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Do cenário musical de Pernambuco para a wikipédia: a

produção de verbetes
Nascimento, Ynah de Souza – UFPE - ynah@terra.com.br

RESUMO
Alunos que adoram tocar seus instrumentos e odeiam ler e escrever. Esse é o cenário usual –
com raras exceções - de quem ministra aulas de língua portuguesa em turmas iniciais de
Licenciatura em Música. Imersos em um mundo digital, esses alunos são usuários eficientes
dessas mídias, mas ainda compreendem um texto como reunião de palavras e frases em torno
de um assunto. Partiu-se da ideia de que seria possível desenvolver uma proposta pedagógica
de produção escrita em contextos reais de uso da língua, que concebesse o texto na sua
multiplicidade de linguagens a partir da produção de verbetes para a wikipédia, e que também
contemplasse a multiplicidade cultural da turma. O objetivo desse artigo é relatar a experiência,
cujos resultados apontam a melhoria das competências de escrita nos alunos e fornecem mais
elementos para uma avaliação diagnóstica. Entretanto esses resultados apontam, também, que
a experiência não foi suficiente para ampliar a concepção de texto dos alunos, nem para
desenvolver a autonomia dos alunos em procurar as orientações necessárias disponibilizadas
pela wikipédia; o desinteresse em publicar os verbetes depois que as aulas foram encerradas e
as notas divulgadas fornecem evidências de que os alunos – embora interessados - conceberam
as atividades apenas como tarefas a serem cumpridas no espaço acadêmico para obtenção de
notas.

Palavras-chave:
Ensino Superior; Produção Escrita; Letramentos Digitais; Wikipédia; Verbetes

ABSTRACT
Students who love to play their instruments and hate to read and write. This is the usual scenario
- with rare exceptions - of Portuguese language teachers in Music Degree initial classes.
Immersed in a digital world, these students are efficient users of these media, but still understand
a text as a gathering of words and phrases around a subject. It started from the idea that it would
be possible to develop a pedagogical proposal of written production in real contexts of language
use that conceived the text in its multiplicity of languages from the production of Wikipedia entries
and contemplated the cultural multiplicity of the class. The purpose of this article is to report the
experience, whose results point to the improvement of students writing skills and provide more
elements for a diagnostic evaluation. However, these results also point out that the experience
was not sufficient to expand the students’ conception about text, nor to develop their autonomy
in searching for the necessary orientations that Wikipedia has available; the students´ disinterest
in publishing the articles after the classes were closed and the grades obtained by them provide
evidences that the students - though interest - conceived the activities just as tasks to be
accomplished in academic space in order to obtain grades.

KEYWORDS
Higher education; Written production; Digital literacy; Wikipedia; Entries

