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A Natureza do Bem Contra Maniqueus

DE NATURA BONI CONTRA MANICHAEOS

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CAPUT I

DE NATURA BONI CONTRA MANICHAEOS

Deus summum bonum et incommnutabile; a quo caetera omnia bona spiritualia et corporalia.

Summum bonum quo superius non est, Deus est: ac per hoc incommutabile bonum est; ideo vere aeternum et vere immortale. Caetera omnia bona non nisi ab illo sunt, sed non de illo. De illo enim quod est, hoc quod ipse est; ab illo autem quae facta sunt, non sunt quod ipse. Ac per hoc si solus ipse incommutabilis, omnia quae fecit, quia ex nihilo fecit, mutabilia sunt. Tam enim omnipotens est, ut possit etiam de nihilo, id est ex eo quod omnino non est, bona facere, et magna et parva, et caelestia et terrena, et spiritalia et corporalia.

Quia vero et iustus est, ei quod de se genuit, ea quae de nihilo fecit non aequavit. Quia ergo bona omnia, sive magna, sive parva, per quoslibet rerum gradus, non possunt esse nisi a Deo.

Omnis autem natura in quantum natura est, bonum est; omnis natura non potest esse nisi a summo et vero Deo: quia omnia etiam non summa bona, sed propinqua summo bono, et rursus omnia etiam novissima bona, quae longe sunt a summo

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A Natureza do Bem Contra Maniqueus

CAPÍTULO 1

Deus, Bem supremo e incorruptível, de que procedem todos os outros bens espirituais e corpóreos

Deus é o Bem Supremo, acima do qual não há outro: é o bem imutável e, portanto, verdadeiramente eterno e verdadeiramente imortal. Todos os outros bens provêm d’Ele, mas não são da mesma natureza que Ele. O que é da mesma natureza que Ele não pode ser senão Ele mesmo. Todas as outras coisas, que foram feitas por Ele, não são o que Ele é. E, uma vez que só Ele é imutável, tudo o que Ele fez, e que foi feito do nada, está sujeito a mudança. Ele é tão onipotente, que do nada, ou seja, do que não tem ser, pode criar os maiores e os menores bens, celestiais e terrenos, espirituais e corpóreos. Ele é também sumamente justo. Por essa razão, Ele não igua- lou o que criou do nada ao que Ele gerou da sua própria natureza. 1 Assim, pois, o ser de todos os bens particulares, tanto os maiores como os menores, qualquer que seja o seu grau na escala das coi- sas, não pode proceder senão de Deus. Por outro lado, toda e qualquer natureza enquanto natureza é sempre um bem — não pode provir senão do supremo e verdadeiro Deus, porque o ser de todos os bens, tanto os que pela sua excelên- cia se aproximam do Sumo Bem como os que pela sua simplicidade

1 - Agostinho faz aqui a distinção entre o que Deus criou do nada – a criatura –, que é passível de corrupção, e o que Ele gerou de si, o próprio Cristo, cuja natureza é incorruptível, conforme se explicita no capítulo 27, com a distinção entre de ipso e ex ipso. Em outra obra, Agostinho explica: “O que é engendrado do Bem simples é igualmente simples e se identifica com Aquele de que se engendra. A estes dois chamamos Pai e Filho” — SANTO AGOSTINHO, De Civitate Dei, XI, 10, 1. [N. do E.]

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bono, non possunt esse nisi ab ipso summo bono. Omnis ergo spiritus etiam mutabilis et omne corpus a Deo: et haec est omnis facta natura. Omnis quippe natura aut spiritus, aut corpus est. Spiritus incommutabilis Deus est. Spiritus mutabilis facta natura est, sed corpore melior. Corpus autem spiritus non est, nisi cum ventus, quia nobis invisibilis est, et tamen vis eius non parva sentitur, alio quodam modo spiritus dicitur.

CAPUT II

Quomodo id possit ad corrigendos Manichaeos sufficere.

Propter eos autem, qui cum intellegere non possunt omnem naturam, id est, omnem spiritum et omne corpus naturaliter bonum esse, moventur spiritus iniquitate et corporis mortalitate, et ob hoc aliam naturam maligni spiritus et mortalis corporis, quam Deus non fecerit, conantur inducere:

sic arbitramur ad eorum intellectum, quod dicimus posse perduci. Fatentur enim omne bonum non esse posse, nisi a summo et vero Deo: quod et verum est, et ad eos corrigendos, si velint advertere, sufficit.

CAPUT III

Modus, species et ordo generalia bona in rebus a Deo factis.

Nos enim catholici Christiani Deum colimus a quo omnia bona sunt, seu magna, seu parva; a quo est omnis modus, seu magnus seu parvus; a quo omnis species, seu magna seu parva; a quo omnis ordo, seu magnus seu parvus.

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se afastam d’Ele, não pode provir senão do Sumo Bem. Por conse- guinte, todo e qualquer espírito está sujeito a mudança, e todo e qualquer corpo provém de Deus — e a espírito e matéria reduz-se toda a natureza criada. Segue-se daí, necessariamente, que toda

e qualquer natureza ou é espírito ou é corpo. O único espírito

imutável é Deus; o espírito sujeito a mudança é uma natureza cria-

da, ainda que seja superior ao corpo. Por sua vez, o corpo não é espírito, nem sequer o vento, porque, conquanto nos seja invisível

e por isso o chamemos, em sentido figurado, espírito, lhe sentimos perfeitamente os efeitos.

CAPÍTULO 2

Como estes princípios bastam para refutar os maniqueus

Há homens que, por não compreenderem que toda e qualquer natureza, espírito ou corpo, é boa em si mesma, e porque vêem

o espírito ser vítima da iniqüidade, e o corpo, da mortalidade,

acabam por sustentar que Deus não é o autor do espírito mau nem do corpo mortal. É a eles que ora me dirijo. Sim, porque, já que

admitem que o ser de todo e qualquer bem não pode provir senão do Deus supremo e verdadeiro, o que é uma verdade indiscutível, se se detiverem a examiná-la em si mesma e em suas conseqüên- cias, isso será suficiente para arrancá-los do erro.

CAPÍTULO 3

O modo, a espécie e a ordem, bens gerais que se encontram nas coisas criadas por Deus

Nós, os cristãos católicos, adoramos a Deus, de quem procedem to- dos os bens, grandes ou pequenos; d’Ele procede todo e qualquer modo, grande ou pequeno; d’Ele procede toda e qualquer espécie, grande ou pequena; d’Ele procede toda e qualquer ordem, grande ou pequena.

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Omnia enim quanto magis moderata, speciosa, ordinata sunt, tanto magis utique bona sunt; quanto autem minus moderata, minus speciosa, minus ordinata sunt, minus bona sunt. Haec itaque tria, modus, species et ordo, ut de innumerabilibus taceam, quae ad ista tria pertinere monstrantur, haec ergo tria, modus, species, ordo, tamquam generalia bona sunt in rebus a Deo factis, sive in spiritu, sive in corpore.

Deus itaque supra omnem creaturae modum est, supra omnem speciem, supra omnem ordinem: nec spatiis locorum supra est, sed ineffabili et singulari potentia, a quo omnis modus, omnis species, omnis ordo. Haec tria ubi magna sunt, magna bona sunt; ubi parva sunt, parva bona sunt; ubi nulla sunt, nullum bonum est. Et rursus ubi haec tria magna sunt, magnae naturae sunt; ubi parva sunt, parvae naturae sunt; ubi nulla sunt, nulla natura est. Omnis ergo natura bona est.

CAPUT IV

Malum est corruptio modi, speciei aut ordinis.

Proinde cum quaeritur unde sit malum, prius quaerendum est quid sit malum: quod nihil aliud est quam corruptio vel modi, vel speciei, vel ordinis naturalis.

Mala itaque natura dicitur, quae corrupta est: nam incorrupta utique bona est. Sed etiam ipsa corrupta, in quantum natura est, bona est; in quantum corrupta est, mala est.

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Todas as coisas são tanto melhores quanto mais são moderadas, especiosas e ordenadas, e tanto menos bem encerram quanto me- nos são moderadas, especiosas e ordenadas. Assim, estas três coisas:

o modo, a espécie e a ordem — para não falar de outros incontáveis bens que a estes se reduzem —, estas três coisas, repito: o modo, a espécie e a ordem, são três bens gerais que se encontram em todas as coisas criadas por Deus, tantos as espirituais como as corporais. Deus, portanto, está acima de toda e qualquer criatura quan- to ao modo, quanto à espécie e quanto à ordem, e não por uma superioridade local ou espacial, mas por um poder inefável e divi- no, porque d’Ele procede todo e qualquer modo, toda e qualquer espécie, toda e qualquer ordem. Onde se encontrarem estas três coisas em grau superior, aí haverá bens superiores; onde estas três coisas se encontrarem em grau inferior, inferiores serão aí também os bens; onde elas faltarem, aí não haverá bem algum. Igualmente, onde estas três coisas forem grandes, grandes serão as naturezas; onde forem pequenas, pequenas serão as naturezas; onde absolutamente não existirem, tampouco existirá natureza alguma. Logo, toda e qualquer natureza é boa.

CAPÍTULO 4

O mal é a corrupção do modo, da espécie e da ordem

Por isso, antes de perguntar de onde provém o mal, há que in- vestigar qual é a sua natureza. Ora, o mal não é senão a corrupção ou do modo, ou da espécie, ou da ordem naturais. A natureza má é, portanto, a que está corrompida, porque

a que não está corrompida é boa. Porém, ainda quando cor- rompida, a natureza, enquanto natureza, não deixa de ser boa; quando corrompida, é má.

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CAPUT V

Natura excellentioris ordinis etiam corrupta melior interdum inferiore etiam incorrupta.

Fieri autem potest, ut quaedam natura, quae modo et specie naturali excellentius ordinata est, etiam corrupta melior sit adhuc quam est incorrupta altera, quae minore modo et specie naturali inferius ordinata est: sicut in hominum aestimatione, secundum qualitatem quae aspectibus adiacet, melius est utique corruptum aurum, quam incorruptum argentum; et melius est corruptum argentum, quam plumbum incorruptum.

Sic et in naturis potentioribus atque spiritalibus, melior est etiam corruptus per malam voluntatem spiritus rationalis quam irrationalis incorruptus: et melior est quilibet spiritus etiam corruptus, quam corpus quodlibet incorruptum. Melior est enim natura quae cum praesto est corpori, praebet ei vitam, quam illa cui vita praebetur. Quantumlibet autem corruptus sit spiritus vitae qui factus est, vitam praebere corpori potest: ac per hoc melior illo est, quamvis incorrupto, corruptus.

CAPUT VI

Natura quae non potest corrumpi, summum bonum; quae potest, aliquod bonum est.

Corruptio autem si omnem modum, omnem speciem, omnem ordinem rebus corruptibilibus auferat, nulla natura remanebit.

Ac per hoc omnis natura quae corrumpi non potest summum bonum est, sicut Deus est.

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CAPÍTULO 5

Uma natureza de ordem superior, ainda que corrompida, supera qualquer natureza de ordem inferior, ainda que incorrupta

Pode suceder que uma natureza ordenada mais excelentemen- te quanto ao modo e à espécie naturais, embora corrompida, per- maneça porém superior a uma natureza incorrupta, mas de ordem inferior quanto ao modo e à espécie. E assim sucede que, em razão

do seu aspecto, o ouro corrompido é mais apreciado pelo homem que a prata incorrupta, e é mais apreciada a prata corrompida que

o chumbo incorrupto. Igualmente, tratando-se das naturezas superiores e espirituais,

é mais excelente o espírito racional corrompido pela vontade má

do que o ente irracional incorrupto; e qualquer espírito, ainda que esteja corrompido, é superior a qualquer corpo, ainda que este esteja incorrupto. Com efeito, toda e qualquer natureza que, em razão da sua superioridade sobre o corpo, é para ele princípio de vida, será sempre superior a uma natureza que não tem vida por

si mesma. Por mais corrompido que se encontre um espírito vital

criado, ele sempre poderá vivificar o corpo; e assim, por esta qua-

lidade, ainda que se encontre corrompido, será sempre superior ao corpo, ainda que este permaneça de todo incorrupto.

CAPÍTULO 6

A natureza incorruptível é o Sumo Bem; a corruptível é um bem relativo

Se, nas coisas corruptíveis, a corrupção destruir tudo o que nelas constitui o modo, a espécie e a ordem, por isso mesmo des- truir-lhes-á também a própria natureza. Segue-se disso que a natureza que não se pode corromper não

é senão o Sumo Bem, ou seja, Deus.

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Omnis autem natura quae corrumpi potest, etiam ipsa aliquod bonum est: non enim posset ei nocere corruptio nisi adimendo et minuendo quod bonum est.

CAPUT VII

Rationalium spirituum corruptio alia voluntaria, alia poenalis.

Creaturis autem praestantissimis, hoc est rationabilibus spiritibus, hoc praestitit Deus, ut si nolint, corrumpi non possint; id est si obedientiam conservaverint sub Domino Deo suo, ac sic incorruptibili pulchritudini eius adhaeserint:

si autem obedientiam conservare noluerint, quoniam volentes corrumpuntur in peccatis, nolentes corrumpantur in poenis.

Tale quippe bonum est Deus, ut nemini eum deserenti bene sit: et in rebus a Deo factis tam magnum bonum est natura rationalis, ut nullum sit bonum quo beata sit nisi Deus. Peccantes igitur in suppliciis ordinantur: quae ordinatio, quia eorum naturae non competit, ideo poena est; sed quia culpae competit, ideo iustitia est.

CAPUT VIII

Ex rerum inferiorum corruptione ac interitu pulchritudo universi.

Cetera vero quae sunt facta de nihilo, quae utique inferiora sunt quam spiritus rationalis, nec beata possunt esse, nec misera. Sed quia pro modo et specie sua etiam ipsa bona sunt, nec esse quamvis minora et minima bona, nisi a summo bono Deo potuerunt, sic ordinata sunt, ut

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Em contrapartida, toda e qualquer natureza sujeita a corrupção

é um bem imperfeito, porque a corrupção não a pode danar senão destruindo ou diminuindo nela o que constitui a sua bondade.

CAPÍTULO 7

A corrupção dos espíritos racionais é voluntária ou provém de pena

Tal é o dom concedido por Deus às criaturas mais excelentes, a

saber, os espíritos racionais, que, se o quiserem, podem subtrair-se

à corrupção; ou seja, se se conservam em perfeita obediência ao

Senhor seu Deus, permanecem unidos à sua incorruptível beleza; se todavia não querem conservar-se nessa obediência, sujeitam- se voluntariamente à corrupção do pecado, e involuntariamente padecerão a corrupção por alguma pena. Assim como Deus é para nós um bem tão grande que tudo redun- da em bem para quem d’Ele não se afasta, assim também, na ordem das coisas criadas, a natureza racional é um bem tão excelente, que nenhum outro bem além de Deus mesmo pode fazê-la feliz. Os peca- dores, que pelo pecado saíram da ordem, tornam à ordem mediante

o castigo. Como esta ordem não corresponde à sua natureza, chama- mo-la pena; mas, por ser o que cabe à culpa, dizemo-la justiça.

CAPÍTULO 8

Da corrupção e morte das coisas inferiores resulta a beleza do universo

Nenhuma das outras coisas que foram feitas do nada e que são inferiores ao espírito racional pode ser feliz nem infeliz. Como porém são boas quanto à sua ordem e espécie, e como do Sumo Bem, ou seja, de Deus, receberam a sua bondade, por inferior e ínfima que seja esta, foram ordenadas de maneira tal, que as mais fracas se subordinam às mais fortes, as mais frágeis

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cedant infirmiora firmioribus, et invalidiora fortioribus, et impotentiora potentioribus, atque ita coelestibus terrena concordent tamquam praecellentibus subdita.

Fit autem decedentibus et succedentibus rebus temporalis quaedam in suo genere pulchritudo, ut nec ipsa quae moriuntur, vel quod erant esse desinunt, turpent aut turbent modum et speciem et ordinem universae creaturae: sicut sermo bene compositus utique pulcher est, quamvis in eo syllabae atque omnes soni tamquam nascendo et moriendo transcurrant.

CAPUT IX

Paena peccanti naturae, ut recte ordinetur, constituta.

Qualis autem et quanta poena cuique culpae debeatur, divini iudicii est, non humani: quae utique et cum conversis remittitur, magna est bonitas apud Deum. Et cum debita redditur, nulla est iniquitas apud Deum: quia melius ordinatur natura ut iuste doleat in supplicio quam ut impune gaudeat in peccato.

Quae tamen etiam sic habens nonnullum modum et speciem et ordinem, in quacumque extremitate adhuc aliquod bonum est. Quae si omnino detrahantur ei penitus consumantur, ideo nullum bonum erit quia nulla natura remanebit.

