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MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS MESTRADO EM ESTUDOS DE LINGUAGEM

HUMANAS E SOCIAIS MESTRADO EM ESTUDOS DE LINGUAGEM Introdução à Semiótica Filosófica de Charles S. Peirce

Introdução à Semiótica Filosófica de Charles S. Peirce

[texto de apoio didático]

Profa. Eluiza Bortolotto Ghizzi

[DAC/CCHS]

CAMPO GRANDE - MS

[2007, revisado em 2009]

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Profa. Dra. Eluiza Bortolotto Ghizzi/DAC/CCHS Semiótica Filosófica de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático]

Apresentação

(1839-1914) [texto de apoio didático] Apresentação 2 Este é um texto desenvolvido para uma introdução à

2

Este é um texto desenvolvido para uma introdução à semiótica filosófica de Charles Sanders Peirce (1839-1914) e tem por objetivo específico servir de apoio didático a apenas parte do conteúdo dessa introdução. Assume a característica de uma revisão bibliográfica altamente sintética, que toma por

referência os títulos indicados no final deste caderno. Justamente por seu caráter sintético, tem o poder

de perpassar rapidamente por diversos conceitos importantes dessa semiótica.

Na primeira parte deste caderno é apresentado ao leitor o Pragmatismo de Peirce, o que é pertinente para um enfoque dessa semiótica que a coloque na perspectiva histórica dessa grande corrente de pensamento que tem Peirce como um de seus personagens principais. Além disso, tanto o fato de o

pragmatismo de Peirce ser dado como um critério de significação, quanto a relação que se estabelece

no pragmatismo entre pensamento e ação o colocam no leque de interesses da semiótica.

Em seguida, é abordada a fenomenologia de Peirce que, como é de conhecimento de todo estudioso desse autor e como se poderá ver no seu diagrama das ciências, é a primeira das ciências da filosofia, onde ele vai estabelecer as bases tanto das ciências normativas quanto da metafísica; além de outras de suas ideias.

A inserção à sua semiótica propriamente dita fica limitada aqui à gramática especulativa, primeira

parte da semiótica de Peirce e mais amplamente conhecida, bem como a mais pertinente a um curso introdutório. Além dessa, o curso trabalhará sobre a lógica crítica, segunda parte dessa semiótica, que trata dos modos de raciocínio. Esta é uma parte que vem sendo estudada mais recentemente, entre outros, por esta pesquisadora. A Gramática especulativa será meramente apresentada como a terceira parte, menos desenvolvida por Peirce, bem como por seus estudiosos até o momento.

Por fim, o conjunto de textos aqui reunidos só poderá introduzir - de fato - o leitor nos assuntos dos quais trata se complementado pelas aulas ministradas no curso, bem como pelos demais textos

indicados para leitura. Propõe-se que o acadêmico leia os títulos indicados na bibliografia, de autoria

do próprio Peirce e de estudiosos da sua obra. Estes últimos são indispensáveis para a assimilação dos

conceitos fundamentais da semiótica peirciana na sua complexidade.

Profa. Eluiza Bortolotto Ghizzi Departamento de Comunicação e Artes/CCHS/UFMS Março de 2009

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO Profa. Dra. Eluiza Bortolotto Ghizzi/DAC/CCHS

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Semiótica Filosófica de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático]

 

Sumário

   

2

Apresentação Sumário

3

Peirce e o Pragmatismo

4

 

Quem é Charles Sanders Peirce?

4

Surgimento do pragmatismo

5

Pragmatismo em sentido amplo

5

O

pragmatismo de Peirce

6

O

pragmatismo de Peirce no segundo período

6

A

semiótica filosófica de Peirce

 

9

Por que a semiótica de Peirce é dita filosófica?

9

Qual é o lugar da semiótica no sistema filosófico de Peirce?

10

O

que se quer dizer quando se diz que a semiótica de Peirce é geral?

12

As bases da semiótica de Peirce na sua fenomenologia

 

14

Primeiridade

15

 

Secundidade

16

Terceiridade

17

As categorias e ideias a elas associadas

18

O

signo triádico, a ideia de semiose e a tríade “ícone-índice-símbolo”

21

Semiótica

21

Signo

23

Signo Genuíno e Signo Degenerado

29

Ícone

32

Índice

34

Símbolo

36

Diagramas representativos da ideia de signo em Peirce

43

Tipos de associação entre signos dentro de uma lógica triádica

44

As dez classes principais de signos analisadas por Peirce

45

Bibliografia

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Peirce e o Pragmatismo 1

Quem é Charles Sanders Peirce?

Peirce e o Pragmatismo 1 Quem é Charles Sanders Peirce? 4 Charles “Santiago” Sanders Peirce (1839-1914)

4

Charles “Santiago” Sanders Peirce (1839-1914), físico, químico, matemático e filósofo norteamericano, exerceu sua práxis teórica em diferentes campos do conhecimento, contudo, fez questão de dizer que seu interesse em tudo podia ser resumido como um interesse de lógico. Enquanto físico e químico foi um homem de laboratório; seus estudos de matemática resultaram em contribuições reconhecidas pela história dessa ciência e, na filosofia, desenvolveu um “sistema filosófico”, como era comum entre os grandes filósofos com os quais teve contato através de leituras. Seu sistema filosófico é, todavia, distinto de todos esses, tendo exigido dele, para marcar essa distinção, rigorosa preocupação com a terminologia e o significado dos termos por ele utilizados. É amplamente conhecido como “criador da mais importante corrente de ideias surgida na América do Norte e que se estendeu por todo o mundo durante o século XX: o pragmatismo” (PEIRCE E FREGE, 1980: VI), que ele denominou posteriormente de pragmaticismo, a fim de distinguir seus conceitos de entendimentos divergentes.

“Embora até a bem pouco tempo geralmente desconhecido para um público mais amplo, a influência de Peirce sobre os filósofos americanos de sua época foi duradoura e profunda. Particularmenter Josiah Royce (1855-1916), Willian James (1842-1910) e John Dewey (1859- 1952) devem grande parte da origem de suas idéias ao contato intelectual extremamente estimulante que tiveram com ele” (PEIRCE E FREGE, 1980: VI).

Essa influência teria representado o primeiro exemplo de um filósofo norteamericano maior influenciando o pensamento de outros filósofos maiores. Sua importância para o início de uma filosofia americana autônoma tem sido reconhecida mais recentemente. Sua obra foi mais amplamente divulgada nos Collected Pappers, organizados em 8 volumes, os quais passam, após contribuição de diversos estudiosos sobre a obra do autor, por uma reorganização, coordenada pelo Peirce Edition Project (Universidade de Indianápolis – EUA).

1 Texto resumo de partes da obra de DE WAAL, 2007. Desenvolvido para palestra na graduação em Filosofia da UCDB em 10 de abril de 2008.

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Surgimento do pragmatismo

De acordo com De Waal (2007:17):

Surgimento do pragmatismo De acordo com De Waal (2007:17): 5 O pragmatismo surgiu nos primeiros anos

5

O pragmatismo surgiu nos primeiros anos da década de 1870, quando um pequeno grupo de rapazes de Cambridge, Massachussets, se encontrava regularmente para conversar sobre filosofia. O grupo incluía, entre outros, Willian James, Charles Sanders Peirce, Oliver Wendell Holmes Jr. e Nicholas Saint John Green. Esses homens chamavam a si mesmos, meio desafiadora, meio ironicamente, “O Clube Metafísico”, já que nos primeiros anos de 1870 a metafísica era considerada fora de moda. A definição de crença de Alexandre Bain, segundo a qual uma crença é “aquilo com base em que um homem está preparado para agir”, era central em suas discussões. Quando essa definição é aceita, Peirce mais tarde lembrou, o pragmatismo segue quase imediatamente como seu resultado natural.

Isso não significa que esses homens acreditassem que o pragmatismo era algo radicalmente novo, um método revolucionário nunca antes descoberto. Em vez disso, o pragmatismo era a adoção sistemática e consciente de um método que os filósofos vêm praticando desde a Antigüidade. Peirce ousadamente declarou que a novidade de uma idéia filosófica é um dos sinais mais certos de sua falsidade. E, para mostrar a nobreza de pedigree do pragmatismo, até Jesus ele chamou de pragmatista, lendo sua máxima “conhece-os pelos teus frutos” como uma versão precoce da máxima pragmática. James buscou resumir o mesmo ponto quando pôs, em seu famoso livro Pragmatismo, o subtítulo: “Um novo nome para algumas antigas maneiras de pensar”. O pragmatista britânico Ferdinand Schiller via Protágoras como o primeiro pragmatista, situando, com isso, o nascimento do pragmatismo no século V a.C.

Pragmatismo em sentido amplo

Ainda de acordo com De Waal, em sentido amplo, o pragmatismo “[ íntima entre teoria e prática, entre pensamento e ação” (2007: 18).

]

desenha uma conexão

Além de Peirce, James e outros membros do Clube Metafísico tratam da questão do pragmatismo. James tem uma concepção mais ampla que a de Peirce. Para James o pragmatismo é “uma teoria do significado, mas também, e de maneira mais proeminente, uma teoria da verdade” (DE WAAL, 2007: 18).

A concepção mais estreita, de Peirce, sustenta o pragmatismo como “um critério de

significação, que estipula ser o significado de qualquer conceito nada mais do que a soma total de suas conseqüências práticas concebíveis” (DE WAAL, 2007: 18).

É importante ressaltar que o pragmatismo, para Peirce, é um método e não uma teoria. Enquanto uma teoria permite alegações acerca de como são as coisas em relação às quais ela é

uma teoria, o pragmatismo, embora permita concluir certas coisas, chegar a certos conteúdos,

]

diz respeito, primeiramente, ao método, “[

a como devemos realizar nossas atividades

como filósofos, cientistas, detetives de homicídios, contabilistas, etc., todas as vezes que nos engajamos na inquirição” (DE WAAL, 2007: 22).

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Profa. Dra. Eluiza Bortolotto Ghizzi/DAC/CCHS Semiótica Filosófica de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático]

de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático] 6 Seu objetivo primeiro era um método

6

Seu objetivo primeiro era um método para determinar o significado de termos filosóficos ou científicos, com o objetivo de “mostrar que certos termos filosóficos não tinham significado e que certos problemas filosóficos centrais eram causados por falta de clareza terminológica” (DE WAAL, 2007: 22).

O pragmatismo de Peirce

O pragmatismo de Peirce tem dois períodos. Um, primeiro,

culmina no artigo intitulado “Como tornar nossas idéias claras”, o segundo da série

Illustrations of the Logic of Science [Exemplificações da lógica da ciência]. Nesse artigo,

publicado em 1878, Peirce desenvolve um método para determinar o significado dos conceitos, método que ele sumariza na forma de uma máxima. É essa máxima que Willian James tornou famosa vinte anos mais tarde, em sua fala de 1898, em Berkeley, quando a chamou de “princípio do pragmatismo” (DE WAAL, 2007: 25).

] [

O segundo período coincide com a virada do século XIX para o XX. Não significa uma mudança de pensamento do autor, mas, um esforço para esclarecer e diferir sua proposta do que se tornou a corrente principal do pragmatismo. A necessidade de precisão terminológica leva Peirce a definir seu pragmatismo com base em um novo termo: pragmaticismo (DE WAAL, 2007: 128). Esse período pode ser representado por seis conferências sobre pragmatismo, ministradas em Harvard, em 1903 e pela publicação (dois anos mais tarde) de três artigos intitulados: Wat Pragmatism Is [Que é pragmatismo], Issues of pragmatism [Questões de pragmatismo] e Prolegomena to an Apology of Pragmaticism [Prolegômenos a uma apologia do pragmaticismo].

O pragmatismo de Peirce no segundo período

Willian James escreve seu A vontade de acreditar, dedicando-o ao seu velho amigo Peirce. Este lhe enviou uma longa carta de agradecimento, na qual explica algumas mudanças no seu ponto de vista. A parte do texto da carta, que faz referência ao ensaio que deu título ao livro registra:

Que tudo deva ser testado por seus resultados práticos era o grande texto de meus primeiros artigos; assim, até onde compreendo seu objetivo geral em muito do que li do seu livro, estou completamente de acordo com você nos pontos principais. Em meus últimos artigos, vejo de maneira mais inteira do que estava habituado que não é a mera ação, como exercício de força, que é o propósito de tudo, mas, digamos, a generalização, a ação conforme tende à regularização e à atualização do pensamento, que, sem ação, permanece impensado. (DE WAAL, 2007: 130-131).

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Profa. Dra. Eluiza Bortolotto Ghizzi/DAC/CCHS Semiótica Filosófica de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático]

de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático] 7 O que Peirce explica no texto

7

O que Peirce explica no texto delineia uma diferença central entre seu pensamento e o de James. De Waal escreve que:

] [

que está no conceito’, ele imediatamente acrescentava que ‘não é a mera força arbitrária na ação, mas a vida que ela dá à idéia que é valiosa’. A ênfase está no geral, não no particular

(DE WAAL, 2007: 131).

embora Peirce concordasse com James em que ‘a ação individual [é] a única significação

Se de um lado James se concentrava nas experiências, de outro, Peirce estava interessado no que chamava de “hábitos”.

Especificamente à vontade de acreditar de James Peirce argumentava que aquilo de que precisamos “não é uma vontade de acreditar, mas uma vontade de aprender” (DE WAAL, 2007: 135).

Peirce não via no pragmatismo um método para solucionar problemas práticos (para os quais ele considerava mais apropriado nos basearmos nos nossos instintos), mas, um método do raciocínio para problemas de ordem geral. Ele dizia que uma característica importante do raciocínio é que, se lhe for dado tempo suficiente, ele se autocorrigirá.

