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s. TOMÁS '

Tr a tad o d a L e i

que se

aco.stuma a evitar o mal e fazer o bem por temor ao castigo, acaba por faze-Io com gosto e por vontade própria. Desta maneira a lei também pode, mediante o castigo , impulsionar os homens a serem bons .

4. À quarta,

que com frequência

uma pessoa

32

Capítulo IV

DA LEI ETERNA (I, li, que s t ã o 9 3 )

É necessário agora que consideremos cada um dos tipos de

depois a lei natural; em terceiro a Lei Antiga; e, finalmente, a Lei

lei. E em primeiro lugar, a lei eterna;

lugar,

Nova , que é a do Evangelho.

a lei humana; em quarto lugar,

Sobre a sexta lei, que é a de inclinação

ao pecado, basta o que já se disse ao tratar sobre o pecado original. Acerca da primeira lei, a saber, a lei eterna , perguntam-se cinco coisas : primeira, se se dá; segunda, se é conhecida por todos; terceira , se toda a lei deriva dela ; quarta, se as coisas necessárias es- tão submetidas à dita lei; quinta, se os contingentes naturais estão sujeitos à dita lei; e sexta , se todas as coisas humanas lhe estão sub-

metidas.

S e a l e i et e rna

Artigo

é a s u m a r azão ex i ste nt e e m D e us

Parece que a lei eterna não é a suma razão existente Deus, porque :

em

33

Tratado da Lei

1. A lei eterna é só uma. Mas as ideias das coisas em Deus são múltiplas, pois disse Agostinho no livro sobre as "Oitenta e três

questões", que "Deus fez todas as coisas segundo ideias próprias de cada uma": Portanto, não parece que a lei eterna seja o mesmo que a razão existente na mente divina. 2. Além do mais, é próprio da essência da lei a promulgação

verbal.

apesar de que a lei é algo essencial. Por isso mesmo, não parece que

a lei eterna seja o mesmo que razão divina.

Mas como já se disse, o Verbo é algo de Pessoal em Deus,

3. Finalmente ,

disse Agostinho

no livro "Da

verdadeira

religião", capo 30: "Sobre a nossa mente aparece uma lei superior, que chamamos verdade". Mas a lei que existe sobre a nossa mente é

a

lei eterna. Logo, a verdade é a lei eterna. Mas a essência da verdade

e

da razão não são a mesma. Logo, tampouco a lei eterna é o mesmo

que a suma razão. Contudo, disse St 2 Agostinho no "Do Livre Arbítrio" livro 1, cap o 6" : "A lei eterna é a razão suprema, a quem temos sempre que ajustar-nos".

Respondo : Em todo o artista preexiste o modelo das coisas que executa pela arte. Do mesmo modo, é necessário que exista no governante o modelo de ordem das coisas a que os súbditos devem

executar. E assim como o modelo das coisas que se fazem para a arte

se chama arte ou exemplar das obras artísticas,

modelo que o governante tem acerca da actuação dos súbditos, se

que já

tratamos da lei. E Deus, pela Sua sabedoria, é o autor de todas as

coisas, e com Ele se compara o artista no que respeita à sua obra de arte . Também é o governador de todos os actos e moções de todas as criaturas. Daí que, assim como a razão da divina sabedoria tem as características da arte , ou do exemplar , ou da ideia, enquanto foram criadas por elas todas as coisas , da mesma maneira , a razão da divina sabedoria que leva todas as coisas ao devido fim, tem as

de uma lei. E segundo isto, a lei eterna não é senão a

características

assim também o

chama lei, ainda que tendo em conta as demais condições

Da lei eterna

razão da divina sabedoria enquanto dirige todos os actos e moções

das criaturas.

1. À primeira dificuldade pode responder-se que Agostinho

fala aí das razões ideais que se referem às naturezas próprias de cada criatura singular, e, portanto, encontra-se nelas certa distinção e pluralidade, segundo as suas diversas referências às co i sas, como se disse já na primeira parte. Mas a lei é directiva dos actos em ord~m ao bem comum. E todas as coisas que são em si diversas entre SI, con- sideram-se como uma unidade enquanto se dirigem todas a um fim comum. E portanto a lei eterna é uma, ou seja, a razão desta ordem .

2. À segunda, que se podem considerar

dois aspectos na

palavra: a palavra em si, e aquilo que se e x pressa peta palavra. ':

palavra enquanto som é algo que o homem pronuncia com a boca, mas com tal palavra expressa-se o que se quer significar com a palavra humana. O mesmo se pode afirmar com a palavra mental do homem, que não é outra coisa senão um certo conceito da ment~, pelo q~al se expressa mentalmente aquilo sobre que se pensa. Ass~m tambem . na

divindade , diz-se que o Verbo é pessoal

pela mente do Pai ; mas tudo quanto o Pai conhece, seja no referente

às essências ou ao pessoal , seja respeitante às suas obras, e x pressa- se pelo dito Verbo, como consta no comentário "Sobre a Santíssima

enquanto e o concebido

E acerca de todas as

demais coisas que se e x pressam por este Verbo , também a le~ eterna se expressa pelo mesmo Verbo. Mas n ã o s i gnif ica isto que a lei eterna

se encontre pessoalmente na divindade. Apenas que se costuma

Tr i ndade"

livro 15, capo 14. de Agostinho.

aplicar ao filho, em quanto se refere à

.

3 . À ter ceira, que a razão do intelecto divino se relaCiona com

as coisas de maneira diferente do intelecto humano. Pois o intelecto

humano é medido pelas coisas ; por exemplo a ideia de homem .não é verdad e ira por si mesma, mas porque está de acordo c?m a r e ali~ade . Como disse Aristóteles nas "Categorias", "uma idei a e verdadeira ou

Pelo

falsa , segundo sejam assim ou não sejam assim as c~isas ".

contrário

cada coisa é verdadeira enquanto i mita o intelecto divino, como se

o intelecto divino é a medida de todas as coisas porque

35

Trat a do da L e i

disse na primeira parte. E, portanto, o intelecto divino é verdadeiro em si mesmo. Pelo qual a sua razão é a própria verdade.

Artigo

Se a lei eterna é conhecida de todos

Parece que a lei eterna não é conhecida de todos, porque:

1 . Como disse o Apóstolo, "nada, senão o Espírito de Deus,

conhece as coisas de Deus" (1 Cor. 2,11). Mas a lei eterna é um certo J

ordenamento

que existe

na mente divina.

Logo não é de todo

conhecida.

2. Além do mais, diz Agostinho "Do Livre Arbítrio", livro 1, capo

6: "a lei eterna

perfeita ordem". Mas nem todos conhecem como estão ordenadas as coisas. Logo, nem todos conhecem a lei eterna.

3 . Finalmente disse Agostinho no seu livro "Da Verdadeira

faz que seja justo que todas as coisas conservem

os

homens". Mas, como se disse na "Ética", livro 1, capo 3: "Cada um acerca daquilo julga bem daquilo que conhece". Logo, nem todos conhecem a lei eterna .

Contudo, disse Agostinho no livro "Do Livre Arbítrio", livro 1, cap o 6:"a lei eterna foi gravada em nós".

Religião",

capo 31: "Acerca

da lei eterna

não podem julgar

Respondo: Uma coisa pode conhecer-se de duas maneiras:

em primeiro lugar, em si mesma; em segundo lugar, no seu efeito, no

qual se encontra uma certa semelhança da coisa, assim como alguém

que não conheça directamente o Sol na sua substância o pode

Neste sentido, pode afirmar-se que

conhecer na sua irradiação.

ninguém conhece a lei eterna em si mesma a não ser os bem-

aventurados que vêem Deus na sua própria essência . Mas as criaturas

36

Da lei eterna

racionais podem conhecer essa lei nas suas irradiações, com um ou

menor conhecimento. É que o conhecimento de qualquer verdade é

certa irradiação e participação da lei eterna, que é verdade imutável,

como disse Agostinho no seu livro "Da Verdadeira Religião", capo 31.

Pois todos conhecem de alguma

quanto aos princípios comuns da lei natural. Os outros participam mais

ou menos do verdadeiro conhecimento, e segundo isto conhecem

mais ou menos a lei eterna .

maneira a verdade, pelo menos

1 . À primeira dificuldade pode responder-se que não pode-

mos certamente conhecer as coisas divinas em si mesmas, mas so-

mente nos efeitos que se nos manifestam, como diz a Carta aos

Romanos. "O invisível de Deus pode ser conhecido pelo intelecto,

pelas coisas que foram feitas por ele" (1,20).

2. À segunda, que ninguém pode conhecer totalmente a lei

eterna, ainda que cada um possa conhecê-Ia mais ou menos segundo

a sua capacidade,

se pode manifestar plenamente pelos seus efeitos . E assim não é

possível que cada um conheça a lei eterna segundo a maneira antes

dita, de forma a abarcar toda a ordem das coisas, segundo a qual todas

estão perfeitamente ordenadas.

como o acabamos de expressar; porque nem tudo

3. À terceira, que o julgar de algo pode entender-se de duas

maneiras. Em primeiro lugar , como a faculdade cognisciva julga o seu

próprio objecto, segundo o expressa Job: "Não julga o ouvido as

palavras, e o paladar os sabores do que come?" (12,11). E segundo

este modo de julgar disse o Filósofo na "Ética", livro 1, capo 3, que

"cada um julga o que conhece", a saber, julgando sobre a verdade do

que se lhe propõe. Outro segundo modo de julgar, é como o superior

julga o súbdito com um juízo prático sobre se deve ser assim ou não

deve ser assim. E neste sentido ninguém tem direito de julgar a lei

eterna.

