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(*) Leila Maria Passos é Doutora em Sociologia (UFC), Professora do Curso de 233

Serviço Social da UECE e Coordenadora do Laboratório de Estudos e Pesquisas em
Afrobrasilidade, Gênero e Família (NUAFRO). @ leila.passos777@yahoo.com.br
Alba Maria Pinho de Carvalho é Doutora em Sociologiav(UFC), com pós-doutorado pelo
Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra/Portugal.Professora do
Departamento de Ciências Sociais e do PPG-UFC e membro da Rede de Pesquisadores
Universitários sobre América Latina (RUPAL). @ albapcarvalho@gmail.com

Medo e insegurança nas
margens urbanas:
uma interpretação do “viver acuado” em territórios
estigmatizados do Grande Bom Jardim

Fear and (in)security in urban margins:
an interpretation of “live cornered” in stigmatized
territories of Greater Bom Jardim

Leila Maria Passos*
Alba Maria Pinho de Carvalho*

RESUMO: Este artigo interpreta produções discursivas sobre as margens urbanas Palavras-chave:
como espacialidade de medo e inseguranças, sob o ponto de vista de residentes margens urbanas;
de territórios estigmatizados da região do Grande Bom Jardim, em Fortaleza- territórios
estigmatizados;
Ce. Trata-se de recorte de minha tese de doutoramento sobre significações
medo e
de pobreza e lugar(es) ensejadas nas margens urbanas nesta metrópole nos insegurança.
anos 2000. Optei pela pesquisa qualitativa, com a adoção da observação
participante e entrevistas etnográficas. Realizei estudo socioantropológico
circunstanciado em dois territórios desta região, sobre os quais recaem
estigmatizações e segregações socioterritoriais e de desqualificação social
de seus residentes em condição de pobreza. Nestes espaços, delineiam-se
lutas simbólicas cotidianas e intraterritoriais urdidas entre seus residentes
em relação aos sentidos atribuídos aos seus locais de moradia. Problematiza-
se, aqui, aversão que concebe o território vivido como espacialidades de
medo e inseguranças sintonizadas com práticas topofóbicas de habitá-las e
sociofóbicas de evitação social. Tal perspectiva demarca tendências de um
“viver acuado” nestes espaços, a exigir reflexões multivocais e polissêmicas
sobre o viver nas margens urbanas em tempos contemporâneos, considerando
a face hibridizada do Estado assistencial-punitivo atuante nesta região.

I ntrodução
Este artigo aborda produções discursivas sobre as margens urbanas (TELLES,
2010) em tempos contemporâneos. Interpreto narrativas e experiências
de residentes de territórios estigmatizados (WACQUANT, 2005) da região

O público e o privado - Nº 26 - Julho/Dezembro - 2015

234 Leila Maria Passos
Alba Maria Pinho de Carvalho

1 Situada na zona sudo- do Grande Bom Jardim1, em Fortaleza-Ce, que significam seus locais de
este de Fortaleza-Ce, a
região do Grande Bom
moradia como espacialidades de medo e inseguranças. Trata-se de recorte
Jardim é formada pelos específico de minha tese de doutoramento em sociologia sobre as significações
seguintes bairros ofi- de pobreza/ “ser pobre” e lugares nas margens urbanas desta metrópole,
ciais: Granja Portugal, sob os pontos de vista de seus moradores. Busquei trazer, ao centro deste
Bom Jardim, Caninde-
zinho, Granja Lisboa e debate público, os esquemas classificatórios (BOURDIEU, 1996; 1997;
Siqueira. Possui uma 2009) usados pelos(as) narradores(as) nestes espaços, adensando um
população de 175.144 campo multivocal e polissêmico de reflexões sobre suas experiências e
habitantes, segundo
registro do censo do
ressignificações, fabricadas/reproduzidas no viver nas margens das margens,
Instituto Brasileiro de em condições espacializadas da pobreza na contemporaneidade.
Geografia e Estatísti-
ca (IBGE) de 2000.
Além de região mais
Esta pesquisa ensejou uma versão crítico-interpretativa circunstanciada em
populosa de Fortaleza, territórios de fronteiras desta região, conhecidos e reconhecidos localmente
é também considerada como “áreas de riscos geográficos”2 e “favelas”3, marcados por elevados
uma das mais violen- indicadores sociais de pobreza socioeconômica e violência urbana4. Sobre
tas e de concentração
de pobreza e extrema estes recaem estigmatizações socioterritoriais com efeitos de desqualificação e
pobreza da capital, ele- aviltamento sociais de seus residentes nos contextos de Fortaleza e do Grande
mentos fundamentais Bom Jardim. Na linguagem dos próprios narradores, seus lugares praticados
para considerá-lo um
território duplamente
(CERTEAU, 1994) constituem, sob o olhar de não residentes (nomeados os
estigmatizado. Concen- “de fora”), o “vixe do vixe” de uma região inscrita nas margens de Fortaleza.
tra elevados indicado- Espaço urbano posto sob acusações sociomorais e criminalizações a priori
res de pobreza/extrema
reprojetadas sobre seus moradores.
pobreza e de violência
urbanas da capital. Faz
parte da Secretaria Exe- Visibilizados como locais de cristalização de pobreza e violência urbana, o
cutiva Regional V, uma Grande Bom Jardim e seus territórios constitutivos – na radicalidade das suas
das seis unidades ad-
ministrativas em que se
reconhecidas “favelas e becos” – são submetidos a modelizações negativadas
encontra dividida o mu- propaladas no senso comum fortalezense, amplamente disseminadas
nicípio de Fortaleza-Ce. nestes anos 2000 sobre a figura dos “pobres das periferias”5, seja como
encarnação do mito de retorno das classes perigosas (ZALUAR, 2000), seja
2 Áreas de risco geo-
gráfico são definidas como símbolo do “fracasso social” neste modo de vida capitalista em tempos
segundo critérios físi- contemporâneos (BAUMAN, 2013). Tais processos encontram-se travejados
co-geográficos, a saber: por tensões, conflitos, esquivas, recusas e/ou reproduções dos discursos
inundações, alagamen-
hegemônicos sobre pobreza/“ser pobre” e lugares fabricados nestas margens,
to, deslizamentos e des-
moronamento. Nos três segundo quem as vivencia, ressignifica e recria cotidianamente. Instauram-
bairros escolhidos – se lutas de classificações entre e intraterritórios da região do Grande Bom
Genibaú, Granja Portu- Jardim e no contexto de Fortaleza.
gal e Bom Jardim – des-
taco as seguintes áreas
de risco com seus res- Configuram-se lutas simbólicas entre discursos de requalificação/
pectivos quantitativos ressignificação e de desqualificação/estigmatização desta região e, por
de famílias atingidas: conseguinte, de determinados territórios constitutivos e de seus moradores.
Comunidade do Capim
(407), Maranguapinho Sobre estes recaem, com maior densidade, estigmas socioterritoriais, ora
II (1.516), Canal de recusados e/ou dissimulados, ora reproduzidos e fortalecidos nos esquemas

mento clandestinos e ir- regulares (as invasões). fave- las envolvem distintos distintiva ganhou relevância no universo simbólico dos(as) narradores(as): territórios de pobreza. distantes”. remetidas ao espaço privado. cujas unidades habitacionais. a partir de mobilizações e Mela-Mela (Novo Mun- debates gestados por segmentos organizados da sociedade civil da região. múltiplos agentes travam. tais como os conjuntos demarcatória de fronteiras simbólicas entre os “(des)iguais” geograficamente habitacionais. sob os pontos blica ou privada. em seus microcontextos de experiência.205) e Pantanal do por outro. ou socialmente. nos anos 1980/1990. Os(as) seja. sobretudo. reelaboram suas autoimagens Fortaleza-Ce: um estu- – suas percepções do “nós” – e demarcam fronteiras simbólicas. com efeitos reais. assim. um conjunto de O público e o privado . intraterritórios. no espaço público e coletivizado. lutas de classificação des brasileiras. distantes e evitáveis do da Silva (2008). M. ditos socialmente “próximos” e “distantes”. muitas situadas nas chamadas entre seus “(des)iguais”. ocorrem no cotidiano. P. 2009. menos visibilizadas. lotea- próximos e socialmente distantes em seus lugares praticados. E. es- 2006) e das estigmatizações socioterritoriais que sobre estes recaem na tão presentes nas cida- contemporaneidade. como práticas individualizadas e privatizadas nas versões te à violência. casas de alvenaria. compreender tais lutas empreendidas pelos da Municipal e Defesa Civil de Fortaleza – Co- moradores nesta segunda dimensão. Diagnóstico Social de urbanas de Fortaleza-Ce. Táticas que se desdobram na produção de fronteiras simbólicas. Dados relativos âmbitos individual e/ou grupal. simultaneamente. Além de reclassificações estabelecidas entre quem áreas de risco geográfi- nega a figura do “pobre” e a pobreza como autoreferências – traduzida na co ou áreas insalubres. bairros pobres e perifé- Estas microtáticas de distinção social com relação às modelizações ricos. na tese. em termos daqueles 4 Concebo a violência considerados não pertencentes aos territórios vividos e/ou às suas teias urbana na acepção de- senvolvida por Macha- relacionais. por um lado. em distintos espaços e níveis: Canal Leste (784). “ser pobre” e lugares.Julho/Dezembro . percebidos como estranhos. sendo comum designá-los de “os perigosos” do lugar. Sua tematização negativadas projetadas sobre os ditos “pobres das periferias” emergiram.Medo e insegurança nas margens urbanas: uma interpretação do “viver acuado” 235 em territórios estigmatizados do Grande Bom Jardim classificatórios locais. Apontaram tanto para as recusas. de vista de residentes de territórios estigmatizados do Grande Bom Jardim. de S. desse modo.2015 . entre residentes da região. como para a reprodução e o Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo. Maranguapinho I (990). uma (des)classificação hierárquica dos “pobres” em seus territórios vividos6. esquivas e/ou reclassificações sociais relativas à “pobreza” e ao “ser tomando por referência pobre”. em que os narradores enunciam suas ordenadoria Municipal microtáticas individualizadas e/ou grupais de distinção social em relação aos de Fortaleza. pú- ressemantizações das categorias pobreza. do .Nº 26 . Bom Jardim efetivam-se. versão local de uma pobreza individualizada e privatista – outra microtática Para Leite (2008). 3 Kowarick (2009) defi- ne favelas como ocupa- Dentre as lutas simbólicas ensejadas. Estas lutas de classificações em curso no Grande Moçambique (107). nos Parque Santo Amaro (188). relacionada diretamen- tendencialmente. L. construídas a partir de reclassificações de pessoas e lugares espaços urbanos. barracos de madeira ou Em suas microtáticas de desprender-se do “desvalor dos pobres” (SOUZA. centrei naquelas urdidas em torno das ção de terra alheia. a novembro de 2008 fornecidos pela Guar- Interessou-me. Ver BE- discursos negativados e projetados sobre si e seus espaços nestas margens ZERRA. insegu- rança e medo iniciou-se dos(as) interlocutores(as) de pesquisa. mas extensivas a outras ci- transferência dos estigmas socioterritoriais remetidos aos seus “próximos- dades brasileiras. entre e do da questão social nos intraterritórios.