CAPUT X

Naturae coruptibiles, quia ex nihilo factae.

Omnes igitur naturae corruptibiles, nec omnino naturae essent, nisi a Deo essent, nec corruptibiles essent si de illo essent, quia hoc quod ipse est essent. Ideo ergo

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às mais duradouras, as menos potentes às mais poderosas, razão pela qual o que é terreno se harmoniza com o celestial por uma relação de subordinação ao mais excelente. As coisas temporais aparecem e desaparecem para dar lugar a outras, e em seu gênero isso é belo; e as coisas que perecem ou deixam de ser não turvam nem perturbam o modo, a espécie e a ordem do conjunto das criaturas. Dá-se aqui o mesmo que num discurso bem composto, cuja beleza resulta de as sílabas e sons nascerem e morrerem sucessiva e harmoniosamente.

CAPÍTULO 9

Instituição da pena para reintegrar à reta ordem a natureza pecadora

É da alçada do juízo divino, e não da do humano, determinar a qualidade e a quantidade da pena correspondente a uma falta; sempre que os pecadores arrependidos são perdoados, isso provém da bondade magna de Deus; mas, se Deus lhes aplica a pena de- vida, não há nenhuma iniqüidade de sua parte, porque a natureza se torna mais ordenada quando o pecador justamente geme sob suplício do que quando impunemente se regozija no pecado. No entanto, qualquer que seja a circunstância em que se en- contre, a natureza será sempre boa enquanto conserve o modo, a espécie e a ordem; mas deixará de ser boa se perder totalmente o modo, a espécie e a ordem, porque neste caso deixará de existir.

CAPÍTULO 10

A natureza é corruptível porque foi feita do nada

Todas as naturezas corruptíveis não são naturezas senão porque procedem de Deus; mas não seriam corruptíveis se tivessem sido

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quocumque modo, quacumque specie, quocumque ordine sunt, quia Deus est a quo factae sunt: ideo autem non incommutabiles sunt, quia nihil est unde factae sunt. Sacrilega enim audacia coaequantur nihil et Deus, si quale est illud, quod de Deo natum est, tale velimus esse illud quod ab eo de nihilo factum est.

CAPUT XI

Noceri nec Deo potest, nec alii naturae nisi ipso permittente.

Quapropter nec naturae Dei noceri omnino potest, nec alicui naturae sub Deo noceri iniuste potest: quia et cum peccando iniuste aliqui nocent, voluntas iniusta eis imputatur; potestas autem qua nocere permittuntur non est nisi a Deo, qui et ipsis nescientibus novit quid illi pati debeant, quibus eos nocere permittit.

CAPUT XII

Omnia bona nonnisi a Deo.

Haec omnia tam perspicua, tam certa, si vellent advertere, qui aliam naturam inducunt, quam non fecit Deus; non tantis blasphemiis implerentur, ut et in summo malo tanta bona ponerent, et in Deo tanta mala.

Sufficit enim, ut supra dixi, ad eorum correctionem, si velint attendere, quod eos etiam invitos cogit veritas confiteri, omnia prorsus bona non esse nisi a Deo. Non ergo ab alio sunt magna bona, et ab alio parva bona: sed et magna et parva bona non sunt nisi a summo bono, quod Deus est.

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geradas d’Ele, porque então seriam o que é Deus mesmo. Por conse- guinte, qualquer que seja o seu modo, qualquer que seja a sua espécie, qualquer que seja a sua ordem, elas só os possuem porque foram cria- das por Deus; e, se não são imutáveis, é porque foram tiradas do nada. Seria uma audácia sacrílega igualar Deus e o nada, fazendo com que o que é gerado de Deus seja igual ao que é criado do nada.

CAPÍTULO 11

Nada pode causar dano a Deus, nem se pode causar dano a nenhuma outra natureza sem que Ele o permita

Por isso é que não só nada pode causar dano a Deus de ma- neira alguma, mas a nenhuma natureza submetida a Deus se pode injustamente causar dano. Com efeito, se algumas naturezas in- justamente fazem mal a outras, a vontade injusta será inculpada; mas o poder de causar dano não lhes é permitido senão por Deus mesmo, o qual, ainda que o ignorem elas, sabe os castigos que merecem aqueles a quem Ele permite fazer o mal.

CAPÍTULO 12

Todos os bens procedem de Deus

Se os nossos adversários que admitem a existência de uma natu- reza não criada por Deus quisessem refletir sobre estas considerações tão claras e certas, deixariam de proferir tantas blasfêmias, como o é o atribuir ao sumo mal tantos bens, e a Deus, tantos males. Como se disse mais acima, bastaria para lhes corrigir o erro que quisessem não perder de vista, como os obriga a verdade a confessar, que nenhum bem pode proceder senão de Deus. É um absurdo sustentar que os grandes bens provenham de um princípio, e os pequenos bens de outro; todos os bens, grandes e pequenos, não procedem senão do Sumo Bem, que é Deus.

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CAPUT XIII

Bona singula seu parva, seu magna, esse a Deo.

Commemoremus ergo bona quanta potuerimus, quae dignum est ut Deo auctor tribuamus, et his sublatis videamus utrum aliqua natura remanebit.

Omnis vita et magna et parva, omnis potentia et magna et parva, omnis salus et magna et parva, omnis memoria et magna et parva, omnis virtus et magna et parva, omnis intellectus et magnus et parvus, omnis tranquillitas et magna et parva, omnis copia et magna et parva, omnis sensus et magnus et parvus, omne lumen et magnum et parvum, omnis suavitas et magna et parva, omnis mensura et magna et parva, omnis pulchritudo et magna et parva, omnis pax et magna et parva, et si qua similia occurrere poterunt, maximeque illa quae per omnia reperiuntur, sive spiritalia sive corporalia, omnis modus, omnis species, omnis ordo, et magnus et parvus, a Domino Deo sunt.

Quibus bonis omnibus qui male uti voluerit, divino iudicio poenas luet: ubi autem nullum horum omnino fuerit, nulla natura remanebit.

CAPUT XIV

Parva bona in maiorum comparatione contrariis nominibus appellantur.

Sed in his omnibus quaecumque parva sunt, in maiorum comparatione contrariis nominibus appellantur: sicut in hominis forma quia maior est pulchritudo, in eius comparatione simiae pulchritudo deformitas dicitur: et fallit

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CAPÍTULO 13

Todos os bens particulares, grandes como pequenos, procedem de Deus

Enumeremos quantos bens nos seja possível e que, dignamen- te, atribuamos a Deus como ao seu autor, e vejamos se fora deles pode restar qualquer natureza.

Toda e qualquer vida, grande ou pequena; todo e qualquer po- der, grande ou pequeno; toda e qualquer saúde, grande ou pequena; toda e qualquer memória, grande ou pequena; toda e qualquer for- ça, grande ou pequena; todo e qualquer entendimento, grande ou pequeno; toda e qualquer tranqüilidade, grande ou pequena; toda e qualquer riqueza, grande ou pequena; todo e qualquer sentimento, grande ou pequeno; toda e qualquer luz, grande ou pequena; toda

e qualquer suavidade, grande ou pequena; toda e qualquer medida,

grande ou pequena; toda e qualquer beleza, grande ou pequena; toda e qualquer paz, grande ou pequena; e os demais bens seme- lhantes a esses, espirituais ou corporais; todo e qualquer modo, toda

e qualquer espécie, toda e qualquer ordem, grandes ou pequenos; tudo isso não pode proceder senão do Senhor Deus. Aquele que queira abusar de quaisquer desses bens padecerá a pena imposta pelo juízo divino; e, onde não exista nenhum desses

bens, tampouco haverá aí nenhuma natureza.

CAPÍTULO 14

Por que os bens inferiores recebem nomes contrários

Entre esses bens, há alguns de ordem inferior que são denomina- dos com nomes contrários, ao serem comparados com os que são de ordem superior. Assim, em comparação com a forma humana, que tem maior beleza, a beleza do macaco é dita disforme; e isso basta para que os ignorantes se equivoquem e julguem que aquela é um bem,

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imprudentes, tamquam illud sit bonum, et hoc malum; nec intendunt in corpore simiae modum proprium, parilitatem ex utroque latere membrorum, concordiam partium, incolumitatis custodiam, et caetera, quae persequi longum est.

CAPUT XV

In simiae corpore pulchritudinis bonum inesse, licet minus.

Sed ut quod dicimus intellegatur, et nimium tardis satis fiat, vel etiam pertinaces et apertissimae veritati repugnantes cogantur quod verum est confiteri, interrogentur utrum corpori simiae possit nocere corruptio. Quod si potest, ut foedius fiat; quid minuit, nisi pulchritudinis bonum? Unde tamdiu aliquid remanebit, quamdiu corporis natura subsistit. Proinde si consumpto bono natura consumitur, bona ergo est natura.

Sic et tardum dicimus veloci contrarium: sed tamen qui se omnino non movet, nec tardus dici potest. Sic acutae voci contrariam vocem dicimus gravem, vel canorae asperam: sed si omnem speciem vocis penitus adimas, silentium est ubi vox nulla est: quod tamen silentium, eo ipso quod vox nulla est, tamquam contrarium voci solet opponi.

Sic et lucida et obscura tamquam duo contraria dicuntur:

habent tamen et obscura aliquid lucis, quo si penitus careant, ita sunt tenebrae lucis absentia, sicut silentium vocis absentia.

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e esta, um mal, sem atentar para o modo próprio e conveniente ao

corpo do macaco, nem para a proporção dos seus membros, nem para

a simetria das suas partes, nem para o cuidado da sua conservação, nem para outras coisas que seria demasiado longo enumerar.

CAPÍTULO 15

A beleza corporal do macaco é um bem, ainda que de ordem inferior

Mas, para que o que estamos dizendo seja compreendido,

e satisfaça até aos mais rudes, e para que os pertinazes que se

obstinam em negar a evidência da verdade se vejam obrigados a confessá-la, perguntemos-lhes se a corrupção pode afetar o corpo

do macaco. Se o pode, de modo que o faça mais disforme, que é

o que nele diminuiu senão o bem da beleza? Mas ainda haverá

alguma beleza, enquanto subsista a natureza corporal. Logo, como

a natureza é destruída ao desaparecer o bem, força é concluir que

a natureza é em si um bem. Dizemos igualmente que a lentidão é o contrário da rapidez; mas não se pode dizer que é lento o que de modo algum se move. Assim, dizemos também que a voz grave é o contrário da voz agu- da, ou que a áspera o é da harmoniosa; mas, se suprimires absolu-

tamente toda e qualquer espécie de voz, haverá silêncio, porque já não existirá som algum. Por isso, em razão de não haver som algum, costuma-se considerar o silêncio o contrário da voz. Igualmente, as coisas luminosas e as escuras são consideradas contrárias, apesar de as escuras não carecerem totalmente de luz, porque, se de toda e qualquer luz carecessem absolutamente,

a ausência desta seriam as trevas, assim como o silêncio é a au- sência de todo e qualquer som.

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CAPUT XVI

Privationes in rebus decenter a Deo ordinatae.

Quae tamen etiam privationes rerum sic ordinantur in universitate naturae, ut sapienter considerantibus non indecenter vices suas habeant. Nam et Deus certa loca et tempora non illuminando, tenebras fecit tam decenter quam dies.

Si enim nos continendo vocem, decenter interponimus in loquendo silentium; quanto magis ille quarumdam rerum privationes decenter facit, sicut rerum omnium perfectus artifex? Unde et in hymno trium puerorum, etiam lux et tenebrae laudant Deum; id est, eius laudem in bene considerantium cordibus pariunt.

CAPUT XVII

Natura in quantum natura est, nulla mala.

Non ergo mala est, in quantum natura est, ulla natura; sed cuique naturae non est malum nisi minui bono. Quod si minuendo absumeretur, sicut nullum bonum, ita nulla natura relinqueretur, non solum qualem inducunt Manichaei, ubi tanta bona inveniuntur, ut nimia eorum caecitas mira sit; sed qualem potest quilibet inducere.

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CAPÍTULO 16

Deus ordenou convenientemente a privação do bem nas coisas

As privações de algum bem nas coisas estão ordenadas de tal maneira no conjunto da natureza, que tais privações não deixam de mostrar-se como cumprindo convenientemente o seu papel aos que sabiamente as consideram. Sim, porque fazendo Deus com que em determinados lugares e tempos não existisse a luz, fez tão convenientemente as trevas como os dias. Se nós, contendo a voz, podemos interpor convenientemente o silêncio na linguagem, quanto mais não realizará convenientemen- te a privação de um bem em algumas coisas Aquele que é o perfeito artífice de todas elas? Por isso, no cântico dos três jovens, a luz e as trevas louvam a Deus [Dan. III, 72], ou seja, aquela como estas fazem brotar o louvor no coração dos que sabem contemplá-las.

CAPÍTULO 17

Nenhuma natureza, enquanto tal, é má

Nenhuma natureza, por conseguinte, é má enquanto natu- reza; a natureza não é má senão enquanto diminui nela o bem. Se o bem, ao diminuir nela, acabasse por desaparecer de todo, assim como não subsistiria bem algum, assim também deixaria de existir toda e qualquer natureza, e não somente a imaginada pelos maniqueus — na qual ainda se encontram tantos bens que é de assombrar a sua obstinada cegueira —, mas também toda e qualquer natureza que se possa imaginar.

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CAPUT XVIII

Hylen, quae rerum informis materies antiquis dicebatur, non esse malum.

Neque enim vel illa materies, quam antiqui hylen dixerunt, malum dicenda est. Non eam dico, quam Manichaeus hylen appellat dementissima vanitate, nesciens quid loquatur, formatricem corporum: unde recte illi dictum est, quod alterum deum inducat: nemo enim formare et creare corpora nisi Deus potest; neque enim creantur, nisi cum eis modus et species et ordo subsistit, quae bona esse, nec esse posse nisi a Deo, puto quod iam etiam ipsi confitentur.

Sed hylen dico quamdam penitus informem et sine qualitate materiem, unde istae quas sentimus qualitates formantur, ut antiqui dixerunt. Hinc enim et silva graece  dicitur, quod operantibus apta sit, non ut aliquid ipsa faciat, sed unde aliquid fiat. Nec ista ergo hyle malum dicenda est, quae non per aliquam speciem sentiri, sed per omnimodam speciei privationem cogitari vix potest.

Habet enim et ipsa capacitatem formarum: nam si capere impositam ab artifice formam non posset, nec materies utique diceretur. Porro si bonum aliquod est forma, unde qui ea praevalent, formosi appellantur, sicut a specie speciosi, procul dubio bonum aliquod est etiam capacitas formae. Sicut quia bonum est sapientia, nemo dubitat quod bonum

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CAPÍTULO 18

A

C APÍTULO 18 A , que os antigos chamavam matéria informe, não é um mal Tampouco

, que os antigos chamavam matéria informe, não é um mal

Tampouco se deve dizer que seja má a matéria que os antigos

. Não me refiro à matéria que Mani, com demen-

chamavam

tíssima vaidade e sem saber o que diz, chama , e que, segundo ele, é a formadora dos corpos, razão por que justamente se lhe atribui a suposição da existência de outro Deus, uma vez que só Deus pode formar e criar os corpos. Estes, de fato, não são criados senão quando começa a subsistir neles o modo, a espécie e a or- dem, qualidades que, por serem boas, não podem existir senão por Deus. Penso que também os maniqueus o confessam.

senão por Deus. Penso que também os maniqueus o confessam. Mas chamo eu certa matéria absolutamente
senão por Deus. Penso que também os maniqueus o confessam. Mas chamo eu certa matéria absolutamente
senão por Deus. Penso que também os maniqueus o confessam. Mas chamo eu certa matéria absolutamente

Mas chamo eu certa matéria absolutamente informe e sem qualidade alguma a partir da qual se formam todas as qualidades que percebemos pelos nossos sentidos 2 , como o sustentaram os an- tigos filósofos. Por isso a madeira do bosque se denomina em grego  [ ], porque é matéria apta para que a trabalhem — não, pois, para que ela produza por si mesma alguma coisa, mas para que dela seja feito algo. Não se deve dizer, portanto, que seja má esta que de modo algum pode ser percebida pelos sentidos, e que apenas se pode conceber como privação absoluta de toda e qualquer espécie. Tem, pois, em si essa matéria capacidade para receber deter- minadas formas, porque, se não fosse capaz de receber a forma que lhe imprime o artífice, por certo não se chamaria matéria. Além do mais, se a forma é um bem, razão por que são ditos bem formados os que por ela sobressaem, assim como são ditos espe- ciosos pela espécie, não há dúvida de que igualmente é um bem a própria capacidade de receber a forma. Sim, porque, assim como

capacidade de receber a forma. Sim, porque, assim como 2 - Neste trecho, Agostinho refere-se à
capacidade de receber a forma. Sim, porque, assim como 2 - Neste trecho, Agostinho refere-se à

2 - Neste trecho, Agostinho refere-se à matéria prima, absolutamente infor- me e, por isso, apta a receber todas as formas. Trata-se da potencialidade máxima, que se contrapõe ao Ato Puro (Deus), que não possui nenhuma mescla de potência ou matéria. Observe-se que tanto a matéria prima como o Ato Puro não são percebidos pelos sentidos humanos, que só podem per- ceber os entes mesclados de matéria e forma (N. do E.).

