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30/12/2018 A autoficção nos tribunais - ÉPOCA | Ruth de Aquino

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A autoficção nos tribunais


O ajuste de problemas familiares e conjugais na literatura pode render ótimos livros. Mas também rende processos
* POR LUCIANA HIDALGO
16/08/2013 - 23h28 - Atualizado 27/10/2016 20h53

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Desde que o termo autoficção foi criado pelo escritor francês Serge Doubrovsky em 1977, uma série de
polêmicas envolve autores que insistem no 'eu' como tema de sua literatura. Em geral, eles partem de uma
experiência pessoal, afetiva, e a ficcionalizam, com maior ou menor imaginação. A literatura brasileira já
conta com exemplos de autoficções, mas é na França que o fenômeno vem se transformando em pendenga
judicial.
Quando expõem questões íntimas, escritores franceses também violam a privacidade de seus maridos,
mulheres, amantes e filhos. Alguns convertem conflitos típicos de telenovelas em romances esteticamente
elegantes. No entanto, a deselegância dessa superexposição alheia vem gerando crescente número de
reclamações de parentes nos tribunais, levantando a questão da ética na autoficção e injetando um viés de
escândalo na literatura – o que até ajuda a vender livros, mas afeta a reputação do autor e influencia a
leitura do texto em si.

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30/12/2018 A autoficção nos tribunais - ÉPOCA | Ruth de Aquino

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O próprio Doubrovsky inventou o neologismo autofiction numa tentativa de classificar seu romance Fils, que
trafegava entre o autobiográfico e o ficcional, sem limite definível entre um e outro. Na época, sua mulher
aceitou relativamente bem a descrição de sua relação com uma amante, sem processá-lo pela indiscrição.
Num romance posterior, Livre brisé, ele contou tantos detalhes do alcoolismo de sua outra mulher, que ela,
ao ouvir trechos lidos pelo próprio marido ao telefone (ele estava em Nova York, ela em Paris), bebeu vodca
até a morte.
Na ocasião, o apresentador Bernard Pivot chegou a dizer no programa literário Apostrophes, em cadeia
nacional, que Doubrovsky havia matado a mulher em prol de seu livro. O autor não chegou a ser indiciado
por homicídio, mas caiu em depressão profunda, “pagando de outra forma pelo abuso da liberdade de
expressão”, confessaria anos depois.
A autoficção francesa é frequentemente rotulada de narcisista, devido aos excessos de um eu que transborda
e muitas vezes fere o outro. Vários romances trazem esse tom de acerto de contas, revanche ou vingança.
Camille Laurens, por exemplo, ao publicar L'Amour, roman em 2003, foi processada pelo ex-marido Yves
Mézières. Ela não só expôs minúcias da separação do casal como usou o nome verdadeiro do ex-
companheiro na obra. O veredicto no tribunal a livrou da pena, ao descartar a utilização do nome como
delito. No entendimento do juiz, a palavra ficção acrescentada ao caráter autobiográfico da narrativa bastou
para esclarecer que a autora conjugava dados reais e ficcionais.
Ainda assim, a editora apagou o nome de Yves do romance na segunda tiragem. E ele, por sua vez, publicou o
livro-vingança Mosaïque de seuil anos depois com a sua versão do imbróglio. De autores a réus, quando eles
não enfrentam os tribunais de justiça, pouco escapam do julgamento da família, tão ou mais cruel. Um dos
grandes nomes da literatura francesa contemporânea, Michel Houellebecq, em Partículas elementares,
destilou ressentimento ao descrever a mãe como uma hippie degenerada, capaz de largar filhos para seguir
amantes.
A mãe em questão, Lucie Ceccaldi, não se pronunciou na época, mas um dia respondeu a Houellebecq no
mesmo território em que foi insultada: o literário. Em L'Innocente, a senhora contou sua vida de mulher
independente e meio nômade, os anos passados na Índia e na África, bem como o encontro com um guia que
vivia pelas montanhas, com quem teve o pequeno Michel. O bebê, incompatível com aquele mundo de
travessias e grandes geografias, foi criado pela avó paterna. Adulto, Michel nunca perdoou o desamor da
mãe, que por sua vez o acusou de “incapaz de amar”.
Enfim, o ajuste de problemas domésticos na literatura pode render ótimos livros, desde que apresentem
qualidade literária suficiente para diluir o tom lavagem-de-roupa-suja. Num mundo cada vez mais rendido à
rasa cultura da celebridade e à figura do escritor midiático, a autoficção tem tudo para ser o grande gênero
literário do século.
 

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