Nas palavras do autor. para mim. 2007). optei pela metodologia ções do uso do termo qualitativa. 2010.. Eis alguns dos eixos-tendências centrais rência pelo Estado para apreendidos nesta pesquisa que se constituem. Importa salientar que . em desafiador demarcar os territórios de vulnerabilidade e mosaico polissêmico e multivocal acerca das experiências espacializadas riscos sociais. ências vividas na cida. duas condições básicas do sentimento de segu- rança existencial que Em processos homólogos e entrelaçados às relacionais reclassificações costumava acompanhar internas e hierarquizações dos “(des)iguais” em suas versões de pobreza(s)/ a vida cotidiana rotinei- ra: a integridade física “ser pobre”. que ameaça tornou possível a partir da simbólica das relações sociais neles localizados. Adotei aportes teórico-metodológicos da antropologia cultural. Fortaleza. que SILVA. 2002) outras dimensões e tendências do viver nas margens das margens de. de um “viver acuado” e de seu correlato “saber viver” nestas margens de 5 Apesar das limita. selecio- nadas pelo aspecto da direção. Saliento a existência apontam para tendências de adensamento defragmentações. Estruturam-se fronteiras nial” (MACHADO DA simbólicas sobre pessoas e seus lugares na região do Grande Bom Jardim. optei por adotá-la ocorreu nos anos de 2010 a 2012. entrevistas etnográficas (BEAUD. Espaços urbanos atravessados por moradores da região do Grande Bom Jardim e medos difusos (BARREIRA. foco do ticas legal e adminis. .236 Leila Maria Passos Alba Maria Pinho de Carvalho práticas sociais que ad. E enunciam traços vessam o cotidiano dos de um “viver acuado” nestes territórios.) indica um complexo de prá- olhares de quem os vivencia. Adentrar na simbólica destes lugares só se todas elas. periferia. hiperindividualização7 e reprivatização das microtáticas de da violência que atra. um “saberviver” nestas margens urbanas nos anos 2000. M. 36). O trabalho de campo mete. estes narradores enunciam distintos e ambíguos sentidos de e a garantia patrimo. Conferir e pluridimensionais de pobreza urbana que venho tentando compreender. e narradas por seus residentes. especializada da pobreza urbana. nos cia urbana “(. como espacialidades de medos e inseguranças. presente artigo. a partir da qual se torna possível falar da estigmatizados desta região escolhidos como lócus empírico8. 2008) e inseguranças sociocivis experienciadas são tomadas por refe. cujo núcleo de sen. A outra dimensão das lutas simbólicas apreendida nestes territórios. Fortaleza-Ce. do Grande Bom Jardim sobre seus locais de moradia.WEBER. Nesta como crime. Os(as) região do Grande Bom narradores(as) são residentes destes territórios. ora significados cial nos espaços urba. L. Compreender as experiências da pobreza urbana exigiu trativamente definidas apreender seus enraizamentos nos lugares praticados pelos narradores. Versão nativa delineadora nos. estigmatizações de outras expressões socioterritoriais.. Diagnóstico Social de Fortaleza-Ce: uma Este artigo propõe-se a interpretaras produções discursivas de residentes análise da questão so. diferentes sistemáticas e temporalidades de realização em dois territórios zada. de S. lugares atribuídos a seus espaços de moradia. com abreviado retorno em 2013. BEZERRA. diz respeito aos sentidos de lugares. sobretudo em fazendo uso da observação participante. identifiquei outra versão de pobreza: a que associa configurações força física presente em de pobreza e local de moradia. a representação da violên. narradores(as) implodem discursos correntes de “pobreza”/“ser pobre” na quirem sentido para os atores em suas experi- atualidade e trazem em seus conceitos nativos (VIVEIROS DE CASTRO. Teve como categoria relativi. Para apreensão do objeto em tela. P. 2008: p. do diário de campo e das termos das estigmatiza- ções sociais a que re. do Grande Bom Jardim que permitem falar de uma pluridimensionalidade tido consensual é o uso da força física no crime.

mundos sociais sepa- Importa salientar. podendo ser tomada na aventura do afetar e ser afetado. espaço. em meio às teias relacionais destes como fronteiras móveis. A aventura da pesquisa abre sobrepondo-se e encar- nando a complexidade frestas de luzes sob a forma de sonhos. agentes. fluidas e deslocantes. também. localizados artesanal. consistindo num trabalho -se aos seus espaços de moradia. como espacialidade do medo e insegurança a linhas divisórias de declarados pelos(as) interlocutores(as) – condensado na máxima de “um lugar espaços supostamen- te pertencentes a dois perigoso” – considero relevante extrapolar os microespaços desta pesquisa. na disposição à abertura aos mundos citar sinteticamente a gênese e significações de outrens e ao transformar-se em direções desconhecidas. A “periferia” O público e o privado . alguns dos principais processos rados. uma versão para pensar e viver no mundo sob complexa cotidianos e recorrente na linguagem nativa de e caleidoscópica angulação. remetendo sobre seus territórios vividos. em enigmas indecifráveis em sua totalidade. em seus microcontextos vivenciais. Significa. Encarna a tentativa de “pôr originou-se na Amé- rica Latina e tornou- abaixo” aparentes certezas-verdades e/ou conceitos ensinados/aprendidos e -se mais usual a partir que somos chamados a desaprender para reinventar as possibilidades do viver dos anos 1960 e 1970. – e “arrabal” ou “bair- ros degradados”. 2002) no adentrar o debate público e coletivo de reinvenção -americana significativa do que “cerca” a cidade de saberes e modos de existir no mundo social no presente.2015 .Nº 26 . de. é apreendida como configuração singular As experiências do trabalho de campo foram esforços de aproximações das margens da cida- sucessivas com os universos reais e simbólicos de meus interlocutores. reportava inicialmente à dicoto- mia estanque entre cen- Para melhor compreensão das produções discursivas de interlocutores tro/periferia. Periferia. Traduzem afetos e descobertas Compreendo. A noção de seus locais de moradia como espacialidades de medo e inseguranças. forte conteúdo negati- vo correspondentes a empírica que pude produzir acerca do viver nestas margens urbanas de lugares empobrecidos. ria” usual nos discursos expressando. sob os pontos de vista de seus(suas) moradores(as) quando significam rados “fora/externos” das cidades. diálogos e interações também Jardim como margens urbanas de Fortaleza-Ce estabelecidos com moradores(as) de outros espaços urbanos desta região situadas no tempo e no contribuíram para aprofundar a reflexão sobre o objeto em tela. aqui. de maneira abreviada. Bom Jardim. Afinal. assim. meus interlocutores de pesquisa para referir- As tramas do viver são tecidas por mãos e fios plurais. com Desta feita. “periferia”. com tantos outros que habitam também em nós.Medo e insegurança nas margens urbanas: uma interpretação do “viver acuado” 237 em territórios estigmatizados do Grande Bom Jardim minhas caminhadas de reconhecimento local. reforço o convite para dialogarmos acerca desta tessitura teórico. e “levar a sério suas verdades” (VIVEIROS bio” – de gênese norte- DE CASTRO. conforme salienta Lindón e Hier- Medo e inseguranças nas margens urbanas naux (2004).Julho/Dezembro . assim. da expressão “perife- ver-me como em espelhos. esperanças e outros horizontes possíveis de sentidos inscritos de serem fabricados a partir destes encontros-desencontros-reencontros com nas expressões “subúr- plurais sujeitos de experiências. circunstanciada em territórios estigmatizados do Grande Bom “perigosos” e conside- Jardim. comumente identificado com o próprio ato de pesquisar. na Região do Grande pesquisar a vida social é indagar-se e desnaturalizar sentidos/significados. Fortaleza-Ce. necessidade de expli- reencontros com os(as) narradores(as). a possíveis nestas experiências singulares de encontros-desencontros. “Periferia” possivelmente cristalizados em nós mesmos.

