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A crítica literária sobre a

literatura da Guiné-Bissau:
considerações sobre um
“suposto vazio”
Marceano Tomas Urem da Costa
Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 29, 2018. ISSNe: 1806-


2555.

Como citar este texto?

COSTA, Marceano Tomas Urem da. A crítica literária sobre a literatura


da Guiné-Bissau: considerações sobre um “suposto vazio”. Mafuá,
Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 29, 2018.

Sobre os autor(es):

greenlinegbissau@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/0180161512899485
Instituto de Humanidades e Letras (IHL)
Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira
(UNILAB)
Acarapé – Ceará, Brasil
RESUMO: Este trabalho tem como objetivo compreender
o percurso da crítica literária e da literatura da Guiné-Bissau,
principalmente, no contexto dos países de língua
portuguesa. Ao lado disso, procuramos observar a
contribuição e a importância de alguns críticos, como
Hamilton (1984), Mata (1994), Augel (2007), dentre outros,
para a desconstrução da afirmação de um suposto “vazio” na
produção literária guineense.

PALAVRAS-CHAVE: Guiné-Bissau; Literatura


Guineense; Crítica Literária; Literaturas Africanas em
Língua Portuguesa

ABSTRACT: The aim of this work is to understand the


course of literary criticism and literature of Guinea Bissau,
especially in the context of Portuguese-speaking countries.
Beside this, we seek to observe the contribution and
importance of some critics, such as Augel (2007), Hamilton
(1984), Mata (1994), among others, for the deconstruction
of the “empty” presupposition in Guinean literary
production.

KEYWORDS: Guinea- Bissau; Guinean Literature;


Literature critics; African Literatures in Portuguese

A literatura da Guiné-Bissau, comparada com as outras


literaturas dos países colonizados por Portugal, indica uma
produção tardia temporalmente em termos de publicação. O
atraso dos guineenses nas letras justifica-se pela demora da
implantação do sistema escolar no país. Ao longo dos
primeiros séculos de colonização portuguesa em África, na
Guiné-Bissau especialmente, não existiam as condições
favoráveis ao desenvolvimento do sistema de educação
escolar para que os nativos guineenses pudessem ser
escolarizados de igual modo, como aconteceu nos outros
países da colonização portuguesa na África, a exemplo de
Cabo Verde. Neste contexto, Ocuni Cá (2013), explica que
a presença colonial no território guineense não teve como
prioridade a criação do sistema de educação escolar; apenas
a exploração econômica. Um exemplo foi a própria criação
tardia da tipografia, que só veio a ser autorizada em 1879,
bem como do primeiro jornal, só em 1924 (AUGEL, 2007).

A tardia aderência dos guineenses à produção literária no


país levou à produção dos discursos externos sobre um
suposto vazio nessa literatura. Ainda antes da independência
do país, a maior parte da produção literária que se verificava
no solo guineense era produzida pelos portugueses que
viviam na então colônia. O tratado neste texto não se
direciona para literatura produzida no período colonial, ou
para a literatura colonial; mas para um panorama inicial que
situe o leitor para a produção crítica sobre a literatura
guineense do pós-independência.

A observação das fortunas críticas a respeito desta literatura


serve como o mecanismo viável para melhor verificarmos
as produções e publicações das obras literárias deste país,
portanto levaremos sempre em consideração o ponto de
vista do conjunto de críticos literários, isto é, as publicações
por eles realizadas a respeito desta literatura.

Com o intuito de quebrar o silêncio em que se vivia ao longo


dos anos de colonização, a produção literária guineense tem
trazido novos olhares sobre a cultura e o pensamento
literário do povo e do país, tendo despertado a atenção dos
críticos desta área do conhecimento, no sentido de
começarem a olhar essa literatura com ares de modernidade
e sem exotismos.

