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Romanos

Exposição sobre Capítulo 1

O EVANGELHO DE DEUS

D. M. Lloyd-Jones

PUBLICAÇÕES EVANGÉLICAS SELECIONADAS


Caixa Postal 1287
01059-970 - São Paulo - SP
Título original:
The Gospel of God

Editora:
The Banner of Truth Trust

Primeira edição em inglês:


1985

Copyright:
Mrs. D. M. Lloyd-Jones

Tradução do inglês:
Odayr Olivetti

Revisão:
Antonio Poccinelli

Capa:
Sérgio Luiz Menga
Permissão gentilmente concedida pela Banner of Truth Trust
para usar a sobrecapa da edição inglesa

Primeira edição em português:


1998

Impressão:
Imprensa da Fé
PREFÁCIO

Desde a morte de Martyn Lloyd-Jones em 1981, muitos


leitores das exposições de Romanos perguntam se não haverá
mais livros desta série. Este volume faz parte da resposta a essa
indagação. Todos os seus sermões foram gravados em fita e já
estavam transcritos em 1981. Vão até Romanos 14:17 (“Porque
o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz,
e alegria no Espírito Santo”), quando, tendo ele concluído a
sua exposição com a palavra “paz”, a enfermidade pôs fim ao
seu ministério na Capela de Westminster. Foi em 1968. Daí
em diante ele dedicou muito tempo à editoração dos sermões
transcritos, e temos a satisfação de continuar esse trabalho de
preparo para publicação, com base nos mesmos princípios
seguidos com relação aos livros anteriores.
Há uma exceção que merece menção. Era prática habitual
do Dr. Lloyd-Jones, quando preparava material para
publicação, cortar todas as referências incidentais ao local da
reunião em que fora feita a preleção. Um livro, diferentemente
de um sermão, é para sempre. O salientado acima era sua
prática, e f gora a nossa, omitir tais referências - “segunda-feira
passada”, “os jornais de ontem”, etc. Mas a primeira preleção,
contido no primeiro capítulo, nos propicia fascinante
penetração em sua mente, sobre como ele planejara, sob Deus,
pôr em execução o que provavelmente foi a obra mais cara ao
seu coração. Por isso a deixamos como está, a fim de que os

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que nunca o ouviram pregar obtenham algo do sabor da sua
personalidade - seu entusiasmo por sua tarefa, a clareza da sua
mente analítica, seu desprazer em ser de algum modo
imobilizado por um programa previamente anunciado, e,
acima de tudo, o seu profundo desejo de que os nossos corações
fossem aquecidos por esta grandiosa Epístola e de que Deus
fosse glorificado.
Também deixamos integralmente, no início de um dos
capítulos, o seu sumário da semana anterior. Os que o ouviram
lembrarão com que esmero, bom professor que ele era,
costumava fazer-nos recordar o que tínhamos aprendido na
ocasião anterior. Naturalmente, na forma de livro a repetição
não é tão necessária, mas às vezes achamos o sumário quase
tão emocionante como toda a preleção prévia. Portanto,
deixamos o começo do capítulo 24 como está, para que o leitor
veja e aprecie o seu método.
Somos gratos por tudo que os leitores do Dr. Lloyd-Jones
nos disseram, falando sobre como os seus livros os têm ajudado.
Gostaríamos de pedir-lhes que orem por nós, em nosso trabalho
de prepará-los para publicação, e esperamos que Deus continue
a usar estes livros em Seu serviço.

Bethan Lloyd-Jones
Ealing, agosto de 1985

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ÍNDICE

1.............................................................................................. 11
Uma abordagem espiritual necessária - a importância desta Epístola na
história da Igreja- a conversão e a capacitação de Paulo - o falso contraste
entre dons naturais e o Espírito Santo.

2.............................................................................................. 28
Os leitores e os seus antecedentes circunstanciais - a fundação e o caráter da
igreja (em Roma) - o motivo para escrever-lhes: firmá-los na verdade -
análise da Epístola - capítulos 4-8 tratam da certeza da salvação.

3 ........................................................................................... 47
A centralidade de Cristo - o escravo, redimido e capturado por Cristo - a
verdadeira definição de um apóstolo - suas marcas e sua autoridade - Paulo
chamado pelo Senhor ressurreto.

4 ........................................................................................... 63
As qualificações apostólicas de Paulo - sua igualdade com os demais - sua
missão entre os gentios - relevância, então e agora - a “sucessão apostólica”
- separado desde o ventre da sua mãe.

5 ........................................................................................... 76
O significado da palavra “evangelho” - a maior boa nova que já ouvimos - o
evangelho de Deus em três Pessoas - a primazia do Pai - as limitações da
apologética.

6 ........................................................................................... 92
O método de argumentação de Paulo, partindo do Velho Testamento - as
promessas, as profecias e os tipos - proclamação e predição - a revelação e a
inspiração conforme Pedro - os escritos sagrados, a Palavra de Deus.

7
7 .......................................................................................... 109
A demora da vinda de Cristo - o uso do Velho Testamento para provar a
continuidade do evangelho - a verdadeira natureza da Igreja Cristã e a
doutrina do remanescente - a suficiência, a autoridade, a unidade, a
necessidade e a coerência das Escrituras - a consolação do Velho Testamento.

8 .......................................................................................... 128
Cristo é o centro do evangelho - o Filho de Deus encarnado - Sua verdadeira
humanidade - o elo de ligação com a profecia e especialmente com a casa
de Davi - a relevância para hoje.

9 ......................................................................................... 145
Uma série de contrastes - feito: declarado - fraqueza: poder - carne: o
espírito de santidade - o significado da ressurreição - a instalação do Deus-
-homem como o Mediador.

10 ....................................................................................... 163
O senhorio de Jesus - Jesus Cristo, o Salvador ungido - profeta, sacerdote,
rei - a impossibilidade de separar Salvador e Senhor - a base de tudo o que
Paulo é e faz - a obediência da fé.

11 ........................................................................................ 180
Encargo e submissão - Christmas Evans e o sandemanismo - pelo nome de
Cristo - glorificando a Cristo pela palavra, pela vida e pelo testemunho.

12 ....................................................................................... 195
Pertencentes a Cristo - o fundamento, amados de Deus - vocação geral e
eficaz - separados para Deus e Seu louvor - os santos e a santidade.

13 ....................................................................................... 211
A doutrina e a prática - a graça levando à paz com Deus - experimentando
a paz de Deus - doutrinas implícitas - uma extraordinária e animadora obra
de Deus em Roma.

14 ....................................................................................... 227
O desejo de Paulo de visitar Roma - fortalecendo as crianças em Cristo -
forma e substância - a vida de oração do apóstolo - ação de graças mediante
Cristo - um grande intercessor.

8
15 ....................................................................................... 242
Desejo, oração e submissão à vontade de Deus -prospero, pela bênção de
Deus - obstáculos e direção - perseverando na oração - “O homem propõe,
mas Deus dispõe”.

16 ....................................................................................... 256
A atitude de Paulo para com a sua obra - o serviço religioso - o perigo do
serviço meramente externo - métodos carnais e espirituais - zelo carnal e
paixão divina - “ilimitado amor divino”.

17 .......................................................................................271
Os limites que o apóstolo impôs a si mesmo - as riquezas do evangelho - o
poder e a autoridade do evangelho - fortalecendo mediante ensino completo.

18 .............................................................. .........................286
Modéstia genuína de Paulo - a prova real do crente - autoridade espiritual
e catolicismo - a Igreja como comunidade - o encorajamento do apóstolo,
decorrente da fé dos irmãos - o perigo dos “movimentos”.

19 ....................................................................................... 301
Na obrigação de pregar o evangelho - a capacidade de transmitir o evangelho
- a necessidade universal de todas as nações e de todos os tipos de homens
- Paulo e sua habilidade para alcançar a todos - o evangelho total para o
homem total - o constrangimento.

20 ....................................................................................... 316
Método lógico - envergonhando-sedo evangelho - o escândalo da cruz -
louco por amor de Cristo - evangelhos falsos, populares - o motivo certo
para não nos envergonharmos - poder singular para salvar.

21 ....................................................................................... 333
Boas novas gloriosas - tríplicelibertação do pecado - reconciliação e
restauração - salvação, passado, presente e futuro - o método de Deus.

22 ....................................................................................... 346
O poder de Deus para salvar - a eficácia do evangelho - a Palavra e o
Espírito - a prescrição divina - primeiro para o judeu - esperança para
todos.

9
23 ...................................................................................... 363
O evangelho revelado - justiça aceitável a Deus - revestidos da justiça de
Cristo - o caráter único da fé cristã - o instrumento - Lutero e Habacuque.

24 ........................................................................................380
Sumário - a importância do trecho, del:18a3:20-a necessidade de provar-
-se o evangelho - a história e a futilidade da civilização - análise geral do
referido trecho.

25 ....................................................................................... 396
Começando com a nossa relação com Deus - as experiências e as seitas -
atitudes modernistas e incrédulas para com a ira de Deus - concepção
determinante quanto à evangelização escriturística - a comprovação do
Novo Testamento - a prática do nosso Senhor, dos apóstolos e dos grandes
evangelistas.

26 ........................................................................................414
A natureza da ira de Deus - maneiras pelas quais ela é revelada - julgamentos
na história - a ira e a cruz - a ira agora e posteriormente,

27 ....................................................................................... 429
O caráter do pecado - impiedade e injustiça - conexão e ordem - pecados e
pecado - mera moralidade e o evangelho social - religião antropocêntrica
(centralizada no homem) - evangelização verdadeira.

28 ..................................................................................... 444
A total indefensabilidade do homem - senso universal de Deus - Deus
manifesto na criação, na providência e na história - revelação geral e especial
- suprimindo a verdade - filosofia orgulhosa e iníqua.

29 ....................................................................................... 462
A rejeição de Deus - idolatria e mitologia - reverência perante o Deus da
Bíblia - loucura e sordidez - abandono judicial - a necessidade de
avivamento.

10
1

Esta noite* eu gostaria de dar as boas-vindas aos amigos


que não pertencem a esta igreja em particular e que talvez
estejam conosco, e se disponham a continuar conosco nestes
estudos da Epístola aos Romanos. Em atenção a eles, talvez
seja melhor, de maneira muito geral, indicar-lhes como este
culto é conduzido normalmente. Primeiramente e acima de S

tudo, desejo salientar que se trata de um culto. E uma ocasião


para adoração. Sou um daqueles que não reconhecem nenhum
estudo da Palavra de Deus que náo seja acompanhado de
adoração. A Bíblia não é um livro comum - é o Livro dc Deus,
e é um livro acerca de Deus e das relações do homem com Ele.
Portanto, toda vez que consideramos ou estudamos a Bíblia
estamos, necessariamente, prestando culto. Noutras palavras,
não me proponho a estudar esta grande Epístola de maneira
meramente intelectual ou acadêmica. Ela foi redigida como uma
carta escrita por um grande pastor. Não é um tratado teológico,
/

escrito por especialistas e para professores. E uma carta escrita


a uma igreja, e, como toda literatura neotestamentária, tinha
em vista um objetivo e um fim práticos. O apóstolo estava
interessado em ajudar estes cristãos de Roma, em cdificá-los e
firmá-los em sua fé santíssima, e, querendo Deus, e na medida
da minha capacidade, certamente estarei tentando fazer a mesma
coisa. Esta é, pois, uma ocasião para adoração, e não apenas para
uma preleção.

* Este primeiro sermão foi pregado em 7 de outubro de 1955.

11
O Evangelho de Deus

Além disso, não anuncio publicamente um programa, e


por esta razão: quando você está estudando a Palavra de Deus,
nunca sabe exatamente quando vai terminar. Pelo menos eu
tenho uma profunda impressão de que é este o caso, acreditando,
como acredito, na presença e no poder do Espírito Santo.
Sabemos por experiência que Ele vem subitamente sobre nós
- Ele ilumina a mente e sensibiliza o coração - e eu creio que
todo aquele que expõe as Escrituras deve✓ estar sempre aberto
para as influências do Espírito Santo. E por isso que alguns de
nós não transmitimos sermões pelo rádio e pela televisão,
porque achamos difícil dar-nos bem com limites de tempo
nestas questões. Pergunto o que aconteceria com um ocasional
culto irradiado se o Espírito Santo de repente dominasse o
pregador! Bem, dá-se exatamente a mesma coisa numa ocasião
como esta. Posso ter pensado em planejar certa porção e dizer
certas coisas, e, portanto, eu poderia sumariar um plano de
estudos, mas, como digo, é minha profunda esperança que o
Espírito Santo me dominará, tanto a mim, e às minhas idéias,
como a todo e qualquer pequeno programa que eu tenha. Por
isso irei semana após semana, confiante naquela orientação e
direção, sem prometer nenhuma medida para cada sexta-feira.
Passemos ao assunto que nos traz aqui. Propomo-nos a
examinar, considerar e estudar, da maneira que indiquei, a
Epístola do apóstolo Paulo aos Romanos. Obviamente, devemos
começar com algumas considerações gerais. A própria Epístola
nos concita a proceder assim e, num sentido, força-nos a fazê-
-lo. E, na verdade, todo estudo prolongado das Escrituras deve
ter-nos ensinado que é sempre bom fazer uma pausa no início
de qualquer destas Epístolas do Novo Testamento. Há muito
/

que aprender das palavras iniciais da introdução. E um grande


erro passar às pressas pela introdução destas grandiosas
Epístolas. Se vocês as examinarem bem, e se lhes fizerem
perguntas, verão que elas têm muito conhecimento e informação
espiritual para dar-lhes. Por exemplo, quando chegamos a esta
Epístola, a primeira coisa que notamos a seu respeito é que, das
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Romanos 1

diversas cartas incluídas no cânon do Novo Testamento, ela é a


primeira. Ela vem imediatamente após o livro de Atos dos
Apóstolos. E, é claro, isso levanta uma questão: “Por que ela se
acha aí, na primeira posição?” A resposta não é que ela foi a
primeira carta que o apóstolo escreveu; disso estamos absoluta­
mente certos. Não há dúvida nenhuma de que a primeira
Epístola das que há na Bíblia, a primeira que foi escrita pelo
apóstolo Paulo é a Primeira Epístola aos Tessalonicenses. Assim,
a Epístola aos Romanos não é a primeira do Cânon por ser a
primeira na ordem cronológica.
Então, por que é a primeira? Há quem diga que é porque é
a mais longa, mas, quanto a mim, concordo com os que rejeitam
essa explicação. Dou-lhes a opinião de que ela ocupa a primeira
posição porque o Espírito Santo deu à Igreja sabedoria para
compreender que ela é a primeira em importância. Ela foi posta
em primeiro lugar desde o princípio, e todos concordam com
essa posição. Ela é reconhecida como a Epístola na qual somos
postos face a face com todas as verdades fundamentais das
Escrituras. Assim é que, depois de nos ser feito, em Atos, um
relato de como a Igreja foi formada, estabelecida e propagada, o
que seria mais natural do que a Igreja - as igrejas, em toda parte
- ser lembrada do alicerce básico sobre o qual ela sempre deve
estar firmada? “Ninguém pode pôr outro fundamento”, diz este
mesmo apóstolo escrevendo aos coríntios (1 Coríntios 3:11), e
aqui, repisando o ponto, ele firma todas as verdades
fundamentais.
Certamente isso é algo a que bem podemos dar ênfase.
Sempre foi opinião universal na Igreja Cristã através dos séculos
que Romanos é a Epístola que, mais que todas as outras, trata
dos pontos fundamentais, e se vocês examinarem a história da
Igreja, penso que verão que isso é o que tem sido reiteradamente
sustentado. Há um sentido em que podemos dizer com toda a
veracidade que, possivelmente, a Epístola aos Romanos teve
um papel mais importante e mais crucial na história da Igreja
do que qualquer dos outros livros da Bíblia. Esse é um assunto

13
O Evangelho de Deus

da maior significação. Devemos ler e estudar a Bíblia toda -


sim! Mas, se pela história da Igreja fica evidente que, em parti­
cular, um livro foi utilizado assim, de maneira excepcional, por
certo convém que lhe demos atenção excepcional.
Permitam-me lembrar-lhes, pois, algumas das coisas que
foram feitas na história da Igreja por meio desse livro especial.
Poderíamos fazer uma demorada digressão sobre isso, mas
apenas vou fazer destaque de alguns dos pontos salientes. Vejam,
como primeiro exemplo, a conversão de Agostinho, aquele
homem extraordinário. Suponho que em muitos aspectos é
correto dizer que, entre o encerramento do cânon do Novo Testa­
mento e a Reforma Protestante não houve na Igreja Cristã
nenhuma pessoa mais importante do que Agostinho de Hipona.
Vocês se lembram da história dele. Ele era professor - um
homem brilhante. Todavia, apesar de ser um filósofo profundo,
sua vida era imoral, dissoluta. Vocês se lembram de como ele
foi convertido? Aflito e com a alma em agonia, estava sentado
num jardim certa tarde, quando ouviu a voz de uma criança
dizendo: “Tolle, lege”. “Tome e leia, tome e leia.” Levantou-se,
foi para o seu alojamento e abriu o Livro, e eis o que ele leu no
capítulo treze da Epístola aos Romanos: “Andemos dignamente,
como em pleno dia, não em orgias e bebedices, não em
impudicícias e dissoluções, não em contendas e ciúmes; mas
revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e nada disponhais para a
carne, no tocante às suas concupiscências”. E ali a verdade de
Deus refulgiu sobre ele, e ele foi convertido e salvo, e veio a ser
uma luz orientadora na Igreja Cristã.
Não somente isso! A Igreja teve que passar por um período
de conflitos e lutas logo após a conversão desse grande homem.
Havia um mestre na Igreja cujo nome era Pelágio, e este come­
çou a pregar e a propagar o que se tornou conhecido como
heresia pelagiana. Ora, não se pode contestar que, se aquele
ensino fosse aceito pela Igreja Cristã, teria significado a sua
ruína. Mas a Igreja foi salva da heresia pelagiana naquele tempo
por Agostinho, que refutou e finalmente demoliu o ensino de
14
Romanos 1

Pelágio simplesmente expondo a Epístola aos Romanos. Ela


foi a base, o alicerce sobre o qual a fé da Igreja foi mantida,
estabelecida e capacitada a ter continuidade.
Também muitas pessoas, penso eu, sabem e compreendem
que a Epístola aos Romanos foi certamente o documento crucial
em relação à conversão de Martinho Lutero e que, portanto,
levou ao real princípio da Reforma Protestante. Em 1515, quando
ainda era católico romano, Martinho Lutero, na época professsor
de teologia, resolveu dar aulas aos seus alunos sobre a Epístola
aos Romanos. E foi quando ele estava estudando justamente
essa Epístola que a verdade da justificação pela fé, e pela fé
somente, raiou em sua mente, em seu coração e em todo o seu
ser. Isso levou àquela tremenda mudança em sua vida que
realmente desencadeou a Reforma Protestante. Essa grande
doutrina, mencionada já no capítulo primeiro desta Epístola e
também na Epístola aos Gálatas, foi o meio pelo qual se deu
aquela virada total na vida de Lutero. Assim, podemos ver aí
também como a Epístola foi utilizada por Deus num marco
divisório vital da história da Igreja Cristã.
Igualmente na vida de João Bunyan a mesma Epístola, de
novo junto com a Epístola aos Gálatas e também com os
comentários de Lutero, foi empregada por Deus em sua
conversão. E talvez mais conhecido de todos é o relato da
conversão de João Wesley, em 24 de maio de 1738, na Rua
Aldersgate, em Londres. Deixem-me lembrar-lhes como foi que
aconteceu. O Espírito de Deus estivera operando nele; os Irmãos
Morávios o vinham ensinando sobre a doutrina da justificação
pela fé sem obras e, embora a tivesse entendido com a mente,
tivera que dizer: “Não a senti”. Foi num estado de grande
agitação da alma, da mente e do coração que ele foi, sem boa
disposição, a uma reunião na Rua Aldersgate. Aconteceu que
naquela reunião alguém - um dos irmãos cristãos - estava lendo
o Prefácio e Introdução do Comentário da Epístola aos
Romanos, de Martinho Lutero, e Wesley sentou-se e se pôs a
ouvi-lo. E enquanto ouvia, viu que o seu coração foi “aquecido

15
O Evangelho de Deus

estranhamente”, e ele ficou ciente de que Deus tinha perdoado


os seus pecados - “até os meus”, diz ele. Ali mesmo e naquela
mesma hora foi-lhe dada uma firme certeza da salvação, a qual
o tornou do abjeto que era como pregador num grande e
poderoso evangelista.
Permitam-me dar-lhes só mais um exemplo do uso que o
Espírito Santo fez da Epístola. Houve um notável movimento
evangélico* no continente europeu no início do século
dezenove. Começou especialmente na Suíça; depois espalhou-
-se até a França, e também teve certa influência na Holanda.
A vida protestante no continente se tornara mortiça e muito
formal, mas de repente surgiu essa nova luz, ocorre esse reviver,
o que levou a um movimento deveras notável. Fico a perguntar
quantos de vocês sabem que isso aconteceu da seguinte maneira:
havia dois escoceses de sobrenome Haldane - Robert e James
Alexander Haldane. Eram leigos, mas foram grandemente
usados por Deus na Escócia e noutros lugares naquele tempo.
Robert Haldane esteve na Suíça, em Genebra, e um dia, quando
estava sentado ao ar livre, ouviu a conversa de alguns jovens
que estavam sentados ao seu lado. Percebeu que eram estudantes
de teologia; percebeu também que eles ignoravam a verdade
no sentido evangélico, e que, portanto, ignoravam o seu poder.
Isso pesou em seu coração. Haldane esteve com eles várias vezes
e, por fim, resolveu fazer algo para ajudá-los.
Assim foi que Robert Haldane convidou aqueles jovens, e
eles levaram outros, para que fossem ao seu quarto, e o que ele
fez foi simplesmente expor-lhes a Epístola aos Romanos,
versículo por versículo, e explicar-lhes as suas poderosas e
gloriosas verdades. O Espírito Santo, que o induziu a fazer isso,
honrou-o quando ele o fez, e aquelas reuniões singelas levaram
à conversão de alguns grandes homens. Um deles, Merle

* Como noutras obras, não fazemos uso da forma inglesa “evangelicalism”,


e procuramos resgatar o sentido cristão e bíblico da palavra “evangélico”.
Nota do tradutor.

16
Romanos 1

d’Aubigné, ficou famoso pela produção da obra que, em muitos


aspectos, é a modelar história da Reforma Protestante. Houve
outro homem, chamado Gaussen, autor de um excelente livro
sobre a inspiração das Escrituras. Ambos esses homens foram
convertidos naquelas reuniões. Outro homem, chamado Malan,
também foi convertido e, entre outros, Monod e Vinet, nomes
que eram conhecidos na França. Resultou dessa exposição da
Epístola aos Romanos, feita por Robert Haldane, que todos eles
acabaram se tornando poderosos homens de Deus, e os grandes
mestres que foram.
Aí estão, pois, algumas ilustrações de como Deus usou esta
notável Epístola para propagar o Seu reino. Mas, queiram
permitir-me também que eu lhes comunique alguns
testemunhos da sua grandeza e do seu valor, dados por homens
de Deus. Um dos grandes pregadores da Igreja Cristã Primitiva
- certamente um dos pregadores mais eloqüentes que a Igreja
já conheceu - foi João Crisóstomo, de Constantinopla. Ele dizia
que a Epístola aos Romanos é tão extraordinária que ele ouvia a
leitura dela duas vezes por semana. Ele queria ouvi-la para
captar a sua mensagem. Ouçam também o que diz Martinho
Lutero sobre ela: “Esta Epístola é a parte principal do Novo
Testamento” - significando que é o livro mais grandioso do Novo
Testamento - “e o mais puro evangelho, e merece que o cristão
não somente a saiba de cor palavra por palavra, porém também
trate dela diariamente como o pão diário para a alma, pois nunca
poderá ser lida demais, nem estudada demais, nem assimilada
demasiadamente bem, e quanto mais for manuseada, mais
deleitável se tornará e melhor sabor terá”. Pergunto: quantos
dos aqui presentes neste momento poderiam recitá-la para mim,
palavra por palavra? Notem que Lutero disse que devemos
aprendê-la desse modo, confiá-la à memória, conhecê-la em
nossos corações, lê-la constantemente, porque, diz ele, quanto
mais vezes vocês o fizerem, “mais deleitável se tornará e melhor
sabor terá”.
Tomo a liberdade de dar-lhes a opinião doutra pessoa.

17
O Evangelho de Deus

Suponho que uma das mentes mais agudas que a história da


literatura inglesa conheceu foi a de Samuel Taylor Coleridge -
homem notável; e o que Coleridge disse desta Epístola foi que
“é a mais profunda obra escrita que existe”. Aí está um literato,
um erudito, autor de livros tais como Biographia Literária,
homem que não somente conhecia a literatura inglesa, mas
igualmente era versado na literatura alemã. Era conhecedor dos
clássicos. Contudo, esse homem pôde dizer que a Epístola aos
Romanos é “a mais profunda obra escrita em existência”. Não
estou dizendo estas coisas somente para justificar o nosso ensino
desta grande Epístola, mas também esperando que, ao fazê-lo,
estaremos examinando a nós mesmos e fazendo estas perguntas:
“Terei compreendido tudo isso acerca da Epístola aos Romanos?
Quando percorri a Bíblia, eu me detive neste livro? Fiz uma
pausa e dediquei tempo a ele? Dei-me conta da sua
profundidade?”
E agora, tendo dito estas coisas preliminares, consideremos
a Epístola propriamente dita. Vemos que a sua primeira palavra
é o nome PAULO; é uma Epístola escrita por um homem
chamado Paulo. Aqui sou compelido a deter-me. Não posso ir
adiante, porque, como eu disse anteriormente, se vocês pararem
e observarem estas coisas logo no início, encontrarão rica
verdade. Vejamos agora esta primeira palavra, Paulo. E o nome
do homem que está escrevendo, e ele está escrevendo uma carta
a um grupo de cristãos da grande cidade de Roma, a metrópole
do mundo daquele tempo. Está escrevendo a cristãos, a maioria
dos quais é composta de gentios. Que coisa admirável e
espantosa! Que coisa admirável, este homem, dentre todos os
demais, escrever uma carta como esta a uma igreja mormente
gentílica! Por que digo isso? Digo-o à luz da história deste
homem. Temos uma pequena sinopse dessa história no capítulo
3 de Filipenses, que devemos ler para prover-nos do cenário de
fundo. Esta é uma das coisas mais admiráveis que já
aconteceram. Mais admirável que a Epístola aos Romanos é o
fato de Paulo escrevê-la. Lá estava este homem, anteriormente
18
Romanos 1

um judeu austero, fanático, nacionalista, que odiava o Senhor


Jesus Cristo e tudo quanto se relacionava com Ele, que O
considerava blasfemo, que tentava destruir a Igreja Cristã, que
foi para Damasco respirando ameaças e mortes a fim de poder
exterminar a pequena igreja daquela cidade. A seguir,
lembremo-nos de como ele viu o Senhor ressurreto, e de como
toda a sua vida foi transformada, e de como ele se tornou
poderoso defensor da fé e apóstolo para os gentios.
Isso posto, aí está algo que devemos analisar um pouco,
pois não podemos deixar de ficar impressionados com a maneira
maravilhosa pela qual Deus preparou este homem especial para
a sua tarefa especial. Que tipo de homem era ele? Já lhes falei
da sua conversão, mas estudemos um pouco mais a pessoa dele.
Que é que vemos? Vemos que ele era um homem dotado de
incomum e excepcional habilidade natural. Isso é inquestio­
nável. É algo que transparece em toda parte em suas Epístolas,
e naquilo que nos é dito sobre ele no livro de Atos. Este homem
foi, indubitavelmente, um dos grandes cérebros, não só da Igreja
mas também do mundo. Isso é reconhecido por incrédulos.
Lembro-me de que, quando se aproximava o fim da Segunda
Guerra Mundial, foi feita aqui em Londres uma série de
preleções sobre “As Maiores Mentes de Todos os Séculos”. Foi
planejada e organizada por uma sociedade secular, mas na lista
dos homens assim considerados estava este homem, o apóstolo
Paulo, porque tiveram que reconhecer e admitir que ele foi uma
das principais mentes de todos os séculos. E isso é algo que
sobressai claramente em tudo o que ele faz. Vocês não podem
deixar de notar o seu tremendo poder de raciocínio, sua lógica,
seus argumentos, o modo como ele dispõe as suas provas e os
seus fatos, e os apresenta. Ele era, então, um homem deveras
admirável, mesmo que somente contemplado do ponto de vista
natural e considerada a sua capacidade incomum.
No entanto, em acréscimo, notem o seu nascimento, a sua
formação educacional e o seu preparo prático. Estou tentando
mostrar-lhes como Deus estava preparando este homem para a

19
O Evangelho de Deus

grande tarefa que lhe designara, e isso tudo já nos é sugerido


simplesmente por seu nome. Primeiramente e acima de tudo,
ele era judeu. Sobre isso ele nos disse tudo - hebreu de hebreus,
da tribo de Benjamim, etc. Sim, mas não somente isso; também
foi educado como fariseu; teve o privilégio de sentar-se aos pés
de Gamaliel, o maior mestre dentre os fariseus, e ali, sob aquele
ensino especializado e competente, ele mesmo veio a ser um
especialista na lei judaica, pelo menos como esta era ensinada e
interpretada pelos fariseus. Diz-nos ele que sobrepujou a todos
os demais em excelência. Evidentemente ele foi o máximo em
todas as provas. Ele simplesmente pôde embeber-se em
conhecimento e informação, e aí está ele, pois, “o fariseu dos
fariseus”, um especialista no entendimento e na interpretação
judaicos da lei de Deus.
Sim, mas outra coisa a respeito dele é que ele era cidadão
romano de nascimento. Certamente vocês recordam que, no
livro de Atos, quando Paulo teve que fazer a sua defesa após ter
sido preso, ele assinalou que era “cidadão de Tarso, cidade não
pouco célebre” (Atos 21:39), e que nascera livre. Era um cidadão
romano, um homem livre. Pois bem, isso era de grande
significação: uma alta honra. Lemos sobre pessoas às quais foi
dada liberdade ou que receberam o título de cidadãos de
Londres ou de alguma outra cidade, honra grandemente
apreciada. Bem, naquele tempo era algo de ainda maior valor
ser cidadão nato do Império Romano - e este homem, natural
da cidade de Tarso, era cidadão romano por direito de
nascimento, com todos os privilégios que esse fato implicava.
Lemos em Atos sobre como ele fez uso dessa cidadania em mais
de uma ocasião, e sem dúvida o usou muitas outras vezes de
que não fomos informados, durante a realização do seu trabalho
como evangelista.
Outro fato importante nessa conexão foi ter sido criado
numa cidade chamada Tarso. Como se sabe, Tarso era um dos
principais centros de cultura; as outras duas eram, é claro, Atenas,
na Grécia, e Alexandria, no Egito. Contudo Tarso, de acordo
20
Romanos 1

com as autoridades, era igual a Atenas e Alexandria nesta questão


de cultura grega. E, ao ler-se o livro de Atos, vê-se que o apóstolo
tinha sido bem preparado neste aspecto também. Ele era homem
de cultura. Ele conhecia os poetas gregos e podia citá-los. Ele
conhecia as produções literárias dos filósofos gregos, e podia
citá-los. Ele tinha esse substrato da cultura grega em sua melhor
expressão, em acréscimo à sua cidadania e ao seu nascimento,
no sentido natural, como judeu.
Por que me demoro nisso tudo? Bem, por esta razão: esta
Epístola nos mostrará que este homem de Deus foi levantado
por Deus para duas realizações especiais. Uma delas era defender
a fé cristã contra os judeus, ou contra o judaísmo. Ele trata disso
em quase todas as suas Epístolas. Dentre todos os homens, foi
ele que teve de contender por outros. Diz-nos ele no capítulo
dois da Epístola aos Gálatas que teve até de resistir ao apóstolo
Pedro na cara sobre essa questão. Pedro estava começando a
desviar-se nesse ponto. Temia o judaísmo. E quem pode dizer
o que aconteceria com a Igreja Cristã, se o apóstolo Paulo não
fosse capaz de resistir-lhe e refutá-lo, e de trazê-lo de volta a um
verdadeiro entendimento do evangelho. Vemos, pois, que não
se pode duvidar de que o conhecimento que o apóstolo tinha
da posição dos judeus, conhecimento que obtivera em sua
criação e instrução aos pés de Gamaliel, foi de inestimável valor.
Ele conhecia a causa do outro lado melhor do que os próprios
antagonistas, e assim, como cristão, pôde enfrentá-la, mostrar
as suas falácias e finalmente refutá-la.
Permitam-me colocar o ponto doutra maneira. A
dificuldade com relação a muitas pessoas honestas e sinceras
era esta: como podiam conciliar as Escrituras do Velho Testa­
mento e o seu ensino com este novo evangelho, com esta nova
fé? A acusação que os judeus faziam especialmente contra o
evangelho era que este consistia em algo espúrio, que não vinha
de Deus, que era uma clara contradição de tudo o que o Velho
Testamento ensinava, que era uma inovação, e, por isso,
advertiam o povo contra ele. E uma das grandes tarefas

21
O Evangelho de Deus

desempenhadas por Paulo foi a conciliação do ensino do Velho


Testamento com o do Novo. Ele foi, se é que vocês se lembram,
para a Arábia após a sua conversão, e lá, sem dúvida, passou o
tempo meditando precisamente nessa questão. Ele foi iluminado
pelo Espírito Santo. Examinou as Escrituras, que ele conhecia
tão bem! Encontrou Cristo nelas, em toda parte, de modo que,
quando escreveu as Epístolas, pôde fazer as citações que fez,
pôde usá-las no ponto certo; ele conhecia a causa dos judeus
por dentro e por fora, devido à formação dele e seu passado;
tudo isso foi de inestimável valor para ele.
A segunda grande realização para a qual este homem de
Deus foi chamado foi a de agir como apóstolo dos gentios. Ele
nos diz isso no capítulo quinze desta Epístola aos Romanos.
Ele engrandece o seu ofício como apóstolo dos gentios, e é óbvio
que o fato de ser ele um cidadão romano era de inestimável
valor nesse ponto. Acaso não seria também óbvio que o seu
conhecimento da literatura e da cultura gregas era igualmente
valioso? Aí está um homem que não somente tem o evangelho
para pregar, mas que também entende o povo a quem prega.
Vejam o modo como ele expressa o ponto quando escreve aos
coríntios, no capítulo nove da Primeira Epístola; diz ele: “Fiz-
-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar
alguns. Para os que estão sem lei, como se estivera sem lei...
para ganhar os que estão sem lei”. Ele pode falar como judeu.
Ele pode falar como gentio.Ele conhece os elementos básicos
de formação das duas culturas. E assim ele sabe pregar o
evangelho a ambas, sabe pregá-lo a todos os homens. De fato
ele nos diz, logo no primeiro capítulo da Epístola aos Romanos:
“Eu sou devedor, tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios
como a ignorantes. E assim, quanto está em mim, estou pronto
para também vos anunciar o evangelho, a vós que estais em
Roma”. Penso que temos aí uma daquelas coisas admiráveis
que se vêem quando se contempla a maneira maravilhosa pela
qual Deus faz com que se cumpram os Seus propósitos - como
Ele estivera preparando este homem para todas estas coisas
22
Romanos 1

grandiosas que Ele o incumbiu de realizar.


Mas certamente aqui topamos com um princípio de real
valor prático para nós no presente momento. Deixem-me
expressá-lo do seguinte modo: qual é a relação que há entre o
Espírito Santo e Sua obra por um lado, e os dons naturais e a
educação por outro? Estou certo de que essa pergunta se tem
apresentado a vocês como um problema, e muitas vezes ela tem
sido debatida. Muitas vezes isso levou a confusão, e penso que é
o que está acontecendo atualmente. Alguns parecem ter a idéia
de que absolutamente nada importa, exceto que o homem seja
convertido e receba o dom do Espírito Santo. Isso, dizem eles,
é tudo o que se necessita, e os dons naturais não têm a mínima
importância. Se a pessoa é cheia do Espírito Santo, nada mais
importa; o Espírito é todo-poderoso. Certamente toda essa
ênfase sobre Paulo ser judeu, conhecer algo da cultura grega,
ter a cidadania romana, não tem nenhuma significação. Nada
importa, exceto que o homem nasça de novo, seja convertido e
tenha dentro de si o Espírito.
Pois bem, há certas coisas nos escritos deste homem,
permitam-me dizê-lo, que parecem dar certo colorido àquela
idéia. Na Primeira Epístola aos Coríntios, no capítulo primeiro,
o apóstolo assinala com magnífica eloqüência que “...Deus
escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as
sábias...”. Vocês se lembram do argumento. No capítulo dois
da mesma Epístola diz ele que “...o homem natural não
compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem
loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem
espiritualmente”. E ainda na Segunda Epístola aos Coríntios,
no capítulo dez, diz ele: “Porque as armas da nossa milícia não
são carnais, mas sim poderosas em Deus, para destruição das
fortalezas”. E então, baseados nisso, há os que alegam que,
seguramente, não importa quais sejam os dotes naturais da
pessoa; não importa se ela é inteligente ou não, se é instruída
ou ignorante - nada importa, senão o poder do Espírito.
Ora, que dizer disso? Creio que vocês concordarão comigo

23
0 Evangelho de Deus

cm que uma sugestão desse pensamento é corrente hoje em dia.


Por alguma razão assombrosa, parece que se considera quase
como um requisito que a pessoa não tenha habilidade natural
em relação às coisas do evangelho, que não tenha grandes
poderes naturais, e que não tenha demasiado entendimento,
conhecimento e preparo. Não haveria uma tendência de se
dizer isso? É uma tendência que vimos noutros domínios. Acaso
isso não foi parte da nossa dificuldade em geral antes da eclosão
da guerra em 1939? Não havia a tendência de se confiar em quem
dissesse: “Não sou inteligente, sou apenas honesto”? Como se
não fosse possível ser inteligente e honesto ao mesmo tempo!
“Sou um homem simples; não tenho pretensão de possuir
grande entendimento, e não sou grande orador; sou simples­
mente um homem comum, um homem honesto.” E
acreditávamos nele. Ao mesmo tempo, havia outro, muito mais
capaz, que nos advertia de que corríamos grave perigo. Pois
bem, a tendência era dizer: “Ah, você não pode confiar nesse
homem, ele é inteligente demais, é um promotor de guerras;
não lhe dê ouvidos. Você não pode confiar nesses homens
habilidosos, fiquemos com o homem simples e comum”. Bem,
vocês se lembram do que aconteceu - quase levou à desgraça e
à ruína da Inglaterra.
Dito isso, há o perigo, digo eu, de usarmos semelhante
argumento quanto à propagação do evangelho, mas é uma falácia
terrível, e deixem-me mostrar por que digo isso. A Bíblia o
contradiz. Vão lendo a Bíblia e notem os homens que Deus
usou de maneira assinalada, e verão em cada caso que eles eram
homens notáveis, homens de destacada capacidade, que Deus
tinha preparado de maneira incomum. Vejam Moisés, por
exemplo, com a sua habilidade natural e com o saber que
adquiriu na casa de Faraó, com tudo o que isso significou para
ele em termos de preparação. Vejam um homem como Davi.
Leiam os seus salmos. Que pessoa extraordinária! Que homem
de destacada competência! Vejam Isaías. Leiam os seus
argumentos vigorosos; observem a sua linguagem inflamada e

24
Romanos 1

emocionante. Ele foi um grande poeta, entre outras coisas. Vejam


um homem como Jeremias, que tinha sido preparado para ser
pregador; observem o seu método de argumentação. E
poderíamos prosseguir nisso mais e mais. Depois, chegando ao
Novo Testamento, uma preparação semelhante ocorreu não
somente com este homem, Saulo de Tarso, que se tornou Paulo;
é evidente que ocorreu igualmente com o apóstolo João que,
embora não recebendo capacitação tão completa, evidentemente
foi um homem de considerável capacidade.
Vocês não veem o ensino dessa verdade somente na Bíblia;
vêem-no também na história da Igreja através dos séculos. Já
mencionei Agostinho. Mencionei Martinho Lutero. Poderia
mencionar João Calvino, Jonathan Edwards e João Wesley -
homens de capacidade e, no sentido natural, extraordinaria­
mente dotados. Tais são os homens que se vê que Deus usou de
maneira muito notável para a concretização dos Seus propósitos
na extensão do Reino e no progresso da Igreja.
Há, então, certos princípios que podemos deduzir;
permitam-me apenas anotá-los para vocês. Não há nada de errado
nos dons naturais em si. É Deus quem dota a todos os homens
de dons naturais; o homem não cria os seus próprias dons. Um
Shakespeare não é o responsável pela obtenção da sua
habilidade. Todos os dons são outorgados por Deus; portanto, é
antibíblico e anticristão desacreditar os dons naturais. A fé cristã
não dá prêmio à ignorância e à estultícia. Não há vantagem na
vida cristã que se enquadre nessa categoria. Entretanto, deixem-
-me avançar um pouco mais. Em segundo lugar, não devemos
pôr a nossa confiança nos dons naturais, não devemos gloriar­
mos neles. E é com isso que o apóstolo Paulo estava preocupado
quando escreveu aos coríntios. A dificuldade que havia com os
cristãos coríntios não era que eles tinham dons, porém que se
jactavam deles e se gloriavam neles. Ora, isso é algo que é
denunciado em toda parte, nas Escrituras. Não há nada de errado
nos dons, propriamente ditos, mas se eu me gloriar neles, ou
pensar que porque os tenho não preciso do Espírito Santo, então

25
O Evangelho de Deus

estarei totalmente errado.


Os dons naturais não são descartados nem deixados de lado
pelo Espírito Santo. O Espírito Santo exerce controle sobre eles
e faz uso deles. Pois bem, é assim que podemos entender a
maneira pela qual Deus usou os homens mencionados nas
Escrituras. Notem como cada um deles tem o seu próprio estilo.
Se alguém lesse para vocês um trecho da profecia de Isaías, vocês
o reconheceriam? Não o reconheceriam? Vocês seriam capazes
de dizer: “Isso é Isaías”. Certamente, se eu lesse uma parte das
Epístolas de Paulo, ninguém que tenha algum conhecimento
das Escrituras sonharia em opinar que é de Pedro ou de João.
Não! Cada um desses homens teve o seu estilo peculiar - eles
não escreveram igualmente - não foram autômatos. O Espírito
Santo não lhes fez um ditado. O que o Espírito Santo fez foi
tomar esses homens com todos os seus dons e capacidades para
usá-los e empregá-los. Veremos tudo isso à medida que formos
percorrendo esta Epístola aos Romanos. Nesta carta ficaremos
impressionados com a ordem, com a lógica, com os argumentos,
com a energia com que Paulo escreve. De todas essas
características naturais, de todos esses atributos que o natural
Saulo de Tarso tinha, o Espírito tomou posse, e eles são
demonstrados em sua magnificência nesta Epístola aos
Romanos.
Ah, como é importante que entendamos isso! A nossa
doutrina sobre a inspiração das Escrituras não é a do ditado
mecânico. O Espírito Santo tomou os homens que a Ele se
renderam, e fez uso de todos os dons de que tinham sido
revestidos. Foi Deus quem lhes deu esses dons. Foi Deus que
providenciou para que Paulo nascesse em Tarso. Foi como Deus
planejou prepará-lo. Deus tinha uma tarefa para ele. Por isso
vocês vêem a glória de Deus brilhando em toda a obra dele. O
homem certo na hora certa para a tarefa especial! Observem
esse fato no caso de Martinho Lutero. Era esse o homem que
havia de iniciar a Reforma Protestante, o homem que foi
preparado como monge, o homem que conhecia muito bem

26
Romanos 1

Roma por dentro. São tais homens que Deus usa. Ele não toma
alguém que nada sabe dessas coisas, enchendo-o do Espírito e
fazendo uso dele. Não, Ele sempre preparou o homem para o
Seu serviço, e tem continuado a fazê-lo através dos séculos.
Meus caros amigos, digo-lhes que há nisso uma lição pessoal
para mim e para vocês. Vocês foram convertidos recentemente?
Bem, não deixem que o diabo os tente, levando-os a pensar que
os seus dons naturais não têm valor e são inúteis. Vocês faziam
uso da sua personalidade na velha vida - Deus quer usá-la na
nova. Vocês usavam os seus dons na sua velha vida, em seus
negócios, no seu pecado. Os mesmos dons podem ser utilizados
no seu testemunho cristão, no seu procedimento cristão. Essa é
a lição que vejo aqui. Todos nós temos dons; tratemos de
devolvê-los a Deus para que faça uso deles. Não queiramos ser
como os demais. Não fomos destinados a isso. Deixemos que
Deus use os dons que Ele nos deu, para que eu à minha maneira,
vocês à sua, e os outros às suas diferentes maneiras, possamos
ser, todos juntos, como um grande coral, cantando as diferentes
vozes num vigoroso cântico de louvor a Deus. Deus faz a
mesma coisa na natureza e na criação. Não existem duas flores
iguais, dois pássaros idênticos; cada criatura tem algo diferente
das outras, e com isso Deus manifesta a Sua glória na variedade
e no encanto da natureza.
Paulo - sim! O homem certo e necessário para lançar o
fundamento, para salvaguardar a verdade contra o judaísmo,
para apresentá-la em toda a sua glória aos gentios. Paulo, como
vimos, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, e
separado para o evangelho de Deus.

27
2
“Paulo... a todos os que estais em Roma.” - Romanos 1:1,7

Depois de fazer um exame geral da Epístola e do homem


que a escreveu, o próximo ponto que devemos considerar, da
mesma maneira introdutória geral, é a identidade das pessoas
para as quais ele escreveu a carta. No versículo 7 do primeiro
capítulo ele nos diz que ela foi escrita e destinada “A todos os
que estais em Roma, amados de Deus, chamados santos...” (VA,
ARA: “chamados para serdes santos”). Não me proponho nesta
altura a tomar essa descrição pormenorizadamente, como
tampouco entramos nos pormenores do que o apóstolo diz sobre
si mesmo como o autor. Ainda estou introduzindo a Epístola,
porque penso que estas considerações preliminares são de vital
importância. Por isso nos contentamos em dizer que ela foi
endereçada “A todos os que estais em Roma” - àqueles irmãos
“amados de Deus, chamados santos”.
Porventura é uma coisa esplêndida e maravilhosa que
alguma vez surgisse a ocasião para que o apóstolo escrevesse
uma carta aos cristãos de Roma - Roma, dentre todos os lugares?
Aqui somos logo levados a lembrar-nos da plena maravilha do
evangelho. É-nos muito difícil - e, todavia, nem tanto nos dias
atuais - reconstruir o cenário e lembrar-nos das condições da
Roma antiga. Bem, se não vemos isso com clareza* tudo o que
precisamos fazer é ler o que o próprio Paulo diz neste capítulo
primeiro, do versículo 18 ou 19 até o fim, e com isso teremos
alguma idéia de como era a vida neste mundo, e no Império
Romano em particular. É um quadro de degradação tão terrível

28
Romanos 1:1,7

como jamais foi traçado. E foi de um mundo como esse - do


meio de pessoas que viviam nesse tipo de atmosfera e que
tinham esse tipo de vida - que estes destinatários tinham vindo
a juntar-se como cristãos, e é a eles que Paulo escreve sua carta.
Há somente uma explicação para a mudança deles, como
também há somente uma explicação para o fato de pessoas
cristãs se assentarem aqui, neste edifício, semana após semana.
Há só um fator que pode transformar em santos, homens e
mulheres pertencentes às terríveis categorias acima descritas, e
é desse fator que Paulo fala no versículo 16: “Não me envergonho
do evangelho de Cristo”, diz ele, “pois é o poder de Deus para
salvação”. Nenhuma outra coisa teria produzido cristãos no
Império Romano e em Roma. Mas o evangelho podia fazê-lo, e
o fez, e o resultado foi que o apóstolo escreveu uma carta a essas
pessoas.
Como foi que elas se tornaram cristãs? Como foi que estes
cristãos de Roma tinham vindo a existir? E muito importante
dar resposta a essa pergunta. A resposta é primeiramente uma
negativa. A igreja em Roma não foi fundada pelo apóstolo Paulo.
Como ele explica na Epístola, ele nunca tinha estado lá. Tinha
esperado poder estar lá, mas até então fora “impedido”. Como
ele diz nesta introdução, “Deus me é testemunha de como
incessantemente faço menção de vós, pedindo sempre em
minhas orações que nalgum tempo, pela vontade de Deus, se
me ofereça boa ocasião de ir ter convosco. Porque desejo ver-
-vos...”, mas ele diz que tinha sido impedido. Assim, a igreja
não foi fundada pelo apóstolo Paulo, e, de acordo com todos os
cálculos, embora nunca os tivesse visto, ele escreveu esta carta
por volta de 58 d.C. Se vocês fizerem uma pesquisa no livro de
Atos, verão que ela foi escrita provavelmente perto do fim da
terceira viagem missionária de Paulo. Leiam especialmente o
capítulo vinte de Atos, e também o capítulo dezesseis desta
Epístola. Notem alguns dos nomes que ele menciona, as
saudações que ele envia a um homem chamado Gaio, que vivia
em Corinto, e a outros. Estes estabelecem mais ou menos o

29
O Evangelho de Deus

fato de que a carta foi escrita por volta de 58 d.C., quando se


aproximava o fim da sua terceira viagem missionária. O
importante, porém, é que a igreja em Roma não foi fundada
pelo apóstolo Paulo; tampouco pelo apóstolo Pedro.
Agora vocês vêem por que estou levantando esta questão
da origem da igreja em Roma. “Bem”, dirá alguém”, “como é
que você pode resolver tão facilmente assim este problema que
tem agitado tantas mentes?” Quero responder essa pergunta
com outra. E concebível que, se a igreja em Roma fosse fundada
e estabelecida pelo apóstolo Pedro, nenhuma referência, de
qualquer espécie, seria feita a ele na carta? Não só isso. Temos
no capítulo quinze desta Epístola uma declaração específica do
apóstolo Paulo de que nunca foi sua prática interferir em obra
alheia. Diz ele que não fora chamado para “edificar sobre
fundamento alheio”; ele próprio haveria de ser um pioneiro.
Portanto, pode-se afirmar com segurança que, se o apóstolo
Pedro tivesse fundado e estabelecido aquela igreja, Paulo não
lhe teria enviado esta carta. Era contra a sua prática, diz ele.
Assim, a nossa primeira resposta seria a ausência do nome de
Pedro - nem sequer uma remota referência a ele - e esta franca
contradição daquilo que o apóstolo Paulo nos declara ter sido
seu costume e seu hábito.
Além disso - e este fato tem que ser concedido mesmo
pela igreja católica romana - não há nenhuma verdadeira prova
histórica, nem mesmo fora do Novo Testamento, de que Pedro
estava lá naquele tempo. Aí está a prova, eu diria, e é muito
importante. Mas podemos ir além e dizer que aquela igreja não
foi tampouco fundada por nenhum apóstolo. Não há referência
a nenhum deles, e, de novo, seria violar a expressa prática do
apóstolo Paulo.
Então, como foi que esta igreja em Roma veio a existir? Há
bem pouca dúvida, parece-me, de que foi da seguinte maneira:
no capítulo dois de Atos somos informados, pela lista dos
diversos religiosos, judeus e prosélitos que tinham subido para
a festa do dia de Pentecoste em Jerusalém, que alguns deles

30
Romanos 1:1,7

tinham vindo de Roma. Logo, certamente não é preciso ter


muita imaginação para ver que alguns deles provavelmente
foram convertidos quando ouviram o apóstolo Pedro, que eles
estavam entre os três mil, e que voltaram para Roma e
propagaram as boas novas, transmitiram a mensagem e a
demonstraram em suas vidas. Essa é provavelmente uma parte
dos fatos, mas houve algo mais. Roma era, naturalmente, a sede
do governo imperial, a metrópole do Império Romano, a
Londres, por assim dizer, de todo o vasto esquema de governo,
e muita gente ia e vinha de todas as partes deste grande e
extensamente espalhado império - soldados e outros, pessoas
comuns. Lemos a respeito de Aqüila e Priscila; tinham ido para
lá, não nasceram lá. Muitos viajavam, indo e vindo, e assim
alguns cristãos ficaram em Roma. E, indubitavelmente, segundo
estas duas linhas, aqueles a quem Paulo estava escrevendo
tinham se tornado cristãos; alguns deles eram judeus e alguns
eram gentios.
O próximo ponto de que desejo tratar é que o caráter
daquela igreja é muito interessante. A lista de saudações que
temos no último capítulo (e considerar o último capítulo é tão
importante como considerar a introdução desta carta, porque
lá Paulo volta às particularidades) mostra que era uma igreja
heterogênea. Havia alguns judeus entre eles - judeus conver­
tidos, judeus cristãos. Alguns deles eram parentes do apóstolo
- ele faz referência a eles - mas provavelmente a maioria era de
gentios. Outra coisa muito interessante é esta: que a lista do
capítulo dezesseis indica que muitos escravos se haviam tornado
cristãos. Sempre que vocês virem referência aos que são da
“família” (ARA: “casa”) de alguém, poderão entendê-la como
referência a seus escravos; é assim que eles eram descritos.
A única observação geral a mais que eu gostaria de fazer
acerca da igreja em Roma é a seguinte: vocês observam que o
apóstolo diz que está escrevendo “a todos os que estaisem Roma,
amados de Deus”. Teríamos direito de usar um argumento como
este - que ele não está escrevendo à igreja de Roma, e sim à

31
O Evangelho de Deus

igreja em Roma? Se vocês percorrerem as saudações em todas


estas Epístolas do Novo Testamento, acharão interessante
descobrir esse mesmo ponto. A maneira característica de Paulo
dizê-lo é esta: ele está escrevendo à igreja de Deus em Corinto,
ou em Éfeso, ou em algum outro lugar. Ele não diz, à igreja de
Corinto, etc. Não é esse o conceito neotestamentário de igreja,
absolutamente. E a mim me parece, como também pareceu a
muitos dos nossos antepassados, que não é bíblico falar da igreja
de algum lugar debaixo do sol, porque sempre devemos
preservar esta distinção. A igreja é uma reunião de crentes
autênticos. Eles podem estar em Londres, em Roma, em
A

Corinto, em Efeso, ou em qualquer outro lugar; não são do lugar


nesse sentido. Estão ali, mas são cidadãos do céu. Naturalmente,
humanamente falando, ainda são cidadãos das suas cidades
terrenas, mas Paulo dá ênfase a esta distinção. Não se pode
explicar isso em termos de Roma ou Corinto: “A todos os que
estais em Roma”. Quanto ao corpo, estais em Roma, porém o
que há de importante a vosso respeito é que fostes “chamados
para serdes santos”.
Outra coisa é que geralmente se vê que o Novo Testamento
fala muito mais acerca de “igrejas”do que acerca da Igreja - as
“igrejas na Galácia”(VA),* e assim por diante. E, obviamente,
nesse sentido, poderiam existir diversas igrejas em Roma. Vocês
se lembram de que, ao enviar saudações a Aqiiila e Priscila,
Paulo declara que também deseja enviar saudações à igreja que
está “em sua casa”. Noutras palavras, eles não tinham um grande

A partícula “de” não tem necessariamente significação possessiva. Os


dicionários da língua portuguesa dão grande lista de usos e sentidos da
partícula “de”. Assim, dizer, e.g., Igreja Presbiteriana cio Brasil, não é dizer
que o Brasil é dono dessa denominação evangélica. A expressão “do
BrasiPapenas indica que essa igreja está radicada no Brasil e que os seus
objetivos visam, primeiramente, em termos operacionais, atender às
necessidades do povo brasileiro. “No Brasil”, no exemplo citado, seria
anglicismo. Mas, mesmo em português, em termos de ênfase, é válida a
distinção feita pelo autor. Nota do tradutor.

32
Romanos 1:1,7

prédio central, mas em Roma os cristãos se reuniam em suas


casas, uns aqui, outros ali. Sim, porém são igrejas, todas elas,
pois o apóstolo fala acerca da igreja “em sua casa” (i.e., na casa
deles). Também aqui seria possível desenvolver o tema elabor­
adamente, mas eu penso que grande parte da confusão moderna
deve-se ao fato de que falamos demais da “Igreja”, em vez de
pensarmos em termos de “igrejas”, em vez de pensarmos em
reuniões dos santos, no meio das quais está Cristo, e esta é uma
distinção muito importante.
A próxima questão à qual nos dirigimos é a seguinte: aí
está Paulo escrevendo uma carta aos cristãos residentes em
Roma. Por que lhes escreveu? Qual a razão disso? Ele tinha que
ter alguma razão para escrevê-la, e no versículo 11 ele nos diz
que foi esta: “Desejo ver-vos, para vos comunicar algum dom
espiritual, a fim de que sejais confortados”. Essa é a razão - eles
precisavam ser “confortados”, ou “confirmados” (ARA). A
conversão não é o fim; é o começo. Embora um homem possa
estar realmente convertido e ter nascido de novo, pode estar em
perigosas condições. Por quê? O apóstolo no-lo diz no último
capítulo - no capítulo dezesseis, versículos 17 e 18: “Rogo-vos,
irmãos, que noteis os que promovem dissensões e escândalos
contra a doutrina que aprendestes; desviai-vos deles. Porque os
tais não servem a nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao seu ventre;
e com suaves palavras e lisonjas enganam os corações dos
símplices”.
Quando leio isso, quase me sinto como se Paulo estivesse
escrevendo a cristãos modernos. Eu vos escrevo, diz ele, com o
fim de “confirmar-vos”. Há pessoas que andam por aí
empregando boas palavras e argumentos especiosos. São tão
insinuantes, parecem tão finos, e os crentes simples e os
ignorantes prestam-se a dar-lhes ouvidos, e a serem levados por
todo vento de doutrina. Sermos convertidos não basta;
precisamos ser confirmados e edificados. Certamente isso nunca
foi mais necessário do que hoje, e aí está por que convém estudar
a Epístola aos Romanos. Este é um problema persistente. Havia

33
O Evangelho de Deus

falsos mestres naquele tempo - os judaizantes e outros - e eles


estavam levando pessoas a extraviar-se, e muitos cristãos estavam
perdendo a alegria. Vejam os gálatas, por exemplo. Pareciam
ter perdido quase tudo por terem dado ouvidos a esses outros
mestres.
Está acontecendo a mesma coisa hoje. Não existe ensino
tão falso hoje em dia como as idéias de que “não importa o que
você ensina”. Ali a doutrina era especificamente errada, mas
hoje a tendência é dizer que a doutrina absolutamente não
importa - que, contanto que a pessoa tenha algum tipo de
experiência, a doutrina não importa. “Certamente podemos ser
ecumênicos na evangelização, de qualquer forma”, dizem. Mas
eu digo: “Quem é este Cristo? Com que se parece?” “Ah, mas
agora”, dizem eles, “você está causando divisões; você não deve
fazer essas perguntas. O que se deve fazer é conseguir que as
pessoas se convertam primeiro, e depois podemos pensar em
ensiná-las.” Entretanto precisamos certificar-nos de que elas
sejam firmadas, que busquem o fundamento certo, porque
“ninguém pode pôr outro fundamento, além do que já está
posto”. Existe por aí ensino falso, e, portanto, convém que
estudemos esta Epístola, para que nos firmemos.
Vocês sabem, muitos daqueles cristãos romanos, e outros,
acabaram morrendo por sua fé; eram lançados aos leões na arena,
suas casas eram incendiadas, eles eram submetidos às injustiças
mais cruéis, e, todavia, resistiam como homens. Por quê? Porque
eles não somente sabiam em quem criam, mas também no que
criam. Eles estavam de tal modo fundados na fé que resistiam
como rochas. Que dizer, também dos reformadores e mártires
protestantes - Latimer e Ridley, e os demais? Que foi que levou
esses homens à fogueira? Há unicamente uma resposta - eles
sabiam em que criam! Vocês sabem que alguns daqueles homens
morreram pela doutrina da justificação pela fé somente? A igreja
católica romana não gostava dessa doutrina e dizia: “Se você
continuar dizendo que o homem é justificado pela fé somente,
nós o queimaremos na estaca” - e eles iam para a estaca e

34
Romanos 1:1,7

morriam alegremente.
Mas eu pergunto quantos cristãos professos, hoje, estariam
dispostos a fazer isso - e falo não somente dos liberais e
modernistas, porém também dos evangélicos. Que pena! Uma
terrível tendência que afirma que essas coisas não importam
está se insinuando entre nós. Os mártires são homens que sabem
no que crêem. Eles compreendiam, digo eu, que a doutrina da
justificação somente pela fé é tão verdadeiramente vital e tão
amplamente importante que não se rendiam a preço nenhum,
nem mesmo ao preço das suas vidas. De igual maneira, Ridley
e Cranmer, em particular, permaneceram firmes na questão da
Ceia do Senhor. Eles diziam: “Você não receberá graça quando
comer o pão que se diz haver passado pelo processo de
transubstanciação. E mentira. Comer não transmite graça, nesse
sentido mecânico”. Por isso iam para a fogueira. Vocês vêem
como é importante saber doutrina! E que negação das Escrituras
é dizer que não importa muito o que você crê, contanto que
você diga que é cristão, em termos gerais, ou dizer que você não
precisa apegar-se a estas doutrinas como absolutas! Pois,
seguindo estas linhas, o próximo passo lógico será dizer que,
contanto que o homem pense que é cristão, bem, trabalhemos
com ele e, assim, Deus o abençoará. Não é esse o ensino da
Epístola aos Romanos e dos homens que, crendo nessa Epístola,
morreram para defendê-la. Oxalá, queira Deus dar-nos tal
conhecimento desta verdade que nós também estejamos
dispostos a resistir em sua defesa! Não acho que corremos grande
perigo de ir parar na fogueira. Vivemos numa época em que se
afirma que não importa o que cremos. E, todavia, não é preciso
ter muita imaginação para ver que bem poderá acontecer que
soframos perseguição. Não estou muito certo de que já não tenha
começado nalguns círculos, e de que provavelmente aumentará;
portanto digo: certifiquemo-nos de que conhecemos a verdade.
Isso me leva à minha próxima divisão.
Qual é o ensino da Epístola? Agora vou oferecer-lhes uma
análise dela, e vou fazê-lo deliberadamente, porquanto acredito

35
0 Evangelho de Deus

que é essencial que tenhamos uma visão do todo, para então


podermos entender as diversas partes do argumento. Permitam-
-me ilustrar o que estou querendo dizer com isso. Há muitos
que têm problema com esta Epístola. Eles dizem: “Sempre a
achei difícil, não consigo entendê-la”, e se perguntamos: “Onde
está o seu problema, em particular?” eles geralmente respon­
dem: “Nos capítulos cinco, seis, sete e oito - aí está o problema,
principalmente nos capítulos seis, sete e oito”. Ora, quero dar-
-lhes a opinião de que eles estão com problema nesses capítulos
porque os têm visto aos retalhos, em vez de vê-los como um
todo. Naturalmente eu sei que há pessoas que têm terrível
dificuldade com o capítulo nove - e isso não é surpresa. Mas
nesta altura não é com estes que eu estou particularmente
preocupado. Estou mais preocupado com os que parecem errar
na classificação que fazem.
Por conseguinte, examinemos agora a Epístola como um
todo; procuremos ter uma visão panorâmica da grande e sólida
argumentação. Muitas classificações têm sido sugeridas, e por
certo há uma divisão preliminar óbvia. Os onze primeiros
capítulos são doutrinários, e todo o restante, do capítulo doze
ao dezesseis, é prático - é a aplicação da doutrina já firmada.
Essa é uma subdivisão fundamental. Contudo é quando
chegamos à subdivisão da primeira parte que eu creio que
devemos ser cautelosos, e que devemos ser exatos em nossa
subdivisão. Quantos de vocês estão familiarizados com uma
classificação como esta? As pessoas dizem: “Capítulo primeiro
a quatro, Justificação; capítulos cinco a oito, Santificação;
capítulos nove a onze, Parentéticos, sobre o caso particular dos
judeus e a sua solução”. Pois bem, o parecer que lhes dou
vigorosamente é que essa classificação é muito enganosa, e acaba
sendo danosa, e é porque muitos a adotaram que ficaram em
dificuldade nos capítulos cinco, seis, sete e oito. E a classificação
que se vê na Bíblia de Scofield, porém que não se restringe a
esta - muitos a copiaram dali, e ela veio a ser muito conhecida.
Todavia eu quero sugerir algo diferente a vocês, como

36
Romanos 1:1,7

segue: primeiramente, no capítulo primeiro, do versículo 1 a


15, temos uma saudação preliminar, e uma introdução geral do
tema. E o tema, Paulo nos dá a conhecer de imediato, é o
evangelho de Deus. Ele nos diz isso logo no primeiro versículo.
y

E sobre isso que ele vai escrever em seguida. E assim ele se


apresenta; envia saudações, etc.; dá graças a Deus por eles, e
assim por diante, e então diz: “Vou escrever-vos sobre o
evangelho de Deus”. Que é, então, esse evangelho de Deus? Bem,
ele começa a dizer-nos no versículo 16 do capítulo primeiro, e
eu lhes diria que, do versículo 16 do primeiro capítulo ao fim
do capítulo quatro, ele começa a desenvolver este seu grande
tema sobre o evangelho de Deus, e especialmente em termos da
justificação pela fé somente.
Permitam-me fazer a seguinte colocação: a boa nova que
ele tem que dar-lhes é que Deus introduziu o meio de salvação
dos homens mediante Jesus Cristo. “Não me envergonho do
evangelho de Cristo”, diz ele, “pois é o poder de Deus para
salvação de todo aquele que crê...” Deus está realizando algo.
Ele o está realizando cm Cristo. E o apóstolo dirá no versículo
17 que o que Deus está realizando em Cristo é que Ele está
dando ao homem a justiça de Cristo. Assim é que, o que temos
agora é salvação como dom de Deus, que nos dá de graça a justiça
de Cristo, e não uma salvação resultante de algum esforço do
homem. É disso que Paulo está falando - e fica emocionado.
“De que falarei?” indaga ele. Bem, aqui está: “Não me
envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus
para salvação de todo aquele que crê... Porque nele se descobre
a justiça de Deus de fé em fé...”. “E algo totalmente novo”,
exclama Paulo. São boas-novas. É nova notícia. Daqui por
diante não vamos pensar mais na justiça em termos do que o
homem faz, e sim, numa justiça que Deus dá - justiça que vem
de Deus em Jesus Cristo mediante a fé. E é para todos, para o
judeu e o gentio; não somente para o judeu, mas também para
o grego. E ele continua desenvolvedo esse grande tema. Pois
bem, eu afirmo, é isso que Paulo faz, desde o versículo 16 do

37
O Evangelho de Deus

primeiro capítulo até o fim do capítulo quatro.


Examinemos isso em detalhe só um pouco mais. Nos
versículos 16 e 17 ele de novo expõe o mesmo fato grandioso;
notem a ênfase: poder de Deus - justiça de Deus - justiça de
Deus, não do homem, e de fé em fé. E depois a citação: “O justo
viverá por fé”. Aí estão as suas grandes ênfases. Vejamo-lo agora
desenvolver o tema. Seu primeiro ponto é que todos a precisam
- todos têm necessidade dela. Do versículo 18 ao fim do capítulo
primeiro ele mostra como os gentios a necessitam - quão
terrivelmente a necessitam. No capítulo dois ele mostra como
igualmente os judeus a necessitam - e isso a despeito do fato de
que eles têm a lei. Esse é o argumento aí. Depois, no capítulo
três, ele faz algo interessante; dos versículos 1 a 20 ele se ocupa
de uma objeção. Alguém lhe teria dito, à luz disso, tendo ele
chegado ao fim do capítulo dois: “Muito bem, pois; você
realmente está dizendo que não havia nenhuma vantagem em
ser judeu, e que os judeus nunca foram um povo especial, e
nunca estiveram numa posição especial, e que não havia
vantagem nenhuma na lei”. “Não se enganem a esse respeito”,
diz o apóstolo, e naqueles vinte primeiros versículos ele mostra
a importância dos judeus e o privilégio dos judeus, e o que
Deus tencionava fazer por intermédio deles. Paulo mostra, digo
e repito, a posição dos judeus e a função da lei.
Depois, do versículo 21 ao versículo 31, o parágrafo final
do capítulo três, ele faz a sua vigorosa e magnífica exposição da
doutrina da justificação pela fé somente. Ele mostra que Deus
o fez do modo como fez por causa do Seu caráter - para que Ele
fosse “justo e justificador daquele que crê em Jesus”. Não
somente não há outro meio pelo qual salvar os homens - Deus
o fez desse modo porque é o único meio consoante e coerente
com a Sua santidade, retidão e justiça. Esses versículos
certamente constituem uma das mais grandiosas e mais nobres
declarações de todo o âmbito das Escrituras. E a passagem
clássica a respeito da justificação pela fé somente, e também a
respeito da doutrina da expiação.

38
Romanos 1:1,7

Chegamos então ao capítulo quatro, e vemos aqui Paulo


fazendo outra coisa tremenda. Neste capítulo ele prova que o
que ele dissera no capítulo três foi sempre o modo como Deus
procede com o homem, que Deus sempre trata o homem e o
abençoa em termos de fé. Ele prova isso, é claro, com a notável
fé que Abraão teve, e também faz uma citação dos salmos de
Davi, que diz a mesma coisa. “Não se espantem”, diz pratica­
mente o apóstolo, “com este ensino acerca da justificação pela
fé somente. Leiam o Velho Testamento, e verão que Deus
sempre tratou os homens com base no princípio da fé. Vejam o
nosso pai Abraão” - e prossegue, elaborando a argumentação
completa - que tudo é de graça e pela fé. Vocês não poderão
entender a história dos filhos de Israel do começo ao fim, a não
ser que captem o princípio da fé. Assim é o capítulo quatro, e
que capítulo tremendamente importante ele é, porque nele o
apóstolo prova que não há nenhum novo princípio, por assim
dizer, envolvido neste plano de salvação em Cristo.
Nos capítulos cinco a oito chegamos, naturalmente, à real
dificuldade, e aqui me parece que muitos se desviam por causa
da maneira pela qual tendem a colocar a questão mais ou menos
assim: “Que é que temos aqui?”, indagam, e dizem: “Bem,
primeiro Paulo expõe os sete resultados da justificação, e depois,
no versículo onze do capítulo cinco, ele passa a falar da doutrina
da santificação, continuando até o fim do capítulo oito”. Pois
bem, na minha opinião, o que há aí é um grave entendimento
errôneo da Epístola. O que me parece que o apóstolo está
fazendo nessa passagem, começando no versículo primeiro do
capítulo cinco e indo até o fim do capítulo oito, é, antes, o
seguinte: está mostrando, demonstrando e asseverando a certeza,
a plenitude e a finalidade desta grande salvação. Ele nos está
dando um quadro descritivo da completa e absoluta segurança
do cristão. Esse é o tema, não um tema subsidiário como o da
santificação, mas um tema muito maior. Seu interesse agora é
mostrar que este plano de salvação em Cristo pela fé dá
suprimento para a totalidade do futuro do cristão, do princípio

39
O Evangelho de Deus

ao fim, na verdade indo além disso, pois é o plano segundo o


qual Deus está levando ao cumprimento de todos os Seus
propósitos com relação ao mundo inteiro. A doutrina aqui é a
da segurança: a finalidade, a plenitude, a certeza absoluta da
salvação do cristão.
Permitam-me mostrar-lhes como ele o faz. Ao que me
parece, ele o faz no versículo 2 do capítulo cinco. Primeira­
mente, como é seu costume, ele resume o que vinha dizendo:
“Sendo, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso
Senhor Jesus Cristo; pelo qual também temos entrada pela fé a
esta graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança
da glória de Deus”. Isso é glorificação.Isso é a finalidade. Isso é
o alvo supremo. E é disso, pois, que ele vai tratar.
Por isso cu gostaria de analisar os quatro capítulos, cinco,
seis, sete e oito, da seguinte maneira: o cristão, nesta salvação,
se acha numa posição de segurança absoluta. Por quê? Ele tem
três respostas para a pergunta: primeiramente, ele goza
segurança porque a ação é de Deus - não é do cristão; é de Deus.
Ele enfatiza isso repetidamente. Foi Deus que teve misericórdia
de nós, “estando nós ainda fracos”, etc. “Mas Deus prova o seu
amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós
ainda pecadores. Logo, muito mais agora, sendo justificados
pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira. Porque se nós,
sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de
seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos
pela sua vida...”. É ação de Deus, e porque é ação de Deus, não
pode ser frustrada. Além disso, em segundo lugar, estamos
absolutamente seguros graças à maneira pela qual Deus o faz -
Ele nos incorpora em Cristo e nos une a Cristo. A terceira razão,
diz ele, é que, como resultado da minha união com Cristo, o
Espírito Santo está em mim, e está agindo poderosamente em
mim. Essa é, pois, em termos gerais, a minha análise do ensino
desses quatro capítulos.
Permitam que agora eu o expresse em particular, nos 10
primeiros versículos do capítulo cinco, onde Paulo está

40
Romanos 1:1,7

introduzindo os seus três temas. Vocês verão que eles são apenas
mencionados ali, nos dez ou onze primeiros versículos. Depois,
do versículo 11 ao fim desse capítulo cinco, ele trata especial­
mente da doutrina da nossa união com Cristo. Vocês se recordam
daquele argumento maravilhoso - que estávamos todos em
Adão, mas agora estamos em Cristo. Que contraste! Trata-se da
gloriosa exposição da doutrina da nossa união com Cristo. E,
todavia, vocês vêem, aquelas outras classificações dizem que
nesse ponto Paulo introduz a doutrina da santificação. Não é
disso que ele está falando; na verdade, o termo “santificação”
nem é mencionado. Não! Ele quer que saibamos da nossa
segurança absoluta por estarmos em Cristo.
Passemos agora aos capítulos seis e sete, onde ele trata de
argumentos, objeções e dificuldades quanto a este ensino. Ele o
introduz, vocês se lembram, dizendo: “Que diremos, pois?
Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde?” Ele
imagina alguém que, tendo chegado ao fim do capítulo cinco,
diz: “Paulo, de repente você se tornou um antinomiano? Acaso
você não perdeu o rumo, deixando que a sua eloqüència o
desvairasse? Você não está ensinando uma doutrina que afirma
que não importa o que a pessoa faz porque quanto mais pecar­
mos mais abundante será a graça?” “Não estou dizendo nada
disso”, diz o apóstolo, e nos capítulos seis e sete ele refuta essa
terrível idéia, começando com a expressão - “De modo nenhum”
(VA: “Não o permita Deus”). Não permita Deus que alguém
entenda mal a minha doutrina.
Como é que ele encara então essa acusação de
antinomianismo? Bem, ele o faz da seguinte maneira: no
capítulo seis ele trata disso de modo muito prático, com vistas à
nossa vida diária e às nossas quedas em pecado. E como se ele
imaginasse alguém dizendo: “Olhe aqui, Paulo, você exagerou
no quadro. O fato é que os homens ainda caem em pecado, e
você não lhes está dizendo que vivam de conformidade com a
lei para que possam dominar o pecado”. “A resposta”, diz Paulo,
“é que estamos unidos a Cristo. Fomos crucificados com Ele,

41
O Evangelho de Deus

ressuscitamos com Ele. Nós, como seres, já não estamos em


Adão, estamos em Cristo, e em Cristo estamos absolutamente
seguros.” “Bem, por que é que pecamos?”, pergunta alguém.
“O pecado”, replica o apóstolo, “permanece no corpo, em nossos
membros mortais, e a maneira de lidar com esse problema é
vocês compreenderem a sua posição em Cristo e se considerarem
mortos para o pecado mas vivos para Deus” - e desenvolve em
detalhe esse ponto. Essa é a argumentação geral do capítulo seis.
Ele a si mesmo se absolve da acusação de antinomianismo; ele
explica que o pecado continua no crente, e mostra que é só pela
compreensão da verdade acerca de nós mesmos, em união com
Cristo, que podemos sobrepujá-lo.
Depois, no capítulo sete, ele continua a tratar do assunto
em termos da lei. Algumas daquelas pessoas tinham se apegado
à idéia de que, conquanto você tenha crido no evangelho,
digamos, você ainda precisa continuar a salvar-se pela
obediência à lei. Por isso o apóstolo toma a questão no capítulo
sete e diz: “Olhem, vocês precisam parar de uma vez de pensar
na lei, vocês morreram para a lei. Assim como a mulher casada
fica livre quando morre o marido, assim vocês estão
absolutamente livres da lei nesse sentido. Não pensem mais na
lei nesses termos”. Não somente isso! Ele continua, dizendo-
-lhes que, em razão da profundidade e do poder do pecado, a
lei nunca fora capaz de salvar ninguém no passado, e nunca
será capaz de salvar ninguém no futuro. E é esse o argumento
da segunda metade do capítulo sete; na primeira metade ele
nos mostra a nossa libertação da lei no sentido do seu poder de
condenar-nos; na segunda ele declara que, se eu confiar na
minha observância da lei para livrar-me do pecado, estarei
condenado ao fracasso.
Ele desenvolve essa questão, vocês recordam, de maneira
intensamente pessoal. Não há nenhum vestígio de que ele tenha
passado por alguns estágios; ele não está pensando em estágios.
Ele não está pensando em passar do capítulo sete ao capítulo
oito. Ele está mostrando o propósito eterno de Deus e sua

42
Romanos 1:1,7

certeza e segurança absoluta, e que nada pode detê-lo. Ele está


explicando por que ainda temos o problema do pecado, e que
nunca poderemos livrar-nos disso em termos dos nossos
próprios esforços, mas que o que vai livrar-nos é a nossa relação
com o Senhor Jesus Cristo. Assim ele conclui, dizendo: “Dou
graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor”. Não é que eu,
como cristão, tentei fazer isso primeiro, eu mesmo, e só mais
tarde decidi olhar para Cristo e desse ponto em diante prossegui
pela fé. Não é isso que o apóstolo está dizendo. Eis o que ele
está dizendo: “Ouçam-me; o que os está salvando, e os salvará,
e finalmente os levará à glória, é que vocês estão em Cristo -
/

tudo mais será inútil”. E de novo um desenvolvimento desta


grande doutrina da união, dessa maneira particular. Assim
chegamos ao fim do capítulo sete; morremos para a lei, e dessa
maneira Deus está agindo poderosamente em nós.
Como Ele o faz constitui o tema do capítulo oito. Não há
lacuna, vocês vêem; não há contradição; há simplesmente uma
continuação. Ele está mostrando esta certeza absoluta, e nos
quatro primeiros versículos do capítulo oito ele resume o ponto
até onde havia chegado. “Portanto, agora nenhuma condenação
há para os que estão em Cristo Jesus.” Falemos disso com
clareza. Estamos seguros. A lei nunca poderia ter feito isso
porque estava enferma pela carne, e nunca foi seu propósito
fazê-lo. O que está realizando essa obra é esta nova lei do Espírito
da vida em Cristo Jesus. É porque estamos em Cristo e dEle
estamos recebendo vida. Ele a está produzindo em nós. Estamos
completamente protegidos por nossa relação com Ele. Como é
que Ele faz isso por nós? Bem, em particular, diz Paulo - e este
é o tema mais importante do capítulo oito - Ele o faz mediante
o Espírito Santo, que está em nós.
Pois bem, como vocês se lembram, esse foi o terceiro tema,
e vejamos como Paulo o desenvolve. O Espírito Santo, diz-nos
ele nos versículos 5 a 9, dá-nos uma mente nova. Nos versículos
10 e 11 diz-nos ele que o Espírito Santo ressuscitará até os nossos
corpos mortais e, portanto, livrará do pecado o corpo, como

43
O Evangelho de Deus

livre já está o espírito. Nos versículos 12 e 13 diz-nos ele que,


enquanto estivermos aqui, o Espírito Santo nos capacitará a
crucificar os feitos do corpo, e nós temos que fazer isso. O pecado
não é tirado de nós. Nós mortificamos os feitos do corpo graças
ao Espírito Santo e por meio do Espírito. Nos versículos 14 a
17 diz o apóstolo que o Espírito faz isso dando-nos segurança, o
Espírito de adoção. Nos versículos 18 a 25 vemos que o Espírito
o faz propiciando-nos uma ampla visão do grandioso e supremo
propósito de Deus. Nos versículos 26 e 27 ele nos mostra como
o Espírito Santo nos ajuda a orar. Vocês vêem a idéia - tudo está
completo em Cristo, mas nós ainda estamos na terra. Onde está
a minha segurança?Ew a minha segurança: eu estou em Cristo,
sim - mas o pecado ainda está em meu corpo. Que é que eu
posso fazer a respeito? Bem, Cristo me enche com o Seu Espírito,
e o Espírito me habilita a pôr em ação essa realidade. “Operai a
vossa salvação”, como Paulo diz noutro lugar (Filipenses
2:12,13), “com temor e tremor; porque Deus é o que opera em
vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade.”
Então, naturalmente, do versículo 28 ao fim do capítulo,
ele simplesmente resume tudo outra vez. Ele fizera as suas
declarações pormenorizadas, desenvolvera a matéria seguindo
três linhas, e agora faz um sumário, colocando-o na forma destes
desafios vigorosos. “Sabemos”, diz ele, “que todas as coisas
contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a
Deus”, e mais adiante prossegue, dizendo: “Que diremos, pois,
a estas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele
que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou
por todos nós, como nos não dará também com ele todas as
coisas?” Ele já o dissera no capítulo cinco: “Se nós, sendo
inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu
Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela
sua vida”. Segurança! Certeza! E então, por assim dizer, Paulo
deixa-se ir adiante com estas tremendas questões e desafios:
“Quem há que possa condenar-nos? Não será Deus, porque é
Ele que nos justifica. Não será Cristo, porque foi Ele que morreu

44
Romanos 1:1,7

por nós. Haverá alguém, nalgum lugar? Não! Todas as vozes


foram silenciadas. Poderá o homem condenar-nos? A
perseguição poderá fazê-lo? Não, nada pode fazê-lo”. E depois
vem o grande clímax - “Mas em todas estas coisas somos mais
do que vencedores, por aquele que nos amou”. Ninguém poderá
privar-nos desta salvação. Estou absolutamente seguro. “Estou
certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os
principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir,
nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura
nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus
nosso Senhor”.
Vocês não vêem que todo o tema dos capítulos cinco, seis,
sete e oito é segurança, e que aí, em Cristo, justificado livremente
por Sua graça, o meu fim é seguro? “Aos que chamou a estes
também justificou” - ele salta - “a estes também glorificou”. E
depois, nos capítulos nove, dez e onze, ele mostra que tudo isso,
longe de contradizer o que Deus fizera anteriormente por
intermédio dos judeus, é realmente uma confirmação, se tão-
-somente vocês entenderem o propósito de Deus. Isso constitui
uma parte essencial do argumento de Paulo. Deus não entrou
em contradição conSigo mesmo; Ele ainda está realizando a
mesma coisa. Ele escolheu pessoas lá na antigüidade - escolheu
os judeus para começar com eles, e deixou de lado os restantes,
as outras nações, e continua fazendo isso - esta doutrina do
remanescente. E atividade de Deus, salvação feita por Deus!
Deus a efetuando! E continuará a efetuá-la até que a plenitude
dos gentios tenha chegado e todo o Israel seja salvo, e a Igreja
esteja completa em sua totalidade. E depois, tendo desenvolvido
o tema, Paulo pára e diz: “Que podemos dizer sobre isso?” -
/

“O profundidade das riquezas, tanto da sabedoria como da


ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão
inescrutáveis os seus caminhos!” Homem nenhum pode
pesquisar o Seu pensamento, e ninguém jamais O ajudou ou
Lhe deu conselho. É tudo de Deus. Por que morreram os

45
O Evangelho de Deus

mártires protestantes? O grande lema deles, o que eles colocavam


acima das suas prioridades, era esta verdade: somente Deus deve
ser glorificado. SOLI DEO GLORIA. E se o conceito que vocês
têm da salvação em algum aspecto não dá a Deus toda a glória,
provavelmente vocês não a entenderam. “Porque dele e por ele
e para ele são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente.
Amém.”

46
3
“Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para apóstolo,
separado para o evangelho de Deus. ” - Romanos 1:1

Tendo completado a nossa introdução da Epístola, agora


estamos em condições de proceder a um pormenorizado estudo
e consideração do seu conteúdo. Começaremos considerando
esta parte preliminar e introdutória, que se vê aqui no primeiro
capítulo, e partimos do versículo primeiro: “Paulo servo de Jesus
Cristo, chamado para apóstolo, separado para o evangelho de
Deus”. Pois bem, é sempre importante dar cuidadosa atenção
às introduções de todas as Epístolas do Novo Testamento, mas
talavez seja especialmente necessário quanto às Epístolas do
apóstolo Paulo. As vezes sinto que muitos cristãos se privam
de algumas bênçãos grandiosas e vitais por ignorarem estas
declarações preliminares. A nossa tendência é passar por elas
apressadamente e pensar que as introduções são sem impor­
tância. Queremos chegar à porção “carnuda”, como lhe
chamamos, àquilo que realmente nos interessa, e assim, sem
perceber, passamos por alto muitas coisas que são do maior valor
possível para o cristão.
Deixem-me ilustrar isso considerando o que o apóstolo nos
diz aqui, neste primeiro versículo. Penso que veremos que ele
infunde nele, de maneira espantosa, doutrina muito importante
e vital. Ele nunca visitara Roma, e embora conhecesse alguns
dos cristãos romanos, nunca se havia encontrado com a grande
maioria, e eles não o conheciam. Por isso ele começa a Epístola
apresentando-se a eles desta maneira: “Paulo, servo de Jesus
Cristo, chamado para apóstolo, separado para o evangelho de
Deus”. Ora, vocês vêem aí três declarações. E de imediato

47
O Evangelho de Deus

devemos perguntar por que o apóstolo as fez. Que diferente


sentido ele atribuiu a cada uma delas? Ele as fez nalguma ordem
significativa, ou as redigiu simplesmente como lhe vieram?
Essas são algumas das questões que devemos levantar, se
estamos interessados em descobrir o que o apóstolo tinha em
mente.
/
Vejam, então, esta primeira frase: “servo de Jesus Cristo”.
“E quem sou”, diz o apóstolo, “e o que sou”. Pois bem, se vocês
percorrerem as Epístolas dele, verão que esse é o seu modo
característico de descrever-se; ele pensa instintivamente em si
em termos desta bendita Pessoa, como se pudéssemos dizer que
o que há de mais importante acerca deste homem, Paulo, que
lhes está escrevendo, é que ele é um “servo de Jesus Cristo”.
Noutras palavras, qualquer outra coisa mais que eles soubes­
sem ou não soubessem a respeito dele, o que quer que eles
lembrassem ou esquecessem, seu desejo era que de imediato
pensassem na bendita Pessoa que se tornara o centro da vida de
Paulo. Todo o seu ser girava em torno desta Pessoa, e ele não
podia pensar em si mesmo separadamente de Cristo. Vocês verão
que ele faz isso em todas as suas cartas e notarão que, pode-se
dizer, ele dá logo a doutrina completa acerca desta Pessoa, Jesus
Cristo - Jesus, a pessoa humana que viveu neste mundo, o
infante de Belém, o menino, o homem, o carpinteiro - Jesus
Cristo. Tudo isso tem que ser introduzido. Mas não é só isso -
Jesus é o Cristo, e “o Cristo”quer dizer o ungido, aquele que foi
ungido por Deus para realizar uma obra particular.
Ora, esse era, naturalmente, o ensino do apóstolo em sua
totalidade - que Jesus é o Cristo. Abram o livro de Atos e leiam
as narrativas ali registradas do seu ministério e do seu ensino, e
verão que era assim que Paulo pregava. Ele sempre tinha duas
grandes divisões em seus sermões: uma era sobre a necessidade
que havia de que Cristo sofresse; a outra era que Jesus, “este
Jesus que eu vos prego”,é o Cristo. Eis aí o Salvador do mundo,
aquele que foi ungido por Deus a fim de salvar homens e
mulheres, e na passagem que estamos estudando Paulo nos

48
Romanos 1:1

comunica logo de início essa verdade; Jesus Cristo é o seu tema.


Vocês se lembram de que em Corinto ele estivera determinado
a não saber coisa alguma, entre os coríntios, a não ser Jesus
Cristo, e Ele crucificado. Aqui foi esse o seu único tema, a pessoa
que ele sempre põe no frontispício do seu ensino.
Contudo, isso é, por certo, algo que nos leva a fazer uma
breve pausa. Não temos necessidade de ir além, no exame da
perspectiva doutrinária nesta conjuntura, porque seremos
forçados a fazê-lo de novo mais adiante, mas, de qualquer forma,
devemos fazer uma pausa para assinalar que essa não era somente
a grande característica do apóstolo Paulo; é, dentre todas as
coisas, a que sempre deve caracterizar o cristão. Não importa
sobre o que o apóstolo escreve; às vezes ele precisa escrever
uma carta porque as pessoas lhe enviam perguntas, ou porque
ocorrem dificuldades. Não tem a mínima importância qual seja
a ocasião; ele não consegue começar a escrever sem nos
apresentar Jesus Cristo imediatamente. Para o apóstolo Paulo,
Jesus Cristo era o princípio e o fim, o tudo-em-todos. Sem Ele
Paulo não tinha nada. Afirmo, pois, que uma boa maneira de
submeter à prova a nossa profissão de fé cristã é simplesmente
aplicar esse teste a nós mesmos. Jesus Cristo está em primeiro
lugar? Ocupa Ele o centro? Vocês podem ver que nesta
introdução o apóstolo O menciona pelo menos cinco vezes. Tive
ocasião de notar recentemente que nos catorze primeiros
versículos da Epístola aos Efésios ele O menciona quinze vezes.
Paulo não pode afastar-se dEle, por assim dizer; ele tem que
ficar mencionando o Nome. Ele faz uso das expressões “Jesus
Cristo”, “o Senhor Jesus Cristo”, “Jesus Cristo nosso Senhor”, e
outras mais. Observem-no em suas Epístolas; ele está sempre
usando o Nome, e é evidente que fazê-lo dá-lhe grande prazer. E
a questão, repito, é: “Isso é verdade a nosso respeito? Jesus Cristo
está centralizado em nossas mentes, em nossos corações e em
nossa conversação?” Quer dizer - e aqui falo ao povo cristão,
aos crentes - quando conversamos uns com os outros, estamos
sempre falando de alguma experiência ou de alguma bênção

49
O Evangelho de Deus

que recebemos, ou estamos falando do Senhor Jesus Cristo? Não


hesito em asseverar que, à medida que crescemos na graça,
falamos menos a respeito de nós mesmos e das nossas
experiências, e muito mais a respeito dEle.
O apóstolo está sempre falando acerca do seu Senhor, e ele
espera que estes romanos estejam pensando no Senhor, nesta
bendita Pessoa, e não em quem está escrevendo. Aprendamos,
pois, esta lição deste poderoso homem de Deus, que poderia
ter escrito extensamente acerca de tudo o que tinha dito, e de
tudo o que ele tinha conseguido realizar, mas que não escreve a
estas pessoas de Roma com esse fim. Ele quer escrever-lhes acerca
de Jesus Cristo, e assim, logo de início, introduz o Seu nome.
Quanto a si próprio, ele é tão-somente um “servo de Jesus
Cristo”, e se gloriava nesse título. Para ele não havia nada mais
maravilhoso do que ser um servo, e, lembrem-se, a tradução
correta aqui é “escravo”, “cativo”; essa é a palavra que o apóstolo
utiliza, e é a palavra normalmente utilizada por ele. O apóstolo
Pedro faz uso dela também, e assim procedem os demais
apóstolos, exatamente da mesma maneira. “O escravo de Jesus
Cristo”, esse é o homem que está escrevendo, diz o apóstolo.
Então, o que é que ele quer dizer com essa expressão? Bem,
sugiro-lhes que ele quis dizer uma porção de coisas. Penso que,
primeiramente, ele a estava empregando num sentido geral,
apenas para descrever-se como cristão, pois todo cristão é
“escravo cativo” de Jesus Cristo. Vejam a maneira pela qual o
apóstolo coloca isso em 1 Coríntios 6:19,20. Nessa passagem
ele os faz lembrar-se de que os seus corpos são o templo do
Espírito Santo, e a seguir diz: “Não sois de vós mesmos. Porque
fostes comprados por bom preço”. “Vocês não devem tornar-se
culpados do pecado da fornicação”, diz noutras palavras Paulo.
“Vocês não percebem quem vocês são? Não percebem que os
seus corpos são o templo do Espírito Santo, e que não são de
vocês mesmos? Vocês não têm direito de fazer o que quiserem
com os seus corpos; vocês foram comprados por preço. Vocês
foram tirados daquele mercado onde eram escravos sem

50
Romanos 1:1

nenhuma possibilidade de libertação; o Filho de Deus veio e,


pelo preço do Seu precioso sangue, Ele os comprou e os livrou
do mercado.” Esse é o sentido da palavra “redenção”. É a
libertação do cativeiro e da escravidão em que vocês se
encontravam, sob o domínio de satanás, o diabo. Assim, tendo
conhecido essa libertação, o apóstolo gosta de descrever-se dessa
maneira.
Noutras palavras, ele está dizendo a estes cristãos romanos:
“Eu, Paulo, sou como vocês; sou um de vocês; eu lhes pertenço,
porque todos nós pertencemos a Cristo. Sou um pecador salvo
pelo sangue de Cristo; nada mais tenho para dizer a meu
respeito. Fui um perseguidor, um blasfemo, uma pessoa
insultuosa, porém obtive misericórdia”. Ele fora resgatado e
redimido, e essa é a primeira coisa que ele tem para dizer sobre
si mesmo. E, volto a dizê-lo, essa é a verdade concernente a
todos nós, se somos cristãos, pois ninguém se faz cristão. Cada
um de nós nasceu escravo do diabo, e só podemos ser libertos
dessa escravidão pelo precioso sangue de Cristo.
Naturalmente Pedro diz exatamente a mesma coisa.
“Sabendo”, diz ele, “que não foi com coisas corruptíveis, como
prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver
que por tradição recebestes dos vossos pais, mas com o precioso
sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e
incontaminado” (1 Pedro 1:18,19). E, portanto, como cristãos,
não somos livres; fomos comprados por Cristo. Pertencemos a
Ele. Ele é o nosso Amo e Senhor. A idéia de que você pode crer
em Cristo como Salvador somente, e depois talvez, anos mais
tarde, possa ir adiante e tomá-10 como seu Senhor, é uma
negação das Escrituras. Desde o momento em que Ele o põe
em liberdade, Ele é o seu Senhor. Não somos nós que decidimos
/

tomá-lo como Senhor. E Ele que, como Senhor, nos compra


naquele mercado e nos livra, e nós passamos a pertencer a Ele.
Nunca somos livres. Éramos servos cativos de satanás; agora
somos servos cativos do Senhor Jesus Cristo. Ah, se tão-somente
nos lembrássemos sempre disso! Se tão-somente vivêssemos

51
O Evangelho de Deus

sempre à luz dessa gloriosa verdade! Queira Deus dar-nos a graça


de lembrar-nos sempre disso, e de viver de acordo!
Todavia eu penso que, na frase em foco, Paulo estava
desejoso de sugerir uma segunda coisa, ou seja, de levá-los a
saber desde logo qual a sua atitude para com este Senhor. Ele é
um escravo cativo, não somente de fato, mas também no espírito.
Não havia nada que ele mais gostasse de dizer do que o seguinte:
“Vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2:20).
Ele é um escravo no sentido de que todo aquele que ama é
escravo da pessoa a quem ama. Ele fora cativado. Fora capturado.
Se vocês percorrerem as Epístolas dele, verão que ele está dizendo
isso constantemente. No capítulo primeiro de 2 Coríntios diz
ele que somos exatamente como as pessoas que se vêem ao redor
de um grande vencedor quando este regressa a Roma depois
de ter conquistado algum grande território. Há uma parada
militar, um desfile triunfal, vê-se o grande general em sua
carruagem, e as diversas pessoas por ele capturadas estão em
volta dele. Vocês encontrarão o mesmo pensamento noutros
lugares - em 2 Coríntios, capítulo 2, por exemplo. Ah, como
Paulo é devotado a Cristo!
Ele o expressa talvez com maior intensidade noutra frase (e
estou certo de que isso estava em sua mente quando ele se
descreveu como escravo de Cristo). Ele é um pregador, diz ele,
e quando se indaga por que prega, sua resposta é: “O amor de
Cristo me constrange”. De novo, vocês vêem, ele está impossibi­
litado; é um homem preso no torno, e este o vai apertando:
“...me constrange - o amor de Cristo”. Não é ele que está
decidindo fazer alguma coisa; ele não pode reprimir-se a si
próprio: “Ai de mim, se não anunciar o evangelho!” Ele tem
que fazê-lo. Sou obrigado a fazê-lo, diz ele. Todas essas coisas
trazem à luz a sua devoção a Cristo. Sou um escravo, diz
ele, Seu escravo voluntário. Ele não somente me comprou,
mas eu não quero outra coisa, não quero que ninguém mais
seja o meu senhor; nenhum outro é meu senhor. Entreguei-
-me a Ele. Ele me conquistou. Cativou-me. Absorvo-me nEle,

52
Romanos 1:1

sou escravo de Jesus Cristo.


Ter-nos-ia Ele cativado dessa maneira, meus amigos?
Sabemos algo desse amor? Seria Ele o Senhor das nossas vidas,
do nosso pensamento, de todas as nossas atividades? Ah, como
Paulo se gloriava em dizer isso a respeito de Cristo. “Esse é o
tipo de homem que sou”, diz ele, “fui conquistado completa­
mente por Ele, capturado e arrebatado; não sou meu.”
Depois penso que, realmente, em terceiro lugar, ele estava
desejoso de dizer que não estava escrevendo por sua conta, porém
que, num sentido verdadeiramente literal, ele de fato estava
escrevendo como servo do Senhor Jesus Cristo. Noutras palavras,
ele não é um indivíduo isolado escrevendo uma carta em caráter
privado a algumas pessoas nas quais está interessado, ou das
quais ouvira falar. Não! Ele está escrevendo de maneira muito
especial; ele é realmente um servo de Jesus Cristo, tem uma
incumbência especial confiada a ele, e o seu desejo é que eles a
conheçam.
Aí, vocês podem ver, ele nos conduz à sua segunda
expressão: “chamado para apóstolo”. Sugiro-lhes que há uma
gradação definida nessas três expressões. Ele nos faz saber o
que lhe sucedera, que ele se tornara cristão, e o que isso quer
dizer; depois ele nos leva adiante por meio daqueles outros
passos e estágios, e aqui ele chega a uma expressão sumamente
importante - “chamado para apóstolo” - ou, como alguns a
traduzem (talvez mais acuradamente), “um chamado apóstolo”.
Bem, devemos examinar ambas essas palavras, porque as duas
são tremendamente importantes, não somente para o
entendimento da Epístola aos Romanos, mas também quanto a
todas as demais Epístolas. Quero tentar mostrar-lhes que vocês
não poderão sequer entender a situação religiosa moderna, que
realmente não poderão ler inteligentemente o seu jornal, se não
souberem o sentido dessas palavras, “chamado”e “apóstolo”. Há
coisas acontecendo hoje no mundo eclesiástico, e relatadas nos
jornais, que só podem ser entendidas quando compreendemos
corretamente esses dois termos. Assim vocês vêem que esta

53
O Evangelho de Deus

Epístola é bem atual.