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sit capacem esse sapientiae. Et quia omne bonum a Deo; neminem oportet dubitare, etiam istam, si qua est, materiem non esse nisi a Deo.

CAPUT XIX

Esse vere, proprium Dei.

Magnifice igitur et divine Deus noster famulo suo dixit: Ego sum qui sum; et dices filiis Israel: Qui est misit me ad vos. Vere enim ipse est quia incommutabilis est.

Omnis enim mutatio facit non esse quod erat. Vere ergo ille est qui incommutabilis est. Cetera quae ab illo facta sunt, ab illo pro suo modo esse acceperunt.

Ei ergo qui summe est, non potest esse contrarium nisi quod non est: ac per hoc sicut ab illo est omne quod bonum est, sic ab illo est omne quod naturaliter est; quoniam omne quod naturaliter est, bonum est. Omnis itaque natura bona est et omne bonum a Deo est: omnis ergo natura a Deo est.

CAPUT XX

Dolor nonnisi in naturis bonis.

Dolor autem, quod praecipue malum nonnulli arbitrantur, sive in animo sive in corpore sit, nec ipse potest esse nisi in naturis bonis. Hoc enim ipsum quod restitit ut doleat, quodam modo recusat non esse quod erat, quia bonum aliquod erat. Sed cum ad melius cogitur, utilis dolor est; cum ad deterius, inutilis.

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é um bem a sabedoria, assim ninguém duvida que também o é um

ser capaz de sabedoria. E, como tudo procede de Deus, a ninguém

é lícito duvidar que também esta matéria informe, se é algo, não pode provir senão de Deus.

CAPÍTULO 19

O verdadeiro ser é o próprio Deus

Assim, magnífica e divinamente disse o nosso Deus ao seu servo:

“Eu sou aquele que sou”; e “Dirás aos filhos de Israel: Aquele que é me enviou a vós” [Êx. III, 14.]. Ele é verdadeiramente, porque é imutável. Com efeito, toda e qualquer mudança faz não ser ao que era; portanto, Ele é verdadeiramente o que é imutável, e as demais coisas, que por Ele foram feitas, d’Ele receberam o ser segundo o seu modo particular. Segue-se que aquele que é o Sumo Ser só pode ter por contrário o não-ser, e por isso, assim como por Ele existe tudo o que é bom, assim também por Ele existe tudo o que naturalmente é, porque tudo o que naturalmente é, é bom. E, como toda e qualquer natu- reza é boa e todo e qualquer bem procede de Deus, conclui-se que toda e qualquer natureza provém de Deus.

CAPÍTULO 20

A dor só se encontra nas naturezas boas

E eis que a dor mesma, que alguns consideram o mal precípuo, dê- se quer na alma, quer no corpo, não pode existir senão nas naturezas boas. Com efeito, o que resiste à dor recusa, de certo modo, deixar de ser o que era, porque era algum bem. Mas a dor é útil quando obriga a natureza a ser melhor; se porém a leva a ser menos boa, é então inútil.

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In animo ergo dolorem facit voluntas resistens potestati maiori:

in corpore dolorem facit sensus resistens corpori potentiori. Sunt autem mala sine dolore peiora: peius est enim gaudere de iniquitate quam dolere de corruptione: verumtamen etiam tale gaudium non potest esse nisi ex adeptione bonorum inferiorum; sed iniquitas est desertio meliorum.

Item in corpore melius est vulnus cum dolore, quam putredo sine dolore, quae specialiter corruptio dicitur: quam non vidit, id est non passa est mortua caro Domini, sicut in prophetia praedictum erat: Nec dabis sanctum tuum videre corruptionem. Nam vulneratum esse confixione clavorum et percussum de lancea quis negat?

Sed etiam ipsa quae proprie ab hominibus corruptio corporis dicitur, id est ipsa putredo, si adhuc habet aliquid quod alte consumat, bonum minuendo, crescit corruptio. Quod si penitus absumpserit, sicut nullum bonum, ita nulla natura remanebit, quia iam corruptio quod corrumpat non erit; et ideo nec ipsa putredo erit, quia ubi sit omnino non erit.

CAPUT XXI

Modica a modo dicta.

Ideo quippe et parva atque exigua iam communi loquendi usu modica dicuntur, quia modus in eis aliquis restitit, sine quo non iam modica sed omnino nulla sunt. Illa autem quae propter nimium progressum dicuntur immodica, ipsa nimietate culpantur: sed tamen ipsa etiam sub Deo, qui omnia in mensura et in numero et pondere disposuit, necesse est utaliquo modo cohibeantur.

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A resistência da vontade a um poder superior produz a dor na alma, e a resistência dos sentidos a um corpo mais poderoso provoca a dor no corpo. Mas há males que são piores sem produ- zir dor, porque pior é alegrar-se com a iniqüidade do que padecer com a corrupção. Não obstante, tal regozijo não pode resultar senão da aquisição de bens inferiores, ao passo que a iniqüidade é a renúncia aos bens superiores. Igualmente, tratando-se do corpo, é melhor a ferida com dor que a putrefação sem dor, que propriamente se chama corrupção, e que não viu, ou seja, não padeceu o corpo morto do Senhor, como se previra numa profecia: “Não deixarás que teu santo experimente a corrupção” [Sal. XV, 16, 10]. Sim, porque ter sido ferido pelos cravos e transpassado pela lança, quem o negará? Mas também a mesma putrefação, que propriamente é chamada corrupção, se ainda lhe resta algo por consumir no interior, aumenta à medida que diminui o bem. Se este for de todo destruído, assim como não restará nenhum bem, assim tampouco restará natureza alguma, porque já não haverá nada que possa sofrer corrupção, razão por que já nem sequer haverá corrupção, dado faltar o ser em que se dar.

CAPÍTULO 21

Módico vem de modo

Por isso certamente se chamam módicas, na linguagem já cor- rente, as coisas pequenas e exíguas, porque ainda há nelas algum modo, sem o qual nem sequer seriam módicas e não existiriam de modo algum. Em contrapartida, todas as coisas que pelo seu excessivo desenvolvimento se dizem imódicas são censuradas pelo seu mesmo excesso. É preciso, todavia, que estejam limitadas por algum modo, uma vez que “são sujeitas a Deus, que tudo dispôs com número, peso e medida” [Sab. XI, 20].

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CAPUT XXII

Modus an aliqua ratione Deo ipsi conveniat.

Deus autem nec modum habere dicendus est, ne finis eius dici putetur. Nec ideo tamen immoderatus est, a quo modus omnibus tribuitur rebus, ut aliquo modo esse possint. Nec rursus moderatum oportet dici Deum, tamquam ab aliquo modum acceperit.

Si autem dicamus eum summum modum, forte aliquid dicimus; si tamen in eo quod dicimus summum modum intellegamus summum bonum. Omnis enim modus, in quantum modus est, bonus est. Unde omnia moderata, modesta, modificata, dici sine laude non possunt; quamquam sub alio intellectu modum pro fine ponamus, et nullum modum dicamus ubi nullus est finis. Quod aliquando cum laude dicitur, sicut dictum est: Et regni eius non erit finis. Posset enim dici etiam: non erit modus, ut modus pro fine dictus intellegeretur. Nam qui nullo modo regnat, non utique regnat.

CAPUT XXIII

Unde interdum dicatur malus modus, mala species, malus ordo.

Malus ergo modus, vel mala species, vel malus ordo, aut ideo dicuntur quia minora sunt quam esse debuerunt, aut quia non his rebus accommodantur quibus accommodanda sunt; ut ideo dicantur mala quia sunt aliena et incongrua, tamquam si dicatur aliquis non bono modo egisse quia minus egit quam debuit, aut quia ita egit sicut in re tali non debuit, vel amplius quam oportebat, vel non convenienter: ut hoc ipsum

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CAPÍTULO 22

O modo convém a Deus segundo determinada razão

Não se pode dizer que em Deus se dê algum modo, de forma que se lhe atribua algum limite ou fim. Mas nem por isso Ele é imoderado, sendo quem dá o modo a todas as coisas para que pos- sam existir de algum modo. Tampouco se pode dizer que Deus seja moderado como se tivesse recebido de outro o seu modo. Talvez, no entanto, afirmemos d’Ele algo verdadeiro se disser- mos que Ele é o Sumo Modo, se por Sumo Modo entendemos o Sumo Bem. Com efeito, todo e qualquer modo, enquanto modo,

é um bem. Donde nenhuma coisa poder chamar-se moderada,

modesta ou medida sem que se inclua nisso um justo louvor, ainda que em outro sentido entendamos por modo o limite ou fim; e de fato dizemos que carece de modo o que não tem fim, o que às vezes é dito como louvor, como o indicam estas palavras:

“E seu reino não terá fim” [Luc. I, 33]. Poder-se-ia igualmente dizer: Não terá modo, entendendo por modo o fim; pois quem reina sem modo, este certamente não reina.

CAPÍTULO 23

Por que às vezes se diz que um modo, uma espécie, uma ordem são maus

Quando, pois, se diz, às vezes, que um modo, uma espécie

e uma ordem são maus, ou é porque são inferiores ao que de-

veriam ser, ou é porque não se adaptam às coisas a que corres- pondem, de maneira que se dizem maus por serem impróprios ou inconvenientes. Assim se diz de alguém que não agiu de modo bom, ou porque fez menos do que devia fazer, ou porque fez o que nesse caso não devia fazer, ou porque fez mais do que convinha fazer, ou seja, inconvenientemente, de maneira que

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seja, inconvenientemente, de maneira que miolo_002.indd 29 Santo Agostinho · A Natureza do Bem · 29

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quod reprehenditur, malo modo actum non ob aliud iuste reprehendatur, nisi quia non est ibi servatus modus.

Item species mala vel in comparatione dicitur formosioris atque pulchrioris, quod ista sit minor species, illa maior, non mole sed decore; aut quia non congruit huic rei cui adhibita est, ut aliena et inconveniens videatur: tamquam si nudus homo in foro deambulet, quod non offendit si in balneo videatur.

Similiter et ordo tunc malus dicitur, cum minus ipse ordo servatur: unde non ibi ordo sed potius inordinatio mala est, cum aut minus ordinatum est quam debuit, aut non sicut debuit. Tamen ubi aliquis modus, aliqua species, aliquis ordo est, aliquod bonum et aliqua natura est: ubi autem nullus modus, nulla species, nullus ordo est, nullum bonum, nulla natura est.

CAPUT XXIV

Testimoniis Scripturae probatur Deum esse incommutabilem. Filium Dei esse genitum, non factum.

Haec quae nostra fides habet, et utcumque ratio vestigavit, divinarum Scripturarum testimoniis munienda sunt: ut qui ea minore intellectu assequi non possunt, divinae auctoritati credant et ob hoc intellegere mereantur. Qui autem intellegunt, sed ecclesiasticis Litteris minus instructi sunt, magis ea nos ex nostro intellectu proferre, quam in illis Libris esse, non arbitrentur.

ItaqueDeumesseincommutabilem,sicscriptumestinPsalmis:

Mutabis ea et mutabuntur; tu autem idem ipse es. Et in Libro Sapientiae de ipsa Sapientia: In se ipsa manens innovat omnia. Unde et apostolus Paulus: Invisibili, incorruptibili soli Deo. Et apostolus Iacobus: Omne datum optimum et omne donum

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o que se censura como mal feito não se censura, em verdade, senão porque não se observou o modo devido.

Igualmente, diz-se que uma espécie é má quer em comparação com uma espécie mais proporcionada ou mais bela, sendo aquela espécie menor e esta maior não pela quantidade, mas pela formo- sura; quer porque não corresponde à coisa a que se aplicou, de modo que se vê imprópria ou inconveniente: por exemplo, não seria decoroso um homem passear nu pela praia, ao passo que não

é ofensivo vê-lo assim num banheiro. Semelhantemente, a ordem é dita má quando é mantida me-

nos que o devido, de maneira que não é má a ordem, mas a desor- dem, ou porque a ordem é menor do que deveria ser, ou porque não é como deveria ser. Onde porém existe algum modo, alguma espécie e alguma ordem, aí há algum bem e alguma natureza; mas, onde não há nenhum modo, nenhuma espécie e nenhuma ordem,

aí não há bem nem natureza alguma.

CAPÍTULO 24

Prova-se com testemunhos das Escrituras que Deus é imutável e que o Filho de Deus é gerado, não criado

As verdades que professa a nossa fé, e que de alguma forma a razão investigou, devem ser corroboradas com testemunhos das Sagradas Escrituras, para que aqueles que não as podem penetrar por serem dotados de menor inteligência as creiam pela autorida- de divina e mereçam assim entendê-las. Não obstante, os que as compreendem, sendo porém menos instruídos nas Letras eclesiás- ticas, não pensem que nós as professamos mais por obra da nossa inteligência do que por se acharem contidas naqueles Livros. Assim, pois, o fato de Deus ser imutável se expressa da seguinte maneira nos Salmos: “Mudarás as coisas, e elas mudarão; mas tu és sempre o mesmo” [Sal. CI, 27]. E no Livro da Sabedoria sobre a pró- pria Sabedoria: “Permanecendo a mesma, ela tudo renova” [Sab. VII,

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a mesma, ela tudo renova” [Sab. VII, miolo_002.indd 31 Santo Agostinho · A Natureza do Bem

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perfectum desursum est, descendens a Patre luminum, apud quem non est commutatio nec momenti obumbratio.

Item quia id quod de se genuit, hoc est quod ipse est, ita ab ipso Filio breviter dicitur: Ego et Pater unum sumus. Quia non est autem factus Filius, quippe cum per illum facta sint omnia, sic scriptum est: In principio erat Verbum, et Verbum erat apud Deum, et Deus erat Verbum, hoc erat in principio apud Deum. Omnia per ipsum facta sunt, et sine ipso factum est nihil; id est, non est factum sine ipso aliquid.

CAPUT XXV

Illud Evangelii: Sine ipso factum est nihil, male intellecum a nonnullis.

Neque enim audienda sunt deliramenta hominum, qui nihil hoc loco aliquid intellegendum putant, et ad huiusmodi vanitatem propterea putant cogi posse aliquem, quia ipsum nihil in fine sententiae positum est. Ergo, inquiunt, factum est; et ideo quia factum est, ipsum nihil aliquid est.

Sensum enim perdiderunt studio contradicendi, nec intellegunt nihil interesse utrum dicatur: Sine illo factum est nihil; an: Sine illo nihil factum est: quia et si illo ordine diceretur: Sine illo nihil factum est; possunt nihilominus dicere, ipsum nihil aliquid esse, quia factum est. Quod enim revera est aliquid, quid interest utrum ita dicatur: “ Sine illo facta est domus ”; an: “ Sine illo domus est facta ”: dum intellegatur aliquid sine illo factum, quod aliquid domus est?

Ita quia dictum est: Sine illo factum est nihil; quoniam nihil utique non est aliquid, quando vere et proprie dicitur: sive

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vere et proprie dicitur: sive XXXII · De Natura Boni · Augustinus Hipponensis miolo_002.indd 32 21/7/2005

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27]. Donde dizer o Apóstolo Paulo: “Ao único Deus, invisível, incor- ruptível” [I Tim. I, 17]. E São Tiago: “Todas as dádivas excelentes e todos os dons perfeitos vêm do alto e descendem do Pai das luzes, no qual não há mudança nem sombra de vicissitude” [Tiag. I, 17]. Além disso, porque Aquele que Ele gera de si é idêntico a Ele, diz brevemente o próprio Filho: “Eu e meu Pai somos um” [Jo, X, 30]. Como porém o Filho não foi criado, e como pelo Filho foram

feitas todas as coisas, assim está escrito: “No princípio era o Verbo, e

o Verbo estava em Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio

em Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele não foi feito nada” [Jo. I, 1-3], ou seja, nada do que foi feito, foi feito sem Ele.