Após as conferências de Peirce em Cambridge (1898), “James apresenta seu discurso em Berkeley, no qual ele introduzia o ‘pragmatismo’, enquanto, ao mesmo tempo, insistia que o pragmatismo devia ser chamado de ‘praticalismo’" (DE WAAL, 2007: 135).

Peirce, de sua vez, tendo tomado o pragmatismo como uma questão de lógica, considerou o desenvolvimento de uma prova do pragmatismo uma questão central. Ele buscou essa prova por vários anos e, apesar de tê-la deixado inacabada, sua busca perpassou pela sua organização das ciências, incluindo a fenomenologia e as ciências normativas.

Na Fenomenologia desenvolveu ideias puras de primeridade, segundidade e terceiridade em um nível hipotético. Paralelamente, afirmou que todas as categorias estão presentes em todos os fenômenos. Decorre daí que a generalidade é um constituinte básico de todos os fenômenos, o que era importante para a ênfase do pragmatismo na generalidade.

As ciências normativas, por sua vez, que estudam os fenômenos com relação a fins específicos (que tradicionalmente foram a beleza, a bondade e a verdade) – “na medida em que podemos agir sobre eles e eles sobre nós” (TURRISI, apud DE WAAL, 2007: 144) -, ou seja, na sua segundidade, foram divididas em estética, ética e lógica. “A estética considera aquelas coisas cujos fins deveriam incorporar qualidades de sentimento; a ética considera aquelas coisas cujos fins estão na ação, e a lógica, aquelas cujo fim é representar alguma coisa” (EP 2, 200, apud DE WAAL, 2007: 144).

Peirce ainda se pergunta sobre o objetivo do raciocínio e conclui sobre três tipos de resposta:

(1) a pura satisfação estética; (2) nos levar a certas experiências concretas preordenadas e (3) nos levar às relações reais dentro da natureza e treinar a razão para se conformar a elas. As duas primeiras respostas ele considerou inapropriadas a um realista. A terceira tem, além do cunho realista, um evolucionista, que está de acordo com sua filosofia. Para Peirce, esse fim

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de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático] 8 do pensamento é um caso de

8

do pensamento é um caso de adaptação: “O raciocínio não é algo externo ao universo, mas no curso de seu desenvolvimento o organismo humano (como qualquer outro organismo) internalizou – mesmo que imperfeitamente – parte da ordem dinâmica do universo, um universo que ainda está, ele mesmo, em evolução” (DE WAAL, 2007: 147).

De acordo com a interpretação realista do pragmatismo, o significado de um conceito, assim, não é alguma experiência ou ato singular (essa sendo somente uma fase intermediária), mas como tais efeitos práticos contribuem para o desenvolvimento da razoabilidade do universo (CP 5, 3). Não se ganha entendimento coletando fatos desconexos, mas entrando em afinação com a razoabilidade concreta do cosmos. (DE WAAL, 2007: 147)

Da máxima pragmatista de 1878 permanece o ponto central, todavia, torna-se mais específica. No início do século XX (28 de maio de 1912),

Peirce escreveu a Howes Norris Jr. que quando batizara o pragmatismo derivara seu nome de pragma (comportamento), para mostrar que o pragmatismo se refere à visão segundo a qual “a única significância real de um termo geral está no comportamento geral que ele implica(apud DE WAAL, 2007: 149).

Posteriormente, Peirce apresentou uma formulação da máxima nos termos de sua semiótica ou doutrina dos signos e que ele acreditava ser equivalente à de 1878:

O teor intelectual inteiro de qualquer símbolo consiste no total de todos os modos gerais de conduta racional, condicionalmente sob todas as possíveis condutas e desejos diferentes que se seguiram da aceitação do símbolo (EP 2, 346, apud DE WALL, 2007: 151).

Nessa definição Peirce associa o significado do pragmatismo com o símbolo, terceiro signo da tríade - ícone índice, símbolo – correspondente às relações convencionais entre signo e objeto, ou seja, daquelas baseadas nas regras (naturais ou adquiridas) e cujo significado está no hábito.

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de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático] 9 A semiótica filosófica de Peirce Nessa

9

A semiótica filosófica de Peirce

Nessa introdução à semiótica de Charles “Santiago” Sanders Peirce pretendemos oferecer ao leitor um panorama dessa que é, nas palavras do autor, uma “quase necessária, ou formal, doutrina dos signos” (PEIRCE, 1977:45). A partir deste texto o leitor poderá avançar nos seus estudos acerca dessa semiótica. Para subsidiá-lo nesse caminho oferecemos uma bibliografia também inicial, na qual estão incluídos tanto textos do próprio Peirce quanto de estudiosos do seu pensamento filosófico ou da sua semiótica no Brasil.

Por que a semiótica de Peirce é dita filosófica?

A semiótica como doutrina dos signos em sentido estrito é uma ciência relativamente recente, embora uma semiótica avant la lettre remonte à filosofia antiga (NÖTH, 1995: 20):

A semiótica propriamente dita tem seu início com filósofos como John Locke (1632-1704)

que, no seu Essay on human understanding, de 1690, postulou uma “doutrina dos signos” com o nome de Semeiotiké, ou com Johann Heirich Lambert (1728-1777) que, em 1764, foi um dos primeiros filósofos a escrever um trabalho específico intitulado Semiotik.

A doutrina do signo, que pode ser considerada como semiótica avant la lettre, compreende

todas as investigações sobre a natureza dos signos, da significação e da comunicação na história das ciências. E a origem dessas investigações coincide com a origem da filosofia:

Platão e Aristóteles eram teóricos do signo e, portanto, semioticistas avant la lettre.

Ainda de acordo com Nöth (1995: 23), “a semiótica como teoria geral dos signos teve várias denominações no decorrer da história da filosofia”, sendo seu maior rival terminológico “semiologia”; termo “surgido alguns decênios antes que Locke, em 1690, postulasse uma doutrina dos signos com o nome Semeiotiké. Já em 1659, o filósofo alemão Johannes Schulteus falou de uma doutrina geral do signo e do significado, sob o título Semeiologia Metaphysiké” (NÖTH, 1995: 25). Em que pese essa origem filosófica, Nöth explica que no século XX,

] [

Ferdinand de Saussure e continuada por semioticistas como Louis Hjelmslev ou Roland Barthes. Sob essas influências, semiologia permaneceu durante muito tempo como o termo preferido dos países românicos, enquanto autores anglófonos e alemães preferiram o termo

o termo semiologia ficou ligado à tradição semiótica fundada no quadro da lingüística de

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Profa. Dra. Eluiza Bortolotto Ghizzi/DAC/CCHS Semiótica Filosófica de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático]

de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático] 10 semiótica. Alguns semioticist as, porém, começaram

10

semiótica. Alguns semioticistas, porém, começaram a elaborar distinções conceituais entre semiologia e semiótica: semiótica, designando uma ciência mais geral dos signos, incluindo os signos animais e da natureza, enquanto semiologia passou a referir-se unicamente à teoria dos signos humanos, culturais e, especialmente, textuais.

[

]

A rivalidade entre esses dois termos foi oficialmente encerrada pela Associação Internacional de Semiótica que, em 1969, por iniciativa de Roman Jakobson, decidiu adotar semiótica como termo geral do território de investigações nas tradições da semiologia e da semiótica geral.”

Apesar da unificação do termo, a distinção entre semiótica de origem filosófica e semiótica de origem lingüística foi mantida durante o século XX e até hoje (início do XXI) – decorrente das diferentes concepções de signo e, consequentemente, dos modos de entender o processo de significação, bem como seus objetos. Diferentemente da tradição fundada no quadro da lingüística de Saussurre, a semiótica de Peirce segue dentro da tradição filosófica. Atualmente, outras correntes da semiótica já são amplamente conhecidas, como se pode conferir em Nöth (1996), contudo, as correntes filosófica (de Peirce) e lingüísitica (de Saussure) permanecem sendo as mais importantes do século XX.

Qual é o lugar da semiótica no sistema filosófico de Peirce?

Na arquitetura filosófica de Peirce filosofia é concebida como parte das ciências teóricas e, dentre essas, das heurísticas (ou ciências da descoberta). O diagrama abaixo representa parte da cartografia das ciências 2 elaborada por Peirce, onde se pode visualizar o lugar da filosofia e, também, da semiótica.

1. Heurísticas (ciências da descoberta)

a. Matemática

b. Filosofia

i.

Fenomenologia

ii.

Ciências Normativas

1. Estética

2. Ética

3. Lógica ou semiótica

a. Gramática. Especulativa

b. Lógica Crítica

c. Retórica Especulativa (Metodêutica)

iii.

Metafísica

c. Ciências Especiais

2 Ver mais sobre a classificação das ciências em: Santaella, Lúcia. A Assinatura das Coisas: Peirce e a Literatura. Rio de Janeiro: Imago, 1992 (cap.5).

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de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático] 11 A filosofia , localizada como a

11

A filosofia, localizada como a segunda das ciências heurísticas, é precedida pela matemática e

seguida pelas ciências especiais. As posições “primeira”, “segunda” e “terceira” nesse diagrama seguem a lógica das categorias fenomenológicas de Peirce e, portanto, tem um sentido de evolução. O fato de a filosofia ser precedida pela matemática implica dizer que essa primeira lhe fornece certa base e que essa é, também, a mais independente (livre) das ciências heurísticas. Sobre isto Santaella esclarece:

“Enquanto a Matemática estuda o que é logicamente possível sem se fazer responsável pela existência atual desse possível, a Filosofia tem por função descobrir o que é realmente verdadeiro, limitando-se porém, à verdade que pode ser inferida da experiência comum que está aberta a todo homem, a qualquer instante. A Filosofia também é uma ciência, e assim deve ser tratada, não no sentido de emprestar de qualquer outra ciência um modelo para seu funcionamento reconhecidamente científico. Ao contrário, a Filosofia precisa encontrar, dentro dela mesma, seu modo próprio de ser ciência, isto é, também deve empregar métodos de observação, hipótese e experimento, tanto quanto toda e qualquer outra ciência deve, mas modificando-os e adaptando-os ao perfil que lhe é específico” (SANTAELLA, 1992:121, grifos nossos)

As ciências especiais, diferentemente dessas primeiras, são ciências factuais, especializadas em certos tipos de fatos (física, química, biologia), os quais requerem métodos específicos (não diretos) de observação (microscópios, telescópios) e experimentação (laboratorial ou outra); portanto, não abertos a qualquer homem comum.

A Semiótica, uma vez localizada entre as ciências filosóficas, é concebida, também, como

uma ciência baseada na experiência comum. Além disso, note-se que (1) ela é também entendida como lógica, (2) é a terceira entre as ciências normativas e (3) estas últimas são, por sua vez, segundas dentre as ciências filosóficas, precedidas pela fenomenologia. A relação entre as três ciências filosóficas – fenomenologia, ciências normativas e metafísica – segue, também, a lógica triádica e evolutiva. Assim, em certo sentido, a fenomenologia deve fornecer as bases para o pensamento nas ciências normativas e este para o metafísico.

A fenomenologia se interessa pelos fenômenos em geral – reais, existentes ou meramente

possíveis –, que estão presentes na experiência; por descrevê-los e classificá-los, sem perguntar se eles correspondem ou não a uma realidade ou a algum tipo de fato. A fenomenologia peirceana vai classificar os fenômenos em três grandes tipos: os de primeiridade (firstness), os de secundidade ou segundidade (secondness) e os de terceiridade (thirdness). Essa denominação é emprestada da matemática e contêm a ideia – evolutiva - de que um primeiro é aquele que independe de qualquer outro, um segundo depende da

existência de um primeiro, do mesmo modo que um terceiro depende de um segundo e, consequentemente, de um primeiro.

As ciências normativas – subdivididas em estética, ética e lógica ou semiótica - estudam os fenômenos, segundo certas especificidades e normas. Nas palavras de Peirce,

] [

enquanto que a ética considera aquelas coisas cujos fins residem na ação, e a lógica, aquelas coisas cujo fim é o de representar alguma coisa (PEIRCE, 1977:201).

a estética considera aquelas coisas cujos fins devem incorporar qualidades do sentir,

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de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático] 12 Seu caráter normativo está em procur

12

Seu caráter normativo está em procurar chegar, respectivamente, ao que deve ser o admirável em si mesmo (estética), a como deve ser a conduta para que ela seja correta (ética) e a como deve ser o pensamento para que ele seja correto. Sobre a relação de dependência (evolutiva)

entre as três Peirce escreve que “o âmago da lógica reside na classificação e na crítica dos argumentos” (PEIRCE, 1977:201); em última análise, no raciocínio em si. Mas o raciocínio envolve essencialmente autocontrole e, considerando que (1) um “pensador lógico é um pensador que exerce um grande autocontrole sobre suas operações intelectuais” (PEIRCE, 1977:202); (2) que o autocontrole pressupõe aprovação e (3) que “a aprovação de um ato

voluntário é uma aprovação moral [

[sendo a ética responsável pelos] estudos sobre quais

as finalidades de ação que estamos deliberadamente preparados para adotar” (PEIRCE, 1977:201), então “o bem lógico é simplesmente uma espécie particular do bem moral” (PEIRCE, 1977:202). Estabelece-se aí uma dependência do bem da lógica (ou semiótica) para com o bem da ética. De modo análogo, se estabeleceu uma dependência deste último bem (da ética) para com o bem estético, conforme se pode ler a seguir:

]

um fim último da ação deliberadamente adotada – isto é, razoavelmente adotada – deve

ser um estado de coisas que razoavelmente se recomenda a si mesmo em si mesmo, à parte de qualquer consideração ulterior. Deve ser um ideal admirável, tendo o único tipo de bem que um tal ideal pode ter, ou seja, o bem estético. Deste ponto de vista, aquilo que é moralmente bom surge como uma espécie particular daquilo que é esteticamente bom (PEIRCE,

] [

1977:201).

