acordo com a intenção de Deus. A
unção desce da cabeça até a barba. A "barba" representa a maturidade da liderança,
afinal, barba não cresce no rosto de crianças; a unção não serve a movimentos
infantilizados de uma igreja imatura e nem à exaltação tola do talento individual ou de
demonstrações prematuras da eloqüência pessoal. A unção deve ser colocada sobre uma
liderança de uma Igreja crescida e madura.

O óleo então desce para os ombros do corpo. Esta parte anatômica representa
espiritualmente os cinco ofícios da Igreja: "Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu;
o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte,
Pai da Eternidade, Príncipe da Paz" (Isaías 9:6). Arão carregava os nomes das doze tribos
sobre os ombros: "E porás as duas pedras nas ombreiras da estola sacerdotal, por pedras de
memória aos filhos de Israel; e Arão levará os seus nomes sobre ambos os seus ombros para
memória diante do SENHOR" (Êxodo 28:12). A Arca da Aliança foi levada sobre os ombros
dos sacerdotes: "Os filhos dos levitas trouxeram a arca de Deus aos ombros pelas varas que nela
estavam, como Moisés tinha ordenado, segundo a palavra do SENHOR" (1 Crônicas 15:15). O
óleo deve, primeiramente, correr pelos ombros, fluindo, só depois, pelo restante do corpo.
O que é verdadeiro para o corpo de Arão é verdadeiro também para o Corpo de
Cristo, a Cabeça da ti Igreja: "(...) Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o sentar à
sua direita nos lugares celestiais (...), para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a
qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas" (Efésios 1:20, 22-
23).

Os cinco ofícios – os ombros do governo da Igreja – devem ser compostos por uma
liderança madura para levá-la à maturidade.

"E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e
outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o
desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos
à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida
da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de
um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos
homens, pela astúcia com que induzem ao erro. Mas, seguindo a verdade em amor,
cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo" (Efésios 4:11-15).

Os pais no ministério serão ministros nos cinco ofícios. Passarão a unção de


suas vidas a seus filhos. Sob cada dedo dos cinco ministérios do governo da Igreja,
os filhos de um pai ministro recebem o poder de Deus, que flui de Cristo, o Cabeça,
para os ombros da Igreja, até as vestes dos filhos, à gola das vestes. Os pais no
ministério serão ministros nos cinco ofícios. Passarão a unção de suas vidas a seus
filhos - a igreja local. Esta ordem permite a plenitude do Espírito na Igreja. A Igreja,
assim, torna-se a veste ungida de Deus. A gola da veste da Igreja deve ter tanto
poder quanto a gola da veste de Cristo.

Quando a ordem de pai e filho não é estabelecida com propriedade dentro da Igreja, a
unção, apesar de existir, não cobre todos os membros, pois sua cobertura foi barrada. O
manancial infinito é interrompido pela falta do posicionamento adequado provocando a
escassez e unção sobre o corpo. Deus constantemente derrama o óleo sobre" toda a
carne". Ainda assim, alguma parte dela não o recebe porque está fora da posição
apropriada. O problema está no desalinhamento da Igreja porque não estabelece
relacionamentos adequados no Corpo para todos os membros receberem a unção. Por isto
a Bíblia compara a união à unidade dos irmãos: Oh! Como é bom e agradável viverem
unidos os irmãos! como o óleo precioso sobre a cabeça, o qual desce" (Salmo 133:1-2).

A união é necessária para que a unção atinja, de maneira integral, todos os membros
do Corpo. Todavia, vale ressaltar que esta não é uma união de sentimentos ou de desejo
mútuo; não é o encontro de corações ávidos, pois é a confluência de pessoas colocadas
em posição adequada como membros sob uma cabeça.

Se um time de futebol pretende vencer, deve guardar de forma precisa suas posições,
manter-se motivado e praticar para aprimorar suas habilidades. Cada jogador deve
contribuir com seu melhor para o time, afinal, cada um possui qualidades distintas que se
aprimoram com os treinamentos e chegam mais próximas da perfeição pelas mãos do
treinador. Porém, não é apenas o espírito de equipe que chega à vitória. A
responsabilidade de vencer recai sobre cada um dos jogadores de cada posição. À medida
que cada um confia que os outros jogam bem em suas posições, o time avança rumo à sua
melhor formação. E quando um jogador marca gol, este vale para o time todo, da mesma
maneira, se um jogador fica em impedimento, todo o time perde a posse de bola.

A Igreja não conseguirá completar sua missão apenas na unidade do espírito ou


através de atitudes individuais. Por isto, cada membro do Corpo deve manter a posição
adequada para receber o plano de Deus que lhe conferirá poder. Cada membro deve se
ligar estrategicamente a outros membros e à cabeça para receber o fluir da unção
procedente de Deus. É a unidade anatômica nos relacionamentos no Corpo que faz cada
membro receber de Deus o máximo de sua capacidade.

"De quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a
justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em
amor" (Efésios 4:16). O manancial para cada membro do Corpo é a articulação entre cada
um deles e a Cabeça. Por este motivo, a ordem adequada no Corpo é fundamental para o
recebimento da unção em sua totalidade. Vez por outra, algumas situações criadas no
ministério provocam um fluir da unção fora da ordem de “Arão e seus filhos", isto é, a
ordem de pai e filho. Sem o relacionamento na ordem de pai e filho, qualquer unção no
ministério está fora de ordem, pois é um uso ilegítimo da unção colocar os dons pessoais
acima da ordem e da liderança. Além disto, a simples presença de unção não qualifica
ninguém como ministro ou governante de uma congregação. Exatamente como a cópia
falsificada de um perfume caro, é um clone (e não um filho natural) que considera a
manifestação de um dom no Espírito o único pré-requisito para se trabalhar no ministério.
Jesus possuía dons, mas "Cristo a si mesmo não se glorificou para se tornar sumo
sacerdote, mas o glorificou aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei"
(Hebreus 5:5). Não foram seus dons que o qualificaram, mas sua submissão
enquanto Filho.

Houve uma geração após Josué que não "conheceu" o Senhor, pois com ele não
mantiveram um relacionamento, "Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada um fazia o
que achava mais reto" (Juízes 21:25). No Livro dos Juízes, há o relato sobre várias
pessoas ungidas pelo Espírito durante um período de anarquia. Elas eram ungidas e
elevadas à condição de liderança do povo de Deus por um período de tempo curto, nunca
maior do que o de uma geração. Então, o povo era novamente feito cativo "e tornavam
piores do que seus pais" (Juízes 2:19). O povo clamara a Deus para, em sua misericórdia,
ungir outra pessoa para libertar novamente o povo.

Juízes como Gideão, Sansão, Jefté, entre outros, eram de bastante poder. Todos
eram ungidos, mas não na ordem de pai e filho, pois não havia a bênção das gerações.
Nos dias dos juízes não havia pais para cuidar dos filhos no ministério. Apesar de os juízes
serem conclamados por Deus para se tornarem pais de Israel, nenhum teve sucesso em
passar a unção à geração subseqüente. Mesmo sendo ungidos, os juízes não perfaziam o
padrão normalmente aceito por Deus, que lhes deu seu Espírito porque ouvia às orações
de seu povo implorando a libertação. A misericórdia divina os ungiu, mas isto não quer
dizer que Deus aprovasse qualquer lacuna na ordem.

Hoje em dia, muitas pessoas que operam dons no ministério são ungidas por
Deus, mas esta unção, de forma nenhuma, significa que Deus aprova seu caráter ou
modo de vida, afinal, Sansão, mesmo depois de dormir com Dalila, seguiu ungido
pelo Espírito.

Gideão conduziu o povo a grande vitória e continuou ungido apesar de ter feito
ilicitamente uma estola sacerdotal e por causa dela ter levado o povo à idolatria (ver Juízes
8:27). A presença de unção não é qualificadora para o ministério. Ela vem do Senhor e
pode se fazer presente na vida das pessoas, mesmo se estiverem desalinhadas da ordem
e do relacionamento (ver Mateus 7:21-23; 24:11-12).

O fluir de todo o poder do Reino de Deus acontece por meio do relacionamento que
mantemos uns com os outros. A privação de relacionamentos deixou a Igreja carente de
poder. A falta de ligação na ordem do povo de Deus atrofiou espiritualmente alguns de
seus membros. Outros estão fatigados pela responsabilidade desigual entre as partes do
Reino. Para haver a manifestação completa de Cristo a todo o mundo, há que se
restabelecer as ligações para o poder ser dividido entre todos os membros. O corpo
permanecerá desconjuntado, desfigurado e inapto a manifestar o poder da imagem de
Deus na terra caso não se ligue a Cristo, a Cabeça.

A Bíblia não afirma que o modo de conseguirmos a totalidade do Espírito seja através
das ligações organizacionais ou de alguma denominação, pois isto significaria liderança
sem relacionamento e autoridade sem aliança. Jamais irá a unção atingir seu nível máximo
na Igreja se houver apenas cultos monumentais em mega-igrejas. Portanto, multiplicar a
unção não é realizar uma operação com números gigantescos de pessoas com a porção
única, agrupadas em um culto, ou seja, a unção sem cobertura e o poder sem um
reservatório. O único canal adequado para o rio de unção fluir de Cristo para a Igreja é
construído no relacionamento de pai para filho.