Para a inovação na literatura deste país, percebemos que, a


partir da libertação da Guiné-Bissau, tem-se verificado a
emergência dos escritores guineenses e isso tem sido
percebido e visto através das crescentes produções e
publicações das obras literárias por próprios guineenses com
temáticas endógenas. Estas produções e publicações têm
sido importantes e determinantes em impulsionar os críticos
a se aproximarem dessa literatura, mesmo que partindo de
um pressuposto principal que é a literatura com viés voltado
para valorização das questões sociais e de uma revisão de
seu processo histórico.

Guiné-Bissau é um país que passou por um período de


aproximadamente cinco séculos sob a dominação
portuguesa, em que a população tinha que suportar todo tipo
de discriminação e violação dos seus direitos. Apesar disso,
o país conseguiu se libertar dessa dominação em 1973,
através de um processo de luta armada desencadeado pelos
próprios filhos da terra. Após ter sido tomada a
independência, a Guiné-Bissau começou a ganhar outros
olhares no campo literário, através dos próprios guineenses,
que se dedicaram a mostrar a cultura do seu povo, através da
escrita.
A literatura oral na Guiné-Bissau da perspectiva
guineense

Além da literatura escrita, vale lembrar uma outra


modalidade de literatura guineense – a literatura oral,
baseada na narração das estórias e adivinhas pelos anciões
nas aldeias e cidades do país. Além disso, há também as
cantigas de mandjuandades, cantadas por diferentes etnias,
exaltando a cultura, costumes e a realidade social guineense.
Com isso, mostra-se que a riqueza cultural dessa nação não
é revelada apenas através da escrita, mas também por
diferentes formas. É importante salientar que as cantigas são
cantadas em crioulo, a língua nacional do país, por alguns
grupos de mandjundades,tais como: Herdeiros di Kumbé,
Maran Cabeça, entre outros. Embora o nosso foco neste
texto não se direcione à literatura oral, decidimos não deixar
de fazer uma breve apresentação sobre essa importantíssima
riqueza cultural que a Guiné-Bissau congrega, uma vez que
a oralidade é ainda fonte importante no cotidiano guineense.
Ainda para esta modalidade de manifestação cultural através
de narração de estórias tradicionais, na contemporaneidade,
pode-se tomar como exemplo a obra de Odete da Costa
Semedo (2010), pelos trabalhos de recolha dos contos
tradicionais para compor, posteriormente, dois volumes de
livros intitulados – Sonéa: histórias e passadas que ouvi
contar I e Djênea: histórias e passadas que ouvi contar II.

Dos primeiros trabalhos sobre a literatura da Guiné-


Bissau
Como o nosso objetivo nesse artigo diz respeito à produção
literária através da escrita, focalizamos a nossa atenção aos
olhares dos críticos que têm trabalhado e dado seus pontos
de vista a respeito dessa jovem literatura que tende a evoluir
cada vez mais.

Como uma nação que tem levado anos em busca da


liberdade, através da literatura, os homens públicos e as
lideranças políticas estiveram sempre muito próximos da
produção artística, colocando sempre lado a lado os
sentimentos de pertencimento cultural e a esperança de
construir um novo rumo para uma sociedade livre.Nesse
sentido, com a literatura, através das fortunas críticas, é
possível perceber as denúncias dos males cometidos pelo
colonizador e uma recapitulação do passado histórico do
país, como forma de entender o presente.

Como podemos perceber a partir dos trabalhos da


pesquisadora brasileira Moema Parente Augel: “dentro do
cenário dos questionamentos literários sobre a produção
literária de um povo e da sua recepção, os discursos
elaborados sobre produção cultural assumem um papel de
grande preponderância sobre essa nação” (2007, p.99).
Sendo assim, na Guiné-Bissau, a produção literária trata
principalmente das temáticas endógenas. Apesar dos
guineenses terem emergido na produção literária guineense
a partir do período do pós-independência, ainda é possível
verificar um sério problema sobre a produção literária desta
nação. Trata-se da ausência da informação sobre a existência
dos críticos literários propriamente guineenses com obras
publicadas sobre a produção literária desse país. A falta de
crítica literária que pudesse servir de divulgadora e
elaboradora de um caminho a ser seguido, contribui para que
essa literatura possa chegar no contexto externo, uma vez
que as políticas públicas para tal ainda não se fizeram.

