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TEXTOS UNIVERSITÁRIOS DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS

NATUREZA, CIÊNCIA E RETÓRICA


NA CONSTRUÇÃO SOCIAL DA
IDEIA DE AMBIENTE

PAULA CASTRO

FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN Fundação para a Ciência e a


Tecnologia MINISTÉRIO DA CIÊNCIA E DO ENSINO SUPERIOR
Título - NATUREZA, CIÊNCIA E RETÓRICA NA CONSTRUÇÃO SOCIAL DA
IDEIA DE AMBIENTE

Autor - PAULA CASTRO

Edição - FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN


FUNDAÇÃO PARA A CIÊNCIA E A TECNOLOGIA
Tiragem - 1000 exemplares

Paginação, impressão e acabamento - António Coelho Dias, S. A. Distribuição -

DlNALIVRO

© FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN FUNDAÇÃO PARA A CIÊNCIA E A


TECNOLOGIA

Setembro de 2002 Depósito Legal n.° 184 835/02


ISBN: 972-31-0973-5
ÍNDICE

NOTA PRÉVIA ____ _ ______________ __ _______ ..... ..... ......... XV


INTRODUÇÃO __________________________________________ 1
CAPÍTULO 1: PERSPECTIVAS TEÓRICAS DA PSICOLOGIA
SOCIAL
Apresentação do Capítulo --------------- — ----------------------- 13
Parte 1 — 0 espaço conceptual da Psicologia Social ... ........... ......... 15
Parte 2 - As Representações Sociais ....... .......... ... ....... ..... - ............. 23
1. ................................................................. Génese de um conceito e
de uma teoria .................................................. ....... ____ __ —. 23
2. _____________________ Evolução/evoluções __ ------
________________________ _ _________ — 33
3. Conclusão ............ ...... . . . — ...... .... ... — ....... .— . ... .........— 64

Parte 3 - As perspectivas discursivas ...... ......... .. .............. — ........... 69


1. ................................ Introdução .............................................
..................................... — ........ 69
2. O Construcionismo Social ........ — .......... — ... ... 71 ”
3. ......................................................... Génese das abordagens
discursivas ............................................... ..................... ..... _ ....... .. 74
4. Correntes discursivas na Psicologia Social .... „*1 ................ 95
5. A condução da Analise do Discurso ....... ....... .. ........ . .. ....
107
6. Vantagens e problemas das abordagens discursivas .......... 110

Parte 4 - Articulação entre as representações sociais e as perspectivas


discursivas ____ __ __ - . - ... — ...... ..... . - - ------ 115
1. ......................................................................... Espaços de acordo e
de discordância ....................................................... ..... ..... : ... .... 115
2. A comunicação entre as duas perspectivas ............... ... ..... 117
3. Articulação das duas perspectivas ..... ..... ..... ..... ..... ......... 120

CAPÍTULO 2: IDEIAS SOBRE A NATUREZA E O AMBIENTE


Apresentação do Capítulo .............. - - ................... ..................... 131
1. A Natureza na história --------- -- - ................ ..... .. .. ......... 135
2. Reflexões prescritivas .................................................. , ........ . 153 VII
3. As ideias do público - ...... ....... .......... ................. ............... 167
4. Conclusão do Capítulo ... ........ ............. _ ..... .. ............. .... ... 193

VII
3.1. TeoriaCultural
A Teoria Cultural, abordagem muito englobante sobre aquilo a
que podemos chamar “visões do mundo”, encontra a sua origem nos
trabalhos de Mary Douglas e colaboradores (Douglas & Wildawski, 1982;
Douglas, 1985). Foi proposta como uma forma de explicar porque razão
nem todos nos preocupamos com os mesmos riscos, isto é, porque razão
algumas pessoas consideram mais sérios os riscos de guerra, outras os
crimes, outras os riscos ambientais e outras, ainda, os económicos 1. Ao
defender que a percepçao dos riscos é um processo social, mais
determinado por certas preferências e enviesamentos culturais do que pela
probabilidade objectiva de ocorrência que se associe a esses mesmos riscos,
a Teoria Cultural contém igualmente propostas sobre a nossa forma de ver
a natureza.
De acordo com Douglas & Wildawski (1982), uma das ideias que
se tornou um lugar comum nos nossos tempos é a ideia de que, ao
contrário dos nossos antepassados, cuja visão da natureza era sempre
filtrada por ideias sociais, políticas e religiosas, para nós seria possível
vermos a natureza tal como ela realmente é — moral- mente neutra. A
ciência dar-nos-ia uma visão não politizada da natureza, uma visão das
coisas como elas são, independente das nossas ideias de como elas
deveriam ser. Ora, os autores opõem-se veementemente a esta ideia,
afirmando que, tal como todas as sociedades anteriores, também a nossa
usa filtros culturais para olhar para a natureza, pois não existe outra forma
de a ver. E para rebaterem a ideia da não politização da ciência, usam como
argumento o facto de cientistas discordarem entre si (os exemplos do livro
de 1982 referem-se a discordâncias relativas ao controlo da qualidade da

1 Para esta perspectiva os riscos ambientais não são mais sérios

hoje que no passado, nem mais sérios que quaisquer outros, nem mais
prementes ou preocupantes, mas apenas mais evidentes — no sentido de
salientes - para determinados indivíduos, com determinadas visões do
mundo. O livro de um dos principais proponentes desta Teoria - Aaron
Wildawksi - publicado em 1995 (a título póstumo) lança alguma luz sobre
esta ideia. Nesta obra, ele torna bem claro que acredita que a maior parte
daquelas que são hoje conhecidas como as grandes questões ambientais não
têm qualquer fundamento científico sólido. Apenas para ò buraco do ozono
o autor concede que há provas sólidas: “with the exception of CFCs
thinning the ozone layer, the charges are false, mostly false, unproven or
negligible” (Wildawski, 1995, pg. 447).
água e ao aumento dos cancros).
Que visões do mundo são então estas com que, segundo a Teoria
Cultural, olhamos para a natureza? As mesmas com que olhamos os riscos
e, na verdade, as mesmas com que olhamos tudo o que há à nossa volta.
Aquelas que resultam da nossa pertença a determinados grupos e dos tipos
de relações que são permitidos dentro dos grupos a que pertencemos.
Concretizando, a Teoria Cultural propõe que existem quatro
grandes visões do mundo, ou formas de pensamento social, ou
enviesamentos culturais, que resultam da socialização/participação dos
indivíduos nas quatro grandes formas de organização social actual. Estas
formas de organização social podem ser caracterizadas recorrendo a dois
eixos organizadores — o eixo do Grupo e o eixo da Grelha.
O primeiro eixo — Grupo - refere-se à “outside boundary that
people have erected between themselves and the outside world” (pág. 138).
Ou seja, as formas de organização social podem ser caracterizadas por uma
maior ou menor permeabilidade com o exterior, as organizações de que as
pessoas participam podem acentuar mais ou menos a distinção entre o
exterior e o interior, a diferença entre o Nós e o Eles. O segundo eixo —
Grelha — diz respeito aos constrangimentos que os indivíduos encontram
dentro dos grupos ou organizações a que pertencem. Estes podem ser
maiores ou menores, oferecendo-lhes margens mais restritas ou mais
alargadas de comportamentos considerados socialmente aceitáveis.
Do cruzamento destes dois eixos resultam quatro tipos diferentes
de organização social, que se relacionam directamente com quatro visões
do mundo, ou racionalidades, também diferentes: as visões do mundo dos
Igualitários, dos Fatalistas, dos Hierárquicos e dos Individualistas.
• Os Igualitários, participando em organizações de baixo
constrangimento pessoal e alta diferenciação Nós-Eles, privile-
giariam o consentimento igualitário e a participação directa.

VM
• Os Burocráticos, ou Hierárquicos, imersos em organizações
sociais definidas por alto constrangimento pessoal e alta
diferenciação Nós-Eles, em que os membros têm acesso a
determinados benefícios em trocada subordinação à autoridade
colectiva, tenderiam a privilegiar o respeito pelas normas e o sacrifício
da glória pessoal pela honra colectiva.
• Os Individualistas, participantes de organizações de baixo
constrangimento pessoal e baixa diferenciação Nós-Eles, têm o
sucesso pessoal em alta estima e acreditam nas diferenças individuais
de mérito e inteligência, que recompensam.
• Por fim, os Fatalistas, sujeitos a alto constrangimento pessoal e a
baixa diferenciação Nós-Eles, parecem os mais isolados, confiando
sobretudo em si e na sorte.