socioculturais contemporâneos que têm potencializado as preocupações cunferência externa da cidade na qual estavam com inseguranças e medos urbanos. incertezas e inseguranças (socioeconômicas e cial como “aglomerados civis) marcam as vidas cotidianas dos citadinos. enfim. embora ditos “periféricos” da cidade. A partir dos anos 1970. e. encarnação das ameaças/perigos nas cidades contemporâneas. para a projeção pública de uma verdadeira diabolização da “periferia”.238 Leila Maria Passos Alba Maria Pinho de Carvalho emergia como a cir. (CASTEL. emprego. dos. (. grifo meu). senão à trutura urbana. tradu- zidos na definição ofi. porque sobre estes têm recaído a a categoria adotada seja responsabilidade e as preocupações com o processo crescente de insegurança “margens da cidade”. (. tornam- resultante da intensa migração da população se locus por excelência dos sentimentos de inseguranças e medos sociais rural para a área urba. os despojados em no dizer de Castel (2005) – traduzida em espacialidade privilegiada de distintas versões inter. aqui. a periferia socioterritoriais que resvalam sobre seus moradores. se referência aos espaços situados no entorno ou desenvolve um processo de criação de figuras e lugares na circunferência das ameaçadores que desagregam a experiência da cidade cidades. por conseguinte. urbani. (.. Quer dizer. Corroboro. 2005). saúde. não somente remete às identidades grupais.. conforme experienciadas com dramaticidade pelos moradores de espaços urbanos utilizado pelo IBGE. vigentes. preca- ao mercado. 19. . No Brasil do século XXI. medos e inseguranças – a alimentar estigmatizações e segregações pretativas.) A elaboração de um nós e de um outro riedade dos serviços públicos ou de infraes. dentre as quais de seus moradores e às destaco: a instabilidade e crise mundializada do capitalismo contemporâneo. Constituem-se situações subnormais”.. dência dos segmentos populares. Elementos identificáveis tem sido assimilada nas modelizações negativadas propaladas sobre o Grande Bom Jardim em como o lugar de resi. por conseguinte. maneira de assinalar proximidades e distâncias sociais zação fora dos padrões em contextos de incertezas (2006: p. o que se denomina atualmente como desenvolvimento racterizados por consti. com o lúcido argumento de Valdebenito na e seu deslocamento ao afirmar que: sistemático do centro para as margens das ci- dades. fabricados socialmente como banização periférica. humano) se vêm em situação de fragilidade ante as tuírem-se em ocupação mudanças estruturais onde o Estado-nação cede funções ilegal de terra. vação dos indicadores de violência urbana. Este processo de será utilizada a ex- profusão da insegurança e do medo social circunscreve-se a um contexto pressão “periferia” em referência aos relatos sociocultural denso em transformações societárias em curso.) todo processo de construção social do medo o feria” tem emergido nos é ao mesmo tempo de sujeitos e espaços nos quais discursos correntes por se cristalizam os temores sociais. os domina. No presente texto. miséria/pobreza e ele.. Em especial... em especial com o processo de ur.)As certezas vitais (educação. responsabilidade na garantia da segurança social via políticas públicas. a precarização e informalização no mundo do trabalho. marcadas pela ao submetê-la ao princípio da ameaça e do incerto. representações produzi. ca. com a construção social do medo. vinculado à noção de favela. o crescimento das sobre seus espaços de moradia e sua loca- do desemprego estrutural articulado à configuração do Estado de baixa lização na cidade. Fortaleza e nos discursos de alguns de seus residentes em âmbito local. E. as “periferias” e seus moradores. incertezas. De fato. Sa. têm contribuído os pobres. A palavra “peri.

não só aos da estigmatização territorial e da retração das proteções anteriormente aspectos objetivos da garantidas pelo Estado social. res de um lugar e o uso/ com destaque aos programas de transferência de renda (PTR). ou seja. nifesta a possibilidade O público e o privado . cuja regulação deste novo “precariado urbano” e dos seus desejos. 2005.2015 . A segunda apropriação cotidiana tendência aponta para o encrudescimento da face punitiva-penal do Estado e heterogênea que dele fazem. cotidiano vivido pelas pessoas.Nº 26 .Julho/Dezembro . focalizada enfatizar a relação en- na “administração das urgências” (TELLES. esta figuração da pobreza e dos pobres como novos párias tiva. pelos morado- destinadas aos segmentos classificados “pobres” e “extremamente pobres”. redefinindo- -se nos contextos de ex- Em substituição ao Estado de Bem-Estar Social (Welfare State) e sua correlata periência aos quais são rede de proteção social (segurança social) encontram-se duas tendências remetidos. dimensões imaginárias territórios de moradia traduz um “novo governo da insegurança social”. Tendência no sentido de apreender que configura a gestão territorial da pobreza urbana sob a face de um Estado a própria dinâmica do socioassistencialem suas ações compensatórias. realidade vivida pelos indivíduos. neste século XXI alicerçam o que duos criam distintas Wacquant (2007. aqui. assumindo configurações consonantes a cada sociais nas quais se ma- formação socioeconômica e político-cultural.nas ações de “combate à pobreza e à extrema pobreza”. complementares na reconfiguração do Estado na contemporaneidade. vigilância e punição direcionados à gestão das da realidade complexa inseguranças (civil e social) e à manutenção da ordem. encarnam a mul- da pobreza urbana” contemporânea: aquela que alia a desregulamentação tidimensionalidade das econômica às frágeis e focalizadas políticas socioassistenciais. focalizando sua e indissociável entre atuação nas margens urbanas. numa percepção e o recurso ao controle.com tre espaço e pessoas. manifesta em seus urbanos do século XXI conecta-se à instauração de um Estado liberal. A primeira território vivido para é de restrição da responsabilidade estatal no campo social. mas englo- ba sua dimensão subje- Para Wacquant. Segundo o supracitado autor. assim. território e população. bem como na complexificação da como categoria relacio- pobreza urbana em perspectiva global. nal e móvel em relação ao centro. à disciplina vivências territoriais. O território diz respei- de relegação (periféricos e desprezados).Medo e insegurança nas margens urbanas: uma interpretação do “viver acuado” 239 em territórios estigmatizados do Grande Bom Jardim conforme evidenciado na desregulamentação social traduzida em perdas de liento ainda que perife- ria é apreendida. 2008) designou de modelo de “gestão territorial territorialidades. to. e significações constru- Embora o autor destaque as experiências específicas destas tendências na ídas na dinâmica com- França – o neopanoptismo social9 – e nos EUA – o Estado penal10 – salienta plexa e heterogêneas das tramas das relações sua adoção em outros países. na França e seguidas também por território pelos indiví- países latino-americanos. 2010) e materializada. focalizadas e seletivas. as do workfare e ao constrangimento do aparato policial e penal hiperativo do significações e ressig- nificações construídas Estado em meio à marginalidade avançada. da desconexão funcional entre os bairros vida em dado território. da economia nacional e mundial. expectativas. direitos socioeconômicos e trabalhistas. objetos e sujeitos. como o Brasil. que 6 Assumo a noção de assumem traços singulares na vida brasileira nos anos 2000. a pelos sujeitos em torno marginalidade avançada – este novo regime de pobreza urbana – é resultado da de suas experiências de fragmentação do salariado urbano. ênfase. paternalista. As maneiras singulares de apropriação/uso do Tais tendências adotadas nos EUA. sentimentos/emoções.

direi. em meio ao complexo e adensado processo tidiana. é fazer uma que vivenciamos. direito de buscar por si mesmo a problemática de insegurança. no entanto.. o foco das preocupações e condenações morais têm se voltado para as “periferias” das cidades e 7 Segundo Lipovetsky seus residentes. da insegurança. por exemplo. depende de um seus governantes. visibilidade de práticas delinquentes “enquanto o poder deve ligadas ao tráfico de drogas e às receptações..240 Leila Maria Passos Alba Maria Pinho de Carvalho e imprevisibilidade Em proximidade com a interpretação crítica de Wacquant (2007. empregos precários e atividades marginais. presença individual e da igual- dade de todos perante permanente de jovens ociosos que parecem exibir sua a lei. 2011: 47). tais como. da insegurança. Afir- Deste modo podemos compreender o caráter paradigmático mou-se a partir do sé. etc. se tornou questão da insegurança que ameaçaria POVETSK & SERROY.) Considerar as periferias como das sociedades demo. primeiro os principais fatores de insecurização: altas taxas de da ordem pluralista e liberal na Moderni. urbanismo sem alma. Direito de eleger das periferias (. “perigosas”. é de alguma forma o retorno das como código genético classes perigosas (. de nossas “favelas” – publicizados como locais preponderantes desta res que põe o indivíduo insecurização social e civil. Em destaque. (. desemprego. Concebem os fundamentos da ordem republicana. talvez. que não têm nada de idílico. frequência emanar da livre escolha de cada um e de todos. sem. A coagido a adotar esta insegurança social e a insegurança civil coincidem aqui e ou aquela doutrina e se entretêm uma à outra. Para os autores: inutilidade social. as desigualdades sociais. . segunda revolução indi.) Tais estratégias têm o mérito de regulamentação eco- mostrar que se faz alguma coisa. estão os chamados “bairros sensíveis” – na & Serroy (2011). como o núcleo da questão social que cráticas modernas” (LI. uma em consideração questões aliás delicadas. consagrando os habitat degradado.. o desemprego. direito de con. do ‘problema das periferias’ em relação à temática culo XVIII e ascendeu. fundamento da mundializada. processo de deslocamento da conflitualidade social que to de se opor ao poder poderia efetivamente representar um dado permanente da estabelecido. Os “bairros sensíveis” acumulam a princípio. A encenação da situação das verdade. a diabolização da questão ção. promiscuidade princípios da liberdade entre grupos de origem étnica diferente. referencial último da vida democrática.) que se assiste hoje. de insegurança (ou “insecurização”) contemporânea. Castel (2005) afirma que. Mas com base nessas constatações submeter-se a regras de vida ditadas pela tradi. 2005. este autor argumenta: ordem social e política. do evento e. das “incivilidades”. dos momentos de tensão e de ninguém deve ser mais agitação e dos conflitos com as “forças da ordem”. Em sua análise crítica deste fenômeno. as mídias e uma grande sua própria vontade: o individualismo aparece parte da opinião pública. mas também identificáveis na versão brasileira em um sistema de valo... periferias como abcesso de fixação da insegurança para a duzir a vida segundo a qual corroboram o poder político. o in- dividualismo traduz-se especificidade francesa.. sem ter que levar nômico-política no ca- pitalismo flexível. da reinvenção da vida co- 2008). nas condensação extraordinária da problemática global últimas décadas de des. dade. adentrar nos elementos fundantes à livre e igual como valor central da cultura oci- compreensão dos sentimentos “coletivizados” de insegurança e medo em dimensão dental.