CAPÍTULO 25

As palavras do Evangelho: “Nada foi feito sem ele”, mal interpretadas por alguns

Não se deve dar ouvidos às extravagâncias dos homens que, baseando-se no fato de o termo “nada” encontrar-se no final

da frase e pensando que por isso atrairão alguém para a sua vã opinião, pretendem que deve ser entendido no sentido positivo de “algo”. Alguma coisa, dizem, foi feita, e, dado ter sido feita,

o nada é algo. Parece que perderam o juízo pela ânsia de contradizer, e não

entendem que nada importa que se diga: “Sem Ele não foi feito nada” ou “Sem Ele nada foi feito”, porque, ainda que se dissesse nesta ordem: “Sem Ele nada foi feito”, poderiam argüir, ainda, que o “nada” é alguma coisa, porque foi feito. Sim, porque, se há verdadeiramente algo, que importa dizer: “Sem ele foi feita

a casa”, ou: “Sem ele a casa foi feita”, desde que se entenda que sem ele algo, como o é a casa, foi feito? E, assim, se se disse: “Sem Ele não foi feito nada”, uma vez que o nada, quando se usa com verdadeira propriedade, não é alguma coisa, não importa que se diga: “Sem Ele não foi feito nada” ou “Sem Ele nada foi feito”.

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nada” ou “Sem Ele nada foi feito”. miolo_002.indd 33 Santo Agostinho · A Natureza do Bem

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dicatur: Sine illo factum est nihil; sive: Sine illo nihil factum est, vel nihil est factum; nihil interest.

Quis autem velit loqui cum hominibus, qui hoc ipsum quod dixi: “ Nihil interest”, possunt dicere: “ Ergo interest aliquid “, quia ipsum nihil aliquid est?

Hi autem qui sanum habent cerebrum, rem manifestissimam vident, hoc idem intellegi cum dixi: “ Nihil interest “, quod intellegeretur si dicerem: “ Interest nihil “. At isti si alicui dicant:

“Quid fecisti? “ et ille respondeat, nihil se fecisse: consequens est ut ei calumnientur dicentes: “ Fecisti ergo aliquid, quia nihil fecisti “; ipsum enim nihil aliquid est. Habent autem et ipsum Dominum in fine sententiae ponentem hoc verbum, ubi ait: Et in occulto locutus sum nihil. Ergo legant, et taceant.

CAPUT XXVI

Creaturas ex nihilo factas esse.

Quia ergo Deus omnia quae non de se genuit, sed per Verbum suum fecit, non de his rebus quae iam erant sed de his quae omnino non erant, hoc est de nihilo fecit, ita dicit Apostolus:

Qui vocat ea quae non sunt tamquam sint. Apertius autem in Libro Machabaeorum scriptum est: Oro te, fili, respice ad caelum, et terram, et omnia quae in eis sunt. Vide et scito quia non erant ex quibus nos fecit Dominus Deus. Et illud quod in Psalmo scriptum est: Ipse dixit et facta sunt.

Manifestum est quod non de se ista genuerit sed in verbo atque imperio fecerit. Quod autem non de se, utique de nihilo. Non erat enim aliud unde faceret, quod apertissime Apostolus dicit: Quoniam ex ipso et per ipsum et in ipso sunt omnia.

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Quem quererá falar com homens que, ao ouvir o que eu dis- se: “Nada importa”, poderão dizer: “Logo, importa algo, porque esse nada é algo”? Mas os que conservam sã a mente vêem com toda a clareza que pelo que eu disse: “Nada importa”, se entende a mesma coisa que se entenderia se tivesse dito: “Não importa nada”. Mas se aqueles perguntassem a alguém: “Que fizeste?”, e este lhes res- pondesse que não fizera nada, poderiam eles conseqüentemente caluniá-lo, dizendo: “Logo, fizeste algo, porque nada fizeste; pois em verdade este nada é algo”. Mas vemos o próprio Senhor pôr esta palavra no final de uma sentença, assim: “Em segredo não disse nada” [Jo. XVIII, 20]. Leiam, pois, e calem-se.

CAPÍTULO 26

As criaturas foram feitas do nada

Como todas as coisas que Deus não gerou de si, mas fez por seu Verbo, não as fez de coisas que já estivessem feitas, e sim do que absolutamente não era, ou seja, do nada, expressa-se assim o Apóstolo: “O qual chama as coisas que não são, como as que são” [Rom. IV, 17]. E leia-se o que está escrito, mais claramente, no Livro dos Macabeus: “Suplico-te, meu filho, que olhes para o céu e para a terra, e para todas as coisas que há neles; e que te capacites bem de que Deus as criou do nada a elas, e a todos os homens” [2 Macab. VII, 28]. E também o que está escrito no livro dos Salmos: “Ele o disse, e tudo foi feito” [Sal. CXLVIII, 5]. É pois evidente que Ele não gerou de si essas coisas, mas as fez pelo império da sua palavra. O que porém Ele não gerou de si, certamente o fez do nada. Sim, porque não havia coisa alguma de que o pudesse tirar, como o diz claramente o Apóstolo: “Porque d’Ele, e por Ele, e n’Ele são todas as coisas” [Rom. XI, 36].

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são todas as coisas” [Rom. XI, 36]. miolo_002.indd 35 Santo Agostinho · A Natureza do Bem

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CAPUT XXVII

Ex ipso et De ipso non idem significare.

Ex ipso autem non hoc significat quod De ipso. Quod enim de ipso est, potest dici ex ipso. Non autem omne quod ex ipso est recte dicitur de ipso. Ex ipso enim caelum et terra quia ipse fecit ea, non autem de ipso quia non de substantia sua.

Sicut aliquis homo si gignat filium et faciat domum, ex ipso filius, ex ipso domus; sed filius de ipso, domus de terra et ligno. Sed hoc quia homo est, qui non potest aliquid etiam de nihilo facere: Deus autem ex quo omnia per quem omnia, in quo omnia, non opus habebat aliqua materia quam ipse non fecerat adiuvari omnipotentiam suam.

CAPUT XXVIII

Peccata non ex Deo, sed ex voluntate esse peccantium.

Cum autem audimus: Omnia ex ipso et per ipsum et in ipso, omnes utique naturas intellegere debemus quae naturaliter sunt. Neque enim ex ipso sunt peccata, quae naturam non servant sed vitiant, quae peccata ex voluntate esse peccantium multis modis sancta Scriptura testatur, praecipue illo loco quo dicit Apostolus: Existimas autem hoc, o homo, qui iudicas eos qui talia agunt et facis ea, quoniam tu effugies iudicium

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CAPÍTULO 27

Ex ipso e de ipso 3 não significam a mesma coisa

Por conseguinte, ex ipso não significa o mesmo que de ipso. Sim, porque o que é de ipso pode dizer-se que é ex ipso; mas nem tudo o que é ex ipso pode dizer-se retamente que é de ipso. Ex ipso são o céu e a terra, uma vez que Ele os fez; mas não os fez de si mesmo, porque não são da sua mesma substância. É como um homem que gera um filho e faz uma casa: dele é o filho, e dele é a casa; mas o filho é de ipso, e a casa, de terra e madeira. Assim é a casa, porém, porque se trata de um homem que não pode fazer coisa alguma do nada; em contrapartida, Deus, de quem, por quem e em quem são todas as coisas, não tinha necessidade de matéria alguma que Ele não tivesse feito, para coadjuvar a sua onipotência.

CAPÍTULO 28

O pecado não procede de Deus, mas da vontade dos pecadores

Quando, pois, ouvimos dizer: “Todas as coisas são d’Ele, por Ele e n’Ele”, devemos entender sem dúvida que essas palavras se referem a todas as coisas que existem naturalmente. Sim, porque não existem por Ele os pecados, que não conservam a natureza, mas a viciam; e que os pecados provêm da vontade, de muitas maneiras o atestam as Sagradas Escrituras, especialmente na pas- sagem em que diz o Apóstolo: “E tu, ó homem, que julgas aqueles que fazem tais coisas, e que também as fazes, julgas porventura que escaparás ao juízo de Deus? Porventura desprezas as riquezas

3 - As coisas que são ex ipso (“d’Ele”) o são porque, criando-as Ele do nada, d’Ele provêm; e o que é de ipso (“d’Ele”, “a partir d’Ele”) é o que Ele gera, des- de toda a eternidade, a partir de si mesmo, da sua mesma substância (como seu Filho unigênito, Jesus Cristo, que pois lhe é consubstancial). [N. do T.]

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Dei? An divitias benignitatis et patientiae eius et longanimitatis contemnis, ignorans quoniam patientia Dei ad paenitentiam te adducit? Secundum duritiam autem cordis tui et cor impoenitens, thesaurizas tibi iram in die irae et revelationis iusti iudicii Dei, qui reddet unicuique secundum opera sua.

CAPUT XXIX

Peccatis nostris Deum non inquinari.

Nec tamen, cum in Deo sint universa quae condidit, inquinant eum qui peccant de cuius sapientia dicitur: Attingit autem omnia propter suam munditiam et nihil inquinatum in eam incurrit.

Oportet enim ut ,sicut Deum incorruptibilem et incommutabilem, ita consequenter etiam incoinquinabilem credamus.

CAPUT XXX

Bona etiam minima et terrena esse a Deo.

Quia vero et minima bona, hoc est terrena atque mortalia ipse fecit, illo Apostoli loco sine dubitatione intellegitur ubi loquens de membris carnis nostrae: Quia si glorificatur unum membrum, congaudent omnia membra; et si patitur unum membrum, compatiuntur omnia membra. Etiam hoc ibi ait:

Deus posuit membra, singulum quodque eorum in corpore prout voluit. Et: Deus temperavit corpus, ei cui deerat maiorem honorem dans, ut non essent scissurae in corpore sed idem ipsum ut pro invicem sollicita sint membra.

Hoc autem quod sic in modo et specie et ordine membrorum carnis laudat Apostolus in omnium animalium carne invenis, et

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da sua bondade, paciência e longanimidade? Ignoras que a paci- ência de Deus te convida à penitência? Mas com a tua dureza e coração impenitente acumulas para ti um tesouro de ira no dia da ira e da manifestação do justo juízo de Deus, que há de dar a cada um segundo as suas obras” [Rom. II, 3-6].

CAPÍTULO 29

Deus não é maculado pelos nossos pecados

Não obstante estarem em Deus todas as coisas que Ele criou, não podem os que pecam maculá-lo a Ele, de cuja sabedoria se diz: “Ela atinge tudo por causa da sua pureza, e mancha alguma se pode encontrar nela” [Sab. VII, 24, 25].

É preciso, portanto, que assim como cremos que Deus é

incorruptível e imutável, creiamos conseqüentemente que não

pode ser maculado.

CAPÍTULO 30

Os bens inferiores e terrenos provêm de Deus

Que também foi Deus quem fez os bens inferiores, ou seja, os terrenos e perecedouros, ensina-o claramente o Apóstolo na passagem em que, falando dos membros do nosso corpo,

diz: “De maneira que, se um membro sofre, todos os mem- bros sofrem com ele, ou, se um membro recebe glória, todos os membros se regozijam com ele”; além de dizer no mesmo lugar: “Deus, porém, pôs os membros no corpo, cada um deles como quis”, e “Deus dispôs o corpo, dando maior honra àque- le membro que a não tinha em si, para que não haja cisma no corpo, mas os membros tenham o mesmo cuidado uns pelos outros” [1 Cor. XII, 26, 18, 24, 25].

E tudo isso que assim louva o Apóstolo no modo, na espécie

e na ordem dos membros da nossa carne encontra-se também no

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maximorum et minimorum; cum omnis caro in bonis terrenis ac per hoc minimus deputetur.

CAPUT XXXI

Punire ac donare peccata peraeque ad Deum pertinere.

Item quia cuique culpae qualis et quanta debeatur poena, divini iudicii est, non humani sic scriptum est: O altitudo divitiarum sapientiae et scientiae Dei! quam inscrutabilia sunt iudicia eius et investigabiles viae eius! Item quia bonitate Dei donantur peccata conversis, hoc ipsum quod Christus missus est, satis ostendit. Qui non in sua natura qua Deus est, sed in nostra quam de femina assumpsit pro nobis mortuus est:

quam Dei bonitatem circa nos et dilectionem sic praedicat Apostolus: Commendat, inquit, suam caritatem Deus in nobis, quoniam cum adhuc peccatores essemus, Christus pro nobis mortuus est: multo magis, nunc iustificati in sanguine ipsius, salvi erimus ab ira per ipsum. Si enim, cum inimici essemus, reconciliati sumus Deo per mortem Filii eius: multo magis reconciliati salvi erimus in vita ipsius.

Quia vero etiam cum peccatoribus poena debita redditur, non est iniquitas apud Deum, sic dicit: Quid dicemus? Numquid iniquus Deus qui infert iram?

Uno autem loco et bonitatem et severitatem ab illo esse breviter admonuit, dicens: Vides ergo bonitatem et severitatem Dei: in eos quidem qui ceciderunt, severitatem; in te autem bonitatem, si permanseris in bonitate.

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corpo de todos os animais, tanto no dos maiores como no dos menores; pois a carne se inclui entre os bens terrenos, e portanto entre os bens inferiores.

CAPÍTULO 31

Compete a Deus tanto castigar como perdoar os pecados

E assim, por competir ao juízo divino e não ao humano de- terminar a qualidade e a quantidade da pena devida a qualquer culpa, está escrito: “Ó profundidade das riquezas da sabedoria e da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão imperscrutáveis os seus caminhos!” [Rom, XI, 33]. E, igualmente, que pela bondade de Deus são perdoados os pecados aos peni- tentes, demonstra-o suficientemente o fato de ter sido enviado Cristo, que morreu por nós, não na sua natureza divina, mas na nossa, que tomou da mulher. O Apóstolo louva assim a bondade de Deus e o seu amor por nós: “Mas Deus manifesta a sua caridade para conosco, porque, quando ainda éramos pecadores, no tempo oportuno morreu Cristo por nós. Pois muito mais agora, que es- tamos justificados pelo seu sangue, seremos salvos da ira por Ele mesmo. Porque, se, sendo nós inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, estando já reconcilia- dos, seremos salvos pela sua vida” [Rom, V, 8-10]. E, para demonstrar que não há iniqüidade em Deus quando inflige aos pecadores o merecido castigo, diz assim: “Que diremos? Porventura é injusto Deus ao castigar em ira?” [Rom, III, 5]. Finalmente, com palavras breves adverte, em outro lugar, que tanto a bondade como a severidade provêm de Deus, dizendo:

“Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus; a severidade para com aqueles que caíram; e a bondade para contigo, se perma- neceres na bondade” [Rom. XI, 22].

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CAPUT XXXII

A Deo esse et ipsam nocendi potestatem.

Item quia etiam nocentium potestas non est nisi a Deo, sic scriptum est loquente Sapientia: Per me reges regnant et tyranni per me tenent terram. Dicit et Apostolus: Non est enim potestas nisi a Deo. Digne autem fieri, in libro Iob scriptum est: Qui regnare facit, inquit, hominem hypocritam, propter perversitatem populi. Et de populo Israel dicit Deus: Dedi eis regem in ira mea.

Iniustum enim non est ut improbis accipientibus nocendi potestatem, et bonorum patientia probetur et malorum iniquitas puniatur. Nam per potestatem diabolo datam et Iob probatus est ut iustus appareret, et Petrus tentatus ne de se praesumeret, et Paulus colaphizatus ne se extolleret, et Iudas damnatus ut se suspenderet.

Cum ergo per potestatem quam diabolo dedit, omnia iuste ipse Deus fecerit; non tamen pro his iuste factis, sed pro iniqua nocendi voluntate, quae ipsius diaboli fuit, ei reddetur in fine supplicium, cum dicetur impiis qui eius nequitiae consentire perseveraverint: Ite in ignem aeternum quem paravit Pater meus diabolo et angelis eius.

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CAPÍTULO 32

O próprio poder de causar dano aos outros procede de Deus

Igualmente, porque também o poder dos que causam dano aos outros não procede senão de Deus, diz a Sabedoria: “Por mim rei- nam os reis, e por mim os tiranos sujeitam a terra” [Prov. VIII, 15]. E diz o Apóstolo: “Não há poder que não venha de Deus” [Rom. XIII, 1]. E que isso se faz com justiça está confirmado no Livro de Jó: “Ele é o que faz reinar o homem hipócrita por causa dos pecados do povo” [Jó XXXIV, 30]. E, falando do povo de Israel, diz Deus mesmo: “Eu te dei um rei na minha ira” [Os. XIII, 11]. Por conseguinte, não é injusto que se dê aos perversos o poder de causar dano aos outros, para que se prove a paciência dos bons e seja castigada a iniqüidade dos maus. E assim, pelo poder concedido ao diabo, Jó foi provado para que se mostrasse justo [Jó I-II], e Pedro foi tentado para que não se tornasse presunçoso [Mat. XXVI, 31-35, 69-75], e Paulo padeceu o aguilhão da carne para que não se ensoberbecesse [2 Cor. XII, 7], e Judas foi condenado a enforcar-se [Mat. XXVII, 5]. Assim, Deus mesmo fez de maneira justa todas essas coisas mediante o poder que concedeu ao demônio; não obstante, não por terem sido realizadas de maneira justa, mas pela iníqua vontade de causar dano do demônio, é que ele sofrerá o suplício eterno no fim dos tempos, quando se disser aos ímpios que perseveraram no consentimento da sua maldade: “Ide para o fogo eterno, que meu Pai preparou para o demônio e seus anjos” [Mat. XXV, 41].