Durante o percurso para a efetivação desse trabalho,


percebemos que a maior parte dos olhares sobre a literatura
guineense são dos críticos exógenos. O exemplo mais
evidente disso recai sobre a maior e incontestável expoente
da crítica literária da nação que é brasileira e que tem feito
trabalhos sobre a Guiné-Bissau- Moema Parente Augel, uma
investigadora que desenvolveu trabalhos in loco na Guiné
Bissau, tendo se aproximado da literatura escrita, mas que
ao longo do desenvolvimento de seus estudos, não deixou
de observar o contexto tumultuado historicamente, nem
desviou o olhar para a produção guineense em língua
portuguesa, muito marcada pela presença de outras línguas,
especialmente o crioulo.

De acordo com a Moema Parente Augel, sobre a Guiné-


Bissau e sua produção literária, “quase todos os olhares que
se debruçaram em registrar e em analisar a produção estética
guineense vêm de fora. Da mesma forma, são de fato, e,
sobretudo, coletâneas estrangeiras que dão um mínimo de
visibilidade às incipientes manifestações literárias daquele
país” (p.100).

Como se trata do papel dos críticos literários e suas


contribuições para uma divulgação da literatura guineense,
é importante trazermos informações registradas nas fortunas
críticas sobre a Guiné- Bissau em outros países, tratando-se
de Portugal e do Brasil, principalmente. Mas antes disso,
entendemos que é necessário trazer as informações sobre os
guineenses que têm dedicado em estudar a literatura
guineense. Segundo as observações dessa pesquisadora,
Marcelino Marques de Barros (1843-1929) desenvolveu
estudos sobre a literatura oral guineense, nesse caso o
crioulo, e ajudou a divulgar exemplos nessa língua e nas
línguas das diferentes etnias da Guiné-Bissau (p.100).

Além do Marcelino Marques de Barros, outros guineenses


são destacados pela mesma autora como os que têm feito
trabalhos sobre a literatura desta nação, mesmo antes da
independência do país. Entre os homens, destacados em O
desafio do escombro (2007) pela autora, cita-se: Benjamin
Pinto Bull, doutorado nos estudos sobre o crioulo guineense
em Dakar, cuja tese veio a ser publicada em livro com o
título “O crioulo da Guiné-Bissau. Filosofia e a sabedoria”.
Neste estudo, e segundo as abordagens dessa autora,
percebemos a importância do crioulo como uma riqueza
cultural da Guiné-Bissau. Salienta-se que não apenas o
crioulo é importante para os guineenses, mas também as
diferentes línguas que compõem o mosaico das línguas
guineenses. Bull divulgou contos, provérbios e adivinhas,
através de uma publicação dedicada à Guiné-Bissau, Cabo-
Verde e São Tomé-Príncipe, no periódico da Collection
Notre Liberairie (p.101).

Outro guineense que fez trabalhos sobre a literatura


guineense, citado por Augel, é Vasco Cabral, um dos
grandes expoentes da literatura da Guiné-Bissau, na fase
anterior a independência. Além de ser escritor, Cabral
escreveu sobre os trovadores populares nacionais (p.102).
Estes destaques nos levam a perceber a relevância das
contribuições dos guineenses nesse campo de conhecimento
na Guiné-Bissau. Ainda de acordo com Augel, o primeiro
balanço feito na Guiné-Bissau, sobre a literatura guineense
pelos guineenses, pertence ao guineense Leopoldo Amado,
que publicou em 1990 um artigo na revista Soronda. Para a
autora, “diante de quase ausência de obras e de autores a
arrolar, o ensaísta se deteve com mais profundidade na
literatura de temática guineense de autores guineenses e
portugueses ou cabo-verdianos” (p.102). Entendemos que
esta revista guineense com a publicação do Instituto
Nacional de Estudos e Pesquisa na Guiné-Bissau (INEP)
tinha grande importância no que diz respeito aos trabalhos
nela divulgados sobre a literatura e a cultura da nação
guineense.

