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Revista África e Africanidades - Ano 2 - n. 8, fev.

2010 - ISSN 1983-2354


www.africaeafricanidades.com

LITERATURA AFRO-BRASILEIRA
Por dentro do Caroço de
dendê: a sabedoria dos
terreiros, de Mãe Beata de
Yemonjá

Por Assunção de Maria Sousa e


Silva

UESPI/UFPI
E-mail: asmaria1@hotmail.com

Ouvir Mãe Beata de Yemonjá


Os contos de Mãe Beata nos
contando histórias chama-nos atenção
fazem enxergar o quanto o candomblé,
a maneira segura e envolvida de leveza
uma das religiões de matrizes
quando trata de sua crença e devoção.
africanas, traz vivificados valores e
Mãe Beata, além da importância de seu
costumes da cultura dos orixás e, por
trabalho na comunidade, leva para
vez, também contêm aquilo que vigora
outros cantos suas histórias como ato
no imaginário universal. As histórias de
de fortalecer e dignificar o candomblé e
Mãe Beata são elementos de
a memória dos seus ancestrais.
visualização do ato de contar, cada
Conhecida internacionalmente, Mãe
texto é como se ilustrasse um momento
Beata luta para que os adeptos das
de roda de história debaixo de uma
religiões afro-brasileiras tenham igual
árvore, que pode ser um baobá ou uma
espaço de garantia de direitos para
figueira, ou meramente uma calçada do
cultuar seus orixás, numa sociedade
nordeste brasileiro como também
que se diz laica, mas paradoxalmente
comunidade de morro carioca.
prevalece nos variados espaços
públicos e privados símbolos como se D. Beatriz Moreira Costa, Mãe
no Brasil apenas vigorasse uma única Beata de Yemonjá, filha de Exu e
crença religiosa. O respeito à Iemanjá, nasceu no recôncavo baiano
pluralidade cultural e, especificamente, e há muitos anos vive no Rio de
à diversidade religiosa ainda há muito Janeiro. Suas histórias nascem da
por ser considerado e cultivado. vivência do lugar onde cresceu, em que
vertem memórias intensamente ligadas
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à história de seus descendentes de De dentro do caroço


escravos vindos d´África, plasmado de
Caroço de dendê nos lembra o azeite
dores, alegrias, certezas e incertezas, e
que densifica e fortifica algumas
mais que tudo de uma fé inconteste
comidas brasileiras de heranças
nos orixás e na relação com a
africanas, o livro reúne mais de
natureza.
quarenta contos, dentre eles, dois que
Seguidora, há quarenta anos no mencionam o termo contido no título do
candomblé, Mãe Beata, segundo Vânia livro: O menino do caroço e o
Cardoso, na introdução do livro Caroço homônimo Caroço de dendê cuja
de dendê, tem “uma experiência como história explica a ligação do comestível
‘mulher de santo’ e sua reconhecida com Exu. Vale relê-lo:
atuação não só como liderança, mas, Quando o mundo foi criado, o
principalmente, como companheira caroço de dendezeiro teve uma
constante nas lutas negras do Brasil” grande responsabilidade dada
(p.15) e com isso revela-se como por Olorum, a de guardar
representante da mulher na cultura dentro dele todos os segredos
afro-brasileira de “voz dinâmica na do mundo. No mundo do
transmissão, na criação e recriação Iorubá, guardar segredos é o
cotidiana” (p.15) das tradições maior dom que Olorum pode
dar a um ser humano. É por
africanas.
isso que todo caroço de dendê
Mãe Beata nasceu numa que tem quatro furinhos é o
encruzilhada, a encruzilhada que tem todo o poder. Através
que é a cultura afrobrasileira. A de cada furo, ele vê os quatro
encruzilhada é o espaço regido cantos do mundo para ver
por Exu, aquele que, segundo como vão as coisas e
os mitos, é a boca ávida que comunicar a Olorum. E mais
devora tudo o que existe, mas ninguém pode saber desses
que também regurgita, refenera segredos, para não haver
e recria. Essa encruzilhada é discórdia e desarmonia. É por
aqui um espaço da confluência meio dessa fórmula que o
e recriação cultural. É um mundo tem seus momentos de
espaço em que as várias paz. Existe também o caroço
culturas africanas trazidas ao de dendê que tem três furos,
Brasil confluem e são mas a esse não foi dada a
recriadas, devorando e responsabilidade de guardar os
reinterpretando, nesse segredos. (YEMONJÁ,
processo, elementos culturais 2002:97)
indígenas e europeus.
(CARDOSO, 2002:17) Neste primeiro parágrafo do
conto, apresenta-se o mistério do fruto,
a importância do mesmo no mundo
Iorubá, o invólucro do fruto “caroço”
tem a responsabilidade de guardar
aquilo que não pode vê – o segredo,