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CAPUT XXXIII

Angelus malos non a Deo, sed pecando factos esse malos.

Quia vero et ipsi mali angeli non a Deo mali sunt conditi, sed peccando facti sunt mali, sic Petrus in epistola sua dicit: Si enim Deus angelis peccantibus non pepercit, sed carceribus caliginis inferi detrudens tradidit in iudicio puniendos servari. Hinc Petrus ostendit adhuc eis ultimi iudicii poenam deberi, de qua Dominus dicit: Ite in ignem aeternum, qui paratus est diabolo et angelis eius. Quamvis iam poenaliter hunc inferum, hoc est inferiorem caliginosum aerem tamquam carcerem acceperint: qui tamen quoniam et coelum dicitur, non illud coelum in quo sunt sidera, sed hoc inferius cuius caligine nubila conglobantur, et ubi aves volitant; nam et coelum nubilum dicitur, et volatilia coeli appellantur: secundum hoc apostolus Paulus eosdem iniquos angelos, contra quos nobis invidos pie vivendo pugnamus, spiritalia nequitiae in coelestibus nominat. Quod ne de illis superioribus coelis intellegatur, aperte alibi dicit: Secundum principem potestatis aeris huius, qui nunc operatur in filiis diffidentiae.

CAPUT XXXIV

Peccatum non est malae naturae appetitio, sed melioris desertio.

Item quia peccatum vel iniquitas non est appetitio naturarum malarum sed desertio meliorum: sic in Scripturis invenitur scriptum: Omnis creatura Dei bona est. Ac per hoc et omne lignum quod in paradiso Deus plantavit, utique bonum est.

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CAPÍTULO 33

Os anjos maus não se tornaram tais por obra de Deus, mas em razão do seu próprio pecado

E porque os anjos rebeldes não foram criados maus por Deus, senão que se perverteram pelo pecado, diz o Apóstolo Pedro na sua epístola: “Pois Deus não perdoou aos anjos que pecaram, mas, preci- pitados no tártaro, os entregou às cadeias das trevas, reservando-os para o dia do juízo” [2 Pedr. II, 4]. Prova assim São Pedro que ainda lhes espera a pena do Juízo Final, do qual diz o Senhor: “Ide para o fogo eterno, que foi preparado para o demônio e seus anjos”. Isso apesar de já terem recebido em castigo e como prisão esse inferno, ou seja, a região inferior e caliginosa do ar, a qual, todavia, também se chama céu, não o céu em que estão as estrelas, mas o que se encontra mais abaixo, em cuja escuridão se aglomeram as nuvens e voam as aves, razão por que também se chama céu das nuvens e das aves do céu — por isso o Apóstolo Paulo chama “espíritos de maldade nos céus” [Ef. VI, 12] a esses mesmos espíritos iníquos, que são invejosos do nosso bem e contra os quais lutamos vivendo piedosamente. Para que não se entenda que se trata aqui dos céus superiores, diz ele cla- ramente em outra parte: “Segundo o príncipe que exerce poder sobre este ar, o qual agora obra sobre os filhos da incredulidade” [Ef. II, 2].

CAPÍTULO 34

O pecado não é o apetecer uma natureza má, mas a renúncia a outra, superior

Igualmente, porque o pecado não é o apetecer naturezas más, mas a renúncia a outras, superiores, está escrito nas Es- crituras: “Todas as criaturas de Deus são boas” [1 Tim, IV, 4] — donde serem sem dúvida boas todas as árvores que Deus plantou no paraíso.

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as árvores que Deus plantou no paraíso. miolo_002.indd 45 Santo Agostinho · A Natureza do Bem

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Non ergo malam naturam homo appetivit, cum arborem vetitam tetigit; sed id quod melius erat deserendo, factum malum ipse commisit. Melior quippe Creator, quam ulla creatura quam condidit; cuius imperium non erat deserendum ut tangeretur prohibitum, quamvis bonum; quoniam deserto meliore bonum creaturae appetebatur, quod contra Creatoris imperium tangebatur.

Non itaque Deus arborem malam in paradiso plantaverat, sed ipse erat melior qui eam tangi prohibebat.

CAPUT XXXV

Arbor Adamo vetita, non quia mala, sed quia homini bonum ut subditus sit Deo.

Ad hoc enim et prohibuerat ut ostenderet animae rationalis naturam, non in sua potestate sed Deo subditam esse debere, et ordinem suae salutis per obedientiam custodire, per inobedientiam corrumpere.

Hinc et arborem quam tangi vetuit sic appellavit dignoscentiae boni et mali; quia cum eam contra vetitum tetigisset, experiretur poenam peccati et eo modo dignosceret quid interesset inter obedientiae bonum et inobedientiae malum.

CAPUT XXXVI

Nulla creatura Dei mala, sed ea male uti est malum.

Nam quis ita desipiat ut Dei creaturam, maxime in paradiso plantatam, vituperandam putet: quando quidem nec ipsae spinae

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O homem, portanto, não apeteceu nenhuma natureza má ao comer da árvore proibida, mas cometeu uma ação má ao renunciar ao superior, pois superior a todas as coisas criadas é o Criador, cujo mandado não devia ser descumprido para comer do proibido, ainda que fosse bom, porque, renunciando ao superior, se apetecia uma coisa boa, mas comida contra o mandado do Criador. Não plantara Deus, portanto, uma árvore má no para- íso, senão que Ele mesmo, que proibira comer dela, era o bem superior.

CAPÍTULO 35

A árvore foi proibida a Adão não porque fosse má, mas porque era bom para o homem estar submetido a Deus

Proibira-o, com efeito, com a finalidade de demonstrar-lhe que

a alma racional não tem por natureza ser independente, mas deve

estar submetida a Deus e conservar, pela obediência, a ordem da sua salvação e não violá-la pela desobediência. Eis por que a árvore de que proibira comer Ele a chamou a “ár- vore da ciência do bem e do mal” [Gên. II, 9], para que, quando

o homem o fizesse contra a sua proibição, experimentasse a pena

do pecado e, assim, conhecesse a diferença que há entre o bem da obediência e o mal da desobediência.

CAPÍTULO 36

Nenhuma criatura de Deus é má, e o mal consiste em fazer mau uso dela

Quem, pois, seria tão insipiente que julgasse dever ser vitupe- rada uma criatura posta por Deus no próprio paraíso, uma vez que

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Deus no próprio paraíso, uma vez que miolo_002.indd 47 Santo Agostinho · A Natureza do Bem

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ac tribuli, quos peccatori in labore conterendo, secundum Dei iudiciariam voluntatem terra peperit, recte vituperentur? Habent enim et tales herbae modum et speciem et ordinem suum, quae quisquis sobrie consideraverit laudanda reperiet. Sed ei naturae ista mala sunt quam peccati merito sic coerceri oportebat.

Non est ergo, ut dixi, peccatum malae naturae appetitio sed melioris desertio. Et ideo factum ipsum malum est, non illa natura qua male utitur peccans.

Malum est enim male uti bono. Unde Apostolus damnatos quosdam divino iudicio reprehendit, qui coluerunt et servierunt creaturae potius quam Creatori. Neque enim creaturam reprehendit, quod qui fecerit, Creatori facit iniuriam, sed eos qui male usi sunt bono, meliore deserto.

CAPUT XXXVII

Malis peccantium Deus bene utitur.

Proinde si custodiant omnes naturae modum, et speciem et ordinem proprium, nullum erit malum: si autem his bonis quisque male uti voluerit, nec sic vincit voluntatem Dei, qui etiam iniustos iuste ordinare novit; ut si ipsi per iniquitatem voluntatis suae male usi fuerint bonis illius, ille per iustitiam potestatis suae bene utatur malis ipsorum, recte ordinans in poenis qui se perverse ordinaverint in peccatis.

XLVIII · De Natura Boni · Augustinus Hipponensis

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ordinaverint in peccatis. XLVIII · De Natura Boni · Augustinus Hipponensis miolo_002.indd 48 21/7/2005 12:04:29

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nem os espinhos nem os abrolhos, que a terra produziu, segundo a vontade justiceira de Deus, para tornar mais fatigante o trabalho do pecador, podem ser retamente vituperados? Sim, porque tais ervas também têm o seu modo, a sua espécie e a sua ordem, os quais não deixará de julgar bastante louváveis quem ponderada- mente os considere; mas são coisas más para aquela natureza que era preciso castigar dessa maneira por causa do seu pecado. Assim, o pecado não consiste, como eu já disse, no apetecer uma natureza má, e sim na renúncia de outra, superior, de sorte que o mal

é essa mesma preferência, e não a natureza de que se abusa ao pecar. O pecado consiste, portanto, em usar mal do bem. Por isso,

o Apóstolo censura os já condenados pelo juízo divino, os quais “adoraram e serviram a criatura de preferência ao Criador” [Rom.

I, 25]. Não condena a criatura, e quem o fizer estará fazendo uma injúria ao Criador; mas condena os que abusaram de um bem, renunciando a outro, superior.

CAPÍTULO 37

Do mal dos pecadores Deus extrai um bem

Por conseguinte, se todas as naturezas conservassem o modo,

a espécie e a ordem que lhes são próprios, não haveria o mal; mas,

se alguém quer abusar desses bens, nem por isso vencerá a vontade

de Deus, o qual sabe como fazer entrar, de maneira justa, os peca- dores na ordem universal, de sorte que, se eles pela perversidade

da sua vontade abusarem dos bens da natureza, Ele, pela justiça do seu poder, extrairá bens dos males, ordenando retamente com penas os que se desordenaram pelos pecados.

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os que se desordenaram pelos pecados. miolo_002.indd 49 Santo Agostinho · A Natureza do Bem ·

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CAPUT XXXVIII

Ignis aeternus malos crucians non malus.

Nam nec ipse ignis aeternus, qui cruciaturus est impios, mala natura est, habens modum et speciem et ordinem suum, nulla iniquitate depravatum: sed cruciatus est damnatis malus, quorum peccatis est debitus. Neque enim et lux ista, quia lippos cruciat, mala natura est.

CAPUT XXXIX

Aeternus ignis dicitur, non sicut Deus, sed quia sine fine.

Aeternus autem ignis non sicut Deus aeternus, quod etsi sine fine sit non est tamen sine initio. Deus autem etiam sine initio est. Deinde quia licet perpetuus peccatorum suppliciis adhibeatur, mutabilis tamen natura est. Illa est autem vera aeternitas, quae vera immortalitas; hoc est illa summa incommutabilitas quam solus Deus habet, qui mutari omnino non potest.

Aliud est enim non mutari, cum possit mutari, aliud autem prorsus non posse mutari. Sicut ergo dicitur homo bonus, non tamen sicut Deus de quo dictum est: Nemo bonus nisi unus Deus; et sicut dicitur anima immortalis, non tamen sicut Deus de quo dictum est: Qui solus habet immortalitatem; et sicut dicitur homo sapiens, non tamen sicut Deus de quo dictum est: Soli sapienti Deo; sic dicitur ignis aeternus, non tamen sicut Deus cuius solius immortalitas ipsa est vera aeternitas.

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CAPÍTULO 38

O fogo eterno, que atormenta os maus, não é um mal

E eis que nem sequer o próprio fogo eterno, que atormentará os réprobos, é em si uma natureza má, porque também tem o seu modo, a sua espécie e a sua ordem, e não foi corrompido por ne- nhuma iniqüidade. Mas o tormento é um mal para os condenados, que o mereceram pelos seus pecados. A própria luz atormenta os que têm olhos enfermos, sem todavia ser uma natureza má.

CAPÍTULO 39

Diz-se que o fogo é eterno não porque o seja como Deus, mas porque não tem fim

O fogo é eterno, mas não do mesmo modo como o é Deus; pois, conquanto não acabe nunca, teve porém princípio, e Deus não o teve. Além do mais, a sua natureza está sujeita a mudança, apesar de ter sido destinado a servir de castigo perpétuo para os pecadores. A verdadeira eternidade é a verdadeira imortalidade, ou seja, a suprema imutabilidade, que é atributo exclusivo de Deus,

o

qual é absolutamente imutável. Uma coisa é não mudar, apesar da possibilidade de mudança,

e

outra, muito diferente, é não poder mudar. Diz-se, assim, que um

homem é bom, conquanto não com a bondade de Deus, de Quem se disse: “Ninguém é bom senão Deus só” [Mar. X, 18]; e diz-se que a nossa alma é imortal, mas não como o é Deus, de Quem se disse: “É o único que possui a imortalidade” [1 Tim. VI, 16]; e diz-se que o homem é sábio, mas não como o é Deus, de Quem se disse: “A Deus, que é s ó o s á bio” [Rom. XVI, 27] — e tamb é m se diz que o fogo do inferno é eterno, mas não como o é Deus, cuja imortalidade é a verdadeira eternidade.

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CAPUT XL

Nec Deo noceri potest nec alii, nisi Dei iusta ordinatione.

Quae cum ita sint secundum catholicam fidem et sanam doctrinam, et intellegentibus perspicuam veritatem, nec naturae Dei nocere potest quisquam, nec natura Dei nocere iniuste cuiquam, vel nocere impune patitur quemquam. Qui enim nocet, ait Apostolus, recipiet id quod nocuit, et non est personarum acceptio apud Deum.

CAPUT XLI

Quanta bona Manichaei ponant in natura mali, et quanta mala in natura boni.

Quod Manichaei si vellent sine pernicioso studio defendendi erroris sui, et cum Dei timore cogitare; non scelestissime blasphemarent inducendo duas naturas, unam bonam quam dicunt Deum, alteram malam quam non fecerit Deus:

ita errantes, ita delirantes, imo vero ita insanientes, ut non videant, et in eo quod dicunt naturam summi mali, ponere se tanta bona, ubi ponunt vitam, potentiam, salutem, memoriam, intellectum, temperiem, virtutem, copiam, sensum, lumen, suavitatem, mensuras, numeros, pacem, modum, speciem, ordinem; in eo autem quod dicunt summum bonum, tanta mala, mortem, aegritudinem, oblivionem, insipientiam, perturbationem, impotentiam, egestatem, stoliditatem, caecitatem, dolorem, iniquitatem, dedecus, bellum, immoderationem, deformitatem, perversitatem.

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CAPÍTULO 40

Não se pode causar dano a Deus, nem a nenhuma criatura sem a justa ordenação de Deus

Assim sendo, a fé católica, e a sã doutrina, e a verdade bem compreendida proclamam que ninguém pode causar dano à na- tureza de Deus, e que a natureza de Deus não inflige mal injusto

a ninguém, e que Ele não permite que nenhuma injustiça fique

sem castigo. “Aquele, pois, que cometer injustiça”, diz o Apóstolo, “receberá segundo o que fez injustamente; e não há acepção de

pessoas diante de Deus” [Col. III, 25].

CAPÍTULO 41

Bens que os maniqueus atribuem à natureza do mal, e males que eles atribuem à natureza do bem

Se os maniqueus decidissem refletir sobre estas considerações sem se deixar influir pelo nefasto costume de justificar o seu erro

e com temor a Deus, já não blasfemariam criminosamente en- sinando a existência de duas naturezas, uma boa, que chamam Deus, e outra má, que Deus não criou. Tão grande é o seu erro, o seu delírio e, mais propriamente, a sua loucura, que não vêem que no que chamam a natureza do sumo mal eles mesmos supõem, concomitantemente, muitos bens, a saber: a vida, o poder, a saú- de, a memória, a inteligência, a temperança, a força, a riqueza, o sentimento, a luz, a suavidade, a medida, o número, a paz, o modo,

a espécie, a ordem; e, ao contrário, no que chamam sumo bem supõem numerosos males: a morte, a doença, o esquecimento, a loucura, a perturbação, a impotência, a pobreza, a insipiência, a cegueira, a dor, a iniqüidade, a desonra, a guerra, a destemperan- ça, a deformidade, a perversidade.

