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SEM RESPEITOS HUMANOS

– Actuação clara de Jesus.

– Os respeitos humanos não são próprios de um cristão firme na fé.

– O exemplo dos primeiros cristãos.

I. ERA COSTUME entre os judeus convidar para almoçar quem tivesse


dissertado naquele dia na sinagoga. Certo sábado, Jesus foi convidado a ir a
casa de um dos principais fariseus da cidade1. E espiavam-no, para ver em que
podiam surpreendê-lo. Apesar de se encontrar frequentes vezes nessa
situação tão pouco grata, o Senhor – comenta São Cirilo – “aceitava os
convites que lhe faziam para ajudar os presentes com as suas palavras e
milagres”2. O Mestre não deixava de aproveitar nenhuma ocasião para redimir
as almas e essas refeições eram uma boa ocasião para falar do Reino dos
Céus.

Nesse dia, quando já estavam sentados à mesa, situou-se diante dele um


homem hidrópico, aproveitando-se provavelmente de um costume que permitia
a qualquer pessoa entrar na casa onde se recebia um hóspede. Não disse
nada, não pediu nada; simplesmente situou-se diante do Médico divino. “Esta
podia ser a nossa atitude interior: postar-nos assim diante de Jesus, postar-nos
com a nossa hidropisia, com a nossa miséria pessoal, com os nossos
pecados..., diante de Deus, diante do olhar compassivo de Deus. Podemos ter
a certeza absoluta de que Ele segurará a nossa mão e nos curará”3.

Jesus, ao ver o enfermo diante d’Ele, encheu-se de misericórdia e curou-o,


apesar de o espiarem para ver se curava em dia de sábado. Não se deixa levar
pelos respeitos humanos, pelo que pudessem murmurar as pessoas que se
consideravam mestres e intérpretes da Lei. Depois, fez-lhes ver que a
misericórdia não viola o sábado, e deu-lhes um exemplo cheio de senso
comum: Quem de entre vós, se o seu jumento ou o seu boi cai num poço, não
o tira imediatamente, ainda que seja em dia de sábado? E eles não lhe
puderam replicar a isso.

A nossa atitude, ao vivermos a fé cristã num ambiente em que existem


reservas, falsos escândalos ou simples incompreensões por ignorância, deve
ser a mesma de Jesus. Nunca devemos ser oportunistas; a nossa atitude deve
ser clara, coerente com a fé que professamos. Quantas vezes, este modo de
agir decidido, sem dissimulações nem medos, não é de uma grande eficácia
apostólica! Em contrapartida, “assusta o mal que podemos causar se nos
deixamos arrastar pelo medo ou pela vergonha de nos mostrarmos como
cristãos na vida diária”4. Não deixemos de manifestar a nossa fé com
simplicidade e naturalidade, quando a situação o requeira. Nunca nos
arrependeremos desse comportamento consequente com o nosso ser mais
íntimo. E o Senhor se encherá de alegria ao olhar-nos.
II. TODA A VIDA de Jesus está cheia de unidade e de firmeza. Nunca o
vemos vacilar. “Já o seu modo de falar, as repetidas expressões: Eu vim, Eu
não vim, traduzem bem esse «sim» e esse «não», conscientes e inabaláveis, e
essa submissão absoluta à vontade do Pai que constitui a sua lei de vida [...].
Durante todo o seu ministério, nunca foi visto a calcular, hesitar, voltar atrás”5.

Ele pede aos que o seguem essa vontade firme em qualquer situação.
Deixar-se levar pelos respeitos humanos é próprio de pessoas com uma
formação superficial, sem critérios claros, sem convicções profundas, ou de
caráter débil. Os respeitos humanos surgem quando se dá mais valor à opinião
das outras pessoas do que ao juízo de Deus, sem ter em conta as palavras de
Jesus: Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o
Filho do homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai com
os santos anjos6.

Os respeitos humanos podem agravar-se pelo comodismo de não querer


passar um mau bocado, pois é mais fácil seguir a corrente; ou pelo medo de
pôr em perigo, por exemplo, um cargo público; ou pelo desejo de não
singularizar-se, de permanecer no anonimato. Quem segue Jesus deve
lembrar-se de que está comprometido com Cristo e com a sua doutrina. “Brilhe
o exemplo das nossas vidas e não façamos caso algum das críticas”,
aconselhava São João Crisóstomo. “Não é possível – continua – que quem de
verdade se empenha em ser santo deixe de ter muitos que não o estimam. Mas
isso não importa, pois até por esse motivo aumenta a coroa da sua glória. Por
isso, devemos prestar atenção a uma só coisa: a ordenar com perfeição a
nossa própria conduta. Se o fizermos, conduziremos a uma vida cristã os que
andam em trevas”7, e seremos apoio firme para muitos que vacilam.

