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SBS – XII CONGRESSO BRASILEIRO DE SOCIOLOGIA

GT 06 - EXPERIÊNCIAS DE ENSINO EM SOCIOLOGIA: METODOLOGIA E


MATERIAIS DIDÁTICOS

TÍTULO DO TRABALHO
EDUCAR PELA PESQUISA: SOCIOLOGIA E SAÚDE NO ENSINO DE
GRADUAÇÃO EM ENFERMAGEM

AUTORA
LUCIANA BERNARDO MIOTTO
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EDUCAR PELA PESQUISA: SOCIOLOGIA E SAÚDE NO ENSINO DE


GRADUAÇÃO EM ENFERMAGEM

Luciana Bernardo Miotto

Este artigo toma por base teórica as discussões realizadas por Blades (2000) acerca
das habilidades necessárias aos estudantes do século XXI. Embora sejam as crianças o foco
de reflexão do autor, isto não nos impede de fazer uma analogia com os estudantes de
graduação das faculdades e universidades. Nossa reflexão tem como objeto de estudo a
pesquisa no ensino de graduação em Enfermagem e a importância que ela possui no
desenvolvimento das habilidades elencadas por Blades.

Conhecimento e ciência

Para sobreviver e facilitar sua existência, o ser humano confrontou-se


permanentemente com a necessidade de produzir conhecimento e o fez de diversas
maneiras até chegar ao que hoje é a ciência. Assim, poderíamos, de início, colocar a
seguinte questão: por que, afinal, o ser humano deseja conhecer?
A busca do conhecimento nada mais é do que a busca da verdade, ou de verdades.
Trata-se uma relação entre aquele que deseja conhecer e o objeto a ser conhecido. Tal
relação estabelece a construção de saberes que ao longo do tempo foram se acumulando e
sendo transmitidos de geração em geração.
Pela intuição, o ser humano realiza uma primeira abordagem do mundo ao seu redor
e pela razão organiza as informações imediatas que percebeu em idéias mais gerais e
articuladas. Deste modo, pode elaborar conclusões sobre este ou aquele assunto; sobre um
fato ou fenômeno observado.
Foi assim que o ser humano concebeu diferentes maneiras de conhecer o mundo:
pelos mitos e o conhecimento mágico do bem e do mal; pelo senso comum ou
conhecimento espontâneo; pela filosofia na busca da origem da vida; pela arte e também
pela ciência. A diferença entre as demais formas de buscar o conhecimento e a ciência está
no fato de que esta possui um método.
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A ciência é um conhecimento que analisa a realidade de maneira objetiva, racional e


coerente. Trata-se de um conhecimento sistemático, baseado na investigação e verificação.
O significado etimológico da palavra ciência é saber, conhecer. Por isso, em muitos
momentos, a ciência precisou posicionar-se contra o saber proveniente do senso comum.
Ao longo do tempo, o ser humano sentiu a fragilidade do saber advindo do senso comum e
desenvolveu o desejo de saber mais e dispor de conhecimento metodicamente elaborado e,
portanto, mais confiável.
A trajetória até um saber racional e metodicamente elaborado foi longa e se
estabeleceu no Ocidente recentemente. Para entender como surgiu o que hoje conhecemos
por ciência, buscamos suas origens entre os gregos antigos, já que somos herdeiros do
pensamento clássico ocidental.
Entre todos os povos antigos, foram os gregos que passaram a examinar os fatos à
luz da razão, distinguindo esta forma de pensamento dos mitos e das superstições. Foram
eles os criadores da filosofia, que surgiu por volta dos séculos VII e VI a. C.
A filosofia grega estava voltada para a especulação racional, encontrando-se
desvinculada da técnica, do “fazer”. O saber era contemplativo porque havia uma
desvalorização da prática/técnica, já que, diante do contexto social da época (trabalho
escravo), somente a atividade intelectual era valorizada, em detrimento do trabalho manual.
No período posterior à Antiguidade greco-romana, o pensamento medieval na
Europa condenou a investigação independente e, por isso, não houve especulação científica
durante a Idade Média. Os estudiosos deste período eram religiosos cujas mentes estavam
mais inclinadas para os assuntos da salvação e glória de Deus, sem interesse em questionar
o mundo natural e seus fenômenos. A característica fundamental do pensamento medieval
foi a tentativa de conciliação entre razão e fé.
Entre os pontos de ruptura do pensamento medieval encontramos a retomada dos
valores greco-romanos (clássicos), tais como o racionalismo e a valorização do ser humano.
A retomada dos valores clássicos ficou conhecida como Renascimento (séculos XV e XVI).
Embora nas explicações sobre os fenômenos naturais ainda predominasse uma boa dose de
magia, a curiosidade humana superou os dogmas religiosos e, pouco a pouco, os homens
despertaram para o empirismo e a experimentação.
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A chamada revolução científica do século XVII foi uma mudança radical na forma
como o homem via a si mesmo e ao mundo, o que acabou gerando a moderna concepção de
ciência. Filosofia e ciência encontravam-se, até então, indistintas. O que irá separá-las na
Idade Moderna é o método a ser utilizado pela ciência. E conforme já afirmado, o método
científico é o que irá distinguir a ciência das demais formas de conhecimento.