["Por esta causa, vos mandei Timóteo, que é meu filho amado e fiel no Senhor, o qual vos
lembrará os meus caminhos em Cristo Jesus, como, por toda parte, ensino em cada igreja" 1
Coríntios 4:17]

10
O RELACIONAMENTO DO PAI

O fim do mundo é quando caem grandes homens,


Quando os homens célebres aos quais
chamamos “os filhos de Deus" desaparecem.
Quando os olhamos, grandes homens de outrora,
Sabemos que foram como pais e que traziam a face de Deus,
A expressão da Palavra e o poder da autoridade.
Muito acima de nós, assemelhavam-se à divindade, mas eram carne.
Gigantes aos próprios olhos, escolheram também o caminho próprio
Para cruzar a fronteira que divide a noite do dia.
Então, da altura de sua grandeza,
Os Céus olharam e choraram
Uma fluência e lágrimas,
Ao escolherem a intimidade com o mundo,
Alhearam a Deus;
Reproduziram-se na infantilidade perene;
Mitigaram o futuro e diminuíram suas vidas
À extinção quanto a nós, em nossa busca desesperada pelos imortais,
Esquecemo-nos de um homem,
No qual a estatura da fé foi enorme,
Maior que a simples configuração óssea:
Noé.
Ele tinha seu relacionamento com Deus
Como maior e mais belo do que qualquer outra produção humana.
Manteve-se fiel a seu pai
Por todo o tempo de dor e trabalho ardoroso para ver
Os filhos de Deus na terra,
Construindo-nos uma linhagem,
Seus filhos,
Que viemos hoje em meio aos fósseis - que são ossos secos -
A espera da promessa de chuva...
Lembramo-nos sempre de um homem que,
Com obediência, fé e madeira
Construiu para nós uma ponte
Tirando-nos do fim do mundo
E nos transpondo ao começo do arco-íris.

(Gênesis 6).

Sempre quando uma verdade maior emerge no Corpo de Cristo, desenvolve-se


sempre uma falsificação. Quando Deus voltou a falar à Igreja sobre os profetas, surgiu o
pensamento de que todos os homens eram profetas. Recentemente, muito tem sido falado
com respeito à restauração dos apóstolos na Igreja, porém, não podemos nos convocar a
nós mesmos para o apostolato.

Com o reaparecimento da ordem de pai e filho no ministério, muita gente irá se


promulgar como sendo pais. Procurarão uma honra a qual não lhes cabe procurar e a uma
submissão que não é de seu direito. Este tipo de gente não constitui os verdadeiros pais no
ministério, mas os falsos pais.

Sobre a época dos juízes, a Bíblia nos diz: "Naqueles dias, não havia rei em Israel;
cada qual fazia o que achava mais reto" (Juízes 17:6). Há oportunidades nas quais Deus
permite haver uma situação desordenada antes de reerguer seu povo. Por certas vezes,
Deus dá passagem à ignorância até exigir a obediência ao conhecimento revelado. Nos
dias dos juízes, havia uma falta patente de liderança divina. A completude do padrão de
Deus ao ministério estava pervertida pela conversão dos corações humanos aos lucros
financeiros em lugar de converterem à paternidade.

"Havia um moço de Belém de Judá, da tribo de Judá, que era levita e se demorava ali. Esse
homem partiu da cidade de Belém de Judá para ficar onde melhor lhe parecesse. Seguindo,
pois, o seu caminho, chegou à região montanhosa de Efraim, até à casa de Mica. Perguntou-
lhe Mica: Donde vens? Ele lhe respondeu: Sou levita de Belém de Judá e vou ficar onde
melhor me parecer. Então, lhe disse Mica: Fica comigo e sê-me por pai e sacerdote; e cada
ano te darei dez sidos de prata, o vestuário e o sustento. O levita entrou e consentiu em ficar
com aquele homem; e o moço lhe foi como um de seus filhos" (Juízes 17:11).

Este levita é o representante de um sacerdócio carnal que "procura um lugar" onde


possa distribuir seus dons com o propósito único do lucro financeiro. Este levita viajava
pelo interior na busca da fortuna pessoal e dos ganhos financeiros, jamais se importando
com a ordem correta, nem com a paternidade genuína. Ele só ficou com Mica porque foi
contratado na condição de pai. Assim, vemos que este levita não foi um pai de verdade; era
um empregado, alimentado e vestido na casa de Mica.

Tal situação não pode estar mais fora de ordem, pois não retrata o relacionamento
pai—filho. O que vemos é um filho fazendo de Deus sua própria imagem de um pai que
não estabelece outro elo que não o de mercenário. O levita realizava obras em troca
apenas do dinheiro, e o fazia em nome de um pai. Nessa época, a tribo de Dã não havia
recebido sua herança na terra da promessa, por isto enviaram cinco homens para
encontrar alguma terra, herança de outros, a qual pudessem conquistar. Quando estavam
a ponto de fazê-lo:

"Porém, subindo os cinco homens que foram espiar a terra, entraram e apanharam a imagem
de escultura, a estola sacerdotal, os ídolos do lar e a imagem de fundição, ficando o
sacerdote em pé à entrada da porta (...). Eles lhe disseram: (...) vem conosco, e sê-nos por
pai e sacerdote. Ser-te-á melhor seres sacerdote da casa de um só homem do que seres
sacerdote de uma tribo e de uma família em Israel? Então, se alegrou o coração do
sacerdote, tomou a estola sacerdotal, os ídolos do lar e a imagem de escultura e entrou no
meio do povo. Assim, viraram e, tendo posto diante de si os meninos, o gado e seus bens,
partiram" (Juízes 18:17,19-21).

O levita não era nem pai, nem sacerdote. Era apenas uma figura religiosa contratada.
Quando surgiu uma outra oportunidade para ganhar mais e ter mais prestígio, não hesitou
em abandonar o antigo patrão e roubar-lhe objetos. A bem da verdade, as pessoas que o
pagavam pelo serviço, faziam-no somente porque o levita tinha as vestes certas. Utilizando
as vestes apenas para lograr em um mundo de religiosidade vazia, o levita era procurado
pela gente que via apenas nos adereços do sacerdote, como a estola, os requisitos ao
ministério.

Há homens hoje em dia na Igreja que chegam em uma cidade, ou em um bairro, e


instituem um ministério em nome da paternidade e do apostolato. Trazem a aparência
perfeita, mas se valem das vestes do sacerdócio somente para fins pessoais. Tais homens
ensinam sobre a necessidade do relacionamento pai—filho espremem o ministério local
sob sua própria cobertura. A ênfase do relacionamento é colocada apenas no dinheiro que
os filhos devem dar ao pai no ministério.

Não existe um relacionamento real de ligação espiritual verdadeira nesta situação. A


honra deve ser concedida apenas a um pai verdadeiro no ministério. Esta falsificação
doentia e pervertida do relacionamento pai—filho genuíno é abominável aos olhos do
Senhor. Antes de qualquer transferência financeira entre pai e filho, deve haver um
relacionamento anterior no Espírito.

O pai no ministério não pode ser um empregado a cumprir determinadas tarefas


por alguma quantia em dinheiro;

O pai no ministério não exige dinheiro sem haver relacionamento;

O pai no ministério não procura construir o próprio ministério;

O pai no ministério é um homem de Deus cujo coração está voltado para elevar
os filhos no evangelho, não em assegurar servos para seu próprio ministério;

O pai no ministério procura aumentar os ministérios dos filhos a fim de que


abundem na graça concedida por Deus;

O pai no ministério não é reconhecido pela estola que possui, mas pelo coração
convertido ao filho.

Sempre surgirão falsificações para as coisas legítimas. Por muitas vezes, um homem,
ou um movimento, tem início na Igreja originalmente com retidão, mas se tornam
distorcidos na forma religiosa sem substância. À época dos ministérios de João Batista e
Jesus, havia vários grupos distintos sob a égide do judaísmo, cada qual representativo do
que acontece quando a revelação de Deus é colocada sob um sistema no qual "cada qual
fazia o que achava mais reto" (Juízes 17:6).
Nos quatrocentos anos do silêncio de Deus entre Malaquias e Mateus, a religião
judaica se corrompeu e assumiu elementos de estruturas e de sistemas mundanos. Nos
dias de Jesus havia, principalmente, os saduceus, os fariseus e os herodianos. Os
saduceus eram os descendentes de Arão e controlavam o sacerdócio. Os herodianos
controlavam o governo e o prédio atualmente conhecido como "o templo de Herodes" (a
casa construída para Deus era conhecida pelo nome do homem que, imbuído de vilania e
assassínio no coração, chacinou os meninos de Belém (ver Mateus 2). Os fariseus
controlavam as sinagogas e exerciam grande poder sobre a população em geral.

De fato, cada um destes grupos era o resultado de uma ordem pervertida entre pai e
filho. Os saduceus eram o corrompimento do sacerdócio de Arão e de seus filhos. Os
herodianos tocavam um sistema malvado do reino de Davi e seus filhos. Os fariseus nas
sinagogas eram a perversão do ministério paterno no nível local. Estes três grupos
inverteram a ordem de Deus e a si próprios quando misturaram a revelação do Senhor com
os sistemas humanos, arruinando assim a pureza dos caminhos de Deus ao adicionar a ele
as tradições dos homens. Jesus admoestou seus discípulos quanto às ações de fariseus,
saduceus e herodianos com relação a seu fermento, pois poderia destruir a simplicidade e
a pureza de seu relacionamento com Deus.

"E Jesus lhes disse: Vede e acautelai-vos do fermento dos fariseus e dos saduceus"
(Mateus16:6).