37

Tratado da Lei

Artigo 3 º

Se toda a outra lei deriva da lei eterna

Parece que nem toda a lei deriva da lei eterna, porque:

1. Dá-se uma lei que é tendência ao pecado , como se disse antes. E tal lei não deriva da lei divina, que é lei eterna, pois a lei do

pecado procede da carne, a qual, segundo .o Apóstolo,

estar sujeita à lei divina" (Rom. 8,7) . Portanto , nem toda a lei procede

da lei eterna.

"não pode

2 . Além do mais, nada de iníquo pode proceder da lei eterna,

como já se disse: " a lei eterna é aquela pela qual é justo que todas as coisas estejam bem ordenadas". Mas algumas leis são iníquas , como disse Isaías: "ai daqueles que estabelecem leis iníquas" (10,1). Portanto, nem toda a lei procede da lei eterna. 3. Finalmente, disse Agostinho no "Do Livre Arbítrio", livro 1, capo 5: "a lei que se estabelece para governar o povo, com razão permite muitas coisas que a providência divina há-de castigar" . Mas a razão da providência divina é a lei eterna, como se disse. Logo, nem

toda a lei procede da lei eterna. Contudo , diz a div i na sabedoria no Livro dos Provérbios : "Por

mim reinam os reis, e os legisladores decretam o que é justo" (8,15) .

Mas a razão

Logo, toda a lei provém da eterna .

da divina sabedoria é a lei eterna, como antes se disse .

Respondo : A lei é um certo ordenamento que dirige as coisas

para o seu fim. E em todas aquelas coisas que se movem ordenada-

mente , é necessário que a capacidade

de mover-se do segundo

movente,

segundo movente não pode mover - se senão quando é movido pelo

primeiro . Daí que vejamos o mesmo

derive da potência

do primeiro

motor, já que o mesmo

ao

em tudo o que concerne

38

Da lei eterna

governo: do primeiro soberano deriva o poder do segundo, assim como numa cidade a lei sobre tudo aquilo que há-de executar-se deriva da potestade do rei, para que se aplique na administração dos inferiores. Igualmente, nas obras artísticas, a direcção das obras deriva do arquitecto, a partir de cuja ideia os artífices subordinados realizam a obra. E como a lei eterna é a razão governadora no governante supremo, é necessário que todas as demais ordenações do governo que se encontram nos governadores inferiores, derivem da lei eterna. Por isso disse Agostinho no livro, capo 6 de "Do Li v re Arbítrio": "nada é justo e legítimo na lei temporal que não derive da lei e t erna".

1. À primeira dificuldade pode contestar-se que a tendência

para o pecado tem características de lei no homem enquanto é um castigo da justiça divina: e segundo isto é claro que deriva da lei eterna. Mas enquanto inclina ao pecado, é contrário à lei de Deus, e

neste sentido não é lei , como é claro do dito anteriormente.

de lei

enquanto se dá a recta razão. E segundo isto é claro que deriva da lei eterna . Pois enquanto se afasta da razão, converte-se em lei iníqua, e

então já não tem características de lei, mas mais de certa violência. E ainda assim, na mesma lei iníqua se pode dar alguma semelhança à lei, enquanto se observa a ordem da potestade daquele que faz a lei, e neste sentido diz-se que deriva da lei eterna, já que "toda a potestade procede de Deus", como se disse na Carta aos Romanos (13,1).

2. À segunda, que a razão humana tem características

3. À terceira, que a lei humana deve permitir certas coisas não

aprovando-as, mas enquanto não é capaz de dirigi-Ias. Pois muitas coisas que dirige a lei divina não pode dirigi-Ias a lei humana , já que

muitos actos dependem mais de uma causa superior que de uma

humana não é capaz de

entrar naquelas coisas que não pode dirigir, deduz-se que provém da lei eterna . A dificuldade estaria em que a lei humana aprovasse

inferior . Daí que , pelo mesmo que a razão

aquelas coisas que a lei eterna reprovasse.

deduzir-se que

n ã o é capaz de segui-Ia na perfeição .

Por isso não pode

a lei humana não derive da lei eterna , mas mais que

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Tr aJ ad o da L e i

Artigo

Se as coisas necessárias e eternas estão sujeitas à lei eterna

Parece que todas as coisas necessárias sujeitas à lei eterna, porque :

e eternas estão

1. Todo o razoável está sujeito à razão. Mas a vontade divina é

razoável, posto que é justa. Logo, está

divina é a lei eterna . Logo a vontade E como a vontade de Deus é algo

necessárias e eternas estão sujeitas à lei eterna.

a razão

de Deus está. sujeita à lei eterna.

sujeita à razão . Mas

eterno, segue - se que as coisas

2 . Além do mais, tudo o que está sujeito ao rei, está sujeito à

vontade do rei. E o Filho, como se diz na Carta aos Coríntios, "Estará ~

sujeito ao Pai,

Logo, o Filho , que é eterno , está sujeito à lei eterna .

3 . Finalmente, a lei eterna é a razão da providência divina . Mas

muitas coisas necessárias estão sujeitas à divina providência, assim

como a permanência das substâncias não corporais e dos corpos

celestes. Logo, as coisas necessárias eterna .

Contudo, aquelas coisas que são necessárias não podem ser de outra maneira, daí que não necessitem de nenhuma proibição. Mas ao homem é necessário que se proíbam certas coisas, para que se afaste do mal, como antes se indicou . Logo , as coisas necessárias não estão sujeitas à lei eterna.

também estão sujeitas à lei

quando este lhe entregar o reino" (I Cor. 15,24,28).

Respondo: A lei eterna é a razão do governo divino. Portanto, todo aquele que está sujeito ao gove r no divino também o está à lei eterna. Mas aquelas coisas não sujeitas ao governo divino tampouco o estão à lei eterna . E poderíamos distinguir ambos os tipos de coisas por comparação com o que nos rodeia . Assim, estão sujeitas à lei

40

D

a l e i e t e rn a

humana todas aquelas coisas que o homem pode fazer ; mas aquilo

que não per t ence à natureza humana não está sujeito à lei humana,

mãos ou pés . Assim à lei

eterna está sujeito tudo aquilo que pertence às coisas criadas por Deus, sejam contingentes ou necessárias . Mas tudo o que pertence à natureza divina ou à sua essência, não está sujeito à lei eterna, mas identifica-se com a lei eterna .

por exemplo que o homem tenha alma ou

1

. À primeira

dificuldade

poderíamos

responder

que

podemos falar sobre a vontade de Deus de duas maneiras : em

primeiro lugar, enquanto à mesma vontade, e neste sentido não está

sujeita à lei eterna, nem ao governo divino, posto que pertence

mesma essência de Deus, mas identifica- se com a lei eterna. Em

segundo lugar, podemos falar da vontade divina enquanto Deus quer

algo das suas criaturas, as quais estão sujeitas à lei eterna, enquanto o

seu ordenamento está

à

na sabedoria divina.

E por razão deste

ordenamento, a vontade divina diz-se razoável. Mas por razão de si

mesma , não pode chamar-se razoável, mas mais do que isso a razão

mesma .

2. À segunda, que o Filho de Deus não foi feito por Deus,

mas engendrado naturalmente do Pai. E, portanto, não está sujeito à

divina providência nem à lei eterna ; mas melhor há-de dizer-se que o

mesmo é a lei eterna, por certa apropr i ação , como disse Agostinho no

seu livro "Da Verdadeira Rel i gi ã o", capo 31. Mas

sujeito ao Pai por r azão

também se af i rma que o Pai é mai or do que ele (Jo. 14,28) .

diz-se que está

da sua natureza humana, segundo a qual

3 . À terceira, que , como diz o Filósofo no livro 5 da Metafísica,

algumas coisas necessárias têm uma causa da sua necessidade; e

assim de outro recebem a mesma lncapac i dade de ser outra coisa do

que s ã o . E isto mesmo é uma efectivíssim a coacção, pois se diz

serem coagidas, enquanto n ã o podem fazer outra coisa senão o que

está disposto acerc a delas.

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Tratado da Lei

Artigo

52

Se o natural contingente está sujeito à lei eterna

Parece que o natural contingente não está sujeito à lei eterna ,

porque :

1. A promulgação é da essência da lei. Mas a promulgação

não pode fazer-se senão às criaturas racionais, já que só elas são

capazes de captar o enunciado. Logo, só as criaturas racionais estão

sujeitas

à lei eterna e não as que sucedem

de maneira natural

contigente.

2.

Além do mais, como se lê na Ética, livro 1, capo último:

"Quando obedece à razão participa de alguma maneira dela". E a leí .,

eterna é a suprema razão, como já dissemos . E como o contigente natural, não participa de nenhum modo da razão, pois é bem mais irracional, segue-se que não parece cair debaixo da lei eterna.