O método científico

Método é derivado do grego methodos, formado pelos termos meta, que significa
para e hodos, cujo significado é caminho. O método científico possui as seguintes etapas:
levantamento de um problema; elaboração de hipóteses; definição de objetivos; escolha de
metodologia adequada e técnicas de coleta de dados; verificação de resultados e conclusão.
A definição de um método permite que o conhecimento científico se torne
sistemático, preciso e objetivo; assegura que os resultados obtidos pela pesquisa serão
válidos e confiáveis. De acordo com Gil (2002, p. 17), pode-se definir pesquisa “[...] como
o procedimento racional e sistemático que tem como objetivo proporcionar respostas aos
problemas que são propostos. A pesquisa é requerida quando não se dispõe de informação
suficiente para responder ao problema, [...]”.
Gil faz uma classificação das pesquisas de acordo com a finalidade a que se
propõem: pesquisas de ordem intelectual (conhecer para conhecer) e pesquisas de ordem
prática (aplicadas à vida cotidiana). Tanto uma quanto a outra se inter-relacionam, pois uma
pesquisa cujo objetivo é o conhecimento em si mesmo pode fornecer resultados passíveis
de aplicação prática e vice-versa.
No século XIX a pesquisa fundamental (ou o conhecer para conhecer) foi superada
pela pesquisa aplicada. As explicações saíam direto dos laboratórios para suas aplicações
práticas. Unindo-se à técnica, o pensamento científico transformou-se em tecnologia. O
homem do século XIX percebeu as mudanças causadas pela pesquisa aplicada e o
melhoramento que a tecnologia trouxe para sua vida. “É, aliás, provavelmente o primeiro
na história a morrer em um mundo profundamente diferente daquele que viu nascer”
(LAVILLE; DIONNE, 1999, p. 25). Podemos afirmar que, nos três últimos séculos, ciência
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e tecnologia foram capazes de alterar a face do mundo, tal o radicalismo das mudanças
ocorridas em nosso planeta.
Por isso, importante questionamento atual é sobre os limites da ciência e as
finalidades de suas tecnologias, especialmente em relação a três campos que Blades (2000)
considera fundamentais na sociedade do século XXI: a construção de robôs inteligentes
(andróides) semelhantes aos seres humanos; a clonagem e os computadores.
Segundo Blades, as inovações tecnológicas afetam a realidade, nossas relações
sociais e o modo como vivemos; também são rápidas e imprevisíveis, redefinindo nossa
maneira de pensar sobre o mundo. Para o autor, o século XXI nos traz imensos desafios
ligados à tecnologia, especialmente no que diz respeito ao que significa ser humano.
São as inovações tecnológicas o ponto de partida para o questionamento sobre como
educamos nossas crianças e como deveríamos fazê-lo. Tal idéia é transposta neste artigo
para os estudantes de graduação e sobre como educamos estes futuros graduados. Estariam
nossos estudantes conscientes do papel que possuem como cidadãos? Seriam
comprometidos com a possibilidade de mudança social, desde que conhecedores da
realidade social onde vivem? Como mudar uma realidade na qual os estudantes apenas se
interessam por empregos bem remunerados e nada se discute sobre temas que os afetam
diretamente?
A resposta pedagógica de Blades se apóia em três princípios: razão, revolta e
responsabilidade. São qualidades que deveriam ser cultivadas nos estudantes, de modo a
fazer com que se comprometam com a sociedade em que vivem.
Para o autor, a razão pode ser definida como o processo pelo qual a verdade ou
verdades são separadas de outros modos de se conhecer a vida, das crenças e das tradições.
As duas áreas do conhecimento nas quais o exercício da razão é fundamental são a
comunicação e a ciência moderna.
Na comunicação, por exemplo, a razão torna possível o desenvolvimento de
significados que nos permitem afirmar o que é verdade ou não em um determinado sistema
social. Na ciência moderna, a razão nos permite investigar o mundo natural e social de
maneira que o resultado pode confirmar ou modificar nossas idéias sobre o funcionamento
do mesmo.
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A razão permite aos estudantes desenvolver o pensamento lógico necessário para