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Principes enim tenebrarum et vixisse in sua natura dicunt, et in suo regno salvos fuisse, et meminisse, et intellexisse. Sic enim concionatum illi dicunt principem tenebrarum, ut neque ipse talia dicere, neque ab eis quibus dicebat audiri sine memoria et intellectu potuisset: et habuisse temperiem animo et corpori suo congruam, et virtute potentiae regnasse, et copias elementorum suorum ac fecunditates habuisse, et sensisse se invicem ac sibi vicinum lumen, et oculos habuisse, quibus illud longe conspicerent; qui utique oculi sine aliquo lumine lumen videre non poterant, unde recte etiam lumina nominantur: et suavitate suae voluptatis esse perfruitos, et dimensis membris atque habitationibus determinatos fuisse.

Nisi autem etiam qualiscumque pulchritudo ibi fuisset, nec amarent coniugia sua, nec partium congruentia corpora eorum constarent: quod ubi non fuerit, non possunt ea fieri quae ibi facta esse delirant.

Et nisi pax aliqua ibi esset, principi suo non obedirent.

Nisi modus ibi esset, nihil aliud agerent, quam comederent, aut biberent, aut saevirent, aut quodlibet aliud sine aliqua satietate : quamquam nec ipsi qui hoc agebant, formis suis determinati essent, nisi modus ibi esset: nunc vero talia dicunt eos egisse, ut in omnibus actionibus suis modos sibi congruos habuisse negare non possint.

Si autem species ibi non fuisset, nulla ibi qualitas naturalis subsisteret.

Si nullus ordo ibi fuisset, non alii dominarentur, alii subderentur, non in suis elementis congruenter viverent, non denique suis locis haberent membra disposita, ut illa omnia quae vana isti fabulantur, agere possent.

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E sustentam que os príncipes das trevas viveram em sua pura

natureza e que no seu reino gozaram de saúde, de memória e de inteligência, porque, a seu ver, o príncipe das trevas pronunciou certa vez um discurso de índole tal, que, sem a ajuda de uma gran- de memória e de uma grande inteligência, nem ele teria podido pronunciá-lo nem seus ouvintes compreendê-lo; e acrescentam que havia neles uma perfeita harmonia entre as almas e os corpos; que eles reinaram pelo esplendor do poder; que possuíram imen- sas riquezas, e que tinham olhos dotados de grande agudeza, com os quais conseguiam ver de muito longe, conquanto necessitassem da luz para poder ver, razão por que justamente receberam o nome de archotes 4 ; e que desfrutaram da suavidade de todo o prazer e tinham membros proporcionados e habitações fixas. Há que admitir, também, que ali devia haver alguma bele- za, porque de outro modo não se teriam apaixonado pelas suas consortes, nem os seus corpos teriam conservado a harmoniosa

proporção das partes do corpo; se tal não tivesse havido, não teria sido possível realizar-se o que eles supõem nos seus desvarios. Também a paz era necessária ali, porque de outro modo não teriam obedecido ao seu príncipe.

E, se não tivesse havido ali algum modo, não teriam feito mais

que comer ou beber, ou perseguir cruelmente, ou qualquer outra coisa fora de qualquer sociedade; nem os que isso faziam teriam

tido uma forma determinada, se não tivesse havido ali certo modo; e eles se expressam de maneira tal, que não podem negar ter-lhes descrito as ações de acordo com modos convenientes. Devia haver ali alguma espécie, porque sem ela nenhuma qua- lidade natural poderia existir.

E devia haver alguma ordem, porque sem ela não seria possí-

vel uns mandarem e outros obedecerem, nem eles viveriam em harmonia com seus elementos, nem, por fim, haveria conveni- ência na disposição dos membros para que pudessem fazer o que aqueles nos contam.

4 - Recorde-se que, etimologicamente, o nome “Lúcifer” [lat. Lucifer] quer dizer: o que leva o archote. [N. do T.]

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Dei autem naturam si non mortuam dicunt, quid secundum eorum vanitatem suscitat Christus? Si non dicunt aegram, quid curat? Si non dicunt oblitam, quid commemorat? Si non dicunt insipientem, quid docet? Si non dicunt perturbatam, quid redintegrat? Si non victa et capta est, quid liberat? Si non eget, cui subvenit? Si non amisit sensum, quid vegetat? Si non est excaecata, quid illuminat? Si non est in dolore, quid recreat? Si non est iniqua, quid per praecepta corrigit? Si non est dedecorata, quid mundat? Si non est in bello, cui promittit pacem? Si non est immoderata, cui modum legis imponit? Si non est deformis, quid reformat? Si non est perversa, quid emendat?

Omnia enim haec a Christo, non illi rei praestari dicunt, quae facta est a Deo, et arbitrio proprio peccando depravata; sed ipsi naturae; ipsi substantiae Dei, quae hoc est quod Deus.

CAPUT XLII

Manichaeorum de Dei natura blasphemiae.

Quid istis blasphemiis comparari potest? Nihil omnino, sed si aliarum perversarum sectarum considerentur errores: si autem iste sibi error ex parte altera, de qua nondum diximus, comparetur, adhuc etiam multo peius et exsecrabilius in Dei naturam blasphemare convincitur.

Dicunt enim etiam nonnullas animas, quas volunt esse de substantia Dei et eiusdem omnino naturae, quae non sponte peccaverint, sed a gente tenebrarum, quam mali naturam dicunt, ad quam debellandam non ultro, sed patris imperio descenderunt, superatae et oppressae sint, affigi in aeternum globo horribili tenebrarum. Ita secundum eorum sacrilega vaniloquia, Deus se ipsum in quadam parte a magno malo

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Se todavia não consideram que a natureza de Deus morreu, o

que é que, de acordo com a sua vaidade, ressuscita Cristo? Se não

a consideram enferma, o que é que cura? Se não a consideram esquecida, o que é que recorda? Se não a acham ignorante, o que

é que ensina? Se não a acham desordenada, o que restabelece?

Se não se encontra vencida e cativa, o que liberta? Se não passa

necessidades, a quem socorre? Se não perdeu as faculdades, o que

é que a anima? Se não está cega, o que é que ilumina? Se não

padece dores, o que é que deleita? Se não é iníqua, o que é que corrige com preceitos? Se não está maculada, o que é que purifica? Se não está em guerra, a quem promete paz? Se não é imoderada,

a quem impõe a moderação da lei? Se não é disforme, o que é que restabelece? Se não é perversa, o que é que emenda? Mas todos esses bens são atribuídos por Cristo não ao que é

criado por Deus, e que o pecado do livre-arbítrio corrompeu, mas

à própria substância de Deus, que é o que Deus é.

CAPÍTULO 42

Blasfêmias dos maniqueus contra a natureza de Deus

A que se poderiam comparar tais blasfêmias? Não é possível com- paração alguma, se se analisam os erros de outras seitas, até as mais perversas; e, se examinarmos esse erro maniqueu de outro ângulo, que ainda não consideramos, descobriremos que tais blasfêmias contra a natureza de Deus envolvem algo ainda mais execrável e vicioso. Com efeito, eles sustentam que algumas almas, formadas da mesma substância e da mesma natureza de Deus, e que não ti- nham pecado livremente, mas foram vencidas e subjugadas pela raça das trevas, que eles chamam natureza do mal, contra a qual elas desceram para combater, não voluntariamente, mas por man- dado de seu pai, sustentam, digo, que essas almas são eternamente atormentadas na horrível esfera das trevas. E, ainda de acordo com

as suas sacrílegas fanfarronices, Deus libertou-se em certa parte do

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liberavit, et rursus se ipsum in quadam parte damnavit, quam liberare ab hoste non potuit, et tamquam de ipso hoste devicto insuper triumphavit.

O scelestam et incredibilem audaciam, talia de Deo credendi,

talia loquendi, talia praedicandi! Quod cum defendere conantur, ut in peiora irruant clausis oculis, dicunt malae naturae commixtionem facere ista, ut bona Dei natura tanta mala patiatur:

nam ipsam apud se ipsam nihil horum pati potuisse vel posse.

Quasi inde laudanda sit natura incorruptibilis, quia ipsa sibi non nocet, et non quia nihil ei noceri ab aliquo potest.

Deinde si natura tenebrarum nocuit naturae Dei, et natura Dei nocuit naturae tenebrarum; duo ergo mala sunt quae sibi

invicem nocuerunt, et meliore animo fuit gens tenebrarum, quia

et si nocuit, nolens nocuit: neque enim nocere, sed frui voluit

bono Dei. Deus autem illam exstinguere voluit, sicut Manichaeus apertissime in Epistola ruinosi sui Fundamenti delirat. Oblitus enim quod paulo ante dixerat: Ita autem fundata sunt eiusdem splendidissima regna supra lucidam et beatam terram, ut a nullo unquam aut moveri, aut concuti possint; postea dixit: Lucis vero beatissimae Pater, sciens labem magnam ac vastitatem quae ex tenebris surgeret, adversus sua sancta impendere saecula, nisi aliquod eximium ac praeclarum et virtute potens numen opponat, quo superet simul ac destruat stirpem tenebrarum, qua exstincta perpetua quies lucis incolis pararetur.

Ecce timuit labem ac vastitatem impendentem saeculis suis.

Certe sic erant fundata super lucidam et beatam terram, ut

a nullo unquam moveri aut concuti possent? Ecce a timore

nocere voluit vicinae genti, quam destruere et exstinguere conatus est, ut perpetua quies lucis incolis pararetur. Quare non addidit: et perpetuum vinculum? An illae animae quas

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grande mal e, em contrapartida, condenou-se em outra parte, que não pôde livrar do inimigo, e ainda por cima como que triunfou sobre o próprio inimigo subjugado. Oh, criminosa e incrível audácia, crer, dizer e pregar tais coisas

a respeito de Deus! E, para tentar defendê-las, eles se abalançam como cegos a afirmações ainda mais criminosas e sustentam que

é a mescla da natureza má o que faz com que a natureza de Deus,

que é boa em si, padeça grandes males, uma vez que por si mesma ela não pode nem nunca teria podido padecê-los. De acordo com isso, a natureza incorruptível deve ser louvada tão-somente porque não pode causar dano a si mesma, e não por- que não possa ser danada por outra natureza. Além do mais, se a natureza das trevas causou dano à natu- reza de Deus, e a natureza de Deus à das trevas, segue-se que há duas naturezas más que causaram dano uma à outra, sendo de melhor condição a das trevas, porque, se foi nociva, não o foi intencionalmente; porque não quis causar dano, mas desfrutar do bem de Deus. Ao contrário, Deus a tentou aniquilar, como clarissimamente tresvaria Mani na carta do seu ruinoso Funda- mento. Esquecido do que pouco antes dissera: “De tal maneira estava constituído o seu império sobre a terra, repleta de luz e bem-aventurança, que ninguém nem nada poderia abalá-lo nem destruí-lo”, diz em seguida: “O Pai da luz bem-aventurada, pre- vendo a imensa ruína que havia de surgir do seio das trevas para ameaçar o seu santo império, compreendeu que tinha de opor- lhes um poder divino imponente, que fosse capaz de superar e destruir a estirpe das trevas, para que, extinta essa estirpe, os habitantes da luz pudessem gozar de um repouso eterno”. Eis, pois, que Deus temeu a queda e destruição do seu império. Mas esse império não estava fundado sobre uma terra tão lumi- nosa e bem-aventurada que nada nem ninguém poderia abalá-la nem destruí-la? E eis que Deus, movido pelo temor, quis causar dano à nação vizinha, pretendendo vencê-la e aniquilá-la a fim de preparar para os habitantes da luz um repouso eterno. Por que não acrescentou: “e uma eterna escravidão”? Por acaso não eram habi- tantes da luz aquelas almas que acorrentou por toda a eternidade

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in globo tenebrarum in aeternum configit, non erant incolae lucis, de quibus aperte dicit, quod errare se a priore lucida sua natura passae sint? ubi et nolens coactus est dicere, libera eas voluntate peccasse, qui non vult peccatum ponere nisi in necessitate naturae contrariae: ubique nesciens quid loquatur, et tamquam ipse iam inclusus sit in tenebrarum globo quem finxit, quaerens qua exeat, et non inveniens.

Sed dicat quod vult seductis et miseris, a quibus multo amplius quam Christus honoratur, ut hoc pretio tam longas et tam sacrilegas eis fabulas vendat. Dicat quod vult, includat in globo tamquam in carcere gentem tenebrarum, et forinsecus affigat naturam lucis, cui de hoste exstincto quietem perpetuam promittebat.

Ecce peior est poena lucis quam tenebrarum, peior est poena divinae naturae quam gentis adversae. Illa quippe etsi in tenebris intus est, ad naturam eius pertinet in tenebris habitare: animae autem quae hoc sunt quod Deus, non poterunt recipi, sicut dicit, in regna illa pacifica, et a vita ac libertate sanctae lucis alienabuntur, et configentur in praedicto horribili globo: unde et adhaerebunt, inquit, iis rebus animae eaedem quas dilexerunt, relictae in eodem tenebrarum globo, suis meritis id sibi conquirentes.

Certe non est liberum voluntatis arbitrium? Videte quomodo insaniens quid dicat ignorat, et contraria sibi loquendo peius bellum contra se gerit, quam contra deum ipsius gentis tenebrarum.

Deinde si propterea damnantur animae lucis, quia dilexerunt tenebras; iniuste damnatur gens tenebrarum, quae lucem dilexit. Et gens quidem tenebrarum lucem ab initio dilexit, quam etsi violenter, tamen possidere voluit, non exstinguere: lucis autem natura in bello tenebras exstinguere voluit; eas ergo victa dilexit.

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na esfera das trevas, e das quais diz claramente que “padeceram a

separação da sua primitiva e luminosa natureza”? Dessa maneira, vê-se forçado a confessar, a contragosto, que elas pecaram por sua livre vontade, ele, que não quer admitir o pecado senão afirman- do a necessidade de uma natureza contrária, e que sem saber o que diz, e como se estivesse encerrado na mesma esfera tenebrosa que inventou, procura um meio para sair dele e não o encontra. Mas que ensine o que quiser aos miseráveis seduzidos por ele, os quais o honram muito mais que a Cristo, para poder vender-lhes ao baixo preço dessas honras tão longas e sacríle- gas fábulas. Que afirme o que lhe aprouver, que encerre naque-

la esfera, como numa prisão, toda a raça das trevas e deixe fora

dele a natureza humana, à qual se prometia, após a destruição do inimigo, a quietude perpétua. E eis que é maior a pena da luz que a das trevas, maior

a pena da natureza divina que a da raça inimiga, porque,

conquanto esteja esta engolfada nas trevas, é próprio da sua natureza habitar nelas; mas as almas que foram formadas da mesma substância de Deus não poderão ser recebidas naquele reino pacífico, como o qualifica ele, e assim serão alijadas da vida e da liberdade da luz santa, e serão colocadas na já referida horrível esfera, onde, como diz ele, “aderirão àquelas coisas que amaram, abandonadas na mesma esfera das trevas, de que elas

se tornaram credoras por merecimento próprio”. Por acaso carece de livre-arbítrio a vontade? Vejai como, à semelhança de um demente, ele ignora o que diz, e, afirmando coisas contrárias, move contra si mesmo uma guerra mais cruel que a movida contra Deus pela raça das trevas. Além disso, se as almas da luz são condenadas por terem ama- do as trevas, então é injustamente condenada a raça das trevas, que amou a luz. E certamente os habitantes das trevas amaram a luz desde o princípio e não quiseram extingui-la, mas possuí-la,

ainda que violentamente; a natureza da luz, porém, quis extinguir

as trevas na luta, passando a amá-las depois de vencida.

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Quod vultis eligite: utrum necessitate compulsa ut diligeret tenebras, an voluntate seducta. Si necessitate, quare damnatur? si voluntate, quare Dei natura in tanta iniquitate deprehenditur? Si necessitate Dei natura coacta est diligere tenebras, victa est ergo, non vicit: si voluntate, quid iam miseri dubitant peccandi voluntatem tribuere naturae quam Deus ex nihilo fecit, ne tribuant eam luci quam genuit?

CAPUT XLIII

Mala ante mali commixtionem multa tribui naturae Dei a Manichaeis.

Quid,sietiamostendimus,antecommixtionemmali,quamfabulose confictam dementissime crediderunt, in ipsa lucis natura, quam dicunt, magna mala fuisse? quid ad istas blasphemias addi posse videbitur? Illic enim fuit antequam pugnaretur, dura et inevitabilis pugnandi necessitas: ecce iam magnum malum antequam bono misceretur malum: dicant hoc unde, cum adhuc nulla esset facta commixtio. Si autem necessitas non erat, voluntas ergo erat: unde et hoc tam magnum malum, ut Deus ipse naturae suae nocere vellet, cui noceri ab hoste non poterat, mittendo eam crudeliter miscendam, turpiter purgandam, inique damnandam?

Ecce quantum malum perniciosae et noxiae et immanissimae voluntatis, antequam ullum malum de gente contraria misceretur.

