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Cap.

14 - A metafísica
da modernidade

Colégio São Carlos


Prof. Paulo Rogério
3. O racionalismo
cartesiano: e a
Dúvida Metódica

René
Descartes
(1596-1650)
Descartes: o pai da filosofia
moderna

Descartes é considerado o “pai da


filosofia moderna”, porque, ao
tomar a “consciência” (razão)
como ponto de partida, abriu
caminho para a discussão sobre a
capacidade humana de construir o
próprio conhecimento.
Descartes: erros infantis
Descartes identificava o erro do conhecimento em
duas atitudes infantis:

1. Ingenuidade: é facilidade com que


nossa razão se deixa levar por opiniões e
ideias alheias, sem se preocupar se elas
são ou não verdadeiras.

2. Precipitação: é facilidade e a
velocidade com que nossa vontade
nos faz emitir juízos sobre as coisas
antes de verificarmos se nossas ideias
são ou não verdadeiras.
Descartes: proeminência da
razão
Essa duas atitudes indicam que, para Descartes, o
erro situa-se no conhecimento sensível (sensação,
percepção, imaginação, memória e linguagem).

Logo, o conhecimento
verdadeiro é puramente
racional: está baseado apenas
nas operações da razão e tem
como ponto de partida ou as
ideias inatas ou observações
que foram inteiramente
controladas pela razão.
O Método Cartesiano

Neste sentido, o propósito inicial de Descartes foi


encontrar um Método tão seguro que o
conduzisse à verdade indubitável.

Descartes identificava no
método a possibilidade de
reforma do entendimento
e dos conhecimentos.
O Método Cartesiano

No livro O Discurso do
Método, Descartes elege
como base do seu método
o “ideal matemático”
(mathesis universalis),
como exemplo de
conhecimento dominado
inteiramente pela razão e
dotado de ordem e
proporção.
O Método Cartesiano
O método cartesiano é um conjunto de regras que
possuem três características principais:

1. Regras certas: o método dá segurança ao


pensamento.

2. Regras fáceis: o método evita complicações e


esforços inúteis.

3. Regras amplas: o método deve permitir que se


alcancem todos os conhecimentos possíveis para o
entendimento humano
As quatro regras do Método
1ª) Regra da evidência: aceitar somente aquilo que
aparece para a mente como algo evidente, claro e
distinto por si mesmo.

2ª) Regra da divisão: dividir o problema em partes


menores para resolvê-las separadamente.

3ª) Regra da ordem: organizar as partes analisadas,


começando das mais simples até as mais complexas.

4ª) Regra da enumeração: fazer revisões e


enumerações gerais, para se ter a certeza de que nada
foi omitido ou esquecido.
A Dúvida metódica
Segundo Descartes, para poder aplicar estas regras
e, portanto, empreender uma teoria filosófica segura, é
preciso descobrir um ponto de partida indubitável.

Para isso, ele utiliza-se da dúvida metódica.

Descartes duvida de tudo: do


testemunho dos sentidos, das afirmações
do senso comum, dos argumentos da
autoridade, das informações da consciência,
das verdades deduzidas pelo raciocínio, da
realidade do mundo exterior e da realidade
de seu próprio corpo.
Cogito, ergo sum
(Penso, logo existo)

Descartes só interrompe sua cadeia de dúvidas


diante de seu próprio ser que duvida:

Posso duvidar de tudo que existe;


mas, a única coisa que não posso
negar é o fato de que continuo a
pensar até mesmo quando duvido
das coisas.

Portanto, “se penso, logo existo”.

Para Descartes, esse “eu puro” (res cogitans – ser


pensante) passa a ser a intuição mais indubitável
da realidade: uma 1ª ideia clara e distinta.
Cogito, ergo sum
(Penso, logo existo)

No entanto, apesar do cogito ser uma ideia clara e


distinta, isso não dá garantia alguma de que o
objeto pensado corresponda com a realidade fora
do pensamento.

Como sair então do pensamento (do


cogito) e provar a existência do
mundo material do qual tinha
duvidado anteriormente?