Como contribuição, aponta-se também o


“periódico Tcholona. Revista de Letras, Artes e Cultura,
divulgada durante um curto período de tempo da sua
existência (1994-1997), artigos sobre a literatura guineense
e sua cultura em geral assinados por guineenses e
estrangeiros” (2007, p. 64). Note-se que a produção crítica
interna, passa então a restringir-se aos prefácios e posfácios
dentro das próprias edições, não tendo um desenvolvimento
de um grupo de críticos internamente ao contexto guineense.

Sobre a literatura da Guiné-Bissau em Portugal e no


contexto europeu
Conforme pode-se ver a partir dos trabalhos de Augel, no
que diz respeito à divulgação da literatura guineense fora do
solo guineense, Portugal é o lugar onde se encontram mais
informações, a princípio. Desde antes do início da luta de
libertação nacional, o angolano, Mario Pinto de Andrade,
fez trabalhos sobre as literaturas africanas de língua
portuguesa, quando ainda se encontrava nos estudos na
antiga Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa,
embora a literatura guineense não tivesse ainda grandes
destaques, em termos de publicações das obras literárias,
com temáticas que dizem respeito à cultura do país e do seu
povo. Mario Pinto de Andrade não deixou de angariar na
publicação de Antologia de poesia negra de expressão
portuguesa, um guineense, Terêncio Casimiro Anahory
Silva; apesar de Augel ter indicado que o nome desse autor
tem aparecido em outros contextos, como o cabo-verdiano,
no qual há apenas a menção de um poema na antologia,
marco das literaturas africanas, atestando a raridade de
publicações de poesia feita por guineenses até meados do
anos 1960.

Outro grande africanista e estudioso das literaturas africanas


foi o crítico e escritor português, de nacionalidade assumida
tardiamente como cabo-verdiana, Manuel Ferreira (1917-
1992), cuja obra No reino de caliban, com um total de trinta
e oito poetas, tendo incluído apenas António Baticã Ferreira
como um único guineense nessa coletânea, com apenas seis
poemas datados de 1972, um ano antes da independência da
Guiné-Bissau. Segundo Augel, é de Manuel Ferreira a
afirmação de um “espaço vazio” (1975, p.319) na literatura
guineense, por este ter acreditado que não haviam sido
criadas as condições propícias ou socioculturais para uma
revelação de valores literários nesta nação (2007, p. 106).
Mesmo considerando a literatura guineense como aquela
que carece das condições que a colocasse a par das outras
literaturas, só com o aparecimento da coletânea Mantenhas
para quem luta, depois da independência, através dos
poemas em crioulo, é que este estudioso reconheceu que a
literatura guineense começou a ganhar espaço textual dentro
do cenário das literaturas africanas dos países colonizados
por Portugal.

Ainda na Europa, Augel faz referência a um outro estudioso


e professor português, radicado na Alemanha, Luciano
Caetano da Rosa que produziu sobre a literatura guineense,
trabalho com o título A literatura na Guiné-Bissau. O
trabalho foi publicado, segundo a autora, em um número
especial, suplemento de periódico “Lusorama: Revista de
Estudos sobre os países de Língua Portuguesa”, de 1993
(p.108).

Também, de acordo com José Carlos Venâncio (1992), o


olhar crítico dos escritores africanos, e aqui acrescentamos
dos críticos dessa literatura, “funciona como o espelho de
uma sociedade e o investimento de uma missão terapêutica
dupla” (KANE apudVENÂNCIO, 1992, p.9). Baseando-se
nessas observações, pode-se apontar que a literatura
guineense e a produção até então prendem-se à descrição da
realidade social da Guiné-Bissau, das situações políticas e
dos conflitos que tem vindo a ganhar a hegemonia no país,
que até o presente não tem encontrado um caminho
desejável para seu pleno desenvolvimento, portanto o
mesmo se pode dizer da fortuna crítica produzida pelos
estudiosos.