An forte nesciebat hoc eventurum membris suis, ut diligerent tenebras et inimicae existerent sanctae luci, sicut ipse dicit, hoc est, non tantum Deo suo, sed etiam Patri de quo erant? Unde ergo hoc in Deo tam magnum ignorantiae malum, antequam ullum de gente contraria misceretur malum? Si autem hoc futurum sciebat, aut sempiterna in illo erat crudelitas, si de

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Escolhei o que vos aprouver: amou as trevas ou movida pela necessidade, ou por sua livre vontade. Se o fez por necessidade, por que é condenada? Se por sua livre vontade, por que se atribui à natureza de Deus tamanha iniqüidade? Se a natureza de Deus foi obrigada a amar as trevas, segue-se que não venceu, mas foi venci- da. Se as amou voluntariamente, por que hesitam esses miseráveis em atribuir a vontade de pecar à natureza que Deus fez do nada, para não ter de atribuí-la à luz que gerou de si mesmo?

CAPÍTULO 43

Os maniqueus supõem males na natureza de Deus antes de ela mesclar-se com o mal

Que dizer mais, se, como dissemos acima, antes de mesclar- se com o mal — mescla fabulosa em que eles tão dementemente acreditaram — já existiam grandes males nessa mesma nature- za que eles chamam natureza de luz? Que se pode acrescentar a tais blasfêmias? Uma vez que nela existia, antes de lutar, uma dura e inevitável necessidade de combater, e que essa necessi- dade era já um grande mal antes que o mal se mesclasse com o bem, que digam como pôde suceder isso quando ainda não se tinha dado a mescla. E, se não havia tal necessidade de lutar, deduz-se que a luta foi voluntária; neste caso, porém, de onde se terá originado esse tão grande mal de Deus mesmo querer causar dano à sua própria natureza, que o inimigo não podia danar, enviando-a para mesclá-la cruelmente, purificá-la tor- pemente e condená-la iniquamente? Aí está o grande mal de uma perniciosa, danosa e crudelíssima vontade, antes que se mesclasse com ela nenhum mal procedente da raça adversária. Porventura ignorava Deus o que havia de suceder aos seus mem- bros, que eles viriam a amar as trevas, tornando-se, assim, como disse Mani, inimigos da luz santa, ou seja, não somente inimigos de seu Deus, mas de seu Pai, do qual tinham saído? Mas como é

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suae naturae futura contaminatione et damnatione nihil dolebat; aut sempiterna miseria, si dolebat: unde et hoc tantum malum summi boni vestri ante ullam commixtionem summi mali vestri?

Ipsa certe particula naturae ipsius, quae in illius globi aeterno vinculo configitur, si hoc sibi imminere nesciebat, etiam sic erat in natura Dei sempiterna ignorantia; si autem sciebat, sempiterna miseria: unde hoc tantum malum, antequam ullum de gente contraria misceretur malum?

An forte magna caritate gaudebat, quia per eius poenam perpetua quies caeteris lucis incolis parabatur? Hoc quam nefas sit dicere qui videt, anathemet. Sed si hoc saltem ita faceret, ut ipsa luci inimica non fieret, posset fortasse non tamquam Dei natura, sed tamquam aliquis homo laudari, qui pro patria sua vellet mali aliquid pati, quod quidem malum ad tempus posset esse, non in aeternum: nunc vero et illam in globo tenebrarum confixionem dicunt aeternam, et non cuiusque rei, sed naturae Dei; et utique iniquissimum et exsecrabile et ineffabiliter sacrilegum gaudium erat, si Dei natura gaudebat se tenebras dilecturam, et luci sanctae inimicam futuram.

Unde hoc tam immane et scelestum malum, antequam ullum ex gente contraria misceretur malum? Quis tam perversam et tam impiam ferat insaniam, summo malo tribuere tanta bona, et summo bono, quod Deus est, tanta mala?

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possível que ocorresse em Deus esse tão grande mal de ignorância

antes que qualquer mal da raça inimiga se mesclasse com a sua natureza? E, se sabia que sucederia esse mal, ou havia nele uma crueldade sempiterna, se não se afligia com a futura contaminação

e condenação da sua natureza, ou vivia em contínuo desassossego,

se se afligia. Mas de onde provinha esse tão grande mal do vosso sumo bem antes da mescla com o vosso sumo mal? Sem dúvida alguma, se a parte da mesma natureza divina que se condena a viver eternamente escravizada naquela esfera não sabia que

a ameaçava esse mal, então igualmente se daria na natureza de Deus

sempiterna ignorância; e, se o sabia, era sempiterno o seu desassossego

— em ambos os casos, de onde provinha para Deus esse tão grande mal, antes que qualquer mal da raça inimiga se mesclasse com ele? Por acaso se comprazia Deus no gozo de uma imensa caridade, porque mediante o seu castigo se preparava um eterno repouso para os demais habitantes da luz? Quem compreender o absurdo de tal afirmação — amaldiçoe-a. Se ao menos a natureza divi- na agisse assim para não se tornar inimiga da luz, talvez pudesse ser louvada, não por ser natureza divina, mas do mesmo modo como se elogiaria um homem que quisesse sofrer algum mal pelo bem da sua pátria, mal que, evidentemente, seria temporal e não eterno. Eles dizem, porém, que é eterna a sujeição não de uma natureza qualquer, mas da natureza divina, na esfera das trevas. E, em verdade, se a natureza de Deus se alegrava porque viria a amar as trevas e tornar-se inimiga da luz santa, o seu regozijo seria iniqüíssimo, execrável e inefavelmente sacrílego. De onde, contudo, poderia proceder esse mal tão cruel e cri- minoso antes que qualquer mal causado pela raça inimiga se mes- classe com a natureza divina? Quem tolerará insânia tão perversa

e tão ímpia como o é atribuir tão excelentes bens ao sumo mal e tamanhos males ao Sumo Bem, que é Deus?

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CAPUT XLIV

Turpitudines incredibiles a Manichaeo excogitatae in Deo.

Iam vero quod ipsam partem naturae Dei dicunt ubique permixtam in coelis, in terris, sub terris, in omnibus corporibus siccis et humidis, in omnibus carnibus, in omnibus seminibus arborum, herbarum, hominum, animalium: non potentia divinitatis sine ullo nexu incoinquinabiliter, inviolabiliter, incorruptibiliter omnibus rebus administrandis regendisque praesentem, quod nos de Deo dicimus; sed ligatam, oppressam, pollutam, quam solvi, liberari, purgarique dicunt, non solum per discursum solis et lunae, et virtutes lucis, verum etiam per Electos suos: hoc genus nefandissimi erroris quam sacrilegas et incredibiles turpitudines eis suadeat, etiamsi non persuadeat, horribile est dicere.

Dicunt enim virtutes lucis transfigurari in masculos pulchros, et opponi feminis gentis tenebrarum; et easdem rursus virtutes lucis transfigurari in feminas pulchras, et opponi masculis gentis tenebrarum; ut per pulchritudinem suam inflamment spurcissimam libidinem principum tenebrarum, et eo modo vitalis substantia, hoc est, Dei natura, quam dicunt in eorum corporibus ligatam teneri, ex eorum membris per ipsam concupiscentiam relaxatis, soluta fugiat, et suscepta vel purgata liberetur.

Hoc infelices legunt, hoc dicunt, hoc audiunt, hoc credunt, hoc in libro septimo Thesauri eorum (sic enim appellant scripturam quamdam Manichaei, ubi istae blasphemiae conscriptae sunt) ita positum est: Tunc beatus ille Pater, qui lucidas naves habet diversoria et habitacula seu magnitudines, pro insita sibi clementia fert opem, qua exuitur et liberatur ab impiis retinaculis et angustiis atque angoribus suae vitalis substantiae. Itaque

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CAPÍTULO 44

Incríveis torpezas assacadas a Deus por Mani

Assim, pois, dizem que uma parte da mesma natureza de Deus se acha mesclada com todas as coisas, nos céus, na terra e debaixo da terra, em todos os corpos, secos ou úmidos, em toda e qualquer matéria, em todas as sementes das árvores e das ervas, dos homens e dos animais; e está mesclada não pela potência da divindade, como dizemos nós a respeito de Deus, sem nenhuma obrigação presente

de governar e reger todas as coisas, imaculada, inalterável e incor- ruptivelmente; mas está atada, opressa, maculada, e dizem que há de ser separada, libertada e purificada não só pelo curso do Sol e da Lua e pelas faculdades da luz, mas também pelos seus Eleitos.

É horrível expor um erro dessa espécie, tão nefasto que, ainda que

não os convença, os impele a sacrílegas e incríveis torpezas. Dizem eles, com efeito, que as faculdades da luz se transformam em belos varões que se opõem às mulheres da raça das trevas, e que essas faculdades da luz se transformam, depois, em belas mu- lheres que se opõem aos varões da raça das trevas, para que, com

a sua formosura, se excite a imunda libido dos príncipes das trevas

e, assim, a substância vital, isto é, a natureza de Deus, que dizem

se encontra ligada aos seus corpos, escape dos seus membros rela- xados pela concupiscência e se liberte, sofrida mas purificada. É isso o que esses desgraçados lêem, dizem, ouvem e crêem, como se vê no livro sétimo do seu Tesouro (nome que dão a certo escrito de Mani, onde estão compostas tais blasfêmias):

“Então o Pai santo, que tem belas barcas nos seus numerosos retiros e moradas, levou a cabo, pela sua natural clemência, uma obra que livrasse e depurasse a sua substância vital dos ímpios laços, das aflições, das angústias. Por um sinal invisível, trans- figura as suas virtudes que se acham naquela luminosa barca 5 ,

e as faz submeter-se às potências adversas que se ordenam em cada curso dos céus. Como estas são dotadas de ambos os sexos,

5 - O Sol. [N. do T.]

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invisibili suo nutu illas suas virtutes, quae in clarissima hac navi habentur, transfigurat, easque parere facit adversis potestatibus, quae in singulis coelorum tractibus ordinatae sunt. Quae quoniam ex utroque sexu masculorum ac feminarum consistunt, ideo praedictas virtutes partim specie puerorum investium parere iubet generi adverso feminarum, partim virginum lucidarum forma generi contrario masculorum: sciens eas omnes hostiles potestates, propter ingenitam sibi letalem et spurcissimam concupiscentiam facillime capi, atque iisdem speciebus pulcherrimis quae apparent mancipari, hocque modo dissolvi. Sciatis autem hunc eumdem nostrum beatum Patrem hoc idem esse, quod etiam suae virtutes, quas ob necessariam causam transformat in puerorum et virginum intemeratam similitudinem. Utitur autem his tamquam propriis armis, atque per eas suam complet voluntatem. Harum vero virtutum divinarum, quae ad instar coniugii contra inferna genera statuuntur, quaeque alacritate ac facilitate id quod cogitaverint, momento eodem efficiunt, plenae sunt lucidae naves. Itaque cum ratio poposcerit ut masculis appareant eaedem sanctae virtutes, illico etiam suam effigiem virginum pulcherrimarum habitu demonstrant. Rursus cum ad feminas ventum fuerit, postponentes species virginum, puerorum investium speciem ostendunt. Hoc autem visu decoro illarum ardor et concupiscentia crescit, atque hoc modo vinculum pessimarum cogitationum earum solvitur, vivaque anima quae eorumdem membris tenebatur, hac occasione laxata evadit, et suo purissimo aeri miscetur; ubi penitus ablutae animae ascendunt ad lucidas naves, quae sibi ad vectationem atque ad suae patriae transfretationem sunt praeparatae. Id vero quod adhuc adversi generis maculas portat, per aestus atque calores particulatim descendit, atque arboribus caeterisque plantationibus ac satis omnibus miscetur, et caloribus diversis inficitur. Et quo pacto ex ista magna et clarissima navi figurae puerorum ac virginum apparent contrariis potestatibus, quae in coelis degunt, quaeque igneam habent naturam; atque ex isto

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o masculino e o feminino, ele ordena que aquelas virtudes se

submetam, umas, em forma de rapazes nus, ao gênero contrário das moças, e as outras, em forma de virgens muito formosas, ao gênero oposto dos rapazes — e, sabedoras de que todas essas potências são hostis por causa de uma inata, fatal e imundíssi- ma concupiscência, deixam-se prender facilmente por aquelas formas mais belas, e assim se corrompem. Sabei também que o nosso Pai santo se identifica com as suas virtudes, as quais, em razão de uma causa necessária, ele transforma de acordo com

a aparência dos rapazes e das moças. Serve-se delas, como de seus próprios braços, para realizar a sua vontade. Essas virtu- des divinas se apresentam assim unidas diante da raça infernal, cumprindo entusiasmada, fácil e prontamente o que quer que se pense, e enchem as luminosas barcas. Quando a razão lhes exi- ge que se apresentem diante dos machos, essas santas virtudes logo revelam a sua figura de virgens formosas. Por outro lado, quando se apresentam diante das fêmeas, abandonam a espécie de virgens e mostram-se em forma de rapazes nus. Ante tal visão de beleza, cresce-lhes o ardor e a concupiscência, dissolvendo- se assim o vínculo dos seus detestáveis pensamentos, e a alma viva, que estava dominada pelos seus membros, escapa, apenas se dá a ocasião, e mescla-se com o ar puríssimo. Aí se purifica

e ascende até as luminosas barcas, preparadas para o seu trans-

porte e travessia até a pátria. O que porém ainda traz consigo as manchas da raça inimiga desce aos pedaços com o fogo e o calor, e mescla-se com as árvores e com todos os outros vege-

tais, impregnando-se nos vários humores. Desse modo, sobre a grande barca luminosíssima, aparecem as figuras dos rapazes

e das moças diante das potências contrárias que habitam nos

céus e são dotadas de natureza ígnea. Graças a essa atraente visão, elas libertam, fazendo-a descer à terra com o calor, a

parte da vida que se achava dominada pelos seus membros; assim, também aquela altíssima virtude que habita na barca das águas da vida 6 se apresenta, através dos seus anjos, em

6 - A Lua. [N. do T.]

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aspectu decoro, vitae pars quae in earumdem membris habetur, laxata deducitur per calores in terram: eodem modo etiam illa altissima virtus, quae in navi vitalium aquarum habitat, in similitudine puerorum ac virginum sanctarum per suos angelos apparet his potestatibus, quarum natura frigida est atque humida, quaeque in coelis ordinatae sunt. Et quidem his quae feminae sunt, in ipsis forma puerorum apparet: masculis vero, virginum. Hac vero mutatione et diversitate divinarum personarum ac pulcherrimarum, humidae frigidaeque stirpis principes masculi sive feminae solvuntur, atque id quod in ipsis est vitale fugit: quod vero resederit, laxatum deducitur in terram per frigora, et cunctis terrae generibus admiscetur.

Quis hoc ferat? quis hoc credat, non dico ita esse, sed vel dici potuisse? Ecce qui docentem timent anathemare Manichaeum, et non timent credere haec facientem et haec patientem Deum!

CAPUT XLV

Turpitudines quaedam nefariae de ipsis Manichaeis non immerito creditae.

Per Electos autem suos purgari dicunt eamdem ipsam commixtam partem ac naturam Dei, manducando scilicet et bibendo, quia eam in alimentis omnibus dicunt ligatam teneri; quae cum ab Electis velut sanctis in refectionem corporis manducando et bibendo assumuntur, per eorum sanctitatem solvi, signari et liberari.

Nec attendunt miseri, quam non incongrue de illis creditum sit, quod frustra negant, nisi eosdem libros anathemaverint, et Manichaei esse destiterint. Si enim, sicut dicunt, in omnibus seminibus est ligata pars Dei, et ab Electis manducando purgatur; quis non digne credat eos facere, quod inter virtutes

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forma de rapazes e moças, àquelas potências cuja natureza

é fria e úmida e que igualmente se ordenam nos céus. Ela aparece para as fêmeas em forma masculina, e para os ma- chos em forma feminina. Através dessa verdadeira mutação

e variedade de pessoas divinas e muito belas, dissolvem-se

os príncipes machos e fêmeas da estirpe úmida, escapando da sua substância vital. O restante escorre para a terra com

o frio, e mescla-se com todos os tipos de solos”. Quem poderá tolerar isso? Quem acreditará — já nem digo — que isso se passe assim, mas que se possa dizer isso? Eis que se receou anatematizar esse ensinamento de Mani e não se receia crer que Deus tenha feito ou suportado seme- lhantes coisas!