Douglas e Wildavsky (1982) propõem ainda uma análise dos grupos


ecologistas. Caracterizando-os como grupos periféricos, face a um centro que
integraria as lógicas burocráticas e individualistas, consideram-os estruturados
na sua organização de forma Igualitária, isto é, com uma grande diferenciação
entre o Nós e o Eles, e uma fraca diferenciação interna, ou um baixo nível de
diferenciação hierárquica. Esta sua lógica organizativa estaria relacionada com
uma percepção de riscos que salientaria, então, aqueles riscos que se associam à
preocupação em limitar a iniciativa individual em nome do bem colectivo (Ellis
& Thompson, 1997), como os riscos ambientais.
Posteriormente, Dake (1992) retoma as propostas da Teoria Cultural
sobre estas quatro grandes racionalidades, ou visões do mundo, para reflectir
mais concretamente sobre as diferentes visões da natureza das pessoas. De
acordo com este autor, os Hierárquicos tenderiam a ver a natureza como
robusta, mas só até certo ponto, e a definição deste ponto e de como lidar com
ele, seria uma atribuição dos peritos competentes. Os Igualitários, por sua vez,
esposariam o mito da natureza frágil e lutariam pela preservação do ambiente.
Os Individualistas, por seu lado, veriam a natureza como
benigna e acreditariam que se não lhe fossem impostos limites arti ficiais (como
leis ambientais restritivas), ela poderia ser origem de abundância para todos.
Finalmente, os Fatalistas veriam a natureza como caprichosa, ou seja, como
basicamente imprevisível e incon- trolável.
O trabalho de Marris et al. (1996) fornece algum apoio directo à
validação empírica destas propostas, ao encontrar um padrão de correlações
17 0
muito semelhante ao que estas propostas preveem, entre as respostas a escalas
que caracterizam aquelas quatro visões do mundo e as respostas a perguntas
sobre a natureza.
Marris et al. (1996) usaram uma versão modificada da versão inglesa do
Questionário de Enviesamentos Culturais de Dake, e os resultados mostram que
“Each cultural bias produced distinct patterns of correlations, and these were all
consistent with the predictions of cultural theory” (pág. 39). Por exemplo, o
“mito da natureza benigna” (item: o ambiente é muito adaptável e há-de recuperar
do mal que as pessoas lhe causem) correlaciona positivamente com o
individualismo e negativamente com o igualitarismo. “O mito da natureza
efémera” (item: o ambiente é muito frágil e a mais pequena interferência humana pode
causar grandes catástrofes) correlaciona positivamente com o igualitarismo e com
o fatalismo, ainda que mais com o primeiro. Por sua vez, “o mito da natureza
caprichosa” (item: independentemente do que façamos, o ambiente mudará de forma
imprevisível, tanto para o melhor como para o pior), correlaciona unicamente com o
fatalismo.
Também as análises empíricas de Ellis & Thompson (1997) parecem
apoiar estas ideias. Estes autores encontram uma relação consistente entre o
igualitarismo e o ambientalismo e, ao mesmo tempo, uma forte relação inversa
entre o apoio ao individualismo e ao ambientalismo. Além disso, as diferenças
significativas que encontram entre uma amostra de activistas ambientalistas e
de público indiferenciado, mostram, por parte dos activistas, um maior apoio
aos princípios da deep ecology, menor confiança na ciência e na tecnologia, e
maior apoio aos valores igualitários da participação nas decisões. Nas
conclusões, Ellis & Thompson (1997) salientam que
os seus dados apoiam a ideia de que o debate ambiental seria sobretudo
uma disputa entre igualitários e individualistas (págs. 892-3).
Parece, portanto, haver alguma razão para acreditar que o tipo
de enviesamento cultural que caracteriza cada indivíduo contribui para
diferentes formas de olhar para a natureza: algumas pessoas vêm-na
como resistente e adaptável, outras como frágil, e outras como
imprevisível. Na perspectiva da Teoria Cultural, o que importa é
perceber que, mais do que as coisas em si, são os enviesamentos
culturais que nos caracterizam, õ que contribui para uma determinada
forma de ver a natureza.

3.2. Os valores pás-materialistas


Uma outra reflexão que converge para a análise das posições do
público é aquela que, na década de 70, Inglehart veio propor. Este autor
propos uma taxonomia de valores que assenta na diferenciação entre
valores materialistas e valores pós-materialistas. Resumidamente, a tese
de Inglehart (1977; 1995) é a de que o desenvolvimento económico leva a
mudanças graduais nas prioridades valorativas do público das
sociedades industriais avançadas. Baseado nas propostas da pirâmide
motivacional de Maslow, Inglehart defende que à medida que as suas
necessidades mais básicas — como a de segurança e bem estar - vão
ficando satisfeitas, as pessoas das sociedades mais desenvolvidas,
económica e socialmente, passam a privilegiar cada vez menos os
valores relacionados com questões materiais — como a estabilidade da
economia e a ordem no país - e começam a preferir valores pós-
materialistas - como seriam a liberdade de expressão, a participação nas
decisões públicas e uma sociedade menos impessoal.
Nestas sociedades, à medida que as novas gerações são socia-
lizadas num ambiente de segurança e de bem estar, elas passariam a
deslocar os seus valores prioritários para assuntos cada vez mais rela-
cionados com o estilo de vida e com a acção política. Assim, “At any
given time, younger cohorts are more postmaterialists than the older,

íiói'-'... V-
T'7'1

17 1
and their gradual replacement of the older generation produces an
overall value-shift in a predictable direction” (Inglehart & Abramson,
1999). Por outro lado e pelas mesmas razões, a tendência para preferir
valores pós-materialistas é também mais forte nos estratos mais
favorecidos da sociedade.
Inglehart & Abramson (1999) argumentam ainda que “the
emergence of postmaterialism has been reshaping the meaning of Left
and Right, shifting the original emphasis on class conflit issues, such as
government ownership of industry and the redistribution of income,
toward an increasing focus on the quality of life, such as environmental
protection, womens rights, and the status of gay and lesbians” (pág.
670).
Estas propostas têm vindo a ser testadas um pouco por todo o
mundo, com recurso a uma bateria de 12 valores, seis dos quais
materialistas (exemplos: manter a lei e ordem; controlar a inflação), e
outros seis pós-materialistas (exemplos: liberdade de expressão,
participação na política). Esta bateria é aplicada apresentando às
pessoas três grupos de quatro valores de cada vez, dois materialistas e
dois pós-materialistas, e pedindo-lhes que escolham, a cada vez, o valor
prioritário e o segundo valor prioritário. A bateria apresenta-se,
portanto, como uma tarefa de ordenação. A sua aplicação permite
classificar as pessoas como pós-materialistas, materialistas ou mistas.
Inglehart validou estes indicadores relacionando-os com variáveis
teoricamente relevantes. Por exemplo, usando uma bateria de objec-
tivos profissionais, os resultados indicavam que “materialist respon-
dents tended to give top priority to ‘a good salary and ‘a safe job’, while
post-materialists tended to choose ‘working with people you like’ and ‘a
feeling of accomplishment’” (pág. 666). Outro dos objec- tivos
frequentemente relacionados com a adesão a valores pós-materialistas
é a preocupação com o ambiente e com a sua defesa (Inglehart, 1995).
Também em Portugal esta bateria de valores de Inglehart foi
aplicada a uma amostra nacional, e Vala (1993b) analisa as percen-
tagens de respondentes materialistas (41 %), pós-materialistas (1 1 % ) e
mistos (48%), para concluir que, em 1990, a sociedade
portuguesa apresentava, no seu conjunto, uma tendência mais marcada
do que a europeia, para a prevalência de valores materialistas. Por outro
lado, Vala (1993b) analisa também as relações que apresentam um
índice de ecologismo — composto por questões sobre as intenções de
apoio a maiores gastos com o ambiente e também por questões relativas
às crenças sobre a relação entre o ambiente, o desemprego e a poluição
— com os valores, a ideologia política, a idade e a escolaridade. Conclui
que “a adesão a proposições de apoio ao movimento ecológico ancorará,
pelo menos, em dois tipos de valores mais gerais; por um lado, os
valores pós-materialistas, os valores de modernidade e de recusa de
conservação da ordem social, e por outro lado, os valores ditos
tradicionalistas” (pág. 240). Vala (1993b) salienta assim que entre nós a
atitude positiva face à ecologia parece envolver uma grande pluralidade
de significados. Por fim, este estudo permite ainda concluir que há mais
apoio à ecologia por parte dos mais novos e mais escolarizados, e um
menor apoio dos mais religiosos c que se auto-posicionam
politicamente à direita.
Em suma, a tese de Inglehart e a da Teoria Cultural, não
parecem Ser teses de base realista. Nenhuma destas abordagens da
questão ambiental propõe que é a evidência generalizada dos problemas
ambientais o que leva as pessoas a preocuparem-se com eles. Esta
preocupação estaria antes relacionada com um conjunto de prioridades
e de valores, ou seja, com um determinado entendimento do mundo.
Analisemos agora uma perspectiva que parte de premissas
diferentes, uma perspectiva que poderíamos chamar realista, por
oposição às que se acabam de resumir.