Permitam-me mostrar-lhes o que estou querendo dizer. Que
é um apóstolo? Bem, Paulo nos quer dizer nessa passagem que
ele não é um servo de Jesus Cristo apenas num sentido geral;
ele é uma classe particular de servo; na verdade é um apóstolo.
Ora, por que ele se dá ao trabalho de dizer isso logo no começo,
e de o restringir com a palavra “chamado”? Bem, ao lerem o
Novo Testamento, principalmente estas Epístolas, vocês verão
que havia algumas pessoas que não se dispunham a aceitar Paulo
como apóstolo, ou a reconhecê-lo como tal. Ele tinha opositores;
ele sofreu amarga perseguição, e nenhum homem foi mais
difamado que ele. Havia os que diziam que ele não era apóstolo
porque nunca tinha acompanhado o Senhor Jesus Cristo nos
dias da Sua carne, nunca ouvira o Seu ensino, e assim por diante;
e, além disso, não gostavam da pregação dele aos gentios. Se
lermos as suas Epístolas, veremos que constantemente ele era
submetido a essa falsa representação; todas as formas de alusões
malignas e insinuações eram feitas acerca dele, porém nenhuma
com mais freqüência do que precisamente esta - que realmente
ele não era apóstolo, mas um convencido que se havia posto a
si mesmo em evidência e, portanto, era enganoso e perigoso
para as igrejas. Por isso, como norma, o apóstolo, num ponto
ou noutro da maioria das suas Epístolas, mostra com todo o
vigor que ele é apóstolo, que escreve como apóstolo, e que é
tão apóstolo como qualquer dos doze.
Pois bem, sugiro-lhes que ele está fazendo isso aqui,
portanto que devemos ter claro entendimento deste título,
“apóstolo”. Que é isso, então? Bem, é um título oficial, e muito
especial. Isso também tem sido discutido muitas vezes, todavia
me parece essencial que consideremos esse termo como um
designativo indicando um ofício especial e peculiar. Permitam-
me consubstanciar o que digo mostrando-lhes como ele é
especial. Vocês encontrarão em Mateus, capítulo dez, versículos
1 e 2, estas palavras: “E, chamando os seus doze discípulos, deu-
-lhes poder sobre os espíritos imundos, para os expulsarem, e

54
Romanos 1:1

para curarem toda a enfermidade e todo o mal. Ora os nomes


dos doze apóstolos são estes...”. No versículo primeiro Mateus
lhes chama “discípulos”, e no versículo dois muda para
“apóstolos”. Por que a mudança? Por que a diferença? Não são
apóstolos todos os discípulos? A resposta é que não. Você pode
ser discípulo sem ser apóstolo. Os termos não são sinônimos;
não são intercambiáveis. Só certos discípulos tornaram-se
apóstolos. Para provar isso, deixem-me ronduzi-los a Lucas
6:12,13, especialmente ao versículo 13: “E quando já era dia,
chamou a si os seus discípulos, e escolheu doze deles, a quem
também deu o nome de apóstolos”. Pois aí está, naturalmente,
uma vez por todas. Vocês vêem que havia grande número de
discípulos, mas desse número, do corpo maior, o nosso Senhor
escolheu deliberadamente doze, e lhes chamou, e somente a
eles, apóstolos. Meu parecer a vocês é, pois, que é importante
que compreendamos que esse é um designativo que indica um
ofício muito especial e peculiar. Somente doze homens foram
desse modo escolhidos e nomeados apóstolos. E quando vocês
percorrerem os quatro Evangelhos, verão a mesma coisa no
Evangelho Segundo João, não tão claramente, talvez, como nos
outros, porque o nome não é utilizado ali, embora a idéia seja
dada com toda a clareza.
Agora, voltemos à nossa indagação, “Que é um apóstolo?”.
Bem, digamos que é costume dizer sobre isso que, se formos ao
dicionário, veremos que apóstolo é alguém que é “enviado”, e
isso é perfeitamente verdadeiro. O apóstolo é alguém enviado,
e às vezes o termo é empregado dessa maneira no Novo
Testamento. Contudo, quando significa isso e nada mais, o
contexto mostra claramente que alguém envia outrem como
mensageiro, como um enviado. No entanto, o termo “apóstolo”
é muito maior do que isso; é muito mais rico, e tem uma
conotação mais ampla. O apóstolo não é meramente alguém
enviado; é alguém, um mensageiro, enviado com uma missão.
Mas é ainda mais forte que isso, o que é importante porque se
pode enviar alguém em missão de várias maneiras. Você pode

55
O Evangelho de Deus

enviar um homem numa missão e dar-lhe uma carta para


entregar, ou enviá-lo com uma espécie de mensagem verbal.
Sim, porém também pode enviar um homem para representar
você; pode enviá-lo como seu delegado; pode enviá-lo a uma
reunião para votar em seu lugar, e para falar em seu lugar. Pois
bem, o termo “apóstolo” inclui a idéia de delegado, de modo
que uma definição preliminar da palavra seria que é alguém a
quem se confia uma missão e a quem são dados poderes para
cumpri-la.
Todavia, até mesmo além disso, o uso do termo no Novo
Testamento mostra muito claramente que há também um
propósito definido no envio, e que a pessoa enviada é enviada
com autoridade para representar outra. Sugiro, pois, como boa
definição de apóstolo, algo assim: apóstolo é alguém escolhido
e enviado com uma missão especial como representante
autorizado de quem o envia. Nessa definição não lhes dou
somente o que me parece inevitável como definição decorrente
do estudo do Novo Testamento; dou-lhes também a definição
dada pela erudição mais recente especializada nessa questão.
Um grande e novo dicionário da Bíblia foi produzido nestes
últimos anos na Alemanha; todo o mundo o reconhece como
padrão, e como o mais autorizado - e é dessa maneira que o
termo apóstolo é definido ali. Pois bem, isso é algo novo entre
as autoridades; há bem poucos anos atrás* elas não diriam isso;
negavam boa parte dessa definição, contudo retornaram a ela.
O que a Bíblia sempre afirmou com clareza, e a maioria dos
credos evangélicos sempre salientou, agora até os eruditos, no
sentido técnico, ratificam, manifestando-se de acordo. Portanto,
esta é uma parte essencial do nosso entendimento do ofício de
apóstolo.
Quais são, então, as marcas e os sinais de um apóstolo?
Quais as suas qualificações ou características? É óbvio que estas
coisas são de grande importância. Eis a primeira: ninguém que

* Esta expoição foi feita em 1955.

56
Romanos 1:1

não tivesse visto o Senhor ressurreto poderia ser apóstolo; o


apóstolo tinha que ser testemunha da ressureição. Há duas
declarações nas Escrituras que provam isso fora de toda dúvida.
A primeira está no capítulo primeiro de Atos. Vemos ali, vocês
recordam, os apóstolos reunidos no cenáculo, exceto Judas, que
cometera suicídio. Conversavam sobre a designação de alguém
no lugar de Judas, e o que lemos no versículo 21 é o seguinte:
>•

“E necessário pois que, dos varões que conviveram conosco todo


o tempo em que o Senhor Jesus entrou e saiu dentre nós,
começando desde o batismo de João até ao dia em que dentre
nós foi recebido em cima, um deles se faça conosco testemunha
da sua ressurreição”.
Permitam-me mostrar-lhes outra declaração com o mesmo
fim; escrevendo aos coríntios, diz o apóstolo Paulo: “Não sou
eu apóstolo? Não sou livre? Não vi eu a Jesus Cristo Senhor
nosso?” (1 Coríntios 9:1). Ele teve que defender o seu título de
maneira muito especial em Corinto, e teve que dar provas de
que ele era apóstolo. “Não vi eu a Jesus Cristo Senhor nosso?”
“Sou uma testemunha da ressurreição”, é o que diz ele. “Sou
apóstolo.” Essa é a sua prova disso. Vocês vêem, pois, que isso
constitui realmente uma parte importante do nosso
entendimento desse termo.
A segunda verdade quanto a um apóstolo era que ele tinha
que ser chamado especialmente para ser apóstolo. Vocês já viram
isso no caso dos doze, com base nas passagens bíblicas que
citei, e logo voltarei ao ponto no caso do apóstolo Paulo. Antes
de um homem poder ser apóstolo, ele tinha que ser “chamado”
definida e especificamente pelo próprio Senhor. É claro,
naturalmente, excluindo aqueles outros usos da palavra
“apóstolo” aos quais me referi anteriormente, mas quando se
trata da designação e do título a que o termo se refere, sempre
devemos incluir esse elemento. A próxima verdade acerca de
um apóstolo é que ele é alguém a quem é dada autoridade e é
dada uma comissão para fazer certas coisas. Uma delas é que
lhe é dada autoridade e comissão para operar milagres. Ouçam

57
O Evangelho de Deus

de novo o apóstolo Paulo na seguinte declaração registrada em


2 Coríntios 12:12: “Os sinais do meu apostolado foram
manifestados entre vós com toda a paciência, por sinais,
prodígios e maravilhas”. “Como é que vocês podem continuar
contestando que sou apóstolo?”, questiona Paulo; verdadeira­
mente os sinais do meu apostolado foram manifestados entre
vocês.” E os sinais foram milagres, maravilhas e atos poderosos
(cf. VA). Essa é, pois, outra característica de um apóstolo.
Não somente isso; está claro que os apóstolos tinham
também poder para dar e comunicar dons espirituais a outros.
Tinham poder para transmitir o Espírito Santo a outros, e
também para dar certos dons, que são dados pelo Espírito Santo,
pela imposição das mãos. Esse era outro sinal da sua autoridade
e da sua comissão. Mais importante ainda, porém, foi a
autoridade a eles dada para ensinarem, definirem doutrina e
firmarem as pessoas na verdade. Naturalmente, isso é de vital
importância. Não somente isso; foi-lhes dada autoridade para
estabelecerem a ordem das igrejas; eles ordenavam anciãos,
nomeavam presbíteros. Decidiam questões quando surgiam
discussões; as questões eram enviadas a essa espécie de “concílio”
dos apóstolos. Portanto, eles estavam numa posição autorizada
para decidir sobre ensino e doutrina, e falavam com a autoridade
do próprio Senhor Jesus Cristo. Tudo isso é próprio de um
apóstolo.
E então, quais são os resultados disso tudo? Bem, eis alguns
deles: estes apóstolos alegavam que falavam com autoridade
vinda de Deus; afirmavam que falavam como representantes
de Cristo, e que as pessoas deviam ouvi-los, não como a homens
apenas, mas como a homens que falavam da parte de Deus.
Paulo lembra aos tessalonicenses: “... havendo recebido de nós
a palavra da pregação de Deus, a recebestes, não como palavra
de homens, mas (segundo é na verdade), como palavra de
Deus...”(l Tessalonicenses 2:13). “Vocês sabiam”, diz ele. “Vocês
sabiam que não estavam simplesmente ouvindo palavras de um
homem.” Diz ele também, noutro lugar: “Porque, ainda que

58
Romanos 1:1

eu me glorie mais alguma coisa do nosso poder, o qual o Senhor


nos deu para edificação...”(2 Coríntios 10:8). O Senhor lhe dera
autoridade para edificação. Ele diz a mesma coisa no capítulo
treze da mesma Epístola, versículo 10: “Portanto, escrevo estas
coisas estando ausente, para que, estando presente, não use de
rigor, segundo o poder que o Senhor me deu para edificação...”.
A mesma coisa - o poder, a autoridade. Noutras palavras, Paulo
sempre afirmava que tinha esta autoridade excepcional que
unicamente o Senhor podia outorgar - e que não estava
meramente pregando; estava pregando como vaso escolhido do
Senhor J esus Cristo.
E, de maneira muito interessante, os apóstolos não somente
afirmavam isso quanto a si mesmos, mas diziam isso uns dos
outros. Vocês recordam aquela grande declaração feita pelo
apóstolo Pedro acerca do apóstolo Paulo e seus escritos? “...como
também o nosso amado irmão Paulo” semelhantemente havia
tratado dessa questão em suas diversas Epístolas, “que os
indoutos e inconstantes torcem e igualmente as outras Escrituras,
para sua própria perdição” (2 Pedro 3:15,16). Pedro está dizendo
nessa passagem que os escritos deste apóstolo Paulo são
Escrituras; diz ele: “... igualmente as outras Escrituras”, com o
que ele se refere às Escrituras do Velho Testamento. Ele atribui
às Epístolas de Paulo uma autoridade igual à das Escrituras do
Velho Tetamento. Trata-se de um apóstolo descrevendo a
autoridade de um colega de apostolado.
Portanto, isso é de grande significação para nós. Devemos
lembrar-nos de que as palavras destes apóstolos, quer as
registradas no livro de Atos, quer as escritas nestas diversas
Epístolas, têm autoridade divina. Eles foram autorizados por
Deus a escrevê-las. Foram comissionados pelo Senhor Jesus
Cristo. Eles foram dirigidos e guiados pelo Espírito Santo. As
Epístolas do Novo Testamento são singular e divinamente
inspiradas. Assim é que, se alguma vez você entrar em discussão
com alguém que diga: “Ah, isso é só Paulo. Eu creio no
evangelho, no evangelho simples. Sou seguidor de Jesus; isso

59
O Evangelho de Deus

aí é só Paulo”, você deve demonstrar-lhe que ele está


contradizendo o próprio Senhor Jesus, porque foi o Senhor que
deu autoridade ao Seu servo. Ele deu autoridade aos apóstolos,
e esses apóstolos reconheceram este apóstolo, e eles dizem que
o que ele escreve tem autoridade igual até à das Escrituras do
Velho Testamento.
E, de maneira muito interessante, sabemos pela história
que quando a Igreja Primitiva chegou a definir e a determinar
o cânon do Novo Testamento - havia então grande número de
escritos cristãos, e a questão era o que devia ser incluído e o que
devia ser deixado fora - sabemos que o Espírito Santo levou a
Igreja Primitiva a decidir desta maneira: ela dizia que, se um
documento que pretendesse ser um Evangelho ou uma Epístola,
e não pudesse ser rastreado direta ou indiretamente, até as suas
origens num apóstolo, com autoridade apostólica, ele não devia
ser incluído. A prova da apostolicidade foi a prova empregada
pela Igreja Primitiva, com a sabedoria a ela dada pelo Espírito
Santo, na determinação do cânon do Novo Testamento. Pois
bem, tudo isso é indicativo do fato de que o apóstolo é um
homem dotado de autoridade única; é-lhe dada a doutrina; é-
-lhe dada a verdade. O Senhor lhe dá a verdade; o Espírito Santo
o guia, e ele a transmite. Ele é um servo escolhido, especialmente
enviado para representar o Senhor e falar por Ele dessa maneira.
“Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para apóstolo.”
Finalmente, permitam-me falar da palavra “chamado”. Esse
é um dos fatos mais importantes acerca de Paulo, e é por isso
que ele introduziu o termo. Por que ele diz que é um
“chamado”apóstolo? E, sem dúvida, a fim de deixar claro para
os cristãos de Roma que ele é verdadeiramente apóstolo. No
capítulo primeiro de Gálatas ele se expressa mais fortemente
ainda; ouçam-no no versículo primeiro: “Paulo, apóstolo (não
da parte dos homens, nem por homem algum, mas por Jesus
Cristo, e por Deus Pai, que o ressuscitou dos mortos)”. Que
maravilhosa declaração entre parênteses! - “Paulo, apóstolo -
sim”, diz ele, “não cometam nenhum erro sobre isso - eu não

60
Romanos 1:1

me nomeei a mim mesmo. Não estou me posicionando a mim


mesmo como apóstolo, como fizeram alguns desses falsos
mestres.Todavia, nem pelos outros apóstolos eu fui designado,
nem por homem nenhum; “não da parte dos homens, nem por
homem algum, mas por Jesus Cristo”. “Chamado.” Um homem
escolhido, escolhido pelo ato soberano do Senhor Jesus Cristo.
“Sim”, declara Paulo, “sou tão apóstolo como os doze. Fui
chamado exatamente da mesma maneira que eles o foram; tenho
a mesma autoridade; sou igual a eles. Sou apóstolo, um chamado
apóstolo”.
Certamente, esta é uma das coisas mais admiráveis da
história. Se é possível ousar fazer uso desta expressão, este é o
ato culminante, a suprema obra-prima do nosso bendito Senhor
- ter escolhido Ele assim para apóstolo alguém que tinha sido
o Seu principal inimigo. Ele escolheu aqui um homem que
não tinha estado com Ele nos dias da Sua carne, que não
pertencia ao círculo dos doze, que não tinha ouvido o Seu
ensino, que não tinha visto os milagres, que não estivera com
eles na crucifixão, que não estivera com eles quando Ele entrou
no cenáculo após a Sua ressurreição. Ele não estava lá. Era um
de fora, então, e durante anos depois disso, um blasfemo, um
perseguidor tentando exterminar o cristianismo e, todavia, é
apóstolo como os demais. Como foi isso? Ah, exclama Paulo,
Ele próprio me chamou, me escolheu e me autorizou exatamente
como fez com os outros (1 Coríntios 15:8). Ele está falando sobre
o modo como o Senhor ressurreto Se revelara a Cefas e aos outros
apóstolos, e a testemunhas escolhidas, e - ouçam - “por
derradeiro de todos me apareceu também a mim, como a um
abortivo”! Sim, ele tinha visto o Senhor ressurreto, não durante
os quarenta dias como os outros, porém muito depois dos
quarenta dias, bem depois do dia de Pentecoste, e muito depois
dos tempos em que o Senhor havia feito estas revelações a Seu
respeito a testemunhas escolhidas especialmente. Mais tarde
Ele deu esta visão especial de Si mesmo a este homem, a este
fariseu blasfemo e perseguidor, que saíra de Jerusalém para

61
O Evangelho de Deus

Damasco, respirando ameaças e mortes. “Por derradeiro de todos


me apareceu também a mim, como a um abortivo.”No entanto,
apesar de eu ser tal coisa, Ele fez isso por mim, e Se revelou a
mim. Eu O vi; Ele me chamou; Ele me comissionou. Paulo
reivindica essas coisas. E se quiserem um relato minucioso disso,
vocês o verão, é claro, no capítulo vinte e seis do livro de Atos.
Ainda não esgotei, até aqui, nem mesmo o pleno conteúdo
do chamamento do apóstolo. Mas aí está a realidade grandiosa,
dramática e vital. Dei a vocês uma lista de coisas que são as
marcas e os sinais que caracterizam um apóstolo, e vimos que a
primeira qualificação é que ele tenha visto o Senhor ressurreto.
E Paulo viu o Senhor ressurreto. Nunca se restrinjam a descrever
o que aconteceu com Paulo no caminho de Damasco
simplesmente em termos da visão que ele teve. Eu sei que ele
diz: “Não fui desobediente à visão celestial” (Atos 26:19),
entretanto com o uso da palavra “visão” ali ele não quer dizer o
que nós queremos dizer quando dizemos que alguém teve uma
visão. O apóstolo Paulo viu literalmente o Senhor ressurreto. E
nós temos que asseverar isso. Houve outros que tiveram visões,
mas isso não fez deles apóstolos. Só poderia ser apóstolo quem
tivesse “visto”de fato o Senhor ressurreto. Num fulgurante
segundo o apóstolo Paulo viu o rosto do Senhor glorificado, e,
portanto, é uma testemunha da ressurreição. Isso faz parte vital
da história dele. Querendo Deus, mais adiante vamos tratar de
outros elementos e aspectos do seu chamamento, e da sua
descrição adicional de si mesmo como alguém que foi “separado
para o evangelho”.

62
4
“Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para apóstolo, separado
para o evangelho de Deus. ” - Romanos 1:1

Estivemos estudando tudo o que Paulo quer dizer quando


se descreve a si mesmo como “chamado para apóstolo”, e o
próximo ponto que devemos firmar é, naturalmente, que o
apóstolo também foi comissionado de maneira muito especial,
e pessoalmente, pelo Senhor, e isso é deveras vital. A declaração
clássica a respeito acha-se no capítulo vinte e seis do livro de
Atos, onde Paulo, estando em julgamento, por assim dizer,
diante de Agripa e Festo, diz o seguinte, nos versículos 16 a 18
- passagem da maior importância, se compreendemos o que
ele diz ali sobre si mesmo. O Senhor ressurreto lhe está falando,
e diz: “Mas levanta-te e põe-te sobre teus pés, porque te apareci
por isto, para te pôr por ministro e testemunha tanto das coisas
que tens visto como daquelas pelas quais te aparecerei ainda;
livrando-te deste povo, e dos gentios, a quem agora te envio,
para lhes abrires os olhos, e das trevas os converteres à luz, e do
poder de satanás a Deus; a fim de que recebam a remissão dos
pecados... pela fé em mim”. Pois bem, aí está a comissão do
apóstolo. O Senhor ressurreto não somente lhe aparece, mas
lhe diz especificamente que o fizera para comissioná-lo, para
enviá-lo como apóstolo, um dos poucos escolhidos, que foram
chamados e separados muito especificamente para esta grande
finalidade de proclamar a verdade concernente a Ele, e isso de
maneira autoritativa.
Mas há mais uma coisa interessante, algo que com facili­
dade podemos omitir, ou que talvez não tenhamos o cuidado

63
O Evangelho de Deus

de observar. Torno a dizer que não podemos permitir-nos passar


rapidamente por essas declarações preliminares de qualquer
destas Epístolas, ou por qualquer comentário que pareça ser
algo à parte, proferido por este grande homem, pois ele aqui
nos diz não somente que viu o Senhor dessa maneira, e que não
somente foi chamado e comissionado por Ele para ser apóstolo,
mas também - e isto é outra marca e sinal de um apóstolo, vocês
se lembram - que a verdade lhe foi ensinada pessoalmente pelo
Senhor. Agora Paulo está muito preocupado com isso.
Permitam-me dar-lhes a prova do que estou dizendo, baseado
em Gálatas, capítulo um, versículos 11 e 12: “Mas faço-vos saber,
irmãos, que o evangelho que por mim foi anunciado não é
segundo os homens. Porque não o recebi, nem aprendi de
homem algum, mas pela revelação de Jesus Cristo”. Este
evangelho não lhe foi ensinado pelos outros apóstolos; se fosse
assim, ele não seria apóstolo.
E por isso, então, que ele faz essa argumentação, e se vocês
continuarem lendo esse capítulo primeiro da Epístola aos
Gálatas, verão que ele continua salientando e repetindo isso;
diz ele: “Mas quando aprouve a Deus, que desde o ventre de
minha mãe me separou, e me chamou pela sua graça, revelar
seu Filho em mim, para que o pregasse entre os gentios, não
consultei a carne nem o sangue, nem tornei a Jerusalém, a ter
com os que já antes de mim eram apóstolos, mas parti para a
Arábia, e voltei outra vez a Damasco. Depois, passados três anos,
fui a Jerusalém para ver a Pedro...”. Não para que pudesse
aprender de Pedro. Não para que ele se fizesse aprendiz ou aluno
de Pedro, para que Pedro lhe ensinasse a verdade. Absolutamente
não! Ele era igual aos demais apóstolos, como nos diz no restante
desse capítulo. A afirmação do apóstolo Paulo é que a verdade
que ele pregava lhe fora dada pelo Senhor, pessoalmente, não
por um mestre humano. A mensagem do evangelho, seu
completo entendimento, tinha sido dada a ele diretamente pelo
mesmo Senhor que ensinara os doze nos dias de Sua carne na
terra.

64
Romanos 1:1

Pois bem, tudo isso é de tremenda importância. Faz parte


da declaração de Paulo de que ele é um “chamado” apóstolo, e
eu quero consubstanciar esse ponto doutrinário ainda mais,
porque o apóstolo o diz noutros dois lugares. Vocês verão que
ele o diz em 1 Coríntios, capítulo onze, versículo 23 - vocês se
lembram dessa passagem com relação à comunhão da Ceia do
Senhor: “Porque eu recebi do Senhor o que também vos
ensinei...”. De novo, é a mesma alegação de que ele não o
aprendeu de homens, nem lhe foi ensinado por homens. E vocês
podem observar que em 1 Coríntios 15:3 ele torna a defender o
mesmo ponto, dizendo: “Porque primeiramente vos entreguei
o que também recebi...”. Notem ainda o argumento adicional
no versículo 11, sobre a sua igualdade com estes homens; diz
ele: “Então, ou seja eu ou sejam eles, assim nós pregamos e assim
haveis crido”. Noutras palavras, ele se afana em asseverar esta
sua igualdade absoluta com os outros apóstolos. Ele é um
“chamado”apóstolo. Ele é plenamente apóstolo - tão
plenamente como Pedro.
Notem então que ele prossegue e faz a terceira reivin­
dicação, de que o Senhor, ao fazer isso tudo, comissionou-o de
maneira muito especial para ir aos gentios, de modo que ele
pode dizer em Romanos: “Porque convosco falo, gentios, que,
enquanto for apóstolo dos gentios” - esse é o seu título -
“glorificarei o meu ministério” (11:13). Foi o Senhor que, como
vimos em Atos 26:18, ali o comissionou muito especialmente
para que fosse aos gentios. Ele se gloria no fato de que ele, que
era “hebreu de hebreus”, e um homem tão rígido como se
poderia ser, no sentido nacionalista, vai ser agora o apóstolo
dos gentios. Ele engrandece o seu ofício.
Permitam-me, então, resumir o ponto dizendo que o
apóstolo está muito interessado em que estes cristãos em Roma
compreendam que ele é realmente apóstolo, de plenos direitos,
e que não há dúvida nenhuma a respeito. “Por que é que você
está dando tanta ênfase a isso?”, indagará alguém. Há uma boa
razão. Havia muitos, naqueles primeiros tempos da Igreja, que

65
O Evangelho de Deus

se diziam apóstolos. Por exemplo, vocês podem ler o seguinte,


no livro de Apocalipse: “Eu sei as tuas obras, e o teu trabalho, e
a tua paciência, e que não podes sofrer os maus; e puseste à
prova os que dizem ser apóstolos e o não são, e tu os achaste
mentirosos” (2:2). Havia muitos que se arrogavam esse título,
alegando que eram apóstolos, e assim o apóstolo Paulo, natural
e acertadamente, estava muito interessado em que não ficasse
dúvida alguma sobre essa questão. Ele é igual aos outros
apóstolos, e dá ênfase a isso neste ponto pelo seguinte motivo:
ele quer que os membros da igreja em Roma saibam que quando
ele escreve, como está escrevendo, ele o faz com plena autoridade
apostólica, o que significa que ele está escrevendo com a plena
autoridade do Senhor Jesus Cristo. Ele é embaixador; é repre­
sentante; ele é autoridade plena. O que ele escreve não é uma
carta pessoal; não é um homem escrevendo a vários outros
homens e mulheres. Não! O homem que está escrevendo é
alguém que foi chamado e a quem foi dada a mensagem que
lhe cabe transmitir; escreve com autoridade singular, pelo que
diz: “Não sou somente “servo de Jesus Cristo”; sou “um
chamado apóstolo”.
Certamente vocês vêem o significado disso. Mas, como não
há nada nas Escrituras que não seja sempre de aplicação prática,
este me parece que é um ponto muito importante para nós
também. Estamos vivendo numa época de muitas reivin­
dicações, época em que existem todos os tipos de movimentos
nos quais, queiramos ou não, podemos muito bem estar
envolvidos e, portanto, convém que tenhamos idéias claras sobre
esta matéria. Que dedução podemos fazer, pois, do que vimos
acerca do sentido desta frase, desta palavra “apóstolo”? Bem, a
primeira dedução que eu sugiro que podemos fazer é que não
existe, obviamente, essa coisa chamada de sucessão apostólica;
e de imediato vocês vêem a relevância desse ponto. A igreja
católica romana não somente afirma que o papa é o vigário de
Cristo; também faz esta outra reivindicação - da sucessão
apostólica.

66
Romanos 1:1

Isso, porém, não se limita à igreja de Roma. Existem outros


ramos da cristandade que tanto gostam de empregar o termo
“católico” concernente a si mesmos, e eles também são muito
enfáticos nessa reivindicação de sucessão apostólica. Esse é um
dos grandes argumentos apresentados para terem um
episcopado, para terem bispos. Não me entendam mal; há
eclesiásticos que, embora acreditem em bispos, não concordam
com a reivindicação de sucessão apostólica. Mas os anglicano-
-católicos e os eclesiásticos da alta igreja, assim chamados,
costumam dizer, todos eles, que o bispo - um bispo - é da
própria essência da igreja, não somente do bem-estar da igreja,
mas do próprio ser da igreja, e que não existe igreja sem bispo.
Essa foi uma grande questão no século 17, vocês sabem, e
penso que pode bem ser uma grande questão neste século
também. Tanto, que pode causar divisão até na Igreja da
Inglaterra, se for feita pressão sobre certos pontos. Essas questões
estão aparecendo nos jornais atualmente.* O que se afirma, vocês
vêem, é que esses bispos são descendentes diretos dos apóstolos
- sucessão apostólica - e a minha contestação é que um correto
entendimento do termo “apóstolo” certamente mostra que a
sucessão apostólica é pura impossibilidade. Uma das marcas
essenciais de um apóstolo é que ele possa dar testemunho da
ressurreição do Senhor Jesus Cristo. Logo, como é que alguém
que vive hoje pode ser apóstolo? Não faz sentido! E,
naturalmente, sabemos que nem se tenta fundamentar a sucessão
apostólica nas Escrituras, e sim na tradição. A verdade é que, se
tomarmos a posição escriturística, ver-se-á que toda essa questão
é, por definição, completamente impossível.
Não somente isso! O próprio apóstolo Paulo, escrevendo
aos efésios, afirma que a Igreja Cristã é edificada “sobre o
fundamento dos apóstolos e profetas” (Efésios 2:20). Certamente
não continuamos a construir o fundamento, o alicerce; alicerce
é algo que se faz no começo, e só no começo. Não se estende o

*1955

67
O Evangelho de Deus

alicerce. Uma parede erguida sobre um alicerce não é uma


extensão desse alicerce; a parede estÁ sobre o alicerce, e é essa a
afirmação de Paulo. O alicerce é constituído pelos apóstolos e
profetas, e esse alicerce não continua sendo lançado. Além disso,
é por certo mais que claro que, se posso dizê-lo com reverência,
desde que se concluiu a formação do cânon do Novo Testamento,
realmente não há necessidade de apóstolos. Como vimos, uma
das funções dos apóstolos era ministrar ensino autoritativo. Vocês
se lembram de que já vimos Pedro referir-se às Epístolas de
Paulo neste contexto, dizendo que nelas há “pontos difíceis de
entender”, e que os homens as torcem, como igualmente torcem
“as outras Escrituras, para sua própria perdição”. Ora, os apóstolos
falavam com autoridade. Não hesito em chegar ao ponto de dizer
que eles falavam de maneira inerrante. Foram-lhes dados o
poder e a mensagem, e eles falavam como representantes do
Senhor ressurreto, que os tinha enviado. Falavam como homens
enviados por Deus, tão definidamente, e de maneira tão
inspirada, como os profetas do Velho Testamento.
Segue-se então que, uma vez que temos as Escrituras do
Novo Testamento - o cânon do Novo Testamento - temos ali o
ensino autorizado, e daí, naturalmente, não há mais necessidade
de apóstolos. E é aí que se vê a sabedoria de Deus agindo por
todos os ângulos concebíveis. Enquanto o Cânon não estava à
disposição, havia necessidade de apóstolos e dos que estavam
diretamente ligados a eles e por eles foram instruídos. Uma
vez completo o Cânon autorizado, deixou de haver necessidade
de apóstolos. Há outra prova muito interessante disso tudo,
prova que poderia ter escapado da nossa observação. Que
cuidado o apóstolo tem com as suas frases introdutórias! Em 1
Coríntios ele diz: “Paulo, chamado apóstolo de Jesus Cristo” -
de novo a nossa frase - “pela vontade de Deus, e o irmão
Sóstenes” (1:1). Vocês vêem, Sóstenes é um irmão. Agora, quem
pensaria que essas coisas têm tanta importância? Se vocês
simplesmente o notassem, poderiam muito bem dizer que o
apóstolo é muito egoísta, dizendo: “eu e Sóstenes”; por que não

68
Romanos 1:1

diz: “Sóstenes e eu”?* Pois bem, vocês vêem que não temos aí
mera questão de etiqueta; é questão de falar com autoridade
recebida de Deus, e Paulo sabia que era um apóstolo do Senhor
Jesus Cristo, e que Sóstenes, por excelente homem que fosse, e
santo, não era apóstolo; logo - “e o irmão Sóstenes”.
Deixem-me, porém, dar-lhes outro exemplo; no primeiro
versículo da Epístola aos Colossenses temos: “Paulo, apóstolo
de Jesus Cristo, pela vontade de Deus, e o irmão Timóteo”. Ora,
é mais que óbvio que Timóteo era um grande favorito do
apóstolo. Contudo não era apóstolo. Ele também é “nosso irmão”
(VA). E o apóstolo não pode elevá-lo acima disso; ele não pode
dispor-se a fazer apóstolos. Ele não diz: “Pois bem, Timóteo é o
homem que virá após mim; ele vai ser apóstolo, e assim haverá
sucessão através dos séculos”. Não, absolutamente! “Paulo,
apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus, e o irmão
Timóteo.” Especialmente quando contrastamos isso com o
primeiro versículo da Epístola aos Filipenses, onde vemos isto:
“Paulo e Timóteo, servos de Jesus Cristo, a todos os santos...”.
Vocês vêem, quando Paulo se descreve como “servo” de Jesus
Cristo, ele e Timóteo são iguais. Timóteo é servo de Jesus Cristo,
tanto quanto o apóstolo Paulo. Por isso, quando a questão é de
“servo”, ambos estão juntos; não, porém, quando ele emprega
o designativo “apóstolo” - então há uma diferença. Timóteo é
servo, mas não é apóstolo.
Agora, pois, vocês vêem a importância de que sejam
examinadas estas frases uma por uma. “Paulo, servo de Jesus
Cristo” - “chamado para apóstolo”. A singularidade desta grande
posição! Não pode ser repetida. Desde aqueles primeiros tempos
não houve mais apóstolos, e toda pretensão de apostolado vai
diretamente contra o ensino do Novo Testamento acerca do
sentido do termo. Não preciso desenvolver esse ponto, mas é
preciso assinalar que, se todos nós tivermos que entrar numa
* Essas formas têm que ver com o gênio da língua. Dizer em português “Eu e
Fulano”, não nos leva a pensar em egoísmo. Como tampouco nos leva a pensar
em egoísmo o uso de maiúscula para dizer “eu” em inglês. A presente nota não
enfraquece em absoluto a argumentação do autor. Nota do tradutor.

69
O Evangelho de Deus

grande igreja mundial, com a Igreja Ortodoxa Grega, a igreja


católica romana e vários movimentos católicos, seremos
solicitados a crer na sucessão apostólica, a crer que os bispos
vêm até os nossos dias sem nenhuma interrupção, e que hoje há
homens que são apóstolos tanto quanto Paulo e os outros do
século primeiro.
Ah, meus amigos! Como é importante examinar estas frases,
e não pular sobre elas para chegar a algum versículo favorito,
como o versículo 16 - “Não me envergonho do evangelho de
Cristo...”, pensando que a matéria da Epístola começa realmente
ali. Acaso vocês não conseguem ver que o primeiro versículo
/

está repleto de doutrina vital? E porque tantos de nós muitas


vezes têm negligenciado a doutrina que aí está, logo no início,
que caímos como presa fácil dos argumentos falsos que nos
rodeiam.
Passemos agora à terceira frase: “separado para o evangelho
de Deus”. Aí está a próxima afirmação que o apóstolo faz a
respeito de si mesmo - e sugiro-lhes que aí ele sobe um degrau
ainda mais alto, e que vamos subindo com cada frase: “servo de
Jesus Cristo” - “chamado para apóstolo” - “separado para o
evangelho de Deus”. Por que digo isso? Bem, permitam-me
expressar-me assim: há os que diriam que o sentido aqui é
apenas que o apóstolo tinha sido separado, chamado e posto à
parte para pregar o evangelho. Mas, se só significasse isso, não
haveria realmente por que dizê-lo, porque já o dissera sob o
termo “apóstolo”. Vimos que uma parte vital da comissão do
apóstolo era que ele ensinasse e pregasse o evangelho com
autoridade, e também o escrevesse: assim, se ele estivesse
dizendo apenas “separado para a obra de pregar o evangelho”,
bem, então eu diria que isso seria tautologia, e Paulo não é
culpado disso. As expressões de que ele faz uso, ele sempre as
emprega com meticuloso cuidado, e eu desejo mostrar-lhes,
portanto, que o que aí está não é mera repetição. Ele está
acrescentando algo à sua descrição de si mesmo, ele nos está
levando a um nível mais alto, a um nível sumamente glorioso.

70
Romanos 1:1

Qual será, então, a força da palavra “separado”? Significa


“posto à parte”. E traçada uma linha divisória, e as pessoas são
postas à parte. Portanto, diz o apóstolo que ele foi posto à parte
para o evangelho de Deus. O que é que ele quer dizer exatamente
com ser posto à parte para a obra de Deus? Pergunto-me se aqui
Paulo não estava, por assim dizer, fazendo um jogo com uma
palavra e seu sentido. Vocês se lembram do que ele era antes de
ser convertido? Era um fariseu, e o sentido do termo “fariseu”
no hebraico é “separado”, alguém posto à parte. Os fariseus se
punham à parte. Eles andavam no outro lado da rua, tinham
todo o cuidado para que as suas vestes não tocassem ninguém,
para que eles não se tornassem impuros, e eles não queriam
nada com os publicanos e pecadores. Esse é o fariseu bíblico.
Portanto, seria pura imaginação sugerir que o apóstolo estava
dizendo algo como o seguinte: outrora eu me separei a mim
mesmo como fariseu, mas a grande verdade sobre mim é que
fui separado pelo próprio Deus para esta grande obra que tenho
o privilégio de realizar, parte da qual estou realizando agora,
quando escrevo esta Epístola a vocês? Estou certo de que foi
assim. A falsa separação - a verdadeira separação! Separação
feita pelo homem! Separação feita por Deus!
Prossigamos então, para seguir o pleno sentido do que Paulo
quer dizer aqui. Afortunadamente para nós, ele nos diz noutra
Epístola o que ele quer dizer. Creio que vocês estão começando
a entender o que estou fazendo. Vocês vêem, não posso expor a
Epístola aos Romanos sem expor todas as outras Epístolas ao
mesmo tempo, e acho que se vocês não fizerem a mesma coisa,
errarão em sua exposição de Romanos. Todos os escritos de
Paulo têm que ser tomados juntos. Ele nos diz exatamente o
que quer dizer em Gálatas 1:15,16. Acho-o profundamente
comovente; comecemos no versículo 13: “Porque já ouvistes
qual foi antigamente a minha conduta no judaísmo, como
sobremaneira perseguia a igreja de Deus e a assolava. E na minha
nação excedia em judaísmo a muitos da minha idade, sendo
extremamente zeloso das tradições de meus pais”. E então: “Mas

71
O Evangelho de Deus

quando aprouve a Deus, que desde o ventre de minha mãe me


separou” - aí está a palavra! - “e me chamou pela sua graça,
revelar seu Filho em mim, para que o pregasse entre os gentios,
não consultei a carne nem o sangue”. Aí está o que ele quer
dizer - “separado para o evangelho de Deus”. Quando? Desde
o ventre de sua mãe - muito antes de ser chamado para apóstolo,
ele fora separado por Deus precisamente para esta tarefa que
está realizando agora quando escreve uma carta para a igreja
em Roma. Ah, esta é uma grande doutrina bíblica!
Jeremias diz algo semelhante, vocês recordam, quando se
apresenta. Diz ele que Deus lhe falara da seguinte maneira:
“Antes que te formasse no ventre te conheci, e antes que saísses
da madre te santifiquei: às nações te dei por profeta” (1:5). Foi
isso que Deus disse a Jeremias. Antes mesmo que Ele o formasse
no ventre de sua mãe, e antes que ele saísse daquele ventre, Ele
o conhecia e o tinha separado, tinha-o santificado e o dera por
profeta às nações. E, naturalmente, há muitos outros exemplos
e ilustrações disso. Como vocês sabem, a mesma coisa aconteceu
verdadeiramente com João Batista - “cheio do Espírito Santo,
já desde o ventre de sua mãe”, é o que nos é dito - e também,
num sentido, foi o que aconteceu com Moisés, Sansão e muitos
outros.
É disso, pois, que Paulo está falando; e assim vocês vêem
que se trata de um degrau mais alto. “Servo” de Jesus Cristo -
sim! Como todos os outros cristãos. Timóteo, Sóstenes, todos
são servos de Jesus Cristo. Todos nós somos. Ah, sim, mas
“chamado apóstolo”. Ah, isto não pára aí, declara Paulo. Se vocês
querem realmente saber a extensão da minha autoridade, eu
fui separado desde o ventre de minha mãe para fazer
precisamente o que estou fazendo. Paulo não foi somente
chamado para ser apóstolo; foi preordenado por Deus para ser
pregador do evangelho, antes do seu nascimento. Encontraremos
essa idéia muitas vezes nesta grande Epístola, e, portanto, é
importante que logo de início saibamos algo a respeito.
O apóstolo está sempre falando sobre estas coisas - sobre

72
Romanos 1:1

esta separação, e sobre esta ação de Deus. Vemo-lo, vocês se


lembram, no capítulo nove, onde ele diz: “Amei Jacó, e aborreci
Esaú”. Quando? Antes que eles nascessem. Quando ainda
estavam no ventre materno: “não tendo eles ainda nascido”, e
antes deles terem feito qualquer coisa. Foi o que Deus disse a
respeito deles. Separado, então, para o evangelho de Deus
quando ainda no ventre materno, antes que nascessem. Por quê?
Bem, o livro de Atos nos responde: “Conhecidas de Deus são
todas as suas obras, desde o princípio do mundo” (15:18, VA).
Neste ponto chegamos, digo eu, face a face com a grande,
gloriosa e fortíssima doutrina da soberania de Deus. O
“chamamento” de Paulo não foi um pensamento posterior; não
foram os eventos e as circunstâncias que o fizeram acontecer.
Constituiu parte do eterno propósito, pré-conhecimento e
/

conselho de Deus. E o apóstolo quem o diz. Discutam com ele,


se quiserem, mas estarão discutindo com um homem que fala
com a autoridade do Senhor ressurreto - com um “chamado”
apóstolo. Cuidado, pois! Ele afirma que foi separado para este
evangelho desde o ventre de sua mãe. Digo-lhes que encon­
traremos este termo numerosas vezes. Termo que nos ensina
que há um plano e um propósito na mente de Deus. No caso
deste homem vemos isso claramente, não vemos? Estivemos
pensando em sua maravilhosa preparação; nada disso foi
acidental. Não foi acidental ter ele nascido Saulo de Tarso,
naquela curiosa mistura de cultura grega e cultura hebraica.
Não foi por acaso ter ele nascido cidadão livre, e do Império
Romano! Nenhuma dessas coisas foi acidental. Tudo fazia parte
do grande plano de Deus elaborado na eternidade, não somente
antes do nascimento de Paulo, mas antes da formação do mundo.
Tudo isso estava na mente de Deus. Ele o fez acontecer.
Agora, esta questão do tempo me é muito interessante.
Talvez vocês digam: bem, se foi propósito de Deus fazer de Paulo
um grande pregador do evangelho aos gentios, por que Ele não
o fez logo de uma vez? Mas seria loucura fazer tal pergunta! A
determinação do tempo daquilo que Deus faz é uma das coisas

73
O Evangelho de Deus

mais fascinantes da Bíblia. Vocês vão lendo a Bíblia e por vezes


quase chegam a dizer a si próprios: bem, não há nenhum plano
aqui; tudo está acontecendo de qualquer maneira, de algum
modo; todos podem fazer o que querem, tanto os homens como
as mulheres. Mas vocês vão adiante, e vão ver: “vindo a
plenitude dos tempos” - no momento certo - Deus agiu, e agiu
à Sua maneira. Poderíamos pensar que Paulo deveria ter sido
convertido quando estava de pé vendo os homens apedrejarem
Estêvão até ele morrer, quando puseram suas roupas aos seus
pés. Mas não foi nessa ocasião que aconteceu. Deus lhe permitiu
blasfemar. Deus lhe permitiu respirar ameaças e mortes, e fazer
muitas outras coisas contrárias ao nome do Senhor Jesus Cristo.
Por quê? Não sei. Deus o sabe, e somente Deus o sabe.
Posso sugerir uma resposta, se vocês quiserem. Pode ser a
maneira pela qual Deus nos mostra, fora de toda dúvida e
maquinação, que o apóstolo nunca tomou a decisão de ser
cristão, mas que ele teve que ser apreendido quando estava no
caminho de Damasco. Deus o mostra seguindo o seu caminho
com toda a violência e fúria ofensiva, e então o deteve. A questão
do tempo é muito interessante. Muitas coisas que parecem
totalmente opostas ao que se podia esperar são permitidas, porém
o fim é sempre certo. Esse é o argumento de Paulo nos capítulos
nove, dez e onze desta grande Epístola aos Romanos. Não se
enganem, diz ele; vocês pensam que o propósito de Deus falhou
porque no presente a maioria dos judeus está rejeitando Jesus
como o Cristo. Nada disso, continua ele. Deixem-me conduzi­
dos através do Seu grandioso plano; e os conduz através desta
grande extensão da história e lhes mostra que o propósito de
Deus vai ser cumprido. Tudo está ali, nos capítulos nove, dez e
onze - sim, mas tudo está aqui também, no primeiro versículo
- “Separado para o evangelho de Deus”. Separado quando ainda
no ventre da sua mãe, antes de nascer. Foi ali que Deus o apartou
para isto; o propósito segue diretamente o seu curso, apesar de
toda a contradição e oposição.
Finalmente, quero dizer o seguinte: Paulo ensina que

74
Romanos 1:1

precisamente esta mesma coisa aplica-se à minha salvação e à


de vocês, e não há nada que eu conheça que seja tão glorioso e
ao mesmo tempo tão humilhante. Segundo este apóstolo, a
minha salvação foi determinada antes da fundação do mundo.
Leiam as suas Epístolas; esse é o seu ensino. Antes da fundação
do mundo os nossos nomes foram escritos no livro da vida do
Cordeiro. Não é assombroso? Deus separou este homem para
esta tarefa especial antes do seu nascimento. Não estou dizendo
que isso é necessariamente verdade a nosso respeito, se bem
que, posso dizer, cada vez mais eu passo a acreditar que é! Não
posso fugir à conclusão de que estou neste púlpito neste
momento pela mesma razão. Não posso dizer que fui eu que
me decidi pelo ministério cristão. É esta consciência da mão de
Deus, o constrangimento, a compulsão, se quiserem, este senso
que um homem está cumprindo o seu destino e está fazendo
aquilo para o que Deus o destinou, seguindo o Seu propósito.
Mas, digo eu, pensem vocês o que pensarem sobre
chamamentos, estes constituem simples e claro ensino das
Escrituras com relação a cada um de nós. E, meus amigos,
haveria algo mais maravilhoso e mais poderoso do que isto -
que o onipotente e eterno Deus conheceu vocês antes da fundação
do mundo - conheceu cada um de vocês, individualmente?
Apesar de ser Ele tão grandioso e tão elevado, eterno e
sempiterno, conhece-nos desta maneira, um por um. E um /

grande mistério! Está além do nosso entendimento. E


maravilhoso e assombroso. Pensar que o glorioso Deus está
olhando por nós e nos conhece, um a um! Essa é a maneira
bíblica, entendo eu, de pregar santidade e santificação. Se tão-
-somente nos déssemos conta de que os Seus olhos estão sobre
nós, que Ele nos conhece desta maneira íntima, e que Ele Se
interessa por nós deste modo especial, então, à luz de todas
estas coisas, o efeito sobre mim, em todo caso, é levar-me a usar
as palavras do apóstolo Pedro: “Que pessoas vos convém ser
em santo trato, e piedade?” (2 Pedro 3:11).

75
5
"... o evangelho de Deus... ” - Romanos 1:1

Temos visto, então, que o apóstolo aqui, como


provavelmente o fará muitas vezes, está comprimindo num
espaço diminuto o grande conteúdo do seu evangelho. E mesmo
uma sinopse concisa, se vocês o preferem. Mas isso torna
duplamente importante que, de alguma forma, vejamos algo
desse conteúdo que ele coloca assim, em tão poucas palavras, e,
portanto, a melhor coisa que podemos fazer é simplesmente
examinar as palavras propriamente ditas. Ele foi “separado”,
diz ele próprio, “para o evangelho de Deus”.
Pois bem, muitas vezes penso que estamos tão
familiarizados com a palavra “evangelho” que deixamos de
compreender o seu profundo e tremendo significado. Significa,
todos nós sabemos, “boas novas”, “boa notícia”, e é justamente
isso que às vezes receio que nos inclinamos a esquecer. Abrimos
os nossos dicionários e vemos que o evangelho significa boas
novas, e ficamos nisso. Descobrimos o sentido exato. Somos
filólogos; temos interesse pelos significados das palavras e suas
derivações, e por vezes todo o estudo das Escrituras só termina
em palavras. Concluímos na letra, e jamais conseguimos chegar
ao espírito. Se dissermos que sabemos que evangelho significa
boas novas, a questão realmente importante então é: será que o
evangelho chegou a nós como boas novas? Seria esse o nosso
real entendimento da própria substância, e não meramente da
palavra que a descreve?
Naturalmente, o apóstolo Paulo estava muito preocupado
com isso; ele jamais consegue mencionar essa palavra, ou

76
Romanos 1:1

aproximar-se dela nalgum ponto, sem emocionar-se e como­


ver-se até às profundezas do seu ser. E eu acredito que ele
introduz a palavra logo no início a fim de lembrar-nos certos
contrastes. Agora ele é um pregador das boas novas; não é mais,
por contraste, um mestre da lei. Ele havia sido um mestre da
lei, um fariseu, como vimos, e um grande perito, mas não havia
boas novas com relação à lei. A lei nunca fora destinada a ser
boa nova. A lei, como o veremos dizer, “foi ordenada por causa
das transgressões” (Gálatas 3:19). A lei viera para destacar com
exatidão o pecado. A lei nunca foi dada como meio ou método
ou caminho da salvação. Jamais se pode pensar na lei como
boas novas, em nenhum sentido, embora haja, é certo, um
elemento da graça na lei. A lei, como tal, não é evangelho.
Pois bem, há muitos que não conseguem entender isso.
Parecem pensar que Deus deu aos filhos de Israel a lei com o
fim de conceder-lhes uma oportunidade de salvar-se por si
mesmos. Mas o apóstolo fará grande esforço para mostrar que
isso é uma trágica incompreensão da lei; e, portanto, pensar
que o evangelho veio somente como um pensamento posterior,
depois que a lei falhou, é entender mal tanto a lei como o
evangelho. Não, não é isso, garante Paulo. Ele já não é mestre
da lei; é um “arauto” das boas novas. Ou, de igual maneira,
podemos dizer que o evangelho não é meramente um anúncio
de que Deus vai perdoar pecados, porque isso também era algo
conhecido na antiga dispensação. Há uma grande e maravilhosa
doutrina do perdão de pecados no Velho Testamento. Logo, o
que há de peculiar no evangelho tampouco é isso, e de novo
será entender mal o evangelho pensar nele unicamente como
um anúncio de que os nossos pecados vão ser perdoados. Há
abundantes declarações disso nos documentos do Velho
Testamento. Não é isso. Isso não é a boa nova.
Outra negativa talvez muito importante é a seguinte: a
mensagem do evangelho não é primariamente um apelo para
que façamos algo; isso de novo não seria boa nova. Há pessoas,
como vocês sabem, que parecem pensar no evangelho, na

77
O Evangelho de Deus

mensagem cristã, apenas como um grande apelo para que os


homens e as mulheres vivam uma vida digna, tenham boa
moralidade, sejam éticos, etc. Agora, não me cabe criticar os
outros, mas não tenho dúvida de que muito disso será ouvido
no próximo domingo.* Em toda ocasião nacional ou cívica esse
é o tipo de coisa que se ouve, e são feitos apelos em prol do
comportamento, da lealdade para com a pátria, e assim por
diante. Isso não é boa nova e, logo, não é o evangelho. Não é a
mensagem cristã, mas freqüentemente passa como tal. As vezes
se lhe dá o designativo de “religião da escola pública”, que é
simplesmente um apelo para a boa conduta e para o bom
comportamento. Mas isso não é cristianismo. Dirigir um apelo
às pessoas não é o mesmo que proclamar boas novas a elas; não
são boas novas simplesmente dizer às pessoas que elas devem
ser melhores, e que devem fazer grandes esforços nessa direção;
na verdade, é quase exatamente o oposto.
Paulo diz, porém, que ele é um “arauto” do evangelho; ele
foi exortado a dar boas novas. Que será isso, então? Bem,
obviamente é algo muito especial e, por certo, mais tarde o
apóstolo irá dizer-nos exatamente o que é. Uma pista ele já nos ✓
dá aqui mesmo; é algo concernente ao Filho de Deus. E, de
fato, algo concernente a Deus e ao que Ele fez. Reitero, não é
primariamente um apelo para que façamos algo. E um anúncio,
uma proclamação que nos é feita do que Deus realizou. Vocês
vêem, ele expressa isso magnificamente nos versículos 16 e 17:
S

“Não me envergonho do evangelho”. Por quê? “E o poder de


Deus para salvação” - não uma exortação aos homens para se
salvarem a si mesmos, e sim, o caminho da salvação segundo
Deus - “de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também
do grego. Porque nele se descobre a justiça de Deus.” Isso é o
que há de novo! Pois bem, isso é algo que vocês não vêcm no
Velho Testamento. O perdão está lá, mas esta plena exposição

Domingo das Lembranças. (Rememorando a Primeira Guerra Mundial.


Adendo do tradutor.)

78
Romanos 1:1

desta justiça que vem de Deus é nova, e é o elemento especial e


único que faz do evangelho o evangelho; e é porque o apóstolo
compreende isso que o evangelho sempre o comove. Ora, a
declaração que acabo de citar é um exemplo do que podemos
chamar litotes: “Não me envergonho”, expressão com a qual
ele realmente diz: tenho orgulho dele, gabo-me
y
dele; nenhuma
outra coisa é tão grande como isto. E uma daquelas declarações
positivas dadas em forma negativa. Ele diz: “Não me
envergonho”, e quer dizer, “Estou absolutamente emocionado
com isso, mal me posso conter.”
Esse é, então, o primeiro aspecto que devemos sempre
compreender acerca do evangelho, e é algo que, conforme a
Bíblia, sempre deve caracterizar o evangelho. Se vocês
retrocederem ao Velho Testamento e examinarem as profecias
da vinda deste evangelho, verão que todas elas são líricas.
Pensem em Isaías, capítulo 35! Pensem em Isaías, capítulo 55!
Quando isso vier, o coxo saltará como o cervo, e todos os homens
estarão cantando e se regozijando. Essa é a nota; só pensar nisso,
só a sugestão disso, sempre introduz este elemento de louvor,
de regozijo e de ação de graças.
No Evangelho Segundo Lucas, capítulo dois, versículos 1-
20, exatamente o mesmo ponto sobressai. Aparece um anjo a
alguns pastores de noite, no campo, e diz: vejam, tenho “novas
de grande alegria” para vocês. Essa é a nota - novas, boas novas
- evangelho! E vocês recordam que depois que os pastores foram
para Belém e verificaram essas coisas, é-nos dito que eles
voltaram “...glorificando e louvando a Deus por tudo o que
tinham ouvido e visto”. Essa é a apresentação do evangelho;
como o coro celestial cantou louvores a Deus - “Glória a Deus
nas alturas, paz na terra, boa vontade para com os homens”.
Isso é, pois, uma parte vital e essencial do evangelho.
Pois bem, meus amigos, não adianta prosseguir enquanto
eu não fizer uma pergunta, e a pergunta outra vez é esta: foi
assim que o evangelho chegou a nós? Poderíamos dizer com
sinceridade neste momento que esta é a maior e a melhor boa

79
O Evangelho de Deus

nova que já ouvimos? Estou chegando à conclusão de que, se


não pudermos dizer isso, então, para dizê-lo da maneira mais
suave, devíamos duvidar muito que somos cristãos. Ou esta é a
maior boa nova que já ouvimos, ou não é; e se para nós não é,
bem, há razões para isso.
Se vocês não estão cientes de que o evangelho é a boa nova
mais grandiosa que já entrou neste mundo, ou que já foi recebida
pelo homem, isso pode ser porque vocês têm um sentido
imperfeito de pecado, e uma insuficiente percepção da sua
pecaminosidade. Claro, há os que pensam que eles estão bem
como estão porque são boas pessoas e têm vida elogiável. O
evangelho não é boa nova para elas. Elas nunca sentiram
necessidade de receber ajuda e, por isso, não se emocionam face
ao evangelho e não vêem quão maravilhoso ele é. Os que se
julgam capazes de acertar-se por si mesmos estão na mesma
situação. Não há absolutamente nenhuma dúvida sobre isso.
Uma compreensão inadequada da nossa pecaminosidade é,
provavelmente, a maior causa isolada da nossa incapacidade de
alegrar-nos sempre no Senhor, e de compreender que esta
mensagem é a maior boa nova que o mundo já recebeu.
Examinemo-nos a nós mesmos. Se lhes falta alegria, o que vocês
devem fazer não é tentar produzir alguma alegria dentro de si
mesmos; é ir à Bíblia, à lei, e constatar a sua pecaminosidade.
Positivamente, o caminho para a alegria sempre passa pela
percepção da gravidade do pecado. E isso.
Outra razão para a nossa falta de regozijo é, talvez, a nossa
incapacidade de aperceber-nos das conseqüências do pecado.
Se adotarmos a filosofia e a atitude modernas de desacreditar
no inferno e nas penas eternas, e acreditarmos que, visto que
Deus é amor, de alguma forma todos estarão bem no fim; se
acreditarmos que após a morte as nossas almas serão aniquiladas
e deixarão de existir depois de uma limitada aplicação de castigo
que misericordiosamente terá fim, e que toda essa questão é
condicional - bem, teremos que ver que, assim como diminuí­
mos dessa maneira a nossa crença na punição do pecado, assim

80
Romanos 1:1

diminuímos as boas novas do evangelho. E, de novo, essa é


também uma freqüente causa da nossa falta de alegria. O único
outro aspecto que eu gostaria de mencionar é a incapacidade de
compreender a grandeza da própria salvação. Quero dizer com
isso que temos a tendência de reduzi-la simplesmente a perdão.
Preocupados mormente com a possibilidade de escapar da
punição do inferno, como tantos de nós estamos, queremos o
perdão, e se achamos que o temos, damo-nos por satisfeitos.
Não temos visto as boas novas em sua altura e em sua
profundidade, em seu comprimento e em sua largura - privamo-
-nos da grandiosidade de toda essa realidade.
Portanto, o apóstolo está obviamente interessado na
grandeza e na glória do evangelho; é por isso que ele está
escrevendo esta carta aos cristãos em Roma; ele quer que eles
tenham conhecimento disso. Ele ouviu dizer que eles já estão
na fé, mas parece desejoso de ver se eles a compreenderam
realmente. Ele pega a pena e, inspirado como sabe que é, e com
a autoridade de um chamado apóstolo, vai expô-la a eles em
toda a sua plenitude e grandeza. O evangelho! Ah, com que
facilidade empregamos esse termo! Com que leviandade o
repetimos! Sou tão culpado disso como qualquer outra pessoa.
Deveria ser-nos impossível usar a palavra “evangelho”sem
explodirmos, digamos, num hino de louvor e gratidão. Boas
novas que nos vêm de Deus, isso é o evangelho. E isso me leva
ao ponto mais importante de todos - é o evangelho de Deus.
Noutras palavras, é o que Deus fez acerca do homem, e acerca
da salvação. E é por isso que, naturalmente, é algo completa­
mente único e novo. Não vou escrever-lhes, diz o apóstolo, a
respeito de alguma filosofia humana; não vou dar-lhes as minhas
idéias pessoais quanto a como se deve viver; não vou dizer-lhes
o que o homem tem que fazer; vou dizer-lhes o que Deus fez.
*

E isso! As boas novas de Deus!


Pois bem, esta descrição aqui dada - esta definição do
evangelho - é extraordinária; penso que vocês concordariam.
Há outras descrições do evangelho dadas no Novo Testamento;

81
O Evangelho de Deus

ele é chamado o evangelho da paz, o evangelho do Reino, o


evangelho da salvação, o evangelho eterno, e há outros títulos,
designativos e adjetivos empregados. Mas certamente não há
nenhum que seja utilizado tão constantemente, em especial por
este apóstolo, como a presente descrição, numa forma ou noutra:
“o evangelho de Deus”. Todavia nem aí o apóstolo pára, como
vocês podem ver; ele faz algo aqui que eu devo salientar
doravante, orando no sentido de que o Espírito Santo nos
capacite a todos a ver a sua absoluta primazia e centralidade.
Vocês notam que logo de início o apóstolo nos apresenta a grande
e central doutrina da santa e bendita Trindade. Ouçam-no:
“Paulo... separado”, diz ele, “para o evangelho de Deus”
(deixemos fora o versículo 2 por um momento - ele está entre
parênteses, na VA, e corretamente) acerca de seu Filho, que
nasceu da descendência de Davi segundo a carne, declarado
Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação (o
Espírito Santo), pela ressurreição dos mortos”. Esse

éo
evangelho para o qual ele fora separado. E um evangelho no
qual Deus o Pai /e Deus o Filho e Deus o Espírito Santo estão
interessados. E obra, a obra especial, a obra gloriosa das três
Pessoas, cada uma delas participando dela.
Pois bem, como já lhes tenho feito lembrar, o apóstolo está
escrevendo sob a influência, a direção e a inspiração do Espírito
Santo, e, portanto, quando ele se expressa desse modo, não está
fazendo algo acidental; não está fazendo algo que ele poderia
ter deixado de lado. Para a compreensão global desta posição, é
absolutamente vital que isto seja salientado. Deixem-me tentar
expô-lo da seguinte maneira: há alguns que parecem conceber
o evangelho unicamente em termos do Pai. Vocês conversam
com eles, e eles afirmam que são cristãos e que crêem no
evangelho. Vocês lhes pedem que lhes expliquem o que querem
dizer com evangelho, o que querem dizer quando afirmam que
são cristãos, e eles lhes respondem, vocês ouvem, e notam que
eles terminam sem mencionar o nome do Senhor Jesus Cristo.
Falam muito acerca de Deus; falam sobre o recebimento do

82
Romanos 1:1

perdão de Deus; falam sobre orar a Deus; falam sobre o fato de


serem guiados por Deus, e assim por diante, mas toda a sua
prosa acaba sem menção do nome do Filho - e, todavia, eles se
consideram cristãos. Parecem ter um cristianismo sem nenhuma
ligação com o Filho.
Agora, esse tem sido sempre o perigo peculiar aos místicos
naturais. Os místicos, vocês veem, não somente crêem em Deus.
Eles sabem, eles acreditam, que é possível a pessoa ter completo
conhecimento de Deus, ter uma direta experiência de Deus.
Isso está certo. Mas, geralmente, o problema dos místicos é que,
pensando que isso é possível, eles o buscam sem o Senhor Jesus
Cristo. Apanham os seus manuais sobre misticismo, passam
pela “trevosa noite da alma” etc., até chegarem ao estágio final
de contemplação. Esse é um perigo constante com relação aos
místicos. Dizem eles que o que você deve fazer é voltar-se para
si mesmo e examinar-se, olhar dentro de si mesmo - que Deus
está em você. Há muitos livros que ensinam isso: alguns deles
tornaram-se muito populares. Vejam um livro que foi muito
popular, amplamente popular, há uns quarenta anos, intitulado
In Tune with the Infinite (Em Harmonia com o Infinito). Esteve
em voga entre muitos cristãos, mas, na realidade, é uma típica
ilustração do que estou dizendo. Ele lhes oferece uma
experiência de Deus, diretamente, sem que o Senhor Jesus Cristo'
seja absolutamente essencial. Aí vocês têm, pois, um perigo -
unicamente o Pai.
Mas, sejamos justos e admitamos que há alguns que
parecem dar toda a atenção e toda a ênfase unicamente ao Filho,
esquecidos inteiramente do Pai. Estes são os que às vezes vão
tão longe que chegam a dar a impressão de que o Pai tem
relutância em perdoar-nos, e (vocês poderão ver isso em certos
hinos) retratam o Senhor Jesus Cristo como tendo que pleitear
com o Pai que nos perdoe - que Ele vai à presença de Deus e
diz: Eu morri por eles, e os adquiri; e lá está Ele, retratado na
atitude de tentar persuadir a Deus a perdoá-los! Para tais pessoas,
o cristianismo está, todo ele, unicamente no Filho, e o Pai é

83
O Evangelho de Deus

alguém que não teve parte nenhuma nele e que, na verdade,


parece quase relutante em ouvir as súplicas de Seu Filho. Esse
é o segundo perigo.
Vem, então, o terceiro, que tende a dar toda a ênfase ao
Espírito Santo. Acaso não é espantoso como todos nós estamos
prontos a desviar-nos e a cair em erro? Não seria nosso único e
exclusivo consolo que somos “feitura sua”, c que “aquele que
em nós começou a boa obra a aperfeiçoará...”? Se Ele não desse
continuidade à Sua obra cm nós, todos nós nos desviaríamos de
um modo ou de outro, como, por exemplo, aqui - uns, somente
o Pai, outros, somente o Filho, outros, somente o Espírito Santo.
E ainda este último grupo quer experiências ou poder, e daí
partem instintivamente para essa doutrina do Espírito Santo.
Esse é um perigo muito sutil. Não sei se esta seria uma boa
ocasião, talvez, para confissões pessoais, mas eu conheço muito
bem esse terceiro perigo, porque eu mesmo passei certo período
dc tempo preso nele. Noutras palavras, você pode estar
interessado na doutrina da regeneração, sem ver a necessidade
absoluta da expiação. E atualmente há muitas ilustrações disso
neste país.* Há gente que pode falar corretamente, em alto e
bom som, sobre novo nascimento, nascer de novo, regeneração,
vida que vem de Deus, e não crê na expiação. São pessoas
conscientes da necessidade de nova vida e de novo poder, e vêem
que essa benção é oferecida. Sim, mas vão direto para lá; passam
de largo pela cruz. Há pessoas que dizem que estão em contato
com o Deus vivo por meio do Espírito, e que também deixam
inteiramente de lado o Calvário, e não enxergam nada de uma
/

expiação vicária, substitutiva. E um perigo muito sutil.


Bem, é simplesmente meu dever lembrar-lhes de que
existem esses três erros e perigos possíveis, que poderão fazer
com que nos extraviemos, a menos que sejamos bastante
cautelosos. Cada um deles é errado, mas cada um deles, como

* Na Inglaterra, país a que o autor se refere, e não menos no Brasil. Nota


do tradutor.

84
Romanos 1:1

vocês podem ver, tem um pouco de verdade - e é isso que os


torna perigosos. Não há nada mais perigoso do que exagerar
uma parte da verdade atribuindo-lhe o caráter de verdade
completa. O que os três grupos acima dizem é verdade até onde
eles vão, mas eles deixam fora outras partes que são igualmente
vitais e essenciais, pois o ensino das Escrituras é, como vemos
na passagem em foco, que a salvação é obra das três pessoas da
/

santa e bendita Trindade. E primordialmente obra realizada


pelo Pai - o evangelho de Deus concernente ao Seu Filho.
Primeiro o Pai! O plano é do Pai; o propósito é do Pai; é o Pai
que lhe dá início; foi o Pai que fez a primeira promessa
concernente ao evangelho a Adão e Eva no jardim do Eden, e
importa que tenhamos claro entendimento sobre isso. Não
devemos passar adiante e considerar o que o Filho fez, o que o
Espírito Santo fez e continua fazendo, enquanto não tivermos
entendimento absolutamente claro sobre a primazia do Pai, e
sobre a origem de toda essa realidade na Pessoa do Pai. Não é
de espantar que podemos esquecer isso? Se existe um versículo
da Bíblia que todo o mundo conhece, é João 3:16, e esse texto
diz o seguinte: “Deus amou o mundo de tal maneira que deu
(Deus o Pai deu) o seu Filho unigénito...”. Observem a ordem.
Foi Deus que o fez. Foi Deus que começou a obra toda. Pode-
-se dizer que Ele é o Autor e o Fautor de toda essa realização -
Deus o Pai.
O próprio Senhor Jesus Cristo sempre Se empenhou em
dar ênfase a essa verdade. Leiam particularmente o Evangelho
Segundo João, ponham atenção neste ponto, e O verão dizer
uma e outra vez. “As palavras que eu vos digo não as digo de
mim mesmo, mas o Pai, que está em mim, é quem faz as obras”.
São obras realizadas pelo Pai. Essa é a ênfase constante dò
Senhor Jesus Cristo. Se quiserem um perfeito sumário disso
tudo, basta que vejam o capítulo dezessete do Evangelho
Segundo João, onde o nosso Senhor, em Sua oração sacerdotal,
diz: “Pai... eu concluí a obra que me deste para fazer” (VA). Ele
foi enviado pelo Pai; pelo Pai Lhe foi confiada a obra que Ele

85
O Evangelho de Deus

devia realizar; Ele foi sustentado e capacitado a realizá-la pelo


Espírito Santo, porém foi o Pai que O enviou. Foi o Pai que
Lhe prescreveu a obra; foi o Pai que Lhe deu as pessoas; é
sempre o Pai que o faz. Ele veio para glorificar o Pai. “Pai”, diz
Ele, “eu glorifiquei-te na terra...” Aí está a centralidade total
da Sua vida - a glória do Pai na obra que Seu Pai Lhe confiara
para realizar.
E, naturalmente, vocês verão essa ênfase em toda parte nas
Epístolas deste apóstolo Paulo. Que é o evangelho? E isto:
“Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo”.
“Aquele que não conheceu pecado, (Deus) o fez pecado por
nós.” “Vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho,
nascido de mulher, nascido sob a lei, para remir os que estavam
debaixo da lei.” Eu poderia continuar citando Paulo em grande
extensão, mas há sempre esta ênfase a Deus o Pai. E, todavia,
são muitos os que esquecem isso: são cristocêntricos, se é que
posso dizê-lo, e esquecem o Pai, de quem tudo vem. Vocês
poderão ver isso nas orações que eles fazem; sempre oram ao
Senhor Jesus, não ao Pai. Estão inteiramente centralizados no
Filho. Mas, meus amigos, é um erro fazer de Cristo o centro,
porque Ele não é o centro. O centro é o Pai. Por certo vocês se
lembram da colocação feita pelo apóstolo Pedro; ele diz: “Cristo
padeceu pelos pecados”. Por que razão? Bem, “para levar-nos a
Deus”, ao Pai (1 Pedro 3:18). Todo o propósito da obra realizada
pelo Filho é levar-nos a Deus o Pai. Vejam esta definição da
vida eterna: “A vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por
único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste”.
Sempre essa ordem; ele nunca a muda. Ele veio para glorificar
o Pai. Ele sabia que tudo principia com o Pai e do Pai provém,
de modo que o autor da salvação é Deus, o Pai eterno.
Agora, meus amigos, devo fazer mais uma pausa para
salientar isto, e fazer uma pergunta: seria essa a nossa idéia da
salvação? Quando pensamos na salvação, pensamos
instintivamente em termos do Pai e da Sua glória? Devemos
fazê-lo. Pensando na salvação, não devemos deter-nos em nós
86
Romanos 1:1

mesmos ou em alguma experiência que acaso tenhamos tido.


Pode ser que estejamos mais alegres; pode ser que não estejamos
cometendo certos pecados - excelente! Graças a Deus por isso.
No entanto, se a sua apreciação da salvação não vai adiante para
glorificar o Pai, o seu conceito de salvação é muito inadequado
- é, na verdade, inteiramente diverso do que vemos no Novo
Testamento.
Não somente isso! A nossa conduta, o nosso comporta­
mento, o resultado desta salvação também deve apontar na
mesma direção. O objetivo da salvação é levar-nos a glorificar a
Deus. Que é pecado? É não glorificar a Deus. Mas nem sempre
nos expressamos dessa maneira, não é? Se nos peguntam, “Que
é pecado?”, respondemos: pecado significa que você faz isto,
ou aquilo, ou alguma outra coisa que não devia fazer, e, portanto,
quando você é convertido, o seu testemunho é isto - eu não faço
mais aquelas coisas; não estou mais interessado nelas. E, você
dirá, este é o meu testemunho - eu costumava fazer isto, aquilo
e mais aquilo; eu era um bêbado, porém não sou mais. Bem,
isso é excelente, como digo, contudo, vocês sabem, é um modo
muito pobre, inadequado e negativo de descrever a salvação. A
essência do pecado consiste em não glorificar a Deus. O homem
foi feito para glorificar a Deus - “O fim principal do homem”,
diz o Breve Catecismo, “é glorificar a Deus e gozá-lo para
sempre”. E, como vocês vêem, se tão-somente defmíssimos
o pecado como o não cumprimento disso, veríamos como todo
o mundo é pecador, e veríamos como as pessoas mais respeitáveis
podem, às vezes, ser os mais terríveis pecadores. Nunca pesou
sobre elas a culpa de certos pecados - naturalmente que não,
todavia elas não glorificam a Deus; glorificam a si mesmas. São
tantos os que dizem: “Não posso achar que sou pecador; nunca
me senti pecador”. Isso porque estão pensando em termos de
pecados; se apenas vissem que o pecado é real e simplesmente
deixar de glorificar a Deus com todo o seu ser e o tempo todo,
veriam que são terríveis pecadores.
Agora, se o pecado é isso, a salvação só pode significar que

87
O Evangelho de Deus

somos introduzidos num estado e condição em que vivemos


para glorificar a Deus. Ele é o centro da nossa vida, o centro da
nossa conversação. Quantas vezes glorificamos dessa maneira a
Deus quando damos o nosso testemunho? É prova de
cristianismo. E com isso que o apóstolo começa - é “o evangelho
de Deus”. Muito bem, se esse é o ponto do qual começamos,
não causa surpresa ver Paulo, quando escreve a Timóteo,
descrever o evangelho como “o evangelho da glória de Deus
bem-aventurado” (VA: “o glorioso evangelho do Deus bendito”,
ITimóteo 1:11). E o plano do Pai. E o grande movimento do
*

Deus eterno. E algo que foi posto em execução pelo Filho e por
meio do Filho. O Pai enviou o Filho para fazê-lo, mas é “o
evangelho de Deus acerca do seu Filho Jesus Cristo, nosso
Senhor”. Foi Deus que O enviou para fazê-lo. E assim o Filho
vem nesse segundo lugar, e o evangelho em terceiro, como o
apóstolo nos lembra nesta passagem, algo que nos é aplicado
pelo Espírito Santo.
O Espírito Santo revestiu o Filho de poder. Vocês recordam
que o Espírito veio sobre Ele quando foi batizado no Jordão
por João. O Espírito desceu sobre Ele em forma de pomba. E o
Evangelho Segundo João afirma que “não lhe dá Deus o Espírito
por medida”(3:34). Ele O encheu do Seu Espírito, e assim o
Filho foi habilitado a realizar a Sua obra mediante o Espírito
dessa maneira. Assim é que as três pessoas da santa e bendita
Trindade estão necessariamente envolvidas, e, no momento em
que o apóstolo menciona a palavra “evangelho”, ele pensa nas
três pessoas da santa e bendita Trindade. O evangelho é, então,
a poderosa ação de Deus o Pai, Deus o Filho e Deus o Espírito,
pela qual somos salvos. E provisão de Deus para nós em nossa
necessidade e condição de desespero. E algo que fora
mencionado na dispensação do Velho Testamento; já aconteceu,
afirma Paulo. Por isso lhe chamo “boas novas”, e vou dizer-
-lhes exatamente o que aconteceu.
Outra vez devemos fazer uma pausa neste ponto, para
mostrar que aqui o apóstolo faz uma coisa que é característica
88
Romanos 1:1

de todo o ensino bíblico. É desta maneira que a Bíblia ensina a


doutrina da santa e bendita Trindade. A doutrina da Trindade
nunca é exposta diretamente nas Escrituras - é sempre de modo
indireto. Não há nenhuma declaração explícita de que Deus é
três pessoas - o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Esse tipo de
definição não existe. O modo como a Bíblia a expõe é o modo
como o apóstolo a expõe aqui. “O evangelho de Deus acerca de
seu Filho”, e depois, “segundo o Espírito de santificação” - o
Espírito Santo.
Permitam-me apenas dar-lhes algumas outras ilustrações
do mesmo ponto, para que se fixe com clareza em nossas mentes.
Naturalmente vocês o verão no batismo do nosso Senhor. Lá o
Filho está de pé nas águas do Jordão, o Espírito Santo, em forma
de pomba, desce sobre Ele, e do céu vem a voz do Pai, dizendo:
“Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” - o Pai e
o Filho e o Espírito Santo. De novo não uma declaração
explícita, mas os Três juntos - três pessoas distintas numa única
Deidade. O Filho diz: “Eu e o Pai somos um”, e vocês verão
outras declarações semelhantes. Vejam, por exemplo, o ensino
que consta no capítulo catorze de João, onde o nosso Senhor
informa que vai deixar os Seus discípulos, mas não os vai deixar
“órfãos”; vai enviar-lhes o Espírito Santo. E Ele fala acerca do
Espírito Santo como “Ele”, e, visto que o Espírito Santo está
para vir sobre eles, Ele e o Pai vão fazer Sua habitação no crente.
Como vocês vêem, aí está a mesma verdade - as três pessoas e,
contudo, uma só Deidade, um só Deus. É assim que a Bíblia
ensina essa doutrina.
Vocês a encontrarão também no fim do Evangelho Segundo
Mateus, onde o nosso Senhor dá a Sua grande comissão aos
apóstolos, para que saiam a pregar e a discipular todas as nações,
“batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”.
E o fato de que devemos ser batizados em nome dos Três é uma
tremenda declaração da igualdade e da co-eternidade dos Três.
Aí está toda a doutrina da santa e bendita Trindade. E depois
vocês recordarão que este apóstolo Paulo, no fim da sua Segunda

89
O Evangelho de Deus

Epístola aos Coríntios, diz: “A graça do Senhor Jesus Cristo, e


o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo seja com
vós todos” - as três pessoas de novo, como vocês vêem. Ele não
se assenta e diz: “Pois bem, há três pessoas na bendita Trindade”;
é, antes, da maneira acima indicada que ele a expõe. Essa é a
maneira bíblica de fazê-lo, e são muitos os que não têm
entendido isso.
Temos ainda uma notável ilustração dessa doutrina em
Hebreus 9:14, onde lemos: “Cristo, que pelo Espírito eterno se
ofereceu a si mesmo imaculado a Deus”. E há muitos outros
exemplos e ilustrações da mesma coisa; eu simplesmente
selecionei alguns, e o fiz para deixar bem claro este ponto. Como
é importante que nós, quando lemos ou estudamos as Escrituras,
estejamos vivos e alerta para estas coisas! Elas estão aí, bastando
que olhem para elas, que dêem atenção ao que estão lendo.
Notem o que Paulo diz na passagem que estamos estudando:
“O evangelho de Deus... acerca de seu Filho... segundo o Espírito
de santificação”. Quando percorrermos as páginas das
Escrituras, fiquemos de olho na maneira pela qual estas
gloriosas, poderosas e eternas doutrinas são introduzidas
repentinamente.
Não é surpresa que o apóstolo Paulo tenha começado com
isso. Meus amigos, a doutrina da Trindade é a doutrina distintiva
da fé cristã. Isso é incontestável. Um famoso teólogo disse
outrora: “A doutrina da Trindade é o coração do cristianismo”,
e ele estava absolutamente certo. É o que torna o evangelho
absolutamente único. Há outras religiões que creem em Deus,
mas não há nenhuma outra que pregue e ensine a doutrina da
santa e bendita Trindade. Assim, pois, é absolutamente essencial
que nós, como cristãos, tenhamos uma clara compreensão desta
doutrina - as três pessoas da Deidade, coiguais e coeternas,
todavia, elas dividiram dessa maneira a obra da salvação. Quão
essencial é que a entendamos! Ela influencia todo o nosso
pensamento.
Agora, há alguns que parecem por demais entusiasmados
90
Romanos 1:1

atualmente com o que se chama “apologética”. Eles lêem, por


exemplo, nos jornais que os cientistas estão agora a ponto de
dizer que nascimento virginal é afinal uma possibilidade - a
partenogênese. Lemos sobre isso e às vezes os cristãos acham
que isso vai ser maravilhoso e que toda a nossa posição cristã
vai ser confirmada. Meus caros amigos, se a posição de vocês
vai depender do que os cientistas digam ou não digam, bem, eu
temo e tremo por vocês. Eles têm seus modos e modas; dizem
uma coisa um dia e a negam no outro. Eis o que devo dizer a
respeito disso: está tudo bem, dentro dos seus limites. Vocês já
ouviram falar das famosas “provas” da existência de Deus - tudo
bem, dentro dos seus limites. Lembremo-nos, porém, de que,
como cristãos, não somos simplesmente homens e mulheres
que crêem em Deus; cremos na santa e bendita Trindade -
cremos no Deus triúno. Os maometanos crêem em Deus. Os
judeus não regenerados crêem em Deus. Há outros que crêem
em Deus. A essência do cristianismo é que nós cremos nas três
Pessoas - um só Deus. Paulo vai adiante e prova que Jesus é o
Filho de Deus, “que nasceu da descendência de Davi segundo
a carne, declarado Filho de Deus em poder...”. Sim, Ele é Deus
o Filho, e é igualmente verdadeiro falar de Deus o Espírito
Santo. Temos que ser trinitários. Não podemos ser negligentes
ou frouxos em nossas idéias a respeito disso; esse é o cerne, o
coração do cristianismo, a essência da nossa posição - que as
três Pessoas, gloriosas e eternas, por nós e pela nossa salvação,
realizaram estes poderosos feitos que o apóstolo vai pôr a
descoberto nesta gloriosa Epístola. Ah, queira Deus habilitar­
mos a ver a primazia, a centralidade e a importância total da
doutrina da santa Trindade!

91
6
“O qual antes havia prometido pelos seus profetas nas Santas
Escrituras.” - Romanos 1:2

Aqui, neste versículo dois da Epístola aos Romanos, o


apóstolo continua a dizer-nos algo sobre o evangelho; não se
trata apenas de um evangelho interessado nas três Pessoas da
Trindade santa e bendita; há algo mais para se aprender aí, diz
ele, e é que o evangelho foi “prometido” anteriormente. Paulo
é pregador porque foi chamado para anunciar esta grande nova,
esta boa nova acerca de algo que já se realizara. Como logo
veremos, o evangelho baseia-se em certos fatos históricos, fatos
que se destinam a comunicar novas, notícias. Paulo é um arauto,
um proclamador, de algo que já aconteceu. Sim, diz ele, não é
só que isso aconteceu de fato. É algo que foi prometido há muito
tempo, “...que ele tinha prometido antes por meio dos seus
profetas, nas Santas Escrituras” (VA).
A Versão Autorizada da Bíblia (Authorized Version) coloca
este versículo entre parênteses, indicando claramente que os
seus tradutores eram de opinião que é uma expressão mais ou
menos parentética - algo dito de passagem. Mas outros
tradutores não o colocam entre parênteses, e alguns fazem forte
oposição aos tradutores da Versão Autorizada por fazê-lo porque,
dizem eles, o pensamento corre sem pausa nem interrupção -
“o evangelho de Deus, o qual havia sido prometido”. É, no
entanto, um ponto muito refinado e puramente acadêmico, se
devemos querer parênteses ou não. Parece-me que vem a ser
mormente uma questão de decidir qual dos dois métodos irá
dar maior ênfase à verdade. Será que um deles dá maior ênfase
pelo uso dos parênteses, quando o coloca assim: “Paulo, servo

92
Romanos 1:2

de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o


evangelho de Deus, acerca de seu Filho Jesus Cristo, o nosso
Senhor... (o qual ele havia prometido antes...)” (VA), ou,
espressando-o sem parênteses: “O evangelho de Deus, o qual
antes (ou de antemão) havia prometido pelos seus profetas nas
Santas Escrituras”. Pode-se ver que em ambos os casos dá-se
proeminência à verdade. Se o deixamos sem parênteses, Paulo
está logo dizendo: “A primeira coisa que se deve lembrar acerca
deste evangelho é que ele foi prometido anteriormente”.
Dizemos isso antes de mencionarmos o Filho de Deus, o Senhor
Jesus Cristo. Ao passo que, por outro lado, o que almeja dizer
é que o evangelho de Deus é “acerca de seu Filho, o Senhor
Jesus Cristo”, e que o fato de ter sido “prometido anteriormente”
é relativamente menos importante. Não obstante, ele foi
prometido anteriormente, e o apóstolo está muito interessado
em dizê-lo, e teremos que parar por aqui com a mecânica do
caso. No que devemos estar de acordo, porém, é que, se o
colocarmos entre parênteses, diremos que o apóstolo introduziu
essa declaração muito deliberadamente, ao preço de interromper
o seu pensamento principal. Era tão importante que ele teve
que introduzi-la mesmo no meio desta grandiosa proclamação:
“o evangelho de Deus, acerca de seu Filho Jesus Cristo, o nosso
Senhor”. E, no outro caso, se o deixarmos sem parênteses,
veremos como é importante, porque ele o diz de imediato, antes
mesmo de mencionar o Nome.
Pois bem, ao fazer isso o apóstolo faz algo que invariavel­
mente fazia. Quero dizer que uma parte da pregação do apóstolo
Paulo era que ele sempre procedia da maneira pela qual está
introduzindo o seu assunto aqui. Ele está sempre interessado
em que todos entendam que esta nova mensagem que ele tinha
o privilégio de pregar só era nova num sentido - no sentido de
que as coisas nas quais ele se baseava já haviam acontecido
recentemente. Era nova no sentido de que os eventos históricos
tinham acabado de acontecer, mas com toda a certeza não era
nova no sentido de ser uma nova idéia ou uma nova teoria, ou

93
O Evangelho de Deus

algo que nunca tivesse sido sugerido antes. Diz ele que esta
mensagem não é nova nesse sentido.
Permitam-me oferecer-lhes algumas outras ilustrações que
mostram como o apóstolo faz isso. Se vocês examinarem o
capítulo treze de Atos, verão uma longa narrativa sobre o
ministério do apóstolo numa localidade chamada Antioquia,
na Pisídia. Ele e os seus companheiros entraram na sinagoga de
lá, como era seu costume, e as autoridades, reconhecendo-os
como estrangeiros, perguntaram-lhes se tinham algo para dizer.
Assim Paulo começou a falar e a pregar, e proferiu ali aquele
extraordinário sermão, que é de importância vital para
entendermos o método histórico de evangelização. Entre outras
coisas, lemos isto no versículo 23: “Da descendência deste”
(referindo-se a Davi), “conforme a promessa, levantou Deus a
Jesus para Salvador de Israel”. Agora observem como ele se
expressa - “Da descendência deste, levantou Deus a Jesus para
Salvador de Israel” - mas Paulo não ficou nisso; ele teve que
acrescentar: “...conforme a promessa”. Deus tinha prometido
isso. O apóstolo tem muito interesse em dizê-lo.
Ou vejam o capítulo dezessete de Atos, onde nos é dado
um relato da primeira pregação de Paulo em Tessalônica. Lemos
ali que ele entrou na sinagoga judaica - nesse ponto do seu
ministério era onde ele sempre começava - e nos é dito no
versículo dois: “E Paulo, como tinha por costume, foi ter com
eles; e por três sábados disputou com eles sobre as Escrituras,
expondo e demonstrando que convinha que o Cristo padecesse
e ressuscitasse dos mortos. E este Jesus, que vos anuncio, dizia
ele, é o Cristo”. Agora, o que desejo acentuar é que o costume
dele não somente era ir aos judeus nas sinagogas, porém durante
três dias ele disputou com eles sobre as Escrituras. Isso é muito
significativo, e há outros exemplos do mesmo fato; mais adiante
vamos referir-nos a alguns deles. Mas o que é significativo é
que foi isso que Paulo sempre fez. Assim é que, mesmo aqui,
quando ele está escrevendo a uma igreja predominantemente
gentílica e que nunca o tinha visto, ao apresentar o evangelho,
94
Romanos 1:2

ele introduz este ponto por ser de vital importância.


Posteriormente vamos considerar as razões pelas quais ele o
achava tão vitalmente importante e, portanto, por que ele
invariavelmente fazia isso. Ele tem boas novas para contar. Sim,
mas são boas novas que tinham sido profetizadas, que tinham
sido prometidas, a respeito das quais Deus tinha falado muitas
vezes anteriormente, nos séculos que já se haviam passado. E,
portanto, é de vital importância que lhe prestemos cuidadosa
atenção.
Não podemos percorrer agora todo o argumento pormeno­
rizado do apóstolo, mas devemos aperceber-nos de que ele tinha
tal argumento, e que é nosso dever, como cristãos, saber qual é.
Não devemos esquecer-nos jamais de que o que temos aqui,
nestas Epístolas, é apenas uma sinopse. Leiam o livro de Atos,
e verão que o que temos é um relato muito abreviado de tudo o
que ele disse quando visitou as igrejas e falou com as pessoas
evangelisticamente. Tudo é reduzido a um breve sumário.
Lemos que certa ocasião o apóstolo estendeu a pregação noite a
dentro, e um homem, dominado pelo sono, caiu da janela do
terceiro andar onde estava sentado, e os presentes pensaram que
ele estava morto (Atos, capítulo 20).
Não há nada tão falaz, portanto, como pensar que o apóstolo
falava tão breve ou concisamente como quando escrevia estas
Epístolas. Estas constituem meramente os títulos dos seus
sermões. Paulo podia, por exemplo, permanecer
✓ dezoito meses
num lugar e pregar ali diariamente. E óbvio que se fosse apenas
uma questão de passar superficialmente por estas Epístolas, ele
não precisaria ficar ali mais que uma semana; poderia fazê-lo
em muito menos tempo. Não! Estas Epístolas são títulos que
ele expunha, e o que em particular temos neste versículo dois
era, digamos, um dos seus títulos favoritos, um que evidente­
mente ele expunha muito extensamente. Era parte da sua
experiência pessoal, e também era algo que ele considerava
essencial para as igrejas, a fim de que entendessem como este
evangelho estava diretamente relacionado com as Escrituras do

95
O Evangelho de Deus

Velho Testamento, e eu e vocês devemos conhecer o argumento.


Permitam-me tentar colocá-lo na forma de um sumário.
Primeiro, quais são essas promessas a que ele se refere? Diz ele
que tudo isso foi “outrora prometido”. Bem, onde se pode
encontrar esta mensagem? A resposta é que vocês a encontrarão
em quase toda parte do Velho Testamento. Tomemos apenas
alguns textos ao acaso, para que vejamos a riqueza do material
com o qual o apóstolo tinha de trabalhar. Claro, vocês o verão
primeiro em Gênesis 3:15, onde o próprio Deus, no Jardim do
Eden, na presença de Adão e Eva, e dirigindo-Se à serpente,
declarou que Ele poria inimizade entre a sua semente e a
semente da mulher, e que a semente da mulher feriria a cabeça
da serpente, e a semente da serpente feriria o calcanhar da
semente da mulher. Aí está a primeira promessa. Contudo é
apenas o começo. Vamos à promessa de Deus a Abraão, no
capítulo dezessete de Gênesis, de que, por meio dele e da sua
/

semente, o mundo todo seria abençoado. E uma declaração


sumamente importante e vital como expressão da aliança de
Deus com Abraão. E depois, Deus repete a promessa mediante
Jacó, em Gênesis 49:10: “O cetro não se arredará de Judá, nem o
legislador dentre seus pés, até que venha Silo; e a ele obedecerão
os povos”.
De fato vocês verão que mesmo um mercenário como Balaão
foi usado por Deus para comunicar uma profecia concernente a
estas coisas; disse ele: “Uma estrela procederá de Jacó, de Israel
subirá um cetro” (Números 24:17). Há também uma
maravilhosa promessa feita a Davi em 2 Samuel, capítulo 7 -
capítulo da mais vital importância. E depois vocês verão em
Malaquias 3:1o precursor, João Batista, previsto e predito; os
pormenores são deveras assombrosos. Também nos é dito o
tempo exato em que o Filho de Deus viria a este mundo; vocês
verão isso no capítulo nove da profecia de Daniel. Calculem os
números que aparecem lá, e verão que eles fixam o tempo em
termos da destruição e restauração da cidade de Jerusalém; o
tempo exato foi profetizado. E não somente isso! Vocês verão
96
Romanos 1:2

que foi predita a tribo de Israel da qual procederia o nosso


Senhor. Somos informados que Ele é da tribo de Judá; vocês
verão isso em Jeremias, capítulo 23, e noutros lugares - 2 Samuel,
capítulo 7, por exemplo. E por certo todos nós lembramos que
em Isaías, capítulo 7, vemos a profecia concernente ao Seu nas­
cimento de uma virgem - obviamente um fato de importância
central. O lugar em que Ele nasceria é profetizado por Miquéias
(capítulo 5, versículo 2) - Belém; e vocês recordam o significado
disso quando o evento se concretizou.
Também nos são feitas certas declarações gerais acerca do
Filho de Deus no Velho Testamento. É-nos dito que Ele seria
profeta. Moisés disse ao povo: “O Senhor teu Deus te suscitará
um profeta... semelhante a mim” (Deuteronômio 18:15)-uma
clara profecia sobre o Senhor Jesus Cristo. Também nos é dito
que Ele seria sacerdote; é a grande mensagem de Isaías, capítulo
53. E ainda em Daniel 9:24 nos é dito que Ele seria um grande
rei. Daniel, no capítulo dois da sua profecia, em sua interpre­
tação do sonho do rei, afirma que surgiria uma pedra e que ela
cresceria, transformando-se numa grande montanha que
encheria toda a terra e destruiria todos os outros reinos. Essa é
uma inequívoca profecia da realeza e da glória do reinado do
Senhor Jesus Cristo. Vocês verão a mesma coisa no Salmo dois
e, ainda, há uma referência a Ele como rei no capítulo nove de
Isaías. Aí está, pois - profeta, sacerdote e rei, tudo predito e
profetizado no Velho Testamento. Também nos é dito que Ele
seria uma “luz para os gentios”; isso está em Isaías, capítulos
42, 49 e 50.
Mas então, apesar de nos ser dito que Ele seria um grande
rei e que estabeleceria um império e um reino que jamais seriam
destruídos, também nos é dito em Isaías, capítulo 53, que Ele
seria “desprezado, e o mais rejeitado entre os homens”. É-nos
dito que Ele iria morrer vicariamente pelos pecados de outros,
e que seria açoitado com açoites que caberiam a outrem. Há
também muitos outros fatos e pormenores que nos são fornecidos
a respeito dEle, e que são verdadeiramente assombrosos; vocês

■97
O Evangelho de Deus

acharão no versículo primeiro do capítulo 61 de Isaías uma


referência às Suas palavras, citadas em Lucas, capítulo 4,
versículos 18 e 19. Encontrarão uma referência aos Seus milagres
- milagres que caracterizariam o Seu ministério - em Isaías,
capítulo 35. Em Zacarias 9:9 vocês verão que foi profetizado
que Ele entraria na cidade de Jerusalém “montado em jumento,
num jumentinho, cria de jumenta”. Verão ainda em Zacarias
que foi profetizado que Ele seria vendido por “trinta moedas
de prata” (11:12). No Salmo 22 vocês verão que as Suas vestes
seriam sorteadas quando da Sua crucificação. Verão ali também
as mesmas palavras que Ele pronunciou na cruz: “Deus meu,
Deus meu, por que me desamparaste?” O salmo é, realmente,
uma descrição da morte por crucifixão, de maneira extraordina­
riamente minuciosa. Também em Zacarias 12:10 ficamos
sabendo que Ele seria traspassado - ferido no Seu lado; e nos é
dito que Ele teria Seu túmulo com os perversos e com o rico -
de novo em Isaías, capítulo 53.
E a Sua ressurreição é profetizada no Salmo 22, no Salmo
16, e é aludida noutros lugares. Sua glória foi profetizada, o Seu
reino final - o estado eterno, e toda a glória que O acompanhará.
Tudo foi predito e profetizado em vários lugares do Velho
Testamento. Pois bem, essas profecias são explícitas, diretas,
mas, em acréscimo, há o que podemos chamar profecias
indiretas, em tipos, em sombras; o Cordeiro Pascal, por exemplo,
prefigura o “Cordeiro de Deus”que tiraria o pecado do mundo.
As ofertas queimadas e os sacrifícios, e até mesmo o mobiliário
e os utensílios do tabernáculo e do templo, todas essas coisas,
de diferentes maneiras, apontam para Ele. Assim é que, como
vocês vêem, o que o apóstolo diz na passagem em foco é apenas
um sumário daquilo que Deus tinha “outrora prometido”.
Aí está, pois, uma apressada resenha de alguns exemplos e
ilustrações que patentemente o apóstolo utilizou, e que ele
considerava da maior importância para a sua pregação e para
firmar os que já estavam na fé cristã. Mas aqui vocês notam que
o apóstolo não se satisfaz em dizer que Deus tinha prometido o
98
Romanos 1:2

evangelho anteriormente; ele se empenha para dizer-nos como


Deus o tinha prometido anteriormente. Notem que ele diz:
“outrora prometido por intermédio dos seus profetas nas
Sagradas Escrituras”, e aqui também há algo da maior
importância para nós.
Agora, devemos ser cautelosos com o termo “profeta”.
Normalmente empregamos o termo - não empregamos? - para
referir-nos às diversas pessoas que escreveram os livros que
chamamos “proféticos”- os livros dos profetas em nosso cânon
do Velho Testamento - e, naturalmente, isso está perfeitamente
certo. Mas é importante lembrar que, nas Escrituras, o termo
“profeta”, especialmente quando empregado numa passagem
como a que estamos estudando, tem referência muito maior e
mais ampla que isso; refere-se a todos os livros do Velho
Testamento nos quais há algum tipo de profecia da vinda do
Filho de Deus. Dessa maneira, aqui não se refere apenas aos
livros dos profetas como tais; refere-se também aos livros de
Moisés e ao livro de Salmos. Na verdade, era um modo habitual
e costumeiro de referir-se à totalidade do Velho Testamento, e
mais adiante vou fazer-lhes citações para firmar esse ponto, para
que ninguém pense que estou inventando um argumento.
Então, nesta passagem, deve-se entender que o termo “profetas”
abrange todos os escritos do Velho Testamento.
Além disso, observemos o que o apóstolo diz a respeito
deles. Vocês notarão que ele diz: “o qual foi por Deus outrora
prometido por intermédio dos seus profetas”. Pois bem, essa
declaração é muito significativa. Os que fizeram essas profecias
e predições eram homens que tinham sido especialmente
escolhidos para a realização dessa obra. Não eram homens
capazes e inteligentes, aptos para discernir os tempos. Não
devemos pensar neles meramente como “videntes” de um rei,
nem como profetas nesse sentido. Não eram profetas no sentido
de serem pessoas de maior visão, ou políticos ou estadistas ou
filósofos habilidosos, ou qualquer coisa parecida. Não! Não é
isso que eles eram, Paulo explica; eram profetas de Deus -

99
O Evangelho de Deus

pessoas das quais Deus Se apossara e que foram utilizadas por


Ele para essa obra específica e especial. Ora, essa afirmação é
muito importante, e obviamente uma que afetará toda a nossa
doutrina.
Qual era então a obra realizada por eles? Qual é a tarefa do
profeta? Certamente não pode haver dúvida quanto à resposta;
não deveria haver. Mas, naturalmente, todos nós sabemos que
na mente de muitos tem havido muita dúvida a respeito. De
fato, tem sido moda e costume, especialmente neste século e
nos últimos cem anos, em conseqüência da Alta Crítica, assim
chamada, dizer que o profeta não era alguém que predizia
eventos. Profecia, diziam eles, é proclamação, não predição.
Noutras palavras, sua idéia de profeta é que ele não passa de
algum tipo de pregador. Daí, eles gostariam de fazer-nos acreditar
que nos escritos proféticos do Velho Testamento nada se diz do
futuro - e assim tentam explicar os capítulos sete, nove e onze
de Isaías em termos de algum evento contemporâneo em relação
ao profeta; referem-se a algum rei, ou a alguma pessoa notável,
sem relação nenhuma com o Senhor Jesus Cristo.
Não causa surpresa, é claro, que os críticos digam essas coisas
porque, se pudessem eliminar o fato da profecia, fortaleceriam
grandemente a sua causa. Como veremos, não há argumento
mais forte, em certo sentido, para crermos na inspiração singular
e na autoridade única das Escrituras do que o fato da profecia.
É também um argumento vital com relação à Pessoa do nosso
Senhor, e assim não nos surpreende que os críticos, com sua
maneira de ver a profecia, O considerem como homem, e não
como Deus. Naturalmente eles tentaram livrar-se desse ensino
bíblico, mas não conseguiram; não há como possam consegui­
do, em termos do Velho Testamento; menos ainda em termos
do Novo Testamento. A ênfase do apóstolo aqui está em dizer
justamente isso. Diz ele: a verdade que passo a pregar a vocês
agora, aqueles profetas profetizaram e predisseram há muito
tempo. Isso constituiu parte vital da causa do apóstolo.
Muito bem; o profeta é, primeiramente e acima de tudo,
100
Romanos 1:2

um homem que prediz algo, mas que também proclama algo.