particulares. segundo a análise crí- tica de Loïc Wacquant. conjunção redobrada de forma contundente. aos espaços com postamente liberto das imposições coletivas e concentração de elevados indicadores oficiais de pobreza e violência urbanas. Nas práticas do “estado de exceção”. a demanda contemporânea por “segurança” terpelado enquanto ser traduzida em demanda por mais “autoridade. assumindo configurações e desdobramentos insegurança social.2015 . são dramáticos e delineiam mudanças do Estado social nos nos hábitos da população em função do medo de sofrer algum tipo de violência países europeus. as dinâmicas moradia específicos. centrado no “enfrentamento” da insegurança civil – resguardo da realização de si. Passíveis. No caso específico desta metrópole.Nº 26 . cios e não identificados Tal focalização em “sujeitos e espaços nos quais se cristalizam os temores segundo seus locais de sociais” contemporâneos encobre. incertezas e insegurança. su- exceção” (AGAMBEN. 55. aqui. lei e ordem” pode ameaçar a ativo. centrado na primazia securitário”). os nomes margens urbanas como potencialmente suspeitos.Julho/Dezembro . Sentimentos coletivizados de medo. portanto. o ne- opanoptismo francês urbana. controle e punição. presentes caracterizada pela nas cidades deste século XXI. que também estão na origem do sentimento vidualista demarcatória de um hiperindividua- de insegurança (CASTEL. desregulado. dentre outros aspectos. a época da “vida à la carte” de fabricação do Estado propõe-se à gestão territorial da insegurança social e dos conflitos do homo individualis pessoais/sociais pelo recurso à violência sob a sua face atual de “estado de desenquadrado. grifo nosso). e ao descredenciamento social da legitimidade de suas autoimagens. Refiro-me. Tais ameaças tornam-se poderão resultar o “seu sucesso” (um “vence- mais preocupantes quando direcionadas aos espaços urbanos e grupos sociais dor”) ou o “seu fracas- aviltados e estigmatizados de nossas cidades. Os codinomes dos(as) narradores(as) são fictí- demandas/reivindicações e cultura no espaço público e na esfera da política. deteriorização do espaço público e perdas térios éticos da pesqui- significativas de referenciais sociais e pessoais de segurança. criminalizáveis. para fins de resguardo potencializadoras dos sentimentos de insegurança e medos sociais acentuados de suas identidades em na vida urbana. de cujas ações própria democracia e os direitos a esta correlatos. em especial. Vi- da integridade física e de propriedade privada – em detrimento do Estado vemos. Traduz um neoin- dividualismo de tipo Os discursos negativados construídos sobre as “periferias” e seus habitantes opcional. Dada à forte tradição realizada em 27 capitais brasileiras. prevalece a figuração dos habitantes das 8 Na tese. atravessam o viver cotidiano dos moradores das da regulação social e da regulação penal da margens urbanas de Fortaleza. 57.Medo e insegurança nas margens urbanas: uma interpretação do “viver acuado” 241 em territórios estigmatizados do Grande Bom Jardim o racismo. sujeitos à originais dos territó- vigilância. comunitárias. Ser in- Conforme atenta Castel (2005). vinculam-se ao fortalecimento deste “Estado-polícia” (ou “Estado descompartimentado. à frágil presença do Estado na garantia da segurança social e às condições 9 Configuração do mo- de instabilidade e precarização das relações de trabalho nestes tempos de delo francês de gestão capitalismo financeiro mundializado e em crise. 2005: p. a saber: hiperindividualização-descoletivização. fragilização consonância com os cri- e dissolução dos vínculos sociais. Esta configuração atual va. 2004b) direcionado. nesta perspecti- protetivo voltado ao provimento da segurança social. lismo. sa social. Os dados da pesquisa do Ministério da Justiça (2009-2010). marcam as experiências dos citadinos e. de submissão às violências rios foram mantidos. da pobreza urbana. a pesquisa destaca que 74% tem intensificado suas dos entrevistados evita sair de casa à noite ou chegar muito tarde por causa investidas conjuntas O público e o privado . so” (um “fracassado”) na contemporaneidade.

projetada sobre seus espaços de moradia traduz-se em elemento relevante tegido e precarizado) e na elaboração dos seus sentimentos de medo e insegurança. nas narrativas. aos sentimentos de insegurança e medo meios prisionais como manifestados pela população em termos da violência urbana. Dentre os espaços de Fortaleza. por meios policiais e tribunais.108): “a insegurança cidadã como representação de diversos tado norte-americano e de sua gestão territorial medos coletivos. e os segmentos ditos “supérfluos” na lógica A referência ao medo e à insegurança emergiu nas versões dos interlocutores. e reafirmar a autoridade estatal nos relação ao seu lugar praticado.242 Leila Maria Passos Alba Maria Pinho de Carvalho nos tratamentos social da criminalidade. Para os residentes. portanto. delineia-se nos tiroteios e “balas perdidas”. Constitui. rivalidades e vinganças pessoais e familiares. as suas “periferias” e. a sensação de que se expressam na mesma intensidade e em quaisquer espaços ou lugares desta metrópole. roubos. EUA um novo governo da insegurança social enfrentamentos entre gangues/quadrilhas/facções criminosas rivais sustentado no Estado de associadas ao narcotráfico e à disputa de territórios de comercialização das . uma dimensão espacializada na cidade e. despro. em 2012. delinquentes” em seus o quarto lugar no ranking nacional do medo: 46% de seus habitantes “bairros sensíveis”. mentos da estrutura de classe que institui um novo governo da insegu. com um percentual de 36. assaltos. constituindo-se a instabilidade social. do que por Estes dados referem-se. tende a buscar formas de nomear e de localizar os medos. na armados. controlar e punir as consideradas “popula. conforme lembra Valdebenito 10 Configuração do Es. constrói muros físicos e simbólicos que separam uns dos outros”. o sentimento de territórios marginali. quant. No entanto. sobretudo. sobretudo. da pobreza urbana pau. dentre as quais destacaram: furtos. são evitados pelos “de impor o trabalho assa- fora” destes territórios vividos. penal como instrumento de administração da in- assim. Em outra pesquisa recente. quando indaguei sobre seus sentimentos em e neoliberal. seria que a sua penali- zação se faz. realizada pela Universidade de São Paulo (USP. do Grande Bom Jardim são consideradas espacialidades preferenciais do -se em estratégia para medo e da insegurança nesta cidade. relacionada com segurança social e de a própria maneira desigual. passando predomina nos EUA (WACQUANT. Fortaleza ocupava. Outro aspecto distintivo declararam se sentir inseguros para circular na cidade durante o dia. Predominou. a estigmatização territorial lariado dessocializado (fragmentado.2% (O POVO. tadas no uso do sistema As significações e experiências de insegurança e medos sociais assumem. (2006: p. 2012).9%) que deixam de ir a alguns locais por causa da criminalidade e polícia nos serviços de também em proporção de entrevistados que possuem residência com vigias assistência social. da população nos espaços urbanos. É a segunda capital com o maior percentual de pessoas e penal da pobreza e na ativação das funções de (71. perspectiva de vigiar. perfazendo 10. via de regra. E. Em deste modelo francês no relação ao sentimento de medo e insegurança dos fortalezenses para circular trato da pobreza urbana pela cidade à noite. os resultados acima se confirmam. esta capital passou para o segundo lugar neste ranking. “medo” associado às múltiplas expressões da violência urbana presentes zados. Segundo Wac. a região rança social. do capitalismo flexível de maneira mais contundente. 2008). em referência significativa para suas classificações e evitações sociomorais além de neutralizar de conflitos sociopolíticos reportadas a lugares e pessoas dentro da região e intraterritórios. ções problemáticas e/ou 2012). julho 2012). hierarquizada e segregacional de distribuição contenção dos desloca. em especial. em seus cotidianos.04% (VEJA. Para tanto.

dentre outras. a expressão “perigoso”. so- Pensar sobre os sentimentos de medo e de insegurança nas cidades brasileiras ciabilidades. em especial. no urbanas que parecem significá-las outrossim como espacialidades do medo e da âmbito local. sua dimensão de (quase) universalidade. incêndios criminosos por vinganças. porque. assassinatos e execuções sumárias. vincula-se. dos residentes das margens prioritariamente. Segundo observei. nos territórios de ameaçam o indivíduo e/ou seu grupo social em termos de sua integridade moradia destes grupos assim identificados física. Em consonância. para a criminalização controle e contenção por vezes. por certo merece ser apreendida em suas configurações sócio-históricas e culturais distintas. o “morrer por engano” e o “morrer de graça. seja contra os “trabalhadores-cidadãos”. pobres – sub- bandidos”. a exemplo dos frequentes “tiroteios” e tanto dos movimentos abordagens policiais nestes espaços. de “para e revistar”. conforme relatos de parcela dos(as) narradores(as). Violências praticadas. Volta-se bandidos”. Nesta versão. relações objetivas e discursivas contemporâneas parece um desafio inadiável diante de sua recorrência nos que se estabelecem. negros. bem como 11 Ao usar o termo “mundo do crime”. As configurações contemporâneas assumidas pelos sentimentos dos negócios ilícitos do narcotráfico. (FELTRAN. “intolerância seletiva” e “tolerância zero” in- O sentimento de medo (e de insegurança) emergiu. O medo tem sido. em espe- interlocutores. em torno insegurança. uma resposta da por Gabriel Feltran dos agentes diante das situações cotidianas consideradas ameaçadoras e/ conforme a apreendeu ou perigosas na vida contemporânea. a presença policial políticos/sociais. Nas falas de interlocutores. autoimagem ou posição social.Julho/Dezembro . traduzir-se em outro fator de risco da social e garantia da iminência de violências perpetradas seja contra os nomeados “vagabundos.. como parece tornar-se elemento potencializador dos sentimentos locais de medo dos novos “suspeitos e insegurança. ao contrário. cial. nas narrativas de meus tensificadas. sem dever nada”.Medo e insegurança nas margens urbanas: uma interpretação do “viver acuado” 243 em territórios estigmatizados do Grande Bom Jardim drogas ilícitas. assaltos e furtos” convivência com a diferença.. vinculado às noções de “perigo e risco” que. “segurança”. 19). a condição de vulnerabilidade civil adensa-se mesmo para os metidas a suas técnicas demais moradores que se declaram “não envolvidos” com o “mundo do crime”11. Se a experiência do medo pode ser tomada em 2008).) o conjunto de códigos sociais. de forma indiferenciada. ao bairro Bom Jardim. a alguns de seus territórios constitutivos e aos seus residentes. mento/prisão – com fins de controle da ordem a presença da polícia pode. dos rou- de medo e de insegurança lançam desafios ao viver nas cidades como lócus da bos. outras situações emergentes. a presença do narcotráfico como ameaça ao lugar e às famílias. dentre (WACQUANT. alicerçado no recurso à polícia e instituições É interessante destacar que a presença da polícia nestas áreas não aplaca o penais – do encarcera- medo e a insegurança local. também e perigosos” sociais – imigrantes. atribuída à região. o “perigoso” parece condensar estas múltiplas tipo liberal-paternalista expressões da violência urbana que afirmaram vivenciar em seus cotidianos. ganhando maior dramaticidade nos em seu uso nas perife- rias da cidade de São espaços urbanos periféricos do Brasil deste século XXI. nos enfrentamentos “polícia versus os nomeados vagabundos. exercício da cidadania e uso dos espaços públicos. discursos e práticas dos citadinos. durante o trabalho de campo. conforme problematiza Barreira ao refletir sobre o medo em nossa cidade: O público e o privado .Nº 26 . historicamente. 2007.2015 . 2011a: p. com recorrência. aos sentimentos de medo e inseguranças. terroristas. propriedade privada/patrimônio. sigo reconhecidas nas singularidades das experiências dos moradores de áreas a perspectiva adota- ditas periféricas desta cidade. Paulo: “(. supostamente.