Sobre a literatura da Guiné-Bissau no Brasil e outros


contextos de produção da crítica literária

Além de Portugal, o outro espaço em que a literatura


guineense teve sua divulgação foi no Brasil. Mesmo antes
da aprovação da Lei nº 10.639/2003, que legitimou o ensino
das literaturas africanas de língua portuguesa neste país,
houve uma série de publicações nos anos 80, pela editora
Ática, que já vinha anunciando a presença da literatura
africana com uma necessidade inerente à própria História
brasileira. Embora de circulação mais restrita ao público
acadêmico, algumas publicações mereceram olhares de
alguns estudiosos da área em questão, que ao longo dos
últimos 30 anos vêm formando gradativamente uma área de
estudos literários africanos, em várias regiões do Brasil.
Mesmo assim, segundo Moema Parente Augel, sobre a
literatura guineense, “não só em Portugal há pouco
conhecimento ou mesmo o silêncio em torno da literatura
guineense. No Brasil, até bem pouco tempo, a ausência de
informação era ainda uma constante” (p.111).

Embora, desde tempos antes da independência do país,


alguns críticos se envolvessem com essa literatura, esse
envolvimento não era tão alargado para que se pudesse
divulgar essa literatura o quanto era necessário. Ainda, essa
ausência pode ser justificada pela pouca presença dos
críticos neste campo de saber artístico deste país, veja-se –
por exemplo – o caso das disciplinas ministradas nos cursos
de graduação, que pouco tendem a tratar a literatura
guineense como apenas uma das cinco literaturas africanas
em língua portuguesa – pois, como bem sabemos, é nesse
contexto que a produção crítica é formada, o que ocorre
tanto no Brasil, quanto em Portugal.

Se na própria Guiné-Bissau houve pouca presença dos


críticos até antes da independência, e muito menos presença
ainda no âmbito acadêmico e nas escolas de base, como
poderia essa literatura ganhar uma expressividade
abrangente, no que diz respeito a sua propagação, nos outros
territórios?

Tem-se como um dos importantes registros sobre a literatura


guineense no solo brasileiro o do Núcleo Ibérico, Latino-
Americano e Luso-Africano, do Instituto de Letras na cidade
de Ijuí, no Rio Grande do Sul, com os Cadernos Luso-
Africanos, em 1986. Segundo Augel, esse núcleo, numa das
suas publicações, trouxe uma pequena referência sobre a
literatura guineense, tendo também trazido alguns registros
sobre a publicação da primeira antologia poética da Guiné-
Bissau, Mantenhas para quem luta. Embora, essa
publicação em solo brasileiro possa ser considerada modesta
e despretensiosa, com breve informação para os interessados
em estudar a literatura desse país, ela dá mérito a esse núcleo
acadêmico e confirma também a presença apenas de
pequenas brechas dentro do âmbito universitário.
Um outro exemplo sobre essa literatura, publicada no solo
brasileiro e registrada na década de 1990, é a publicação da
coletânea organizada por Rogério Andrade Barbosa, No
ritmo dos tantãs (1991), com uma segunda edição no Brasil,
a Guiné-Bissau aparece representada por Marcelino
Marques de Barros, Amilcar Cabral, José Carlos Schwarz,
Tony Tcheka, Agnelo Regalo, Tony Davyes e Helder
Proença. Para Augel, Barbosa é um estudioso que tem-se
dedicado à literatura infanto-juvenil. O trabalho desse
escritor brasileiro também tem se pautado na pesquisa de
campo, realizada durante vários anos no continente africano,
mas nota-se que essa produção é ainda uma forma terceira
de divulgação.