examinar a estrutura do uso que fazemos da linguagem e do conhecimento científico e para
examinar criticamente os reais apelos das tecnologias emergentes. No entanto, para que a
razão não seja transformada em arrogância intelectual, qualidade inerente ao pensamento
ocidental, é preciso desenvolver o que Blades denomina de revolta dos estudantes.
A revolta, segundo Blades, é tanto um complemento quanto um desafio à razão.
Uma educação apenas baseada na razão pode levar à cegueira porque não abre outras
possibilidades de compreensão. Deste modo, a revolta complementa a razão porque
desenvolve a curiosidade e a capacidade crítica dos estudantes que são encorajados a
duvidar.
A dúvida propicia a oportunidade de questionamento: valores, crenças, tradições
entre outros aspectos da vida são questionados; o mundo não é mais visto e percebido como
algo imutável, mas dotado de variadas formas, em constante mudança. A revolta permite
ainda não somente a liberdade dos estudantes de questionarem o que vivem e vêem, mas a
possibilidade de encontrar respostas.
E aí encontramos a terceira habilidade: a responsabilidade, que significa
literalmente, segundo o autor, a “habilidade de resposta”. Razão e revolta serão apenas
válidas se levarem a resultados concretos. Para que realmente ocorram mudanças é preciso
a ação e somente a responsabilidade torna isto possível porque nos faz, a todos,
conhecedores da realidade e comprometidos com ela. A busca por respostas para um
determinado problema, somada à tentativa de colocar tais respostas em prática torna os
estudantes cidadãos ativos na sociedade.
Vejamos o exemplo do celular para melhor compreendermos o conjunto destas três
habilidades propostas por Blades. Os adolescentes e as pessoas, de um modo geral,
entusiasmam-se com as propriedades de um celular, exibindo um êxtase quase religioso ao
adquirirem um novo modelo. Como se o telefone móvel fosse um símbolo da felicidade. A
razão e a revolta encorajariam os adolescentes a perguntarem a si mesmos se é verdade o
fato de que possuir um celular destaca a pessoa diante dos outros. Como tal verdade teria
surgido na cultura em que estes jovens estão inseridos?
Os jovens devem iniciar sua busca por meio de uma pesquisa sobre a função da
comunicação móvel por meio de celulares e seu papel na sociedade; quais as mudanças que
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o celular provocou nas relações sociais; como as propagandas de celular são veiculadas e a
quem são dirigidas. Diante deste levantamento, os estudantes são levados a pensar, ao
mesmo tempo em que a revolta é neles encorajada, tornando livres suas escolhas. Neste
sentido, a revolta também auxilia os estudantes a encontrarem meios de como pensar e
viver em face de um ímpeto mundial que compromete sua liberdade ao insistir que eles
serão felizes se forem consumidores.
O celular é apenas um pequeno exemplo do uso das tecnologias. É preciso
ultrapassar o consumismo que não somente leva à venda de celulares, mas que pensa em
fabricar o ser humano do século XXI. Este é um tipo de visão que ameaça a essência do que
significa ser humano, na medida em que computadores são cada vez mais inteligentes,
humanos são clonados e robôs são fabricados à nossa imagem e semelhança. Deste modo, é
preciso ensinar aos nossos estudantes a pensar sobre a tecnologia para termos de volta o
senso de coletividade e a garantia de nossa sobrevivência futura.
Para Martins (1996), atualmente assiste-se a um “gnosticismo tecnológico”1, uma
visão que englobaria todos os sonhos e projetos de se transcender radicalmente a condição
humana. Não se trata apenas de melhorar os seres humanos ou habilitá-los a triunfar sobre
as forças da natureza, mas de ultrapassar a própria condição humana, sua finitude e
mortalidade. O ponto alto da tecnologia atual é a criação de novas formas de vida2,
descartando a natureza ao reduzir a vida aos laboratórios, em troca de um admirável mundo
novo (a “tecnosfera onipresente” leva à “miserabilização da natureza”) 3. Desta forma, as
possibilidades tecnológicas de transformação dos seres humanos levantam questões éticas
fundamentais.4