Para ir além dessa primeira intuição do cogito,


Descartes examina se haveria no espírito outras
ideias igualmente claras e distintas.
Cogito, ergo sum
(Penso, logo existo)

Descartes distingue então três tipos de ideias:

Ideia Inatas: são aquelas que “parecem ter


nascido comigo”.

Ideia Adventícias: são aquelas que vieram de


fora (dos sentidos).
Ideias Factícias: são aquelas que foram “feitas e
inventadas por mim mesmo”.

Portanto, as únicas ideias totalmente verdadeiras e


seguras são as ideias inatas, pois decorrem
unicamente da Razão.
Cogito, ergo sum
(Penso, logo existo)

Além do cogito, haveria outras ideias inatas (claras


e distintas) no sujeito? Na opinião de Descartes,
outras duas ideias compõem o grupo:

Deus: a res infinita Matéria: a res extensa


(ser infinito). (coisa extensa).
A Ideia de Deus
(res infinita)

Ao examinar a ideia de Deus, Descartes afirma:

“Pelo nome de Deus entendo


uma substância infinita, eterna,
imutável, independente,
onisciente, onipotente e pela
qual eu próprio e todas as coisas
que são (se é verdade que há
coisas que existem) foram
criadas e produzidas”.
(Descartes)
A Ideia de Deus
(res infinita)

Ora, a ideia de um Deus infinito faz pensar que a


infinitude repousa na ideia de um ser perfeito.

Como somos imperfeitos


e finitos, não podemos
ter a ideia de perfeição e
infinitude, a não ser que
a causa dessa ideia seja
justamente Deus, que
“coloca” em nossa
mente a ideia de
perfeição e infinitude.
A Ideia de Deus
(res infinita)

Para provar a existência de Deus, Descartes


formula a chamada “prova ontológica”:

1º) O pensamento desse objeto (Deus) é a ideia


de um ser perfeito;

2º) Ora, se um ser é perfeito, então ele também


deve ter a perfeição da existência (caso
contrário lhe faltaria algo para ser perfeito).

3º) Portanto, este ser existe.


A matéria e o mundo
(res extensa)

Uma vez estabelecida, por dedução, a ideia inata


de Deus como ser perfeito, o passo seguinte seria
provar a realidade material (res extensa).

Para isso, Descartes mais


uma vez parte da dúvida:
levanta a hipótese de um
deus enganador, um gênio
maligno, que o fizesse
perceber um mundo
inexistente.
A Matéria e o Mundo
(res extensa)
No entanto, considerando a certeza de que Deus
existe e é infinitamente perfeito, pode-se então
concluir que Ele não nos enganaria.

Noutras palavras, a
existência de Deus é
garantia de que os objetos
materiais (pensados por
ideias claras e distintas)
são reais.

Portanto, o mundo existe de fato; e, dentre as coisas


do mundo, o meu próprio corpo existe.
4. O Empirismo
Francisbritânico
Bacon: saber é poder

Francis
Bacon
(1561-1626)
Bacon: crítica dos ídolos

Francis Bacon é conhecido como


um severo crítico da filosofia
medieval, por considerá-la
desinteressada e contemplativa,
uma vez que, de acordo com o
espírito da nova ciência moderna,
o conhecimento deveria estar
voltado para um saber
instrumental que possibilitasse o
controle da natureza.
Bacon: crítica dos ídolos

Na obra Novum Organum, Bacon critica a lógica


aristotélica do “Organum”, por considerar a dedução
inadequada para o progresso da ciência.

No lugar da dedução, ele


propõe o estudo da
indução, como método
mais eficiente de
investigação, através da
experiência e da
observação empírica.
Bacon: crítica dos ídolos

Bacon inicia seu trabalho pela denúncia


dos preconceitos e das noções falsas que
dificultam o conhecimento da realidade,
aos quais chama de ídolos.