INTRODUÇÃO
“Texto são palavras, frases reunidas que formam um contexto em prol de algum
assunto. É uma forma das pessoas externarem o que estão sentindo, seja
através de uma poesia, conto...”. Essa foi uma das definições de um aluno de
Língua Portuguesa do curso de Licenciatura em Música da UFPE quando eu
perguntei o que era texto. Vale destacar que isso aconteceu em 2016 e que as
propostas oficiais de um ensino de leitura e escrita a partir de uma perspectiva
sócio interacionista da linguagem tem, no Brasil, pelo menos vinte anos se
considerarmos como marco oficial a publicação dos PCNs (Parâmetros
Curriculares Nacionais) (Brasil, 1997/1998). Na realidade, tal concepção sócio
interacionista surge nos anos de 1960 como categoria de análise, mas somente
no final dos anos de 1970 e início dos anos de 1980 a corrente teórica ganhou
força no âmbito da Filosofia e Sociologia a partir da influência e prestígio da obra
de Mikhail Bakhtin (1895-1975) do campo da Linguística (Morato, 2004).
Esse novo olhar sobre a linguagem – concebida como forma de interação – vai
exigir mudanças no ensino de língua portuguesa cujo objetivo passa a ser
desenvolver, no aluno, maior proficiência em práticas de oralidade, de leitura e
de escrita em situações reais de uso.
É verdade. As definições de texto que recebi no início do semestre não o
concebem como uma atividade interativa altamente complexa de produção de
sentidos (Koch & Elias, 2006). Entretanto, ao mesmo tempo, na segunda semana
de aula a turma já havia criado dois grupos, um no “WhatsApp” e outro no
“Facebook”. Afinal, quem é professor no Brasil sabe que essa estratégia tem se
tornado comum entre os alunos. Vivemos no ciberespaço, definido por Lévy
(2000) como o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial
dos computadores e especifica não somente a infraestrutura material da
comunicação digital, mas também o universo oceânico de informações que ela
abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo
(p.17). Somos construtores da cibercultura: a cultura contemporânea estruturada
pelas tecnologias digitais (Lévy, 2000) que promove novas possibilidades de
socialização e aprendizagem mediadas pelo ciberespaço. E vivemos a
sociedade em rede, estruturada pelo conhecimento em rede, de forma
horizontal, por meio da internet e da comunicação sem fio, dando à virtualidade
a dimensão da realidade (Castells, 1999).
Vivemos em um mundo que se expressa e se comunica por meio de textos
multisemióticos (impressos e digitais), textos que se constituem por meio da
simbiose de múltiplas linguagens (fotos, vídeos e gráficos, linguagem verbal oral
ou escrita, sonoridades). Essa multimodalidade, multissemiose ou multiplicidade
de linguagens exige capacidades e práticas de compreensão e produção de
cada uma dessas linguagens para fazer resignificar. Exige novos letramentos,
novas práticas e habilidades – digital, visual, sonora – exige múltiplos
letramentos ou multiletramentos (Rojo & Moura, 2012).
Este artigo tem como objetivo relatar a experiência de produção de verbetes para
a wikipédia realizada nas aulas de Língua Portuguesa da turma 2016.2 do curso
de Licenciatura em Música da UFPE. A pergunta que orientou nosso artigo foi: a
atividade de produção de verbetes para a wikipédia, realizada nas aulas de
língua portuguesa do curso de Licenciatura em Música da UFPE, contribuiu para
que os alunos desenvolvem competências de escrita?
Para potencializar o uso pedagógico das ferramentas digitais, há duas
tendências possíveis: (1) sua utilização acessória em que elas são incorporadas
para melhorar o repertório de atividades pedagógicas existentes; e (2) para
transformar radicalmente a configuração tradicional da sala de aula, influenciada
pelas características determinantes dessas novas ferramentas (Peschanski,
Moraes, Diello & Carrera, 2016). O estudo de caso que se apresenta aqui está
diretamente vinculado a primeira tendência.

CONTEXTO DA EXPERIÊNCIA
O Curso de Licenciatura em Música, criado em 1972, está vinculado ao
Departamento de Música do Centro de Artes e Comunicação (CAC) da UFPE, e
tem por objetivo formar professores para o ensino teórico-prático da música. Os
alunos que cursaram a disciplina de Língua Portuguesa (LPTA) em 2016.2 foram
submetidos a um processo de seleção em duas etapas. Na primeira, precisaram
vencer as notas mínimas da prova do ENEM (Exame Nacional de Ensino Médio),
conseguindo, na prova de redação, no mínimo 250 pontos do total de 1.000
pontos; na segunda etapa, precisaram ser aprovados em três provas
específicas: Instrumento, Percepção musical, Teoria musical e solfejo. Segundo
dados da COVEST (Comissão de Vestibular da UFPE), em 2016, submeteram-
se às provas específicas 304 candidatos para as sessenta vagas oferecidas para
a Licenciatura.