"Preveniu-os Jesus, dizendo: Vede, guardai-vos do fermento dos fariseus e do fermento de


Herodes" (Marcos 8:15).

O 'fermento' refere-se exatamente à levedura que faz a massa do pão crescer, mas
cujo excesso a faz azedar, por isto, "um pouco de fermento leveda toda a massa" (Gálatas
5:9). O fermento é perigoso na medida que apenas uma pitada a mais pode azedar todo o
pão.

Sempre quando colocamos alguma doutrina humana sobre a Palavra de Deus,


corremos o risco de ser como os fariseus. Se o gabinete do ministro se toma o local onde
os homens designam quem ocupará determinadas posições políticas, independente do
propósito do Reino, então provaremos do fermento dos saduceus. Já, se a ordem de pai e
filho no ministério passa a ser o desempenho de um poder ditatorial sobre a obediência
servil, temos o fermento de Herodes. Por isto, precisamos voltar à simplicidade de um pão
asmo na pureza da igreja. Cuidado com o fermento!

Quando a Igreja começou, não possuía edifícios enormes nem grandes organizações
comandadas pelos compromissos humanos. A Igreja começou com Jesus em seu
relacionamento com os discípulos, dos quais escolheu doze e depositou todo o futuro do
propósito divino em seus corações.
"Depois, subiu ao monte e chamou os que ele mesmo quis, e vieram para junto dele. Então,
designou doze para estarem com ele e para os enviar a pregar e a exercer a autoridade de
expelir demônios" (Marcos 3:13-15).

Eles foram chamados segundo a ordem: primeiro, estariam com ele; segundo que ele
os enviaria para pregar; terceiro, teriam o poder para curar enfermos e expulsar demônios.
Este é o relacionamento de um pai para com um filho.

Jesus não foi apenas o Pai manifestado na carne (ver 1 Timóteo 3:16), mas também
foi pai no ministério para seus discípulos que, de maneira alguma, nasceram nos salões
dos entendidos da lei. Seus dons não lhes foram concedidos em uma conferência de final
de semana. A fundação do ministério da Igreja se constitui no relacionamento que os
discípulos mantiveram com Jesus.

Todavia, a Igreja comeu do fermento da produção religiosa, ou seja, sempre sentimos


a necessidade de o ministério estar fazendo alguma coisa. Não podemos esquecer que
Jesus nos chama para" sermos" com ele antes de "fazermos" qualquer coisa para
ele. Apesar de não conservarmos o estado de inatividade para sempre, é bom saber que
todos os relacionamentos começam pelo simples fato de estarmos juntos.

O relacionamento entre Paulo e Timóteo é um exemplo excelente do relacionamento


pai—filho no Novo Testamento. O livro de Atos nos diz que Timóteo viajou com Paulo e
trabalharam juntos no ministério (ver Atos 19:22). Ao viajarem juntos, Timóteo pôde
partilhar tanto da alegria quanto do fardo do ministério de um apóstolo. Ele viu como Paulo
fundou igrejas (ver Atos 16:4-5), e aprendeu a importância da condução do Espírito quando
viu Paulo buscar intuitivamente a direção para o ministério (ver Atos 16:6-10). Da Galácia à
Macedônia, à fundação da igreja dos filipenses, através de Tessalônica, Beréia, Atenas,
Corinto e Éfeso, Timóteo seguiu Paulo.

O relacionamento de pai e filho faz o filho crescer no ministério. Timóteo, em poucos


anos no ofício do ministério, se viu, por vezes, em pé de igualdade com Paulo. Vale
lembrar como começam algumas epístolas:

"Paulo, Silvano e Timóteo, à igreja dos tessalonicenses em Deus Pai e no Senhor Jesus
Cristo, graça e paz a vós outros" (1 Tessalonicenses 1:1).

"E enviamos nosso irmão Timóteo, ministro de Deus no evangelho de Cristo, para, em
benefício da vossa fé, confirmar-vos e exortar-vos" (1 Tessalonicenses 3:2).

"Saúda-vos Timóteo, meu cooperador, e Lúcio, Jasom e Sosípatro, meus parentes"


(Romanos 16:21).

"Paulo, Silvano e Timóteo, à igreja dos tessalonicenses, em Deus, nosso Pai, e no Senhor
Jesus Cristo" (2 Tessalonicenses 1:1).
"Paulo, apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus, e o irmão Timóteo, à igreja de Deus
que está em Corinto e a todos os santos em toda a Acaia" (2 Coríntios 1:1).

"Paulo e Timóteo, servos de Cristo Jesus, a todos os santos em Cristo Jesus, inclusive
bispos e diáconos que vivem em Filipos" (Filipenses 1:1).

"Paulo, apóstolo de Cristo Jesus, por vontade de Deus, e o irmão Timóteo" (Colossenses
1:1).

"Paulo, prisioneiro de Cristo Jesus, e o irmão Timóteo, ao amado Filemom, também nosso
colaborador" (Filemom 1:1).

Apesar de ser filho, Timóteo foi chamado de colaborador e irmão, sendo por vezes
posto no mesmo nível de Paulo. Este é o fruto do relacionamento pai—filho: Paulo pegou
um jovem que trabalhava no ministério de uma área reduzida e alargou seu potencial a
limites que, de outra forma, nunca alcançaria na vida. Um pai estabelece o relacionamento
com o filho no ministério que será para este o início de um novo caminho de revelação e
maturidade.

O filho amadurece de forma que jamais sonhara;


O pai faz mais do que reproduzir seu ministério, ele o multiplica.

O relacionamento de pai e filho no ministério é a fundação de qualquer ministério e a


manifestação deste relacionamento reflete o relacionamento entre Deus, o Pai e o Senhor
Jesus Cristo, seu Filho. O esquema apresentado a seguir demonstra a dinâmica do
relacionamento pai—filho. Trago aqui alguns princípios básicos que podem ser vistos no
relacionamento entre,

1. O Pai e Jesus;
2. Jesus e os discípulos;
3. Paulo e Timóteo.

A. Os pais enviam filhos para o ministério.


1. Jesus é enviado pelo Pai ao mundo (João 7:28-29; 17:3).
2. Os discípulos são enviados ao mundo assim como o Pai fizera com o Filho (Lucas
9:2; João 20:21).
3. Um pai no ministério envia seu filho no ministério (Atos 19:22; 1 Coríntios 4:17).

B. Os pais testificam de seus filhos no ministério.


1. O Pai dá o testemunho e confirma o envio de seu filho (João 5:37; 8:17-18).
2. Jesus dá testemunho e confirma o envio dos discípulos (Marcos 16:20; João
20:21-22).
3. Paulo dá testemunho do ministério de Timóteo à congregação a qual foi enviado
(1 Coríntios 4:17; Filipenses 2:19-22).

C. Àqueles que o filho é enviado, manifesta a mente, a palavra e a obra do pai.

1. Jesus manifesta o Pai


a. Jesus seguiu o desejo do Pai (João 4:34; 5:30; 6:38).
b. Jesus falou as palavras de seu Pai (João 7:16, 18; 14:24).
c. Jesus realizou as obras de seu Pai (João 5:19; 9:4).
d. Jesus realizou as obras do Pai através do poder do Pai (João 14:10).

2. Os apóstolos foram a manifestação de Jesus para o mundo.


a. Os apóstolos seguiram o desejo de Deus (Atos 5:29).
b. Os apóstolos ensinaram as palavras de Jesus (Atos 4:13,18-20; 5:28, 42).
c. Os apóstolos realizaram as obras de Jesus (Atos 5:12, 41-42).
d. Os apóstolos realizaram obras através de Jesus (Atos 3:12-16).

3. Timóteo foi a manifestação de seu pai no ministério àqueles a quem Paulo o


enviou.
a. Timóteo tem a mesma mente e desejo de seu pai (Filipenses 2:19-22).
b. Timóteo ensina como seu pai ensinou (1 Coríntios 4:17).
c. Timóteo realiza as obras de seu pai (1 Coríntios 16:10).
d. Timóteo tem o legado de seu pai (2 Timóteo 1:2,6).

D. Muitos que professam amar ao pai desprezam o filho.

1. Jesus foi desprezado por ter sido enviado pelo Pai (Salmo 22:6; Isaías 53:3; João
15:24).
2. Os apóstolos foram desprezados porque foram enviados por Jesus (Lucas 10:16;
João 15:20-21; 1 Coríntios 4:9-10).
3. Timóteo e Tito foram desprezados porque foram filhos enviados por seu pai no
ministério (1 Coríntios 16:10-11; 1 Timóteo 4:12; Tito 2:15).

E. Quem recebe o filho enviado, recebe também o pai que o enviou.

1. Quem recebe Jesus, recebe o Pai (João 12:44-45).


2. Quem recebeu os discípulos, recebeu Jesus (Mateus 10:40; Jo 13:20).
3. Quem recebeu Timóteo, recebeu Paulo (1 Coríntios 4:17; 16:10).

Podemos ouvir o significado maior de ser um pai nas palavras de Paulo quando
descreveu Timóteo aos Filipenses: "Porque a ninguém tenho de igual sentimento que,
sinceramente, cuide dos vossos interesses; pois todos eles buscam o que é seu próprio, não o que
é de Cristo Jesus. E conheceis o seu caráter provado, pois serviu ao evangelho, junto comigo,
como filho ao pai" (Filipenses 2:20-22). Esta confirmação elogiosa foi como as vestes sobre
os ombros de Timóteo que deram a ele a liberdade para ministrar à igreja de Filipos.
Algumas pessoas passam toda a vida e nunca ouvem uma palavra positiva de seus pais,
por isto nunca se tornam o que poderiam ter sido em Deus.