Noutras palavras, quando lemos os nossos profetas no Velho
Testamento, observamos que eles se dirigiam aos seus
contemporâneos; eles falavam da situação que lhes era
contemporânea; tratavam da situação política e de muitas outras
coisas. Fazia parte da sua vocação proceder assim; mas o que
realmente os tornava profetas era que iam além disso - que Deus
os utilizava como Seus servos especiais para predizerem eventos
futuros, para proclamarem essa revelação concernente a algo
grandioso e poderoso que ainda estava para acontecer. Noutras
palavras, o que os críticos parecem esquecer é que a mensagem
suprema dos profetas aos filhos de Israel não era simplesmente
sobre alguma coisa que ia acontecer no tempo deles; era esta
grande obra que Deus ia realizar por Israel, o desenvolvimento
e a execução deste plano grandioso que Ele tinha anunciado já
V

no Jardim do Eden. E, portanto, o que Deus fez com aqueles


homens foi que Ele lhes entregou uma revelação da verdade;
mostrou-lhes Seu plano e o que Ele ia fazer. Mas também os
inspirou e os dirigiu, para que dessem expressão à revelação
que Ele lhes havia confiado.
Agora, é muito importante que entendamos o seguinte, a
respeito dos profetas: eram homens em quem se deram duas
coisas: receberam revelação; receberam também inspiração.
Com freqüência vejo pessoas confusas quanto à diferença entre
revelação e inspiração. Bem, a diferença é simplesmente esta:
revelação é tornar conhecidos certos fatos - é dar informação;
inspiração é o que exerce controle sobre a exposição e a expressão
daqueles fatos. Profeta é aquele em quem há ambas as coisas -
a revelação e a inspiração. Vocês vêem, um homem pode receber
inspiração para expor fatos já conhecidos; isso não é revelação.
Mas quando ele desvenda coisas até então desconhecidas, é tanto
revelação como inspiração, e os profetas eram homens dos quais
essas duas coisas são ditas nas Escrituras.
Examinemos, então, as duas declarações clássicas destas
verdades; estranhamente, ambas são feitas pelo apóstolo Pedro.

101
O Evangelho de Deus

A primeira está em 2 Pedro, capítulo primeiro. Pedro agora é


um homem velho, e está dando uma espécie de mensagem de
despedida aos cristãos aos quais escreveu. Diz ele: sei que a
minha morte não vai demorar muito a acontecer, mas eu quero
que todos vocês estejam bem, depois que eu partir - “Mas
também eu procurarei em toda a ocasião que depois da minha
morte tenhais lembrança destas coisas” (versículo 15). Agora,
diz ele, como vocês vão estar seguros a respeito dessas coisas?
Bem, primeiramente, diz ele, não se trata de “fábulas artifi­
cialmente compostas” (versículo 16). Quando eu, Tiago e João
testemunhamos aquele tremendo momento no Monte da
Transfiguração, diz ele, “nós fomos testemunhas” (VA); “nós
mesmos vimos”.
Mas no versículo 19 ele diz: “E temos, muito firme, a
palavra dos profetas”, ou, se preferirem, “a palavra da profecia
que agora se fez mais firme”, porque as coisas preditas
aconteceram - “à qual bem fazeis em estar atentos, como a
uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia esclareça, e
a estrela da alva apareça em vossos corações”. Notem depois o
seguinte: “Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia
da Escritura é de particular interpretação”. Isso não se refere a
“interpretação”no sentido atual da palavra. Não significa que
ninguém pode interpretar essa Escritura ou dar-lhe a sua
própria interpretação, porque é o que nos cabe fazer. Não! Pedro
está dizendo: não pensem que o profeta é um homem que
pensava na situação do mundo do seu tempo e, tendo feito isso,
dizia: “Pensei muito nisso, e o que penso é o seguinte: é isso
que eu digo acerca do presente; é isso que eu lhes profetizo que
vai acontecer”. Nada disso! “Nenhuma profecia da Escritura”
é derivada de algum conceito pessoal - as Escrituras não
consistem de idéias ou interpretações privadas de um indivíduo
acerca do que vai acontecer. Que é então? Bem, eis a resposta -
“Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem
algum” - não é o que o homem decidiu pensar ou falar, mas
“os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito
102
Romanos 1:2

Santo” (ou conduzidos, ou movidos pelo Espírito Santo, como


quiserem).
Pois bem, essa é uma afirmação tremendamente importante.
O apóstolo está ensinando claramente aí que aqueles homens
eram “inspirados”; era o Espírito Santo que os conduzia; Ele
lhes dava a informação; Ele os habilitava a expressá-la. Não
considerem isso como simples esforço humano, diz Pedro -
“nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação”.
Não idéias do homem, mas de Deus. Não expressões do homem,
mas aqueles homens falavam quando eram movidos,
sustentados, conduzidos pelo próprio Espírito Santo. Ora, essa
é, obviamente, uma declaração vital sob todos os pontos de vista
da doutrina.
Voltemos, porém, ao capítulo primeiro da Primeira Epístola
de Pedro, versículos 10 a 12, que valem por um esplêndido
comentário deste pequeno versículo de Romanos que estamos
estudando. Ei-los: “Da qual salvação inquiriram e trataram
diligentemente os profetas que profetizaram da graça que vos
foi dada, indagando que tempo ou que ocasião de tempo o
Espírito de Cristo, que estava neles, indicava, anteriormente
testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória
que se lhes havia de seguir. Aos quais foi revelado que, não
para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas
que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito
Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais
coisas os anjos desejam bem atentar”.
Que declaração grandiosa! Entre outras coisas, o apóstolo
diz nesta passagem, não somente que a revelação foi dada
àqueles profetas, nem somente que eles foram habilitados a
proclamá-la, graças à ação do Espírito Santo, mas também que
eles realmente não a entenderam plenamente. Longe de ser
uma interpretação particular dos profetas a quem a revelação, a
mensagem, foi dada, eles “inquiriram e trataram diligente­
mente” dela. Eles não a compreenderam totalmente, e vocês
podem ver que não era essencial que o profeta a compreendesse

103
O Evangelho de Deus

plenamente. O profeta era o aparelho transmissor de Deus; a


revelação lhe era dada; ele era guiado em sua expressão de
modo que não cometesse erro nenhum e não caísse em nenhuma
cilada. Portanto, aqui o apóstolo nos fala que àqueles profetas
de Deus - os Seus profetas - foram dadas a verdade e a
capacidade para expressá-la fielmente e sem erro, apesar de
não estarem entendendo plenamente o que diziam. O que eles
entenderam foi que a mensagem não era para eles; era
mormente para os do futuro - para nós, diz o apóstolo, e para
todos os que virão depois de nós. Então, quando pensarmos
na profecia e naqueles que entregaram a mensagem na antiga
dispensação, devemos pensar neles em termos de revelação e
inspiração.
Só mais uma palavra sobre este segundo versículo da
Epístola aos Romanos - “O qual havia antes prometido pelos
seus profetas nas Santas Escrituras. Primeiro, uma palavra de
correção da tradução da Autorizada (inglesa; e de Almeida).
Deveríamos traduzir: “antes prometido pelos seus profetas em
Santas Escrituras”. Não consta o artigo; não é “nas Santas
Escrituras” ou “nas Sagradas Escrituras”, mas “em Santas ou
Sagradas Escrituras”, o que significa “em escritos santos ou
sagrados”.* Assim vemos que as profecias que primeiramente
foram transmitidas oralmente, também foram escritas. Deus
não somente levou aqueles Seus servos a transmitirem a verdade,
mas também os levou a registrá-la, a escrevê-la, e o apóstolo se
sente no dever de dizer isso. Já não podemos ouvir diretamente
os profetas, mas temos os escritos proféticos, e o que o apóstolo
se preocupa em fazer aqui é assinalar a natureza desses escritos,
e é aqui, especialmente, que devemos ter o cuidado de observar
que o termo “profetas” não se refere apenas às pessoas (e livros)
que normalmente chamamos profetas, mas também inclui
outras partes do Velho Testamento.
* Certamente “Scriptures” não se associa tão facilmente com “writings”, como
se dá em português (Escrituras, escritos). Na língua inglesa as raízes são
diferentes; em português a raiz é a mesma. Nota do tradutor.

104
Romanos 1:2

Permitam-me provar isso a vocês com o que lemos em


Lucas 24:44. Ouçam as palavras do Senhor Jesus Cristo
ressurreto: “São estas as palavras que vos disse estando ainda
convosco: que convinha que se cumprisse tudo o que de mim
estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas, e nos Salmos”.
Portanto, como vocês vêem, aí está a a prova do que estive
dizendo anteriormente; as profecias concernentes ao nosso
Senhor, o que Ele era e de onde tinha vindo, o que Ele fazia e
como ia morrer e ressuscitar, e tantas coisas mais - isso tudo
não se encontra somente nos profetas como tais, nos livros dos
profetas que temos no Velho Testamento. Disse Ele: “São estas
as palavras que vos disse estando ainda convosco: que convinha
que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de
Moisés” - aí estão os cinco livros de Moisés e a lei - “e nos
profetas” - nos livros dos profetas - “e nos Salmos”. Noutras
palavras, muitas vezes, quando os judeus do tempo do nosso
Senhor e de Paulo empregavam a expressão “os profetas”,
referiam-se a todo o Velho Testamento, e eu não tenho nenhuma
hesitação em asseverar que é isso que o apóstolo quer dizer no
versículo que estamos estudando.
Observem também o que o apóstolo diz a respeito desses
escritos “em Santas Escrituras”, “nas Santas Escrituras”. Por
que ele diz isso? Por que desejava que soubessem que não se
trata de escritos comuns; não são simples escritos humanos;
não se tratava apenas de homens que estavam registrando as
suas idéias, nem mesmo de homens que estavam registrando as
suas memórias de suas experiências. E esse ensino que vocês
ouvem freqüentemente hoje em dia. A Bíblia, dizem esses
mestres, não é a Palavra de Deus; ela a contém. Bem, vocês
perguntarão, que é que as Escrituras do Velho Testamento são?
Ah, dizem eles, são tentativas que certos homens fizeram para
colocar em palavras a sua grande experiência religiosa! Não é o
que o apóstolo diz; o que o apóstolo diz é que estes escritos são
santos, são sagrados; não são humanos ou comuns. Pertencem a
Deus, e são santos porque pertencem a Deus. São santos porque

105
O Evangelho de Deus

tratam de coisas santas, porque foram escritos sob a direção, o


poder e a influência de Deus, sob o controle do Espírito Santo.
“Os homens santos de Deus falaram movidos pelo Espírito
Santo” (VA; cf. ARA). Exatamente do mesmo modo os homens
de Deus escreveram quando movidos pelo Espírito Santo, pois
foram os mesmos homens que falaram e que escreveram, e a
mesma * verdade aplica-se a ambos os casos.
E por isso que eu digo que é vital que nos cientifiquemos
do ensino do nosso Senhor e deste apóstolo, bem como dos
demais apóstolos, com relação às Escrituras do Velho
Testamento. O ensino é perfeitamente claro e simples. Eles
consideravam as Escrituras do Velho Testamento como a Palavra
de Deus, por Ele inspirada. Não eram meras palavras de
homens; eram palavras de homens movidos, guiados e dirigidos
pelo Espírito Santo. Tinham autoridade, e eram autênticas; eram
inerrantes, e é óbvio que o nosso Senhor tinha esse conceito;
Ele as cita dessa maneira. Pois bem, isso é algo sobre o que
vocês podem ler em muitos livros. O professor Tasker, em
preleção na Campbell Morgan Memorial Lecture (Preleção
Memorial “Campbell Morgan”) tratou precisamente desse
assunto - o uso que o nosso Senhor fazia do Velho Testamento.
Vocês podem comprar o livro dele e estudá-lo minuciosamente.
O nosso Senhor estava citando constantemente as Escrituras do
Velho Testamento, e as citava como palavras de Deus.
Temos, naturalmente, muitas ilustrações disso; permitam-
-me referir-lhes a uma delas, em Mateus 1:22, onde lemos:
“Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que foi dito da
parte do Senhor, pelo profeta, que diz” - o que se poderia
traduzir assim: “Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o
que o Senhor tinha falado pelo profeta”. E o Senhor que fala
pelos profetas. Mas, naturalmente, os dois versículos clássicos a
respeito desse ponto são 2 Timóteo 3:15,16, e são de vital
importância - “E que desde a tua meninice sabes as Santas
Escrituras (a mesma frase, vocês notam, VA), que podem fazer-
-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus”.
106
Romanos 1:2

Lembrem-se de que “Santas Escrituras” se referem aí


unicamente ao Velho Testamento. Eles não possuíam o cânon
do Novo Testamento, naquela época. Quando Paulo fala, nessa
passagem, a Timóteo acerca das Escrituras Sagradas, está se
referindo ao Velho Testamento que conhecemos, e vocês poderão
observar que ele afirma que o Velho Testamento pode “fazer-te
sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus”. Noutras
palavras, é dessa profecia que Paulo está falando; é o que Deus
tinha prometido. Está tudo aí, se é que vocês têm olhos para
ver. Você pode aprender do Velho Testamento sobre a salvação,
é o que Paulo diz a Timóteo. Mas ouçam: “Toda a Escritura” -
toda a Escritura, sem exceção - “é divinamente inspirada, e
proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para
instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e
perfeitamente instruído para toda a boa obra”. Ora, se vocês
têm utilizado a tradução feita pela Revised Version da Bíblia
(Versão Revista inglesa), terão notado que o versículo 16 é
diferente; ali se lê que “Toda Escritura inspirada por Deus é
também proveitosa...”. Pois bem, essa tradução é calamitosa.
Permitam-me dizer em favor da Revised Standard Version
(Versão Revista Padrão, inglesa), que, em todo caso, ela corrige
aquele erro; diz ela: “Toda a Escritura é inspirada por Deus”.
Sempre achei difícil perdoar a Versão

Revista, acima citada, por
aquele crasso e trágico erro. E um erro total; não há o que o
justifique. Revela parcialidade doentia. Assim, corrijam, por
favor, a Versão Revista, e procurem dar-se conta de que a Versão
Autorizada e esta Versão Revista Padrão, mais recente, são as
que estão certas. “Toda a Escritura foi dada por inspiração de
Deus” (VA), ou, se preferirem, “Toda a Escritura é inspirada
por Deus” (VRP) - “soprada por Deus”. Essa é a expressão -
“soprada no homem”, guiando-o assim infalivelmente,
dirigindo-o e impedindo-o de errar. Não é meu propósito entrar­
em minúcias sobre isso. Não queremos dizer com isso que se
trata dc um ditado mecânico, mas sim, que o homem foi
absolutamente dirigido e impedido de errar por esse poder e

107
O Evangelho de Deus

sopro divino das Escrituras. Agora, ao deixarmos por ora este


assunto, vocês notam como tudo isso é importante? “O
evangelho de Deus, o qual antes havia prometido pelos seus
profetas nas Santas Escrituras.” Examinamos o fato, e
examinamos a maneira pela qual Deus o realizou. Querendo
Deus, havemos de considerar outros pontos mais, como os
seguintes: por que Deus o fez do modo como o fez? Por que
Paulo se mostra tão interessado em salientar, nesta altura, que
Deus agiu dessa maneira? E, terceiro, que lições vitalmente
importantes há para nós nesse fato? Todos esses pontos, se Deus
quiser, constituirão objetos do nosso próximo estudo.

108
7
”... o qual antes havia prometido pelos seus profetas nas Santas
Escrituras.” - Romanos 1:2

Ao continuarmos o nosso estudo deste versículo, parece-


-me que há três questões que imediatamente desafiam a nossa
atenção com base nesta declaração concernente às Escrituras. A
primeira o faz de maneira muito geral, e posso colocá-la em
forma de pergunta. Diz-nos aqui o apóstolo que o Deus que
enviou Seu Filho para realizar todo o necessário para a nossa
salvação tinha prometido antes que o faria. Isso levanta a questão
que nos leva a indagar, com reverência, é claro: por que Deus
agiu desse modo? Por que a demora? Por que o longo intervalo
entre a queda do homem no Jardim do Eden e a vinda do Filho
de Deus para a redenção e a salvação? Por que toda esta história
do Velho Testamento, em suas numerosas partes e porções, desde
que sabemos perfeitamente bem que Deus poderia ter feito estas
coisas de uma vez e imediatamente? O que é que governa e
dirige este processo? Naturalmente, há um sentido em que não
podemos nem tentar responder tais perguntas final e definiti­
vamente - não sabemos; mas é sempre nosso dever ir tão longe
quanto pudermos, socorridos e ajudados pelo ensino das
Escrituras. E, portanto, eu gostaria de sugerir algumas respostas,
porque este problema tem deixado muitas pessoas perplexas.
Tais pessoas não conseguem entender por que foi que, por tanto
tempo, durante tantos séculos, este conhecimento de Deus foi
limitado a uma só raça, enquanto todos os outros povos do
mundo permaneceram nas trevas e em antagonismo, e elas
questionam a razão disso.
Pois bem, sugiro as seguintes respostas: a primeira é que é

109
O Evangelho de Deus

sempre esse o modo como Deus revela a profundidade do pecado,


o modo como Deus mostra à humanidade e nos ensina o que o
pecado realmente é, que coisa terrível ele é, que não é meramente
um ligeiro ato de desobediência ou uma falha, mas que é
realmente uma doença profunda da alma humana, que leva a
terríveis e temíveis conseqüências. Penso que temos uma
ilustração disso no capítulo cinco do Evangelho Segundo João.
Vocês vêem, o que há de terrível no pecado é que ele nos cega
para a verdade de Deus. O argumento do nosso Senhor naquela
ocasião foi o seguinte: aqueles homens se diziam peritos no Velho
Testamento - eles eram os mestres, as autoridades nos livros de
Moisés - e o nosso Senhor lhes diz que voltem a ler esses livros;
vocês se ufanam a respeito de Moisés; vocês dizem que é o seu
conhecimento dele e dos seus escritos que lhes dá a salvação;
pois bem, vão lê-los, porque ele escreveu a Meu respeito. Mas
a tragédia era que eles não conseguiam enxergar isso.
O apóstolo Paulo, vocês devem lembrar-se, trata do mesmo
assunto em 2 Coríntios, capítulo 3. A tragédia dos judeus, diz
ele, é que, embora Moisés seja lido nas sinagogas deles todos os
sábados, eles não enxergam a verdade; seus olhos estão cegos;
há um véu cobrindo os seus corações. Ora, o pecado é isso, e
com todo esse registro da revelação que Deus lhes faz de Si
mesmo - eles eram o povo escolhido de Deus, eles tinham os
oráculos de Deus e os liam sábado após sábado e mais e mais
vezes - e, todavia, não podiam enxergar a verdade por causa da
cegueira que sempre resulta do pecado. Ora, todas essas
passagens certamente nos ajudam a trazer isso à luz; e veremos
a mesma coisa, o mesmo efeito do pecado, noutras formas - a
terrível degradação em que o mundo afundou - quando
chegarmos à segunda metade deste capítulo primeiro da
Epístola. Portanto, uma parte do propósito de Deus, eu diria, é
revelar a natureza do pecado.
Mas, certamente, outra resposta é que dessa maneira Deus
prova à humanidade que toda e qualquer tentativa que o homem
faça para salvar-se é fútil. Deus deu ao homem plena
110
Romanos 1:2

oportunidade para salvar-se, se pudesse. Vejam as grandes


civilizações que se levantaram, algumas mencionadas na Bíblia.
O homem tem feito esses esforços e tentativas para solucionar
os seus problemas; ele acredita que pode resolvê-los; seu orgulho
intelectual o leva a dizer isso; sua confiança em si, em pecado,
leva-o a dizer isso. Muito bem! Deus, por assim dizer, demorou
por todos esses longos séculos que se passaram, e disse: agora,
mostre-Me a evidência - faça o que você disse que pode fazer.
Assim, como vocês podem ver, aquelas grandes civilizações - a
Babilônia, o Egito, Nínive, a Grécia e Roma - surgiram uma
após outra, porém todas falharam. A humanidade se defronta
com essa evidência. Naturalmente, a humanidade não aceita
isso; não o reconhece. Mas os fatos estão todos aí. São
comprovados por toda esta longa história do Velho Testamento,
ficando evidenciado que, apesar de todo o seu esforço, de toda
a sua habilidade, o homem acha-se tão longe de Deus no fim
como se achava no começo. O apóstolo Paulo, vocês se lembram,
expressa isso com uma frase memorável em 1 Coríntios, capítulo
primeiro, onde ele diz: “O mundo não conheceu a Deus pela
sua sabedoria”. E não somente não conheceu a Deus; também
não pôde aprender a viver por sua própria instrução. Pois bem,
o transcurso desses anos todos estabelece isso. Na verdade,
podemos ir mais longe. Deus provou, mediante tudo o que Ele
fez durante estes longos séculos, que, nem mesmo a dádiva da
Sua lei à humanidade pôde capacitar os homens a salvar-se.
Como veremos, o apóstolo fala disso em Romanos 8:3:
“Porquanto o que era impossível à lei, visto como estava enferma
pela carne, Deus, enviando o seu Filho em semelhança da carne
do pecado, pelo pecado condenou o pecado na carne; para que
a justiça da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo
a carne, mas segundo o Espírito”. Eis, porém, a essência do
argumento -“O que era impossível à lei”. Nunca foi seu propósito
fazê-lo, mas as pessoas acreditavam que ela podia fazê-lo; elas
diziam: “Dêem-nos uma lei, digam como devemos viver, e
viveremos desse modo e nos endireitaremos”, e continuam

111
O Evangelho de Deus

dizendo isso. Pois bem, Deus lhes deu a lei, e, contudo, como
vocês vêem, elas não conseguem cumpri-la - a fraqueza da carne
as incapacitou. Foi assim com a história da longa passagem
desses séculos no caso dos filhos de Israel, uma nação especial
criada por Deus, abençoada por Deus, à qual foram dados os
registros e a plena revelação por Deus, sendo que tudo isso nos
mostra que eles ainda não puderam guardar a lei, mas se
desviaram, afastando-se de Deus. Agora está estabelecida a sua
condenação; a incapacidade do homem é absolutamente
verdadeira.
Finalmente, porém, penso que há mais uma resposta ainda
- que talvez Deus tenha agido assim para mostrar a Sua
soberania sobre todos, para mostrar que Ele exerce controle
absoluto, para mostrar a Sua autoridade final. Noutras palavras,
tomando a história do Velho Testamento, vocês verão que, em
resumo, ela pode ser dividida em duas partes: as ações de Deus,
e as permissões de Deus. Há nela relatos da tremenda atividade
de Deus, quando Ele, por assim dizer, irrompeu na cena humana
e realizou feitos - o Dilúvio, a destruição de Sodoma e Gomorra,
a travessia do Mar Vermelho feita por Israel, a entrada de Israel
em Canaã, as águas do Jordão divididas, e assim por diante - os
poderosos atos de Deus. Ah, sim; mas houve longos períodos
em que Deus parecia não estar fazendo nada e deixando que
acontecesse todo tipo de coisas. As pessoas perguntavam: “Onde
está o seu Deus?” Então Deus agia, e finalmente agiu enviando
Seu Filho. Assim vocês vêem que a própria demora, digamos
(não deveríamos empregar o vocábulo, mas do nosso ponto de
vista humano não há outro melhor) - essa tremenda extensão
de tempo entre a queda do homem e a vinda do Filho demons­
tra e estabelece todos esses fatos. De uma coisa estou certo, e é
que, finalmente, o propósito supremo dessa longa espera, esse
grande intervalo, foi silenciar a boca do diabo - o diabo, o grande
antagonista de Deus, que está sempre pronto para sugerir que
Deus trata a humanidade com injustiça. Deus deu à humani­
dade plena oportunidade para salvar-se a si mesma, para pôr
112
Romanos 1:2

em ordem a si própria e ao mundo, para emancipar-se. Ele


tem abençoado as pessoas, apesar do seu pecado. Ele escolheu
um povo, deu-lhe uma lei, mas ele não pôde cumpri-la. Ele
permitiu que fossem feitos todos esses esforços e tentativas, e
deram em nada! O diabo foi silenciado, Deus é justo, e não se
pode dizer uma só palavra contra Ele, contra a ordem que Ele
impõe ao mundo, nem contra a Sua grandiosa salvação. Aí está,
pois, um dos temas que achei necessário considerar à luz da
declaração que estamos estudando.
Passemos, porém, a outra questão. Por que motivo o apóstolo
inseriu essa declaração? Como vocês sabem, ele sempre faz isso.
Já toquei de passagem nesse ponto, contudo deixem que eu o
mostre minuciosamente a vocês. Mesmo aqui, na introdução,
quando ele está realmente interessado em apressar-se para o
seu grande pronunciamento, que é “o evangelho de Deus
acerca de seu Filho”, que ele irá descrever - mesmo antes de
dizer isso ele sente necessidade de dizer: “O qual antes havia
prometido pelos seus profetas nas Santas Escrituras”. Por que
será que ele sempre achava que tinha de agir assim? Ele faz a
mesma coisa no capítulo 3, versículo 20, onde está fazendo uma
exposição sobre a justificação pela fé: “Por isso nenhuma carne
será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei
vem o conhecimento do pecado. Mas agora se manifetou sem a
lei a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas;
isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo...” . Vocês
notam como ele o insere de novo - “...tendo o testemunho da
lei e dos profetas”. Como vocês vêem, ele o faz em toda parte.
No entanto, a mais interessante e extraordinária ocasião em
que ele o faz é no penúltimo versículo da Epístola, no versículo
26 do capítulo 16. O apóstolo começa e termina esta carta quase
exatamente da mesma maneira. Partamos do versículo 25.
Temos aí a sua bênção: “Ora, àquele que é poderoso para vos
confirmar segundo o meu evangelho e a pregação de Jesus Cristo,
conforme a revelação do mistério que desde tempos eternos
esteve oculto, mas que se manifestou agora, e se notificoupefe

113
O Evangelho de Deus

Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno,


a todas as nações para obediência da fé; ao único Deus, sábio,
seja dada glória por Jesus Cristo para todo o sempre”. Vocês
vêem como ele introduz a declaração na parte final da carta -
começa com ela, refere-se a ela, conclui com ela. Quão desejoso
parece que ele estava de que os membros da igreja em Roma
enxergassem a vital importância da posição das Escrituras
nessas questões!
Talvez vocês se vejam indagando, nesta altura: por que
Paulo não dá continuidade ao estudo? Por que não se esquece
do Velho Testamento? Por que continua introduzindo esses
profetas e essas Escrituras? Que é que tudo isso tem a ver com
a Epístola? Mas, como eu já lhes disse, esse era o seu método
costumeiro. Vejam, por exemplo, o que se lê no capítulo
dezessete de Atos, bem no começo: “E, passando por Anfípolis
e Apolônia, chegaram a Tessalônica, onde havia uma sinagoga
de judeus. E Paulo, como tinha por costume (ei-lo aí!), foi ter
com eles; e por três sábados disputou com eles sobre as
Escrituras”. Ele não lhes ficou contando histórias. Não falou de
si próprio, ilustrando a sua fala com contos comoventes. Não
ficou apenas dirigindo cânticos. Ele disputou com eles sobre
as Escrituras, “expondo e demonstrando que convinha que o
Cristo padecesse e ressuscitasse dos mortos. E este Jesus, que
vos anuncio, dizia ele, é o Cristo”. Vocês vêem o método dele,
as Escrituras, o Velho Testamento - Moisés, a Lei e os Profetas.
Ele recorria a eles e sobre eles disputava com aquelas pessoas,
provando, afirmando e demonstrando a sua tese.
E depois vocês recordam o que ele faz quando escreve a
Primeira Epístola aos Coríntios. Houvera problemas naquela
igreja desde quando o apóstolo estivera lá - problemas causados
por diferentes mestres, e outras coisas. Ele escreve uma carta, e
no capítulo quinze começa da seguinte maneira: “Também vos
notifico, irmãos, o evangelho que já vos tenho anunciado; o
qual também recebestes, e no qual também permaneceis. Pelo
qual também sois salvos, se o retiverdes tal como vo-lo tenho
114
Romanos 1:2

anunciado; se não é que crestes em vão. Porque primeiramente


vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por
nossos pecados, segundo as Escrituras”. “Segundo as Escrituras”
- por que ele fica sempre dizendo isso? Por que ele não esquece
as Escrituras? Por que não leva adiante a pregação positiva? -
talvez vocês indaguem. Por que ele não nos fala de Jesus Cristo?
Por que continua arrastando esse “segundo as Escrituras”?
Mas, vocês vêem, foi o que ele fez; sempre o fazia.
Por que será, então, que o apóstolo faz isso? Permitam-me
sugerir algumas das razões. Primeiramente, ele o fazia porque
estava desejoso de provar aos leitores que este evangelho que
ele e outros estavam pregando não era, num sentido, algo novo
e estranho, ou um possível afastamento do passado. Essa era a
acusação que lançavam contra ele. Havia os que arrazoavam -
especialmente os judeus - “Que novo ensino é esse? Que nova
idéia? Quem será esse Jesus de quem eles falam? Ele não era
fariseu, ou membro do Sinédrio; como será que Ele era?” - e
assim por diante. Pois bem, o apóstolo estava desejoso, reitero,
de mostrar que este evangelho não era um abandono do passado,
nem um total rompimento com as Escrituras do Velho
Testamento. O objetivo da sua argumentação era mostrar que o
evangelho nada era senão a continuação daquilo que Deus já
estivera fazendo - que se tratava do mesmo propósito grandioso
de Deus iniciado no Jardim do Éden. Ele estivera em ação
durante todo o período do Velho Testamento. Era tão-somente
outro ato do mesmo drama - não algo inteiramente diverso -
era uma continuação, um cumprimento.
Na verdade, como já vimos quando da nossa análise
desta Epístola, o grande argumento do apóstolo no capítulo 4
é que Deus ainda está fazendo uso do mesmo método que
sempre tinha utilizado, a saber, a fé; que Deus nunca tinha
justificado ninguém por causa das suas obras - sempre pela
fé. Abraão fora justificado pela fé. Davi fora justificado pela
fé, e ministrara ensino sobre isso no Salmo 32. E Deus con­
tinua fazendo isso, diz o apóstolo Paulo - o mesmo Deus, o

115
O Evangelho de Deus

mesmo propósito, a mesma salvação, o mesmo método de


salvação. Assim, como é importante que conheçamos as
nossas Escrituras do Velho Testamento!
Mas há uma segunda razão; naturalmente era esse o meio
pelo qual o apóstolo fundamentava os dois principais pontos
da sua pregação. Já em Atos 17:3 realmente nos são dados os
dois pontos de que este grande pregador tratava sempre que
pregava - “Expondo e demonstrando que convinha que o
Cristo padecesse e ressuscitasse dos mortos”. Esse era o ponto
número um. Eis o ponto número dois - “este Jesus, que vos
anuncio, é o Cristo”. Vejam vocês, a idéia que os judeus tinham
do Messias era que Ele seria uma grande personalidade militar
e política, que viria estabelecer o Seu reino, fundar um exército
e atacar e destruir os conquistadores romanos, e tornar-se
imediatamente um grande governador mundial. As idéias deles
eram materialistas, mercenárias; pensavam puramente nesses
termos, de maneira nacionalista. E para eles, a idéia de que
esse carpinteiro de Nazaré, que em fraqueza fora crucificado,
teria alguma possibilidade de ser o Messias, era um absurdo
insustentável. Essa era a pedra de tropeço.
A primeira coisa que, portanto, o apóstolo tinha que fazer,
quando pregava aos judeus, era provar-lhes com suas próprias
Escrituras que o Messias necessariamente tinha que sofrer, e
mostrar que as Escrituras do Velho Testamento sempre haviam
ensinado que o Messias seria um Servo sofredor, alguém que
seria rejeitado e levado à morte. Teria de sofrer, ser morto e
ressuscitar dentre os mortos. Se Paulo não pudesse fundamentar
isso, como teria possibilidade de convencê-los? Esse era o
motivo pelo qual ele começava com essa verdade; conduzia-os
através das Escrituras, demonstrando que elas haviam
profetizado que o Messias sofreria daquele modo, padecendo
até mesmo a morte. Naturalmente, uma vez que ele tivesse
provado que esse era o ensino das Escrituras, seguir-se-ia o
segundo passo, lógica e inevitavelmente: este Jesus que vos
pregamos é o Messias. E depois Paulo mostrava como “este
116
Romanos 1:2

Jesus” cumpriu todas essas minuciosas profecias concernentes


a Ele, e dizia, efetivamente: “Aí está a prova que vocês querem,
tirada das suas próprias Escrituras”. Mas ele não poderia tê-lo
feito sem as Escrituras, razão pela qual as emprega como o faz.
Em 2 Coríntios, capítulo 1, versículo 20, ele expõe o seu
argumento da seguinte maneira: “Porque todas quantas
promessas há de Deus, são nele sim, e por ele o amém, para
glória de Deus por nós” - cada promessa, em parte e parcela,
em detalhe ou de maneira grandiosa, não faz diferença. Todas
as promessas de Deus em Cristo são sim e são amém. Aí está o
cumprimento, uma vez por todas. E tudo nesta Pessoa. Cristo é
o cumprimento de todo o Velho Testamento.
E, finalmente, penso que o apóstolo disputava partindo das
Escrituras por mais uma razão. Ele tinha que fazer isso com o
fim de tratar doutro aspecto do problema judaico, que lhe dava
grande preocupação - e tinha motivo para isso. Vejam a
tremenda argumentação que se encontra nos capítulos nove,
dez e onze da Epístola aos Romanos. No capítulo 8 Paulo estivera
falando aos cristãos romanos das maravilhosas promessas de
Deus, que eles não precisavam preocupar-se, que havia todas
essas grandes promessas de Deus por trás e ao redor deles.
Mas, imediatamente, alguém teria dito: “Ah, isso não nos ajuda
muito, porque nós lemos as Escrituras do Velho Testamento e
lá vemos as maravilhosas promessas que Deus fez aos judeus;
porém os judeus não parecem estar em muita evidência em Sua
Igreja; ao que parece, eles estão fora, e os gentios se ajuntam
dentro. Que foi que houve com as promessas de Deus aos
judeus?” Pois bem, esse é um problema que deve ser encarado,
e se o evangelho não pudesse dar-lhe uma resposta, entraria
em colapso.
Todavia o evangelho pode responder. E nos capítulos nove,
dez e onze, simplesmente perpassando as Escrituras do Velho
Testamento, Paulo mostra que, em última análise, a doutrina
das Escrituras do Velho Testamento é a doutrina do remanes­
cente. “Nem todos os que são de Israel são israelitas.” Há um

117
O Evangelho de Deus

Israel da carne, e um Israel segundo o Espírito. Ele prova essa


verdade com as Escrituras. De maneira que o que está aconte­
cendo, diz ele, longe de ser uma negação das Escrituras é seu
cumprimento. Mas, naturalmente, se ele não conhecesse as
Escrituras, se ele não falasse delas, não poderia tê-lo feito. Além
disso, até hoje isso constitui parte essencial da pregação das
Escrituras, e essa é a razão pela qual é tão importante que eu e
vocês nos familiarizemos com estes grandes argumentos, e que
sejamos capazes de usá-los. Em sua pregação, o apóstolo queria
conduzir as pessoas através de todo esse ensino, para que elas
pudessem dar-lhe andamento e ter repostas para dar quando
voltassem para casa e fossem atacadas por seus familiares por se
terem tornado cristãs. Essas pessoas poderiam provar que
estavam numa posição escriturística. Essa é, então, a segunda
questão. Passemos à última.
A terceira questão que me parece provir dessa declaração é
como segue: há certamente algumas lições vitais para nós, certas
verdades que devemos agarrar firmemente e que jamais
devemos perder ou soltar. Quais são? Bem, aqui está a primeira:
a Bíblia é completa. Tomando os versículos 1 e 2 juntos, provo
isso da seguinte maneira: o argumento deste versículo 2 é que o
Velho Testamento é a inspirada Palavra de Deus, que ele foi
escrito por homens que foram movidos pelo Espírito Santo -
Seus profetas, os profetas de Deus - não meras palavras de
homens, mas revelação dada a homens que foram então
inspirados para registrá-la. O Velho Testamento é isso. Entre­
tanto, vocês se lembram, já ao tratarmos do termo “apóstolo”,
vimos no versículo primeiro que a mesma verdade se aplica
aos escritos do Novo Testamento, pois estes foram redigidos
pelos apóstolos, ou, se não, remontam diretamente à autoridade
apostólica.
Muito bem, pois! Dizemos que no Velho Testamento e no
Novo Testamento temos a revelação completa que Deus deu ao
homem a respeito da Sua verdade. Isso me leva a dizer que
nunca devemos acrescentar nada a essa revelação. E essa é a
118
Romanos 1:2

nossa resposta protestante à igreja católica romana. A posição


dela, naturalmente, é que, desde o fim do cânon das Escrituras,
Deus continuou a falar por meio dos sucessores dos apóstolos,
e nós já replicamos que sucessores dos apóstolos não existem.
Por definição é impossível, porque apóstolo é quem viu o Senhor
ressurreto, e é preciso que tenha sido comissionado e tenha
recebido esse ofício. Somos edificados sobre o fundamento dos
apóstolos e dos profetas; não há acréscimo a esse fundamento;
foi estabelecido uma vez por todas. Edificamos sobre ele; não
lhes adicionamos nada. Não existe nova revelação.
Por isso não prestamos culto a Maria; não cremos em sua
imaculada concepção; não há nenhuma palavra sobre isso neste
Livro. Os católicos romanos aceitam isso, é claro. “Ah, sim!”
dizem eles, “isso foi revelado depois.” Replicamos que não há
revelação subseqüente. A Bíblia está completa - Velho
Testamento e Novo Testamento - dada por Deus. E aí está tudo;
não há mais nada além disso. Logo, tudo aquilo que se disser
revelação terá que passar por essa prova. Rejeitamos, pois, a
doutrina da imaculada concepção; rejeitamos igualmente a
doutrina da assunção de Maria, e todas as outras coisas quanto
às quais ya igreja católica romana reivindica autoridade divina e
única. E uma violação do ensino das Escrituras sobre elas
próprias. Não se lhe pode acrescentar nada. O Senhor prometeu
pessoalmente aos apóstolos que posteriormente lhes revelaria
verdade adicional mediante o Espírito Santo. Ele o fez, e é isso
que temos no Novo Testamento, após os quatro Evangelhos, e
isso completa a revelação.
Mas deixem que eu passe ao segundo ponto. Por
conseguinte, a Bíblia tem autoridade. Ela é a única autoridade.
E a nossa única regra, o nosso único padrão, e devemos praticar
os seus ensinamentos em todos os aspectos. A minha mensagem
sempre deve provir da Bíblia, e de nenhuma outra fonte. Além
disso, os meus métodos também devem provir desse livro. Todas
as minhas atividades nas coisas de Deus devem ser determinadas
pela mensagem e pelo método da Bíblia. E, como eu já disse,

119
O Evangelho de Deus

não devo crer em nada que não esteja claramente exposto nas
Escrituras, ou que não possa ser fundamentalmente deduzido
das Escrituras. E, se o ponto em questão não puder cumprir
nem uma nem outra dessas condições, devo rejeitá-lo como algo
que não faz parte da verdade de Deus. Não tenho outra
autoridade que não esta. As Escrituras são a minha autoridade,
e jamais devo sair delas. Nada lhes devo acrescentar, jamais;
nada devo retirar delas, nunca. As Escrituras são a completa
revelação de Deus ao homem, e elas constituem a única
autoridade.
O terceiro ponto é o seguinte: a Bíblia é um só livro. Embora
consista do Velho Testamento e do Novo Testamento, é um só
livro. Repudio

a idéia de que é uma “biblioteca”! Claro que
não é! E um só livro. Não se trata nem mesmo de dois livros. O
Velho Testamento e o Novo Testamento são um só; é a mesma
verdade fundamental acerca do Deus que salva e do Seu grande
propósito. O Velho Testamento e o Novo são partes do mesmo
livro.
Agora o ponto número quatro: o Velho Testamento é, pois,
obviamente essencial. Não podemos dispensar o Velho
Testamento porque somos cristãos e estamos vivendo no que
chamamos a dispensação do Novo Testamento. Na Igreja
Primitiva havia certos hereges que pensavam que podiam; eles
diziam: “Claro que não precisamos do Velho Testamento; essa
era a religião dos judeus”. Isso revela uma total incompreensão
do assunto. E completamente falso, segundo o ensino que
estamos considerando. Como cristãos, necessitamos do Velho
Testamento hoje como sempre, por causa da unidade a que nos
referimos e das coisas que mostraremos a seguir. Estaríamos
todos bem nesse ponto? Vocês leem regularmente o Velho
Testamento todos os anos, como fazem com o Novo Testamento?
Vocês lêem o Velho Testamento completo pelo menos uma vez
por ano? Devem fazê-lo. E como vocês lêem o Velho
Testamento? Conheço cristãos que só usam o Velho Testamento
“devocionalmente”, como eles dizem; lêem os Salmos, e talvez
120
Romanos 1:2

a oração ocasional de um homem piedoso, ou um pouco de


história; usam-no como prática de devoção. Não temos direito
de limitá-lo ao uso devocional. A verdade de Deus é revelada
nele, e temos necessidade dessa revelação. Devemos lê-lo do
mesmo modo como lemos o Novo Testamento; devemos dar­
mos conta de que ele faz parte integrante da revelação,
exatamente como se dá com o Novo Testamento.
Agora, no entanto, em meu quinto ponto, passo a tratar de
algo ainda mais importante: a nossa interpretação do Novo
Testamento não deve contradizer o ensino do Velho Testamento.
Ora, isso é coisa realmente séria; essa tentativa de pôr uma cunha
entre os dois muitas vezes levou a erro. Permitam-me repetir o
meu princípio: jamais devemos interpretar o Novo Testamento
de molde a entrar em contradição com o Velho Testamento. Vou
dar um exemplo, o mais importante de todos. Pensem na
doutrina da expiação - a morte do nosso Senhor e Salvador Jesus
Cristo. Pois bem, vocês certamente vêem que é muito popular
hoje dizer: “Naturalmente, não se pode definir a morte do nosso
Senhor. E quanto a essa idéia de substituição e de punição, nós,
como cristãos, não podemos aceitar isso. Como cristãos, sabemos
que Deus é um Deus de amor, e essas idéias de justiça etc. estão
remotamente distantes. Vemos esse tipo de coisa no Velho
Testamento, porém o Velho Testamento é o Velho Testamento, e
era a religião dos judeus, e estes não chegaram a esta plenitude
de luz; a completa revelação de Deus e Seu amor em Cristo
ainda não tinha sido dada”. Daí perguntarmos: que é que vocês
dizem, então, que a cruz significa? Que idéia vocês fazem dela?
“Ah, pois bem”, respondem eles, “é simplesmente isto - é Deus
perdoando até a crueldade dos que levaram Seu Filho à morte
na cruz. É isso - e nada mais. Deus não estava fazendo coisa
alguma ali. E Deus perdoando o Calvário; Deus perdoando a
crueldade e a malignidade desses cegos que não reconheceram
o Seu Filho. O Filho os perdoou, e o Pai os perdoou.” Esse,
dizem eles, é o ensino - o sentido da morte na cruz!
Mas aqui estou eu para asseverar, com base no que o apóstolo

121
O Evangelho de Deus

diz na passagem em foco sobre o Velho Testamento, que isso é


mentira. Não é verdade. E uma interpretação da morte (de
Cristo) que nega o ensino do Velho Testamento. O ensino do
Velho Testamento é acerca do “sacrifício”; é preciso que se faça
a oferta. Sem derramamento de sangue não há remissão de
pecados. FoiDeus quem esteve submetendo Seu Filho à morte.
Foi Deus que “...o fez pecado por nós; para que nele fôssemos
feitos justiça de Deus” (2 Corindos 5:21). Foi Deus que, pela
penalidade imposta ao Filho, estava tratando com os nossos
pecados, para nos perdoar, para ser “justo e justificador daquele
que tem fé em Jesus” (Romanos 3:26). Todo o ensino do Velho
Testamento é sobre a expiação - a punição do pecado. Ele ensina
que é preciso que seja derramado sangue, e que sejam
apresentados um sacrifício e uma oferta. E se eu interpretar a
morte (de Cristo) no Novo Testamento sem levar em conta esses
termos de sacrifício e expiação, a minha interpretação estará
errada. Vocês vêem como é importante manter o Velho
Testamento? “Primeiramente vos entreguei”, diz o apóstolo,
“que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras”
- não um conceito sentimental da Sua morte, mas “segundo as
Escrituras”. “O Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”
(João 1:29). O grande antítipo para o qual todos os tipos
apontavam - aí está! Apegue-se ao Velho Testamento, meu
amigo, e cuidado; não interprete o Novo Testamento em
qualquer ponto ou em qualquer aspecto de um modo que não
mostre que o Novo é o cumprimento do Velho Testamento.
Permitam-me colocar isso, então, como o meu próximo
ponto - o ponto número seis: o Novo Testamento cumpre de
fato o Velho Testamento. Eis aí mais um ponto prático de grande
importância. Se vocês não se lembrarem disso, o seu conceito
da salvação poderá ser falso, e existem alguns conceitos muito
falsos da salvação. Atualmente há aqueles que parecem ensinar
e acreditar que é possível aceitar Cristo como Salvador sem
recebê-lo como Senhor. Dizem eles que podemos receber a
justificação sem assumir a santificação. Dizem que podemos
122
Romanos 1:2

receber o perdão dos pecados sem santidade. Isso é mentira. O


apóstolo indaga o seguinte, no fim do capítulo três desta
Epístola aos Romanos: “Anulamos, pois, a lei pela fé? De
maneira nenhuma, antes estabelecemos a lei”. E se o seu
conceito da salvação é que vocês não estão mais sob a lei, que
não precisam mais preocupar-se com ela e podem viver como
quiserem, contanto que creiam em Cristo, e que a salvação é
simplesmente perdão, bem, então vocês realmente nunca a
entenderam. A salvação é algo que cumpre a lei; não a anula.
Já citei esta passagem de Romanos para vocês - “O que era
impossível à lei, visto como estava enferma pela carne, Deus,
enviando o seu Filho em semelhança da carne do pecado,
pelo pecado condenou o pecado na carne; para que a justiça
da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a
carne, mas segundo o espírito” (VA: “segundo o Espírito”, 8:3,4).
Ouçam o que Paulo diz noutro lugar: “Como, pois, recebestes
o Senhor Jesus Cristo...” (Colossenses 2:6). Vocês não podem
recebê-10, a não ser como Senhor. Não poderão recebê-10
como seu Salvador e dizer que mais tarde talvez O recebam
como seu Senhor. Ele é sempre o Senhor, e vocês O recebem
como Senhor. O Novo Testamento é o cumprimento do Velho
Testamento.
A mesma coisa, penso eu, aplica-se com freqüência a toda
a questão do novo nascimento. Há pessoas que parecem pensar
que os santos do Velho Testamento não eram renascidos; contudo
é inteiramente antibíblico dizer que não eram. Como cristãos,
somos semente de Abraão - somos filhos de Abraão, e filhos da
fé, e o reino no qual entramos é o antigo reino no qual Abraão,
Isaque e Jacó estão há muito tempo. Vocês vêem como é
importante compreender que o Novo Testamento é o
cumprimento do Velho Testamento.
Outra coisa que essa verdade nos lembra é isto - e este é o
meu sétimo ponto: se vocês estão sempre atentos ao Velho
Testamento, vão se lembrar de que há um propósito mundial
na salvação. A salvação é pessoal, graças a Deus, mas é muito

123
O Evangelho de Deus

mais. Deus tem um propósito para o mundo todo, e vocês


poderão vê-lo no capítulo onze desta Epístola aos Romanos: “a
plenitude dos gentios” - “todo o Israel” - o plano completo.
Nunca percam isso de vista. O Velho Testamento dá ênfase a
essa verdade por meio de uma descrição, que consta nos onze
primeiros capítulos de Gênesis, do mundo em geral antes de
Deus separar aquela nação. A perspectiva mundial - o Velho
Testamento sempre a salienta.
Há também outras coisas que agora só darei como títulos,
e mais tarde desenvolverei. Mas a importância de se mante­
rem atentos ao Velho Testamento emerge aqui em toda a questão
da evangelização e dos avivamentos, e da relação entre ambos.
Se vocês aplicarem o ensino do Velho Testamento, nunca
poderão ter uma “evangelização” subjetiva, com o que quero
dizer que a obra de evangelização não é apenas resolver
problemas das pessoas; a psicologia faz isso, as seitas fazem isso,
muitas coisas fazem isso. O que separa o evangelho de todos os
outros ensinos é que ele é primariamente uma proclamação de
Deus e da nossa relação com Deus. Não nossos problemas
particulares, porém o mesmo problema que nos vem a todos,
que somos pecadores condenados perante um Deus santo e uma
lei santa. Isso é evangelização. Portanto, o arrependimento deve
ser sempre colocado em primeiro lugar. Ora, o Velho Testamento
constantemente nos faz lembrar isso, e vocês não podem ficar
fora disso.
O Velho Testamento, porém, faz também o seguinte:
mostra-nos, com muita clareza, que o método pelo qual Deus
mantém vivas Sua causa e Sua verdade é o dos avivamentos. Se
vocês percorrerem diligentemente o Velho Testamento, é isso
que verão. Houve períodos mortos, períodos sem vida, que
poderiam levá-los a pensar que tudo tinha chegado ao fim -
que os caminhos de Deus tinham sido esquecidos. Como foi
que, de repente, esses períodos deram lugar a algo diferente?
Foi que o povo reuniu-se e organizou algo? Nunca! Em
nenhuma ocasião! Invariavelmente aconteceu algo semelhante

124
Romanos 1:2

ao seguinte: quando as pessoas estavam em total desesperança e


prostradas, e realmente achavam que o fim tinha chegado, Deus,
súbita e inesperadamente, e de maneira sumamente espantosa,
A

fez algo. E Deus que faz reviver Sua obra. Eu e vocês temos a
tendência de ficar ansiosos, exageradamente ansiosos, pela obra,
não é? Como aquele pobre Uzá, nós estendemos a mão para
segurar a arca, esquccendo-nos de que ele foi morto por tentar
fazer isso. E há muitos hoje que parecem pensar que têm que
fazer alguma coisa para salvaguardarem a causa de Deus. Meu
caro amigo, você não precisa ficar preocupado; Deus revivifica
a Sua obra, mas em Seu tempo, segundo o Seu método, e com a
pessoa ou com as pessoas que Ele escolhe. A história do Velho
Testamento é maravilhosa nesse aspecto.
Portanto, não nos esqueçamos de que não há nada mais
consolador e encorajador para o cristão do que conhecer bem
as Escrituras do Velho Testamento. Paulo, como vocês vêem,
diz o seguinte, nesta mesma Epístola, no versículo 4 do
capítulo 15: “Porque tudo que dantes foi escrito, para nosso
ensino foi escrito, para que pela paciência e consolação das
Escrituras tenhamos esperança”. Está alguém deprimido e
desanimado? Volte às Escrituras do Velho Testamento, leia-as,
estude-as, aprenda-as de cor. Veja o método de Deus. Nada nos
anima e nos ensina a exercitar a paciência como o Velho
Testamento. Todo o capítulo onze de Hebreus usa esse método,
vocês se lembram.
O meu derradeiro ponto é, pois, o seguinte: eu e vocês
devemos aprender a sujeitar-nos completa e absolutamente aos
métodos de Deus, sem jamais questioná-los. Sou pregador,
declara Paulo, de boas novas maravilhosas. Ah, sim, mas Deus
tinha dito anteriormente que isso ia acontecer, que isso viria;
entretanto todos os séculos passaram e parece que nada disso
aconteceu. Qual será a lição? Simplesmente esta - coloque-se, e
coloque tudo quanto é do seu interesse, inteiramente nas mãos
de Deus. Seus métodos podem parecer estranhos. Vocês se
lembram de que Ele nos diz por intermédio de Isaías: “Como

125
O Evangelho de Deus

os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos
mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos
mais altos do que os vossos pensamentos” (55:9). Ponha a sua
causa nas mãos de Deus. Há um problema pessoal em sua vida?
Deixe-o lá. Você está preocupado com a conversão de algum
dos seus entes queridos? Você tem orado durante anos, e parece
que nada acontece, e você está a ponto de desistir, e diz: que
é que adianta? Se você se sente mais ou menos assim, volte ao
Velho Testamento e procure compreender que, depois que
Deus
/ fez a promessa sobre a semente da mulher no Jardim do
Eden, quatro mil longos anos se passaram antes que se
concretizasse a vinda da semente da mulher e nascesse em Belém
como uma criança. Não desista. Esse é o método de Deus. São
esses os caminhos de Deus. Eu não os entendo, mas esse é o
ensino do Velho Testamento. E isso que eu deduzo deste breve
versículo que na Versão Autorizada vem entre parênteses.
Ou estaria você preocupado com o estado em que se acha a
Igreja, com o enfraquecimento das igrejas locais, com as pressões
do mundo, com o poder do mundo, com a organização do
mundo, e todas essas coisas? Ah, digo eu, vá de volta ao Velho
Testamento e apegue-se ao fortalecimento e à consolação das
Escrituras. Ou você está inquieto por algo que aconteceu no
mundo nos dias atuais? Pois bem, coloque isso no contexto do
Velho Testamento. Eu nunca me preocupei, nem um segundo,
com Hitler; bastava-me ler o Salmo 37, onde leio sobre um
homem como ele, que se espalhou como o cedro do Líbano,
um tipo de colosso galopando pela terra toda. Mas, continuando
a ler, aprendo que chegou o dia em que alguém quis vê-lo e
falar com ele, e não pôde encontrá-lo. Procurou-o por toda parte
e não achou nem rastro dele; desapareceu! Por quê? Deus o
varrera com o Seu sopro. E o Velho Testamento está cheio de
exemplos como esse. Portanto, à luz disso tudo, que é que
podemos dizer? Nada tenho a dizer, senão isto: “O profundidade
das riquezas, tanto da sabedoria como da ciência de Deus! Quão
insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus

126
Romanos 1:2

caminhos!” Ele parece dormir durante séculos, porém ainda


está aí; Seus caminhos são inescrutáveis. “Porque, quem
compreendeu o intento do Senhor? ou quem foi seu conselheiro?
Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja
recompensado? Porque dele, e por ele, e para ele, são todas as
coisas; glória, pois, a ele”, e somente a Ele, “eternamente.
Amém”.

127
8
“Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo
a carne, declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de
santificação, pela ressurreição dos mortos -Jesus Cristo nosso Senhor. ”
-Romanos 1:3,4

No original, a frase “Jesus Cristo nosso Senhor” não vem


onde a Versão Autorizada (inglesa) a coloca; vem no fim da
declaração (como na Versão de Almeida), e eu me proponho a
tomá-la desse modo. Vemos, pois, aqui o apóstolo falar-nos
acerca deste evangelho de Deus, ao qual ele já havia feito
referência. Ele se regozija no fato de ser “servo de Jesus Cristo”.
Ele foi “chamado para apóstolo”, e foi “separado para o
evangelho de Deus, o qual”, diz-nos ele, “antes havia prometido
pelos seus profetas nas Santas Escrituras”. Mas a questão é: que
vem a ser este evangelho de Deus acerca de Seu Filho? Pois
bem, é isso que ele começa a desvendar para nós aqui, e, portanto,
há certas coisas que de imediato devemos considerar, salientar
e sublinhar.
A primeira verdade que temos de defender é que o
evangelho é acerca do Filho de Deus. Esse é o ponto nevrálgico,
o cerne e o centro do evangelho. Isso de evangelho cristão e de
cristianismo sem Cristo não existe. O cristianismo é Cristo, por
definição. Pois bem, isso é algo, parece-me, como se vê tão
claramente no Novo Testamento, sobre o que não pode haver
qualquer discussão ou argumento. Não há tal coisa como
cristianismo sem a Pessoa do nosso Senhor e Salvador Jesus
Cristo. Isso não significa que o Senhor Jesus Cristo é um
“portador” de boas novas vindas de Deus. Não! Significa que
Ele próprio é a boa nova. As boas novas são a Pessoa e o que a

128
Romanos 1:3,4

Pessoa realizou. Não é apenas que Ele faz parte de uma grande
série de profetas e de mestres levantados por Deus. Não! Há
uma singularidade absoluta aqui - Ele, Ele mesmo. E Ele é
absolutamente vital, e deve ser sempre central e estar sempre
na posição mais proeminente.
Ora, é isso que constitui a plena singularidade do evangelho
cristão. Examinem qualquer religião que quiserem; geralmente
encontrarão um nome associado a ela; mas em nenhuma delas
se pode dizer que esse homem em particular é absolutamente
essencial. Vocês têm aí o budismo, mas podem ter budismo
sem Buda. Vocês têm o confucionismo, mas podem ter
confucionismo sem Confúcio. E mais ou menos acidental que
um homem propague o ensino, mas o homem mesmo não é
essencial ao ensino; o que é vital em todas essas religiões é o
ensino particular. No entanto aqui, quando chegamos ao
domínio da fé cristã, toda a situação é absolutamente diferente.
Tiremos a Pessoa, e não haverá mensagem alguma. Não haverá
ensino. Não haverá nada. Noutras palavras, a ligação entre o
nosso Senhor, como Pessoa, e o cristianismo é obviamente algo
que é de significação central.
Permitam-me oferecer-lhes outro contraste. Vejam a lei que
foi dada aos filhos de Israel por intermédio de Moisés no Velho
Testamento. Ora, Moisés não era essencial à lei; Deus poderia
ter outorgado a lei por meio de José ou de qualquer outro. Ele
escolheu Moisés para intermediário. Mas Moisés, como pessoa,
não é parte vital da lei; pode-se ter a lei sem ele. Aqui, porém,
estamos numa situação inteiramene diferente - a mensagem,
em sua totalidade, é acerca desta Pessoa. Ora, estou dando ênfase
a isso por uma boa e suficiente razão; é que, embora seja quase
incrível, não obstante o caso é que ainda existem pessoas que
são capazes de considerar-se cristãs e de ensinar o que elas
consideram cristianismo, sem sequer mencionarem o nome
desta Pessoa bendita. Essas pessoas ainda acham que o
cristianismo é uma relação específica com Deus, e que
cristianismo consiste apenas em viver uma espécie particular

129
O Evangelho de Deus

de vida; e elas são capazes de falar disso e aparentemente de


praticá-lo sem mencionar este nome. No entanto, certamente
isso é uma verdadeira negação de toda a posição cristã! O
evangelho de Deus, Paulo afirma, é “acerca de seu Filho”, e
sem Ele não há evangelho, não há boas novas. As boas novas
consistem nesta Pessoa, no que Cristo veio fazer e no que Ele
fez e consumou.
Portanto, essa é a primeira coisa e, naturalmente, o apóstolo
deleita-se em ensiná-la; ele sempre o faz no início de qualquer
Epístola sua. Observem também Atos, capítulo 13, onde nos é
dito que Paulo, viajando por Antioquia e pela Pisídia, pregou
acerca da Pessoa nesses lugares, como fazia em toda parte. Pedro
fez isso - em Jerusalém, por exemplo, como vocês poderão ver
em Atos, capítulo 2. Esses homens pregavam “Jesus” - Jesus e a
ressurreição. A Pessoa! Eles faziam ampla publicidade de Cristo.
Eram chamados “cristãos” obviamente por esse motivo - por
sua ênfase a Cristo, a esta Pessoa. As boas novas! O “evangelho
de Deus acerca de seu Filho”, e eu tenho acentuado a expressão
“acerca de”, num sentido, porque é acerca desta Pessoa, e desta
Pessoa somente.
Por isso agora o apóstolo prossegue e nos diz quem a Pessoa
é; e vocês podem notar que a primeira coisa que ele nos diz
acerca desta Pessoa é que é o Filho de Deus. Essa é,
evidentemente, mais uma dessas declarações principais e da
maior importância. Vê-se que Paulo faz logo esta grande
asserção, que é a verdadeira essência da fé cristã - que a pessoa
histórica, Jesus de Nazaré, é o Filho eterno de Deus. Agora vocês
se lembrarão que a mesma ênfase é dada na Epístola aos Hebreus,
logo no versículo primeiro, na forma de um contraste:
“Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas
maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos
dias pelo Filho...”. E então o autor continua e mostra a diferença
entre esta Pessoa e todas as demais; mostra-nos Sua
singularidade - Ele é “a expressa imagem da sua Pessoa”, etc.
Ora, aí está também algo que é absolutamente característico

130
Romanos 1:3,4

de toda a argumentação do Novo Testamento, e naturalmente o


apóstolo começa com isso porque, se isso não fosse verdade,
não teríamos nenhum evangelho. Aí está a verdadeira essência
da nossa mensagem. E, como é natural, temos poderosa prova
disso em toda parte no Novo Testamento. Foi acerca desta mesma
Pessoa que em Seu batismo veio a voz do céu, e de novo no
Monte da Transfiguração, dizendo: “Este é o meu Filho amado,
em quem me comprazo”. Não há como exagerar na ênfase a
esta verdade, e é absolutamente essencial que, como cristãos
nesta era moderna, com tanto pensamento indefinido, e com a
geral aversão por definições e por precisão, tenhamos clareza
quanto a esta verdade e estejamos prontos a contender e a lutar
por ela, porque, se a abandonarmos, então digo que não teremos
nada de cristianismo.
Essa foi, é claro, a reivindicação que o nosso Senhor fez, e
foi porque Ele a fez que O crucificaram. Foi porque certa ocasião
Ele disse: “Eu e o Pai somos um” (João 10:30), que disseram:
“Ele se faz igual a Deus; Ele alega que é o Filho de Deus”, e
para eles isso não passava de pura blasfêmia. E foi por essa razão
que conspiraram e disseram que Ele devia morrer e ser
eliminado. Esse carpinteiro, eles pensavam, esse sujeito, esse
fulano que não tinha pertencido às escolas dos fariseus, estava
de fato afirmando que era um com Deus - o Filho de Deus e
igual a Deus. Foi por essa razão, reitero, que Ele foi crucificado.
Devemos, pois, afirmar esta verdade; é o primeiro grande
pronunciamento que fazemos como cristãos: que esta Pessoa
particular é o eterno e sempiterno Filho de Deus. Dizemos que
Ele não é um homem que adquiriu divindade, como muitos
têm dito; Ele é e sempre foi o Filho eterno de Deus. Ele pode
ser chamado Seu Filho de um modo que ninguém mais pode.
O “unigénito do Pai” - eis aí outra expressão empregada a Seu
respeito no Novo Testamento. Os homens foram criados por
Deus. Ele não foi criado. Ele foi “gerado”, e o único gerado, “o
unigénito”, e, portanto, numa classe e categoria inteiramente
peculiar a Ele. E, naturalmente, não causa surpresa ver o

131
O Evangelho de Deus

Evangelho Segundo Marcos, por exemplo, começar com estas


palavras: “Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de
Deus...”. De algum modo ou de alguma forma, todos começam
da mesma maneira; assim é que o apóstolo, na forma particular
que ele emprega nesta Epístola - condensando a doutrina em
vez de expô-la elaboradamente - aqui nos anuncia que ele é um
pregador das boas novas concernentes ao que Deus fez quanto
ao Seu Filho eterno, Aquele que é coigual e coeterno com o
Pai. E natural que João o expresse a seu modo bem conhecido:
“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo
era Deus”. De novo é a mesma coisa, e é verdade que pertence
à essência mesma da fé cristã. O Filho de Deus, o unigénito,
distingue-Se de todos os demais.
Pois bem, o apóstolo Paulo (devemos estar atentos ao seu
método) começa com a referida asserção. Depois ele passa a
provar a sua asserção, e o faz expondo-nos duas declarações
separadas concernentes ao Filho. E esta, é claro, é a mensagem
cristã; esta é a história cristã, se vocês preferirem, pois é a
revelação dos fatos dos quais deduzimos todas as nossas doutrinas
e que, portanto, constitui a mensagem cristã. E quão importante
é que observemos atentamente o que o apóstolo diz aqui! Penso
que veremos que cada palavra conta. Ele liga particular
significação a todas as coisas que vai dizer. E notamos que nas
duas declarações que ele faz aqui há alguns contrastes
surpreendentes. Agora, observem-no! O evangelho é acerca do
Filho de Deus. E o que é que tem? Bem, diz o apóstolo: Ele
“nasceu da descendência de Davi, segundo a carne”. Ele foi
“declarado” (“declarado”, em contraste com “nasceu”) “Filho
de Deus”, não filho de Davi, “Filho de Deus em poder, segundo
o Espírito de santificação” - em contraste com, “segundo a
carne” - “pela ressurreição dos mortos”.
Naturalmente nós temos aqui, de maneira espantosa,
assombrosa, um perfeito sumário, uma perfeita sinopse da
doutrina cristã. De que trata o evangelho? Bem, o evangelho
não começa conosco. Não começa com os nossos problemas e

132
Romanos 1:3,4

experiências, etc. É uma grandiosa proclamação e um grandioso


anúncio de algo que Deus fez acerca deste Seu Filho, que estava
com Ele, “no seio do Pai”, desde a eternidade, sem nenhum
princípio: coeterno com o Pai. Que foi que aconteceu então?
Bem, diz o apóstolo, a primeira coisa que aconteceu foi que
Ele “foi feito da semente de Davi, segundo a carne” (VA). E
aqui eu desejo mostrar que cada uma destas palavras é
sumamente importante e de enorme significação. A frase é
sobre Ele - que Ele foi “feito da semente de Davi”. Veremos,
penso eu, que o apóstolo vai provar a sua afirmação de que o
Filho sempre esteve no seio do Pai desde a eternidade, e que
em parte ele o prova empregando a expressão “foi feito”.
Então, que é que significa esta expressão? Bem, pode-se
traduzir desta maneira - Ele “tornou-Se”. Ele “tornou-Se” da
semente de Davi, “segundo a carne”. Ele era - Ele tornou-Se.
Vocês percebem o significado disso? Ou também, se vocês
preferirem, há outro modo de traduzi-la. A palavra aí traduzida
por “feito” pode igualmente ser traduzida por “começou a ser”.
Ele começou a ser “da semente de Davi, segundo a carne”. Ele
não era isso. Ele começou a ser isso. Ele foi “feito da semente de
Davi, segundo a carne”. Ou, na verdade, a palavra pode ser
traduzida por “vir à existência”. Ele “veio à existência”, segundo
a carne. Pois bem, ao usar esta expressão, vê-se que o apóstolo
está imediatamente provando a sua afirmação anterior. O Filho
de Deus era (existia) desde a eternidade, mas aconteceu algo.
Ele começou a ser algo que Ele não era antes - não que Ele
começou a ser, ou que agora passou a existir.
Vocês vêem que imediatamente estamos bem no coração
desta grande doutrina concernente à encarnação. João, em seu
prólogo, tendo dito aquelas coisas magníficas e maravilhosas
acerca do Verbo eterno que estava no seio do Pai, “sem ele nada
do que foi feito se fez”, e tendo dito que Ele é “a luz verdadeira,
que alumia a todo o homem que vem ao mundo”, e assim por
diante, de repente diz, irrompendo em sua grande mensagem/
- “e o Verbo se fez carne* e habitou entre nós...”. E isso que

133
0 Evangelho de Deus

temos aqui. O apóstolo Paulo não a coloca nesta passagem em


forma tão elaborada como o faz noutros lugares, porém é a
mesma doutrina. Em Gálatas, por exemplo, ele diz: “Mas, vindo
a plenitude dos tempos. Deus enviou seu Filho, feito de uma
mulher, feito sob a lei” (4:4, VA). É a mesma coisa - “feito de
uma mulher”. Deus enviou Seu Filho da eternidade, de onde
Ele estava antes - daquela existência que Ele teve desde a
eternidade com Seu Pai.
Mas, naturalmente, a exposição clássica disso, e a mais
desenvolvida, é a que se acha em Filipenses. O apóstolo está
exortando aquelas pessoas; o que ele tem em mente é algo muito
prático. Seu desejo é que eles se amem uns aos outros, e diz:
“Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada
qual também para o que é dos outros. De sorte que haja em vós
o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (e
agora, então!) “que, sendo em forma de Deus” - isto é, na
eternidade, no seio do Pai, Ele era em forma de Deus - “não
teve por usurpação ser igual a Deus...”, o que significa que Ele
não considerava essa igualdade com Deus, essa “forma de Deus”,
como algo a que apegar-Se e que por Seu interesse nunca deveria
deixar escapar. Ele não Se agarrava a isso, “mas aniquilou-se a
si mesmo, tomando a forma de servo...”. Na eternidade era “a
forma de Deus”, agora, porém, Ele faz algo novo; Ele toma sobre
Si “a forma de servo”. A mesma Pessoa ainda, mas assumiu
outra forma, “fazendo-se semelhante aos homens”. A mesma
palavra, de novo, “fazendo”, “começando a ser” semelhante aos
homens. “E, achado na forma de homem, humilhou-se a si
mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz. Pelo que
também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome
que é sobre todo o nome...” (2:4-9). Ora, é isso exatamente que
o apóstolo nos está dizendo aqui nestas poucas palavras, por
assim dizer. “Foi feito da semente de Davi, segundo a carne.”
Ele entrou no mundo dessa maneira. O Filho. O único Filho.
O Filho de Deus. O Filho de Deus começou a ser (a existir) na
carne. Aí está o nascimento do menino de Belém; aí está esse

134
Romanos 1:3,4

mistério e essa maravilha toda da encarnação. E, naturalmente,


como já vimos, isso é o cumprimento de profecia do Velho
Testamento. A profecia é que “nascerá o sol da justiça, e salvação
trará debaixo das suas asas” (Malaquias 4:2). “Veio para o que
era seu”, diz João. Ele não nasceu como os demais seres humanos.
Ele veio da eternidade para o que era Seu. Ele era na forma de
Deus. Ele agora “começa a ser” noutra forma. Esse não é o Seu
começo; é somente o Seu começo nesta forma; é somente o
começo segundo a carne. Naturalmente, esta verdade é tão
central e tão importante que não há a mínima possibilidade de
exagerar sua centralidade e sua importância.
E agora examinemos o próximo termo - Ele foi feito
segundo a “carne”. Temos aqui outra coisa que precisamos
definir com cuidado e com rigor. Que é que significa o termo
“carne” neste ponto? Vocês verão nas Escrituras que obviamente
ele é empregado de diferentes maneiras e que traz diferentes
sentidos, mas sempre vocês poderão determinar o significado
preciso estando atentos ao respectivo contexto, e aqui o sentido
é mais que evidente. O termo aqui é posto em contraste com a
declaração, “segundo o Espírito de santificação”, e tem também
o sentido de, “em forma humana”. Ele foi feito em forma
humana da semente de Davi; por certo vocês se lembram dessas
mesmas expressões em Filipenses: “forma de Deus”, a “forma
de servo”, “semelhante aos homens”. Assim, aqui Paulo está se
referindo ao que o Filho de Deus Se tornou com relação à Sua
natureza humana.
Todavia devemos ser muito cuidadosos neste ponto; carne
não significa simplesmente o corpo. Havia algumas pessoas na
Igreja Primitiva, alguns hereges, que negavam até que Ele tenha
vindo verdadeiramente no corpo. Eles diziam que Ele assumiu
um corpo tipo fantasma, a aparência de corpo, que absolutamente
não era corpo. Pois bem, a declaração do apóstolo que estamos
estudando contradiz claramente esse ensino errôneo. Ele de fato
foi “feito carne”, porém essa expressão não significa tão-somente
corpo, nem se refere ao corpo em oposição à alma. O ensino do

135
O Evangelho de Deus

Novo Testamento é que o nosso Senhor era verdadeiramente


homem, e que Ele não somente possuía corpo humano, mas
também alma humana; Ele entrou numa plena humanidade,
numa natureza humana completa. Carne, portanto, significa
nesta passagem tudo o que constitui a natureza que um filho
deriva dos seus progenitores, ou, como tem sido expresso na
Igreja desde o princípio, “Ele tinha um verdadeiro corpo e uma
alma racional”.
Noutras palavras, é um erro pensar em nosso Senhor como
o Filho de Deus tendo tão-somente corpo humano. Ele tinha
alma humana também. Tinha mente humana. E é essencial
que tenhamos isso presente em nosso pensamento. Se isso não
fosse verdade, Ele não seria o nosso Salvador. Ele não poderia
salvar os homens, se não Se tornasse homem num sentido real.
Assim se vê uma declaração semelhante sobre Ele em Lucas
2:52: “E crescia Jesus em sabedoria, e em estatura, e em graça
para com Deus e os homens”. Ele podia crescer em sabedoria e
em estatura, e cresceu. Desse modo, a declaração é que Ele
assumiu verdadeira natureza humana, e assumiu essa natureza
humana obtendo-a da virgem, Maria. E o resultado é que vemos
nos quatro Evangelhos que Ele não somente cresceu, mas
também experimentou fome; experimentou sede; experi­
mentou tristeza. Ele disse que não sabia certas coisas. Não sabia
quando será o fim do mundo; Ele disse que os anjos não o
sabiam - nem mesmo o Filho. Como Filho do homem,* Ele
ignorava esse fato particular. Ele padeceu dor, e morreu
literalmente.
Agora vocês vêem como é importante asseverar a Sua plena
humanidade! Havia hereges que diziam que o Filho eterno de
Deus, o Cristo eterno, entrou no homem Jesus em Seu batismo

Emprego inicial minúscula (homem) para salientar a natureza verdadeira­


mente humana de Jesus Cristo. Na expressão “Filho do homem”, a palavra
“Filho” salienta a deidade de Jesus Cristo; a palavra “homem”, a sua plena e
real humanidade. Nota do tradutor.

136
Romanos 1:3,4

e saiu dEle na cruz, de modo que o Filho eterno de Deus não


morreu; só morreu o homem Jesus. Isso falseia o ensino do
Novo Testamento. O Filho eterno de Deus tomou sobre Si uma
verdadeira natureza humana, não somente o corpo, mas também
a alma, a razão, a mente e o entendimento, e Ele morreu tão
verdadeiramente como qualquer ser humano. Ele experimentou
vergonha, sofrimento, sede, e tudo isso é descrito com
extraordinários pormenores nos capítulos finais dos quatro
Evangelhos. E, portanto, eu digo que Ele é o Filho do homem
- o Filho de Deus. O Filho de Deus tornou-Se Filho do homem,
e constantemente, em Seus dias na carne, Ele Se referia a Si
mesmo como o Filho do homem.
Vejam o argumento como é colocado pelo autor da Epístola
aos Hebreus no capítulo 2; diz ele: “Ele não tomou sobre si a
natureza dos anjos, mas tomou sobre si a semente de Abraão”
(VA). Ah sim! Definitivamente, Ele foi feito de uma mulher,
feito sob a lei, da semente de Davi, da semente de Abraão. Ele
pertenceu àquela raça. Ele nasceu dos israelitas, segundo a carne,
como Paulo argumentará no capítulo nove desta grande
Epístola. Ele procede deles no que se refere à carne. Pois bem,
essa é a tremenda verdade que o apóstolo está dizendo aqui -
que Ele assumiu esta nova forma, esta forma humana. Ele Se
fez “semelhante aos homens”, e vocês verão Paulo dizer nesta
mesma Epístola, no capítulo oito, que Deus enviou “o seu Filho
em semelhança de carne pecaminosa” (VA, ARA). Não em carne
“pecaminosa”, mas “em semelhança de carne pecaminosa”, e
assim por diante. É importante que nos firmemos nessas
verdades.
Vejamos agora a expressão subseqüente, “da semente de
Davi” (VA). Em Sua carne e nessa forma humana, Ele era “da
semente de Davi”. E vocês podem notar que é essa descrição
que dEle nos é dada sempre no Novo Testamento. Mateus
começa logo dizendo: “Livro da geração de Jesus Cristo, filho
de Davi, filho de Abraão...”. Aí está, e é disso que se trata. Isso
é o evangelho. Esta pessoa é o “Filho de Davi, filho de Abraão”,

137
O Evangelho de Deus

e, naturalmente, o povo reconheceu isso. Lembram-se do cego


de Jerico? Ele se pôs a clamar e a dizer: “Jesus, Filho de Davi!
tem misericórdia de mim”. Vemos isso em toda parte. Vocês
poderão ver Paulo dizer, em 2 Timóteo 2:8: “Lembra-te de que
Jesus Cristo, que é da descendência de Davi, ressuscitou dos
mortos, segundo o meu evangelho”.
Por que dar então essa ênfase à “semente de Davi”? Qualé
o seu significado? Por que ele a menciona também aqui, quando
está meramente introduzindo o seu assunto? E por que o faz
noutros lugares? A resposta, como vimos no sermão que o
apóstolo pregou em Antioquia da Pisídia, é que o significado
disso reside no fato de que Deus tinha feito esta promessa
específica ao rei Davi, que dos seus lombos e da sua semente
viria o grande Messias, o grande Rei eterno, que estabeleceria o
Seu reino eterno. Se vocês percorrerem o Velho Testamento e
examinarem as profecias, verão que Deus vai estreitando a Sua
promessa desta maneira: lá no Jardim do Éden Ele faz a
promessa geral de que a “semente da mulher” esmagaria a
cabeça da serpente. “A semente da mulher” - é a humanidade
toda, judeus e gentios. Ele viria da natureza humana. Ele viria
da humanidade.
Mas depois, como vocês vêem, Deus prossegue e estreita
essa promessa. Em particular será a semente de Abraão; Ele
seria um hebreu. Eis aí agora a distinção entre judeus e gentios.
Embora provindo da espécie humana, Ele viria deste segmento
particular, da semente de Abraão, dos israelitas, segundo a carne.
Entretanto Deus estreita mais a promessa. Ele deixa perfeita­
mente claro, e nós a obtemos mediante a boca de Jacó, que Ele
viria de uma particular tribo de Israel, da tribo de Judá (Gênesis
49:10). Siló, este grande governante, viria de Judá. Mas a tribo
de Judá contém grande número de famílias, pelo que Deus
estreita ainda mais, limitando a promessa a uma família em
particular, à particular linhagem e casa do rei Davi. Assim vocês
vêem que Deus preparou o caminho para o que haveria de
suceder, e o Messias, quando viesse, não seria tão-somente

138
Romanos 1:3,4

homem, não seria tão-somente judeu, não seria tão-somente da


tribo de Judá; seria específica e particularmente da “casa e
linhagem de Davi”. E aí está a resposta, diz o apóstolo.
E também é indubitável que ele dá ênfase a isso para
mostrar que Cristo é o grande rei eterno, Aquele a quem coube
introduzir o reino de Deus, reino sem fim, e que deve reinar
como Rei nesse reino para todo o sempre. Os judeus aguardavam
a vinda deste Messias que seria da semente de Davi. Eles se
apegavam àquilo que eles chamavam “as firmes misericórdias
de Davi”. Foi isso que Deus prometeu e, portanto, toda a
argumentação do apóstolo tem por objetivo dizer que este Jesus
é o Messias. Ele é da semente de Davi. Ele é Aquele em quem
as firmes misericórdias de Davi viriam sobre todos os povos -
notem como ele condensa a doutrina nestas poucas palavras.
Mas ele a condensa ainda mais; sem mencioná-la
especificamente, ele enxerta a doutrina do nascimento viriginal,
pois nunca devemos esquecer esse fato. Aqui, parece-me,
ligamos o princípio de Mateus ao de Lucas. Em Mateus 1:16, a
forma em que é colocada é a seguinte: “E Jacó gerou a José,
marido de Maria, da qual nasceu JESUS, que se chama o Cristo”.
Vocês têm aí uma longa linhagem, uma tábua genealógica, e
lhes é dito que tal homem gerou o seguinte, que esse gerou
outro, e a linhagem prossegue, até que vocês chegam a um
homem chamado Jacó, e “Jacó gerou a José”, e então vocês não
lêem que José gerou a Jesus, mas - “Jacó gerou a José marido de
Maria, da qual nasceu JESUS, que se chama o Cristo”. E mais
adiante a narrativa nos informa que “...o nascimento de Jesus
Cristo foi assim: estando Maria, sua mãe, desposada com José,
antes de se ajuntarem, achou-se ter concebido do Espírito
Santo”, e o relato continua, falando das dificuldades de José e
de que Deus lhe apareceu e lhe restabeleceu a tranqüilidade.
Mas vocês notam como as Escrituras são cuidadosas - não gerado
por José, mas José era marido desta Maria de quem nasceu Jesus,
e depois a explicação particular.
Vocês podem ver exatamente o mesmo cuidado em Lucas,

139
O Evangelho de Deus

é claro, onde se lê: “E o mesmo Jesus começava a ser de quase


trinta anos sendo (como se cuidava)” - entre parênteses - “filho
de José, e José de Eli”, etc. (3:23). Segue-se aí outra tábua
genealógica, e embora haja diferenças óbvias entre as tábuas
genealógicas de Mateus, capítulo 1 e Lucas, capítulo 3, a
explicação é simples. Em Mateus temos a árvore genealógica
de José, ao passo que em Lucas temos a árvore genalógica de
Maria; e em ambos os casos vocês podem ver que as Escrituras
têm o cuidado de dizer-nos que Jesus não era filho de José; era
filho de Maria. E, portanto, Lucas nos mostra que Maria
era descendente linear e direta do grande rei Davi. Assim, o
Senhor Jesus Cristo é da semente de Davi por meio de Sua
mãe Maria.
E dessa maneira cumprem-se as grandes promessas
presentes na profecia de Isaías. Ouçam Isaías 9:7: “Do
incremento deste principado e da paz não haverá fim, sobre o
trono de Davi e no seu reino”, e 11:1: “Porque brotará um
rebento do tronco de Jessé, e das suas raízes um renovo
frutificará”. Que coisa maravilhosa são as Escrituras! Vemos as
profecias, vemos o cumprimento, mas o que nos prende a
atenção neste ponto é a maravilha e a glória da encarnação,
pois quando chegou o tempo do nascimento de Cristo na história
do mundo, a casa de Davi tinha caído num estado de grande
rebaixamento, na verdade. Já não era a grande e maravilhosa
árvore a espalhar longos ramos e ampla folhagem. Não!
Praticamente tudo se fora, exceto o tronco; tudo tinha virado
nada, menos uma raiz. Mas o profeta disse: da raiz, do tronco,
do simples rebento de Jessé virá o renovo, o ramo; e foi o que
aconteceu. Quando a casa de Davi estava, digamos, em seu
ponto mais baixo, subitamente o maior fruto da semente de
Davi apareceu. O Filho de Deus tomou sobre Si a semente de
Davi e assim nasceu como um menino.
Mas há nisso outra significação maravilhosa, a que devo
fazer referência. Os judeus - judeus ortodoxos - como vocês
sabem, ainda estão esperando a vinda do Messias; não acreditam

140
Romanos 1:3,4

que Ele já veio. E a posição na qual eles fincam pé é esta; as


suas Escrituras lhes dizem que o Messias será da semente de
Davi. Terá que ser. Mas eis a dificuldade deles: todos os registros
foram perdidos em conseqüência do que aconteceu em 70 d.C.
As tábuas genealógicas desapareceram. Vocês se lembram de
que, na época do nascimento do nosso Senhor, havia aquele
recenseamento periódico, e todos tinham que ir, cada um a sua
cidade, segundo suas casas. Vocês poderão ver isso em Lucas,
capítulo 2. Eles tinham esses registros naquele tempo, mas não
os têm mais. Assim é que, se alguém aparecer agora afirmando
que é o Messias, nunca poderá provar que pertence
verdadeiramente à semente de Davi. Nós, porém, podemos
provar que o Messias que veio era da semente de Davi; os
registros ainda estavam disponíveis; as genealogias ainda
existiam, e José e Maria tiveram que ir a Belém, a cidade de
Davi. E verdade comprovada. E aí podemos ver com clareza a
cegueira que domina os filhos de Israel. Eles estão sem
condições de provar que o Messias que estão esperando é
realmente o Messias, e rejeitam Aquele em cujo caso se pode
comprovar, e foi comprovado, que é da semente de Davi, ajusta-
-se aos registros e, com isso, cumpre a profecia. Esse é, pois, um
argumento muito valioso para usarmos sempre que tentarmos
evangelizar um amigo judeu. E um argumento sumamente
importante e vital.
Mas, finalmente, volto a dizer que o que certamente
devemos ter conosco, em nossas mentes, é toda a grandeza e
maravilha do que Deus fez. Quais são as boas novas? As boas
novas são que “...vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou
seu Filho” (Gálatas 4:4), este Seu Filho que sempre estivera em
Seu eterno seio - o unigénito, coigual e coeterno com o Pai. Ele
O enviou, e O enviou desta maneira, nesta forma, nesta forma
humilde, para nascer criança em Belém, na carne, homem
semelhante aos homens e até em semelhança de carne
pecaminosa. Ele veio nessa posição tão humilde por nós e pela
nossa redenção.

141
O Evangelho de Deus

Ouçam a seguinte colocação feita por Charles Wesley:

Cristo adorado pelo mais alto céu,


Cristo, o Senhor eterno e sempiterno,
Passado o tempo veio; contemplai-O,
Rebento, sim, de um ventre virgem, terno.
Vejam sob o véu da carne a Deidade;
Salve, encarnado Deus, divino Ser!
Como homem entre os homens quis viver,
Deus conosco, Jesus, Emanuel!

- Deus conosco!
Pois bem, essa é a doutrina que o apóstolo coloca diante de
nós na passagem em foco. Pergunto se há alguém que acha que
eu não precisava gastar todo esse tempo dando ênfase a isso tudo.
Haverá alguém tão tolo que chegue a dizer: “Olhe aqui; não
estou interessado na doutrina cristã; não entendo nada disso, e
não tenho tempo para ficar ouvindo o ensino sobre a encarnação
e a ênfase que você dá ao fato de que não era um corpo tipo
fantasma. Não posso ficar me aborrecendo com isso tudo”? Ah!
meu caro amigo, seja cauteloso. Os três ou quatro primeiros
séculos em grande parte foram tomados pela Igreja infante na
luta por essa mesma verdade! Surgiram heresias que negavam,
ou a humanidade do nosso Senhor, ou a Sua deidade; ou
negavam que Ele veio verdadeiramente na carne, ou que
realmente sofreu. E os “pais” da Igreja com muita razão viram
que, se se perdessem essas verdades, o evangelho seria perdido,
e não haveria nem salvação nem evangelho para pregar.
E isso não vale somente para os primeiros séculos; vale para
hoje. Posso ler para vocês algo que li ainda hoje à tarde num
semanário religioso publicado ontem? Ouçam: o título é: “Os
Judeus e os Cristãos”. Diz o escritor (e ele é ex-diretor de uma
faculdade teológica): “O primeiro livro do Dr. Martin Buber
(grande erudito judeu) que me veio às mãos foi a famosa obra
Eu e Tu. Já tinha avançado muito na leitura dele quando

142
Romanos 1:3,4

descobri, ou comecei a suspeitar, com incrédula decepção, que


talvez ele não quisesse chamar-se cristão”. (Esse professor de
teologia ficou surpreso e decepcionado ao ver que Martin Buber
não se considerava cristão!) “Agora eu sei que ele não se diz
cristão, mas, dizer-se cristão e ser cristão são coisas muito
diferentes. Deus sabe, eu não, se Martin Buber é cristão.”
Ora, o Dr. Martin Buber afirma que não é cristão, e não é
cristão porque não crê nesta doutrina que estive expondo a vocês
esta noite. Ele é judeu, e não acredita que o Messias veio. Mas
aí está um homem que diz: bem, isso não importa; provavel­
mente ele é cristão, apesar de não reivindicar isso, apesar de
não crer que Deus assumiu a carne, ou que o Verbo Se fez carne
e habitou entre nós; embora ele não diga isso, é cristão porque
é um homem excelente. É nisso que dá. Mas ouçam mais isto:
“É fácil dizer que os judeus rejeitaram a Cristo e que ainda O
rejeitam; mas, será verdade?” Depois ele pergunta: “Será
verdade que pessoas como Claude Montefiore e o Sr. Gollancz
ainda O rejeitam? Estou pensando agora, não na doutrina do
cristianismo, porém na relação pessoal deles com Cristo. O
que parece é que Cristo pode ser aceito e rejeitado de muitas
maneiras diferentes”.
Com isso o escritor quer dizer que um homem pode afirmar
que não crê que Jesus de Nazaré é o Filho de Deus e, todavia,
pode ser um bom cristão. De fato ainda há algo mais, em sua
conclusão. “Estou certo, porém, que será bom abandonar o uso
de rótulos; um homem pode dizer-se cristão, outro pode dizer-
-se judeu, mas quando você ouve isso, porventura tem idéia do
que há no coração deste e daquele, ou de quais são as crenças
que se acham em seu coração e em sua vida?” Assim é que,
conquanto um homem possa declarar que é judeu e não cristão,
segundo a citada autoridade ele pode ser um excelente cristão!
Vivemos dias desesperados, meus amigos. O homem que
escreveu esse artigo é um dos maiores defensores do Concílio
y

Mundial de Igrejas. E um homem que afirma que todos nós


devemos unir-nos atualmente; devemos jogar fora os nossos

143
O Evangelho de Deus

rótulos, diz ele. Bem, decidam-se vocês; no que me diz res­


peito, eis o que tenho para dizer: não tenho comunhão com
alguém que se diz cristão, se não crê que o Filho eterno de Deus
Se fez carne; se não crê que Deus enviou Seu Filho e O fez de
uma mulher; que o Filho eterno, o Cristo sempiterno, tomou
sobre Si a natureza humana. Não posso dizer que há cristi­
anismo enquanto houver alguma dúvida ou hesitação
concernente a esta verdade, e, a menos que eu esteja muito
enganado, se não lutarmos sobre esta questão e não permanecer­
mos firmes nesta verdade, descobriremos que temos traído a
mensagem cristã e a totalidade da gloriosa salvação cristã. E
vital, é essencial, que o nosso evangelho seja “acerca do Filho
de Deus, que foi feito da semente de Davi, segundo a carne”.
Permita Deus que todos nós tenhamos absoluta certeza sobre
isso, e que alicercemos a nossa fé sobre esta poderosa declaração
inicial.

144
9
“Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi,
segundo a carne, declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito
de santificação, pela ressurreição dos mortos - Jesus Cristo nosso
Senhor- Romanos 1:3,4

Chegamos agora a uma outra declaração presente nestes


versículos - “Declarado Fiho de Deus em poder, segundo o
Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos - Jesus
Cristo nosso Senhor”. E uma declaração vital e obviamente
nos apresenta

um contraste com o que temos na declaração
anterior. E um paralelo; é também um contraste. Primeiro,
“acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi,
segundo a carne”. Depois, há outro lado, ao qual o apóstolo
chega agora.
O primeiro termo é “declarado” - Ele foi “declarado Filho
de Deus em poder” (VA e ARA: “com poder”). Esta palavra
“declarado” devemos contrastar com a palavra “feito”, do
versículo 3 (VA). Ele foi “feito da semente de Davi, segundo a
carne”, mas não foi “feito” Filho de Deus com poder, segundo
o Espírito de santificação. Foi “declarado” isso, não “feito”. E
por certo vocês vêem a importância de salientar isso. Ele
“começou a ser” da semente de Davi, segundo a carne, porém
nunca “começou a ser” o Filho de Deus, porque sempre o foi.
Isso mostra também a importância vital da atenção a cada uma
das palavras quando vocês lerem ou procurarem estudar as
Escrituras.
Este fato acerca de Cristo não é algo novo na história; é algo
que sempre foi assim. Mas nesta passagem há algo dito a respeito
- que Ele foi “declarado Filho de Deus com poder”. Que é que

145
O Evangelho de Deus

significa isso? As autoridades nos dizem - e com acerto - que a


palavra aqui traduzida por “declarado” era originariamente
utilizada para marcar os limites de um campo. Por exemplo,
você tem uma propriedade; como sabe qual a sua propriedade
e qual a do outro? Bem, há, talvez, uma cerca; há uma linha
traçada; ou há um canal, ou algo parecido. Ora, essa é a idéia
que está por trás dessa palavra; significa originalmente aquilo
que delimita, ou que marca um campo ou os limites de uma
propriedade. E a definição dos limites certos. E é essa a palavra
empregada aqui acerca do nosso Senhor nesse aspecto. Assim
vocês podem usar a palavra “provado”, se quiserem. Foi
“provado que ele é o Filho de Deus com poder” - em vez de
“declarado”.
Ou ainda vocês podem pensar nisso em termos da declaração
do resultado de uma apuração de votos. Vejam, por exemplo, a
época de eleição; faz-se a apuração dos votos e depois é feita
uma “declaração”. Não é a declaração que elege um deputado, é
o número de votos. Mas o número de votos que um candidato
obteve é declarado na proclamação dos eleitos. Pois bem, de
acordo com o apóstolo, o que aconteceu com o nosso Senhor na
ressurreição foi algo parecido. Ele não foi feito Filho de Deus
pela ressurreição, porém
/ / foi declarado Filho de Deus por ela. É
uma declaração. E uma proclamação. E algo que é definido,
estabelecido claramente, delimitado, apresentado, de maneira
perfeitamente clara.
Contudo agora precisamos ser cuidadosos, ao afirmar tudo
isso, notando que o que estamos dizendo é o seguinte: o que
aconteceu na ressurreição foi que Ele foi “declarado” desse modo
para que nós o soubéssemos; só nos é dada definição dEle na
medida em que nos diz respeito. Ele esteve na terra, neste
mundo, entre os homens, e sobre Ele o apóstolo nos diz na
Primeira Epístola aos Coríntios que “nenhum dos príncipes
deste mundo (O) conheceu” (1 Coríntios 2:8) ; eles não O
reconheceram por causa da Queda. Mas na passagem que
estamos estudando ele diz, com referência ao conhecimento que

146
Romanos 1:3,4

temos do Senhor, que uma declaração, uma definição, foi feita


e dada. Portanto, aí está a nossa primeira palavra, a palavra
“declarado”, a qual contrastamos com “feito”.
Passemos agora à próxima frase. Que é que foi declarado?
Jesus Cristo foi “declarado Filho de Deus com poder”. Bem, a
expressão “Filho de Deus” não precisa deter-nos neste ponto,
porque, num sentido, a declaração toda está falando sobre ela;
entretanto vocês podem notar que a declaração não é que Ele
foi feito um Filho de Deus; Ele foi declarado o Filho de Deus
(VA). Ele é o único Filho de Deus. E às vezes as Escrituras
expressam isso sem o artigo: “Havendo Deus antigamente falado
muitas vezes, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias
pelo Filho”.* O Filho único. A mesma coisa está implícita no
texto em foco - o Filho de Deus.
Mas o que é realmente interesante é esta declaração: “com
poder”. Começamos dizendo que Ele é o Filho de Deus. O
evangelho é acerca do Seu Filho, o Filho eterno, que “se tornou”
da semente de Davi, segundo a carne, porém agora é “declarado
Filho de Deus com poder”. Que é esta expressão, “com poder”?
Há muitos que acham que é uma expressão que qualifica a
declaração; dizem eles que ela significa que Ele foi “declarado
de maneira muito poderosa ser o Filho de Deus”. Todavia,
certamente não é isso que o apóstolo está dizendo. Essa idéia
não faz justiça ao contraste entre essa declaração e a do versículo
anterior. E, em todo caso, o que o apóstolo está interessado em
dizer não é tanto que o nosso Senhor foi declarado Filho de
Deus “de maneira poderosa”, mas que Ele foi categórica e
absolutamente declarado Filho de Deus. E é evidente que isso
só pode ser poderoso, de modo que é desnecessário dizer que
foi dito de maneira poderosa.
Que significa então? Sugiro-lhes que o que ele está dizendo
é o seguinte: que o Senhor Jesus Cristo na ressurreição foi
declarado Filho de Deus com poder. Ele era o Filho de Deus

Sem artigo no original grego. Nota do tradutor.

147
O Evangelho de Deus

antes. Ele é e sempre foi o Filho de Deus. Ele era o Filho de


Deus antes da encarnação e desde toda a eternidade. Ele nunca
foi outra coisa, senão o Filho de Deus. Ele estava com o Pai no
princípio. Não há mudança nisso. Onde, então, está a mudança?
Ah, vocês vêem, é na forma que Ele assumiu; e o que nos é dito
no versículo 3 é que quando Ele veio a este mundo, não veio
como o Filho de Deus com poder. Não! Ele veio como um bebê
desvalido. Vocês notam como é importante manter em vista esse
paralelo. Embora continuasse sendo o Filho de Deus, era fraco;
era desvalido; tinha que receber cuidados como todas as outras
crianças; tinha que ser alimentado e ser tratado com desvelo:
tudo o que acontece com todas as crianças teve que acontecer
com Ele. Ele não era “Filho de Deus com poder” quando estava
deitado numa manjedoura, dependente de cuidados. Ele era o
Filho de Deus - sim; não, porém, o Filho de Deus com poder.
Noutras palavras, quando Ele veio como menino, o poder do
Filho de Deus estava sob o véu da carne. Lembram-se do hino
de Charles Wesley? E indubitavelmente o mais grandioso hino
de Natal jamais escrito:

“Vejam sob o véu da carne a Deidade”!

Ah, sim, naquela manjedoura Ele estava velado pela carne; mas
o que o apóstolo diz é que na ressurreição Ele é “declarado o
Filho de Deus com poder”. É aí que percebemos quão poderoso
Ele é.
Ora, essa declaração é feita noutros lugares das Escrituras,
é claro. Por exemplo, se vocês forem à oração sacerdotal,
em João 17:2, vê-lo-ão dizendo: “Assim como lhe deste poder
sobre toda a carne”. Mas ainda mais extraordinariamente o
verão em Mateus 28:18, onde o nosso Senhor está falando com
os Seus discípulos nos últimos momentos com eles, quando
Ele está para deixá-los. Diz Ele: “E-me dado todo o poder
no céu e na terra. Portanto ide, ensinai todas as nações,
batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”.

148
Romanos 1:3,4

Aí está. O resultado da ressurreição é que o poder é manifestado.