Existem quatro tipos de preconceitos (ídolos):

1. Ídolos da Tribo 3. Ídolos do Fórum

2. Ídolos da Caverna 4. Ídolos do Teatro


Bacon: crítica dos ídolos

1. Ídolos da Tribo: tratam-se


dos erros que se formam em
decorrência da própria
natureza humana e da
comodidade de verdades
“dadas” e “não questionadas”.

Ídolos da “tribo” porque são próprios da espécie


humana e dizem respeito a preconceitos que circulam
na comunidade em que se vive. Podem ser vencidos se
houver uma reforma da própria natureza humana.
Bacon: crítica dos ídolos

2. Ídolos da Caverna: tratam-


se das opiniões relativas e
distorcidas que se formam por
erro dos sentidos ou por conta de
uma má educação específica.

Ídolos da “Caverna” por está relacionado à escuridão


pessoal de cada um. É a “caverna” de Platão em cada
indivíduo (que intercepta a luz da natureza). Podem ser
corrigidos através de um programa filosófico que elimine
o relativismo infundado.
Bacon: crítica dos ídolos

3. Ídolos do Fórum: tratam-se


dos erros que se formam como
consequência da ambiguidade e
da limitação da linguagem
humana que possibilita ao
indivíduo uma compreensão
distorcida da realidade.

Ídolo do “fórum” porque diz respeito ao uso da linguagem


e da negociação (como acontece num fórum). Podem ser
vencidos desde que se utilize uma linguagem rigorosa.
Bacon: crítica dos ídolos

4. Ídolos do Teatro: tratam-se


dos erros que se formam em
decorrência de doutrinas
ideológicas ou regras viciosas de
demonstração que impõem seus
pontos de vistas e os transformam
em leis inquestionáveis.

Ídolos do “teatro” porque são comoparadas a “fábulas”


que são representadas em palcos. Podem ser desfeitos se
houver uma mudança ideológico-filosófica.
Bacon: inventor do método
científico
Para Bacon, apenas após a destruição desses ídolos é
que o método indutivo pode ser aplicado com rigor.

A indução baconiana visa


estabelecer leis científicas. Por
isso, seu procedimento está
fundado na enumeração
exaustiva sobre as manifestações
de um fenômeno, no registro de
suas variações e, por fim, no
teste dos resultados por meio
de experiências.
Bacon: inventor do método
científico
O método deve tornar possível:

1. Organizar e controlar os dados recebidos da


experiência, graças aos procedimentos de observação e
experimentação.

2. Registrar e coletar os resultados observacionais e


experimentais para chegar a conhecimentos novos ou à
formulação de teorias verdadeiras.

3. Desenvolver procedimentos e testes adequados à


aplicação prática dos resultados teóricos, pois para Bacon
o homem é “ministro da natureza” e, se souber conhecê-
la, pode comandá-la.
Crítico do racionalismo e do
empirismo

Nesse sentido, é interessante a comparação


(entre a “formiga”, a “aranha” e a “abelha”) feita
por Bacon para criticar tanto os racionalistas
quanto os empiristas, mostrando que o método
científico deve buscar uma posição intermediária:

Deve partir dos sentidos e da experiência


(empirismo), porém, ir além deles por meio do
intelecto (racionalismo).
Crítico do racionalismo e do
empirismo
Sobre isso, diz Bacon em seu Novum Organum:

“Os que se dedicaram às ciências foram ou


empíristas ou racionalistas. Os empíricos, à
maneira das formigas, acumulam e usam as
provisões; os racionalistas, à maneira das aranhas,
de si mesmos extraem o que lhes serve para a teia. A
abelha representa a posição intermediária: recolhe
a matéria-prima das flores do jardim e do campo e
com seus próprios recursos a transforma e digere”.
(Francis Bacon).
4. O Empirismo
britânico
John Locke: a tábula rasa

John Locke
(1632-1704)
Locke: a tábula rasa

O filósofo inglês John Locke (1632-


1704) elaborou sua teoria do
conhecimento na obra Ensaio
sobre o entendimento humano,
que tem por objetivo saber: “qual
é a essência, qual a origem, qual o
alcance do conhecimento
humano”.