A confirmação de um pai é importante por uma razão simples: o fluxo de autoridade


no ministério passa de pai para filho. Jesus realizou seu ministério, sob a autoridade de seu
Pai, afinal, não testificou a si mesmo; ele seguiu o princípio do testemunho de dois em seu
ministério: "Se eu testifico a respeito de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro"
(João 5:31). "Eu testifico de mim mesmo, e o Pai, que me enviou, também testifica de mim"
(João 8:18). Assim, um filho no ministério não deve dar testemunho de si mesmo, pois se o
fizer, irá interromper o fluir da autoridade. Quaisquer palavras ou ações de um ministério
para exaltá-lo a si próprio, ou para se colocar em determinada posição, não estão dentro da
ordem. Tal atitude causa danos tanto ao ministério quanto às pessoas que poderiam
receber dele. O próprio Jesus não entrou no ministério até a voz do Céu falar. A voz do pai
no ministério é necessária para confirmar o ministério do filho, que deve manifestar em sua
vida o pai, trazendo honra ao ofício. Por isto, a sentença "Ninguém despreze a tua mocidade"
é seguida por esta exortação:

"pelo contrário, torna-te padrão dos fiéis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na
pureza. Até à minha chegada, aplica-te à leitura, à exortação, ao ensino. Não te faças
negligente para com o dom que há em ti, o qual te foi concedido mediante profecia, com a
imposição das mãos do presbitério. Medita estas coisas e nelas sê diligente, para que o teu
progresso a todos seja manifesto. Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Continua nestes
deveres; porque, fazendo assim, salvarás tanto a ti mesmo como aos teus ouvintes" (1
Timóteo 4:12-16).

Sempre haverá aqueles que "seguindo a carne, andam em imundas paixões e


menosprezam qualquer governo. Atrevidos, arrogantes, não temem difamar autoridades superiores"
(2 Pedro 2:10). "Ora, estes, da mesma sorte, quais sonhadores alucinados, não só contaminam a
carne, como também rejeitam governo e difamam autoridades superiores" (Judas 1:8). É preciso
fazê-los calar, porque andam pervertendo casas inteiras, ensinando o que não devem, por torpe
ganância" (Tito 1:11).

Aqueles que saem perdendo mais são os que não recebem os filhos. Tal fato mostra
também como nunca receberam o pai. "Todos honrem o Filho do modo por que honram o Pai.
Quem não honra o Filho não honra o Pai que o enviou" (João 5:23). Temos de honrar nosso pai
e uma forma de fazê-lo é honrar o filho enviado pelo pai.

[O filho honra o pai, e o servo, ao seu senhor. Se eu sou pai, onde está a minha
honra? E, se eu sou senhor, onde está o respeito para comigo? - diz o SENHOR dos
Exércitos a vós outros, ó sacerdotes que desprezais o meu nome. Malaquias 1:6]

11
A HONRA DO PAI

Cruzei rapidamente o estacionamento e passei pela porta de vidro daquele prédio


com tijolos amarelos. O corredor branco e desolador se estendia em minha , frente como
uma estrada sem fim. Por cada porta que passava, ouvia algum gemido estranho ou
palavras .incompreensíveis, todos sons que me cortavam o coração. Meu sentimento era
confuso - a mistura triste da compaixão com a paciência diante do sofrimento tal como a
realidade exige - sempre quando ia até a clínica onde vivia meu pai.

Chegava muito rápido ao quarto 56 e, involuntariamente, hesitava sempre ao me


aproximar daquela porta envernizada em amarelo. O tempo trabalhou bem e eu soube
novamente que minhas recordações daquele homem maravilhoso, forte e gentil, estavam
prestes a ser contestadas pela verdade daquele momento.

Hoje ele está em uma cadeira de rodas, paralisado da cintura para baixo, sentado
desconfortavelmente de um só lado da cadeira, mantém-se preso a ela por um lençol
amarrado ao seu torso. Estava tentando desamarrar o nó quando cheguei. Sem
demonstrar qualquer sinal de que me reconhecera, perguntou se eu o tiraria "daquela
terrível prisão". Então, olhou para mim mais uma vez, emocionou-se sobremaneira e disse:

- Lucas, por onde você andou? Procurei por você a noite toda! (Lucas era seu irmão
mais velho).
- Pai, sou eu, Mark.
Ele tornou:
- Ah, é verdade!

Então pegou-me a mão e a beijou repetidas vezes e começou a chorar. Lutando


contra a doença que anuviava sua mente, reconheceu-me. "Eu sou Mark, sou seu filho" .

Metido naquela cadeira, lutando para permanecer no mundo da consciência, está um


homem pioneiro, fundador de mais de 20 igrejas; está o coração audaz que, com a idade
que tenho hoje, vendeu a fazenda, os móveis, os equipamentos e até mesmo os
brinquedos das crianças, e se mudou para uma região espiritualmente estéril, tendo de
começar tudo de novo, simplesmente pelo fato de, em suas palavras: "não ter encontrado
ninguém mais jovem que pudesse fazê-lo".

Geralmente quando estou com Meu Pai, cantamos louvores e citamos as Escrituras
juntos. Se eu começo, ele quase sempre consegue terminar. O Mal de Alzheimer roubou-
lhe a mente, mas o Espírito Santo sustenta forte seu coração!

Trouxe aqui esta experiência pessoal por vários motivos, os quais desejo discutir
neste capítulo final.
Em primeiro lugar, não visito e tomo conta de meu pai por causa de alguma coisa que
ele pode me dar ou fazer para mim. Com efeito, há vários anos tenho sido abençoado com
o privilégio de poder ajudar a casa de minha mãe e de meu pai. Além disto, não há herança
a ganhar em troca de minha atenção a meus pais. Eles não tem economias, propriedades,
ou tesouros para deixar em testamento. O motivo de minha devoção infinita, cuidado e
apoio é simplesmente a honra.

Em segundo lugar, parece-me impossível que um homem ou mulher de Deus passem


necessidade nos anos finais da vida, depois de terem compartilhado tanto de suas
experiências com os outros. Obviamente conheço a resposta padrão religiosa para isto,
que é a responsabilidade de uma organização ministerial ou congregação. Mas, de toda a
pesquisa que faço nas Escrituras, não encontrei este padrão, ou sequer o exemplo.

Antes do homem decidir ajudar Deus sintetizando todos estes remédios religiosos,
sempre houve - e ainda há - um plano espiritual poderoso para cuidar e sustentar os idosos
e os pais da fé. A questão real a nos colocarmos não é a falta ou presença de padrão, mas
a ausência de coragem para mudar e acolher o plano de Deus em lugar do plano do
homem. É sempre bom lembrar que a religião do homem sempre morre aos prantos!

A primeira vez que fui entrevistado pelo pessoal da Secretaria de Saúde do Estado
sobre o mal de meu pai e a possibilidade de conseguir algum lugar para ficar durante o
tratamento, as perguntas foram na seguinte direção:

"Quanto seu pai ganha por mês?"

Expliquei que juntos, meu pai e minha mãe, recebiam cerca de $500,00 de
aposentadoria por mês.

A pergunta seguinte foi: "E quanto aos imóveis que possuem?"

Para esta, minha resposta foi: "Não possuem nada" .

"Você trouxe as apólices de seguro deles?"

Minha resposta foi novamente negativa: "Eles não têm seguro".

Uma das funcionárias tirou os óculos impacientemente e perguntou: " Afinal, o que
eles têm?"

Sem titubear, disse: "Pois eles têm um filho... têm a mim".

Minha ação não foi premeditada, ainda assim, naquele momento expressei um
princípio natural e mais, abalei o centro de um conceito espiritual poderoso: a herança dos
filhos pode, eventualmente, tornar-se a herança dos pais. Eis aqui a manifestação da
honra.

Há razões pelas quais nos falta a dobrada porção de unção e nos perdemos do
legado da verdade espiritual. As bênçãos financeiras e o dinheiro para o auxílio adequado
ao Reino não são mera coincidência. A Bíblia é um livro de bênçãos e maldições, em
outras palavras, se obedecemos, somos abençoados; se desobedecemos, somos
amaldiçoados. Então, talvez devêssemos apresentar o caso seguindo as Escrituras. Deus
disse que o relacionamento entre pais e filhos deve vir à ordem para preparar para a
manifestação de Jesus e do Dia do Senhor: "Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que
venha o grande e terrível Dia do SENHOR; ele converterá o coração dos pais aos filhos e o coração
dos filhos a seus pais, para que eu não venha e fira a terra com maldição" (Malaquias 4:5-6). Por
favor, examinemos com cuidado o fim do versículo "para que eu não venha e fira a terra com
maldição".

Perdoem-me se soar sem rodeios e direto demais, mas novamente há motivos para
acreditarmos na existência de um número grande de ministérios totalmente fora de ordem.
Grande parte deles ordenam a si próprios ou são patrocinados por organizações e não
fazem idéia de sua verdadeira identidade paternal ou de sua responsabilidade. Estes
ministérios não são apenas órfãos ou sem pais, mas são com freqüência ilegítimos, sofrem
abusos e são rejeitados.