3.3. O paradigma dominante e o ecológico

Catton & Dunlap (1980; e também Dunlap & Catton, 1979;


1992/3; Dunlap, 1993), são autores que se situam na área da sociologia
do ambiente, e intentam, nos artigos que acima se referenciam, cumprir
dois grandes objectivos: (1) mostrar que as atitudes

175
e as crenças das pessoas em relação à natureza se começaram a modi
ficar nos últimos anos; (2) mostrar que dentro da disciplina da
sociologia existe um movimento semelhante ao do público em geral, no
sentido de conceber a natureza de uma forma diferente. Para estes
autores, estas mudanças devem-se a razões objectivas, motivo pelo qual
se propõe que esta é uma teoria de base realista.
Quais são então as razões objectivas que determinam estas
mudanças? Nas palavras dos autores:

“New problems involving the quality of our air, water


and land are continually being discovered, but several major
trends stand out: (a) humans are having an increasingly
negative impact on the physical environment; (b) these impacts
are occuring at ever-larger geographical scales; and (c) the
resulting degradation of the environment poses major threats
to the health and welfare of human beings (EPA Advisory
Board, 1990). Indeed, it is widely recognized that human
activities are disrupting the func- tioning of ecossystems to the
point of possibly causing irreversible damage, not only at local
leveis but all the way to the global levei (Silver with DeFries,
1990). The consequences for our species could be profound”
(Dunlap & Catton, 1992/3, pág. 275).

Ou seja, o que determina tais mudanças são os problemas


ambientais. Estes problemas são vistos como o sintoma que nos mostra
que terminou a “Era da Exuberância”, e que vivemos agora a “Era da
Pós-Exuberância” (Catton & Dunlap, 1980). De acordo com estes
autores, durante os últimos 400 anos as sociedades humanas tenderam
a crescer exponencialmente, graças sobretudo à descoberta de um Novo
Mundo para colonizar e à invenção de novas tecnologias, que nos
deram acesso a novos recursos. No entanto, a partir dos anos 70, teria
começado a crescer a consciência de que esta Era de crescimento
exponencial — exuberante — teria terminado, e teríamos já passado o
ponto de inflexão, com os recursos a iniciarem a curva descendente.
Estaríamos assim a viver uma era de escassez ecológica, em que
se torna necessário ter consciência de que o ecossistema global

174
. ■ ;c-r >,
é finito e sujeito a leis ecológicas a que não podemos escapar. Segundo
os autores: “Successful adaptation to the changed situa- tion can be
seriously impeded by archaic worldviews and obsolete scientific
paradigms” (pág. 31). Felizmente, haveria já indicações de que o público
estaria a dar-se conta de que a visão tradicional do mundo precisaria de
mudar, para ser substituída por uma outra mais pró-ecológica.
Estes autores defendem que as mudanças que estão a ocorrer no
público e na sociologia podem resumir-se da seguinte forma: as pessoas
estão a abandonar aquilo que os autores denominam Dominant Western
Worldview (Mundivisão Ocidental Dominante), ou ainda Paradigma
Social Dominante. Nesta visão do mundo, ou paradigma, radica uma
determinada forma de todos nós, ocidentais, pensarmos e agirmos sobre
a natureza. Radica também uma determinada forma de pensar e fazer
sociologia, cujos pressupostos os autores denominam Human
Exemptionalist Paradigm (HEP), ou Paradigma da Isenção — por supor as
pessoas isentas de constrangimentos e influências ambientais.
Por oposição a este Paradigma da Isenção, os autores vêm
propondo um novo paradigma para a sociologia, a que chamam New
Ecological Paradigm (NEP - Novo Paradigma Ecológico). Esta nova forma
de pensar a sociologia tem um conjqnto de pressupostos que foram
pensados “to overcome the anthropocentrism and hubris of the HEP by
stressing the fact that, despite our special abilities, our species cannot
evade the ecological principies that govern all biological life on Eafth”
(Dunlap & Catton, 1992/3, pág. 272). E seria também em direcção a esta
nova forma de pensar que o público se estaria a deslocar.
A Figura 2.1 resume estes três paradigmas.
Com o propósito de medir e acompanhar as mudanças do
público em relação a esta nova forma de pensar, Dunlap & Van Liere
(1978) desenvolveram, na década de 70, com base nos pressupostos do
Novo Paradigma Ecológico, uma escala à qual deram o nome New
Environmental Paradigm Scale (Escala NEP). Esta procurava, segundo os
autores, medir três tipos de crenças: sobre a
Figura 2.1
Três paradigmas para pensar a natureza
New Ecological Paradigm

Embora tendo caractcrísti- cas excepcionais, as pessoas são uma espécie entre outras,
interdependentes do ecos- sistema global.

As acções humanas não são só influenciadas por factores sociais e culturais, mas também por
Dominant Western Hnman Exemptionalist Paradigm conexões complexas e
Paradigm Porque têm uma herança cul- retroações com a rede da
As pessoas diferem das outras tural, para além da genética, as natureza. Por isso podem ter
criaturas da Terra, às quais pessoas diferem das outras consequências imprevistas.
dominam. espécies. As pessoas vivem e depen-
dem de um ambiente biofí-
sico finito, que lhes impõe
Os factores sociais e culturais
constrangimentos poderosos.
(incluindo a tecnologia) são os
As pessoas são donas dos seus
grandes determinantes dos Embora a inventividade
destinos, podem escolher os
assuntos humanos. humana e os seus poderes
seus objectivos e aprender o
possam dar durante algum
necessário para os cumprir.
tempo a ilusão de não haver
limites, as leis ecológicas não
podem ser ultrapassadas.
Adaptado de Dunlap &
O mundo é vasto, e oferece às O ambiente social e cultural é o Catton (1992/93)
pessoas oportunidades ilimi- contexto crucial para os
tadas. assuntos humanos, o ambiente
capacidade da
biofísico é irrelevante.
humanidade para
A história da humanidade é A cultura é cumulativa; o pro-
perturbar o equilíbrio
uma história de progresso: para gresso técnico e social pode
cada problema há uma solução, continuar indefinidamente, da natureza; sobre a
e o progresso não cessará. acabando por tornar resolii- existência de limites
veis todos os problemas sociais.
ao crescimento das
sociedades humanas;
e sobre o papel das pessoas em relação à natureza.
Esta escala conheceu, desde cedo, bastante sucesso, e foi
amplamente utilizada por diversos investigadores. Os ensinamentos,
críticas e reflexões que este uso originou sugeriram aos seus autores a
oportunidade de uma reformulação. Assim, alguns anos mais tarde, foi
rebaptizada de New Ecological Paradigm Scale e foram-lhe acrescentados
alguns itens e reformulados outros, a fim de

. -\rn ■.
conseguir que passasse a ter um número equilibrado de itens pró e anti-
ecológicos (ver Dunlap et al., 1992). De acordo com os autores, os 15 itens
da escala actual “were designed to tap each of the five potential facets of
an ecological worldview” (pág. 6). Essas facetas são: a realidade dos
limites ao crescimento; o anti-antropocentrismo; a fragilidade do
equilíbrio da natureza; a rejeição da isenção humana; a possibilidade de
uma catástrofe ecológica. Dunlap e colaboradores (1992) defendem que a
nova escala mede, com o conjunto dos seus 15 itens, o apoio a uma visão
do mundo pró-ecológica.
Em suma, temos, com estes autores, uma formulação teórica de
base realista, segundo a qual, a existência e a visibilidade dos problemas
ambientais e do esgotamento dos recursos teriam conduzido as pessoas a
mudanças na forma como pensam as suas relações com a natureza, e a
serem cada vez mais ambientalistas. Temos também uma análise de quais
são os principais eixos desse novo pensamento. Trata-se, portanto, de
uma reflexão que pode ainda considerar-se a ocorrer dentro da acepção
Metafísica de Natureza que Soper (1995) propõe. Desta análise dos eixos
que estruturariam o novo pensamento sobre as relações das pessoas com
a natureza resultou também uma escala, que os autores propõem que
opera- cionaliza aqueles eixos.
Como se disse, esta escala NEP, desenvolvida por Dunlap & Van
Liere (1978) nos anos 70, conheceu, desde cedo, bastante sucesso entre os
investigadores. No entanto, a forma como frequentemente a escala foi
empregue nem sempre respeitou a sua formulação teórica original. De
uma forma geral, o uso da escala parece ter sido irresistivelmente atraído
para fora da acepção Metafísica (Soper, 1995) da palavra natureza, e para
dentro do âmbito de gravitação do termo ambiente, na intersecção que
este pode ter com a noção mais Epidérmica de natureza. Quer isto dizer
que, muito frequentemente, a escala foi empregue como forma de saber
se, e até que ponto, as pessoas se preocupam com os problemas
ambientais, de analisar quais são as pessoas que mais se preocupam com
estes problemas, e se essa preocupação tem consequências para o
comportamento.

