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Um exército de Doutores desempregados

Por hugofernandesbio em Ciência e Política

17 de Fevereiro de 2016

Vou contar uma história para vocês, para que entendam em que ponto a Ciência
brasileira se insere nessa crise. Ao personagem, dou o nome de Carinha. Obviamente, é
uma história generalista, que jamais pode ser aplicada a todos, mas pelo menos a uma
enorme parcela dos acadêmicos. Você verá muitos amigos seus na pele do Carinha.
Talvez, você mesmo.

1 – No começo dos anos 2000, principalmente a partir de 2005, novas universidades


começam a surgir e o número de vagas, inclusive nas já existentes, aumentam
vertiginosamente. A estrutura também melhora e as taxas de evasão de cursos de
Ciência básica (Física, Química, Biologia e Matemática, por exemplo) caem. O Carinha,
então, ingressa em um desses cursos.

2 – O Carinha que entrou em 2005 e se formou em 2009 passou o período da faculdade


desconhecendo o mercado de trabalho do seu curso fora do meio acadêmico. Ao seu
lado, muitos colegas que passaram quatro anos sem saber nem o que estavam fazendo.
Para o Carinha, não havia outra solução a não ser lecionar em escolas ou tentar o
Mestrado, que oferecia bolsa de pesquisa de R$ 1.100,00. Mas, para isso, teria que
passar por uma difícil e concorrida seleção. Até que, com o aumento do número de
programas e bolsas de pós-graduação, ele viu então que aquilo não era tão difícil assim.
Em 2010, torna-se mestrando.

3 – Enquanto seu amigo engenheiro civil****, recém-formado, já está dando entrada


para comprar um carro, o Carinha usa sua bolsa para pagar seus pequenos gastos
pessoais, além de sua pesquisa sem financiamento externo

(****PS. Permitam-me uma edição aqui. Fui infeliz quando exemplifiquei o colega
como um engenheiro civil, pois o mercado para esse profissional atualmente também
encontra-se em crise. Tente imaginar qualquer profissão facilmente absorvida pelo
mercado de trabalho privado e o texto continuará com o mesmo objetivo).

Em dois anos, o Carinha tenta produzir alguns artigos para enriquecer o currículo. Tem
planos para publicar cinco, mas publica um, em revista de qualis baixo. Em paralelo,
entra num forte estresse para entregar sua dissertação e passar pelo forte crivo da banca,
que pode reprová-lo. Será? Na semana de sua defesa, seu colega também é aprovado,
mas com um projeto medíocre e mal conduzido, que, apesar de criticado, foi
encaminhado pela banca porque reprovações não são interessantes para a avaliação de
conceito do Programa. Normas do MEC.

4 – Já mestre, publica mais um artigo e entra no Doutorado, em 2012. Foi mais difícil
que o Mestrado, porém mais fácil do que teria sido anos atrás, por conta do bom número
de bolsas disponível. Boa parte daqueles colegas medianos desiste da vida acadêmica,
mas aquele dito cujo sem perfil de cientista de alto nível também é aprovado. Afinal, ter
bolsas desocupadas não é interessante, porque senão o Programa é obrigado a devolvê-
las. Normas do MEC.

5 – Sua bolsa de R$ 2.500,00 já ajuda um pouco sua condição financeira, enquanto


aquele colega engenheiro conta sobre sua primeira casa própria. Além disso, o amigo já
contribui com o INSS, tem seguro desemprego, 13º salário, plano de saúde, cartão
alimentação, entre outros benefícios. O Carinha não, tem só a bolsa e um abraço.
Normas do MEC. Mas, tudo bem, é um investimento em longo prazo. Logo menos, ele
tentará um concurso para ser professor universitário, com iniciais de cerca de
R$9.000,00. Ele se esforça, publica artigos, dá aulas, redige a Tese, defende e é
aprovado. O colega mediano faz um terço disso, mas também alcança o título.