A DISCIPLINA DE LÍNGUA PORTUGUESA


O objetivo geral da disciplina de LPTA é levar os alunos a compreender e
produzir textos acadêmicos na perspectiva da metodologia científica da análise
de gêneros. Segundo a ementa oficial, entre outros objetivos específicos, os
alunos devem identificar e aplicar diferentes estratégias de leitura, compreender
as diferenças entre os gêneros textuais, e desenvolver a habilidade de produção
escrita de textos acadêmicos.
Antes de planejar o curso, aguardei a primeira aula com o grupo de alunos para
conversar com eles sobre a ementa e sobre as atividades que havia pensado
em desenvolver ao longo do curso. Fiquei sabendo, naquela ocasião, que o que
os alunos mais gostavam de fazer era tocar seus instrumentos, e o que mais os
assustava era a “aula de redação”. Além disso, em resultados de questionário
aplicado posteriormente, dos dezoito alunos que responderam, 72% utilizavam
as tecnologias da informação e comunicação, entre elas computadores e tablets,
internet, redes sociais, aplicativos, youtube, além dos programas de leitura e
editoração de partituras, como Finale, Encore ou Siberius. Quando perguntados
em que atividades utilizavam o computador na vida diária, 66,7% afirmaram que
usavam para fazer pesquisas, 22,2% para acessar email, mas ninguém usava o
computador para ler livros, jornais, artigos e revistas ou para acessar sites de
banco. Sobre o uso da internet, 38.9 % afirmaram que usavam a rede mundial
de computadores mais de 15 horas por semana, e 33.3%, entre 5 e 15 horas. De
preferência, usavam o celular - 88,9% ao lado de 11,2% que usavam o
computador portátil. Sobre o uso do aplicativo WhatsApp e mensagens de SMS,
56,6% disseram que conferiam o tempo todo o que chegava, enquanto 22,2%
somente quando tocava, vibrava ou chegava algum alerta.
Diante dessa realidade – alunos que afirmavam não gostar de escrever, amavam
tocar seus instrumentos e eram hábeis no uso das tecnologias da informação e
comunicação - como planejar atividades que levassem os alunos a desenvolver
sua capacidade de produzir textos escritos?