178
Ou seja, os estudos que gravitam mais em torno do com riiu
de natureza e de uma concepção das questões ambientais como
relacionadas com determinadas visões do mundo — como os condo zidos
pela Teoria Cultural - preocupam-se mais em perceber as representações
de natureza e da relação pessoas-natureza, e em ver em que diferem estas
representações, e porquê. Já os estudos que gravitam na órbita do
conceito de ambiente, assumem que os problemas ambientais são
prementes e existem evidências deles por toda a parte, e partem
directamente da ideia de que é sobretudo importante perceber se as
pessoas estão ou não preocupadas com a poluição, os recursos, a perda de
biodiversidade, a reciclagem, etc. Assim, quando analisam as crenças
sobre a relação pessoas-natureza, é já nesta óptica que as encaram.
Durante os primeiros anos de desenvolvimento dos estudos
empíricos sobre estas questões, estes três tipos de abordagem, que acabo
de expor, conviveram na literatura de forma quase sempre paralela, isto é,
sem se discutirem e contraporem uns aos outros. Somente a partir de
meados dos anos 90, começaram a surgir artigos em que estas três
abordagens reflectem umas sobre as outras. Em simultâneo, e também até
meados dos anos 90, para além das abordagens que se resumiram, surge
uma literatura bastante abundante e diversificada, mas de alcance mais
restrito, e que se poderia, então, dizer que gravita sobretudo em torno do
conceito de ambiente. Passo a dar uma visão geral das características desta
última. Depois farei um ponto de situação, em que serão visíveis as
controvérsias entre as abordagens que têm surgido na literatura mais
recente.

3.4. Estudos de alcance mais restrito

Existe, actualmente, um conjunto muito numeroso de estudos


provenientes quer da sociologia ambiental quer da psicologia ambiental,
que procura analisar diversas facetas do pensamento das pessoas sobre o
ambiente e as preocupações ambientais.
Uma primeira inspecção desta literatura fãz ressaltar alguns
pontos comuns a estes trabalhos:
• São geralmente trabalhos de natureza quantitativa, pro-
curando, quer através cie questionários, que incluem pergun-
tas de resposta fechada, quer através de escalas, medir e
quantificar diferentes aspectos do pensamento das pessoas em
relação ao ambiente.
• São estudos que, na sua maioria, procuram nas inserções
sociais objectivas dos indivíduos (operaciopalizadas por
variáveis sócio-demográficas, como a idade, o nível de
escolaridade e o rendimento) as razoes para as suas diferentes
formas de ver o ambiente, ou para os seus diferentes
comportamentos relativos ao ambiente (ver a revisão
deTarrant & Cordell, 1997).
• Em alguns casos, as análises relativas às variáveis sócio- -
demográficas são complementadas com a introdução de
outras variáveis, sobretudo os valores (Stern et al., 1995a; Grob,
1995) e a ideologia política (Schultz & Stone, 1994), com as
quais se procura entender quer as atitudes, crenças, ou
percepçÕes face a questões ambientais quer os compor-
tamentos com repercussão no ambiente.

Dentro deste panorama geral de semelhanças, esta literatura


apresenta simultaneamente (1) uma grande variedade de conceitos com
que os investigadores trabalham e um grande número de instrumentos
para os medir, e (2) alguma confusão e indefinição conceptual.

3.4.1. Proliferação de conceitos e de instrumentos de medida relativos


ao ambiente
No começo dos anos 80, ou seja, apenas cerca de dez anos depois
de se ter começado a acumular a literatura sobre o ambiente, Van Liere &
Dunlap (1981) faziam notar a existência de “a large number of studies of
public attitudes toward environmental issues

179
by social and behavioural scientísts” (pág. 651), bem como o
facto de o aumento destes estudos ter sido acompanhado por uma
atenção cada vez maior à medição das preocupações ambientais do
público. O que preocupava na altura estes dois investigadores era saber se
os diferentes tipos de medição sobre o pensamento e/ou acções do
público face a assuntos ambientais, poderiam ser de alguma forma
equivalentes, isto é, poderiam constituir testes paralelos do mesmo
conceito subjacente — o environmental concern, ou preocupação
ambiental. Os autores tinham pois por objectivo responder à seguinte
pergunta: “does it make a djíference how environmental concern is
measufed?” (pág. 652).
A questão era pertinente porque, já na altura, as medidas desen-
volvidas eram numerosas, e variavam quer nos assuntos substantivos que
incluíam (população, poluição, recursos naturais) quer nas concepções do
que melhor expressaria a “preocupação ambiental” e, portanto, deveria,
em concreto, ser medido.
E em concreto, as medidas que os autores recenseavam na
literatura, apresentadas como sendo operacionalizações do conceito de
“preocupação ambiental”, eram as seguintes: gravidade percebida dos
problemas ambientais, apoio a gastos governamentais com a
protecção do ambiente, conhecimento/informaçao sobre
problemas ambientais, apoio a reformas para proteger a qualidade
do ambiente e envolvimento em comportamentos pró-ambientais
(ver pág. 654).
Van Liere & Dunlap (1981) tentarão, então, neste artigo, ver até
que ponto se podem considerar equivalentes estas medidas. As conclusões
são relativamente inequívocas: os resultados sugerem que “different types
of environmental concern measures may be more distinct than previously
assumed” (pág. 668). Esta diferença é sobretudo relevante no que respeita
às medidas que incidem sobre o comportamento: medir as preocupações
das pessoas não parece ser o mesmo que medir os seus comportamentos.
Ou seja, o que as pessoas dizem que fazem ou fariam pelo ambiente
parece estar pouco relacionado com o seu nível de preocupação com os
problemas ambientais.
Vejamos, agora, como evoluíram estes estudos depois deste
ponto de situação feito por Van Liere & Dunlap no começo dos anos 80.
Ou seja, vejamos quais são as medidas que têm sido usadas, depois desta
data, nesta literatura, para dar conta do pensamento e do
comportamento das pessoas relativos ao ambiente e em que conceitos
incidem essas medidas. Uma primeira constatação genérica é que as
medidas continuam a ser variadas e incidem em conceitos igualmente
diversos. Sem a ambição de esgotar a totalidade das propostas, segue-se
uma lista representativa destas medidas, agrupadas pelas designações
que os próprios autores propõem.
• Encontramos medidas de preocupação (concern) ambien-
tal ou de preocupação com um conjunto de problemas
ambientais (Weigel & Weigel, 1978; Krause, 1993; Lyons &
Breakwell, 1994; Gooch, 1995; Jones et al., 1999).
• Medidas de conhecimento, ou informação, sobre assun-
tos ambientais (Arcury, 1990; Krause, 1993; Lyons & Breakwell,
1994).
• Medidas de percepção de ameaça pessoal pelos
problemas ambientais (Baldassare & Katz, 1992).
• Medidas sobre o ambientalismo (Milbrath, 1984; Dietz et
al., 1998), juntando perguntas sobre apoio a movimentos
ambientalistas, com intenções comportamentais e preo-
cupação com problemas ambientais; escalas pró-
ambiente (Larsen, 1995); e medidas de assuntos
ambientais (Parker & McDonough, 1999).
• Escalas de ecologismo (Soczka, 1983), incluindo perguntas
relativas à crença na existência de uma crise ecológica, nos
malefícios da construção de centrais nucleares e do
crescimento industrial e tecnológico; e escalas de ecologia
(Maloney et al., 1975), medindo a preocupação, o conhe-
cimento, a disposição para agir, e o comportamento presente e
passado.
• Medidas relativas à consciência (awareness) das conse-
quências dos problemas ambientais (Stern et al, 1995a; Dietz et
al., 1998), ou somente da sua existência (Grob, 1995).

18 2
• Medidas de responsabilidade ambiental (Stone et al.,
1995. Schultz & Zelezny, 1998).
• Escalas de apatia em relação a assuntos ambientais
(Thompson & Barton, 1994).
• Inúmeras medidas de crenças e atitudes em relação ao
ambiente (Herrera, 1992; Kanagy & Willits, 1993; Stem et al,
1993; Musser & Malkus, 1994; Thompson e Barton, 1994;
Berberoglu &Tosunoglu, 1995; Vogel, 1996; Dietz et al., 1998).
• Medidas de visões do mundo (worldviews) relativas às
relações pessoas-natureza (Dunlap et al., 1992; Thompson &
Barton, 1994; Stern et al, 1995a).
• Medidas de comportamentos pró-ambientais
(Scott & Willits, 1994; Mainieri et al., 1997; Dietz et al, 1998;
Parker & McDonough, 1999).