3. Finalmente, a lei eterna é muito eficaz. Mas no contigente

natural há falhas. Portanto, não parece cair sob a lei eterna.

Contudo, diz o Livro dos Provérbios . "Quando circundava o mar, e punha lei às suas águas para que não ultrapassassem os seus limites" (8,29).

Respondo : De duas maneiras tem que se considerar a lei dos homens e a lei eterna, enquanto esta é de Deus. Pois a lei dos homens estende-se somente às criaturas racionais sujeitas ao

aos

homem. E a razão disto é que a lei é guia dos actos que convêm

súbditos de um governo; daí que, propriamente falando, ninguém impõe uma lei aos seus próprios actos. Tudo aquilo que se refere ao

uso das coisas irracionais sujeitas ao homem realiza-se por uma acção humana que as move, já que tais coisas irracionais se movem não por

si mesmas, mas por outro . E por isso

impor-Ihes leis como se estivessem sujeitas a ele . Mas pode sim impor essa lei às criaturas racionais submetidas a ele, enquanto por um

mesmo, o homem não pode

42

Da lei eterna

preceito ou por uma indicação imprime na mente de tais criaturas, alguma regra que é um preceito para trabalhar. E ass i m como, med i ante tal indicação, o homem imprime no

homem que lhe está sujeito um certo princípio interior, assim também Deus, imprime em toda a natureza os princípios dos próprios actos. E assim se diz que Deus manda em todos os seres naturais , conforme o

Salmo : "Pus um prec e ito que

todos os movimentos e acções de toda a natureza estão sujeitos à lei eterna. Portanto, as criaturas racionais estão sujeitas à lei eterna enquanto são movidas pela divina providência, ainda que não pela inteligência, como as criaturas racionais .

não passará" (148, 6). E por tal motivo

1 . À primeira dificuldade respondo que há um paralelismo

entre a impressão de um princípio intrínseco de acção nas coisas

naturais, e a promulgação da lei para o homem . Porque pela

promulgação da lei imprime-se no homem um certo princípio que lhe serve de guia nos seus actos, como se d i sse anteriormente. 2. À segunda, que as criaturas irracionais não participam da

humana nem lhe obedecem . Contudo, participam da razão

divina de um modo semelhante à obediência. Pois a razão divina

estende-se a mais coisas para além da razão humana . E assim como os membros do corpo humano se movem pelo império da razão, sem que eles mesmos sejam racionais, já que não têm nenhuma

percepção orientada pela razão, da mesma

irracionais são movidas por Deus , ainda quando elas mesmas não participam da razão.

que

sucedem nas coisas naturais, ainda quando não estão sujeitas a uma

causa particular, sucedem, contudo, segundo a ordem das causas

universais , e particularmente da causa primeira , que é Deus , de cuja

razão

maneira as coisas

3 . Ao último argumento responde-se

que os defeitos

providência

nada pode escapar. E como a lei e t erna é a razão da

providência

divina, como antes se disse, por isso os defeitos

das

coisas naturais estão sujeitos à lei eterna.

43

Tratado da L e i

Artigo

Se todo o humano está sujeito à lei e terna

Parece que nem todo o humano está sujeito à lei eterna,

porque:

1 . Diz o Apóstolo:

"Se somos guiados pelo Espírito , não

estamos sob a lei" (Gal. 5,18). Mas os filhos de Deus por adopção são guiados pelo Espírito de Deus, conforme reza a Carta aos Romanos _ :

"Aqueles que são guiados pelo Espírito, esses são filhos de Deus" (7,14). Logo, nem todos os homens estão sujeitos à lei eterna. 2. Além do mais, diz o Apóstolo na Carta aos Romanos: "A -r-; prudência da carne é inimiga de Deus , pois não está sujeita à sua lei" (8,7). Mas há muitos homens sujeitos à prudência da carne: logo, tais

homens não estão sujeitos à lei eterna. 3. Finalmente, disse Agostinho em "Do Livre Arbítrio", livro 1, capo 6, que, "a lei eterna é aquela pela qual os maus merecem ser condenados e os bons uma vida feliz". Mas os condenados e os bem- -aventurados já não estão em estado de merecer. Logo, não estão

sujeitos à lei eterna. Contudo, disse capo 12: "Nada há que

em "A Cidade de Deus", livro 19,

possa subtrair-se às leis do sumo Criador e

Ordenador do qual procede a paz no universo" .

Agostinho

Respondo: É duplo o modo como algo pode submeter-se à lei eterna: em primeiro lugar, pode-se participar da lei eterna pelo conhecimento. Em segundo lugar, por acção ou paixão, enquanto se participa dela por um princípio de movimento . E neste segundo sentido participam da lei eterna as criaturas irracionais. Mas como a criatura racional tem algo de comum com as irracionais, e algo próprio enquanto é racional, por isso está submetida à lei eterna de ambas as

44

Da l e i eterna

maneiras. Porque, por uma parte, como já dissemos, conhece na sua consciência a lei eterna, e por outra, enquanto natureza, sente

inclinação para tudo o que é concordante

diz no livro 2 da Ética: "Nascemos para adquirir a virtude" . Ambos os modos são muito imperfeitos e até certo ponto muito corrompidos pelos males, nos quais a inclinação à virtude se

com a lei eterna, como se

torna depravada pelos hábitos viciosos. E ainda nos próprios bons, o seu conhecimento encontra-se ensombrado pelas paixões e hábitos

pecaminosos.

Mas nos bons , ambos os modos de participar da lei

encontram-se de uma maneira mais perfeita ; porque ao seu

conhecimento

natural do bem acrescenta-se o conhecimento da fé e

da sabedoria , e à inclinação natural para o bem acrescenta-se a

motivação interior da graça e da virtude.

bons estão sujeitos à lei eterna de maneira per-

feita, já que sempre executam em conformidade com ela. Os maus, pelo contrário, estão-no imperfeitamente, já que as suas acções se realizam com um conhecimento e uma inclinação imperfeitas ao bem. Mas o que falta na sujeição da sua acção, é suplantado na sua paixão, já que a lei eterna Ihes dita um castigo para suprir o que Ihes falta fazer de quanto convém à lei eterna . Por isso disse Agostinho no "Do Livre Arbítrio", livro 1, capo 15: "Creio que os justos trabalham segundo a lei eterna". E no seu livro "Da catequização dos simples", capo 18, disse que "Deus soube prover convenientemente de leis as partes inferio- res da criação, para justo castigo de quem O abandona".

E assim, os

1 . À primeira dificuldade responde-se que essa afirmação do

Apóstolo pode entender - se de duas maneiras: em primeiro lugar

entende-se que o homem não quer submeter-se à obrigação, fá-Ia como quem há-de carregar um fardo pesado. Por isso a Glosa diz que "está sob a lei que se abstém das más acções por temor ao castigo

sentido os

com que a lei ameaça, e não por amor à justiça". E neste

homens espirituais não estão sob a lei, porque cumprem a lei guiados

pela caridade que o Espírito Santo infunde nos seus corações . Em segundo lugar, pode também entender-se enquanto que quanto mais o homem actua guiado pelo Espírito Santo, mais podem tais

45

Trat a d o d a L e i

obras serem ditas do Espírito Santo que do homem . E neste sentido, já que o Espírito Santo, como o Filho , não está sob a lei, pode dizer- se que tais obras não estão sob a lei. E isto confirma-se pelo que diz o Apóstolo: "Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade" (11Cor.

3,17).

2 . À segunda que a prudência da carne não pode submeter-

-se à lei de

trárias à lei de Deus . Mas sim está sujeita enquanto merece sofrer as

penas segundo a lei da justiça divina . Todavia, de nenhum modo a

prudência da carne domina de tal maneira um homem, que deixe to- talmente corrompida a sua natureza. E, portanto, resta ao homem tra- balhar naquelas coisas que estão sob a lei. se disse anteriormente que o pecado não abandona todo o bem natural. 3. À terceira, que uma mesma causa é a que move as criaturas para o seu fim, e a que as conserva encaminhadas para o dito fim. assim como um corpo pesado pela força da gravidade é atraído para o lugar mais baixo e permanece nele . E assim, se dissemos que pela lei eterna o homem merece prémio ou castigo, também podemos dizer que pela mesma lei o homem se conserva ou permanece em nesse prémio ou castigo. E neste sentido tanto os bem-aventurados como os condenados estão sujeitos à lei eterna .

Deus por parte da acção, já que impuls i ona a acçóes con-

46

Capítulo V

DA LEI NATURAL

(1.11. qu e st ã o 94)

É necessário agora que consideremos a lei natural. E sobre a mesma temos que tratar seis coisas: primeira, se se dá uma lei natural:

segunda, que coisas estão prescritas pela mesma; terceira, se todos os actos virtuosos estão prescritos por ela; quarta, se a lei natural é a mesma para todos os homens; quinta, se pode mudar; sexta, se pode ser apagada da mente humana .

Artigo

1 2

Se a lei natural é um hábito

Parece que a lei natural é um hábito, porque:

1. Disse o Filósofo na Ética, livro 2, capo 5: "Três coisas se dão na alma: a potência , o hábito e a paixão" . Mas a lei natural não é nem potência da alma nem paixão, como será evidente se se enumerem as

47

Trat a do d a L e i

potências e as paixões da alma. Logo, não resta senão que seja um hábito.