De um outro contexto e de acordo com Russel Hamilton


(1984), professor e crítico afro-americano, introdutor dos
estudos literários da África de Língua Portuguesa na
América do Norte, em “A arrancada de uma literatura
tardia”, capítulo do livro Literatura africana. Literatura
necessária, em o volume II, dedicado à Guiné-Bissau, o
regime colonial não havia criado condições necessárias,
como já dissemos, que favorecessem a implantação e
consolidação de um movimento cultural-literário na Guiné-
Bissau até antes do período em que o país se libertou da
dominação estrangeira. A falta da criação dessas condições,
que poderiam permitir o envolvimento ou o contato dos
guineenses com a produção literária muitos anos antes da
independência, enquadra o país numa situação de
desvantagem em termos de produção e publicações de obras
literárias por parte dos nativos desta nação. Ora, se o sistema
da educação escolar demorou para ser instalado no país, é
compreensível a difícil presença dos guineenses na
produção da literatura. Pois qualquer produção de escrita
literária depende de uma instrução escolar, sendo assim os
guineenses excluídos do contexto escolar dificilmente
fariam uma literatura que representasse a sua cultura. Mas,
com a implantação do sistema escolar na Guiné-Bissau que
veio a acontecer muito tarde, culminando com a entrada dos
guineenses nas escolas e consequentemente com a instrução
básica, deu-lhes a oportunidade de pôr em prática, ou no
papel, as suas manifestações literárias. Mesmo que de forma
bastante lenta, é a partir, e principalmente, de antologias de
poesia que se tem colmatado os supostos discursos sobre o
vazio dessa produção.

Tendo se dedicado aos estudos sobre as literaturas dos países


africanos de língua oficial portuguesa, embora valha dizer
que tais estudos foram publicados primeiro em Angola, na
década de 1980, o crítico afro-americano, Russel Hamilton
fez abordagens sobre a literatura guineense do pós-
independência, a partir das antologias poéticas publicadas
na Guiné-Bissau depois da independência. A que marcou o
início da primeira publicação literária significativa no
país, Mantenhas para quem luta, de 1977, segundo o
próprio Hamilton, é a publicação que deu um salto
qualitativo e muito positivo na área da literatura e cultura da
Guiné-Bissau, pois conseguiu abrir caminhos para
ultrapassar o que era representado nas publicações no
período colonial.

Ainda, de acordo com Hamilton (1984), a antologia


poética Mantenhas para quem luta, publicada quatro anos
após a independência do país, deu um ponta pé de saída para
a produção literária e editorial no solo guineense. Sendo que,
para ele, após ter sido ultrapassada as fases de reivindicação
racial e cultural, a sequência de antologias que se viu
publicar no país trouxe à tona os descontentamentos e
angústias sobre as consequências da colonização, uma vez
que boa parte dessa produção já havia sido escrita durante
os anos de luta de libertação, apenas esperava-se um meio
de divulgação. Ao mesmo tempo, os versos presentes nesta
obra, apresentaram a convicção e o otimismo do povo
recém-saído da colonização, para a construção de uma nova
sociedade justa e pluralista. A construção de uma sociedade
que congregue diferentes saberes, valores étnicos e
culturais, tidos como uma riqueza nacional.

Com a ideia de construção de uma nação, uma sociedade


livre e progressista fora do contexto da exclusão de qualquer
que fosse o gênero, Augel comenta, em A nova literatura da
Guiné-Bissau, que “Mantenhas para quem luta trata-se de
uma poesia com a carga patriótica muito grande. Isso está
vinculado ao desejo de querer ver país numa progressão
depois de vários anos de exploração colonial que não
facilitou de maneira nenhuma aos guineenses que não
estivessem na categoria de assimilados a terem o acesso aos
direitos sociais que qualquer povo teria o direito de ter.”
(1998).