Deste variado conjunto de propostas de instrumentos de


medida e de conceitos, uma boa parte consiste em propostas novas e
não retomadas. Ou seja, quando querem fazer um estudo, muitos
investigadores constroem, e em alguns casos pré-testam, um instru-
mento novo, o qual depois não é, ou raramente é, retomado por outros
investigadores. As excepções a este panorama são, tanto quanto foi
possível apurar, apenas três.
A Ecology Scale de Maloney e colaboradores (1975), que foi
retomada, por exemplo, nas investigações de Morino et al (1986),
Synodinos (1990), Schahn & Holzer (1990), Benton & Funkhouser (1994)
Chan & Yam (1995) e Glenn &Tamara (1995).
A escala de Weigel & Weigel (1978), denominada Environmental
Concern Scale, foi por sua vez aplicada também por Aragonês & Amerigo
(1991), Smith & Bell (1992) e Thompson & Barton (1994).
A terceira excepção é a escala desenvolvida nos anos 70 por
Dunlap e Van Liere (1978), denominada NEP, já mencionada, e que os
autores definem como tendo por objectivo medir o nível de apoio a
uma visão pró-ecológica do mundo, que resulta de uma

183

determinada forma de conceber as relações pessoas-natureza. Das três,


parece ser esta a mais frequentemente utilizada. Usam-na, por
exemplo, Arcury (1990), Arcury & Christianson (1990), Christianson &
Arcury (1992), Dunlap et al. (1992); Scott & Willits (1994), Gooch, (1995),
Stern et al., (1995a), Mainieri et al., (1997), Tarrant & Cordell (1997),
Schultz & Zelezny (1998), Furman (1998), Parker & McDonough (1999),
Bechtel et al. (1999).
Ao longo dos anos que medeiam entre o início da década de 80
e os meados da década de 90, esta Escala NEP contribuiu para dar aos
debates* que estão em curso sobre as posições do público, uma parte
substancial da sua forma. No entanto, esta escala tem uma história de
apropriação pelos investigadores bastante atribulada, graças sobretudo
a dois motivos:
(1) É frequente que ela seja usada de forma incompleta. Ou
seja, os investigadores escolhem apenas alguns dos seus
itens (como Mainieri et al., 1997), ou factorizam-na
previamente e depois usam apenas algumas subescalas (é o
caso de Arcury & Christianson, 1990; Scott & Willits, 1994;
Gooch, 1995); assim, a primeira vicissitude no uso da escala
acaba por aparecer, na literatura, relacionada com o
debate, também ele mobilizador, de saber se quando
pensam sobre o ambiente as pessoas são simplesmente a
favor ou contra uma visão pró-ecológica, ou se este
pensamento é mais complexo, necessitando nós de isolar
nele diferentes factores, e podendo as pessoas ser contra
uns e a favor de outros (Ungar, 1994).
(2) O segundo problema é o da coníusão conceptual. Muitos
dos conceitos a que os autores recorrem parecem ser
utilizados de forma intermutável entre eles. Eis alguns
exemplos relativos ao uso da Escala NEP: Schultz & Stone
(1994) usam a NEP propondo que ela mede o enviromnental
concern (“it is a reliable and face valid measure of
environmental concern”, pág. 32); Arcury (1990),
Christianson & Arcury (1992) e Parker &
McDonough (1999) usam-na como medida de atitudes
ambientais (pág. 301); por sua vez Stern e colaboradores
(1995a) usam-na como medida de visões do mundo;
Schultz & Zelezny (1998) usam-na (na sua forma renovada
em 1992) como uma medida da “consciência das
consequências” dos problemas ambientais2.

2Outros exemplos desta falta de definição conceptual podem


ser encontrados em estudos que usam outros instrumentos de medida.
Eis alguns: Thompson & Barton (1994), pretendem estudar atitudes
ambientais - as ecocêntricas e as tecnocêntricas - mas também as
3.4.2. Uma tentativa de clarificar o campo de pesquisa

Em 1995, reconhecendo o carácter frequentemente ateórico e


fragmentário deste campo de pesquisa, P. Stern e seus colaboradores
(Stern et al., 1995a) propõem-se tentar unificá-lo e clarificá-lo e, ao
mesmo tempo, ligar a pesquisa sobre o ambiente a um “more explicit
social-psychological modcl” (Stern et al., 1995a, pág. 724). Ou, como
Stern e colaboradores (1993) põem a questão: “A number of critics have
suggested thàt.fchè lack of a general theoretical frame may be one
reason that research on environmental attitudes and environmentalism
is not eumulative”(pág. 323).
Assim, estes autores propõem um modelo em vários passos, no
qual a explicação do comportamento - o último passo - depende dos
anteriores. Estes passos são concebidos do seguinte modo: as posições
objectivas das pessoas na estrutura social estão relacionadas com o
favorecimento de determinados valores; por sua vez, os valores que as
pessoas favorecem relacionam-se com determinadas crenças gerais
sobre as relações pessoas-natureza, tal como aquelas que, por exemplo,
estão expressas na escala NEP; estas, por

consideram motivos, ou valores, (pg. 149) è análogas a visões filosóficas


das relações pessoa-ambiente; Dietz et al. (1998) usam medidas de
intenções còmportamentais como uma medida de ambicntaiismo.
sua vez, determinariam crenças mais específicas, relativas a questões
ambientais específicas; as quais, por seu lado, permitiriam então prever
os comportamentos. Segundo os autores, os valores seriam
antecedentes e determinantes das crenças, sobretudo, porque seriam
formados mais cedo na vida e se apresentariam como mais estáveis e
gerais (1995a, pág. 726-727). Estes autores propõem, pois, um modelo
que assenta em dois conceitos com uma longa tradição de estudo na
Psicologia Social — os conceitos de valores e de crenças.
No artigo de 1995, Stern e colaboradores relatam então a sua
primeira validação deste modelo. Trata-se de uma validação parcial,
englobando apenas os três primeiros níveis: (1) das inserções objectivas,
(2) dos valores e (3) das crenças gerais, ou visões do mundo relativas às
relações pessoas-natureza. Os resultados obtidos apoiam de alguma
forma a ideia que os valores são capazes de prever alguma da
variabilidade das crenças dos sujeitos sobre o ambiente, ou,
concretamente, das suas respostas à New Ecological Paradigm Scale
(Dunlap et al., 1992), ou escala NEP.

3.4.3. Algumas conclusões

Apesar da falta de clarificação conceptual, da proliferação de


instrumentos e do carácter fragmentário da pesquisa neste campo,
algumas conclusões parecem ser relativamente comuns a este conjunto
de trabalhos.
A mais constante delas, talvez seja a que refere a existência de
uma grande e generalizada preocupação com as questões ambientais,
uma tendência bem definida do público para apoiar visões pró-
ecológicas da nossa relação com a natureza, para concordar com ideias
de que o ambiente tem que ser protegido. Eis alguns exemplos.
Arcury & Christianson (1990) compararam as respostas dadas à
NEP por residentes no Kentucky em 1984 e em 1988, e concluem pela
existência de um “general, although small increase in environmentalist
worldview in this population” (pág. 402). Dunlap
e colaboradores (1992) comparam as respostas dadas em 1976 e em 1990
por residentes do estado de Washington à NEP. Concluem pela