Já que observamos aqui a questão do relacionamento pai—filho sob o prisma da


honra do pai, vamos nos concentrar, então, na posição do pai. Falo assim porque penso
em Paulo, o apóstolo que deitou ao papel mais da metade de nosso Novo Testamento. Ele
vagou sozinho, ficou em prisões imundas, sofreu o frio e a falta de dinheiro; este pai de
igrejas, idosos, e outros apóstolos implorou a Timóteo, seu filho: "Quando vieres, traze a
capa que deixei em Trôade" (2 Timóteo 4:13). Este homem, que havia vestido tantos filhos,
naquele momento precisava de roupas. Ao fim da vida e reconhecendo que completara a
carreira (ver 2 Timóteo 4:7), ele finalmente afirmou com resignação em tom grave "ninguém
foi a meu favor; antes, todos me abandonaram" (2 Timóteo 4:16).

Davi foi sem dúvida o guerreiro mais amado da Bíblia. Suas vitórias da juventude
sobre ursos, leões e gigantes nos intrigam e fascinam. Sua luta com Saul é um clássico
trágico, mas ainda mais gloriosa é sua tenacidade que o fez persistir quinze longos anos do
óleo ao ouro! Por fim, coroado três vezes em Hebrom, Davi estabeleceu o reino e fez de
Jerusalém a "cidade de Davi", ergueu o tabernáculo e louvou a Jeová.

Os anos passaram, levando consigo o aroma e o frescor da vida. Vez por outra,
ocorria que o aroma na vida de Davi (e também na nossa vida é assim) tornava-se mau
cheiro. A vida não encerra apenas o conjunto dos bons momentos, pois o amálgama
destes fatos. Davi pecou, permitiu que a iniqüidade se mantivesse entre seus filhos e fez
prevalecer uma série de más decisões - ainda assim Deus disse que ele era um homem
segundo o coração do Senhor (ver Atos 13:22).
Nesta parte, desejo tratar brevemente da questão sobre a bagagem de um pai. O
pecado nunca deve ser coberto, assim como o verdadeiro arrependimento não pode ser
ignorado. Se usarmos como medida o exemplo dos pais na Bíblia, vemos que a perfeição
sempre foi rara, desviando do caminho a família inteira. O realinhamento sempre foi um
critério divino para a continuidade; os pais não deixam de ser pais porque suas vidas ou
atitudes são imperfeitas. Se este fosse o caso, então não haveria mais pais e,
conseqüentemente, também não haveria mais filhos! Contudo, como sempre acontece, a
recusa ao arrependimento e à conversão se mantêm como os maiores desqualificadores.

Não podemos nos esquecer de Noé, o homem mais reto que Deus conseguiu
encontrar naquele tempo. E sempre importante lembrarmos que sua obediência, contra
todo e qualquer lampejo de razão, salvou uma família humana durante a época de
descontentamento e ira divinas. É importante também não nos esquecermos que Noé
pecou. Ele plantou uma vinha e ficou bêbado devido à sua façanha bem-sucedida. Então,
seu filho Cam, ao ver o pai fraco e na vergonha, lançou fora a honra e conseguiu para si e
sua semente apenas uma maldição. Sem e Jafé, por outro lado, honraram e cobriram o pai
e, por isto, receberam bênçãos (ver Gênesis 9).

Com respeito a Davi, 2 Samuel 21:15 diz: "De novo, fizeram os filisteus guerra contra
Israel. Desceu Davi com os seus homens, e pelejaram contra os filisteus". A familiaridade
com o campo de batalha parece ter sido uma constante na vida de Davi. O episódio ao qual
agora nos referimos não é lá tão diferente de todos os outros, exceto por descobrirmos
neste que o grande guerreiro, que outrora se gloriava na batalha, ficara então "mui
fatigado". As Escrituras mostram como Abisai, um dos filhos de Israel, feriu e matou o
filisteu que atormentava Davi: "Porém Abisai, filho de Zeruia, socorreu-o, feriu o filisteu e o
matou; então, os homens de Davi lhe juraram, dizendo: Nunca mais sairás conosco à peleja, para
que não apagues a lâmpada de Israel" (2 Samuel 21:17).

Há um tempo em que os pais não conseguem mais trabalhar da mesma maneira, ou


com a mesma força que fez despertar nos corações de seus filhos o amor e a adoração
dos velhos tempos. Apesar de a chama da vida e do desejo ainda luzirem com energia em
seus corações, seus dias de atividade no serviço acabam por esmaecer. Com isto, cabe-
lhes somente liderar as tropas à distância.

Algum dia um pai terá de se conservar em um quarto pequeno, esperando por


uma capa antes da chegada do inverno. Esta cobertura deve ser trazida por aquele
que tantas vezes foi coberto pela paternidade deste ancião, seu filho. Há um tempo
quando o legado dos filhos é convertido de volta a seus pais; assim é a honra.

A palavra 'honra' aparece em 146 oportunidades em 136 versículos bíblicos. A


palavra na língua original parece indicar o poder de alguém que é visto como grande
e glorioso, e mais, provoca no outro a submissão com respeito.
Êxodo 20:12 afirma: "Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na
terra que o SENHOR, teu Deus, te dá" (Êxodo 20:12). Jesus citou Moisés dizendo: "Honra a
teu pai e a tua mãe; e: Quem maldisser a seu pai ou a sua mãe seja punido de morte" (Mateus
15:4).

Em Mateus 15, Jesus admoestou os líderes religiosos de seus dias por sua falta de
honra para com os pais:

"Ele, porém, lhes respondeu: Por que transgredis vós também o mandamento de Deus, por
causa da vossa tradição? Porque Deus ordenou: Honra a teu pai e a tua mãe; e: quem
maldisser a seu pai ou a sua mãe seja punido de morte. Mas vós dizeis: Se alguém disser a
seu pai ou a sua mãe: é oferta ao Senhor aquilo que poderias aproveitar de mim; esse jamais
honrará a seu pai ou a sua mãe. E, assim, invalidastes a palavra de Deus, por causa da
vossa tradição. Hipócritas! Bem profetizou Isaías a vosso respeito, dizendo: este povo honra-
me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando
doutrinas que são preceitos de homens" (Mateus 15:3-9).

Estas palavras de nosso Salvador refere-se a um furo na teologia dos fariseus criado
para subverter o plano de Deus, mas usando seu santo nome, para assim conservarem
seu estilo de vida ganancioso e uma aparente religiosidade reta. Se um pai estivesse
passando necessidade e pedisse a ajuda do filho, este poderia dizer apenas "Corbã", ou
"oferta". Esta palavra mágica reservava bens ou dinheiro como "separados para Deus",
portanto, qualquer pedido de ajuda poderia ser negado com a desculpa que tais bens e
dinheiro não poderiam ser para uso secular, exceto pelo seu detentor, o qual os "guardaria"
para Deus por um período de tempo indefinido. Assim, não era necessário honrar pai nem
mãe, pois o detentor se considerava desobrigado de tal responsabilidade.

Esta é uma atitude semelhante ao ministério de algumas pessoas hoje em dia que
não demonstram honra para com os pais no ministério. Confiantes no entendimento falso,
nós negamos e barramos os mandamentos de Deus em nossos relacionamentos sempre
quando nos desobrigamos das necessidades de um pai. Para tanto, nós o culpamos por
não jogar corretamente o jogo do "ore e pague", ou então citamos falas de falsa fé, como
"ele é homem de Deus; que Deus, portanto, tome conta dele".

Jesus cita também Isaías para nos mostrar que honrar não é simplesmente uma
questão de belas palavras, mas significa converter o coração para a outra pessoa. A
manifestação da honra deve ser ofertada na esfera de nossa capacidade para doar,
mostrar e fazê-la considerável. Uma manifestação verdadeira de honra requer mais do que
oratória. Devemos honrar nossos pais não apenas em nossos sentimentos, mas também
em nossas atitudes. Isaías profetizou: "Visto que este povo se aproxima de mim e com a
sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim, e o seu
temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, que maquinalmente
aprendeu" (Isaías 29:13). Não são apenas as tradições e mandamentos humanos que
apagam o temor e a honra que deveriam ser dadas a Deus, mas também apagam o temor
e a honra que deveriam ser dadas aos seus pais, tanto o físico quanto o espiritual.

Quem não honra desta forma, freqüentemente está imerso em um halo de orgulho.
Quem alimenta tal sentimento afirma ou manifesta a idéia de não precisar de ninguém ou, o
que é pior, sob o jugo de seu orgulho, atestam que tudo o que conseguiram na vida foi
resultado de seu próprio esforço e nada adveio do que receberam. Em Provérbios 15:33
aprendemos que certa atitude é necessária para que haja honra: "O temor do SENHOR é a
instrução da sabedoria, e a humildade precede a honra". Em Provérbios 18:12 está escrito:
"Antes da ruína, gaba-se o coração do homem, e diante da honra vai a humildade". No
versículo 22:4, "o galardão da humildade e o temor do SENHOR são riquezas, e honra, e
vida". Portanto, devemos admitir que a falta de honra é também a falta de humildade, e a
falta de humildade indica, na maioria dos casos, uma enormidade de orgulho.

Não podemos nos esquecer: "Porque, ainda que tivésseis milhares de preceptores em
Cristo, não teríeis, contudo, muitos pais" (1 Coríntios 4:15). É fácil para nós recebermos
instruções e alcançarmos o entendimento segundo uma infinidade de fontes, sem ser
necessário abrirmos um espaço em nossas vidas para colocar a honra. Porém, Deus
precisa, no dia de hoje, que nos coloquemos na posição adequada e reconheçamos o valor
– com mais do que apenas os lábios – daqueles que passaram antes de nós, a fim de se
acabar com a maldição que abateu sobre o povo do Reino; os pais que estabeleceram o
governo, a ordem e as bases em nossas vidas devem ser honrados. Repito ainda, a
manifestação da honra, que ocorre na esfera de nossa capacidade para doar, faz-se clara
nas Escrituras.