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aquilo que ao ser descoberto poderia responsável” pela existência do caroço


gerar “discórdia” no mundo; sendo o e do próprio Exu e dizendo isso
ato de guardar segredos “o maior dom desaparece, deixando ver que naquele
Olorum dá ao ser humano, o fruto contexto ambos continuariam à
passa a ter uma concepção do margem dos segredos.
sagrado, do que guarda o mistério do
Esta metáfora do segredo alude
mundo, aquilo que o ser humano não é
a um saber inatingível aos humanos,
capaz de saber. Todavia, o conto
como também, por outra via, o ato de
prossegue:
guardá-lo no lugar mais profundo do
Existe uma lenda que diz que caroço remete ao campo da memória,
Exu, com raiva desta condição das lembranças/esquecimentos que se
que Olorum deu ao coco de dão no cruzamento das culturas,
dendezeiro de quatro furos, revelando e desvelando os mistérios e
quis criar o mesmo poder de
encantamentos dos mitos nos ritos e na
ver à sua moda, com brigas e
reconstituição destes como
discórdias. Ele chamou o coco
de dendê de três furos e disse: mecanismos de reconstrução do
_ Olha, de hoje em diante, eu espaço de sujeito histórico
quero que você me conte tudo afrobrasileiro. Neste sentido, é preciso
o que vê. Aí o dendê lhe sempre lembrar a força cósmica dos
respondeu: ancestrais como forma de
fortalecimento da cultura, visto que o
_ Como? Se eu só tenho três
esquecimento tende a apagar o sentido
olhos e não quatro, como meu
irmão, a quem Olorum deu este
ritualístico que já carregara o escravo
poder? africano, a partir da saída de sua tribo e
que ainda hoje forja o anulamento do
_ Ousas me desobedecer, sujeito negro no seio da cultura
dendê? – disse Exu aborrecido. brasileira.
_ Sim! Tudo és mais do que Nos contos de Yemonjá, lugares
aquele que é responsável pela de confluência das culturas africanas,
minha existência e a tua – indígenas e europeias expressam o
responde o coco de dendê. imaginário popular numa intersecção
Dizendo isso, sumiu. E Exu, que densifica o que há de
desta vez, não foi feliz na sua afrobrasileiro, em que zonas
trama. (YEMONJÁ, 2002:97- fronteiriças se confluem, à medida que
98) as histórias vão sendo narradas. Sob o
processo criativo, podemos perceber
Nos parágrafos finais, Exu pede uma autoria comprometida com a
a um caroço de três furos que lhe conte mítica dos terreiros de candomblé.
os segredos do mundo, este lhe Neste sentido, é pela linguagem mítica
responde como se dissesse um que Mãe Beata apara-se na
daqueles segredos que poderiam ser multiplicidade de elementos e profusão
contados, referindo-se ao Exu como de fatos, imagens e visões dos orixás,
aquele que é “mais do que o