“Qual é a essência, qual a origem, qual o


alcance do conhecimento humano”.
Locke: a tábula rasa

A principal preocupação de Locke


foi combater a doutrina de
Descartes sobre a existência de
idéias inatas na mente do homem.

Ao contrário de Descartes, Locke acredita que o


conhecimento só pode ser alcançado a partir das
experiências sensíveis do indivíduo, sem trazer
consigo desde o nascimento, qualquer marca ou idéia
de conhecimentos prévios.
Locke: a tábula rasa

“Suponhamos então, que a mente


seja, como se diz, um papel
branco, vazio de todos os
caracteres, sem quaisquer idéias.
Como chega a recebê-las? De
onde tira todos os materiais da
razão e do conhecimento? A isto
respondo com uma só palavra: da
experiência”.
(Locke, Ensaio sobre o
Entendimento Humano)
Locke: a tábula rasa
“Não está no poder do mais elevado engenho, nem do
mais amplo entendimento, seja qual for a agilidade ou
variedade do seu pensamento, inventar ou formar na
mente uma nova idéia simples, que não provenha das
vias antes mencionadas; nem pode nenhuma força do
entendimento destruir as que já aí existem. [...] Eu
quereria que alguém tentasse imaginar um sabor nunca
sentido pelo seu paladar, ou formar idéia de um aroma
que nunca tivesse cheirado; e, se alguém conseguisse
fazer, eu também poderia concluir que um cego tem
idéias das cores e um surdo noções distintas e
verdadeiras dos sons” (Locke, Ensaio sobre o
Entendimento Humano).
Locke: a tábula rasa
Noutras palavras, para Locke, o intelecto recebe
da experiência sensível todo o material do
conhecimento e, por esse motivo, pode-se dizer
que não há nada em nosso entendimento que
não tenha vindo das sensações.
A Origem das ideias
Como se formam as ideias?

Ao investigar a origem das ideias, ao contrário dos


filósofos racionalistas, que privilegiam as verdades
de razão (típicas da lógica e da matemática),
Locke preferiu o caminho psicológico ao indagar
como se processa o conhecimento.
A Origem das ideias

Para Locke, existem duas fontes para as ideias:

1ª Fonte: a sensação, cujo estímulo é externo,


resulta da modificação feita na mente por meio dos
sentidos.

2ª Fonte: a reflexão, que se processa


internamente, é a percepção interna que a alma
tem daquilo que nela ocorre. Portanto, a reflexão
fica reduzida à experiência interna do resultado da
experiência externa produzida pela sensação.
A Sensação
Através sensação percebemos que as coisas têm
qualidades que produzem ideias em nós:
As qualidades primárias são
objetivas, por existirem realmente nas
coisas: a solidez, a extensão, a
configuração, o movimento, o repouso e
o número.

As qualidades secundárias, ao
contrário, variam de sujeito para sujeito
e, como tais, são em parte relativas e
subjetivas; são elas cor, som, odor,
sabor etc.
A Reflexão
Já através reflexão, percebemos que as coisas
podem ser pensadas e combinadas de diversas
formas.

Portanto, a reflexão fica


reduzida à experiência
interna e advém
justamente do resultado
da experiência externa,
produzida pela sensação.
A Origem das ideias

Portanto, segundo Locke, o


conhecimento se forma por um
processo de associação e
combinação dos dados da
experiência da sensação e da
reflexão, formando assim as
Ideias.
A Origem das ideias

Para Locke, existem três tipos de Ideias:

a) Ideias Simples: surgem pela associação e


combinação das sensações (externas) e das
reflexões (internas).

b) Ideias Complexas: surgem pela associação e


combinação das inúmeras ideias simples, realizada
pela Percepção.

c) Ideias Gerais e Ideias de Relação: surgem


pela associação e combinação de ideias complexas,
realizada pela Razão.
Ideias Simples

IDEIAS SIMPLES - provenientes da Sensação:

As experiências Fazem com que o homem receba


da Sensação e as impressões das coisas
da Reflexão externas, gerando as...