2. Além do mais, disse o Damasceno

em "Da fé Ortodoxa",

livro 4, capo 22, que a consciência

ou sínderese

é "a lei da nossa

Da l e i n at ural

certo princípio de acção, só indica aqueles princípios dos actos humanos como são as potências, hábitos e paixões. Além destes princípios também há outros na alma, como os actos (como o querer

está no sujeito

que quer e o conhecer

no que conhece),

e as

inteligência"

o que não pode entender-se

se não se refere à lei

propriedades naturais da alma, como a imortalidade, e outras .

natural. Mas

a sínderese

é um hábito, como já se disse na primeira

2

. À segunda, que a sínderese é a lei da nossa inteligência

parte. Logo, a lei natural é um hábito. 3. Finalmente, a lei natural permanece sempre no homem, como adiante diremos. Mas a razão humana, a que pertence a lei , nem sempre pensa na lei natural. Logo, a lei natural não é um acto, mas um hábito.

Contudo, disse Agostinho no livro "Do Bem Conjugar, cap o 21: "Hábito chama-se àquilo pelo qual se faz uma coisa quando é necessária". Mas a lei natural não é assim, já que também se dá a crianças e nos condenados, os quais não podem agir por ela . Logo, ~ a lei natural não é um hábito.

Respondo: Pode chamar-se hábito a uma coisa de dois modos: primeiramente de maneira própria e essencial, e neste

sentido a lei natural não é um hábito,

lei natural é algo estabelecido pela razão , como o é toda a proposição.

já que, como antes dissemos, a

E não é o mesmo aquilo que alguém faz e o meio que usa para íazê-Io:

por exemplo, alguém pode fazer um discurso correcto por ter o hábito da gramática . E sendo o hábito como um meio pelo qual ele actua, a lei propriamente não é um hábito deste ponto de vista essencial. Mas também pode chamar-se hábito àquilo que se possui por um hábito, assim como chamamos fé àquilo que tomamos como fé. E neste sentido a lei natural pode chamar-se hábito , quando algumas vezes a razão considera os seus preceitos para actuar, e outras vezes os tem apenas habitualmente. Assim, como na ordem especulativa os princípios indemonstráveis não são o próprio hábito dos princípios , mas são antes princípios daquilo ao que se refere o hábito.

1 . À primeira dificuldade responde-se que o Filósofo trata ali

de investigar o género da virtude; e como é evidente que a virtude é

enquanto é um hábito que contém os preceitos da lei natural , que são

os primeiros princípios dos actos humanos.

3. À terceira, que tal objecção prova que temos a lei natural de

modo habitual, o que é aceitável.

Mas há que aclarar a objecção em contrário, que algumas

está em nós, porque se

interpõe algum impedimento, assim como o homem não pode usar do hábito da ciência enquanto dorme. Do mesmo modo, a criança não pode usar do hábito da inteligência dos princípios, nem da lei natural

que habitualmente está nele, por efeito de idade.

vezes não usamos o que habitualmente

Artigo

2 2

Se a l e i n a tur a l in c lui muitos pre ce itos ou s ó um

Parece que a lei natural não inclui muitos preceitos mas só um ; porque:

1. A lei está contida no género dos preceitos, como antes se

disse . Mas se fossem muitos os preceitos da lei natural, necessaria- mente seriam também muitas leis naturais.

2. Além do mais, a lei natural

segue-se

da natureza

do

homem . Mas esta é uma enquanto ao todo, embora seja múltipla nas suas partes . Assim, pois, ou se dá um só preceito na lei natural,

consequente da unidade do todo, ou se dão muitas, seguindo a multidão de partes da natureza humana. Mas em tal caso, mesmo as incl i nações da concupiscência pertenceriam à lei natural.

Tratado da Lei

3. Finalmente, a lei é algo que pertence à razão, como já se

disse. Mas a razão do homem lei natural.

Contudo, dá-se entre os preceitos da lei natural e as acções do homem, a mesma relação que entre os primeiros princípios e o demonstrável na ordem especulativa. Mas há muitos princípios na ordem especulativa, logo também na lei natural há muitos preceitos.

só é uma, logo só se dá um preceito na

A mesma relação que há entre os preceitos e a

ordem prática é a que existe entre os princípios primeiros na ordem especulativa: ambos, com efeito, são princípios evidentes em si mesmos. Mas algo pode ser evidente por si de duas maneiras:

considerado em si e considerado em relação a nós. Considerada em . si, uma proposição é evidente quando o predicado está contido no

sujeito; ainda pode suceder que, se alguém ignora a definição

sujeito, não chegue a entender a dita proposição. Assim, por ""

exemplo, a proposição "o homem é racional", é de si evidente porque quem diz "homem" diz "racional"; ainda pode suceder que alguém

Respondo:

do

ignore o que é homem, e assim,

para ele, tal proposição não será

evidente. Por isso disse Boécio no seu livro" Das Semanas", que há axiomas e proposições de per si evidentes para todos os homens,

vulgarmente falando, como seriam todas aquelas proposições de

termos evidentes, por exemplo, "o todo é maior que as suas partes",

e "duas quantidades iguais a uma terceira são iguais entre si". Mas

algumas proposições só são evidentes para os conhecedores, que entendem o que significam os termos das proposições; por exemplo, para quem entenda que o anjo não é um corpo, será evidente que não está circunscrito a um lugar; mas não é isto evidente para as pessoas simples, que não conseguem a entender a natureza dos anjos.

E em todas as coisas que pertencem ao conhecimento hu- mano dá-se uma certa ordem. Pois o que primeiramente cai sob o co-

nhecimento é o ser, cuja apreensão está incluída em tudo aquilo que

o homem conhece. E, portanto, o primeiro princípio indemonstrável é que "não se pode afirmar e negar o mesmo ao mesmo tempo"; prin-

50

Da lei natural

cípio que está fundamentado

bre este princípio fundam-se todos os demais, como se disse na Metafísica, livro 4. E assim como o ser é o primeiro que se conhece,

assim o bem é o primeiro que cai sob a razão prática, que se ordena acção; já que todo o agente trabalha por um fim, e este não é senão bem. E assim, o primeiro princípio da razão prática é que se fundamenta sobre a noção de bem, que é a seguinte: "bom é aquilo

que todos apetecem".

deve fazer-se o bem e evitar-se o mal. E sobre este preceito fundam- se todos os demais da lei natural: ou seja, que tudo aquilo que há-de fazer-se ou evitar-se cai sob os preceitos da lei natural enquanto a razão prática pode captar que tais acções são bens humanos.

à

o

no conceito de ser e de não ser, e so-

Este é ,pois, o primeiro preceito da lei: que

E como o bem pertence à essência do fim, o mal pertence a

todo o contrário; por isso tudo aquilo para que o homem tem inclina-

ção natural, a razão

deve conseguir com a sua acção, e, ao contrário, capta o mal e o que deve evitá-Io. Assim, pois, segundo a ordem das inclinações naturais, há também uma ordem dos preceitos da lei natural. Pois dá-se em pri-

meiro lugar uma inclinação do homem para o bem, naquilo que tem de comum com todos os seres; e assim, com todos eles, tende para a conservação de si mesmo, segundo a sua natureza. E segundo isto,

pertence à lei natural tudo aquilo por

repugna-lhe o contrário. Em segundo lugar, pertence ao homem o

que lhe

pertence à ordem natural "tudo aquilo que a natureza ensinou a todos os animais", como é a união do macho com a fêmea, a educação dos filhos e tudo o semelhante. E, finalmente, dá-se no homem uma Inclinação para o bem segundo a natureza racional que lhe é própria; e de acordo com ela, o homem tem inclinação natural para conhecer a verdade sobre Deus e a viver em sociedade. Logo, pertence à lei

o homem se conserva, e

capta-o como bom, e, portanto, como algo que

que

é comum com os demais animais; e assim, diz-se que

natural tudo o que se refere a esta inclinação; como, por exemplo, que o homem trate de superar a sua ignorância, que não ofenda

aqueles com quem convive, e tudo natureza.

o demais que tem relação com a

51

Trat ado da L e i

1.

À primeira dificuldade respondo que todos os preceitos da

lei natural

são uma só lei natural,

enquanto

se referem só a um

primeiro preceito.

2. À segunda , que todas as inclinações de uma só parte da

natureza humana, como seriam as concupiscíveis e as irrascíveis , per-

tencem à lei natural enquanto hão-de regular-se pela razão e perten- cem ao primeiro preceito, como se disse. E segundo isto, dão - se na lei natural muitos preceitos, mas todos enraízados numa raíz comum .

3

. À terceira ,

que ainda que a razão humana

seja uma,

pertence-lhe ordenar tudo aquilo que se refere ao homem. E segundo isto, na lei da razão está contido tudo aquilo que pode ser regulado pela razão.

Artigo

3 2

Se todos os actos da virtude estão sob a lei natural

Parece que nem todos os actos virtuosos pertencem natural , pelas seguintes razões :

à lei

1. Como se disse acima, é próprio da lei o ordenar ao bem

comum . Mas alguns actos de virtude ordenam-se ao bem particular, como, por exemplo, os actos da temperança. Portanto , parece que nem todos os actos virtuosos estão sob a lei natural.