186
existência de um ligeiro aumento da visão pró-ecológica nesta
população, sendo que o aumento mais marcado ocorre na crença da
probabilidade de uma catástrofe ecológica. Scott & Willits (1994)* por
sua vez, analisaram até que ponto os residentes na Pennsylvania
apoiavam a visão pró-ecológica do mundo expressa na NEP, e as suas
conclusões apontam no sentido de um elevado apoio à NEP. Gooch
(1995) encontra elevado apoio para uma visão pró-ecológica também
entre o público sueco. Bechtel et al. (1999) encontram apoio no Brasil,
México e USA. Furman (1998), em Istambul, e Schultz & Zelezny (1998)
na Espanha, Nicarágua, México e Peru.
Um consenso tão alargado conjuga-se com alguma dificuldade
em encontrar relações robustas com as variáveis utilizadas para o tentar
explicar. De uma forma geral, estes anos de pesquisa permitem
sintetizar que:
• As crenças e atitudes pró-ecológicas, ou pró-ambientais, ou o
ambientalismo (dependendo da terminologia dos autores),
estão sistematicamente relacionados pela negativa com a
idade e pela positiva com a escolaridade/anos de educação,
muito embora estas relações sejam apenas modestas; a
ideologia política também surge com associações regulares, e
igualmente modestas, com aqueles conceitos, sendo menos
ambientálistas os mais conservadores (ver Dietz et al., 1998,
para uma revisão, e também Tarrant & Cordell, 1997). Outras
variáveis estruturais tão frequentemente estudadas como as
anteriores, mas çujas relações com as crenças e com os
comportamentos parecem estar ainda em discussão, são o
sexo e o lugar de residência (rural/urbana). Arcury &
Christianson (1990), por exemplo, referem que os residentes
em zonas urbanas dão maior apoio a uma visão pró-
ecológica. Mas Jones et al. (1999) afirmam, baseados nos seus
resultados, que não encontram diferenças entre residentes
em zonas rurais e urbanas quanto aos níveis de preocupação
ambiental. Outra questão
levantada na literatura diz respeito às relações com a etnia.
Parker & McDonough (1999), bem como Mohai & Bryant
(1998), questionam a ideia de que os brancos estejam mais
preocupados do que os negros, e os estudos que desenvolvem
concluem pela não existência de diferenças: “As a number of
observers have noted, concern for the environ- ment is broad
based in American society. To the extern that there is a racial
divide in american society, dififerences in concerns about
enviromental quality do not appear to be part of it” (Mohai &
Bryant, 1998, pág. 502).
• Os valores que podem estar relacionados com as atitudes pró-
ambientais parecem ser: pela positiva, os valores de auto-
transcendência e os ambientais (Stern et al., 1995a; Stern &
Dietz, 1994), os universalistas (Axelrod, 1994) e os pós-
materialistas, como vimos (ver também Inglehart, 1995); pela
negativa parecem ser os valores egocêntricos (Stern et al.,
1995b).
• Por fim, um outro ponto é destacado como comum pelos vários
autores: a dificuldade em encontrar uma correspondência forte
entre as atitudes, as crenças e os valores, por um lado, e os
comportamentos, por outro (ver Krause, 1993; Scott & Willits,
1994; Tarrant & Cordel!, 1997; Séguin et al., 1998; Oliver, 1999).
Séguin et al. (1998) resumem esta questão do seguinte modo:
“Those results (dos últimos anos) point to the limited use of
demographic
■ variables to account for environmental concern, and to the
widespread diffusion of environmental concern in the
population. Inspite of this general concern, people greatly differ
in the levei of their environmental involvement and in the
amount of time and energy that they are willing to invest in
behaviours aimed at preserving or improving the quality of the
environmenf’ (pág. 628).

Em suma, haveria um forte consenso no público quanto à preocupação com


assuntos ambientais, existiria alguma dificuldade

187
em explicar, apenas com recurso avariáveis sócio-demográficas, esta
preocupação, e as atitudes, valores e crenças a ela associadas, e haveria
alguma falta de correspondência entre o nível das representações e o dos
comportamentos.

3.5. Algumas discussõesemaberto


Recentemente algumas das diferentes abordagens destas questões
começaram, como se disse, a polemizar umas com as outras. Para
terminar, apresentarei um breve sumário das questões substantivas que
atravessam essas polémicas.
Do ponto de vista das suas propostas de base realista, que
defendem que a substituição do Dominant-Western Paradigm pelo novo
Ecological Paradigm está a ocorrer por todo o mundo, e que esta mudança
ocorre motivada pela evidência dos problemas ambientais, Dunlap &
Mertig (1995). vêm questionar directamente as propostas de Inglehart.
Vejamos como: “When accoundng for the development of green parties
and puhlic support for environmental protection, political scientists
typically argue that environmentalism stems from the emergence of
‘postmaterialist values’ (Inglehart, 1990)” (Dunlap & Mertig, 1995, pág.
122).
Assim, continuam Dunlap & Mertig (1995), com base nesta
perspectiva, seria de esperar que as nações pobres e não industrializadas
estivessem menos preocupadas com os problemas ambientais, e dessem
menor apoio a medidas de protecção ambiental. Para testar esta ideia, os
autores vão analisar dados provenientes de amostras representativas,
recolhidos em 1993 por uma sondagem Health of the Planet (HOP),
coordenada pelo instituto Gallup, em 24 países. Destes 24, e de acordo
com o Produto Nacional Bruto (PNB) per capita, 6 são nações pobres, 7
médias e 11 ricas. De acordo com as propostas de Inglehart, as correlações
entre o PNB e as respostas a 14 medidas de consciência ambiental do HOP
seriam correlações positivas — quanto mais alto o PNB, mais altas as
respostas nas medidas de consciência
ambiental. No entanto, os resultados mostram que só quatro dessas
correlações são positivas, enquanto que sete delas são negativas e três
não são significativas.
Sumarizando estes resultados, os autores concluem que:
“Clearly, then, the preponderance of evidence contradicts the
widespread view that citizens of poor nations are less enviromen- tally
concerned than are their counterparts in wealthy nations” (pág. 134). E
ainda que “In part this may stem from the fact that environmental
degradation is incréasingly seen, especially in poor nations, not as a
postmaterialist quality of life issue but as a basic threat to human
survival” (pág. 135).
Dois comentários surgiram na literatura a estas análises de
Dunlap & Mertig (1995): o de Inglehart (1995) e o de Diekmann &
Franzen (1999). Ambos coincidem nas conclusões que retiram numa
reanálise dos dados apresentados por Dunlap & Mertig (1995). Ambos
concordam que, efectivamente, mesmo nos países pobres (de menor
PNB per capita) é possível encontrar uma preocupação com o ambiente
bastante difundida. Porém, esta preocupação teria uma expressão mais
forte ao nível dos problemas relacionados com a saúde e dos problemas
ambientais localizados, mais evidentes em paíseS mais pobres, e uma
muito menor repercussão ao nível da disponibilidade para aumentar os
gastos pessoais e para apoiar os gastos estatais com o ambiente. Ou seja,
tanto Inglehart (1995) como Diekmann & Franzen (1999) defendem que
importa separar estas duas dimensões — uma dimensão relativa à
preocupação, comum a todos, e uma outra, mais virada para a
implementação de medidas custosas, mais favorecida nos países mais
ricos, que simultaneamente são aqueles com índices mais elevados de
apoio aos valores pós-materialistas. Ou, como resume Inglehart:
“Postmaterialist values are not the only factor linked with concern for
the environ- ment: it is clear that objective conditions also play an
important role. But individuais values do seem to be an important part
of the story. And they interact in a complex fashion with objective
factors, such as the severity of environmental pollution, since those
societies that have the fewest postmaterialists tend to have the most
severe pollution problems”. Em suma, os problemas ambientais seriam

19 1

£ 6:
simultaneamente problemas objectivos e motivadores pela sua evidên-
cia, mas problemas encarados de formas diferentes conforme os valores
dos indivíduos.
Outro contributo para esta discussão é o de Ellis & Thompson
(1997). Do ponto de vista da Teoria Cultural, estes autores querem
esclarecer até que ponto será verdade que o consenso em torno do
ambiente é de tal modo grande, que aquilo que separa ambientalis- tas
militantes e público em geral é somente uma questão de grau de
envolvimento e disposição para fazer sacrifícios pessoais. Ou seja,
pretendem ver se é possível sustentar a ideia que o público já aderiu em
massa a uma visão pró-ecológica do mundo, e só não se comporta de
forma mais pró-ecológica porque isso comporta sacrifícios pessoais.
Do ponto de vista da Teoria Cultural, esta não é forma de
encarar a questão. Como vimos, esta Teoria liga, quer a militância quer
a adesão a causas ambientais, à adesão a uma visão Igualitária de
mundo. E associa a rejeição destas causas sobretudo a uma visão do
mundo Individualista. Os resultados de Ellis & Thompson (1997)
permitem-lhes mostrar que, tanto entre o público como entre os
militantes ambientalistas, existem relações robustas entre a adesão a
ideias igualitárias e o ambientalismo, e que o igualitarismo permite
explicar uma parte significativa da variância na adesão ao
ambientalismo, mesmo quando se controla a ideologia política.
Permitem-lhes, igualmente, mostrar que existe uma forte relação
inversa entre o ambientalismo e a adesão ao individualismo, e que tanto
este como o igualitarismo explicam, cada um, uma parte da variância na
adesão ao ambientalismo. Nas suas palavras, nas conclusões - “In both
the environmental activists and the general public sample
egualitarianism and market individualism consistently emerge as the
variables that explain the greatest amount of variance in environmental
attitudes” (pág. 890) Assim, concluem também: “Americans do not
behave more like environmental activists, because culturally they are
quite unlike them” (pág. 892).