6 – Eis que, em 2016, Doutor Carinha se depara com uma grave crise financeira. Cortes
profundos no orçamento, principalmente no Ministério da Educação, tornam escassas as
vagas como docente. Concursos em cidades remotas do interior, antes com dois, cinco
concorrentes no máximo, contam hoje com 30, 50, 80.A solução então é caminhar
urgentemente para um Pós-Doutorado, com bolsa de R$ 4.100,00, metade do que ganha
seu amigo engenheiro, mas ok, dá um caldo bom, ainda que continue sem direitos
trabalhistas. Pouco tempo atrás, as bolsas sobravam e os convites eram feitos pelo
próprio professor. Hoje, ele enfrenta uma seleção com 30. Ele passa, o outro colega já
fica pelo caminho, assim como centenas espalhados pelo país. O que eles estão fazendo
agora?

O resumo da história é… Temos um exército de graduados analfabetos funcionais e de


mestres que não merecem o título. Em um pelotão menor, mas ainda numeroso,
doutores cujo diploma só serve para enfeitar a parede. Bilhões de reais gastos para
investir e manter um grupo cujo retorno científico é pífio para o país. Entretanto, esse
não é o pior cenário.

Alarmante é ver um outro exército de Carinhas, esse qualificado, com boas produções,
só que desempregado e enfrentando a maior dificuldade financeira de suas vidas.
Alguns há anos em bolsas de Pós-Doutorado, sem saberem se essas podem ser cortadas
no ano seguinte. Se forem, nenhum mísero centavo de seguro desemprego. Na rua,
ponto. Outros abandonando por vez a carreira para tentar os já escassos concursos
públicos em outras áreas ou mesmo para fazer doces caseiros, entre outras alternativas.

Ao passo que o Governo acertou na criação de novas universidades, programas e bolsas


de pós-graduação nesses últimos 14 anos, a gestão desse material humano e financeiro
foi bastante descontrolada. Quantidade exacerbada de cursos criados sem demanda
profissional, falta de política de cargos e carreiras para o cientista brasileiro, recursos
transportados para um programa de intercâmbio que não exigia praticamente nenhum
produto de um aluno de graduação (sobre Ciência Sem Fronteiras, teremos um post
exclusivo), critérios de avaliação bem distantes da realidade das melhores universidades
do mundo, além de uma série de outros absurdos.

Teremos cerca de dez anos pela frente para que essa curva entre oportunidades e
demanda volte a estabilizar. Não tenho dúvidas de que alcançaremos isso. Mas, até lá,
cabe a pergunta. O que faremos com os novos Carinhas que ainda surgem a cada
vestibular?
O que pode ser mais importante que Ciência?
Por hugofernandesbio em Ciência e Política

22 de Abril de 2015

Bem, eu sei que muitos já vão dar uma resposta pronta, possivelmente ligada a algo
afetivo ou espiritual. Respeito demais (mesmo!). Mas vamos tentar, pelo menos agora,
amarrar nossa pergunta a questões, digamos, mais “terrenas”.

Provavelmente, você está lendo esse texto em um computador ou quem sabe no seu
celular ou tablet. Olhe bem para os componentes do seu aparelho. O plástico presente na
maior parte dele não é matéria prima encontrada na natureza. Ele é desenvolvido a partir
de décadas de pesquisa em materiais de resistência, durabilidade e baixo custo. A tela
finíssima é graças ao advento e consolidação da nanotecnologia, ciência recente quando
comparada aos códigos binários que permitem respostas eletrônicas aos seus comandos
de digitação. Se você estiver num ambiente urbano, olhe tudo em sua volta e tenha a
certeza de que cada item que você está vendo, desde a tinta da parede até os freios de
um automóvel, só está aí porque milhares de cientistas investiram muito tempo, muito
cérebro e muito dinheiro nisso. Se você por um acaso estivesse no meio da floresta
agora, saiba que novas espécies são descobertas praticamente todos os dias e que as
relações ecológicas entre seres vivos e o meio estão se revelando cada vez mais
complexas, graças a pesquisadores que estão nos ajudando a como medir nossos
impactos no planeta e a como resolvê-los. O que você comeu hoje passou por testes
químicos e por décadas de melhoramento genético. A economia de uma nação é baseada
em estatística avançada. O remédio que você tomou quando ficou doente não foi uma
descoberta acidental. Uma cirurgia de sucesso não foi alcançada naquele momento, ela
nasceu em dezenas de laboratórios bem antes disso. Em resumo, você não teria sequer
chegado até aqui se não fosse pela Ciência.