2 . Além do mais, todos os pecados são opostos a alguns

actos de virtude. Daí se seguiria , que se todos os actos virtuosos são de lei natural, todos os pecados seriam contra a natureza, mas isto afirma-se só para alguns pecados.

3 . Finalmente, todos estão de acordo naquilo que convém à

natureza. Mas nem todos estão de acordo nos actos da virtude, pois para alguns é virtude o que é para outros vício. Portanto, nem todos os actos de virtude são de lei natural.

52

Da l e i natural

Contudo, disse o Damasceno em "Da Fé Ortodoxa", livro 3 , capo 4: "As virtudes são naturais " . Logo, os actos virtuosos estão sob alei.

Respondo: pode-se falar dos actos virtuosos de duas manei- ras: primeiramente, enquanto são virtuosos; logo , enquanto são tais actos, considerados na sua própria espécie. Se considerarmos os actos segundo a primeira maneira, ou seja, enquanto simplesmente virtuosos, caem sob a lei natural; pois já dissemos que pertence à lei natural tudo aquilo a que o homem se inclina segundo a sua natureza. E cada um se inclina naturalmente para as operações que lhe convêm segundo a sua essência, como o fogo tende a aquecer. E sendo a alma racional a forma própria do homem, todo o homem terá a inclina- ção natural para actuar conforme a razão. E isto é agir conforma a virtude. Segundo isto, todos os actos virtuosos pertencem à ordem natural , pois esta dita que cada um deve actuar segundo a sua razão, ou seja, virtuosamente. Mas se considerarmos cada um dos actos virtuosos em si mesmos, segundo a sua espé cie, então pode conceder-se que nem todos são de lei natural. Porque há muitos actos virtuosos a que a natureza se não inclina, mas que o homem mediante o raciocínio encontrou e que são úteis para viver bem.

1 . À primeira dificuldade pode contestar - se que a temperança

refere-se ao ordenamento da inclinação natural à comida, bebida e relações sexuais, e tal ordenamen t o pertence ao bem comum da

natureza da mesma maneira que as outras leis se ordenam ao bem moral comum.

2. À segunda, que a natureza do homem pode entender - se

de

duas maneiras: ou enquanto é exclusivamente própria do homem ,

e

neste sentido

todos os pecados

são contra

a sua natureza,

Ortodoxa", livro 2, capo 30; ou enquanto o homem tem um aspecto da sua natureza comum com os animais, e segundo isto, certos pecados especiais devem chamar - se "contra a natureza", como é contrária à lei natural a união sexual de dois homens, já que a natureza tem como

enquanto são contra a razão, como disse Damasceno em "Da

53

Tratad o da L e i

própria a união sexual entre homem e mulher, a qual é comum em todos os animais; assim o pecado contrário deve especialmente chamar-se vício contra a natureza.

3. À terceira, que tal dificuldade é válida se se consideram os

actos em si mesmos. Por isso sucede que, segundo as diversas con- dições dos homens, alguns actos podem ser virtuosos para uns, já que são proporcionados e convenientes para eles, e em compensa- ção os mesmos actos são para outros viciosos, enquanto não Ihes são convenientes ou proporcionados.

Artigo

Se a lei natural é uma para todos os homens

Parece que a lei natural não é uma para todos os homens,

Da l e i n a tu ra l

Respondo: À lei natural pertence tudo aquilo para que naturalmente o homem se inclina, e é próprio do homem inclinar-se

para algo segundo a sua razão. E é próprio da razão que se proceda

do mais universal ao mais particular, como consta do livro 1 da Física. E

neste caso procedem de maneira inversa a razão especulativa e a razão prática; porque a razão especulativa trata principalmente de coisas necessárias e que não podem ser de outra maneira; e assim, a não ser que surja algum defeito, encontram-se as mesmas

conclusões nos casos particulares e nos princípios comuns. Mas a razão prática trata de coisas contigentes, entre as quais se encontram

as operações humanas; e assim ainda que haja alguma necessidade

nas coisas comuns, todavia, quanto mais se desce ao particular, mais

se encontram falhas; por isso a verdade não se encontra em todas as

conclusões conhecidas pelos homens , mas só nos princípios, que

vêm a ser como os "conceitos comuns" . E assim , nas operações, não

se dá a mesma verdade, ou seja, rectidão prática, em todos, no que se

porque:

refere aos seus actos individuais , mas só nos critérios comuns . E ainda que alguns tenham a mesma rectidão nas coisas concretas,

1.

Diz-se nas Decretais, na primeira distinção, que "o direito

natural está contido na Lei e no Evangelho" . Mas estes não são comuns a todos, porque como se diz na Carta aos Romanos, "nem

todavia não a conhecem igualmente. Portanto, é evidente que, tratando-se dos princípios comuns, tanto na ordem especulativa como na prática, dá-se em todos a

todos obedecem ao Evangelho" (10 , 16). Logo,a lei natural não é uma

mesma verdade ou rectitude,

a qual

é para todos

igualmente

para todos .

2. Além do mais, "diz - se justo todo aquele que é segundo a

conhecida. Mas quanto às conclusões da razão especulativa, ainda que a verdade seja a mesma para todos, não é, todavia, igualmente

lei", como reza na Ética , livro 5, capo 1 e 2. Mas no mesmo livro diz que

nada há que seja justo para todos, sem que haja algumas diferenças

c

onhecida por todos ; por exemplo, para todos é verdade que os três ngulos de um triângulo, igualam dois ângulos rectos; mas nem todos

para certos homens. Logo a lei natural não é a mesma para todos .

c

o

nhecem esta verdade . Em compensação , no que respeita às

3 . F i nalmente,

pertence à lei natural tudo aquilo ao qual o

homem se inclina pela natureza, como já dissemos . Mas os homens

o nclusões da razão prática, nem são as mesmas para todos, nem

l

o d os as conhecem

igualmente. Assim , por exemplo, é para todos

inclinam-se a diversas coisas : uns à concupiscência dos vícios, outros

r

C Io e verdadeiro que devem agi r conforme a razão. E segundo este

às honras, e assim os demais. Logo, não

se dá uma lei natural para

rl

ncípio , segue-se como uma óbvia conclusão que devemos

todos.

volver o que nos foi emprestado . Esta consequência é verdadeira

Contudo, disse Isidoro no livro das Etimologias , livro 5, capo 4:

n

maior parte dos casos; mas pode suceder em algum caso que seja

"O direito natural é comum a todas as nações".

54

noso, e por

conseguinte contra a razão, o devolver o que nos foi

55

Tr a t a do da L e i

emprestado. Por exemplo, se alguém nos pede para atacar a pátria . E

tal princípio é mais falível quanto mais se desce a particulares .

exemplo, quando se contratou o devolver a seu dono o empréstimo

Por

nesta ou naquela forma, ou com esta ou aquela condição . Quanto

mais pa r ticulares são as cond i ções, tanto mais será falível em distintas

formas

emprestado. Assim , pois, devemos

primeiros princípios comuns, é a mesma para todos, tanto no respeito

à sua rectid ã o como no que respeita ao seu conhec i mento. Mas quanto a certas particularidades que se seguem corno conclusões dos pr i ncípios comuns, vulgarmente falando, são igualmente rectas e claras para todos ; mas podem determinar em alguns casos , quer quanto à rectitude, que já por alguns impedimentos particulares se podem interpor (como sucede também por certos impedimentos que faltam em alguns casos às naturezas sujeitas a geração e corrupção),

como também enquanto ao seu conhecimento;

tenha a sua razão depravada , seja pelas pai x ões, ou pelos maus hábitos, ou por uma má disposição natural. Assim, disse Júlio César no livro 6 da Guerra das Gá l i a s , que entre os germânicos não se reputava o crime de latrocínio , naqueles tempos , apesar de tal ser e x pressamente contra a lei natura l .

o ser recto

ou não ser o devo l ver

ou n ã o devolver

o

dizer que a lei na t ural , enquanto aos

porque há quem

1 . À prime i ra d i ficuldade responde-se que n ã o deve in t erpre-

tar-

Evangelho seja de lei natural, já que muitas co i sas que se encon t ram

neles superam a natureza . Apenas enqua n to a l e i na t ural est á aí ple- namente p r esente . Igualmente , t endo dito Graci a no que "a l e i natural está contida na Lei e no Evangelho ", imediatam e nte acrescenta, como para e x empl i ficar, que " pelo Evangelho cada um há --de fazer a outros o que quer que f a çam para si".

se

esse texto como se tudo o que se encontra

na Lei e no

que

se refere àquilo que é naturalmente justo, não s e gundo os primeiros princípios, mas segundo as conclusões derivadas deles; e n e ste

último caso pode haver deficiências em alguns, ainda que na maior parte dos casos seja clara a rectitude.

2. À segunda , que o tex t o do Filósofo pode entend e r-se

56

D

a l e i n a tur a l

3. À terceira, que assim como a razão domina e impera sobre as outras potências no homem , assim também é necessário que as inclinações naturais pertencentes a outras pot ê ncias caiam sob a ordem da razão. E isto é comummente recto para todos os homens, ou seja , que todas as incl i n a ções do homem se dirijam pela razão.

