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Santo Anselmo (no capítulo II de Proslógio) sabe que possuir uma ideia de um

objeto qualquer na inteligência e a compreensão de que ele existe realmente são


coisas distintas. E para mostrar que Deus realmente existe, argumenta que, é
necessário para um "ser do qual não se pode pensar nada maior" que ele exista
na inteligência e na realidade. Se existisse apenas na inteligência poderia haver
um outro ser existente também na realidade que seria maior do que ele. E seria
ilógico pensá-lo (este "ser do qual não se pode pensar nada maior") como não
existente já que este ser é um "ser do qual não se pode pensar nada maior". A
partir disso, Anselmo afirma que existe verdadeiramente "o ser do qual não é
possível pensar nada maior", ou seja, Deus. Portanto, o argumento ontológico é
de que a existência é inerente a essência.
Tomás de Aquino refuta no capítulo XI de Suma contra os gentios:
“...mesmo que todos entendam pelo nome deus algo acima do qual nada de
maior se possa conceber, não é necessário que exista na realidade este algo
acima do qual nada de maior se possa conceber. De fato, deve haver
correspondência entre a coisa e o nome que a define. Contudo, daquilo que o
espírito concebe quanto ao nome deus, só se pode concluir que deus existe
apenas na nossa mente. Por outro lado, não é menos necessário que o ser acima
do qual nada de maior se possa conceber esteja na nossa mente. Pois bem, de
tudo isso não se pode concluir que exista na natureza algo acima do qual nada
de maior se possa conceber. E, assim, não haveria inconveniente algum para os
que negam que Deus é. Isso porque não há inconveniente em se pensar em
qualquer coisa superior a alguma outra existente na realidade ou na mente, se
não para aquele que concebe haver na natureza algo acima do qual nada de
maior se possa conceber.”
Raul Landim explica que a crítica tomista se baseia fundamentalmente na
distinção entre as operações cognitivas de apreensão e juízo. A primeira
operação intelectiva (apreensão) possui a função de conceber mediante um
conceito as quididades das coisas materiais, enquanto o juízo possui a função
de afirmar como existente o que é apreendido. Portanto, por mais geral que seja
a apreensão da quididade não se pode inferir o ato de ser que só é conhecido
no ato judicativo.
Descartes também utiliza desse argumento para provar a existência de Deus:"
Pois não me é dada a liberdade de conceber um Deus sem existência (isto é,
um ser supremamente perfeito sem uma suprema perfeição), como me é dada
a liberdade de imaginar um cavalo sem asas ou com asas." (quinta meditação).
Nas cartas de objeções a Descartes, há uma retomava da crítica de Tomás de
Aquino à Anselmo,
“cumpriria concluir: logo (após observar assaz cuidadosamente o que é Deus),
podemos dizer ou afirmar com verdade que pertence à natureza de Deus que
ele exista. Daí não decorre que Deus existe de fato, mas somente que deve
existir, caso sua natureza seja possível, ou não repugne em nada; isto é, que a
natureza ou a essência de Deus é inconcebível sem existência, de tal sorte que,
se esta essência é, ele existe realmente. (...) Mas o que está em discussão é a
menor, a saber, que não implica que ele existe, cuja verdade alguns de nossos
adversários põem em dúvida e outros negam. Demais, esta cláusula de vosso
raciocínio (após termos assaz claramente reconhecido e observado o que é
deus) é suposta como verdadeira, (...).”
Coisas importantes a se considerar na análise e posteriormente uma refutação
do argumento cartesiano na prova de uma existência divina é como ele
(Descartes) conceitua: existência, realidade, imaginação, ideia, etc. Descartes
crê que é verdadeiro tudo que ele possa distinguir clara e distintamente. É,
portanto, possível conceber Deus claro e distintamente.
É na reflexão sobre a natureza de objetos matemáticos que Descartes se apoia
para desenvolver um argumento de que é possível um conhecimento
apriorístico. Muito embora, na matemática, não exija uma correspondência
empírica dos objetos formais. A ideia de Deus, a sua quididade, impõe ao nosso
pensamento a sua existência.
Raul Landim ressalta que a suposição da existência como propriedade da
essência, ou dito em outras palavras, a legitimação em predicar a existência da
essência, recebeu significativas objeções de certos filósofos analíticos, Gassendi
e Kant.
Kant na CRP, dialética transcendental: “A proposição acabada de citar não dizia
que três ângulos são absolutamente necessários mas que, posta a condição de
existir um triângulo (de ser dado), também (nele) há necessariamente três
ângulos. Contudo, esta necessidade lógica demonstrou um tão grande poder de
ilusão que, embora se tivesse formado o conceito a priori de uma coisa, de tal
maneira que na opinião corrente a existência esteja incluída na sua
compreensão, julgou-se poder concluir seguramente que, convindo a existência
necessariamente ao objeto desse conceito, isto é, sob a condição de pôr esta
coisa como dada (como existente), também necessariamente se põe a sua
existência (pela regra da identidade), e que este ser é, portanto, ele próprio,
absolutamente necessário, porque a sua existência é pensada conjuntamente
num conceito arbitrariamente admitido e sob a condição de que eu ponha o seu
objeto.”
“Julgou-se encontrar esse conceito na idéia de um Ser realíssimo e, se
foiutilizada esta idéia, foi somente para obter um conhecimento mais
determinado de uma coisa de que já se estava, aliás, convencido ou persuadido
que devia existir, ou seja, do ser necessário. Contudo, dissimulou-se este curso
natural da razão e, em vez de terminar neste conceito, tentou-se começar por
ele, para dele derivar a necessidade da existência que ele se destinava
unicamente I a completar. Daí surgiu a malograda prova ontológica, que nada
tem de satisfatório, nem para o são entendimento natural, nem para sustentar
um exame científico.”
Landim explica que “O argumento ontológico, segundo Kant, não pode ser
constituído por proposições analíticas, pois, se a prova estabelece apenas
conexões analíticas entre o conceito de Deus e o conceito de existência, teria
sido apenas provado que se Deus é pensado, ele é pensado como existente.
Também não seria suficiente demonstrar que Deus existe efetivamente pelo fato
de a premissa da prova supor que o ente realíssimo é um ente possível e perfeito
e que, portanto, todas as suas perfeições, entre as quais a de existência, estão
efetivamente realizadas.” A prova é, portanto, inútil, pois assume na premissa o
que deveria ser demonstrado na conclusão. Se é um argumento analítico o termo
existência significa existência intencional ou existência efetiva. Se for existência
efetiva é uma tautologia e se significar existência intencional, demonstra apenas
que a partir do conceito de Deus é necessário que ele seja pensado como
existência.