19 0
3.6. Conclusão

Nesta secção, em que se procurava dar conta das abordagens


teórico-empíricas referentes às ideias do público sobre a natureza e o
ambiente, tivemos ocasião de abordar uma perspectiva — a Teoria Cultural
— que se interessa sobretudo pelas diferentes formas como é construída a
noção de natureza, em função das diferentes pers- pectivas culturais das
pessoas.
Abordámos, também, uma proposta — a de Inglehart — que faz
radicar na lógica dos valores pós-materialistas a defesa do ambiente. Trata-
se, portanto, de duas perspectivas que adoptam neste debate uma posição
não realista, isto é, uma posição que defende que a preocupação com o
ambiente não depende somente da evidência de problemas e catástrofes,
mas também de um determinado entendimento do mundo.
Tivemos, ainda, ocasião de abordar uma outra proposta - a de
Dunlap e colaboradores - que encerra uma visão realista das motivações que
estariam, hoje em dia, por detrás de uma alteração das crenças, valores e
atitudes do público em relação ao ambiente e à natureza. Esta proposta
defende que é a evidência, por toda a parte, dos problemas ecológicos, que
está a motivar o público a adoptar crenças, valores e atitudes mais pró-
ecológicos, e que essa adopção do novo começa a ser por todo o mundo um
facto.
Por fim, foi muito brevemente sumarizado um vasto conjunto de
estudos de cariz mais fragmentário, que pretendem estudar as relações que
mantêm uns com os outros conceitos como preocupações, crenças, atitudes,
valores e comportamentos em relação ao ambiente, e posições objectivas na
estrutura social. Uma parte substancial destas análises salienta a existência
de um grande consenso pró-ambiental, com algumas, poucas, vozes a
tentarem complexificar essa ideia.
E uma das conclusões que este breve sumário parece indicar é a de
que falta a este campo um modelo unificador, bem como um melhor
esclarecimento da complexidade do pensamento sobre a natureza e o
ambiente. Somente a inserção na estrutura social parece manter relações
pouco fortes e pouco claras com este pensamento, e mesmo as relações
entre os diferentes conceitos são pouco ciarás e muitas vezes

1 0-7
insuficientemente teorizadas.

4. Conclusão do Capítulo
O breve percurso pelas abordagens de cariz teórico e pres- critivo
— deep ecology, ecofeminismo, ambientalismo humanista — permitiu
mostrar quanto estas propostas diferem umas das outras e advogam linhas
de mudança e actuação muito diferentes nos seus pressupostos e
consequências, e quanto os seus proponentes salientam, justamente, essa
diversidade, e acentuam as linhas de fractura que os dividem.
Por sua vez, na literatura empírica, parecem não ter grande
repercussão as divergências que a nível teórico tanto ocupam os seus
autores. Grande parte dos estudos referentes às posições do público parece
contentar-se com a ideia de que existe um grande consenso em torno das
questões ambientais.
Por seu lado, a discussão entre propostas de cariz diferente está
também no seu começo. Muito raramente, ainda, se procura analisar como,
nestas matérias, se articulam o peso de evidências realistas inegáveis, com as
diferentes formas como essas evidências são percebidas, construídas e
articuladas, embora haja algumas excepções (Inglehart, 1995; Ellis &
Thompson, 1997). Por outras palavras, raramente se articulam as ideias de
que a natureza e o ambiente são simultaneamente conceitos que
construímos entre nós, de muitas formas diferentes, e são, também,
realidades que constrangem essas construções e as limitam de determinadas
formas.
Em suma, a revisão da literatura que pretende descrever as posições
do público mostra quão incipiente é ainda a discussão e articulação entre os
quadros teóricos de cariz mais abrangente e uma multiplicidade de
pequenos estudos fragmentários, frequentemente ateóricos, que recorrem a
conceitos que usam de forma intermutável. Apesar das tentativas que vêm
surgindo, quer de
articulação (Ellis & Thompson, 1997, por exemplo) quer de clarificação do
campo conceptual (Stern et al., 1995), a maior parte da literatura empírica
permanece somente isso — uma análise empírica, não teoricamente
articulada.

194
Além disso, a literatura que procura descrever as posições do
público é uma literatura quase exclusivamente quantitativa, estando
praticamente ausentes nela estudos que procurem pôr as pessoas a falar
sobre estes assuntos, analisem os seus diferentes entendimentos de uma
forma mais circunstanciada, e procurem os diferentes significados que elas
poderão atribuir a estas matérias.

Nos capítulos que se seguem tentarei, socorrendo-me sobretudo da


Teoria das Representações Sociais e das propostas das perspectivas
discursivas, contribuir para que se compreenda um pouco melhor aquilo
que é consensual no pensamento do público sobre ambiente e natureza,
mas também o que, neste pensamento, varia conforme os indivíduos, e as
inscrições destes indivíduos em grupos. Tentarei mostrar que este
pensamento é mais complexo do que poderia parecer a um primeiro olhar,
buscar alguns dos fios condutores dessas diferenças e ver como elas se
revelam nos discursos: primeiro no discurso do público em geral, e depois
nos discursos dos cientistas. Em simultâneo, com estas análises do
pensamento actual sobre a natureza e o ambiente, considerar-se-á a
possibilidade de articular, para a compreensão destes assuntos, as propostas
da Teoria das Representações Sociais com as propostas das perspectivas
discursivas.
CAPÍTULO 3
Velhas e novas ideias sobre a natureza e a ciência
APRESENTAÇÃO DO CAPITULO

Este capítulo reúne dois estudos. O primeiro analisará as


representações da natureza e do conhecimento científico. O segundo —
que pretende ver se é possível repetir alguns dos resultados do primeiro
- examinará só as representações da natureza.
Os dois estudos têm por objectivos: (1) tentar compreender
quais são os pontos de consenso nos valores e nas crenças; (2) analisar
quais são os pontos de ancoragem para a variabilidade desses valores e
dessas crenças; (3) uma vez analisada a variabilidade, tentar aprofundar
o seu significado. Portanto, primeiro procuram-se os elementos comuns
e a estrutura de um conjunto de crenças e valores, e analisam-se quais
destes elementos são mais e menos consensuais. Depois procuro
explicar esses elementos comuns em função de variáveis quer de ordem
social, quer sócio-cognitiva. No terceiro grupo de análises, e uma vez
estabelecido pelas primeiras que é possível recortar diferentes grupos
de combinatórias de crenças e valores, procuro dar um sentido a esses
grupos, com um conjunto de análises comparatórias. Trata-se, então, de
uma análise mais fina das diferentes representações.
Uso, para estes dois estudos, dois conjuntos de dados. O
primeiro foi obtido com um questionário expressamente desenvolvido
para os efeitos de pesquisa que me moviam3. O segundo provem de
uma aplicação a uma amostra representativa da população portuguesa
de um questionário desenvolvido pelo Observa2. Embora este
questionário não siga ponto por ponto as perguntas do primeiro,
pareceu-me que permitia comparações importantes.

1 Queria agradecer aos muitos alunos do 3.° Curso de Mestrado


em Psicologia Social e das Organizações, que me ajudaram a completar
e diversificar a amostra a que este questionário foi aplicado.
2
O Observa é um Observatório permanente sobre Ambiente,
Sociedade e Opinião Pública, criado pelo ISÇTE e ó ICS, é que lançou,
em 1997, o l.° Inquérito Nacional sobre Os Portugueses e o Ambiente.
Agradeço à Prof.a Luísa Schmidt o acesso aos dados recolhidos pelo
Observa, e à Dr.a Ana Cristina Ferreira a ajuda na efectivação desse
acesso.

3 ov
Este Capítulo 3 tem, então, o seguinte
formato:

• Apresento, primeiro, uma


formulação do problema e um
breve enquadramento teórico do
primeiro estudo. De seguida,
apresento as análises do consenso,
estrutura e variabilidade para os
sistemas de crenças.
• Face às conclusões que elas
permitiram retirar, retomo a lite-
ratura para tentar ir um pouco
mais longe na interpretação dos
dados, e apresento mais algumas
análises relacionadas com esta
interpretação.
• Depois apresento o estudo baseado
nos dados recolhidos pelo
Observa.
• Por fim, retiro dos dois estudos, no
seu conjunto, algumas conclusões
que constituirão o ponto de
partida para as análises do capítulo
que se segue.
ESTUDO 1 1. Introdução
Pretendo, neste primeiro estudo, analisar a estrutura, o
consenso e a variabilidade nos sistemas de crenças sobre a natureza e a
ciência. As análises que nele desenvolvo, estarão, assim, relacionadas
com três literaturas principais, que fornecem o enquadramento teórico e
metodológico: (1) a literatura da Teoria das Representações Sociais; (2) a
literatura que se debruça sobre as questões do ambiente e da natureza, e
das nossas relações com esta; e (3) os trabalhos que ligam estas questões
a uma análise do conhecimento científico. Alguns dos traços principais
destas literaturas já foram expostos nos capítulos anteriores, motivo pelo
qual esta Introdução será breve. Irei somente recapitular algumas ideias-
chave directamente pertinentes para as análises que se seguem.
Mas para isso é necessário, em primeiro lugar, formular o
problema, ou seja, indicar porque motivos pode ser importante conhecer
as representações da natureza e da ciência, e porquê ambas em
associação.
Uma boa parte da resposta a esta questão encontra-se no facto
de a ecologia, o ambientalismo, a preocupação com a natureza, serem
questões novas e questões importantes do nosso tempo, que interessa
perceber como são entendidas e articuladas no nosso país. Tal como em
todo o mundo, também em Portugal as pessoas se declaram muito
preocupadas e sensibilizadas para as questões ambientais. Em 1993, era
de 51% a percentagem de portugueses que declarava considerar o
ambiente um assunto “muito sério” no nosso país (Diekmann & Franzen,
1999), e, em 1997, nas respostas ao inquérito do Observa, o ambiente
surge em 5.° lugar na ordenação dos problemas mais graves do país.
Associada a esta questão, e como primeira motivação para este
estudo, põe-se o problema de compreender se é também possível
sustentar para Portugal a ideia de Dunlap e colaboradores