Pois é certamente isso que o apóstolo está ressaltando na
passagem que estamos estudando.
Ou vejam outro exemplo disso em 2 Coríntios 13:4. Vemos
aí o mesmo contraste: “Porque, de fato foi crucificado em
fraqueza, contudo vive pelo poder de Deus”. Sim, Ele foi fraco
segundo a carne - da semente de Davi”, no entanto agora, como
resultado da ressurreição, e nela, Filho de Deus com poder. Que
coisa tremenda! Noutras palavras, a ressurreição nos habilita a
vê-10 como Ele é e pelo que Ele é. Enquanto esteve na carne,
muita coisa estava oculta. Quando Deus enviou Seu Filho a
este mundo para levar a efeito esta grande redenção, Ele O
enviou incógnito, digamos. Assim é que, quando você olhasse
para aquele bebê, só veria um bebê, a não ser que você fosse
inspirado pelo Espírito Santo, como o foram Simeão e a profetisa
Ana, na antigüidade. “Vejam sob o véu da carne a Deidade.”
Ele tomou sobre Si a forma de servo. Humilhou-Se a Si mesmo,
e trabalhou como carpinteiro. Sempre foi e continua sendo o
Filho de Deus eterno, com todos os Seus poderes, mas pôs de
lado os sinais da Sua glória com este propósito. E como um rei
viajando incógnito - vai ao continente sem anunciar que é o rei
da Inglaterra ou o príncipe de Gales. Viaja como “João
Ninguém”, e as pessoas não se voltam para olhar para ele. Elas
esperam que um rei tenha todas as insígnias que lhe são próprias
e que seja noticiado nos jornais. Ele continua sendo rei, ou
príncipe, ou o que for. Ele não mudou seu ser nem sua posição,
porém está viajando incógnito.
Mas, no momento em que você chega à ressurreição, eis de
volta a glória; voltam os sinais - o Filho de Deus, agora com
poder. É isso que a ressurreição declara. O que estava velado
enquanto Ele estava na terra, agora está plenamente revelado.
Uma proclamação. Assim, quão importante é que tomemos estas
palavras no sentido certo. Não se trata apenas de uma descrição
do poder da ressurreição. Naturalmente, o poder da ressurreição
é o poder do próprio Deus, todavia não é esse o propósito

149
O Evangelho de Deus

imediato do apóstolo. O contraste que ele está fazendo aqui


é entre a forma de “servo” e a forma de “Deus” - um servo
aparentemente sem poder nenhum - e por isso uma pedra de
tropeço para os judeus, que diziam: “Como é que esse pode ser
o Messias?” Eles O prenderam, O condenaram e O crucificaram
em fraqueza. Como é que esse pode ser o Messias? A fraqueza
era a ofensa, mas agora, “Filho de Deus com poder”.
Passemos agora à próxima frase - “declarado Filho de Deus
com poder, segundo o espírito de santidade” (VA). Aí está outra
frase difícil; e nisso também tem havido bastante confusão.
É uma expressão muito interessante - “segundo o espírito de
santidade”. E a única vez em que é empregada no Novo
Testamento. Por isso devemos ter o cuidado de observar que
é “espírito de santidade”, e não “Espírito Santo”, e por um bom
motivo. É que a expressão “Espírito Santo” é reservada para
a terceira bendita Pessoa da Santíssima Trindade. Mas, a
ênfase ainda é relativa a “espírito” - um espírito que é santo.
Um espírito de santidade não significa um espírito santo -
não o Espírito Santo, não uma Pessoa, e sim um espírito que
é santo.
Agora, pois, fazemos a pergunta: que é que significa essa
expressão? E de novo sugiro-lhes que a única maneira pela qual
podemos entendê-la correta e verdadeiramente é lembrar o nosso
paralelismo, que contrasta, com o que ele dissera no versículo
três. Lá, vocês se lembram, vimos isto - “Acerca de seu Filho,
que nasceu da descendência de Davi, segundo a carne”. Pois
bem, “segundo o espírito de santidade” faz paralelo com
“segundo a carne”. Aí estão os dois lados do contraste que ele
empregou. Torno a dizer que devemos ter claro entendimento
do sentido disso. Há os que dizem que se refere à obra realizada
pelo Espírito Santo na ressurreição, para o que não há prova
bíblica. Outros dizem que foi após a ressurreição do nosso
Senhor que Ele enviou o Espírito Santo no dia de Pentecoste, o
que, naturalmente, é perfeitamente certo. Mas, se significa isso
aqui, então o nosso paralelismo desaparece, como também

150
Romanos 1:3,4

deixa de existir o contraste que o apóstolo está construindo.


Portanto, rejeito essas duas explicações, porque, sugiro-lhes,
significa outra coisa. Sempre que você chegar a uma declaração
difícil como esta, a primeira coisa que deverá fazer é perguntar
a si mesmo se sabe de algo parecido nas Escrituras. Nalgum
outro lugar das Escrituras teria sido dito algo sobre a ressur­
reição do Senhor Jesus Cristo que de algum modo se aproxime
desta declaração particular? E assim que você se perguntar isso,
por certo verá que sim, e o descobrirá no Salmo dezesseis,
versículo 10: “Pois não deixarás a minha alma no inferno, nem
permitirás que o teu Santo veja corrupção”.
Esse é um Salmo escrito por Davi, e, se vocês o tomarem
pelo que parece à primeira vista, pensarão que Davi está
escrevendo a seu próprio respeito; contudo não é o que ele está
fazendo. Davi está ali atuando como profeta e está profetizando
acerca de alguém do futuro. Ora, foi precisamente isso que o
apóstolo Pedro disse em seu sermão no dia de Pentecoste, em
Jerusalém, registrado no capítulo dois de Atos. Vocês se lembram
de como ele expôs aquele mesmo versículo. “Varões israelitas”,
disse ele, “escutai estas palavras: a Jesus Nazareno, varão
aprovado por Deus entre vós com maravilhas, prodígios e sinais,
que Deus por ele fez no meio de vós, como vós mesmos bem
sabeis; a este que vos foi entregue pelo determinado conselho e
presciência de Deus, tomando-o vós, o crucificastes e matastes
pelas mãos de injustos; ao qual Deus ressuscitou, soltas as ânsias
da morte, pois não era possível que fosse retido por ela; porque
dele disse Davi: sempre via diante de mim o Senhor...” (e então
ele chega à nossa frase) “...pois não deixarás a minha alma no
Hades, nem permitirás que o teu Santo veja a corrupção”.
Então ele começa a pregar; em sua exposição, ele diz:
“Varões irmãos, seja-me lícito dizer-vos acerca de Davi, que ele
morreu e foi sepultado, e entre nós está até hoje a sua sepultura”.
É óbvio, pois, que Davi não estava falando sobre si mesmo.
“Sendo, pois, ele profeta e sabendo que Deus lhe havia
prometido com juramento que do fruto de seus lombos, segundo

151
O Evangelho de Deus

a carne, levantaria o Cristo...”. Assim, o que o apóstolo Paulo


está fazendo no versículo que estamos considerando é pôr num
só versículo o que Pedro, em seu sermão, dissera mais
extensamente no dia de Pentecoste. É exatamente a mesma
coisa. Portanto, devemos firmar-nos nisso.
Depois vocês verão que o apóstolo Paulo faz uso exata­
mente da mesma coisa em seu sermão pregado em Antioquia
da Pisídia e registrado em Atos 13:35,36. De novo ele toma as
Escrituras e as expõe, e diz: “Pelo que também em outro salmo
diz: não permitirás que o teu santo veja corrupção (notem a
palavra “santo” (na VA com inicial minúscula) ; porque, na
verdade, tendo Davi no seu tempo servido conforme a vontade
de Deus, dormiu, e foi posto junto de seus pais e viu corrupção.
Mas aquele a quem Deus ressuscitou nenhuma corrupção viu”.
Vocês podem ver, é a mesma coisa que o apóstolo Pedro estava
dizendo no dia de Pentecoste. Certamente isso nos dá uma pista
sobre como devemos expor a frase “segundo o espírito de
santidade”. Não dá?
Mas temos ainda outra evidência, que considero de extrema
importância. Em 1 Pedro, capítulo três, versículo 18, temos uma
declaração sumamente importante: “Porque também Cristo
padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para
levar-nos a Deus” (agora notem isto) “mortificado, na verdade,
na carne, mas vivificado pelo Espírito”. Pois bem, na Versão
Autorizada (inglesa, e em Almeida, Edição Revista e Corrigida),
consta “peto” Espírito, porém deveria ser “no” Espírito (ARA,
“no Espírito”); Ele foi “morto na carne, mas vivificado no
Espírito” (VA). Vocês vêem o contraste? O✓ que aconteceu na
carne e o que aconteceu no Espírito. E o mesmo contraste que
vemos no versículo que estamos estudando. Temos a mesma
coisa em 1 Coríntios 15:45, onde Paulo diz: “O primeiro homem,
Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito
vivificante”. E de fato o apóstolo o diz de novo em 1 Timóteo
3:16: “...grande é o mistério da piedade: aquele que se
manifestou em carne, foi justificado em espírito...”. Outra vez

152
Romanos 1:3,4

o mesmo contraste - carne e espírito.


Então, que é que entendemos por isso? Bem, acaso não fica
evidente e óbvio a partir de todas essas citações que temos em
cada uma delas a mesma verdade que o apóstolo Paulo defende
neste quarto versículo? Ele está contrastando o que é certo a
respeito do nosso Senhor na carne, com o que é certo a respeito
do nosso Senhor no espírito. Segundo a carne, Ele foi feito da
semente de Davi, e veio em fraqueza. Em Seu ser espiritual,
Ele é Filho de Deus com poder, e isso é provado pela
ressurreição. Aí, então, está o contraste. Noutras palavras, o nosso
Senhor teve uma existência no espírito, e a Sua existência no
espírito é santa. Mesmo enquanto estava aqui, o espírito que
havia nEle era santo - é o espírito de santidade.
Agora vocês vêem o que Paulo quer dizer? E o contraste,
então, entre o que Cristo era como Filho do homem, e o que
Ele é como Filho de Deus, e essa diferença Paulo assinala em
termos de carne e espírito. O espírito que estava em Cristo é o
espírito de santidade. As três benditas Pessoas da Trindade
Santíssima - Seus espíritos são santos. O espírito do Pai é um
espírito de santidade; e o Espírito Santo é um espírito de
santidade. E isso que ele está dizendo. Quanto ao Seu espírito
de santidade, Ele é o Filho de Deus; é isso que faz dEle Filho
de Deus. Ou, se vocês preferirem, visto que Ele é o Filho de
Deus eterno, a parte espiritual dEle é santa. Dessa maneira,
como vocês vêem, o paralelismo explica tudo muito bem.
Segundo a carne, da semente de Davi; segundo o espírito - o
espírito que é santo - Filho de Deus com poder.
De certa maneira, o anjo que visitou Maria inicialmente
disse tudo isso com as seguintes palavras: “Descerá sobre ti o
Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua
sombra; pelo que também o Santo, que de ti há de nascer, será
chamado Filho de Deus”. Vocês notam como Ele é sempre
chamado santo? (VA: “aquela coisa santa”.) “Não permitirás
/

que o teu Santo veja corrupção.” E como se fala dEle. O espírito


que está nEle é santo. E diferente do homem. O nosso espírito

153
0 Evangelho de Deus

não é santo; o espírito dEle é santo, porque Ele é o Filho de


Deus. Há, pois, este perfeito contraste entre o que Ele era como
semente de Davi, e o que Ele é como o Filho de Deus.
Por sua vez, isso nos leva à nossa última declaração, a de
que tudo isso foi declarado pela ressurreição dentre os mortos.
E mesmo aqui há uma dificuldade; torno a dizer que este
versículo é muito interessante. Agora vejam vocês que na Versão
Revista Padrão (inglesa, RSV) a tradução é: “Ele foi designado
Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santidade, por
sua ressurreição dentre os mortos”. Essa é uma tradução
totalmente injustificável; não é nada disso que temos no grego,
e o certo é que Paulo não escreveu isso. E antes uma interpretação
dos tradutores, e não uma boa tradução. Não! O que o apóstolo
diz é - “Ele é declarado Filho de Deus com poder, segundo o
espírito de santidade, pela ressurreição de pessoas mortas”. Essa
é a tradução que se vê na margem de algumas Bíblias. Paulo
não diz que Cristo foi declarado Filho de Deus com poder pela
ressurreição dentre os mortos. Não diz isso. Diz ele que é por
uma ressurreição de pessoas mortas. Ou outra tradução poderia
ser - “Por uma ressurreição como dos que estavam mortos”.
Deliberadamente ele se expressa dessa forma. Está no plural.
Não no singular. Diz ele que o fato se deu por uma ressurreição
como a de pessoas mortas quando ressurgem. Essa é outra
tradução, e está no plural.
Que será que significa? Bem, de novo, é algo que, visto
apresentar dificuldade, requer que você se pergunte: “Há algo
semelhante dito nalguma outra passagem com relação à
ressurreição do nosso Senhor?” E outra vez você vê que há. Você
pode, se quiser, considerar a ressurreição do nosso Senhor apenas
como um evento isolado; porém há outra maneira, e melhor,
de vê-la, e é a seguinte: considerá-la como a primeira de uma
série. Ele ressuscitou - sim; e outros vão ressuscitar. Nós
ressuscitaremos porque Ele ressuscitou. Ele inaugurou a
ressurreição dentre os mortos, e é isso que se vê nas Escrituras.
Ouçamos o que Paulo diz, por exemplo, em Atos 26:23: “...que

154
Romanos 1:3,4

o Cristo devia padecer e, sendo o primeiro da ressurreição dos


mortos”. E visto que Ele é o primeiro, fica implícito que haverá
outros a seguir. E eu e vocês estamos entre esses outros. É
ressurreição de mortos, dos quais Ele é o primeiro. É o que
Paulo está dizendo. Assim, em vez de falar em Sua ressurreição
dentre os mortos, ele emprega a frase: por uma ressurreição
dentre os mortos, ou por uma ressurreição de pessoas mortas -
e Ele é a primeira dessas pessoas.
Vê-se isso igualmente em Romanos, capítulo 8, na mesma
Epístola que estamos estudando, onde nos é dito: “a fim de que
ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (versículo 29). E
me alegra que o apóstolo o tenha colocado dessa forma. Paulo
aí fala da ressurreição do nosso Senhor de tal maneira que inclui
juntamente com ela a minha ressurreição; ele não a isola pura e
simplesmente. Nós - todos nós que somos cristãos - estamos
envolvidos nela. E essa grandiosa ressurreição que ele projeta.
Mas em Colossenses 1:18 o ponto é ainda mais explícito: “E
ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio to primogênito
dentre os mortos”. Assim, o que o apóstolo está dizendo é que é
a ressurreição do nosso Senhor, mas é a primeira da série que
Ele inaugurou.
Essa verdade é, pois, de importância absolutamente
primordial. Lembram-se da pregação de Paulo em Atenas?
Está registrada numa espécie de sinopse no capítulo dezessete
de Atos. Paulo conclui a sua exposição dizendo: “Deus...
anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se
arrependam”. Por quê? “Porquanto tem determinado um dia
em que com justiça há de julgar o mundo, por meio do varão
que destinou; e disso deu certeza a todos, ressuscitando-o dos
mortos.” Essa é a certeza. Essa é a prova dada de que Ele há de
ser o Juiz. “Ressuscitando-o dos mortos.” Essa é a demonstração,
e é isso que Paulo está de fato dizendo aqui. E, vocês vêem, é
por isso que aqueles apóstolos, quando saíam para pregar,
pregavam, é o que se nos diz, “Jesus e a ressurreição”, que aqueles
ouvintes inteligentes de Atenas questionavam: “Que quer dizer

155
O Evangelho de Deus

este paroleiro? Que nova doutrina é essa de que fala? Que espécie
de deus ele está tentando descrever-nos?” Isso porque, diz Lucas,
ele pregava Jesus e a ressurreição. Essa era a primeira prega­
ção. Eles estavam em toda parte e pregavam o fato de que Jesus,
o carpinteiro de Nazaré, tinha ressuscitado dentre os mortos,
e com isso ficou provado que Ele é o Filho de Deus e o
Messias.
Paulo, pois, coloca essa verdade aqui nesta sinopse de
doutrina no início da Epístola aos Romanos. Diz ele,
praticamente: sobre o quê vou escrever? Vou escrever sobre o
seguinte: o Filho de Deus, que Se tornou o Filho do homem, e
que foi crucificado em fraqueza, foi depois ressuscitado e
declarado Filho de Deus com poder pela ressurreição dentre os
mortos. Por que isso é importante? Sugiro que por duas razões;
a primeira é que a ressurreição consubstancia todas as
reivindicações feitas por Ele. Ele Se declarou Filho de Deus; a
ressurreição o comprova. Não somente isso. A ressurreição
cumpre as profecias feitas por Ele a Seu próprio respeito. No
capítulo dois do Evangelho de João lemos que um dia, em
resposta ao pedido que os judeus fizeram de um sinal, disse
Ele: “Derribai este templo, e em três dias o levantarei”. E
zombaram dEle. Diziam: “Imaginem só! Eis aqui um homem
que afirma que, se vocês destruírem este templo (apontando
para o templo de Jerusalém) , Ele poderá levantá-lo em três
dias!” Que afirmação ridícula! Quantos anos levou para ser
construído este templo, e este sujeito diz que o construirá em
três dias! Ah, foi a cegueira espiritual deles que os levou a
entendê-10 mal! Como o próprio João diz: “ele falava do templo
do seu corpo”. Ele estava dizendo que, se eles O matassem, Ele
ressuscitaria no terceiro dia. E foi o que fez.
Vejam os quatro Evangelhos completos. Leiam-nos e
observem que toda vez que Ele chamava os Seus discípulos de
lado e lhes profetizava Sua morte, nunca o fazia sem acrescentar
que iria ressuscitar. Eles não captaram isso, nunca; não o enten­
diam. Ficavam tão horrorizados com a idéia da Sua morte que

156
Romanos 1:3,4

não O ouviam quando Ele falava que ressuscitaria. Mas Ele


sempre dizia isso. E, portanto, quando Ele ressuscitou, foi
cumprida a Sua profecia; Suas palavras se concretizaram; Suas
afirmações foram consubstanciadas. Esta é, pois, como vocês
vêem, a pedra fundamental sobre a qual todo o nosso evangelho
é erigido. Se não houvesse ressurreição, digo eu, não haveria
evangelho. Se Ele tivesse permanecido no túmulo, Ele nunca
seria o Filho de Deus; não seria o nosso Salvador. Eis aí o que
nos prova que Ele o é, e que somos salvos por Ele, porque,
vocês vêem, Ele é o primogênito dos mortos; Ele foi o primeiro
a ressurgir do túmulo.
Ah, espere um minuto! - dirá alguém. Esqueceu-se de
Lázaro? Mas Lázaro não experimentou ressurreição; Lázaro foi
ressuscitado, Lázaro certamente foi trazido de volta à vida,
porém subseqüentemente morreu, e seu corpo viu corrupção
na sepultura. Lázaro não foi ressurreto; simplesmente foi trazido
de volta à vida. Isso não é ressurreição. E a mesma coisa se pode
dizer da filha de Jairo. O filho da viúva de Naim também estava
morto; levavam-no num caixão para enterrá-lo, vocês se
lembram. O nosso Senhor encontrou-Se com eles, e disse:
“Mancebo, a ti te digo: levanta-te”, e o jovem sentou-se - mas
não houve ressurreição. E mesmo quando se vai ao Velho
Testamento, aos casos de Enoque e de Elias, que não morreram
mas foram levados para o céu - tampouco foi ressurreição,
porque eles não viram a morte neste sentido. Assim é que o
nosso Senhor foi o primeiro a ressuscitar dentre os mortos. Ele
é o primogênito entre muitos irmãos. E, portanto, o fato vital é
que esta é a prova suprema e a suprema declaração de que Ele
é verdadeiramente o eterno Filho de Deus.
No entanto, finalmente, devo dizer apenas uma palavra
sobre isso, porque tem havido muita confusão a respeito. Como
é que isso é declarado pela ressurreição? Que foi que aconteceu
ali, exatamente? O importante é que compreendamos que esta
declaração não é no sentido de que Ele foi feito Filho de Deus
pela ressurreição. Ele não Se tornou Filho de Deus em

157
O Evangelho de Deus

conseqüência da ressurreição. Ele simplesmente foi declarado


Filho de Deus pela ressurreição. Ora, isso é da máxima
importância, pela seguinte razão: houve gente - e ainda há -
que gosta de afirmar que Jesus obteve a divindade. Não foi
sempre divino, porém, por ter vivido em tão perfeita obediência
a Deus, obteve a divindade. Isso está em absoluta contradição
com o que o apóstolo está dizendo na passagem em foco. Ele
foi feito da semente de Davi, segundo a carne; não foi feito o
Filho de Deus com poder pela ressurreição, mas foi declarado
tal.
Em que sentido? Bem, vocês devem ir agora ao Salmo dois,
que é da maior importância neste ponto, e observar exatamente
o que ele diz, porque com muita freqüência pessoas há que são
desviadas e realmente levadas ao erro por uma palavra
empregada pelo salmista. Ouçam: “Eu, porém, ungi o meu Rei
sobre o meu santo monte de Sião. Recitarei o decreto: o Senhor
me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei”. Eis aqui, então,
outro Salmo que é uma profecia, e provamos que é uma profecia
observando o que o apóstolo Paulo diz sobre ele, de novo naquele
grande sermão pregado em Antioquia da Pisídia, em Atos,
capítulo treze, versículos 32 e 33. Lemos: “E nós vos anunciamos
que a promessa que foi feita aos pais, Deus a cumpriu, a nós,
seus filhos, ressuscitando a Jesus; como também está escrito
no Salmo segundo: Meu filho és tu, hoje te gerei”. E vocês
verão que a mesma declaração é citada duas vezes em Hebreus
(1:5; 5:5).
Nisso é que certas pessoas ficam em dificuldades; dizem
elas: muito bem, há a declaração no Salmo, onde Deus diz:
“Hoje te gerei”, e, contudo, o apóstolo Paulo e o autor da Epístola
aos Hebreus dizem que essa é uma referência à ressurreição.
Daí, não significaria que Ele foi feito e foi gerado como Filho
de Deus no dia da ressurreição; que até então Ele era homem,
mas agora é feito Filho de Deus? “Hoje te gerei” - esse é o
argumento. Todavia aí, parece-me, está seu grave erro, e onde
Romanos 1:4 é tão importante e também tão útil. Qual é o seu

158
Romanos 1:3,4

significado? Em que consiste esta declaração? Em que sentido


Ele foi declarado Filho de Deus com poder pela ressurreição?
Bem, a resposta está, de novo, em ir às Escrituras, e eu
acredito que vocês a encontrarão completa na afirmação do nosso
Senhor em João 17:5: “E agora, glorifica-me, ó Pai, contigo
mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse
mundo” (ARA). Vocês notam o que ele diz? Ele está pedindo
a Deus que O glorifique. Há um sentido em que Ele necessita
ser glorificado. O que Ele está pedindo é que Lhe seja permitido
voltar à glória que Ele tinha com o Pai antes de existir o mundo,
e que Ele tinha posto de lado pelo propósito da encarnação e da
obra de salvação. Percebem a idéia? Ele sempre foi o Filho de
Deus. Nunca deixou de ser. Mas não parecia. Ele pede de volta
a glória, e a teve. Essa é a declaração feita.
Ou ainda, vê-se a mesma coisa em Filipenses 2:9-11. O
apóstolo a expressa ali naquela sua majestosa declaração, que
diz: “Pelo que também Deus o exaltou soberanamente”. Quem
é Ele? Bem, é Aquele de quem o apóstolo já nos falara - que,
embora sendo na forma de Deus, não Se agarrou às prerrogativas
da Deidade. “Aniquilou-se... humilhou-se a si mesmo... Pelo
que também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome
que é sobre todo o nome; para que ao nome de Jesus se dobre
todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da
terra, e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para
glória de Deus Pai.” Que significa isso tudo? Bem, significa
claramente que o que aconteceu na ressurreição foi que Ele foi
reinstalado nesta posição. Ele sempre foi isto, mas por um
tempo deixou de exercer as Suas prerrogativas de forma que
ficasse evidente que as tinha, porém agora Ele foi reinstituído,
por assim dizer, numa declaração pública.
Posso experimentar uma ilustração simples? Porventura não
é quase exatamente como quando um herdeiro chega à
maioridade? Há uma celebração especial disso, não há? Quando
o herdeiro de uma grande propriedade e de uma grande família
chega à maioridade, há uma espécie de proclamação, um

159
O Evangelho de Deus

pronunciamento, um anúncio, e é oferecido um banquete -


uma declaração pública. Naturalmente ele sempre foi o herdeiro,
e o fato de que ele passa de um dia ao dia seguinte e completa
vinte e um anos de idade, ou o que o valha, nesse dia, realmente
não faz diferença nenhuma para ele. Sim, mas é uma ocasião
formal, e há uma declaração. Foi o que aconteceu na
ressurreição. Ele não foi feito o Filho de Deus. Não, não! No
entanto foi colocado de novo diante dos homens e dos anjos,
no céu, na terra e debaixo da terra, como o Filho de Deus com
poder, com esta diferença - que antes da encarnação Ele era
Filho de Deus com poder e com toda a Sua glória, mas não era
Filho do homem. Agora Ele é Filho do homem e Filho de
Deus. Antes da encarnação Ele era somente Deus, mas agora
Ele levou esta nossa natureza humana conSigo para a glória, e
foi proclamado Filho de Deus com poder. Deus e homem - o
Deus-homem. Isso é algo novo. Ele foi instalado, por assim
dizer, como Mediador. Ele foi “declarado”. Ele foi estabelecido
por uma vigorosa declaração - uma inauguração, se o preferem.
Foi isso que aconteceu.
Portanto, o apóstolo, necessariamente, está desejoso de
salientar esta verdade, e se alegra ao fazê-lo. Assim, quando
Deus olha para Cristo e diz: “Tu és meu Filho; hoje te gerei”,
eis o que Ele está dizendo: “Hoje, na ressurreição, estou Te
inaugurando para todo o sempre como o meu Filho eterno, que
assumiu a natureza humana, que é o único Mediador entre Deus
e o homem, Aquele a quem entrego o universo”. Deus o deu a
Ele - em sua totalidade. Assim foi que o Filho pôde dizer: “E-
-me dado todo o poder no céu e na terra”. Seu é o Reino, até
completar-se a obra, e então Ele o devolverá ao Pai. Isso é o
evangelho de Deus. Essa é a mensagem de salvação acerca de
Seu Filho. Vocês notam o poderoso movimento nisso tudo?
Principiando na glória, descendo à terra, indo à morte na cruz,
baixando a um sepulcro, ressurgindo, ascendendo, retornando
à glória. Paulo diz tudo isso nestes dois versículos. “Acerca de
seu Filho, que foi feito da semente de Davi, segundo a carne, e

160
Romanos 1:3,4

declarado Filho de Deus com poder, segundo o espírito de


santidade, pela ressurreição dentre os mortos.” Um mistério.
Uma maravilha. Duas naturezas - uma Pessoa. O Filho de Deus
- Deus é a única Pessoa, mas há nEle duas naturezas - a divina
e a humana, que Ele assumiu. Completamente humano.
Completamente divino. Ambas as naturezas numa só Pessoa.
Sem misturar-se e, todavia, ambas estão ali, juntas, unidas. Não
//

tentem entender isso. E o mistério dos mistérios. E a maravilha


da eternidade. Contudo,
y
é o meio pelo qual Deus nos salva. Foi
isso que Ele fez. E sobre isso que lhes vou falar, diz o apóstolo
Paulo aos romanos.
Claro, ele estava sempre falando disso. Permitam-me
concluir lembrando-lhes a colocação que ele faz a Timóteo: “E,
sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Aquele
que se manifestou em carne, foi justificado em espírito, visto
dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, e recebido
acima na glória”. Vindo da glória, de volta à glória. Mas, meus
amigos, quanto fez Ele enquanto esteve aqui! Ele efetuou e
consumou a grande salvação por meio da qual somos
reconciliados com Deus, e justificados, em justaposição às
exigências da lei. Esse é o tema da Epístola aos Romanos.
Alguém continua desapontado por que vou tão devagar? Vocês
preferiam que eu tivesse passado correndo por estes versículos
para levá-los logo aos capítulos seis, sete e oito? Se é assim,
vocês me desapontam. A matéria de que estamos tratando é de
total importância: a Pessoa do Filho de Deus, e o que Ele fez
para a nossa salvação. Meditemos nisto - o tema do Natal - o
tema eterno:

Anelo ouvir a história


Que os anjos vêm contar,
Que outrora o Rei da glória
No mundo veio morar.

Mas graças a Deus que Ele retornou à glória, depois de haver

161
O Evangelho de Deus

derrotado todos os inimigos - a morte, o inferno, o hades, tudo


incluído. Ele está assentado em Seu trono, e está esperando até
que todos os Seus inimigos sejam feitos estrado dos Seus pés.
Glória a Deus nas maiores alturas; na terra, boa vontade para
com os homens!

162
10
“Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi,
segundo a carne, declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito
de santificação, pela ressurreição dos mortos - Jesus Cristo nosso
Senhor, pelo qual recebemos a graça e o apostolado, para a obediência
da fé entre todas as gentes pelo seu nome. ” - Romanos 1:3-5

Estivemos considerando o que o apóstolo nos diz acerca do


caráter, da natureza, deste evangelho de Deus; é um evangelho,
diz ele, acerca de Seu Filho. Pois bem, com referência às palavras,
“Jesus Cristo nosso Senhor”, estamos seguindo, como vocês se
lembram, a ordem da Versão Revista e da Versão Revista Padrão
(versões inglesas, “RV” e “RSV” (e da Versão de Almeida), e
não da Versão Autorizada (“AV”). Essas palavras devem estar
no fim, e não no começo da declaração, como segue: “Com
respeito a seu Filho, o qual, segundo a carne, veio da descen­
dência de Davi, e foi designado Filho de Deus com poder,
segundo o espírito de santidade, pela ressurreição dos mortos,
a saber, Jesus Cristo, nosso Senhor” (ARA). Foi como o apóstolo
a escreveu e, sem dúvida, é a maneira certa de considerá-la,
porquanto forma uma espécie de clímax natural. O evangelho
é acerca do Filho; vêm, pois, estes grandes fatos e, final e supe­
riormente, aí está Ele, diz o apóstolo - Jesus Cristo, o nosso
Senhor. Noutras palavras, é uma espécie de sumário de tudo o
que o apóstolo nos diz sobre Ele nestas duas grandes declarações;
é devido essas coisas a respeito dEle serem verdadeiras que Ele
é Jesus Cristo, o nosso Senhor.
Ora, certamente vocês concordarão que esse é o grande
nome, o nome favorito, que os escritores do Novo Testamento
aplicaram ao nosso Senhor. Mais de dez vezes nesta Epístola

163
O Evangelho de Deus

aos Romanos o apóstolo se refere a Ele chamando-Lhe Jesus


Cristo, o nosso Senhor, ou o Senhor Jesus Cristo, o que nos faz
lembrar que os cristãos primitivos deleitavam-se com esse
nome, com essa designação. Eles gostavam de usá-lo porque já
por si esse nome lhes recordava as verdades que eram
absolutamente vitais para a sua fé e para todos os aspectos da
sua posição. E, portanto, não causa surpresa nenhuma que o
apóstolo, desde o início da sua carta, não se contente em apenas
expor aqueles fatos grandiosos. Paulo exibe o nome, porque é
isso que Ele é - Jesus Cristo, o nosso Senhor. Noutras palavras,
a fé cristã, em sua totalidade, depende disso; é o que realmente
faz de um ser humano um cristão.
Como sabemos muito bem, foi isso o que de maior sucedeu
na vida e na experiência daqueles primeiros cristãos. Eles eram
constantemente aprisionados porque diziam: “Jesus é Senhor”,
quando as autoridades tentavam conseguir que eles dissessem,
“César é Senhor”. Tinham que decidir a qual dos dois deveriam
apegar-se, e se persistissem em dizer: “Jesus é Senhor”, eram
lançados aos leões, na arena; eram levados à morte. Logo, isso
era para eles algo absolutamente central e de vital importância
- foi, de fato, como já lhes fiz lembrar, a grande questão que
ocupou a atenção da Igreja Cristã nos primeiros três séculos.
Entravam heresias, umas negando a deidade do nosso Senhor,
outras negando a Sua humanidade, e a Igreja teve que lutar
para sobreviver. Reuniram-se concílios, houve discussões e
debates; promulgaram-se definições, e estas foram incorporadas
nos grandes credos e confissões, e isso não foi feito apenas por
diversão e entretenimento. Aos “pais” da Igreja Primitiva foi
dado ver correta e claramente sob a direção do Espírito Santo,
que, se houvesse alguma dúvida acerca do senhorio soberano
de Jesus, toda a posição cristã entraria em colapso; portanto, a
questão central é que Jesus é o Cristo; ou, como o expressa o
autor da Epístola aos Hebreus, Jesus o Filho de Deus (cf.
Hebreus 10:29).
Quando lemos Mateus, capítulo 22, lembramos que o nosso

164
Romanos 1:3-5

Senhor preocupou-Se em ensinar e acentuar a mesma verdade.


Havia, como vocês sabem, a crença, retamente sustentada pelos
judeus, em que o Messias, quando viesse, seria da semente de
Davi; mas, desafortunadamente, com as suas idéias materi­
alistas, tinham passado a pensar no Messias somente como
homem. Por isso o nosso Senhor lhes levantou a questão: “Que
pensais vós do Cristo? De quem é filho?” E eles responderam:
“De Davi”, e ficaram nisso; vocês vêem, eles só estavam
pensando em termos humanos. Até aí estavam perfeitamente
certos, naturalmente - filho de Davi. Pois bem, então,
prosseguiu o nosso Senhor, se vocês se limitam a dizer, o filho
de Davi, como é que Davi, no Espírito, lhe chama “Senhor”,
quando diz (citando o Salmo 110): “Disse o Senhor ao meu
Senhor: assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus
inimigos por escabelo de teus pés”. Se Davi Lhe chama Senhor,
como é seu filho? Se Ele fosse meramente um filho humano, se
fosse simplesmente um descendente humano de Davi, como
poderia Davi, no Espírito, ter-se dirigido a Ele tratando-0 de
“Senhor”, e ter-se referido a Ele como “Senhor”? Seria
contradição. Noutras palavras, foi dessa maneira que o nosso
Senhor ensinou que o Messias é, ao mesmo tempo, filho de
Davi e também Senhor - Filho de Deus, o eterno Filho de Deus.
Foi essa a reivindicação que fez em Seu próprio favor, e aqueles
fariseus não puderam responder-Lhe palavra, “...nem desde
aquele dia ousou mais alguém interrogá-lo.” Não puderam
responder; não eram capazes nem de expor as suas próprias
Escrituras. Estavam cegos; não podiam ver, mas as Escrituras
são perfeitamente claras.
Ora, o apóstolo aqui prossegue e coloca o assunto nessas
diversas formas porque toda a argumentação que ele vai
desenvolver nesta Epístola depende do fato de que os seus
leitores entendam com perfeita segurança e clareza que Jesus
de Nazaré é, de fato, o Cristo e o Filho de Deus. Ele, então,
resume tudo isso pondo à mostra o grande título - de todos o
mais glorioso - “Jesus Cristo, nosso Senhor”. Que representa

165
O Evangelho de Deus

esse título? Bem, não vamos demorar-nos nisso agora, mas é


importante que o tenhamos sempre em mente. Ele é Jesus; é
verdadeiramente homem. Nasceu da virgem Maria. Não tinha
corpo de fantasma; era um corpo verdadeiro. Ele é verdadei­
ramente homem; de fato, Ele é chamado Filho do homem.
Todavia vocês se lembram também de que quando o Seu
nascimento foi anunciado a José, o anjo disse que Ele seria
chamado Jesus, porque “ele salvará o seu povo dos pecados
deles” (ARA). O próprio nome, Jesus, inclui essa idéia de
Alguém que salva. É o mesmo nome de Josué, do Velho
Testamento; este foi um salvador, um guia. E como Josué em
seu tempo foi utilizado para conduzir o povo introduzindo-o
na terra prometida - levando-o à salvação naquele sentido
material - assim Jesus terá este nome, porque Ele salvará o
Seu povo dos pecados deles.
Mas Ele não é somente Jesus. Vimos que quando Paulo
estava pregando em Tessalônica (Atos 17:2,3), o seu grande
argumento foi que era necessário que o Cristo padecesse. E, em
segundo lugar, que “este Jesus, que vos anuncio, é o Cristo” - o
Senhor Jesus Cristo. “O Cristo” é simplesmente a expressão
grega que significa “o Messias”. Os judeus esperavam a vinda
do Messias, e o Messias não é tão-somente um libertador, um
Salvador; a expressão implica particularmente que Ele é
Alguém que foi “ungido” a fim de libertar e salvar. O Messias -
o Cristo - é o “Ungido”, e, portanto, a afirmação que se faz na
passagem que estamos estudando, como em toda parte no Novo
Testamento, é que o Senhor Jesus Cristo foi especialmente
ungido por Deus para esta obra peculiar. Fora profetizado no
Velho Testamento que o Messias seria profeta, sacerdote e rei, e
que seria especialmente ungido para o exercício dessas funções.
Por certo vocês se lembram de que ninguém poderia ser profeta
ou rei sem ser ungido com óleo. E tudo isso era profético,
indicando que quando o Messias viesse, seria ungido pelo
Espírito Santo, e habilitado a realizar a Sua obra.
Pois bem, os apóstolos, estes cristãos primitivos, diziam

166
Romanos 1:3-5

em sua pregação que isso havia acontecido com Jesus. Contavam


como, em Seu batismo, ministrado por João Batista no Jordão,
o Espírito Santo descera sobre Ele na forma de pomba, e se
ouviu a voz do céu que dizia: “Este é o meu Filho amado, em
quem me comprazo”; ali foi Ele ungido e separado para a
realização da Sua grande obra como o Messias. E, naturalmente,
Ele mesmo fez reivindicação pessoal disso. Vocês poderão ver,
em João, capítulo 6, uma importante e longa discussão entre
Ele e alguns judeus. E o nosso argumento final é o seguinte:
Ele só pode ser o Messias porque, referindo-Se a Si próprio,
diz: “a este o Pai, Deus, o selou” (João 6:27). Ele foi selado, foi
publicamente separado para a realização desta obra, e isso Lhe
foi feito enviando o Pai o Espírito Santo sobre Ele em Seu
batismo no Jordão. Com isso, ali Ele estava afirmando que Ele
é o Ungido - o Cristo - o Messias.
Sem dúvida, quando vocês lêem as páginas dos quatro
Evangelhos, vêem manifestamente a tríplice característica do
Messias. Primeiro, Ele é o profeta, o mestre, aquele que expunha
a lei. Vê-se isso no Sermão do Monte; e Ele ensinou sobre
outras coisas também. Ei-lo aí como o profeta ungido. Mas Ele
é, igualmente, o sacerdote; Ele veio para ser o nosso grande
sumo sacerdote. Veio para fazer uma oferta, para apresentar
um sacrifício. Veio para levar sangue ao lugar santíssimo - o
Seu sangue. Assim, Ele é o sacerdote ungido. Esse é, de novo,
o grande argumento da Epístola aos Hebreus: “Visto que temos
um grande sumo sacerdote, Jesus, Filho de Deus...” (4:14). Aí
está. O sumo sacerdote que temos é o que “nos convinha” (cf.
Hebreus 7:26), capaz de sentir e de compartir as nossas fraquezas,
e que, ao mesmo tempo, é o eterno Filho de Deus, segundo a
ordem de Melquisedeque, “vivendo sempre para interceder
por eles” - para interceder por nós.
De igual modo O vemos como rei, como Aquele que tem
autoridade sobre a natureza e sobre a criação, que pode curar
enfermidades, que tem esta autoridade única e que todo o
mundo nota. Ele fala com autoridade, faz coisas com autoridade.

167
O Evangelho de Deus

E, finalmente, Ele faz a grande afirmação que toda a autoridade


Lhe foi dada no céu e na terra. Bem, aí está Ele - Jesus Cristo.
E depois, conclusivamente, Ele é Senhor. Que é que
significa isso? Obviamente, Ele é Senhor porque é o Filho de
Deus. E este termo, Senhor, aplicado a Jesus Cristo no Novo
Testamento, é precisamente o mesmo termo aplicado a “Jeová”,
ao Senhor Deus Todo-poderoso, no Velho Testamento. Portanto,
quando o Novo Testamento afirma que Jesus é Senhor, está
realmente afirmando que Jesus é Jeová! Ele é o Deus eterno e
sempiterno. Isso nos leva diretamente ao cerne da grande
doutrina da Trindade. Mas devemos lembrar, igualmente, que
quando dizemos que Ele é Senhor, também pensamos nEle
como sendo o Deus-homem que ressurgiu dentre os mortos e
assumiu a posição suprema.
Estou certo de que é essa a particularidade que o apóstolo
tem em mente aqui. Já os fiz lembrar que o Senhor disse aos
Seus discípulos: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na
terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações,
batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”
(ARA). Ora, essa é uma declaração de que Ele é o Senhor -
acima de todas as coisas. E é bom lembrar que essa é uma
declaração que o apóstolo Paulo, especialmente, gosta de fazer.
Não há ilustração mais gloriosa disso, em nenhum outro lugar,
do que a de Efésios, capítulo 1, onde se lê que ele deseja que
conheçamos “a sobreexcelente grandeza do seu poder sobre nós,
os que cremos, segundo a operação da força do seu poder, que
manifestou em Cristo, ressuscitando-o dos mortos, e pondo-o à
sua direita nos céus, acima de todo o principado, e poder, e
potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só
neste século, mas também no vindouro; e sujeitou todas as coisas
a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da
igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo
em todos”.
Vocês poderão ver a mesma coisa também em Filipenses,
capítulo 2, onde Paulo, havendo-nos dito que Cristo tomou

168
Romanos 1:3-5

sobre Si a forma de servo, e humilhou-Se até à morte, e morte


de cruz, continua e diz: “Pelo que (visto que Ele realizou tudo
isso) também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um
nome que é sobre todo o nome; para que ao nome de Jesus se
dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo
da terra, e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor,
para glória de Deus Pai”. Ele é o supremo governador do
universo - Jesus! Este mesmo Jesus é o Senhor do universo,
exaltado acima de todo poder e autoridade, acima de todos os
nomes imagináveis. Não há no céu lugar mais grandioso que
aquele que Ele ocupa, e todas as coisas do céu, da terra e de­
baixo da terra, estão sob os Seus pés. Que nome! Que designativo!
Jesus, o bebê de Belém, é o Cristo de Deus, o Messias há tanto
tempo esperado. Ele é o Senhor do universo, o sempiterno Filho
de Deus.
E como nos aquece o coração observar a maneira pela qual
o apóstolo acrescenta um pequeno vocábulo! E como Ele está
escrevendo sobre Aquele que Se tornou “filho de Davi, segundo
a carne, e foi declarado Filho de Deus com poder, segundo o
espírito de santidade, pela ressurreição dentre os mortos, Jesus
Cristo nosso Senhor”. Ele nos pertence porque nós Lhe
pertencemos. Noutras palavras, as pessoas do mundo, em sua
cegueira, não sabem quem Ele é; consideram-nO um desprezível
carpinteiro de Nazaré; continuam pensando nEle em termos
de um ser humano. E sempre reagem sentimentalmente face
ao bebê de Belém por ocasião do Natal. Não sabem que Ele
é Senhor. Não sabem quem Ele é. Se O conhecessem, Paulo
diz aos coríntios, “nunca crucificariam ao Senhor da glória”
(1 Coríntios 2:8). Mas Ele é o nosso Senhor. Nós sabemos
disso.
Sim, mas Ele é o nosso Senhor noutro sentido. Ele é o nosso
Senhor porque nos comprou; Ele nos adquiriu. Não somos de
nós mesmos; fomos comprados por um preço. E nós dizemos
nosso Senhor porque sabemos que Ele é o nosso proprietário;
Ele nos adquiriu no mercado, por assim dizer; Ele pagou o

169
O Evangelho de Deus

preço do resgate. Pertencemos a Ele. Somos Seus escravos.


“Servo de Jesus Cristo”, Paulo já tinha dito; escravo. E, como
cristãos, estamos todos na mesma posição. Sabemos, pois, que
Ele é o nosso Senhor, e O reconhecemos como tal, e somos
obedientes a Ele como tal. O Senhor do universo é, de maneira
muito especial, o nosso Senhor.
Agora devo fazer uma pausa por um momento e fazer uma
digressão para sublinhar algo que já mencionei brevemente,*
porque me parece um ponto de grande interesse prático nos
dias atuais. A única maneira, meus amigos, pela qual podemos
/

aceitá-10 é neste sentido pleno e completo. E provável que


vocês tenham ouvido muitas vezes pessoas dizerem: você
pode aceitar Cristo como o seu Salvador, mas talvez não O
receba como o seu Senhor durante anos, ou não creia nEle como
o seu Senhor durante anos. Por muito tempo, dizem tais pessoas,
você poderá ser um cristão; sim, você crê nEle como o seu
Salvador; mas então, após todos estes anos de lutas e tudo mais,
afinal você se rende a Ele e O aceita como o seu Senhor. Em
meu entendimento, esse ensino não é somente errado, é
impossível. Não é possível dividir a pessoa; esta mesma Pessoa,
esta Pessoa una e única, é sempre Jesus Cristo, o nosso Senhor.
Não se pode dizer que Ele é somente Jesus, ou somente Cristo,
ou somente Senhor. Não, não! A Pessoa una e única é o Senhor
Jesus Cristo, ou Jesus Cristo, o Senhor. Pois bem, o apóstolo
mesmo, naturalmente, escrevendo aos colossenses, expressa isso
de maneira bem específica. Aí está uma passagem raramente
ouvida e lamentavelmente esquecida: “Como, pois, recebestes
o Senhor Jesus Cristo, assim também andai nele” (2:6). Não
há nas Escrituras nenhum lugar em que vocês vejam que podem
aceitá-10 ou recebê-10 como Jesus somente, ou como Salvador
somente, ou como Cristo somente. Não! A Pessoa é una e
indivisível. E se você pensa que crê no Senhor Jesus Cristo
sem se dar conta de que Ele é o seu Senhor, eu não hesito em

* Ver pp.122,123

170
Romanos 1:3-5

dizer que a sua crença é vã. Você não pode tomá-10 somente
como Salvador, porque Ele o salva adquirindo-o ao preço do
Seu precioso sangue. E se você crê nisso, deve saber de imediato
que Ele é o seu Senhor.
Aí é onde entra o perigo, não é? - o perigo do qual já falamos
ao dizer que você pode ser justificado sem ser santificado. Não
pode. Não poderá estar em relação com o Senhor Jesus Cristo, a
não ser que Ele seja o seu Senhor. A nossa compreensão disso
pode variar de tempos em tempos, é claro, porém ensinar
especificamente que se pode ter Cristo como Salvador
✓ sem O
ter como Senhor, não passa de pura heresia. E dividir a Pessoa
de um modo totalmente proibido por esta pequena palavra
“nosso”.
Portanto reitero, sejamos cautelosos; examinemo-nos. Terei
eu, talvez, até agora só pensado nEle como alguém que comprou
para mim o perdão dos pecados e a libertação do inferno, e
nada mais? Se for assim, melhor será que eu retroceda e me
assegure de que realmente creio nEle, porque, se eu de fato creio
no ensino do Novo Testamento sobre pecado, significa isto -
que estou condenado e que não há esperança para mim. Cristo
é o Salvador. Que quer dizer isso? Bem, não simplesmente que
Ele me salva do inferno, porém que Ele “salvará o seu povo dos
pecados deles”. Por que foi que Ele morreu por nós? Pois
perguntemos ao apóstolo Paulo. Escrevendo aTito,ele diz: “O
qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a
iniqüidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso
de boas obras” (2:14). Aí está o senhorio soberano. Você não
poderá crer de fato nEle, se Ele não for o seu Senhor, como
também Jesus, que o salva, e o Cristo que realizou esta obra
por você. Tratemos, então, de seguir o exemplo apostólico; não
nos deixemos levar pelo hábito de falar sobre Ele unicamente
como Jesus, ou Cristo, ou mesmo Senhor, embora, se tiver que
usar uma palavra só, prefira a última - Senhor. Mas, repito,
sigamos o modelo e exemplo apostólico, e, quando falarmos
dEle e pensarmos nEle, façamo-lo nestes termos: o Senhor Jesus

171
O Evangelho de Deus

Cristo - Jesus Cristo, meu Senhor. Devemos-Lhe o título


completo; atribuamos a Ele a designação toda; ponhamo-nos
diante dEle e pensemos nEle em toda a Sua plenitude, em
Sua completude,* e em toda a Sua glória.
Pois bem, Paulo sempre fez isso, em toda parte. Por quê?
Bem, ele vai adiante e nos dá as razões e as explicações no
próximo versículo, e essas razões podem ser divididas de tríplice
maneira. Primeiro, Paulo é o que é por causa do Senhor Jesus
Cristo. E o que me parece que ele está dizendo no versículo
cinco. Ele assinala o grande designativo: o Senhor Jesus Cristo,
“pelo qual recebemos a graça e o apostolado”. Essa é a primeira
coisa. Aqui estou, diz praticamente o apóstolo, escrevendo esta
carta a vocês, cristãos em Roma. E uma coisa admirável e
espantosa para mim, quando percebo que eu era Saulo de Tarso,
uma pessoa blasfema e perniciosa e um perseguidor, e aqui estou
escrevendo a vocês. Que significa isso? Bem, há só uma resposta
- a graça do Senhor Jesus Cristo. Foi por causa dessa graça que
Paulo foi detido e feito cativo, e levado a ver-se como vil pecador,
foi-lhe mostrado o caminho da salvação e esta lhe foi dada. Seus
pecados foram perdoados e ele tornou-se um novo homem, uma
nova criatura - a graça! “Sou o que sou”, diz ele, “pela graça de
Deus.” Se não fosse a graça de Deus, Paulo nunca seria cristão.
Tudo é por meio de Cristo, e graças a Ele - “Pelo qual recebemos
a graça.” Ele não teria nada, e não teria base para nada; não teria
mensagem para pregar, nada para dizer, não fosse o fato de que
a graça foi superabundante com relação a ele e o levou à vida
e à fé.
Não somente isso, porém. Diz ele que recebeu também o
“apostolado”. Já nos dissera isso no versículo primeiro, todavia
o repete, porque era vital para o seu propósito que aquelas
pessoas soubessem que ele tinha realmente plena autoridade,
que ele realmente era apóstolo como Pedro, Tiago e João, e todos
os demais. Ele tinha inimigos que saíam dizendo: “Este homem

* Neologismo deste tradutor.

172
Romanos 1:3-5

não é apóstolo coisa nenhuma. Ele não estava lá quando Cristo


estava na terra. Quem é este que se exalta a si mesmo?” A réplica
de Paulo é: mas eu sou apóstolo. Recebi de Cristo o apostolado.
Ele já tinha dito: “chamado apóstolo” por Cristo. E o repete.
Não foi outro, senão o próprio Senhor Jesus Cristo que o
chamara e o tinha tornado apóstolo. Ele viu aquele rosto na
estrada de Damasco, e gritou: “Quem és tu, Senhor?” Ele
percebeu que Aquele só podia ser o Senhor; nunca tinha visto
nada parecido antes. Ele não era homem; era Deus. E o Senhor
respondeu: “Sou/esws”. Aí está de novo, vocês vêem - “Senhor”
- “Jesus”. Explicou-lhe que Ele era também o Cristo. E aí está
a comissão apostólica: vá pregar, disse o Senhor. Eu o envio ao
povo e aos gentios para lhes abrir os olhos e transferi-los das
trevas para a luz, e do poder de satanás para Deus, para que
recebam uma herança pela fé em mim. O apostolado! Este
homem, reitero, é o que é por causa do Senhor Jesus Cristo.
A segunda verdade que o apóstolo nos diz aqui é que o
Nome é tudo para ele, porque ele faz o que faz por causa do
Senhor Jesus Cristo. Que é que ele faz, então? Em que consiste
a sua vocação como apóstolo? Qual a sua tarefa? Notem que ele
se expressa com uma frase muito interessante: “Pelo qual
recebemos a graça e o apostolado, para (eis agora o propósito) a
obediência da fé entre todas as gentes pelo seu nome”. Agora,
então, diz ele, foi-lhe dada a graça, ele foi chamado para o
apostolado, a fim de que pusesse em ação essa obediência da fé
entre todas as nações. Agora precisamos examinar essa frase,
porque é uma frase vital e significativa. A Versão Revista (inglesa)
não diz, “para a obediência à fé” (como diz a Versão Autorizada),
mas sim, “para a obediência da fé” (como diz a Versão de
Almeida, Edição Revista e Corrigida). A Versão Revista Padrão
diz, “para produzir a obediência da fé” - semelhante à Versão
Revista. Penso que é importante que adotemos a tradução da
Versão Revista (inglesa, (e da Revista e Corrigida, de Almeida).
Pretendo tentar mostrar-lhes que não é “obediência à fé”, mas
“obediência da fé”.

173
O Evangelho de Deus

Ora, é sumamente interessante observar que mais uma vez


o apóstolo diz aqui, no início, uma coisa que vai repetir no fim
desta sua Epístola. Podem ir direto ao fim de Romanos, ao
capítulo dezesseis, versículo 26, e verão que ele fala ali acerca
da revelação do mistério que foi mantido em segredo desde o
princípio do mundo. E então prossegue, dizendo: “Mas que se
manifestou agora, e se notificou pelas Escrituras dos profetas,
segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para
obediência da fé”. Para mim há algo encantador aí. Ele diz essas
coisas vitais no começo e, depois, conhecendo-nos como nos
conhece, repete-as no fim. Esquecemos com tanta rapidez!
Ficamos submersos e enredados nos diversos argumentos,
mas ele diz: é com isto que devemos começar, isto é “a
obediência da fé”. E tendo dito todo o mais, ele pergunta: que
foi que eu fiz? Falei a vocês sobre esta obediência da fé para
todas as nações.
Então, qual é o seu significado? Penso que é importante
que nos apercebamos de que não significa a obediência que a fé
produz; não significa a obediência resultante da fé, ou a
obediência à qual a fé leva. Muitos acham que significa isso, e
que o apóstolo está dizendo nesta passagem que o seu dever é
pregar a fim de produzir essa obediência à fé. Ele quer dizer,
afirmam eles, que ele conclamava as pessoas a crerem a fim de
que, tendo crido, fossem pô-la em prática - a obediência que se
segue à fé.
Penso, porém, que, quando vocês o interpretam desse modo,
estão omitindo algo que é realmente da maior importância. O
que o apóstolo diz é: “a obediência da fé”, a fim de assinalar
este ponto - que ele está falando acerca de uma obediência que
consiste da fé, ou, se vocês o preferirem, uma obediência da
qual a fé é o princípio central. Ora, por que estou fazendo essa
distinção? Por que estou dando ênfase a isso? Por que não tomo
a atitude de não me importar com qual das duas é a pretendida
pelo apóstolo? Por que fico insistindo em que significa
obediência da fé, em que a própria fé é a obediência, em que

174
Romanos 1:3-5

crer é ser obediente?


Bem, estou fazendo isso pela seguinte razão: parece-me que
um dos principais problemas relacionados com a evangelização,
especialmente nos dias atuais, é o nosso fracasso em não
percebermos que, primariamente, o pecado é desobediência.
Pecado não é só algo errado que eu faço e depois me faz sentir
miserável; pecado não é só aquilo que me estraga a vida e me
faz sentir abatido e infeliz; pecado não é só o que me põe por
terra, e que eu gostaria de dominar. E tudo isso, mas, meus
amigos, essa não é a primeira coisa que se deve dizer a respeito
de pecado. Contudo há muitos que pensam isso do pecado, e
estão à procura de alguém que os ajude a vencer o pecado. Eles
querem felicidade; querem paz; não querem cair em dada
tentação; querem libertação e, como ouvem dizer que Cristo
pode fazer isso por eles, declaram: crerei nEle, e O aceitarei, se
Ele me ajudar e me fizer feliz, e livrar-me do meu problema.
Todos nós queremos ver-nos livres de problemas, não queremos?
E existe o grande risco de pensarmos no Senhor Jesus Cristo
simplesmente como alguém que nos ajuda a sair das nossas
dificuldades.
Graças a Deus, Ele faz isso. Mas, antes de começarmos a
pensar nisso, devemos pensar noutra coisa. Que é pecado? Pecado
é a transgressão da lei. Primariamente, é rebelião contra Deus.
Pecado é a recusa a ouvir a voz de Deus. Pecado é a pessoa dar as
costas a Deus e fazer o que lhe vem à cabeça. E isso que o
pecado é, em última análise. E vocês vêem como é importante
compreender isso. A coisa vai desta maneira: todos vocês já
estiveram com gente boa que lhes diz: “Vocês sabem que eu
realmente não posso considerar-me pecador; nunca me senti
pecador”. Que é que tais pessoas querem dizer com isso? Bem,
querem dizer que nunca se embriagaram; que nunca se fizeram
culpadas de adultério ou de homicídio; que jamais cometeram
certos pecados. Conheço pessoas excelentes e respeitáveis que
foram formadas assim, e que dizem, às vezes genuína e
sinceramente - quase que eu gostaria de ter sido um beberrão,

175
O Evangelho de Deus

ou algo assim, para que pudesse ter esta grande experiência da


salvação. Talvez alguns de vocês tenham sentido algo
semelhante. Vocês sabem a que se deve isso? Deve-se a uma
definição errônea de pecado. Pecado é isto: a recusa a ouvir a
voz e a Palavra de Deus. Assim é que, se você está vivendo de
maneira respeitável, e não está ouvindo a Deus, você continua
sendo um terrível pecador. Se você está levando aquela vida
pouco reservada e marcada pela presunção, pensando em Deus
só uma vez ou outra, lembrando-se, talvez, de manhã e de noite
de que Deus existe, e está habituado a fazer as suas orações; se
é essa a sua atitude para com Deus, se não espera nEle e não
dá ouvidos à Sua Palavra, não a busca onde quer que esteja e
não procura praticá-la, nesse caso você é tão pecador como
qualquer bêbado ou adúltero; você não está ouvindo a Deus.
Isso constitui a essência do pecado.
Permitam-me fazê-los retroceder à prova final disso tudo.
Qual foi o pecado original? Acaso não foi a aceitação da sugestão
de satanás, que perguntou: “E assim que Deus disse?” O pecado
original do homem não consistiu em assassinato nem em
adultério nem em qualquer dessas coisas; consistiu tão-somente
nisto: que o homem parou de ouvir a voz de Deus. Parou de
obedecer a Deus. Na essência, pecado é isso. O pecado, então, é
isso, ou, na expressão de Paulo, escrevendo nesta Epístola, no
capítulo 8, versículo 7, “A inclinação da carne é inimizade
contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus...”. É isso! Por
muito respeitável que você seja, se pecado é isso, você não vê
que o propósito global da pregação do evangelho é chamar-nos
para exatamente o oposto? Se o pecado é desobediência, o que
é certo? A obediência. Se pecado é a recusa a ouvir a Deus,
qual será o agir correto? Bem, é ouvir a Deus. E vocês bem
sabem que é exatamente para fazer isso que o evangelho nos
chama - para a “obediência da fé” - para que ouçamos o que
Deus disse acerca de Seu amado Filho.
Pois bem, o apóstolo se preocupa muito com esse assunto,
e o vai repetindo na Epístola inteira. Permitam-me mostrar-

176
Romanos 1:3-5

-lhes outro modo de ver a questão. Estou sugerindo a vocês que


Paulo aqui nos diz que fé é obediência à Palavra de Deus; por
isso ele fala em “obediência da fé”. Ouçam-no dizê-lo de novo
no capítulo 6, versículo 17: “Mas graças a Deus que, tendo sido
servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a
que fostes entregues”. É isso que faz de você um cristão, que
você obedeceu de coração à forma das sãs palavras. Ou ainda
nos capítulos nove e dez, onde nos diz ele que está muito inquieto
com relação aos judeus, declarando: “Tenho grande tristeza e
contínua dor no meu coração... por amor de meus irmãos, que
são meus parentes segundo a carne”, de fato se aventura a dizer:
“Eu poderia desejar ser separado de Cristo” por amor deles,
para que fossem salvos. “Porque lhes dou testmunho de que
têm zelo de Deus, mas não com entendimento. Porquanto, não
conhecendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua
própria justiça, não se sujeitaram (a mesma idéia) à justiça de
Deus.” Ou também, no versículo 16 desse capítulo dez, ele se
expressa da seguinte maneira: “Nem todos obedecem ao
evangelho”, e, nessa passagem, obedecer ao evangelho, como
penso que vocês verão, se derem atenção ao contexto, não
significa um modo de viver; significa crer no evangelho.
“Quem creu na nossa pregação?”, e assim por diante. Obedecer
ao evangelho significa crer nele, aceitá-lo, submeter-se a ele. O
apóstolo sempre pregava dessa maneira. Lembram-se de como
ele pregou em Atenas? Vocês encontrarão a narrativa em Atos,
capítulo 17: “Mas Deus, não tendo em conta os tempos da
ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar,
que se arrependam”.
Por que você deve crer no Senhor Jesus Cristo? Para ser
liberto e para receber ajuda? Absolutamente não! Deus lho
ordena. Nada menos! Ele exige obediência. “Ele ordena a todos
os homens que se arrependam” (VA). E uma ordem de Deus,
que eu e vocês nos arrependamos e creiamos no evangelho. Nada
menos! O nosso Senhor ensinou pessoalmente essa verdade.
Vejam João 6:28,29, onde lemos que Lhe perguntaram: “Que

177
O Evangelho de Deus

faremos, para executarmos as obras de Deus?” Que dizes que


devemos fazer? “Jesus respondeu, e disse-lhes: a obra de Deus
é esta: que creiais naquele que ele enviou.” Querem saber o que
devem fazer? Querem saber como podem ser obedientes? É isso
que lhes cabe fazer. Essa é a maneira de ser obediente. Crer
naquele que Deus enviou. Portanto, não nos causa surpresa
que o apóstolo João diga: “E o seu mandamento é este: que
creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo” (1 João 3:23). Deus
lhe manda crer em Seu Filho, e se você não crer nEle, estará
quebrando o mandamento; estará sendo desobediente. Não
estará sendo obediente. Não estará exercendo a obediência da
fé. Mas, como podemos ver, João vai mais adiante: “Quem crê
no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho; quem a
Deus não crê mentiroso o fez”! Fez a Deus mentiroso!
“Porquanto não creu no testemunho que Deus de seu Filho
deu” (1 João 5:10).
Agora vocês vêem que é importante ler a expressão
entendendo-a como “a obediência da fé”. Por que devo crer no
evangelho? A primeira razão que todos nós temos para crer no
evangelho não é que ele vai fazer isso ou aquilo por mim; jamais
deverei pregar dessa forma. Apregoo isso porque é o registro
dado por Deus concernente a Seu Filho, e eu lhe digo que, se
você não crê nisso, está fazendo a Deus mentiroso; está rejeitando
a Palavra do Deus santo e eterno, e esse é o pecado mais terrível.
Cabe-nos pregar este evangelho e dizer aos homens que, se não
o crerem, estarão recusando a Deus, e nada lhes restará, senão a
perdição e o castigo. “A obediência da fé.” A tarefa da
evangelização é contar aos homens e às mulheres o que Deus
fez registrar acerca do Seu Filho: que Ele é Jesus Cristo, o nosso
Senhor. Deus declarou isso e o comprovou, ressuscitando-0
dentre os mortos.
Cada vez me convenço mais de que todos os nossos
problemas surgem do fato de que o evangelho não está sendo
pregado desse modo. Pessoas de muitos círculos estão
preocupadas. Que é que explica a diminuição? perguntam elas.

178 1
Romanos 1:3-5

Há os que parecem ter-se tornado cristãos, mas, onde estão?


Desvaneceram-se, desapareceram. Qual é a questão? Bem, eis a
questão: terão compreendido que estavam crendo no Senhor
Jesus Cristo, ou apenas achavam que poderiam ser libertados
de algum pequeno problema? Estavam só em busca de alguma
ajuda e de conforto? Não, não! Ele fará tudo isso por você,
todavia somente quando você crer nEle como Jesus Cristo, o
Senhor. Porque, você dirá, este é o registro feito pelo próprio
Deus, e eu não me atrevo a rejeitar a Palavra de Deus. Você se
dá conta de que é pecador porque O rejeitou, e que ser salvo
significa primeiro e acima de tudo que você crê em Deus, que
você obedece a Deus. Você crê em Seu Filho porque Ele lhe
ordena que o faça, porque Ele O enviou e exige que você se
arrependa e creia no nome do Seu Filho unigénito. E o que
Paulo diz aqui, escrevendo aos romanos; “pelo qual”, diz ele,
“recebi a graça; pelo qual recebi o apostolado, e Ele me enviou
para chamar os homens para a obediência da fé”. Ele continua
e lhes diz que lhes vai expor essa verdade. Eles já se renderam a
essa obediência; agora ele deseja que eles a entendam mais
completamente. Por isso lhes escreve. Ah, que todos nós nos
agarremos firmemente a esta verdade! Fé e obediência à
Palavra de Deus. Não crer é desobedecer à Palavra de Deus,
é rejeitá-10 e fazê-10 mentiroso. O que importa não são os
seus pecados particulares, nem os meus; eles diferem em cada
caso. Um quer isto, outro quer aquilo. Aqui, no entanto, somos
todos um; somos todos pecadores porque rejeitamos a Palavra
de Deus. E cristãos são todos aqueles que se submeteram a ela
e obedeceram à ordem de Deus, que manda crer no nome do
Seu Filho unigénito.

179
11
“Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi,
segundo a carne, declarado Filho de Deus em poder, segundo o
Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos -Jesus Cristo
nosso Senhor, pelo qual recebemos a graça e o apostolado, para a
obediência da fé entre todas as gentes pelo seu nome. ”
- Romanos 1:3-5

Continuamos estudando o versículo 5 porque há outras


coisas que devemos dizer acerca desta interessante e importante
passagem, e, certamentc, é propósito do apóstolo que a
salientemos. Ele usa a frase “a obediência da fé”
delibcradamente, com o fim de salientar mais uma coisa, uma
característica essencial do evangelho, a que nos fala da “justiça
de Deus que é pela fé”. Ora esse vai ser, como veremos, um
tema de grande importância nesta Epístola em particular; é
algo a que o apóstolo dá ênfase em toda parte. A boa nova é que
somos reconciliados com Deus; somos justificados à vista de
Deus, não com base em obras que tenhamos praticado,
quaisquer que sejam, mas pela fé. Essa é a mensagem. Ele
aborda o tema especificamente nos versículos 16 e 17, onde
diz: “Não me envergonho do evangelho de Cristo”. Por quê?
Porque “é o poder de Deus para salvação de todo aquele que
crê: primeiro do judeu, e também do grego. Porque nele (neste
evangelho) se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como
está escrito: mas o justo viverá da fé”. Essa é a mensagem
peculiar do evangelho. Já não devemos pensar em termos de
obras. Ele vai argumentar amplamente sobre isso nos primeiros
capítulos desta Epístola. Aqui o segredo todo é que é pela fé,
pela obediência da fé, contrariduíente a toda e qualquer idéia

180
Romanos 1:3-5

de salvação em termos das nossas obras ou da nossa justiça


própria.
De novo, porque isso é tão grandemente importante, ele
irá acentuá-lo no capítulo três, versículos 21 e 22. “Mas agora”,
diz ele (depois de haver demonstrado que pelas obras da lei
nenhuma carne poderá ser justificada à vista de Deus) “se
manifestou sem a lei a justiça de Deus, tendo o testemunho da
lei e dos profetas; isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo
para todos e sobre todos os que crêem; porque não há diferença”.
Aí está, certamente, a grande questão que recebe ênfase na
Epístola toda, principalmente nestes primeiros capítulos, de
modo que aqui, nesta introdução geral, o apóstolo o apresenta
como um tema. Ele não diz que foi enviado para chamar as
pessoas para simplesmente aceitarem o evangelho; delibe-
radamente coloca a questão em termos da “obediência da fé” -
não obediência das obras - obediência da fé, agora. E, portanto,
é vital que exponhamos a plena ênfase dada por ele e, ao mesmo
tempo, devemos salientar a palavra “obediência” - os dois
vocábulos sempre devem ser tomados juntos - a “obediência
da fé”.
Por conseguinte, o nosso interesse está em salientarmos a
palavra obediência, da seguinte maneira - mostrando que crer
no evangelho não é mera questão intelectual. Inclui o intelecto,
mas obedecer ao evangelho - a obediência da fé - é algo mais
do que mostrar aceitação intelectual ou dar assentimento
intelectual ao ensino do evangelho. Portanto, este ponto é
essencial e crucial. Quando alguém crê no evangelho, isso é
realmente a obediência da fé. Noutras palavras, crer inclui um
elemento de entrega; inclui um elemento de submissão. Aí está
outra tese que o apóstolo defende várias vezes nesta Epístola,
como também em todas as outras Epístolas que escreveu. Vejam,
por exemplo, como ele o faz no capítulo seis desta Epístola, no
versículo 17, que já consideramos com relação a outro ponto.
“Graças a Deus”, diz ele, “que, tendo sido servos do pecado,
obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes

181
O Evangelho de Deus
/
entregues”. E como o apóstolo descreve a conversão de uma
pessoa, e como ele nos fala de alguém que vem a crer no
Senhor Jesus Cristo. Ele diz, como vocês podem observar:
“Obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes
entregues”. Ou permitam que lhes torne a lembrar que no
capítulo dez, versículo 10, ele faz esta colocação: “Com o coração
se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a
salvação”. Como vocês vêem, o homem está integralmente nisso,
porquanto “o coração”, como a expressão é empregada ali, e
como é geralmente empregada nas Escrituras, não se refere
somente às emoções; refere-se ao centro da personalidade.
Quando alguém crê, declara Paulo, crê com a totalidade da sua
personalidade e confessa com a boca. Por isso digo e reitero
que a palavra “obediência” assinala a idéia de entrega e
submissão.
Noutras palavras, crer no evangelho, crer no Senhor Jesus
Cristo, não é uma espécie de “fideísmo”, que tem feito tanto
estrago na Igreja. Este é, seguramente, um assunto vital, que
devemos ter em mente o tempo todo. Vejam aquele versículo
que já citei: “Com o coração se crê... e com a boca se faz confissão
para a salvação”. Houve uma terrível heresia há cerca de cento
e setenta anos chamada sandemanismo. Atualmente não se ouve
falar muito a respeito; creio que só resta uma igreja sandemanista
na Inglaterra, embora tenha sido outrora um movimento de
vulto. Essa heresia ensinava que tudo o que a pessoa tem que
fazer é dizer que crê no Senhor Jesus Cristo, e tudo mais está
bem. Sentir ou não sentir algo, não importa. Sua maneira de
viver não importa, contanto que diga que crê no Senhor Jesus
Cristo - “Confissão se faz com a boca para a salvação”. Esse era
o grande texto bíblico para os sandemanistas. E uma espécie de
“fideísmo”e, como eu disse, causou terrível estrago na Igreja.
Houve um famoso pregador batista, chamado Christmas Evans,
que tinha sido grandemente usado por Deus, mas que se tornou
vítima da heresia sandemanista. Ele desenvolveu uma terrível
sequidão de alma, permanecendo assim durante anos, com um

182
Romanos 1:3-5

ministério completamente improdutivo, até que de repente


percebeu que a causa da sua dificuldade era que o seu coração
se tornara impassível e frio. O que ele dizia era certo, mas não
sentia seu poder e sua influência. Sua libertação lhe veio medi­
ante uma grande experiência que lhe foi concedida quando ele
estava viajando por uma estrada nas proximidades de uma
montanha chamada Cader Idris. Subitamente o Espírito
retornou ao seu coração e de tal maneira o enterneceu que ele
voltou para casa livre da escravidão, e foi o instrumento de um
grande avivamento na região em que vivia. Pois bem, ninguém
poderia fazer-se vítima da heresia sandemanista, se se lembrasse
desta frase, “a obediência da fé”. O homem completo está envol­
vido. Você não será salvo se apenas disser que crê no Senhor
Jesus Cristo. A personalidade toda deverá estar envolvida.
Vejam o ensino do nosso Senhor sobre este assunto, em Sua
parábola dos dois filhos. Disse Ele: “Um homem tinha dois
filhos e, dirigindo-se ao primeiro, disse: filho, vai trabalhar hoje
na minha vinha. Ele, porém, respondendo, disse: não quero.
Mas depois, arrependendo-se, foi. E, dirigindo-se ao segundo,
falou-lhe de igual modo; e, respondendo ele, disse: eu vou,
senhor, e não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai?” perguntou
o nosso Senhor. “Disseram-lhe eles: o primeiro.” E o nosso
Senhor lhes disse que tinham respondido corretamente. No
entanto, notem o que Ele diz; o primeiro rapaz, quando o pai
lhe disse que fosse trabalhar na vinha, disse: “Não quero”, mas
arrependeu-se e foi. E o ato de ir faz parte do arrependimento,
pois se ele meramente dissesse: “Está certo, lamento ter dito
que não ia; agora digo que vou” - se ele meramente houvesse
dito isso, e não fosse, não teria feito a vontade de seu pai,
exatamente como o segundo rapaz que disse: “Eu vou, senhor”,
e não foi. Não, não! Obediência significa ir; não só arrepender-
-se e entristecer-se, porém ir e trabalhar na vinha: ele
arrependeu-se e foi.
Ora, é isso que significa crer no Senhor Jesus Cristo. Não
significa apenas uma declaração de que cremos. Não significa

183
O Evangelho de Deus

meramente aceitar com o intelecto, ou assentir com o intelecto.


Significa uma rendição de nós mesmos, uma entrega de nós
mesmos, o envolvimento de toda a nossa personalidade.
Então, conforme o ensino do apóstolo, ninguém que não se
tenha arrependido e abandonado sua vida de pecado passando
a ter vida de obediência a Deus em Jesus Cristo, pode ser
considerado como alguém que crê no evangelho. Certamente,
crer no evangelho não pode significar menos que isso! Se digo
que creio no evangelho, tenho que estar dizendo que acredito
que sou pecador, que estou debaixo da ira de Deus, que estou
destinado ao inferno, e que não posso salvar-me, mas que
Deus providenciou o caminho em Jesus Cristo, e Este
crucificado, e portanto eu creio. Contudo, se creio nisso, não
vou continuar como estava. Devo entristecer-me por meu
pecado, que tornou necessária a vinda do Filho de Deus ao
mundo, e a Sua terrível morte na cruz. Devo entristecer-me
por meu pecado, pois por que eu iria a Ele se não estou cônscio
do meu pecado? E, tendo feito isso tudo, abandono o meu
pecado; não quero mais pertencer ao mundo e ao seu pecado;
quero pertencer a Ele e agradar Aquele que tanto fez por mim.
Dou-me a Ele. Como vimos, ninguém pode crer no Senhor Jesus
Cristo, a menos que creia nEle como o seu Senhor, igualmente
como o seu Salvador.
Mas vocês vêem quantas vezes as pessoas parecem estar
realmente ensinando uma espécie de “fideísmo”, dizendo que
é possível ser cristão sem passar pelo arrependimento - que
isso virá mais tarde. Entretanto, em que você creu? Que significa
crer no Senhor Jesus Cristo, se não existe esta tristeza pelo
pecado, esta percepção da sua condição desesperada, em
conseqüência do pecado? Pois bem, a expressão, “a obediência
da fé”, inclui tudo isso. O apóstolo emprega as suas expressões
de maneira muito deliberada; ele não diz apenas: “Creia no
evangelho”; ele diz: “a obediência da fé”. A fé é sempre uma
obediência. Não estou falando das obras que deverão seguir-se
a tudo isso. Torno a dizer que o próprio processo de tornar-se

184
Romanos 1:3-5

cristão é esta “obediência da fé”. Visto que eu creio nisso, e


quando creio, deixo o pecado e me volto para Deus cheio de
gratidão pelo que Cristo Jesus fez por mim. E, na passagem
que estamos estudando, o apóstolo nos diz que recebeu a graça
e o apostolado a fim de chamar as pessoas para esta obediência
da fé.
Depois, o que ele nos diz é que foi chamado para realizar
isso “entre todas as gentes” (VA: “entre todas as nações”). Aí
está outro importante acréscimo à declaração. Vocês verão que
há muito desacordo quanto ao sentido exato dessa frase. Alguns
a traduzem por “entre todos os gentios” (e.g., ARA), que é uma
explicação possível, porque a palavra final pode ser traduzida
por “nações” ou por “gentios”. Como decidir, pois, qual das
duas traduções é a mais correta? Bem, os que escolhem a palavra
“gentios” geralmente o fazem porque nesta mesma Epístola,
no capítulo onze, versículo 13, Paulo ufana-se de que é,
eminentemente, o apóstolo dos gentios, e vemos que ele
engrandece o seu ofício como tal. E, portanto, aqui ele está
falando dos gentios porque está escrevendo à igreja em Roma.
Ora, vocês podem muito bem lembrar que entre os membros
daquela igreja havia judeus e gentios, de modo que isso não
serve como argumento.
Parece-me, porém, que há outros argumentos, e muito
fortes, que me compelem pessoalmente a rejeitar a tradução
que diz “gentios”e não “nações”. Minha adesão é à Versão
Autorizada, que diz: “Por quem recebemos a graça e o
apostolado para a obediência da fé entre todas as nações, pelo
seu nome”. Por quê? Bem, aqui vão algumas das razões: se
Paulo estivesse realmente falando acerca dos gentios, não teria
feito uso da palavra “todos”. Não há sentido em dizer: “Por
quem recebemos a graça e o apostolado para a obediência da fé
entre todos os gentios”; simplesmente precisaria dizer: “...para
a obediência da fé entre os gentios”, e nada mais. Mas ele
emprega deliberadamente a palavra “todos”, e esse é um ponto
signficativo. Segundo, penso que é “nações”, e não “gentios”,

185
O Evangelho de Deus

porque nesta altura ele está fazendo uma declaração geral acerca
do evangelho propriamente dito. Isso fica bem claro quando
ele começa a falar particularmente acerca da igreja em Roma.
Este versículo cinco conclui a introdução geral da Epístola; a
introdução particular referente aos romanos começa no ver­
sículo 6, e vai até por volta do versículo 16. Assim, aí está a
segunda razão.
No entanto, há razões ainda mais fortes. Se vocês lerem a
narrativa do chamamento feito pelo Senhor Jesus Cristo ao
apóstolo no caminho de Damasco (vocês o encontrarão em
Atos, capítulo 26), verão que o Senhor lhe disse especificamente
que O estava enviando aos judeus - seu povo - e “também aos
gentios”. Não somente aos gentios, mas primeiro aos judeus;
e o apóstolo Paulo, como nos diz o registro em Atos, de fato
pregou aos judeus antes de começar a pregar aos gentios. Na
passagem que estamos estudando ele se põe com os outros
apóstolos, “por quem (nós) - que pertencemos ao colégio
apostólico - “recebemos a graça e o apostolado”. E os apóstolos
foram enviados aos judeus primeiro, e também aos gentios;
eles deveriam começar em Jerusalém, indo depois para Sama-
ria, e depois até os confins da terra. Assim é que, ao que me
parece, aí está outro forte argumento pró “nações” e contra
“gentios”.
O próximo é que, afinal de contas, este é um dos grandes
temas da Epístola aos Romanos; é um dos fatos pelos quais o
apóstolo mais se regozija. Ouçam-no no versículo 16 - ele não
consegue passar adiante sem o dar a público - “Não me
envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus
para salvação de todo aquele que crê: primeiro do judeu, e
também do grego”. E disso que ele se ufana, e essa é a razão
pela qual ele exulta nesse fato; é por isso que, para tornar a usar
as suas palavras, ele não se envergonha do evangelho, “pois é o
poder de Deus para salvação de todo aquele que crê: primeiro
do judeu, e também (eis aí esse espantoso “também”) do grego”.
Aí está o fato surpreendente; não mais os judeus somente, mas

186
Romanos 1:3-5

também foram incluídos os gentios. E depois ele dá


continuidade ao seu poderoso argumento para provar que toda
a humanidade tem necessidade do evangelho. Ele o toma no
versículo 18 do capítulo primeiro, e vai até o versículo 20 do
capítulo três, provando que todos os gentios estão debaixo da
ira de Deus; e, no capítulo dois, que todos os judeus também
estão debaixo da ira divina. Todos precisam igualmente da
salvação - “Não há um justo, nem um sequer”. E então ele
conclui a argumentação com uma das suas grandes declarações,
que vocês poderão ver no versículo 22 do capítulo três - “A
justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos
os que crêem; porque não há diferença. Porque todos pecaram
e destituídos estão da glória de Deus”.
E então, mesmo isso não bastou, porque no versículo 29
ele o coloca na forma de uma pergunta retórica: “É porventura
Deus somente dos judeus? E não o é também dos gentios?
Também dos gentios, certamente”! Era nisso que o apóstolo se
regozijava - não somente Deus dos judeus, mas também dos
gentios. E depois, naturalmente, no capítulo onze, ele faz esta
tremenda declaração a respeito: chegará a plenitude dos gentios;
todo o Israel será salvo. Eis, pois, aí - esta gloriosa concepção,
“a plenitude dos gentios”; “a plenitude dos judeus”, e assim a
obra se completa, e o Reino será devolvido a Deus.
Continuando, mais um argumento a favor desta tradução é
que esse é o grande tema do apóstolo em cada uma de suas
Epístolas. Vejam a Epístola aos Efésios. Que é que está
acontecendo nesta dispensação? - pergunta ele. Bem, é o grande
programa de Deus para reunir em um só todas as coisas, no céu
e na terra - todas as coisas - em Cristo Jesus. A parede de
separação que estava no meio foi derribada; “ele evangelizou a
paz, a vós que estáveis longe, e aos que estavam perto”. Não
somente aos judeus, mas também aos gentios, que estavam
“separados da comunidade de Israel... não tendo esperança, e
sem Deus no mundo”. Mas agora foram trazidos para perto,
foram introduzidos nas promessas do Reino, na comunidade

187
0 Evangelho de Deus

de Deus. É um grande tema em toda parte. E, portanto, digo e


repito, fiquemos com a palavra “nações” aqui - nação judaica,
nações não judaicas - todas as nações. Noutras palavras, o que o
apóstolo está anunciando aqui é algo que o emocionava, a saber,
a verdade que declara que o Senhor Jesus Cristo é o Salvador
do mundo. Ele não é meramente um Messias judaico. Agora
“não há grego nem judeu... bárbaro, cita, servo ou livre”
(Colossenses 3:11) - tudo isso passou - o Salvador do mundo!
E por isso que o apóstolo gosta de repetir o nome - Jesus Cristo
nosso Senhor. Este glorioso e bendito Salvador, que é
suficientemente grande e grandioso para incluir o mundo
inteiro. Filho de Deus bem como Filho do homem. Não apenas
semente de Davi, porém o eterno, o sempiterno, o unigénito
do Pai.
Ah, vejam vocês, Paulo não é o único que se regozijava
nisso. Observem Simeão, quando tomou nos braços o Infante,
e disse: “Esta é a verdade a seu respeito: Ele é luz para alumiar
as nações, e para glória de teu povo Israel”. Como vocês vêem,
essa realidade lá está desde o princípio, e constitui a glória
especial do nosso evangelho. De fato o nosso Senhor ensinara
esta verdade, quando dissera: “E eu, quando for levantado da
terra, todos atrairei a mim”. Não significa todos os indivíduos;
significa todas as nações. Vocês se lembram do contexto dessa
passagem, em João, capítulo 12. Alguns gregos tinham ido à
festa, e disseram: “Gostaríamos de ver Jesus”, e a resposta foi:
“Agora não; agora vocês não podem ver-Me. Mas quando Eu
for levantado - quando Eu for crucificado, tendo consumado a
obra - atrairei a Mim todos os homens - homens de todas as
nações”. “Eu sou a luz do mundo, diz Ele. Ou também: “Ainda
tenho outras ovelhas que não são deste aprisco” - este aprisco é
o judaico - mas “tenho outras ovelhas que não são deste aprisco”
(João 10:16). Não é de admirar o fato de que, logo no princípio,
os apóstolos inspirados podiam enfrentar as autoridades que os
tinham proibido de pregar neste grandioso nome - que podiam
encará-los e dizer-lhes: “Em nenhum outro há salvação, porque

188
Romanos 1:3-5

também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre


os homens, pelo qual devamos ser salvos” (Atos 4:12). A
“obediência da fé entre as nações” - o Messias judaico, o Salvador
do mundo. Todas as nações! Que mensagem maravilhosa! Não,
não! Ele não está apenas dizendo, na passagem em foco, que é
o apóstolo dos gentios; ele tem um evangelho para pregar a
toda e qualque pessoa, seja quem for - ao judeu e ao grego, ao
sábio e ao ignorante, não importa quem seja - qualquer alma
que esteja em necessidade e que creia - aqui está o Salvador
que a salva. “Todas as nações.”
Isso me leva agora ao derradeiro ponto. Como já indiquei,
o apóstolo tinha três grandes razões para mencionar constante­
mente este nome; ele é o que é por causa de Jesus Cristo; ele faz
o que faz por causa dEle. Eis a minha terceira e última razão,
diz Paulo: eu faço o que faço por Seu nome, “por quem recebemos
a graça e o apostolado, para a obediência da fé entre todas as
nações-por seu nome”. Ah! Este é o clímax. Traduzam-no, se
quiserem, com a Versão Revista Padrão (“RSV”) nesta altura:
“Por amor do seu nome”. Sou um apóstolo, diz Paulo, sou um
pregador, estou chamando gente de todas as nações para a
obediência da fé. Por que estou fazendo isso? Por amor do Seu
nome. Esse é o seu motivo; essa é a sua razão. Pois bem, que é
que significa isso? Vocês poderão expressá-lo da seguinte
maneira, se o preferirem: para a Sua glória.
A introdução do termo “nome” é importante e significativa.
Nas Escrituras o nome sempre representa a revelação pela qual
conhecemos e compreendemos a pessoa indicada. No Velho
Testamento, por exemplo, Deus revelou-Se à nação de Israel
por meio dos Seus nomes; vocês poderão encontrá-los nas
Escrituras do Velho Testamento. Jeová e os vários acréscimos a
esse nome - Jeová-jireh, Jeová-shalom, etc. Deus Se fez
conhecido por intermédio de nomes - nomes que são descritivos
dEle, da Sua Pessoa, dos Seus motivos, dos Seus desejos e das
Suas atividades. O nome revela o homem; a respeito de um
homem dizemos que ele tem “um nome importante” como

189
O Evangelho de Deus

advogado ou como médico ou seja qual for a sua profissão.


Queremos dizer com isso que o nome que ele fez para si nos
fala sobre ele. Pois bem, o apóstolo o emprega aqui nesse sentido
- o nome retrata e representa a glória do Senhor Jesus Cristo.
Faço isso, afirma Paulo, prego, por amor da Sua glória, com o
fim de levar as pessoas a glorificá-10 e a gloriar-se nEle.
Segue-se, pois, que, pela obediência ao evangelho, pela
nossa obediência da fé, glorificamos o Senhor Jesus Cristo.
Portanto, a declaração do apóstolo é que ele prega e trabalha
para essa grandiosa finalidade; esse é o seu principal motivo; é
isso que o impulsiona a ir avante - que Cristo seja glorificado,
que a Sua glória se manifeste entre as pessoas, e que todos vivam
para o louvor da glória da Sua graça. Esse é o seu tema constante.
Aqui, de novo, eu gostaria de fazer uma pausa por um momento
para acentuar esta verdade vital, especialmente nos dias atuais.
Vocês notaram aquela declaração significativa registrada no
capítulo dezessete do evangelho Segundo João, uma das coisas
mais espantosas que o nosso Senhor disse acerca dos cristãos?
Deram-se conta de que ela se aplica a vocês? Diz ele: “Todas as
minhas coisas são tuas, e as tuas coisas são minhas; e nisso eu
sou glorificado” (ARA: “e neles eu sou glorificado”). Observem
o contexto. Ele dissera que tinha glorificado o Seu Pai enquanto
estivera na terra, e agora, diz Ele, estou retornando a Ti; eles
estão no mundo, e Eu sou glorificado neles. O Pai foi glorificado
nEle; Ele é glorificado neles.
Muito bem, eu acredito que o apóstolo está ensinando algo
semelhante na passagem de Romanos que estamos estudando.
Ele considerava a obra que realizava, na qualidade de apóstolo,
como fazendo parte desta glorificação do Senhor Jesus Cristo.
Isso é de tremenda significação para nós da seguinte maneira:
não crer no Senhor Jesus Cristo é negar-se a glorificá-10, e isso
é a essência do pecado. Por certo vocês se lembram de como o
nosso Senhor o expressa. Falando acerca da vinda do Espírito
Santo, Ele diz: “E, quando ele vier, convencerá o mundo do
pecado, e da justiça e do juízo. Do pecado, porque não crêem

190
Romanos 1:3-5

em mim; da justiça, porque vou para meu Pai, e não me vereis


mais; e do juízo, porque já o príncipe deste mundo está
julgado”. Mas vocês notam a primeira expressão destas três -
“Do pecado, porque não crêem em mim”. Deus glorificou e
honrou Seu Filho. Seu Filho orou a Ele: “E agora glorifica-me
tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo
antes que o mundo existisse”. E o Pai O glorificou. E como
vimos, Ele o fez eminentemente na ressurreição e na exaltação
do Senhor Jesus Cristo. Ele foi glorificado pelo Pai. E eu e vocês
somos chamados para glorificá-10 também. “Neles eu sou
glorificado”, diz Ele. Assim, como cristãos, somos chamados
para isso; essa é a nossa vocação; essa é a nossa tarefa.
Como, então, podemos fazê-lo? Como posso glorificar o
Senhor Jesus Cristo? Bem, eu o faço crendo nEle. Quando digo
que Ele é o Filho unigénito, eu O estou glorificando. Jesus, o
homem - Filho de Deus. Eu O estou glorificando; estou me
gloriando nEle. Não somente isso! Quando creio nEle estou
declarando, estou proclamando, que Ele veio do céu à terra
para redimir a minha alma, graças ao Seu grandioso e admi­
rável amor, mesmo sabendo que isso significava a morte, e morte
de cruz. E quando digo isso, eu O estou louvando, estou me
gloriando nEle e O estou glorificando. Sim, mas não devemos
fazer isso apenas com as nossas palavras; devemos fazê-lo com
a nossa vida. Vocês devem lembrar-se da colocação que Pedro
faz disto em sua Primeira Epístola: “Vós sois a geração eleita, o
sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido (VA: “um povo
peculiar”), para que anuncieis as virtudes (as excelências, as
glórias) daquele que vos chamou
y
das trevas para a sua
maravilhosa luz” (2:9). E o que somos como cristãos; cabe-nos
manifestar as Suas perfeições, as Suas virtudes, a Sua grandeza,
as Suas glórias. Devemos tornar isso manifesto - tornar
manifestas as virtudes daquele que nos chamou das trevas.
Fazemos isso com nossas vidas. E por isso que devemos abster­
mos das cobiças da carne que militam contra a alma, diz
Pedro, porque não podemos condescender nessas coisas e, ao

191
O Evangelho de Deus

mesmo tempo, glorificar o Senhor Jesus Cristo. Na qualidade


de cristãos, proclamamos que Cristo nos livra do pecado e de
satanás. Assim O estamos glorificando quando vivemos a vida
cristã. As pessoas deveriam poder olhar para nós e dizer que
Ele fez isso por nós. Nós O estamos glorificando. Por amor do
Seu nome o fazemos.
Não somente isso. Nós O glorificamos pelo desejo de que
todos venham a Cristo e pelo desejo de que todos O louvem. Se
alguém lhes faz uma bondade, vocês falam disso com todo o
mundo. De novo, permitam-me usar uma ilustração. Você
adoeceu e foi ao médico, só para saber que ele não pode ajudá-
-lo. Vai a muitos outros; não o podem ajudar. Por fim você
encontra alguém que o cura. Bem, que é que você faz? Fala a
respeito dele com todo o mundo, e quer enviar a ele todo o
mundo; quer que todos pensem bem dele; você diz quão
maravilhoso ele é, e todos têm que ouvir a respeito dele. Os
cristãos devem ser assim com o seu Senhor. Vivemos por amor
dEle, por amor do Seu nome, por amor da Sua glória. Queremos
que todos venham dobrar os joelhos diante deste Senhor tão
glorioso e tão maravilhoso.
E ao mesmo tempo, é claro, ficamos na expectativa da Sua
volta, pois sabemos que quando Ele voltar, não virá em forma
de humilhação. Da próxima vez Ele virá como o Rei dos reis, e
o Senhor dos senhores. Estará cavalgando as nuvens do céu,
rodeado dos santos anjos, e imporá total derrota aos Seus
inimigos, eliminará o pecado e o mal, e estabelecerá o Seu
reino e o Seu domínio. Quem somos como cristãos? Bem, de
acordo com Paulo, escrevendo a Tito, somos aqueles que estão
“aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da
glória do grande Deus e nosso Senhor Jesus Cristo” (2:13). Sou
um apóstolo, Paulo afirma, e prego - por quê? Por amor do Seu
nome. Quero que todo o mundo caia aos Seus pés e eleve os
seus olhos com devoção, assombro e louvor quando pensarem
no bebê de Belém, no menino na companhia dos doutores da
lei no templo, no carpinteiro, no jovem de trinta anos de idade

192
Romanos 1:3-5

saindo para pregar. Oxalá, que o mundo se inclinasse diante


dEIe! Por Seu nome é que estou fazendo isso, Paulo diz.
Este é o grande tema da Bíblia. Lembram-se dos termos
em que é posto no Salmo dois? Todo ele fala da ressurreição e
da ação do Pai glorificando Seu Filho; e o Filho dirige-Se aos
príncipes e aos reis da terra com estas palavras: “Agora, pois, ó
reis, sede prudentes; deixai-vos instruir, juízes da terra. Servi
ao Senhor com tremor, e alegrai-vos com tremor”. Notem agora
isto: “Beijai o Filho” - aí está o Filho em Seu trono; caiam de
joelhos, beijem os Seus pés; Ele é o Rei, rejeitado pelo mundo.
“Os reis da terra se levantam... Eu, porém, ungi o meu Rei
sobre o meu santo monte de Sião.” Portanto, “Beijai o Filho”,
sim, beijai os Seus pés num ato de homenagem, de humilde
respeito e de obediência a Ele. “Beijai o Filho, para que se não
ire, e pereçais no caminho, quando em breve se inflamar a sua
ira.” E isso que o apóstolo está dizendo: “Recebi a graça e o
apostolado, para a obediência da fé entre todas as nações - pelo
seu nome”. Ah, sim, ele pregava para que homens e mulheres
fossem salvos e fossem libertos dos seus pecados habituais, e
tivessem felicidade, paz e alegria. Contudo isso não era a primeira
coisa. A primeira era esta bendita Pessoa - que todos se
inclinassem perante Ele e confessassem que Jesus Cristo é o
Senhor, para glória de Deus Pai. Ah, Paulo fazia tudo por esta
razão: “Para mim o viver é Cristo”, diz ele, “e o morrer é ganho”
(Filipenses 1:21), porque isso significa estar com Ele. O que
importava era a glória de Cristo, e somente isso, para o apóstolo
Paulo. Ele era um homem impregnado de Cristo; vivia para o
Seu louvor e para a Sua glória.
Mas, caros amigos, e nós? E assim que vivemos? Esse é o
propósito com respeito a nós. “Neles eu sou glorificado”, diz o
nosso bendito Senhor. Por nossa fé, por nossa vida e por tudo
o que somos e fazemos, isso é verdade a nosso respeito? Façamos,
então, esta oração juntos - a oração de Johann Caspar Lavater,
que se encontra naquele hino notável,

193
O Evangelho de Deus

Que Jesus Cristo em mim cresça,


E tudo mais se desvaneça.

Ouçam esta estrofe:

Que a fé em Ti e em Teu poder


Do meu querer seja o motor.
Sê Tu somente o meu prazer,
Minha paixão e meu amor.

Paulo viveu, trabalhou, empenhou-se e morreu pelo nome


de Cristo. E você? Nós fomos chamados para isso. Esse é o nosso
elevado privilégio - viver para Ele e para a Sua glória - para
Aquele que desceu do céu à terra, que morreu e ressuscitou
para que fôssemos feitos filhos de Deus. Pelo Seu nome.