A metafísica, como terceira das ciências filosóficas, tem a tarefa de estudar a realidade. Não

tal como o fazem as ciências especiais como a física, a química ou a biologia. Enquanto estas

últimas estudam características particulares da realidade, cabe à metafísica estudar aquilo que

é mais geral (e, portanto, comum a tudo). Além disso, diferentemente dessas ciências

especiais (que utilizam métodos especiais de observação e experimentação), a metafísica deve (como uma ciência filosófica) limitar-se à observação direta. A metafísica peirciana vai classificar essa realidade como permeada por três princípios ativos – acaso, existência e lei – cuja relação evolutiva seria responsável por todas as coisas no Universo. Além disso, uma vez que esses princípios continuam sempre ativos, sua ideia de Universo é necessariamente a de algo em evolução. O acaso seria responsável por um princípio segundo o qual a variação e a diversificação são sempre possíveis; a existência pela atualização – tornar ato, tornar fato, tornar existente – daquilo que o acaso torna possível; a lei por aquilo que é percebido como regular ao longo do tempo no universo existencial.

O que se quer dizer quando se diz que a semiótica de Peirce é geral?

Como se disse acima com base em Nöth, no século XX a semiótica seguiu principalmente duas tendências, que podem ser resumidas em lingüísiticas e filosóficas. Essas tendências têm relação com a origem – a base - dessas semióticas, ou seja, com aquilo que se observa para abstrair dele sua generalidade sígnica.

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Profa. Dra. Eluiza Bortolotto Ghizzi/DAC/CCHS Semiótica Filosófica de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático]

de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático] 13 Sabe-se, ainda segundo Nöth, conforme citado

13

Sabe-se, ainda segundo Nöth, conforme citado acima, que a semiótica de origem lingüística e baseada no pensamento de Saussure vem de uma tradição de estudo “dos signos humanos, culturais e, especialmente, textuais”. Em que pese o fato de essa semiótica ampliar seu campo de abrangência, como de fato tem feito, dada a noção ampla de texto (entendido não apenas como lingüístico, mas, também, como visual e outros), o que contribui para um maior generalidade, ainda se mantém o fato de ela ter sido originada com base na observação de um

tipo específico de fenômeno: a língua. Deve decorrer daí que sua aplicação deve estar limitada

à ocorrência, nos demais tipos de texto, de uma semiótica análoga a essa específica, de modo

a se poder aplicar seus métodos de análise.

A semiótica peirceana, por sua vez, tem a pretensão de tomar por base a observação de todo tipo de fenômeno (sem distinção sobre se ele é lingüístico ou não; ou mesmo se ele é humano ou não). Fundamentada nessa fenomenologia ampla, ela elabora sua ideia de signo como o elementos base por meio do qual o pensamento age. E, assim como o fenômeno, o pensamento é entendido como algo que não se limita ao humano. Para Peirce o pensamento não é algo que nasce com o humano (como se o mundo antes dele não pensasse); é, por outro lado, algo que caracteriza a mente do mundo e, portanto, toda e qualquer mente que dele nasce, sendo a humana apenas um tipo específico de mente em pensamento. Assim, a semiótica de Peirce se propõe como de uma generalidade do mais alto grau. Saliente-se que ela não se apresenta como definitiva, dado que toma por base a hipótese de um Universo em pensamento e, portanto, em evolução.

Essa generalidade, parece recomendar que a aplicação de seus conceitos a semióticas específicas seja acompanhada de um estudo das classes de signos que definem essas

semióticas,

sob

vários

aspectos,

de

modo

a

desenvolver

apropriações

específicas

dos

conceitos.

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de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático] 14 As bases da semiótica de Peirce

14

As bases da semiótica de Peirce na sua fenomenologia

A Fenomenologia, também nomeada por Peirce de Doutrina das Categorias ou Faneroscopia,

por faneron eu entendo o total

coletivo de tudo aquilo que está de qualquer modo presente na mente, sem qualquer consideração se isto corresponde a qualquer coisa real ou não” (apud IBRI, 1992:4.). Decorre daí que: (1) não compete à Fenomenologia inventariar categorias como modos de ser da realidade, mas da aparência, do modo como esta possível realidade é, por nós, experienciada quotidianamente e (2) a Fenomenologia não faz qualquer discriminação entre experiência interior ou exterior; assim, um sonho, uma lembrança, uma dor, um pensamento qualquer ou todo o mundo exterior são igualmente fenômenos.

foi definida pelo filósofo como a descrição do faneron: “[

]

Também não compete a esta ciência aquilo que é particular na experiência, visto que “o que a entretecerá é um modo geral de ser que permeia toda experiência” (IBRI, 1992:4). Os fenômenos (fanerons) estão abertos à experimentação de qualquer homem comum; e são as características do que é comum a todos eles que a fenomenologia se propõe a distribuir em classes gerais, capazes de dar conta do todo daquilo que aparece.

Como doutrina filosófica, a Fenomenologia não busca qualquer análise especial (por exemplo, laboratorial) dos fenômenos, apenas observa os modos pelos quais esses aparecem à mente (estão na experiência). A experiência é, também, o campo de teste das suas conclusões; como escreve Ibri, as descobertas da Fenomenologia, “poderão ser postas à prova pelo próprio leitor, já que o universo da experiência fenomênica identifica-se com a experiência cotidiana de qualquer ser humano(IBRI, 1992:4.).

Cabe ao estudante de fenomenologia, nas palavras de Ibri,

] [

nele nunca estão ausentes, seja este fenômeno algo que a experiência externa força sobre nossa atenção, ou seja o mais selvagem dos sonhos ou a mais abstrata e geral das conclusões da ciência (1992:5):

abrir os olhos mentais, olhar bem para o fenômeno e dizer quais são as características que

As faculdades que ele deve ter para essa tarefa são, segundo Peirce (apud IBRI, 1992: 5-6):

A primeira e principal é aquela rara faculdade, a faculdade de ver o que está diante dos olhos,

Esta é a faculdade do arista que vê, por

tal como se apresenta sem qualquer interpretação

exemplo, as cores aparentes da natureza como elas se apresentam

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de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático] 15 A segunda faculdade de que devemos

15

A segunda faculdade de que devemos nos munir é uma discriminação resoluta que se fixa

como um bulldog sobre um aspecto específico que estejamos estudando, seguindo-o onde quer que ele possa se esconder e detectando-o sob todos os seus disfarces.

A terceira faculdade de que necessitamos é o poder generalizador do matemático, que produz

a fórmula abstrata que compreende a essência mesma da característica sob exame, purificada

de todos os acessórios estranhos e irrelevantes.

Essas faculdades podem ser sintetizadas em (1) simplesmente ver, (2) atentar para, e (3) abstrair 3 .

Nos seus estudos Peirce chegou à conclusão de que o todo fenomênico poderia ser classificado em três categorias; denominadas primeiridade (firstness), secundidade 4 (secondness) e terceiridade (thirdness). A primeira exposição sistemática das categorias está no artigo “On a New List of Categories” (CP 1.545-67), publicada no Journal of Speculative Philosophy (1867). Desde então Peirce passou a estudá-las e tratou delas em outros textos (a exemplo de: A Guess at the Ridle – CP 1.354-1.416, de 1980 e The Logic of Mathemathics:

An Attempt to Develop my Cathegories from Within – CP 1.417-1.520), até depois de 1900, quando suas categorias passam a fazer parte da sua Fenomenologia. Nesse tempo Peirce tentou se ver livre da sua “triadomia” (mania de ver três em tudo), contudo, os estudos aprofundados de Lógica apenas reforçavam a necessidade de aceitar a tríade das categorias (cf. CP 1.568-70, 8.328 ou SS.24). Examinemos, em seguida, cada uma delas.

Primeiridade

A primeira categoria traz em si a ideia de primeiro: “A própria palavra primeiro sugere que sob esta categoria não há outro” (IBRI, 1992:10). A ideia de primeiro também está associada à de liberdade; “Livre é aquilo que não tem outro atrás de si determinando suas ações [ ]” (PEIRCE apud IBRI, 1992:11). A liberdade da primeiridade é exemplarmente caracterizada quando admiramos certos fenômenos da natureza; dado que é uma experiência comum, diante de uma paisagem, como um pôr-do-sol, um sentimento (uma experiência) de deslumbramento. Sem pedir licença, esse sentimento se sobrepõe a tudo o que eventualmente ocupasse nossas mentes, colocando-a em estado não (auto) controlado; livre. Nesse libertar-se da razão tendemos a devanear por lembranças (experiências) da nossa mente as mais diversas; às vezes esquecidas no tempo. De modo semelhante, isso acontece diante das grandes produções do homem, seja no mundo da arte (pintura, música, teatro, arquitetura) ou, mesmo, de grandes descobertas científicas. Elas são, também, capazes de ativar esse estado de total liberdade da mente, faze-la vagar por um mundo de múltiplas possibilidades, como que vivenciando uma fusão de si própria (da mente) com o objeto da experiência.

3 A esse respeito, também, SANTAELLA (1983: 33) escreve:“[

]

1) a capacidade contemplativa, isto é, abrir as

janelas do espírito e ver o que está diante dos olhos; 2) saber distinguir, discriminar resolutamente diferenças

nessas observações; 3) ser capaz de generalizar as observações em classes ou categorias abrangentes”. 4 Também traduzida para o português como segundidade, conforme o autor.

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de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático] 16 Nesse estado de consciência a experiência

16

Nesse estado de consciência a experiência sente as meras qualidades das coisas - como uma cor ou um som, um odor ou um sabor -, em si mesmas, de modo puro, sem se perguntar a que pertencem, se são reais ou se de fato existem. Isso porque nessa experiência, que se

caracteriza por ser imediata, “não há, para esta mesma consciência, fluxo de tempo. [

uma consciência que, por ser o que é sem referência a mais nada, está absolutamente no

presente, na sua ruptura com passado e futuro” (IBRI, 1992: 10). Seu universo é o das coisas

A ela denominamos consciência de

] Ela é

meramente possíveis, do sonho, da livre imaginação primeridade.

Passada a experiência e perguntando, a nós mesmos, em que consistiu aquele momento? não podemos precisar exatamente. Podemos apenas representá-lo de alguma forma em nossa mente, como pura indeterminação. É evidente que, quando isso ocorre, aquele estado já se foi e um outro momento presente tem lugar. Àquele estado de consciência, Peirce denomina primeiridade e a pura presentidade é uma das ideias típicas a ele associadas.

Essa pura presentidade é quebrada quando àquela unidade na mente (com as puras qualidades), segue-se uma sensação de dualidade, dada por algo que lhe é externo (segundo) e que se percebe associado àquela qualidade (primeira). Essas qualidades, portanto, deixam de ser sentidas em estado puro – e passam a ser percebidas como pertencentes a um objeto qualquer. A sensação de que uma qualidade existe em uma coisa outra (que não ela mesma), já é própria da ideia de secundidade. Adentramos, portanto, no terreno da segunda categoria.

Secundidade

Note-se que “[

qualidade tem de estar encarnada numa matéria” (SANTAELLA, 1983: 47). O vermelho é

vermelho do sangue, da rosa; daí que, o que antes era sentido como pura experiência interna da mente é percebido como propriedade de outro. Esses fatos externos, que atingem nossos

sentidos (tato, olfato, visão

primeiridade transita sem discriminação pelas meras qualidades dos fenômenos, e por ideias a elas associadas de modo livre pela mente, a consciência de segundidade é forçada a experienciar o outro (a alteridade) na sua característica material, factual, dura; que não cede à pura liberdade da mente e contra os quais ela é forçada a reagir.

são as nossas sensações. Enquanto a consciência de

a qualidade é apenas uma parte do fenômeno, visto que, para existir, a

]

),

A nossa experiência de vida está repleta de fatos externos – outros para nossa mente - contra os quais estamos continuamente reagindo. Perceber este mundo existencial é confrontar-se com aquilo que se opõe ao meramente aparente, imaginário, possível, potencial que caracteriza a experiência de primeiridade. É assim que esta experiência se dá como uma relação de ação e reação, vivida a um só tempo na consciência:

Você tem esse tipo de consciência de uma maneira pura, com alguma aproximação, quando coloca seu ombro contra uma porta e tenta forçá-la a se abrir. Você tem um sentimento de resistência e, ao mesmo tempo, um sentido de esforço. Não pode haver resistência sem

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de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático] 17 esforço; não pode existir esforço sem

17

esforço; não pode existir esforço sem resistência. Eles são apenas dois modos de descrever a mesma experiência. É uma dupla consciência. (PEIRCE apud IBRI, 1992: 7)

Este é o território próprio daquilo que efetivamente configura-se como alteridade. Outro no fenômeno é aquilo que, embora pensável, independe de ter sido pensado; portanto, das nossas criações ou vontades.