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(Dunlap et ai, 1992; Dunlap & Mertig, 1995) segundo a qual a visão das
relações da humanidade com a natureza está, por todo o mundo, a
mudar rapidamente num sentido de maior respeito. Ou seja, a ideia de
que o público, por toda a parte no mundo, se está a deslocar para longe
de uma visão da natureza que Dunlap e colaboradores chamam de
Human Exemptionalist Paradigm (HEP), e na direcção de um Novo
Paradigma Ecológico (ou NEP). Ou se, pelo contrário, como propõem,
por exemplo, Ellis & Thompson (1997), este consenso é sobretudo um
consenso de superfície, que na realidade congrega, nessa face de
consenso aparente, entendimentos muito diferentes do que devem e
podem ser as nossas relações com a natureza, entendimentos que
seriam uns mais reformistas e outros mais revolucionários, para recorrer
a uma terminologia que percorre a literatura (Hayward, 1994; Dobson,
1995). Em suma, trata-se de tentar saber se o público português também
apresenta, como muitos outros, altos níveis de concordância com as
ideias pró-ecológicas, e de analisar até que ponto, neste público, surgem
posições Reformistas - procurando conciliar velhas com novas ideias
sobre a natureza — e posições Revolucionárias, que pretendem somente
guardar as novas ideias.
Por sua vez, em associação com esta questão pode colocar-se uma
perplexidade que surge frequentemente nesta área, e que diz respeito a
alguma inconsistência entre uma preocupação com o ambiente que em
toda a parte parece ser grande, mas tem uma muito mais reduzida
ressonância nos comportamentos. Uma perplexidade algo semelhante
àquela que se levanta em relação, por exemplo, ao racismo — embora nos
deparemos por todo o mundo com a negação da adesão a crenças racistas
óbvias, facilmente nos deparamos com comportamentos racistas. O que,
em ambos os casos, nos leva a desejar analisar de forma mais aprofundada
as crenças e a sua expressão e a questionar o consenso aparente, para
melhor compreender os motivos desta não coincidência.
Vejamos agora, brevemente, a justificação para desejar
compreender em associação crenças sobre a natureza e sobre o
conhecimento científico.

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Num sentido fundamental, natureza e ciência estão indelevel-
mente associadas na modernidade, uma vez que, como foi dito, as .
fundações da revolução científica vieram proclamar a capacidade da
ciência para conhecer a natureza de forma objectiva. Esta ideia veio
associar ciência e natureza de uma forma peculiar: “the knowledge of
nature is monopolized in the scientific system” (Eder, 1996, pág. 49). Ou
seja, a ciência é vista como detendo o monopólio do conhecimento sobre
a natureza. As críticas à modernidade, protagonizadas nomeadamente
pela Escola de Frankfurt e seus continuadores, vêm posteriormente iniciar
uma linha de reflexão que denuncia o carácter instrumental das relações
da ciência com a natureza, o qual estaria na base de muitos dos problemas
ambientais actuais. Muitos dos movimentos ambientalistas, no seu início,
insurgiam-se justamente contra este carácter instrumental das relações
ciência-natureza, e denunciavam os malefícios da tecnologia.
No entanto, uma das características mais marcantes dos debates
ambientais a partir dos anos 70-80, é justamente que muito daquilo que é
dito sobre o ambiente — sobre os seus problemas e respectivas soluções -
é indissociável da ciência. É à ciência que os grupos ecologistas,
nomeadamente, muitas vezes recorrem para afirmar a própria existência
de problemas ambientais, pois a natureza não pode falar por si própria,
necessitando da mediação da representação científica das suas
“necessidades” (Yearley, 1993; 1996), necessitando de cientistas que falem
por ela.
Acresce que a visibilidade recentemente adquirida pela ciência
em ligação com as questões ambientais teve ainda uma outra
consequência: “(...) widespread concern about environmental problems
has brought a set of scientific issues to public attention” (Yearley, 1996,
pág. 173). Entre estes assuntos contam-se as controvérsias científicas,
notórias nas questões relacionadas com os organismos geneticamente
modificados, nos casos do aquecimento global e das chuvas ácidas, e ainda
nas discussões e estudos de impacto ambiental de grandes obras.
Tendo por objectivo analisar estas discussões e controvérsias,
surge então na literatura um conjunto de estudos sobre como se
associam as diferentes formas de pensar a ciência com as diferentes
formas de pensar o ambiente (Hannigan, 1995; Wynne, 1994, 1995, 1996a,
1996b). Numa destas análises, que incide sobre as controvérsias entre
cientistas relativamente às questões do ambiente, Wynne (1994) defende
que as divergências escondem, em muitos casos, formas diferentes de
entender a ciência e, também, de conceber as consequências a extrair dos
conhecimentos científicos.
De acordo com este autor, estas diferentes visões da ciência
poderiam ser classificadas umas como mais positivistas, outras como
mais construcionistas. As primeiras assumindo que o que não sabemos
hoje, viremos a saber, pois o conhecimento científico pode ser lento e
insuficiente no tempo presente, mas é cumulativo e virá a ser suficiente
no futuro. As segundas seriam mais construcionistas, pois aceitariam que
há sempre uma margem de indeterminação inerente ao conhecimento
científico, resultante da subjectividade que os cientistas inevitavelmente
introduzem na ciência (Wynne, 1994), por via das muitas decisões que
têm que tomar (relativas aos instrumentos, às amostras, aos quadros
teóricos) e das interpretações que fazem. Uma margem de subjectividade
que nunca poderia ser eliminada. De uma forma geral, os cientistas mais
ligados à ecologia defenderiam uma ciência mais holística, e teriam uma
concepção mais contingente do conhecimento científico; os menos
ligados a ela, teriam uma visão mais positivista (Hannigan, 1995).
São estas questões no seu conjunto que nos trazem ao tema das
relações entre as representações sociais da natureza e as representações
sociais da ciência, com o seguinte problema em concreto: testar a ideia de
que as representações mais pró-ecológicas da natureza estariam mais
relacionadas com uma visão mais contingente da ciência, e as visões
menos ecológicas com uma perspectiva mais positivista.
Exponho agora, brevemente, as ideias da Teoria das
Representações Sociais que guiaram as análises que se seguem.
Como assinalado no Capítulo 1, uma das questões que foram
amplamente discutidas na Teoria foi a questão do consenso.
Na década de 90, as propostas de Doise et al. (1992) vieram chamar a
atenção dos investigadores para a necessidade de estudar não só o que é
consensual numa representação, mas também os princípios

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organizadores das diferenças entre as respostas individuais. Mais
concretamente, recorde-se, Doise et al. (1992) propõem que o estudo das
representações sociais deve percorrer um trajecto que implica buscar o
que é consensual, buscar a estrutura, e analisar os efeitos dos grupos nas
tomadas de posição para compreender as diferenças. Só assim se poderia
dar conta da totalidade do fenómeno das representações.
Procurando, também, cartografar o fenómeno das represen-
tações na sua totalidade, Wagner (1999) propõe que é necessário encarar
o estudo das representações a dois níveis: (1) um nível em que elas são
consideradas variáveis independentes — são em si princípios explicativos
dos comportamentos dos indivíduos, e são estudadas enquanto
fenómenos individuais; (2) e um outro nível em que elas são consideradas
variáveis dependentes — são as representações que é necessário explicar,
por via das condições sociais em que surgem, e, neste caso, as
representações estão a ser estudadas num nível social.
Reflectindo justamente sobre as representações enquanto
variáveis a explicar, portanto, enquanto variáveis dependentes no sentido
que Wagner (1999) dá à expressão, encontramos na literatura dos anos 90
as propostas de Breakwell (1993a; 1993b) e Vala (2000) para a articulação
da Teoria da Identidade Social com a Teoria das Representações Sociais.
Neste caso, ao operacionalizar variáveis que podem ser tomadas
como indicadores das condições sociais a funcionar como explicação para
as representações sociais, a ideia é ir para além das condições mais
objectivas — idade, sexo, inserção social, por exemplo - e tomar,
também, as identificações com determinados grupos como indicadores
das condições sociais que organizam as representações. Recorde-se que
guiada pela articulação entre as duas Teorias, Breakwell (1993a; 1993b)
analisa os resultados de um estudo sobre a socialização política e
económica de jovens britânicos, e conclui

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