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Os dramas do Deus/homem no jardim!

Mateus 26. 36-46


Durante os primeiros séculos da era cristã uma questão tornou-se discussão central nos
concílios da igreja. E a discussão dizia respeito a natureza de Jesus, afinal de contas Jesus era
metade humano e metade Deus? Jesus tinha apenas a aparência de humano, mas na verdade era
cem por cento Deus? Ou Jesus era ao mesmo tempo cem por cento homem e cem por cento Deus?

Já dissemos isso noutra ocasião, mas basta observarmos a estrutura do credo apostólico ou
do credo Niceno, para que cheguemos a conclusão de que na reflexão a respeito de Deus Pai,
Filho e Espírito, a maior parte do credo se destina a explicar quem é Jesus. Tal proporção só torna
evidente uma dificuldade de compreensão, mas enfim, a conclusão a que se chegou os concílios é
a de que Jesus é 100% Deus e ao mesmo tempo 100% ser humano.

Mas pastor, qual o valor, qual a importância destas informações para a reflexão desta noite?
A importância se dá justamente por causa da escolha do texto da nossa reflexão. Neste texto
encontramos o Jesus cem por cento homem e cem por cento Deus, experimentando profundo
conflito entre estas duas naturezas que fazem parte do seu ser!

As vezes em nossa humanidade, nos vemos em situações difíceis que precisamos tomar
decisões. E diante destas situações difíceis dizemos a nós mesmos, o meu coração quer ir por este
caminho, mas a minha razão me diz que eu tenho de ir por outro caminho! Já passaram por esta
experiencia? Por esta duvida em atender a voz da razão ou a voz do coração? Caso ou não caso?
Separo ou não separo? Compro ou não compro? Vou embora ou permaneço? Mudo de emprego
agora ou espero mais um ano?

As nossas duvidas geram conflitos em nosso ser, conflitos na totalidade da nossa natureza
humana e que dependendo das escolhas que fazemos podemos nos alegrar ou nos arrepender
para sempre! Em última instancia, a partir das nossas decisões, nós e aqueles que nos cercam
serão afetados positiva ou negativamente!

Mas pensemos na situação de Jesus! Ele estava no jardim do Getsêmani e naquele jardim
as vésperas de uma decisão importante. Decisão que confronta a sua humanidade e que confronta
a sua divindade! Decisão que tem implicações não apenas para o seu ser e para as pessoas que
estão próximas a si, mas implicações para toda a humanidade.

Devido ao ciclo da quaresma e do ciclo da pascoa que se aproxima é tempo oportuno para
pensamos na vitória de Jesus sobre a morte. Vitoria que nos garante vitória! Mas a vitória de Jesus
é precedida por momentos difíceis, momentos de grande angustia e sofrimento e por isso, nesta
noite quero meditar com vocês a partir deste subtema: Os dramas do Deus/Homem no jardim!
1) O drama do Deus/Homem que precisa de solidariedade no sofrimento, mas sabe
que não pode encontra-la em seus amigos mais próximos;

No início do seu ministério, diz-nos o texto bíblico que Jesus foi conduzido pelo Espirito ao
deserto para ser tentado por Satanás. E no deserto ele sofreu três tentações distintas, a primeira
foi quanto a sua humanidade (está com fome! Transforme estas pedras em pães e mate a sua
fome!). A segunda, em sua divindade (Se és filho de Deus, pule daqui, pois os anjos te susterão) e
a terceira em sua natureza humana e divina (prostre-se diante de mim e me adore e tudo o que vês
será seu).

Jesus venceu a tentação no deserto! Ele venceu as investidas de Satanás! Mas agora, não
mais no deserto, mas no jardim do Getsêmani, Jesus passa por uma nova tentação! Agora, não
mais sob a influencia de Satanás, mas sob a influência da sua própria humanidade, Jesus tem que
por três vezes orar, pedindo ao Pai que não o permita cair em tentação!

É natural que diante das encruzilhadas da vida, venhamos recorrer aos amigos! E Jesus em
sua humanidade recorreu aos seus três amigos mais próximos em busca de apoio e em busca de
solidariedade. O evangelista Mateus tentou traduzir em palavras o sentimento de Jesus, sentimento
de profunda tristeza, dor, angustia! E a fala de Jesus expressa o quanto ele abriu o coração diante
daqueles amigos próximos, “minha alma está profundamente triste até a morte, fiquem aqui e
vigiem comigo”.

Ao mesmo tempo em que o Jesus Homem pede por apoio, por solidariedade. O Jesus Deus,
sabe que não poderá encontrar tal apoio em seus amigos. A pouco, Pedro havia dito, seguirei o
Senhor até a morte e Jesus o respondeu dizendo que antes do cantar do galo, ele haveria de negá-
lo. Tiago e João, que pediram lugares de destaques no reino e que estavam dispostos até mesmo
a beber o mesmo cálice de Jesus, estavam dentre os 10 discípulos que no momento crucial,
abandonaram Jesus.

Ali no Jardim, Jesus teve de enfrentar a tentação sozinho, pois os seus amigos que disserem
que jamais o trairia e que beberiam o mesmo cálice que o Dele, não foram capazes de
permanecerem acordados num momento de profundo sofrimento de Jesus! Eis um momento
dramático, quando Jesus quer ser acolhido, quer ser abraçado, mas sabe que a despeito dos
amigos que estão por perto, Ele está só!