(2011: p.) Essa Lição finaliza com a ideia de que o medo. É indispensável. O medo na cidade pode ser visto como a incapacidade de dominar os códigos de convivência. 99. vivencia também uma história contemporânea do medo. A cidade permeada pelo medo tem seus espaços públicos esvaziados e a frequência indesejada daqueles que são vistos como estando fora das experiências significativas de cidadania. portanto.. os diálogos com moradores destes territórios estigmatizados do Grande Bom Jardim permitiram apreender a categoria de experiência próxima . Nesse momento é possível falar de uma outra violência nem sempre clara para o senso comum. Ultrapassar esta imagem homogeneizadora e desqualificadora de “indesejáveis da cidade”. Ela é incorporada na forma de olhar o ‘desconhecido’. É a violência simbólica que opera de forma silenciosa e menos evidente. (. (.. é o próprio avesso da ideia de cidade e cidadania. tal como hoje é experimentado no espaço urbano. de evitar lugares tidos como ‘suspeitos’ (. pobres e tantos outros suspeitos faz retroceder o sentido de diversidade do qual a cidade era o maior exemplo. parece hoje fazer parte de um código não escrito. negros. Manifesta-se na recusa a praticar certas atividades e na busca de refúgio e isolamento. já naturalizada pelos moradores urbanos. sobretudo quando significam seus espaços vividos como espacialidades do medo e da insegurança. Na medida em que o medo gera o silêncio induz ao retraimento e ao conformismo. atribuída aos “moradores das periferias”.. via de regra. como muitas outras cidades contemporâneas. mas já sabido por todos. O medo hoje de habitar a cidade gera e fortifica princípios negativos de classificação..) uma lista imensa de interdições.244 Leila Maria Passos Alba Maria Pinho de Carvalho Fortaleza. Estes agentes encontram-se submetidos. lançar um olhar crítico-interpretativo para o cotidiano destes moradores das margens de Fortaleza.. 102-103). a processos adensados de mixofobia – o medo da mistura com os diferentes (uma alteridade exterior) no dizer de Bauman (2005) – alimentados por práticas de segregações socioespaciais inscritas na condição de vida vulnerável. Nesta direção.. e aproximar-me das dinâmicas socioculturais de seus espaços vividos se impôs como tarefa para compreender a produção dos sentidos e sentimentos que estes agentes atribuem a seus lugares habitados e a quem neles vive. O preconceito contra estrangeiros.). Trata-se de um medo que se expressa de várias maneiras.

a tática de limpeza moral foi utilizada. qualquer um pode tornar-se um alvo em potencial de práticas violentas. Ainda assim. mães.2015 . Os jovens do sexo masculino são considerados alvos preferenciais da violência urbana em seus territórios. As práticas de violência urbana parecem confundir-se com as próprias existências destes moradores do Grande Bom Jardim. principalmente. nem mesmo a casa era vista como um lugar inviolável e protegido ao considerar as narrativas das interlocutoras sobre suas experiências e/ou de seus vizinhos que tiveram suas residências invadidas por policiais e/ou por membros de “facções” rivais. e aceitaram conversar comigo. de fato. Suas narrativas assumiram. Mesmo quando não se encontra diretamente “envolvido” com a criminalidade e/ou com o narcotráfico. para distinguir suas famílias dos ditos “perigosos” locais. Todavia. Na especificidade da pesquisa em foco. com frequência. independente da faixa etária. os sentimentos de medo e de insegurança demarcatórios de um viver em risco (KOWARIK. Somente mulheres. isto não exclui as tentativas de assassinato e/ou as execuções também dos adultos e idosos. adolescentes e/ou jovens face as dinâmicas da violência às quais se afirmaram expostas. Nestes momentos. bem como das mulheres. crianças. não consegui entrevistar moradores do sexo masculino. por associá-los às práticas ilegais e ilícitas consideradas “criminosas”. nomeados de “vagabundos/bandidos” pelas interlocutoras. em suas falas. jovens.Medo e insegurança nas margens urbanas: uma interpretação do “viver acuado” 245 em territórios estigmatizados do Grande Bom Jardim (GEERTZ. simultaneamente nas posições de suas vítimas e/ou protagonistas. quando contatadas previamente por minha interlocutora-chave (Ariadne). 2000) de “viver acuado”.Nº 26 . tons de desabafos e denúncias da precarização socioeconômica e civil de seu viver e. identifiquei que. 2009).Julho/Dezembro . o espaço O público e o privado . Neste território. receberam-me em suas casas. os sentimentos de medo e insegurança expressos pelos moradores assumem dimensões complexas. que utilizam para traduzir parcela significativa de suas vivências nestes espaços urbanos. de defesa e cuidado em relação a seus filhos crianças. Esboços de um “viver acuado” nas margens de Fortaleza: versões de moradores de territórios estigmatizados do Grande Bom Jardim Segundo declararam interlocutoras desta pesquisa. não parecem existir espaços seguros e nem quem se sinta protegido nestes territórios estigmatizados. idosas no local. Afloram. durante o trabalho de campo em um dos territórios pesquisados. de maneira cautelosa. quanto mais próximos de espaços atravessados pelas precariedades socioeconômicas em contiguidade territorial com as práticas de violência urbana. É válido ressaltar que.

remetidas às imagens das “periferias”. A jovem Luziana (23 anos) reconhece diferentes experiências no uso da rua como espaço de sociabilidade durante sua infância e a tendência ao silenciamento. aí a gente tem medo de vir alguém e aí acontecer alguma coisa. fragilidade e impotência relatadas. E mesmo mais cedo não costuma sentar fora não. pega numa criança. As práticas de “sentar nas calçadas para conversar” ou de “brincar na rua”. que nem já aconteceu muitas vezes. Porque na calçada (dentro do beco mesmo) já tem pessoas que vende droga. conversa . Tem contato uns com os outros às vezes quando vão um na casa do outro... Não tinha tanta morte como tem hoje. É difícil sentar na calçada agora.246 Leila Maria Passos Alba Maria Pinho de Carvalho doméstico (a casa) aparece como seu refúgio idealizado diante das condições de abandono do poder público. Agora.. . (Luziana. que assinalam a rua como espaço a ser evitado e tornam seu viver cotidiano mais arriscado. A esfera privada da casa opõe-se.. que usa droga. por excelência. 2008) configurada em “ameaça.) O medo de alguém chegar. É pequeno né. moradora do beco X. na rua. assim. cada vez mais.. a partir de umas dez horas. em parcela significativa dos relatos. nas fronteiras entre os bairros Bom Jardim e Granja Portugal)... de manifestação de uma violência difusa (BARREIRA. Tinha bem mais condições de ficar fora de casa. passa um pedacinho. a gente costuma não sair mais de casa não. que fica perto de lá. Ali dentro do beco não dá pra ficar na calçada. É dentro de casa. Tudo é dentro da casa. não desapareceram totalmente nestes espaços urbanos onde realizei minha pesquisa. que vende. É mais é dentro da casa da pessoa.. em lócus de socialização e tessitura dos fragilizados vínculos familiares e de vizinhança nestes espaços da cidade.. mesmo para os moradores que se afirmam “sem envolvimento” direto com o “mundo do crime”. (. Não tinha tanta violência. Todavia. tanta pessoa. risco e/ou perigo”... A casa – símbolo da esfera privada e da intimidade – transforma-se. (. da pessoa dá um tiro. pega numa pessoa que não tem nada a ver . A rua parece restringir-se à circulação rápida e cuidadosa. Era bem diferente . em oposição à vivência atual marcada por práticas de violência urbana e a presença do narcotráfico. ao conformismo e à reclusão à casa no tempo presente.. Sua fala denota certo saudosismo com relação ao passado recente.) Na minha infância não era assim não. Segundo enunciou: As relações com os vizinhos são boas. ao espaço público da rua identificado como lugar.

2015 . Você fica na sua. vai engolindo aos poucos (Belinda. O medo a gente vai fazendo como um gole d’água. 2008) e os riscos de tornar-se alvo de práticas violentas nestes espaços indicam.. não tem pra onde ir. Aqui já teve muita coisa boa. esgarçamento dos vínculos familiares e sociais. que eles vão voltar. E exige um certo saber silenciar. atenta a qualquer coisa. moradora de território estigmatizado do bairro Bom Jardim). Porque aqui. reclusão ao espaço doméstico. porque também já corre o risco de acontecer com você. limitadas a certos horários e realizadas sob tensão. não tem apoio! A gente tem que conviver aqui com tudo.. Fazer que nem a história: “é um olho no peixe. que eles vão invadir. considerando-se por onde se anda e com quem se anda.Nº 26 . com medo. de arrombarem a minha porta e balearem um dentro da minha casa . Dormia na casa dos outros. não tem saída . A contiguidade territorial com as sociabilidades violentas (MACHADO DA SILVA. Delineia-se uma tendência ao ensimesmamento do eu – com a prevalência de um eu minimalista e a construção de uma subjetividade autocentrada O público e o privado . Fiquei com medo. (. a minha casa só tem entrada. fragilização da comunicação. Estes sentimentos de medo e inseguranças relatados por interlocutoras sinalizam processos crescentes de isolamento. na casa da minha amiga. vigilância constante. dentro de casa. Aí a gente tem que viver com aquele medo. o que se fala. lá embaixo. outro no gato”. Minha filha. com trauma de entrar dentro de casa. O relato de Belinda enfatizou elementos importantes do viver nestas margens urbanas nos anos 2000: A gente vive aqui.. sempre se escondendo.. E nesse tempo que aconteceu isso. Que a gente também não pode falar demais. tudo na vida. Hoje não presta mais não. Toda noite eu levava esses meninos pra dormir na casa dos outros. aquela autonomia de você falar muita coisa também.. E é tanta pressão. Aí ficava com aquele medo.. para os(as) interlocutores(as). a necessidade indispensável de aprender a conviver com o medo do sobressalto da violência que altera suas rotinas. com medo de ficar dentro na mãe. eu fiquei desbundada.. Aí ficava aquelas conversas “ah.) Aqui tem a aquele porém: a gente não tem aquela liberdade. onde e/ou a quem evitar aproximações e/ou diálogos. ah que agora eles vão matar”. Com tudo por cima de tudo! Porque é assim. tudo pode se esperar! Tudo.Julho/Dezembro . Nada surpreende mais aqui.Medo e insegurança nas margens urbanas: uma interpretação do “viver acuado” 247 em territórios estigmatizados do Grande Bom Jardim tornaram-se menos comuns. com quem e quando.. cuidados redobrados.