A PRODUÇÃO DE TEXTOS NO CONTEXTO DOS LETRAMENTOS DIGITAIS

Atividade bastante complexa, a produção de um texto, não importa o gênero,


pressupõe um sujeito não apenas atento às exigências, às necessidades e aos
propósitos requeridos por seu contexto sócio histórico e cultural, mas também
capaz de realizar diversas ações e projeções de natureza textual, discursiva e
cognitiva, antes e no decorrer da elaboração textual (Marcuschi, 2010). No Brasil,
do início do século XX aos anos 1980, as escolas buscavam desenvolver a
“escrita correta”, com ênfase para o uso das regras de gramática normativa e
ortografia, porque os textos eram concebidos como um amontoado de orações
e frases, que deveriam estar gramaticalmente corretas.
Nos anos 1980, vários estudos – principalmente inspirados por Geraldi (1984) –
propõem uma nova concepção de língua como um sistema que, quando da sua
utilização pelos usuários da língua nos processos de interação verbal, vai se
constituindo e reconstituindo historicamente pela ação dos usuários, um sistema
sensível ao contexto, plástico e flexível, que aceita e prevê variações,
deslocamentos, inversões, ambiguidades e inovações (Costa Val, 1998). E à
escola, cabe compreender a escrita como um processo de interlocução entre
leitor-texto-autor que se concretiza via gêneros textuais em um contexto sócio
historicamente situado.
Depois da era dos computadores e da internet, o ato de ler e escrever nunca
mais foi o mesmo, principalmente porque essas ferramentas permitiram que
leitor/escritor pudesse interagir com o texto e com outros leitores em tempo real.
Permitiu que o leitor se tornasse coautor do texto ao oferecer a oportunidade
proporcionada pelos links. Dentro desse novo cenário, as atividades de leitura e
produção escrita passaram a se preocupar com o que se concebe como
letramentos digitais: habilidades individuais e sociais necessárias para
interpretar, administrar, compartilhar e criar sentido eficazmente no âmbito
crescente dos canais de comunicação digital. Afinal, se não sabemos
exatamente o que aguarda esses alunos no futuro, começa a ficar claro que as
atividades de escolarização precisam promover habilidades próprias do século
XXI tais como criatividade e inovação, pensamento crítico e capacidade de
resolução de problemas, colaboração e trabalho em equipe, autonomia e
flexibilidade, aprendizagem permanente (Dudeney, Kockly & Pegrum, 2016).
Segundo esses autores, ensinar língua exclusivamente através do letramento
impresso é, nos dias atuais, fraudar nossos estudantes no seu presente e em
suas necessidades futuras (p.19).
Para tornar ainda mais complexo o cenário do ensino/aprendizagem da leitura e
escrita, as mudanças sociais e tecnológicas atuais ampliam e diversificam não
só as maneiras de disponibilizar e compartilhar informações e conhecimentos,
mas também de lê-los e produzi-los. Essa linguagem “híbrida” cria desafios tanto
para os leitores como para os agentes que trabalham com a língua escrita, entre
eles, a escola e os professores. E é de responsabilidade da escola tomar a seu
cargo esses novos letramentos emergentes na sociedade contemporânea, em
grande parte – mas não somente – devido às Tecnologias da Informação e
Comunicação (TIC), levando em conta e incluindo nos currículos a multiplicidade
cultural das populações e a multiplicidade semiótica de constituição dos textos
por meio dos quais ela se informa e se comunica.
Os “novos” textos multisemióticos, multimodais e hipermidiáticos colocam
desafios aos leitores, é verdade. Entretanto, o desafio maior caberá à escola,
cujas práticas escolares de leitura/escrita, já ultrapassadas porque insuficientes
para a “era do impresso”, deverão ser recriadas para esses “novos” textos cujo
significados constituem mais que a soma do que cada uma de suas partes
poderia significar (Lemke, 2010). A escola precisará ir além das ferramentas
usuais como papel, pena, lápis, caneta, giz e lousa (escrita manual), e tipografia
e imprensa (escrita impressa), contemplando agora o áudio, vídeo, tratamento
de imagem, edição, diagramação.