1
Martins (1996) atribui o termo a Victor Ferkiss.
2
A tecnologia atual expressa na biotecnologia, segundo Martins (1996), não tem buscado somente o
melhoramento cosmético dos organismos vivos, mas a criação de novas formas de vida, como resultado de
modificações genéticas. “De todas as tecnologias contemporâneas é talvez a biotecnologia a que tem uma
vocação mais decisivamente ontológica” (MARTINS, 1996, p. 188). A biotecnologia também prevê a criação
de formas de vida mistas, biológicas e mecânicas. Por exemplo, a criação de computadores orgânicos,
utilizando-se pastilhas (chips) biológicas em vez de micro-pastilhas de sílica. Acredita-se até mesmo que os
computadores irão progredir rapidamente numa seqüência de gerações tecnológicas, cada vez mais adquirindo
características da vida humana: reprodução, locomoção, metabolismo com o ambiente, além de atributos
semelhantes aos do cérebro.
3
Referência ao romance de Aldous Huxley, Admirável mundo novo, no qual uma parte dos seres humanos é
concebida em laboratórios.
4
Para Martins, falta controle ético e legal quanto ao avanço da biotecnologia.
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Dupas (2000) defende que é a sociedade civil quem deve ter o controle de seu
futuro. O autor discute especialmente as tecnologias ligadas à terapia genética e aos
alimentos transgênicos. Para Dupas, as tecnologias adquiriram autonomia e tendem a nos
fazer renunciar à liberdade de decisão. Deve caber à sociedade, de posse de uma ética
própria e do livre arbítrio das pessoas, a definição quanto às finalidades das novas
tecnologias, papel que vem sendo desempenhado pelas grandes corporações. O caminho da
tecnologia pode ser qualquer um, desde que a premissa seja o bem estar da maior parte das
pessoas. As novas tecnologias trazem importantes vantagens, mas podem facilmente ser
corrompidas, tornando-se perigosas à vida.
Blades destaca que a sociedade civil deve promover o debate sobre as inovações
tecnológicas. No entanto, existe o perigo de tornar superficial este debate, pois o
questionamento de nossa real necessidade da tecnologia esbarra nas análises de custo-
benefício das grandes corporações. Por outro lado, não se discute a relação entre a
tecnologia e a sociedade.
Na medida em que aumenta a velocidade da inovação tecnológica, a sociedade
precisará entender a ciência para saber lidar com as inovações. A validade do raciocínio
científico em relação ao conhecimento do mundo está no seu método de observação e de
abertura à interrogação. Por isso, a ciência trabalha com leis e conceitos, que podem ou não
ser testados pela ocorrência repetitiva de determinados fatos. A ciência é um meio legítimo
por meio do qual a sociedade pode investigar o mundo em direção ao conhecimento.