com medo.... delineia sua versão sobre o viver nestes espaços urbanos. Não sabia o que era uma droga.. Chegava. fazia minhas coisas dentro de casa. Aqui a gente vive com medo”. Mas tinha o lazer. Você tinha gosto de sentar. Assim.. Aí a minha outra filha mais nova ficou louca. no espaço doméstico da casa perante os sobressaltos da violência urbana. de forma contundente. quando foi . pá . a minha filha tinha saído. nos últimos dez anos. (. Segundo Teresa. Quando botava a cabeça fora era só pra olhar e botar a cabeça pra dentro de novo e dormir. A narrativa desta senhora fala da vivência de insegurança. (pausa). configurando um tipo de “acuamento” no território e.. estão matando o X.. eu nunca gostei muito de calçada . é a própria liberdade individual que parece afetada. nós entramos em casa.. Quem vai subindo. a gente sentava na calçada . eram umas onze e meia para as doze horas da noite.) Isso já está com uns dois meses. quando eu ouvi o pá... viver na região do Grande Bom Jardim – na especificidade de seu território – traduz-se em: “viver em tensão. Toda vida eu trabalhei. pá. ali na rua! Não tem aquela casa alta na rua que vai pra mamãe em cima e embaixo? Pronto! Ali naquela calçada.. Mulher.. medo e reclusão à residência ante o avançar do narcotráfico e a adoção de práticas violentas como forma prevalecente de resolução de conflitos pessoais e/ou sociais nestes espaços ditos periféricos: Antigamente. Aí o que aconteceu. que estou com 44 anos. entendeu? Porque a gente vê a pessoa se acabando ali e não poder fazer nada! Em frente à minha casa. pá. Sua declaração. Hoje em dia não pode mais! Qualquer hora acontece! Qualquer hora acontece! De primeiro eu não sabia o que era um revólver.. eu não gosto nem de lembrar . Aí. Ave Maria. mulher! Eu vejo e eu fico morrendo! Eu fico morrendo. (visivelmente abalada!). pá . Eu nunca tinha ouvido tiro pá.248 Leila Maria Passos Alba Maria Pinho de Carvalho (LASCH.. Eu estava tirando a menina da rede pra colocar ela na cama. 1999) – articulada ao enclausuramento no espaço da casa. E se os direitos civis – de livre expressão e de ir e vir – encontram-se comprometidos nestes espaços urbanos.) Leila... E tudo isso hoje eu vejo... gritando “mãe... (. Eu. É a vida em constante tensão! É vigília! É tragédia! (. Os meninos podiam brincar na rua. de conversar. recorrentes em outras falas.) É viver acuado! Acuada é viver sem liberdade. mais o H. (um primo e um amigo da entrevistada) porque só eles ... jogar bola.. não sabia o que era um revólver. Leila. feita antes de iniciarmos a entrevista gravada.

com a demora toda que tem. Aí. pei. por vezes. o braço todo esfacelado do tiro da pistola e um tiro na barriga. (. que eles vêm atrás de uma pessoa.. pei.2015 . pei. a saber: Eu me sinto acuada. Tinha que esperar pra ver o que ia acontecer. Eles tinham corrido. né? (Teresa. supostamente. Aí veio o SAMU. Mulher. sem nada. silenciadas e paralisadas diante de um medo difuso..Nº 26 .. mas é com o pensamento em casa. de uma bala perdida pegar na gente.. (olhar parado e silêncio) de orelha em pé.Medo e insegurança nas margens urbanas: uma interpretação do “viver acuado” 249 em territórios estigmatizados do Grande Bom Jardim estavam na calçada”. Francisca (a patroa) toca. Acuada écom medo. Um. porque se eles vendem drogas lá e não paga e querem uma parte. Aí a gente ficou acuada. Quando o telefone na D. O medo que eu tenho é esse! O medo que eu tenho é esse! Eu saio para trabalhar. entendeu? Quer dizer. foi praticamente uns 20 tiros seguidos .. que não encontra resolutividade ao recorrerem à figura do Estado e à sua instituição policial. encontramos lá no curral de vaca.. não vou mentir! Eu penso de meu filho morrer. nós abrimos a porta e ficamos brechando. A contiguidade territorial com práticas violentas nestes territórios parece encarnar uma “banalização do mal” na perspectiva de Hannah Arendt. pei. é assim as dificuldades de viver no Bom Jardim. sem dever. não encontra ou não consegue. fomos atrás de ver onde é que eles estavam. o que tinha acontecido.) Eu nunca recebi ameaça de morte não! Graças a Deus e O Senhor Jesus nunca é de permitir.. Me lembro de terem matado minha amiga (mãe da criança supracitada. Como mataram a menina (assassinato de criança de dois anos no Alto Alegre. moradora de território na fronteira dos bairros Granja Portugal e Bom Jardim).. também assassinada em agosto de 2010 na parada de ônibus do Bom Jardim). Continuo com o relato de Teresa sobre seus sentimentos com relação ao seu local de moradia articulados à dinâmica que nomeia como um “viver acuado” nestas margens. eu já fico .) Aí.Julho/Dezembro . a gente também está sujeito a tudo. nem podia socorrer porque ninguém sabia quem era.. E a polícia ainda mangando. garantidora de “segurança”. Aí quando parou. moradora do Bom Jardim e conhecida da entrevistada) sem merecer.. quando passou tudo. As entrevistadas sinalizaram uma incapacidade de julgamento e ação. Porque só o que o Ronda do Quarteirão faz é mangar. (. nem podia abrir a porta. Ameaça é só dessas O público e o privado . mata quem está com ele ou conhece ele.

2009). de tiro. seja pela atuação discriminatória e violenta da polícia. reportadas à frágil presença de um Estado de direito nestes territórios. TELLES. projetados como espaços urbanos a serem socialmente evitados. e/ou de grupos rivais envolvidos em práticas criminosas (com destaque ao narcotráfico). em franco descrédito nestes espaços urbanos na ótica de meus interlocutores. 2011b).250 Leila Maria Passos Alba Maria Pinho de Carvalho coisas que acontece. em processo avançado de metamorfose em administrador/gestor de conflitos e urgências do social (FELTRAN. a produzir práticas microrregulatórias que tencionam e disputam legitimidade com atores e instâncias considerados legítimos na periferia da cidade (FELTRAN. De um lado. aquilo. do Estado assistencial-punitivo. a quem os narradores denominam “facções do lado de cá e facções do lado de lá”. como uma das mais “perigosas” de Fortaleza-Ce. inclusive com a própria polícia. traduzida na figura aviltada do “morador das periferias” em condição de pobreza. Viver na insegurança é você não ter com quem contar né (Teresa). insacrificável e matável –. em sua dinâmica radicalizada nas suas “favelas” consideradas os espaços “mais perigosos” dentro desta região publicamente visualizada. remetida aos próprios indivíduos na versão de vida nua – vida desqualificada. A expressão nativa “viver acuada” assinalam as sensações de quem se considera sem saídas e em situação de silenciamento. cada vez mais. a gente tem medo de bala perdida. Os relatos de Tereza apontam os traços de um “viver acuado” que parece condensar as situações cotidianas de vulnerabilidade civil (KOWARICK. de morrer de graça mesmo. 2011a. à brasileira. As imagens e sentimentos de medo e insegurança – condensados neste “viver acuado” e vinculados às noções de “perigo/ameaça” – constroem-se e se retroalimentam numa relação direta com a insegurança socioeconômica e civil cotidianamente vivenciadas pelos moradores do Grande Bom Jardim. A gestão arriscada e instável da vida nestas margens urbanas parece. a presença do “mundo do crime” passa a fazer também a “gestão da insegurança”. desta metáfora contemporânea do homo sacer (AGAMBEN. abandono e isolamento diante da violência difusa e indiscriminada advinda do aparato estatal. seja pelas precárias políticas públicas sociais. até então. 2004a). . 2010) destes residentes do Grande Bom Jardim. Mas de chegar e dizer: “você é isso. por conseguinte. E. na versão. 2010). Eu vou lhe matar!”Não! A gente vive na insegurança. De outro. a negação e/ou a precariedade do acesso a seus direitos civis e sociais encarnam situações de inseguranças e/ou vulnerabilidades socioeconômica e civil (KOWARIK.

capazes de expor ou potencializar os riscos de morte biológica. e social como direitos de cidadania. precarizada e abandonada (entregue ao bando). ao referir-se aos episó- Este poder soberano estatal de “fazer viver e deixar morrer” resguarda dios em que a polícia é chamada a “sair de a possibilidade de provocar a morte simbólica ou real destes que são cana” nestes territó- considerados e homogeneizados e estigmatizados como os de “raça ruim”. sem cometer um delito. trevista concedida por contraditoriamente. os “vagabundos- -bandidos” de sua área favela como exemplo radical do universo da periferia (FELTRAN. nes- territórios nomeados de “favelas”. a converte em vida precária. cuja vida encontra-se abandonada dir outras áreas rivais e/ em certos territórios de nossa metrópole: refiro-me aos habitantes das ou cometer vinganças margens em seu sentido exacerbado na experiência do “viver acuado” nestes – e constroem acordos tácitos para que. mantenha-se afastada. Estão submetidos ainda à violência de um “outro” encarnado. 2009). Nestas condições. os “inimigos”. É a vida nua deste homo sacer do século XXI. Eis a que irão “agir” – cobrar dívidas de tráfico. a polícia socioeconômica e civil (KOWARICK. conforme delineado por Agamben (2004). os “degenerados” e os “perigosos pos criminosos possam agir quando se propõe à população e à ordem instituída”.Nº 26 . Ou seja: autoriza tacitamente tanto a “fazer a limpeza na o extermínio direto de suas vidas (resguardando o exercício do poder área” e/ou promover a soberano de “fazer morrer”). capaz de exercer o direito de “fazer morrer”. como as formas de extermínio indireto “matança” com rela- ção aos seus inimigos. segundo a concepção de Agamben (2004). avisam aos policiais 2011a) – há os que se sentem “deixados ali jogados para morrer. em novembro de 2010. em alguns ca- ditos “periféricos” e “hiperperiféricos” de Fortaleza-Ce – em evidência a sos. encarnada nas “periferias” de nossa metrópole e na qual se projeta este homo sacer contemporâneo. Abre-se a possibilidade de considerar este homo sacer em relação a qual qualquer homem que pode comportar-se na condição de soberano. encontra-se o seu habitat: as margens urbanas e os espaços de “favelas”. vulnerável e exposta ao direito do soberano de “fazer viver e deixar morrer”. que deveria garantir-lhes as seguranças civil moradora da região do Grande Bom Jardim. política e/ Segundo esta interlo- ou social. sob a simbolização contemporânea do homo sacer. para responsáveis pela área se matarem”12. para retomar aqui a fala de uma interlocutora. no Estado. Em verdade.Julho/Dezembro . simultaneamente.2015 . imersos em situações de vulnerabilidades tes momentos. aqui representado pelos grupos criminosos atuantes 12 Fragmento de en- nestas margens. os rios para que os gru- fora da norma e da ordem.Medo e insegurança nas margens urbanas: uma interpretação do “viver acuado” 251 em territórios estigmatizados do Grande Bom Jardim À guisa de conclusão O “viver acuado” nestes territórios parece delinear a face da cidade nua. a figura do “morador da periferia/de favelas” encontra-se exposta não só às ações dos “outros” em seus territórios vividos. O público e o privado . Estes agentes vivenciam uma vida nua em sua dimensão de vida desqualificada. dentre os meus interlocutores residentes em espaços cutora. Na cidade nua (zoé). inva- figura do homo sacer contemporâneo. passível de redução à pura sobrevivência biológica posta sob a “desproteção” do Estado que.