Parece ser evidente que, desde nossa mais precoce experiência de estar no mundo, percebemos que o transcurso deste mesmo mundo não se sujeita à nossa vontade e, muitas vezes, contraria a idéia que dele fazemos. (PEIRCE apud IBRI, 1992: 7)

Neste território se pode localizar, também, “toda a experiência pretérita sobre a qual não se tem qualquer poder modificador” (IBRI, 1992: 7). Considere-se que cada evento de nossa vida passada tem uma existência, na sua individualidade e no seu espaço-tempo, tal qual os objetos do mundo material. Na sua condição de fato passado, permanece sendo tal qual é, independente do que se possa pensar que seja.

É oportuno observar, já introduzindo a terceira categoria fenomenológica, que os fatos individuais da nossa experiência passada, como colocado acima, diferem de uma interpretação dessa mesma experiência. No primeiro caso, aquela experiência assume o modo de ser da segunda categoria (secundidade); e no segundo, o modo de ser da terceira categoria (terceiridade). Sob a segunda categoria os fatos (passados) têm seu ser localizado no espaço e tempo passado, permanência e independência de nossa vontade. Conforme Peirce, “Se você se queixar ao Passado que ele está errado e não é razoável, ele se rirá. Ele não confere a menor importância à Razão. Sua força é bruta” (apud IBRI, 1992: 8). Quando, entretanto, esses fatos são interpretados de modo a gerar uma ideia geral do vivido, estamos sob o terreno da terceira categoria (terceiridade). O mesmo ocorre quando interpretamos em uma ideia geral as coisas materiais às quais pertencem aquelas qualidades antes sentidas sem relação a qualquer materialidade ou factualidade.

Terceiridade

A terceira categoria traz a ideia de um terceiro mediador interpondo-se entre um primeiro e um segundo: a experiência de mediar entre duas coisas traduz-se numa experiência de síntese, numa consciência sintetizadora” (IBRI, 1992: 13). De acordo com Peirce, essa mediação é um tipo de ideia geral que representa uma relação entre aquela experiência de

liberdade com os fenômenos e os fatos: “A terceira categoria é tal qual é por ser um Terceiro

Terceiridade, como eu uso o termo, é apenas

um sinônimo para Representação

(apud IBRI, 192: 15). O processo caracterizado aí é

tomado como a própria natureza daquilo que chamamos de pensamento e é essencial para tornar as coisas inteligíveis. Nas palavras Ibri (1992: 14),

ou Meio entre um Segundo e seu Primeiro. [

]

traz consigo o sentido de aprendizagem, de detecção de um novo

conceito na consciência fazendo a mediação ser da natureza da cognição. Esta experiência

Experienciar a síntese, [

]

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de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático] 18 como terceiro modo do fenômeno, traz,

18

como terceiro modo do fenômeno, traz, ao contrário das experiências imediatas de primeiro e segundo, um sentido de fluxo do tempo caracterizado na urdidura do processo de cognição.

A ideia de tempo em processo aparece, portanto, vinculada ao pensamento em processo e vice versa, o que é enfatizado por Ibri (1992: 14) em: “Todo fluxo de tempo envolve aprendizagem; e toda aprendizagem envolve fluxo de tempo”. Este sentido de fluxo de tempo que coloca ideia de aprendizagem como um processo no tempo corresponde também à ideia geral de evolução.

Em resumo, a consciência de qualidade - sem qualquer relação ou análise - é primeira, a consciência do outro - que reage - é segunda, e a consciência sintetizadora - que aprende - é terceira. Não há dúvida que o curso da vida está repleto de experiências desta natureza e é evidente que tudo isto está de algum modo interligado. Para Peirce, isto só é possível porque esses estados da consciência estão em continuidade.

Essa passagem pela Fenomenologia evidencia que qualquer fenômeno, interno ou externo, para ser compreendido, deve produzir uma ideia geral (pensamento) a qual deve representar experiências fenomênicas anteriores (ao pensamento) de primeiridade e secundidade. Isso caracteriza essa ideia como resultado de um processo que envolve transformação, crescimento e complexificação (evolutivo). Cabe aqui salientar que, em que pese essa visão do processo, que lhe confere certa linearidade, os estados de consciência caracterizados na Fenomenologia permeiam nossa mente simultaneamente: enquanto pensamos, estamos simultânea e continuamente, sentindo e reagindo contra o mundo à nossa volta.

As categorias e ideias a elas associadas

Nas três categorias fenomenológicas de Peirce, os tipos de experiência e estados de consciência que as caracterizam são:

PRIMEIRIDADE

SECUNDIDADE

TERCEIRIDADE

Experiência imediata

Experiência direta

Experiência de mediação

Experiência com as qualidades puras e simples; de unidade da mente com essas qualidades.

Experiência com o outro; com a existência do outro.

Experiência de mediação (representação)

Qualeconsciência

Consciência de alteridade

Consciência de síntese

São ideias associadas:

Possibilidade qualitativa positiva. Pura liberdade: “O livre é aquele que não tem outro atrás de si, determinando suas ações”.

Negação – que se opõe à pura liberdade. Modo de ser do que é apenas em relação a um segundo. Causa e efeito.

Meio entre os absolutos primeiro e último; o começo é primeiro, o último é segundo e o meio é terceiro. Mediação.

Exemplos clássicos das categorias são:

PRIMEIRIDADE

SECUNDIDADE

TERCEIRIDADE

Sentir o vermelho (sem perceber ou se perguntar se ele é o vermelho de alguma outra coisa).

Perceber o objeto que é vermelho (meramente como outro, sem fazer relação).

Interpretar esse objeto como sendo vermelho (relacionar).

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de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático] 19 A validade das três categorias é

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A validade das três categorias é confirmada por Peirce, entre outras coisas, pela sua ideia de

redução triádica; ou seja, de que tudo, até o mais complexo dos fenômenos, pode ser reduzido a (desmembrado em) relações de três, e estudado como tal. Essa ideia está apoiada na Matemática, onde por meio de diagramas ele demonstra que toda relação que é tétrade ou pentaedral (CP 1.347) pode ser reduzida a relações triádicas.

As tríades foram observadas por Peirce em diferentes ramos da matemática (álgebra, geometria, lógica dos relativos):

PRIMEIRIDADE

SECUNDIDADE

TERCEIRIDADE

1 - Primeiro (sem precedente ou relação)

2 - Segundo (implica a precedência de um 1º)

3 - Terceiro (entre um 1º e um 2º)

· (ponto)

(linha)

< (bifurcação)

Mônada. Uno (sem partes).

Díade. (que combina dois elementos).

Tríade (que combina dois ou um número qualquer de elementos).

Em resposta às perguntas “Por que não dois?” ou “Por que parar no três?” e “Por que não seguir até encontrar uma nova concepção em quatro, cinco e assim indefinidamente?” Peirce afirma ser impossível formar um três genuíno pela modificação do par, sem introduzir algo de natureza diferente da unidade e do par. E, à medida que toda combinação pode ser obtida por combinações de tríades, não temos tétrades, ou outras n-ades enquanto elementos indecomponíveis do fenômeno (PEIRCE, CP 1.363).

É dele o seguinte exemplo: imagine um fato quádruplo como “A vende B a C pelo preço D.

Isto é composto de dois fatos: primeiro A faz com C uma certa transação que eu chamo de E; segundo essa transação E é a venda de B pelo preço D. Cada um desses dois fatos é um fato triplo e sua combinação é tão genuína quanto um fato quádruplo pode ser” (CP 1.363).

No estudo em detalhes das categorias da primeiridade (CP 1.300 – 1.321) secundidade (CP 1.322-1.336) e terceiridade (CP 1.337-1.353), essas foram associadas a diferentes ideias. A tabela a seguir está organizada com base em algumas delas:

PRIMEIRIDADE

SECUNDIDADE

TERCEIRIDADE

Na mente humana

QUALIDADE DE SENTIMENTO

AÇÃO

PENSAMENTO

Variedade de qualidades de sentimento na interioridade. Incondicionalidade do sentimento em relação à consciência e ao tempo. Novidade, originalidade, espontaneidade, vagueza.

Compulsão para agir/reagir, levado por impulso, força bruta, força binária, esforço e resistência, conflito, ação mútua, oposição entre pares, constrangimento.

Cognição, inteligibilidade, generalização, conceituação, interpretação, aprendizagem, análise. Hábitos de pensamento.

Na psicologia

INDIFERENCIAÇÃO ENTRE SER E NÃO SER

NÃO-EGO

EGO

Anterior à ruptura entre o ser e o não ser (ausência total do problema).

Não-Eu – o OUTRO – alter – que denuncia a existência do Eu e que é o próprio pivô do pensamento.

Eu como o resultado cognitivo do viver (Homem). Modelador da ação e da conduta.

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de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático] 20 PRIMEIRIDADE SECUNDIDADE TERCEIRIDADE No

20

PRIMEIRIDADE

SECUNDIDADE

TERCEIRIDADE

No espaço-tempo

PRESENTE ABSOLUTO

RUPTURA ENTRE PASSADO E PRESENTE

FLUXO DO TEMPO

Presente absoluto, sem aqui e agora e sem fluxo do tempo. Ruptura com o passado e o futuro ou com qualquer delimitação de espaço. Espaço e tempo meramente possíveis.

Aqui e agora, em oposição a um passado que aparece como força bruta, por meio da memória. Definição de um espaço tempo que pertence ao fenômeno.

Consciência de um processo. Intencionalidade para o futuro. Tempo e espaço passados representados. Previsão segundo probabilidades.

Na Metafísica (princípios atuantes na realidade)

 

ACASO

EXISTÊNCIA

LEI

Mundo como interioridade, potencialidade. Responsável pela variedade e diversidade na natureza, pela livre (sem regularidade) distribuição das coisas na exterioridade (existência).

Mundo material. Mundo como exterioridade/fato, evento aqui e agora/atual. Mundo como atualização daquilo que era mera potência.

Mundo como regularidade. Os fatos reduzidos a uma regularidade constituem as leis da natureza. Mundo como um conjunto de leis (hábitos) que governam os fatos (no futuro).

No campo da Filosofia, as contribuições mais importantes do entendimento dessas categorias estão, talvez, na Semiótica, a ciência dos signos e da significação. Peirce não apenas concebeu que o elemento mínimo da significação – o signo – é um fenômeno de terceiridade, como concluiu pela sua natureza triádica – composto ele mesmo de três constituintes - analisou cada um deles – fundamento, objeto e interpretante - segundo uma concepção triádica. Com base nisso, elaborou séries de tricotomias – combinações três a três dos elementos do signo – considerando suas variações lógicas - segundo as quais os signos são classificados. Essas fornecem a base tanto para o entendimento da significação em geral quanto para uma semiótica aplicada a sistemas de signos especiais (embora Peirce não tenha se dedicado a essa última tarefa; seu intuito foi sempre conceber uma lógica geral).

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de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático] 21 O signo triádico, a ideia de

21

O signo triádico, a ideia de semiose e a tríade “ícone-índice- símbolo”

Semiótica

A Fenomenologia, como primeira das ciências da Filosofia, constitui a base de todo o

pensamento filosófico de Peirce. A descoberta das três categorias universais de toda experiência e todo pensamento, lembra Santaella, fez parecer ao próprio Peirce “fantasia absurda e detestável reduzir toda multiplicidade e diversidade dos fenômenos ao número de três e, sobretudo, a uma gradação 1, 2, 3” (SANTAELLA, 1983: 35). Entretanto, o próprio autor acaba convencido de sua descoberta, tendo, como escreve Ibri, demonstrado, em mais de uma passagem, sua irredutibilidade e suficiência” (1992:6).

A fim de comprovar a veracidade das categorias, o autor realizou diversos estudos, tendo

encontrado suas correspondentes em outras ciências, “da lógica e psicologia, à metafísica,

fisiologia e física” (SANTAELLA, 1995: 17). Na Lógica ou Semiótica (Lógica em sentido amplo) reside grande parte do potencial desta filosofia para as demais investigações e, especialmente, para o estudo das linguagens de um modo geral.

O pesquisador, na Fenomenologia, busca estudar os aspectos mais gerais do modo como o

mundo aparece: “Como ciência das aparências, a Fenomenologia nada afirma sobre o que é,

nem sobre o que deve ser, prescindindo, por isso, de uma Lógica que valide seus argumentos; ela apenas constata aquilo que está de modo ubíquo diante da consciência” (IBRI, 1992:20).

O caminho para a verdade das coisas, na Filosofia ou em qualquer ciência, requer um

raciocínio capaz de conduzir tal busca, um raciocínio correto. A Lógica, como Peirce a concebeu, insere-se neste ponto, como o ramo da Filosofia que tem por tarefa investigar aquilo que de um modo geral determina como deve ser nosso raciocínio para que ele seja correto.

A Lógica, ou Semiótica ocupa, na classificação das ciências de Peirce, o lugar da terceira das ciências normativas, ao lado da Estética e da Ética 5 . Como observa Santaella (1995: 101-140), em toda a classificação das ciências de Peirce, e também na ordenação das ciências normativas, há uma importante correspondência com as categorias universais inventariadas na

5 Sobre as relações entre Estética, Ética e Lógica, consultar SANTAELLA (1992), pp. 101-140.

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Profa. Dra. Eluiza Bortolotto Ghizzi/DAC/CCHS Semiótica Filosófica de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático]

de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático] 22 Fenomenologia. Assim, Estética, Ética e Ló

22

Fenomenologia. Assim, Estética, Ética e Lógica mantêm relações com a primeiridade,

segundidade e terceiridade, respectivamente. À Lógica, coube uma correspondência com a terceira categoria e, portanto, com aquilo que é da natureza do pensamento. Na sua condição

de ciência normativa, evidencia-se, como escreve Ibri, o aspecto normativo em “[ a teoria do raciocínio correto, de como o raciocínio deve ser, não de como ele é [ IBRI, 1992:23).

lógica é

]” (apud

]

Observe-se aqui que, embora a investigação puramente semiótica tenha como finalidade o dever ser do pensamento em geral, as investigações especiais - de sistemas especiais de signos ou de signos particulares - têm como finalidade sugerir hipóteses sobre o modo como o pensamento é nesses sistemas ou no signo em questão. Trata-se, nesses casos, de aplicar as categorias da semiótica geral a esses sistemas de signos e sugerir hipóteses sobre como eles atualizam certas formas de pensamento.