Depois de um ano, surgiu, em 1978, uma nova publicação


literária em coletânea dos jovens poetas do país recém-
independente, Momentos primeiros da construção, que
segundo Augel (1998) os poemas desse livro, tal como os
de Mantenhas para quem luta, prestam de igual modo
testemunhos sobre a realidade colonial e a ambição de uma
viragem da página naquela sociedade. Ainda nessa ordem de
ideias,
Mesmo magoados e descontentes com o sistema colonial, os poetas
guineenses dessa época acreditavam numa mudança progressiva na Guiné-
Bissau. Ao se lerem as produções dos poetas guineenses se depara com o
testemunho patriótico exaltado por estes poetas (p.98).

Continuando nessa discussão, temos trazido as observações


de Inocência Mata, uma professora e crítica são-tomense,
também dedicada aos estudos literários dos países africanos
de língua oficial portuguesa do período depois das
independências. Segundo esta pesquisadora, no que diz
respeito à literatura guineense do pós-independência:
“durante algum tempo, tornou-se frequente falar sobre o
vazio literário guineense. Comparada às outras literaturas
africanas de língua oficial portuguesa, a literatura guineense
é tardia e escassa” (MATA, 1994, p.356). A pesquisadora
busca esclarecer que, apesar de a literatura guineense ter
sido desfavorecida em termos das condições que
permitissem a sua evolução ao longo do período colonial, e
mesmo ocupando uma posição mais ou menos baixa em
termos de comparação com outras literaturas africanas de
língua portuguesa, ela nunca deixa e nem vai deixar de ser
aquela que representa o povo guineense, pois essa sua
posição não explica a sua inexistência.

Como já referimos nesse trabalho, a Guiné-Bissau possui


duas modalidades de literatura, a preponderância da
literatura oral, que é a primeira forma de manifestação de
cultura, o que também pode ajudar a explicar a escassez na
produção inicial da escrita, uma vez que esta é valorizada no
seu contexto interno e, por assim dizer, tem maior
reconhecimento interno do que a própria escrita, em termos
artísticos.

Para Inocência Mata (1994), as primeiras antologias que


marcaram o início da publicação literária no país após a
independência, hoje, ganham um significado que vai além
da qualidade literária dos textos nelas presentes e passam a
carregar um significado “sócio ideológico” com uma
importante função no contexto da afirmação “sociológica”
de um sistema literário nacional. Mata também aborda o uso
da língua crioula nas primeiras e contínuas publicações de
antologias literárias no país como a forma de reconfirmação
da maturidade de uma literatura nacional.

Vale dizer que a crítica produzida em Portugal, e


especialmente no Brasil, através da publicação de artigos em
periódicos, além de alguma produção recente em teses e
dissertações, é um corpus que, embora não elencado aqui,
configura-se como importante acervo para marcar a
importância da contribuição e o desdobramento dos
pesquisadores aqui citados, como Moema Augel, Russel
Hamilton, Manuel Ferreira, Inocência Mata, uma vez que
estes, no âmbito acadêmico, contribuem para que haja uma
continuidade do interesse crítico pela produção guineense.
Mesmo que boa parte dessa produção seja realizada fora da
Guiné-Bissau, é possível notar que há um respeito pelas
contribuições de outras línguas, bem como pelo contexto
histórico-político, cenário bastante diferente do que se via
ao longo do processo colonial e no imediato do pós-
independência.

Em suma, com um aumento na produção e publicação de


obras literárias guineenses dentro e fora da Guiné-Bissau, já
é possível pensar que, nos últimos anos, houve uma
desconstrução dos discursos sobre o “suposto vazio”, tanto
da crítica, quanto da literatura da Guiné-Bissau, uma vez
que, diferente do período colonial e do imediato pós-
independência, tem-se considerado as contribuições da
oralidade e do contexto histórico guineense, como um valor
inerente e indissociável dessa produção.

Referências

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Bissau. Bissau: INEP, 1998.

_____. O desafio do escombro: nação, identidades e pós-


colonialismo na literatura da Guiné- Bissau. Rio de Janeiro:
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