Trata-se de um exercí- indiscriminadamente em nome da “segurança da população” (FOUCAULT. uma dimensão da assim. . local. a política desacreditada e que: (. Nestes espaços urbanos. em termos da precarização ção da vida humana. permanecem. 1999. Segundo enfatiza Agier (2011. sob o pretexto de salvaguardá-los ou nos. Em meio a este “viver acuado”. o nascimento da biopolítica ao ressaltar ordem democrática pluralista parece trivializada. nas experiências dos narradores em condição de pobreza e da vida ou poder sobre residentes em bairros periféricos em Fortaleza e que. de fato. e e ampliar a sensação de solidão. para usar os termos nativos. para usar aqui estado de exceção . qualquer um pode Não é que a vida tenha tornar-se a próxima vítima a ser exterminada (a figura do homo sacer). Se..) de- veríamos falar de bio. a democracia liberal. identifiquei outro traço significativo: o o que faz com que a vida e seus mecanismos adensamento das desconfianças e mútuas acusações entre os moradores. de fato. no qual todo o ção (mecânica do poder sobre o homem-corpo/ ordenamento jurídico-político pode ser suspenso e a máxima do “tudo se poder disciplinar) en. esta configuração da ca da espécie humana” bio -regulamentação vida nua. torna possível”. relação na qual a biopolítica13 (política sobre a vida biológica) pode se -objeto do Estado de go- verno e da sua técnica transformar em tanatopolítica14 (política sobre a morte) sempre que o Estado de polícia. Esta entrem no domínio dos condição de medo e insegurança tende a fragilizar seus vínculos de vizinhança cálculos explícitos. parece-me paradigmática. na segun- da metade dos séculos “tudo torna-se possível”. apontando identificar. riscos produzidos na contemporaneidade e se propuser a agir violenta e lítica em biopolítica.inscrito nas fraturas do “Estado de direito” à brasileira os termos foucaultia. Segundo relatos de moradores. AGAMBEN. posta como forma de resolução de conflitos. cio do poder (o biopo. involuntária (por motivos socioeconômicos) Este autor delineia o ou voluntariamente. 2004a). de vida são levados em por outro.. do corpo” ou Iorgano- -disciplina da institui. de uma biografia social. -espécie ou população/ ou em espaços múltiplos que a põe à parte”. 40). Lugares passíveis de serem convertidos em espaços onde do biopoder.) os processos a vida passível de eliminação em nome de sua preservação (tanatopolítica).restringe e nega direitos democráticos. isolamento e abandono. “sujeito a tudo” e “não ter com quem política para designar contar”. 2008). exercício do biopoder. na imagem pública das “favelas”.. der) voltado à gestão muitas vezes. encontra- estatal (mecânica do se. “(. mesmo quando os indivíduos se encontram a biopolítica consiste em tecnologia/forma de incluídos precária e/ou formalmente no âmbito jurídico-político da cidadania. Esta tem sido uma condição registrada. assim. Vidas liminares submetidas a um estado de exceção.252 Leila Maria Passos Alba Maria Pinho de Carvalho 13 Segundo Foucault. por um ângulo. e modificá-los (. Explicita. 2008. política que se realiza num espaço específico. 2004b). socioeconômica e civil. o dito regularização das popu- lações). parece fortalecer- tos de poder e de saber que tentam controlá-los se por dentro destes territórios em tempos contemporâneos. Na .. e que parece. remetida aos espaços urbanos às margens do Estado. uma situação real ou potencial de perigo ou de a transformação da po. mesmo entre os faz do poder-saber um agente de transforma- seus supostos “(des)iguais” “semelhantes”. espaços urbanos. até mesmo escolher quais vidas “merecem viver” e XVIII e XIX. uma ambígua a vida passou a sujeito. em vias de materialização nestes trecruzada à “biopolíti.) fora de qualquer reconhecimento poder sobre o homem.. mesmo expandi-los (SANTOS. excluídos. na especificidade destes a vida em duas formas: a “anátomo-política territórios do Grande Bom Jardim. no qual quais “merecem ser deixadas para morrer”.. supostamente. conforme já anunciado na instigante reflexão de Agamben momento de produção (2004a. Foucault anuncia. a cultura hiperindividualista e o recurso à conta por procedimen. violência física. Nestes espaços urbanos.

“com você é limpeza” – pode tentar matá-los..)”. grifo nosso). sem ter com quem contar”. pois as redes de relações próximas. Eles evitam visitar seus estratégias políticas. o homem moderno é um proibidas” para certos interlocutores. podem transformar-se em motivos para ser alvo de estigmatizações. estabelecidas no política moderna. com efeitos pessoais e sociais consideráveis ao seu viver pulação (biopolítica) foi a constituição de uma cotidiano.) Mas. durante mi- lênios. politização. capaz de fronteiras tornam-se mais intensos. de familiares e/ou amigos com a criminalidade local. pelo Estado moderno e pela pode redundar em maior exposição aos “perigos da rua” e. sua vida de ser vivo São fragmentos de vida que auxiliam a tentar interpretar este “viver está em questão (2008: p. estatização segregações socioterritoriais e de múltiplas práticas de violência urbana. (. no caso dos tecnologia da biopolí- “envolvidos” diretos com a criminalidade local e seus familiares..Nº 26 . viver na insegurança. ou regulamentação da cujo extremo tem sido o homicídio/execução sumária. Para Foucault (1999. Nestas circunstâncias de permanente tensão.. segundo afirmou a interlocutora Teresa em relação à nuamente. o cara vem e papoca fogo. viver com medo. de repente. Conforme no homem enquanto ser alertou Feltran (2011a). insegurança e riscos/ sociedade normalizado- ameaças a que se sentem submetidos(as).Julho/Dezembro . Nesses moldes. resultar tica centrada na vida e em assassinatos sumários tão recorrentes nestes espaços urbanos. relações marcadas por desconfianças em relação aos “outros” do lugar. o “crime” expande-se para além de “práticas vivo (espécie vivente). o primeira tentativa de assassinato sofrida por seu filho executado em 2012: que se poderia chamar de ‘limiar de moderni- “Aí. constituindo-se em verdadeiras “zonas existência política. ela lhes escapa conti- “amigos” e/ou vizinhos. 156. principalmente. Ignorar fronteiras físico-simbólicas e as “regras” do lugar cido. atravessar as fronteiras físicas e simbólicas demarcadas que era para Aristóte- nestes locais pelos grupos criminosos rivais. sobretudo. 2008). um tipo de cerceamento e/ou norma (o “discurso ver- dadeiro” e seus efeitos enclausuramento dos moradores no espaço privado da casa e evitamento do de poder) estrutura- espaço público da rua. Quando existe o “envolvimento” les: um animal vivo e. embora conhecidos desde criança. dade biológica’ de uma sociedade se situa no Importa registrar ainda a privação do direito à liberdade de ir e vir dentro momento em que a espé- cie entra como algo em e entre os micro espaços circunvizinhos de moradores com parentes em jogo em suas próprias “territórios rivais e/ou com inimizades” entre si. (. aprofundam-se algumas tendências ra (ou de normalização) identificadas no trabalho de campo: isolamento e hiperindividualização na qual a lei tornada destes residentes dentro de seus territórios. capaz de processar um tipo de lugar. -se em instituições e familiares.Medo e insegurança nas margens urbanas: uma interpretação do “viver acuado” 253 em territórios estigmatizados do Grande Bom Jardim mesma proporção que qualquer um – inclusive aqueles jovens no “mundo do sido exaustivamente in- tegrada em técnicas que crime”. em cuja políti- ca. até mesmo aos seus familiares. o bio- nestes territórios situados na região do Grande Bom Jardim. animal.2015 . os riscos de atravessar além disso. que falam com seus filhos e dizem a dominam e a gerem. permaneceu o e. conforme os poder passa a ser exer- termos nativos. sem você saber qual é o motivo. O familiares e amigos pelos riscos/perigos de estar no espaço público da rua homem. fragilização dos vínculos de vizinhança e. acuado. não é preciso estar seu sentido biológico “envolvido” diretamente com as disputas por territórios de drogas ou demais – a pedra de toque da práticas criminosas. Portanto.. É a vida humana – em criminosas” nestas periferias contemporâneas. mecanismo de caráter O público e o privado . vida da população. o efeito histórico des- As narrativas e experiências de parcela dos(as) interlocutores(as) reiteram ta tecnologia de poder os sentidos atribuídos aos seus territórios como espacialidade do medo e centrada na vida da po- da insegurança. mesmo.