A PROPOSTA EM AÇÃO
No início do semestre de 2016.2, descobri que artistas pernambucanos
reconhecidos na região não estavam contemplados em verbetes da wikipédia.
Então, propus aos alunos, como atividade de produção textual, a criação de
verbetes para esses artistas; depois de aceita, a proposta evoluiu e contemplou,
também, a produção de pocket-vídeos com entrevistas elaboradas pelos alunos
com o artista escolhido para o verbete.
Por que a wikipédia?
O uso da Wikipédia em sala de aula potencializa a apropriação de conhecimento
relevante, a qualificação acadêmica do discente e a melhoria de uma
enciclopédia eletrônica que tem características de um bem público global. Além
disso, os resultados de experimentos apontam algumas outras vantagens de
atividades pedagógicas fundamentadas no uso da Wikipédia. Em artigo recente,
Peschanski et al., 2016) apontam algumas dessas vantagens:
1) Inserem as atividades e os alunos em um contexto global, com uma
audiência que vai além da turma, provocando o aluno a se sentir
responsável pela contribuição que fez;
2) Ampliam o espaço e a audiência da sala de aula, e, por isso, provocam
impactos reais na sociedade;
3) Desenvolvem aptidões como revisar, compilar referências, aperfeiçoar a
linguagem enciclopédica e a capacidade de reconhecer credibilidade e
confiabilidade de fontes e informações;
4) Fornecem mais elementos para uma avaliação diagnóstica do que
simplesmente uma prova;
5) Equilibram a qualidade dos verbetes ao mapear áreas que ainda não
foram cobertas, contribuindo com entradas em temáticas pouco
exploradas. (pp. 79-80)
Considerando essas vantagens e o interesse manifestado pelos alunos,
desenvolvemos a atividade com o objetivo de avaliar se essa proposta
pedagógica constituía uma ferramenta eficiente para ampliar a capacidade de
escrita dos alunos.
A princípio seria interessante introduzir uma enciclopédia cujo grau de
credibilidade era grande entre os alunos da turma. Do total de dezoito alunos
que responderam ao questionário aplicado, 16,7% disseram acreditar em tudo o
que está publicado lá, 38,9% e 27% acreditar menos, e apenas 17,7% afirmaram
que não acreditavam no que está publicado. Ainda como resposta a esse
questionário, 43,8% dos alunos afirmaram que acessavam a wikipédia para fazer
pesquisas. Para mais da metade dos alunos que responderam ao questionário,
os dados da Wikipédia não são totalmente confiáveis, mas 43% usam esses
dados para suas pesquisas.
Ao mesmo tempo em que eu trabalharia o conteúdo e dos objetivos da disciplina,
a atividade constituiria uma oportunidade de os alunos avaliarem uma forma
rotineira de acesso ao conhecimento. Além disso, poderia oferecer estratégias
de aprendizado com o uso de novas tecnologias em sala de aula,
potencializando a capacidade de interlocução dos alunos, propiciando
oportunidades para que os alunos escrevessem de “verdade” em situações reais
de interação verbal. Os alunos poderiam deixar de ser meros leitores usuários
da Wikipédia para experimentarem a produção e publicação de verbetes.
Dividi a atividade em quatro momentos: (1) discussão do conceito de texto a
partir de uma concepção sócio interacionista da língua. Nesse momento, os
alunos puderam expressar o que concebiam como texto e eu pude mostrar que
a concepção deveria ser ampliada para contemplar o caráter interativo da
linguagem, em que a leitura e compreensão de um texto constituem um processo
contínuo de construção de sentidos; (2) leitura e análise do verbete da wikipédia,
com o levantamento da forma e, principalmente, da função dos hiperlinks; (3)
produção, em aula, da primeira versão do verbete; (4) os verbetes foram
produzidos e entregues para correção e, na aula seguinte, devolvidos para que
os alunos fizessem a reescrita. Só depois poderiam ser publicados na WP.
Durante a aula de produção do verbete, os alunos sugeriram filmar as entrevistas
com os músicos escolhidos e, diante da receptividade da turma, acolhi a
proposta, ampliada na produção de pocket-vídeos que foram apresentados à
turma e, posteriormente, publicados na internet. i

OS VERBETES DO PROJETO WIKIPEDIA


A wikipédia (WP) pode ser definida como uma enciclopédia multilíngue e de
conteúdo livre, baseada na plataforma web. É um projeto mantido pela Fundação
Wikipédia, uma organização sem fins lucrativos, cuja missão é empoderar e
engajar pessoas pelo mundo para coletar e desenvolver conteúdo educacional
sob uma licença livre ou no domínio público, e para disseminá-lo efetivamente e
globalmente.
De acordo com Marcuschi (2002),
“os grandes suportes tecnológicos da comunicação como o rádio, a
televisão, o jornal, a revista, a internet, por terem presença marcante e
grande centralidade nas atividades comunicativas da realidade social que
ajudam a criar, vão, por sua vez, propiciando e abrigando gêneros novos
bastante característicos” (p.20).
A enciclopédia e seus verbetes é um desses gêneros que sofreu modificações
no que diz respeito à forma e à substância. O verbete de uma enciclopédia digital
tem características diferentes do verbete de uma obra tradicional, embora sua
denominação permaneça a mesma.
Os verbetes da wikipédia possuem características próprias, são dinâmicos,
tornam-se públicos ao final de sua escritura; entretanto precisam passar pela
autorização dos chamados “embaixadores” da wikipédia, cuja autoridade permite
a exclusão sumária do que se tenta publicar; além disso, é preciso seguir o livro
de estilo, mantido pela enciclopédia, que serve de guia para os participantes
engajados na escritura dos verbetes e como referência para uniformizar os
verbetes da wikipédia; os verbetes não possuem um autor individual identificável,
mas possuem a identificação de quem e quando o autor fez as edições do
verbete; devem prever uma leitura rápida, e, para isso, os links são
fundamentais; permitem uma construção colaborativa graças ao sistema wiki:
todo o projeto pode ser criado e editado por participantes a qualquer momento
da trajetória do verbete. Os links transformam a enciclopédia em uma rede de
informação interconectada, porque seus textos ficam ligados entre si (Dionísio,
2007)