2) O drama do Deus/Homem que ora para viver, mas que sabe da necessidade de
morrer

No evangelho de João, Jesus afirma o seguinte: “ninguém tira a minha vida, mas eu a dou
espontaneamente”. Isso é verdade, mas também é verdade que Jesus não queria morrer! Jesus,
como eu e você, como pessoas que amam a vida, queria continuar vivendo entre os seus!
E foi este desejo de viver que o levou a presença do Pai para orar e na oração, pedir ao Pai
que mudasse os planos. A tríplice oração de Jesus é composta de palavras repetitivas, porque não
há muitas coisas para se pedir, apenas que a vida seja preservada e eu quero chamar atenção
para a primeira parte desta oração que diz: “Pai, se possível, afaste de mim este cálice”.

Se possível, não permita que eu seja entregue nas mãos de pessoas tão más! Se possível,
priva-me de ser injustamente condenado! Se possível, priva-me dos soldados que vão zombar de
mim, que vão dilacerar meu corpo com chicotes pontiagudos! Se possível, priva-me do peso
daquela cruz! Se possível, priva-me do escárnio sobre o meu corpo nu! Se possível, livra-me da
coroa de espinhos! Se possível, priva-me dos pregos em minhas mãos e pés! Se possível, priva-
me da lança que furará o meu corpo! Se possível, Pai, livra-me da morte que me angustia por
antecipação!

No entanto, irmãos e irmãs, a oração de Jesus não parou no pedido que expressava a sua
mais profunda vontade humana de viver. Em sua divindade filial e submissa, ele conclui a tríplice
oração afirmando que apesar da sua vontade, ele se entregava a vontade do Pai, “no entanto, seja
feita a sua vontade e não a minha”.

No ano de 2013, eu participei do congresso de pastores da IPIB que ocorreu em Poços de


Caldas. Na ocasião, tive o privilegio de ouvir um sermão do Rev. Elben Lenz Cesar, um dos
fundadores da revista Ultimato, e que faleceu recentemente. Naquela ocasião, ele pregou neste
mesmo texto que compartilho com os irmãos e o tema da sua mensagem foi: “O dia e a hora em
que a nossa salvação esteve por um triz”.

Se reconhecemos que A vida de Jesus não pode ser tirada, mas ele a dá espontaneamente.
Devemos reconhecer que ele se entregou por amor a cada um de nós! E nesta convicção de que
a salvação humana dependia de si, Jesus levantou-se da oração e destemido deixou o jardim para
cumprir a sua missão. Com sofrimento, com dor, com angustia, mas com a convicção de que fazia
o que devia ser feito.

Conclusão

A palavra drama agregou para si, muitos sentidos em nossa língua. Assim as pessoas dizem:
“fulano está fazendo um drama”. Outras pessoas vão dizer que gostam do filme ou peça teatral
cujo gênero é o drama.

No entanto, o drama de Jesus, não tem relação com estes exemplos! Jesus não fez drama,
no sentido pejorativo, como se pudéssemos dizer que Ele estava sendo exagerado em sua suplica
a Deus, uma vez que Ele é Deus!

Jesus não fez drama, no sentido teatral, como se a sua oração, a sua angustia, fizesse parte
de uma encenação para convencer e comover seus amigos mais próximos.
Jesus enfrentou um drama real, no sentido mais profundo do termo. O evangelista Lucas
com mais riquezas de detalhes e na intenção de impactar o leitor, afirmou que no momento da
oração o suor de Jesus se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra.

Ao analisar este texto, alguns psicólogos vão afirmar que Jesus encontrava-se em um
profundo quadro depressivo. De fato, ele estava desesperado, pois sabia não apenas o que estava
por vir, mas sabia da intensidade de tudo e como ser humano ele sentiu medo. Foi uma situação
dramática!

Quais são os dramas da sua vida meu irmão e irmã? Quais são as questões da vida que tem
gerado angustia, quais são as questões da vida que tem feito você sofrer? Tem trazido ansiedade
de modo que não consegue descansar ou dormir em paz? Pessoas se angustiam pela falta de
emprego! Pessoas se angustiam pelo desentendimento familiar! Pessoas se angustiam devido a
uma enfermidade! Pessoas se angustiam por não se aceitarem como são! Por não serem aceitas
como são! Pessoas se angustiam por uma enfermidade espiritual!

Eu não quero minimizar o seu sofrimento e por favor não minimize os meus sofrimentos!
Apenas aquele que sofre pelo que quer que seja, sabe a dimensão da dor, ainda que aos olhos do
outro, o sofrimento por aquele dado motivo, não passe de um drama, de um exagero, de um
sofrimento sem sentido! Eu não quero minimizar a sua dor, mas quero concluir te convidando a
permitir que a Palavra de Deus ressoe em seu coração.

“Ele era desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que
é padecer” (Is 53. 3ª). Quais são os dramas da sua vida!? Jesus experimentou o mais terrível drama
que um ser humano poderia experimentar, porque como Deus, Ele sabia que aquele era o único
modo de eliminar os nossos dramas. O único modo de fazer cumprir a profecia registrada em
apocalipse 21. 4 – “E lhes enxugará dos olhos toda lagrima, e a morte já não existirá, já não haverá
luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram”.

Seja lá qual for o seu drama, confie em Jesus! Recorramos a Ele em nossa dor, porque o
drama que Jesus, o Deus/Homem enfrentou e venceu no jardim foi por amor! Foi por amor! Que
Deus nos ajude e a descansar em Jesus!