IDEIAS
SIMPLES
Ideias Complexas
IDEIAS COMPLEXAS - formadas pela Percepção:

Percepção
(do sujeito)

As ideias simples (impressões)


se associam por semelhanças e
por diferenças, gerando as...

IDEIAS
COMPLEXAS
Ideias Gerais e Ideias de
Relação
IDEIAS GERAIS e IDEIAS DE RELAÇÃO -
formuladas pela Razão:

Razão (do sujeito)

Por intermédio de novas combinações e associações,


as ideias se tornam mais complexas, formando as...

Ideias GERAIS ou Ideias de RELAÇÃO:


ABSTRATAS: (entre as ideias gerais)

Ideias de substância, corpo, Ideias de identidade,


alma, Deus, natureza etc. causalidade, finalidade etc.
Associações e combinações
A formação das ideias na sensação, na percepção
e na razão acontece por um processo de
generalização:

Na generalização, a cada passo


do conhecimento, o intelecto
Por exemplo, a
humano vai eliminando as cor vermelha
diferenças entre as ideias
para ficar apenas com as
semelhanças e os traços
comuns, cujo conjunto forma
uma ideia universal.
4. O Empirismo
Davidbritânico
Hume: o hábito e a
crença

David
Hume
(1711-
Empirismo de Hume

David Hume, filósofo escocês, levou mais adiante o


empirismo de Francis Bacon e John Locke.

Conforme a tradição
empirista, em sua obra
Tratado da natureza
humana, Hume
apresenta o método de
investigação, que
consiste na observação
e na generalização.
Percepções individuais
Segundo Hume, o conhecimento tem início com as
percepções individuais, que podem ser:

Impressões Ideias

Tratam-se das percepções Tratam-se das percepções


originárias que se apresentam à derivadas, cópias pálidas
consciência com maior das impressões e, portanto,
vivacidade, como as sensações mais fracas, como a
(ouvir, ver, dor ou prazer etc.). reflexão.
Impressões e ideias

A diferença entre impressões e ideias depende


apenas de duas coisas:

1ª) Pela força ou vivacidade pelas quais as


percepções atingem a mente: a impressão é
mais vívida do que a ideia.

2ª) Pela ordem ou sucessão temporal com


que as percepções se apresentam à mente: a
impressão é sempre anterior à ideia; e a ideia é
sempre depende de uma impressão.
Crítica às ideias inatas

O sentir (impressão) distingue-se do pensar (ideia)


pelo grau de intensidade e pela ordem.
Com isso, Hume acaba com a questão das
ideias inatas, pois o indivíduo só pode ter ideias
depois de ter impressões. Somente as impressões
são originárias; as ideias são sempre derivadas.

“Todas as ideias simples provêm, mediata


ou imediatamente, de suas
correspondentes impressões” (Hume).
Impressões simples e complexas

Há ainda outra importante distinção: as impressões


podem ser simples e/ou complexas.
Impressões simples: tratam-se das impressões
singulares mais básicas dos sentidos, como por
exemplo, “vermelho”, “quente” etc.

Impressões complexas: tratam-se das impressões


combinadas de outras impressões simples, como por
exemplo, a impressão de uma “maçã”.

No entanto, independente de serem simples ou complexas,


as impressões são percepções originárias, apresentadas
à mente imediatamente como tais e com maior força.
Ter impressões significa “sentir”.
Ideias simples e complexas
Além das impressões, as ideias também podem ser
simples e/ou complexas:
Ideias simples: são cópias enfraquecidas e derivadas
das suas correspondentes impressões originárias.
Exemplo: a ideia memorizada da cor “vermelha”.

Ideias complexas: podem ser cópias derivadas de


determinadas impressões complexas, como também
podem ser fruto de combinações múltiplas das ideias
memorizadas, realizadas pela imaginação.