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ponto que revela como o sagrado está dívidas que contraia. O homem
no cotidiano da comunidade. enterrou suas patadas e enquanto
essas ficaram embaixo da terra não
Nas Águas de Oxum
houve sossego.
O conto O balaio de água
Nos entremeios de narrativas
conta da violência e da rudez do
com nítida função de advertência,
homem que não reconhecia o trabalho
conforme a estrutura dos contos de
que sua mulher fazia e “além disso não
fadas tradicionais e narrativas
deixava que ela cuidasse de suas
populares, corre o discurso como elo
obrigações na sua roda de candomblé”
das gerações. E aqui podemos
(YEMONJÁ,2002:33). Um dia,
concordar com Flach (2009), que em
apanhando do marido, Tude disse que
seu projeto, sob a orientação da prof.
era capaz de carregar água no cesto e
Tettemanzy (UFRGS) aponta para o
ele debochou e usou de mais violência.
fato de que
Tude saiu chorando e foi sentar à beira
do rio, lá viu um cesto boiando na
o contador de histórias assume
direção dela. Tude correu, pegou o
a responsabilidade de
cesto e encheu d’água; mesmo transmitir às novas gerações a
assustada por aquilo que está memória coletiva, a qual está
acontecendo, refez-se correu para casa impregnada de um caráter
com o cesto cheio d`água, na cabeça, extremamente prático e fiel a
colocou-o no meio do quarto e mostrou uma sabedoria que se mantém
ao marido. Isso o assustou de tal forma atual através dos anos, porque
que nunca mais ele a impediu de que é o resultado das mais
cumprisse seus deveres com os orixás variadas experiências de vida,
com as quais as pessoas ainda
e ainda diz a história que “tornou-se um
se identificam. Entretanto, essa
bom marido” (YEMONJÁ, 2002:34). Tal
transmissão não se dá de
feito não é incomum quando se trata da forma passiva. Pelo contrário, a
relação filho de santo /orixás numa literatura popular só
indicação de que forças invisíveis permanece, só é aceita devido
fazem parte do espaço e tempo de ao fato de que se adapta e
vivência dos filhos de santo. incorpora elementos do
presente, especialmente
As narrativas de Mãe Beata
aqueles que lhe são conferidos
referem-se ao tempo antigo e de agora, no exato momento em que se
sendo desta forma histórias atemporais está contando uma história,
tratando tanto de virtudes e elevação, consequência da ação do
quanto de defeitos e degeneração narrador sobre ela (FLACH,
humanos. Outro exemplo é o conto As 2009, (Online).
patadas malditas, cujo foco incide
sobre um personagem que tinha muito No conto Ilá Mi, a mãe
dinheiro e ouro, advindos de roubo e ancestral, Mãe Beata aproveita para
coisas malfeitas. O sujeito era rude, desconstruir o maniqueísmo que
maltratava as pessoas, não pagava perpassa as histórias vigentes e traz a

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figura de Iyá Mi (ser que muitas vezes que deve fazer para quando vierem os
aparece como má em algumas compradores.
histórias). Neste conto, Ilá Mi morre de
parto e desgostosa por ter morrido, Tem aqui ossum, waji, obi e
vendo seu filho precisando mamar, ekodidé. Você come o obi e o
transforma-se em coruja. Todo dia resto passa no corpo. A pena
assentava na cumeeira da casa e de ekodidé você coloca na
testa como enfeite. Fique na
quando ninguém estava no quarto se
janela, porém não diga nada a
virava em uma mulher e amamentava o
seu pai, pois ele vai para roça
filho até no dia em que este “fica forte e e não deve saber. (BEATA,
mais criado”. O povo nunca desconfiou 2002: 43)
de que ela era uma mãe ancestral e o
conto termina:
A narrativa termina quando esta
Assim, ela foi para o orun, para
moça fica na janela e é vista pelo
o céu, para nunca mais voltar. príncipe que imediatamente fica
Só em casos de grandes encantado por ela e torna-se seu noivo.
necessidades é que elas vêm O pai fica admirado. Em sonho, a
aqui (BEATA, 2002: 41). jovem descobre que a mulher
encantada é Oxum, sua mãe. Aqui se
Há um traço peculiar nas poderia apontar semelhança com os
narrativas de Mãe Beata que está na contos de Grimm, visto que a jovem
secura das palavras e na extensão das encontra o príncipe, todavia há no
histórias. Por este processo de narrar entremeio a participação de um ser que
com brevidade e densidade, representa um orixá, força da divindade
conhecemos a aldeia, onde havia invisível, que vem proporcionar à filha a
muitas mulheres virgens. Sob o crivo possibilidade de exercer suas
do patriarcalismo que calcifica as subjetividades e identidades, quando
narrativas tradicionais, em A pena do estas se viam perdidas no espaço e
ekodidé, conta do poder masculino tempo em que a jovem vivia e assim se
sobre o destino das mulheres. Na faz modificando o espaço.
aldeia, as mulheres eram compradas
A presença de uma divindade
pelos homens ricos para casar com reis
para a transformação do estado do
e príncipes e ainda havia o rito de
sujeito na narrativa revela-se como um
passagem e de ensinamento dado
processo de ensinamento; os fatos
pelas anciãs. Neste espaço, mocinhas
acontecem com a ativa participação da
feias e pobres não tinham como sair da
jovem para que ela não continue à
aldeia. Então a história é de uma
margem, e não tem um “sapatinho de
menina feia e pobre, sem pretendentes,
cristal” para que pelo rasto do acaso e
isolada, cujo próprio pai se encarrega
somente por ele as coisas aconteçam.
de levá-la para o ensinamento com as
A presença da divindade na história
anciãs. Naquele dia, aparece para a
tem um grande papel no
menina uma linda mulher e lhe diz o
desenvolvimento da narrativa e na