Os trabalhos acadêmicos de pesquisa

Um trabalho acadêmico-científico propõe-se a investigar, de forma criteriosa e de


acordo com as normas da metodologia científica, um problema relevante para a
comunidade acadêmica e a sociedade em geral. Embora o estudante universitário não seja
ainda um cientista formado, encontra-se no caminho para a aprendizagem do processo de
investigação científica. Entre os diferentes tipos de trabalhos acadêmicos temos os
Trabalhos de Conclusão de Curso (que podem atender tanto à graduação quanto às
especializações, em níveis diferenciados), as Dissertações (para o nível de mestrado) e as
Teses (para o nível de doutorado).
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A seguir, faremos uma breve descrição do trabalho de pesquisa na graduação


realizado em uma instituição de ensino superior do interior paulista, na área da saúde,
especificamente no curso de graduação em Enfermagem. Em 2003, iniciou-se a elaboração
dos Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC) no curso de graduação em Enfermagem, para
os alunos da 4ª série (7º e 8º semestres). De acordo com o regimento da referida instituição,
o TCC teria como objetivo inserir os estudantes de graduação em Enfermagem na iniciação
científica. Foram destacados temas relacionados aos problemas da realidade atual do setor
de saúde e da Enfermagem, tanto na assistência coletiva quanto individual.
Foi criado o Núcleo de Pesquisa e Extensão, com o objetivo de facilitar a execução
dos projetos científicos; promover eventos e outras atividades afins, além do intercâmbio
com outras instituições e a participação dos alunos em congressos. Outros objetivos a
médio e longo prazo compreendem a formação de pessoal em nível de pós-graduação e a
concessão de bolsas de pesquisa. Entre os objetivos do programa de extensão está a
prestação de serviços à comunidade favorecendo a inscrição dos alunos nas práticas
assistenciais coletivas e individuais.
Os docentes inseridos no programa de pesquisa do núcleo têm o papel de orientar os
alunos no TCC, possibilitando aos mesmos a inserção na prática da investigação científica e
de atividades de extensão, como forma de aprimoramento das habilidades, competências e
do conhecimento relacionado ao ensino e à assistência da enfermagem. Para tanto, foram
oferecidas linhas de pesquisa, definidas de acordo com as grandes áreas de ensino do
currículo de enfermagem:
a) Ciências Biológicas, Humanas e Sociais: aspectos biológicos, psicológicos, sociais,
antropológicos e ambientais da assistência a indivíduos, grupos e comunidade.
b) Enfermagem Fundamental: aspectos da prática assistencial e da tecnologia do cuidado.
c) Enfermagem Assistencial: metodologia da assistência de Enfermagem no cuidado do
indivíduo na situação clínica, cirúrgica e coletiva da saúde nas diferentes fases do
desenvolvimento humano.
d) Administração em Enfermagem: questões relacionadas ao planejamento e gerenciamento
das ações de Enfermagem desenvolvidas em serviços de saúde.
Os trabalhos foram avaliados em quatro fases por meio de seminário dos alunos
pesquisadores:
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a) apresentação do problema, objetivos da pesquisa e revisão bibliográfica inicial sobre o


tema;
b) apresentação da metodologia da pesquisa: local e período de coleta de dados; população
e amostra; técnicas e instrumento de coleta de dados;
c) apresentação dos resultados parciais da pesquisa;
d) apresentação das análises sobre os dados coletados – defesa do trabalho diante de uma
banca de professores e convidados.
A disciplina de Sociologia insere-se no contexto do curso de graduação em
Enfermagem no segundo semestre. Seu objetivo fundamental é fornecer meios para que o
aluno desenvolva sua capacidade crítica ao analisar questões que estejam presentes no seu
dia-a-dia. E mais do que analisá-las criticamente, o aluno obtém da disciplina conceitos e
explicações que lhe permitem situar-se dentro do contexto social à medida que o
compreende e, de alguma forma, tornar-se, futuramente, agente de uma transformação
social.
As temáticas em discussão envolvem o próprio objeto de estudo da Sociologia; os
conceitos básicos para compreensão da vida social, entre eles a cultura, o trabalho e a
ideologia; a relação entre Sociologia e Saúde e sua construção histórica na América Latina
e no Brasil; o papel do Estado e as políticas de saúde; os direitos humanos e o combate à
discriminação em todas as suas formas.
Com o início dos Trabalhos de Conclusão de Curso, a disciplina de Sociologia
orientou, em parceria com o docente responsável pela disciplina de Saúde do Trabalhador,
nos anos de 2003 e 2004, dois trabalhos de graduação referentes ao estudo dos acidentes de
trabalho envolvendo os trabalhadores dos dois hospitais-escola administrados pela
instituição mantenedora da Faculdade de Enfermagem.
Ambos os trabalhos foram concluídos em 2004 e os resultados, tanto em relação aos
dados encontrados quanto ao aprendizado dos alunos, foram surpreendentes. A referida
parceria entre as disciplinas propiciou um diálogo entre Sociologia e Saúde, no qual
questões do mundo do trabalho no contexto da instituição hospitalar foram levantadas e
analisadas, envolvendo professores e alunos pesquisadores.
De acordo com Pitta (1999), a divisão do trabalho no hospital é a reprodução, no seu
interior, da evolução e divisão do trabalho no modo de produção capitalista, preservando-
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se, entretanto, algumas características da religiosidade caritativo-assistencial que marca o