As ideias são percepções derivadas, produzidas pela


memória a partir das impressões. Portanto, ter ideias
significa “pensar”.
Percepções: tudo aquilo que se apresenta à mente humana e
constitui seu conteúdo. Por percepções compreendem-se:

Impressões: Ideias:
percepções Impressões, que percepções deri-
originárias, podem ser: vadas, produzidas
presentes na pela memória a
mente com mais partir das
força. Impressões Impressões impressões.
simples complexas

Já as ideias
complexas Ideias 1º) Da cópia das
podem surgir impressões
simples
de dois complexas surgem...
modos:

2º) Da *combinação, *associação


(semelhança, causalidade e contiguidade)
e *relação de várias ideias simples, Ideias
realizadas pela imaginação, surgem... complexas
Imaginação e associação
Para justificar a combinação e associação das
ideias simples em ideias complexas, realizadas
pela imaginação, Hume apresenta o exemplo do
Centauro:

O centauro é fruto da
imaginação humana,
pois o indivíduo associa
as ideias de “cavalo” e
de “homem” em uma
só figura.
Associação das ideias
Mas como a imaginação consegue associar, combinar
e relacionar ideias diferentes?

Segundo Hume, as ideias simples


associam-se entre si na mente não
somente segundo o livre jogo da
fantasia, mas também por conta de
um jogo bem mais complexo,
baseado em princípios que se
mostram os mesmos nas pessoas.

Trata-se, portanto, dos princípios universais que regem


o processo de associação das ideias.
Princípios de associação das ideias

A imaginação é, portanto,
um feixe de percepções
unidas e combinadas por
associação, a partir de três
princípios básicas do
intelecto humano:
semelhança, contiguidade
e causalidade.
Princípios de associação das ideias

1º) Semelhança: passamos com muita facilidade


de uma ideia a outra por conta de uma
determinada semelhança existente entre elas.

Por exemplo: uma


fotografia ou imagem
me faz vir à mente
inúmeras percepções
que originariamente
foram memorizadas
em outros momentos.
Princípios de associação das ideias

2º) Contiguidade: passamos também com muita


facilidade de uma ideia a outra que habitualmente se
apresenta a nós como ligada à primeira no espaço e
no tempo.

Por exemplo: a ideia de


uma sala de aula me recorda
a ideia (imagem espacial) das
salas vizinhas; ou a ideia de
levantar uma âncora suscita
a ideia (sucessão temporal)
da partida de um navio.
Princípios de associação das ideias

3º) Causalidade: combinamos com muita facilidade


aquelas ideias que estão vinculadas pela relação de
causa e efeito.

Por exemplo:
quando penso no
fogo, inevitavelmente
sou levado a pensar
no calor ou na
fumaça que dele se
desprende.
A associação das ideias não
vem da experiência
No entanto, tais relações e princípios não podem ser
observados como parte da experiência, pois não
pertencem aos objetos, mas sim a uma
associação da imaginação.

As associações entre ideias


(semelhança, contiguidade
e causalidade) são apenas
modos pelos quais
passa-se de um objeto a
outro, de um termo a
outro, de uma ideia
particular a outra.
A associação das ideias não
vem da experiência
Ou seja, trata-se de simples passagens externas
que permitem ao indivíduo associar os termos a
partir dos princípios de causalidade,
semelhança e contiguidade.
A associação das ideias não
vem da experiência

Por exemplo, quando uma


bola de bilhar choca-se com
outra, que então se põe em
movimento, não há nada
na experiência que
justifique denominar a
primeira bola como causa
do movimento da segunda.
A associação das ideias não
vem da experiência
Do mesmo modo, ao associarmos calor e fogo,
peso e solidez ou concluirmos que o Sol surgirá
amanhã porque surgiu ontem e hoje.
Ideias complexas são apenas
feixes de percepções sucessivas

Hume nega, portanto, a validade universal do


princípio de causalidade e da noção de
necessidade a ele associada.

O que observamos é
a sucessão de fatos
ou a sequência de
eventos e não o
nexo causal entre
esses mesmos
fatos ou eventos.
O hábito e a crença

É o hábito criado pela observação de casos


semelhantes que nos faz ultrapassar o dado e
afirmar mais do que a experiência pode alcançar.

A partir desses casos, supomos (crença) que o fato


atual se comportará de forma análoga ao anterior.