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As desventuras da Formação Contínua

“Agora que a Formação Profissional Contínua autogerida desapareceu praticamente, que os lugares
de produção didáctica são menos do que raros, que as controvérsias sobre a concepção da Educação
Física e Desportiva são cada vez menos bem aceites pela instituição pedagógica a qual funciona com
a sua rede de experts, nós estimamos que a disciplina corre o risco de se esclerosar.”
Becker e Couturier

Em França, para estes autores e relativamente à Educação Física, o “estado das coisas” é este. De
regressão nítida segundo eles. Em Portugal pode dizer-se que a situação é parecida: o pouco que
houve, com a formação dos centros de formação contínua de professores, e que em muitos lados foi
algo que nunca adquiriu uma autonomia ou qualidade digna de relevo, passou e passa nestes últimos
tempos por uma crise real com muito de provocado pelas instâncias políticas no poder.
Se todos temos conhecimento de autênticas dinâmicas de formação contínua em alguns centros de
formação por esse país fora, a verdade é que em grande parte deles a realidade não passou de menus
de acções de formação feitos mais em função da oferta dos formadores do que da procura dos
professores. E a área de potencial negócio que a formação contínua abriu fez proliferar formações e
formadores que do nome só tinham a carteira. Quanto a tudo isto todos tivemos culpa, desde logo os
professores que, mudos, frequentaram acções de qualidade medíocre. Mas muita mais
responsabilidade tiveram os governos que deixaram e deixam fazer acções deste calibre.
Nos anos mais recentes, em nome da crise e de uma certa crítica, - destrutiva, caricatural como bem
sabe fazer este governo a tudo o que tem a ver com professores – simplesmente a formação contínua
foi asfixiada. O propósito, a curto-prazo, percebe-se: os professores que se desunhem e que paguem
as suas formações como vemos tantos a fazê-lo se se querem actualizar com alguma garantia de
qualidade. É a privatização, por ausência de alternativa válida no público, em que este governo se
tornou verdadeiro mestre, afirmando contudo na sua retórica o oposto: eles só querem o bem público.
Pois!
Na verdade a formação contínua dos professores morreu porque foi assassinada. O coveiro foi quem
nós sabemos. Muitos de nós, no entanto, temos dado uma ajudinha mandando umas pás de terra para
cima dela. Se morreu diga-se que está morta, mas então que ressuscite, pois é fundamental para um
ensino de qualidade. Com participação e autonomia dos professores, regulada devidamente mas
apoiada verdadeiramente pelo Estado.
A formação contínua dos professores morreu. Viva a Formação Contínua.

Henrique Santos
Professor de Educação Física