194
12
“Entre as quais sois também vós chamados para serdes de Jesus
Cristo. A todos os que estais em Roma, amados de Deus, chamados
santos: graça epaz de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo.”
- Romanos 1:6,7

Nestes versículos o apóstolo focaliza as suas palavras


diretamente sobre as pessoas a quem ele está escrevendo. Como
vocês se lembram, ele tinha começado por descrever a si mesmo.
Tinha que fazer isso; tinha que dar algum motivo ou alguma
explicação sobre por que lhes estava escrevendo, e ele o faz
dizendo-se “servo” de Jesus Cristo, um “chamado” apóstolo,
alguém que fora “separado para o evangelho de Deus”. Mas a
simples menção disso o impelira àquela maravilhosa sinopse
do evangelho, e ao seu grande e maravilhoso conteúdo. E, tendo
terminado a descrição disso, no fím do versículo 4, volta a falar
sobre si mesmo dizendo: “Pelo qual recebemos a graça e o
apostolado, para a obediência da fé entre todas as nações pelo
seu nome”. E então isso o leva aos romanos: “entre as quais
sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo”.
Pois bem, vocês vêem, essa é a conexão exata com o
precedente acima. Concluímos com o seu relato do evangelho,
com o seu sumário da doutrina cristã, e aqui estamos chegando
à sua descrição das pessoas às quais dirige sua carta, e ele aborda
isso, vocês notam, da seguinte maneira: ele é alguém que foi
chamado para ser apóstolo, foi-lhe dada a graça que fez dele um
apóstolo, e ele foi chamado para pregar este evangelho, e para
chamar homens e mulheres à “obediência da fé entre todas as
nações” - não somente os judeus, mas também, como vimos,
os gentios. E, portanto, diz ele, é aí exatamente onde vocês

195
O Evangelho de Deus

entram; vocês são uma destas “nações”. Sem dúvida ele estava
pensando em particular nos gentios nesta altura, pois, como já
vimos, conquanto a igreja em Roma tivesse certo número de
judeus, é óbvio que era uma igreja essencialmente gentílica,
porque, afinal de contas, Roma era a grande metrópole do
Império Romano e o centro de todos os povos gentílicos. Assim
o apóstolo, desta maneira muito natural, se dirige a estes
membros particulares da igreja em Roma, e imediatamente
começa a dizer-nos algumas coisas sobre eles. Nestes dois
versículos temos primeiro uma descrição dos cristãos, e, em
segundo lugar, vemos o apóstolo expressar os seus desejos e
votos com relação a eles.
Evidentemente, estas questões são também da maior
importância; o apóstolo não se satisfaz em meramente descrever-
-se; também sente a necessidade de descrevê-los. Na verdade,
um dos seus grandes propósitos ao escrever-lhes é que venham
a compreender claramente o que eles são como cristãos, e por
essa razão, ele parte logo para a sua descrição. Esta, parece-me,
pode ser dividida em duas partes principais; primeiro ele os
descreve em geral, depois em particular. Ora vejam vocês que a
descrição geral que ele faz deles é que eles são “os chamados de
Jesus Cristo” (VA). Esta é uma declaração muito significativa.
A Versão Revista Padrão (“RSV”) a traduz acertadamente, creio
eu - pelo menos nos dá o sentido certo neste ponto - quando
diz: “chamados para pertencerdes a Jesus Cristo” (cf. Almeida);
“os chamados de Jesus Cristo” - genitivo - ou “chamados para
serdes o povo de Jesus Cristo”, se vocês preferirem.
Há alguns que acham que a preposição “de” equivale a
“por”, e que a expressão significa “chamados por Jesus Cristo”.
Ora, esse ponto não é muito importante, mas me parece que
não está certo, porque em toda parte nas Escrituras o “chamado”
dos cristãos é atribuído a Deus o Pai. E Deus que nos chama
por Sua graça. Vejam, por exemplo, a maneira pela qual este
mesmo apóstolo se expressa ao escrever aos efésios, no capítulo
dois; ele os descreve como tendo estado “mortos em ofensas e

196
Romanos 1:6,7

pecados” e continua, dizendo que eles eram “filhos da ira, como


os outros também. Mas Deus, que é riquíssimo em miseri­
córdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós
ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com
Cristo”. Foi Deus que o fez, e esse uso é praticamente universal
nas Escrituras. É Deus o Pai que chama. Ele nos chama por
meio de Cristo; Ele nos chama para Cristo. Como diz o nosso
Senhor pessoalmente, vocês se lembram, em João 17:6, os
cristãos são os que Lhe foram dados pelo Pai - “os homens que
do mundo me deste”, diz Ele. E também em João 6:44 diz o
nosso Senhor: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai... não o
trouxer”. Essa é exatamente a mesma idéia. Chegamos a Cristo,
mas somos trazidos, somos chamados, pelo Pai.
Contudo, o importante aqui é que compreendamos que
somos “os chamados de Jesus Cristo”. O cristão é alguém que
pertence a Jesus Cristo; ele foi chamado para Ele; foi colocado
nEle. Eis aqui, de novo, outra grande frase do Novo Testamento,
“em Cristo”, que é o que o apóstolo está realmente dizendo.
Somos chamados para estar “em Cristo” - para pertencer a Ele.
Pois bem, repito, esta é uma descrição geral de nós como cristãos.
Os cristãos são pessoas que pertencem ao reino e à esfera do
Senhor Jesus Cristo. O próprio termo “cristão”, de per si,
naturalmente, sugere isso de imediato. Esse é o fator
diferenciador; é o que nos separa de todos os outros. Estamos
“em Cristo”; estamos em Seu reino; estamos nEle como
membros do Seu corpo. Estamos ligados a Ele; estamos unidos
a Ele. Há uma relação mística entre nós - “os chamados de Jesus
Cristo”. Aí está, pois, a descrição geral que o apóstolo faz aqui
destes cristãos que estão em Roma.
Mas agora isso nos leva às particularidades de que ele nos
fala no versículo sete. A questão que se levanta é: como alguém
chega ao estado e condição em que pertence a Jesus Cristo? Que
é que nos leva a isso? Afortunadamente, o apóstolo nos dá a
resposta à pergunta, e vocês podem notar que ele se dá ao
trabalho de fazê-lo minuciosamente - “A todos os que estais em

197
O Evangelho de Deus

Roma” - e, todavia, ele não está escrevendo a todos os cidadãos


de Roma, a cada um deles. Não, não! Ele está escrevendo
somente aos cristãos, a alguns indivíduos em especial. Quem
são eles? Bem, ei-los aqui - os “amados de Deus”; eles são
“chamados”; e eles são “santos”. As palavras para serdes (VA)
foram acrescentadas pelos tradutores; não estão no original, que
diz: “chamados santos” (como Almeida, Edição Revista e
Corrigida). Vocês devem ter notado que temos a mesma coisa
no versículo primeiro - “Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado
para ser apóstolo”. Já assinalamos que não é “chamado para ser
apóstolo”, mas, um “chamado apóstolo”, e aqui se dá exatamente
o mesmo: “Amados de Deus o Pai, chamados santos”. Ao
examinarmos estes três termos, parece-me muito importante
que observemos a ordem em que o apóstolo os coloca, porque
vocês verão que é exatamente a mesma ordem utilizada em toda
parte nas Escrituras. Aí está ele, escrevendo a um certo número
de pessoas - provavelmente não muitas - da cidade de Roma.
São cristãs; são pessoas que estão “em Cristo”. Como chegaram
a isso? Que lhes terá acontecido?
Bem, diz ele, eis a primeira coisa - “Vocês são os amados de
Deus”. Vejam o ponto da seguinte maneira, se quiserem:
procurem pensar em Roma, aquela grande cidade imperial. Não
se exige muita imaginação para saber que tipo de vida levava a
maioria da população; é-nos dada uma descrição dela na
segunda metade deste mesmo capítulo que estamos
considerando. A cidade estava cheia de pecados horríveis e de
terrível licenciosidade, e, não obstante, naquela cidade havia
grupos de pessoas que se reuniam em suas casas, nas casas de
pessoas como Priscila e Áqüila. Havia esses pequenos grupos
de cristãos, presentes naquela grande sociedade pagã. Que foi
que os levou a isso? Eles são absolutamente diferentes dos outros.
Não pesa mais sobre eles a culpa por esses pecados horríveis;
estão tendo uma espécie inteiramente diferente de vida. Que
será que os levou a isso? O apóstolo só tem uma resposta para
dar, e é a seguinte: “O amor de Deus”. “Amados de Deus” - por

198
Romanos 1:6,7

isso eles são o que são. Notem que ele coloca isso em primeiro
lugar; ele não lhe acrescenta nada. Não diz que eles são amados
de Deus porque são gente boa, ou porque sempre tiveram vida
virtuosa, ou porque tenham realizado algo maravilhoso. Nada
disso! Eles estão onde estão “em Cristo”, primeiramente graças
ao amor de Deus.
Isso, torno a dizê-lo, é deveras fundamental, do ponto de
vista da doutrina cristã. Já me referi ao capítulo dois da Epístola
aos Efésios; devo fazê-lo de novo. Lá eles estavam “mortos em
ofensas e pecados”, andando “segundo o curso deste mundo,
segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora
opera nos filhos da desobediência. Entre os quais todos nós
também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a
vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza
filhos da ira, como os outros também”. Por que não continuamos
lá? Há somente uma resposta - “Mas Deus”! “Mas Deus, que é
riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos
amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou
juntamente com Cristo.” Vejam, observem que é desse modo
que ele se expressa sobre isso; que é desse modo que ele o
expressa em toda parte. O que nos faz sair do mundo e do
domínio do mal é sempre o amor de Deus. Essa é a primeira
coisa. Não nos tornamos amados de Deus por algo que fazemos.
Somos o que somos porque primeiro Ele nos amou. E o Seu
amor que inicia o movimento que nos tira desse terrível estado
e condição em que nos achamos em conseqüência do pecado.
Pois bem, isso é estupendo! Aqueles pequenos grupos de cristãos
em Roma se reúnem da maneira que descrevi. Por quê? Porque
o Deus eterno pôs sobre eles o Seu amor! Não há outra
explicação; eles são objetos do Seu amor especial e peculiar.
Amados de Deus. Vocês vêem a importância de observar a
ordem? Esse é o primeiro passo.
Mas, na verdade, se é que vamos captar a plena significação,
o pleno sentido disso, devemos compreender que o apóstolo
usa a mesma declaração com respeito a nós, como a Bíblia a

199
O Evangelho de Deus

usa em toda parte com relação ao Filho, ao Senhor Jesus


Cristo. “Este é o meu amado Filho”, disse a voz no Monte da
Transfiguração - “Este é o meu amado Filho, em quem me
comprazo,” O Senhor Jesus Cristo é o amado do Pai, e essa é a
verdade acerca do cristão! Ele é alguém que, estando em Cristo,
agora é considerado por Deus da mesma maneira. Permitam
que lhes mostre de novo como o Senhor ensina essa mesma
verdade em João, capítulo 17, em Sua oração sacerdotal; poderão
vê-lo nos versículos 22 e 23: “E eu dei-lhes a glória que a mim
me deste, para que sejam um, como nós somos um. Eu neles, e
tu em mim, para que eles sejam perfeitos em unidade, e para
que o mundo conheça que tu me enviaste a mim, e que os tens
amado a eles como me tens amado a mim”. Uma vez alguém
me disse que achava que essa declaração é a mais estupenda
da Bíblia, e eu penso que ele estava certo. Meu desejo é que
o mundo saiba, disse o nosso Senhor Jesus Cristo, que Deus
os amou (da mesma maneira como) Ele Me amou. E isso que
o apóstolo está dizendo aqui - amados de Deus!
Pois bem, povo cristão, esta é a verdade com relação a nós.
É quase incrível; é algo que dificilmente poderemos entender.
É quase impossível acreditar nisso e, todavia, tão certo como
estamos vivos neste momento, somos cristãos unicamente por
uma razão, e é que Deus pôs sobre nós o Seu amor. E isso que
nos tira do mundo c do domínio de satanás. “Mas Deus... pelo
seu muito amor com que nos amou...” - não há outra explicação.
E, portanto, não é de admirar que aqui o apóstolo lembre a
estes cristãos esta realidade maravilhosa. O mundo os odiava;
perseguia-os. Eles poderiam ser presos a qualquer momento,
pelo capricho de qualquer tirano que acaso fosse o imperador, e
poderiam ser condenados à morte e lançados aos leões na arena.
Muitas vezes eram odiados por todos os homens, pelo que Paulo
deseja que eles compreendam que são os amados de Deus; que
eles estão em Cristo e que Deus os ama do mesmo modo como
ama a Cristo. Amados de Deus! Seguramente, todos nós devemos
concordar que a maior dificuldade que temos como cristãos é

200
Romanos 1:6,7

que não captamos bem esses termos. Não os assimilamos. Não


os entendemos. Vocês vêem como é importante que nos demore­
mos nestas introduções? Não corra para os capítulos seis, sete e
oito, dizendo: “Quero saber é da doutrina da santificação”. Meu
caro amigo, se você tão-somente compreendesse, como devia,
que é amado por Deus como Ele amou Seu Filho, você
aprenderia a lição mais importante a respeito da sua santificação,
sem necessidade de ir mais longe. Essa é a primeira verdade -
“os amados de Deus”.
Isso nos leva, então, à segunda verdade, e há uma
seqüência lógica muito definida nestes pontos. Deus vê toda a
humanidade. Ele dedica Seu afeto a essas pessoas. E então?
Tendo feito isso, Ele as chama. “A todos os que estais em Roma,
amados de Deus, chamados.. ” Pois bem, ele já tinha empregado
o termo, porém eu esperei até agora porque me parece que este
é o melhor ponto em que se deve considerar este assunto em
detalhe. Aí está outro termo constantemente empregado em
toda parte nas Escrituras a respeito do cristão. Que é um cristão?
E um dos chamados. Deixem-me dar-lhes algumas ilustrações
do uso desse termo. Diz o nosso Senhor: “Não vim chamar
justos...” - notem - “Não vim chamar justos, mas pecadores ao
arrependimento”. Diz Ele também: “Pois muitos são chamados,
mas poucos escolhidos”. É a mesma idéia. E depois vocês
se lembram do primeiro sermão pregado sob os auspícios da
Igreja Cristã. Em certo sentido, aquele sermão, pregado pelo
apóstolo Pedro em Jerusalém no dia de Pentecoste, foi o primeiro
sermão a ser pregado. Lembram-se da colocação feita por Pedro?
Algumas pessoas convictas do pecado e deste convencidas pelo
Espírito Santo, bradaram: “Que faremos, varões irmãos?” E
Pedro lhes respondeu: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja
batizado em nome de Jesus Cristo... e recebereis o dom do
Espírito Santo. Pois a promessa é para vós, e para vossos filhos,
e para todos os que estais longe, para tantos quantos o Senhor
nosso Deus chamar’'. Aí está! A promessa do Espírito Santo
não é universal, não é para todo o mundo, mas sim, é feita

201
O Evangelho de Deus

particularmente aos que vão ser “chamados”.


Vemos depois a mesma coisa na Primeira Epístola de Paulo
aos Coríntios, onde ele diz: “Porque vede, irmãos, a vossa
vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne... nem
muitos os nobres que são chamados”. Diz ele que “a pregação
da cruz é loucura para os que perecem, mas para os que são
chamados...” (VA; ou “para nós, que somos salvos”, (como
em Almeida) - essa é a expressão - “é o poder de Deus”. O
cristão é um desses que foram chamados. Há depois um
exemplo disso na Primeira Epístola de Pedro, capítulo 2: “Mas
vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo
adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos
chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”; e ele o repete
mais adiante nesse mesmo capítulo. Este é, pois, obviamente,
um termo muito importante do Novo Testamento. Paulo diz a
respeito de si mesmo que ele é “servo de Jesus Cristo - um
chamado apóstolo”, e os cristãos são igualmente chamados. Não
para serem apóstolos, é claro, e sim, para serem cristãos. Então,
que é que isto significa? Bem, é costume entender toda esta
doutrina da vocação da seguinte maneira: vocação ou chamado
aqui significa “chamado eficaz” ou “vocação eficaz”. Há dois
tipos de chamado. Toda vez que o evangelho é pregado, é feito o
chamado - “Deus ordena a todos os homens, em toda parte,
que se arrependam” (Atos 17:30, VA). Há um chamado geral
feito a todos os homens quando o evangelho é pregado, para
que se arrependam e creiam no evangelho. Esse é um chamado
geral, um chamado universal. Todavia não é a isso que o apóstolo
se refere aqui; vocês notam que ele diz aos coríntios: “Não
muitos sábios, nem muitos nobres são chamados”. Ah, mas o
evangelho tinha sido pregado a todos. Sim, mas quando ele diz
“chamados” ele se refere aos que se tornaram cristãos. Por isso
introduzimos esta distinção entre um chamado geral e um
chamado particular, eficaz.
Vejam a questão da seguinte maneira: imaginem dois
homens assentados no mesmo banco de igreja, ouvindo o mesmo

202
Romanos 1:6,7

sermão, a mesma pregação do evangelho. Um crê no evangelho


e o outro não; um se torna cristão e o outro não. Qual a diferença?
Bem, no caso daquele que crê, há um chamado eficaz. O
chamado foi dirigido aos dois, sim, mas no caso em apreço o
chamado é eficaz, levou-o adiante, levou-o a submeter-se, a crer,
a render-se e a juntar-se ao povo cristão. Um chamado eficaz: é
o que o apóstolo quer dizer nesta altura. Ele se dirige aos
“chamados de Jesus Cristo” (VA). Eles estão em Cristo,
pertencem ao Seu povo, estão entre o Seu povo, estão nesse reino
e nessa esfera. Como chegaram aí? Foram chamados eficaz­
mente por Deus. E o chamamento vem, é claro, como resultado
do poder do Espírito Santo na pregação da Palavra. E por isso
que, quando o apóstolo Paulo escreve aos coríntios, no capítulo
dois da sua Primeira Epístola, ele diz: “E eu, irmãos, quando
fui ter convosco... não fui com sublimidade de palavras ou de
sabedoria. Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus
Cristo, e este crucificado. E eu estive convosco em fraqueza, e
em temor, e em grande tremor. A minha palavra, e a minha
pregação, não consistiu em palavras persuasivas de sabedoria
humana, mas em demonstração de Espírito e de poder, para
que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria dos homens, mas
no poder de Deus”. E unicamente o Espírito que pode tornar
eficaz a Palavra. Outros homens escutam e, em certo sentido,
ouvem, porém não ouvem esse chamado eficaz. Ouvem as
palavras, lêem a letra da Palavra, mas não sentem o poder. Não
há demonstração do Espírito e de poder. Contudo, estes outros
são cristãos; são membros da Igreja Cristã. Por quê? Porque o
chamado lhes foi eficaz; o poder do Espírito assistiu a Palavra,
e ei-los aí; eles foram atraídos para Cristo. “Chamados.” Palavra
sumamente importante e, por mais importância que lhe demos,
jamais poderemos exagerar nisso. E, naturalmente, apenas outro
modo de dizer o que o apóstolo diz também em Efésios, capítulo
2: “Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, (ele) nos
vivificou juntamente com Cristo...”. Ele tornou viva a
mensagem. E o chamado eficaz visto de outro ângulo.

203
O Evangelho de Deus

Aí está, pois, o nosso segundo termo, o que nos leva ao


terceiro e último com relação a estes cristãos. Eles são “santos”,
amados de Deus, chamados eficazmente. Mais uma vez estamos
vendo uma palavra freqüentemente empregada nas Escrituras,
palavra que vocês verão praticamente em quase todas as
Epístolas. Mas de imediato notamos algo extremamente
interessante: Paulo usa o termo com relação a todos os cristãos
e a todos os membros da igreja em Roma. Notem que ele não
diz que só alguns são santos. Todos eles são santos; são todos
amados de Deus e chamados. Desafortunadamente, permitimos
que o ensino católico-romano nos furtasse essa palavra. É curioso
observar como um falso ensino pode persistir através dos séculos,
mesmo a despeito do fato de que o ensino católico ao qual ele
pertence seja considerado falso por nós. E, todavia, todos nós,
protestantes evangélicos, bíblicos, continuamos com a tendência
de pensar nos santos como pessoas incomuns, excepcionais, não
é? Mas é um erro. E antibíblico. Segundo o ensino das
Escrituras, todo cristão, cada cristão, é um santo. Não se pode
ser cristão sem ser santo.
Pois bem, estamos familiarizados com a idéia católico-
-romana de canonização de certas pessoas. Ela inclui certas
provas rígidas que lhes são aplicadas, a elas e às altas qualidades
da sua vida. E preciso que essas pessoas tenham feito algum
milagre, que sempre tenham manifestado alegria, etc.; e, se não
se enquadram em dado padrão, não são consideradas santas,
mas se se enquadram, é realizada uma cerimônia oficial. São
canonizadas, são colocadas à parte, e passam a receber o
tratamento de “Santo Fulano ou Santo Beltrano”. Entretanto
isso é inteiramente alheio ao ensino das Escrituras. Não há nada
nesse sentido em parte alguma da Palavra de Deus. E
simplesmente uma falsa representação e um entendimento
errôneo daquilo que o apóstolo quer dizer quando fala disso,
seja no texto em foco, seja em qualquer das introduções das
suas diversas Epístolas.
Então, que é um santo? Bem, a palavra é empregada
204
Romanos 1:6,7

constantemente na Bíblia. Significa, se quiserem, uma pessoa


santa. Santo e todas as palavras e expressões semelhantes que
aparecem em contextos como o que estamos examinando, vêm
todas da mesma palavra hebraica, ou da mesma palavra grega,
e todas elas se equivalem e representam exatamente a mesma
coisa, sendo que o seu sentido essencial pode ser expresso da
seguinte forma
* - significa: “Separado para Deus, para o Seu
louvor”. E isso que realmente significa. Vocês se lembram de
que no Velho Testamento a palavra é empregada até com
referência a objetos inanimados? E-nos dito, por exemplo, que
Moisés subiu ao monte “santo”. Os vasos do templo eram santos.
Havia livros santos, etc. Pois bem, o sentido era precisamente o
mesmo - separados para Deus, para o Seu louvor e para o Seu
serviço - e quando o termo é utilizado com referência a pessoas,
obviamente significa a mesma coisa, e é esse o sentido com o
qual o apóstolo o emprega no texto que estamos estudando.
Assim é que um dos seus sentidos principais é que somos
separados de tudo o que nos separa de Deus. Significa que
somos separados do mundo, porque o mundo é oposto a Deus
e O odeia, e está em inimizade contra Deus. Ele não vive para a
glória de Deus, ou não está a serviço da glória de Deus, sendo
que nisso consiste o significado essencial de santidade. Portanto,
significa que somos separados de tudo o que o mundo
representa - o elemento negativo está aí.
Mas não devemos deter-nos no elemento negativo, porque
o importante é o positivo. Não basta que nos refreemos quanto
ao mundanismo: isso não torna você um santo, não o torna
santo. Isso pode torná-lo íntegro, porém há diferença entre ser
íntegro e ser santo. E também notamos a óbvia tendência de
confundir esses dois termos, mas é vital que nós não os
confundamos. A diferença entre o cristão e o homem que está
fora de Cristo e da Igreja é que o segundo pode ser um bom
homem e íntegro, contudo não é santo; não é um santo. O que
nos faz santos é que somos separados para Deus. Não somente
do mundo mas, em particular, para Deus; e que nos interessamos

205
0 Evangelho de Deus

pela glória de Deus e nos entregamos ao serviço de Deus.


Muito bem, isso é algo que, de acordo com as Escrituras, é
próprio de todos os cristãos. Se isso não for verdade a seu
respeito, você simplesmente não pode ser um cristão. E,
portanto, vocês vêem que, ao descrever os membros da igreja
em Corinto, o apóstolo faz uma terrível descrição do que eles
eram antes, na Primeira Epístola, capítulo seis, versículos 9,10
e 11. Depois, havendo-os descrito, ele diz: “...mas haveis sido
lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido
justificados...”. Notem que ele coloca “santificados” antes de
“justificados”. Por quê? Bem, significa separação do mundo
para Deus; significa, noutras palavras, que somos santos; e,
portanto, é importante que o vejamos desta maneira: todo cristão
é santo, neste sentido - objetivamente, em Cristo, ele foi posto
à parte por Deus para Deus. Pode ser que ele tenha uma vida
indigna, que caia em pecado, que seja uma “criança em Cristo”,
que seja muito ignorante, não obstante é um santo. Não pertence
mais ao mundo, não pertence mais a essa esfera. Graças a esta
nova natureza, graças a este chamado eficaz, ele está numa posição
diferente. Ele foi posto à parte para Deus e, obviamente,
ninguém pode ser cristão sem isso. Você não pode ser cristão e
continuar pertencendo ao mundo, ou continuar pertencendo
ao reino de satanás. Ser cristão é ter sido colocado neste novo
domínio, tirado do reino das trevas e transferido para o reino
do amado Filho de Deus. E ser um santo nesse sentido.
No entanto, naturalmente, a coisa não pára aí. Isso é algo
que Deus faz comigo. E objetivo. Mas é apenas o começo do
que Deus faz comigo, porque há algo mais, algo que é mais
subjetivo. Quando passamos para o lado subjetivo, vemos que
Deus, depois de nos separar, continua a agir em nós: “Operai a
vossa salvação com temor e tremor.” Por quê? “Porque Deus é
o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a
sua boa vontade” (Filipenses 2:12,13). Deus continua a agir em
nós pelo Espírito Santo, e esse é o aspecto subjetivo da obra
pela qual o homem é feito santo e se torna um santo. Sou um
206
Romanos 1:6,7

santo, e me torno mais santo à medida que sigo avante.


Assim, não termino sendo um santo - começo como um santo.
Mas deverá ficar cada vez mais patente que eu sou um santo, à
medida que eu prossigo em minha santificação. Aí está, como
vocês vêem, o conceito bíblico em oposição à falsa apresentação
católico-romana do que é que faz de alguém um santo. A obra
se realiza em parte e principalmente como resultado da operação
do Espírito Santo. Todavia eu mesmo tenho um papel para
desempenhar. O versículo que citei há pouco expressa
perfeitamente o ponto: “Operai a vossa salvação... porque Deus
é o que opera em vós...”.
Há outros exemplos do mesmo ensino. Observem como
Pedro o coloca: “Amados”, diz ele, “peço-vos como a peregrinos
e forasteiros” - vocês não pertencem mais a este mundo; vocês
são estrangeiros, forasteiros nele, porque são cristãos -
“Amados... como a peregrinos e forasteiros” - nada mais do
mundo, vocês são pessoas estranhas, pessoas “peculiares”, são
objeto peculiar do afeto de Deus. Vocês são forasteiros, são
viajores em viagem por este mundo - não se estabelecendo nele,
mas passando por ele. “Amados, peço-vos como a peregrinos e
forasteiros, que vos abstenhais das concupiscências carnais que
combatem contra a alma.” Noutras palavras, vocês fazem tudo
isso porque são peregrinos e forasteiros, porque Deus os chamou
das trevas para a Sua maravilhosa luz. E por que o fez? “Para
que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou...”. E isso
que somos, como cristãos. E Pedro prossegue: “Tendo o vosso
viver honesto entre os gentios; para que, naquilo em que falam
mal de vós, como de malfeitores, glorifiquem a Deus no dia da
visitação, pelas boas obras que em vós observem”. E isso.
Exatamente a mesma coisa. E vocês podem ver isso também
em 1 João 3:3, onde João, após declarar que “agora somos filhos
de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas
sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a
ele”, eis o que vem em seguida - “E qualquer que nele tem esta
esperança, purifica-se a si mesmo, como também ele é puro”.

207
O Evangelho de Deus

Isso constitui uma parte do desenvolvimento da santidade no


viver. Eu não me faço santo, sou feito santo. Fui separado. Porque
me dou conta de que sou um santo, devo viver como um santo.
Como vocês vêem, todo o processo é exatamente o inverso da
falsa representação católico-romana, e aí temos a descrição que
o apóstolo faz do cristão.
Concluindo, gostaria de fazer duas observações. Notaram
que o apóstolo usa os mesmos termos acerca destas pessoas em
Roma que ele já usara a respeito de si próprio? Que é Paulo?
Bem, ele é um escravo de Jesus Cristo. Ele foi chamado. Foi
separado. Exatamente a mesma coisa! E importante com­
preender que, como cristão, o apóstolo Paulo era igual a todos
os outros cristãos. Ele não se fizera a si mesmo cristão. Ele não
era cristão por ser um homem incomum ou excepcional ou
extraordinário. Absolutamente não! Ele se diz “o principal dos
pecadores”. Diz ele: “Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a
aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os
pecadores, dos quais eu sou o principal” (1 Timóteo 1:15).
Exatamente a mesma coisa de novo. Deus o amou, chamou-o,
separou-o e fez dele um santo; isso vale para todos os outros
cristãos. Que coisa maravilhosa que o compreendamos! Como
lutamos tantas vezes contra o mundo, contra a carne e contra o
diabo, e como o diabo nos tenta no sentido de levar-nos a pensar
que nem sequer cristãos somos, ou que nos tornamos cristãos
como resultado dos nossos esforços. Ah, lembremo-nos nessas
ocasiões daquilo que nos é dito aqui a nosso respeito: “Amados
de Deus”. “Chamados santos”. “Em Cristo”. Somos santos,
separados, postos à parte para o Senhor Jesus Cristo, e nos
tornamos Sua propriedade.
Mas também digo, finalmente, que, se quisermos de fato
captar o pleno significado desta descrição dos cristãos romanos,
o melhor meio será ler do versículo dezoito ao fim deste capítulo.
Ali vocês verão uma pavorosa descrição da vida dos povos
gentílicos, da vida dos cidadãos de Roma, portanto, justamente
no tempo em que o apóstolo escrevia esta Epístola aos Romanos.
208
Romanos 1:6,7

Lá estavam eles, adorando a criatura em vez do Criador,


adorando homens, gloriando-se em homens, adorando animais,
quadrúpedes e aves, e não a Deus, culpados não somente de
imoralidades, como também das perversões mais abjetas e
mais aterradoras. E estes membros da igreja em Roma, muitos
deles, tinham vivido daquela maneira, mas já não são assim.
Agora, eles estão à parte como cristãos, adorando e louvando
a Deus.
E, meus amigos, isso é verdade a nosso respeito. Vejam o
mundo moderno! Observem a sociedade atual! Vejam como o
mundo vive! Porventura temos nós compreendido o que Deus
fez por nós, e o que somos unicamente por causa do amor de
Deus, por causa da Sua misericórdia, por causa desta Sua
“vocação”, desta separação que Ele fez acontecer com relação a

nós? E só quando assim o compreendemos que apreciamos


verdadeiramente a cruz e o amor, a misericórdia e a bondade
de Deus. Por certo vocês se lembram de John Bradford, aquele
santo homem, um dos mártires da perseguição mariana* que
há quatrocentos anos foi morto na Praça do Mercado de
Smithfíeld. Por certo vocês se lembram do que ele disse quando
andava com um amigo e viu um pobre sujeito sendo arrastado
à morte por algum crime que cometera. O santo John Bradford
olhou para ele e disse: “Ali vai John Bradford, não fora a graça
de Deus!” E é assim que todo cristão deve sentir-se. Somos o
que somos, não por nossa bondade, não por nossas vidas, não
por causa de alguma coisa existente em nós. Tudo vem do amor
de Deus - do Seu amor eterno e inescrutável. Que O *teria feito
olhar favoravelmente para nós? Ora, não sabemos. E espantoso!
Quando ainda éramos inimigos, Cristo morreu por nós. Quando
éramos pecadores, adversários e estranhos - foi então que Ele o
fez. Amados de Deus. Chamados santos. E o que somos. Bem,

* Pregador protestante inglês (1510-55), morto na fogueira durante as


perseguições movidas por Maria, a Sanguinária (Mary Tudor, 1516-58), que foi
rainha da Inglaterra de 1553 a 1558. Nota do tradutor.

209
O Evangelho de Deus

digo eu, apliquemos a lógica do Novo Testamento: visto que


somos isso, tratemos de mostrá-lo. Não façamos objeção às
exigências do evangelho; paremos de dizer que ele é muito
estreito; deixemos de procurar viver tão perto do mundo quanto
pudermos. Se somos santos, proclamemos o fato. Gloriemo-nos
nele. Que isso fique evidente para todos.
“Amados, peço-vos como a peregrinos e forasteiros, que vos
abstenhais das concupiscências carnais que combatem contra a
alma; tendo o vosso viver honesto entre os gentios; para que,
naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores,
glorifiquem a Deus no dia da visitação, pelas boas obras que
em vós observem.” Povo cristão, sejamos o que somos!

210
13
“A todos os que estais em Roma, amados de Deus, chamados
santos; graça e paz de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo.
Primeiramente dou graças ao meu Deus por Jesus Cristo, acerca de
vós todos, porque em todo o mundo ê anunciada a vossa fé. ”
- Romanos 1:7,8

Quando houve a decisão de dividir as Escrituras em


capítulos e versículos, parece-me que teria sido sábio se um
novo começo tivesse sido dado com um novo número junto da
palavra “graça”, no meio do versículo sete. Realmente eu desejo
considerar agora - ao menos começar a considerar - toda a
declaração que começa aqui, no meio do versículo 7, e vai até o
fim do versículo 15. Nesta altura, pode-se dizer, o apóstolo
concluiu a sua introdução geral e passou a algumas questões
particulares. Pode-se dizer que agora ele está se acertando com
os romanos a quem está escrevendo. Já lhes tinha feito lembrar
que eles são “amados de Deus”, que são “chamados” e que são
“santos”. Mas essa é a verdade a respeito de todos os cristãos.
Agora ele quer abordá-los um pouco mais diretamente; quer
dizer-lhes por que lhes está escrevendo, e quer fazê-los saber o
que ele sente com relação a eles num sentido muito pessoal.
Noutras palavras, esta passagem, do meio do versículo sete até
o fim do versículo quinze, é mais ou menos puramente pessoal;
não é declarada aí nenhuma grande doutrina propriamente dita.
Já a tivemos. Vimo-la de maneira quase assombrosa nos
versículos que estivemos considerando, especialmente nos
quatro primeiros versículos, e voltaremos a isso daquela forma
nos versículos 16 e 17, e de lá em diante. No entanto aqui, repito,
o apóstolo está fazendo algo que, num sentido, é puramente

211
0 Evangelho de Deus

pastoral; ele está, se vocês o preferirem, colocando as relações


pessoais e humanas no seu cenário próprio, e as está ajustando
para poder estabelecer este contato.
Notem, porém, o modo como eu estou colocando isso,
porque aqui eu desejo salientar algo que me parece da maior
importância. Nenhuma grande doutrina é exposta explicita­
mente aqui, mas quando vamos lendo e examinando estas
declarações juntas, veremos constantemente que há implícita,
o tempo todo, doutrina sumamente vital e importante. Noutras
palavras, apesar do apóstolo não pretender ser doutrinário nesta
altura, todavia o é. Este ponto requer uma palavra de ênfase. A
vida cristã é una e indivisível. Consiste de fé e obras, crença e
prática, e ambas estas coisas são inseparáveis; nunca devem ser
separadas. Nunca devemos tentar separá-las intelectualmente e
no pensamento; menos ainda devemos tentar separá-las na
prática. Noutras palavras, a vida cristã é, toda ela, resultado
daquilo em que cremos. Quanto eu saiba, não há nada que seja
mais contrário às Escrituras e mais perigoso para a alma do que
separar da vida a doutrina. Há certas pessoas superficiais que
dizem: “Ah, não posso me incomodar com doutrina; não tenho
tempo. Sou um homem ocupado, não tenho tempo para ler
livros, e talvez eu não tenha aptidão para isso. Sou um homem
prático. Creio em viver a vida cristã. Os que se interessam por
doutrina, que se interessem!” Ora, não há nada que as Epístolas
do Novo Testamento condenem mais do que justamente essa
atitude.
Como se analisa qualquer das Epístolas do Novo
Testamento? Não é assim - após a saudação preliminar, imediata
doutrina? E depois, havendo sido delineada a grande doutrina
- “portanto”, “pois” - a aplicação da doutrina. Não há nada no
Novo Testamento que favoreça a atitude que diz: “Ah, as
doutrinas não importam, o que conta é somente a vida”. A
razão disso é que, se a sua vida e o seu modo de viver não é
produto da sua doutrina, não é vida cristã; é alguma outra coisa.
Você pode ter uma vida aceitável e de bom nível moral sem ser
212
Romanos 1:7,8

cristão. Você pode fazer muita coisa boa, sem ser cristão. Você
pode ser muito idealista, sem ser cristão. A característica peculiar
do cristão é, pois, que todas as suas ações estão diretamente
ligadas à sua doutrina, à sua crença. Assim é que, mesmo que
Paulo esteja escrevendo de maneira puramente pastoral e
pessoal, não procurando esboçar nenhuma doutrina, mas falando
diretamente às pessoas, o tempo todo ele é obrigado a fazê-lo
em termos de doutrina.
Pois bem, é exatamente isso que o apóstolo faz neste ponto.
Mais adiante ele vai delinear estas tremendas doutrinas, porém
aqui ele diz: “Eu gostaria que vocês soubessem exatamente o
que eu sinto acerca de vocês. Tenho esperado durante anos vir a
vê-los. Não passa um dia em que eu não ore por vocês. Até aqui
não me foi permitido vê-los, mas ainda espero que os verei, e
logo, porque os tenho em meu coração, e quero visitá-los por
vários motivos”. Isso é o que ele diz realmente, todavia vocês
podem observar como ele o diz e como ele se expressa. Aí está,
então, digo eu, algo que certamente deve ser uma lição para
todos nós. Todas as nossas ações, como cristãos, sempre devem
ser praticadas em termos daquilo em que nós cremos.
Realmente não deveríamos ser capazes de pensar, senão em
termos dos artigos de fé que subscrevemos e nos quais cremos
sincera e profundamente.
Passemos então a ver todo o desenrolar disso na prática.
Vejamos a extensa declaração que vai do meio do versículo sete
ao fim do versículo quinze. Defrontamo-nos com duas
possibilidades quanto ao exame desta passagem. Uma é que
podemos tomar declaração por declaração, indo do versículo 7
ao versículo 8 e fazendo comentário, depois indo ao versículo
9, e assim por diante. Correto; é um procedimento legítimo.
Mas me parece que nos será muito mais proveitoso se, em vez
disso, fizermos o seguinte: há, obviamente, duas coisas
principais que o apóstolo está dizendo aqui. Primeiro, ele diz
algo sobre os romanos e, em segundo lugar, ele diz algo sobre si
mesmo. Vocês verão, penso eu, que cada declaração individual,

213
O Evangelho de Deus

isolada, particular, de todo este parágrafo enquadra-se numa


dessas duas divisões. Ou ele está dizendo algo sobre os cristãos
romanos, ou está dizendo algo sobre si próprio. Vejam vocês
que o que ele está realmente fazendo é dizer certas coisas sobre
si mesmo a eles e, ao mesmo tempo, lembrar-lhes quem e o que
eles são. Muito bem, pois, vejamo-lo nessa ordem.
Primeiramente, que é que o apóstolo diz aos cristãos
romanos? Como vocês recordam, ele começa expressando o que
de coração deseja para eles:✓ “Graça c paz de Deus nosso Pai, e
do Senhor Jesus Cristo”. E isso que ele deseja para eles. Vocês
podem observar que essa é a sua fórmula habitual - se é que
posso usar tal expressão - quando ele se dirige a alguma igreja.
Naturalmente ele faz uso dessas palavras porque, usando-as, não
há mais o que dizer. Quando você deseja a alguém a graça e a
paz de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo, você lhe desejou
tudo. É um ponto interessante, e as autoridades o assinalam - e
eu penso que o fazem com todo o acerto - que, nas Epístolas
Pastorais a Timóteo e a Tito, Paulo coloca outra palavra entre as
duas; diz ele: “Graça, misericórdia e paz”. Não creio que haja
alguém que possa resolver por que ele faz essa diferença. Pode
ser que quando ele está pensando coletivamente nas pessoas de
uma igreja, pense em sua felicidade geral, em seu bem-estar
geral. Quando escreve a um cristão individual, ele é mais pessoal,
ele sabe que o cristão individual tem constantemente esta
grande necessidade de misericórdia. Por isso, escrevendo a
Timóteo e a Tito, ele diz: “Graça, misericórdia e paz”. Ele sabe
que eles precisam de misericórdia para os animar. Na expressão
do escritor da Epístola aos Hebreus, “Cheguemos, pois, com
confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar
misericórdia e graça, a fim de sermos ajudados em tempo
oportuno” (ou: “em tempo de necessidade”, VA). Contudo, na
passagem de Romanos que estamos estudando, o vocábulo
“misericórdia” é omitido, como acontece na maioria das outras
Epístolas destinadas a igrejas.
Mas desse ponto só tratamos de passagem. O importante é
214
Romanos 1:7,8

que examinemos as duas palavras que estão aqui. Ele está


pensando nestes cristãos em Roma - de que necessitam? Bem,
acima de tudo mais, eles necessitam desta graça. Em que
consiste? E bondade, se vocês quiserem, é favor, é boa vontade
da parte de Deus. A definição de graça geralmente aceita é,
naturalmente, “favor imerecido”. Significa bondade para com
alguém que absolutamente não a merece. Inteiramente
imerecida - não há absolutamente nada que a motive. Esse é o
sentido de graça, e essa é toda a base da nossa salvação. Se não
fosse a graça de Deus, não existiria nenhum cristão. Na prática,
o termo é empregado nas Escrituras não somente com referência
à graça de Deus propriamente dita, mas também aos benefícios
que nos vêm como resultado dessa graça. Assim, quando Paulo
lhes deseja, “Graça e paz de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus
Cristo”, ele está fazendo votos de que eles gozem todas as bênçãos
que é possível ao cristão experimentar; que esta maravilhosa
atitude de Deus para conosco em amor, apesar do nosso pecado,
se manifeste a eles em toda a sua plenitude e em toda a sua
glória. Que eles tenham essa bênção, que a experimentem, que
ela seja derramada sobre eles, que, portanto, eles conheçam e
experimentem o amor de Deus em toda a sua plenitude. Outra
maneira pela qual ele o diz, quando escreve aos efésios, é que
ele ora por eles no sentido de que sejam cheios de toda a
/

plenitude de Deus (Efésios 3:19). E exatamente a mesma coisa.


Isso é experimentar a graça de Deus em sua totalidade e em
sua plenitude.
Depois vocês passam à segunda palavra, “paz” - e,
naturalmente, esse termo ele sempre emprega por esta razão:
para o que leva a experiência da graça de Deus? A resposta é:
para a paz. A graça de Deus é destinada a levar-nos a esta paz e
a dar-nos esta paz. Assim é que, utilizando estes dois termos,
Paulo utiliza o princípio e o fim. Ele está pensando na nascente
A

do rio e no mar ao qual ele leva - o Alfa e o Omega. Está tudo


aí. A graça é a fonte, a origem que leva a este oceano de paz.
Bem, que é paz? alguém perguntará. Todo o mundo pensa que

215
O Evangelho de Deus

sabe o que é paz, e, todavia, às vezes penso que não


experimentamos mais paz porque não nos damos ao trabalho
de lembrar-nos do que ela é. Primeiro vejamo-la negativa­
mente. A paz é o oposto da inquietação. É o oposto do conflito
e da insegurança. A paz é o oposto da infelicidade. Assim,
Paulo quer que eles gozem paz, e que todas essas outras coisas
saiam da vida deles.
No entanto, vejamos isso positivamente. O cristão é alguém
que goza paz com Deus. Veremos o apóstolo resumindo um
grande argumento no versículo primeiro do capítulo cinco de
Romanos, quando ele diz: “Sendo, pois, justificados pela fé,
temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo”. E,
naturalmente, essa é a coisa mais maravilhosa da vida cristã. O
incrédulo, o não cristão, está em inimizade contra Deus; há um
estado de beligerância entre ele e Deus. E como isso é real! Todos
nós sabemos disso. Podemos vê-lo noutras pessoas. A mente
natural é inimizade contra Deus; o homem natural odeia a Deus,
gostaria que não existisse Deus. Está sempre pronto a acreditar
num artigo de jornal em que algum grande cientista afirma
/

que pode provar que não há Deus. E pura inimizade. Longe de


estar em paz com Deus, está em constante conflito, luta,
antagonismo e guerra - “estranhos, e inimigos no entendimento”
(Colossenses 1:21). Mas quando um homem se torna cristão,
quando a graça de Deus lhe vem e trata com ele, ele fica em paz
com Deus. Contudo, vocês podem ver isso de maneira
completamente diferente também. Deus não olha favoravel­
mente para um homem enquanto ele não está em Cristo. Ele é
um inimigo, um réprobo. Está sob a ira de Deus, e ali não há
paz. Assim o que Deus fez por nós em Cristo é que Ele nos
reconciliou conSigo - a paz é criada, a paz vem a existir.
Meus caros amigos, estamos estudando as Escrituras, mas
não podemos estudar as Escrituras sem aplicá-las, pelo que
pergunto a cada um de vocês nesta altura: você está em paz com
Deus? Você goza paz com Deus? Você tem algum ressentimento
contra Deus? Não é propósito dEIe que o tenha. Como cristão,
216
Romanos 1:7,8

você não deve tê-lo. Há algo de errado com você nalgum ponto,
se você tem algum tipo de oculta objeção a Deus, ou a algo que
Ele fez a você ou a outrem. Se há algum questionamento ou
contestação, você não está gozando paz. Estar em paz com Deus
deve significar que não há nada interferindo. O nosso coração,
a nossa mente, todo o nosso ser está aberto e fruímos Deus. “O
fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-10 para
sempre.” Paz com Deus. Ah, a graça de Deus leva a isso. Essa
a razão pela qual Paulo quer que eles experimentem a graça,
para que possam gozar esta paz.
Muito bem, vejam que não é somente paz com Deus, é
também paz interior. Cada uma dessas espécies de paz daria
um sermão, não daria? O tema pode ser expandido, e eu espero
que quaisquer pregadores que haja entre nós o façam. Por causa
do tempo, estou fazendo o que posso para evitar isso!* Paz,
repito, não somente com Deus, mas também dentro de nós. E
que é que isso significa? Bem, significa ausência de inquietação
no ser interior. Quão inquietos somos por natureza! Quão
inquietos, em conseqüência do pecado! Vejam nossas testas
enrugadas, nossos semblantes carregados! Observem o rosto dos
homens e das mulheres, cheios de ansiedade! Vivem ansiosos,
perturbados, aflitos; andam inquietos, inseguros e infelizes. Não
é o que acontece? Que haverá, se não se realizar tal coisa? Que
acontecerá comigo? Isso é inquietação. Não estamos em paz com
nós mesmos. Como diz Agostinho: “Nosso coração está
inquieto, enquanto não encontra repouso em Ti”. Mas, quando
experimentamos a graça, é-nos dada esta paz interior. Acaba a
guerra. Não que a ansiedade seja eliminada cabalmente,
porém, em todo caso, vemos as coisas de maneira diferente, e
há um descansar no Senhor. Paulo, escrevendo aos filipenses,
diz, naquelas frases memoráveis: “Posso todas as coisas
naquele que me fortalece”. “Aprendi a viver contente em toda
e qualquer situação” (4:11, ARA). Esse é um homem que está

* Não resistimos! Tivemos que deixar essas três frases! -Ed.

217
O Evangelho de Deus

em paz com ele próprio; seu coração inquieto foi serenado.


Vocês, cristãos, estão gozando essa tranqüilidade? Vocês
vêem por que Paulo deseja isso para os romanos. Acaso vocês
estão inquietos por si mesmos? Estão preocupados com a sua
fé? Ainda se perguntam se são cristãos ou não? Isso não é paz. E
quando vocês se põem de joelhos, é para passar o tempo
realmente argumentando consigo mesmos, por assim dizer, e
procurando persuadir-se a si mesmos? Ou vão em plena certeza
de fé e com o coração em paz. E isso que se espera que o
cristão goze. Porventura vocês estão preocupados com as
circunstâncias em que se encontram e com o seu futuro, com o
que vai acontecer com vocês? Como cristãos, devemos
experimentar paz interior - paz com nós mesmos, paz a despeito
das circunstâncias, do que suceda por acidente, dos riscos
casuais, e de todas as muitas coisas que nos podem suceder neste
mundo. E, ao mesmo tempo, o propósito com relação a nós é
que gozemos serenidade e paz com os outros, com as outras
pessoas, com as outras coisas. Pensem bem nisso quanto a vocês.
Pergunto mais uma vez: estamos fruindo estas coisas que Paulo
quer que os membros da igreja em Roma fruam? Não permita
Deus que algum de vocês freqüente estas reuniões só por uma
espécie de interesse acadêmico, e como estudante, e diga: “Estou
interessado é na definição de graça e de paz”. Não é de definição
que você precisa, meu amigo, é de experiência pessoal da graça
e da paz. Não permita Deus que você jamais olhe para a Palavra
de Deus objetivamente, e diga: “Ah, sim, eu sou um estudioso
da Palavra”. E boa coisa ser estudioso da Palavra, contudo
somente com o fim de ser praticante da Palavra e de ter
experiência pessoal dela. Pois não há proveito em falar sobre
esses termos, a não ser que saibamos experimentalmente o
que eles são. “Graça a vós outros e paz”! (ARA). Essas bênçãos
chegaram a vocês?
Aí estão, pois, o princípio e o fim. Observem, porém, como
Paulo coloca o assunto. Ele diz: “Graça e paz de Deus nosso
Pai, e do Senhor Jesus Cristo”. Aqui, de novo, quero mostrar-
218
Romanos 1:7,8

-lhes como a doutrina se introduz sutilmente. Por certo vocês


notam que ele espera que eles gozem esta graça e esta paz
provenientes de Deus, a quem ele descreve como “nosso Pai”, e
as duas palavras são significativas. Deus é Pai para o cristão.
Não é Pai para ninguém mais. Isso de paternidade universal de
Deus, nesse sentido, não existe. Deus é o Criador de todos e,
nesse sentido, somos Sua prole, mas Ele não é Pai de todos.
“Vós”, disse um dia o nosso Senhor aos judeus, “tendes por pai
ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai” (João 8:44).
O cristão conhece a Deus como seu Pai. Deus não é uma
abstração filosófica: ox,o “absoluto”, o “eterno”. Não, não! Ele
é seu Pai. Não apenas Deus, o Criador, mas agora Pai, e pessoal
- “nosso Pai”. Não é de admirar que o apóstolo se expresse dessa
maneira. Notem que ele não diz: “Graça e paz de Deus”. Ele
não fica nisso. Não, como cristãos, aqueles romanos estão numa
nova relação - “nosso Pai”. E quanto a você, Ele é seu Pai?
Você pensa nEle como um Deus em longínqua distância, ou
O conhece como seu Pai?
Isso posto, depois vocês notam esta vital e fascinante palavra
-V’. “Graça epaz de Deus nosso Pai,e do Senhor Jesus Cristo.”
Que há de interessante nisso? talvez vocês perguntem. Bem, há
doutrina, doutrina profunda. A pequena palavra “e” aqui me
diz que o Senhor Jesus Cristo é igual a Deus. Ela me diz que
Jesus de Nazaré não era tão-somente homem, mas que Ele é o
Filho eterno de Deus. “...Deus o Pai e...” Que é que se pode
pôr ao lado de Deus? Nada, senão Deus. Não se pode pôr um
homem ao lado de Deus; não se pode pôr ali um poder, não se
pode pôr ali coisa alguma. O que quer que se ponha ao lado de
Deus só pode ser igual a Ele - “Deus nosso Pai e... o Senhor
Jesus Cristo”. Ele só pode ser o Filho de Deus. Paulo já nos
dissera que Ele “nasceu da descendência de Davi segundo a
carne, declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito
de santificação”. A pequena palavra “e” diz-nos tudo isso.
Noutras palavras, Paulo está declarando aqui, nesta parte
puramente pastoral da carta, toda a admirável doutrina da Pessoa

219
O Evangelho de Deus

de Cristo, o Filho unigénito de Deus, coigual ao Pai. “Deus


nosso Pai e...” Não há outra posição que se pode Lhe atribuir.
Ele veio do seio de Deus; Ele retornou para lá. Ele está à destra
da Pessoa de Deus. Assim é que, de uma vez, vocês vêem, de
passagem pode-se dizer, Paulo não somente volta a introduzir a
doutrina da Pessoa de Cristo, porém também nos mostra de
onde veio a doutrina da santa e bendita Trindade. Há outra
Pessoa a quem cabe estar ali também - Deus o Espírito Santo.
Acaso não é patético que alguém deixe de ver estas coisas? Não
seria patético que os homens sempre tenham tentado
argumentar, e ainda tentem, no sentido de negar que o Senhor
Jesus Cristo é Deus eterno como Deus o Pai o é, e como Deus o
Espírito Santo o é? Assim, quando estudarmos as Escrituras,
observemos cada palavra. Eu disse que na passagem em foco
não há nenhuma grande doutrina explícita, mas vejam que
implícita há - repentinamente, quando menos a esperamos,
mediante a pequena palavra “e”, ele introduz as duas doutrinas
mais importantes de todas; e isso no meio das saudações mais
comuns com as quais o apóstolo procura pôr-se em dia com os
seus correspondentes. Alçamos de novo os nossos corações, com
louvor e adoração, quando nos lembramos de que “Deus amou
o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigénito...”, e
isso é graça. “A lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade
vieram por Jesus Cristo” (João 3:16; 1:17). Portanto, agraçaea
paz que gozamos só podem vir, sempre e necessariamente, de
Deus o Pai, e também do Senhor Jesus Cristo.
Essa é a primeira bênção que o apóstolo deseja para os
membros da igreja em Roma. A segunda é que ele dá graças a
Deus por eles. “Primeiramente”, diz ele, “dou graças ao meu
Deus por Jesus Cristo, acerca de vós todos, porque em todo o
mundo é anunciada a vossa fé.” Por ora, como vocês podem
notar, estamos simplesmente nos concentrando no que ele diz
aos romanos, não no que ele diz acerca de si próprio. (Voltarei a
isso mais adiante, mas aqui vamos tratar da segunda palavra
dita por ele aos romanos.) E, de novo, notem como é importante
220
Romanos 1:7,8

que a examinemos negativamente. Observem que ele não


agradece a eles - dá graças a Deus por eles. Não agradece a eles
o serem o que são. Não lhes agradece o se terem unido à Igreja
e o fato de serem fiéis. Jamais poderei entender os pastores que
agradecem às pessoas o fato de comparecerem a um culto, e que
lhes dizem quão boas, quão excelentes elas são! Não devemos
ser louvados, meus amigos. Deus é que deve ser louvado pelo
que somos. Vejam vocês, outra vez estamos em meio a uma
profunda doutrina! Por que Paulo dá graças a Deus por eles?
Bem, ele já no-lo dissera - não disse? - nos versículos seis e
sete, principalmente na primeira metade do versículo sete: “A
todos os que estais em Roma” - cristãos em Roma. Por que eles
são cristãos em Roma? Porque são “amados de Deus”. Deus os
amou. Náo somente isso! Ele os chamou, Ele os separou. Assim,
naturalmente, quando ele chega à questão de dar graças pelos
cristãos de Roma, o único a quem agradecer é Deus. Sobre si
próprio ele diz: “Pela graça de Deus sou o que sou” (1 Coríntios
15:10); e eles são o que são pela mesma graça. Por isso ele dá
graças a Deus por eles. Eles são cristãos.
Dito isso, vocês podem observar que, de maneira especial,
ele dá graças a Deus por sua fé. “Primeiramente dou graças a
meu Deus mediante Jesus Cristo, no tocante a todos vós,
porque em todo o mundo é proclamada a vossa fé” (ARA). Que
é que ele quer dizer com isso? Não defendo a idéia de que ele
quer dizer que eles tinham um tipo incomum ou especial de fé.
Isso existe, não existe? Por certo vocês se lembram de que em
1 Coríntios, capítulo doze, na lista de dons espirituais dada ali,
entre eles é mencionado este dom especial de fé. Pois bem, não
se trata aí da fé salvadora, porque esta todos os cristãos têm.
Mas nem todos os cristãos têm esse dom especial, peculiar, ali
referido. Esse é o tipo de fé que homens como Hudson Taylor e
George Müller, e outros, tiveram. Foi-lhes dado um dom
especial de fé para manifestar a glória de Deus.
Ora, eu não penso que o apóstolo está se referindo a isso
na passagem que estamos estudando. Ele se refere ao fato de

221
O Evangelho de Deus

que eles têm fé num sentido soteriológico, salvífíco. E apenas


outra maneira de dizer que ele dá graças a Deus porque eles são
cristãos. Ele não está dizendo que eles são incomuns e
proeminentes em sua fé e em sua manifestação da fé. Não! Ele
está dando graças a Deus porque eles têm fé, e ponto. E reitero
que é por isso que ele dá graças a Deus. O apóstolo tem algumas
coisas muito interessantes para dizer sobre a fé. Querendo Deus,
chegaremos àquela passagem do capítulo doze onde ele diz:
“...conforme a medida da fé que Deus repartiu a cada um...
Assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo,
mas individualmente somos membros uns dos outros. De modo
que, tendo diferentes dons, segundo a graça que nos é dada, se
é profecia, seja ela segundo a medida da fé”. Entretanto, não
vamos demorar-nos nisso agora; observamos essas coisas apenas
de passagem. Estou opinando que aqui o apóstolo está
realmente dando graças a Deus pelo fato de que estas pessoas
são cristãs e exercem a sua fé em Deus por meio do Senhor
Jesus Cristo.
Em particular, vocês podem notar, ele dá graças a Deus por
esse fato porque “em todo o mundo é anunciada” essa sua fé.
Devo dizer sobre isso uma breve palavra, como de relance,
porque vocês verão muitas vezes, quando em discussão sobre
certas doutrinas, que há pessoas que tendem a dizer coisas como
esta: “Ora, quando a Bíblia diz “mundo”, quer dizer “mundo”,
e “mundo” refere-se ao mundo inteiro e a todos os que estão no
mundo”! Mas vocês acham que Paulo aqui está dizendo que
cada pessoa que estava vivendo no mundo tinha ouvido falar
da fé que estes cristãos romanos tinham? Claro que não é isso.
Provavelmente havia milhares de pessoas que nunca ficaram
sabendo que em Roma havia algum cristão e, todavia, Paulo
diz: “em todo o mundo é anunciada a vossa fé”. De que se
trata? As pessoas cultas dizem que a expressão é uma hipérbole
natural. Ele não se refere a cada indivíduo singular. Eis o que
ele quer dizer: mundo, de fato, em seu uso bíblico numa
passagem como esta, refere-se ao Império Romano, o então
222
Romanos 1:7,8

mundo civilizado conhecido. Havia gente fora do Império


Romano. Havia os que viviam na China, por exemplo, porém
eles nunca tinham ouvido falar destas coisas. Assim, vocês vêem,
“todo o mundo” não significa todos e cada um dos indivíduos.
Estou me referindo a isso simplesmente por esta razão: quando
encontramos esta palavra, devemos ter o cuidado de deixar que
o respectivo contexto a interprete. E vão dizer “mundo quer
dizer mundo”, e fazer-se eloqüente. Deixem que o contexto
decida o que a palavra significa em dado caso em particular, e
verão que há diferentes sentidos ligados a ela em diferentes
lugares, desse modo. O apóstolo, digo eu, está se regozijando
no fato de que no mundo civilizado, no Império Romano como
conhecido então, havia a alegria de que estes cristãos eram
membros da igreja em Roma. Vocês acham que ele estava
pensando em todos os que viviam no Império Romano? Eu
não. Penso que ele está se referindo somente aos membros da
igreja de diferentes países. “Todo o mundo” aqui significa,
provavelmente, o povo cristão espalhado por todo o Império
Romano; os cristãos eram os únicos que estariam interessados
nisso. Quanto aos outros, alguns poderiam ter ouvido a respeito
casualmente, mas podemos estar certos de que não foram todos
os cidadãos romanos, individualmente considerados, que
ouviram falar sobre isso. Contudo os cristãos, sim, tinham
ouvido, e é isso que deixa o apóstolo tão feliz. Como vocês
poderão ver, Paulo diz a mesma coisa na Primeira Epístola aos
Tessalonicenses, onde ele praticamente declara: “Não tenho
necessidade de dizer coisa alguma; espalhou-se a notícia a
respeito de vocês”. E é isso que ele quer dizer na passagem que
estamos estudando - os cristãos de todas as partes do Império
Romano tinham ficado sabendo que até em Roma havia cristãos,
e Paulo se regozija nisso, como eles também.
Por que Paulo dá graças a Deus por isso? As razões são
muitas, não são? E sempre bom e animador ouvir a respeito de
outros cristãos e, afinal de contas, Roma era uma cidade muito
importante. Era uma cidade imperial, o centro do Império

223
O Evangelho de Deus

Romano e do governo romano, e era maravilhoso que houvesse


cristãos na própria metrópole. Pessoas de distantes regiões do
império ouviram dizer que havia cristãos à sombra do próprio
palácio imperial, e se regozijavam nisso, com toda a razão.
Penso que havia ainda outro motivo: Roma era a capital, o
centro, e o resultado era, naturalmente, que havia grande
concentração de gente ali; pessoas de todas as partes se juntavam
e gravitavam por lá, e, como se pode dizer hoje de Londres e de
qualquer grande capital, achava-se ali gente de todo tipo e de
toda espécie. Assim é que havia representação de tudo lá -
libertinagem em sua forma extrema, irreligiosidade, divindades
pagãs, e tudo isso ia de vento em popa na vida da corte - estava
tudo ali. E vocês sabem que pessoas simples do campo às vezes
pensam que não podem existir cristãos em tais lugares. Tais
pessoas pensavam assim no passado, e ainda tendem a pensar
assim, embora com o rádio, a televisão e quejandos a diferença
entre a cidade e o campo esteja desaparecendo rapidamente.
Mas, nos tempos neotestamentários, certamente havia toda
essa diferença, e uma grande cidade era considerada quase um
inferno. Mas eis que, de repente, ouvem dizer que até numa
cidade como Roma, com todo o inferno à solta, havia grupos de
cristãos que se reuniam nas casas uns dos outros, e isso encheu
de alegria o coração dos outros crentes em todo o império.
Outro efeito foi que isso constituiu a prova final de que o
evangelho não é só para os judeus, porém também para os
gentios. Ele estava ali, na sede do governo. Estava em Roma,
em todos os lugares. Assim, pois, o evangelho se propagaria
por toda parte (e aí está outra razão), porque estava ali na sede e
no centro, c as pessoas, saindo de lá a serviço do imperador em
diferentes regiões, levavam as boas novas do evangelho por onde
iam. Por isso, por todas essas razões, o apóstolo se regozijava.
Permitam-me fazer uma observação final nesta altura, algo
que para mim é muito importante e significativo na atualidade.
“Dou graças ao meu Deus... porque em todo o mundo é
anunciada a vossa fé.” Eles não tinham jornais, não tinham
224
Romanos 1:7,8

telégrafo e telefone; eles não tinham rádio e televisão, nem


agências de imprensa, nem agentes publicitários, e, todavia, a
notícia se espalhara daquela maneira por todo o Império
Romano. Que lição para a publicidade da obra da Igreja! Como
terá acontecido? Vocês podem imaginar? Por que se falou disso
no mundo inteiro? Como se soube? Meus caros amigos, a
resposta é muito simples. Um avivamento jamais requer publici­
dade; ele se divulga por si. Não é preciso fazer propaganda da
obra do Espírito Santo; ela é a sua própria propaganda. Leiam
a história da Igreja. Quando irrompe um avivamento num
pequeno grupo, não importa quão pequeno seja, a notícia
espalha-se, a curiosidade é despertada, e as pessoas vêm e dizem:
“Que é isso? Podemos participar? Como podemos obter isso?”
O homem não precisa fazer propaganda; o fato torna-se
conhecido; propaga-se pelo mundo todo. Foi o que aconteceu
ali. Isso é avivamento! Isso é Pentecoste! Isso é obra realizada
pelo Espírito Santo; e a notícia se espalhara como um incêndio
incontrolável naquele mundo antigo com seus pobres meios de
comunicação e desprovido de recursos publicitários.
Porventura não chegou a hora de pensarmos em termos do
Novo Testamento, meus amigos? Quando o Espírito Santo entra
e realiza a Sua obra poderosa, esta vem a ser conhecida, sempre
e inevitavelmente. Deus a faz propagar-se. Ele o fez em cada
um dos avivamentos ocorridos através dos séculos. Ele ainda o
faz. Sempre o fará. Ah, que a Igreja se concentre em experi­
mentar o poder do Espírito Santo! Creiam-me, quando o
Espírito Santo vier com o Seu poder a um só coração ou a um
grupo de pessoas, de maneira extraordinária, de maneira que
ninguém consegue entender, a notícia se espalhará, os corações
se inflamarão e as pessoas viajarão para lá. Quererão estar perto.
Quererão tomar parte nisso, participar disso. “Dou graças ao
meu Deus por Jesus Cristo... porque em todo o mundo é
anunciada a vossa fé.” Amados irmãos em Cristo, se eu e vocês
tão-somente funcionássemos como cristãos da maneira que
devíamos, sem dúvida, entre outras coisas, grandes somas de

225
O Evangelho ãe Deus

dinheiro da Igreja seriam poupadas. É porque eu e vocês não


estamos divulgando a fé cristã como devíamos, que a Igreja tem
que estabelecer secretarias de imprensa, montar departamentos
de publicidade e fazer propaganda. No princípio, no século
primeiro, o cristianismo era divulgado pela vida e pelo modo
de viver do povo cristão. Ah, se isso voltasse a acontecer! Você
está divulgando o cristianismo? Fala-se da sua fé? Comentam-
-na em sua casa? Falam dela em seu escritório? Falam dela no
trabalho, na fábrica, onde quer que você esteja? Falam da sua
fé? Sua fé leva ao regozijo? Leva a questionamentos? A
perguntas? Está levando alguém a procurar descobrir o que ela
é e como pode ser obtida? Oxalá conheçamos e experimentemos
a graça, bem como a paz de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus
Cristo, em tal medida que se venha a falar da nossa fé no mundo
inteiro, e com isso Deus seja glorificado e muitos sejam levados
a Ele!

226
14
“Primeiramente dou graças ao meu Deus por Jesus Cristo, acerca
de vós todos, porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé. Porque
Deus, a quem sirvo em meu espírito, no evangelho de seu Filho, me é
testemunha de como incessantemente faço menção de vós, pedindo
sempre em minhas orações que nalgum tempo, pela vontade de Deus,
se me ofereça boa ocasião de ir ter convosco. Porque desejo ver-vos,
para vos comunicar algum dom espiritual, a fim de que sejais
confortados.” - Romanos 1:8-11

Prosseguimos agora para a terceira palavra que o apóstolo


Paulo diz aos romanos. Ele fala do seu grande desejo de vê-los,
e da razão para isso. Ele fica repetindo quanto deseja vê-los. E
notamos que o seu motivo para visitar Roma não era poder
passear pela cidade, tão famosa como o centro do governo e por
seus edifícios e diversas outras coisas; o que ele queria não era
ir a Roma só por ir a Roma. O que na verdade ele queria era ver
o pequeno grupo de cristãos. Não vejo nenhum sinal em parte
alguma de que ele estivesse desejoso de ver o imperador, se bem
que ele gostaria de ver o imperador se este estivesse disposto a
ouvi-lo pregar. Mas, isso à parte, o interesse dele não é por
edifícios, por cidades e por grandes personagens; ele está, porém,
tremendamente interessado em qualquer cristão, esteja este onde
estiver, e ele expressa este grande desejo de ver os cristãos
romanos. Aí também, naturalmente, ele nos fala muito de si
mesmo. Uma vez que um homem se torna cristão, esse passa a
ser o traço dominante da sua vida; todas as pessoas, daí por
diante, e todos os interesses são julgados sob a luz disto. Não é
que o cristão deixe de interessar-se pela cultura em geral. Ele se
interessa. Mas muitíssimo antes disso, ele está interessado em

227
O Evangelho de Deus

pessoas cristãs, em vê-las e em ter comunhão com elas.


O apóstolo, porém, está particularmente desejoso de visitá-
-los, ele nos diz, por este motivo: a fim de que eles sejam
confirmados. Ele diz isso no versículo onze: “Porque muito
desejo ver-vos, a fim de repartir convosco algum dom espiritual,
para que sejais confirmados (VA e ARA). Logo, este é um ponto
que requer um breve comentário aqui. Estaremos considerando
como ele vai executar esse plano mais adiante, quando vamos
analisar o que ele diz sobre si próprio. Mas no momento
observamos que, enquanto ele dá graças a Deus por estes cristãos
de Roma, ele quer que eles fiquem cientes de que precisam de
algo, e aquilo de que necessitam é que sejam “confirmados”.
Outra palavra que vocês poderiam colocar aí, se quiserem, é
“fortalecidos”, sendo que o termo está carregado das idéias de
ser edificado, ser tornado mais completo, ou ser separado. Essas
idéias são comunicadas pelo termo empregado pelo apóstolo.
Isso é, pois, uma coisa a que devemos dar atenção. Naturalmente,
a doutrina é esta: embora estas pessoas de Roma se tenham
tornado cristãs, embora o apóstolo dê graças a Deus, por elas, e
embora ele se regozije no fato de que se fale da sua fé no mundo
inteiro, ele bem sabe que elas têm necessidade de ser
confirmadas, de ser fortalecidas.
Noutras palavras, a conversão não é um fim; é um começo,
e o fato de um homem ser convertido não significa: ah, bem, aí
está o fim da história. Ele veio a Cristo, tornou-se cristão.
Absolutamente não! Se fosse assim, nenhuma das Epístolas do
Novo Testamento teria sido escrita. Todas elas foram escritas
porque tornar-se cristão é apenas o começo. Precisamos ser
confirmados. Precisamos ser alimentados e precisamos receber
instrução. A analogia utilizada pelo apóstolo é que nascemos
“crianças em Cristo” (1 Coríntios 3:1, ARA), e isso não é um
fim; é um começo, não é? Uma criança em Cristo não é alguém
que já chegou e está completa. Não! É alguém que nasceu numa
nova esfera e está apenas começando, alguém que abriu os olhos
pela primeira vez. Precisa ser ensinada a andar, a comer e a
228
Romanos 1:8-11

comportar-se. Precisa de atenção. Não é alguém que se possa


pôr à frente de imediato. Uma criança. E assim vocês podem
ver, nestas diversas Epístolas, a grande atenção dada a isso
tudo: a confirmação, a alimentação com “o leite puro da
Palavra” (1 Pedro 2:2, VA), o treinamento dos neófitos, e assim
por diante.
Pois bem, não quero fazer digressão muitas vezes, mas
permitam que eu lhes faça uma pergunta. Acaso não temos a
tendência de esquecer algo disso hoje em dia, e de quase
corrermos o perigo de pensar que a conversão é um fim? Ah,
meus diletos amigos, é tão-somente o início, e devemos saber
disso por muitas e muitas razões! Quais? Bem, eis algumas delas:
há um poderoso adversário que se opõe a nós, satanás, o acusador
dos Irmãos, e no momento em que um homem se torna cristão,
passa a ser um objeto especial do interesse e dos ataques do
diabo. É por isso que o apóstolo Tiago pôde dizer, no primeiro
capítulo da sua Epístola: “Meus irmãos, tende grande gozo,
quando cairdes em várias tentações, sabendo que a prova da
vossa fé produz a paciência”. E uma prova da vossa fé, diz ele,
e os exorta a se regozijarem nela. De um ângulo podemos agir
assim, mas de outro ângulo é algo que deve levar-nos a pensar
seriamente e a dar-nos conta da nossa condição. O fato de que
nascemos de novo e de que nos tornamos cristãos não significa
que o diabo não nos vai tentar mais. Ele nos atacará. Ele vai
tentar fazer-nos pensar que tudo o que nos aconteceu talvez seja
uma experiência psicológica. Ele procurará lançar dúvida sobre
a veracidade do ocorrido. Ele atirará em nós as suas dúvidas;
tentará abalar-nos.
Ou, se ele não fizer isso, certamente tentará desanimar-nos.
O diabo não consegue impedir nenhum de nós de ser cristão,
mas muitas vezes tem sucesso em fazer de nós cristãos infelizes.
Não é ele que controla se estamos na vida cristã ou não, porém
devido lhe darmos ouvidos, e devido ignorarmos o ensino, ele
pode afetar-nos profundamente, e a conseqüência é que há
muitos que de fato nasceram de novo e que são infelizes em sua

229
O Evangelho de Deus

vida cristã e em sua experiência como cristãos. Foram levados


ao desânimo. O diabo pode criar dificuldades e levantar
obstáculos; pode fazer que tenhamos problema com outras
pessoas. Lembram-se da pertinente ilustração de Paulo no
capítulo quatro da Epístola aos Filipenses? A igreja de Filipos
foi virtualmente dividida em duas. Duas mulheres, Evódia e
Síntique, tinham sido excelentes mulheres no princípio, diz
Paulo, e o tinham ajudado bastante, e agora estavam brigando,
não queriam falar uma a outra, e a igreja estava se agrupando
em torno das duas, e a obra estava sendo ameaçada. Esse tipo de
coisa acontece com os cristãos, pelo que o apóstolo vê quão
importante é que os cristãos sejam confirmados e fortalecidos.
Noutras palavras, precisamos ser instruídos na doutrina que
nos fala deste antagonismo e destas investidas do diabo, e da
sua astúcia e das suas artimanhas. Bem, está tudo no texto em
foco. Por isso ele queria ir a Roma para dizer-lhes coisas como
estas, para prepará-los. Neste sentido, estar prevenido é estar
armado, ou seja, um homem prevenido vale por dois.
Não somente isso. O diabo os tentará para levá-los a pecar,
talvez a cometer pecado manifesto, e assim, como veremos nos
capítulos seis, sete e oito desta Epístola, o apóstolo trata de toda
a questão do pecado. O diabo vem com a sua astúcia e diz:
“Agora, pois, uma vez que você é cristão, não importa o que
você faça. Se é verdade que onde aumentou o pecado,
transbordou a graça, bem, a lógica é: continuaremos pecando
para que a graça aumente?” (cf. Romanos 5:20 e 6:1, NVI) .
Muitos homens caíram nessa armadilha e viraram antinomianos
ou algum outro tipo de herege. O apóstolo sabe disso, e por isso
diz: espero vê-los para poder confirmá-los. Como ele diz noutro
lugar aos coríntios, “Não ignoramos os seus ardis” - os ardis do
diabo (2 Coríntios 2:11). Vocês são “crianças em Cristo”, e não
sabem. Pensam que têm tudo, mas estão apenas no começo.
Ah, se eu pudesse vir confirmá-los e certificar-me de que o
alicerce foi bem lançado e que vocês estão sendo edificados
apropriadamente! Quero que vocês sejam fortes. Ou, como ele
230
Romanos 1:8-11

o diz aos efésios: “Para que não sejamos mais meninos


inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina,
pelo engano dos homens que com astúcia enganam
fraudulosamente” (Efésios 4:14). Ele tem ciência disso tudo, e
se preocupa com eles. É como o pai que olha por uma criança
pequena e desvalida, e enxerga os perigos. A criança não os
enxerga, mas o pai sim, e, portanto, Paulo deseja estar com estes
cristãos novos na fé para poder fortalecê-los e confirmá-los.
E mais, como há pouco estive dizendo, ele sabe que eles
serão atacados por falsos ensinos. O apóstolo teve que passar
grande parte da sua vida contestando o falso ensino do judaísmo,
assim chamado. Havia os que saíam visitando as suas jovens
igrejas e diziam: “Você foi convertido, sem dúvida, porém, para
ser um cristão verdadeiro e completo, precisa ser circuncidado”.
Causavam estrago, porque as pessoas acreditavam neles, e
muitas vezes isso deixava Paulo aturdido. Como vocês podem
A

acreditar neles? -pergunta ele aos gálatas. “O insensatos gálatas!


quem vos fascinou?” Como puderam ser levados tão facilmente
e tão depressa a extraviar-se? Mas essa era a situação, e, portanto,
este grande homem - este sábio arquiteto, como ele se chama
(1 Coríntios 3:10) - tinha grande desejo de estar com eles em
Roma, para que pudesse abrir-lhes os olhos para esses perigos
terríveis que já os ameaçavam e estavam à espera deles. Seu
desejo é confirmá-los. Ele fala disso de novo quando escreve
aos efésios, e o faz com duas palavras magníficas; fala ele em
estarem “arraigados e fundados” (3:17), e como são necessárias
essas duas coisas! Quantas vezes aconteceu que uma gloriosa
obra de Deus na conversão mais tarde foi arruinada, não num
sentido final, todavia com relação ao seu valor como testemunho
- por causa justamente da falta disto - porque as pessoas não
foram confirmadas. E o mundo olha, sorri, e diz: “Que maravilha
parecia! Vejam-no agora! Seu Cristo é assim?” E dessa forma o
nome de Cristo é que cai em má reputação.
Evangelizemos, então, com todas as nossas forças e com
denodo, mas sejamos igualmente cuidadosos no sentido de que,

231
O Evangelho de Deus

ao mesmo tempo, os convertidos estejam “arraigados e fun­


dados” e confirmados na fé, porque, como vimos, o maior meio
de publicidade nestas questões é, afinal de contas, o povo
convertido. Não importa o que eu e vocês possamos dizer em
nossas pregações, em nossos livros, e seja no que for, se os fatos
estiverem contra nós. O mais grandioso testemunho da verdade
do evangelho e de Cristo deve achar-se na maneira de viver dos
cristãos - “cartas vivas”. Muito bem, diz Paulo, anseio por vê-
-los, para que eu possa confirmá-los e fazer com que vocês
estejam realmente arraigados e fundados nestas coisas.
Pois bem, precisamos ser confirmados em todas as partes
da nossa vida. Precisamos ter a nossa mente confirmada; é aí
que a doutrina entra. Entretanto também precisamos ter o nosso
coração confirmado. A dificuldade que havia com relação aos
antigos israelitas, é o que se nos diz, era que os seus corações
cobiçavam outras coisas. E todo cristão tem alguma experiência
disso. Precisamos ser confirmados em nossas sensações, em
nossas emoções, bem como em nossas mentes, e o apóstolo
Paulo, quando visitava uma igreja, punha os seus corações e as
suas mentes no mesmo nível. Seu ministério não era árido,
estéril, seco. Ele os comovia; eles choravam quando o ouviam.
Ele falava ao coração, bem como à mente. Sim, e ele quer
também confirmar a vontade - o homem integral. Ele estava
interessado na pessoa completa e, portanto, seu anelante desejo
é estar com eles. Essa é a principal razão, diz ele, do seu desejo
de estar lá para que eles sejam confirmados.
A seguir Paulo dá também uma razão subsidiária, que ele
coloca desta forma: “...para também ter entre vós algum fruto,
como também entre os demais gentios” (versículo 13). Não nos
deteremos aqui, mas podemos perguntar de passagem que será
que ele quer dizer exatamente com fruto. Estaria se referindo a
conversões, ou ao fruto de ver os convertidos edificados e
confirmados, e manifestando as graças da vida cristã? Estaria
ele pensando no fruto quanto ao número de conversões, ou estaria
pensando no fruto em termos do fruto do Espírito sendo
232
Romanos 1:8-11

revelado na vida dos convertidos cristãos? Imagino que,


provavelmente, ele se refere a ambos os aspectos.
Aí está, como eu o vejo, o fim daquilo que o apóstolo tem
para dizer aos romanos nestes versículos. Assim é que passamos
agora à grande subdivisão de toda esta matéria, a saber àquilo
que o apóstolo tem para dizer acerca de si mesmo, e confesso
francamente que, quanto a mim, acho isso em extremo
fascinante. Podemos discernir aqui algo do caráter deste grande
homem de Deus. Ele nos dá vislumbres do seu modo de atuar,
de sua ótica sobre sua obra e sua pessoa, e ele nos dá vislumbres
maravilhosos da sua vida interior, e especialmente da parte
devota da sua vida. Procurei colocar isso sob alguns títulos, e a
primeira coisa que tenho para anotar é a seguinte: a palavra
“primeiramente”, que vocês poderão encontrar no versículo
oito. Tendo dito, “Graça e paz de Deus nosso Pai, e do Senhor
Jesus Cristo”, ele prossegue, dizendo: “Primeiramente...” Você
pode rir disso, mas será porque você não leu com atenção o
parágrafo todo. Que é que eu tenho para dizer acerca da palavra
“primeiramente”? Simplesmente isto: o apóstolo não diz “em
segundo lugar”, nem “em terceiro”. Ele começou dizendo
“primeiramente” (ou “primeiro”, VA), e, naturalmente se espera
uma lista, mas esta não vem. Nada de segundo! Nada de terceiro!
Que é que há de interessante nisso? - alguém indagará. Bem,
penso que temos aqui um esplêndido vislumbre do ser essencial
do apóstolo. Inconscientemente ele nos dá uma visão de relance
dele mesmo. Há diversas coisas que ele quer dizer-nos a seu
respeito, entretanto aqui, sem saber, ele nos diz algo sobre si.
Então, que é que eu deduzo do fato de que tendo dito
“primeiro”, depois não diz segundo e terceiro? Deduzo que
este homem de Deus, embora sendo, talvez, a maior mente e o
maior intelecto que o mundo já conheceu, não obstante não era
escravo, nem da sua mente, nem da sua grande capacidade. Seu
coração era tão grande como o seu cérebro. E o resultado disso
é que vocês poderão ver com muita freqüência em seus escritos
que o seu coração parece exercer o controle sobre ele à custa da

233
O Evangelho de Deus

sua mente. Aí está um homem, vocês vêem, que se dispõe a


dizer certo número de coisas - uma, duas, três, quatro, e assim
por diante; começa com a primeira, e depois vai, e se esquece
que tinha dito “primeiro”, e não volta mais a isso. Essa é uma
notável característica dos seus escritos. Muitas vezes ele se faz
culpado do que os estilistas chamam - e eu acho os termos
técnicos interessantes - anacolutos - plural de anacoluto. Eis o
que é um anacoluto: alguém começa a escrever uma frase; vai
construir uma argumentação. Ele começa, diz algo, e isso o faz
pensar nalguma outra coisa, e ele parte para essa outra coisa, e
jamais completa a frase inicial. Pois bem, o apóstolo era culpado
disso - sentenças inacabadas! Ou, se não as deixava inteiramente
inacabadas, lançava-se a uma tremenda digressão e, depois,
lembrava-se de repente, voltava e completava a sentença. Estilo
horrorosamente mau, vocês diriam? Eu dou graças a Deus por
esse estilo dele. Não temos aqui um literato. Temos um
apaixonado servo de Cristo, um evangelista, um pregador, um
mestre. Ah, não me entendam mal - ele nunca deixa de dizer a
verdade que se dispôs a dizer. Não é esse o ponto que estou
focalizando. Ele sempre comunica a verdade que ele quer
comunicar. Sim! Mas no que se refere ao estilo e à forma, ele
passa direto sobre eles; ele os pisoteia e os esquece. Graças a
Deus por isso.
“Então estaria você defendendo que não haja forma quanto
a um sermão, e que não devemos ter estes pontos?”, pergunta
alguém. Não, eu não estou dizendo coisa alguma desse tipo,
mas estou opinando que muitas vezes vocês são culpados de
excessiva atenção à forma, a tal ponto que se esquecem do
espírito. Não tenho certeza, mas essa pode ser a maior maldição
na Igreja atualmente. Quantas vezes no fim do culto se ouvem
pessoas dizerem: “Não foi isso uma beleza?” Agora, tratemos
de deixar isto bem claro; é preciso que vocês não me entendam
mal. Estou opinando seriamente que a forma tem-se tornado
tão importante em nossas mentes que esquecemos a substância,
o que é um perigo muito grave. O propósito do culto, para
234
Romanos 1:8-11

Cristo e para Deus, não é que primeiro ele seja belo; é que seja
verdadeiro - a verdade primeiro. E se esquecemos a verdade
por amor da beleza da forma, ou algo parecido, estamos
cometendo grave pecado, penso eu. Não, este homem não estava
preso à forma; ele gozava de grande liberdade do espírito. E
deixa pontas soltas.
Se vocês lerem a história dos grandes avivamentos, verão
que sempre foi assim. Alguns dos arquitetos-construtores de
há trezentos anos eram estilistas atrozes. Jonathan Edwards era
um deles; ah, como Deus o usou na pregação, no avivamento e
na salvação de multidões! Somos tão ajustados e tão formais
hoje em dia! Não somente temos os nossos pontos, divisões e
números, mas também insistimos em ter aliteração, quando
quase forçamos a verdade a enquadrar-se em nosso sistema de
cinco letras pês, cinco esses, ou lá o que seja. A forma é tão
maravilhosa, e nós dizemos: “Que clareza, como é belo, quão
maravilhoso, que polidez!” E às vezes me parece pouco menos
que a polidez da morte. A falta de vida da mera forma destituída
de substância viva! “Primeiro”, diz este homem Paulo, e então
esquece o que disse, e nunca passa ao segundo e ao terceiro. O
significado disso, repito, é que ele vivia na esfera do espírito.
Ele não se deixa amarrar por pequenas formas, nem por
qualquer outra coisa.
Fico a perguntar se o maior problema da Igreja Cristã hoje
(e o digo com temor e tremor, mesmo entre os cristãos) não é
que somos escravos do decoro. Somos por demais polidos. Por
demais dignos. Por demais finos! Parece que temos muito medo
de que, de repente, o Espírito Santo desça sobre nós, e que alguns
de nós nos tornamos atarantados - porque esse tipo de coisa
acontece nos avivamentos, vocês sabem. Os programas são
esquecidos. A reunião não pára no momento exato. Quando o
Espírito Santo entra, a reunião pode atravessar a noite, e
deixamos de estar cônscios do tempo. Estejamos alerta, cristãos,
pois se dermos exagerada atenção à forma, a igreja moderna
morrerá de dignidade, por assim dizer, e deixará de ser

235
O Evangelho de Deus

instrumento nas mãos do Deus vivo! Este homem jamais correu


esse perigo. Um anacoluto - “Primeiro”, sem segundo; pontas
soltas aos montes. E ele esquece isso tudo. Ele está cheio do
Espírito, e a verdade inflama-se dentro dele, e vem para fora.
Está tudo aí, nessa parte que estamos estudando. Mas as
Epístolas deste homem não são “belas”; são maciças; são
dinamite; são vulcões expelindo sua grande energia. Graças a
Deus, digo e reitero, por um homem que diz “Primeiro” e se
esquece de dizer segundo e terceiro.
O segundo fato para o qual devo chamar a atenção de vocês
é a sua vida de oração, e que maravilhoso vislumbre temos disso!
Aqui -de novo está uma coisa que sempre aparece em todas as
suas cartas. Não é que ele queira exibir-se; ele seria o último
homem do mundo a fazer uma coisa dessas. Mas ele está apenas
dizendo a verdade simples e solene. Ele era um grande homem
de oração. Não é meu propósito fazer um relato completo do
que o Novo Testamento ensina sobre a oração; vou simplesmente
anotar as verdades reveladas neste trecho particular, concernentes
à oração na vida do cristão. Observem o que ele diz: “Dou graças
ao meu Deus”. Ele não diz: “Dou graças a Deus”. Não. Ele diz:
“Dou graças ao meu Deus”. De novo, em Filipenses, capítulo
quatro, ele emprega a mesma expressão. Ele se interessa pelos
filipenses, e diz: não se preocupem comigo; “Tenho abundância:
cheio estou”. Está tudo bem. E quanto a vocês, diz ele, não têm
por que preocupar-se tampouco - “O meu Deus, segundo as
suas riquezas, suprirá todas as vossas necessidades em glória,
por Cristo Jesus”.
Vocês verão a mesma expressão noutros lugares - até no
Velho Testamento, no Salmo 18. Recomendo-lhes que leiam
esse Salmo. A primeira metade está cheia desta expressão: “Meu
Deus.” Não tenho plena certeza, mas talvez esta seja a
característica mais vital quanto à oração - poder dizer isso. Deus,
para o cristão verdadeiro, para o homem que realmente sabe o
que é orar, não é um Deus distante. E um Deus que está bem
perto. O cristão é alguém que tem acesso a Deus. O cristão é
236
Romanos 1:8-11

alguém que está na nova aliança, e que se regozija nisso. Vocês


verão a mesma verdade em Jeremias, capítulo trinta e um. Ela
é citada diversas vezes na Epístola aos Hebreus, particularmente
no capítulo oito. Eis a essência da nova aliança: Deus diz: “Eu
serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. E não ensinará jamais
cada um ao seu irmão, dizendo: conhece ao Senhor; porque
todos me conhecerão, desde o menor deles até ao maior”. O
meu Deus. Deus, não alguma grande força ou algum poder
impessoal, que talvez possa ajudar-me; tampouco Deus como
uma grande Pessoa à distância. Mas um Deus que disse: “Eu
sou o seu Deus, e você faz parte do meu povo”. O meu Deus.
Pois bem, parece-me que isso é da própria essência da oração!
Será oração verdadeira, pergunto, se não conhecemos a Deus?
Decerto vocês se lembram do poema que diz:

A quantos deuses existam


dou graças por minha alma invencível

Ora, eu temo que demasiadas vezes oramos a Deus desse jeito.


Não oramos, “A quantos deuses existam”, mas o conceito em
geral que temos de Deus parece vago e indefinido. Não assim,
porém, com este homem - “Dou graças ao meu Deus”. Ele o
diz noutro lugar - “...Deus, de quem eu sou, e a quem sirvo”
(Atos 27:23). Há uma relação pessoal, e um conhecimento
pessoal. Não é essa a definição que o nosso Senhor dá da vida
eterna? “E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por
único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (João
17:3). “A nossa comunhão”, diz João, “é com o Pai” - “anossa
comunhão” - “e com seu Filho Jesus Cristo.” (1 João 1:3). O
meu Deus. Esse é o começo da oração. Antes de começarmos a
oferecer as nossas ações de graças, antes de começarmos a pensar
em nossas petições e em nossos desejos, e de nos tornarmos
importunos, conhecemos a Pessoa? Percebemos a Sua presença?
Podemos usar a expressão, “O meu Deus”?

237
O Evangelho de Deus

“Meu Deus, quão maravilhoso és!


Quão refulgente a tua majestade!”

Vocês O conhecem? Há este senso pessoal de contato e de


comunicação? “Dou graças ao meu Deus.”
A próxima verdade é igualmente importante, é claro,
porque jamais podemos dizer “o meu Deus” sem ela. É a
seguinte: “Dou graças a meu Deus mediante Jesus Cristo, no
tocante a todos vós (ARA). Aí ele nos lembra o ponto de novo.
Ele não está escrevendo uma dissertação sobre a oração. Aqui
ele não está preocupado em ensinar-lhes alguma coisa. Apenas
lhes diz quanto ansiava por vê-los, e que espera poder estar com
eles. Ele quer dizer-lhes que dá graças a Deus por eles, mas não
pode fazê-lo sem dizer, “Dou graças a meu Deus mediante Jesus
Cristo”. Ele nunca deixa isso de lado; repete-o uma e outra
vez. Isso sempre entra. Por quê? Bem, porque sempre deve
entrar. Muitas vezes pensamos - não pensamos? - que se
queremos buscar a Deus com uma petição ou com um desejo, é
muito importante que o pedido seja feito “mediante Jesus
Cristo”. Mas Paulo nos diz que isso é igualmente necessário
quando estamos dando graças a Deus. Ele nem pode agradecer
algo a Deus, se não for mediante o Senhor Jesus Cristo. Pois a
verdade é que não há conhecimento de Deus, nem acesso a Deus,
exceto por meio do Senhor Jesus Cristo.
E é por isso, meus amigos, que eu e vocês só temos que
impacientar-nos com toda a conversa moderna sobre um tipo
de “união de todas as crenças” - movimento que sugere que
temos algo em comum com os que crêem nalgum deus e que
oram a seu deus como nós oramos ao nosso Deus. A posição
cristã é que não há oração ouvida por Deus, exceto em Jesus
Cristo e por meio de Jesus Cristo. Sem Ele não há acesso a Deus.
Não tenho comunhão com quem não acha que Cristo é
absolutamente essencial. Pode ser um bom homem, mas não
é cristão, e não conhece a Deus. Não há conhecimento de Deus,
a não ser em Jesus Cristo e por meio de Jesus Cristo. Ele mesmo
238
Romanos 1:8-11

disse: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém


vem ao Pai, senão por mim”. Ele Se arroga essa qualidade, e
esta Sua reivindicação é exclusiva. Portanto, é parte essencial
da posição cristã dizer isso. O budismo, o maometanismo, e
qualquer outro ismo - o judaísmo - nenhum deles leva de fato
o homem a Deus. Por isso não acreditamos num vago
ecletismo religioso. Numa época como esta, não dizemos: “Não
devemos ser particularistas, mas se um homem crê em Deus
e de algum modo menciona o nome de Cristo...” Não! Somos
mais particularistas. Dizemos: o homem deve dar-se conta
de que não há acesso a Deus, exceto por meio do Senhor Jesus
Cristo. Ele é o nosso grande sumo sacerdote, e eu não poderei
chegar “com confiança ao trono da graça”, a menos que, e a
não ser que eu vá em Cristo e por meio dEle. Não poderei
“alcançar misericórdia e achar graça, a fim de ser ajudado em
tempo oportuno”, exceto neste conhecimento. “Visto que temos
um grande sumo sacerdote, Jesus, Filho de Deus, que penetrou
nos céus, retenhamos firmemente a nossa confissão”, e vamos
com confiança, porque “não temos um sumo sacerdote que
não possa compadecer-se das nossas fraquezas”, etc. (Hebreus
4:4-16). Esse é o argumento.
Ou, como o autor da Epístola aos Hebreus o expressa ainda
no capítulo dez, versículo 19, “Tendo, pois, irmãos, ousadia para
entrar no santuário, pelo sangue de Jesus” - e esse é o único
meio pelo qual podemos entrar no santo dos santos (cf. VA).
Não existe outro. Ninguém pode entrar lá, exceto mediante o
sumo sacerdote. O Velho Testamento ensina isso claramente -
somente ao sumo sacerdote era permitido entrar no santo dos
santos, e isso unicamente uma vez por ano, não sem sangue.
Mesmo ele não podia entrar lá sem sangue, e o regulamento era
que ele tinha que ter sinos em toda a orla da sua veste, a fim de
que, quando se movesse, o povo, do lado de fora, ouvisse o tinir
dos sinos e soubesse que ele continuava vivo, e que a santidade
de Deus não o tinha matado! Ele tinha entrado para representá-
-los, a eles e a seus pecados. Ele, somente ele, uma vez por ano,

239
O Evangelho de Deus

não sem sangue, sangue que ele oferecia por si e pelos pecados
do povo! Deus continua sendo o mesmo Deus, e é somente o
sumo sacerdote, Jesus, e todos os que vão através dEle e por
meio dEle, que podem entrar e comparecer à presença de Deus
- no santo dos santos - com confiança e com certeza, e encontrar
toda a misericórdia e a graça de que necessitam em todas as
ocasiões e em todas as situações.
A última coisa que desejo anotar acerca da vida de oração
de Paulo é esta: a sua magnífica intercessão por outros. Ele passa
logo a dizer: “Porque Deus, a quem sirvo cm meu espírito, no
evangelho de seu Filho, me é testemunha de como incessante­
mente faço menção de vós, pedindo sempre em minhas
orações...”. E ele repete isso. Como ele se preocupava com os
outros! Não dá para supor que o mundo tenha conhecido alguém
mais ocupado que este apóstolo. Ele fala algures do “cuidado
de todas as igrejas” (2 Coríntios 11:28) que pesava sobre ele.
Ele trabalhava com as próprias mãos como fabricante de tendas,
para não dever favores a pessoas como os coríntios e outros. Ei­
do, pois, trabalhando dia e noite, e ainda acha tempo para orar
por estas pessoas. Ele nunca tinha visto estes cristãos romanos.
Não os conhece. Mas está sempre orando por eles. Ele os tem
no coração. Vocês devem ter notado como ele ora pelos filipenses,
apesar de ser um homem velho, agora prestes a morrer numa
prisão, pode-se dizer, esperando ser levado à morte a qualquer
momento por um imperador cruel. Pensando neles, lá em
Filipos, ele diz: não posso tirar Evódia e Síntique da cabeça;
estou orando por elas. Elas estavam em seu coração. Intercessão!
E eu suponho que não existe prova mais delicada e mais sutil
do nosso crescimento na graça, e da nossa verdadeira
espiritualidade, do que justamente esta: quanto do seu tempo
você passa orando por você? Quanto do seu tempo você passa
/

orando por outros? E quando um homem pode dizer, “O meu


Deus”, que ele tem mais tempo para dedicar aos outros. O seu
problema está superado. Ele não está mais em busca; já
encontrou. Ele sabe. Ele sabe como entrar. Ele dedica o seu
240
Romanos 1:8-11

tempo à oração intercessória. Ele assumiu este ministério. Ele


não é tão-somente um grande pregador, um mestre e um viajor;
ele se entrega à oração, à intercessão - o fardo disso tudo - a
causa de Deus, estes cristãos novos na fé, e os perigos que os
confrontavam. Ele ora sem cessar. E ele não o diz somente com
relação aos romanos; ele o diz em toda parte.
Aí estão, pois, algumas das verdades que aqui vemos
claramente acerca da vida de oração deste homem. Há uma outra
questão, um grande assunto, e é vital que o mencionemos nesta
altura. Quando eu compareço à presença de Deus, será que estou
absolutamente sujeito e submisso à Sua vontade? Adiante vamos
considerar isso em detalhe. Mas, oxalá, guardemos esta poderosa
lição em nossas mentes: “A meu Deus mediante Jesus Cristo”.

241
15
“Pedindo sempre em minhas orações que nalgum tempo, pela
vontade de Deus, se me ofereça boa ocasião de ir ter convosco.
Porque desejo ver-vos... Não quero porém, irmãos, que ignoreis que
muitas vezes propus ir ter convosco (mas até agora tenho sido
impedido)...” -Romanos 1:10,11,13

Consideremos agora o quarto aspecto da vida de oração de


Paulo. Na verdade eu hesitei se devia introduzir aqui este ponto,
ou se devia incluí-lo sob o meu próximo título, que trata do
que o apóstolo nos diz sobre o seu serviço. Penso que este ponto
pertence realmente a ambas as seções; entra na questão da sua
vida de oração, e certamente também na da sua atitude para
com o seu serviço. De que se trata, então? Trata-se da sua
submissão à vontade de Deus. Notem como ele coloca isso no
versículo dez; no versículo 9 ele diz: “Deus, a quem sirvo em
meu espírito, no evangelho de seu Filho, me é testemunha de
como incessantemente faço menção de vós”, e então, “Pedindo
sempre em minhas orações que nalgum tempo, pela vontade
de Deus, se me ofereça boa ocasião de ir ter convosco”.
Pois bem, este é um assunto muito importante,
especialmente na vida deste apóstolo em particular. Nada é mais
característico dele do que a sua inteira submissão à vontade de
Deus, e isso é algo que aparece em toda parte em suas Epístolas.
E, por certo, este é um ponto particularmente interessante
quando temos em mente o temperamento do apóstolo, porque
não há dúvida alguma de que, por natureza, ele era uma pessoa
de vontade enérgica. Ele era um tipo imperioso de homem,
imagino eu, um homem que tinha uma mente possante e uma
vontade impetuosa, e que, quando queria fazer alguma coisa,

242
Romanos 1:10,11,13

partia para fazê-la: uma personalidade forte. Assim é que,


quando observamos a sua completa e total submissão à vontade
de Deus, vemos que de fato operou-se nele um milagre da graça
quando o perseguidor e blasfemo Saulo de Tarso foi confrontado
pelo Senhor ressurreto no caminho de Damasco e foi trans­
formado no humilde apóstolo Paulo.
Por isso quero examinar esta questão da sua submissão, pois
há diversas coisas que nos são ditas a respeito dela nesta
passagem particular. Aqui o vemos orando, orando especial­
mente no sentido de que ele pudesse ir a Roma, e, todavia,
serenamente submisso à vontade de Deus nesta questão.
Vejamos, então, os elementos que compõem esta submissão.
Esta é uma doutrina muito importante, e, obviamente, uma
doutrina extremamente prática. Numa ou noutra ocasião todos
nós temos que enfrentar a questão sobre o que devemos fazer.
Os cristãos ficam mais vezes perplexos por causa deste pro­
blema de orientação do que, talvez, por causa de qualquer outra
questão ou problema, isoladamente considerado. Que é que eu
devo fazer? Como posso saber? Bem, eu não quero tomar
demasiado tempo com isto; simplesmente vou chamar a atenção
para as verdades que Paulo nos diz sobre si mesmo a respeito
disto neste trecho em particular.
Observemos, primeiramente, como já fizemos, o intenso
desejo que Paulo tem de vê-los e de trabalhar entre eles. Vejam
as expressões que ele emprega no versículo 10. “Pedindosempre
em minhas orações que nalgum tempo, pela vontade de Deus,
se me ofereça boa ocasião de ir ter convosco.” No versículo 11
ele diz: “Anseio por ver-vos” (VA). Com que força ele expressa
a intensidade do seu desejo! E então, no versículo 13: “Não
quero porém, irmãos, que ignoreis que muitas vezes propus
ir ter convosco”. Não uma vez, nem duas, mas muitas! “Muitas
vezes.” É evidente que era intensamente forte o seu desejo de
estar com eles. No capítulo 15 desta Epístola, no versículo 23,
ele diz: “Tendo já há muitos anos grande desejo de ir ter
convosco...”. Procuremos aperceber-nos do que ele está dizendo.