) Justiça para pobre não existe . considerados “suspeitos e inimigos em potencial”. assassinados de seus filhos.. o poder que a gente conhecia desde quando nasceu.. Mataram gente e de desvalor fundante da biopolítica. A vos – ou sobre as vidas. exibidos nos canais de TV aberta. Comando 22. que estava metido no trampo. a biopolítica margens. Es. Cidade Alerta 190. a dor e a descrença que o Estado identificar nas instituições estatais. No dia da chacina momento em que a vida aqui. o silêncio. põe na cadeia e esquece. no entanto. Os direitos à fala e à autonomia individual ficam comprometidos em função da tes dois polos do biopo. quando denunciam. como no caso de minha interlocutora-chave – cujo filho foi pode converter-se em tanatopolítica sempre executadoem 2012 – mantém-se. lítica como criação de conforme reproduzidas em nossos programas televisivos “policialescos”: novas possibilidades de Barra Pesada. uma forma de governar Apelar pra quem? A gente liga. Tinha dois incide sobre os seres vi. parece cial. tão comuns em Fortaleza. Brasil Urgente Ceará. parece parece traduzir-se em fortalecer as recorrências à prática de vinganças e/ou de “fazer justiça com técnicas políticas de as próprias mãos” presentes nestes territórios. Eram nossos amigos . este Estado a nossa “polícia comunitária” (Ronda do Quarteirão) e a “justiça”. E pra mim.. Linha Direta. 14 Na perspectiva do Para outras destas mulheres-mães-avós de jovens assassinados nestas biopoder. justiça não é nada! Eu governo que se encontra posto em xeque nesta não gosto de nada de justiça!É muita confusão” (Teresa). O descrédito em discussão. no e faz justiça com as próprias mãos . Se a violência difusa impõe esta “lei”. Nesta sociedade. De maneira ampliada. Rupturas. segundo ressaltou uma de minhas interlocutoras: da vida. ou melhor. Chegaram dois passou a objeto de valor homens numa moto e saíram atirando. Polícia não faz nada! Eu entrego de direito moderno con. da disciplina e a norma da regulamentação. também os seus efeitos criam gulação social indis. o pessoal liga para os condutas expressa na configuração da biopo- distritos e não resolvem nada! A gente denuncia e nada lítica como tecnologia acontece. Em primeira relação à ordem legal e às instituições estatais. não limitadas às ações do controle e administra- ção da multiplicidade narcotráfico. via de regra.254 Leila Maria Passos Alba Maria Pinho de Carvalho regulador da vida so. vimento e maximização em suas explosões de dor transformada em sofrimento diante dos corpos do capitalismo. só a de Deus! Por isso que o povo se arma de biopoder. a Deus. Experiências de perdas cotidianas.. Não vou procurar vingança não (. Mataram gente . entrecruzam-se a norma ser a própria dissolução de seus lugares praticados que se encontra em curso.. obrigou-se ao potencial de perigo ou de riscos produzidos. vertido em Estado de aliás. no espaço público (da rua) tica parece abrir espaço e diante da mídia televisiva. de “segurança pública” e na “justiça”. espaços. fazendo desaparecer os seus sentidos. a F. E a prevalência da biopolí. uma situação real ou Apesar de deter informações sobre quem matou seu filho.. Os Malas e a Lei. em especial. Afinal. todavia. com destaque para a chamada instância. transformadas em denúncias- e/ou gestão técnica da vida social na qual as entretenimento e tantas vezes repetidas. menina que morreu. viver parecem minimi- zar-se.. vivia lá em casa. individualizadas e pensáveis ao desenvol. Imagens esvaziadas como espetáculos midiáticos.. abruptamente protagonizadas. os possíveis assassinos e pedem que a “justiça para a regulamentação seja feita”. possibilidades de po. existe. Rota 22. as possibilidades de sua ruptura. Justiça. nós estávamos na porta de casa. feitas por mulheres-mães-avós. dinâmica da violência urbana e de uma correlata “lei do silêncio” imposta nestes der foram responsáveis pelos processos de re. É a silêncio e reafirmou o que havia me dito em entrevista realizada em 2010: própria noção de Estado “polícia não faz nada! Só Deus pra resolver.

Dentre os efeitos sociais dos supracitados processos em curso nestes microespaços em estudo. Neste percurso. na ótica de alguns entrevistados. intimidade e a aproximação entre os residentes. (..Julho/Dezembro . e não sobre às iniciativas organizativas da sociedade civil local.) Se alguém estiver apanhando. As dis- tinções entre polícia e bem menos intensas nestes anos 2000. (2004a. a biopolítica pode encon- e/ou dirigidas à mídia televisiva fortalezense. reconhecidas por órgãos os sujeitos de direitos do poder público (SER V. Os policiais que fazem ronda ficam marcando quem não baixa a cabeça e prometem pegar a gente. tornam-se práticas evitadas pelos moradores. Ele (um policial do Ronda conhecido na área) ficou me ameaçando..As práticas de idas e permanências política tendem a desa- ditas desnecessárias na casa de vizinhos ou no espaço público da rua. tão (ou em risco) vidas humanas em nome de uma suposta defesa da As relações de confiança. quem for se meter e falar contra. Sinônimo de exposição a uma violência difusa e lócus onde contra o inimigo (inter- rondam os tipos sociais considerados “perigosos/ameaçadores/indesejáveis” no ou externo) realizada dentro da localidade. A política de- sentar-se nas calçadas para conversar a qualquer hora ou deixar os filhos clina em biopolítica. O público e o privado . Reside no Bom Jardim desde que nasceu). E o recurso à violência física tem imperado como com a tanatopolítica. pode ser preso por desacato [à autoridade]. como parecer. inseguranças. por excelência. Eles chegam na rua e se nós tiver na calçada manda tudo pro paredão pra fazer a busca [de armas e drogas]. destaco que a alternativa à organização e lutas no dizer de Agamben político-sociais por parte de seus moradores parece cada vez mais impotente. sociedade ou da vida embora presentes em suas relações cotidianas nestes territórios. A coisa está só piorando! Ninguém se mete. Passa no carro do Ronda e fica olhando . Embora haja referência dos em sua dimensão biológica.Nº 26 . Porque somos todo dia ameaçados.. 2004b) – toma- segundo as versões de parte dos(as) interlocutores(as). tessitura de vínculos sociais. jovem de 24 anos. perigos/ameaças/riscos” imprevisíveis e cou que a tutela da vida coincidiu com a luta incontroláveis. os residentes com os quais conversei não e sua biós (vida quali- as legitimam e nem às suas lideranças territoriais.. são feitas individualmente lítica. esta conversão signifi- associado a “medos. De fato. assim. Mataram outro em frente a minha rua. com medo de levar também. Na interpretação de Agamben (2004).Medo e insegurança nas margens urbanas: uma interpretação do “viver acuado” 255 em territórios estigmatizados do Grande Bom Jardim inocente . de principal em defesa da sociedade. parecem da população. sociais e/ou políticos) maneira a pôr em ques- postos no cotidiano destes interlocutores em seus espaços de moradia. com destaque para os citados trar-se ambiguamente programas “policialescos”. quando levadas ao espaço público. (Ariadne. E brincarem na rua.. a polícia torna-se a en- carnação desta biopolí- é mediante uma tensão e vigilância redobrada! tica. o espaço da rua emerge. A rua opõe-se. Os contatos materializando-se no pessoais entre os moradores parecem restritos ao mínimo indispensável biopoder estatal.. aos espaços da casa e do contra os perigosos para a vida da população e trabalho (quando existe) como seus lugares. Estava sentada na porta da minha casa. de a possibilidade de resolução dos conflitos (pessoais. nos relatos de interlocutores desta pesquisa. 2011). Se o fazem. Eu disse que num ia.2015 . Suas reivindicações e/ou ficada) na esfera da po- denúncias.

Recebido: 20/07/2015 Elementos a exigir. hiperindividualização e distanciamento parece ser um traço recorrente nestes territórios estigmatizados. seus discursos e práticas delineadoras de um “viver acuado” e suas táticas individualizadas de um “saber viver” parecem apontar para uma fragilização dos vínculos sociais e hiperindividualização em meio às práticas cotidianas de evitação do espaço público da rua. over which fall territorial stigmatization and social segregation and social disqualification of its residents in poverty. as spatiality of fear and (in) security from the point of view of stigmatized stigmatized territories of residents in the Greater BomJardim. estudos posteriores para aprofundamento Aprovado: 20/10/2015 destes “achados” de pesquisa sobre nossas margens urbanas neste século XXI. ed. Em síntese. fear and (in) security. G. em termos do controle social entre os moradores. expressando certo incômodo. por vezes.Estado de exceção. It is clipping territories. E a busca por maior privacidade/intimidade. 2004b. It is a socio- anthropological study detailed in two territories of the region. Keywords: ABSTRACT: This article interprets discursive productions on urban margins urban margins. to demand multivocal and polysemic reflections about living in urban banks in contemporary times. _______. Reproduzem. relacionados ao fato de a maioria se (re)conhecer. in Fortaleza-Ce. Trad. It discusses-here the version that sees the territory as lived spatiality (s) of fear and insecurity (s) tuned to topofobicas practices dwell in sociofobicas and social avoidance. Parece prevalecer um permanente estado de alerta/ vigília. distanciamentos mútuos e distinções sociais internas são recorrentes nestes espaços.Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua I. my doctoral thesis on poverty meanings and place (s) created in urban margins in this metropolis in the 2000s I opted for qualitative research. are outlined everyday symbolic struggles and territorial intra woven among its residents regarding the meanings attributed to their neighborhoods. Henrique Burigo. desta feita. Neste sentido. tanto em relação aos não diretamente envolvidos com a criminalidade local. Referências AGAMBEN. delineando configurações singulares de um “viver acuado” nas margens de Fortaleza-Ce. Belo Horizonte: Editora UFMG. 2. a tendência às práticas sociofóbicas locais de evitação.256 Leila Maria Passos Alba Maria Pinho de Carvalho à manutenção deste equilíbrio social instável vivido nestes espaços. . In these spaces. distanciamentos e desconfianças mútuas entre os residentes em suas teias relacionais locais. This perspective demarcates trends of a “live trapped” in these spaces. dinâmicas e práticas de Artigo estigmatizações e de segregações socioterritoriais neste Grande Bom Jardim. reserva. with the adoption of participant observation and ethnographic interviews. reclusão dos residentes na esfera privada – mediante o recuo ao refúgio idealizado da família e da casa – e demarcação de espaços proibidos intra e entre territórios. São Paulo: Boitempo. como aos envolvidos. 2004a. considering the hybridized face of punitive welfare-state active in this region.

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