A

r t i g o

52

Se a lei natural pode mudar-se

Parece que a lei natural pode mudar-se , porque:

1 . Diz o Eclesiastes: "acrescentou-Ihes disciplina e uma lei da

vida" (17 , 9) , e acrescenta a Glosa: "Quis dar-lhes uma lei escrita, para

corrigir a lei natural" . Mas aquilo que se corrige muda-se . Logo, a lei natural pode mudar-se.

2. Além do mais, é contra a lei natural o matar um inocente, e

igualmente o adultério

coisas ; por e x emplo ,

inocente ,

h

e

a

Oseas a tomar uma mulhe r adúltera , como diz Oseas 1 , 2 . Portanto,

p ode mudar-se a lei natural.

e o roubo . Mas Deus mudou todas estas

quando mandou Abraão

matar o seu filho

22,2: e quando ordenou

aos

como se d i z no Génesis

e breus que se apode r assem dos vasos que os egí pcios Ihes haviam

mprestado ,

como se lê no Êxodo 3 , 22; e quando

prescreveu

3 . F i nalmente, d i sse Isidoro nas Et i moí oçies ,

livro 5 , capo 4 ,

q ue "é de lei natural a pos s e

l ibe rdade" . Mas vemos que a lei humana muda estas coisas . Portanto ,

comum de todos

os bens e o estado de

a

l e i n a tural é rnutá vet

Contudo, afirma-se na quinta distinção das Oecretais:

"O

di

r e ito natural vem

d e sd e o começo da criatura racional ,

e não se

mu da com o tempo, mas permanece imutável" .

57

Tratado da Lei

Respondo:

Pode dizer-se que a lei natural muda de duas

maneiras. Primeir a mente, quando algo se lhe acrescenta, e neste sentido não há dificuldade em que a lei natural mude, já que se

acrescentaram muitas coisas à lei natural que pareciam úteis à vida humana, e isto tanto da parte da lei divina como da lei humana .

como uma

Também

pode entender-se

esta mudança

subtracção, de maneira que algo que antes era da lei natural , deixa de sê-Io. E neste sentido a lei natural é imutável no que respeita aos primeiros princípios. Quanto aos preceitos secundários , que , segun-

do d i ssemos, são conclusões chegadas aos primeiros princípios, a lei natural não se muda de maneira a que já não seja correcto o que geralmente sempre o é segundo a lei. Contudo , pode mudar-se em alguns casos particulares, referentes a uns quantos, devido a certas

de tais preceitos . que a lei escrita não se

deu para correcção da lei natural enquanto a primeira completou o q u e faltava à segunda; ou enquanto a lei natural se encontrava corrompida nos corações de alguns, quando acreditavam ser bom o que natural - mente é mau; e tal corrupção necessitava de correcção. 2. À segunda, que tanto culpados como inocentes morrem

ao homem por

causas especiais que impedem a observância

1 . À primeira dificuldade responde-se

de morte natural. E essa

morte natural acontece

potesdade

Livro dos Reis : "O Senhor da morte e da vida" (2 , 6) . E, portanto, sem

nenhuma injustiça, mas só por mandato divino, pode dar-se a morte a

o

adultério é uma relação sexual com a mulher alheia, que se entende ter sido dada ao marido por disposição da lei divina. Daí que, se alguém se aproximasse assim de uma mulher por mandato divino , não

cometeria adultério ou fornicação. E o mesmo se d i ga do furto, que é

do objecto alheio . Pois quem recebe tal ordem de

Deus, que é o dono universal de tudo quanto e x iste, não fica com as coisas contra a vontade do dono, e , portanto, não rouba . E não só no que respeita às coisas naturais, pois tudo quanto Deus faz nelas, é

d i vina , devido ao pecado original,

como diz o primeiro

um homem , seja inocente ou culpado. De maneira semelhante,

a conservação

natural.

Da lei natural

3 . À terceira, que a l go é de direito natural de duas maneiras :

primeira, enquanto a isso inclina a natureza, como o não dever-se

injuri a r outrem . Segunda,

o que é contrário, como poderí a mos dizer que é natural ao homem

estar n ú , porque a natureza não lhe deu vestimenta, mas que esta é

produto da sua indústria . E neste sentido

comum de todas as coisas e o estado de liberdade"; porque a separação de posses e a servidão não foram impostas pela natureza, mas pelo engenho humano, para conseguir certa utilidade. E nisto a

lei natural n ã o se mudou, a não ser por adi ção.

enquanto a natureza não nos induz a fazer

é natural direito a "posse

A

rtigo

6 2

Se a lei natural pode apagar-se do coração dos homens

Parece

homens, porque:

que a lei natural

pode manchar

o coração

dos

1. Acerca das palavras da Carta aos Romanos "quando os

gentios que não têm

renovado pela graça escreve- se

u (2, 14) diz a Glosa "no coração do homem

a lei da justiça, que a culpa havia

a

pagado " . Mas a lei da justiça é a lei natural. Logo, a lei natural pode

s

er apagada.

efi caz que a lei natural.

Mas a lei da graça apaga - se p e la culpa. Logo, muito mais a lei natural

p ode apagar-se.

2 . Além do mais , a lei da graça é mais

3 . Finalmente, tudo quanto a lei estabelece, considera-se

Ju sto. Mas há muit a s coisas que o homem estabe leceu

n

contra a lei

a tural. Logo, a lei natural pode ser abolida do coração dos homens.

Contudo , disse Agostinho nas "As Confissões", livro 2, capo

4

In iquidade pode apagá - I a ". Mas a lei escrita no coraç ã o do homem é a

n a tural. Logo, a lei n a tur a l n ã o pode apaga r-se.

: "Tua lei está escrita

nos corações

dos hom e ns

e nenhuma

Tratado da Lei

Respondo : À lei natural pertencem em primeiro lugar aqueles

preceitos que são de todos conhecidos; mas há tam?ém ?u.tros pre- ceitos mais particulares que são como conclusões muito proxirnas dO . S ditos princípios. Quanto aos primeiros, a lei natural não pode ~er um - versalmente . apagada no coração dos homens. Contudo, podia apa- gar-se em algumas normas concretas do agir, enquant.o pode impedir- se à razão que aplique o princípio comum a casos particulares, dada a concupiscência ou as paixões, como já se disse. Mas quanto aos pre- ceitos secundários, a lei natural pode apagar-se nos corações dos homens devido a maus conselhos, como sucede também com os er- ros especulativos nas coisas necessárias; ou também devido a cos- tumes depravados ou a hábitos corrompidos ; e assim, encontramos alguns que não julgam ser pecado o latrocínio, nem ainda os pecados contra a natureza, como disse o Apóstolo na Carta aos Romanos, 1,24

e seguintes.

1. À primeira dificuldade responde - se que a culpa pode apa-

gar algum preceito particular da lei natural, mas não a sua totalidade, a não ser no que respeita a preceitos secundários, como se acaba de

explicar .

2. À segunda, que, ainda quando a graça seja mais eficaz que

a natureza, também é verdade que a natureza é mais essencial ao homem, e portanto mais permanente.

.

.

.

.

3. À terceira, que tal d i ficuldade procede de atender a precei-

tos secundários da lei natural que alguns legisladores atacaram esta-

belecendo algumas leis iníquas .

60

Capítulo VI

D A L E I HUM AN A (I, TI, qu es t ão 95)

É necessano

agora que consideremos

humana.

E em

primeiro lugar trataremos da própria lei considerada

s egundo lugar, do seu poder; e em terceiro, da sua mutabilidade.

Acerca da primeira questão perguntamos quatro coisas:

primeiro, sobre a sua unidade; segundo, sobre a sua origem; terceiro, obre a sua qualidade ; e quarto, sobre a sua divisão.

em si; em

Se foi útil que se

Artigo I! !

estab e l e cessem algumas l e is humanas

Parece que não foi útil que os homens

u mas leis, porque :

estabelecessem

1. A intenção de qualquer lei é de que por ela o homem se bom . Mas os homens são mais induzidos ao bem voluntariamente

61

Tratado da Lei

por conselhos do que pela coacção das leis. Logo, não era necessária a lei humana.

2. Além do mais, como disse o Filósofo na sua Ética, livro 5,

capo 4: "os homens recorrem ao juiz como à justiça viva". Mas a justiça viva é melhor que a inanimada que está contida nas leis. Logo, seria melhor que a execução da justiça se fizesse por arbítrio dos juízes do que o escrever leis para isso.