O uso da semiótica como uma ciência formal para investigação das formas de pensamento se justifica na complexidade de certas formas de pensamento e nos casos em que a investigação busca cunho científico. Isso fica claro na distinção que Peirce elabora entre “Lógica utens e Lógica docens” (SANTAELLA, 1992:124):

Peirce achava que qualquer pessoa, na vida comum, tem um instinto para o raciocínio ou hábitos de raciocínio com os quais forma sua opinião relativa a muitos assuntos de grande importância. Aliás, para tópicos vitalmente importantes e práticos, não há nada melhor do que uma Lógica do bom senso, guiada pela sensibilidade e sentido de eficácia. Não apenas temos um instinto de raciocínio, como possuímos uma teoria instintiva dos raciocínios. Essa teoria, anterior e independente de qualquer estudo sistemático do assunto, se constitui na Lógica utens, ou lógica implícita do homem comum.

No entanto, quando o homem se defronta com fatos surpreendentes, não usuais, que reclamam por uma capacidade inventiva, generalização, teoria, [que], em síntese, exigem aperfeiçoamento do estado de coisas, a Lógica utens não é suficiente, embora ela nos leve a adivinhar corretamente em muitos casos. É nesse momento que o estudo dos processos de raciocínio e a investigação dos métodos, que nos dêem mais confiança e apressem o avanço de nosso conhecimento para os resultados desejados, são exigidos. Essa é a Lógica docens.

Esta distinção, paralelamente ao fato de nos aproximar da concepção da Lógica em Peirce, é, também, evidenciadora do amplo papel que a Lógica está apta a desempenhar, nas mais diversas áreas de investigação. A par desta primeira distinção, todavia, encontramos dois sentidos possíveis para a Lógica como semiótica nos escritos de Peirce:

No sentido mais estreito, é a ciência das condições necessárias para se atingir a verdade. No sentido mais amplo, é a ciência das leis necessárias do pensamento, ou melhor (o pensamento sempre ocorrendo por meio de signos), é a Semiótica geral, que trata não apenas da verdade,

mas também das condições gerais dos signos sendo signos

das leis de evolução do

pensamento, que coincide com o estudo das condições necessárias para a transmissão de

significado de uma mente a outra, e de um estado mental a outro. 6

também

6 CP, 1.444, apud. SANTAELLA, op. cit., p. 132.

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de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático] 23 Santaella, no seu livro “ O

23

Santaella, no seu livro “O que é Semiótica”, escreve: “O nome Semiótica vem da raiz grega semeion, que quer dizer signo. Semiótica é a ciência dos signos” (SANTAELLA, 1992: 124); e ainda “A Semiótica é a ciência geral de todas as linguagens” ( SANTAELLA, 1992: 7) . Este paralelo entre signo e linguagem, entretanto, só poderá ser compreendido adequadamente se entendermos o termo linguagem do modo mais amplo possível e, principalmente, se não o restringirmos àquelas expressões por meio de palavras, verbalizadas ou escritas com base na língua de um povo. Estas, embora indubitavelmente importantes para a ideia de linguagem, cobrem apenas uma parte do que este termo está apto a representar. Considere-se que podemos nos referir a inúmeras linguagens próprias do homem ou, mesmo, alheias a ele. Temos a linguagem musical, pictórica, escultórica, arquitetônica, matemática, de máquina, gestual, dos pássaros, etc.

A Semiótica aplica-se, então, ao estudo da linguagem, nas mais diversas áreas, e aos seus

processos significativos. Peirce não desenvolveu nenhuma semiótica especial, a exemplo de uma semiótica lingüística, da cultura, biosemiótica, ou outra. Pelo contrário, a ciência que desenvolveu é uma ciência abstrata, que se preocupou com os signos e os processos de semiose de um modo geral e não com um ou outro em particular. E é exatamente esta sua generalidade que a torna apta a embasar investigações em campos tão diversos, como os mencionados por Nöth:

Frente ao desenvolvimento de uma área de investigações que se estende da semiótica da arquitetura, da biosemiótica ou da cartosemiótica até a zoosemiótica, uma resposta possível e pluralista frente à questão [o que é semiótica?] é: a semiótica é a ciência dos signos e dos processos significativos (semiose) na natureza e na cultura (NÖTH, 1995:19)

A escritura de Nöth reforça a ideia de que, em linhas gerais, a Semiótica não está apenas

preocupada com a identificação dos tipos possíveis de signos, mas também com seus processos significativos (semioses). É na ideia de semiose que Peirce localiza aquilo que chamou de ação do signo e que dá base para o entendimento de como, de um modo geral, o pensamento ocorre por meio de signos e, em última instância, as linguagens crescem, se diversificam e se complexificam.

Signo

Saliente-se de início que as definições acima e as que vêm a seguir - embora aplicáveis a signos em geral - são apropriadas ao que Peirce chamou de signo genuíno ou símbolo. Apenas esse apresenta a estrutura completa do signo peirciano; apenas esse pode ser interpretado em outros signos e crescer.

Acima frisamos o aspecto evolutivo implícito na ideia de semiose a fim de justificarmos porque, dentre tantas definições de signo formuladas por Peirce, elegemos para iniciar essa discussão exatamente aquela que Santaella (1992: 189) considerou “a mais ricamente evidenciadora da trama lógica da semiose”:

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de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático] 24 Um signo intenta representar, em parte

24

Um signo intenta representar, em parte (pelo menos), um objeto que é, portanto, num certo sentido, a causa ou determinante do signo, mesmo que o signo represente o objeto falsamente. Mas dizer que ele representa seu objeto, implica que ele afete uma mente, de tal modo que, de certa maneira, determina naquela mente algo que é mediatamente devido ao objeto. Essa determinação da qual a causa imediata ou determinante é o signo e da qual a causa mediata é o objeto pode ser chamada de interpretante (PEIRCE apud SANTAELLA, 1992: 189).

Entenda-se por signo algo que tem existência sempre na relação com uma mente receptora e não um objeto qualquer exterior a essa mente. O signo participa de um processo mental; é o modo pelo qual uma mente estabelece contato com as coisas do mundo. E um signo só pode ser signo se puder representar, estar no lugar de alguma coisa (seu objeto) para uma mente qualquer, ainda que falsamente.

Guardemos da definição de Peirce, por enquanto, o seguinte:

1 - a ideia de que o signo só é signo se houver um objeto;

2 - que ele não é o objeto, mas um modo de manifestação deste;

3 - que ele só representa o objeto parcialmente (pois representar o objeto totalmente os faria iguais: signo = objeto);

4 - para representar, o signo precisa de um intérprete (que não é necessariamente um

indivíduo) e

5 - o signo deve causar na mente desse intérprete um processo que o relacione (signo -

primeiro) com seu objeto (segundo), ou seja, ambos devem causar um interpretante (terceiro).

A fim de contribuirmos para a clareza destas ideias, é preciso conhecer qual é a concepção peirciana de objeto e de interpretante. Peirce referiu-se ao objeto do signo da seguinte maneira:

Ora, por um objeto, sem especificar se é o objeto de um signo, ou da atenção, ou da visão etc.

] [

qualquer coisa que é mencionada ou sobre a qual se pensa é um objeto (apud SANTAELLA, 1995: 47).

eu quero dizer qualquer coisa que chega à mente em qualquer sentido; de modo que

] [

também incorreto. O nome objectum entrou em uso no século XIII como um termo da psicologia. Ele significa primariamente aquela criação da mente na sua relação com algo mais ou menos real, criação esta que se torna aquilo para o qual a cognição se dirige; e secundariamente um objeto é aquilo sobre o qual um esforço é desempenhado; também aquilo que está acoplado a algo numa relação, e mais especialmente, está representado como estando assim acoplado; também aquilo a que qualquer signo corresponde (apud SANTAELLA, 1995:

47).

deve-se considerar que o uso comum da palavra “objeto” como significando uma coisa é

Da noção de objeto como uma criação da mente, temos que, aquilo que está na mente, como sendo objeto do signo, pode muito bem ser uma ficção. Todavia, a mente só realiza esta criação (ficção ou não), na relação com algo mais ou menos real; e esse algo deve ser um existente qualquer. Da distinção entre aquilo que está no signo e aquilo que lhe é externo (está no mundo existencial), Peirce constrói a distinção entre o que chamou de objeto imediato e objeto dinâmico. Tratando do signo (genuíno) Peirce escreve: “O objeto tem plenamente duas

O Objeto Imediato é o Objeto apresentado no

faces. O Objeto Dinâmico é o Objeto Real [

].

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de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático] 25 Signo ” (apud SANTAELLA, 1995: 53).

25

Signo” (apud SANTAELLA, 1995: 53). O que chamamos de objeto imediato é o modo como

o objeto dinâmico (que está fora do signo e que, de algum modo, o determina) está nele representado.

Se tivermos em conta um mapa, por exemplo, o objeto imediato é a ideia do lugar a que o mapa se refere e que pode ser abstraída a partir daquele mapa. O objeto dinâmico é o próprio lugar. O mesmo ocorre com fotografias de um lugar e, de modo semelhante, se eu olho diretamente para um lugar, meu olho registra uma imagem desse lugar, que é uma espécie de fotografia (signo) para minha mente que, com base nela elabora uma ideia (objeto imediato) do lugar (objeto dinâmico). Se eu continuo olhando, cada novo olhar contém virtualmente novas fotografia (signos novos) revelando outras faces do objeto. Quanto mais complexo o objeto maior a quantidade e variedade de signos necessárias para nos aproximar da sua realidade.

O outro componente do signo, o interpretante, também recebeu na Semiótica peirciana uma

noção própria. Por interpretante do signo não se deve entender aquele que interpreta; a este

chamamos de intérprete. Também não se deve limitar o entendimento do interpretante do signo àquilo que chamamos de interpretação. Embora toda interpretação se constitua em um tipo de interpretante, está limitada à atividade mental de um indivíduo em particular (que interpreta o signo), enquanto que a noção de interpretante do signo é mais ampla. O interpretante, como Peirce define,

] [

subjetiva, singular possa vir a compreendê-lo. O interpretante não é, ainda, o produto de uma pluralidade de atos interpretativos, ou melhor, não é uma generalização de ocorrências empíricas de interpretação, mas é um conteúdo objetivo do próprio signo (apud SANTAELLA, 1995: 85).

é uma criatura do signo que não depende estritamente do modo como uma mente

Vimos na definição de signo (acima) que o interpretante é uma determinação do signo, assim como o signo é uma determinação do objeto. Há aqui duas determinações. Retomemos, neste ponto, a definição de signo, para mostrar, com clareza, o seguinte: no processo de representação, o signo é primeiro. Embora sofra uma determinação do objeto, aquilo que imediatamente está na mente, que representa para esta mente o objeto, é o signo. O objeto afeta a mente, mediatamente, através do signo. O signo, por sua vez, tem a propriedade de gerar, naquela mente, uma ideia que deve ser lida como resultado de um vetor lógico que vai do objeto à ideia e não da ideia ao objeto. Assim entendido, o interpretante é, primeiramente, aquilo que o objeto, ele mesmo, através do signo (mediado pelo signo), está potencialmente apto a determinar. A esse nível (primeiro) do interpretante Peirce chamou de imediato.

Embora para representar de fato (realizar semiose) o signo precise de um intérprete; o que quer dizer que ele precisa gerar uma interpretação, que é necessariamente influenciada pela perspectiva desse intérprete sobre o signo, a ausência desses elementos não significa que o signo não existe. Os signos estão no mundo, e como tais têm em si a estrutura triádica definida acima. O fato de afetarem uma mente qualquer, (um intérprete ou um conjunto de intérpretes) os coloca em ação. O(s) intérprete(s) atualiza(m) um ou mais interpretantes potenciais do signo. Essa atualização, contudo, não depende meramente do signo; ela é influenciada pelas potencialidades interpretativas do intérprete (que decorrem da sua

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de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático] 26 experiência de vida). Está relacionado a

26

experiência de vida). Está relacionado a características particulares desta mente, que por sua vez exerce uma determinação na escolha do interpretante que será atualizado. Cabe dizer que escolha não é o termo mais adequado, pois nunca se sabe que tipo de associação o intérprete fará, de modo que se deve considerar uma ação criativa na interpretação. A esse nível (segundo) do interpretante Peirce chamou de dinâmico.

Esse interpretante ou mesmo um conjunto de interpretantes dinâmicos, embora atualize(m) possibilidades interpretativas do signo, não esgotam o todo daquilo que o signo está apto a representar (ou o todo dos interpretantes possíveis para o signo). A totalidade das interpretações de um signo constituiria aquilo que Peirce chamou de interpretante final; todavia, como um signo sempre pode vir a sofrer novas interpretações, especialmente no caso dos símbolos que estão sempre em crescimento, esse interpretante último é algo concebido ad infinitum.