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modificação da realidade da significados e identidades”


personagem (Barbosa, 2000, p. 156)

Sobre o orixá Oxum, Lopes nos Com esta noção, podemos ler
aponta: conto Exu e a lagartixa. Exu
Orixá iorubano das águas desenvolto e arisco, entende enrolar
doces, da riqueza, da beleza e Oxalá. Oxalá lhe pede um camaleão e
do amor. Segundo alguns ele leva uma lagartixa, no entanto Exu
relatos tradicionais, é divindade
não consegue enganar Oxalá e sai
superior, tendo participado da
vergonhoso. Essa história exemplifica
Criação como provedora das
fontes de águas doce um dos tipos de narrativas que Mãe
(Lopes,ANO p.505). Beata modela cujas personagens
representativas dos orixás atuam
Em A pena de ekodidé, Oxum humanamente.
se apresenta com um traço que lhe é
Xangô, Oxalá e Exu percorrem
peculiar, sua preocupação com a
as narrativas como desencadeadores
beleza, a elegância feminina e o amor
de ações ora pedagógicas ou lúdicas.
e sua proteção às mulheres, por ser
Sujeitos com tais atributos são recursos
uma “Ialodê – título conferido à pessoa
que conferem ao livro semelhança com
que ocupa o lugar mais importante
as narrativas populares seculares em
entre todas as mulheres da cidade
que o mito centraliza o narrado. As
(Verger, 1997). Portanto, as forças
peripécias de Exu e sua interlocução
invisíveis estão presentes no mundo
com outros orixás trazem para o corpo
visível, numa metamorfose que inverte
do conto o sentido de desconstrução
o estado das coisas para confrontar o
de estereótipo que a este orixá é
poder ou confortar os oprimidos. No
despendido. Exu, no círculo das
texto literário, pelo uso de
divindades invisíveis é o ser
prosopopéias, os orixás são
“intermediário entre homens e deuses.
constituintes do espaço e o tempo
Por estas razões é que nada se faz
anímico.
sem ele e sem que oferendas lhe
sejam feitas, antes de qualquer outro
Exu na encruzilhada do dizer
orixá, para neutralizar suas tendências
a provocar mal-entendidos entre os
Exu como dono da encruzilhada
seres humanos e em suas relações
e da bifurcação, apresenta, conforme
com os deuses e, até mesmo, dos
Barbosa, “um lado favorável e um lado
deuses entre si.” (VERGER, 1997, p.
caótico”, a estudiosa ainda lembra-
76) Ainda, segundo Verger,
nos
por ser uma divindade que É um orixá de múltiplos e
representa tanto o Bem quanto contraditórios aspectos, o que
o Mal, é ambivalente, torna difícil defini-lo de maneira
dicotômico, ambíguo e, por coerente. De caráter irascível,
isso, emblematiza um espaço ele gosta de suscitar
cultural de múltiplos dissensões e disputas, de
provocar acidentes e
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calamidades públicas e No conto Tomazia o improvável