243
O Evangelho de Deus

Este servo de Deus, este extraordinário apóstolo, este homem


que fora “chamado” de maneira tão singular, fazia anos, diz ele
aos cristãos romanos - “há muitos anos” - que ele desejava
visitá-los, e ainda não os tinha visto, nunca estivera lá.
Dou ênfase a isto porque às vezes penso que temos a
tendência de imaginar que na vida de um apóstolo como este
nunca havia problemas ou dificuldades. Achamos que o grande
apóstolo Paulo tinha tal intimidade com Deus, e estava em tal
harmonia com Deus e com o Espírito, que nunca soube o que
era desejar alguma coisa intensamente e, todavia, não tê-la
durante muitos anos; contudo ele nos diz que a situação era
precisamente essa. Podemos auferir consolo disso, lembrando
que, se isso pode acontecer com um homem excepcional e
extraordinário como este, segundo a grandiosa vontade de Deus,
pode acontecer conosco também. Essa é, então, a primeira
verdade.
Mas devo mencionar um segundo elemento. Como vocês
podem notar, Paulo sempre age pela vontade de Deus ou
segundo a vontade de Deus. Vejamos novamente o versículo
10: “Pedindo sempre em minhas orações que nalgum tempo,
pela vontade de Deus, se me ofereça boa ocasião de ir ter
convosco”. O apóstolo não somente desejava visitar os cristãos

em Roma; tinha até planejado fazê-lo. E por isso que o capítulo


quinze é tão importante. Ele fala duas vezes, ou mais, que tinha
um plano em mente. Ele tinha grande desejo de pregar na
Espanha, e tinha resolvido que quando chegasse a hora de ir lá,
de passagem visitaria Roma; esta achava-se diretamente em sua
rota, é claro, e ele aguardava isso ansiosamente. Esse era o seu
plano. E evidente que ocasionalmente o apóstolo sentava-se e
traçava um plano de campanha, e, entre outras coisas, estava
em seu coração ir pregar na Espanha e, no caminho, visitar
Roma. E, todavia, embora desejasse isso e tivesse o plano em
mente, teve todo o cuidado de deixar bem claro que não iria
fazer isso enquanto não estivesse absolutamente certo de que
estava de acordo com a vontade de Deus.
244
Romanos 1:10,11,13

Isso para mim é muito importante, como importante é que


compreendamos exatamente o que Paulo quer dizer com uma
frase do versículo 10: “Pedindo sempre... que nalgum tempo
(finalmente, se vocês quiserem), pela vontade de Deus, se me
ofereça boa ocasião de ir ter convosco”. Que é que ele quer dizer
com “se me ofereça boa ocasião”(VA: “eu tenha viagem
favorável”)? Essa é a tradução da Versão Autorizada (inglesa),
porém na Versão Revista (“Revised Version”), o texto diz: “...que
eu seja favorecido”, e eu penso que essa tradução é melhor. Não
é tanto que Paulo esteja pedindo que ele possa ter viagem
favorável, mas sim que, finalmente, ele seja favorecido por
Deus no sentido de poder fazer a viagem. Possivelmente dá no
mesmo, mas eu acredito que aqui a tradução da “RV” está
realmente mais próxima do sentido. Penso que a tradução de
Weymtuth é muito útil neste ponto; diz ele: “...que de algum
modo se me abra caminho para ir ter convosco”. Pois isso é
excelente. E o que ele estava esperando. Ele estava esperando
que Deus lhe abrisse o caminho.
Aqui a Versão Revista Padrão (“RSV”) é muito pobre, penso
eu, e até enganosa; diz ela: “...que agora, afinal, eu consiga ir ter
convosco”. E espantoso que os tradutores tenham posto isso aí.
Faço referência à Versão Revista Padrão porque ela é muito
popular; muitos, de fato, dão-me a impressão de que a acham
perfeita. Mas não nos esqueçamos de que os homens
responsáveis por essa tradução são, todos eles, teologicamente
liberais, e é interessante notar como isso transparece até em
passagens como esta, em sua tradução: “...que agora, afinal, eu
consiga ir ter convosco” - o que obviamente carrega a
insinuação de que é algo que o apóstolo tenciona conseguir
fazer. Contudo o que o apóstolo deseja realmente é que seja
“favorecido”.
Permitam-me provar isso a vocês. A palavra empregada
aqui, a qual é traduzida destas diferentes maneiras, é exatamente
a mesma palavra que o apóstolo emprega em 1 Coríntios,
capítulo dezesseis, versículo 2. Ele está falando da coleta em

245
O Evangelho de Deus

favor dos santos, e eis o que ele diz: “No primeiro dia da semana
cada um de vós ponha de parte o que puder ajuntar, conforme a
sua prosperidade...” (VA: “conforme Deus o favoreceu...”),
precisamente a mesma palavra. Vós deveis guardar conforme
Deus vos favoreceu, ou vos fez prosperar, “para que se não façam
as coletas quando eu chegar”. E a palavra é empregada também
na Terceira Epístola de João, no versículo dois: “Amado, desejo
que te vá bem em todas as coisas, e que tenhas saúde, assim
como bem vai à tua alma”.
Muito bem, pois, o sentido aqui é perfeitamente claro: o
que o apóstolo está esperando é que Deus lhe possibilite fazer
boa viagem - “favorecê-lo” de modo que, afinal, ele possa fazer
essa viagem a Roma. Embora seja esse o seu desejo intenso,
embora tenha em mente o plano de ir à Espanha, e interromper
a sua viagem em Roma, ele não dará nem um passo enquanto
não estiver certo de que essa é a vontade de Deus. Pois bem,
isso é algo tremendo, e essencial para que se possa entender a
vida e o ministério deste homem. Ele sabe que nada irá bem, a
menos que seja sob a bênção de Deus, e não importa quais sejam
as suas idéias pessoais, nem quão intensos sejam os seus desejos,
ele não se moverá quanto a esta questão enquanto não estiver
claro para ele que é da vontade de Deus que ele o faça. Assim,
apesar de toda a intensidade, ele diz aos cristãos romanos que
está “pedindo sempre em minhas orações que nalgum tempo,
pela vontade de Deus, se me ofereça boa ocasião de ir ter
convosco”. Noutras palavras, como digo, ele se submete, e
submete as suas propostas, absoluta e completamente à vontade
de Deus.
Mais interessante ainda - e este é o terceiro ponto de que
trato sob este título - ele aceita os obstáculos; ele é sensível à
vontade de Deus manifesta nos obstáculos. Ele nos fala disso
no versículo treze, onde diz: “Não quero porém, irmãos, que
ignoreis que muitas vezes propus ir ter convosco”, e então, entre
parênteses, (“mas até agora tenho sido impedido”). E,
naturalmente, ali ele nos mostra como entraram obstáculos em
246
Romanos 1:10,11,13

sua vida, e como Deus os utilizou para guiar o Seu servo. Isso
constitui uma parte vital da doutrina da orientação, porque às
vezes Deus nos mostra o que Ele quer que façamos, ou que não
façamos, por meio de obstáculos, e eu desejo mostrar a vocês
como esta doutrina surge na vida deste apóstolo no Novo
Testamento.
Agora a questão é: como aparecem os obstáculos? Como
eles são postos no caminho do cristão? Pressinto que há uma
sugestão muito útil, quanto a esta questão, no capítulo quinze
de Romanos, versículos 22 e 23: “Pelo que também muitas vezes
tenho sido impedido de ir ter convosco. Mas agora, que não
tenho mais demora nestes sítios, e tendo já há muitos anos grande
desejo de ir ter convosco, quando partir para a Espanha irei ter
convosco”. A que será que ele se refere quando diz: “Pelo que
também muitas vezes tenho sido impedido...”? Ele tinha dito
aos cristãos romanos que estava certo de que fora chamado para
pregar o evangelho de Cristo a pessoas que nunca o tinham
ouvido. Diz ele: “Não ousaria dizer coisa alguma, que Cristo
por mim não tenha feito, para obediência dos gentios, por
palavra e por obras; pelo poder de sinais e prodígios”, etc. “E
desta maneira me esforcei por anunciar o evangelho, não onde
Cristo houvera sido nomeado, para não edificar sobre
fundamento alheio.”
Noutras palavras, Paulo foi chamado para evangelizar áreas
que até então não tinham sido evangelizadas. Por isso ele diz:
“Pelo que também muitas vezes tenho sido impedido de ir ter
convosco” - o que significa que na área em que ele se encontrava
- na Ásia Menor, noutros lugares, e eventualmente em certas
partes da Europa - havia tanta coisa para ele fazer nos campos
não evangelizados que ele não conseguia achar tempo para ir a
Roma. Esse era um dos obstáculos. Fora impedido de ir a Roma
pela obra que tinha que realizar bem perto de onde ele estava.
Ele dizia: não posso deixar este campo enquanto não pregar o
evangelho; quando eu tiver feito isso, irei ter convosco. E, de
fato, vocês podem notar nesse capítulo quinze, versículo 23,

247
O Evangelho de Deus

que ele diz: “Mas agora, que não tenho mais demora nestes
sítios...”. Ele tinha completado a sua obra ali; ele tinha pregado
o evangelho, tinha dado o seu testemunho. Agora já não há
obstáculo, e ele está livre para fazer a sua viagem a Roma. Assim
é que podem surgir obstáculos no caminho do cristão, e
certamente foi isso que aconteceu no caso deste apóstolo. Deus
o reteve; Deus lhe mostrou que ainda havia o que fazer onde
ele estava, e assim ele foi impedido de ir a Roma, apesar do seu
forte desejo de ir para lá, e de o ter planejado.
Contudo, havia um outro obstáculo - e vocês o verão noutros
pontos da sua vida: às vezes ele era impedido pela enfermidade.
No capítulo primeiro da Segunda Epístola aos Coríntios vemos
mencionada a enfermidade. Ele estivera doente, “perto da
morte”. Alguns dos seus inimigos certamente diziam: “Este
homem, Paulo, vocês não podem confiar nele. Ele diz que vem,
mas não aparece”. “Estive doente”, diz o apóstolo. Comigo a
questão não é de sim e não ao mesmo tempo; é que eu estava
doente, “até da vida desesperamos, e eu não pude ir”. Os
obstáculos podem chegar via circunstâncias: doença, acidente,
ou vários outros acontecimentos que escapam ao nosso controle.
E não há por que duvidar de que Deus faça uso das circunstân­
cias desta maneira, a fim de refrear-nos, de pospor os nossos
planos e projetos. Deus pode interferir numa variedade de
maneiras e levantar uma barreira que não somos capazes de
transpor, por assim dizer.
Mas também vocês poderão ver noutro lugar que o apóstolo
ensina especificamente que às vezes satanás nos impede e barra
o nosso caminho. Verão isso em 1 Tessalonicenses, capítulo dois,
versículo 18: “Pelo que bem quisemos uma e outra vez ir ter
convosco, pelo menos eu, Paulo, mas satanás no-lo impediu”.
Declaração muito interessante. Outra tradução deixa claro o
sentido: “Eu gostaria de ter ido estar convosco, sim, eu, Paulo,
uma e outra vez, mas satanás cavou uma trincheira para impedir-
-me”. Vocês se lembram de que, durante a última guerra, quando
houve ameaça de invasão e nós achávamos que os alemães
248
Romanos 1:10,11,13

poderiam desembarcar tanques e varrer de um repente o país, c


todo o mundo se pôs a cavar trincheiras para que, se os tanques
viessem, caíssem nelas e não pudessem sair mais? Cavava-se
uma trincheira para conseguir-se um obstáculo. Essa é a idéia
de que o apóstolo faz uso. “Satanás cavou uma trincheira para
impedir-me.” E ele tem muitos modos de fazer isso. Como
lemos no livro de Jó, ele pode até produzir doenças; pode
produzir obstáculos de muitas maneiras diferentes, e às vezes o
faz. O apóstolo não tinha em mente a doença quando escreveu
aos cristãos romanos, entretanto quando examinamos esta
questão, tenhamo-la em mente.
Há ainda outra causa de impedimentos que me parece de
vital importância e de considerável interesse. Refiro-me ao que
o apóstolo diz sobre si próprio em Atos, capítulo dezesseis,
versículos 6 e 7: “E, passando pela Frigia e pela província da
Galácia, foram impedidos pelo Espírito Santo de anunciar a
palavra na Ásia. E, quando chegaram a Nísia, intentavam ir
para Bitínia, mas o Espírito de Jesus não lho permitiu”. Temos
doutrinas muito importantes nesses versículos. A primeira coisa
que Paulo nos diz é que eles foram impedidos pelo Espírito Santo
de anunciar a Palavra na Asia, isto é, na província romana da
//

Asia.
* E óbvio que Paulo tinha planejado pregar a Palavra na
Asia, e se propusera a fazê-lo. Na verdade, no presente caso
podemos ir mais longe e dizer que ele até havia tentado ir para
a Ásia, porém se vira proibido pelo Espírito Santo. Depois vem
a segunda declaração: “E, quando chegaram a Mísia,intentavam
ir para Bitínia, mas o Espírito Santo (ou, como diz a tradução
da Versão Revista, inglesa (e a de Almeida, Revista e Corrigida),
o Espírito de Jesus) não lho permitiu”. A palavra traduzida pelo
verbo intentar significa “provar” ou “fazer uma tentativa, uma
experiência”. Noutras palavras, é óbvio que nesta altura o
apóstolo tinha certas idéias em mente. Deveria ir pregar na Ásia?
Bem, sim, ele achava que deveria. Proibido? Que dizer então
de Bitínia, que ficava logo adiante? Não lhe foi permitido ir
para a Ásia; bem, talvez Deus o esteja dirigindo para Bitínia, e

249
O Evangelho de Deus

ele faz uma tentativa. Submete isso a um teste; ele o “prova”;


ele experimenta. Todavia o Espírito de Jesus não lho permitiu.
Pois bem, evidentemente isso é algo de grande importância
para todos nós. Num caso ele é impedido; no outro não recebe
permissão, é-lhe vedado, é proibido, é vetado. Como vocês
/•

acham que a coisa funcionava? E evidente que se trata de algo


que acontecia na esfera do seu espírito. Ele disse especificamente
que foi o Espírito Santo que o proibiu e que não lho permitiu,
e, parece-me, só há um modo de interpretar isso. O apóstolo era
sensível, em seu espírito, à direta direção e orientação do Espírito
Santo. Ele se vê num dilema, e vemos como ele o soluciona.
A

Ele tinha pensado: “Devo ir para a Asia”, mas tem consciência


de uma proibição do Espírito Santo em seu espírito. Depois
seguiu-se a experiência quanto a Bitínia: “Sim, é evidente que
fomos destinados a ir para Bitínia”. Começaram a ir para lá,
porém o Espírito Santo “não lho permitiu”. Dito isso, repito, aí
está a direta e imediata pressão e controle do Espírito Santo
sobre o espírito do homem e, como eu entendo a doutrina geral
da orientação, não existe nada que seja mais importante que
isso. Não hesitaria em dizer que essa é a sanção e a autoridade
final na questão da orientação.
Permitam-me dizê-lo desta maneira: como a pessoa pode
decidir se faz isso ou aquilo? Bem, Deus nos deu mentes: Ele
nos deu entendimento, e para que o usemos; até o grande
apóstolo tinha planejado ir à Espanha. E certo fazer isso. Você
pode, se quiser, fazer um registro de lucros e perdas; aqui coisas
a favor, ali contra. E chega ao saldo total. Você elabora isso. Usa
a razão, o bom senso, o entendimento. Pode consultar outras
pessoas. Pode tomar outras opiniões. Tudo isso é perfeitamente
legítimo. Depois você diz: “Sim, mas Deus abre uma porta e
fecha outra”. Certíssimo! E justamente o que Ele faz. E tratemos
de dar toda a atenção a isso. Quando Deus quer que façamos
algo, Ele age por meio das circunstâncias. Nunca devemos forçar
uma porta aberta.
Contudo, afirmo categoricamente que, acima dessas duas
250
Romanos 1:10,11,13

provas, o que é mais importante e mais crucial é este “testemunho


do Espírito Santo” em nossos espíritos. Às vezes eu me expresso
assim: ainda que você esteja satisfeito em sua mente a respeito
de um curso de ação; mesmo que, em geral, as circunstâncias
estejam em consonância com o que você resolveu em sua mente,
se houver um sentimento de incerteza ou de desprazer por dentro,
não o ponha em andamento, não aja. Penso que aí está a
proibição do Espírito. “O Espírito Santo nos proibiu pregar o
evangelho na Ásia.” Pregar a Palavra era certo; aberta a Ásia
A

estava; necessidade havia na Asia. A vontade e a razão consen­


tiam nisso. E, quanto o apóstolo podia dizer, as circunstâncias
pareciam propícias. Sim! Mas o Espírito lho proibiu, e no caso
de Bitínia, não lho permitiu.
Permitam-me fazer uso de uma ilustração que já usei. Pode
ajudar. Há um trem expresso num dos terminais ferroviários
de Londres. A máquina foi engatada nos vagões, a pressão do
vapor já está no maquinismo, tudo está pronto, os passageiros
já ocupam os assentos, o guarda está esperando. E então, por
que o trem não se move? Não foi dado o sinal de partida! Há
um sinal final, e o sinal final nestas questões, parece-me, é
exatamente o que estamos considerando: a orientação, a direta
orientação do Espírito, esta segurança interior, a certeza que
nos é dada, e eu afirmo que, na ausência disso, não devemos
agir. “Mas aquele que tem dúvidas, se come está condenado,
porque não come por fé; e tudo que não é de fé é pecado”
(Romanos 14:23). Se houver incerteza, espere, digo e reitero,
mesmo que tudo mais pareça favorável. O Espírito Santo pode
finalmente “impedir” uma coisa, ou “não permiti-la”. Penso
que aqui estamos face a face com algo muito importante na
vida deste grande apóstolo, e o que ele nos diz é que de várias
maneiras ele até então fora impedido de ir pregar o evangelho
em sua plenitude aos que pertenciam à igreja de Deus em
Roma.
Ainda há um quarto elemento nesta questão de orientação
que é igualmente importante. Conquanto tudo isso seja verdade,

251
O Evangelho de Deus

o apóstolo continuou orando e continuou fazendo o seu pedido.


Isso também acho bastante animador. Ele tinha formado a sua
idéia, pensava em seus amigos, e houve ocasiões em que lhe
parecia que o caminho estava aberto, e, todavia, ele não foi para
Roma. Obstáculos o detiveram de várias maneiras. Sim! Mas o
apóstolo continua orando. “Porque Deus, a quem sirvo em meu
espírito, no evangelho de seu Filho, me é testemunha de como
incessantemente faço menção de vós, pedindo sempre em
minhas orações que nalgum tempo, pela vontade de Deus, se
me ofereça boa ocasião de ir ter convosco.” Ele continua orando
por essa bênção. Não se entregou ao desespero por ter sido
impedido. Não se desanima. Não se aborrece, não se irrita com
Deus. Oh, amado povo cristão, aprendamos a lição deste grande
homem de Deus. Talvez tenham estado orando sobre algo há
V

anos. As vezes podem ter sentido que, por fim, estavam perto
de ser atendidos, e então a bênção não veio. Vocês ficaram
aflitos? Irritaram-se? Começaram a achar que Deus estava contra
vocês? Vocês disseram que não adianta orar? Ah, observemos
este vigoroso homem de Deus, e vejamos que, apesar de
impedido, apesar de ser retido, continuou levando as suas
súplicas à presença de Deus, expressando o desejo do seu
coração. Sempre dizendo, “Se for da Tua vontade”, mas
continuou orando. Para mim esse foi o segredo máximo da
vida deste homem e da sua grande utilidade para o Reino de
Deus.
Notemos agora uma coisa muito interessante. Foi de
maneira parecida que Deus levou o Seu servo a algumas das
experiências mais grandiosas da sua carreira. Vejam de novo
aquele exemplo de Atos, capítulo 16, quando Deus o proibiu
de pregar na Ásia e não lhe permitiu entrar em Bitínia. Acaso
vocês se lembram do motivo pelo qual Deus fez isso com o
apóstolo? Lembram-se da razão pela qual Deus não o deixou
pregar na Ásia e em Bitínia? A resposta é que era da vontade de
Deus que ele pregasse o evangelho na Europa, e foram enviados
obstáculos a outros lugares para que aquele propósito fosse
252
Romanos 1:10,11,13

concretizado. Paulo não entendeu isso. Como não pôde ir para


a Ásia nem para Bitínia, seguiu adiante até chegar a uma
pequena localidade chamada Troas (ARA: Trôade), onde teve
que deter-se porque Troas ficava à beira-mar. Viera direto em
direção ao mar, e ali estava ele. Para usar terminologia moderna,
um jargão moderno, imagino que certa noite ele foi para a cama
sentindo-se completamente “frustrado” e talvez já perguntando
o que realmente Deus estava fazendo com ele. Aqui não, ali
não! Que é que ele podia fazer? Agora ele estava frente ao mar!
Então lhe foi enviada a visão do varão da Macedônia, de noite,
vocês se lembram - “Passa à Macedônia, e ajuda-nos”. Deus
não queria deixar que Paulo fosse para a Asia naquela ocasião,
nem para Bitínia. Por quê? Deus o queria na Europa. Não
menosprezemos os obstáculos. Os obstáculos podem ser a
maneira de Deus guiar-nos e dirigir-nos. Ele fecha algumas
portas e abre outras. E às vezes é essencial que as portas sejam
fechadas, porque pusemos o nosso coração em certas coisas.
Temos motivo para a nossa decisão, dizemos; só pode ser este o
caminho que nos cabe seguir. Mas não é o que Deus tem para
nós. Assim, graças a Deus pelas proibições, bem como pelos
incentivos; todas essas coisas fazem parte do grande plano de
Deus, do Seu propósito, e da Sua ação como o nosso Guia.
Lembrem-se de que foi por meio desse tipo de obstáculos que
Deus levou o apóstolo a pregar finalmente na Europa.
E a única coisa mais que eu gostaria de salientar é que
também foi dessa maneira que finalmente Paulo foi para Roma.
Vocês devem lembrar-se da narrativa. Aqui está ele falando-
-nos do seu forte desejo, dos seus planos, dos seus propósitos.
Finalmente o apóstolo chegou a Roma. Não foi nada do jeito
como ele planejara e se propusera. Não foi apenas mediante
uma interrupção da sua viagem à Espanha. Quando afinal Paulo
desembarcou em Roma, foi na condição de um prisioneiro
acorrentado! Como foi que aconteceu? Bem, vocês se lembram,
ele foi aprisionado. Na verdade os judeus estavam tentando matá-
-lo em Jerusalém, e ele teve que ser salvo das suas mãos por

253
0 Evangelho de Deus

soldados romanos, que, porque não sabiam bem o que fazer


com ele, submeteram-no a julgamento. Os judeus o queriam
de volta à sua jurisdição, mas Paulo, afinal, alegando seu
privilégio como cidadão romano, disse: “Apelo para César”.
Imediatamente o governador romano em exercício disse:
“Apelaste para César? para César irás” (Atos 25:11,12), e foi
assim que finalmente ele chegou a Roma. Ele nunca tinha
imaginado que chegaria lá dessa maneira, porém lá estava ele
afinal, como prisioneiro do imperador. Estava lá por causa da
inimizade, da malícia e do ódio dos judeus. Não chegou a Roma
em conformidade com os seus planos ou idéias pessoais.
Estivera orando durante anos, pedindo que lhe fosse dada boa
ocasião de ir a Roma, pela vontade de Deus, e foi pela vontade
de Deus que finalmente ele chegou lá - mesmo incluindo o
naufrágio, perto da ilha de Malta. Leiam aqueles grandes
capítulos do livro de Atos. Comecem no capítulo dezesseis, e
leiam até o fim do livro, e verão como o apóstolo acabou
chegando a Roma. O homem propõe, mas Deus dispõe.
Como é vital que as nossas vontades sejam inteiramente
submissas à vontade de Deus! E assim que se deve viver, meus
amigos. Todos nós devemos viver como Tiago nos diz que
vivamos; não devemos dizer: “Hoje, ou amanhã, iremos para a
cidade tal, e lá passaremos um ano, e negociaremos, e teremos
lucros”. Não é assim, diz Tiago. Em vez disso, devemos dizer:
“Se o Senhor quiser, não só viveremos, como faremos isto ou
aquilo” (Tiago 4:13,15, ARA). O nosso tempo está nas mãos de
Deus. Somos simples indivíduos, soldados, de um grande
exército. Não somos suficientemente grandes para ver toda a
campanha; não podemos perceber plenamente a vontade de
Deus. Qual será, então, a nossa atitude? E que devemos fazer as
nossas petições a Deus, como fez Paulo, mas devemos acrescentar
sempre e imediatamente: “Seja feita a Tua vontade”. Não temos
somente o exemplo do apóstolo Paulo; vemos um exemplo
infinitamente maior: “Pai, se queres, passa de mim este cálice;
todavia não se faça a minha vontade, mas a tua” (Lucas 22:42).
254
Romanos 1:10,11,13

Este é o caminho que o Senhor seguiu;


Não deveria ir por ele o servo ?
/

E certo ter desejos, fortes desejos, vontades e anseios, no entanto


sempre e em todas as coisas, o certo é sermos inteira e
completamente submissos à vontade de Deus. E, portanto, esta
vida cristã é cheia de aventuras romanescas, e de gloriosas
surpresas, proibições, restrições, obstáculos. E então, subita­
mente, da maneira mais inesperada, aquilo que queríamos e
pelo que oramos submissos nos é concedido no tempo de Deus
e a Seu modo. Há um único lugar de segurança; há um único
lugar de paz; há um único lugar de perpétua alegria, e nós o
encontramos quando inteiramente submissos, em todas as
coisas, à vontade de Deus.

255
16
“Porque Deus, a quem sirvo em meu espírito, no evangelho de
seu Filho, me é testemunha... ” - Romanos 1:9

Estivemos considerando juntos o que podemos deduzir, dos


versículos 8-15, acerca da vida de oração de Paulo e também
acerca da sua submissão à vontade de Deus. A terceira verdade
que podemos colher aqui do apóstolo é sobre o seu serviço, sua
obra, especialmente, talvez, sobre a sua atitude para com a obra.
Isso também constitui tema importante e fascinante. Estou certo
de que vocês todos concordarão comigo quando digo que jamais
poderemos ter melhor modelo, melhor padrão para nós e para
os nossos serviços no reino de Deus, seja qual for o serviço, do
que o que nos dá o apóstolo. Aí está, indubitavelmente, o maior
evangelista que a Igreja já conheceu, e, ao mesmo tempo, o maior
mestre, e, portanto, é particular mente importante para todos os
que, de algum modo, têm o privilégio de pregar o evangelho,
que tenham os olhos postos nele, observem-no e notem as coisas
que ele diz acerca do seu serviço, e, como eu disse, especialmente
a sua atitude para com o seu serviço.
Ora, há um bom número de verdades que devem ser ditas
acerca do serviço, e, por isso, deixem-me tentar reduzi-las a uma
sinopse. A primeira é a descrição concreta que Paulo faz do seu
ministério. No versículo nove ele diz: “Porque Deus, a quem
sirvo em meu espírito, no evangelho de seu Filho, me é
testemunha...”. Essa declaração mostra a atitude em geral de
Paulo para com esta obra. Ele a descreve como um “serviço” -
“a quem sirvo” - e a palavra empregada por ele é muito
significativa. É uma palavra comumente utilizada no Novo
Testamento, e também na tradução grega do Velho Testamento,

256
Romanos 1:9

a Septuaginta. Esse vocábulo sempre traz a idéia de serviço


“religioso”, e o apóstolo gosta muito dele. Emprega-o noutros
lugares. Assim, o seu serviço, ele quer que eles o saibam - o seu
serviço por Deus e para Deus - é sempre um serviço “religioso”;
é sempre um serviço que tem um elemento de culto e de
adoração. Aqui devemos ter o cuidado de não transpor para o
termo nenhuma falsa concepção sacerdotal ou clerical, pois não
há nada que se pareça com isso no apóstolo Paulo. Ele, como os
outros escritores do Novo Testamento, costumava dizer que os
cristãos verdadeiros são sacerdotes. Vemos firmemente
estabelecida no Novo Testamento a grande doutrina protestante
do sacerdócio universal de todos os crentes. Nesse sentido o
serviço é sacerdotal, não porém no sentido de um certo número
de pessoass separadas e colocadas sobre um pedestal; na
passagem em foco não há nada disso. Mas é um serviço
impregnado de adoração e que inspira adoração.
Dou ênfase a isto porque certamente devemos todos
compreender que qualquer serviço que prestemos a Deus e a
Seu Reino sempre deve ter esta qualidade e esta característica.
Qualquer coisa que se faça para Deus é um serviço religioso, é
um ato religioso. Sempre deverá ser feito com este elemento de
culto. Mesmo que você esteja fazendo algo que parece
completamente mecânico, como, por exemplo, cuidar do aspecto
dos negócios da obra de Deus, ou agir como membro de uma
comissão ou levantar uma coleta; se você é diácono, se você se
ocupa do edifício ou da construção; se você cuida das contas,
ou até mesmo se você anota os endereços - se é trabalho para
Deus, deve sempre ter este elemento de culto, de adoração.
Toda e qualquer obra realizada no reino de Deus, na Igreja de
Deus, qualquer trabalho feito para Ele, sempre deve ter esta
qualidade peculiar. É trabalho religioso.
Penso que todos concordamos em que o elemento
“religioso” precisa ser salientado, porque temos a tendência de
traçar uma falsa distinção e fazer uma dicotomia completamente
artificial e antibíblica entre a parte “espiritual” do nosso serviço,

257
O Evangelho de Deus

e o que consideramos como parte “material”. O apóstolo nunca


reconheceria essa distinção. Qualquer coisa feita em nome de
Deus, por amor a Deus e pela causa de Deus, sempre é
“religiosa”; inclui o elemento de culto. Talvez seja melhor
explicar isto a vocês lembrando-lhes uma declaração que certa
vez Spurgeon fez aos seus alunos, e que ilustra muito bem este
ponto. Ele os advertiu de que por vezes encontrariam bons
cristãos que numa reunião de oração oram como santos e que,
de súbito, numa assembléia da igreja, põem-se a falar como se
fossem demônios! Foi assim que Spurgeon falou disso, do seu
jeito impressionante e inimitável. Como vocês podem ver, o
problema dessas pessoas é que na reunião de oração sentem-se
“prestando culto a Deus”, e se enchem de reverência; mas
quando estão numa assembléia da igreja, numa reunião “de
negócios”, tratando meramente dos negócios da igreja, de
repente se tornam pessoas muito diferentes. Os aspectos de temor
e louvor, e da realização de um serviço na presença de Deus e
para Deus, parecem ter sido esquecidos. As mesmas pessoas!
Como se o serviço para Deus, quando elas resolvem como
manter o edifício em boa ordem, e várias outras questões, é de
algum modo diferente do serviço prestado a Deus na pregação
e na oração. Essa distinção é totalmente falsa. Todo serviço é
“religioso”, e, portanto, sempre devemos fazer uso desta palavra
que o apóstolo emprega aqui com relação a si próprio.
Partamos para a segunda questão. Observemos a maneira
pela qual o apóstolo presta serviço. Notem a sua frase: “Deus, a
quem sirvo em meu espírito, ...me é testemunha...”. E assim
que ele o faz. Vocês poderão traduzi-la por “com o meu espírito”
ou “em meu espírito”, se quiserem. No entanto, que é que ele
quer dizer com isso? Parece-me que esta é, de novo, uma das
coisas mais importantes que sempre devemos considerar. De
qualquer forma, quem quer que pregue o evangelho e
negligencie este ponto, negligencia-o correndo perigo, e é vital
que o pregador ou mestre do evangelho, desta ou daquela cate­
goria, entenda isso com toda a clareza. Por isso, permitam-me
258
Romanos 1:9

indicar algumas verdades ensinadas por esta expressão, “a quem


sirvo em meu espírito”.
Pois bem, a primeira verdade que a expressão indica é que
o serviço é sincero. Ao lerem os escritos deste grande homem
de Deus, vocês verão que ele dá ênfase a isso com muita
freqüência. Ele serve a Deus de todo o coração, com todo o seu
ser. A referência é ao homem completo. E não somente isso!
Não havia dissimulação de espécie alguma em seu trabalho.
Ele serve a Deus, vocês vêem, em seu espírito, em seu homem
interior, no centro mesmo da sua vida e do seu ser. E a isso que
ele dá ênfase. As vezes ele o salienta por meio de uma negativa.
Ele relembra aos filipenses, por exemplo, que havia alguns que
pregavam a Cristo por inveja e porfia. Havia alguns que
pregavam a Cristo por pura controvérsia, não com sinceridade.
Noutras palavras, o mero fato de que um homem está pregando
o evangelho não prova que ele é sincero. Ele pode pregar o
evangelho, mesmo insinceramente. Aquelas pessoas, afirma
Paulo no primeiro capítulo da Epístola aos Filipenses, estão
pregando o evangelho em grande parte para me deixar infeliz.
Esses pregadores não eram sinceros; não tinham outro motivo,
senão um motivo feio e indigno. Paulo não pregava dessa
maneira. O seu tipo de serviço não era esse. Seu serviço era
sincero.
Ele defende o mesmo ponto noutro lugar, porque para ele
isso era absolutamente vital e essencial. Não havia nada que
pudesse ferir mais o apóstolo do que a insinuação de que ele era
insincero em sua pregação ou em seu trabalho no reino de Deus,
ou que o estivesse realizando em causa própria ou para favorecer
a sua reputação. Tanta gente estava dizendo essas coisas em
Corinto que em sua Segunda Epístola aos Coríntios, capítulo
quatro, versículo 2, Paulo faz esta colocação: “Rejeitamos as
coisas que por vergonha se ocultam, não andando com astúcia
nem falsificando a palavra de Deus; e assim nos recomendamos
à consciência de todo o homem, na presença de Deus, pela
manifestação da verdade”. Esse era o seu método; ele servia a

259
O Evangelho de Deus

Deus sinceramente. Ele tinha consciência de que estava na


presença de Deus, e de que Deus tudo vê e tudo sabe. Seu
coração estava aberto para Deus. E o que ele quer dizer com
“em meu espírito” - não com dissimulação, nem com desonesti­
dade, nem com astúcia, mas exatamente o oposto.
Obviamente, porém, a expressão “em meu espírito” constitui
também um contraste com o serviço meramente externo. O
espírito do homem é sua parte mais profundamente interior. O
espírito é realmente o centro vital do meu ser, pelo que, se digo
que estou fazendo algo em meu espírito, estou dizendo que não
o estou fazendo de maneira apenas externa. Isso também é
tremendamente importante. A obra de pregação do evangelho
não é uma profissão. É uma “vocação”, um “chamamento”.
Uma profissão você “assume”. Para pregar você “é chamado”.
Você assume o seu trabalho profissional, a sua ocupação, a sua
profissão, ou algo semelhante. E algo que está fora de você, e
você se apossa dele; ele não é parte integrante de você, por assim
dizer. Você sai com a sua pasta e, terminado o trabalho, guarda-
-a. Não é assim com o serviço cristão! Este é algo que está dentro
do homem, em seus ossos. Jeremias faz uma vívida descrição
disso. Ele nos conta que certa ocasião, por diversos motivos,
tinha resolvido não voltar a pregar, mas então, disse ele, “isso
me foi no coração como fogo ardente, encerrado nos meus ossos”
(Jeremias 20:9, ARA) , e ele não agüentava mais. E algo de
dentro, não de fora. Não é externo; é interno.
Mas vamos deixar isso mais claro. O apóstolo não pregava
por pregar. Tampouco continuava pregando só porque tinha
começado a fazê-lo. Vejo isso muito claramente na expressão
“em meu espírito”. Há pessoas que continuam pregando
simplesmente porque tinham começado a pregar. Perderam o
seu primeiro amor. Tornaram-se frias. Continuam proferindo
as palavras, mas não “em seu espírito” - o fogo desapareceu! Há
os que se lembram desses pregadores quando eles eram jovens
e pregavam com os seus espíritos, e “no espírito”. Não fazem
mais isso. Continuam pregando, porém já não prestam serviço
260
Romanos 1:9

em seu espírito. Não há tragédia maior do que essa, mas é uma


terrível possibilidade, e já aconteceu com muitos. Contudo, eis
aqui um homem que prega em seu espírito. A pregação de
Paulo não é externa.
Exponho mais agudamente a matéria da seguinte maneira
- e aqui eu prego para mim mesmo, como para os que me
ouvem. Quando alguém prega e serve “em seu espírito”, não
prega tão-somente porque “foi anunciado” que vai pregar.
Sabem o que eu quero dizer com isso? O maior perigo para
mim, a maior tentação para mim, é que devo ocupar este
púlpito duas vezes no próximo domingo porque domingo
passado anunciaram que eu iria fazer isso. Naturalmente, não é
correto a pessoa quebrar os termos do seu contrato. Não é correto
faltar à sua palavra. Anunciaram que vou pregar, devo pregar.
Sim! Mas, se simplesmente faço isso porque, bem, chegamos a
outro domingo e anunciaram que vou pregar duas vezes, que
devo pregar dois sermões, isso não passa de serviço externo.
Não o estou fazendo “em meu espírito”. Ah, quando um homem
o faz em seu espírito, é porque há algo nas profundezas do seu
ser que o requer! Vem de dentro, por assim dizer. Não lhe é
imposto de fora. Não é mero emprego. Está além disso. E mais
profundo.
Talvez eu deva salientar o ponto expressando-me desta
maneira: no modo de pregar do apóstolo não havia nada de
desligado. Ele não era um ator. Ele não o fazia de maneira
acadêmica, desligada. Sabem, tenho ouvido pessoas que estavam
manejando a Palavra de Deus e, todavia, faziam isso como se
estivessem ministrando ensino sobre Shakespeare, ou sobre
geografia ou história; fazendo isso muito bem e com muita
inteligência, no entanto o ouvinte sentia que era algo que vinha
de fora delas. O homem e a mensagem estavam desligados.
Não havia união vital entre ambos; ele não estava fazendo a
/

pregação “no espírito”. E uma terrível tentação para todo aquele


que tem o privilégio de pregar e ensinar, que o trabalho seja
realizado de fora dele, exteriormente, e por fim mecanicamente,

261
0 Evangelho de Deus

e não de maneira espiritual e vívida. Paulo servia a Deus “em


seu espírito”, não de maneira externa.
Mas permitam que lhes ofereça outro contraste. Quando
Paulo afirma que serve a Deus “em seu espírito”, está dizendo
que não O serve na carne. Pois bem, esse é um dos grandes
contrastes que se vêem constantemente nas páginas das
Escrituras: o contraste entre a carne e o espírito. São opostos
entre si, e muito diferentes. Assim, quando o apóstolo declara
que serve a Deus “em seu espírito”, está dizendo: “O meu
serviço não é carnal, não é feito na carne, em nenhum sentido”.
Ele nos expõe isso, é claro, na Primeira Epístola aos Coríntios,
\

particularmente nos dois primeiros capítulos. As vezes penso


que todo ministro e pregador deveria ler esses capítulos pelo
menos todos os domingos, senão mais freqüentemente,
porque neles o apóstolo contrasta o servir a Deus no espírito
e o servir a Deus na carne. Que será que ele quer dizer? Na
passagem que estamos estudando ele está se referindo aos seus
métodos. Sua obra é, como ele está prestes a dizer, a pregação
do evangelho - “a quem sirvo em meu espírito, no evangelho
de seu Filho”. Sim, mas agora nos está dizendo como ele realiza
esse serviço. E todo aquele que prega e ensina deve preocupar-
-se, não somente com a sua mensagem, como também com os
seus métodos, pois os métodos podem negar a mensagem e
anulá-la.
Então, que é que Paulo diz acerca dos seus métodos, que
são “no espírito” e não “carnais”? Bem, digamos assim: o
apóstolo fazia o máximo que podia para não ficar em foco. A
essência da carnalidade é a auto-exibição. A carne sempre quer
mostrar-se e gabar-se. Essa é a sua principal característica.
Leiam 1 Coríntios, capítulo treze. Paulo faz ali a sua maravilhosa
descrição do amor e do cristão cheio do amor de Deus. Pois
bem, o oposto disso é estar “na carne”, e vocês certamente
recordam como ele o expressa: “O amor não se ufana, não se
ensoberbece, não se conduz inconvenientemente...” (ARA). A
carne sempre “se ufana”, “se ensoberbece”, se exibe. Temos aí a
262
Romanos 1:9

antítese do que significa estar “no espírito”. Desse modo, o


homem cujo serviço é “no espírito” não faz uso da sua
personalidade, assim chamada; nem pensa nisso. Ele a esquece.
Não tenta, como se diz, “pôr a sua personalidade por cima”. Ele
se esquece completamente de si próprio. Não põe o seu interesse
em si mesmo, e sabe que o serviço espiritual não comporta a
atitude de atrair a atenção a si mesmo. Chega a se esforçar para
evitar isso. Não fica falando de si e não procura fazer com que
as pessoas se interessem por ele.
O apóstolo fala disso numa frase memorável em 2 Coríntios,
capítulo quatro, onde ele diz: “Não nos pregamos a nós mesmos,
mas a Cristo Jesus, o Senhor”. Também diz, na mesma Epístola,
que havia os que se pregavam a si mesmos, e o que faziam causar
maior impressão era o pregador, não a mensagem. Ora, isso é
serviço carnal, a antítese de servir “no espírito”. Como se vê na
Primeira Epístola, o que mais transtornava o apóstolo na igreja
de Corinto era a maneira pela qual os tolos se dividiam em
seitas e grupos, segundo os diferentes pregadores e
personalidades. Um dizia, “eu sou de Paulo”; outro, “eu sou de
Apoio”; e outro, “eu sou de Cefas”. Eram seguidores de homens;
estavam mais interessados nos homens do que na mensagem.
O apóstolo ficou aborrecido com tais pessoas, e lhes disse: “Vocês
foram batizados em nome de Paulo? Paulo foi crucificado a
favor de vocês? Para que estão me seguindo? Não sou o seu
Salvador. Por que olham para mim? Não passo de um simples
pregador. Sou tão-somente aquele que planta, Apoio o que rega;
quem dá o crescimento é Deus. Por que vocês olham para mim?”
Esse é, pois, um ponto muito importante. Servir a Deus no
espírito significa que essa carnalidade está ausente, e que o
pregador, aconteça o que acontecer, nada fará para promovê-la
e fomentá-la nas pessoas.
Deixem-me, porém, ressaltar que isso é importante para o
auditório, como também para o púlpito. Não foi por algo que
Paulo tivesse dito ou feito que certos elementos de Corinto
diziam: “Eu sou de Paulo”. O problema estava inteiramente

263
O Evangelho de Deus

naquelas pessoas. E esse tipo de problema continua sendo das


pessoas, dos ouvintes. Não sejamos demasiado duros com o
pregador. Os ouvintes gostam que o pregador fale de si próprio.
Sempre se endireitam nos assentos e mostram renovado
interesse, se ele se põe a fazer isso. “Ah, que interessante!” dizem
eles quando ele lhes conta o que lhe aconteceu! Já descobri - e
quase assumi um compromisso e fiz um voto sobre este assunto
- se mesmo remotamente eu menciono algo ligado à medicina,
de imediato noto novo interesse! Vejam bem o que estou
querendo dizer. Isso é humano. E o homem. E pessoal. E o
serviço no espírito nunca deve ser desse jeito. Por conseguinte,
que as igrejas levem isso a sério. Elas muitas vezes estragam os
pregadores; animam-nos a fazerem algumas coisas erradas. Se
o pregador se põe a falar à carne dos ouvintes, eles reagem bem,
mostrando um interesse que não mostravam pela doutrina que
ele pregava, e ele será tentado a dar-lhes mais da carne, e a falar
cada vez mais de si mesmo, e a exibir-se, e eles vão gostar. Vão
sorrir, vão saborear, e dirão: “Isso é maravilhoso; tivemos uma
ocasião e tanto!” E nesse meio tempo Cristo foi olvidado, e a
mensagem espiritual não recebeu a ênfase devida, não foi
salientada. Isso não é servir a Deus no espírito. E quase
exatamente o oposto. E por isso que o apóstolo se preocupa com
a questão.
Mas, vamos adiante. Servir a Deus na carne não é meramente
uma questão de óbvia exibição carnal, e de uma pessoa mostrar-
-se. Inclui isso, como eu disse, porém não pára aí. E igualmente
carnal uma pessoa exibir a sua cultura ou o seu conhecimento
ou o seu entendimento. Faço esta distinção pela boa razão
seguinte: lembro-me muito bem de alguns cristãos que me
falaram duramente sobre certo pregador que eles tinham
ouvido, porque, disseram eles, o homem estava só se exibindo;
era a carne. E depois passaram a elogiar desenfreadamente um
homem culpado exatamente do mesmo mal, entretanto que o
praticara de maneira muito diferente. Este segundo homem o
fazia mostrando a sua cultura maravilhosa, usando termos

264
Romanos 1:9

científicos, falando de filosofia e de pontos de vista filosóficos.


Nada daquilo era original; ele o tinha lido num livro. Há muitos
livros dos quais vocês podem extrair citações desse tipo. O povo
não os tinha lido, mas ele sim, e os lhe citava. O homem estava
fazendo uma grande exibição de si mesmo no que se refere à
cultura e à leitura. Os ouvintes que me falaram não notaram
isso. Quando a carnalidade era patente, eles podiam vê-la;
quando era mais sutil, não a enxergavam. Mas é a mesma coisa.
E quando um homem se porta dessa maneira, igualmente não
está servindo a Deus no espírito. Se um homem põe a sua
confiança em sua oratória ou em sua eloqüência, em sua fluência,
em sua habilidade para discorrer e argumentar, essa atitude é
igualmente carnal. Pode não ser um tipo jactancioso; pode ser
que não faça exibição da sua aparência pessoal, e do que tão
errónea e tragicamente chamam “personalidade” hoje em dia,
não obstante ainda é carnal, se está pondo a sua confiança nessas
coisas ou se está fazendo exibição delas.
Pois bem, o apóstolo não agia assim. Vocês não precisam
apoiar-se em minha palavra quanto a isso; ele mesmo nos diz
isso. Diz ele que foi a Corinto “em fraqueza e em temor, e em
grande tremor. A minha palavra, e a minha pregação, não
consistiu em palavras persuasivas de sabedoria humana”.
Não era filosofia. Ele podia ter falado de filosofia lá. Ele sabia
que o povo de Corinto se interessava por filosofia e gostava de
ouvir a respeito, mas ele deliberadamente determinou-se a
nada saber entre eles “senão a Jesus Cristo, e este crucificado”.
Sua aparência também era fraca; ele não era eloqüente, de
modo que quando mais tarde apareceu Apoio, disseram: eis aí
o homem! Esse Paulo - não era nada que valesse a pena ver;
não era eloqüente, e não falava sobre filosofia. Desprezaram o
apóstolo Paulo. Mas ele tinha procedido assim deliberadamente.
Ele bem que podia ter falado filosoficamente. Podia ter sido
eloqüente. Ele tem eloqüência em todas as suas Epístolas,
inconscientemente, mas ele evitava isso tudo. Não com “palavras
persuasivas de sabedoria humana” - deliberadamente põe de

265
O Evangelho de Deus

lado esse tipo de sabedoria.


Há muitas ilustrações disso na história. O D \ Thomas
Goodwin - um dos maiores puritanos de há treze"1 - anos, e
que, em muitos aspectos, era o pregador favoriu Oliver
Cromwell - Goodwin era, por natureza, um homem que podia
ser tremendamente eloqüente. Quando jovem, antes de ser
convertido, quando estava estudando para o ministério,
costumava escrever sermões maravilhosamente eloqüentes,
sendo que o seu modelo era um pregador muito eloqüente da
Universidade de Cambridge. Então Thomas Goodwin foi
convertido e viu a verdade. Posteriormente, quando se punha a
escrever um sermão, os trechos magistrais ainda apareciam; não
podia evitá-lo porque era naturalmente eloqüente. Mas agora
ele se acostumou a fazer algo que eu penso ser, talvez, a coisa
mais extraordinária que um pregador pode fazer. Ele repassava
o seu sermão, e quando chegava aos trechos magistrais, pegava
a pena e os riscava. Não é fácil. E somente alguém que sabe o
que é servir a Deus em seu espírito pode fazê-lo. Ele se deu
conta de que os trechos magistrais não eram absolutamente
essenciais; ele os apreciava, orgulhava-se deles; sabia que os
ouvintes os sorveriam com avidez e se esqueceriam de Cristo
enquanto desfrutassem os seus períodos maravilhosos e bem
equilibrados, e a sua magnífica dicção. E assim os cortava, a
fim de que a sua pregação fosse “em demonstração de Espírito
e de poder”.
Outra coisa, pois, que devemos lembrar é que existe até
um tipo de zelo carnal. O fato de que um homem é zeloso não
prova necessariamente que ele está servindo a Deus no espírito.
E às vezes é muito difícil diferençar entre o zelo carnal e o zelo
de um homem como o apóstolo Paulo. Todavia, se o homem
for sincero consigo próprio, sempre saberá. Há alguns que são
ocupados e ativos por natureza; só se sentem bem quando estão
realizando algo. E como conseguem alívio e descontração.
Contudo isso não é zelo espiritual. Não é o que se quer dizer
com ser conduzido pelo Espírito. É completamente diferente.

266
Romanos 1:9

Na atitude carnal há excitação. Nunca há excitação na outra


atitude. Há um entusiasmo divino, mas há, juntamente, calma
e paz, e uma adoração que sempre está presente. Nunca há
alguma conduta inconveniente com relação ao serviço feito no
espírito. Diz, pois, o apóstolo que ele serve a Deus “no espírito”
- na verdade ele coloca isso tudo para nós num versículo da
Segunda Epístola aos Coríntios, capítulo dez, versículo 4:
“Porque as armas da nossa milícia não são carnais, mas sim
poderosas cm Deus, para destruição das fortalezas”. Aí está
tudo completo! Ele está na carne - sim! No entanto não guerreia
segundo a carne; guerreia segundo o espírito. As armas da sua
guerra não são carnais.
Noutras palavras, resumindo o que ele quer dizer com
servir a Deus “no espírito”, o desejo mais profundo da sua vida
e do seu coração era servir a Deus, e servi-10 com todo o seu ser,
com toda a sua personalidade. Ele serviu a Deus com o seu
corpo, com a sua alma, com a sua mente, com o seu espírito:
cada porção e cada partícula do seu ser. Por certo vocês se
lembram da colocação que ele faz naquela passagem lírica de
Atos, capítulo vinte, versículo 31: “Durante três anos não cessei,
noite e dia, de admoestar com lágrimas a cada um de vós”. Ele
ensinava, ele argumentava, ele se dava sem avaliar o custo. E
isso que ele quer dizer com servir no espírito. Ou vejam como
ele se expressa em Romanos, capítulo 12, versículo 11: “Não
sejais vagarosos no cuidado; sede fervorosos no espírito, servindo
ao Senhor”. Havia paixão em seu serviço, mas proveniente do
seu coração, do seu espírito. Não era um zelo carnal, era uma
espécie divina de paixão. Noutras palavras, o que ele quer dizer
é que ele era completamente submisso a Deus e ao Seu serviço;
não deixava nada para trás. Não havia nele restrições e reservas.
Não considerava coisa alguma; esqueceu-se de si mesmo.
Acima de tudo mais, em seu serviço, ciente das sua fraqueza
e da sua ineficiência, Paulo buscou o Espírito Santo e Seu poder.
Sim, “em fraqueza, e em temor, e em grande tremor”. Era assim
que Paulo entrava no púlpito - cônscio de que estava prestes a

267
O Evangelho de Deus

dirigir-se a almas imortais; ciente da natureza terrível do


pecado; conhecendo o amor de Deus em Cristo. A grande
responsabilidade! O temor de que de algum modo ficasse entre
o povo e a mensagem! Nenhuma confiança própria -
absolutamente nenhuma! Ele se preocupava especialmente em
garantir que a sua pregação fosse “em demonstração do Espírito
e de poder” (VA e ARA), e ele sabia que isso só podería acontecer
na medida em que ele não aparecesse, e sim, se pusesse na
dependência do poder do Espírito Santo.
Mas vejam de novo Atos, capítulo vinte, principalmente o
versículo 24. Em sua despedida definitiva, diz ele aos presbíteros
efésios que em toda parte e em todas as cidades o Espírito Santo
testemunhava que o esperavam “prisões e tribulações”; eis,
porém, o que ele diz: “Mas em nada tenho a minha vida por
preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira, e
o ministério que recebi do Senhor Jesus...”. Aí está! Não ele
próprio! Ele não leva em conta nada dessas coisas (cf. VA), e
elas não pesam nada para ele, contanto que possa cumprir com
alegria a sua carreira, e o ministério; o que ele quer é cumprir o
que o Senhor Jesus lhe havia confiado: “dar testemunho do
evangelho da graça de Deus”. Era assim que o apóstolo servia a
Deus, e O servia no espírito. Certas palavras de Charles Wesley
expressam isso perfeitamente. Penso que elas constituem uma
das melhores exposições destas palavras do apóstolo Paulo que
vocês poderão encontrar.

Dá-me a fé que remova uma montanha


E a uma planície a possa reduzir;
Dá-me o amor de criança, o amor que ora,
Que anela Tua casa reconstruir.
Que o Teu amor meu coração domine
E minha redimida alma devore.

Oxalá todos nós tivéssemos experiência disso! Então serviríamos


a Deus com os nossos espíritos.

268
Romanos 1:9

Quero remir o tempo, que éprecioso,


E viver doravante só por isto -
Gastar e desgastar-me por aqueles...

Esse é o motivo!

Que desconhecem o meu Salvador - Cristo.


Que o Teu amor aspirem respirar,
E a minha missão se prove neles.

Minhas graças e dons, e meus talentos,


Recebe em Tuas mãos, ó meu Senhor!

Não pertencem mais a ele. Ele os entrega. Não se interessa mais


por eles. Já não vai exibi-los, nem lhes vai dar crédito. Renuncia
a tudo.

Que Tua Palavra eu possa proclamar


E viver para a Tua glória e o Teu louvor.
Que o Amigo santo e bom dos pecadores
Cada momento possa eu anunciar.

Meu coração amplia, inflama e enche


Do Teu ilimitado amor divino.

Amor divino - isso! O ego é expulso!

E assim minha energia exercerei


E os amarei com o Teu zelo sublime.

Não zelo carnal; zelo como o do Filho de Deus. “O zelo da tua


casa me devorará.” Esse é o tipo de zelo que o servo deve ter.

E as ovelhas por quem, Senhor, morreste,


Ao Teu bondoso lado levarei.

269
O Evangelho de Deus

Amados irmãos em Cristo, vocês estão servindo a Deus


em seu espírito? Qual o caráter do seu serviço? Seja qual for, é
“no espírito”? Queira Deus que seja! Queira Deus dar-nos a
graça de podermos examinar-nos sinceramente, à luz desta
Palavra. Que Ele perdoe a nossa carnalidade, o elemento
humano, tão evidente em nosso serviço. Queira Deus livrar-
nos e limpar-nos de tudo isso ampliando, inflamando e
enchendo o nosso coração do Seu “ilimitado amor divino”.

270
17
“Porque Deus, a quem sirvo em meu espírito, no evangelho de
seu Filho, me é testemunha... Porque desejo ver-vos, para vos
comunicar algum dom espiritual, afim de que sejais confortados. ”
- Romanos 1:9,11

Estamos considerando a atitude de Paulo para com a sua


vida de serviço; vimos que para ele todo o nosso serviço a Deus
é religioso e deve sempre ser “em” ou “com” o nosso espírito.
Vamos agora considerar a terceira verdade que ele nos diz acerca
desta vida de serviço a Deus, a saber, o conteúdo desse serviço.
“Porque Deus, a quem sirvo em meu espírito, no evangelho de
seu Filho, me é testemunha.” Aqui também, é óbvio, há algo de
grande importância para nós. O serviço do apóstolo está sujeito
a esta concepção. Está dentro dos limites da frase: “no evangelho
de seu Filho”. Naturalmente, outra maneira de expressar essa
verdade é dizer que o apóstolo Paulo, como servo de Jesus
Cristo, como alguém que servia a Deus em seu espírito, não
estava interessado em nada que não se subordinasse a esse título.
Essa é a primeira coisa que devemos notar. Vimos que ele diz
aos coríntios, em sua Primeira Epístola a eles, capítulo dois,
versículo 2, “Nada me propus saber entre vós, senão a Jesus
Cristo, e este crucificado”, e o que temos aqui é apenas outro
modo de dizer a mesma coisa. O apóstolo poderia ter tratado de
muitos outros assuntos. Ele era culto, era um erudito. Como
vimos no princípio, ele não somente havia sido preparado como
fariseu, não era somente perito na lei judaica e em suas várias
interpretações, mas, tendo sido criado como cidadão romano
num lugar como Tarso, sem dúvida conhecera bem a filosofia,
a literatura e a poesia gregas. Vocês se lembram da citação que

271
O Evangelho de Deus

ele fez em seu discurso em Atenas. Ele podia ter falado sobre
outros assuntos, porém, disse ele, “nada me propus saber entre
vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado”. Noutras palavras,
ele delimitou deliberadamente os assuntos de que tratava, e aqui,
de novo, ele escreve enfaticamente a estes cristãos romanos que,
se bem que muitos outros assuntos podem ser perfeitamente
válidos e legítimos em si mesmos, ele, como servo de Deus e
servo de Jesus Cristo, evita-os deliberadamente.
Dou ênfase a isso porque certamente é algo que devemos
ter em mente. Na apresentação geral desta parte do capítulo, eu
disse que veríamos que, conquanto o apóstolo não exponha
explicitamente nenhuma grande doutrina, não obstante, toda a
seção está cheia de doutrina, e aqui está uma ilustração desse
fato. Isso levanta a questão da doutrina que trata da Igreja Cristã
e do que compete à ela fazer. A declaração de Paulo, de que
ele limita as suas atividades ao “evangelho do Filho de Deus”,
isto é, a “Jesus Cristo, e este crucificado”, lembra-nos que à
Igreja sempre cabe realizar essa obra. A Igreja não é uma
instituição cultural geral. Não faz parte da ocupação da Igreja
ensinar aos homens literatura ou filosofia ou sociologia, ou
qualquer dos assuntos semelhantes a esses. Agora, tratemos de
entender bem isso. Não estou dizendo que esses outros assuntos
não têm valor - podem ter, e muito. O que insisto em defender
é que não faz parte do dever da Igreja Cristã ensiná-los ou pregá-
-los. Tampouco ensinar música ou arte ou quejandos. Todas
essas coisas são legítimas no lugar certo, mas, específica e
peculiarmente, o dever da Igreja é pregar Jesus Cristo, e Este
crucificado. A Igreja, como Paulo, nada deverá propor-se
saber, senão a Jesus Cristo, e Este crucificado.
Insisto nisso porque cada vez me convenço mais de que o
fracasso da Igreja, nos fins do século passado e no começo deste,
foi não compreender essa verdade, e isso explica, em grande
parte, as condições atuais. Estou plenamente convencido de que,
em acréscimo à apostasia no ensino, isso é grandemente
responsável pelo estado em que se vê a presente realidade. As

272
Romanos 1:9,11

igrejas transformaram-se em instituições. Tornaram-se


sociedades culturais; passaram a tratar de todos os tipos de
assuntos; tornaram-se locais de reuniões sociais. Pois bem, como
eu entendo a questão, e como entendo este ensino do apóstolo
em todas as suas Epístolas, isso está completamente errado; é
totalmente falso. A Igreja é uma sociedade espiritual. A única
coisa que nos une é “o evangelho de seu Filho”. O mundo pode
e deve cuidar doutras coisas. É seu dever. São legítimas, e os
cristãos também podem participar delas. Não, porém, na igreja!
A Igreja ocupa-se das relações entre os homens e Deus em Jesus
Cristo; ela serve a Deus no evangelho de Seu Filho. Aí está o
limite. Ela não deve sair dele. E não se deve permitir que
qualquer outra coisa o adentre.
Mas há mais uma coisa. Até aqui indiquei que “o evangelho
de seu Filho”é uma concepção limitadora; quero dar igual ênfase
ao fato de que é uma concepção muito ampla e que tem um
grande conteúdo. Escrevendo aos efésios, o apóstolo o expressa
doutro modo, quando lhe chama,” as insondáveis riquezas de
Cristo” (3:8, ARA). E a mesma coisa. E “o evangelho de seu
Filho” - “as insondáveis riquezas de Cristo” ou “segundo as
riquezas da sua graça”. Ou vejam o modo como ele o diz em
seu discurso de despedida dos presbíteros da igreja de Efeso,
registrado em Atos, capítulo vinte: “Porque nunca deixei de
vos anunciar todo o conselho de Deus”. Isso é “o evangelho de
seu Filho”. Nada menos que isso! Diz o apóstolo que não
deixou nada para trás.
Também aqui dvemos ter entendimento bastante claro. A
mensagem da Igreja é bastante grande e ampla. Ela não entra
naquelas outras coisas, pois elas estão fora dos limites .do
“evangelho de seu Filho”. Sim! Mas dentro dos limites, que
tesouro, quantas riquezas! “O evangelho de seu Filho” não é só
evangelização - e eu penso que vocês concordarão que é preciso
dar ênfase a isso na presente hora. Creio que atualmente há o
real perigo de que todas as energias da Igreja estejam sendo
aplicadas à evangelização. Será que alguém vai me entender

273
O Evangelho de Deus

mal, ou vai pensar que eu estou dizendo que não deveria haver
nenhuma evangelização? Estou dizendo exatamente o oposto.
Tudo o que eu estou dizendo é que a atividade da Igreja não
deve ser unicamente evangelística. Penso que nos dias atuais há
o real perigo de que a ênfase à evangelização se torne uma ênfase
exclusiva, com a Igreja evangelizando sempre, e ficando nisso.
Esse caminho leva à ruína. Não! O evangelho do Filho de Deus
começa com a mensagem evangelística, mas não pára aí. Vai
adiante, e ensina - na verdade, o ensino é parte integrante da
evangelização. De fato, deixem-me fazer esta colocação - todas
as profundas doutrinas da Epístola aos Romanos podem vir sob
o título, “o evangelho de seu Filho”. Tudo são as boas novas, do
começo ao fim, e nada deve ser deixado fora.
Paulo diz também aos coríntios o seguinte: “Jesus Cristo, o
qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e
santificação, e redenção” (1 Coríntios 1:30). O evangelho é isso.
A doutrina faz tão igualmente parte do evangelho de Deus
quanto a justificação. A glorificação também faz parte. Devemos
tomá-las todas em consideração. Pois bem, a Igreja precisa
lembrar-se disso sempre. E se ela não estiver pregando “todo
o conselho de Deus”, se ela não estiver pregando todas as
grandes e gloriosas doutrinas das Escrituras, ela não está ser­
vindo fielmente a Deus. Não está servindo a Deus como o
apóstolo desejava tanto fazer, e como inegavelmente o fez. Ele
diz isso em muitos lugares diferentes. Por exemplo, na Epístola
aos Colossenses, capítulo primeiro, versículo 28, referindo-se
ao Senhor Jesus Cristo, ele escreve: “O qual nós anunciamos,
advertindo a todo homem, e ensinando a todo homem em toda
a sabedoria; a fim de que apresentemos todo homem perfeito
em Cristo” (ARA). Ou ainda ele o diz na forma de uma exorta­
ção a Timóteo, em 2 Timóteo, capítulo quatro, versículo 2:
“(Conjuro-te) que pregues a palavra, instes a tempo e fora de
tempo, redarguas, repreendas, exortes,
✓ com toda a
longanimidade e doutrina”. E isso que o apóstolo quer dizer
com as palavras: “Deus, a quem sirvo em meu espírito, no

274
Romanos 1:9,11

evangelho de seu Filho”.


Meus amigos, esta é a comissão dada à Igreja, e a pergunta
que devemos fazer hoje é se a Igreja está cumprindo essa
comissão. A Igreja Cristã está pregando doutrina? Está pregando
“todo o conselho de Deus”? Não há o perigo de que a Igreja se
contente com a mensagem evangelística somente? Em acréscimo
a isso, alguns pregadores fazem comentários gerais, de natureza
moral, sobre a situação internacional, questões políticas, litígios
industriais, etc., mas as pessoas não estão recebendo instrução.
Nada de censura! Nada de exortação! Nada de reprovação! E as
grandes doutrinas cardinais, que se acham nesta Epístola e
noutros lugares, muitas vezes não são nem mencionadas. Isso
não é servir a Deus verdadeiramente. Servir a Deus verdadeira­
mente em espírito é servi-lO no evangelho do Filho de Deus, e
o evangelho abrange cada item, cada partícula particular das
“riquezas de sua graça”. São as boas novas - as boas novas acerca
do Filho de Deus, e sobre o que Ele veio fazer no mundo.
Qualquer coisa, tudo o que eu possa receber dEle, faz parte do
evangelho. E a vida do apóstolo, diz ele a estes romanos,
consistia em andar servindo a Deus desta maneira, em seu
espírito. Desenvolvam isso vocês mesmos, e com mais
pormenores, a íim de que eu possa passar ao quarto ponto da
minha exposição. Este é igualmente muito importante e
particularmente interessante.
A próxima verdade que o apóstolo nos diz acerca da sua
vida de serviço é sobre a sua consciência de poder nesse seviço.
No versículo onze ele diz: “Desejo ver-vos”. Por quê? “Para
vos comunicar algum dom espiritual, a fim de que sejais
confortados.” Ele desejava visitá-los em Roma por aquela razão,
porque tinha um dom espiritual para compartir com eles. Ele
sabia que, se tão-somente estivesse lá, poderia beneficiá-los,
“afim de que” eles fossem “confortados” (“estabelecidos”, VA;
“confirmados”ARA). Que é que exatamente ele quer dizer com
essa declaração? podemos perguntar. Sugiro-lhes que ele quer
dizer as duas ou três coisas seguintes: a primeira é que o apóstolo

275
O Evangelho de Deus

estava cônscio desse poder. Ele tinha consciência de um poder


dentro dele. Já citei Colossenses, capítulo primeiro, versículo
28. Permitam-me repeti-lo, acrescentando o versículo 29: “O
qual nós anunciamos, advertindo a todo homem e ensinando a
todo homem em toda a sabedoria, a fim de que apresentemos
todo homem perfeito em Cristo; para isso é que eu também me
afadigo, esforçando-me o mais possível, segundo a sua eficácia
que opera eficientemente em mim”. O apóstolo tinha
consciência de um grande poder espiritual que havia dentro
dele.
Escrevendo aos coríntios, ele diz a mesma coisa. Diz a eles
que não tinha pregado com “palavras persuasivas de sabedoria
humana, mas em demonstração de Espírito e de poder” (1
Coríntios 2:4). E ele estava cônscio disso. Em 1 Tessalonicenses,
capítulo primeiro, versículo 5, ele diz: “Porque o nosso evan­
gelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder,
e no Espírito Santo, e em muita certeza”. Ora, essa “muita
certeza” inclui a certeza que o apóstolo tinha quando pregava.
Ele tinha consciência do poder. Ele trabalhava no poder que
trabalhava nele poderosamente. Ele se sentia, por assim dizer,
como se estivesse carregado como uma bateria de poier
espiritual proveniente do Espírito Santo. Ele tinha plena ciência
disso, e diz: “Quero visitá-los em Roma para poder transmitir-
-lhes algum dom espiritual mediante este poder”.
O mesmo pensamento aparece mais uma vez em 1
Coríntios, capítulo 4, onde o apóstolo escreve praticamente o
seguinte: alguns de vocês estão me desprezando, e estão alegando
grandes coisas quanto a si mesmos. Desde que eu parti, alguns
de vocês estão dominando como reis. Vocês se acham grandes e
pensam que sabem tudo, e que eu não sou nada. Muito bem; eu
vou vê-los, e vou submeter vocês a uma prova. Deixem que eu
lhes diga com clareza - não estou interessado em suas palavras,
não estou interessado em sua prosa. Uma coisa é falar, mas o
reino de Deus não consiste em palavras, porém em poder, e
quando eu for ter com vocês, não vou prová-los em seu falar, e

276
Romanos 1:9,11

sim em seu poder. É o poder que importa, declara Paulo;


qualquer tolo pode levantar-se e falar. A questão é: hápoder no
discurso desse homem? Que é que esse discurso realiza? A que
leva? Ele continua salientando a mesma coisa, vocês vêem. Ou
ainda, ouçam-no em 2 Coríntios, capítulo dez, versículo 3:
“Porque, andando na carne, não militamos segundo a carne.
Porque as armas da nossa milícia não são carnais, mas sim
poderosas em Deus, para destruição das fortalezas”. O apóstolo
não hesitava em dizer isso a respeito dele próprio; ele o
reivindicava para si. Ele sabia que pregava com poder - com o
poder do Espírito Santo.
Precisaria explicar por que estou dando ênfase a esta
verdade? Certamente é issoy
que a Igreja precisa aprender hoje,
acima de tudo mais. E o que todos nós precisamos aprender,
acima de tudo mais. E o que eu preciso aprender, acima de
tudo mais. Acaso vocês se lembram de que o nosso bendito
Senhor, pouco antes da Sua ascensão, disse aos Seus discípulos,
“Ficai... na cidade de Jerusalém, até que do alto sejais revestidos
de poder” (Lucas 24:49)? E também: “Mas recebereis a virtude
do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis teste­
munhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria,
e até aos confins da terra” (Atos 1:8). Todavia não sem o poder.
Eles não poderiam testemunhar sem o poder. Eles eram homens
comuns - pescadores e artesãos, operários na maioria. Eles
precisavam de poder, e depois que o receberam, puderam
testemunhar. E no livro de Atos lemos que “os apóstolos davam,
com grande poder, testemunho da ressurreição...” (Atos 4:33).
Eles falavam com poder, e a palavra, quando vinha por
intermédio deles, cumprindo a profecia de Jeremias (23:29),
era como “um martelo que esmiúça a penha”. Esmagava os
homens. Convencia os homens. Tornava-os convictos. Fazia-os
cair por terra e clamar: “Que faremos, varões irmãos?” Levava-
y

-os a sentir-se constrangidos. O poder! E disso que Paulo está


falando. Ele estava cônscio deste poder.
Além disso, quando vocês lerem a narrativa de cada

277
O Evangelho de Deus

avivamento provindo de Deus na história da Igreja, verão este


elemento sempre presente. Os homens que Deus usava estavam
cônscios do seu poder. Há uma palavra de que gosto e que era
empregada com muita freqüência por Howell Harris, um dos
“pais” metodistas de há duzentos anos. A palavra que sempre
empregava e da qual vivia falando é “autoridade”. Quanto a
ele, havia dois tipos de pregação; havia a pregação absolutamente
ortodoxa, na qual ele dizia as coisas certas, e que era muito boa.
Entretanto a “autoridade” não estava ali, e isso era o que Howell
Harris tanto desejava. Ele sabia quando a tinha, e sabia quando
estava sem ela. Não são essas a nossas dificuldades, digo eu, em
parte devido ao fato de que tudo isso foi esquecido?
Há muitas histórias que eu poderia contar para ilustrar estas
questões. Acho que já lhes falei do homem que devia pregar a
um grande auditório, e o povo estava reunido, havia ministros
presentes, tudo estava em ordem, mas o pregador não chegava.
O pastor local mandou uma criada chamar o pregador. A jovem
foi e, quando voltou, disse: “Há alguém com ele; eu o ouvi
falando com alguém”. Disseram-lhe: “Volte lá e diga-lhe que
venha; diga-lhe que o povo o está esperando”. De volta segunda
vez, disse: “Eu fui lá, mas ele estava dizendo a alguém que não
viria pregar se essa outra pessoa não viesse com ele”. “Está certo”,
disse o velho pastor; “ele tem razão; nem deverá vir para pregar
se a outra pessoa não vier com ele.” Naturalmente o homem
não estava falando com um homem; estava falando com Deus.
Tinha consciência de que a “autoridade” não estava ali, e ele
sabia que se fosse pregar sem ela, estaria pregando sozinho, e
ele não queria ir sem estar cônscio do poder e da presença do
Espírito Santo. Ele queria a “autoridade”. E a obteve. Ele veio,
pregou, e coisas maravilhosas aconteceram. Pessoas se
prostraram sob a convicção de pecado, clamando em agonia de
alma e perguntando como poderiam ser salvas.
Essa é, então, a primeira coisa que notamos aqui; o apóstolo
estava ciente do seu poder. Ele sabia que tinha pregado em
Corinto “em demonstração do Espírito e de poder” (VA e ARA),

278
Romanos 1:9,11

e era essa a sua concepção do serviço e da pregação. E nós


ignoramos e negligenciamos isso a nosso risco. Você pode ter
um ministério da mais alta cultura, mas, sem o poder do
Espírito, será inútil. Podemos ter oradores que falam com
erudição e que fazem muitas outras coisas, porém, se este poder
não estiver presente, acabarão em nada mais que puro
entretenimento. “Desejo ver-vos para vos comunicar algum dom
espiritual...” Eu o possuo. Sei que posso dá-lo. O apóstolo estava
cônscio - estava ciente - do seu poder. Sem o poder do Espírito
Santo somos advogados, não testemunhas, e somos chamados
para ser testemunhas. Essa verdade vale para todos nós; não
somente para o pregador, e sim também para o cristão
individual, em todas as associações que ocorrem na vida. O
mesmo poder está à disposição de todos, e, sem ele, as nossas
palavras são ineficientes.
Contudo, essa é apenas a primeira coisa, pois eu vejo algo
mais. Paulo está ciente, digo, não somente de que tem em si
este poder do Espírito, mas também sabe que pode estabelecer
(confortar, confirmar) na fé os cristãos romanos; ele sabe que
pode edificá-los. E lhes diz isso. Ele quer vê-los porque sabe
que pode fazer isso por eles, e porque deseja fazê-lo. Isso, porém,
nos leva à interessante e importante pergunta: como é que ele
vai fazer isso? Que é que exatamente ele quer dizer com a
comunicação de “algum dom espiritual”? Devemos ser muito
cautelosos aqui, porque muitas vezes isso tem sido mal
entendido. Há os que dizem que o que o apóstolo quer dizer é
que ele tem poder para dar o Espírito Santo às pessoas, e
afirmam que o que Paulo quer dizer com a expressão “comunicar
algum dom espiritual” é “comunicar o dom do próprio Espírito
Santo”. Falemos com clareza. O apóstolo tinha esse dom. Há
vários casos que mostram isso no livro de Atos. Por certo vocês
se lembram de que, após ter falado com “alguns discípulos”em
Efeso, e eles creram, e ele os batizou “em nome do Senhor Jesus”,
então nos é dito que, “impondo-lhes Paulo as mãos, veio sobre
eles o Espírito Santo” (19:1-6).

279
O Evangelho de Deus

Há outros exemplos da mesma experiência no livro de Atos,


e não somente com este apóstolo. Por isso alguns têm dito que é
isso que Paulo quer dizer, e, como vocês sabem, esses têm
fundado uma doutrina sobre isso e alegam que continuam tendo
esse mesmo poder. Dizem eles que podem dar o dom do Espírito
Santo impondo as mãos sobre uma pessoa. Há também aqueles
que sustentam esse conceito numa forma ligeiramente diversa;
acreditam estes que num ofício de confirmação, o Espírito Santo
é dado mediante a imposição das mãos de um bispo. Existem
segmentos da Igreja que afirmam isso. E há outros, vocês sabem,
não pertencentes àquele segmento particular da Igreja Cristã,
que alegam que receberam o batismo do Espírito Santo e que o
podem dar a outros pela imposição das mãos.
A segunda explicação da declaração de Paulo é que, na
passagem em foco, ao falar sobre “comunicar algum dom
espiritual”, ele está pensando em termos da diversidade dos
dons espirituais que são mencionados e relacionados em 1
Coríntios, capítulo doze: a um é dado o dom de curas, a outro o
de milagres, a outro o de línguas, a outros os dons da fé, da
profecia, da interpretação, etc. Certamente vocês se lembram
da longa lista de dons espirituais mencionados nessa Epístola.
E alguns dizem que o que o apóstolo estava dizendo na passagem
que estamos estudando era que, quando fosse visitar os cristãos
de Roma, estava em seu poder dar-lhes esses dons espirituais
particulares.
E agora, que dizemos nós acerca das duas explicações
sugeridas? A primeira palavra é que, com relação à idéia de
que ele tinha o poder de dar o dom do Espírito Santo, parece-
-me perfeitamente claro que, na passagem em foco, o apóstolo
não se refere a isso, porque ele diz que deseja comunicar-lhes
“algum dom espiritual, a fim de que sejam estabelecidos” -
não “afim de que iniciem a vida cristã”. Ele sabe que eles são
cristãos. Já lhes dissera que eles são “amados de Deus, chamados
santos”. Eles já criam no evangelho; já tinham recebido o
Espírito Santo; já tinham nascido de novo. Tudo isso já lhes

280
Romanos 1:9,11

tinha acontecido. O que ele quer é fortalecê-los. Logo, parece-


-me que isso já por si é mais que suficiente para excluir a
primeira explicação sugerida. Ele está escrevendo a pessoas que
já tinham o dom do Espírito Santo; o que ele quer é levá-los
adiante e edificá-los.
E, portanto, exatamente da mesma maneira, aplicamos essa
resposta à segunda explicação sugerida. Em parte alguma o
apóstolo ensina que tem poder para dar dons particulares às
pessoas. O que ele diz em 1 Coríntios doze é que o Espírito
Santo dispensa os dons como Ele quer, soberanamente. Não é
Paulo que o faz; é o Espírito. Mas, de novo, de qualquer forma,
ele não pode dizer que ele próprio confere dons espirituais,
porque está falando em “estabelecer”, em “confirmar” os crentes
romanos, e, certamente, toda a sua argumentação em 1 Coríntios
é que a posse desses dons particulares, longe de estabelecer as
pessoas na igreja de Corinto, estava tendo o efeito exatamente
oposto. Estava fazendo com que eles se enchessem de soberba,
de ciúme e de inveja, e fizessem grande exibição dos dons. Essa
não era a maneira de estabelecer ou confirmar as pessoas.
Expliquemo-nos bem. Os dons espirituais são demonstrações
do poder do Espírito Santo, porém não estabelecem as pessoas.
A tragédia da igreja de Corinto foi que os seus membros só
viam os dons espirituais e argumentavam e falavam sobre eles,
e se gabavam deles. Contudo não foram estabelecidos por esses
dons. Eles estavam permitindo a existência de um terrível
pecado entre eles, e o apóstolo teve que falar-lhes com
severidade. Os dons espirituais não estabelecem os crentes, mas
o que o apóstolo desejava era estabelecê-los.
Então, que será que ele quer dizer com “vos comunicar
algum dom espiritual”? Certamente a explicação é que ele quer
visitá-los em Roma a fim de poder fazer completamente por
eles o que ele está fazendo agora em forma resumida na carta
que lhes está escrevendo. Ele quer “comunicar-lhes algum dom
espiritual, a fim de que sejam estabelecidos” (VA), o que
significa “fortalecidos”, “edificados”, “tornados seguros”,

281
O Evangelho de Deus

“tornados firmes”. E o meio de que se serve para fazê-lo é o


ensino. E porque ele não pôde ir a Roma e fazer isso
concretamente na prática, que lhes escreve esta carta. Se ele
pudesse ter ido, bem, nesse caso, é claro, dedicaria tempo e faria
um trabalho mais elaborado. O que de novo me leva a lembrá­
mos de que esta Epístola aos Romanos é apenas uma sinopse,
um sumário, e breve, de tudo quanto o apóstolo pregava e
ensinava quando estava fisicamente presente. Torno a salientar
esse ponto porque me parece trágico que tanta gente pareça
não compreender e não lembrar isso. Toda esta grande Epístola
nada mais é do que uma sinopse. O apóstolo levaria meses
para expor plenamente o que ele diz aqui, dentro destes estreitos
limites; assim, quando estudarmos a Epístola aos Romanos,
não passemos por ela ligeira e superficialmente. E nosso dever
tentar fazer o que o apóstolo teria feito, se tivesse estado em
Roma.
Noutras palavras, as nossas considerações sobre a Epístola
aos Romanos devem ser muito longas. Também é por isso que,
como vocês devem ter notado, qualquer dos comentários de
Romanos que vocês já viram é muito mais comprido que a
Epístola mesma. Naturalmente, só pode ser assim. E lembrem-
-se, mesmo um comentário escrito é também apenas uma
sinopse, e o nosso dever é expandir, pregar e expor a verdade.
Coloco a matéria para vocês da seguinte forma: um amigo
meu, que costumava freqüentar nossas reuniões regularmente
e que partiu para a glória - um homem muito bom - uma vez
me disse, mais como brincadeira, mas amavelmente - “Sabe,
às vezes penso que o apóstolo deve ficar espantado quando vê o
que você tira das Epístolas que ele escreveu! Pobre homem!
Nesta altura o meu amigo descobriu que o apóstolo se espanta
com o pouco que a maioria das pessoas, eu inclusive, tira das
suas grandes Epístolas. Ele não pôde estar em Roma. Se pudesse,
poderia pregar para eles dia após dia. Vocês se lembram de que
nos é dito que durante dezoito meses, em Efeso, dia após dia
ele falou na escola de Tirano; ele falava horas seguidas, e

282
Romanos 1:9,11

diariamente. Sobre o que vocês acham que ele falava? Segundo


as idéias que alguns têm da exposição, ele podia ter falado sobre
todas as suas Epístolas numa tarde! Como, então, ele passava o
resto do tempo? Meus caros amigos, isto é uma sinopse! O dom
espiritual que ele quer transmitir aos romanos é abrir-lhes as
doutrinas, ensiná-los, instruí-los, fundamentá-los. Isso é de vital
importância. Certamente vocês se lembram de como o nosso
bendito Senhor o expressou em Sua oração sacerdotal:
“Santifica-os por tua verdade” (VA). E pela verdade que somos
santificados, pelo conhecimento das Escrituras, pelo conheci­
mento da doutrina - a verdade acerca de Deus em Cristo, essa é
a maneira de santificar as pessoas. E um processo, e você deve
aprofundar-se nele, deve cavar fundo; e você traz para fora as
coisas ocultas. Você toma a sinopse e a desenvolve em toda a sua
plenitude. É assim que somos santificados.
Permitam-me lembrar-lhes como Pedro fala deste ponto
no capítulo três da sua Segunda Epístola. Ele lembra aos seus
destinatários que está escrevendo a respeito da segunda vinda
do nosso Senhor, que havia dificuldades acerca dessa doutrina,
e ele diz que o apóstolo Paulo trata desse assunto em todas as
suas Epístolas, nas quais “há pontos difíceis de entender, que
os indoutos e inconstantes torcem... para a sua própria
perdição”. Notaram as duas palavras? Quem são os incon­
stantes? Os inconstantes são sempre os indoutos. As borboletas
espirituais são as pessoas que não sabem doutrina. As pessoas
que se deixam levar pela astúcia do homem e pelo engano
engenhoso são as que não estão completamente estabelecidas
na verdade, não foram doutrinadas e fundamentadas na fé,
pessoas que têm um conhecimento superficial, mas que jamais
cavaram fundo. Os não instruídos é que sempre são os
inconstantes, e cada uma das Epístolas do Novo Testamento foi
escrita para estabilizar as pessoas, para estabelecê-las, para
arraigá-las! E isso se faz pelas doutrinas, pelo ensino e pela
exposição.
Essa verdade é tão válida hoje como o foi nos primeiros

283
O Evangelho de Deus
*

tempos da Igreja. Paulo diz aos presbíteros da igreja de Efeso:


“Agora, pois, irmãos, encomendo-vos a Deus e à palavra da sua
graça; a ele que é poderoso para vos edificar e dar herança entre
todos os santificados”. É unicamente “a palavra da sua graça”
que pode realizar tal feito. Nada mais existe que possa edificar-

-nos. Não é de entretenimento que necessitamos. E da verdade,


das doutrinas desta grande Epístola e das demais Epístolas. A
medida que as tenhamos compreendido e apropriado seremos
estabelecidos, tornar-nos-emos pessoas de confiança e capazes
de detectar erro e heresia, de percebermos as coisas duvidosas
que passam como evangelho, sem sermos enganados ou
ludibriados. Tal estabilidade nunca foi tão necessária como o é
hoje, com tantas seitas e ensinos falsos - coisas que parecem tão
boas na superfície! A única maneira de conhecer as doutrinas e
de sermos capazes de detectar os desvios delas é a de
conhecermos a nossa posição bíblica e de estarmos “arraigados
e fundados” nela, e estabelecidos na fé. Na vida espiritual não
há atalhos. Entender a doutrina é um processo, e toma tempo.
E preciso estudar as Escrituras. Digo e repito, não se pode fazer
um “Cook’s Tour”, um giro turístico, pelo Novo Testamento.
Não se pode percorrer a galope estas Epístolas. Não se pode
passar por elas à base de um capítulo por vez. Vocês não vêem a
doutrina que descobrimos? Não vêem estas grandes e vitais
verdades que emergem por toda parte? E sobre estas coisas que
o apóstolo quer falar em Roma. Somente um conhecimento
profundo e completo da Palavra é que nos dará a verdadeira
estabilidade.
Vocês se lembram da ressonante declaração do fim do
capítulo oito desta Epístola aos Romanos: “Estou certo de que,
nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados,
nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura,
nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá
separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor”.
//

“E isso”, dirá alguém. “E desse tipo de coisa que eu gosto. Por


que não correr para lá? É isso que nos estabiliza!” Ah, mas

284
Romanos 1:9,11

espere um minuto! O apóstolo Paulo só pôde fazer essa


declaração por causa de todas as coisas que ele estivera dizendo
nos capítulos anteriores! Essa declaração é a conclusão do
grandioso argumento em prol da justificação, da santificação e
da glorificação. Não se pode partir dela. Com ela você termina.
E você jamais poderá fazer semelhante declaração de coração se
realmente não conhecer, experimentalmente, estas grandes
doutrinas. Você precisa conhecê-las com o seu intelecto, e precisa

experimentá-las. E por isso que Paulo queria ir a Roma; queria


falar-lhes sobre isso. Esse é o dom espiritual que ele tinha para
transmitir-lhes. O Espírito Santo lhe dera especial entendi­
mento. Ele era um homem versado nas Escrituras do Velho
Testamento. Cristo Se revelara a ele. Ele tinha passado três anos
na Arábia. Ele tinha a doutrina. A profecia de Cristo sobre a
vinda do Espírito e sobre o conhecimento que Ele daria aos
apóstolos, tinha se concretizado nele. Ele era um mestre
inspirado e queria derramar esse conhecimento, essa doutrina,
essa informação. “Desejo ver-vos, para vos comunicar algum
dom espiritual, a fim de que sejais estabelecidos.”

285
18
“Isto é, para que juntamente convosco eu seja consolado pela fé
mútua, assim vossa como minha.” - Romanos 1:12

Chegamos agora ao versículo doze deste primeiro capítulo.


O versículo começa com estas duas palavras interessantes: “Isto
é”. Paulo tinha feito uma declaração, e depois diz: “Isto é”.
Quero ser cuidadoso quanto a isso, diz o apóstolo. Não quero
que me entendam mal. “Desejo ver-vos, para vos comunicar
algum dom espiritual, a fim de que sejais estabelecidos; isto é,
para que juntamente convosco eu seja consolado pela fé mútua,
assim vossa como minha.” Pois bem, temos aí a continuação da
matéria anterior no sentido de uma qualificação dela, e a
pequena expressão “Isto é” é interessante, e devemos examiná-
-la com muita atenção. Quando comecei as considerações sobre
esta parte específica da Epístola, mostrei que, embora não nos
apresente o propósito explícito de tratar de doutrina, não
obstante é um fato que ela está carregada de doutrina, se
formos bastante sábios para vê-la. Realmente, o apóstolo está
se acertando com as pessoas a quem está escrevendo, tratando
do que parece mera questão de arranjos etc. Já vimos, porém,
que a doutrina surge diante de nós em toda parte, e aí, doutrina
profunda. E veremos a mesma coisa aqui, quando examinar­
mos qual a sua real intenção ao empregar estas duas palavras,
“Isto é”.
Talvez fosse melhor a seguinte tradução: “Isto é, que nos
animemos mutuamente pela fé uns dos outros, vossa e minha”.
Penso que expressa muito melhor o ponto. Que será, então,
/

que o apóstolo está dizendo? E óbvio que, primeiramente, ele


está modificando um pouco a sua declaração anterior, mas

286
Romanos 1:12

somente na medida em que não quer que eles pensem que, por
assim dizer, ele está se colocando sobre um pedestal, e que os
está inferiorizando, como se dissesse: claro, sou um grande
homem, um grande apóstolo, e vocês são simples membros
comuns de igreja, e, portanto, eu tenho muita coisa para dar-
-lhes. Para que ninguém pensasse isso, ele passa a dizer logo:
“Isto é...”. Não me entendam mal, diz o apóstolo, não é esse o
espírito nem o modo como lhes estou escrevendo. Não! Estou
desejoso de ir, a fim de que eu seja “animado”, como também
vocês. Agora, a palavra que temos nesta passagem na Versão
Autorizada (inglesa), “confortado” (como as que temos em
Almeida, ARA e ARC) é um tanto enganosa. Não teria sido
assim quando da publicação da VA em 1611, porém agora é
porque temos a tendência de atribuir à palavra “conforto” um
só sentido. Por isso talvez seja melhor considerá-la como
“animado”. O apóstolo tenciona animá-los, porém se apressa a
dizer que ele está certo de que também vai ser animado por
eles. Ele compreende que tem muito para dar-lhes, mas quer
que eles também saibam que têm muita coisa para dar-lhe, e
que haverá uma espécie de intercâmbio; de ambos os lados
haverá encorajamento.
Noutras palavras, Paulo está retratando aqui o que bem se
pode chamar “a comunhão dos santos”, e ele está assegurando
aos crentes em Roma que eles serão um grande incentivo para
ele, como ele o será para eles. E essa comunicação de ânimo é
algo que afetará toda a sua personalidade; afetará a sua mente, o
seu coração e a sua fé - de fato, a totalidade do seu ser. E isso
que ele está dizendo na passagem que estamos estudando. Ele
realmente espera passar bom tempo entre estes cristãos em
Roma. Ele sabe muito bem que, como resultado dessa
comunhão, o seu coração será aquecido, ele se sentirá estimulado
em seu trabalho e animado a continuar com ele; estará mais
seguro que nunca da sua fé cristã, e assim por diante. Paulo está
dizendo tudo isso com aquelas duas palavras simples, “Isto é”.
Obviamente, é muito importante que compreendamos que,

287
O Evangelho de Deus

ao dizer isso, o apóstolo o está fazendo sincera e genuinamente.


Não se trata de um tipo de falsa modéstia; não se trata de mostrar
um pouco de gentileza; não é a linguagem do galanteador
fazendo uso de frases lisonjeiras e amáveis. Não! A verdade é
que Paulo realmente quer dizer o que diz, e devemos entender
que ele quer dizer isso, como igualmente quer dizer o que ele
escreveu no versículo onze. Nesse versículo ele estava certo do
seu poder. Aqui ele está igualmente certo de que fará e colherá
benefício por meio desse intercâmbio que ocorrerá quando ele
visitar os cristãos romanos.
Na verdade, se entendemos corretamente o versículo 11, o
adendo feito no versículo 12 não deverá perturbar-nos; nenhuma
contradição está envolvida. Alguém pode achar que há
contradição, porque ele diz de um fôlego que tem capacidade e
poder para levar-lhes bênção. Não, não há contradição, e por
este motivo, que o apóstolo sempre esclarece que qualquer poder
que ele possua não lhe é inato. É o poder do Espírito Santo
nele. Não é Paulo como homem; nem mesmo é Paulo como
cristão. O grande poder que ele tinha como apóstolo, como já
vimos, era algo que lhe fora dado. Ele fora “chamado” para isso.
A

Fora revestido de poder. E o Espírito que está nele. Assim, vocês


vêem que, a despeito desse fato, ele é um cristão como todos os
outros, e pode receber algo de todos os outros, podebeneficiar-
-se de todos os outros, e pode ter verdadeira comunhão com
eles. Como cristão, o apóstolo Paulo é idêntico a todos os demais.
Ele é apóstolo - sim! Mas isso de nenhum modo faz qualquer
diferença para ele como cristão, como crente, como membro
do corpo de Cristo, como alguém que é igual a todos os outros
cristãos.
Paulo gosta muito de dizer isso, e o repete em muitos lugares
diferentes. Vocês o verão dizê-lo na Primeira Epístola aos
Coríntios, capítulo 3, onde ele trata do fato de que alguns cristãos
coríntios estavam dizendo: “Ah, Paulo é o homem”, enquanto
outros diziam: “Não, Apoio é o homem”. Ele diz: por que vocês
estão gastando fôlego e falando isso acerca de Paulo e de Apoio?

288
Romanos 1:12

“Nem o que planta é alguma coisa (isto é, Paulo), nem o que


rega (isto é, Apoio), mas Deus, que dá o crescimento.” Ele torna
a dizê-lo no capítulo quatro, versículo 7: “Quem te diferença?
E que tens tu que não tenhas recebido? E se o recebeste,ypor
que te glorias, como se não o houveras recebido?” E exatamente
a mesma coisa. Todos esses dons são dados por Deus, e, portanto,
a despeito deles, o homem qua* homem, o cristão qua cristão,
é igual a todos os outros, e assim, essa grande co-participação
é possível.
Não obstante, certamente é algo notável e assombroso, e
merece comentário. Leiam de novo as extraordinárias
declarações que o apóstolo faz na Segunda Epístola aos
Coríntios, capítulos onze e doze. Se alguma vez algum homem
teve motivo ou razão para ufanar-se, esse homem é o apóstolo
Paulo. Para usar uma frase corrente, se algum homem teve
motivo para “perder a cabeça”, foi o apóstolo Paulo. Se algum
homem teve motivo para ensoberbecer-se e para julgar-se
maravilhoso e superior a todos os outros, foi este admirável e
poderoso homem de Deus. Nas visões, nas experiências, na
utilidade, no sofrimento, em todos os aspectos, ele sobressai
proeminentemente. Ele é o homem que sabe o que é ser
arrebatado ao terceiro céu e ouvir e aprender algo da língua do
paraíso, que não se pode repetir por causa da sua glória. E,
todavia, este é o homem que, escrevendo a estes cristãos comuns
e simples de Roma (muitos dos quais eram apenas serviçais na
casa de César), afirma que anela tremendamente estar com eles.
Ele tem muito que lhes dizer e que lhes dar - sim! - mas espera
igualmente ouvir o que eles têm para dizer-lhe. Ele quer ouvir
as experiências deles, quer sabe o que eles receberam do Senhor,
e como o Senhor os conduz. Ele deseja vê-los porque sabe que
isso virá a ser um incentivo para ele e um enriquecimento da
sua vida. Está certo de que o seu coração será aquecido. Ele
espera auferir grande benefício da sua visita a Roma. Que quadro

* Como. Em latim no original. Nota do tradutor.