CAPÍTULO 45

Nefandas torpezas atribuídas com justiça aos maniqueus

Afirmam os maniqueus que essa mesma parte da natureza de Deus que está mesclada com o mal se purifica quando eles comem e bebem, porque dizem que ela está sujeita e ligada

a todos os alimentos, e que, comendo-as e bebendo-as os

Eleitos — santos fossem —, por meio da sua santidade ela é desprendida, assinalada e libertada. Não se dão conta esses miseráveis de que não sem ra- zão se seguirá atribuindo-se-lhes o que em vão eles tentam negar, enquanto não anatematizem os seus livros e não deixem de ser maniqueus. Porque, se, como afirmam, em todas as sementes está ligada e encerrada uma parte da natureza de Deus, que é purificada pelos Eleitos quando a comem, quem não acreditará firmemente que eles fazem o mesmo que, como lêem no seu Tesouro, fazem os príncipes das trevas, uma vez que dizem que os seus corpos procedem da raça das trevas, e que neles está ligada e sujeita aquela

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coelorum et principes tenebrarum fieri in Thesauro suo legunt; quandoquidem et carnes suas de gente tenebrarum esse dicunt, et in eis ligatam teneri vitalem illam substantiam, partem Dei, credere atque affirmare non dubitant? Quae utique si solvenda est, et manducando purganda, sicut eos fateri cogit funestus error ipsorum; quis non videat, quis non exhorreat, quanta turpitudo et quam nefaria consequatur?

CAPUT XLVI

Epistolae Fundamenti nefaria doctrina.

Nam et a quibusdam principibus gentis tenebrarum sic dicunt Adam primum hominem creatum, ut lumen ab eis ne fugeret teneretur.

In epistola enim quam Fundamenti appellant, quomodo princeps tenebrarum, quem patrem primi hominis inducunt, ad ceteros socios suos tenebrarum principes locutus fuerit et egerit, ita scripsit Manichaeus: Iniquis igitur commentis ad eos qui aderant ait: Quid vobis videtur maximum hoc lumen quod oritur? Intuemini quemadmodum polum movet, concutit plurimas potestates. Quapropter mihi vos potius aequum est, id quod in vestris viribus habetis luminis praerogare: sic quippe illius magni qui gloriosus apparuit, imaginem fingam, per quam regnare poterimus, tenebrarum aliquando conversatione liberati.

Haec audientes, ac diu secum deliberantes, iustissimum putaverunt id quod postulabantur praebere. Nec enim fidebant se idem lumen iugiter retenturos: unde melius rati sunt principi suo id offerre, nequaquam desperantes eodem se pacto regnaturos.

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substância vital que é uma parte de Deus? E, se esta há de ser libertada e purificada quando a comem, como os obriga a confessar o seu funesto erro, quem não verá, quem não repugnará as muitas e nefandas torpezas que das suas doutrinas se seguem?

CAPÍTULO 46

Nefanda doutrina da carta chamada Fundamento

Sustentam eles, ademais, que Adão, o primeiro homem, foi criado por alguns príncipes das trevas, para que a luz ficasse retida e não lhes escapasse. Com efeito, na carta que eles chamam de Fundamento, Mani escreve o seguinte acerca da maneira como o príncipe das trevas, que eles julgam ser o pai do primeiro homem, te- ria falado e se teria dirigido aos demais príncipes das trevas, consortes seus:

“Com iníquas invenções disse aos que estavam com ele:

— Que achais desta altíssima luz que nasce? Vede como ela move o pólo e abala uma multidão de potestades. Por isso é con- veniente que eu comece pedindo-vos a parte de luz que conservais em vosso poder, a fim de com ela reproduzir a imagem desse Gran- de que surge em toda a sua glória — com ela poderemos reinar e libertar-nos da morada das trevas. “Após ouvirem tais palavras e ponderarem longamente, eles julgaram que era muito justo anuir ao que se lhes tinha pedido. Como nem sequer estavam seguros de que haviam de conser- var para sempre aquela luz, acharam por bem oferecê-la ao seu príncipe, esperando assim que, através desse pacto, chegassem a reinar um dia. “Temos de considerar agora a maneira como ofereceram aquela luz que mantinham em seu poder. Isso está exposto em todas as Escrituras divinas e nos Arcanos celestes. E não é

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Quo igitur modo lumen illud quod habebant praebuerint, considerandum est. Nam hoc etiam omnibus divinis scripturis arcanisque coelestibus aspersum est: sapientibus vero quomodo sit datum scire minime est difficile: nam coram aperteque cognoscitur ab eo qui vere ac fideliter intueri voluerit. Quoniam eorum qui convenerant frequentia promiscua erat, feminarum scilicet ac masculorum, impulit eos ut inter se coirent: in quo coitu alii seminarunt, aliae gravidae effectae sunt. Erant autem partus iis qui genuerant similes, vires plurimas parentum uti primi obtinentes. Haec sumens eorum princeps uti praecipuum donum gavisus est. Et sicuti etiam nunc fieri videmus, corporum formatricem naturam mali inde vires sumentem figurare: ita etiam ante dictus princeps sodalium prolem accipiens, habentem parentum sensus, prudentiam, lucem simul secum in generatione procreatam, comedit; ac plerisque viribus sumptis ex istiusmodi esca, in qua non modo inerat fortitudo, sed multo magis astutiae et pravi sensus ex fera genitorum gente, propriam ad se coniugem evocavit, ex ea qua ipse erat stirpe manantem; et facto cum ea coitu, seminavit, ut caeteri, abundantiam malorum quae devoraverat: nonnihil etiam ipse adiiciens ex sua cogitatione ac virtute, ut esset sensus eius omnium eorum quae profuderat formator atque descriptor; cuius compar excipiebat haec, ut semen consuevit culta optime terra percipere. In eadem enim construebantur et contexebantur omnium imagines, coelestium ac terrenarum virtutum, ut pleni videlicet orbis, id quod formabatur, similitudinem obtineret.

CAPUT XLVII

Turpitudines horribiles cogit perpetrare.

O monstrum scelestum! o exsecranda perditio et labes deceptarum animarum! Omitto quid sit, de natura Dei quod sic ligetur, haec dicere. Hoc saltem attendant miseri decepti et errore mortifero venenati,

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muito difícil para os sábios chegar a sabê-lo, porque se revela clara e distintamente a quem queira investigar com verdade e fidelidade. Uma vez que entre os que se reuniram era abun- dante a mistura de moças e rapazes, ele estimulou-os a copular entre si; nesse coito, estes lançaram a semente, e aquelas foram fecundadas. Os rebentos assemelhavam-se aos progenitores, e recebiam, como primícias, a maior parte dos dotes dos pais. Tomando-os como a um dom precípuo, o seu príncipe jubilou- se; procedeu como o príncipe formador da natureza corpórea, o qual vemos utilizar as forças daquela natureza má para com elas moldar mais e mais; apossou-se da prole dos consortes, a qual fora dotada com o sentido e a prudência paterna, e devorou a luz que com eles havia sido procriada, obtendo assim, como alimento, grande parte das forças dotadas não só do vigor mas também da astúcia e da malícia da cruel raça dos progenitores; tomou para si, para um ato conjugal, uma esposa da sua estirpe, e, copulando com ela, fecundou-a com os abundantes males que devorara; e igualmente juntou parte do seu pensamento e vigor, para que o seu sentido permanecesse na forma e imagem de todos os elementos que ele disseminara; sua companheira tudo acolhia, tal qual uma terra excelentemente trabalhada costuma receber a semente. Nela se construíram e compuse- ram as imagens de todas as virtudes celestes e terrenas, para que, como claramente se pode ver, aquilo que se formava re- produzisse o universo inteiro”.

CAPÍTULO 47

Mani obriga a praticar essas horríveis torpezas

Oh, sacrílega desgraça! Oh, execrável perdição e ruína das almas enganadas! Abstenho-me de qualificar o que é dizer tais coisas a respeito da natureza de Deus, que se vê assim aprisionada. Ao menos, porém, atentem esses miseráveis seduzidos e envene-

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quia si per coitum masculorum et feminarum ligatur pars Dei, quam se manducando solvere et purgare profitentur, cogit eos huius tam nefandi erroris necessitas, ut non solum de pane et oleribus et pomis, quae sola videntur in manifesto accipere, sed inde etiam solvant et purgent partem Dei, unde per concubitum potest, si feminae utero concepta fuerit, colligari.

Hoc se facere quidam confessi esse in publico iudicio perhibentur, non tantum in Paphlagonia, sed etiam in Gallia, sicut a quodam Romae christiano catholico audivi: et cum interrogarentur, cuius auctoritate scripturae ista facerent, hoc de Thesauro suo prodidisse, quod paulo ante commemoravi. Isti autem cum hoc eis obiicitur, solent respondere, nescio quem inimicum suum de numero suo, hoc est, Electorum suorum descivisse, et schisma fecisse, atque huiusmodi spurcissimam haeresim condidisse.

Unde manifestum est, quia hoc etiam si isti non faciunt, de ipsorum libris hoc faciunt quicumque faciunt. Abiiciant ergo libros, si crimen exhorrent, quod committere coguntur, si libros tenent; aut si non committunt, mundius vivere contra suos libros conantur.

Sed quid agunt, cum eis dicitur: Aut purgate lumen, de quibus potueritis seminibus, ut nec illud recusetis, quod vos non facere asseritis; aut Manichaeum anathemate, qui cum dicit in omnibus seminibus esse partem Dei, et concumbendo ligari; quidquid autem luminis, hoc est, eiusdem partis Dei ad escas Electorum pervenerit, manducando purgari: quid vobis suadeat videtis, et eum adhuc anathemare dubitatis? Quid agunt, inquam, cum hoc eis dicitur? Ad quas tergiversationes se convertunt, cum aut tam nefaria doctrina sit anathemanda, aut tam nefaria turpitudo facienda in cuius comparatione iam illa omnia mala quae intolerabilia paulo ante commemorabam, eos de natura Dei dicere, quod necessitate oppressa sit ut bellum gereret, quod aut sempiterna ignorantia secura erat, aut sempiterno dolore et

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nados pelo erro mortífero a que, se pela união dos elementos ge- radores masculino e feminino é encadeada uma parte da natureza de Deus, que eles supõem e afirmam que se liberta e purifica pelo ato de comer, atentem, digo, a que por isso estão obrigados, como conseqüência necessária de tão nefando erro, a declarar que não é só pelo ato de comer pão, legumes e frutas, os únicos alimentos que eles dizem aceitar, mas também pela união sexual que liber- tam e purificam aquela parte da natureza de Deus aprisionada ao ser concebida num útero de mulher. Com efeito, houve quem confessasse em juízo público ter co- metido tais atos, não só na Paflagônia, mas na Gália, como ouvi de certo cristão católico de Roma; e, ao serem interrogados sob que autoridade das Escrituras os cometiam, citaram o Tesouro, a que já aludi. Quando porém se lhes objetam tais coisas, costumam responder que desconhecem qual foi o inimigo do grupo dos seus Eleitos que se revoltou, provocando um cisma e fundando, assim, aquela obscena heresia. Por isso é evidente que, se há quem não cometa tais atos, os que o cometem fazem-no apoiados naqueles livros. Desfaçam-se, pois, de tais livros, se aborrecem o delito que se vêem forçados a cometer, se os conservam; mas, se ainda os conservando não o cometem, procurem viver contra o conteúdo desses seus livros, mais decentemente. Mas o que fazem quando se lhes diz: ou purificai a luz de to- das as sementes que puderdes, para não terdes de recusar o que afirmais não fazer, ou amaldiçoai Mani, que diz que em todas as sementes há uma parte de Deus aprisionada pela cópula e que tudo o que é de luz, ou seja, daquela parte de Deus que é tomada para sustento dos Eleitos, se purifica ao ser comida? Vedes o que ele vos aconselha, e ainda hesitais em anatematizá-lo? Que fazem, repito, quando se lhes diz isso? A que tergiversações não recor- rem, quando ou anatematizam doutrina tão nefanda ou cometem torpezas tão nefandas, que, comparadas com os males acima refe- ridos e atribuídos à natureza de Deus — que foi por necessidade que ela gerou a guerra; e que ou se encontrava imperturbável, numa sempiterna ignorância, ou inquieta, por uma dor e angústia

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timore sollicita, quando sibi veniret corruptio commixtionis et vinculum aeternae damnationis, quod denique gesto bello sic fuerit captivata, oppressa, polluta, quod post falsam victoriam sic futura sit in horribili globo in aeternum confixa et ab originis suae felicitate separata, tolerabilia videantur, cum per se ipsa, si considerentur, sustineri non possint?

CAPUT XLVIII

Orat Augustinus pro Manichaeorum resipiscentia.

O magna patientia tua, Domine misericors et miserator,

longanimis et multum misericors, et verax; qui facis oriri solem tuum super bonos et malos, pluis super iustos

et iniustos; qui non vis mortem peccatoris, quantum ut

revertatur et vivat; qui partibus corripiens, das locum poenitentiae, ut relicta malitia credant in te, Domine; qui patientia tua ad poenitentiam adducis, quamvis multi secundum duritiam cordis sui et cor impoenitens thesaurizent sibi iram in die irae et revelationis iusti iudicii tui, qui reddis unicuique secundum opera sua; qui in qua die conversus fuerit homo a nequitia sua ad misericordiam et veritatem tuam, omnes iniquitates eius oblivisceris: praesta nobis, dona nobis, ut per nostrum ministerium, quo exsecrabilem et nimis horribilem hunc errorem redargui voluisti, sicut iam multi liberati sunt, et alii liberentur, et sive per sacramentum sancti Baptismi tui, sive per sacrificium contribulati spiritus et cordis contriti et humiliati, in dolore poenitentiae, remissionem peccatorum et blasphemiarum suarum, quibus per ignorantiam te offenderunt, accipere mereantur. Tantum enim valet praepollens misericordia et potestas tua et veritas Baptismi tui, clavesque regni coelorum in sancta Ecclesia

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sempiternas, temendo o momento em que sofreria a corrupção da

mescla e a sujeição da condenação eterna; ou finalmente que, de- clarada a guerra, foi aprisionada, subjugada, maculada e, após uma vitória fictícia, há de ser encerrada para sempre na horrível esfera

e

separada da felicidade original —, todos esses males que, se em

si

mesmos considerados são já insuportáveis, parecem toleráveis.

CAPÍTULO 48

Oração de Agostinho pela conversão dos maniqueus

Oh! quão grande é a tua paciência, Senhor misericordioso e compassivo, longânime, e misericordiosíssimo, e veraz [Sal. CII, 8]; tu, que fazes nascer o sol sobre bons e maus, e mandas chuva sobre justos e injustos [Mat. V, 45); que n ã o queres a morte do pecador, mas sim que se converta e viva [Ezeq. XXXIII, 11]; que corrigindo os extraviados lhes dá lugar à penitência, para que, deixada a malícia, creiam em ti, Senhor [Sab., XII, 2]; que com a tua paciência convidas os pecadores à penitência, ainda que mui- tos, pela dureza e impenitência do seu coração, vão acumulando um tesouro de ira para o dia da ira e da manifestação do teu justo juízo de Deus, o qual há de dar a cada um segundo as suas obras [Rom. II, 4-6]; que em qualquer dia em que o homem se converte da sua maldade à tua misericórdia e verdade te esqueces de todas as suas iniqüidades [Ezeq. 18, 22], concede-me, Senhor, concede- me que pelo nosso ministério, pelo qual quiseste se refutasse esse execrável e horribilíssimo erro, assim como muitos já se viram livres dele, assim também se vejam livres dele os demais, e faz com que todos, seja pelo sacramento do teu santo Batismo, seja pelo sacrifício do espírito compungido e do coração contrito e humilhado [Sal. L, 19], pela dor da penitência, mereçam receber o perdão dos seus pecados e blasfêmias, com os quais por ignorância te ofenderam. Pois tão eficazes são a tua misericórdia e o teu po- der, e a verdade do teu Batismo, e tanto podem as chaves do reino

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tua, ut nec de illis desperandum sit, quamdiu in hac terra per tuam patientiam vivunt, qui etiam scientes quantum malum sit talia de te sentire vel dicere, propter aliquam temporalis et terrenae commoditatis consuetudinem vel adeptionem in illa maligna professione detinentur, si ad tuam ineffabilem bonitatem saltem increpati tuis correptionibus fugiant, et omnibus carnalis vitae illecebris coelestem vitam aeternamque praeponant.

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dos céus confiadas à tua santa Igreja, que não se deve desesperar da conversão de todos os que, vivendo pela tua paciência nesta terra e sabendo embora quão grande é o mal de sentir e dizer de ti semelhantes coisas, permanecem ainda, ou por costume ou pela aquisição de alguma comodidade temporal e terrena, na sua maligna profissão, e faz, Senhor, com que pelas tuas repreensões e avisos se refugiem na tua inefável bondade, e anteponham a todas as seduções da vida carnal o bem da vida celestial e eterna.

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