processo do cuidar desde suas origens. No caso dos trabalhadores da área da saúde, que
atuam em regime de turnos e plantões, são comuns os duplos empregos e excessivas
jornadas de trabalho, com destaque para a baixa remuneração salarial.
O problema de pesquisa proposto pelos dois grupos de alunos pesquisadores tinha
como objetivos verificar o número de acidentes de trabalho ocorridos no ano de 2003, nos
dois hospitais-escola e identificar a categoria de profissionais da área da saúde envolvidos
nestes acidentes. Os estudos foram baseados na análise de freqüência dos dados obtidos nas
fichas de notificação de acidentes biológicos envolvendo profissionais da saúde,
padronizadas pela Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo.
Tomando por base a literatura, as hipóteses foram construídas levando-se em conta
o fato de que a categoria mais atingida seria a dos profissionais de Enfermagem, em seus
diversos níveis: auxiliares, técnicos e graduados. De acordo com Nishide (2002), a
composição da força de trabalho em uma instituição hospitalar é predominantemente
feminina. Assim, o coeficiente de risco de trabalhadores acidentados é maior para esta
população.
Este fato foi comprovado por uma das pesquisas, na qual os resultados apontaram
para o maior coeficiente de mulheres envolvidas em acidentes, com destaque para as
seguintes categorias: em primeiro lugar, auxiliares de enfermagem; em segundo, técnicos
de enfermagem, seguidos dos estagiários de auxiliar de enfermagem (DEZUANI;
BROLINI, 2004). O hospital em estudo constitui um campo de estágio para escolas do
ensino médio profissionalizante na área de Enfermagem
No entanto, a outra pesquisa revelou novos dados, contrários às hipóteses
levantadas. No outro hospital-escola circulam cerca de 260 alunos das 3ª, 4ª, 5ª e 6ª séries
da Faculdade de Medicina, também administrada pela mantenedora da Faculdade de
Enfermagem, além de médicos docentes e residentes. Neste caso, embora não possam ser
enquadrados como categoria profissional, os estudantes de Medicina ficaram em primeiro
lugar, como população mais atingida por acidentes ocorridos no âmbito hospitalar; em
segundo lugar, os médicos residentes. Destaque ainda para o fato de que em relação ao
sexo, a população mais atingida foi a masculina (TAYAR; MARTINS; ASSAD, 2004).
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O breve relato dos dois trabalhos realizados é necessário para explicar a importância
do processo de pesquisa na formação destes alunos. Neste processo, destacou-se a
revelação proporcionada pela interpretação dos dados encontrados. A surpresa, o
desconforto frente à verdade revelada e a discussão da literatura foram de suma importância
na construção do conhecimento por parte dos alunos pesquisadores.
Segundo Caniato (1989), toda escola tem a ilusão de que forma competências
transponíveis a situações que não foram encontradas e exercitadas em aula. Ao final de uma
série de estudos, interessa apenas a aprovação ou reprovação do aluno. No entanto, o mais
importante na educação, para o autor, é o processo em que o aluno pratica o ato de
conquistar o conhecimento. Neste sentido, a aquisição do conhecimento envolve um
aspecto lúdico: o prazer de descobrir.
A pesquisa científica proporciona prazer ao sujeito, surpreende pela revelação. Ao
se depararem com os dados encontrados em relação aos estudantes de Medicina, os alunos
pesquisadores fizeram a pergunta: por que? e isto suscitou uma série de buscas e
necessidade de respostas. De acordo com Demo (2003), o questionamento propicia a
formação do sujeito competente. Por meio da pesquisa como prática cotidiana, a realidade é
sempre lida de maneira crítica. A pesquisa procura materiais, combate receitas prontas,
fomenta a iniciativa, fornece interpretação, compreensão e elaboração próprias da
realidade.
Pela pesquisa é possível exercitar a razão na investigação do mundo natural e social.
Nossas primeiras hipóteses sobre o funcionamento de ambos podem ser confirmadas ou
modificadas. A dúvida, suscitada pela curiosidade e leitura crítica do mundo, leva o sujeito
a buscar as respostas necessárias para explicar os dados sobre a realidade vivida.
Para Demo, educar pela pesquisa promove um conhecimento sempre inovador,
porque este se reconstrói continuamente. O questionamento da realidade, por meio da
pesquisa, combate a ignorância, a manipulação e a cópia; alia teoria e prática. A pesquisa é
um princípio científico e educativo. A educação por meio do questionamento reconstrutivo
promove a emancipação do sujeito, torna livres suas escolhas, propiciando-lhe encontrar
meios de como pensar e viver no mundo. Neste sentido, o ato de educar não promove
somente a instrução; ele forma, sobretudo, a autonomia crítica e criativa do sujeito histórico
competente.
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Além da possibilidade de desenvolver nos estudantes a autonomia e a reflexão, a