Ela não é apenas clara, mas as Escrituras também mostram as formas de como a
honra se manifesta. Em Provérbios 3:9 está dito: "Honra ao SENHOR com os teus bens e
com as primícias de toda a tua renda". Honra e bens aparecem aqui como sinônimos.

Já que passamos algum tempo conversando sobre o Rei Davi nestas páginas, seria
bom darmos uma olhada em 1 Crônicas 29:28: "Morreu em ditosa velhice, cheio de dias,
riquezas e glória". O versículo 2 Crônicas 1:12 afirma: "sabedoria e conhecimento são
dados a ti, e te darei riquezas, bens e honras", Sobre Josafá, 2 Crônicas 17:15 diz: "O
SENHOR confirmou o reino nas suas mãos, e todo o Judá deu presentes a Josafá, o qual
teve riquezas e glória em abundância",

É bastante clara a ligação entre as riquezas e a honra, que andam lado a lado.

Com isto, as palavras do Senhor, "este povo se aproxima de mim e com a sua boca e com
os seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim", parecem indicar que as
palavras são ditas, mas não há riquezas. Quando Nabucodonosor passava por seu grande
dilema, ordenou que alguém viesse para levar-lhe a resposta em forma de interpretação
para seus sonhos. Ele disse, de acordo com Daniel 2:6, "mas, se me declarardes o sonho e a
sua interpretação, recebereis de mim dádivas, prêmios e grandes honras; portanto, declarai-me o
sonho e a sua interpretação". Além disto, o reconhecimento de Nabucodonosor sobre a
capacidade de Deus falar em sua vida pode ser vista em Daniel 11:38: "Mas, em lugar dos
deuses, honrará o deus das fortalezas; a um deus que seus pais não conheceram, honrará com
ouro, com prata, com pedras preciosas e coisas agradáveis" .

A compreensão de se honrar com a doação de apoio financeiro é mais evidenciada


na instrução do apóstolo Paulo: "Honra as viúvas verdadeiramente viúvas" (1 Timóteo 5:3).
Novamente, em referência ao ministério ele diz: "Devem ser considerados merecedores de
dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na
palavra e no ensino. Pois a Escritura declara: Não amordaces o boi, quando pisa o trigo. E ainda: O
trabalhador é digno do seu salário" (1Timóteo 5:17-18). A honra concedida apenas através
dos lábios não é honra verdadeira. Por toda a Escritura há um enorme número de
passagens a demonstrar esta verdade - a honra sempre vai com a riqueza, incluindo o
ouro, a prata, as pedras preciosas, as coisas agradáveis.

Por isto, agora podemos ver mais claramente o significado das palavras de Deus em
Malaquias 1:6 - o tema deste capítulo:

"O filho honra o pai, e o servo, ao seu senhor. Se eu sou pai, onde está a minha honra? E, se
eu sou senhor, onde está o respeito para comigo? - diz o SENHOR dos Exércitos a vós
outros, ó sacerdotes que desprezais o meu nome. Vós dizeis: Em que desprezamos nós o teu
nome?" (Malaquias 1:6).

Nesta passagem, os sacerdotes não demonstram remorso e revelam não fazer idéia
de sua responsabilidade com Deus. Enquanto dizem que honram Deus, julgam estar tudo
bem, mas Deus afirma que seu nome está sendo desprezado. Mais adiante em Malaquias,
podemos ler: "Trazei todos os dízimos à casa do Tesouro, para que haja mantimento na minha
casa; e provai-me nisto, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu e não
derramar sobre vós bênção sem medida" (Malaquias 3:10). Em outras palavras, Deus diz que
deseja retirar a maldição advinda do fato de não receber honra caso manifestemos nossa
honra na forma de tesouros e mantimentos. Tal ato abrirá a janela do céu e dará início ao
fluir de bênçãos em nossa vida.

Outra passagem em Segunda Crônicas nos fala de um rei: "Teve Ezequias riquezas e
glória em grande abundância; proveu-se de tesourarias para prata, ouro, pedras preciosas,
especiarias, escudos e toda sorte de objetos desejáveis" (2 Crônicas 32:27). Sabemos mais
adiante que Ezequias cometeu um grande erro ao mostrar estas bênçãos a seus inimigos,
que por fim se perderam quando Jerusalém foi tomada por Nabucodonosor. Estes e outros
erros só são levados adiante por quem pensa que honrar a si próprio é a forma mais alta
de honra que pode haver.

Em nenhuma outra parte esta verdade é melhor apresentada do que no Livro de


Ester, na história de Mordecai e Hamã. O primeiro prestou grande serviço ao rei Assuero
ao descobrir e avisá-lo sobre uma conspiração cujo objetivo era tirar a vida do rei. Assuero
quis por isto dar algo especial a Mordecai e chamou Hamã dizendo: "Que se fará ao homem
a quem o rei deseja honrar? Então, Hamã disse consigo mesmo: De quem se agradaria o rei mais
do que de mim para honrá-lo?" (Ester 6:6). Hamã pensou que a honra era sua, então
respondeu ao rei: "tragam-se as vestes reais, que o rei costuma usar, e o cavalo em que o rei
costuma andar montado, e tenha na cabeça a coroa real; entreguem-se as vestes e o cavalo às
mãos dos mais nobres príncipes do rei, e vistam delas aquele a quem o rei deseja honrar; levem-no
a cavalo pela praça da cidade e diante dele apregoem: Assim se faz ao homem a quem o rei deseja
honrar" (Ester 6:8-9). Hamã ainda pensava que seria ele quem receberia esta honra. Para
seu desapontamento, o rei conferiu a Mordecai a honra e destacou Hamã para ser quem o
conduziria pela cidade a cavalo. "Hamã tomou as vestes e o cavalo, vestiu a Mordecai, e o ...
levou a cavalo pela praça da cidade, e apregoou diante, dele: Assim se faz ao homem a quem o rei
deseja honrar" (Ester 6:11).

Esta história revela o espírito de muitas pessoas em nosso meio atualmente que não
conseguem pensar em outra honra senão a própria. São pessoas com influência no Reino
e, por isto, assumem que toda a honra lhes pertence. Por causa deste tipo de atitude,
muitos ministérios paralelos à igreja e organizações tomam o lugar dos pais nas vidas dos
outros, mas esta é honra roubada, porque vem do orgulho.

Estas pessoas, que não são senão depósitos de bênçãos, entendem também que
tudo o que conseguirem, independente da fonte, lhes pertence. Daí a fala de Jeremias:
"Portanto, eis que eu sou contra esses profetas, diz o SENHOR, que furtam as minhas palavras,
cada um ao seu companheiro. Eis que eu sou contra esses profetas, diz o SENHOR, que pregam a
sua própria palavra e afirmam: Ele disse" (Jeremias 23:30-31). Sem fazer muito mais do que
dizer 'obrigado' eles roubam temas, mensagens e proclamam revelações que "tomam
emprestado" junto a pessoas menos conhecidas, apregoando que eles próprios receberam
as revelações de Deus. Um pai não se importa que um filho use as coisas da casa.
Nenhum homem de Deus sente-se ofendido por outra pessoa com a qual tem
relacionamento por tomar emprestada sua inspiração, repetir revelações, ou usar idéias
espirituais, quando foram emprestadas pelos meios adequados de sua ligação. Um filho
não deve se sentir um ladrão quando usa as coisas de seu pai. O ladrão é quem invade na
calada da noite, coberto com o manto da traição e proclama que as coisas que tem são
suas quando, na verdade, tomou de outrem. Tal homem não é apenas ladrão, mas também
mentiroso.

Muitas das revelações e inspirações divulgadas hoje em dia são palavras e temas,
frutos do trabalho árduo de oração de mulheres e homens que por elas dedicaram a vida.
Passaram por uma etapa enorme, para conseguir tais frutos. Mas, depois de tanta
dedicação, são roubados por gente como Hamã no Reino, que acreditam pertencer a eles
a honra.

Um filho verdadeiro tem direito sobre todos os bens de seu pai por herança. Na
medida que honre o pai e expresse um motivo justo para usar os bens, jamais será privado
deles. Contudo, fora do relacionamento pai—filho, qualquer fruto retirado da árvore de
outro homem deve ser considerado honra roubada. Estas pessoas que "tomam
emprestado" não seguiram um preceito bíblico de dar "a quem honra, honra" (Romanos
13:7). Tendo suas árvores abarrotadas com frutos de revelações e com os galhos
sobrecarregados de verdades que não conseguiram enraizar através de seu próprio
trabalho, eles irão acabar pesando demais na copa e a árvore tombará.

O grande problema do rei Saul foi não achar errado tomar o lugar de Samuel. Pelo
fato de ser rei, entendeu que tinha o direito de oferecer o sacrifício. A resposta de Deus foi
então: "Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender, melhor do que a gordura de
carneiros" (1 Samuel 15:22).