A fim de tornarmos isso mais claro, retomemos o exemplo daquele nosso olhar para um lugar

qualquer. Cada imagem gravada pelo nosso olho (suas qualidades, sua capacidade de remeter

ao lugar e suas potencialidades interpretativas) pode ser entendida como um signo. Se pudéssemos isolar o pequeno fragmento de tempo em que o primeiro signo afetou nossa mente, identificaríamos, neste ato singular, a primeira realização do interpretante. É óbvio que qualquer que seja a nossa interpretação da imagem naquele momento, ela está longe daquela que um olhar mais prolongado pode nos levar a realizar. E ainda, quanto mais nosso olhar se demora no signo, mais interpretantes poderão ter lugar, de modo a podermos elaborar uma ideia do lugar cada vez mais completa. Esta tende a, cada vez mais, aproximar-se do todo que

o signo está apto a representar, ou da realidade que ele, o signo, intenta representar. Esse todo, porém, não é algo que possa se esgotar por esse conjunto de imagens; ou mesmo por um conjunto de signos de outra natureza (desenhos, pinturas, fotografias, etc.).

As denominações do interpretante - imediato, dinâmico e final - correspondem a momentos do interpretante, a estágios da evolução do interpretante, e estão relacionadas às categorias fenomenológicas: “imediato (primeiridade), dinâmico (segundidade) e final (terceiridade)” (SANTAELLA, 1995: 91).

Santaella, em “A Teoria Geral dos Signos”, traduz várias passagens da obra de Peirce que podem elucidar esta divisão triádica do interpretante. O interpretante imediato, como sua

relação com a primeira categoria já pode nos levar a concluir, “É uma abstração consistindo

consiste na Qualidade da Impressão que um signo está apto a

produzir, não diz respeito a qualquer reação de fato” (PEIRCE apud SANTAELLA, 1995:

96). Reação é um termo próprio àquilo que está associado ao interpretante dinâmico: “O

Interpretante Dinâmico é qualquer interpretação que qualquer mente realmente faz do Signo.

O

significado de qualquer Signo sobre alguém consiste no modo como esse alguém reage ao signo” (PEIRCE apud SANTAELLA, 1995: 98). E ainda: “Meu interpretante Dinâmico é

Este interpretante deriva seu caráter da categoria diádica, a categoria da ação [

numa possibilidade [ou] [

]

]

aquilo que é experienciado em cada ato de interpretação e em cada um é diferente daquele de

O interpretante dinâmico é um evento real, singular” (apud

qualquer

SANTAELLA, 1995: 98).

outro

[

]

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de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático] 27 Observe-se que, não à toa, os

27

Observe-se que, não à toa, os termos “imediato” e “dinâmico”, usados na denominação dos dois primeiros níveis de interpretante são, igualmente, utilizados da divisão do objeto do signo. O interpretante imediato, assim como o objeto imediato, tem existência dentro do signo, na sua independência da interpretação e na sua condição potencial, própria daquilo que é da primeira categoria. O interpretante dinâmico, assim como o objeto dinâmico, tem no seu caráter de realidade a ligação com a segunda categoria fenomenológica.

Finalmente, ao terceiro nível do interpretante, denominado interpretante final, fica destinada a correspondência com a terceira categoria fenomenológica: “Meu Interpretante Final é o efeito que o Signo produziria sobre uma mente em circunstâncias que deveriam permitir que ele extrojetasse seu efeito pleno” (apud SANTAELLA, 1995: 99). Os termos “produziria” e “pleno” evidenciam seu caráter ideal. A noção de que há algo que tende para um futuro ideal, requer que pensemos em algo que evolui, que muda e se atualiza. Em Filosofia, a ideia de “atualidade” está associada à de “ato” e à de “atividade”:

A mudança, que para Aristóteles é apenas uma forma de movimento, seria ininteligível se o objeto que muda não possuísse, em algum sentido, a potencialidade de mudar. A mudança é, pois, a passagem de um estado de potência ou potencialidade a outro de ato ou atualização de uma substância. (MORA, 1994: 55).

Tendo isso em mente verifiquemos que, embora o interpretante final não se confunda com o interpretante imediato - cuja característica principal é sua potencialidade - ou com o interpretante dinâmico - que se caracteriza por ser o modo pelo qual aquela potencialidade se realiza em um ato concreto, singular e atual -, também não pode prescindir de ambos para seguir em direção à sua idealidade. O ideal do interpretante final pode ser compreendido, então, como aquilo para o qual a contínua realização da potencialidade do signo tende. A realização da potencialidade do signo é aquilo que chamamos de ação do signo, que se dá na relação com uma ou mais mentes interpretantes. Cada ato de interpretação é, portanto, um estágio de atualização do interpretante; o que nos leva a compreender por que o interpretante que caracteriza este ato é chamado dinâmico, uma vez que muda constantemente.

Os exemplos mais próximos de um interpretante final são alguns dos nossos conceitos estabelecidos simbolicamente, especialmente os conceitos científicos, os hábitos e as crenças, dado que eles são tomados como verdades para nós. Além disso, os conceitos científicos, por exemplo, são acordos de uma comunidade de investigadores, portanto, considerados em vários aspectos. Embora eles também passem por revisões, elas tendem a acontecer em períodos amplos de tempo; por isso são diferentes daqueles interpretantes particulares que fazem parte do nosso dia-a-dia.

Note-se ainda que o interpretante dinâmico, o único que tem existência, é apenas o modo como o signo se atualiza. Isso é o mesmo que dizer que é o próprio signo existindo realmente em uma mente. Sendo assim, o interpretante é ele mesmo um signo representado, que Peirce chamou de signo interpretante. Este signo interpretante, como vimos, realiza a potencialidade do signo apenas em parte, visto que o todo desta potencialidade é algo “ideal, aproximável, mas inatingível” (SANTAELLA, 1995: 99). Dizer que o interpretante realiza a potencialidade do signo apenas em parte é dizer que ele representa o objeto do signo apenas parcialmente.

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Profa. Dra. Eluiza Bortolotto Ghizzi/DAC/CCHS Semiótica Filosófica de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático]

de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático] 28 Um signo, ou representamen, é aquilo

28

Um signo, ou representamen, é aquilo que, sob certo aspecto ou modo, representa algo para alguém. Dirige-se a alguém, isto é, cria, na mente dessa pessoa, um signo equivalente, ou talvez um signo mais desenvolvido. Ao signo assim criado denomino interpretante do primeiro signo. O signo representa alguma coisa, seu objeto. Representa esse objeto não em todos os seus aspectos, mas com referência a um tipo de idéia que eu, por vezes, denominei fundamento do representamen (PERICE, 1977: 46).

A ação do signo no processo interpretativo Peirce chamou de semiose. A semiose é um

processo contínuo sempre buscando aproximar a representação ao objeto. Ocorre, então, que nosso conhecimento do objeto cresce com a semiose:

A ação do signo só se consuma no momento em que ele determina um interpretante, isto é, no momento em que ele gera um outro signo. Este novo signo-interpretante terá como objeto tanto o signo do qual ele se gerou, quanto o objeto original, passando ambos a compor um objeto complexo. Conclusão, o objeto não é estático e inerte, mas cresce com a semiose (SANTAELLA, 1992: 190).

Este é o processo pelo qual o pensamento adquire conhecimento, atualiza-se e evolui. E, como

se

pode facilmente deduzir, é também um processo temporal, tal qual aquele que está na ideia

de

terceiridade. Ele se dá infinita e ininterruptamente num continuum, sempre gerando ideias

mais complexas. Entender isso, que o conhecimento cresce, é ver reafirmada sua incompletude - a incompletude dos interpretantes; em outras palavras, das nossas representações acerca de alguma coisa. É constatar nossa condição de seres em permanente aprendizado diante do mundo. Podemos viver centenas de anos e nunca teremos parado de aprender, não porque não tenhamos nos esforçado o suficiente, mas porque isto foge ao nosso controle. E foge ao nosso controle porque esta é uma lei do mundo, que independe da nossa vontade e sequer da nossa existência enquanto indivíduos.

Apreendemos o signo, na instância do interpretante dinâmico que, nas palavras de Santaella,

“[

98). Nessa instância, o signo pode gerar interpretantes de naturezas diferentes, conforme seja a natureza do seu fundamento, o tipo de relação que estabelece com o objeto ou, ainda, o tipo

de interpretante que atualiza. Peirce verificou a existência de tríades nas três instâncias: do

fundamento (do signo em si mesmo), do objeto (da relação do signo com seu objeto) e do interpretante (da relação do signo com seu interpretante). O estudo dessas tríades, das usas subdivisões – também triádicas – e das relações entre elas lhe permitiu classificar alguns tipos gerais de signos. Sobre essa classificação tratamos a seguir. Antes, porém, cabe dizer que essa classificação pressupõe uma ideia anterior, de que nem todos os signos são genuínos, ou seja, nem todos são triádicos no mesmo grau definido até então.

]

é o único interpretante que funciona diretamente num processo comunicativo” (1995:

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Signo Genuíno e Signo Degenerado

[texto de apoio didático] Signo Genuíno e Signo Degenerado 29 Paralelamente à ideia de signo, Peirce

29

Paralelamente à ideia de signo, Peirce constrói uma quase destruição dessa ideia, fazendo a distinção entre signo genuíno e signo degenerado. O termo “degenerado” tem como referência, o seu significado na geometria (SANTAELLA, 1992:82).

No signo genuíno ou símbolo, há sempre três envolvidos: signo, objeto e interpretante. Ideias típicas a ele associadas são: terceiridade, cognição, aprendizado, lei, generalização, hábito, crescimento e complexificação, entre outras. Este é o terreno da semiose infinita, da continuidade do pensamento. Além desse tipo de signo há, todavia, outros, como o índice e o ícone, cuja natureza representativa difere da do símbolo.

Além disso, cada um desses tipos de signo é pensado como tendo sutis variações, que são degenerações internas. Assim, cada um deles é classificado como tendo uma natureza genuína paralelamente a outras ditas degeneradas.

Isso ocorre com o próprio símbolo (além de ocorrer, também, com o índice e o ícone):

] [

símbolos degenerados, o Símbolo Singular, cujo Objeto é um existente individual, e que significa apenas aqueles caracteres que aquele individual pode conceber; e o Símbolo Abstrato, cujo Objeto único é um caráter (PEIRCE, 1977: 71).

Um símbolo genuíno é um símbolo que tem um significado geral. Há duas espécies de

Enquanto o símbolo – conforme dito acima - corresponde à ideia de signo autêntico, o índice corresponde à ideia de signo uma vez degenerado. No signo que é um índice, há necessariamente dois envolvidos (signo-objeto), podendo o terceiro (interpretante) existir ou não:

Um signo degenerado no menor grau é um Signo Obsistente, ou Índice, que é um signo cuja significação de seu Objeto se deve ao fato de ter ele uma Relação genuína com aquele Objeto, sem se levar em consideração o Interpretante. É o caso, por exemplo, da exclamação “Eh!” como indicativa de perigo iminente, ou uma batida na porta como indicativa de uma visita (PEIRCE, 1977: 28).

As ideias típicas a ele associadas são: segundidade, ação, individualidade, fato, existente, contigüidade, outro, compulsão, entre outras. Este signo, por sua vez, também apresenta degenerações internas. Ele pode apresentar-se como sendo um índice genuíno ou um índice degenerado:

Um Índice ou Sema (σηµa) é um Representamen cujo caráter Representativo consiste em ser um segundo individual. Se a Segundidade for uma relação existencial, o Índice é genuíno. Se a Segundidade for uma referência, o Índice é degenerado. Um Índice genuíno e seu Objeto devem ser individuais existentes (quer sejam coisas ou fatos), e seu Interpretante imediato deve ter o mesmo caráter (PEIRCE, 1977: 66-67).

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de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático] 30 O ícone , por sua vez,

30

O ícone, por sua vez, corresponde à ideia de signo duas vezes degenerado. Nele há apenas um

elemento definido (o signo - primeiro), estando os outros dois (objeto - segundo e interpretante - terceiro), colocados como virtuais:

Um Signo Degenerado no maior grau é um Signo Originaliano ou Ícone, que é um signo cuja virtude significante se deve apenas à sua Qualidade. É o caso, por exemplo, das suposições de como agiria eu em determinadas circunstâncias, enquanto me mostram como um outro homem provavelmente agiria. 7

As ideias típicas a ele associadas são as de: primeiridade, sentimento, similaridade, individualidade, possibilidade, acaso, liberdade, entre outras. Um signo que é um ícone já tem em si o maior grau de degeneração possível, não havendo variações como no índice ou símbolo. Apesar disso, mesmo no caso desse tipo de signo Peirce classificou pequenas variações, como se verá mais adiante.

Esta divisão triádica dos signos em ícones, índices e símbolos corresponde a apenas uma parte das divisões elaboradas por Peirce:

Tomando como base as relações que se apresentam no signo, por exemplo, de acordo com o modo de apreensão do signo em si mesmo, ou de acordo com o modo de apresentação do objeto imediato, ou de acordo com o modo de ser do objeto dinâmico etc., foram estabelecidas 10 tricotomias, isto é, 10 divisões triádicas do signo, de cuja combinatória resultam 68 classes de signos e a possibilidade lógica de 59 049 tipos de signos (SANTAELLA, 1983: 62).

Estes tipos todos não foram explorados por Peirce. Dentre seus estudos Peirce destacou três tipos de relações que são os mais gerais (1, 2 e 3 abaixo) e classificou as tricotomias corespondentes a cada uma delas:

1) signo em si mesmo 2) signo - objeto dinâmico 3) signo - interpretante

Os signos são divisíveis conforme três tricotomias; a primeira, conforme o signo em si mesmo for uma mera qualidade, um existente concreto ou uma lei geral; a segunda, conforme a relação do signo para com seu objeto [dinâmico] consistir no fato de o signo ter algum caráter em si mesmo, ou manter alguma relação existencial com esse objeto ou em sua relação com um interpretante, a terceira, conforme seu Interpretante representá-lo como um signo de possibilidade ou como um signo de fato ou como um signo de razão (PEIRCE, 1977: 51).