pesquisa tornou-os comprometidos com a mudança social. Desta forma, destaca-se a
responsabilidade dos estudantes como a terceira habilidade elencada por Blades (2000). A
pesquisa leva a uma aproximação entre o que é estudado pelo aluno e o que é vivido por
ele, especialmente no ambiente em que atuarão como futuros profissionais.
No caso da temática relacionada aos acidentes de trabalho, os dados obtidos
representam uma fonte de informação para futuras ações no campo da prevenção e controle
de acidentes, colaborando para a integridade do trabalhador na área da saúde. Algumas
destas ações já foram postas em prática. Em relação aos estudantes de Medicina, foi dada
maior ênfase na disciplina de Procedimentos Básicos de Enfermagem, que em 2004 passou
a ser obrigatória, já que antes constava como disciplina optativa.
Outros Trabalhos de Conclusão de Curso, orientados pelos demais docentes da
instituição, serão transformados em projetos de extensão frente aos resultados obtidos.
Diante do êxito dos trabalhos de pesquisa apresentados, inclusive em congressos nacionais,
para 2004 existe a proposta de incentivar a iniciação científica para as séries iniciais do
curso de graduação em Enfermagem. Neste ponto, a disciplina de Sociologia pode
aumentar sua contribuição no incentivo à pesquisa, formando estudantes conscientes do
papel que possuem como cidadãos, conhecedores da realidade social onde vivem e dos
problemas que os afetam. Acreditamos que pelo ato de pesquisar, os estudantes podem
desenvolver as habilidades necessárias para o enfrentamento dos desafios que o mundo do
século XXI apresenta a todos nós.

REFERÊNCIAS

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revolta e a responsabilidade dos estudantes. In: SILVA, L. H. da. Século XXI: qual
conhecimento? Qual currículo? São Paulo: Vozes, 2000.

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(Coleção Educação Contemporânea).

DEZUANI, J.; BROLINI, L. F. Investigação dos acidentes de trabalhos ocorridos em um


hospital escola do município de Catanduva, SP. 2004. Trabalho de Conclusão de Curso
14

(Graduação em Enfermagem) – Faculdade de Enfermagem de Catanduva, Catanduva, SP,


2004.

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NISHIDE, V. M. Riscos ocupacionais e acidentes do trabalho: uma realidade em unidade


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PITTA, A. M. F. Hospital: dor e morte como ofício. 4. ed. São Paulo: Hucitec, 1999.

TAYAR, C. F.; MARTINS, M. M.; ASSAD, M. F. Acidentes de trabalho em um hospital


escola do município de Catanduva (SP). 2004. Trabalho de Conclusão de Curso
(Graduação em Enfermagem) – Faculdade de Enfermagem de Catanduva, Catanduva, SP,
2004.