privadas. É astucioso, acontece: a muda fala para salvar
grosseiro, vaidoso, indecente, Tomazia da fogueira por causa do
a tal ponto que os primeiros ciúme de sua madrasta. O fim da
missionários, assustados com
narrativa traz a morte da madrasta,
essas características,
queimada junto com a escrava que lhe
compararam-no ao Diabo, dele
fazendo o símbolo de tudo o ajudou, e Tomazia como herdeira do
que é maldade, perversidade, engenho já que tudo era do seu pai.
abjeção, ódio, em oposição à Mais uma vez, as histórias vão
bondade, à pureza, à elevação emitindo a dimensão ética e o sentido
e ao amor de Deus. (VERGER, moralizador para a vida das
1997, p.76) comunidades. No desenrolar das
tramas de Caroço de Dendê, há
Diferente de tal significação,
histórias como de Tomazia que não se
além de salvaguardar os ritos e gestos
menciona nenhum orixás, mas vêm
das entidades no mundo humano,
travestidas de uma atenção ao
também desmitifica essa imagem
comportamento humano e suas pagas,
gerada pela visão ocidental até então
e outras em que revelam o papel e a
construída. Nos contos de Mãe Beata,
função dos orixás na vida da
Exu tem uma “implacável interferência
comunidade.
na vida daqueles que renegam os
ancestrais e esquecem a história
Considerações Finais
desses ancestrais”, como adianta
Vânia Cardoso na introdução do livro.
O escritor e escritora negros, no
Já para Fernandes (IASC / contexto literário afrobrasileiro,
Faculdade Integradas de retomando uma afirmação de Clovis
Jacarepaguá), ao escrever seu artigo Moura, articulam
sobre Iba ô, Iabás: a voz feminina no
culto aos orixás, diz que é preciso crer uma linguagem literária
que própria, rompe o discurso da
cultura oficial, e se manifesta
‘povo do santo’, ao cultuar os
como um elemento de
orixás, se apropria dos
resistência à sua
discursos presentes nos mitos
marginalização social.
iorubás como forma de reiterar
(MOURA, 1980:7-11)
sua cultura. E, nesta dinâmica
os rituais do candomblé e os
mitos são ativados, O sociológico piauiense, na
dialeticamente, toda vez que década de 80, já enfatizava que se
há a contação de uma lenda, devia combater o discurso liberal, em
um ebó, a manipulação do que se colocava o negro “como uma
oráculo sagrado, uma saída de
peça subsidiária na (...) formação
iaô, a dança das iabás.
econômica, social e cultural’ do Brasil.
(Online)
(MOURA, 1983, p. 9). Os escritos de

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homens e mulheres negros que têm a PARA SABER MAIS:


preocupação de zelar pela cultura e
pelos ancestrais africanos nos legam a CARDOSO, Vânia. Introdução. In.
YEMONJÁ, Mãe Beata de. Caroço de
“representação impávida de entidades
dendê: a sabedoria dos terreiros como
espirituais africanas”, conforme Gomes ioalorixás e babalorixás passam
Apud Gilroy (1996) ao se referir à arte conhecimentos a seus filhos. 2. ed. Rio
barroca de Ouro Preto. de Janeiro: Pallas, 2002.
Trazer uma possível leitura das FLACH, Alessandra. Do xamã ao
narrativas hoje publicadas por autores contador de histórias: uma viagem
e autoras negros brasileiros tem a pelos contos tradicionais. Disponível
intenção de mostrar o que existe de em:
valoroso no campo da literatura <http://www.mafua.ufsc.br/alessandrafl
afrobrasileira, como também de ach.html#1-1>. Acesso em: 10 nov.
2009.
estimular a valorização do discurso do
(a) negro (a) brasileiro (a) como GOMES, H. T. Questões coloniais e
provocação de um pensamento plural, pós-coloniais no tratamento (literário)
modificador e fomentador de práticas da etnicidade: os estudos culturais no
não discriminatórias. Axé para todos e Brasil e o cânone afro-brasileiro; 2004;
todas. Conferência; VI Congresso em
Estudos Literários: multiteorias;
PPGL/MEL; Português; UFES; Vitória;
BR. Disponível em:
<http://www.mediafire.com/?znezn0zye
xm> [pdf. online]. Acesso em: nov.
Autorizada a citação e/ou reprodução 2009.
deste texto, desde que não seja para
fins comerciais e que seja mencionada YEMONJÁ, Mãe Beata de. Caroço de
dendê: a sabedoria dos terreiros como
a referência que segue. Favor alterar a
ioalorixás e babalorixás passam
data para o dia em acessou-o: conhecimentos a seus filhos. 2. ed. Rio
de Janeiro: Pallas, 2002.
SILVA, Assunção de Maria Souza e. Por
dentro do Caroço de dendê: a sabedoria LOPES, Nei. Enciclopédia brasileira
dos terreiros, de Mãe Beata de Yemonjá. da diáspora africana. São Paulo: Selo
Revista África e Africanidades, Rio de Negro, 2004.
Janeiro, ano 2, n. 8, fev. 2010. Coluna
MOURA, Clóvis. Brasil: raízes do
Literatura Afro-Brasileira. Disponível em: protesto negro. São Paulo: Global,
<http://www.africaeafricanidades.com/docu 1983.
mentos/Por_dentro_do_caroco_de_dende.
pdf>. Acesso em: 30 jan. 2010. VERGER, Pierre F. Orixás, deuses
iorubas na África e no Novo Mundo.
5. ed. Salvador: Corrupio, 1997.

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