Em 2 Crônicas 26:18 há o registro da história de Uzias, o rei que foi amaldiçoado pela
lepra porque achou que poderia queimar incenso ao Senhor, como se estivesse no ofício
de sacerdote:

"Resistiram ao rei Uzias e lhe disseram: A ti, Uzias, não compete queimar incenso perante o
SENHOR, mas aos sacerdotes, filhos de Arão, que são consagrados para este mister; sai do
santuário, porque transgrediste; nem será isso para honra tua da parte do SENHOR Deus" (2
Crônicas 26:18).

Com isto, Uzias tomou uma honra que pertencia aos filhos de Arão.

Geazi não viu razão para não receber as vestes e a prata de Naamã, mesmo quando
Eliseu, por algum motivo estranho, recusou tal generosidade. Onde está o mal em receber
presentes de um sírio que foi curado?

"Ele, porém, entrou e se pôs diante de seu senhor. Perguntou-lhe Eliseu: Donde vens, Geazi?
Respondeu ele: Teu servo não foi a parte alguma. Porém ele lhe disse: Porventura, não fui
contigo em espírito quando aquele homem voltou do seu carro, a encontrar-te? Era isto
ocasião para tomares prata e para tomares vestes, olivais e vinhas, ovelhas e bois, servos e
servas? Portanto, a lepra de Naamã se pegará a ti e à tua descendência para sempre. Então,
saiu de diante dele leproso, branco como a neve" (2 Reis 5:25-27).

O coração paterno de Eliseu se convertera a Geazi, mas o coração deste último se


convertera à obtenção de riquezas. O crime de Geazi não foi apenas desobedecer o desejo
de um profeta, mas também receber riquezas as quais Eliseu recusara. Novamente vemos
aqui a honra igualada ao dinheiro e, da mesma forma, vemos o julgamento de Deus contra
quem rouba a honra. Pelo fato de a pele ser a cobertura do corpo, quando acontece uma
desonra contra a cobertura espiritual, a sentença recai sobre a região do corpo paralela a
da ofensa.

O plano de Deus para o cuidado com os pais foi determinado no sacerdócio. O


Senhor falou a Moisés:
"Também falarás aos levitas e lhes dirás: Quando receberdes os dízimos da parte dos filhos
de Israel, que vos dei por vossa herança, deles apresentareis uma oferta ao SENHOR: o
dízimo dos dízimos. Atribuir-se-vos-á a vossa oferta como se fosse cereal da eira e plenitude
do lagar. Assim, também apresentareis ao SENHOR uma oferta de todos os vossos dízimos
que receberdes dos filhos de Israel e deles dareis a oferta do SENHOR a Arão, o sacerdote.
De todas as vossas dádivas apresentareis toda oferta do SENHOR: do melhor delas, a parte
que lhe é sagrada. Portanto, lhes dirás: Quando oferecerdes o melhor que há nos dízimos, o
restante destes, como se fosse produto da eira e produto do lagar, se contará aos levitas.
Comê-lo-eis em todo lugar, vós e a vossa casa, porque é vossa recompensa pelo vosso
serviço na tenda da congregação. Pelo que não levareis sobre vós o pecado, quando deles
oferecerdes o melhor; e não profanareis as coisas sagradas dos filhos de Israel, para que não
morrais" (Números 18:26-32).

Vale lembrar que Deus dá valor às pessoas que dão dízimo como se tivessem dado
tudo. É assim porque eles trazem o desejo de obedecer a Deus quando dão a décima
parte.

Deus é o Senhor, por isto, "chama à existência as coisas que não existem" (Romanos
4:17). É capaz de dizer "já que devem tudo o que têm a mim, e eu desejo tudo de . vocês,
não apenas o dízimo, farei um acordo. Se me . der o que eu peço, o dízimo, a décima
parte, então entenderei que me deram tudo, todo o milho e todo o vinho". Como é glorioso
o Deus fiel ao qual servirmos!

Ele continua falando em Números: "Assim, também apresentareis ao SENHOR uma oferta
de todos os vossos dízimos que receberdes dos filhos de Israel e deles dareis a oferta do SENHOR
a Arão, o sacerdote" (Números 18:28). Arão foi o sumo sacerdote. Era o pai dos filhos dos
sacerdotes.

Vamos ler novamente os versículos de 29 a 31:

"De todas as vossas dádivas apresentareis toda oferta do SENHOR: do melhor delas, a parte
que lhe é sagrada. Portanto, lhes dirás: Quando oferecerdes o melhor que há nos dízimos, o
restante destes, como se fosse produto da eira e produto do lagar, se contará aos levitas.
Comê-lo-eis em todo lugar, vós e a vossa casa, porque é vossa recompensa pelo vosso
serviço na tenda da congregação" (Números 18:29-31).

Em outras palavras, Deus não faz a conta do dízimo que as pessoas dão aos
pastores, ou aos levitas, até que estes o levem ao sumo sacerdote, ou ao apóstolo, ou a
seus pais, a décima parte de seu próprio dízimo. A décima parte do dízimo recebido junto
ao povo pertence a Arão, o sumo sacerdote.

O sumo sacerdote do Velho Testamento equivale ao apóstolo do Novo Testamento. O


autor de Hebreus usa os termos tanto do Velho quanto do Novo Testamento quando fala
que Jesus é: "o Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa confissão" (Hebreus 3:1), pois o apóstolo
e o sumo sacerdote são pais que tomam conta de nosso ministério. Então, o "dízimo do
dízimo" deveria ser levado ao sumo sacerdote (com nosso conhecimento do Novo
Testamento, levado ao apóstolo ou ao pai no ministério), para que o dízimo das pessoas
pudesse ser abençoado.
Será que grande parte dos problemas que temos nas finanças da igreja são o
resultado de não se oferecer o dízimo do dízimo ao pai no ministério? É possível que as
bênçãos prometidas ao povo todas as semanas quando recebemos seu dízimo, tais como
"será abençoado e próspero", porque ele honra Deus com seu dízimo, estejam baseadas
em uma ordem que nós próprios ignoramos? Será que esta bênção foi diminuída por não
termos honrado Deus com nosso dízimo?

Grande parte dos pastores dá o dízimo em sua própria igreja; pagam assim a si
próprios, mas isto não é ofertar o dízimo. O Novo Testamento, no Livro dos Hebreus,
quando trata de Abraão e Melquisedeque, e evidentemente o inferior pagou ao superior
(ver Hebreus 7:2,7). O dízimo deve sempre andar com a ligação até a cabeça. Quando o
óleo é derramado em Arão, flui primeiro de sua cabeça até a gola de suas vestes (ver
Salmo 133). O abandono dos pais provoca o rompimento da ligação, com isto, o óleo
derramado na liderança, não flui para o restante da Igreja.

Jesus afirmou: "Quem vos recebe a mim me recebe; e quem me recebe, recebe aquele que
me enviou" (Mateus 10:40)

Este parece ser um tema recorrente em seu ministério, como vemos mais adiante em
João: "a fim de que todos honrem o Filho do modo por que honram o Pai. Quem não honra o
Filho não honra o Pai que o enviou" (João 5:23). Podemos perceber que há uma ligação
entre pais e filhos.

Novamente em João, Jesus é acusado de estar possuído. Ele respondeu: "Eu não
tenho demônio; pelo contrário, honro a meu Pai, e vós me desonrais" (João 8:49). Então, a
seguir, explica: "Se eu me glorifico a mim mesmo, a minha glória nada é; quem me glorifica é meu
Pai, o qual vós dizeis que é vosso Deus" (João 8:54). Nesta parte, Jesus diz que sua glória e
honra não são suas próprias, mas vêm do Pai e fluem do alto.

Para mostrar ainda que a honra flui para baixo por meio do relacionamento entre pais
e filhos, Jesus disse: "Se alguém me serve, siga-me, e, onde eu estou, ali estará também o meu
servo. E, se alguém me servir, o Pai o honrará" (João 12:26). Em outras palavras, se
servirmos a Jesus, não conseguiremos apenas sua bênção, mas também a do Pai que flui
através do Filho.

Por favor, pare aqui um momento e reflita. Quantas mulheres e homens de Deus
deram suas vidas em nome do evangelho, fundaram igrejas, criaram filhos como meu
querido pai o fez, para no fim morrerem na desonra e na pobreza? Quantas mulheres e
homens ainda se mantêm no serviço sobre o púlpito e no ministério quando eles próprios
reconhecem seus esforços como inadequados? Eles continuam simplesmente porque não
tem outro ganho ou auxílio financeiro se pararem.

A Escritura nos ensina que o sumo sacerdote não deveria servir no tabernáculo após
os cinqüenta anos, "mas desde a idade de cinqüenta anos desobrigar-se-ão do serviço e
nunca mais servirão; porém ajudarão aos seus irmãos na tenda da congregação, no
tocante ao cargo deles; não terão mais serviço. Assim farás com os levitas quanto aos
seus deveres" (Números 8:25-26).
O sumo sacerdote não deve mais queimar incenso ou carregar bandejas nem
acender velas, em vez disto, deve se sentar ao portão como um ancião conselheiro na
cidade. Todavia isto seria impossível no ministério de nossos dias. A única fonte de
sustento destes homens vem de sua capacidade de continuarem no ofício. Desta forma,
diminuímos o ministério e cerramos os portões à bênção.