Talvez, eu não tenha falado nenhuma novidade para você. Mas será que damos o real
valor para esses processos? E eu ainda o convido a um seguinte questionamento. Pense
mentalmente no nome de cinco cientistas… Agora pense mentalmente no nome de
cinco cientistas brasileiros.

Aposto duas coisas agora. No primeiro desafio, sua mente visitou cientistas estrangeiros
mais velhos como Einstein, Hawking, Darwin, Marie Curie, não é isso? Já o segundo eu
arrisco dizer que foi bem mais difícil. Carlos Chagas, talvez?

Pois bem, vamos fazer um resumo agora da relação do brasileiro com a Ciência.

 Ele acha que Ciência é só uma disciplina que se aprende na escola;


 Ele não percebe que praticamente tudo o que ele consome advém de processos
científicos complexos;
 A imagem do cientista é tida por ele como um profissional que “descobre” coisas e não
alguém que desenvolve coisas;
 Para ele, os modelos de cientistas são estrangeiros e com pesquisas desenvolvidas no
século passado, mesmo que ele não saiba ao certo o que esses cientistas de fato
fizeram.
Tudo bem, mas qual o problema nisso? Simples. Uma sociedade que não entende
Ciência, não a valoriza. Uma sociedade que não a valoriza não a consome. E uma
sociedade que não a consome não a fomenta. E o que ganha uma sociedade ao fomentar
Ciência? Vamos aos exemplos práticos. O Japão resolveu investir maciçamente em
Ciência após a II Guerra, que quase o destruiu por completo. Hoje, o país conta com
quase 700.000 cientistas dentre os seus 127 milhões de habitantes. Com orçamento
anual de cerca de 120 bilhões de dólares, a nação é líder mundial na produção de
pesquisa fundamental e detém um PIB de quase 5 trilhões de dólares, cuja maior parte é
fruto de insumos tecnológicos. Israel também em seu PIB de 290 bilhões fortemente
atrelado à produção científico-tecnológica. Apesar de ter crescido bastante no número
de publicações, o Brasil ocupa o 40º lugar em termos de relevância científica e a
produção econômica advinda de nossas pesquisas é pífia, mesmo com PIB de US$ 2,2
trilhões. Mesmo se considerarmos o PIB per capita brasileiro (cerca de US$ 11.000), o
Brasil ainda está atrás da Índia na produção científica, país que detém aproximadamente
US$ 1.000 per capita, valor 10 vezes menor.

Ou seja, Ciência é um dos principais fatores de evolução de um país. Em termos


políticos, sociais, educacionais e principalmente econômicos. Sabendo dessa
necessidade, como mudar esse quadro de desvalorização no Brasil? A resposta é
teoricamente óbvia, mas de aplicação prática complicada. Educação, claro. Mas se a
educação formal não tem cumprido o papel de despertar a predileção para que esses
jovens busquem na informal um maior aporte de conhecimento científico, a solução por
enquanto é mudar a educação informal. E a melhor maneira é através da Internet e de
recursos audiovisuais.

Podemos usar exemplos que já deram certo inclusive. Lembra do Mundo de Beackman,
aquele cientista maluco que ao lado de uma garota e um rato gigante desvendavam
vários experimentos? Ou quem sabe do Chocolate Surpresa, que vinha acompanhado de
cartões repletos de informações incríveis? Ou ainda do Tíbio e Perônio, do Castelo
Ratimbum? Se você lembrou desses programas com um sorriso no rosto, pensa que
iniciativas como essa podem voltar a dar certo.

Há dezenas de canais virtuais como o Nerdologia, Canal do Pirula, Manual do Mundo,


Física Marginal, que já estão cumprindo um papel fundamental para essa mudança.
Agora, nós também resolvemos arriscar com o Zoa. Vamos ver no que isso vai dar. De
qualquer forma, é um bom (re)começo. E que seja o início de um Brasil mais científico
e, sobretudo, mais cientista.