289
O Evangelho de Deus

maravilhoso! Tão maravilhoso que devemos extrair dele


algumas lições, porque eu creio que ele tem muito que dizer à
Igreja Cristã na presente hora.
Comecemos conosco primeiro. Examinemo-nos e
provemo-nos à luz do que o apóstolo diz aqui sobre si próprio.
Qual é a primeira coisa que procuramos numa pessoa com quem
nos encontramos? Está bem claro que a primeira coisa que Paulo
procurou naqueles crentes foi o Espírito que neles estava. Quero
dizer, o Espírito Santo, que estava neles. Por isso ele ansiava
estar com os crentes romanos. Ele sabia que eles tinham recebido

o Espírito Santo, como ele próprio. E isso que ele buscava em


/

toda parte. Procurem recordar que, quando ele chegou a Efeso,


encontrou alguns que eram chamados discípulos, e logo
percebeu que lhes faltava alguma coisa, pelo que lhes perguntou:
“Recebestes vós já o Espírito Santo quando crestes?” Ele sentiu
que eles não O tinham recebido, e por isso lhes fez a pergunta.
Que sensibilidade a dele, para isso! E isso que ele procurava
em todas as pessoas. Ele não estava interessado na cor da pele
delas, nem em sua nacionalidade; não estava interesssado no
nível social nem na posição das pessoas; não estava interessado
na escola ou na universidade, ou naquilo que correspondia a
isso naqueles tempos, que as pessoas haviam freqüentado. O
que ele buscava era isto: há algum irmão em quem esteja o
Espírito de Deus? Há alguém com quem eu possa ter comunhão
porque essa pessoa, como eu, está em Cristo? Era essa a sua
maneira de considerar e julgar as pessoas. Era isso que o levava
a interessar-se imediatamente pelas pessoas. Ele procurava a
presença e a manifestação do Espírito de Deus. Ele procurava
alguém que fosse seu companheiro como membro do corpo de
Cristo, e todas as outras questões lhe eram completamente
irrelevantes. Não tinham nenhuma importância para ele. Esse
espírito não é só do apóstolo Paulo; é de todo o Novo Testamento.
No Novo Testamento não há nada que seja mais maravilhoso
do que justamente isso, e tenho para mim que não há melhor
teste da nossa fé cristã do que este: que é que nós procuramos

290
Romanos 1:12

nos outros? Que é que nos causa maior prazer encontrar e ver
nos outros? Que é que nós pomos em primeiro lugar? Não
há maneira mais profunda de nos testarmos a nós mesmos do
que essa.
Deixem-me, porém, passar à segunda declaração. O apóstolo
não somente procurava isso nos outros, mas também, quando o
encontrava, desfrutava-o grandemente, e se beneficiava disso.
E, naturalmente, o que eu quero ressaltar nesta altura é que,
não importa quão simples ou de quão humilde condição certos
cristãos fossem, Paulo colhia algo deles. Ele gostava de conversar
com eles e de observá-los. Eles faziam o seu coração vibrar. Eles
eram um incentivo para ele. E isso também é algo que vale
quanto a todas as partes do Novo Testamento, como também
quanto à história da Igreja entre os santos de todos os séculos.
Gostamos da companhia de todos os cristãos, ou terão que ser
de um tipo especial? Terão que ser muito inteligentes, ou que
estar vestidos de maneira especial, ou que ter a aparência de
S

quem pertence a determinada posição social? As vezes faço este


tipo de pergunta: você prefere passar horas com o cristão mais
humilde a passá-las com o mais elevado e mais exaltado não
cristão? Essa é a prova. Se lhe fosse dado escolher, tendo a
oportunidade de visitar o maior homem do território, que não
é cristão, você deixaria isso de lado para conversar com um
cristão humilde que experimentou a graça de Deus em seu
coração, e que lhe pode falar sobre as coisas do espírito, e
partilhar experiências com você? Este homem poderoso, este
que foi o principal apóstolo, está anelante para sentar-se ao lado
destas pessoas humildes de Roma, porque sabe que vai gostar
disso; é certo que se encherá de encanto o seu coração.
Isso nos leva, então, ao terceiro princípio, que é um princípio
doutrinário muito importante; os anteriores foram mormente
experimentais. Este ponto é especialmente importante hoje.
Vejo aqui toda a doutrina da Igreja Cristã sendo introduzida.
Primeiro e acima de tudo vejo o claro e notável contraste entre
os apóstolos, os maiores líderes que a Igreja Cristã conheceu, e

291
O Evangelho de Deus

muitos líderes modernos da Igreja Cristã. Eis aqui um apóstolo


de Cristo esperando estar em Roma. Mas, que contraste com o
papa de Roma dos dias atuais! Vocês podem notar que Paulo
não diz que quando chegar a Roma estará pronto e disposto a
ter uma audiência com eles, se o desejarem. Não há nada disso
aqui. Ele vai ser um deles, vivendo entre eles; espera receber
algo deles, bem como dar-lhes. Ele não diz que espera visitá-
-los em Roma a fim de dar-lhes a sua bênção, de modo que eles
possam sair e dizer que receberam “a bênção” do grande
apóstolo. Ele não afirma que é vigário de Cristo de maneira
excepcional e única.
Pois bem, meus amigos, estou me referindo a estas coisas
porque estamos vivendo dias e tempos em que muitos
protestantes, ao que me parece, por causa da peste do
comunismo, dão a impressão de que estão quase prontos a
alinhar-se com essa maneira de ver a igreja. Todavia isso é uma
completa negação do Novo Testamento. Devemos repensar estas
coisas. Aí está o maior apóstolo que a Igreja conheceu, e,
contudo, olhem para ele; é humilde, modesto, submisso. “Isto
é, para que juntamente convosco eu seja consolado pela fé
mútua, assim vossa como minha” - é o que ele espera desse
encontro. Não há vestígio aqui, e em parte nenhuma do Novo
Testamento, de uma idéia monárquica quanto ao governo da
Igreja. Absolutamente nenhuma! Não há tampouco vestígio ou
suspeita de papismo. O que há é exatamente o oposto disso. O
papismo é imitação do Império Romano. Nada tem a ver com
o cristianismo. E algo que foi imposto às Escrituras. E digo
estas coisas com forte sentimento porque cada vez me convenço
mais de que esse tipo de coisa foi sempre o maior obstáculo ao
verdadeiro avivamento na Igreja. Que lástima, haver raiado o
dia em que um imperador chamado Constantino, que se tornara
cristão, declarou que o seu império também se tornara cristão!
E, que lástima a Igreja haver-se comprometido com o mundo!
Toda essa idéia entrou na Igreja dos príncipes, dos senhores e
dos grandes homens dos quais você não pode aproximar-se

292
Romanos 1:12

muito, e os quais são capazes de dar bênção, mas nunca parecem


receber coisa alguma! Tudo o que a passagem em foco diz é tão
diferente, não é?
Vemos isso não somente no ensino do apóstolo Paulo, mas
também no ensino do nosso bendito Senhor. Ouçam Suas
palavras, registradas em Mateus, capítulo vinte, versículo 25:
“Jesus, chamando-os para junto de si, disse: bem sabeis que
pelos príncipes dos gentios são estes dominados, e que os
grandes exercem autoridade sobre eles. Não será assim entre
vós; mas todo aquele que quiser entre vós fazer-se grande seja
vosso serviçal; e qualquer que entre vós quiser ser o primeiro
seja vosso servo; bem como o Filho do homem não veio para
ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de
muitos”. Ah, Igreja Cristã, que foi que lhe aconteceu? Como
pôde esquecer essas benditas palavras e o exemplo do grande
apóstolo?
Pedro, vocês verão, ensina exatamente a mesma coisa
quando dirige uma palavra aos presbíteros da igreja no capítulo
cinco da sua Primeira Epístola. Diz ele: “Aos presbíteros, que
estão entre vós, admoesto eu, que sou também presbítero com
eles, e testemunha das aflições de Cristo, e participante da glória
que se há de revelar: apascentai o rebanho de Deus, que está
entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas
voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto;
nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo
de exemplo ao rebanho” (versículos 1-3). Não como domina­
dores, e sim como exemplos, estando com as pessoas,
preocupados com elas, servindo-as, sacrificando-se por elas,
misturando-se com elas, sim, como Paulo declara que anela
fazer com os membros da igreja em Roma.
“Mas certamente”, dirá alguém, “dizendo isso tudo você
está negando o princípio da autoridade”. Não, não estou. Estou
asseverando que a única autoridade que o Novo Testamento
reconhece na igreja é a autoridade “espiritual”. Quero dizer com
isso, autoridade dada, não a um ofício, mas ao homem. Não há

293
O Evangelho de Deus

autoridade inerente a um ofício. A autoridade é a presença do


Espírito Santo no homem. Assim é que este mesmo apóstolo,
que pode ser tão modesto, humilde e natural, também pode
repreender severamente, e dizer às pessoas: “Sede meus
imitadores”. Eu é que sou o pai de vocês em Cristo, embora
vocês tenham tido muitos instrutores. E como ele o diz, não se
sente que ele esteja se exaltando. Ele está simplesmente dizendo
que foi chamado para ser apóstolo; foram-lhe dados a autoridade
e o poder. Ele não tem nada que lhe seja inerente, mas tem este
poder do Espírito Santo. E é em termos deste poder que nele
permanece, e por causa dele, que ele lhes pede que o observem
e sejam seus imitadores.
Digo, pois, que não é o ofício, como tal, que constitui a
autoridade. A autoridade é a autoridade do Espírito Santo na
pessoa. E é por isso que um dos grandes problemas com que a
Igreja Cristã em geral se defronta hoje acha-se precisamente
neste ponto. Em certo sentido, na Inglaterra tudo começou na
década de trinta do século passado, com o movimento anglo-
-católico, assim chamado, iniciado por Keble, Newman, Pusey
e outros. Qual era o problema deles? Era este: a Igreja Cristã,
diziam eles, não está sendo levada em conta como devia e como
costumava ser. Que é que podemos fazer a respeito? Onde
poderemos achar autoridade e trazer a autoridade de volta à
Igreja? E o erro crasso e fatal que eles cometeram foi decidir
que o meio pelo qual se poderia recuperar a autoridade era afastar
o pregador, o pastor, do povo, cercá-lo e rodeá-lo de autoridade,
fazê-lo usar certas vestes, aplicar-lhe uma decoração própria,
por assim dizer, e exaltar o seu ofício. O sacerdote! Chamem-
-Ihe “pai” (“padre”), dêem-lhe uma autoridade especial. Eles
fabricaram a autoridade do “sacerdócio”, querendo com isso
restabelecer na igreja o seu poder e a sua pregação revestidos de
autoridade.
Mas que completa incompreensão deste versículo doze
do capítulo primeiro de Romanos! - “Desejo ver-vos, para vos
comunicar algum dom espiritual, a fim de que sejais

294
Romanos 1:12

confortados, isto é, para que juntamente convosco eu seja


consolado pela fé mútua, assim vossa como minha”. Não havia
por que tomar o apóstolo Paulo e separá-lo do povo com uma
barreira, e enchê-lo de atavios e vestes paramentais e várias outras
coisas, para dar a impressão de que ele era um grande poder ou
um grande senhor, para que tivesse autoridade! Não! Ele pode
muito bem assentar-se entre as pessoas em geral e, todavia, todas
elas sabem que ali está um homem que o Espírito Santo encheu
de autoridade e de poder. Ele não necessita de nenhum auxílio
suplementar forâneo. O seu único poder é o poder e demons­
tração do Espírito. Assim, ele pode muito bem misturar-se com
as pessoas, ser uma delas, sem nenhum risco, sem nenhum
perigo. E a autoridade da inspiração - a autoridade pessoal do
Espírito Santo.
Se vocês lerem a longa história da Igreja Cristã, verão
que é sempre assim. A autoridade de George Whitefield residia
em estar ele cheio do Espírito Santo, e em todos os lugares onde
pregava as pessoas reconheciam nele a autoridade e o buscavam
aos milhares. Mas os bispos não gostaram disso e tentaram
proibí-lo. Ele estava quebrando as regras, eles diziam. Ele não
se conformava com a disciplina; ele não tinha essa autoridade.
A única resposta era que a autoridade era patente, pois homens
e mulheres se quebrantavam, convictos de seu pecado, e
clamavam por salvação, e milhares eram levados ao novo
nascimento. E assim tem sido através dos longos séculos.
Ah, meus amigos, não há nada mais importante do que
essa realidade. A tendência geral hoje é repetir o erro da década
de 1830. “Vejam a situação”, muitos dizem. “Multidões estão
fora da Igreja. Qual a causa? Bem, a Igreja está sem autoridade.
Está dividida em grupos, seitas e denominações.” A única coisa
que nos resta fazer, dizem eles, é unir-nos todos; tenhamos uma
igreja megatérica, e então teremos poder e autoridade. Isso é,
certamente, uma completa contradição daquilo que estamos
considerando aqui. Não é assim que a autoridade espiritual
consta nas Escrituras. Absolutamente não! Um homem cheio

295
O Evangelho de Deus

do Espírito Santo pode ser usado por Deus de um modo como


uma igreja bem organizada e poderosa, mas sem o Espírito,
não pode. Paulo conhece o poder do Espírito, mas também tem
ciência dessa estranha doutrina que ao mesmo tempo o habilita
a ser o apóstolo único e proeminente, e, não obstante, um
homem que pode sentar-se no mesmo tipo de assento ou banco
em que se assentam os cristãos mais humildes, com escravos e
servos, e que pode falar com eles e dizer-lhes: sabem, foi bom
estar com vocês. Sinto-me melhor graças a esta comunhão que
gozamos. Meu coração aqueceu-se, minha fé se fortaleceu. Oxalá
a Igreja Cristã voltasse ao padrão primitivo, apostólico, ao
padrão do Novo Testamento!
E isso me leva ao último ponto do tema de que estou
tratando. Evidentemente, nós temos aqui uma descrição
maravilhosa, uma descrição extraordinária da Igreja como uma
comunidade. E a Igreja sempre teve o propósito de ser uma
comunidade (expressão de comunhão). Aqui, de novo, há
certamente algo que somos propensos a perder de vista. Não é o
papel da Igreja ser um lugar no qual um homem faz tudo e
ninguém mais faz coisa alguma. Uma igreja local não é um
lugar no qual só um homem fala e os outros apenas se assentam
e escutam. Isso faz parte do ministério da igreja, mas, isso, só,
não constitui a igreja. Obviamente, é vital para o bem-estar, a
firmeza e a essência de uma igreja local que haja o intercâmbio
mútuo de que fala o apóstolo. “Pela fé mútua”, diz ele, “assim
vossa como minha” - “consolado pela fé mútua, assim vossa
como minha”. Eu darei; vocês darão. Haverá doação e
recebimento de ambos os lados. Noutras palavras, o apóstolo
aqui diz às pessoas que a fé que elas têm é muito importante, e
que ela tem um lugar muito definido na vida da Igreja. Pedro
diz exatamente a mesma coisa no versículo primeiro da sua
Segunda Epístola. Ele está escrevendo a pessoas que têm “fé
igualmente preciosa” (VA: “àqueles que obtiveram fé igualmente
preciosa conosco”). Ele é um apóstolo; ele tem fé. Sim; mas os
outros cristãos que ele conhece, “estrangeiros dispersos”,

296
Romanos 1:12

também têm fé. João escreve de igual maneira. Por que escrevo
esta Epístola? - pergunta ele. Por esta razão: “para que também
tenhais comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai, e
com seu Filho Jesus Cristo”. Sim, mas eles tinham que entrar
na mesma comunhão; eles tinham que tomar parte nesse grande
intercâmbio.
Toda a concepção que o Novo Testamento tem da Igreja é,
então, em termos dessa comunhão, em que a ênfase recai
evidentemente na fé que tanto os membros individuais da igreja
como o pregador têm. Como se evidencia essa fé? - pois é óbvio
que o faz. Como o apóstolo seria dessa forma encorajado e
confortado pelos cristãos romanos? Bem, sua fé deveria
demonstrar-se em sua maneira de viver, e foi o que se deu. Era
óbvio para as outras pessoas que acontecera algo com eles; já
não faziam as coisas que costumavam fazer; houve uma mudança
na vida deles. Isso era uma demonstração da sua fé. E, apesar
dos seus grandes labores e do seu grande sucesso em seus labores,
o apóstolo animava-se ao ver esse tipo de evidência. Ele nunca
tinha estado em Roma; ele esperava pelo dia em que veria
aqueles pequenos grupos reunindo-se nas casas uns dos outros.
Dessas pessoas a graça de Deus se apossara, e a elas fora dado o
dom da fé. Lá em Roma Paulo esperava gozar da sua companhia.
É o que se deve ver na vida das pessoas.
A fé pode ser vista também no conhecimento dos cristãos.
Que seria mais animador para um apóstolo do que ver homens
e mulheres que não tinham tido nenhuma vantagem
educacional, muitos deles sendo escravos que serviam na casa
de César, e, contudo, mostrando espantoso entendimento das
Escrituras, e das doutrinas das Escrituras? Eram iluminados
em matéria de fé, capazes de falar dessas coisas, de discuti-las,
de regozijar-se nelas. A fé se mostra no conhecimento e no
entendimento, e também na experiência. Haverá algo que dê
mais calor ao coração do que ouvir outros cristãos contando
suas experiências espirituais? Não conheço nada - sei que já
disse isso antes - que seja melhor tônico para mim, na vida

297
O Evangelho de Deus

cristã, do que ler as biografias dos santos. Recomendo-lhes isso.


Vocês jamais conseguirão ler mais do que devem dessa litera­
tura. Leiam a respeito de homens como David Brainerd,
Jonathan Edwards, Henry Martyn, M’Cheyne, ou qualquer dos
santos de Deus. Ah, vão atrás deles, meus amigos! Muitos
desses livros estão esgotados, mas vão à Biblioteca Evangélica;
lá os encontrarão. Não poupem esforços para adquiri-los.
Comprem-nos de segunda mão, e leiam-nos, e aprenderão muito
sobre os procedimentos de Deus para com as almas desses
homens, sobre as manifestações que eles tiveram de Cristo e do
Seu amor, e os corações de vocês se aquecerão; isso os estimulará
espiritualmente. Eles buscavam o Senhor, buscavam Sua face,
e a Ele aprouve revelar-Se, derramar Seu amor nos corações
deles por Seu Espírito Santo. A fé que eles tinham mostrava-se
dessa maneira.
E ainda ela se mostra, naturalmente, no crescimento, no
desenvolvimento e no aumento. Não há nada que mais anime o
ministro ou pastor do que ver seu povo crescendo a olhos vistos
na graça e no conhecimento do Senhor - sentir que os crentes
têm um entendimento que há um ano não tinham. Toda a sua
perspectiva desenvolveu-se e cresceu. Não passam o tempo
apenas repetindo frases feitas. Aprofundam-se nas doutrinas;
estão se apoderando de algo. Contemplar esse acontecimento é
um grande privilégio. E por isso que eu penso que a vocação
do ministro, do pastor, é a mais grandiosa do mundo. Não
conheço nada que seja comparável a ver o Espírito Santo
ocupando-Se das pessoas, sondando-as, examinando-as,
revelando-lhes a verdade, enquanto você observa o crescimento
e o desenvolvimento delas. Era esse tipo de coisa que o apóstolo
anelava ver.
E não somente isso! A fé se mostra na preocupação com os
outros; mostra-se, portanto, na oração. E vocês verão que Paulo
constantemente pedia a esses cristãos comuns que orassem por
ele. Parece muito estranho - não parece? - que este homem,
com as suas experiências incomuns, e com os seus extra-

298
Romanos 1:12

ordinários vislumbres do eterno, tenha escrito algo como o


seguinte: “E rogo-vos, irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo, e
pelo amor do Espírito, que combatais comigo nas vossas orações
por mim a Deus” (Romanos 15:30). Paulo sentia necessidade
das orações dos cristãos romanos. Isso, vocês vêem, é parte
integrante da vida da Igreja em geral. A Igreja é comunhão.
Apesar de ser ele um tão grande homem e um singular servo de
Deus, necessita das orações daqueles. E aos coríntios, em sua
Segunda Epístola, capítulo primeiro, ele agradece o fato de que
as orações deles foram em parte responsáveis por ter-se
recuperado de uma enfermidade. Ele escreve aos filipenses e
lhes diz: não sei o que vai ser de mim, mas pode ser que, como
fruto das suas orações, como também das minhas, Deus queira
que eu seja posto em liberdade e os visite. Ele pede
insistentemente as orações deles. E dessas várias maneiras ele
deseja ardentemente estar em Roma para poder ver a fé deles,
a “fé mútua, assim vossa como minha”.
Noutras palavras, meus amigos, para que eu possa retirar-
-me deixando-lhes uma doutrina, permitam-me expressar-me
da seguinte maneira: um dos maiores perigos, talvez, que nos
confrontam como cristãos que somos, é pensar em termos de
“movimentos”, e não de “igrejas” - a nossa tendência é ir atrás
de “movimentos”. Com muita freqüência, nos “movimentos”
não passamos de transeuntes, por assim dizer. Tudo é feito por
alguma outra pessoa. É como o que ocorre em geral na vida
contemporânea. Nem esporte as pessoas usufruem pessoalmente
hoje; apenas vêem outras pessoas exercitando-se e jogando. E a
mesma coisa na igreja local; somos “espectadores”. Simples­
mente nos sentamos e deixamos que outros façam tudo. Mas
não deve ser assim. O quadro que vemos na passagem em foco
é de pessoas trocando experiências, idéias, entendimentos,
reciprocamente dando e recebendo, ajudando-se uns aos outros,
e todos participando da obra juntos.
Além disso, penso que vocês verão que a história de todos
os avivamentos ocorridos na Igreja, desde o começo até agora,

299
O Evangelho de Deus

confirma e consubstancia tudo isso. Onde se tem um verdadeiro


movimento do Espírito de Deus, sempre se têm cristãos
reunindo-se dessa maneira em grupos com fins de comunhão,
como, por exemplo, as reuniões metodistas para instrução, e
sociedades similares anteriores. Isso é invariável; sempre se vê
isso. E é inevitável, porque os semelhantes se atraem, e os
semelhantes se querem muito, neste mundo de pecado e de
vergonha. Os cristãos sempre gostaram de estar juntos para
conversar sobre estas coisas, para ajudar-se e incentivar-se uns
aos outros. Seus corações se aquecem, seus sentimentos
inflamam-se, suas aspirações são estimuladas, e assim, como
uma grande comunidade, eu e vocês queremos a “fé mútua,
vossa e minha”. Juntos fruímos as coisas de Deus. Juntos oramos
a Deus; Sua bênção nos vem e a recebemos juntos, e assim a
igreja aviva-se, e uma igreja genuinamente avivada resolve o
problema da evangelização. Queira o Senhor dar-nos a graça de
ver tudo o que estava na mente do apóstolo quando ele disse
“Isto é” - não somente eu, mas vocês também; não somente a
minha fé, como também, em acréscimo, a de vocês.

300
19
“Eu sou devedor, tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios
como a ignorantes.” - Romanos 1:14

Estivemos examinando os vários aspectos da atitude do


apóstolo Paulo para com o seu serviço descrito nos versículos
7-15 deste primeiro capítulo, e agora chegamos à última coisa
que ele diz a respeito disso, isto é, o senso de constrangimento
de que ele tinha consciência em sua vida, em sua obra e em seu
ministério. E aqui isso nos é colocado com muita clareza.
Primariamente, é claro, o apóstolo fala sobre si próprio neste
ponto, mas penso que o seu ensino em toda parte nos concitará
a tirar a dedução de que aquilo que ele diz sobre si mesmo deve
ser verdadeiro acerca de todos nós. Em certas passagens das duas
Epístolas aos coríntios ele mostra isso muito claramente, e, de
fato, se compreendemos a verdade como ele a compreendia, só
pode levar ao mesmo resultado. Não quer dizer, naturalmente,
que não podemos ser apóstolos; já vimos que não. Não é que
todos nós somos chamados para pregar do mesmo modo como
Paulo o foi, ou do modo como alguns ainda são chamados para
dedicar toda a sua vida e todas as suas energias à pregação e ao
ensino do evangelho; mas noutro sentido todos nós somos
chamados para pregar, pois todos nós temos contato com homens
e mulheres e, como tentarei mostrar-lhes, se compreendemos
verdadeiramente o que é ser cristão, e por que somos cristãos,
então, o motivo do apóstolo, e o senso de constrangimento de
que ele tinha consciência, certamente devem ser sentidos por
nós em certa medida.
Paulo, vocês notam, coloca a questão de maneira
surpreendente. Diz ele: “Eu sou devedor, tanto a gregos como a

301
O Evangelho de Deus

bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes. E assim, quanto


está em mim, estou pronto para também vos anunciar o
evangelho, a vós que estais em Roma. Porque não me
envergonho do evangelho de Cristo...”. Vocês vêem o argumento
e a lógica? Vocês vêem como tudo vai de um degrau a outro?
Examinemos, pois, essa notável declaração e comecemos com a
palavra “devedor”, que ele emprega e que, obviamente, é a nossa
palavra chave aqui. Que significa? Em sua origem tem o sentido
usual de alguém que deve dinheiro a outrem. Está em débito
com o outro. Esse é o sentido original e primário da palavra.
No entanto, ela tem sido sempre empregada num sentido amplo,
e veio a significar “estar sob obrigação”. Assim, a palavra que
Paulo empregou, já em seus dias, e até antes, havia sido dado
esse sentido mais amplo. Ela tinha o sentido de “estar obrigado
pelo dever ou pela necessidade a fazer alguma coisa”.
Além disso, é uma palavra que descreve “uma
necessidade imposta pela lei e pelo dever, ou pela razão, ou pelos
tempos,
y
ou pela natureza daquilo que está sendo considerado”.
E mais ou menos isso que Paulo quer dizer com a palavra
“devedor”. “Sou devedor”, diz ele. “Estou sob uma necessidade.
Estou sob uma obrigação.” E o que devemos fazer é considerar
o caráter dessa necessidade, dessa obrigação que o apóstolo sentia.
Era tão forte que ele escolheu essa palavra deliberadamente.
Em certo sentido ele é como um homem que está sob a força da
lei. Ele está num tribunal de contas, está no banco dos réus, e
os procedimentos da lei o estão pressionando. A obrigação que
/

ele sente é forte assim. E isso que eu sou, diz ele. Esse é o meu
trabalho. Essa é a minha vida. Vou pelo mundo pregando este
evangelho, e o faço pela razão que expus.
Que será então, o que exatamente ele nos está dizendo
aqui? Pergunto isso porque, como eu disse, ele não está falando
só sobre si próprio; ele está falando sobre algo de que todos nós
devemos estar cientes, nalgum sentido e nalguma medida. E
eu dou ênfase à questão porque acredito - como todos nós
devemos acreditar - que este homem de Deus foi, de maneira

302
Romanos 1:14

muito especial, um “arauto” do evangelho. Aquilo que vemos


nele, do modo mais intenso possível, é aquilo de que todos nós
devemos estar cônscios em princípio. Não nos escusemos.
Então, o que é que Paulo está dizendo? Primeiramente,
é óbvio que está asseverando que é possuidor de algo que ele
pode dar. Vimos isso no versículo 11. “Desejo ver-vos, para vos
comunicar” - passar para vós, transmitir-vos - “algum dom
espiritual, a fim de que sejais confortados.” Portanto, ele é um
homem que está de posse de algo que pode passar para outros.
Essa é uma excelente definição do cristão. Primeiro, necessaria­
mente, isso implica conhecimento; significa que você sabe algo,
e que pode falar sobre isso a outros; você pode transmitir, você
pode comunicar o conhecimento, a informação. Penso que todos
nós vemos num relance quão verdadeiro é isso, e quão básico
para a posição geral do cristão. Pedro, vocês se lembram, no
capítulo três da sua Primeira Epístola, expressa o ponto desta
maneira: “...estai sempre preparados para responder com
mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança
que há em vós” (versículo 15). Noutras palavras, você não pode
ser cristão sem saber por que é cristão, e sem saber o que é
que faz de você um cristão. Reduzindo tudo ao mínimo e ao
mais simples, os cristãos são pessoas que crêem no Senhor
Jesus Cristo. Temos que aceitar isso, e precisamos saber algo do
que isso significa. Se não soubermos o que somos como
cristãos, como poderemos dizê-lo a alguma outra pessoa? Como
poderemos transmiti-lo a outrem?
Permitam que lhes dê uma ilustração, um teste muito
bom que podemos aplicar a nós mesmos. Imaginemos que
alguém que você conhece fique gravemente enfermo. Você pode
ter tido diferentes tipos de contato com ele, mas ele não é cristão;
leva uma vida tipicamente não cristã. Agora esse amigo está
muito doente; o doutor foi chamado, e fez um diagnóstico muito
grave. Ele chamou outro médico, para uma segunda opinião, e
esta também foi de que a doença é grave. De fato os dois
concordaram que, se não acontecer alguma coisa, e isso

303
O Evangelho de Deus

dramaticamente, quase como um milagre, é muito duvidoso


que esse homem esteja vivo amanhã. Eis aí um homem que de
repente recebe um golpe, percebe que está desesperadamente
enfermo, e tem o pressentimento de que vai morrer. Subita­
mente ele se desperta para toda a questão da sua alma e da
eternidade. Ele nada sabe acerca da sua salvação. Ele não é
cristão. Nunca foi a um lugar de culto. Não sabe o que fazer. As
pessoas à sua volta também não sabem. De repente ele pensa
em você, porque sabe que você é cristão, e, em sua agonia e em
seu desespero, manda buscá-lo. Naturalmente você não tem
escolha - deverá ir, e aí está o teste. Você, no quarto, fica olhando
para esse homem que vai sendo arrastado para a morte. Ele quer
algo. Quer ajuda. Não está preparado para morrer. Ele não tem
nada, em sua vida pregressa, em que se apoiar, e nada no presente.
Ele tem medo dessa eternidade para a qual vai indo. Eis aqui a
pergunta simples: você tem alguma coisa que possa transmitir
àquele homem? Agora é óbvio que não é suficiente você não
ser nada mais que uma pessoa bondosa, amável e de boa moral.
Você pode ser um paradigma de todas as virtudes, mas não pode
passar isso para ele. Isso não o ajudará em nada. E, portanto,
não terá nenhuma utilidade você dizer-lhe: “Ah, sim, natural­
mente, agora você está começando a fazer perguntas. Se você
tivesse vivido uma vida correta como eu, não estaria sentindo-
-se assim agora”. Isso o ajudará? É evidente que não. Você não
lhe está dando coisa alguma. Você está aumentando a ansiedade
e a aflição dele. Não, o cristão não é tão-somente um homem
bondoso e de boa moral, pois, por mais bondosos que sejamos
e por melhor que seja a nossa moralidade, não podemos dar
essas qualidades a ninguém.
Tampouco, obviamente, o cristão é meramente uma
pessoa que está buscando a salvação ou tentando descobri-la,
porque, se a sua situação for essa, também não terá o que dizer
ao enfermo. Mas há muitos que acreditam que o cristianismo é
isso; acham que é simplesmente uma grande “busca da
verdade”. Eles lêem livros, e dizem: “Ouvi dizer que um

304
Romanos 1:14

excelente livro vai ser lançado na próxima semana, e estou à


espera dele. Creio que vai ajudar-me”. Que valor tem isso para
o homem que estará morto antes da meia-noite de hoje? Pode o
cego guiar outro cego? Claro que não! O cristão, diz Paulo, é
alguém que tem algo e que pode dá-lo a outra pessoa. Ele tem
conhecimento. Tem entendimento. Ele pode falar àquela alma
de molde a dar-lhe alívio e paz. Devedor! Algo para passar aos
outros; algo para dar. Meus amigos, precisamos ter esse
conhecimento. E eu não posso ver que você precisa de treina­
mento especial para falar sobre isso. Se você é cristão - bem,
você terá que falar sobre isso. Você não pode ser cristão sem esse
conhecimento. Portanto, você está de posse dele, e pode passá-
-lo a outros. Isso implica, pressupõe esse conhecimento.
Em segundo lugar, a definição que Paulo faz do cristão
neste versículo também pressupõe experiência. Noutras
palavras, pressupõe que o seu conhecimento não é meramente
teórico, e sim que você conhece algo disso em sua vida pessoal.
Você mesmo está confiando nele, de modo que quando você
se visualiza na situação daquele moribundo, com a morte
encarando-o, você vê que saberia, e teria essa certeza; não se
sentiria infeliz por causa da sua situação. Evidentemente, essa
capacidade de comunicar e de transmitir bênção pressupõe, em
toda e qualquer situação, essas duas coisas. Óbvia e
definidamente, Paulo estava nessa condição. E nós estaríamos?
Você sabe em quem tem crido? Sabe no que acredita? Você
pode dar a razão da esperança que há em você? Você perdeu o
medo da morte e do sepulcro? Está pronto para encontrar-se
com Deus? Esse é o conhecimento. E do que já estivemos
falando, pelo que não me demorarei nesse ponto agora. É “o
evangelho de seu Filho” - a justificação pela fé - o fato de que
tal homem pode ficar em paz com Deus aqui e agora; não terá
que esperar e começar a viver uma vida melhor, mesmo porque
ele não estará vivo para isso! Estará morto dentro de poucas
horas.
O próximo fato que o apóstolo deseja ressaltar é que ele

305
O Evangelho de Deus

pode dar isso a todos. “Eu sou devedor”, diz ele, tanto a gregos
como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes.” Isso não é
mera repetição; não é tautologia. “Gregos e bárbaros”: é o
mundo inteiro. O mundo, a humanidade toda, era dividida pelos
gregos em gregos e bárbaros. As pessoas estavam nesta ou
naquela categoria. E vocês podem notar que aqui, com vistas à
classificação, os romanos eram considerados gregos, porque,
na época em que Paulo viveu, a filosofia grega e a cultura
grega tinham ido para Roma, como também para todas as partes
civilizadas do mundo. Há um sentido, pois, em que ele estava
certo em considerá-los pertencentes à cultura grega. Embora
Roma tenha de fato conquistado a Grécia, culturalmente foi a
Grécia que conquistou Roma. Do mesmo modo, os judeus estão
incluídos entre os bárbaros, e assim, Paulo está dizendo aqui
que ele pode transmitir esse precioso conhecimento, esse
conhecimento inapreciável, a homens e mulheres de todas as
nacionalidades.
Depois disso ele acrescenta outra classificação - “tanto a
sábios como a ignorantes”. Pode-se classificar a humanidade
não somente pelo critério de nacionalidade, pode-se classificá-
-la também de acordo com a capacidade e com o entendimento,
ou com a falta disso. Noutras palavras, ele está dizendo: “Estou
pronto e capacitado para transmitir este conhecimento, tanto
aos professores como aos alunos, realmente tanto aos grandes e
poderosos gigantes no intelecto como aos que nunca tiveram
nenhuma vantagem cultural”. Ah, este ponto é absolutamente
vital para nós! Juntos veremos, querendo Deus, conforme
avançarmos no estudo desta Epístola, que Paulo diz isso muitas
e muitas vezes, e veremos que esse é o tema desta Epístola, do
versículo dezoito deste capítulo ao fim do capítulo três, tema
que se resume com estas palavras: “Porque todos pecaram e
destituídos estão da glória de Deus” (3:23); “Não há um justo,
nem um sequer” (3:10); “para que toda a boca esteja fechada e
todo o mundo seja condenável diante de Deus” (3:19). E assim
que ele o resume no capítulo três, mas na passagem que estamos

306
Romanos 1:14

estudando ele o introduz, e era isso que o fazia ufanar-se do


evangelho. Dêem-me um ser humano, diz Paulo, seja de que
tipo for, confrontem-me com uma alma, e sou devedor a essa
alma.
Vocês vêem como isso é vital, e como devemos lembrar­
mos disso nos dias atuais? Todos necessitam do evangelho. Não
importa se você nasceu na Grã-Bretanha ou no Japão ou em
algum país da América do Sul; todos precisam do evangelho.
Isso de “nação cristã” não existe, e você não é cristão porque
nasceu num país chamado cristão. Não importa se as pessoas
são boas ou más, moralmente falando; todas elas precisam do
evangelho. Assim, vocês devem pregá-lo e falar dele às mais
respeitáveis, como também às mais desregradas e dissolutas. O
mesmo evangelho! E do evangelho os indivíduos cultos e os
filósofos têm exatamente a mesma necessidade que o mais
ignorante que se possa imaginar. Essa é uma verdade asseverada
em toda parte nas Escrituras, e se falharmos no dever de torná-
-lo conhecido, na mesma medida estaremos falhando como
cristãos. Todo o mundo necessita deste evangelho. Aí está o
denominador comum aplicável a toda a humanidade, e é o
único. Perante Deus todos os homens são miseráveis pecadores,
pecadores vis e desvalidos, e eu e vocês, como cristãos, devemos
esclarecê-los sobre isso. Somos devedores a todos os homens de
todas as espécies e classes, a pessoas de toda e qualquer
combinação e permuta de caráter, de psicologia e de tudo mais.
Isso de “complexo religioso” não existe. O evangelho não é só
para certo tipo de pessoas. Todos e cada um precisam dele porque
são responsáveis ante Deus, e mais cedo ou mais tarde estarão
diante de Deus, face a face.
A terceira coisa que Paulo diz é que ele tem algo para
dar. Todos precisam disso. Ah, sim, mas ele está asseverando
que também pode dá-lo a todos. Esse é um ponto ligeiramente
diferente, e, para mim, um ponto muito importante, de novo
especialmente nos dias em que vivemos. Vejam um homem
como o apóstolo Paulo, com o seu gigantesco intelecto, com a

307
O Evangelho de Deus

sua capacidade profunda, com a sua habilidade para o uso da


razão, da lógica e do entendimento. Quando pensarmos em tal
homem em termos da educação moderna, e dos métodos e idéias
desta, indubitavelmente deveríamos chegar a esta conclusão:
bem, naturalmente, é provável que ele daria um excelente
pregador para os filósofos e para pessoas desse jaez. Mas não se
envia um homem desses para pregar aos bárbaros; envia-se
para pregar aos sábios, não aos não sábios. Que possibilidade
teriam os bárbaros de entendê-lo? Suas mentes não são bastante
grandes para ouvir tal homem; eles não entenderiam a
terminologia dele. Não! Os seus grandes professores só podem
dirigir-se a pessoas de igual qualidade! Quando se trata de
pessoas comuns, de pessoas ignorantes e iletradas, então,
naturalmente, é melhor ter um tipo popular de pregador. Ele
as entenderá, e elas o entenderão. Não, afirma Paulo, isso não é
verdade, de maneira nenhuma! Eu sou devedor a gregos e a
bárbaros, a sábios e a ignorantes.
Além disso, ele não apenas o diz; ele o prova. Eis aí um
homem que podia levantar-se, sem nenhum temor e sem se
desculpar, na Colina de Marte, em Atenas. Lá ele é confrontado
por uma assembléia de estóicos e epicureus, e lhes pode falar
com autoridade. Ah, mas quando o mesmo apóstolo visita a
Galácia, cujos habitantes pertenciam a um tipo mais primitivo
de cultura e a quem faltava o conhecimento de filosofia e de
várias outras coisas, ele se dispõe igualmente a pregar o
evangelho; é igualmente eficiente como pregador, e o seu
ministério é igualmente utilizado. Paulo se saía tão bem nas
favelas das grandes cidades como nos centros de cultura - com
os sábios e com os ignorantes. Não importa onde o coloquem.
Contanto que esteja pregando a homens e mulheres, ele não
somente tem uma mensagem; pode transmiti-la. Notem como
ele o expressa: “...para os que estão debaixo da lei, como se
estivera debaixo da lei... Para os que estão sem lei, como se
estivera sem lei... Fiz-me como fraco para os fracos, para ganhar
os fracos. Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios

308
Romanos 1:14

chegar a salvar alguns” (1 Coríntios 9:22). Que maravilha!


Há ocasiões em que me ponho a perguntar se entende­
mos isso de maneira igualmente clara no presente. Temos a
tendência de separar as pessoas, mesmo nesta questão da
pregação do evangelho, não é? Justamente como o mundo tende
a fazer de maneira secular, e isso está completamente errado. Se
o pregador não pode pregar o seu evangelho a todos, duvido
que possa pregá-lo a alguém. Se o pregador precisa ter um certo
tipo de auditório, na mesma proporção ele é diferente do
apóstolo Paulo. Provavelmente é um filósofo. Provavelmente é
um fornecedor de cultura natural humana empregando
terminologia cristã. O pregador não necessita pressupor nada
em seus ouvintes, exceto que eles têm necessidade de Deus e de
Cristo. Estou levantando este ponto, e lhe dou ênfase, porque
vocês ouvirão muita coisa hoje em dia nessa linha. Dizem que
os estudantes e outros que estão se preparando para o ministério
devem passar parte do seu tempo trabalhando nas fábricas ou
em lugares semelhantes. Vocês percebem o argumento? Eis o
que se diz: “Como é que o pregador pode pregar a operários, se
não conhece as suas condições e as suas circunstâncias? Ele deve
passar três meses, talvez mais, trabalhando numa fábrica, e deve
procurar conseguir entendê-los, e entender a sua perspectiva e
a sua mentalidade, e então será capaz de pregar para eles”! Pois
bem, essa teoria não está somente sendo defendida seriamente;
está até sendo posta em prática. O argumento é que, se não
conhecemos bem a situação, as circunstâncias e o modo de ser
das pessoas, e o seu modo de pensar, não podemos pregar para
elas.
Tal argumento não é somente antibíblico; é, penso eu,
desde o momento em que o consideramos com seriedade,
completamente tolo. Se me dizem que não posso pregar com
eficiência a operários, certamente terei igual direito de dizer
que não posso pregar a bêbados, se não tiver passado três meses
freqüentando bares. Não posso pregar a um sitiante, se não me
tornar sitiante. Não posso pregar aos profissionais do teatro, se

309
O Evangelho de Deus

eu não atuar como ator durante três meses. Que sugestão mais
monstruosa! Mas é o que se diz hoje em dia, e às vezes até cristãos
evangélicos dizem isso, o que indica que não temos entendido
o fato de que o pregador não precisa saber coisa alguma sobre
os seus ouvintes dessa maneira, porque já sabe a única coisa
que precisa saber; sabe que, como ele próprio, eles são pecadores,
e que, sem a graça de Deus, estão perdidos e condenados. Oh,
não, a pregação não precisa de todas essas outras coisas.
Naturalmente, é preciso considerar se a forma e a apresentação
concretas não poderiam variar ligeiramente, mas isso é mais ou
menos insignificante, porque este homem, sem ter tido essas
variadas experiências, mas sob o poder, a influência e a direção
do Espírito Santo, é capaz de pregar a todos.
Permitam que me expresse a vocês doutra maneira. Bem
recentemente, estive presente a uma discussão muito
interessante, na qual foi levantada a questão - “Por que será
que nós, cristãos, e principalmente nós, evangélicos, parece que
só podemos atrair certo tipo de gente? Por que será”, continuou
o interrogante, “que em nossas igrejas é verdade que a imensa
maioria das pessoas presentes são mulheres, e que há grande
escassez de homens? E por que será que nos dias atuais a igreja
não está conseguindo sensibilizar as classes trabalhadoras (assim
chamadas) quase inteiramente? Por que será que, ao que parece,
só estamos atraindo pessoas que vivem nos subúrbios? (esse foi
o termo empregado)* Por que será que o cristão hoje parece ser
pouco mais que uma pessoa amável, bondosa e respeitável?”
Certo, ele concedeu, é claro, que os referidos cristãos tinham
experimentado conversão verdadeira. A questão levantada por
ele foi: por que não estamos sensibilizando os outros? Por que
os homens não estão sendo atraídos? Muito boa questão. Eis aí
algo que todos nós, na qualidade de cristãos, deveríamos

* Entendo que o autor chama a atenção para o termo “subúrbio” (inglês


“suburb”) porque se compõe dos termos latinos “sub” (sob, debaixo de,
inferior) e “urbs” (cidade). Nota do tradutor.

310
Romanos 1:14

enfrentar com muita seriedade e com muita urgência. E, para


mim, a resposta a essa questão é dada pelo versículo que estamos
estudando. A afirmação do apóstolo era que o apelo da sua
pregação abrangia a todos os homens e mulheres, de todas as
faixas e classes, de todos os tipos de habilidade, na verdade, a
toda espécie de alma. Ali estava um homem que podia pregar
com a mesma eficiência tanto aos escravos da casa de César como
aos estóicos e aos epicureus. Vocês vêem a categoria do ministério
de Paulo?
Qual será, então, a explicação? Ei-la - e a recomendo
pedindo que lhe dediquem atenta consideração, com oração: se
pregarmos o evangelho em sua plenitude, e se o aplicarmos ao
homem completo, à mente como também ao coração e à vontade
- se pregarmos “todo o conselho de Deus” a toda a personalidade
individual, confiantes no Espírito Santo, veremos que o
evangelho produz hoje os seus resultados em todos os tipos,
espécies e classes como produzia no princípio, sim, como sempre
fez em todos os períodos de avivamento e despertamento.
Certamente as palavras do apóstolo são uma condenação dos
nossos métodos! Há algo errado em nossa apresentação. Se a
nossa pregação e o nosso evangelho apelam somente para certo
tipo de gente, sugiro que estamos pregando de um modo que
só atrai esse tipo. Estamos deixando alguma coisa fora. Ou
estamos deixando fora algo que pertence à mensagem, ou então
não estamos dirigindo o nosso apelo ao homem integral.
Estaremos, quem sabe, apelando para um tipo sentimental? Será
que não há suficiente intelecto em nossa mensagem? Não
estamos conseguindo fazer o ouvinte pensar? Não há nada em
nossa mensagem que seja ofensivo ao homem natural? É
interessante que há homens que, especialmente, preferem uma
mensagem que os golpeie e os fira, e que a única coisa que não
agüentam é o sentimentalismo. Dêem-lhes algo forte, e até
severo, e, embora isso os machuque, sabem que é certo, e se
dispõem a ouvi-lo. Mas, se lhes derem logo a perceber que
vocês os estão acutilando e que estão tentando influenciá-los

311
O Evangelho de Deus

mediante certos métodos e certa abordagem psicológica, eles


nem sequer se colocarão sob a possibilidade de se deixarem
afetar.
Certamente isso é um problema para todos os que
pertencemos à Igreja Cristã. Por que é que as multidões de gente
permanecem impassíveis, fora da igreja? Será, pergunto eu, que
lhes demos a impressão de que o evangelho de Jesus Cristo é só
para um certo tipo de pessoas, uma certa classe? Será que de
algum modo lhes temos dado a impressão de que este nosso
evangelho é contra eles? Se temos, Deus tenha piedade de nós!
Tratemos, pois, digo e repito, de ter essa verdade clara em nossas
mentes. Tenhamos o cuidado de apresentar “todo o conselho de
Deus”, como Paulo fazia, sem temor, sem favor, sem levar em
conta as pessoas. Apresentemo-lo com todo o seu grandioso
conteúdo, com tudo o que há de intelectual nestas Epístolas,
pois o apóstolo, lembrem-se, estava escrevendo isso a pessoas
das quais muitas eram escravos e servos na casa de César. Não
como muitos modernos que dizem: “Não podemos ouvir mais
que vinte minutos, e a mensagem não deve ser muito intelectual;
não nos dêem muita doutrina!” E✓ isso que muitos evangélicos
estão dizendo hoje em dia. E de admirar que pese sobre nós a
culpa de incubação de um tipo, produzindo somente e sempre
o mesmo tipo? Retornemos às Escrituras e preguemos o
evangelho completo para a mente, o coração e a vontade dos
homens. Não uma coisa em detrimento das outras, mas sempre
a totalidade. O evangelho todo para o homem todo! E então o
Espírito Santo o aplicará, e veremos de novo o que costumava
acontecer em Londres há duzentos anos, quando um homem
como George Whitefield pregava. Ele podia pregar aos
mineiros, e eles foram convertidos - sim! A condessa de
Huntingdon costumava preparar a sua sala de visitas no extremo
oeste de Londres, e o lorde Chesterfield e os mais variados tipos
de membros da aristocracia costumavam reunir-se ali e ouvi­
do, e diversos deles foram convertidos. O mesmo pregador! Ele
pregava o mesmo evangelho para todos eles, e o Espírito Santo

312
Romanos 1:14

o honrava e o tornava eficaz.


Na qualidade de devedor, diz-nos o apóstolo que tem
uma coisa para dar, e que todos precisam dela. Ele pode dá-la a
todos, e eu e vocês devemos ser capazes de dá-la a um tipo
intelectual de pessoa, como também à pessoa não intelectual, e
vice-versa. Não há especialistas nesta matéria. Se eu não posso
pregar a todos, torno a dizê-lo, bem, então, digo por mim que
não posso pregar a ninguém. Permitam-me ilustrar essa
afirmação. Lembro-me de um desafio que me veio uma vez, e
penso que isso faz uma bela colocação do ponto que estou
expondo. Eu tinha pregado aqui certo domingo, e depois fui de
férias para o campo. Não era minha intenção pregar no primeiro
domingo após a minha viagem, mas onde eu estava hospedado
havia um velho ministro, e lhe cabia pregar três vezes. Era um
dia quente, e eu achei que não devia deixar que ele o fizesse, e
me ofereci para substituí-lo no culto da tarde. Significava que
eu tinha que subir a um lugar que ficava a meio caminho do
alto de uma montanha, e eu e a minha mulher fomos para lá.
Subi ao púlpito e contemplei os congregados. Eram cinco,
minha mulher inclusive! Devo admitir franca e sinceramente
que o diabo veio tentar-me, e deste jeito: “Bem, naturalmente,
com só cinco pessoas - faça uma breve meditação!” Fora o fato
de que eu não sou bom nesse tipo de coisa, caí em mim, e eis o
que eu disse a mim mesmo: se você não puder pregar a estas
cinco pessoas exatamente da mesma maneira como pregou
domingo passado na Capela de Westminster, quanto mais cedo
você descer do púlpito, melhor! Pela graça de Deus fui
capacitado a fazê-lo, e nunca mais, em toda a minha vida,
apreciei um culto mais do que aquele! O pregador que depende
dos seus ouvintes é inepto para o púlpito!
A última coisa que o apóstolo nos diz aqui é que ele não
só pode comunicar esta mensagem, mas também que ele sente
que deve comunicá-la. “Eu sou devedor...” Por que será que ele
sente essa obrigação? Há muitas respostas. Uma é a sua
“vocação”, a sua “comissão”. “Todos devemos comparecer ante

313
O Evangelho de Deus

o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que


tiver feito por meio do corpo, ou bem, ou mal. Assim que,
sabendo o temor que se deve ao Senhor, persuadimos os
homens...” (2 Coríntios 5:10,11). Essa é a primeira razão. O
Senhor o tinha comissionado no caminho de Damasco. E o tinha
enviado para pregar. Paulo teria que prestar contas do seu
ministério e da sua função de despenseiro (1 Coríntios 4:1).
Notem a expressão que ele emprega. “Sabendo o temor que se
deve ao Senhor... (VA: “Conhecendo... o terror do Senhor...),
persuadimos os homens...”. Notem igualmente como ele o
expressa em 1 Coríntios, capítulo 9. Não me louvem por isso,
diz Paulo. Não posso evitá-lo. “...me é imposta essa obrigação;
e ai de mim, se não anunciar o evangelho!” (versículo 16). Tenho
que fazê-lo. Sou um homem que está sob uma comissão. E uma
obrigação.
Então vem a seguir mais uma coisa aqui, e certamente é
a✓ seguinte: a pavorosa necessidade que os homens e as mulheres
têm. E daí que vem a urgência. Se eu e vocês tão-somente nos
déssemos plenamente conta do estado e das condições em que
se encontram milhares de homens e mulheres ao nosso redor,
penso que não conseguiríamos dormir. Vocês realmente crêem
e sabem que o incrédulo, a pessoa que morre na incredulidade
e em seu pecado, vai para o inferno? Bem, se de fato crermos
nisso, haverá um sentimento de obrigação em nossas vidas. Você
não se preocupará com o que as pessoas pensem de você. Você
não será tão escrupuloso quanto a essas questões; você dirá: sejam
as pessoas quais forem, e sejam o que forem, estão morrendo no
*

pecado; infelizes, é o que são - e o pior está para vir! E meu


dever. Tenho que falar. A necessidade dos outros, como Paulo o
sabia, e como o compreendia! Depois havia também a
consciência que ele tinha daquilo que este glorioso evangelho
fizera por ele. Como ele experimentava a alegria, a paz e a
felicidade que o evangelho lhe trouxera, desejava ardentemente
que todos os outros gozassem os mesmos benefícios. “Eu sou
devedor”, diz Paulo.

314
Romanos 1:14

E então, finalmente, havia isto - o evangelho propria­


mente dito! Sabem o que eu quero dizer com isso? Sempre que
você passa por alguma experiência, em qualquer esfera da vida,
qualquer coisa que lhe agrade e lhe dê grande satisfação, você
se sente impelido a falar disso aos outros, e fala. Se você lê um
livro que lhe propicie algo incomum, você diz: “Preciso contar
a Fulano. Devo dizê-lo a todo o mundo”. Tão maravilhoso que
é! Se você vê um cenário magnífico, logo pensa: “Devo falar
com os outros sobre esta beleza. Eles precisam vê-la”. Seja o
que for, sempre achamos que não devemos retê-lo só para nós;
sempre desejamos compartilhar as bênçãos que gozamos. O
nosso Senhor o disse de uma vez para sempre com a história da
mulher e a moeda perdida. Quando ela a achou, depois de
considerável esforço, foi contar às vizinhas, e lhes disse:
venham alegrar-se comigo, eu a encontrei! O pastor que perdera
uma ovelha fez a mesma coisa, e o mesmo fez o pai que perdera
o filho e depois o encontrou. E aqui temos, então, este
glorioso evangelho. Notem como Paulo se expressa a respeito
em 2 Coríntios, capítulo 5: “O amor de Cristo nos constrange”
(versículo 14). Ele é como um homem preso num torno, e este
sendo pressionado e apertado até a vida quase sair dele. Que é
que pressiona o apóstolo? O amor de Cristo! Esta maravilha!
Este evangelho da reconciliação! Este amor de Deus! Este amor
de Deus, que envia o Seu Filho único, e até O faz pecado por
nós! Paulo o viu, e quer que todos os demais o vejam e se
regozijem nele, e se gloriem nele, e participem dele. O maravi­
lhoso, o glorioso caráter do evangelho fez de Paulo um “devedor,
tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a
ignorantes”.

315
20
“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o
poder de Deus para salvação de toda aquele que crê; primeiro do
judeu, e também do grego. Porque nele se descobre a justiça de Deus
de fé em fé, como está escrito: mas o justo viverá da fé. ”
- Romanos 1:16,17

Começamos aqui uma nova divisão do capítulo porque, no


fim do versículo 15, num sentido, o apóstolo chegou ao fim das
suas referências a si próprio e à sua vocação. Nos seis e meio
primeiros versículos ele estivera fazendo uma exposição geral
sobre a sua vocação como apóstolo. Depois, dali até o fim do
versículo 15, estivera falando de si mesmo e da sua relação com
estes cristãos de Roma. Agora, tendo tratado disso, ele vai
adiante, e aqui passa a fazer uma proclamação do grande tema
da Epístola. E, pois, um importante ponto de transição, e é
interessante notar a maneira pela qual o apóstolo faz a transição.
Como disse alguém, ele “desliza” de um tema para outro. Ele
a

não floreia. E, em certo sentido, uma coisa muito natural. Ele


mal termina o seu tema antes de passar para o próximo com a
palavra “pois” ou semelhante. Noutras palavras, ele queria que
víssemos claramente que se trata de uma continuação do que
estava dizendo, e que, todavia, vai dizer algo novo.
Recordemos, então, o contexto. “Eu sou devedor”, diz ele,
“tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a
ignorantes. E assim, quanto está em mim, estou pronto para
também vos anunciar o evangelho, a vós que estais em Roma.
Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o
poder de Deus para salvação de todo aquele que crê: primeiro
do judeu, e também do grego.” Noutras palavras, ele está

316
Romanos 1:16,17

dizendo que, como estava pronto para pregar aos gregos e aos
bárbaros, e aos sábios e aos ignorantes, exatamente da mesma
maneira está pronto para pregá-lo em Roma. E ele prossegue e
diz por que está pronto para pregar em Roma. E, naturalmente,
ao fazê-lo, incidentalmente lhes diz, por meio deles nos diz, diz
a todos os cristãos de toda parte, qual é, afinal de contas, o
grande tema de que ele trata constantemente. Se ele pudesse
estar lá em pessoa, pregaria para eles sobre este tema, mas, desde
que não pode ir pessoalmente, vai escrever-lhes. Ele vai dar-
-lhes os títulos, o roteiro. Portanto, nestes dois versículos
maravilhosos - os versículos 16 e 17 - ele nos dá, por assim
dizer, exposto sumariamente, da maneira mais sucinta
imaginável, o que indubitavelmente constitui o grande tema
da pregação apostólica - o grande tema, em particular, desta
Epístola aos Romanos.
Há uma diferença entre os versículos 16 e 17, e desta
maneira: no versículo 16 o apóstolo declara o seu tema; no
versículo 17 ele faz uma exposição geral do tema. E vocês podem
notar outra vez a repetição do vocábulo “pois” ou seu
equivalente. “Não me envergonho do evangelho de Cristo, pois
é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê: primeiro
do judeu, e também do grego .Porque nele se descobre a justiça
de Deus de fé em fé.”E mesmo depois, no versículo 18, “Porque
do céu se manifesta a ira de Deus...”.
Agora, é interessanate observar aqui o estilo e o método de
Paulo; notem como ele é lógico, observem como ele vai
raciocinando passo a passo. Ele não é do tipo que lança
brilhantes pensamentos ao léu e a esmo. Não, o seu método
essencial é o do raciocínio. Já notamos, e tivemos ocasião de
salientar, que às vezes ele se empolga tanto e é tão impelido
pelo assunto de que está falando, que se esquece de manter em
ordem os seus pensamentos, mas a sua mente era essencialmente
lógica, mente capaz de pensar e de raciocinar com clareza. E o
tremendo poder da verdade que ocasionalmente o domina e o
leva a louvar ou a condescender em alguma vigorosa apóstrofe

317
O Evangelho de Deus

dirigida a Deus; mas normalmente, como digo, a ordem e a


lógica são suas grandes características. Ele “arrazoava” com base
nas Escrituras, é-nos dito no livro de Atos; ele arrazoava, expunha
e demonstrava (cf. Atos 17:1,2, ARA). Esse era o método
essencial do apóstolo. Assim, pois, aqui ele anuncia o tema no
versículo 16, faz uma exposição geral no versículo 17, e no
versículo 18 começa a elaborar o tema em detalhe.
E óbvio, então, penso eu, que estamos num ponto muito
importante e momentoso do nosso estudo desta grande Epístola.
Suponho que, em certo sentido, não há em todas as Escrituras
dois versículos de maior importância do que os dois que estamos
considerando.Vocês devem lembrar-se de que, num sentido,
estes versículos foram responsáveis pela Reforma Protestante -
do ponto de vista do protestantismo e da posição evangélica,
são versículos cruciais, vitais. Jamais devemos esquecer-nos
disso. Foi a percepção que lhe veio do que exatamente lhe estava
sendo dito por meio destes dois versículos que se comprovou
como o ponto decisivo da vida de Martinho Lutero. E
subseqüentemente tornou-se o ponto decisivo para muitos
outros, às vezes por intermédio de Lutero e suas obras, às vezes
independentemente de Lutero, mas algo semelhante sucedeu.
Aqui estão, pois, a base e o alicerce do protestantismo contraria­
mente ao catolicismo - ao catolicismo romano em particular,
mas na realidade a todas as formas de catolicismo, a todo tipo
de ensino que exalta os sacramentos, etc. - aqui está a base de
toda a oposição a essa espécie de ensino. E, naturalmente, é
também a base de toda a oposição a todas as tentativas da parte
dos homens de justificar-se por suas ações, por suas obras, por
seus esforços à vista de Deus. Portanto, estes dois versículos são
também de crucial importância na questão da evangelização,
porque, se não entendermos claramente o que eles ensinam,
num ponto ou noutro cometeremos erro em nossa evangeli­
zação, em nossa mensagem ou em nossos métodos.
Examinemos, então, a grande declaração feita aqui nestes
dois versículos. A primeira coisa que notamos quando

318
Romanos 1:16,17

examinamos o versículo 16 é a maneira extraordinária pela qual


o apóstolo introduz a sua declaração: “E assim, quanto está em
mim, estou pronto para também vos anunciar o evangelho, a
vós que estais em Roma. Porque não me envergonho do
evangelho de Cristo”. Ora, por que ele fez essa colocação? Bem,
comecemos pelo princípio. O tipo de expressão, a figura de
linguagem, que ele emprega aqui - “...não me envergonho do...”
- é conhecida como litotes, e litotes significa “uma afirmação
feita na forma da negação de uma afirmação contrária”, Em
vez de dizer que “se orgulha” do evangelho, o apóstolo diz que
“não se envergonha” dele. E dizer que não se envergonha do
evangelho é outro modo de dizer que realmente se gloria nele,
e que se jacta dele. Escrevendo aos gálatas, ele diz: “Longe
esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor
Jesus Cristo” (6:14). Ele se gloriava na cruz. Ele se gloriava na
pregação da cruz. Mas na passagem que estamos estudando ele
prefere dizer - “não me envergonho dela”.
Ele fez exatamente a mesma coisa, vocês devem estar
lembrados, noutra famosa ocasião, quando ele estava em
dificuldade devido a uma multidão turbulenta em Jerusalém.
O comandante da legião romana estacionada na cidade enviou
suas tropas para livrá-lo, e assim Paulo conversou com ele e se
declarou “cidadão de Tarso, cidade não pouco célebre”. Em
vez de dizer que era cidadão de uma cidade muito importante,
expressou-se daquela outra maneira. Pois bem, é desse modo
que ele fala aqui; ele está realmente dizendo aos crentes romanos
que de fato está pronto para pregar o evangelho em Roma; está
pronto para pregá-lo em todo e qualquer lugar, e sem precisar
justificar-se, e assim faz a sua asseveração dessa forma.
Por que, podemos perguntar, ele preferiu essa forma meio
negativa de expressar-se? Bem, em meu entendimento, ele o
faz deliberadamente. Penso que em parte ele o faz não somente
para registrar uma declaração sobre si mesmo, mas também
para ajudar as pessoas que eram membros da igreja em Roma.
Havia pessoas que, embora cristãs, de algum modo se

319
O Evangelho de Deus

envergonhavam do evangelho. Parece-me bastante claro que até


um homem como Timóteo tinha um pouco de culpa nisso. “Não
te envergonhes do testemunho de nosso Senhor”, lhe escreve
Paulo, “nem de mim, que sou prisioneiro seu” (2 Timóteo 1:8).
E a coisa mais grandiosa que mais tarde ele pôde dizer acerca
de Onesíforo - e é um tremendo elogio - foi que quando Paulo
estava em Roma, ele “me procurou solicitamente até me
encontrar”, e “muitas vezes me deu ânimo e nunca se enver­
gonhou das minhas algemas” (2 Timóteo 1:16, ARA). Muitos
se envergonhavam. Sabiam que Paulo estava lá, mas fingiam
que não sabiam. Não queriam associar-se com ele; tinham
vergonha do evangelho. E, sem dúvida alguma, mesmo em
Roma havia os que eram dados a isso.
Assim, parece-me que o apóstolo se expressa dessa maneira
peculiar com a finalidade de ajudá-los, e a fim de fortalecê-los e
também de libertá-los deste espírito de temor. Vejam a grande
palavra que ele empregou em 2 Timóteo 1:7: “Porque Deus
não nos deu o espírito de temor, mas de fortaleza, e de amor, e
de moderação” - isto é, de disciplina. Portanto Paulo está dizendo
a Timóteo que se levante, que desperte o dom que está nele e
que lhe fora dado pela imposição das mãos do presbitério. Avive
o fogo, diz o apóstolo. Não deixe o fogo baixo. Ative-o um pouco,
avive-o, atice-o, faça-o inflamar-se de novo. Eu entendo, pois,
que, na passagem que estamos estudando, ele estava fazendo
algo parecido com os cristãos romanos. Na verdade, pode ser
correto ir além disso, e não discordo dos que dizem que o
próprio Paulo tenha experimentado o que é ser tentado no
sentido de envergonhar-se do evangelho. Não estou dizendo
que alguma vez ele se envergonhou; estou dizendo que o diabo
pode tê-lo tentado nesse sentido, como tem tentado muitos
outros servos de Deus daquele tempo em diante.Por isso, pode
ser que o apóstolo esteja empregando essa forma particular de
expressão para mostrar como ele vencera essa tentação específica.
Mas por que alguém deveria envergonhar-se do evangelho?
Vocês sabem alguma coisa sobre isso, meus amigos? Parece-me

320
Romanos 1:16,17

uma questão muito importante. E eu estou bem disposto a


asseverar que se você nunca experimentou essa tentação
particular, provavelmente isso se deve ao fato, não de você ser
um cristão excepcionalmente bom, mas que nunca você teve
um claro entendimento da mensagem cristã. Vou consubstanciar
isso. Jamais causa boa impressão um cristão dizer: “Desde
quando eu cri, nunca fui tentado a duvidar, nunca fui tentado a
envergonhar-me”. Não é bom dizer isso. Se foi ou não verdade
no caso do apóstolo Paulo, certamente o foi no caso de Timóteo.
E se lermos as biografias dos santos, veremos que através dos
séculos eles sofreram duras investidas nessa linha.
Como surge? Bem, examinemos algumas das razões. O que
tende a levar o cristão a envergonhar-se do evangelho é o fato
de que o mundo sempre o ridiculariza e o considera uma loucura
completa. Isso aconteceu verdadeiramente nos primeiros tempos
da Igreja. Escrevendo aos coríntios, Paulo diz claramente que
este evangelho era “escândalo para os judeus, e loucura para os
gregos”. Eles abominavam-no completamente. Os fariseus o
odiavam no Senhor Jesus Cristo, e os judeus em geral o odiavam
nos apóstolos. Os gregos também o odiavam da mesma maneira.
O mundo sempre ridiculariza o evangelho, e, por natureza, o
homem não gosta de ser ridicularizado. Não gosta que o
associem com nada que esteja sujeito ao ridículo.
A
E então, por que será que o mundo ridiculariza o evangelho?
E por causa da mensagem veiculada pelo evangelho. O evangelho
proclama - o pregador do evangelho deve proclamar - Alguém
que nasceu na mais abjeta pobreza. Nasceu num estábulo; não
havia quarto na hospedaria! Criado numa pequena aldeia,
treinado como carpinteiro! É Esse que pregamos. E Esse que
expomos ao mundo. Aquele que foi crucificado em aparente
fraqueza! Tendo feito exaltadas reivindicações quanto a Si
próprio, é tomado pelo maior desamparo. Cravado num
madeiro, morre enquanto a turba zomba dele e O ridiculariza,
dizendo: “Aos outros salvou, salve-se a si mesmo, se este é o
Cristo, o escolhido de Deus” (Lucas 23:35). E isso que nós

321
O Evangelho de Deus

proclamamos. Proclamamos um carpinteiro, Alguém que viveu


na pobreza, e que morreu numa cruz. E, naturalmente, o mundo
escarnece disso e o ridiculariza em seu coração, porque nós
asseveramos que essa mesmíssima Pessoa é o Salvador do
mundo, e o Filho de Deus. Para os judeus essa proclamação era
um escândalo, uma pedra de tropeço, e para os gregos, loucura.
Assim é que o próprio caráter da mensagem tende a causar esse
ridículo, e, como digo, o homem, por natureza, não gosta de ser
ridicularizado, pelo que se envegonha deste evangelho. Essa é a
tentação.
Para dizê-lo doutra maneira, o evangelho não é uma
filosofia; é a exposição de um certo número de fatos. Pois bem,
o mundo nunca ridiculariza a filosofia; gosta dela. Revela cultura
e é maravilhosa. Você apresenta conceitos rivais e os discute de
maneira condescendente. O mundo gosta disso. Mas o evangelho
não é filosofia. Não há nele nenhum grande argumento
filosófico. Quatro Evangelhos com uma narrativa sobre esta
Pessoa; depois o relato da Sua morte; depois as extraordinárias
declarações feitas por gente simples e iletrada sobre a referida
Pessoa, e as afirmações feitas - e como são feitas - no livro de
Atos. Não é filosofia. Não segue os métodos da filosofia. Não é
um sistema de filosofia. E, de novo, aí está uma coisa que tende
a levar o mundo a ridicularizá-lo. E o apóstolo sabia disso muito
bem. Lembram-se do que aconteceu, por exemplo - e é uma
perfeita ilustração disso tudo - quando Paulo visitou Atenas
pela primeira vez e começou a falar ali? Os estóicos e os
epicureus perguntavam: quem é esse homem? “Que quer dizer
esse paroleiro? ... Parece que é pregador de deuses estranhos”.
E quando Paulo se pôs a pregar para eles, logo começaram a
ridicularizá-lo, especialmente quando falou sobre o Senhor Jesus
Cristo e Sua morte e Sua ressurreição. E acabou-se a reunião.
Isso não é nenhuma filosofia, diziam eles; este homem
/ está
falando sobre alguma pessoa. Isso é loucura. E absurdo. Noutras
palavras, Paulo não era proponente de nenhuma nova teoria
filosófica.

322
Romanos 1:16,17

São essas as coisas que vez por outra fazem com que cristãos
verdadeiros sintam certa vergonha, especialmente quando falam
dessas coisas na presença de pessoas ditas instruídas, cultas e de
mentalidade filosófica. E depois disso tudo, acresce, natural­
mente, que o apóstolo estava escrevendo para cristãos de Roma
- a senhora do mundo, a capital imperial, a sede do governo,
para onde sempre iam os poderosos. Pensem nisso. Em meio à
pompa e ao cerimonial daqueles imperadores romanos e da
corte romana, vinha um homem dizendo que o Salvador do
mundo era um carpinteiro de Nazaré, e Paulo imagina o ridículo
e os risos da corte e das pessoas de grande vulto. A piada mais
nova - chegou um homem que diz literalmente que um
carpinteiro de Nazaré, da terra dos judeus, é o Filho de Deus e
o Salvador do mundo, e que Ele salva o mundo morrendo numa
cruz, sem inspirar esperança alguma! E brincadeira! Que
divertido! Essa é a reação dos círculos cultos.
Ora, o apóstolo Paulo era homem dotado de vigoroso
intelecto. Era um homem capaz, e não era coisa nem fácil nem
simples para um homem como esse, dotado como era, suportar
esse ridículo, esse sarcasmo, essa zombaria, esse escárnio. Vocês
poderão ver a sua principal exposição destas questões nos três
primeiros capítulos da Primeira Epístola aos Coríntios, e não
há a menor dúvida de que ele sentia agudamente o problema.
Ali estava ele, com todo o seu preparo, com os seus antecedentes
e com a sua capacidade, simplesmente pregando - e de um
modo como qualquer pessoa poderia pregar, no que se refere ao
assunto - e quando ele falava sabia o que os seus ouvintes
estavam dizendo, e os via olharem uns para os outros enquanto
lhes falava. Por isso ele afirma deliberadamente que se fez louco
por amor de Cristo, e diz mais: “...se alguém dentre vós se tem
por sábio neste mundo, faça-se louco para ser sábio”. Noutras
palavras, ele diz: vocês se interessam pela sabedoria e nos
consideram loucos, mas eu lhes digo: se vocês realmente querem
ser sábios, seria melhor que se tornassem loucos juntamente
conosco, e então vocês teriam a sabedoria de Deus.

323
O Evangelho de Deus

Mas o jogo de palavras em que entra o vocábulo “louco”


mostra claramente que é óbvio que o apóstolo tinha que pelejar
contra essa questão específica. O fato é que o mundo atribui
grande significação à mente, ao intelecto, à instrução e ao
entendimento. E não somente a isso, mas também ao esforço
moral e à luta moral. Gloria-se nestas coisas. Mas o evangelho
não. Não significa que o evangelho lhes diga que cometam
suicídio intelectual, ou que um homem capaz não pode ser
cristão. Mas significa que o evangelho diz logo no início aos
homens que não importa quão capaz um homem seja, só isso
jamais fará dele um cristão. Ele coloca o homem capaz
exatamente no mesmo nível daqueles a quem falta intelecto.
Ele reduz todos a um nível comum, como já vimos.
Deliberadamente afirma que o orgulho intelectual é o último
reduto que há de cair quando o Espírito Santo estiver agindo
numa alma. O evangelho não se gloria no intelecto. Não se gloria
no esforço e na luta moral. Ele lhe diz logo no princípio que
você pode fazer tudo que quiser, e de nada lhe valerá; que a sua
justiça será como “trapo da imundícia”, que todas as suas obras
maravilhosas serão “esterco” e “refugo” - sem nenhuma
utilidade para você! Ora, o mundo odeia essa verdade, e o
apóstolo sabia disso. Ele teve que suportar muito sarcasmo e
muita zombaria do mundo, e com isso vinha a tentação para
envergonhar-se do evangelho, sabedor que Paulo era da
mentalidade dos gregos e dos judeus, e de outros que ouviam
este evangelho. Vocês vêem quão facilmente a tentação podia
entrar, e ela veio desse modo a Timóteo. E então, quando se
acrescenta que eles tinham que sofrer por este evangelho, não
somente sofrer o ridículo, mas sofrer fisicamente, etc., vocês
podem ver muito bem como essa tentação costumava surgir.
Noutras palavras, o evangelho de Jesus Cristo inverte as
idéias do mundo em todos os aspectos e sempre, sem exceção.
Ele não se alinha com nenhum outro ensino. Não se alinha com
nenhuma filosofia. Ele está absolutamente sobre as sua próprias
pernas, e é inteiramente diferente. O mundo não fica nem

324
Romanos 1:16,17

intrigado nem interessado; ele se deleita com grandes exercícios


intelectuais. E aqui nos levantamos e dizemos que a pessoa
menos instruída e mais iletrada do mundo esta noite, pode
ouvir o mesmo evangelho, como o maior filósofo, e pela graça
receber a salvação. O mundo senta-se e cai na gargalhada. Ah,
sim! Mas, uma vez que o homem ainda não é perfeito, não
gosta que riam dele, especialmente quando ele pode falar de
filosofia a quem está rindo dele. Ele sabe que poderia enfrentá-
-lo em seu próprio terreno, se quisesse, porém sabe que não
deve proceder assim, pois com isso estaria negando o evangelho.
Ele tem que deixar tudo isso para trás e, na verdade, pô-lo fora.
Ele tem que ser louco por amor de Cristo. Vocês vêem onde
entra a tentação?
Estas considerações, ao que me parece, constituem uma
prova muito importante quanto ao que o verdadeiro evangelho
é. Realmente vocês podem testar o que está sendo pregado
submetendo-o a um critério em especial, que é o seguinte: o
evangelho de Jesus Cristo sempre ofende o homem natural. O
evangelho de Jesus Cristo está sempre exposto a essa enxurrada
de ridículo e de descaso. E, por causa disso, uma das melhores
maneiras de provar a pregação ou a exposição do evangelho é
justamente esta: ela ofende o homem natural? Aborrece-o? O
homem natural a odiará? Afirmo que, se ela não faz isso, há
algo de errado nela, nalgum ponto. O evangelho de Jesus Cristo
não goza popularidade perante o homem natural. Ele é contra
o evangelho. De forma que, se vocês virem o homem natural,
não regenerado, elogiar o pregador ou a sua mensagem, então,
digo eu, é melhor que examinem cuidadosamente essa pregação
e esse pregador.
Vimos, pois, que há muitos modos de apresentar o
evangelho não ofensivamente. Acaso não temos lido ou ouvido
sermões daqueles que retratam Cristo como um grande herói e
um grande exemplo? Isso nunca ofendeu ninguém; de fato, o
mundo gosta disso, e pelo seguinte motivo: você apresenta
Cristo como um modelo exemplar, como um grande herói, e as

325
O Evangelho de Deus

pessoas dizem: “Ótimo! Maravilha!” O que realmente estão


dizendo é: “Agora vou segui-10; vou ser assim. Eu posso, claro!
Simplesmente tenho que me esforçar. Se me esforçar,
conseguirei”. Por isso gostam; recebem-no como um elogio.
Lá está Ele; suba e siga-O. E as pessoas se dispõem a fazê-lo
porque se julgam capazes. Quando você lhes diz que Cristo é
Alguém que eles não podem imitar, que Ele condena todos os
homens, elas arreganham os dentes e passam a odiar você por
isso; mas apresente-o como herói, como um exemplo, e isso
não os aborrecerá.
Ou ainda, vejam o ensino de Cristo. O ensino do Senhor
Jesus Cristo é apresentado por algumas pessoas como o mais
belo do mundo. O Sermão do Monte, dizem elas, é maravilhoso;
é belo e excelso. É assim que elas o apresentam. O mundo gosta
disso, e pelo mesmo motivo; acredita que o pode assimilar e
pô-lo em prática. Contudo, quando o Sermão do Monte é
pregado de verdade, quando o homem começa a saber o que é
ser “pobre de espírito”, “chorar” e ter “fome e sede de justiça”,
quando encara a verdadeira exposição espiritual da lei, passa a
odiá-la, porque ela o condena; ele não quer sentir-se “pobre de
espírito”. Como diz um homem cujo sermão eu li certa vez:
“Esses hinos de Charles Wesley que fazem você dizer: “Sou vil
e cheio de pecado”, deviam ser expurgados do hinário. Quem
já viu algum candidato a emprego dizer ao empregador: “Sou
vil e cheio de pecado”? Se o fizesse, nunca conseguiria emprego,
e, imagine, é o que nos dizem que façamos”.
✓ Ele odiava essa
mensagem porque ela o condenava. E certo, mas se pregarmos
o evangelho como um belo ensino, este nunca incomodará
ninguém; nunca ferirá ninguém.
Ou, de igual maneira, quantas vezes o Senhor Jesus Cristo
é apresentado como alguém que pode ajudar-nos em nossos
problemas? Vocês conhecem esse tipo de pregação. “Você está
com problema? É algum pecado específico que o está pondo
abaixo? E algo que o está aborrecendo? Venha a Cristo; Ele
acertará tudo. Venha logo. Ele o está esperando, e eliminará todos

326
Romanos 1:16,17

os seus problemas, e amanhã você andará a passos leves - você


nem se reconhecerá. Todos os seus problemas terão desaparecido.
Venha a Cristo!” Isso nunca ofende ninguém; como poderia?
Esse tipo de “evangelho” não pode ofender as pessoas, porque
elas têm problemas e querem ajuda, e aí está alguém que está
pronto para auxiliá-las a qualquer momento. O que elas têm
que fazer é só vir a Ele, e Ele fará tudo por elas. Ah, quantas
vezes o Cristo, o Filho de Deus, tem sido pregado como se Ele
fosse um superpsicólogo, capaz de ajudar as pessoas a resolver
as suas dificuldades e a solucionar os seus problemas, a acertar
tudo e a torná-las felizes de uma vez para sempre! Isso não ofende
ninguém. Ou se Ele e Seu ensino são apresentados como uma
espécie de força de elevação nobre, ética, moral, dando uma
filosofia de vida maravilhosa - o pálido galileu, o poeta estético,
o fino personagem, refinado demais para o mundo, incapaz de
segui-lO, e, como obrigaram Sócrates a beber sicuta, igualmente
crucificaram Cristo, etc. - isso nunca incomoda ninguém.
Apenas coloca Cristo entre os filósofos. Ele é um desses, e você
os admira a todos eles juntos, e de igual maneira.
Ah, deixem-me terminar esta lista colocando a questão
assim: vocês sabem que é até possível pregar a cruz de Cristo de
um modo que leva as pessoas a aplaudi-la? Elas dizem: que
beleza! Que maravilha! É possível pregar de maneira tal que
não ofende ninguém. E contudo, diz o apóstolo, se eu fizer certas
coisas, cessará a ofensa da cruz. Quando a cruz é pregada
verdadeiramente, é uma pedra de tropeço para os judeus; é
loucura para os gregos. Eles a odeiam. Ela é uma ofensa. Ofensa
ao homem natural. Mas às vezes a cruz é pregada como algo
lamentável, e Cristo como quem merece dó. Não é assim? “Que
vergonha! Muito ruim! O mundo não O conheceu. Não O
reconheceu. Em sua crueldade O levou à morte. Mas Ele até os
perdoou ali, e sorriu para eles. Maravilhoso Jesus!” A pregação
da cruz não é isso. Nisso não há ofensa alguma. Isso nunca
incomodou ninguém, porque com isso você O está retratando
como alguém que foi bom demais para este mundo, e que o

327
0 Evangelho de Deus

mundo crucificou. Não é essa a ofensa da cruz.


Eis a ofensa da cruz - que estou condenado em tal medida,
e tão perdido e desesperado que, se Ele, Jesus Cristo, não tivesse
morrido por mim, eu jamais conheceria a Deus, e jamais
poderia ser perdoado. E isso fere; isso incomoda; isso me diz
que estou em desespero de causa, que sou vil, que sou inútil; e,
como homem natural, eu não gosto disso. Assim vocês vêem a
importância disso tudo. O evangelho é, ele próprio, algo que
produz a reação de ofensa nas pessoas. Elas o odeiam. Elas o
ridicularizam. Despejam seu escárnio e seu desprezo sobre ele.
E o apóstolo sabia disso. Ele tinha experimentado em vários
lugares o que é ser ridicularizado. “Que está dizendo esse
tagarela? Quem é esse sujeito?” E ele sabia muito bem que
quando fosse a Roma estaria sujeito à mesma coisa. Ele sabia
que o evangelho verdadeiro produz esse ridículo e essa oposição.
E, todavia, como vocês podem notar, ele lhes diz que, apesar de
todas estas dificuldades, está pronto para pregá-lo. Ah, meus
amigos, procuremos entender isso bem; certifiquemo-nos disso.
A minha afirmação é que o evangelho do Novo Testamento,
quando fielmente pregado, provoca antagonismo. O mundo não
o louva; faz exatamente o contrário.
Leiam as biografias dos homens que Deus usou mais
assinaladamente na história da Igreja, desde o princípio até hoje,
e verão que todos eles tiveram que suportar esse ridículo. Pensem
no grande George Whitefield, e em John e Charles Wesley,
quando estavam pregando aqui em Londres há duzentos anos
- o ridículo a que estiveram sujeitos, os epítetos que lhes
atiravam, o desprezo, o escárnio e o sarcasmo! O poderoso
Whitefield - grande homem, mesmo no sentido natural,
concebivelmente um dos maiores oradores que o mundo
conheceu - todavia, na “sociedade polida” de Londres, porque,
infelizmente, ele tinha fraqueza num dos músculos dos olhos e
sofria de estrabismo, era conhecido no círculo dos grandes como
o “Dr. Estrábicum”. Eles o ridicularizavam, e ridicularizavam
o evangelho que ele pregava.

328
Romanos 1:16,17

A mesma coisa com relação a John e Charles Wesley; até


mesmo os seus parentes eram culpados disso. Praticamente
diziam: “Olhem aqui, por que vocês se fazem loucos? Por que
não podem pregar como os outros? Vocês só conseguem uma
turba de gente ordinária, comum, ignorante, que os segue aonde
quer que vocês vão. Vocês a terão em Kennington, vocês a terão
em Moorfields; vocês a terão em Tottenham Court Road. Vocês
terão essa gente no país todo. Mas a pregação de vocês só atrai
esse tipo de gente”. Até a mãe deles falava desse jeito. Essa era
a acusação lançada contra eles, e naturalmente machucava um
homem como John Wesley - um acadêmico da escola de
Oxford, um erudito, homem capaz - todavia, à semelhança do
apóstolo, ele se levantava e dizia: “Não me envergonho. Vou
envilecer-me ainda mais”. E assim que a tentação vem. Esta,
digo e repito, é uma questão muito importante, e um grande
teste da pregação do evangelho. Se esta não nos expõe a essa
carga de menosprezo, se não há nela nada que tenda a fazer com
que nos sintamos envergonhados, às vezes, daquilo que estamos
pregando, significa que não estamos pregando o verdadeiro
evangelho. Todavia, grande é o fato de que o apóstolo, a despeito
disso tudo, diz na passagem que estamos estudando: não estou
envergonhado do evangelho; ainda que eu seja objeto de riso
em Roma, eu vou. “Não me envergonho do evangelho de
Cristo.”
Depois Paulo prossegue e nos diz que não se envergonha
dele - nesta altura vou apenas introduzir esta matéria. Temos
aqui outro teste vital. Permitam-me colocá-lo na forma de
perguntas. Se você me diz que não se envergonha do evangelho,
tenho direito de lhe perguntar: por que não se envergonha?
Que razão você me dará? O ponto que desejo defender agora
é que a única resposta verdadeira a essa pergunta é a que o
apóstolo dá. No entanto, quantas vezes as pessoas dão outras
respostas, que também revelam a incapacidade de entender o
verdadeiro caráter do evangelho! Nada é mais revelador do
que os motivos que em geral as pessoas dão para não se

329
O Evangelho de Deus

envergonharem do evangelho.
Deixem que lhes dê uma ilustração. Uma vez ouvi um
homem dar o seu testemunho, e aqui vai a sua colocação. Ele
disse: “Tomei a minha decisão por Cristo há vinte anos, e nunca
me arrependi!” Pois bem, ele não estava envergonhado do
evangelho; ele o disse. Mas vocês notam o motivo? “Tomei a
minha decisão por Cristo há vinte anos, e nunca me arrependi.”
Essa era a única razão, a única explicação que ele sempre dava.
O que, naturalmente, ele queria dizer com isso é que o evangelho
de Cristo o tinha feito feliz e o tinha libertado em certos aspectos.
Entretanto tudo em seu motivo, vocês vêem, era puramente
subjetivo. Não é o que o apóstolo nos dá. Pergunto-me se
entendemos claramente essa questão. A nossa razão para não
nos envergonharmos do evangelho deve ser sempre peculiar ao
evangelho. Deve ser sempre singular, o que significa, necessaria­
mente, que não deve simplesmente terminar em nós e no que
aconteceu conosco. “Não me envergonho do evangelho de
Cristo.” Por quê? Porque “é o poder de Deus para salvação...
Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé...”.
Singular, não é?
Se você der a resposta de maneira pessoal, subjetiva, percebe
logo a que se exporá? Se você se levantar e disser: “Creio em
Cristo, já faz algum tempo; não me envergonho disso, nunca
me arrependi - e vou lhe dizer o porquê - tenho sido muito
mais feliz desde quando cri; durmo melhor, não brigo como
brigava, as pessoas dizem que me acham mais alegre e mais
feliz; não faço certas coisas que costumava fazer; essa é a razão
pela qual não me envergonho do evangelho; ele fez tudo isso
por mim” - que reação você receberá?
Muito bem, pois; ouvindo isso como se eu fosse incrédulo,
digo: muito interessante! Amanhã à noite eu vou à Primeira
Igreja da Ciência Cristã, porque ouvi dizer que ali as pessoas
também podem dar testemunhos maravilhosos, e assim eu vou
ouvir a mesma coisa na Ciência Cristã. “O melhor dia da minha
vida foi quando, estando eu em dificuldade, um amigo me levou

330
Romanos 1:16,17

a uma reunião da Ciência Cristã. Eu estava preocupado e


inquieto; tudo me ia por água abaixo; a minha saúde ia mal.
Eu tinha procurado os médicos; não havia nada que desse jeito
à minha situação; mas desde que eu cri nisso e comecei a praticá-
-lo, estou absolutamente diferente. Meus amigos me dizem que
mal me reconhecem. Ando pisando em nuvens; sou feliz; coisa
nenhuma me perturba; mesmo quando fico doente, não é nada.”
A mesma coisa! E assim, percorro todas as seitas e vejo que elas
dizem a mesma coisa. Vou até ouvir a preleção feita por um
psicólogo, e ele diz a mesma coisa, e diz que pode apresentar os
casos dos seus clientes, e eles darão o mesmo testemunho.
Vocês vêem, meus amigos, como é importante que possamos
dar o motivo certo. Não basta que eu me levante e diga: “Não
me envergonho do evangelho de Cristo”. A questão é: qual é o
seu motivo? E, querendo Deus, vamos considerar a grande
resposta dada por este vigoroso homem de Deus. “Não me
envergonho do evangelho de Cristo”, diz ele, porque é o
evangelho de Deus, e porque é o poder de Deus - é a dinâmica
de Deus; porque é a salvação em seu pleno conteúdo, porque é
o verdadeiro e único caminho da salvação, caminho certo,
caminho revelado. E justiça proveniente do próprio Deus. E
vocês podem ver que aí o apóstolo introduziu grandes palavras
da teologia, as grandes palavras da doutrina cristã. Esse é o
motivo de Paulo para não se envergonhar. E eu não hesito em
asseverar que esse é o único motivo verdadeiro; é o único motivo
que realmente glorifica a Deus e ao Senhor Jesus Cristo, porque
todos os outros motivos podem ser imitados pelas outras coisas.
A razão para não nos envergonharmos do evangelho deve ser
única, diferente, distinta. Deus glorificado! Cristo glorificado!
Gloriar-nos no Espírito! É algo que ninguém pode dizer, salvo
aquele que foi chamado pela graça de Deus, nasceu de novo, e
recebeu nova natureza, e o entendimento de como Deus
realizou toda essa obra! Se Deus quiser, teceremos considera­
ções sobre os motivos que o apóstolo nos dá positivamente
para não se envergonhar. Penso que vocês concordam comigo

331
0 Evangelho de Deus

quando digo que devíamos agradecer a Deus o fato de que


Paulo fez uso de litotes! Quão gratos lhe devemos ser por colocar
a sua expressão em forma meio negativa - “Não me
envergonho...”, e queira Deus capacitar-nos, a todos nós, a falar
da mesma maneira.

332
21
Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o
poder de Deus para salvação de todo aquele que crê: primeiro do
judeu, e também do grego. Porque nele se descobre a justiça de Deus
de fé em fé, como está escrito: mas o justo viverá da fé.”
- Romanos 1:16,17

Estes dois versículos -16 e 17 - são absolutamente cruciais


para que se tenha algum entendimento da Epístola aos Romanos,
porque aí temos realmente uma visão da Epístola inteira. Aí
está o texto que vai ser exposto e explicado. Essencialmente
acha-se tudo no versículo 16; no versículo 17 o apóstolo começa
a desdobrá-lo; e depois ele realmente o toma em suas partes
componentes a partir do versículo 18. Assim é que as palavras
que Paulo emprega nestes dois versículos são de absoluta e
essencial importância para nós, e é por isso que vamos considerá-
-las agora, uma por uma, pois as grandes palavras do evangelho
e desta Epístola acham-se todas nestes versículos. E, portanto,
se não as captarmos agora, logo no início, estaremos em
constante dificuldade ao prosseguirmos. Mas, por outro lado,
se as captarmos aqui, pouparemos muito tempo mais tarde, e
poderemos mover-nos mais rapidamente quando seguirmos o
argumento do apóstolo, exposto e desdobrado.
Quais serão, então, os motivos de Paulo para não se
envegonhar do evangelho, mesmo em Roma, a capital, o centro
do mundo? Localidade pela qual todos se sentiam atraídos,
grande no sentido militar, grande politicamente, grande
socialmente - todos iam para Roma, a senhora do mundo.
Todavia, o apóstolo não se envergonhava do evangelho, e se lhe
pedissem que pregasse no palácio imperial, ele estaria pronto a

333
O Evangelho de Deus

fazê-lo. Ele não se procupava com quem iria ouvi-lo. Ele nunca
se envergonhava do evangelho, e o seu primeiro motivo para
não se envergonhar era, naturalmente, a própria palavra
“evangelho”. A palavra “evangelho” significa “boas novas”, “boa
notícia”. São alegres novas. E, de longe, a mensagem mais
maravilhosa e mais assombrosa que o homem pode ouvir.
As palavras “de Cristo” não se encontram em todos os
manuscritos. Isso não faz diferença; é ainda do “evangelho de
Cristo” que ele está falando, embora tenha realmente dito, “Pois
não me envergonho do evangelho”, porque ele já deixara claro
para nós que evangelho é. No versículo primeiro ele dissera
que se trata do “evangelho de Deus” - de modo que, quando
ele volta a dizer “evangelho”, nós nos lembramos de que é o
“evangelho de Deus”. E no versículo 9 ele diz: “Porque Deus,
a quem sirvo em meu espírito, no evangelho de seu Filho...”.
Aí está, muito especificamente; é o evangelho do Filho de Deus
eterno. Essa é a mensagem de Paulo. Essas são as boas novas da
eternidade. De modo que ele não se envergonha porque é arauto
da mensagem mais gloriosa, mais majestosa e mais emocionante
que a humanidade já ouviu.
“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo.” Por
quê? “Pois” (porque - o motivo) é um meio de salvação - “é o
poder de Deus
_ para salvação.” Pois bem, salvação é a palavra
/

do Novo Testamento, e notem quantas vezes ela aparece. E a


grande palavra/alicerce. Está em Hebreus, está nas Epístolas de
Pedro, está em toda parte. Então, que é que ela significa? Se
vocês consultarem o dicionário, verão que ela significa
“segurança”; significa “cura”; significa “saúde”. Significa salvo
de alguma coisa, ou para alguma coisa, em vários lugares do
Novo Testamento. O evangelho não é uma nova idéia, uma nova
filosofia. O apóstolo não está tratando aqui de meras idéias, que
podem ser muito interessantes e muito absorventes. Não! A
mensagem de Paulo é sobre uma salvação - uma libertação -
saúde - integralidade. Ele gosta muito de expressar-se dessa
forma. Ele põe o evangelho em contraste com toda a tragédia

334
Romanos 1:16,17

do mundo grego. Claro, a cultura grega tinha vindo para Roma


muitos anos antes da chegada de Paulo naquela cidade. A grande
tragédia dessa cultura era que, conquanto fosse muito elevada
no sentido intelectual, não levava o interessado a parte alguma.
Não estou aqui para desacreditar a filosofia. O estudo de filosofia
é um grande estudo, muito importante; mas a tragédia é que
ela tende a começar e a terminar meramente com idéias. Como
digo, pode ser sumamente interessante e intrigante. Você tem
esta ou aquela teoria; você joga com termos e conceitos. Mas a
pergunta é: no fim você está algo diferente? Bem, como vocês
sabem, a tragédia era que, embora aquele florescente período
da filosofia grega tivesse vindo e passado, o mundo grego
permanecia no pecado, na miséria e na infelicidade. A filosofia
só jogava com idéias. Não salvava. Não libertava. Assim diz o
apóstolo que não se envergonha da sua mensagem, porque essa
mensagem é salvação. Não é mera conversa ou mero filosofar.
Não é alguma nova idéia dele, que ele esteja contrapondo a
outras. Nada disso! E salvação, e, portanto, ele não se envergonha
dela.
Mas, obviamente, é importante que eu e vocês demos ao
termo o seu pleno conteúdo. Muitas vezes a palavra “salvação”,
ou a expressão “ser salvo”, é empregada muito inadequada­
mente. Às vezes, alguns, quando a empregam, só se referem a
uma pequena parte dela, dando a impressão de que essa pequena
parte é a totalidade dele. Isso, certamente, é um grande erro, e
muito mau. O apóstolo gloria-se nesta grande palavra, e devemos
entender algo da plenitude do conteúdo que ele coloca nela. O
termo “salvação” realmente só pode ser bem entendido quando
entendemos o ensino bíblico a respeito do homem. Não
conheceremos o pleno conteúdo da salvação, enquanto não
soubermos como era o homem quando Deus o fez, enquanto
não soubermos o conceito de Deus sobre o homem - o homem
como saiu das mãos de Deus e por Ele foi colocado perfeito,
num paraíso terrestre. E, em acréscimo a isso, para entender­
mos o real significado da salvação, precisamos entender também

335
O Evangelho de Deus

o que aconteceu com o homem em conseqüência da Queda, e


em conseqüência do pecado, pois, se não entendermos o que
significam a Queda e o pecado, não teremos a mínima
possibilidade de entender o que Paulo quer dizer com salvação.
E se não entendermos o que ele quer dizer com salvação, não
entenderemos por que ele não se envergonhava do evangelho
que ele pregava, por que se ufanava tanto dele, por que se
gloriava nele e estava disposto a morrer por ele.
Essa é, pois, a maneira pela qual avaliamos este grande termo
“salvação”. Começamos com o homem nos primeiros capítulos
de Gênesis. E é por isso que não se pode largar o livro de Gênesis,
ou, mais especificamente, os seus três primeiros capítulos. Se
se fizer isso, imediatamente haverá diminuição da salvação.
Noutras palavras, se você crê na doutrina e teoria da evolução,
que diz que o homem é uma criatura que evoluiu do animal,
continua evoluindo e ainda não “chegou”, bem, então você não
tem realmente uma doutrina da salvação - você não saberá do
que Paulo está falando na Epístola aos Romanos. Num sentido,
se a teoria da evolução fosse verdadeira, o homem não precisaria
de salvação. Não; a única forma de entender a salvação é ver o
homem no Jardim do Éden, perfeito, absolutamente relaçionado
com Deus, e gozando o companheirismo e a comunhão de Deus,
sem pecado, num estado de perfeita inocência. Mas depois se
aprende que ele foi tentado e caiu, cometeu aquele pecado, o
que levou a terríveis conseqüências. Que é salvação? Salvação
é a libertação do homem das conseqüências da Queda e do
pecado; e a nossa definição de salvação nunca deve ficar aquém
disso. Deve incluir tudo isso, e em toda a sua plenitude.
Que significa, então, a salvação? Obviamente, em primeiro
lugar, a salvação só pode significar que o homem é libertado do
pecado. Como se dá isso? Há na salvação uma tríplice libertação
do jugo do pecado; primeiramente e acima de tudo, o homem
precisa ser liberto da culpa do pecado. Cada um de nós nasceu
num estado de culpa, e todos os nossos pecados produzem culpa
à vista de Deus. Pois bem, o apóstolo nos faz ótima demonstração

336
Romanos 1:16,17

disso em sua tremenda argumentação que vai do versículo 18


deste primeiro capítulo até o final do capítulo três, e, na verdade,
até mesmo além desse ponto. Sua tese consiste em demonstrar
e estabelecer que cada um de nós é culpado perante Deus. Todos
nós estamos condenados pela lei de Deus. Somos pecadores
culpados. Assim a salvação, primeiramente e acima de tudo, é
livramento dessa culpa. Estamos sob a ira de Deus, sob a
condenação da lei, e é preciso que alguma coisa seja feita sobre
isso. E o necessário é feito, afirma Paulo, nesta salvação; por
isso não me envergonho de pregá-la; ela nos livra da culpa e da
condenação do pecado; livra-nos da lei de Deus, que é contra
nós e nos condena. Dou-lhes simplesmente os títulos nesta
altura. Devemos desenvolvê-los à medida que avançarmos.
A nossa segunda necessidade neste sentido é de que também
sejamos libertos do poder do pecado, pois o nosso problema
não é só que somos culpados; outro problema é que todos nós
somos escravos do pecado, e estamos sob o seu domínio; estamos
sob o domínio de satanás. No Éden o homem perdeu a sua
liberdade. Ele era livre, antes de dar ouvidos a satanás, porém
desde o momento em que lhe deu ouvidos, perdeu a sua
liberdade. Já não é livre; é servo do deus deste mundo, do
“príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos
filhos da desobediência” (Efésios 2:2). Esse é o homem, sob o
domínio, sob o poder, a escravidão e a tirania do pecado. O
poder do pecado - não o conhecemos, todos nós? E precisamos
ser libertos dele! O homem, como Deus o fez, não estava sob o
poder do pecado. Em conseqüência da Queda, ele próprio se
colocou ali. E não pode desvencilhar-se. Esta salvação, garante
Paulo, liberta o homem do poder do pecado, como também da
culpa. O apóstolo começa a tratar disso no versículo doze do
capítulo cinco, e continua, indo até o fim do capítulo 6, e de
fato o faz também nos capítulos 7 e 8 - mostrando como este
mesmo evangelho nos livra do poder, bem como da culpa do
pecado.
Mas há uma terceira realidade, a corrupção do pecado.

337
0 Evangelho de Deus

Noto que com freqüência as pessoas se esquecem disso.


Quando me mostram uma declaração básica de fé ou um credo
doutrinário elaborado por várias entidades religiosas, busco
sempre esse terceiro aspecto e me espanta notar quão
freqüentemente ele é omitido. Falam da culpa e do poder, mas
omitem a corrupção. E, vocês sabem, de muitas maneiras o que
há de mais terrível quanto ao pecado é a sua corrupção.
Corrupção é o pecado na natureza - cada parte de nós está
corrompida. O apóstolo Pedro refere-se a isso em sua Segunda
Epístola, capítulo um, versículo 4, onde ele fala em havermos
nós “escapado da corrupção, que pela concupiscência há no
mundo”. E a corrupção não está só no mundo; está em nós
também. Quero dizer que, além das tentações que me vêm de
fora, a minha própria natureza é perversa e tendente ao mal.
“Mas vejo nos meus membros outra lei...”, Paulo vai dizer-nos
no capítulo sete desta Epístola. Sou impuro. Minha propensão
é para o mal. Sou perverso. Há em mim algo que me arrasta
para baixo, mesmo quando o diabo não me está tentando
ativamente. Eu mesmo me tornei impuro, corrupto, moralmente
poluído, ímpio. Essa questão é muito importante, e jamais
devemos deixá-la fora de consideração.
Asim, pois, esta salvação é algo que nos livra do pecado
dessa maneira tríplice. E uma libertação completa. Não somos
somente absolvidos da culpa do pecado; não seremos somente
feitos completamente imunes a todas as investidas e insinuações
do diabo e dos seus poderes; mas virá o dia em que todos e cada
um de nós seremos “irrepreensíveis e inculpáveis” - sim, digo
eu, cada um de nós cristãos, crentes conscientes - “sem mácula,
nem ruga, nem coisa semelhante”. Como o expressa Judas,
seremos apresentados “irrepreensíveis” - essa é a palavra! -
“irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória” (perante a
glória de Deus). Esse é, pois, o primeiro benefício que esta
salvação faz - livra-nos do pecado.
Contudo, em segundo lugar, faz algo mais, e este segundo
benefício é igualmente essencial, como penso que vocês verão.

338
Romanos 1:16,17

A salvação nos reconcilia completamente com Deus. É trágico


verificar quantas vezes isso é esquecido ou não é dito. Parece
que alguns apresentam a salvação como se simplesmente
significasse perdão. Mas o perdão é apenas o começo. Pois bem,
este segundo fato é mais maravilhoso ainda, e mais glorioso.
Antes da Queda o homem estava em comunhão com Deus e
gozava o Seu companheirismo; pela Queda e pelo pecado ele
perdeu essa bênção. E não seremos salvos - o homem não será
restaurado - enquanto não for restabelecida a comunhão e não
tivermos recuperado o companheirismo com Deus. Isso faz parte
essencial da salvação, e está incluído neste grande vocábulo, no
sentido em que é empregado por Paulo. Constantemente o
veremos exposto abertamente por ele; ele se gloriava nessa
palavra.
A seguir, a terceira bênção incluída nesta definição geral
da salvação é que restabelece em nós a esperança da glória.
Quando o homem caiu em pecado, ficou sob a ira de Deus, e a
ira de Deus envia o culpado à destruição. Portanto, precisamos
ser libertos da destruição; precisamos ser libertos da ira
vindoura. Certamente vocês notam que quando João Batista
pregava, a mensagem era - arrependei-vos! Ele chamava as
pessoas para o batismo de arrependimento para a remissão dos
pecados “Salvai-vos desta geração perversa, fugi da ira vindoura!”
O nosso Senhor repete exatamente as mesmas palavras. Não é
mensagem popular hoje em dia, porém faz parte essencial desta
salvação. Permitam-me dizê-lo outra vez: o homem em pecado
está sob a ira de Deus, e a ira de Deus envia o pecador à perdição,
à destruição, e precisamos ser libertos dessa destruição. Salvação
é isso; dá-nos “vida eterna”; dá-nos “vida sempiterna”; dá-nos a
“esperança da glória”; apresenta-nos a possibilidade de
passarmos a eternidade na presença de Deus, em toda a Sua
glória! Isso faz parte essencial da salvação, e, se não o incluir­
mos, não estaremos fazendo uma exposição completa, não
estaremos dando uma definição completa deste empreen­
dimento estupendo.