Uma vida coerente com as convicções mais íntimas merece o respeito de


todos e não raras vezes é o caminho de que Deus se serve para atrair muitas
pessoas à fé. O bom exemplo sempre deixa plantada uma boa semente que,
em mais ou menos tempo, dará o seu fruto. “E isto de alguém imitar a virtude
que vê resplandecer em outro – diz Santa Teresa – é coisa muito contagiosa. É
útil este aviso; não o esqueçais”8.

É verdade que todos tendemos a evitar atitudes que nos possam acarretar
certo desprezo ou troça dos amigos, companheiros de trabalho, colegas..., ou
simplesmente a incomodidade de ir contra a corrente. Mas também é bem
verdade que o amor a Cristo – a quem tanto devemos! – nos ajuda a superar
essa tendência, para recuperarmos a “liberdade dos filhos de Deus” que nos
leva a comportar-nos com desenvoltura e simplicidade, como bons cristãos,
nos ambientes mais adversos.

III. OS CRISTÃOS da primeira hora conduziram-se com a valentia própria de


quem tem a sua vida apoiada num alicerce firme. José de Arimateia e
Nicodemos, que tinham sido dos discípulos menos conhecidos de Jesus à hora
dos milagres, não se acanharam de apresentar-se diante do Procurador
romano e de encarregar-se do Corpo morto do Senhor: “são valentes,
declarando perante a autoridade o seu amor a Cristo – «audacter» – com
audácia, na hora da covardia”9. De modo semelhante comportaram-se os
Apóstolos perante a coação do Sinédrio e as perseguições posteriores,
plenamente convencidos de que a palavra da cruz é loucura para os que se
perdem, mas, para os que se salvam, isto é, para nós, é virtude de Deus10.

Não esqueçamos que, para muitas pessoas, será uma loucura mantermos
firmes os vínculos da fidelidade conjugal, não participarmos de negócios pouco
honestos, sermos generosos no número de filhos, apesar das preocupações
económicas que daí possam advir, praticarmos o jejum, a abstinência, a
mortificação corporal (que tanto ajuda a alma a entender-se com Deus!)... São
Paulo afirma que nunca se envergonhou do Evangelho11, e o mesmo
aconselhava a Timóteo: Porque Deus não nos deu um espírito de timidez, mas
de fortaleza, de caridade e de temperança. Portanto, não te envergonhes do
testemunho de Nosso Senhor, nem de mim, seu prisioneiro, mas participa
comigo dos trabalhos do Evangelho, segundo a virtude de Deus12.

O Senhor, quando se encontrou com aquele homem doente na casa do


fariseu que o tinha convidado, não deixou de curá-lo, apesar de ser sábado e
das críticas que receberia. No meio daquele ambiente hostil, o mais cómodo
teria sido adiar o milagre para outro dia da semana. Jesus ensina-nos que
devemos levar a cabo as nossas tarefas independentemente “do que dirão”,
dos comentários adversos que as nossas palavras ou a nossa actuação
possam provocar. Uma só coisa, antes de mais nada, deve importar-nos: o
juízo de Deus na situação em que nos encontramos. A opinião dos outros está,
quando muito, em segundo lugar. Se alguma vez acharmos que devemos
calar-nos ou omitir uma acção, deverá ser porque assim o dita a verdadeira
prudência, e não a covardia e o medo de sofrer uma contrariedade. Como
podemos sofrer menos que isso por Aquele que sofreu por nós a morte, e
morte de Cruz?

Que enorme bem faremos aos outros se a nossa vida for coerente com os
nossos princípios cristãos! Que alegria terá o Senhor quando nos vir como
verdadeiros discípulos seus, que não se escondem nem se envergonham de
sê-lo!

Peçamos a Nossa Senhora a firmeza que Ela teve ao pé da Cruz, junto do


seu Filho, quando as circunstâncias eram tão hostis e dolorosas.

(1) Lc 14, 1-6; (2) São Cirilo de Alexandria, em Catena Aurea, vol. VI, pág. 160; (3) I.
Domínguez, El tercer Evangelio, Rialp, Madrid, 1989, pág. 205; (4) São Josemaría
Escrivá, Sulco, n. 36; (5) Karl Adam, Jesus Cristo, Quadrante, São Paulo, 1986, pág. 13; (6) Mc
8, 38; (7) São João Crisóstomo, Homilias sobre São Mateus, 15, 9; (8) Santa Teresa, Caminho
de perfeição, 7, 8; (9) São Josemaría Escrivá, Caminho, n. 841; (10) 1 Cor 1, 18-19; (11) cfr.
Rom 1, 16; (12) 2 Tim 1, 7-8.

(Fonte: Website de Francisco Fernández Carvajal AQUI)

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