OS VERBETES PRODUZIDOS
No primeiro momento da atividade, os alunos entregaram onze verbetes,
produzidos em duplas; em todos, havia problemas em relação ao uso da norma
escrita culta da língua, principalmente relacionados ao emprego da pontuação e
da construção de parágrafos. Além disso, todos ignoraram a obrigatoriedade da
inserção dos hiperlinks, trabalhados em aula e indicadores da presença do
hipertexto. Esses verbetes entregues foram corrigidos pela professora e
devolvidos para a reescrita, inclusive com a observação da necessidade da
inserção de hiperlinks.
No segundo momento da atividade, foram entregues as novas versões para os
onze verbetes produzidos anteriormente; além desses, foram entregues três
novos verbetes fora do prazo. Desses 14 verbetes entregues, três continuaram
apresentando problemas no uso da norma escrita culta, o que aconteceu,
também, com os três verbetes entregues fora do prazo. Sobre a inserção dos
hiperlinks, dos 14 verbetes entregues, 4 estavam ainda sem indicação de
hiperlinks, entre estes, um dos que não produziu a versão preliminar. Para avaliar
a inserção dos hiperlinks, distribuímos essa inserção em quatro intervalos: os
que não inseriram, os que inseriram de um a cinco, os que inseriram de seis a
dez, e aqueles que indicaram mais de dez hiperlinks. Do primeiro grupo, quatro
continuaram sem hiperlinks; dois inseriram até cinco hiperlinks, três, entre seis e
dez, e seis com mais de dez indicações, entre elas hiperlinks para indicar
fotografias e vídeos. Entre os quatorze verbetes entregues no segundo
momento, um deles inseriu uma categoria ausente na versão anterior –
“depoimentos sobre o artista”.
As novas versões entregues foram corrigidas, e, embora disponibilizadas pela
professora, não foram procuradas pelos alunos, que deveriam ainda fazer as
revisões necessárias antes de publicar os verbetes na wikipédia. Apenas um dos
alunos publicou seu verbete, que foi quase que imediatamente eliminado. Diante
do fato, postei uma mensagem no grupo de discussão explicando que o verbete
fazia parte de uma atividade pedagógica da disciplina de Língua Portuguesa e
fui orientada a entrar em contato com um dos “embaixadores” da wikipédia, que,
por email, elogiou a proposta, forneceu detalhes de como os alunos deveriam
proceder para ver seus verbetes publicados, colocando-se à disposição para
colaborar em outras ocasiões de uso pedagógico da enciclopédia. Além disso,
uma mensagem foi enviada ao aluno que tentara publicar seu verbete,
explicando o motivo da eliminação e fornecendo as orientações necessárias para
que ele voltasse a publicar de modo adequado. Além disso, nessa mensagem
havia a concessão do que a wikipédia chama de “medalha original” pela iniciativa
do trabalho proposto na disciplina.

CONCLUSÃO
“Querer falar de inovação na universidade é a mesma coisa que querer
mudar de lugar o cemitério da cidade”. (M. A. Zabalza, comunicação
pessoal, 20 de fevereiro de 2017, UFPE)

Diante dos resultados da experiência, podemos afirmar que a atividade de


produção de verbetes para a wikipédia constituiu uma experiência válida nas
aulas de língua portuguesa do curso de Licenciatura em Música da UFPE. Os
alunos produziram textos em situações reais de uso da língua, sabendo o que
iriam escrever e por que escreveriam. E deixaram suas avaliações sobre a
experiência:
A matéria era predefinida como chata, mas eu entendia que todo
músico precisa em algum momento da vida engolir sapos. Mas
a professora nos mostrou que era não era bem assim.
Produzimos textos, editamos vídeos e quanto tudo acabou
percebemos que não havia espinhos pelo caminho.
Além disso, a experiência contemplou a multiplicidade cultural do grupo de
alunos na medida em que as duplas ficaram livres para escolher o tema de ser
verbete: “Este trabalho foi uma experiência fantástica, foi bastante interessante,
pois conheci um artista brilhante, composições incríveis e que está no
anonimato. Este trabalho foi uma forma diferente de mostrar a importância
dessas pessoas no cenário musical”.