Assim, conforme a primeira divisão, um signo pode ser um Qualissigno, “uma qualidade que

é um Signo” (PEIRCE, 1977: 52); um Sinssigno, cuja “sílaba sin é considerada em seu

significado de ‘uma única vez’, como em singular [

e real que é um signo” (PEIRCE, 1977: 52). Ou, ainda, um Legissigno, que é “uma lei que é um Signo” (PEIRCE, 1977: 51).

[e que é] uma coisa ou evento existente

]

1.1) Qualissigno

1.2) Sinssigno

7 Op. cit., P. 28, parágrafo 92.

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1.3) Legissigno

(1839-1914) [texto de apoio didático] 1.3) Legissigno 31 A segunda tricotomia é a que divide os

31

A segunda tricotomia é a que divide os signos em ícones, índices e símbolos, conforme o

signo refira-se a seu objeto dinâmico:

O Ícone não tem conexão dinâmica alguma com o objeto que representa; simplesmente acontece que suas qualidades se assemelham às do objeto e excitam sensações análogas na mente para a qual é uma semelhança. Mas, na verdade, não mantém conexão com elas. O índice está fisicamente conectado com seu objeto; formam ambos um par orgânico, porém a mente interpretante nada tem a ver com essa conexão, exceto o fato de registrá-la depois de ter sido estabelecida. O símbolo está conectado a seu objeto por força da idéia da mente-que-usa- o-símbolo, sem a qual essa conexão não existiria (PEIRCE, 1977: 73).

2.1) Ícone

2.2) Índice

2.3) Símbolo

Para a terceira tricotomia, da relação do signo com seu interpretante, ou, ao nível do raciocínio, o signo pode ser denominado Rema, Dicente (ou Dicissigno) ou Argumento. “Um Rema é um Signo que, para seu Interpretante, é um Signo de Possibilidade qualitativa, ou seja, é entendido como representando esta ou aquela espécie de objeto possível” (PEIRCE, 1977: 53). Um Dicente “é um Signo que, para seu Interpretante, é um Signo de existência real” (PEIRCE, 1977: 53) e um Argumento é “um Signo que, para seu Interpretante é Signo de Lei” (PEIRCE, 1977: 53).

3.1) Rema

3.2) Dicente

3.3) Argumento

Os números 1, 2 e 3 devem sempre ser associados às três categorias fenomenológicas. Uma regra acerca dos signos que podemos retirar da Fenomenologia está na noção de que aquilo que é primeiro pode prescindir do que é segundo e do que é terceiro. Aquilo que é segundo, por outro lado, pode prescindir do que é terceiro, mas não do que é primeiro, sem deixar de ser segundo. Aquilo que é terceiro, por sua vez, não pode prescindir nem do primeiro, nem do segundo, sem deixar de ser terceiro. Esta regra nos leva também ao seguinte: a apreensão dos signos de secundidade (2) pressupõe a dos signos de primeiridade (1); e a apreensão de um signo de terceiridade (3), pressupõe tanto a do signo de segundidade (2), quanto a do de primeiridade (1). As três tricotomias, combinadas de acordo com as possibilidades lógicas, dão origem às dez classes de signos, estudadas por Peirce.

A segunda das tricotomias é considerada por Peirce como “a divisão mais importante dos

signos” (PEIRCE, 1977: 64), classificando-os em Ícones, Índices e Símbolos. “Baseada na

categoria fundamental da segundidade, a segunda tricotomia descreve os signos sob o ponto

Os três elementos que a compõe são

de vista das relações entre representamen e objeto. [

determinados conforme as três categorias fundamentais.” (NÖTH, 1995: 80)

]

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de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático] 32 O ícone, como Peirce o descreveu,

32

O ícone, como Peirce o descreveu, “é um Signo cuja virtude significante se deve apenas à sua

qualidade” Sendo assim, ele mesmo é uma qualidade. Peirce ainda escreve que qualquer coisa, “seja uma qualidade, um existente individual ou uma lei, é Ícone de qualquer coisa, na medida em que for semelhante a essa coisa e utilizado como um seu signo” (PEIRCE, 1977:

52). Isso é o mesmo que dizer que um qualissigno, um sinssigno ou um legissigno podem, igualmente, ser um ícone. O autor, entretanto, faz uma distinção entre o qualissigno, que é um ícone, e os demais. “Uma simples possibilidade é um ícone puramente por força de sua qualidade e seu objeto só pode ser uma Primeiridade” (PEIRCE, 1977: 54). Sendo assim, em sentido estrito, apenas um qualissigno poderia ser um ícone. E ao qualissigno que é um ícone, Peirce chamou de ícone puro. Um ícone puro então, seria uma qualidade de uma qualidade ou uma possibilidade de uma possibilidade; o que na realidade não existe na lógica.

À parte a ideia de ícone puro, Peirce chamou de hipoícones, os signos que atuam de fato em

uma relação significante. Esses foram chamados por Santaella simplesmente de signos icônicos, em oposição ao ícone puro ou genuíno ao qual nos referimos até então. Nos seus

escritos, Peirce refere-se a eles da seguinte forma:

Os hipoícones, grosso modo, podem ser divididos de acordo com o modo de Primeiridade de que participem. Os que participam das qualidades simples, ou Primeira Primeiridade, são imagens; os que representam as relações, principalmente as diádicas, ou as que são assim consideradas, das partes de uma coisa através de relações análogas em suas próprias partes, são diagramas; os que representam o caráter representativo de um representamen através da representação de um paralelismo com alguma outra coisa, são metáforas (PEIRCE, 1977: 74).

Acerca das imagens, Santaella analisa:

A expressão “primeiras primeiridades” deve provavelmente significar que a representação na imagem se mantém em nível de mera aparência. São as qualidades primeiras - forma, cor, textura, volume etc. - que entram em relações de similaridade e comparação, tratando-se, portanto, de similares na aparência (SANTAELLA, 1995: 156).

Um diagrama, por si só, não representa qualquer coisa em específico, apenas uma relação entre partes que poderá se aplicar a coisas particulares. Qualquer um que os observe pode associá-los a alguma coisa que tenha relação equivalente. São infinitas as associações da mesma natureza que se pode fazer com um mesmo diagrama (como, por exemplo, os modelos de gráficos que estão disponíveis nos programas de computador e que permitem explicar - de modo rápido e predominantemente visual - relações entre dois, três ou mais elementos).

Também as metáforas se apóiam em relações predominantemente visuais. Quando o poeta diz, por exemplo:

O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás da casa. Passou um homem depois e disse: Essa volta que o rio faz por trás de sua casa se chama enseada. Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que fazia uma volta atrás de casa. Era uma enseada.

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Acho que o nome empobreceu a imagem. [Manoel de Barros]

Acho que o nome empobreceu a imagem. [Manoel de Barros] 33 A associação do reflexo do

33

A associação do reflexo do rio com ‘vidro mole’ ou com ‘cobra de vidro’ é de natureza

metafórica. O poeta associa as qualidades de uma coisa a qual se refere (1ª) com as qualidades

de outra coisa resgatada pela memória (2ª) e utiliza o nome desta segunda para denominar a

primeira. Fazendo assim ele enfatiza seus elementos qualitativos, os quais sempre foram de muito valor para a poesia. Já o ‘homem’ a que se refere o poeta, ao nomear a ‘curva do rio’ como ‘enseada’, enfatiza mais o conceito de enseada (tal como aprendeu, ou seja, sua natureza simbólica) do que as qualidades imagéticas daquela enseada em particular para aquele sujeito (poeta); tal como se reconhece no final do poema.

No filme “Agonia e Êxtase”, uma narrativa acerca do processo conflitante por que teria passado Michelangelo Buonarroti, quando da pintura do teto da Capela Sistina, em Roma, encomendada por Júlio II em 1508, há duas passagens que podem ilustrar como esses signos agem. Na primeira, está Michelangelo em uma taberna tomando um copo de vinho que, ao primeiro gole, é expulso da boca porque está azedo. Segue-se que o taberneiro, ao provar também da bebida, repete o ato de Michelangelo, assim comprovando o azedume do vinho. Na sequência, dirige-se ao barril, arrombando-o com um golpe. Ao arrombar o barril do vinho que estava azedo, o taberneiro diz: “se meu vinho está azedo, eu o jogo fora”. E Michelangelo, ao ouvir tal decisão, insatisfeito que estava com a pintura da capela executada até então (a partir de um projeto de Júlio II), imediatamente associou o vinho à pintura e, como se sua pintura estivesse azeda, “jogou-a fora”. Assim são as metáforas: “extraem tão somente o caráter, o potencial representativo em nível de qualidade de algo e fazem o paralelo com algo diverso.” (SANTAELLA, 1995: 157).

Na segunda passagem, após ter destruído a pintura, Michelangelo sai de Roma, refugiando-se

na região de Carrara a fim de pensar sobre o problema que ainda o atormentava: a abóbada da

capela. E é assim que, lutando por encontrar uma solução, do alto das colinas, olhando para o céu, Michelangelo “vê” na configuração das nuvens a “Criação do homem8 . “Vêaquilo que

lhe aparece, como se apresenta na sua mente: formas, volumes, movimento; imagens.

Nessas duas passagens ressalta-se o alto grau de abertura do ícone. Nada, no signo em si, determinava que ele devesse ser aquilo que a mente do artista dele retirou, nem que aquilo que o signo representou realmente existisse. O taberneiro não disse que a pintura, assim como o vinho, deveria ser “jogada fora”. Não havia nenhuma verdade indiscutível quanto à primeira pintura da capela ser boa ou não e que pudesse embasar a associação de Michelangelo da pintura com um vinho azedo; configurou-se apenas o fato de ele tê-la visto assim, naquele instante. E quem quer que tenha olhado para as nuvens quando Michelangelo olhou, certamente não haveria de ver o que ele viu. Havia apenas um poder ser que, na relação com a mente do artista e suas intencionalidades naquele momento gerou tal significado. O mesmo se pode observar quanto ao diagrama.

8 Nome de uma das cenas da abóbada da Capela Sistina, Vaticano, Roma, pintada em afresco, por Michelangelo (1508-1512), apud. CHASTELL, (1991), p. 367.

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de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático] 34 O índice, escreve Peirce, “é um

34

O índice, escreve Peirce, “é um Representamen cujo caráter Representativo consiste em ser

um segundo individual. Se a Secundidade for uma relação existencial, o Índice é genuíno. Se

a secundidade for uma referência, o índice é degenerado” (PEIRCE, 1977: 66). E, em outra

passagem: “Tudo o que atrai a atenção é índice. Tudo o que nos surpreende é índice, na medida em que assinala a junção entre duas porções de experiência” (PEIRCE, 1977: 67). Um índice é algo que sempre leva a outra coisa com o qual mantém uma relação de fato (dinâmica), independente de alguém vir a interpretá-lo assim ou não, e nisso difere do ícone que, por outro lado, não tem qualquer relação com seu objeto, exceto aquela que aparece no ato da interpretação. Como todo signo, o índice só funciona como tal quando interpretado;

entretanto será sempre um índice daquela coisa com a qual está conectado, quer isso aconteça

ou

não. Vejamos alguns exemplos citados por Peirce:

 

Vejo um homem que anda gingando. Isso é uma indicação provável de que é marinheiro. Vejo um homem de pernas arqueadas usando calça de veludo, botas e uma jaqueta. Estas são indicações prováveis de que é um jóquei ou algo assim. Um quadrante solar ou um relógio indicam a hora. Os geômetras colocam letras em partes diferentes de seus diagramas e, a

seguir, usam estas letras para indicar essas partes. [

]

(PEIRCE, 1977: 67).

[

]

Um cata-vento é um índice da direção do vento dado que, em primeiro lugar, ele

realmente assume a mesma direção do vento, de modo tal que há uma conexão real entre ambos, e, em segundo lugar, somos constituídos de tal forma que, quando vemos um cata- vento apontando numa certa direção, nossa atenção é atraída para essa direção e, quando vemos um cata-vento girando com o vento, somos forçados, por uma lei do espírito, a pensar que essa direção tem uma relação com o vento (PEIRCE, 1977: 67).

O

cata-vento sempre estará indicando a direção do vento quer alguém o interprete assim ou

não. Há, no índice, necessariamente dois envolvidos (signo-objeto), estando o terceiro

(interpretante) em uma condição potencial no signo, quer sua ação venha a realizar-se ou não. Um ícone pode ser um signo em relação a um objeto qualquer, quer este objeto exista ou não;

é o caso, por exemplo, da imagem vista por Michelangelo nas nuvens. Um índice, entretanto, implica na existência de fato de seu objeto:

Um ícone é um signo que possuiria o caráter que o torna significante, mesmo que seu objeto

não existisse [

signo se seu objeto fosse removido, mas que não perderia esse caráter se não houvesse interpretante (PEIRCE, 1977: 74).

Um índice é um signo que de repente perderia seu caráter que o torna um

].