3. Finalmente, toda a lei dirige os actos humanos . Mas dado

que os actos humanos são singulares, e portanto infinitos, não podem considerar-se suficientemente todos os casos particulares para dirigi-Ios, a não ser por alguém tão sábio que os conheça a todos . Portanto, seria melhor que os actos humanos se dirigissem pelo arbítrio dos sábios do que por uma lei elaborada. Logo, do não era · necessário que se fizessem leis humanas. Contudo, disse Isidoro nas Etimologias , livro 5, capo 20 : "as

leis humanas fizeram-se para que por temor a elas se refreasse <:t au- dácia, e para que estivesse segura a inocência perante os malvados , e para que aos mesmos malvados se abolisse a capacidade de fazer o mal, por temor ao castigo" . E já que estas coisas são tão necessárias ao género humano, foi necessário criar leis humanas .

para a

virtude. Mas para que se dê a perfeição da virtude é necessário que no homem haja certa disciplina. Acontece como no natural: o homem

tem que providenciar para satisfazer a suas necessidades, como a de

se vestir e sustentar, com a sua própria habilidade , mediante o

das suas mãos e da razão, que é para isso que a natureza lha deu; não sucede como nos animais , aos quais a natureza deu suficiente alimento e roupa . Para a aquisição desta disciplina nem sempre se encontra o homem facilmente dotado de tudo o que é necessário. Porque a perfeição da virtude consiste principalmente em retrair o homem dos deleites indevidos aos quais é tão propenso, e principalmente os jovens, que necessitam de uma maior disciplina. E

por isso mesmo é necessário que os homens tenham outro meio para conseguir essa disciplina que os leve à virtude . Certamente àqueles

Respondo:

O homem tem uma certa disposição

uso

62

Da l e i hum a na

jovens mais inclinados à virtude, seja por uma menor disposição da natureza, ou pelo costume, ou pela graça de Deus, bastará a disciplina paterna, que normalmente se baseia em conselhos. Mas, já que se encontram muitos malvados e inclinados ao vício, que de resto não se levariam por palavras, é necessário que se Ihes refreie o mal pela força, ou pelo medo, para que assim, afastando-se do mal, possam pelo menos deixar os outros viver em paz . E pode ser, que, levados finalmente pelo costume, cheguem a fazer voluntariamente o que antes faziam por medo, assim consigam ser virtuosos . E tal disciplina, que obriga por medo ao castigo, é a disciplina das leis. Daí que seja necessário para a paz e a virtude dos homens que se estabelecessem

estas leis ; porque como disse o Filósofo na Política, livro 1, capo 2: "se

o homem é perfeito na virtude é o melhor dos seres vivos; mas se se

separa da lei e da justiça é o pior de todos"; porque o homem tem a

arma da razão para levar a cabo as suas concupiscências e paixões, coisas que não têm os outros animais.

1 . À primeira dificuldade responde-se que os homens bem

dispostos podem ser melhor induzidos à virtude mediante conselhos voluntários que mediante a coacção; mas muitos homens mal

dis postos n,ão se inclinam à virtude se a tal não forem obrigados. 2. A segunda, que, como disse o Filósofo na Retórica, livro 1,

a lei , do que deixá-Ia ao

irbttrio do juiz". E isto por três razões: primeiro, porque é mais fácil

ncontrar uns poucos verdadeiramente sábios que sejam suficientes

I ra estabelecer boas leis, do que muitos mais que seriam 11 ce ssários para aplicar os princípios a caso particular. Segundo,

r o rque aqueles que estabelecem

a p. 1, "é melhor ordenar tudo segundo

as leis podem pensar por muito

I

mpo o que há-de estabelecer-se

nelas,

pelo contrário,

os que

J

U I a m os feitos singulares têm que fazê - Ia

no momento, à medida

u

e stes se apresentam ; e é mais fácil que o homem encontre o que

d

v e fazer-se ao considerar muitos casos, do que ao ter em conta só

u

m

c a so particular . E terceiro, porque os legisladores julgam mais

u

niv e rsalmente

e prevendo o futuro; mas os juízes julgam casos

r

e ntes, e por

isso mesmo podem deixar-se levar pelo amor ou

I

10 ódio, ou por algum interesse e por esse motivo pode viciar-se o

I lzo.

63

Tratad o da Lei

Da lei humana

Assim pois, como a justiça viva dos juízes não é tão comum, e

 

4

. Finalmente, pode dar-se alguma razão de tudo aquilo que

porque é tão flexível, era necessário que em tudo o que fosse

deriva

da lei natural. Mas "não pode encontrar-se

a razão

de tudo

possível as

leis determinassem o que havia de julgar-se, e por isso

aquilo

que foi estabelecido

pelas leis dos maiores",

como disse o

mesmo que se reduzisse ao mínimo o que se podia deixar ao arbítrio dos homens .

3 . À terceira , que naíguns casos particulares

que a lei não

pode cobrir "é necessário que fiquem ao arbítrio dos juízes", como disse o Filósofo no mesmo sítio, como por exemplo, se algo sucedeu

ou não e como esta em outras coisas semelhantes .

Artigo

2 2

Se toda a lei humana deriva da lei natural

Parece que nem toda a lei estabeleclda pelos homens deriva da lei natural, porque:

1. Disse o Filósofo na Ética, livro 5, capo 7, que "legalmente

justo chama-se aquilo que em princípio não exige ser de um modo ou de outro" . Mas não é indiferente que séja de um modo ou de outro aquilo que é proveniente da lei natural. Logo nem tudo que é estabelecido pela lei humana deriva da lei natural.

2. Além do mais, o direito positivo contrapõe - se ao direito

Jurisconsulto. Logo, nem todas as leis humanas derivam da natural.

Contudo, disse Túlio na sua Retórica, livro 2: "A religião e o temor à lei sancionaram aquilo que vem da natureza e que foi aprovado pelos costumes" .

Respondo: Como disse Agostinho em "Do Livre Arbítrio", livro 1, capo 5, "não parece ser lei aquela que não seja justa" . Portanto , uma lei tem força enquanto é justa. E nas coisas humanas diz-se que algo é justo enquanto é recto segundo a regra da razão. Pois a razão é a primeira norma da lei natural, como se disse. Daí segue-se que toda a lei humana é lei enquanto deriva da lei natural. Mas se nalgum caso uma lei se contrapõe à lei natural, já não é lei , mas corrupção da lei. Mas devemos advertir que uma lei pode derivar da lei natural de duas maneiras: primeiro, como conclusão a partir dos princípios ge- rais; segundo, como determinação particular de alguns princípios co- muns. O primeiro modo é semelhante ao das ciências especulativas, nas quais se demonstram as conclusões a partir dos princípios. O

s egundo modo mais se parece com o que sucede nas artes, nas

quais as formas comuns se particularizam

e xemplo o arquitecto ao aplicar a forma comum de casa a esta ou

à quela casa especial. Algumas leis derivam, pois, da natural, como

em algo especial, como por

natural, como disse Isidoro nas Etimoloçles , livro 5, cap o 4, e o Filósofo

c

onclusões dos princípios comuns, como a lei "não se deve matar",

no livro quinto da Ética . Mas tudo que deriva dos princípios comuns

que não é senão a conclusão daquele princípio geral : "a nada há que

da lei natural como suas conclusões, pertence à lei natural, como se

f

az er o mal". E outras como aplicação particular: assim, por e x emplo, a

disse acima. Logo, aquilo que pertence à lei humana não deriva da lei

l

e i natural diz que deve castigar-se quem peca; mas o que o seja de

natural.

q

u

a lquer maneira, depende da aplicação particular que se faça de tal

3

. Acrescente-se

que a lei natural é a mesma para todos os

homens, como disse o Filósofo na Ética, livro 5 , cap o 7: "diz-se naturalmente justo aquilo que universalmente tem a mesma força" . Mas se as leis humanas derivassem da lei natural, seriam as mesmas

para todos os homens, o que é evidentemente falso.

64

l

Mas o

pr imeiro

s t a belecida por essa lei, mas também reforçada pela lei natural. Pelo

o ntrário, as leis do segundo tipo, não têm mais força do que as da lei humana.

oi natural.

E ambas

as coisas se encontram

na lei humana .

tipo de leis encontra-se

na lei humana

não só como

65

Tratado da Lei

1 . À primeira dificuldade responde-se

que o Filósofo fala

daqueles preceitos que o são por determinação ou aplicação da lei natural.

2. À segunda, que tem valor, mas só quanto aos preceitos

que derivam como conclusões da lei natural.

3. À terceira, que nem todos os princípios comuns da lei

natural podem aplicar-se de igual maneira a todos os homens, pela grande variedade de circunstâncias . E daí provêm as diversas leis

positivas segundo os diferentes povos.

4. Finalmente, responde - se que tal citação do Jurisconsulto

tem que interpretar-se referindo-se às leis que os antepassados estabeleceram como determinações particulares da lei natural. O juízo

dos peritos e prudentes deve considerar tais determinações

certos princípios que facilitam o que se possa determinar que seja mais congruente para cada caso. Por isso disse o Filósofo na E'tica, livro 6, capo 11, que "em tais casos convém acudir às opiniões e júízos

indemonstráveis dos peritos e prudentes e anciãos, não menos do que aos princípios demonstráveis".

como

Artigo

Se Isidoro descreve correctamente a qualidade da lei positiva

Parece que Isidoro não descreve correctamente a qualidade da lei positiva, nas Etimologias, livro 5, capo 21 , quando diz: "Deve ser uma lei honesta, justa, conforme à natureza, de acordo com os costumes pátrios, conveniente, necessária e útil segundo os tempos

Da l e i humana

conforme à religião, que promove a saúde pública e a disciplina " . Logo, são supérfluas todas as demais condições .

2 . Além do mais, a justiça é uma parte da honestidade, como

disse Túlio no primeiro livro "Sobre os Ofícios" . Logo, uma vez indicada a honestidade como qualidade, sobra a justiça. 3. Acrescente-se que a lei escrita, segundo disse o mesmo Isidoro nas Etimologias, livro 2, capo 10, se contrapõe ao costume. Portanto, não há que acrescentar na descriç ã o da lei "conforme aos costumes pátrios " .