Em relação ao tema, os alunos ficaram tão interessados que ampliaram a


atividade com a produção dos vídeos. Talvez, as palavras de um aluno
expliquem isso: “o trabalho do verbete foi uma experiência muito boa e
gratificante porque nós, músicos, somos fascinados por criar algo novo, algo
nosso”. Além do interesse pelo tema, as atividades propunham a ampliação do
letramento impresso para dar conta da multiplicidade de linguagens. E, inclusive
para levar os alunos a reelaborar sua concepção de verbete e de wikipédia:
Nunca tinha ouvido falar o nome verbete; já conhecia,
mas com outro nome. Achei muito interessante essa
ponte da cadeira de LPTA com a tecnologia. Sempre
quando queria pesquisar algo, ia lá na wikipédia. Agora
tive a oportunidade de utilizar de uma outra forma.

Mais especificamente a respeito das produções escritas, é possível afirmar que


houve uma melhoria das competências de uso da norma escrita culta da língua,
entretanto no que diz respeito à concepção de texto, os alunos não inseriram os
hiperlinks nas versões iniciais dos verbetes e precisaram ser orientados para
fazê-lo nas novas versões. E mesmo assim nem todos o fizeram.
Além de promover as competências escritas dos alunos, esperava-se que a
proposta estimulasse a colaboração, além de funcionar como uma ferramenta
mais eficiente de avalição. Entretanto, talvez porque as ferramentas wiki foram
usadas em um contexto convencional de ensino, não houve, por parte dos
alunos, interesse em dar continuidade ao projeto depois que o semestre terminou
e as notas foram divulgadas. Houve engajamento apenas ao longo das aulas,
talvez porque a atividade, embora interessante, tenha sido percebida como
tarefa escolar. Exceção aconteceu em relação à produção dos vídeos, cuja
publicação no youtube foi cobrada mesmo depois de finalizado semestre e
divulgação das notas.
Esperava-se, também, que as atividades estimulassem a autonomia dos alunos.
Entretanto, diante das dificuldades enfrentadas e não solucionadas na produção
e publicação do verbete ficou evidente que os alunos não se empenharam em
consultar os materiais disponibilizados pela wikipédia para orientar as
produções, provavelmente porque não se sentiam responsáveis pela construção
de sua própria aprendizagem (Zabalza, 2004).
Talvez isso se explique por conta do tempo limitado para a execução da
experiência – um semestre letivo. Ainda segundo Zabalza (2004), qualquer
aprendizagem necessita de um processo demorado de sedimentação – “são
necessárias sucessivas retomadas para perceber os diferentes aspectos, para o
entendimento global, para o confrontamento das novas informações com outras
já assimiladas e para, no final, tudo acabar por constituir um novo conhecimento
sólido e bem-assimilado” (p.203).
Em síntese, além de desenvolver as competências de escrita nos alunos, a
experiência trouxe mais elementos para avaliar diagnosticamente esses alunos.
Não foi possível obter evidências de que a experiência desenvolveu aptidões
como revisar, compilar referências, aperfeiçoar a linguagem enciclopédica e a
capacidade de reconhecer credibilidade e confiabilidade de fontes e
informações. Se os alunos ainda quiserem vencer o desafio de publicar seus
verbetes, será possível contribuir na wikipédia com entradas em temáticas pouco
exploradas.

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Vídeos disponíveis em
https://www.youtube.com/playlist?list=PLcO101DYsKKrI7rutqFB8F7W317WLA
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