Reconheço que minhas afirmações serão criticadas. Entendo que muita gente se
sentirá ofendida, especialmente quem é orgulhoso, pois as águas tomadas emprestadas e
a inspiração roubada crescem de forma alarmante no mundo da Igreja atualmente. Os
homens sabem que ao se tornarem velhos não haverá mais nada para eles. Portanto, em
vez de buscar o alívio bíblico para os problemas, muitos preferem implorar, tomar
emprestado ou até mesmo roubar para acumular bens suficientes antes que estejam
velhos demais para oficiar. Devem conseguir – a qualquer custo – casas, carros, roupas
enquanto ainda são jovens e fortes, porque não haverá herança quando estiverem idosos.
Devemos, deste modo, pegar a herança dos pais aos filhos e levá-la de volta aos pais,
como forma de honrá-los.

Lembro-me da história de Saul. Antes de se tomar rei de Israel, era apenas um jovem
enviado por seu pai à procura das jumentas. Ao perceber que não conseguiria encontrá-
las, decidiu, juntamente com seu servo, que deveria procurar alguém com sabedoria em
Deus que lhes pudesse ajudar. "Porém ele lhe disse: Nesta cidade há um homem de Deus, e é
muito estimado; tudo quanto ele diz sucede; vamo-nos, agora, lá; mostrar-nos-á, porventura, o
caminho que devemos seguir" (1 Samuel 9:6). Saul, que à época era humilde e não sobejava
em arrogância, disse ao servo que não poderia ir até o homem de Deus porque "presente
não temos que levar ao homem de Deus" (1 Samuel 9:7). Não levaria a revelação do
homem sem deixar algo em seu lugar. De acordo com o versículo oitavo, o servo
respondeu a Saul: "Eis que tenho ainda em mãos um quarto de siclo de prata, o qual darei
ao homem de Deus, para que nos mostre o caminho" (1 Samuel 9:8). É importante lembrar
que Saul, antes de ser orgulhoso e arrogante a ponto de tomar o lugar do sacerdote, não
pediria sequer direção espiritual sem oferecer algum bem, uma manifestação de honra, ao
homem de Deus.

O livro de Tiago declara: "Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos
campos e que por vós foi retido com fraude está clamando; e os clamores dos ceifeiros penetraram
até aos ouvidos do Senhor dos Exércitos" (Tiago 5:4). Nossos pais espirituais foram pioneiros
nas fronteiras do Reino para nós. Eles nos legaram regiões de revelação pelas quais não
pagamos nada, mas que lhes custou tudo. a Senhor ouve o clamor dos idosos que
carecem de apartamentos, quartos de hospital e moram em casas precárias. Ouve àqueles
que deram a vida pelo evangelho, os quais, agora, nós entregamos nas mãos do Estado.
Não podemos conclamar "Corbã" e fingir que uma dívida de honra não existe. Deveríamos
restaurar estes vasos de ouro à condição de sua época áurea. Talvez devêssemos
rememorar que se eles são nossos pais e devemos-lhes honra. Depois do reinado maligno
de Atalia, Joás regressou de seus sete anos de esconderijo e reinou na terra, trazendo
grande reavivamento e reforma à casa de Deus. A casa do Senhor havia sido esquecida e
havia muita carência em sua estrutura. Joás começou um projeto de restauração do templo
do Senhor à ordem apropriada.

"Disse Joás aos sacerdotes: Todo o dinheiro das coisas santas que se trouxer à Casa do
SENHOR, a saber, a taxa pessoal, o resgate de pessoas segundo a sua avaliação e todo o
dinheiro que cada um trouxer voluntariamente para a Casa do SENHOR, recebam-no os
sacerdotes, cada um dos seus conhecidos; e eles reparem os estragos da casa onde quer
que se encontrem" (2 Reis 12:4-5).

O sacerdote não cumpriu as palavras do rei.

"Sucedeu, porém, que, no ano vigésimo terceiro do rei Joás, os sacerdotes ainda não tinham
reparado os estragos da casa. Então, o rei Joás chamou o sacerdote Joiada e os mais
sacerdotes e lhes disse: Por que não reparais os estragos da casa? Agora, pois, não recebais
mais dinheiro de vossos conhecidos, mas entregai-o para a reparação dos estragos da casa.
Consentiram os sacerdotes, assim, em não receberem mais dinheiro do povo, como em não
repararem os estragos da casa' (2 Reis 12:6-8).

Há estragos terríveis na casa de Deus. Os pais no ministério não recebem a honra


adequada. Derramaram suas vidas, mas nada receberam em troca. Jamais deveríamos
esperar até que um pai espiritual esteja incapaz de se sustentar para lhe darmos honra.
Este buraco no relacionamento entre pais e filhos é o ferimento que se abre quando a vida
dos pais flui inteiramente aos filhos, mas não há fluxo de honra dos filhos aos pais. Os pais
devem proporcionar a ligação entre as gerações para o legado de mantos na dobrada
porção. Um filho deve jogar água nas mãos do seu pai no ministério antes de se separar
dele. O problema maior a ser superado no ministério de hoje é se estabelecer uma ligação
sobre o abismo entre as gerações de pais e filhos no ministério.

O Senhor prometeu ferir a terra com um anátema, que virá se não houver uma
conversão dos pais para os filhos, mas também dos filhos aos pais. "Ele converterá o coração
dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais, para que eu não venha e fira a terra com
maldição" (Malaquias 4:6). Se não consertarmos os estragos nas paredes, haverá sempre
estragos no Espírito. O Senhor também pode dizer aos filhos que não honram os pais: "não
receberem mais dinheiro do povo, como em não repararem os estragos da casa".

Há sempre estragos quando a voz do Senhor é ignorada e seu desejo negligenciado.


Este estrago no Senhor foi de encontro ao bom homem Uzá. Ele morreu porque tentou
fazer uma coisa boa, mas estava na ordem errada.

"Puseram a arca de Deus num carro novo e a levaram da casa de Abinadabe, que estava no
outeiro; e Uzá e Aiô, filhos de Abinadabe, guiavam o carro novo (...). Quando chegaram à eira
de Nacom, estendeu Uzá a mão à arca de Deus e a segurou, porque os bois tropeçaram.
Então, a ira do SENHOR se acendeu contra Uzá, e Deus o feriu ali por esta irreverência; e
morreu ali junto à arca de Deus. Desgostou-se Davi, porque o SENHOR irrompera contra
Uzá; e chamou aquele lugar Perez-Uzá, até ao dia de hoje" (2 Samuel 6:3,6-8).

Ele morreu tentando segurar a arca. Mas esta era carregada por um carro de bois -
um padrão humano - em vez de ser carregada sobre os ombros do sacerdote. O lugar da
divindade deve estar na ordem que o "governo está sobre os seus ombros (...) e venha paz sem
fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reino, para o estabelecer e o firmar mediante o juízo e a
justiça, desde agora e para sempre" (Isaías 9:6-7).

O único lugar adequado para o governo, a ordem e o padrão é sobre os ombros do


sacerdócio. Carregar o fardo do Senhor é, de outra forma, a morte. As boas intenções
jamais substituirão a ordem divina. Os filhos permitiram aos pais no ministério carregar todo
o peso de seu ofício sobre os próprios ombros. Mas os pais nunca deveriam fazê-los
sozinhos, pois é uma ordem inadequada.

"Pois, visto que não a levastes na primeira vez, o SENHOR, nosso Deus, irrompeu contra
nós, porque, então, não o buscamos, segundo nos fora ordenado" (1 Crônicas 15:13). Davi
descobriu a ordem do sacerdócio e percebeu que Uzá morreu, não pelo fato de Deus ser
cruel, mas porque exigia que a ordem revelada de seu desejo fosse obedecida.

Pessoas boas sofrem hoje em dia em uma ordem estragada que não concede a
honra no lugar aonde a honra deve ir. Se os filhos de um pai no ministério não seguirem a
ordem adequada de Deus, continuaremos a ter um ministério deteriorado, sem ligação no
legado e impossibilitado de dar à luz o verdadeiro ministério.

Estamos na iminência de Deus se desagradar conosco: "Segundo o número dos dias em


que espiastes a terra, quarenta dias, cada dia representando um ano, levareis sobre vós as vossas
iniqüidades quarenta anos e tereis experiência do meu desagrado" (Números 14:34).

Se não honrarmos nossos pais, continuaremos no deserto até surgir uma geração
que obedecerá a voz do Senhor.

"Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração como foi na provocação, no dia
da tentação no deserto, onde os vossos pais me tentaram, pondo-me à prova, e viram as
minhas obras por quarenta anos. Por isso, me indignei contra essa geração e disse: Estes
sempre erram no coração; eles também não conheceram os meus caminhos" (Hebreus 3:7-
10).

Caso os corações dos pais se convertam aos filhos e o coração dos filhos se
convertam aos pais, a terra e a Igreja estarão livres da maldição. Se temos um pai no
ministério, onde está sua honra? Será que está bloqueada até toda a herança ser
recebida? Ou será que recusamos depositar a honra onde deve ser, propriamente,
depositada? "Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto;
a quem respeito, respeito; a quem honra, honra" (Romanos 13:7).

Devemos seguir a ordem de Deus ao carregar o fardo do ministério, os pais não


podem carregar as bênçãos de Deus sozinhos. Se os filhos não honrarem seus pais no
ministério, não poderemos consertar os estragos feitos na casa de Deus.
"Os teus filhos edificarão as antigas ruínas; levantarás os fundamentos de muitas gerações e
serás chamado reparador de brechas e restaurador de veredas para que o país se torne
habitável" (lsaías 58:12).

"Naquele dia, levantarei o tabernáculo caído de Davi, repararei as suas brechas; e,


levantando-o das suas ruínas, restaurá-lo-ei como fora nos dias da antiguidade" (Amós 9:11).

Espero que nos encontremos nesse dia.