4. Finalmente,

uma coisa pode ser necessária

de duas

maneiras: o que é necessário simplesmente, de modo que é impossível que seja de outra maneira; e estas coisas necessárias não estão sujeitas ao juízo humano, daí que tal tipo de necessidade não seja própria da lei humana. E há outras coisas que são nec e ssárias para atingir um fim; e tal necessidade é o mesmo que utilidade.

Portanto, é supérfluo di z er que a lei humana deve ser úti l e necessária. Contudo, a mesma autoridade de Isidoro na citação acima dada, diz-nos o contrário.

Respondo: Qualquer coisa que tenda para um fim deve ter uma forma determinada em proporção a esse fim, assim como a forma da serra é tal que possa cortar, como consta do segundo livro da

Física. Igualmente, é necessário que qualquer coisa recta e medida

tenha uma forma proporcional tem ambas as coisas: porque

é algo ordenado a um fim; e porque é

uma regra e medida normalizada e mensurada por uma medida

s uperior que é a lei natural e a lei divina, como se disse ant e s. E o fim da lei humana é a utilidade do homem, como também já se disse. E por isso Isidoro pôs primeiro três condições como propriedade da lei:

à sua regra e medida.

E a l e i humana

e

lugares; e bem clara para que não vá conter algo duvidoso pela sua

o

u seja, que está de acordo com a religião, enquanto o está com

a lei

obscuridade; escrita não para o proveito de algum particular, mas para

d

ivina ; que promove a disciplina, enquanto está de acordo com

a lei

o

bem comum".

n

a tural; e que seja para a saúde pública, enquanto está proporcionada

1. Já antes havia expressado as qualidades da lei naquelas

à utilidade humana .

 

três condições: "a lei é tudo aquilo que está fundado

66

na razão, que é

67

Tr aJa d o d a L e i

E todas as demais condições propostas reduzem-se a estas três. Pois a honestidade refere-se à congruência com a religião. Que seja "justa, conforme à natureza , de acordo com os costumes pátrios, conveniente segundo os tempos e lugares", é só uma explicação da conveniência e da promoção da disciplina . Pois a disciplina refere-se

em primeiro lugar à ordem da razão, que está implícita em que a lei seja justa; em segundo lugar à faculdade dos que hão-de agir conforme à

deve convir a cada um segundo a sua ca-

pacidade, observando também a capacidade natural (já que não se

pode impor às crianças o mesmo que aos homens desenvolvidos); e segundo o costume humano, pois o homem não vive solitário ~a sociedade, mas participando dos costumes dos demais . Em terceiro lugar, quanto às circunstâncias devidas, diz "de modo conveniente aos tempos e lugares" . E o que finalmente acrescenta, "necessária,

lei, pois essa disciplina

útil", refere-se a que seja conveniente

para o bem público; ass ~ ,

a

necessidade refere-se à remoção

dos males;

a utilidade,

à

consecução dos bens; e a claridade , à prevenção dos males que

podem provir da mesma lei. E que a lei deve ordenar-se comum, como já se disse na última parte da descrição . Que isto baste para responder às objecções. '

ao bem

Artigo

4 2

Se I sidoro divide as leis humanas de

maneira apropriada

Parece que Is i doro não propõe uma divisão conveniente das leis ou do di r eito humano, porque :

1 . Sob este termo de direito inclui o que chama "direito dos

Ii~ro 5 , capo ~,

chama-se assim porque "quase todos os povos se gUiam por ele. Mas como ele mesmo afirma, "o direito natural é o comum a todos os povos" . Logo, o direito dos povos, não está contido no direito

positivo humano, mas no direito natural.

povos" ; e como ele mesmo disse nas Et i mologias,

D a l e i hum ana

2. Além do mais, todo aquele que tem a mesma força não

parece diferir formalmente, mas só materialmente . Mas " as leis , os plebiscitos e os decretos senatoriais", têm todos a mesma força . Logo

parece que não diferem senão materialmente. E não há que fazer tal distinção na ciência, já que então dividiríamos indefinidamente. Portanto, é inconveniente que se introduzam tais divisões na lei humana.

3 . Acrescente-se que, assim como há na cidade sacerdotes,

parece que

acrescentar um "direito militar" e um "direito público" abarcando os sacerdotes e magistrados, deveria também acrescentar-se outros direitos pertinentes aos diversos ofícios.

príncipes e militares, também há outros ofícios . Logo,

4. Finalmente, há que passar por alto as coisas acidentais.

Mas é acidental à lei o ser instituída por este

Logo, não há porque dividir as leis humanas segundo os nomes dos

legisladores, como a lei "Cornélia", a lei "Falcídia", etc . Contudo, basta para responder a autoridade de Isidoro.

ou aquele legislador.

Respondo :

Cada coisa pode dividir-se

segundo

o que

constitui a sua razão formal, como , por exemplo, na razão formal do

animal encontra-se a alma, que pode ser racional e irracional, e,

e

irracionais ; mas não seria conveniente dividi-Ios em brancos e negros,

porque isto sai totalmente fora da sua razão formal. Mas há na lei humana muitas propriedades que pertencem à

s ua razão formal, e segundo as quais a dita lei pode dividir-se propriamente segundo a sua nature z a.

portanto, os animais dividem-se convenientemente

em racionais

Em primeiro

lugar, é próprio da lei humana derivar

da lei

n a tural, segundo o anteriormente

humana pode d i vidir-se em lei civil e lei dos povos , segundo as duas maneiras como deriva a lei natural. Porque ao direito dos povos

coisas que derivam da lei natural como

c onclusões dos princípios, como são a compra-venda justa e outras oisas semelhantes sem as quais os homens não poderiam conviver,

pe rtencem todas aquelas

dito. E de acordo com isto a lei

, contudo, essa convivência

é de lei natural , posto que o homem é

T r atado da L e i

naturalmente um animal social , como o prova a Pol í tica , l i vro 1 , cap o 2 . Mas o que deriva da lei natural como determinações particul a res, pertence a o dir e ito civil , segundo o qual uma cid a d e d e termina o qu e lhe é útil e conveniente. Em s e gundo lug a r , pert e nce à ra z ão form a l da lei hum a na que se ord e ne ao b e m comum da cidade. E s e gundo isto a lei humana

pod e di v idir-s e

mente se d e dicam ao bem comum, como

pelo povo, os magistrados que governam o povo , e os milit a res que

lutam pe la sua protecção. Por isso mesmo, d e um modo especial, se

aplicam c e rtos d i reitos a estes homens. Em terc e iro lugar, pertence à razão form a l da lei humana o ser inst i tuída por qu e m tem a seu c a rgo o governo da comunidade, como

de acordo com a diversidade daquel e s que esp e cial-

os sacerdotes que oram

se e x pli c ou . Por isso dividem-se as l e is human a s de acordo com os

di

v e r sos r e g i mes dos po v os. E segundo isto , c omo disse o Filósofo

na Pol ít i c a , l i v ro 3 , cap o 10, p o de dar-se o

re i no, q u ando a c i dade está

g ove rn a d a por um só , e em consequênc i a dá-s e uma constituição d ê[ S

pr í nc ip es .

d ir ig id o p e los m e lhores ou pelos mais preparados, e neste caso dão- se as re spostas dos prudent e s", e os decretos senato r iais . Outro regime é a ol i garqu i a, a que se dá quando govern a m uns poucos ricos

e poderosos ; n e ste caso, dá-se o direito pretório ou honorário . Outro

r egime é o do povo , e ent ã o ch a ma - se democraci a; neste caso dão - se

os pleb i scitos . Outro r e gime é o tir â n i co , que é o mais co rrompido e

n e le não h á n e nhuma

m e lhor, e neste caso d á -se a l e i " qu a ndo os

junt a m e nt e com o po v o", como

c a p o 10 .

O u t r o regime pode s e r a ar is t o cracia ,

ou s e ja , o go v erno

lei. Finalmen t e, d á -se um r e gime mi s to, que é o

di s se Is i doro

s e n a dores a san ci onam nas Etim ol ogi a s, l ivr o 5,

Em quarto

lug a r , pertence à r a z ã o form a l da lei humana o s e r

guia dos actos hum a nos. E s e gundo i s to divid e m -se as l e is de acordo

com

as mat éria s a que se refe r em . A l gum a s vez es as l e is r e c e b e m

os

nom e s dos seus autores , como s e di s tinguem

"a l e i Júli a sobr e

os

adult é rios " ,

a u t or e s, m a s p e los assuntos qu e r e gula .

ou "a lei Corn é li a

sobre os s i c ár ios",

70

etc . , n ã o p e los

D a l e i humana

respondo que o d i reit o dos povos é

de algum modo natural ao homem , enquanto é racional, por d e rivar da

l e i natura l a modo de conclus ã o pró x ima dos primei ros pri n cí p i os. Po r

I s so mesmo, os homens aceitam-na facilmente. M a s de a lgum modo

1. Ao primeiro argumento

d

i stingue - se da lei natural , pri ncipalmente da que s e r e f e re a todos os

a

nimais em comum.

As respostas às d e mais obj e c çõ es s ão e v id ent e s p e lo ex-

p

osto .

7 1