Uma característica importante do índice que o exemplo do catavento nos faz ver, é que diante de um signo indexical somos como que forçados a reagir de um determinado modo, aquele precisamente que está, potencialmente, no índice, antes mesmo da realização do interpretante. Um outro exemplo dado por Peirce pode reforçar essa ideia:

Quando um cocheiro, para atrair a atenção de um pedestre e fazer com que ele se afaste grita

é algo mais do que um

índice; porém, na medida em que se pretende que apenas atue sobre o sistema nervoso do

“Ei!”, esse grito, na medida em que é uma palavra significativa [

]

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de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático] 35 ouvinte de modo a levá-lo a

35

ouvinte de modo a levá-lo a sair do lugar, é um índice, dado que se pretende colocá-lo numa conexão real com o objeto, que é a sua situação relativa ao veículo que se aproxima (PEIRCE, 1977: 75).

Nesses exemplos todos, algumas variações não estão ainda claramente explicitadas. Primeiro, vejamos o que podemos aprender a partir do que Peirce chamou de índice genuíno e índice degenerado. E isso implica em considerar, também, o índice em relação àquilo que representa (seu objeto) e em relação àquilo que pode realizar em uma mente qualquer (seus interpretantes). Acerca do índice genuíno, Peirce acrescenta:

Um Índice genuíno e seu Objeto devem ser individuais existentes (quer sejam coisas ou fatos), e seu Interpretante imediato deve ter o mesmo caráter. Mas, dado que todo individual deve ter caracteres, segue-se que um Índice genuíno pode conter uma Primeiridade, e portanto um Ícone, como uma sua parte constituinte (PEIRCE, 1977: 67).

Embora qualidades sempre participem dos índices, não são elas que estão no seu fundamento. Santaella analisa um caso em que isso pode ficar claro:

O índice possui dois elementos: um deles serve como substituto para o objeto, o outro

constitui um ícone que representa o próprio signo como qualidade do objeto. Assim, uma pegada, por exemplo, na sua aparência qualitativa, é uma imagem de um pé. Não é esse ícone,

mesmo que, nesse caso, ele seja substancial, que faz esse signo agir como índice, mas o fato

de haver uma conexão dinâmica, factual, existencial entre o pé e o traço (imagem) por ele

deixado. Todo índice tem um ícone embutido. Esse ícone, no entanto, não precisa necessariamente ser uma imagem do objeto. Ele pode ter características que são próprias dele, como é o caso da fumaça, em nada similar à imagem do fogo. Isso basta para comprovar que o ícone, embutido no índice, não precisa ser uma imagem que esteja numa relação necessariamente similar à imagem do objeto do índice (SANTALELLA, 1995: 171).

A pegada e o fogo, nesse exemplo, não são tomados como qualidades (qualissignos), que podem nos levar a uma relação com um objeto possível, mas como fatos (sinssignos) que veiculam uma informação positiva sobre a existência de seu objeto. Nesse caso, tanto a pegada quanto a fumaça são índices genuínos, visto que são realmente afetados pelo pé e pelo fogo, respectivamente, ambos existentes singulares. E além de serem afetados pelo objeto, estão aptos a dar informação sobre ele - a gerar um interpretante da natureza de um dicente. Todavia, um índice e seu objeto podem ser individuais existentes, sem que ele (o índice) veicule qualquer informação inequívoca sobre o objeto. O latido de um cão de guarda ao ouvir um barulho qualquer, por exemplo, é um índice daquilo que o levou a latir. Entretanto, funciona apenas como o indicativo de que alguma coisa o levou a isso, sem fornecer outro tipo de informação sobre essa coisa. O interpretante, nesse caso, é algo ainda vago, da natureza de um rema ou hipótese. E nesse caso, não temos um índice genuíno (sinssigno indicial dicente), mas um índice degenerado (sinssigno indicial remático), que mescla a segundidade com a primeiridade.

Peirce escreve que: “Nenhuma questão de fato pode ser asseverada sem o uso de algum signo que sirva como índice.” (PEIRCE, 1977: 74). Se diante de um ícone somos levados a coisas puramente imaginárias, são os índices que nos permitem proceder a investigações a respeito

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de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático] 36 de serem essas coisas reais ou

36

de serem essas coisas reais ou não. Nos estudos do autor acerca da natureza da asserção, encontramos o seguinte:

a

realidade é inteiramente dinâmica, não qualitativa. Consiste em forças. Nada senão um signo dinâmico pode distingui-la da ficção. É verdade que língua alguma (tanto quanto eu saiba) tem

uma forma particular de discurso para indicar que é do mundo real que se está falando. Mas isso não é necessário, uma vez que tons de voz e modos de olhar são suficientes para mostrar quando o elocutor fala a sério. Esses tons de voz e modos de olhar atuam dinamicamente sobre o ouvinte, levando-o a ouvir realidades. Tons e modos são, portanto, índices do mundo real.

O mundo real não pode ser distinguido do mundo fictício por nenhuma descrição. [

]

[

]

Portanto é um fato, tal como a teoria colocou, que pelo menos um índice deve fazer parte

de

toda asserção (PEIRCE, 1977: 91).

É verdade que, no exemplo dado, para se fazer essa distinção entre realidade e ficção é

preciso que o ouvinte saiba decifrar os índices (tons de voz e modos de olhar), o que depende

de um conhecimento prévio, já generalizado. E, cremos, é exatamente isso que Peirce nos diz

com:

[Um Índice é] Um signo, ou representação, que se refere a seu objeto não tanto em virtude de uma similaridade ou analogia qualquer com ele, nem pelo fato de estar associado a caracteres gerais que esse objeto acontece ter, mas sim por estar numa conexão dinâmica (espacial inclusive) tanto com o objeto individual, por um lado, quanto, por outro, com os sentidos ou a memória da pessoa a quem serve o signo (PEIRCE, 1977: 74).

Esta passagem mostra que índices podem requerer que a memória seja acionada para se reagir a ele corretamente. Não que todo índice necessite disso; alguns índices, como um grito, por exemplo, para nos despertar a atenção, não necessitam ser identificado pela memória, mas algo como um rastro de onça, requer do caçador um certo conhecimento prévio. No caso de gestos e tons de voz, ajuda pensar que poucas mães se deixam enganar pelas mentiras de um filho. E elas podem saber quando é mentira, não tanto devido ao que ele diz, mas ao modo como diz; e, se outra pessoa não pode fazer o mesmo, é porque não dispõe de certo conhecimento prévio de que a mãe dispõe. O mesmo se pode dizer acerca de alguns médicos, cujo único olhar sobre um paciente é suficiente para dizer - ao menos hipoteticamente, mas com um apurado fundo de verdade - se o seu estado de saúde é bom ou não. Outros, entretanto, carecem de evidências mais precisas, tais como exames, todas de natureza indicial. De onde podemos concluir que, para que determinados índices sejam identificados, nossa experiência anterior com índices de mesma natureza também é extremamente importante.

Símbolo

O terceiro signo da segunda trilogia é o símbolo. Como um terceiro, o símbolo é um signo

que, em relação a seu objeto dinâmico, é um signo de terceiridade, um signo de razão ou de mediação. Nas palavras de Nöth, no símbolo a “relação entre representamen e objeto é arbitrária e depende de convenções sociais. São, portanto, categorias da terceiridade - como

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de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático] 37 o hábito, a regra, a lei

37

o hábito, a regra, a lei e a memória - que se situam na relação entre representamen e objeto.” (NÖTH, 1995: 85).

Acerca do que se quer fazer entender quando se diz que a relação entre representamen e objeto, no símbolo, se dá por uma arbitrariedade ou uma convenção social, deve-se entender que não é uma relação como a que é própria ao índice, cujo signo tem uma relação existencial com o objeto ou refere-se 9 ao objeto, quer o interpretante o represente assim ou não. O termo “fogo” é um símbolo do fogo por uma convenção, sem que haja aquela ligação entre representamen e objeto que se requer para o índice. Embora possa haver regras intralingüísticas que estejam na razão que leva uma palavra a estruturar-se como tal em cada língua, a relação entre estas regras intralingüísticas e a regra que está no sentido, associado à palavra, continuará sendo arbitrária. As palavras são amplamente utilizadas por Peirce como exemplo de símbolo:

Qualquer palavra comum como “dar”, “pássaro”, “casamento”, é exemplo de símbolo. O símbolo é aplicável a tudo o que possa concretizar a idéia ligada à palavra; em si mesmo, não identifica essas coisas. Não nos mostra um pássaro, nem realiza diante de nossos olhos uma doação ou casamento, mas supõe que somos capazes de imaginar essas coisas, e a elas associar as palavras (PEIRCE, 1977: 73).

O termo “arte”, por exemplo, pode ser usado quotidianamente nos processos de comunicação e as pessoas, de um modo geral, vão entender quando se diz: “Esta é uma obra de arte” ou

“Estou estudando arte”. Compreendemos que aquilo em particular que o sujeito da frase está estudando, ou a obra em particular à que se refere, tem características gerais e regulares que

os colocam junto a uma determinada classe de coisas, à qual chamamos “arte” e à qual ele deve se referir no momento da fala ou da escrita.

A ideia peirceana de símbolo, entretanto, não se restringe à palavra. Uma infinidade de

coisas, dependendo do modo como são apreendidos pela mente, pode evidenciar seu aspecto simbólico, mais ou menos complexo. Décio Pignatari, no texto “Informação, Linguagem, Comunicação”, cita o exemplo da cruz, símbolo do cristianismo, e o de uma impressão digital, um “signo de tipo indexical-icônico, mas que participa também do símbolo quando utilizada, por exemplo, como marca de uma empresa gráfica” (PIGNATARI, s/d: 25-26). No caso da impressão digital, dizemos que participa do símbolo quando tem um interpretante simbólico, gerado pelo modo como foi utilizada. Na sua condição indexical, o que é mais evidente é sua relação física com a pele da qual foi originada; na sua condição simbólica, entretanto, seu poder representativo advém da convenção de que é portadora.

Peirce, em seus textos, escreve que um símbolo sempre significa a partir de uma de suas réplicas (PEIRCE, 1977: 52):

Um Símbolo é um Representamen cujo caráter representativo consiste exatamente em ser uma regra que determinará seu Interpretante. Todas as palavras, frases, livros e outros signos convencionais são Símbolos. Falamos em escrever ou pronunciar a palavra “man”, (homem) mas isso é apenas uma réplica, ou corporificação da palavra, que é pronunciada ou escrita. A palavra, em si mesma, não tem existência, embora tenha um ser real que consiste no fato de que os

9 “Se a Segundidade for uma relação existencial, o Índice é genuíno. Se a Segundidade for uma referência, o Índice é degenerado.” (PEIRCE, op. cit., p. 66, parágrafo 283).

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de Charles S. Peirce (1839-1914) [texto de apoio didático] 38 existentes se deverão conformar a ela.

38

existentes se deverão conformar a ela. É uma forma geral de sucessão de três sons ou representamens de sons, que só se torna um signo pelo fato de que um hábito, ou lei adquirida, fará com que suas réplicas sejam interpretadas como significando “man” (PEIRCE, 1977: 71).

Nas palavras de Santaella, a “réplica de um símbolo é um tipo especial de índice que age para aplicar a regra geral ou hábito de ação ou expectativa associada com o símbolo a algo particular” (SANTAELLA, 1995: 176). O ingrediente indexical do símbolo, diz Santaella, tem a função de “conectar o pensamento, o discurso, o signo geral a uma experiência particular. É um mero conector. Não tem o poder de significar” (SANTAELLA, 1995: 174).

Para significar, o símbolo precisa, além da réplica que é um tipo especial de índice, de se fazer acompanhar de outros signos, que não apenas os indiciais.

Um símbolo é uma lei ou regularidade do futuro indefinido. Seu Interpretante deve obedecer à mesma descrição, e o mesmo deve acontecer com o Objeto imediato completo, ou significado. Contudo, uma lei necessariamente governa, ou “está corporificada em” individuais, e prescreve algumas de suas qualidades. Conseqüentemente, um constituinte de um símbolo pode ser um Índice, e um outro constituinte pode ser um Ícone. Um homem que caminha com uma criança, levanta o braço para o ar, aponta e diz: “Lá está um balão”. O braço que aponta é uma parte essencial do símbolo, sem a qual ele não veicularia informação alguma. Mas, se a criança perguntar: “O que é um balão?”, e o homem responder: “É algo como uma grande bolha de sabão”, ele torna a imagem uma parte do símbolo. Assim, embora o objeto completo de um símbolo, quer dizer, seu significado, seja da natureza de uma lei, deve ele denotar um individual e deve significar um caráter (PEIRCE, 1977: 71).

Dizer que o símbolo deve se fazer acompanhar de índices e também de ícones é o mesmo que dizer, como já anunciávamos, que a apreensão de um signo de terceiridade pressupõe a apreensão tanto de um signo de segundidade quanto a de um de primeiridade. Então, assim como um índice genuíno (segundo) tem uma parte índice e uma parte ícone (primeiro), o símbolo genuíno (terceiro) deve ter uma parte símbolo, uma parte índice (segundo) e uma parte ícone (primeiro). À sua parte índice coube a função de estabelecer uma conexão entre o geral e o particular. No que compete à sua parte ícone e à sua parte propriamente simbólica entretanto, ainda há o que esclarecer. Em “A Teoria Geral dos Signos”, de Santaella, encontramos a seguinte passagem:

Para significar, o símbolo precisa do ícone. Trata-se, no entanto, de um tipo de ícone muito especial. Não é um ícone qualquer, mas aquele que está atado a um ingrediente simbólico. Esse ingrediente, ou parte símbolo, Peirce chamou de conceito, a parte ícone, ele chamou de idéia geral. Ransdell (1996, p. 184) também lida com essa distinção com muita clareza. Chama, por sua vez, o conceito de sentido e a idéia geral ou