339
O Evangelho de Deus

Aí está, pois, em sua essência, mas deixem-me expressá-lo


V

doutra maneira num instante. As vezes é mais proveitoso definir


a salvação em termos do tempo, isto é, relacionar a salvação, se
vocês o preferirem, com o fator tempo, com o elemento tempo.
Podemos, pois, fazer a seguinte colocação: “Na qualidade de
cristãos, podemos dizer que já estamos salvos. Por certo vocês
se lembram de como o apóstolo o expressa ao escrever aos
coríntios: diz ele que: “...a palavra da cruz é loucura para os
que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de
Deus” (1 Coríntios 1:18). Somos salvos, o que significa, fomos
salvos. Há um aspecto da salvação que já está completo, não
precisa ser repetido jamais, como também nunca poderá ser
desfeito. Veremos que o apóstolo fala sobre isso; vejam, por
exemplo, a sua frase inicial do capítulo 5 desta grande Epístola:
“Sendo, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus”. Tendo
sido justificados pela fé, já se deu o acontecimento. “Feita está;
a grande transação está feita!” Ou ainda, ele se expressa da
seguinte maneira, vocês se lembram, no capítulo seis: “Nós,
que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?”
O cristão já está morto para o pecado; ele está morto para a lei.
“Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em
Cristo Jesus” (Romanos 8:1).
É muito importante que entendamos bem isso, porque, na
proporção em que não o entendemos, reduzimos a grandeza
desta salvação. O apóstolo se gloria nela; não se envergonha dela;
jacta-se dela; esta é a grande verdade que ele gosta de pregar.
Por quê? Porque já pode dizer que sabe em quem ele tem crido.
Os seus pecados foram perdoados. “Portanto, agora nenhuma
condenação há” para ele, e ele pode piostrar a outras pessoas
como se chega a essa posição. A culpa é eliminada. Os cristãos
estão mortos para a lei, para o pecado. Já morremos com Cristo,
fomos sepultados com Cristo, ressuscitamos com Cristo - já
fomos justificados. Agora, obviamente, não podemos exagerar
na ênfase a isso. Fomos salvos nesse sentido e dessa maneira.
Contudo, é claro, é igualmente certo, em face da definição,

340
Romanos 1:16,17

dizer que estamos sendo salvos; há um sentido em que a nossa


salvação ainda não está completa. Foi por isso que o apóstolo
teve que escrever a frase que acabei de citar - “Nós, que estamos
mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?” O problema
permanece. Embora seja fato que as pessoas às quais ele escreveu
estavam mortas para o pecado e mortas para a lei, não eram
perfeitas; eram culpadas de pecados, e o apóstolo teve que
escrever a sua carta em parte a fim de tratar justamente dessa
questão, como, na verdade, teve que escrever todas as suas outras
Epístolas. Aí está o problema do pecado; o pecado continua na
vida do crente. Que dizer a respeito? Estamos em processo de
libertação dele. Essa é uma parte progressiva da salvação. Num
sentido, Paulo o resume desta maneira, quando diz no fim do
capítulo sete: “Quem me livrará do corpo desta morte? Dou
graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor”. E isso que está
acontecendo. A salvação prossegue. Ele já dissera, na ressonante
declaração registrada no capítulo 6, versículo 14: “O pecado
não terá domínio sobre vós” - um elemento progressivo, um
elemento contínuo. Vai prosseguindo. Há um sentido em que a
salvação já aconteceu, e, contudo, ainda está acontecendo.
Depois, em terceiro lugar, ela acontecerá ainda no futuro.
Veremos Paulo dizer no capítulo 8, versículo 24: “Porque em
esperança somos salvos. Ora, a esperança que se vê não é
esperança; porque o que alguém vê, como o esperará? Mas
se esperamos o que não vemos, com paciência o esperamos”.
Aí está, como vocês vêem, uma referência futura. Ele já dissera
nesse mesmo capítulo que nós, “que temos as primícias do
Espírito... gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a
saber, a redenção do nosso corpo”. Isso é tudo no futuro. Não
há redenção do corpo nesta vida; é no futuro. Estamos espe­
rando por isso, mesmo nós que temos as primícias do Espírito.
E no capítulo treze desta Epístola ele o expressa com uma
declaração muito interessante, quando diz: “...a nossa salvação
está agora mais perto de nós do que quando aceitamos a
fé”. (Faz parte daquela grande declaração que sobreveio com

341
O Evangelho de Deus

tanto poder a Agostinho no quarto século: “A noite é passada, e


o dia é chegado...”. Não passemos o nosso tempo em “gluto­
narias, nem em bebedeiras...”.) Fomos salvos naquele sentido
específico - sim! - porém a nossa salvação, a nossa salvação
final, perfeita, está agora mais perto de nós do que quando
passamos a crer. Estivemos marchando para frente, e para frente
continuamos indo; é algo que ainda está adiante. Pode-se ver
isso também na Primeira Epístola de Pedro, onde ele afirma
que somos “guardados na virtude de Deus para a salvação, já
prestes para se revelar no último tempo” (1:5). Exatamente a
mesma coisa!
Talvez a melhor maneira de expressá-lo seja como o próprio
Paulo o resume em 1 Coríntios, capítulo um, versículo 30.
Referindo-se ao Senhor Jesus Cristo, ele diz: “...o qual para nós
foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e reden­
ção”. Aí está a totalidade da salvação! Ela consiste dessas partes
componentes. Precisamos ser justificados, precisamos ser
santificados, precisamos ser glorificados. E tudo em Cristo, e
tudo isso nos vai ser dado; isso tudo nos vem. “Não me
envergonho”, diz o apóstolo. Não estou aqui para propor um
novo pensamento, para colocar uma nova filosofia, uma boa
idéia, para vocês. Venho falar-lhes sobre uma real libertação;
salvação em toda a sua plenitude - libertação do pecado,
reconciliação com Deus, a esperança da glória e a bem-
aventurança eterna. Salvação completa - por isso ele não se
envergonha dela.
Mas então Paulo continua e dá outra razão para não se
envergonhar dela, a saber, o método divino de salvação. “Não
me envergonho do evangelho”, diz o apóstolo, “pois é o poder
de Deus para salvação.” Obviamente a expressão, “o poder de
Deus”, é de grande e vital importância. Com a expressão “o
poder de Deus” ele não quer simplesmente dizer que é muito
poderoso. Há alguns que tentam limitá-lo desse modo. Nos
Salmos vocês lêem, dizem eles, a respeito das “árvores do
Senhor” ou das “árvores de Deus”, e isso simplesmente significa

342
Romanos 1:16,17

“árvores muito grandes”. No entanto, essa interpretação dessa


parte dos Salmos é duvidosa. A mais recente idéia é que não
significa simplesmente “muito grandes”, mas que as árvores
são propriedade de Deus, são feitura dEle. E, na passagem que
estamos estudando, certamente a expressão não indica apenas
um superlativo; significa o que ela diz, isto é, o método divino
de salvação. Significa, noutras palavras, que esta é a única
maneira pela qual Deus salva os homens. Ora, talvez aqui
também a forma negativa ajude a tornar claro o sentido. Paulo
não quer dizer que se ele pudesse visitá-los em Roma, diria a
eles e a outros como poderiam salvar-se. O evangelho, diz ele,
não é um incentivo ao esforço próprio: é o anúncio do queDeus
fez para salvar-nos.
Pois bem, vocês podem ver que é isso que, acima de tudo
mais, leva Paulo a gloriar-se no evangelho. A lei era algo que se
exigia que o homem cumprisse, mas a Queda o tornou incapaz
de fazê-lo, como uma e outra vez Paulo nos diz nesta Epístola.
A lei não podia salvá-lo, só podia condená-lo, porque o homem
estava “debaixo do pecado”. Entretanto, eis o que Paulo pode
dizer-nos no capítulo 8, versículo 3: “Porquanto o que era
impossível à lei, visto como estava enferma pela carne, Deus,
enviando o seu Filho em semelhança da carne do pecado, pelo
pecado condenou o pecado na carne”. E Deus que realiza a
obra de salvação. Vocês vêem o contraste? O evangelho não é
algo que nos diz o que devemos fazer para salvar-nos; ele nos
diz como Deus providenciou e produziu o Seu único método
de salvação e como Ele o aplica. A salvação nos vem de Deus, e
quando compreendemos isso, podemos ver como o apóstolo
não somente não se envergonhava dele, porém também estava
pronto para levantar-se diante de quem quer que fosse e falar-
-lhe sobre ele; estava disposto a defrontar os estóicos, os epicureus
e todos os filósofos. Eles tinham idéias humanas. Grandes
homens - Platão, Sócrates, Aristóteles, e todos os demais. Mas
aqui é Deus, é o plano de Deus, o poderoso propósito de Deus.
Trata-se da atividade de Deus. E isso que há de crucial acerca

343
O Evangelho de Deus

deste evangelho, afirma Paulo. E quando percorrermos esta


grande Epístola, veremos que a ênfase é sempre essa. Na
verdade, não seria essa toda a história da Bíblia inteira? Na
Bíblia, quem age é Deus. Temos visto o que o homem faz. O
que o homem faz é cair em pecado, e continuar no pecado,
produzindo assim degradação, miséria e desespero. O homem
é isso. Que é este Livro, a Bíblia? Seria tão-somente ensino
moral? Acaso simplesmente nos diz o que precisamos fazer para
que juntemos forças e nos safemos do lamaçal em que
afundamos? Seria uma exortação? Não! E evangelho. E um
anúncio. Deus! Deus, que veio ao Jardim do Éden e falou com //

Adão e Eva em seu pecado e em sua vergonha. E Ele que age. E


Ele que tem agido através de toda a história humana. Foi Ele
que chamou Abraão e fez dele uma nação. Foi Ele que deu reis.
Foi Ele que enviou profetas. Foi Ele que deu a lei. É sempre
Ele. Foi Ele que, “vindo a plenitude dos tempos... enviou seu
Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para remir os que
estavam debaixo da lei” (Gálatas 4:4,5). É Ele que ainda o faz;
Ele o está fazendo no mundo atual. Toda a evangelização está
subordinada a Deus. É Deus que age, e Ele continuará agindo
até que tudo, como já dissemos, esteja finalmente perfeito e
completo. O evangelho é o grande plano e esquema de Deus
em operação. O evangelho é isso. Nisso consistem as boas novas!
O tempo todo a ênfase é em Deus e na grandeza e amplitude
da salvação.
Jamais empreguemos o termo “salvação” leviana, super­
ficial ou descuidadamente. Que nunca fiquemos só com a
declaração “Sou salvo” ou “Fui salvo”; que demos igual ênfase
ao fato de que estamos sendo salvos.
Receio que às vezes essa expressão, sobre “ser salvo”, ou
“estar salvo” cause mais mal do que bem, porque os que a
empregam, a empregam tão levianamente que levam outros a
dizerem: “Não me parece que estes estão salvos”. O que eles
querem dizer com isso é que talvez não gostem de prosa e de
leviandade, ou talvez os tenham observado no escritório ou no

344
Romanos 1:16,17

exercício de uma profissão e tenham visto que são condenáveis


porque estão em pecado. Por conseguinte, tratemos de empregar
o termo cautelosamente. Graças a Deus, em Cristo podemos
dizer que fomos salvos; mas que o digamos cientes do que
estamos querendo dizer. Também queremos dizer que ainda
estamos sendo salvos. E igualmente queremos dizer que não
seremos salvos de maneira final e definitiva nesta vida, no
mundo presente; que a nossa glorificação, que faz parte
essencial da salvação, está acima e além deste mundo, acima e
além desta vida. Ela virá. E certa. Não ainda, porém. Fomos
salvos. Estamos sendo salvos. Seremos plena, final e inteira­
mente salvos. Salvação - grandiosa salvação! Salvação que a
Deus devemos!

345
22
“Pois é o poder de Deus para salvção de todo aquele que crê:
primeiro do judeu, e também do grego. Porque nele se descobre a
justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: mas o justo viverá da
fé.” - Romanos 1:16,17

Ainda estamos estudando estes dois versículos importantes


e centrais do primeiro primeiro capítulo de Romanos, os
versículos 16 e 17, e os motivos pelos quais Paulo pode dizer:
“Pois não me envergonho do evangelho de Cristo”. Seu primeiro
motivo é que o evangelho é boa notícia, boas novas; o segundo
é que se refere à salvação, a qual é grandiosa e abrangente. E o
terceiro ponto que mencionamos é que ele não se envergonha
do evangelho porque é o método divino de salvação.
Assim, isso nos leva ao quarto motivo que o apóstolo dá
para não se envergonhar deste evangelho - que é o seguinte: é
um evangelho poderoso. É o poder de Deus. Pois bem, devemos
ter muito cuidado com cada um destes termos. Temos aqui todos
os grandes termos relacionados com a salvação, todos eles juntos
nestes dois versículos, e temos que ser cuidadosos com cada
um deles, pois cada um deles pode ser mal entendido, cujo fato
a história da Igreja dá eloqüente testemunho. O que o apóstolo
está dizendo aqui é que o evangelho é o poder de Deus para
salvação - de modo que devemos interpretar estes versículos de
molde a deixar claro que é uma poderosa ação da parte de Deus,
não da parte do homem.
Que será, então, que o apóstolo quer dizer quando denomina
o evangelho “poder” - o poder de Deus? Negativamente,
devemos dizer que o evangelho não é acerca do poder de Deus;
Paulo afirma que o próprio evangelho*? o poder de Deus. “Não

346
Romanos 1:16,17

me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus


para salvação.” Não é mera descrição dele! Não simplesmente
diz algo sobre ele! O evangelhos, ele próprio, o poder de Deus.
Essa é a declaração concreta do apóstolo. Assim, outra explicação
negativa que gostaríamos de fazer é que o evangelho não é Deus
dizendo a nós o que devemos fazer, porque, se fosse isso, o poder
necessário seria nosso e não de Deus. Mas vou mais longe ainda.
Na passagem em foco o apóstolo não está dizendo que o
evangelho não é nem mesmo uma declaração daquilo que Deus
fez quanto à nossa salvação. Poderia ser isso.Todavia, se fosse,
ele não diria que é o poder para salvação. Ele nos diria que o
evangelho é uma mensagem que nos fala sobre o poder de Deus
para salvação - coisa muito diferente! É isso, e muito mais. Dou
ênfase a este ponto porque às vezes é interpretado dessa maneira.
O evangelho é apresentado como se fosse apenas uma exposição
do que Deus fez, e que, portanto, nos vem dizer: “Pois bem, aí
está agora a possibilidade. Deus fez isso e, logo, há uma salva­
ção possível para vocês”. Entretanto, segundo a minha maneira
de entender esta declaração do apóstolo, e do que tem sido o
entendimento tradicional reformado e protestante dela, não é
isso que o apóstolo está dizendo. Daí, as minhas negativas
serem importantes.
Então, que é que Paulo está dizendo? Positivamente, faço
esta colocação: ele nos está dizendo como Deus preparou, fez,
A

produziu e está levando a efeito esta salvação em nós. E evidente


que isso é algo diferente. O evangelho é o meio pelo qual Deus
nos salva. E o poder de Deus produzindo salvação em nós.
Noutras palavras, é Deus em nós. Agora vocês vêem a
importância dessa distinção; distinção que o apóstolo faz com
muita freqüência em suas diversas Epístolas. Vejam, por
exemplo, a sua declaração no capítulo primeiro da Primeira
Epístola aos Coríntios de que “a palavra da cruz é loucura para
os que perecem”. Depois ele prossegue e afirma que foi quando
“o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria” que aprouve
a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação”. Essas

347
O Evangelho de Deus

palavras poderiam ser traduzidas assim: “Foi quando o mundo


não conheceu a Deus pela sabedoria que aprouve a Deus salvar
os que crêem pela loucura da coisa pregada” - ou seja, o
S /

evangelho. E assim que Deus salva. E por meio da loucura da


pregação, ou da loucura da coisa que é pregada.
Outro modo como Paulo diz a mesma coisa acha-se em 2
Coríntios 5:5: “Ora, quem para isto mesmo nos preparou foi
Deus”. Exatamente o mesmo ensino. Depois há outra notável
declaração no mesmo sentido na Epístola aos Efésios 1:19,20.
Ele ora, pedindo que os efésios venham a conhecer, entre outras
coisas, “a sobreexcelente grandeza do seu poder sobre nós, os
que cremos, segundo a operação da força do seu poder, que
manifestou em Cristo, ressuscitando-o dos mortos...”. Essa é
outra maneira de afirmar que o evangelho é o poder de Deus
para salvação.
Vê-se ainda outra maneira no segundo capítulo de Efésios,
versículo 10, onde lemos: “Somos feitura sua”. Exatamente a
mesma coisa! E o mesmo ensino; é o poder de Deus produzindo
salvação. “Não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o
poder de Deus...”. Também escrevendo aos filipenses, capítulo
primeiro, versículo 6, Paulo diz: “Tendo por certo isto mesmo,
que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até
ao dia de Jesus Cristo”. E de novo o diz no segundo capítulo,
versículo 13: “...operai a vossa salvação... porque Deus é o que
opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa
vontade”. E dessa maneira que Ele opera a salvação em nós.
Agimos externando o que Deus produziu em nós. E “o poder
de Deus para salvação”, e é justamente isso que significa. Ou
ainda, diz o apóstolo Pedro em sua Primeira Epístola, capítulo
um, versículo 5: “...mediante a fé (vós, crentes) estais guardados
na virtude de Deus para a salvação, já prestes a se revelar no
último tempo”.
Que será, então, o que exatamente Paulo quer dizer quando
escreve aos cristãos romanos que ele não se envergonha do
evangelho porque é o poder de Deus para salvação? Ele quer

348
Romanos 1:16,17

dizer que a salvação é a poderosa ação de Deus em nós através e


por meio do evangelho. De maneira que o que o apóstolo tem
realmente em mente é isto: ele está se referindo a tudo o que
Deus determinou antes da fundação do mundo, a tudo o que
Ele planejou, a tudo o que Ele fez e a tudo o que Ele ainda fará
em Cristo mediante o Espírito. Isso resume o que Paulo quer
dizer neste ponto. Assim, a sua concepção da salvação, como
vimos, é total e completa.
De novo, diz ele que este evangelho é o poder de Deus para
eles, cristãos romanos, de modo que, noutras palavras, ele está
dizendo o que diz em Efésios, capítulo primeiro, versículo 10:
“...de tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação
da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as
que estão na terra; nele, digo...”. “Não me envergonho do
evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de
todo aquele que crê.” Eis o que Paulo diz: o evangelho é o
grande poder - para empregar os termos que vemos no capítulo
8 de Romanos - pelo qual Deus predestina os que quer; é o
poder “eletivo” de Deus; é o poderoso “chamamento” feito por
Deus; é a força e o poder da justificação efetuada por Deus; é o
poder pelo qual Deus regenera os homens; é o poder pelo qual
Deus nos santifica; é o poder pelo qual e com o qual Deus nos
preserva; é o poder pelo qual Deus nos glorificará.
Leiam de novo essas expressões em Romanos, capítulo 8,
versículos 28 a 30: “...e sabemos que todas as coisas contribuem
juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles
que são chamados por seu decreto”. Como sabemos disso? Como
sabemos que todas as coisas contribuem para o bem daqueles
que amam a Deus? Eis a resposta: “Porque os que dantes
conheceu...” - vejam vocês, estamos considerando o poder. É
por isso que temos certeza. O poder de Deus está nisto; o poder
de Deus está cuidando de nós. Se O amamos, é certo que o poder
de Deus se apossou de nós, e sabemos disso. “Porque os que
dantes conheceu também os predestinou para serem conformes
à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito

349
O Evangelho de Deus

entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a estes também


chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos
que justificou, a estes também glorificou.” Se Deus predestinou
alguém, Ele o chamará, e será um chamamento poderoso, será
um chamamento eficaz, será um chamamento irresistível - e
“aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou,
a estes também glorificou”. A coisa é certa, diz o apóstolo,
porque é o poder de Deus que a realiza.
Agora, é muito evidente que é de grande importância que
entendamos isso, o que me leva ao próximo ponto da descrição
que estou fazendo. Diz o apóstolo que não se envergonha deste
evangelho. Por quê? Porque, como é o poder de Deus, é eficiente,
é eficaz. E óbvio que ele tem em mente um enorme contraste.
Os homens estão sempre tentando salvar-se. Esse é o significado
das suas moralidades e das suas filosofias; eles realmente
procuram melhorar a vida. Falam em elevação moral, em
idealismo, em esforços para fazer do mundo um lugar melhor,
e assim por diante. Mas toda essa conversa é sobre o homem
tentando salvar-se e desfazer as nefandas conseqüências da Queda
e do pecado. Entretanto isso dá em nada. “Vaidade de vaidades
- tudo é vaidade.” Isso diz um homem que considerou tudo.
Tentou tudo. Observou os outros e chegou à conclusão de que
tudo é vão. O que foi será. O homem em pecado, diz ele
finalmente, não pode ser melhorado. Apesar de todo o
otimismo, vejam os fatos. Não funciona.
“Ah”, alguém poderá dizer - e os judeus estavam mais que
prontos a dizê-lo - “o que você diz pode ser verdade, porém
eles não tinham a lei. Nós temos a lei, e se cumprirmos a lei,
poderemos salvar-nos. Não pode deixar de haver sucesso.” Aqui
o apóstolo está contrastando o evangelho com a lei, o evangelho
que pode acionar a fé, o que a lei não pode fazer. Vemos a
declaração que consta em Romanos, capítulo 8, versículo 3:
“Porquanto o que era impossível à lei, visto como estava enferma
pela carne, Deus, enviando o seu Filho em semelhança da carne
do pecado, pelo pecado condenou o pecado na carne; para que

350
Romanos 1:16,17

a justiça da lei se cumprisse em nós...”. Percebem o que ele


está dizendo? Em certo sentido ele tinha vergonha da lei, porque
a lei não pode salvar ninguém. Como vemos escrito em
Romanos 3:20: “Por isso nenhuma carne será justificada diante
dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do
pecado”. A minha necessidade não é de conhecimento, mas de
poder. Posso saber o que é certo, mas a questão é: como posso
fazer o que é certo? O conhecimento da lei não me capacita a
guardá-la e a cumpri-la. Mas, diz o apóstolo Paulo, eu tenho
um evangelho que não é assim. Este evangelho funciona. Ele
tem sucesso.
Ele vai além. O evangelho não pode falhar. Tornem a ler
Romanos, capítulo oito, porque essa é a grande verdade
salientada ali, e o apóstolo está deixando pistas disso aqui. Tudo
bem, diz ele. Vocês, cristãos romanos, não devem envergonhar-
-se do evangelho. Eu não me envergonho dele. Ele é o poder de
Deus, e porque é o poder de Deus, o que Deus determinou
certamente, seguramente, está sendo efetuado e será efetuado.
Vocês notam o desafio presente no versículo 31? “Que diremos,
pois, a estas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?”
Depois ele desenvolve esse pensamento, dizendo: “Aquele que
nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por
todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas?”
E mais: “Quem intentará acusação contra os escolhidos de
Deus?” Ele quer dizer: quem há que possa impedir que os
eleitos sejam salvos finalmente? Quem pode impedir isso? Deus
mesmo os justifica. Quem os condenará? Se é Deus quem os
justifica, quem terá alguma possibilidade de condená-los? “Pois
é Cristo quem morreu, ou antes quem ressuscitou dentre os
mortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por
nós. Quem nos separará do amor de Cristo...?” Acaso vocês
enxergam o argumento? Ele não se envergonha do evangelho
porque em todos os pontos ele funciona, e é capaz de produzir
o resultado final.
“Ah, espere um minuto”, dirá alguém; “isso tudo está muito

351
O Evangelho de Deus

bem. Você se julga salvo, mas ainda tem que viver neste mundo,
e há inimigos que vão atacá-lo, ainda há a lei, e ainda há o diabo.”
“Certo”, responde Paulo; “vou dizer-lhe.” “Quem nos separará
do amor de Cristo? A tribulação?” Quão terrível a tribulação,
coisa que abala as pessoas. Temos visto muitos iniciarem a vida
cristã brilhantemente, e logo caírem ao chegarem as provas e
as tribulações. Você ainda diz que é seguro e certo? Digo. “A
tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a
nudez, ou o perigo, ou a espada... Mas em todas estas coisas
somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou.” E
absolutamente certo.
E depois a grande e magnífica declaração final: “Porque
estou certo (estou persuadido, estou absolutameante certo) de
que, nem a morte, nem a vida, nem os principados, nem as
potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a
profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar
do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor”. Nada
nos pode separar! A nossa salvação em Cristo é absolutamente
certa. Cristo mesmo disse (a respeito das Suas ovelhas):
“ninguém as arrebatará da minha mão” (João 10:28). E isso
que o apóstolo está dizendo. O evangelho é isso. É o poder de
Deus, e visto que é o poder de Deus, é absolutamente certo. Ele
nos salva totalmente - até que por fim sejamos completamente
glorificados e estejamos sem mácula nem ruga nem coisa
semelhante. E é isso que o apóstolo está dizendo neste versículo
16 do primeiro capítulo. Não é algo contingente. Não é algo
que pode funcionar ou não. Ele assevera que essa obra é realizada
por Deus e que quando essa obra começa numa pessoa, nada
pode detê-la. Seu fim na glorificação está garantido. Mas os
passos intermediários também estão garantidos, e nada nem
ninguém, seja do céu ou do inferno, poderá separar tal pessoa
do “amor de Deus que está em Cristo Jesus nosso Senhor”. O
evangelho é o poder de Deus. Não depende de mim e de minha
fidelidade. Se dependesse, todos estaríamos perdidos. E o
poder de Deus para nos salvar, guardar, justificar, santificar e

352
Romanos 1:16,17

glorificar - para levar-nos diretamente para o céu. É por isso


que ele não se envergonha. E agora vocês vêem que é muito
natural que ele se regozije no evangelho e se expresse da maneira
como se expressa.
Ou vejam a questão como o apóstolo a expõe no capítulo
11. Está igualmente definida ali. “Ah, sim”, alguns dirão, “isso
é deveras maravilhoso. Você perdeu o rumo, levado por sua
eloqüência, Paulo! Contudo espere um minuto; veja os filhos
de Israel. Eu pensava que eles eram o povo de Deus, os eleitos;
que lhes aconteceu?” “Certo”, Paulo diz; “vocês precisam
entender a doutrina do remanescente.” Deus nunca disse que
cada israelita na carne seria salvo. Não! Há um Israel dentro de
Israel. “Nem todos os que são de Israel são israelitas” (Romanos
9:6). O remanescente, conforme a eleição da graça - este será
salvo, e continuará sendo salvo, e assim virá o dia em que todos
os que estão sendo salvos serão salvos, pois os dons e a vocação
são sem arrependimento. Devemos entender que “o
endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude
dos gentios haja entrado. E assim todo o Israel será salvo, como
está escrito (ver Isaías 59:20,21): De Sião virá o Libertador, e
desviará de Jacó as impiedades” (Romanos 11:25,26).
É o mesmo argumento. Que tudo o que há na terra e no
inferno faça o máximo para frustrar o propósito de Deus e opor-
-se ao Seu poder, e certamente falhará. A plenitude dos gentios
entrará e todo o Israel será salvo. Seja qual for o sentido que se
dê a essa declaração, seu cumprimento é certo. E o plano de
Deus e o propósito de Deus estarão completos e inteiros. “O
profundidade das riquezas, tanto da sabedoria como da ciência
de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescru­
táveis os seus caminhos! Porque, quem compreendeu o intento
do Senhor? ou quem foi seu conselheiro? ou quem lhe deu
primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? Porque dele e
por ele e para ele são todas as coisas; glória, pois, a ele
eternamente. Amém.” É isso que Paulo está dizendo. “Não me
envergonho do evangelho de Cristo.” Por quê? “E o poder de

3.53
O Evangelho de Deus

Deus”, e porque é uma atividade dinâmica de Deus, nada pode


detê-la. É certa. O evangelho funciona e funcionará, até quando
tudo o que Deus se propôs realizar pelos meios próprios se
completar.
No entanto, agora isso levanta para nós uma questão
interessante. Em que sentido podemos dizer que o evangelho é
o poder de Deus? Pois é isso que Paulo está dizendo: “Não me
envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus
para salvação”. Como será que o evangelho é este poder? Eu
quero salientar mais uma vez que o próprio evangelho é o poder,
uma verdade que vemos este apóstolo expor freqüentemente.
Leiam-no, por exemplo, na Primeira Epístola aos Tessaloni-
censes, capítulo dois, versículo treze, onde ele diz: “Pelo que
também damos sem cessar graças a Deus, pois, havendo
recebido de nós a palavra da pregação de Deus, a recebestes,
não como palavra de homens, mas (segundo é, na verdade), como
Palavra de Deus, a qual também opera em vós, os que crestes”
(VA e ARA: “a qual... está operando eficazmente em vós, os
que credes”). É uma palavra que opera “eficazmente”, demons­
trando assim o poder de Deus. Todavia há muitos outros
exemplos disso; permitam-me oferecer-lhes mais um ou dois.
Em Tiago 1:18 lemos: “Segundo a sua vontade, ele nos gerou
pela palavra da verdade”. Pedro diz algo semelhante em 1 Pedro
T.23: “Sendo de novo gerados”, diz ele aos cristãos, “não de
semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de
Deus, viva e que permanece para sempre”. Os cristãos nascem
pela Palavra de Deus. Ou ainda, vejam o nosso Senhor em Sua
oração sacerdotal, em João 17:17: (“Pai”), diz Ele, “santifica-os
na verdade; a tua palavra é a verdade”. Somos, pois, santificados
pela Palavra. Temos a mesma idéia no capítulo cinco da Epístola
aos Efésios, onde, nos versículos 25 e 26, Paulo diz: “Vós,
maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a
igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para a santificar,
purificando-a com a lavagem da água, pela palavra”. Vemos
que a santificação e a purificação aqui mencionadas são ambas

354
Romanos 1:16,17

produzidas pela Palavra. Assim, ele quer dizer tudo isso quando
afirma que o evangelho é, ele próprio, o poder de Deus.
E, todavia, devemos ser cuidadosos. O apóstolo não quer
apenas referir-se à “letra” da Palavra. Ora, isso é muito impor­
tante. Não se refere meramente à letra mecânica, porque ele diz
em 2 Coríntios 3:6: “O qual nos fez também capazes de ser
ministros dum novo testamento, não da letra, mas do espírito;
porque a letra mata, e o espírito vivifica”. Vocês sabem que
podem dizer as coisas certas, sendo que o que vocês dizem está
morto e não leva a nada. Pode-se pregar pura letra do evangelho;
isso não é o poder de Deus. Assim, não é meramente letra. Ou
de novo, como Paulo o expressa em 1 Tessalonicenses 1:5:
“Porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras”
- foi em palavras, mas não somente em palavras - “mas também
em poder, e no Espírito Santo, e em muita certeza”. Assim é
que, embora digamos que o poder está na Palavra, não está
meramente na letra. E, portanto, apenas dar às pessoas um
exemplar das Escrituras não necessariamente as salva. Um
homem pode estar lendo a verdade, e nada acontece. A salvação
não é mecânica.
E também notamos que em vários lugares Paulo nos diz
que Cristo é que é o poder de Deus e a sabedoria de Deus. E no
capítulo dois da Primeira Epístola aos Coríntios ele parece dizer
que é o Espírito Santo que é o poder. Diz ele que não tinha
vindo pregar-lhes o evangelho com “palavras persuasivas de
sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de
poder” (VA e ARA: “do Espírito...”). Como, então, conciliar
essas variadas afirmações? Bem, podemos, penso eu, fazer algo
como o seguinte: tudo o que Deus fez no Senhor Jesus Cristo e
por meio dEle por nós, todas as riquezas da graça de Deus em
Cristo, vêm a nós pelo poder do Espírito Santo mediante a
palavra do evangelho. E assim que Deus o faz.
Vamos aventurar-nos a uma ilustração? “Não me
envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus
para salvação.” Já foi demonstrado que no original - em grego

355
O Evangelho de Deus

- a palavra aqui traduzida por “poder” era empregada de muitas


maneiras diferentes no grego que se falava comumente naquele
tempo. As vezes significava o que hoje é mencionado como
“dinâmica”; sim, porém às vezes também era empregada com o
sentido da nossa palavra “prescrição” ou “receita”. Assim, este
nosso versículo poderia dizer: “Não me envergonho do
evangelho de Cristo, pois é a receita de Deus para salvação de
todo aquele que crê”. O evangelho é isso. Como se pode
desenvolver esse pensamento? Bem, eu o faço da seguinte
maneira: você vai ao médico quando adoece, e tendo ele feito o
diagnóstico, senta-se, escreve uma receita, e lhe dá. Ora, é óbvio
que o simples fato de você ter em mãos a receita não o vai curar.
Você diz: não há poder nesse pedaço de papel como tal. Bem,
num sentido você está certo, mas eu igualmente tenho direito
de dizer que há um grande poder naquela receita. Noutras
palavras, o homem colocou no papel toda esta tremenda
possibilidade, este poder que pode vir a ser seu por meio dos
medicamentos que ele anotou. Num sentido, naturalmente, não
há nada na receita, e, todavia, você vê, aí está - nisso entra a
receita. Mas você devidamente leva a receita ao farmacêutico, e
ela é aviada. Depois você toma o remédio e o poder se manifesta.
Muito bem, parece-me que a relação entre a obra realizada
pelo Senhor Jesus Cristo, a aplicação dessa obra pelo Espírito
Santo, e o evangelho propriamente dito, a Palavra pregada, é
algo semelhante ao fato ilustrado. Neste contexto, o evangelho,
a Palavra, é a receita, pelo que o apóstolo diz: “Não me
envergonho desta receita que levo no bolso; eu sei o que ela
pode fazer”. Pois bem, eu gosto de ligar isso ao que estivemos
estudando no versículo 14, onde Paulo diz: “Eu sou devedor,
tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a
ignorantes”. É como se o apóstolo estivesse dizendo: “Ah, eu
não posso deixar de pregar. Sou devedor. Sinto-me como o
homem que uma vez padeceu de alguma terrível enfermidade,
alguma aflição (digamos uma doença das juntas, por exemplo).
As juntas me doíam terrivelmente”, diz ele, “e eu andava com

356
Romanos 1:16,17

muita dificuldade. Mal podia mover-me. Fui ao médico, é claro,


e ele fez o melhor que pôde. No entanto a cura não veio. Tentei
outros, especialistas; fizeram o máximo que podiam. Nenhuma
melhora! Ah, ouvi falar de muitos tipos de gente, e fui ter com
todos eles. Atravessei o oceano. Soube de pessoas gente de
diferentes países. Todas essas pessoas fizeram o melhor que
podiam. Mas não melhorei. Finalmente, encontrei outro
médico, e de um modo ou de outro logo vi que ele era diferente.
Parecia entender-me. Parecia saber tudo sobre o meu problema,
e disse: “Sim, eu sei exatamente qual é o seu problema e posso
resolvê-lo”. E ele sentou-se junto à sua escrivaninha, redigiu a
sua receita e disse: “Eu lhe receito isto; deve ser preparado pelo
farmacêutico; tome-o, e logo estará bem”. Eu fiz isso, e logo
senti que a dor diminuia; minhas juntas se tornaram mais
flexíveis, e em breve fiquei perfeitamente bem. Agora posso
mover-me como quiser. Quase esqueci que estive doente e semi-
-inválido.
“Agora esta é a minha experiência; costumo andar para
cima e para baixo pelas ruas da vida e, de repente, certa tarde,
vejo um homem andando no outro lado da rua. Não o conheço,
porém sei qual é a sua queixa. Ele tem o velho problema que
eu tivera. Posso dizer isso pelo seu jeito de andar e de se firmar.
Ele está agora como eu estava antes. E óbvio que ele não sabe
da receita que eu possuo, não é? Tenho no bolso aquilo que
poderá curar o homem. Que devo fazer? Bem, não há neces­
sidade de discutir isso - eu sou devedor àquele homem. Devo
contar-lhe o que sei. Devo atravessar a rua, abordá-lo, e dizer:
“Desculpe-me, o senhor não me conhece e eu não o conheço,
mas sei o que o incomoda. Diga-me, já ouviu falar disto?” - e
devo dar-lhe uma cópia da receita. “Vocês sabem”, diria Paulo,
“se eu deixasse que aquele homem continuasse com aquele
sofrimento, sendo eu sabedor da cura certa, eu seria um canalha.
Eu tenho a receita com a potência, com o poder - precisamente
aquilo de que ele necessita. Devo contar-lhe isso. Sou devedor.
Há um senso de compulsão. Eu devo. “Ai de mim, se não

357
O Evangelho de Deus

anunciar o evangelho.” Sou impelido pelo próprio conheci­


mento que tenho.”
Pois bem, isso deve caracterizar todos os cristãos. Sabemos
que este nosso evangelho é o poder nesse sentido, e falamos
dele aos outros; pregamo-lo a eles, falamos com eles sobre o
evangelho, e lhes asseguramos que ele é poderoso e que dá os
resultados esperados. Parece-me, pois, que a relação entre estas
coisas - a obra realizada por Cristo, a aplicação feita pelo
Espírito, o evangelho e a Palavra - é assim: cada um destes é
mencionado como sendo o poder, e eles operam juntos dessa
maneira com vistas à produção desta segura, certa, indizível e
inatacável salvação em Jesus Cristo, nosso Senhor. Há um hino
de William Cowper que nos ajuda a entender isso:

Sobre a Palavra o Espírito sopra,


E a verdade traz à luz.

É isso. A verdade está ali, mas o Espírito a libera, a solta, e


então tudo acontece.
Bem, provavelmente vocês possam pensar em outras
ilustrações para salientar o mesmo ponto. A coisa que se deve
captar é que o apóstolo está afirmando que não se envergonha
do evangelho, pois ele é algo que Deus está realizando. E
realmente Deus que o está fazendo - não somente dizendo-nos
a respeito, mas fazendo-o, fazendo-o desta maneira, através do
evangelho.
E isso me leva ao quinto motivo pelo qual o apóstolo não
se envergonha do evangelho. É que se trata de um evangelho
para todos. “Não me envergonho do evangelho de Cristo, pois
é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê: primeiro
do judeu, e também do grego.” Notem a sua lógica. Por que
este evangelho é para todos? A resposta é: porque é o poder
de Deus. Se ele não fosse o poder de Deus, não serviria para
ninguém. Paulo pretende provar isso. Os gentios, que não
tinham a lei, eram um fracasso completo. Os judeus, que

358
Romanos 1:16,17

tinham a lei, igualmente eram um fracasso da mesma monta.


Ninguém pode salvar-se, com ou sem lei. Mas o evangelho é o
poder de Deus, e porque é o poder de Deus, há este fator
inteiramente novo. “Primeiro do judeu, e também do grego”,
diz o apóstolo.
Por que ele diz, “primeiro do judeu”? Ele não diz,
“especialmente do judeu”; não diz, “do judeu porque é judeu, e
porque este é mais importante que todos os demais”. Nada disso!
Ele se refere ao ponto cronologicamente, isto é, quanto à relação
de tempo. “A salvação vem dos judeus” (VA: “...é dos judeus”),
disse o nosso Senhor à mulher samaritana. E era! Ele, o Salvador,
veio da semente de Davi, segundo a carne. Começou com os
judeus; e a comissão dada pelo nosso Senhor aos apóstolos,
quando os enviou, foi: “...ser-me-eis testemunhas... em
Jerusalém...” (Atos 1:8). E aí que você começa. Depois, Samaria.
Enquanto esteve na terra, o Senhor limitou-Se às “ovelhas da
casa de Israel” (Mateus 15:24). Historicamente a salvação
começou com os judeus. Todavia não ficou só com os judeus -
foi de Jerusalém para Samaria, e depois “até aos confins da terra”.
Portanto, primeiro é para o judeu nesse sentido, como pura
questão de história. Os judeus eram o povo escolhido de Deus,
de modo que o evangelho devia ser pregado primeiro a eles, e o
apóstolo Paulo, quando partia em suas viagens missionárias,
geralmente começava pelos judeus, apesar de haver sido
comissionado pelo Senhor especialmente para pregar o
evangelho aos gentios. Historicamente, pois, o evangelho era
“primeiro do judeu”.
Mas essa não é a única coisa que o apóstolo quer dizer com
essa declaração. Penso que ele estava salientando mais uma coisa
aqui. Havia muitos que podiam pensar, e que de fato defendiam
naqueles dias, que este evangelho era somente para os gentios,
que o judeu, sendo judeu, não necessitava dele, porém os gentios,
estando fora do povo de Deus, teriam necessidade dele. Não,
declara Paulo, o evangelho é o poder de Deus para salvação do
judeu primeiro. Este necessita dele tanto quanto o gentio. Ora,

359
O Evangelho de Deus

é muito importante que eu diga isso, e por esta razão: se vocês


não compreenderem esse fato, não verão nenhum sentido,
nenhuma significação, nos capítulos dois e três desta grande
Epístola, porque toda a argumentação desses capítulos tem por
objetivo provar que os judeus, embora tendo a lei, estavam tão
perdidos e sem esperança como os gentios; o judeu precisa do
poder de Deus para salvação exatamente como todos os demais.
Por isso, não se diga que é somente para os gentios, afirma Paulo.
O evangelho é primeiro para o judeu, e também para o grego -
para o gentio.
É de vital importância que demos ênfase a este aspecto da
verdade e que o apliquemos nos dias atuais. Conheço muitos
homens e mulheres que estão prontos a dizer que somente
certas pessoas precisam ser convertidas. Eles argumentam:
“Certamente você não prega para nós como se nós fôssemos
pecadores; fomos criados sendo sempre trazidos a esta capela,
levados à Escola Dominical, desde quando éramos crianças.
Naturalmente, poderei entender, se você pregar para pessoas
que nunca em sua vida estiveram num lugar de culto e que
sempre estiveram entregues ao pecado. Posso ver a necessidade
que elas têm de nascer de novo, de receber o perdão e a
justificação, e assim por diante; mas certamente o seu evangelho
não' pretende dirigir-se a nós. Sempre fomos moralmente
virtuosos, bons, íntegros e decentes”. A resposta a esse tipo de
prosa é: “Primeiro do judeu”. Tais pessoas precisam do
evangelho tanto quanto as demais, se não mais na verdade, por
causa da sua terrível justiça própria. “Primeiro do judeu” - todo
o mundo precisa da salvação. Não há quem possa salvar-se a si
próprio - “Nenhuma carne será justificada diante dele pelas
obras da lei.” “Não há quem faça o bem, não há nem um só.”
“Todos estão debaixo do pecado”, culpados perante Deus
(Romanos 3:20, 9). Todos têm a mesma necessidade do poder
de Deus para salvação.
Mas finalmente, e graças a Deus por isso - se é verdade que
todos necessitam do evangelho, é igualmente verdade que ele

360
Romanos 1:16,17

traz esperança para todos. E não há outra coisa que faz isso. Há
muitos que o mundo considera sem esperança; para o evangelho
não há ninguém sem esperança. Por quê? Por causa do poder
de Deus! “Pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas
manchas?” (Jeremias 13:23) Não! Contudo, “para Deus nada é
impossível” (Lucas 1:37). Ninguém, em função unicamente do
pecado, está fora da salvação. Isso de ser grande pecador demais
para poder ser salvo não existe. O número dos seus pecados não
entra na questão, de modo nenhum. O caráter ou a natureza dos
seus pecados não importa nem um pouco. Diante de Deus não
há diferença entre o assassino e a pessoa mais confiante em sua
justiça própria - absolutamente nenhuma! Ambos estão
igualmente perdidos.
E nisso está a glória do evangelho - há tanta esperança para
o pecador mais desesperado, mais violento e mais sombrio
como para a pessoa mais fina e mais respeitável. Por quê? Porque
em ambos os casos o que vale é o poder de Deus, e para Deus
não há absolutamente diferença nenhuma. Ah, que conforto!
Que consolo! Será de admirar que o apóstolo não se
envergonhasse do evangelho? Ele podia ir para Roma sabendo
que o mais perdido malfeitor dos clubes noturnos de Roma
poderia ser salvo por este evangelho. Não importava a que
profundeza a pessoa poderia ter afundado, ou com quanta vileza
pudesse ter pecado, a ponto de quase estourar os miolos, ou
que se perdesse todo o resquício de bom caráter entre os homens.
Nada disso importava.

Seu sangue limpa o mais imundo,


E valeu para mim!

“Não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de


Deus para salvação de todo aquele que crê.” Os antecedentes
não importam; o passado não conta; tudo isso será apagado por
este poder, e o homem não somente será perdoado; será criado
de novo - uma nova criatura, com o poder de Deus dentro dele.

361
O Evangelho de Deus

e com a natureza divina nele. E assim ele iniciará aquele


maravilhoso curso que, nas mãos de Deus e por Seu poder, o
levará à glorificação final e ao regozijo que terá na santidade,
na presença de Deus.
E agora devemos prosseguir para ver como isso foi revelado
- como esse modo de agir de Deus foi revelado no evangelho e
pelo evangelho.

362
23
“Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está
escrito: mas o justo viverá da fé.” -Romanos 1:17

Vimos até aqui, nos versículos 16 e 17, que Paulo nos dá


cinco motivos pelos quais ele não se envergonha do evangelho
- porque é boa notícia ou boas novas, trata da salvação, é
mensagem do próprio Deus, e é mensagem poderosa. E esta
mensagem eficaz, eficiente, é um evangelho para todos - para
judeus e gregos.
Bem, então, dados aqueles cinco motivos, podemos ir
adiante e considerar o sexto motivo, que se acha no versículo 17
e que é o seguinte: é no evangelho que o poder de Deus é
revelado. “Porque”, diz ele (notem a repetição dessa palavra
“Porque”, do versículo 16), “Porque nele” (isto é, no evangelho)
“a justiça de Deus é revelada de fé em fé” (VA). Ora, a palavra
“revelada” é muito importante; é uma das palavras básicas da
fé cristã e, em certo sentido, uma das mais importantes. Não há
cristianismo sem revelação. E a Igreja Cristã está como está hoje
porque os homens se esqueceram da revelação e puseram a
filosofia em seu lugar. Eles vêm tentando encontrar Deus. Vêm
tentando reconstruir um Salvador, um “Jesus de Nazaré”. Vêm
tentando fazer um evangelho por sua conta. Temos ouvido falar
muito da “busca” da verdade, da “pesquisa” sobre a realidade.
Pois isso é exatamente o oposto do evangelho. O evangelho não
é algo que nos convida para que nos juntemos numa grande
busca ou numa grande procura. E uma proclamação. E uma
revelação. É um desdobrar, um desvelar algo. Significa “tornar
manifesto” ou “tornar simples e claro”. Esse é o sentido de
revelação - exatamente o oposto do que tem sido tão popular

363
O Evangelho de Deus

nos últimos cem anos, pelo menos. E o apóstolo afirma que


não se envergonha deste evangelho porque é a revelação da
justiça de Deus “de fé em fé”.
/

E preciso que entendamos bem isso porque, quando o


apóstolo afirma que o evangelho de Jesus Cristo é o modo da
justiça de Deus, não devemos interpretá-lo como se dissesse
que, absolutamente, isso não era conhecido no passado. Alguns
têm-se inclinado a dizer que nada se soube deste evangelho até
o nascimento do Senhor Jesus Cristo e a era do Novo Testamento.
Eles têm afirmado que não há nenhuma revelação do evangelho
no Velho Testamento; mas, naturalmente, isso é um erro, e
podemos provar que é um erro, na verdade já o provamos, num
sentido, quando consideramos o versículo 2 deste capítulo, onde
Paulo diz: “Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para apóstolo,
separado para o evangelho de Deus” («e então, entre parênteses),
“o qual antes havia prometido pelos seus profetas nas Santas
Escrituras” (ou “em Suas Santas Escrituras”). Portanto, jamais
devemos dizer que o evangelho é aqui revelado pela primeira
vez. Não é esse o sentido.
Temos, porém, outras evidências mais que comprovam essa
afirmação, pois no fim do versículo que estamos estudando
Paulo continua: “Porque nele a justiça de Deus é revelada de fé
em fé, como está escrito...”, e a seguir cita o capítulo dois de
Habacuque: “Como está escrito: mas o justo viverá da fé” (VA:
“pela fé”), mostrando que não é algo absolutamente novo, algo
de que nunca se ouvira falar antes. E depois, no capítulo 3,
versículo 21, ele o expressa de novo com muita clareza, dizendo:
“Mas agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus, tendo o
testemunho da lei e dos profetas”. Fora testemunhado pela lei
e pelos profetas, porém há um sentido em que agora está sendo
feito manifesto.
E ainda, quando chegarmos ao capítulo 4, vocês verão que
o apóstolo dedica a maior parte daquele capítulo para dizer
que este evangelho era conhecido no tempo de Abraão - que
este foi o meio empregado por Deus para justificar Abraão;

364
Romanos 1:17

vemo-lo, pois, ao menos com essa antigüidade. E nos


lembramos da declaração do nosso Senhor e Salvador Jesus
Cristo, quando Ele disse: “Abraão, vosso pai, exultou por ver o
meu dia, e viu-o, e alegrou-se” (João 8:56). Ele não o viu clara­
mente, mas o viu, e se regozijou nele. Assim, não devemos dizer
que se trata de algo absolutamente novo, e que antes era
inteiramente desconhecido. O apóstolo se preocupa tanto com
isso que de novo diz, no último capítulo desta Epístola, nos
versículos 25 e 26: “Ora, àquele que é poderoso para vos confir­
mar segundo o meu evangelho e a pregação de Jesus Cristo,
conforme a revelação do mistério que desde tempos eternos
esteve oculto, mas que se manifestou agora, e se notificou pelas
Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno,
a todas as nações para obediência da fé...”. Aí está, mais uma
vez. E também há outra ilustração da mesma coisa em Efésios,
capítulo 3, versículos 3 a 6.
Então, que significa isso? Bem, podemos expressar-nos
dizendo: era conhecido daquela maneira, mas não estava claro;
agora é manifesto. Via-se então, se vocês quiserem, como “em
espelho, obscuramente” (1 Coríntiosl3:2, ARA). O apóstolo
Pedro, vocês se lembram, em sua Primeira Epístola, capítulo
primeiro, versículos 10 a 12, diz-nos que os profetas “inqui­
riram”; eles não entenderam plenamente quando predisseram
“os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se
lhes havia de seguir”, mas lhes foi revelado que “não para si
mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas...”. Eles o
viam obscuramente, vagamente. Sim! Eles o viam, porém não
claramente. “Mas agora”, declara Paulo, “se manifestou” - foi
feito manifesto. Está aberto; é um segredo revelado. Não é mais
mistério. O mistério foi revelado. Foi exposto clara e
diretamente. E, como é natural, essa é uma coisa na qual o
apóstolo se regozija, e na qual todo o povo cristão deve regozijar-
-se com ele.
Há apenas mais uma coisa acerca da palavra “revelada” qúe
me parece importante e que merece ênfase. Não significa que

365
O Evangelho de Deus

algo é posto diante de nós para que o contemplemos. Significa


isso, mas também significa muito mais. Nestes dois versículos
o apóstolo não está dizendo apenas que Deus coloca o Seu
método de salvação diante da humanidade para que esta o
considere. O que ele está realmente dizendo, como já vimos
quando estudamos o sentido da palavra “poder”, é que isso está
em operação agora. Está sendo posto em prática. Já se tornou
eficaz. Já está em execução, e está claro e simples e manifesto
nesse sentido, e o apóstolo regozija-se grandemente quando
pensa nisso. E quão privilegiada é a nossa posição atual como
cristãos! Olhamos retrospectivamente, para os anos da antiga
dispensação, e vemos as pessoas olhando prospectivamente,
para algo glorioso que haveria de acontecer no futuro, enquanto
nós podemos olhar para trás e dizer que já aconteceu, já ocorreu!
O evento é o mesmo - eles o viam no futuro, nós o vemos no
passado. No entanto é a mesma grande verdade, a mesma
extraordinária revelação.
Aí está, pois, o sexto motivo de Paulo - passemos agora ao
sétimo. A sétima razão pela qual ele não se envergonhava do
evangelho é o “conteúdo” da revelação. Qual é esse conteúdo? É
a “justiça de Deus”. “Porque nele”, diz o apóstolo, “a justiça
de Deus é revelada.” Pois bem, de muitas maneiras esta é a
expressão-chave da Epístola toda; certamente é a expressão-chave
destes dois versículos; e de fato é, como eu já disse, a chave para
o entendimento de todo o argumento do apóstolo, que percorre
esta Epístola, e também de todo o seu argumento em suas outras
Epístolas. Em certo sentido, é uma chave para o entendimeno
da fé cristã e da mensagem cristã. E não podemos tratar disto
sem que nos lembremos de que foi quando Martinho Lutero
passou a entender isto que verdadeiramente ele se tornou cristão.
Foi a compreensão desta frase que realmente produziu a Reforma
Protestante. Portanto, há um sentido em que podemos dizer
que, se nós, como protestantes, não entendemos acertadamente
o versículo 17 do primeiro capítulo desta Epístola, somos
indignos do nome protestante - na verdade, é até de duvidar

366
Romanos 1:17

que somos cristãos. Em todas as Escrituras não há versículo


mais vitalmente importante do que este versículo 17.
Que será, então, que Paulo quer dizer com “justiça de
Deus”? “Porque nele a justiça de Deus é revelada.” Para
respondermos, precisamos começar com uma negativa; a
expressão não se refere à justiça como “atributo” de Deus, nem
da Pessoa nem do caráter de Deus. Às vezes a frase “justiça de
Deus” é empregada dessa maneira. Quando se estudam os
atributos de Deus, deve-se incluir o atributo da justiça. Tudo o
que Deus faz é justo, e assim, um dos atributos do Seu caráter
como Deus é a Sua justiça eterna e sempiterna. Mas estou
opinando - na verdade, estou afirmando categoricamente - que
nesta altura não significa isso, e por esta boa razão, que, se o
evangelho de Jesus Cristo fosse meramente uma revelação da
santidade, da justiça e da retidão de Deus e nada mais, longe de
ser boas notícias, longe de ser um evangelho, seria a coisa mais
terrível e mais alarmante que poderíamos descobrir.
E justamente neste ponto que a experiência de Lutero é de
tão grande valor para nós, porque Lutero, quando ainda era
católico romano, resolveu fazer uma série de preleções sobre a
Epístola aos Romanos. Ele topou com este versículo e, porque
entendeu mal o sentido da “justiça de Deus”, sofreu grande
agonia de alma. Ouçam as suas palavras: “Trabalhei diligente e
ansiosamente com vistas a entender a palavra de Paulo em
Romanos 1:17, onde ele diz que “a justiça de Deus é revelada”
no evangelho. Esforcei-me muito e clamei ansiosamente, pois
a expressão “a justiça de Deus” bloqueava o caminho”. Vocês
vêem, ele pensava que se tratava apenas de uma descrição do
caráter de Deus e do Seu ser, e quando ele estava diante desta
revelação de Deus, que é luz e em quem não há treva nenhuma
(cf. 1 João 1:5), de um Deus tão justo que nem sequer pode
olhar para o pecado - quando viu esta justiça de Deus, simples­
mente achou-a impossível; diz ele que a expressão “a justiça de
Deus” lhe bloqueava o caminho da salvação. E foi adiante e
disse: “Todas as vezes que leio essa declaração, penso que seria

367
O Evangelho de Deus

bom que Deus não tivesse dado a conhecer o evangelho”. Como


vocês podem ver, ele pensava que significava que no Velho
Testamento havia uma revelação da justiça de Deus - nos Dez
Mandamentos e na lei moral - sim, ele realmente achava isso
uma revelação imperfeita do evangelho - porém que somente
em Cristo temos uma revelação completa, uma revelação
infinitamente maior. O Velho Testamento diz: “Olho por olho,
dente por dente”; este evangelho diz: “Amai os vossos ini­
migos”, e assim por diante - na tremenda exposição dele feita
no Sermão do Monte. Lutero disse: “Eu vi isso, e sempre desejei
que Deus não tivesse dado a conhecer o evangelho, porque esta
revelação mais completa da justiça de Deus fazia-me sentir
totalmente desesperado e desamparado, e eu não sabia o que
fazer comigo mesmo; a “justiça de Deus” bloqueava o caminho”.
Isso mostra quão importante é que entendamos claramente o
que o apóstolo quer dizer com esta expressão.
Que significa então? Bem, na passagem em foco significa
uma justiça que vem de Deus, e uma justiça que satisfaz a Deus.
Vamos abordar o ponto da seguinte maneira: que é justiça? A
luz do que eu estive dizendo acerca da justiça como atributo do
caráter de Deus, justiça significa necessariamente conformidade
com Deus, conformidade com a lei de Deus, conformidade com
as exigências de Deus. Justiça é aquilo que é aceitável a Deus,
que causa prazer a Deus; assim, a justiça no homem só pode
significar que o homem é capaz de satisfazer as exigências de
Deus e o desiderato de Deus. Significa que o homem procede
para consigo mesmo de tal maneira que Deus o considera
aceitável. Significa que o homem experimenta a aprovação de
Deus. Significa que o homem é aceitável a Deus, porque agora
ele é semelhante ao próprio Deus. Esse é o sentido de “justiça”.
E o que o apóstolo diz nesta passagem é que ele se regozija no
evangelho porque nele a justiça de Deus para com o homem foi
revelada.
Aí está uma tremenda declaração. A primeira coisa que
notamos é que o evangelho de Jesus Cristo preocupa-se com a

368
Romanos 1:17

justiça tanto como a lei se preocupa. Procuremos entender isso


com absoluta clareza. O evangelho de Jesus Cristo insiste na
justiça do homem perante Deus tanto como o Velho Testamento
fez na antiga dispensação. O evangelho não repudia a lei. Pois
bem, o apóstolo diz isso nesta passagem, mas ouçam-no dizê-lo
de novo no versículo 31 do capítulo 3. Tendo feito a exposição
deste versículo, ele diz: “Anulamos, pois, a lei pela fé? Diz
ele: “Alguém poderá dizer-me: olhe aqui, Paulo; você acabou
de dizer-nos que agora está pregando uma justiça de Deus sem
a lei, independentemente da lei. Então você anula a lei? Você
quer dizer que a lei é inútil e sem valor? Você alija a lei pela fé?
“De maneira nenhuma”! - responde ele, “antes estabelecemos
a lei.” Então tome cuidado para não pôr o evangelho contra a
lei, como se o evangelho jogasse fora a lei. De maneira alguma!
O evangelho estabelece a lei.
Vocês vêem a importância disto? Se não o entendermos
bem, teremos uma idéia errônea do propósito do evangelho de
Jesus Cristo. Que é que o evangelho de Jesus Cristo se propõe a
fazer? Que se espera que ele realize? E propósito do evangelho
de Jesus Cristo meramente dar-me perdão e livrar-me do
inferno? O evangelho de Jesus Cristo foi destinado apenas a
fazer-me feliz, a eliminar certos problemas, dificuldades e
aborrecimentos da minha vida, e a dar-me certa medida de ajuda
para resolver coisas que tendem a abater-me? Graças a Deus, o
evangelho faz todas essas coisas, mas não é esse o seu real objetivo;
não foi por isso que Cristo veio; não é essa a intenção real, não é
esse o real propósito do método cristão de salvação.
Qual será então? Bem, temo-lo exposto na passagem em
foco: o fim principal, o objetivo supremo do evangelho cristão
é responder à pergunta feita por Jó há muitos séculos: “Como
pode o homem ser justo para com Deus?” (9:2, VA e ARA). E
a isso que se chega. O que compete ao evangelho fazer é tornar-
-nos justos aos olhos dc Deus, tornar-nos aceitáveis a Deus,
capacitar-nos a estar de pé na presença de Deus. Pois bem, você
pode ter sentimentos confortadores, pode ter experiências

369
O Evangelho de Deus

maravilhosas, pode ter tido uma grande mudança em sua vida,


e muitas coisas erradas podem ter saído da sua vida, mas eu
digo que, se você não tem algo que o habilite a estar de pé diante
de Deus, agora, e no dia do Juízo, você não somente não é cristão;
você nunca entendeu o evangelho. Este é o propósito central do
evangelho - tornar o homem justo para com Deus, capacitá-lo
a permanecer com justiça na presença de Deus.
Ora, jamais se poderá dar ênfase a esse ponto demasiadas
vezes. Parece-me que um dos perigos que estão sempre
confrontando a Igreja e a obra de evangelização é perder a visão
dessa verdade, e a conseqüência é que não somente temos uma
falsa evangelização, porém também temos conversões espúrias.
O que se tem é algum tipo de “fideísmo”, em vez de fé, e um
tipo de indivíduo que se considera cristão ou cristã, mas que
não se interessa pela justiça. Tais pessoas dizem que já não temem
castigo, acreditam que estão perdoadas, e têm isto e aquilo! Mas
a questão é esta - conhecemos a Deus? Acaso a nossa salvação
nos leva à presença de Deus? Esse é o objetivo da salvação cristã.
Preocupa-se profundamente com a justiça, tanto quanto o faz a
lei. Ela não anula a lei. Estabelece a lei.
No entanto como o faz? Essa é a grande questão e, natural­
mente, é nisso que o apóstolo se gloria. Como pode o homem
ser justo para com Deus? Antes de poder ser justo para com
Deus, ele deverá ter cumprido a lei, deverá tê-la honrado em
todos os aspectos; ele deverá ser libertado e estar livre da
condenação da lei e da sua ameaça de castigo. Como se pode
fazer isso? Ora, aí está toda a glória do evangelho. Por isso Paulo
estava pronto para pregá-lo em toda parte, em toda e qualquer
ocasião, a todo e qualquer tipo de indivíduo. O que vem revelado
no evangelho, diz ele, é o meio pelo qual Deus resolve esse
problema, e o meio de que Deus se serve é que Deus mesmo
nos propicia a justiça que Ele exige. E o evangelho é isso! O
evangelho nos fala de uma justiça proveniente de Deus, justiça
providenciada por Deus, em nosso Senhor e Salvador Jesus
Cristo e por meio dEle.

370
Romanos 1:17

E isso acontece da seguinte maneira: o Senhor Jesus Cristo


satisfez a lei de Deus em nosso favor, perfeitamente e em todos
os sentidos. Ele nasceu “de mulher”, vocês se lembram, nasceu
“sob a lei”, e, tendo assim nascido sob a lei, Ele prestou perfeita
obediência à lei; cumpriu-a em cada jota e em cada til. Não
falhou em nenhum aspecto. Ele cumpriu a lei de Deus completa,
perfeita e absolutamente. Não somente isso! Ele Se envolveu
com a pena imposta pela lei ao pecado e a todos os pecados. Ele
tomou sobre Si a minha culpa e a de vocês, e levou sobre Si o
castigo que a nossa culpa merecia. Foi-Lhe imposta a pena da
lei, e Ele honrou completamente a lei, positiva e negativamente,
ativa e passivamente. Não há mais nada que a lei possa exigir;
Ele satisfez tudo.
E o que o evangelho anuncia é que Deus O enviou para
fazer isso. E o meio de que Deus se utiliza para a salvação é que
agora Ele nos dá, aos que cremos em Cristo, a justiça do próprio
Senhor Jesus Cristo. Ele no-la “imputa” - esse é o termo, o que
significa que Ele a põe em nossa conta. Ele credita em nossa
conta a justiça de Jesus Cristo. Primeiramente, Deus cancela os
nossos débitos porque Cristo os pagou, de modo que nessa parte
o livro fica cancelado e limpo; depois, positivamente, Ele credita
toda a perfeição e toda a justiça de Cristo a meu favor, e assim,
vestido e adornado com a justiça de Jesus Cristo, fico de pé na
presença de Deus. E isso que o apóstolo quer dizer quando
declara: “Porque nele a justiça de Deus é revelada” - esta justiça
que Deus preparou e nos dá em Cristo e por intermédio dEle.
Essa é, em geral, a mensagem do evangelho.
Notem de novo como o apóstolo o repete: Ele o diz aqui,
no capítulo primeiro, versículo 17; torna a dizê-lo no capítulo
3, versículo 21. Começando no versículo 20, ele diz: “Por isso
nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei,
porque pela lei vem o conhecimento do pecado. Mas agora se
manifestou sem lei (quer dizer, independentemente da lei) a
justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas; isto
é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre

371
O Evangelho de Deus

todos os que crêem; porque não há diferença”. Ora, talvez a


afirmação mais clara desta verdade seja a que vem em Filipenses
3:9. Diz o apóstolo que a sua ambição é - “que seja achado nele,
não tendo a minha justiça que vem da lei, mas a que vem pela
fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé (ou por
meio da fé)”. Ora, aí está, e bem claro, como vocês podem ver.
Pela fé em Cristo, “não tendo a minha própria justiça que vem
da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que
vem de Deus” (VA: “...a justiça que é de Deus”). Não a justiça
de Deus como atributo, e sim uma justiça que é de Deus ou
que vem de Deus e que nos é dada pela fé - a justiça de Cristo
que nós temos pela fé.
Pois bem, somente quando captamos esta doutrina é que
realmente chegamos a ver o evangelho como boas novas. Aí
está Deus em Sua justiça e retidão eterna; aqui estamos nós em
nosso pecado. Como pode o homem ser justo para com Deus?
Quem pode resistir a um fogo consumidor?

O Luz Eterna! Eterna Luz!


Quão pura a alma deve ser
Quando, sob Tua vista penetrante,
Não sucumbe, mas, calma e exultante,
Pode olhar para Ti e viver!

O evangelho é isso. E só há uma resposta; há somente um


caminho

Jesus, Teu sangue e Tua justiça


Minha veste são, bela e castiça...

Somente quando vestidos da justiça de Jesus Cristo é que


podemos permanecer firmes na presença de Deus. E o evangelho
é o anúncio de que esse é o método divino de salvação - esse é
que foi revelado - que esta justiça que o próprio Deus nos dá é
o meio pelo qual somos feitos justos na presença de Deus. A

372
Romanos 1:17

salvação é isso. Esse é o cerne da salvação. É o centro da salvação.


Não o meu sentimento ou o de vocês, ou esta experiência ou
aquela, mas esta coisa tremenda que Deus faz e nos dá
inteiramente de graça, sem dinheiro e sem preço. Não é de
admirar que o apóstolo diga que não se envergonha do
evangelho. Aí está, pois, o sétimo motivo, mas prossigamos e
consideremos o oitavo.
A oitava razão que o apóstolo dá é que o evangelho mostra
como esta justiça passa a ser nossa. Como esta justiça me vem
concretamente, a mim como indivíduo? A resposta que ele dá
é que vem “de fé em fé”. Agora notem a importância disto -
dentro do espaço destes dois versículos o apóstolo menciona
esta idéia de fé quatro vezes. “Porque não me envergonho do
evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de
todo aquçle que crê” (essa é a primeira vez): “primeiro do judeu,
e também do grego. Porque nele a justiça de Deus é revelada de
fé” (segunda) “em fé” (terceira), “como está escrito: mas o
justo viverá da fé” (quarta). E óbvio, pois, que este conceito é
vitalmente importante. Que é fé? Que é que Paulo quer dizer
com a palavra fé? De novo lhes digo que vocês não poderão
entender a Epístola aos Romanos se não souberem bem o que é
fé, se não souberem exatamente o que significa. E nem sempre
é tão simples como parece - muitas vezes esta categoria de fé foi
mal entendida, e algumas pessoas a entendem tão mal que
negam precisamente o que Paulo está ensinando neste ponto.
Então, que é fé? De novo devemos começar com negativas.
A fé não é algo que existe em todos os homens; não é uma posse
subjetiva de toda a humanidade. Ora, muitas vezes a apresentam
como se fosse; vocês devem ter visto isso muitas vezes. Já o ouvi
expresso em termos como estes: pessoas há que dizem: “Toda
esta questão de salvação é muito simples; ninguém
✓ deve ficar
atrapalhado por causa desta idéia de fé. E claro”, dizem elas,
“que toda a sua vida é uma vida de fé. Você vai de ônibus para
casa de noite, e está logo exercendo a fé - fé no motorista, fé nas
outras pessoas que estão dirigindo na mesma estrada. Ou, você

373
O Evangelho de Deus

pode ir de trem; bem, naturalmente, assim que você toma


assento no trem, está exercendo a fé - fé no maquinista, fé nos
freios. A vida nós a vivemos toda pela fé. Você come pão com
manteiga - tem fé no padeiro, tem fé no lacticínio”.
Pois bem, para mim isso não é só completa e inteiramente
errôneo, é totalmente ridículo. Não é dessa fé que o Novo
Testamento fala; na verdade, de modo nenhum eu reconheço
isso como fé. Quando você toma um trem, não está exercendo
fé no maquinista; está simplesmente pondo em prática a
chamada lei da probabilidade matemática. Que quer dizer isso?
Quer dizer que, conscientemente talvez, você está dizendo a si
mesmo: “Bem, milhares, milhões de pessoas fazem isso todos
os dias, e tudo sai bem. E o meio pelo qual as pessoas viajam
normalmente, e assim vou fazer o mesmo”. Você, ou nem sequer
pensa, ou, se começa a raciocinar, é desse jeito - A lei da
probabilidade matemática! É uma possibilidade em um milhão
de que dê errado, ou seja qual for a proporção numérica. Você
está agindo com base numa pressuposição geral. Isso não é fé,
porque a fé sempre é inteligente e sabe o que faz. Não é algo
inconsciente ou subconsciente. É uma tremenda atividade.
Vocês se lembram de que já a definimos como “a obediência da
fé”. Não! Não se trata apenas de agir com base em suposições,
tomando como algo comprovado que, como em geral tudo dá
certo, vai dar certo desta vez, e que não vou ser o raro milio­
nésimo homem em cujo caso de repente vai dar errado, seja
com a comida, seja com a viagem, ou seja com o que for.
Isso não é fé. Não merece essa descrição. É indigno desse
designativo.
Quando o Novo Testamento fala de fé, fala de algo especial,
algo novo: “Pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não
vem de vós; é dom de Deus”. Nem todos os homens têm fé,
dizem as Escrituras. É algo que só se acha no cristão. E o dom
peculiar por meio do qual Deus passa esta Sua justiça ao crente,
e a ninguém mais. A fé é uma qualidade peculiar, especial, dos
cristãos. Muito bem, pois; esse é o primeiro ponto que nos cabe

374
Romanos 1:17

defender em conexão com esta afirmação: “De fé em fé”.


A segunda é a seguinte: uma tradução melhor seria esta:
“Nele a justiça de Deus é revelada pela fé à fé”. Ou, melhor
ainda, poríamos a frase nestes termos: “Pois nele é revelada a
justiça de Deus pela fé à fé”. Ora, esperem um minuto.
Entendamos bem a expressão “pela fé”. Que significa? Bem,
não significa que a fé é a condição para a salvação. Não significa
que é a nossa fé que determina a nossa salvação. Não significa
que a fé é algo exigido como uma condição para que sejamos
salvos. E, em segundo lugar, não significa que a fé é uma espécie
de “exigência mais leve” que Deus nos faz agora; mais leve que
a lei, quero dizer. Quantas vezes se fala dela nesses termos! Há
os que dizem: “Como somos privilegiados! Como é maravilhoso
viver nesta época! Sob a antiga dispensação Deus confrontava
as pessoas com a lei; Ele lhes dizia: obedeçam a isto, e vocês
serão salvos. Ou obedecem, ou não serão salvos. Elas eram
confrontadas pela lei. “Ah!”- dizem eles, “agora não é assim;
temos uma nova dispensação. Deus não fala mais da lei. Deus
simplesmente diz: vocês querem crer em meu Filho? Querem
aceitar meu Filho, ou não? Quanto mais fácil é fazer isso!”,
dizem eles; “quanto mais fácil é crer em Cristo do que guardar
a lei!” Assim, consideram a fé como uma espécie de nova lei,
mais fácil e mais simples que a antiga.
Mas vocês já devem ter notado que quando consideramos a
palavra “justiça” vimos que isso é totalmente impossível,
porque essa posição se baseia na idéia de que a lei foi revogada
completamente, e que o evangelho “anula a lei” oferecendo-
-nos um meio mais fácil de obter a nossa salvação. Como se
Deus dissesse: “Bem, afinal de contas, o outro era muito difícil;
esqueça tudo o que lhe diz respeito. Você quer ou não quer crer
em meu Filho? Se quer, está tudo bem, e você entrará
facilmente no céu”. Não é esse o sentido de “pela fé”.
Qual será então? Bem, quando o apóstolo faz uso da
expressão “pela fé”, sempre quer dizer a mesma coisa; é sempre
o oposto a tudo quanto é legalista; não o oposto à lei, mas o

375
O Evangelho de Deus

oposto a tudo quanto é legalista. Vejam o que Paulo diz sobre


si próprio em Filipenses, capítulo 3; ele declara que - no que
se refere às exigências da lei - se julgava perfeito e justo. Isso é
ser legalista: alguém pensar que se tornou justo pela observância
da lei. Ora, a fé é exatamente o oposto disso. A fé é a contradição
de tudo o que é (ou se julga) meritório no homem. A fé é a
contradição e a negação de toda tendência que leva o homem a
pensar que o seu mérito é suficiente. De fato, é na exclusão das
pretensões de merecimento que se produz o merecimento da
verdadeira fé, de modo que, se o que você chama sua fé não
tirou da sua vida todo senso de merecimento que você tinha,
você não tem fé.
Mas deixe que eu lhe diga o seguinte: a nossa fé no Senhor
Jesus Cristo não é a nossa justiça; a nossa fé não constitui a nossa
justiça. A fé é simplesmente o instrumento pelo qual recebemos
a justiça. Ou, ainda, vejam isto: a nossa fé não nos justifica. Se
você começar a falar desse jeito, note bem, você logo transformará
a fé em obras. Você diz: “Ah, estou justificado por causa da
minha fé; foi a minha fé que fez isso” - e imediatamente você
tem algo de que se gloriar. “O outro homem não tinha fé, e eu
tenho; a minha fé me salvou”. Logo, você está contradizendo
Romanos 1:17. A nossa fé não nos justifica. O que nos justifica
é a justiça de Cristo - e nada mais!

Jesus, Teu sangue e Tua justiça


Minha veste são, bela e castiça...

Não é a minha fé. Oh, queira Deus impedir-nos de transformar


a nossa fé em obras, e de tentar justificar-nos pela nossa fé. Não
devemos fazer isso. Cristo é a minha justificação. Sua justiça é
que me endireita, mas ela me vem por meio da fé. A fé é o
instrumento, o canal, pelo qual a justiça de Cristo me é dada, e
pelo qual sou habilitado a aceitá-la.
Vejamos esta verdade de novo em Romanos, capítulo 3,
versículos 21 e 22: “Mas agora se manifestou sem a lei a justiça

376
Romanos 1:17

de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas, isto é, a


justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos
os que crêem...”. E a justiça de Deus em Cristo. E pela fé em
Jesus Cristo que a justiça de Cristo nos vem. É pela fé que a
recebemos, porém a nossa fé não é a nossa justiça. Como é
importante essa distinção! Assim é que, se você se gaba da sua
fé, ainda está em seus pecados, continua sendo injusto. “Longe
esteja de mim gloriar-me” em coisa alguma - nem mesmo em
minha fé - a não ser no Senhor Jesus Cristo, a não ser em Sua
cruz, “pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o
mundo” (Gálatas 6:14). Vemos, pois, que a fé é meramente o
instrumento ou o canal pelo qual a justiça de Deus chega a nós,
e pelo qual somos capacitados a receber esta justiça.
E vocês notarão que ele afirma que é “de fé em fé”, expressão
que eu já traduzi para vocês nestes termos: “pela fé à fé” - de
modo que o que o evangelho revela é a justiça de Deus pela fé à
fé. Noutras palavras, o que o apóstolo está acentuando é que a
salvação é segundo o método utilizado por Deus de justiça pela
fé, não de uma justiça mediante a tentativa de cumprir a lei,
não de uma justiça mediante algum esforço ou alguma atividade
humana, mesmo que você lhe chame fé. E justiça de Deus pela
fé - e esta vem e é revelada à fé presente nos crentes.
Pois bem, há muitas explicações da expressão “de fé em fé”
; alguns dizem que significa, da fé do Velho Testamento à fé do
Novo Testamento; outros dizem que significa de uma fé fraca a
uma fé forte. Todas essas coisas são verdadeiras. Alguns dizem
que significa simplesmente uma declaração intensiva para
ênfase a que é somente pela fé; dizem eles que há expressões
semelhantes, como “de morte em morte” e “da vida para a vida”,
e assim o apóstolo diz aqui “de fé em fé” simplesmente no
sentido de fé, e fé somente. Mas, como venho dizendo, prefiro
pensar nisso doutra maneira - que o que ele está dizendo é que
a justiça de Deus pela fé é revelada à nossa fé. Unicamente o
homem que tem fé é que a vê, e que a aceita, gloriando-se e
regozijando-se nela.

377
O Evangelho de Deus

Torno a citar Efésios 2.8: “Porque pela graça sois salvos,


por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus”. “Ora, o
homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus,
porque lhe parecem loucura...”. “Mas nós não recebemos o
espírito do mundo, mas o Espírito que provém de Deus, para
que pudéssemos conhecer o que nos é dado gratuitamente por
Deus” (1 Corindos 2:14,12). Ouçam ainda o Senhor Jesus
Cristo: “Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que
ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos
pequeninos” (Mateus 11:25,26). Aí está. Somente o homem
que tem o dom da fé é que vê esta justiça pela fé em Jesus
Cristo, e a aceita, e se regozija nela - e somente nela.
E, finalmente, o apóstolo prossegue e afirma que realmente
isso tudo não é novidade - “Como está escrito: mas o justo viverá
pela fé”. Ah, que declaração importante! Foi essa a frase que de
fato deu liberdade a Martinho Lutero, como ele mesmo nos
conta. A expressão “a justiça de Deus” era a pedra de tropeço
para ele. Ele a descrevia como a “concepção abstrata da justiça
de Deus”, e ele não conseguia livrar-se disso; mas então, subita­
mente, ele viu esta frase: “O justo viverá pela fé”. “Ah”,
exclamou ele; “afinal de contas existe isso, uma pessoa justa,
uma pessoa reta! Existe a justiça abstrata; eis aqui a justiça
concreta”.
Perguntou então: “Que será isso?” E de repente viu; viu
que nisso está toda a diferença entre a lei e a fé. Ele estivera
tentando acionar a justiça segundo a lei, porém existia essa pedra
de tropeço absoluta - esta justiça de Deus. Mas agora ele começa
a ver. Como é que essas pessoas são justas? Ah, é uma justiça
mediante a fé! Assim, pois, essa justiça de Deus não se refere
ao atributo de Deus - é uma justiça que Deus dá, e a dá à fé.
Toda a vida de Lutero sofreu revolução; ele viu a justiça abstrata
e a concreta convergirem, e eis como ele se expressa a respeito:
“Quando eu vi a diferença, que a lei é uma coisa e o evangelho
outra, consegui passar”! Ele rompeu a barreira que o detinha -
e prossegue - “Como antes eu odiava a expressão” a justiça de

378
Romanos 1:17

Deus”, agora comecei a considerá-la como a minha palavra


mais amada e mais consoladora; e assim esta expressão de Paulo
tornou-se para mim, na mais plena verdade, uma porta do
Paraíso”. Que revelação! Que transformação! De um miserável,
desprezível e infeliz monge, que vivia contando as contas do
rosário, jejuando, suando e orando, e, todavia, cada vez mais
cônscio do seu fracasso - desse monge infeliz ao arauto da
Reforma, ao glorioso pregador do evangelho, que se regozijava
na “gloriosa liberdade dos filhos de Deus”! E isso lhe veio pelo
entendimento de Romanos 1:17. A justiça abstrata, a justiça
concreta!
Habacuque já havia dito isso, embora sem entendê-lo
plenamente. Ele estava pensando no problema do seu tempo -
os filhos de Israel em cativeiro sob os caldeus - Que vai
acontecer com eles? Serão exterminados? Será o fim? Não! “O
justo por sua fé viverá” - ou, uma tradução bem melhor seria:
“O reto pela fé, ou o justo pela fé viverá”. Noutras palavras,
aqueles que são justos pela fé, viverão. Muitos poderão levá-los
à morte, mas eles continuarão sendo retos para com Deus, e
continuarão vivendo por toda a eternidade. Esse é o princípio
básico. Os retos, ou os justos, pela fé viverão. Eles pertencem a
Deus, e nada poderá separá-los definitivamente do amor de
Deus que está em Cristo Jesus nosso Senhor. Não é surpreendente
que Paulo cite aquelas palavras, não somente em Romanos 1:17
mas também em Gálatas 3:11, como igualmente o faz o autor
da Epístola aos Hebreus - em Hebreus 10:38. Não há declaração
mais importante do que esta - “O justo pela fé viverá”. Tendo
sido justificados por Deus, estamos salvos eternamente.
“Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os
anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente,
nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma
outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em
Cristo Jesus nosso Senhor.” Sendo justificado por Deus, estou
justificado para sempre. Nada e nem ninguém jamais poderão
mudar isso.

379
24
“Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade
e injustiça dos homens...” - Romanos 1:18

Agora vamos tratar aqui, de certa forma como uma


introdução, do que de muitas maneiras é a parte mais crucial
desta Epístola. Vimos que nos versículos 16 e 17 o apóstolo firma
os grandes temas da Epístola toda, e, portanto, obviamente, é
importante que os tenhamos bem claros em nossas mentes.
Muitos leram a Epístola aos Romanos e perderam o rumo,
ficaram confusos e a acharam extremamente difícil. Pens&que
é provavelmente porque eles não compreenderam, como
deviam, o que o apóstolo diz nos versículos dezesseis e dezes­
sete. Pois bem, estivemos comentando que ele está explicando
no versículo dezesseis por que não se envergonha do evangelho;
ele deu os seus motivos. Depois, no versículo dezessete, em parte
ele continua com aquilo, mas também, ao mesmo tempo, declara
qual é o tema do evangelho. Foi o que há pouco estivemos
considerando. Procurei dar-lhes uma visão geral e completa
disso. Achei importante fazer-lhes uma exposição completa do
seu significado, apesar de tomar algum tempo, para que
tivéssemos uma visão global daquela declaração.
De muitas maneiras, em toda a Epístola não há✓ versículo
mais importante que este versículo dezessete. E uma declaração
do conteúdo do evangelho, como já vimos. E o anúncio, a
revelação da justiça de Deus, a justiça de Deus que nos vem
pela fé, e assim, uma justiça pela fé dada à fé. E como ele no-lo
diz, e como vimos, isto não é algo novo; sempre foi o método
de Deus. E ele toma um exemplo disso - como foi declarado
por Habacuque no capítulo dois da sua profecia, versículo 4,

380
Romanos 1:18

cujas palavras são traduzidas nesta passagema de Romanos,


conforme a Versão Autorizada (inglesa), desta maneira: “O justo
viverá pela fé”, o que vimos que pode ser traduzido melhor: “O
justo pela fé viverá”; ou, “O reto pela fé viverá”. Pois bem, essa
é a grande proclamação do evangelho, e esse é o tema da Epístola
aos Romanos; diz ela que Deus, em Sua infinita sabedoria, e
em Seu infinito amor, misericórdia e compaixão, viu um meio
pelo qual salvar os injustos e torná-los justos, e o meio é que ele
nos dá, que ele “imputa” a nós, a justiça de Seu Filho, nosso
bendito Senhor e Salvador Jesus Cristo.
Ora, esse é o cerne do evangelho - que temos uma justiça
que nos vem de Deus, a justiça de Seu Filho nos é dada. Nisso
consistem as boas novas, boas e maravilhosas! E é por essa razão
que o apóstolo não somente não se envergonha do evangelho,
mas também usa deliberadamente aquela figura de linguagem,
a litotes, para dizer que na verdade ele se ufana muito dele. Ele
está pronto para pregá-lo em Roma, ou em qualquer outro lugar;
não importa onde.
Muito bem, não devemos deter-nos nestes termos particu­
lares, mas já procurei indicar em termos gerais que precisamos
ter claro entendimento da palavra “fé”; que é algo muito
especial; que não é o que comum e geralmente as pessoas
chamam fé, o que nós de modo nenhum consideramos fé.
Todavia é desse modo que muitas vezes a fé é entendida. As
pessoas dizem: “Ah, sim, todo homem tem fé”, o que significa
que a fé natural é aplicada às coisas de Deus, e por ela o homem
é salvo. Procuramos demonstrar que a fé não é isso. Mas há
outros perigos em conexão com a palavra “fé”. Há algumas
pessoas que parecem considerar a fé como o oposto das obras.
Ora isso, em seus próprios termos, também não está certo,
porque o oposto das obras não é a fé. O oposto das obras é a
justiça de Deus. E isso que o apóstolo está contrastando - os
homens que tentam salvar-se pelas obras, e esta outra salvação,
que é a dádiva que nos é feita da justiça de Jesus Cristo. Jamais
você poderá tornar-se justo pelas obras, diz o apóstolo. A única

381
O Evangelho de Deus

justiça que vale é a que Deus dá. Vocês vêem, o oposto das
obras não é a fé. Não! A justiça de Cristo é que é o oposto das
obras, e esta justiça nos vem mediante a fé.
E a seguir, de igual modo é importante que nunca digamos
que a fé é o oposto da lei. Pois bem, há várias declarações que
parecem quase dizer isso - como, na verdade, há declarações
que parecem colocar a fé e as obras como opostas entre si.
Contudo é muito importante que nos lembremos do seguinte:
às vezes, quando o apóstolo emprega a palavra/é, não se refere
somente à faculdade da fé. Refere-se à plena posição da fé.
Ele quer dizer, a justiça de Deus pela fé. Pois bem, vocês verão
muitas ilustrações disso, e, invariavelmente, o contexto mostrará
com clareza que uso ele está fazendo em cada ocasião dada.
Mas, às vezes, quando ele diz “fé”, está incluindo tudo, e não
simplesmente a fé como o instrumento pelo qual recebemos
esta justiça.
Estou dizendo isso a fim de mostrar-lhes que, assim como
a fé não é o oposto das obras, tampouco é o oposto da lei. Não!
Uma vez mais, estas não constituem antíteses, porque quando
recebemos esta justiça de Deus pela fé, estamos cumprindo a
lei. A lei foi cumprida a nosso favor por Cristo, e essa é a justiça
que nos é dada. Vocês vêem o perigo que há de colocar estas
coisas como antíteses! Isso leva as pessoas a dizerem que a lei se
tornou completamente obsoleta - entretanto é claro que não se
tornou. O que Paulo diz é que dessa maneira a justiça da lei se
cumpre em nós. E no fim do capítulo 3 ele diz: “Não anulamos
a lei; antes estabelecemos a lei”. Portanto, devemos ser
cuidadosos na interpretação e no uso da palavra “fé”.
Tendo proferido essas palavras de cautela, dou ênfase a que
é importante que nos lembremos do conteúdo da palavra “fé”.
Fé éum grande termo. Abrange vários conceitos. Não significa
apenas crença; não significa apenas assentimento intelectual.
Significa isso, mas também muito mais que isso. Certamente
não há melhor definição de fé que a que vemos no capítulo
onze da Epístola aos Hebreus, e ali as três qualidades essenciais

382
Romanos 1:18

da fé são ressaltadas com ênfase. Primeiramente e acima de tudo,


fé é crença. O autor da Epístola diz no versículo seis que “é
necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele
existe, e que é galardoador dos que o buscam”. Pois bem, aí é
acentuado o aspecto crença; a parte da fé que vem à mente; e,
por certo, é absolutamente essencial. “Ora, a fé”, diz ele, “é o
firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas
que se não vêem.” Noutras palavras, você crê nelas e as aceita
com a sua mente, mas não é para deter-nos nisso.
Qual é o segundo elemento? De acordo com o autor da
Epístola aos Hebreus, o segundo elemento da fé consiste em
que não somente vemos estas coisas e cremos nelas, mas também
ficamos persuadidos delas. Ora, esta é uma palavra muito
importante que ele emprega no versículo 13 (VA), onde ele
afirma que aquelas pessoas de fé não somente viam de longe
estas coisas - “Todos estes morreram na fé, sem terem recebido
as promessas; mas vendo-as de longe e estando persuadidas
delas...”. Temos aí outro elemento. Significa que elas se
apossaram dessas promessas. Seus corações foram envolvidos.
Seus corações e suas emoções foram empenhados. As suas
sensibilidades foram envolvidas.
E então, por sua vez, isso naturalmente leva ao terceiro fator,
que é o seguinte - estando persuadidos delas, eles “...abraçando-
-as, confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra”.
Noutras palavras, há estes três elementos essenciais na fé - crer,
estar persuadido e agir. Para expresssá-lo doutra maneira, a
mente é envolvida, o coração é envolvido, e a vontade é
envolvida. Bem, nós vimos isso de relance quando examinamos
o versículo cinco, onde o apóstolo diz: “Pelo qual recebemos a
graça e o apostolado, para a obediência da fé entre todas as gentes
pelo seu nome”. E vocês podem ver a importância de se dar
ênfase ao tríplice caráter ou natureza da fé, porque são muitos
os que são tentados a confundir fé com puro “fideísmo”. Há
alguns que até são instruídos nesse sentido; são evangelizados
desse modo. Os oradores dizem: “Você crê nesta Palavra de

383
O Evangelho de Deus

Deus?” 0 ouvinte diz: “Sim, eu creio”. “Muito bem, então,


você está salvo.”
Mas dizer apenas que crê nesta Palavra de Deus não prova
automaticamente que você está salvo. Você está persuadido? Você
abraçou a verdade? Você fez esta confissão relacionada com a
obediência da fé? Os homens descritos no capítulo onze da
Epístola aos Hebreus não eram dos que dizem: “Sim, eu creio
em Deus e em Suas promessas”, e depois continuavam vivendo
como todo o mundo. Absolutamente não! Isso não era com eles.
Vejam Abraão; saiu da sua terra, não sabia para onde ia, porém
foi, e se contentou em viver em tendas, e se dispôs a sofrer muito.
Na verdade, o que é salientado no capítulo é a maneira como
eles sofriam, e sofriam alegremente, porque toda a sua vida fora
edificada sobre o fato de que eles tinham crido nestas coisas,
que lhes tinham sido reveladas, e as abraçaram. De modo que
nunca será fé, enquanto não envolver ação, enquanto não nos
levar a fazer algo. Dizer tão-somente que você crê no evangelho
não quer dizer que você está na posição caracterizada pela fé. É
preciso que o coração esteja envolvido; é preciso que haja amor
por estas coisas.
E, acima de tudo, é preciso que se evidencie na vida; é
preciso levar à ação, a um movimento, a uma mudança, a uma
confissão, não somente com os lábios, mas também com as
nossas vidas. Pois bem, tudo isso é dito claramente pelo apóstolo
aqui, neste versículo dezessete, e principalmente em sua citação
de Habacuque; tudo vem à luz. A crise prevista por Habacuque
foi-lhe revelada por Deus. Os caldeus estavam a caminho;
haveria uma terrível devastação. Haveria alguma esperança?
Sim, há. “O justo pela fé viverá.” Pois essa é a minha mensagem,
diz o apóstolo, é o que foi revelado plenamente, em toda a sua
plenitude. É o que agora se vê tão simples e claro em Jesus
Cristo: visto em contornos obscuros na antigüidade, em tipos,
em visões, indistintamente; no entanto agora manifesto, tornado
claro, revelado, desvelado.
Depois, havendo dito isso, o apóstolo pôs término, digamos
384
Romanos 1:18

assim, à sua grande declaração de que não se envergonha deste


evangelho, e aí vocês têm as suas razões para não se envergonhar
- na verdade ele exulta nelas, porque, como ele diz, somente os
que são justos pela fé é que viverão. E agora ele continua e nos
dá uma prova positiva disso. Mas por que ele tem tanta certeza
de que estes, e somente estes, viverão?
Bem, ele prossegue e nos dá a resposta, a partir do versículo
dezoito: isto, diz ele, é de novo algo que foi revelado, e o que foi
revelado é que somente os “justos pela fé” viverão, porque a ira
de Deus, descendo do céu, também foi “revelada contra toda a
impiedade e injustiça dos homens” (VA). E agora ele passa a
desenvolver aquela grande declaração. Aqui, noutras palavras,
chegamos a uma nova divisão da Epístola, e esta vai do versículo
dezoito deste capítulo primeiro ao versículo vinte do capítulo
três. Toda a argumentação se acha naqueles versículos e, de
muitas maneiras, é uma das partes mais grandiosas e mais
importantes da Bíblia inteira. Tão importante é ela que me sinto
constrangido e compelido a fazer certo número de observações
gerais a respeito, antes de começar a estudá-la em detalhe.
Por que será tão importante que entendamos o rumo, o
argumento e a declaração desta tremenda porção da Epístola?
Bem, em primeiro lugar, vocês realmente não poderão entender
o evangelho se não a entenderem. Esse é o trecho que nos mostra
a absoluta necessidade que temos do evangelho. O evangelho,
como vocês se lembram, é uma declaração no sentido de que a
única esperança para o homem é que Deus providenciou um
modo de justiça, e esse é em Seu Filho. Pergunto: por que Deus
teve que fazer isso? Esta parte da Epístola dá a resposta - e se
vocês entenderem esta passagem, nunca estarão em dificuldade
quanto a por que foi absolutamente importante que o Filho de
Deus deixasse o céu e nascesse como menino, nascesse sob a lei,
nascesse de mulher e vivesse como viveu, fosse para a cruz,
morresse e ressuscitasse; vocês nunca terão dificuldade em
entender por quê.
Mas, se vocês não tiverem claro entendimento desta porção

385
O Evangelho de Deus

bíblica, sempre terão dificuldade quanto ao próprio evangelho


- como acontece com muita gente. Hoje em dia há muitos que
não gostam do evangelho da expiação. Eles dizem: “Não
gostamos dessa prosa sobre “sangue”; não gostamos dessa idéia
de/ que Deus castigou os nossos pecados em Cristo”. Rejeitam
4
isso, e vocês sabem por quê? E porque não aceitam o ensino
bíblico sobre o pecado. É porque rejeitam a idéia da “ira de
Deus” que eles rejeitam esta parte da Epístola. Afirmo que você
não poderá entender o evangelho, se não a entender; porém, se
a entender, não somente entenderá o evangelho, mas também o
abraçará imediatamente, e dará graças a Deus pelo resto da sua
vida. Quão essencial, pois, é esta tremenda porção da Epístola!
Deixem-me, porém, dar outro motivo para mostrar a
importância desta passagem. Aí está um relato, como igual não
se vê em parte alguma da Bíblia, da história da raça humana.
E, suponho eu, o sumário mais perfeito da história do homem
que se pode achar, mesmo na Bíblia. Revê toda a história do
homem, desde o princípio até o tempo atual - na verdade, até o
fim dos tempos. Ora, essa é uma tremenda declaração. Assim,
freqüentemente, como cristãos - em particular como cristãos
evangélicos, bíblicos - temos a tendência de ignorar isto e de
esquecê-lo porque nos preocupamos apenas com a nossa
salvação pessoal. Mas não há nada mais importante para nós
do que captar a visão plena da salvação - o grande plano e
propósito de Deus - e aqui está ele, exposto em termos de toda
a história da raça humana, desde o início até a presente hora.
Não é só a história dos judeus, é a história de toda a humanidade,
e aqui ela é passada em revista, de maneira sumamente magi­
stral, e devemos entendê-la, porquanto é a única explicação
adequada da história humana.
Todos nós devemos interessar-nos pela história da raça
humana. E uma das preocupações favoritas de algumas das
pessoas mais inteligentes dos dias atuais. Nunca houve,
suponho, maior interesse pela história do que no presente. O
professor Toynbee publicou a sua monumental obra em dez
386
Romanos 1:18

volumes - Um Estudo da História (A Study ofHistory), ele lhe


chama. Outros têm feito a mesma coisa. Eu e vocês vivemos
num século em que este problema da história tornou-se
evidentemente crucial; as pessoas perguntam: que é que está
acontecendo com o homem? Que é que está acontecendo com o
mundo? Qual o sentido e propósito geral da vida e da história?
Pois aqui, afirmo eu, está a única história adequada da raça
humana. Aqui está o segredo. O professor Toynbee tem a sua
teoria; os outros professores têm as deles; eles não aceitam a
dele. Existe toda espécie de teorias e de idéias acerca da história
da humanidade; aqui está a explicação dela que nos vem do
próprio Deus, a qual nos é dada por intermédio de Paulo, Seu
apóstolo.
Mas - e eu quero dar ênfase a isto de novo - tudo isso é
extraordinariamente importante nos dias atuais. Digo séria e
deliberadamente que não sei de nenhuma parte das Escrituras
que seja mais importante para nós, quando conversamos com
os nossos semelhantes não cristãos, homens e mulheres, porque,
como vocês vêem, existem essas outras teorias. Existe, por
exemplo, a teoria da evolução, que atualmente o homem comum
toma como certa, mais ou menos um século após a publicação
do livro A Origem das Espécies (The Origin of Species) de
Charles Darwin. Pois bem, que livro importante foi esse! Esse
único livro, suponho, é mais responsável pela ação de solapar a
fé e a crença das pessoas nas Escrituras e no método divino da
salvação do que qualquer outro livro, isoladamente considerado.
E o homem comum baseia nessa teoria da evolução a sua visão
da vida e da história, e de tudo mais. Somente aqui, no livro de
Deus, eu e vocês encontramos argumentos finais contra ela - e,
portanto, quão vitalmente importante é que conheçamos bem
esta causa, para podermos ajudar as pessoas - não simplesmente
para argumentarmos com elas, não simplesmente para
marcarmos pontos em cima delas, e sim para persuadi-las e
torná-las convictas da sua necessidade desta salvação, que só se
encontra em nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

387
O Evangelho de Deus

Ou deixem que me explique assim: digo que isto é


especialmente importante hoje; é importante, pois é a única
explicação da razão pela qual as coisas estão como estão. Se você
estiver discutindo com uma dessas pessoas que acreditam na
teoria da evolução, o que lhe terá que perguntar é: se essa teoria
é certa, por que o mundo está como está? Por que tivemos duas
guerras mundiais? Por que este século vinte tem sido tão infeliz
e aterrador? E ela realmente não será capaz de responder-lhe.
Essas pessoas não têm explicação para oferecer. Mas aqui, nesta
passagem, está uma explicação perfeitamente adequada. Nós a
veremos à medida que a considerarmos juntos. O cristão que
conhece esta porção da Epístola não deveria ficar nem um pouco
surpreso pelo mundo estar como está - na verdade, deveria
esperar por isso. Aqui nos é dito com toda a clareza que quando
os homens fazem o que começaram a fazer há uns cem anos,
não se pode esperar senão o que eu e vocês estamos teste­
munhando por todos os lados atualmente. O cristão não tem
por que surpreender-se com o estado em que o mundo se acha
hoje; nem tem por que ficar decepcionado. Cabe-lhe ver que o
mundo atual está provando o argumento de Paulo nesta grande
parte da Epístola aos Romanos - pois é precisamente isso que
ele está fazendo.
E, portanto, eu diria que, em terceiro lugar, a passagem em
foco é de especial valor hoje, no sentido de que nos mostra e
nos dá a única explicação verdadeira da final futilidade daquilo
que comumente se chama civilização. O que quero dizer aqui
por civilização, naturalmente, é cultura - a crença na instrução
da mente e interesse pela arte e a música, e várias outras coisas.
Ora isso é legítimo, mas não quando as pessoas depositam sua
fé em tais coisas - como estão fazendo hoje. Estão pondo sua fé
naquilo que chamam de civilização. E muitos acreditam - já
faz cem anos que acreditam piamente nisso - que, por meio da
especialização e dos processos civilizadores, o homem pode ser
elevado e exaltado aos céus, e que a sua vida será quase perfeita.
Estamos, porém, vivendo numa época que está provando
388
Romanos 1:18

que isso não acontece nem poderá acontecer; e é somente quando


vocês entenderem esta parte das Escrituras que entenderão por
que isso jamais poderá acontecer. Assim, vocês vêem, esta porção
grandiosa de fato nos confronta diretamente, não só com os
princípios básicos do nosso evangelho, mas também com um
verdadeiro entendimento do mundo como ele é, e especialmente
como ele é hoje. Ela nos propicia uma perspectiva final e
suprema e, por todas estas razões, eu garanto que não há
nenhuma passagem das Escrituras que seja mais importante,
do ponto de vista da evangelização. Pois bem, todos nós estamos
interessados na evangelização - essa é a grande palavra hoje em
dia. Sim; mas a evangelização, lembrem-se, pode ser verdadeira
ou falsa; pode ser feita da maneira certa ou da maneira errada.
É particularmente aqui, eu sugiro, que nos será dada uma
percepção da verdadeira evangelização - o que é, e como deve
ser realizada.
Muito bem; tendo assim procurado dar-lhes uma concepção
da grandeza e da importância desta passagem, ofereço-lhes agora
uma análise geral da mesma. Vou dar-lhes uma visão
panorâmica dela, antes de passarmos a considerá-la em detalhe.
Neste momento, estudantes da Bíblia, deixem-me recomendar -
-lhes que tenham a sabedoria de proceder sempre assim.
Primeiramente, com cada versículo ou porção das Escrituras,
com cada perícope ou com cada trecho mais extenso,
primeiramente procurem ter uma visão panorâmica do texto -
vejam o todo primeiro, e depois voltem e examinem-no tintim
por tintim. No meu modo de entender, essa é a verdadeira
maneira de abordar as Escrituras e de estudá-las.
Algumas pessoas, claro, param na visão panorâmica, nunca
descem aos pormenores, e realmente nunca chegam a
compreender as Escrituras. Passam às pressas pelo texto, e se
contentam com uma leitura superficial. Outros há também que
só se prendem às minúcias, e assim ficam sem uma visão geral;
e, como sugeri no princípio, eles acabam na maior confusão, e
não conseguem ver a floresta por causa das árvores. O método

389
O Evangelho de Deus

certo é fazer as duas coisas - primeiro, procurar ter a concepção


geral, e depois o desenvolvimento em detalhe, com uma síntese
final, de novo, de tudo o que emergir durante a análise
pormenorizada. Noutras palavras, sugiro-lhes que as Escrituras
assemelham-se notavelmente a u