Russel numa palestra em1927, Por Que Não Sou Cristão, comenta alguns dos
argumentos utilizados para “provar” a existência de deus. São eles: O argumento
da causa primeira, o argumento da lei natural, o argumento da prova teológica
da existência de Deus, argumento quanto a reparação da justiça, e os
argumentos morais a favor da deidade. Atribui a Kant a criação deste último
argumento, a saber, o argumento moral.
“Kant, como digo, inventou um novo argumento moral quanto à existência de
Deus, e o mesmo, em formas várias, se tornou grandemente popular durante o
século XIX. Tem hoje toda a espécie de formas. Uma delas é a que afirma que
não haveria o bem e o mal a menos que Deus existisse. Não estou, no momento,
interessado em saber se há ou não uma diferença entre o bem e o mal. Isso é
outra questão. O ponto em que estou interessado é que, se estamos tão certos
de que existe uma diferença entre o bem e o mal, nos achamos, então, na
seguinte situação: é essa diferença devida ao fiat de Deus ou não? Se é devida
ao fiat de Deus, então não existe, para o Próprio Deus, diferença entre o bem e
o mal, e não constitui mais uma afirmação significativa o dizer-se que Deus é
bom. Se dissermos, como o fazem os teólogos, que Deus é bom, teremos então
de dizer que o bem e o mal possuem algum sentido independente do fiat de
Deus, porque os fiats de Deus são bons e não maus independentemente do
mero fato de ele os haver feito. Se dissermos tal coisa, teremos então de dizer
que não foi apenas através de Deus que o bem e o mal passaram a existir, mas
que são, em sua essência, logicamente anteriores a Deus.”

Etienne Gilson em A Filosofia na Idade Média :


“ (...) devemos lembrar-nos que a filosofia se nos apresenta, em todas as épocas
de sua história, como uma tentativa de interpretar racionalmente o universo. É
um erro bastante difundido explicar a sucessão dos sistemas filosóficos, de que
a história nos proporciona o espetáculo, unicamente pela evolução contínua do
espírito humano. É verdade que o espírito humano amadureceu, que tomou
consciência de suas aspirações e de seus recursos e que esse enriquecimento
interior é um dos fatores essenciais que determinam o perpétuo remanejamento
dos grandes sistemas de ideias. Mas, fora dessa causa de mudança que reside
no espírito, há uma outra que reside nas coisas. Não menos profunda e
radicalmente do que o pensamento de que depende, o universo a que este se
aplica muda de aspecto e como que de conteúdo. É que, de fato, a reflexão
filosófica, por mais abstrata que seja, não seria capaz de criar de nada a
realidade que pretende explicar. Ora, o universo em que estamos mergulhados
desde o nosso nascimento não é apenas o da sensação; também é definido pela
representação dele que nossa época e nosso meio tendem a nos impor.”
Portanto, o homem do século XXI não nasce no mesmo mundo que o do século
XII; e os nascidos no mesmo século XII, os cristãos e hindus, viveram em
universos diferentes também. Russell ao comentar os argumentos mostra
exatamente isso, que alguns argumentos não possuem mais a vitalidade e peso
de outrora, pois a maneira de vê-los hoje em dia se modificou devido as novas
descobertas e teorias científicas.
O que Gilson diz é que por mais livre que um pensamento filosófico possa ser,
ele sempre começa por um ato de submissão, ou seja, “ele se move livremente
dentro de um mundo dado”. Por conseguinte, é importante para nós alunos de
filosofia, compreender que a Idade Média representou para a história da filosofia
“o esforço incessantemente reencetado para manifestar a concordância entre a
razão natural e a fé, onde ela existe, e para realizá-la, onde não existe. (...) Desde
a origem, o dogma é colocado como um fato, e a razão se ergue diante dele
como uma força que ele precisará levar em conta.”
Mario Ariel González em seu livro A filosofia a partir dos seus problemas traz um
alerta no modo de perceber os filósofos na história da filosofia: “Não existem
gênios. Mesmo a filosofia mais original supõe recepção e é unicamente possível
com base na assimilação da anterior.” (Visão esta, que parece-me meio
hegeliana: negando, conservando e supra assumindo.) Ao que se apresentou,
Descartes não saiu dessa curva.